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CORRESPONDÊNCIAS, EM LUGAR DE EDITORIAL Nina Rizzi

ARTIGO XI [Thiago de Mello, Os Estatutos do Homem] Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã. ...


Carta 41 a Leo Jogiches Camarada e Amante - Cartas de Rosa Luxemburgo a Leo Jogiches; trad. Norma de Abreu Telles [Berlim, c. 3 de julho de 1900] Dyodyu, meu amado! Como preciso desesperadamente de você! Como precisamos um do outro! Por deus, nenhum outro casal tem uma missão como a nossa, moldar um ser humano em cada um de nós. Sinto-o a cada momento e isto torna nossa separação ainda mais dolorosa. Nós dois "vivemos" constantemente uma vida interior. Isto significa que nos modificamos e crescemos, o que cria uma dissociação interna, um desequilíbrio, uma desarmonia entre algumas partes de nossas almas. Por conseguinte, o ser interno precisa ser constantemente reexaminado, reajustado, harmonizado. É preciso trabalhar constantemente sobre si mesmo para evitar afundar-se num autoconsumo espiritual. Mas, para não perder o sentido maior da existência que acredito seja uma vida voltada para o exterior, ação construtiva, trabalho criativo, necessita-se estar sob o controle de outro ser humano. Este ser humano precisa ser íntimo, compreensivo e ao mesmo tempo separado do "eu" que busca harmonia. [...] Além do problema político, o problema financeiro está constantemente pendendo sobre minha cabeça - onde e como conseguir algum dinheiro? Mas não percamos a cabeça, ou a compostura; coisas mais trágicas acontecem na vida pessoal e na vida política. Mil beijos. Sua R.

EISENSTEINIANA [Moacy Cirne, Cinema Pax, 1983] a revolução (sangue, suor e carne) é violenta como o vermelho dos crepúsculos de outubro e doce como o cheiro de terra molhada


FRAGMENTO Herberto Helder, Os Passos em Volta - Como se vai para Singapura, 1963. Os dias longos, as noites no meio do mar. Espero o porto de chegada, as virtudes restituídas, o espírito enfim reconciliado com o mundo. E desembarco, há uma qualquer experiência surpreendente, caminho para o conhecimento. Consigo agarrar essa meada ainda irreconhecível: a maneira como tudo se enreda em tudo. Desabituei-me dos milagres. Sabe-se como é: quase todas as manhãs acordo angustiado, esforço-me por imaginar que este dia é virgem e primeiro, carregado de poderes enigmáticos, destinado às revelações. Literatura. Merda. Trata-se de mais um dia em que me vou chatear, aturar os meus semelhantes, a filha-da-putice teológico-emocional de um Deus que, ainda por cima, não existe. Posso especular sobre a revolução, evidentemente. Que revolução? A revolução, claro. Pois é: a minha revolução não dá um passo. *

KAZIMIR MALIÉVITCH

Kazimir Severinovitch Maliévitch (Казимир Северинович Малевич, russo, 1878-1935). Sportsman: Victory over the Sun - óleo sobre tela, 1916. Museu do Estado Russo, São Petesburgo.


Rebenta a revolta em Moscou entre 1912 e 1913. A vanguarda russa se insurge contra o invasor, quer seja fauvista, cubista, futurista, ista-ista-ista... "É só depois de ter tomado consciência dos seus recursos orientais, depois de se ter reconhecido como asiática, que a arte russa entrará numa fase nova e rejeitará o jugo vergonhoso e absurdo da Europa, a Europa que nós já há muito ultrapassamos", clama Benedikt Livchits no "Arqueiro com Um Olho e Meio". Larionov faz coro: "Somos contra o Ocidente que vulgariza as nossas formas orientais..." Ao fundar o Raionismo, movimento futurizante no qual o seguem Gontcharova, Chetchenko, Ledentu e outros pintores, Larionov pretende se demarcar do movimento futurista italiano.

Malevitch, por seu lado, não tem problemas nacionalistas. Está demasiado consciente da cultura asiática que nele está entranhada para temer a influência da Europa. Pelo contrário, ele entende por bem não se privar dela, quer venha de Paris ou de outro lugar, pois o seu único objetivo é criar uma "arte universal", embora permanecendo enraizado no seu universo russo. Abandona o NeoPrimitivismo, e as suas relações com Larionov se esgotam. O Raionismo não lhe interessa nada, e na exposição "O Alvo", em 1913, com obras marcadas pelo Cubismo, Malevitch destoa no meio dos neoprimitivistas e dos raionistas e ao mesmo tempo se lança para novos horizontes, onde irá fazer de chefe-de-fila de um novo "Vanguardismo" russo. Não está sozinho e se aproxima dos futuristas que se reúnem em Petersburgo, em casa de Matiuchine e Elena Guro. Os poetas Alexis Krutchenik e Velimir Klebnikov, a pintora Olga Rozanova, fazem parte dos membros mais ativos. Com Vladimir Maiakovski, os irmãos Burliuk e Vassili Kamenski, que têm por base Moscou, vão formar um movimento futurista, rico e variado. Sob a assinatura de David Burliuk, Krutchenik, Maiakovski e Klebnikov vão publicar um violento manifesto intitulado "Bofetada ao Gosto Público", que fará sensação: "Só nós somos o rosto do nosso tempo... o passado é tacanho. A Academia e Puchkine são mais incompreensíveis do que os hieróglifos!". A força de aplicar à letra o princípio de Cézanne, que pretende que se geometrize tudo, Malevitch percebe que quanto mais desenvolve esta análise geométrica e quanto mais as obras que daí resultam explodem, mais elas se tornam abstratas.


Kazímir Severínovitch Maliévitch (Kiev, 1878 -, Leningrado, 1935), Quadro Negro, 1913-15.

Assinatura sob a reprodução litográfica de Quadro Negro: 1- O último plano suprematista na linha das artes, da pintura, da cor, da estética, solto de sua órbita. 2- O plano é construído na quinta dimensão (a economia), base sobre a qual todas as formas de todos os esforços criativos das invenções e das artes devem se desenvolver.

AFIRMAÇÃO "A" NA ARTE Maliévitch, Dos novos sistemas na arte, 1919. 1- Afirma-se a quinta dimensão (a economia).


2- Todos os processos inventivos, as edificações, a construção e o sistema de arte devem se desenvolver sobre a quinta dimensão. 3- Todas as dimensões que desenvolvem os movimentos dos elementos da pintura, da cor, da música, da poesia, das construções (da escultura) avaliam-se do ponto de vista da quinta dimensão. 4- A perfeição e a modernidade das invenções (obras de arte) determinam-se pela quinta dimensão. 5- O controle estético é rejeitado como medida reacionária. 6- Todas as artes, a pintura, a cor, a música, as construções, qualificam-se como um parágrafo da "criação técnica". 7- Rejeitar a força espiritual do conteúdo porque pertence ao mundo verde de carne e osso. 8- Reconhecer, temporariamente, o dinamismo como a força que aciona a forma. 9- Reconhecer a luz como uma cor de procedência metálica, e a imagem dos raios da luz como correspondente do desenvolvimento econômico da cidade. 10- Relacionar o sol - a fogueira da iluminação - ao sistema do mundo verde de carne e osso. 11- Libertar o tempo das mãos do Estado e convertê-lo ao uso dos inventores. 12- Reconhecer o trabalho como um atavismo do mundo antigo e violento, pois a modernidade do mundo se baseia na criação. 13- Reconhecer a habilidade de inventar de qualquer um, e declarar que, para a realização, cada um terá necessidade ilimitada de materiais na Terra e acima dela. 14- Reconhecer a vida como um caminho auxiliar alimentar para o nosso movimento principal. 15- Rejeitar todos os bens dos reinos celestiais e terrenos e todas as representações destes por trabalhadores da arte como uma mentira que encobre a realidade. 16- Transferir para a previdência social todos os trabalhadores das artes acadêmicas como deficientes velhadores do movimento econômico.


17- O cubismo e o futurismo definem-se como a perfeição econômica do ano de 1910; definir suas construções e seus sistemas como o classicismo da década de 1910. 18- Conclamar o conselho econômico (da quinta dimensão) para liquidação de todas as artes do mundo antigo. *

Foto-recriação de Os Esportistas, de Maliévitch. Da exposição Virada Russa/ CCBB-SP, 2009 [Veja mais imagens aqui.]

POESIA SOVIÉTICA [Seleção do livro de Lauro Machado Coelho, Ed. Algól, 2007.] "É preciso sonhar, sim, mas à condição de transformar nossos sonhos em realidade." -Vladimir Ilitch Lênin VIDA, VIDA Arsênyi Aleksándrovitch Tarkóvski (1907-1989; pai do cineasta Andrêi Tarkóvski) 1 Não acredito em presságios nem temo Os pressentimentos. Não fujo nem da calúnia Nem do veneno. A morte não existe. Todos são imortais. Tudo também. Não há sentido em temer a morte aos sete, Ou aos setenta. Só há aqui e agora, e a luz; Nem morte, nem escuridão existem. Já estamos todos à beira-mar; E eu sou um desses que vasculham as redes Quando um cardume de imortalidade passa nadando.


2 Se moras numa casa - a casa não há de desmoronar. Convocarei qualquer um dos séculos E, depois, entrarei nele e, ali, construirei uma casa. É por isso que os seus filhos e as suas mulheres Sentam-se comigo em uma mesa, A mesma para os ancestrais e os netos: O futuro está sendo realizado agora, Se ergo um pouco a mão, Os cinco raios de Luz permanecem contigo. A cada dia usei minha clavícula Para escorar o passado, como se fosse madeira, Medi o tempo com cadeias geodésicas E marchei através dele, como se fossem os Urais. 3 Cortei o século na medida para servir em mim. Andamos para o sul, levantando poeira acima da estepe; As altas ervas daninhas fumegavam; o gafanhoto dançava Tocando as suas antenas a ferradura - e profetizava, Ameaçando-me com a destruição como um monge. Amarrei à sela o meu destino; E mesmo assim, nesses tempos que aí vêm, Fico em pé no estribo como uma criança. Estou satisfeito coma ausência de morte, Para que o meu sangue possa fluir de uma era para a outra. E, no entanto, por um cantinho em cujo calor eu possa confiar, Eu estaria disposto a dar a minha vida, Cada vez que a sua fagulha voadora Puxava-me como uma linha, à volta do globo.

POEMA Semiôn Isákovitch Kirsánov (1906-1972) Minha vida, passaste, foste embora. Nem chegaste a ser vil, vã ou vazia. E agora nada és senão um traço, um resto iluminado dos meus anos. Não passas de um ligeiro pontilhado no arco de uma leve trajetória.


O avião se foi deixando atrás de si, no céu, o giz de sua passagem que flutua e já vai se desfazendo... E é tudo o que sobrou de ter voado.

ÉS GRANDE NO AMOR Ievguêni Aleksándrovitch Ievtushênko (1933) És grande no amor. .......................................... És ousada. Cada passo meu é tímido. Nada te farei de mal, mas não sei tampouco te fazer o bem. Parece que estás .............................. Conduzindo pela floresta, fora das trilhas batidas. Agora, temos flores silvestres até a cintura. Nem sei direito ......... que flores são essas. A experiência passada não ajuda em nada. Não sei ......... o que fazer, nem como. Estás cansada. ......... Pedes que eu te carregue nos meus braços. Já estás em meus braços. "Vês ........................................ como o céu é azul? Ouves .................................................................. os pássaros que cantam na floresta? E então, o que estás esperando? ...................................................................... Hein? ............................................................................. Leva-me!" E para onde te devo levar?...

A CHUVA AÇOITA MEU ROSTO Bella Akhátovna Akhmadúlina (1937-2010) A chuva açoita meu rosto, meus ombros, a tempestade ronca e vem aí. Cai sobre mim, a carne, a alma,


como a tormenta sobre a nau se abate. Não quero, não quero mesmo saber o que me acontecerá depois se serei esmagada pela dor ou se jogada contra a felicidade. Com medo e alegre, juntos os dois, como a nau que atravessa a tormenta, não sinto pena de te conhecer nem tenho medo de te amar também.

ANTES DA SEPARAÇÃO Olga Fiódorovna Bierggólts (1910-1975) Antes de partir, deixo-te tudo: tudo o que há de melhor ..................... em cada ano transcorrido. Toda a tua ternura passada, ..................... toda a fidelidade passada: a ti, militar e terrível, ..................... juro amor novamente, de joelhos e, depois, levantando-me, digo-te adeus. Nunca mais teremos, tu e eu, esta ventura que nos eletrizou. Mas guardarei para sempre, na minha mais bela canção, a lembrança desta bandeira esfarrada... Deixo-te também a minha andorinha que, após viagem, teve a coragem de voltar, furando o bloqueio, para o nosso lar miserável. Nos momentos de solidão, ..... tu a escutarás... Levo comigo todas as nossas lágrimas, todas as nossas privações, ..... fracassos, perigos, todos os nossos desesperos, ..... nossas decisões apressadas, nossas dificuldades, nossa grande maturidade e a canção de ninar que nunca foi cantada - sonhávamos com ela, tu te lembras?, nas noites de guerra e de tempestade.


Nunca mais escutarás essa canção invisível. Guardo-a dentro de mim, intacta... Adeus, querido. Amei-te com todas as forças. E no momento da partilha, quero deixar-te rico.

BALADA DO PONTO FINAL Andrêi Andrêievitch Vozniessiênski (1933) "Uma balada? sobre o ponto final?! a pílula que mata?!" Bobocas! já se esqueceram da bala que matou Púshkin? Como através dos furos de uma clarineta, os ventos assobiam pela cabeça esburacada de nossos melhores poetas. Flecha a trespassar a baixeza e a violência, a trajetória do sopro arremessa-se para a posteridade e, de seu ponto final, jorram os começos. Penetramos na terra como quem empurra as bandeiras da porta de uma estação, e o ponto final do túnel é negro como um cano de fuzil. Onde desembocará? Na eternidade ou no esquecimento? Nem morte nem ponto final, só o caminho da bala existe, trajetória nova de uma reta interminável. Nossa frase nesta vida não tem ponto. Ainda havemos de chegar à imortalidade e ponto final! *


O Bolchevique, de Boris Kustodiev (1878-1927).

Kustodiev produziu pinturas, esculturas, gravuras, ilustrando principalmente cenas da vida cotidiana nas cidadezinhas da Rússia. O Bolchevique é uma obra datada de 1920 e nela o artista expressou, na figura do gigante andando pelas ruas de Moscou, a força gigantesca da liderança bolchevique na Revolução de 1917. Notem que a tela sugere que o gigante tem apoio popular. Ele próprio emerge do povo. Vários indícios sugerem que a cena é ambientada na Rússia: a abóboda arredondada de um dos prédios (talvez o Palácio de Inverno, onde vivia o czar); a neve que cobre os telhados e as folhas das árvores; o tipo de indumentária do gigante bolchevique (cachecol, casaco, gorro, etc.); o estandarte vermelho carregado pelo gigante (detalhe que evidencia o cunho ideológico da pintura). Produzida poucos anos após a Revolução de 1917, essa pintura é uma das muitas obras feitas na época com a finalidade de exaltar o regime implantado na Rússia pelos bolcheviques. A pintura buscou propagandear o evento e pode ser vista como uma obra de arte a serviço da política. A pintura de Kustodiev é engajada e segue alguns dos padrões estéticos da escola conhecida como realismo socialista. Nas obras que adotam essa estética, os artistas buscaram representar temas ligados ao trabalho, pintando ou esculpindo, sobretudo operários e camponeses. Essa estética chegou a ser adotada por talentosos artistas soviéticos. Durante o governo de Stálin, no entanto, acabou se


transformando num academicismo desprovido de criatividade que dominou todo o período. Inicialmente, o governo soviético dirigido por Lênin estimulou a arte de vanguarda e apoiou artistas originais, como Marc Chagall. Mas, com o advento do stalinismo, o governo passou a perseguir esses pintores abstracionistas acusando-os de fazer arte capitalista, inintelígivel para as massas e alienada da realidade social. A arte de vanguarda então cedeu lugar ao realismo socialista. * O PINTOR Loníd Nikoláievitch Martýnov (russo, 1905-1980) ; trad. Lauro Machado Coelho. O pintor pintou sua filha. Mas ela, como uma noite enluarada, fugiu do quadro. Ele quis pintar seus filhos mas, o que conseguiu fazer, foram jardins e, nos jardins, um rouxinol. Seus amigos em coro exclamaram: - Não entendemos nada desse seu estilo! Como eles não o reconheciam, decidiu, então, fazer um auto-retrato e, das trevas do quadro, surgiu a luz. Aí, todos exclamaram: - Mas somos nós!

ANOTAÇÃO Nº 10 NO CADERNO AZUL Daníil Ivánovitch Kharms (russo, 1905-1942), Poesia Soviética; trad. Lauro Machado Coelho, ed. Algol. Havia um cara ruivo que não tinha nem olhos, nem orelhas. Nem tinha cabelos, portanto, chamá-lo de ruivo é uma coisa teórica. ..... Não podia falar, pois não tinha boca. E nem tinha nariz.


..... Não tinha braços nem pernas. Não tinha barriga, e muito menos costas; não tinha espinha e nem qualquer tipo de entranhas. Não tinha nada de nada! Portanto, não há nem como saber de quem nós estamos falando. .... Na verdade, é melhor que a gente nem diga mais nada sobre ele.

POEMA Velemir Khlébnikov, Cf.: absclaras Ride, ridentes! Derride, derridentes! Risonhai aos risos, rimente risandai! Derride sorrimente! Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores! Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros! Sorrisonhos, risonhos, Sorride, ridiculai, risando, risantes, Hilariando, riando, Ride, ridentes! Derride, derridentes!

FRAGMENTO Fiódor Fedorovitch Dostoiévski, Niétotchka Niezvânovna; trad. Boris Schnaiderman Mas eu quase não compreendia o que estava acontecendo comigo. Tudo se perturbava em mim com uma sensação nova, inexplicável, e não haverá exagero de minha parte se eu disser que então sofria e me atormentava com essa nova sensação. Resumindo - e perdoem-me estas palavras - eu estava apaixonada por minha Kátia. Sim, era amor, um amor autêntico, um amor cm alegrias e lágrimas, repassado de paixão. Que havia nela que me atraía? Por que surgira semelhante amor? Este se iniciara quando a vi pela primeira vez, quando todos os meus sentimentos ficaram docemente impressionados com a visão daquela criança, encantadora como um anjo. Nela, tudo encantava; nenhum de seus defeitos eram inatos; eram todos postiços, e todos estavam em pé de guerra com seu instinto. Tudo dava a entender uma boa predisposição, que s[ó temporariamente assumia uma forma falsa; mas tudo nela, a começar por essa luta, brilhava com uma esperança aprazível e prenunciava um futuro magnífico. Todos se extasiavam com ela, todos a amavam, não era eu a única. Quando, às vezes, lá pelas três horas, nos levavam a passear, todos os transeuntes se detinham como que assombrados, tão logo a viam, e não raro uma exclamação de surpresa ressoava, acompanhando a feliz criança. Nascera para ser feliz, devia ter nascido para isto, era a primeira impressão de quantos a viam. É possível que, pela primeira vez, o sentimento estético houvesse despertado em mim, e que se manifestasse revelado pela beleza; e talvez seja esta toda a causa do meu amor.


O principal defeito da pequena princesa, ou melhor dizendo, o traço dominante de seu caráter, que tendia, de modo invencível, a encarnar-se em sua forma normal, e que, naturalmente, se encontrava numa condição de afastamento, de luta, era o orgulho. Esse orgulho chegava a insignificâncias ingênuas e fundia-se no amor-próprio, a tal ponto que, por exemplo, qualquer contradita, fosse qual fosse a sua natureza, não a ofendia nem a deixava zangada, mas apenas a surpreendia. Não conseguia compreender que algo pudesse ser diferente daquilo que ela queria. Mas o sentimento de justiça sempre acabava por triunfar em seu coração. Se ela se convencia de que fora injusta, imediatamente se submetia à condenação, sem discutir e de modo inabalável. E se até então, em suas relações comigo, Kátia nem sempre fora fiel a si mesma, atribuo tudo isso à uma invencível antipatia em relação a mim, e que turvava temporariamente a retidão e harmonia de todo o seu ser. E era forçoso que assim acontecesse: havia demasiada paixão em seus arrebatamentos, e eram sempre e unicamente o exemplo, a experiência, que a conduziam ao caminho verdadeiro. Os resultados de tudo o que iniciava eram belos e autênticos, mas à custa de erros e desvios incessantes. Em muito pouco tempo, Kátia deu-se por satisfeita com as suas observações, e decidiu deixar-me em paz. Passou a comportar-se como se eu nem existisse naquela casa; não me dizia uma palavra supérflua, nem sequer quase as indispensáveis; eu fora afastada dos jogos - afastamento esse que não se processou bruscamente, mas com tamanha habilidade, que era como se eu própria tivesse concordado com isso. [...] A princesa parou, gloriosa, sobre o espaço conquistado, e lançou-me um olhar ébrio de triunfo. Mas eu estava branca feito um lenço; ela notou isso e sorriu. No entanto, uma palidez mortal ia-lhe já cobrindo as faces também. Mal conseguiu caminhar até o divã e caiu sobre ele, quase desfalecida. Tornou-se, porém, ilimitada a atração que ela exercia sobre mim. A partir daquele dia, em que sofrera por ela temor tão grande, eu não conseguia mais dominar-me. Exauria-me de angústia, mil vezes estava pronta a atirar-me ao seu pescoço, mas o medo acorrentava-me e deixava-me imóvel. [...] O meu amor por Kátia chegava a assumir uma forma estranha. De uma feita, tirei-lhe às escondidas um lenço, de outra vez uma fitinha com que ela costumava prender o cabelo, e durante noites inteiras os beijei, coberta de lágrimas. [...] o aroma da vodca sobre a neve nina rizzi, tambores pra n’zinga, 2012. os dois olhos de ellena giram luas e sóis, todo mundo quer cheirar. ou chorar?


Pablo

Picasso

(espanhol,

1881-1973). Guernica,

óleo

sobre

tela,

3,5

x

7,76

cm.,

1937.

Museu

Nacional

do

Prado,

Madri.

Guernica é o nome de uma pequena cidade da Espanha bombardeada pela força aérea alemã, a mando de Hitler, durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Daí o nome da obra. Essa guerra é vista como um ensaio para a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Nesse ensaio a população civil de Guernica serviu como cobaia. Picasso estava se preparando par dar sua contribuição ao pavilhão espanhol na Exposição Internacional a realizar-se em meados de 1937, em Paris, quando soube que, em 26 de abril daquele ano, a aviação nazista havia arrasado a pequena Guernica, na Espanha. Ele, então, usou seu pincel para transmitir toda a sensação de horror, loucura e tragédia provocada por uma guerra; em apenas um mês (de maio a junho de 1937) pintou a enorme tela interpretando o episódio que, certamente, o chocou profundamente. Havia razões de sobra, portanto, pra que Guernica se tornase o que é hoje: um símbolo da luta pela paz e contra a guerra. No canto esquerdo, vemos uma mulher gritando agoniada enquanto carrega seu bebê morto morto pelo bombardeio. No chão, vemos o corpo de uma das vítimas em pedaços: a cabeça separada dos braços; repare que no rosto dessa vítima aparece estampada a expresão de horror e medo. Outras pessoas também apresentam expressões de pânico. Uma delas, por exemplo, parece no canto direito, com os braços para cima num gesto de desespero. Os animais também não escaparam à fúria nazista: na tela, vemos um touro e, ao centro, um cavalo que parece estar relinchando apavorado. Conta-se que, numa exposição em Paris, um representante da Alemanha nazista, apontando para Guernica, perguntou para Picasso: Esta obra é sua? O artista teria respondido: Não, é de vocês! Desde o começo da Guerra Civil, Picasso foi favorável ao governo republicano eleito democraticamnte. Na época em que Guernica foi bombardeada, Picasso vivia na França e, de lá, organizou uma campanha, arrecadando uma quantia elevada, que enviou para ajudar os republicanos espanhóis. Mas as forças fascistas do general Franco, ajudadas peos nazistas, acabaram vitoriosas. Picasso é, sobretudo, um autor moderno; seu trabalho não é um esforço de reprodução do real, mas uma interpretação autônoma e inusitada. No estilo cubista, que Picasso ajudou a criar, a deformação


das figuras é proposital; nessa obra, o cubismo foi utilizado para expressar o impacto dos armamentos modernos sobre seres humanos e animais. Uma das características da pintura cubista é justamente a abolição das regras de perspectiva. Daí também o pintor apresentar as figuras de frente, de lado, sob diferentes ângulos ao mesmo tempo.

Guernica Murilo Mendes Subsiste, Guernica, o exemplo macho, Subsiste para sempre a honra castiça, A jovem e antiga tradição do carvalho Que descerra o pálio de diamante. A força do teu coração desencadeado Contactou os subterrâneos de Espanha. E o mundo da lucidez a recebeu: O ar voa incorporando-se teu nome.

LISTA DE PREFERÊNCIAS Jarbas Martins, Substantivo Plural Conhecido mais como o dramaturgo, que revolucionou o teatro no século XX, Brecht (1898-1956) foi um grande poeta.No campo da poesia praticou os mais diversos gêneros: sonetos, baladas e o verso livre. Forma com Maiakóvski um par extraordinário na poesia novecentista.A poesia engajada desse alemão ( como o georgiano Maiakóvski era um comunista militante ) é uma prova que a poesia política e a grande arte não se excluem.Como diria Trótski, “um mau poema é um desserviço à Revolução”. Segue um dos seus poemas publicado no “Folhetim”,jornal “Folha de São Paulo”, 12.01.86. LISTA DE PREFERÊNCIAS Bertolt Brecht; trad. Paulo César Souza Alegrias, as desmedidas. Dores, as não curtidas. Casos, os inconcebíveis. Conselhos, os inexequíveis. Meninas, as veras. Mulheres, insinceras. Orgasmos, os múltiplos.


Ódios, os mútuos. Domicílios, os passageiros. Adeuses, os bem ligeiros. Artes, as não rentáveis. Professores, os enterráveis. Prazeres, os transparentes. Projetos, os contingentes. Inimigos, os delicados. Amigos, os estouvados. Cores, o rubro. Meses, outubro. Elementos, os fogos. Divindades, o logos. Vidas, as espontâneas. Mortes, as instantâneas.

Eu estudava no primeiro ano A Carito, Atestado de órbita Eu estudava no primeiro ano A Primeiro ano científico Minha classe era a A Onde estavam as meninas mais bonitas O colégio tinha acabado de virar misto E os galalaus da classe C ficavam enchendo o saco Atrás das meninas da A. A gente da A ficava puto. Porque as meninas da A ficavam também olhando os galalaus da C Elas não queriam nada com a gente da A. Eu não entendia… Eu era mesmo alienado. FOI A PRIMEIRA VEZ QUE OUVI FALAR EM LUTA DE CLASSES!


O FILHO DO SÉCULO Murilo Mendes Nunca mais andarei de bicicleta Nem conversarei no portão Com meninas de cabelos cacheados Adeus valsa "Danúbio Azul" Adeus tardes preguiçosas Adeus cheiros do mundo sambas Adeus puro amor Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem Não tenho forças para gritar um grande grito Cairei no chão do século vinte Aguardem-me lá fora As multidões famintas justiceiras Sujeitos com gases venenosos É a hora das barricadas É a hora da fuzilamento, da raiva maior Os vivos pedem vingança Os mortos minerais vegetais pedem vingança É a hora do protesto geral É a hora dos vôos destruidores É a hora das barricadas, dos fuzilamentos Fomes desejos ânsias sonhos perdidos, Misérias de todos os países uni-vos Fogem a galope os anjos-aviões Carregando o cálice da esperança Tempo espaço firmes porque me abandonastes.

Diálogo a Dois Décio Pignatari “A Angústia, Augusto, esse leão de areia” A Angústia, Augusto, esse leão de areia Que se abebera em tuas mãos de tuas mãos E que desdenha a fronte que lhe ofertas (Em tuas mãos de tuas mãos por tuas mãos) E há de chegar paciente ao nervo dos teus olhos, É o Morto que se fecha em tua pele? O Expulso do teu corpo no teu corpo? A Pedra que se rompe dos teus pulsos?


A Areia areia apenas mais o vento? A Angústia, Pignatari, Oleiro de Ouro, Esse leão de areia digo este leão (Ah! O longo olhar sereno em que nos empenhamos, Que é como se eu me estrangulasse com os olhos) De sangue: Eu mesmo, além do espelho. POEMA Pagu, Patrícia Galvão, Vida-Obra; ed. Brasiliense. Fósforos de segurança Indústrias tais Fatais. Isso veio hoje numa pequena caixa Que achei demasiado cretina Porque além de toda essa história De São Paulo - Brasil Dava indicações do nome da fábrica. Que eu não vou dizer Porque afinal o meu mister não é dizer Nome de indústria Que não gosto nem um pouquinho De publicidade A não ser que Isso tudo venha com um nome de família Instituição abalizada Que atrapalha a vida de quem nada quer saber Com ela. Ela, ela, ela.

INIMIGO MEDO Torquato Neto, Os últimos dias de paupéria rio - ::: - + alô = + = $ % agorete, mariagorete,mar-tá? serteaneja seu pudec & se o meudin


heiro venc e e amargoret-te a curvacurvili nea emSÃO p au l o poddredredresdrederdssaz cruzeiros mais uk menos hojk fFg brichitetetcv: ção, somos, sereire mos,alvinho mas,más,dan ninhas aves espanholas, avém, cris, crirtrfvom.:! torquato neto-71-1-nove student ário, alçapão, cala bo u ço primo dele, eu mesmo. ontem como se fosse hojíssimo, now craterona, rata, malhur, mulher. ? CREDO ? torusatonertlo.711mnbAS. querendo conversar: falemus os piores palavros, apurém, ho! je. ho! jecomo ho! je, amanhgrã.,nhã. CRU= sete e *

Malungos e vapores Charles Ribeiro


Jorge Queiroz (português, contemporâneo) «Sem título» 1999, grafite e lápis de cor sobre papel. Colecção Particular.

Outro dia, enquanto presenciávamos uma dessas manifestações contra ou a favor sabe lá de quê, alguém à mesa lembrou um verso de Cláudio Willer: “Poesia é ela dizer: como você me revoluciona por dentro”. Na verdade, o malungo mais pensava alto, ao perceber que alguma conhecida sua ia ali pelo meio de peito aberto – sim, a camisa desbotada mesmo. Ele não acreditava em nada dessas militarizações do pensamento, nem ela. Ele não acredita. Eu também não acredito. Reparo nessas brincadeiras de siga ao mestre e me pergunt... ou nem me permito mais qualquer questionamento a respeito (rememorávamos Rimbaud já por essas tantas: “Sim, tenho os olhos cegos para a vossa luz”), as coisas são o que são e, se acreditam serem essas intervenções, essas marchas e todo esse palavreado sustentável uma revolução; se essa conversa de coletivo virar mainstream se torna aceitável, ou a única verdade possível; se, pra se movimentar no âmbito cultural, edital é palavra de ordem, um tipo de passaporte exclusivo; se, já que estamos em tempos de eleição, nessa Bahia, votar em ACM Neto beira a ser um sinal de protesto (em São Paulo, parece que a fé toma conta); se... se... se... ... sabe lá, vai ver estão todos certos por demais, vale mais o meu na mão. Salvemos os animais! Cuidarei de ler esses escritos de Ian C.lima, ‘espedaço’: http://goo.gl/q8QT9 *

Nelson d'Aires (português, contemporâneo). Leandro, Prêmio Estação Imagem Mora 2011.


NOVELA, O PÓ DO AMOR SOBRE A REVOLUÇÃO. Carla Diacov, Carla Diacov blogues Novela, o pó do amor sobre a revolução é o nome de uma novela que estou a escrever e que começa e termina assim: lembro-me dos lírios. do quando fecham os olhos de quem acaba de morrer. de mulheres num quadro, ao lado do Nilo. de arrastar a cama para outro lugar que não debaixo da cabeça de alce ou do quadro com as mulheres, ao lado no Nilo. lembro-me do amor nas tuas palmas. lembro-me tanto da Coca-Cola. contudo, especialmente dos lírios. do branco e dos pistilos e mosquitinhos. não me lembro de como chegamos aqui. não me lembro de tantos passos. lembro-me de enfeitar a árvore de natal. da pomba de vidro ao cimo. não me lembro da revolução. nunca me lembrarei da revolução ou de sua ordem.

Depois vai: Ernesto, não ouse me beijar antes de.

Então: amor – É hoje. revolução – Né, não.

Daí: ou melhor, nem perto, nem íntima a revolução ou mesmo o amor nem íntimo e nem perto é são terras distantes gentes estrangeiras


sonho vulgar de quando tu pões os olhos numa divagação de parede de poesia com tetas e imensos paus ainda menos corpos com terra virgem o lodo inocente. oh, alguém vem e te acorda. lembro-me do amor nas tuas palmas. mas especialmente dos lírios. do branco e dos pistilos e mosquitinhos. MEU CU! era só metal cavalo e cigarros.

Então: o amor que se expressa por si resumido a palavras sangue que escreve lençóis em bandeiras peito que palavras palavras de viver abertos vastos ser de ser fluxo exangue fluxo de gentes ritmo de liberdade como delícias de vitrinas rimas em lataria... então você se lembra? do pó do amor sobre a revolução? lembro-me dos lírios. o céu da cor da laranja ao meio e embaixo os caroços desse novo horizonte vertical.

Depois vai, outra vez e:


Ernesto, não ouse me beijar sob a bandeira do País.

E mais: não me lembro de como chegamos aqui. não me lembro de tantos passos. não me lembro do nome do País. e, oh, não me lembro de como fui me apaixonar por Goulart, então pela junta militar, então por Ernesto, depois Getúlio e depois e depois e então.

E Fim, como qualquer fim em evolução. *

Lindau Eduardo Quive

Fotografia de Hans Silvester, Tribos do L’omo (triângulo da Etiópia, Sudão e Quênia).

Amanhece pela quinta vez nessa semana. Quinta-feira de sol nas entranhas do Limpompo que faz transbordar no dia, vidas de longe e de perto, vidas presentes e póstumas. Nos dias que se repetem as águas deste rio não envelhecem, enrugam-se e enchem-se de experiência, vidas e vidas, mas não temem a idade, rejuvenescem vezes que a vida se repete.


Lindau olha para esse infinitivo Limpompo com os olhos que brilham, todos os dias de formas diferentes. Casou-se com a vida diante destas águas que agora contempla quotidianamente sem lembrar-se dos desassossegos e das paixões proibidas. Sempre que o sol se insurge nas bermas destas águas, o corpo de Lindau anoitece com o desejo de banhar-se. Limpompo não se deixa, nem aos olhos da sua amada, ludibriar-se com as chamas que o aquecem para afugentar os seus crocodilos; não se deixa enganar por olhos cobiçosos, Lindau é o amor da sua vida e se reencontram todos os dias com novas paixões entre si. Na alegria do reencontro, Lindau está de pés nus, vestido de panos garridos, enfeitada de missangas do pescoço às pernas, curvas sem contornos, é ciente da beleza que ostenta e, por isso, se convence que só consigo o seu amor se esmurra de desejo por todas as partes que passa, de todas as gentes que alimenta e de todas as mulheres que limpa os seus troncos. Lindau, desde que nasceu nas últimas cheias vive esse romance que não é segredo para o mundo que a rodeia. Quem pode proibir um amor destes dois! Os homens todos da barra do Limpompo sabem a quem pertence o corpo dessa linda Lindau filha das águas de Fevereiro. Lindau, essa menina que ainda na pequeneza deixa o mar transbordar-se pelo seu baixo-ventre por isso, não se deixa iludir pelo humano, conserva a sua paixão como o mais vital recurso que tem para vida que deve aos deuses das águas que se invocam em todas as épocas nas suas terras. Por isso que quando a amanhece senta aos seus pés, repele-se dos panos que a cobrem e mostra-se ao seu amado. Contorna as curvas do seu corpo entornando o pacato desejo de entregar-se ao seu lindo Limpompo, mesmo no olhar dos artesanais pescadores e barqueiros que fazem as pequenas embarcações. Não há peixe que retrai Lindau na sua orgia matinal, afinal é noite no seu corpo de menina e tem no seu leito o homem que deseja com lágrimas e ódios antigos; com fervor que se repete por não terem dormido juntos e pela razão que o faz ser de todas. Lindau tem em si que os amores não se justificam, muito menos as traições, “que seja de todas mas que mais ame a mim” repete essas palavras sempre que se entrega aos seus azuis encantos. Limpompo e Lindau uma viagem pelas galáxias mais vivas. Lindau é Sol, Limpompo é Terra. Um amor de A à Z sem chuvas nem verão imprevistos. Afinal, desde o seu último e traumático casamento com Matico, o ex-mineiro que a deu Sida e foi-se de vez para acreditar nas mulheres da terra do Rand, ela prometeu para si própria: “Este Limpompo é meu. Vou amá-lo sobre todas as coisas e todos os seres; amarei os seus peixes, dos mais selvagens aos tolerantes que pela boca morrem; amarei este Limpompo como amava o ventre da puta que me pariu; sim Limpompo, vou te amar mais que aquele mussatanhoko pedestre de Matico; vou amar-te nua; vou amar-te nas noites e manhãs quentes; amarei a ti e os seus amores; vou-me rastejar aos seus pés por onde vagueias e serei sua como esse único chão por onde te arrastas sem que os homens saibam quantas cores tens; amarei as águas suas que lavam mulheres menstruadas; das donzelas às mais oferecidas; vou amar-te Limpompo como já amei a mim mesma antes de eu morrer.” *


AO SOM DA REVOLUÇÃO Lisa Alves, Plus

Eu — incinerador, eu — sanitarista, a revolução

sobre a malta dos vates velhacos e falsários,

me convoca e me alista. Troco pelo "front" a horticultura airosa da poesia — fêmea caprichosa. Ao Comitê Central do futuro

apresento em lugar do registro partidário

ofuscante,

todos os cem tomos dos meus livros militantes. A plenos pulmões - Vladímir Maiakóvski (1915)


Adoro ouvir os tiros que vêm lá da rua, pois tenho a sensação que alguém é perseguido. Alguém, lá fora, necessita urgentemente de matar e outro alguém necessita, mais ainda, de uma saída para continuar vivendo. Eu só necessito ouvir os barulhos produzidos pelo tiroteio. Alguém grita: REVOLUÇÃO! Não ouço mais nada, acho que todos estão mortos. (Conservadores mortos em nome de suas grades.) (Revolucionários mortos em nome da liberdade.) Não sei qual morreu pela causa mais nobre. Só sei que os conservadores tencionavam parar com os tiros, já os revolucionários queriam barulho. Sei também que eu (aqui dentro) admirava os revolucionários, pois estes sempre atiravam mais. E eu adoro ouvir os tiros que vêm lá da rua.


Declaração de Édipa Uma nuvem confusa me enevoa o olhar. Não ouço mais. Eu caio num langor supremo; E pálida e perdida e febril e sem ar, um frêmito me abala... eu quase morro ... eu tremo. À uma mulher amada - Safo de Lesbos Uma mão afetuosa, delicada e suave. Unhas bem laboradas, a pele trigueira e com feição de bem tratada. O perfume era deleitável, doce, sutil e sedutor. Os cabelos eram ondeados e escuros com um esplendor tão aceso que não poderiam alegar se eram dela ou se adquirira na melhor boutique de perucas. Seu brado era terno e quando cantava era capaz de serenar qualquer um da espécie. E eu ali, fascinada com sua perfeição, ansiando ser idêntica a ela quando acendesse. Quem não cobiçaria aqueles seios? Quem não se apaixonaria por aquele sorriso? E quem na face da terra recusaria aquele colo? Rememoro o seu vestido azul de seda, capaz de deixá-la tão leve que eu não sabia direito se ela caminhava ou flutuava. A risada era contagiosa, contudo não arrasava sua elegância. Minha mãe seria definitivamente a mulher mais linda do mundo se eu não tivesse encontrado você. *

DESENHO, DESÍGNIO, DESEJO. Clewton Nascimento


Não falarei de amor, mas de desejo. Falarei de desejo através do desenho. Desenho como desígnio, propósito, intenção. Intenção de expressar: uma ideia, um pensamento, ou um desejo. Em praticamente todos os meus registros, crio essa relação. Em alguns, a relação é mais latente. E pergunto: como seria possível expressar a intensidade das sensações experimentadas ao ver, pela primeira vez, tète-a-tête, Gaudi, na Sagrada Família? “Tentativa de captar o que não cabe em si mesmo”!

Ou a aproximação ocorre a partir da própria arquitetura religiosa, especificamente o Barroco, que, em sua origem, busca essa relação de entrecruzamento entre mundos, entre o sagrado e o profano? Será esse aspecto - o que movimento o meu desejo – cada vez mais intenso – de captar os espaços barrocos por todo o Brasil, seja em Salvador – da Bahia de todos os Barrocos – seja em João pessoa, ou em Ouro Preto.


Nesses espaços, as igrejas tornam-se os focos, as vedetes, que teatralizam e dramatizam a cena urbana, em um jogo de efeitos-surpresa, evidenciando um intenso jogo de sedução e persuasão. Nesse percurso, desenho, desígnio e desejo se fundem.


A NOVÍSSIMA POESIA, 1: Adriano Wintter Ars Poética

Kader Attia (francesa, contemporânea). Untitled, 2006. Mixed media on canvas.

PORTO ALEGRE DESOLADA I janeiro é o mais solar dos meses, deflagra planícies em brasa sobre a terra, faz das águas claras uma lâmina que à íris frágil fere com seu golpe enquanto passa o ônibus rumo ao centro e sob o céu nosso estuário é um espetáculo de reflexos cada homem sabe exatamente quando sua vida começa a ser a história de um fracasso a urbe vista da orla, ao flash da tarde, não tem muita cor, atrativo ou


qualquer beleza já o porto tem voos de aves e pontudos mastros, enquanto (nos barcos) balança raivosa a ferrugem sob sombras gordas de guindastes nosso horizonte é uma cordilheira azul esmagando a tarja das ilhas a natureza sabe quanto é difícil eu já estive nu junto a uma jovem nua e entre lembranças todo homem se levanta e tenta esquecer as almas procuram um destino na paisagem e quando não acham cobrem-se de andrajos e vão vagar nas praças o sol dançará sobre o mármore escuro de nossa tumba e a treva úmida reduzirá a pó nossa fantasia pelos gramados, palmos acima, milhares de minúsculas, silvestres flores uma brisa cálida irá ondular mais pesa a vida sendo a alma imortal sob tão parco amor e tamanha beleza II ninguém, ao contemplar estas águas tornará algum dia a ser quem foi novamente, antes de se debruçar sobre o mirante da Usina


e ver todos que já caminharam por esta orla estão marcados e o desejo de amar é sua maior cicatriz são agora uma estirpe que se recusa a morrer voltam e para eles o Gasômetro se ergue feito um templo, a chaminé indo ao céu como pira onde o sol consome a oferta de toda humanidade ao Deus da vida tudo o que Porto Alegre não quer ouvir o que repele, destrata, acusa vem o homem oco apresentar aqui, candidamente o Guaíba é tenro, ensolarado, parece capaz nas suas margens toda alma é ampla cada quarto se dilata cada vida se amplia um bom futuro volta a florir ter fachos praticar esportes e namorar III lá, onde com ela caminhaste lá, onde sentavam na areia, ao pôr do sol eis o lugar: marco zero do universo ao qual retornam todas as coisas a cada momento: aves, tardes estrelas arrastando consigo teus pensamentos sob a atração dos beijos que então deste maior, porém, é a distância entre a memória e a existência


IV desolação, linha cristalina que escorre pela alma alastrando incêndios por isso agora minha carne agônica queima inteira qual se fosse etílica janeiro pior mês para esquecer janeiro pior mês para – tentar – viver houvesse ao menos um destino para evadir-me no mar sem bagagem e ver, do oceano, tão pequena Porto Alegre: pífio cárcere opressor

V tentei, mas já não há beleza que me console nesta cidade natureza arquitetura bairros e habitantes: tudo se comprime numa nulidade desencravada do solo e arremessada à mítica margem do Guaíba ao pôr do sol onde o amor acontece e me assento sempre sempre sempre *


A NOVÍSSIMA POESIA, 2: Carolina Caetano Por Carolina Caetano

Louie Metz (estadunidense, contemporâneo). Relapse, 2008. Acrylic and acrylic gel on wood, 30x40.

DEPOIMENTO COMOVENTE DE ALGUÉM QUE O SENTE Posso agora violentar-te à morte Dois de nossos homens desertaram com a paz e o mormaço de teu hálito bom. Restou-me a maneira atroz de matar-te. Te esconde de mim em mim e tenta o bom deus cuidar-te. Vive, mulher, até que a vida a mim se volte o bom deus protege-te vou matar-te. Mais uns de nossos homens desertaram-se, arde o sol sobre a curva de suas margens, ardem A sua mulher arde, soldado, sua mãe está tão magra e têm dentes enormes os ciúmes. Hão de desgraçar-me. Todos de mim desertaram-se, deita, amor, o meu hálito sobre o teu hálito


E talvez a tua infância cia deva pousar-se pousar sobre o aço em minhas mãos. Dorme meus ossos, posso quebrar-te. Nessas dunas, amor, as nossas costas doem, nossos faróis, aparvalhados os nossos desertores enterraram-se se sob a calma dos nossos nós. Podes voltar-te te a franzir as grossas ondas de teu mar qual já outrora transcursado pelos prazeres que não meus, e outros braços há que passado. Tamanhas as águas derramam sem fim. A mais desertam-se se de mim as almas doloridas, os bichos amargos, Hão de deixar-me. Podes voltar-te te aos grossos cílios de teu vale, enterra-nos nos sob os sulcos largos para dentro e abaixo dos nossos nós. Há guerra em mim há água em mim as cores da tua rua e este céu, meu amor, tão baixo. *

A NOVÍSSIMA POESIA, 3: Roberta Tostes Daniel Sede em frente ao mar


Os que têm fome e sede Bem-aventurados aventurados os que inventam, porque deles é o reino dos redemoinhos. Mesmo que não se aventurem, bem-aventurados aventurados na batalha do sonho. Hão de chover sobre a terra, poetas, salgando toda palavra, umedecidos.


Alonso, alucinas Cavaleiro andante, máquina de sonhar, estivais te vazam sol, o sal de horas. Alonso, alucinas. Infantaria antiga-donzela. Prescreves os moinhos, esmagando tosses e ternuras gordas que esmurras no vento – só – o tempo te erige, monstro secular. Nos banquetes de fome, nos desertos, orbitam hordas que erguem teus túmulos; páginas e páginas, bibliotecas que duelam. De há mares de menino: cheirando entranhas de delírios, lombadas de amor; o combalido nome que lês enroscas nas patas, Dulcineiamente cavado nestas palavras brutas de poeira - terras encasteladas e orifícios por onde vergam corpos de sobrinhas, escudeiros, adversários. Ronrocinantes fantasias – no intumescido coração que, com fé, teimo ainda em ver na direção do vento.

[Os desenhos acima são de Luiza Maciel Nogueira, Desenhos de Luíza Maciel Nogueira. 2048x1536, folha A3. Para a animação abaixo (http://www.youtube.com/watch?v=JkHWMTSmU3o&feature=relmfu), a artista passou para o sketchbook pro e depois para o animation hd, ambos do Ipad] *


A NOVÍSSIMA POESIA, 4: Carina Castro Tudo é Coisa

Pin-up-colage de Handiedan (holandesa, contemporânea).

RUBRO DENTRO DO PEITO Quero que me acompanhe a Valparaíso {aportar no mistério de seus farrapos com cores inconclusas} E à campanha do Paraguai, dizem que lá tem um lago lindo e um campo imenso Pensava que meu coração ia parar – rubro dentro do peito – quando ouvia do campanário o estanho dos sinos, os estames partidos, os estranhos ruídos marcando o tempo no chão. Meu coração não parou e quero que você me acompanhe, pelas estradas sem fim e até as moitas fragrantes; no silêncio clandestino signos tatuados com agulhas clandestinas no tecido da pele, sob, sob os panos que nos cobrem sob o destino que nos cobram; não te cobro sequer a liberdade. Peço apenas que venha comigo, pelos becos de Goiás,


pelos sertões, pelo cangaço, e em meu regaço possa deitar sua cabeça cheia de sonhos de reviravolta. Vamos embarcar em estações esquecidas, passear pelo outono vermelho, balançar com a primavera hasteada. Vamos comer deste mesmo pão e ser a mesma massa, e no prato da poesia {depois da era Ming já seca a massa da porcelana} haja fartura, e todo o tipo de grão semeie em todo o tipo de terra; As pequenas flores daninhas não seduzirão a foice, mas se deixe por mim seduzir, te mostrarei uma estrela, te levarei pra passear ao luar de Luanda, comeremos maboque, manga, ao sumo da sumaúma, na noite profunda adentremos sem o medo fazer sombra. Nem precisa ser por terra, de Playa Girón aos mares, pelos ares, atravessemos a fronteira do provável, ou até mesmo por mares antes navegados... No compasso da tua canção serei voz, me acompanhe nesta dança, neste passo, neste verso subverso. *

TRÊS NOTAS SOBRE UMA REVOLUÇÃO IMPOSSÍVEL Jota Mombaça, /louder than bombs fm

Berlinde De Bruyckere (belga, contemporâneo). Innocence Can be Hell series: Jelle Luipaard, 2005. Wax, epoxy resin, metal, wood.


1. Ao longo da história contemporânea, vimos o capitalismo avançar os territórios subjetivos, desfazendorefazendo suas bordas, ocupando-se, cada vez mais, da produção de relações e modos-de-vida. É como se, depois de expropriar a terra e o corpo, fosse hora do capitalismo empreender o sequestro do inconsciente. No entanto, o inconsciente é como uma usina de derivas, e à mesma medida que é capturado, transborda por todos os lados, desinventainventa, está dentrofora. Se o trabalho é imaterial como querem pensar alguns filósofos políticos, as chaves e cadeados da fábrica também o são, estão na ordem da força-invenção, das ficções somatopolíticas. É chegada hora de repovoar o imaginário, mas com o quê? Que forças atravessarão a cidade vazia, e para onde rumaremos, que ventos, que tempestades de sutilezas! Resta aventurar-se, experimentar as intensidades dos incontáveis percursos em aberto, com prudência cartografar o que há além-baldo, mas para isso é preciso, antes, fazer soar a canção inexprimível da gulag e estar aquém e além do humano, até irromper na manhã um ser-errático, inconcluso qual o mundo que habita ao mesmo tempo em que deserta. 2.

Idem. Lost, 2006. Epoxy resin, horse skin, wood, ropes.


É, no mínimo, curioso que eu esteja aqui, com uma renitente fisgada aguda na cabeça, escrevendo sobre como a apatia social que se abate sobre a massa de eleitorxs, se levada a suas consequências extremas, pode realizar um rompimento radical com o sistema que a produz; que essa passividade típica da relação entre representadxs e representantes, desde que seja radicalizada, pode de tal modo esvaziar o corpo político a ponto de fazer passar por ele fluxos transversais, suscitando o êxodo do estado – e das demais formas cansadas de estruturação da existência. Embora a manutenção do sistema dependa da produção de sujeitos políticos apáticos, as apatias, elas mesmas, não dependem do sistema, e nisso consiste sua força. O sujeito político apático é de tal modo levado a descolar-se das coisas da política, que precisa aprender a viver de maneira independente delas. Essa relativa independência funda um tipo de produção social em que a balança que equilibra governantes e governados pende e transforma a soberania do Estado num peso morto às costas da sociedade. Assim é que as apatias, na realidade, designam um tipo de produção social que de apática nada tem, porque se funda na possibilidade de viver apesar dos governos. De certa maneira, a experiência do lumpen (sobreviventes de uma guerra invisível) nos mostra que aqueles que lutam para subsistir, conquanto sofram sozinhos com a terrível miséria de um mundo que transformou em saúde a sua doença, ignoram as coisas da política, porque, no limite de sua sobrevivência, não precisam delas. Ao invés de um Ensaio sobre a Lucidez, estou prestes a escrever um Ensaio sobre a Catatonia, para contar a história de uma cidade que simplesmente desistiu e respondeu ao chamado do dever, como Bartlebys num coral desajeitado, “eu preferiria não”; e recusou-se a votar, a escolher. No dia da eleição, não houve eleitorxs, nem mesárixs, cabxs eleitorais, partidárixs, e mesmo xs candidatxs, tomados de um profundo cansaço, recolheram-se em suas casas e dormiram relaxadamente como se simplesmente ignorassem tudo o que ficava para trás. Vazia, a cidade pôde, pela primeira vez, respirar ventos estrangeiros, viu atravessar as avenidas nômades de todas as estirpes, tapuias, bárbarxs, ciganxs, lobxs erráticxs, urubus-águia, as baratas remanescentes de hiroshima, a comunidade dxs sem comunidade. 3.

Idem, ibdem. Spreken (Speak), 1999. Blankets, wax, polyester, wood.


a thic quang duc A dança é uma arte de guerra porque exige “prontidão”, estar atento aos fluxos e contatos, como uma disponibilidade para ser-com. Eu sempre disse que quando a polícia viesse me bater, eu dançaria. Porque se eu não posso dançar não é minha revolução. Há que se diferenciar a ideologia pacifista-legalista de um outro pacifismo, este não-inerte, que ao invés de interditar o movimento como uma polícia, faz da sua nãoviolência uma arma. Enquanto a ideologia pacifista-legalista nada mais é que obediência à ordem, o pacifismo não inerte é aquele cuja base da ação é a própria desobediência. Quando o corpo percebe que suas rotas já não precisam ser aquelas previamente editadas, o complexo da ordem se põe a perder porque, afinal, a soberania do uno depende inteiramente da tácita submissão da multiplicidade aprisionada que se deixa governar por ela. O pacifismo não inerte e desobediente é aquele que realiza o êxodo abissal, a fuga desabalada pelas noites geracionais de novos mundos; aquele que se desgarra. Mas esse desgarrar, ele próprio não é inteiramente pacífico, pelo contrário: o governo do uno não vai deixar que as crianças abandonem o playground; o rei, que era nosso amigo, na nossa fuga de pasárgada, vai mirar seus canhões contra nós. Dancem, dancem ou estamos perdidos. Porque quando a guerra nos ameaça, precisamos nós também nos armar. Mas que armas usar contra um pelotão de cães de guarda munido de gás de pimenta, bombas de efeito moral, tiros para o alto, balas de borracha e escudos? Pedras e poemas! Penso ser possível, através de uma crítica das armas, recuperar a violência e reimaginá-la – fazer brotar de chernobyl a possibilidade de armas criativas, que redirecionem a violência, recuperem-na de seu potencial exclusivamente negativo. Do mesmo modo, há que se recuperar o pacifismo – resgatá-lo das sobrecodificações que dele se apossam a fim de reconhecer que a não violência como atitude para com a vida se vê diante de uma crise inevitável: como pretender a oposta simetria a uma violência ordenadora já sem precedentes? Como ser pacífico para além da passividade e do inativismo?

EXCURSO: Cantilena Nuclear


Idem, ibdem. Cart with bankets, 2005. Iron structure, blankets.

Chernobyl sob os meus tênis avante, manco! sair vamos para catar abortos tudo esgotado dos esgotos junto a lama da boca do lobo escorrem obus e poetas empurrados pela maré dos canos Água não-potável de beber , carcará debaixo do céu de Estamira nuvem de poeira no asfalto Chernobyl sob os meus tênis Chove ácido São Paulo mergulhar Petróleo em Oceano Índico meu coração: iminente bomba anti-rosa ao Império! Fukushima, mon amour *


MINI-ANTOLOGIA POÉTICA: DAVI ARAÚJO

Fotografia sem título de Amanda S. Jones, Sugar Kane.

história oral a maior crítica às fontes orais é de que elas são carregadas de subjetividade e vírus do papiloma humano ela transmite a sua experiência


somente fiel a não confiabilidade da memória conforme a fonte que chupou e se canta clitóris antes da hora na excitação desse grelo tido como não oficial é porque divulga a vulva nova e o seu método de boca à boca conta tudo o que aprendeu até sessenta e nove voyeurizando para depois felar pois se correu à boca pequena virá da raiz da garganta até a flor do palavrão friccionar prazeres glandiosos depõe a boca o tabu que falo pois goza em uma cara tradição de se recordar e testemunha o cu lar de fato só dura o que os lábios tocam pelos códigos da língua a gemer esta história que se engoliu por ser seminal

Lima Mail para Rodrigo Gonçalves de Lima

quase morre só se fode mais das vezes o grandioso homúnculo a.k.a. Seu Furúnculo nêgo lindo delirante retirante se sampleava pagava de bacana negava-se a cortar cana, mas banana carregava no CEASA FOR EXPORT (por esporte) no pugilato tão forte só apanhava sparring espartano, topa tudo tem tutano suores menos que das dores tantas quedas mais amores alista-se na Legião Estrangeira em missão secreta em terra maconheira dessa vida a experiência, é Soldado Sarita


o que lhe cai como uma luva (Manitu, queremos chuva!) desde o gás sarin que experimenta e mal aprende a usar o fuzil bem cedo o enviam à puta que o partiu vomitado de avião em queda livre de paraquedas - viva Cuba libre! - contra que te rebelas? - revolução! em Havana era superbacana do charuto à bagana viveu à farta e sem regime caboclo tolo carismático não coube na farda o que é crime então para voltar à velha forma foi à luta foi à sauna e com um mulato simpático suou um mês até a alma “eu admito que pequei mas estou convertido: sou gay!” panflertava na maior maravilha: - apocalivre-se! até que acabou deportado da ilha - Fidel, não radicalize! (yo no hablo asi pero Pablo si) e de volta despiu-se de toda a revolta e não tinha sequer ideia do que podia acontecer “liberdade é só outro nome para nada a perder” e seis meses depois se não me engano (em certos círculos isso significa meio ano) this south american way de Chê que se solta e hoje de bengalinha dandi power só de charm disfarçando as hemorroidas... e foge sem calcinha calça justa só de farra relembrando as noites tórridas... bixa loca de noitinha no bas fond pra sobreviver sem navalha só porrada apolíneo muque, dionisíaco silicone cheio de piercings freakshowing itself no circo da vida muito horrorshow dublê e dublador (ínfimas dores sonoros pavores) eventuê de bíceps em ação - luz, câmeras! – em Hollywood


habituê de cóccix em pornô - assim, não para! – na Boca do Lixo pele moura, fala rouca, tire a roupa!!!

Cuzco e Vila Buarque 2002

não lugar a minha terra sepultei no espaço em tempo de herdar uma nova moradia outro eu desabrigado invadiu o que faço este latifúndio mais ermo de poesia imagino a viagem invejoso viajo a inveja imaginoso imagino a imagem viajoso em alongada elipse de lado a lado um ano trópico transo pensar em eremitério voluntário impensado um mundo tropical queria alugar em lugar ao justo contrário rotacionado um traslado mundano a me ver rodar em alado querer voragem tropica trançado um eclíptico distanciamento a me alongar

Nosso presente (dezembro de 2008) Adolescente corta os pulsos por Modernidade Marketing pessoal é tema de próximas Ilíadas Modelo clássico hoje é conseguir celebridade Beata tem orgasmos assistindo às Olimpíadas Maconheiros são a nova escola de epicuristas Supérfluo hoje em dia é coisa só para cínicos Mitologia instantânea é uma praia de nudistas Privada uma escultura para todos os públicos Belo é um holandês rastafári a evocar Medusa


Tragédia é o Teatro reduzido à mera peripécia Satírica é qualquer poética sem graça ou musa Árvore de Natal em chamas na noite da Grécia

Textorismo (...) incerto do valor do que escrevo (...) o estilo me causa horror. ARTAUD

Vejo eu-me? Em ver indicio-me em pesadelos por entre pelos nos olhos paralelos de todos os mundanos guarda-sóis amarelos. De de Chirico as bananas suicidam Werther & Lotte estupra-se com maria-mole e vela o sono dos pais. Cardumes de cupidos náufragos são alvelejados por pelicanos cegos, em meio à significativas paisagens que abrem os olhos a dizer: - Olha lá! É um banheiro perseverando no próprio orgasmo... com interesse, som de descargas cobrindo putas mudas. Vasos inquebráveis por orifícios sinceros remetem cartas marcadas de soluços e cinzentos berros. São matilhas de coalhada seca a chupar sarnas de crianças-sereia, desembocam na Rua Sem Nome, s/n. As fachadas rococó do rouco cu dos restauros coloniais, notáveis feições fodidas do Velho Incontinente que postula silogismos de bosta como microorganismos para meu terceiro rubrolho chagado de hemorroidas. Dos bolsos rasgados de minha sombra em ruína, vêm ruídos de relógios e arcos de violino, chuva de conta-gotas de faz de chuva absoluta sobre cadáveres sabotados, todos os selos rompidos pelo pêndulo que oscila entre desengano e solidão. E, no entanto, é uma aposta essa bosta de refeitório:

sou uma posta de peixe no canto do meu prato, o velório do peixe com aquele canto, mas turba oratório,

sem mais tempo de amar, dado que fetos híbridos de feras recorrentes sanguíneas amaciam os órgãos da minha alma ausente, retilínea. Era um vez, meus quinze minutos e Inês.

Pelas duas sinistras mãos direitas


de Romiéri & eu, irmãos em Lautreámont. Sexta rotação de maio, MMVIII.

Política o amor que fazemos sem Arte é inconstitucional qual História e a vida que há em toda parte é em certa medida provisória na sufragantemente privada Democracia é público que se compra o voto secreto e capitalizando se capitula a Cleptocracia os nossos direitos de ter deveres serão para fazer mais livre o escravo enquanto negociam Três Poderes o conluio o acordo o conchavo desgovernada à vontade por decreto que o prazer mora fora da cidadania e proíba-se tudo mais menos o veto teatral é toda representatividade se para o não sentido vai o discurso até sob este estado de calamidade pois quanto à morte não cabe recurso

T.U.D.O. Manifesto (Terroristas Ultrajantes Drogados Opinam) contra a vida e pelo suicida, contra o haraquiri e pelo travesti, contra o macho e pelo racho, contra a boceta e pela punheta, contra o Papado e pelo namorado, contra o Capitalismo e pelo contrabandismo, contra a Geografia e pela periferia, contra a bandeira e pela bananeira, contra a Amazônia e pela insônia, contra a televisão e pela alucinação, contra a passeata e pelo psicopata, contra a Diplomacia e pela escatologia, contra a massa e pela carcaça, contra o Modernismo e pelo canibalismo, contra o catarro e pelo cigarro, contra a Igreja e pela cerveja, contra o avião e pelo violão, contra a capoeira e pela macumbeira, contra o fascista e pelo epicurista, contra a Economia e pela pornografia,


contra o urânio e pelo crânio, contra o cristão e pelo pagão, contra o político e pelo paralítico, contra a cereja e pela bandeja, contra o conchavo e pelo deschavo, contra o alfabético e pelo aidético, contra a academia e pela epidemia, contra a Medicina e pela morfina, contra a comunicação e pela prevaricação, contra o horário e pelo itinerário, contra a História e pela trajetória, contra o artista e pelo autista, contra o hormônio e pelo demônio, contra a Aritmética e pela poética *

ENSAIO - FLORES DO MAL : TAKES PARISIENSES [i] Ronald Augusto (*)

Desde o ponto de observação de sua água-furtada, “du haut de ma mansarde” 1, a máscara poética de Baudelaire, ou, em outras palavras, seu ego scriptor, divisa a topografia entre operosa e operística da cidade: “les tuyaux, les clochers, ces mâts de la cité”, as fiações, os cordames de mastros espetados como marcos da árdua tristeza da capital e do capital. Ensaio arquitetônico da situação espiritual pública, sob cujo teto a moda cidadã do terno e sobrecasaca pretos dramatiza uma beleza política que é expressão de uma igualdade geral. Baudelaire narra o movimento dessa população apertada em seus magros ombros pretos como uma “imensa procissão de papa-


defuntos − papa-defuntos políticos, papa-defuntos eróticos, papa-defuntos particulares. (...) A roupa do desespero (...). E as pregas na fazenda que fazem caretas e que se enroscam como cobras em volta de carne morta, não terão seu encanto oculto?” [ii]. Deparamos, assim, a silhueta metafórica da cidade como uma embarcação infernal cujo périplo (seu destino-sentido) ainda não está devidamente estabelecido. Noutro passo do poema, “L’émeut, tempêtant vainement à ma vitre”, o tumulto da vida moderna golpeia sem obter resposta a vidraça do escritório do poeta que, por sua vez e a par de um certo receio, experimenta um poderoso fascínio na observação dos “fleuves de charbon monter au firmament”, imagem metonimizada do atelier do mundo metropolitano do qual ele se sente como que teatralmente protegido. Mas a cidade é o ideograma desmesurado da visão de modernidade meditada pelo poeta − quer como anseio, quer como mal-estar −, e como decorrência, Baudelaire se sente sugado para o interior dessa vertigem, ao mesmo tempo em que modula uma mise-en-scène de recusa com relação à ela mesma. Razão pela qual, Hugo Friedrich descreve a urdidura poética dos Tableaux Parisiens como “a tentativa de evasão no mundo externo de uma metrópole” [iii]. O enfarruscado interior das coisas que constituem o estado de alma do poeta, e onde ele afunda luxuoso, entranha-se mesmo no aparente das camadas rugosas dos pavimentos da grande cidade. Em anotação à margem de “O Convite à viagem”, peça extramuros dos Tableaux Parisiens, Baudelaire, após convidar sua pequena irmã a ver “sobre os canais/ dormir junto aos cais/ barcos de humor vagabundo” (na tradução de Ivan Junqueira), nos oferece menos uma perspectiva interpretativa do que uma glosa ao seu poema: “Estes belos, grandes navios, como são embalados imperceptivelmente na água tranqüila, estes navios fortes que têm um aspecto tão ansioso quanto ocioso − será que não nos perguntam numa linguagem muda: quando embarcaremos para a felicidade?”. Podemos aventar aqui uma imagem possível para a cidade da modernidade com a qual Baudelaire se debate, visando descobrir-lhe um traço heróico, embora agônico e algo preguiçoso. A modernidade baudelairiana, embora se sabendo não-épica, deixa vislumbrar em seus subúrbios, seus trapeiros, seus dandys − atrás de cujas persianas encenam secretas luxúrias −, enfim, deixa vislumbrar em sua transitoriedade a feição frágil desta existência que se torna a representação (ou a epifania antecipatória) da antigüidade em que ela mesma se solverá. E as nuvens-rios de carvão que se elevam contra o firmamento, mais do que indicar o mundo transfigurado que começa a dar-se em espetáculo, se condensam, deste modo, como um véu opaco no intervalo entre o poeta e os quadros que depara. A correnteza-fuligem de signos, enubla, põe em causa essa concretude avassaladora através da qual o real se presta à verdade precipitada em vedar qualquer possibilidade de interpretação que a considere tão-só como um sentido. Vale frisar, ainda, que a paronomásia acústica ansioso/ocioso, materializa ao rés dos significantes o feeling do percurso poético baudelairiano. E como ressonância disso, o estribilho anafórico da invitation à sua irmã, “Là, tout n’est qu’ordre et beauté,/ Luxe, calme et volupté”, representa até certa medida o lugar instável de onde fala Baudelaire. Com efeito, do observatório de sua mansarda, Baudelaire estreita a modernidade em suas mãos. Sobre o vazio papel defendido pela brancura, ele exercita a sós e ao mesmo tempo embebido dos


estereótipos da rua − pois será preciso tropicar “sur les mots comme sur les pavês” para que suas alegorias se tornem menos rarefeitas −, o mundo da sua linguagem que, não obstante seja crítica com relação aos discursos cobertos de “pátina poética”, simula evadir-se enquanto tenta recusar a linguagem tumultuária, “le bric-à-brac confus”, de um mundo de passagens, prosaico e derrisório que, a contrapelo, encontra nele o seu maior tradutor e comentarista: Je ne vois qu’en esprit tout ce camp de baraques, Ces tas de chapiteaux ébauchés et de fûts, Les herbes, les gros blocs verdis par l’eau des flaques, Et, brillant aux carreux, le bric-à-brac confus. (...) Paris change! mais rien dans ma mélancolie N’a bougé! palais neufs, échafaudages, blocs, Vieux faubourgs, tout pour moi devient allégorie, Et mes chers souvenirs sont plus lourds que des rocs. Só na lembrança vejo esse campo de tendas,/ Capitéis e cornijas de esboço indeciso,/ A relva, os pedregulhos com musgo nas fendas,/ E a miuçalha a brilhar nos ladrilhos do piso. (...) Paris muda! mas nada em minha nostalgia/ Mudou! novos palácios, andaimes, lagedos,/ Velhos subúrbios, tudo em mim é alegoria,/ E essas lembranças pesam mais do que rochedos. [iv]

[i] As flores do mal / Charles Baudelaire; tradução e notas de Ivan Junqueira, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 316. [ii] A modernidade e os modernos; Walter Benjamin, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975, p. 27. [iii] Poesia e prosa: volume único / Charles Baudelaire; edição organizada por Ivo Barroso, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995, p. 1033. [iv] As flores do mal / Charles Baudelaire, pp. 326-327.

________________________ (*) Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004), No Assoalho Duro (2007), Cair de Costas (2012) e Decupagens Assim (2012). Assina o blog: www.poesiapau.blogspot.com e é diretor associado do website WWW.sibila.com.br


EPIGRAMA ANAGRAMA HOLOGRAMA - ANNA E ANA: Poemas de Anna Akhmátova e fotografias de Ana Pérola Pacheco

Para Aleksandr Blok Tchiôtki/ Rosário, 1914 Eu visitei o poeta ao meio-dia em ponto. Domingo. Quietude no amplo quarto e, fora das janelas, o frio

anfitrião olhava para mim! Tinha olhos daquele tipo de que a gente nunca se esquece;

e um sol cor de amoras silvestres,

melhor seria, cuidadosa, eu não devolver seu olhar. Mas me lembrarei sempre da conversa, . no meio-dia nevoento, domingo,

envolto em névoa hirsuta e azulada... Com que olhar aguçado o taciturno

naquela casa alta e cinzenta, junto aos portões do Nevá para o mar.


POEMA Viétcher/ Noite, 1912 Apertei as mãos sob o xale escuro... "Por que estás tão pálida?" - Porque hoje lhe dei a beber amargura até que ele foi embora daqui embriagado. Posso acaso esquecê-lo? Saiu daqui cambaleando, sua boca torcendo-se dolorosamente... Desci correndo, sem nem me encostar no corrimão, corri atrás dele até o portão. Angustiada gritei: "Tudo não passou de uma brincadeira. Se fores embora, morro." Sorriu docemente e, com um muxoxo terrível, disse-me: "Não fique no vento".


POEMA Viétcher/ Noite, 1912 Foi na lua nova que ele me abandonou, o meu amigo querido. E daí? Ele brincava: "Equilibrista, como hás de sobreviver até o mês de maio?" Respondi como a um irmão, sem ciúmes, sem zangas; mas, para mim, quatro casacos novos não compensam pela sua perda. Assustador é o meu caminho, e arriscado; mais terrível ainda é a estrada da saudade... Como é rubra a minha sombrinha chinesa, e são branquinhas as solas de minhas chinelas. A orquestra toca uma música bem alegre e os meus lábios formam um sorriso. Mas meu coração sabe, ah! o coração sabe que o quinto camarote está vazio.


POEMA Tchiôtki/ Rosário, 1914 Tarde da noite, em minha mesinha, a página está irremediavelmente branca. As mimosas cheiram a Nice e a mormaço; à luz da lua voa um grande pássaro. Enquanto faço as tranças para ir deitar como se amanhã ainda fosse usar tranças olho, sem suspirar, pela janela, para o mar e as suas brancas dunas. Mas que poder tem esse homem que nem sequer me pede ternura... Mal posso erguer as pálpebras cansadas quando ele pronuncia meu nome.


POEMA Biélaia Stáia/ Revoada Branca, 1917

Raramente penso em ti. Teu destino pouco me interessa. Mas de minha alma ainda não se apagou o brevíssimo encontro que tivemos.

Embora não te tenhas inclinado sobre mim suplicando-me que te amasse, embora não tenhas imortalizado o meu desejo em versos dourados,

Evito, de propósito, tua casinha vermelha,

secretamente lanço encantamentos para o futuro,

tua casinha vermelha junto ao rio lamacento; mas bem sei com que amargura perturbo a tua ensolarada quietude.

sempre que as noites são de um azul profundo, e tenho a premonição de um segundo encontro, um inevitável segundo encontro contigo.


POEMA Biélaia Stáia/ Revoada Branca, 1917 Por que finges sempre ser ora um ramo, pedra ou pássaro? Por que me estás sempre sorrindo como o raio que cruza o céu? Não me tortures mais, não me toques! Deixe-me com minhas profecias... Uma chama bêbada cintila no cinzento lodo seco. E a Musa, com o vestido rasgado, canta uma triste canção: é em sua angústia, rija, jovem, que está sua incrível força.


POEMA Biélaia Stáia/ Revoada Branca, 1917 Não somos bons de despedidas. Passeamos lado a lado, os ombros tocando-se. Já está começando a escurecer. estás pensativo, eu não digo nada. Entramos nessa igreja para ver alguém sendo enterrado, batizado, se casando; depois vamos embora, sem olhar um para o outro. Por que é que para nós nada dá certo? Vamos sentar na neve pisoteada do cemitério, suspirando de leve. Com a ponta da bengala, traçará palácios em que viveremos felizes para sempre.


SEPARAÇÃO Trostník/ Junco, 1924-40 2 E como sempre acontece nesses dias de ruptura, a nossa porta bateu o espectro dos primeiros dias e, pela janela, irrompeu o salgueiro prateado com toda a encanecida magnificência de seus ramos. E nós, perturbados, amargos mas altivos, não ousamos erguer do chão os nossos olhos. Com voz exultante, o pássaro pôs-se a cantar o quanto um do outro tínhamos gostado.


MÚSICA Siedmáia Kníga/ Sétimo Livro, 1963-64 Algo de miraculoso arde nela, fronteiras ela molda aos nossos olhos. É a única que continua a me falar depois que todo o resto tem medo de estar perto. Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar ela ainda estará comigo no meu túmulo, como se fosse o canto do primeiro trovão, ou como se todas as flores explodissem em versos.


CANÇÃO DE DESPEDIDA Siedmáia Kníga/ Sétimo Livro, 1963-64 Não ri e não cantei: fiquei o dia inteiro calada. Mais do que tudo queria estar contigo de novo, desde o começo. Irrefletida primeira briga, absoluto e claro delírio; silenciosa, insensível, rápida, nossa última refeição.


NO LUGAR DE UM EPÍLOGO Siedmáia Kníga/ Sétimo Livro, 1963-64 E lá, onde os sonhos formavam-se para nós dois - sonhos não muito diferentes iam ficando guardados. Vimos o mesmo sonho, e havia força nele, como a chegada da primavera. [Os poemas são do livro: ANNA AKHMÁTOVA - AHHA AXMATOBA: Poesia 1912-1964. Seleção, tradução e notas de Lauro Machado Coelho. Porto Alegre: L&PM Editores, 1991. As fotografias estão disponíveis no Flickr de Ana Pérola Pacheco.]


TRADUÇÃO: ALEJANDRA PIZARNIK E SAMUEL BECKETT/ NINA RIZZI E RAUL MACEDO

Fotografia sem título de Federico Erra.

POEMA Alejandra Pizarnik, Árbol de Diana. Buenos Aires: Sur, 1962. 23 una mirada desde la alcantarilla puede ser una visión del mundo la rebelión consiste en mirar una rosa hasta pulverizarse los ojos

POEMA Tradução de Nina Rizzi 23 uma olhada a partir esgoto pode ser uma visão do mundo a rebelião consiste em olhar uma rosa até pulverizar os olhos


Fotografia sem tĂ­tulo de Federico Erra.

Cascando Samuel Beckett, 1936. In: Collected Poems in English and French, S. Beckett, Grove Press, Inc. N.Y. 1977. 1 why not merely the despaired of occasion of wordshed is it not better abort than be barren the hours after you are gone are so leaden they will always start dragging too soon the grapples clawing blindly the bed of want bringing up the bones the old loves sockets filled once with eyes like yours all always is it better too soon than never the black want splashing their faces saying again nine days never floated the loved nor nine months nor nine lives


2 saying again if you do not teach me I shall not learn saying again there is a last even of last times last times of begging last times of loving of knowing not knowing pretending a last even of last times of saying if you do not love me I shall not be loved if I do not love you I shall not love the churn of stale words in the heart again love love love thud of the old plunger pestling the unalterable whey of words terrified again of not loving of loving and not you of being loved and not by you of knowing not knowing pretending pretending I and all the others that will love you if they love you 3 unless they love you CASCANDO Tradução de Raul Macedo 1 por que não simplesmente não esperar a ser a ocasião de um despojar-se de palavras não é melhor abortar que ser estéril?


depois da sua partida as horas são tão tristes sempre começarão a se arrastar demasiado breves os garfos cegamente agarrando o leito da miséria resgatando os ossos os amores antigos as órbitas preenchidas por olhos como os seus é melhor sempre breve do que jamais? negra necessidade salpicando os rostos dizendo uma vez mais nunca flutuou nove dias o amado nem nove meses nem nove vidas 2 dizendo uma vez mais se você não me ensinar eu jamais aprenderei dizendo uma vez mais existe um último tardar de vezes últimas vezes últimas de mendigar vezes últimas de amar de saber não saber simular um último tardar de últimas vezes de dizer se você não me amar jamais serei amado se eu não lhe amar eu jamais amarei um bater de palavras gastas uma vez mais no coração amor amor amor golpe de uma bomba antiga moendo o soro inalterável das palavras uma vez mais aterrado de não amar de amar e não a você de ser amado e não por você de saber não saber simular simular eu e todos os que lhe amarão se lhe amarem 3 a menos que lhe amem *


PARA TERMINAR: UM POEMA DE SERGIO PACHÁ

Lisa Fonssagrives, fotografada por Fernand Fonssagrives - Sand Fence, 1930. Michael Hoppen Gallery.

NOTURNO II Quero ficar contigo ainda e ainda, A ouvir Mahler e a noite pela estrada De coexistir nos longes desta vida, A mão na tua mão de bem-amada. Quero vogar em ti, amante e amiga, Sonhando o antigo tudo que sei nada, À sombra da Mudança que aniquila A calmaria e as naves fundeadas. Tão bom aqui e agora. Nem suspeitas Do amor que me por dentro consumindo Obriga-me a dizer quanto inexisto Se dos olhos me aparto e das perfeitas Moles tuas melenas, pois desisto De ser onde não és findar infindo. ***


PARA CONTINUAR A ELLENIZAR O YouTube não permite mais que incorporemos a maioria dos vídeos lá disponíveis. Desse modo, disponibilizamos abaixo os linques desta edição: - Vídeoclipe: Ana Orlva, Lovensong: http://www.youtube.com/watch?v=pgmZfwp83JM - Música e dança: A sagração da primavera, Stravinski: https://www.youtube.com/watch?v=XrOUYtDpKCc&feature=player_embedded [Sim, há também o excelente espetáculo de dança dirigido por Pina Baüsh!] - Filme completo 1: Um homem com uma câmera (URSS, 1929), de Dziga Vertov: https://www.youtube.com/watch?v=8Fd_T4l2qaQ&feature=related - Filme Completo 2: Hiroshima, meu amor (França/ Japão, 1959), de Alain Resnais: http://www.youtube.com/watch?v=xIr09PrAlRo - Performance: Oboroten, Olga Arefieva: http://www.youtube.com/watch?v=Y0GTNMe7djU *

Editora: Nina Rizzi Conselho Editorial: Alfredo Fressia (Uruguai/ São Paulo) António Saias (Évora/ Portugal) Eduardo Quive (Maputo/ Moçambique) Charles Ribeiro (Vitória da Conquista/ BA) Clewton Nascimento (Fortaleza/ CE) Fernando Monteiro (Recife/PE) Jota Mombaça (Natal/ RN) Lisa Alves (Brasília/ DF) Roberta Fernandes (Niterói/ RJ) Roberto Lima (Newark/ EUA) Sérgio Pachá (Rio de Janeiro/ RJ) Waleska Carvalho (Fortaleza/ CE)


Iconografia: A imagem que de contra-capa/ contra menu - que abre a edição atual é um esboço de Gustave Kimt. A imagem utilizada na capa da revista e neste expediente é uma colagem de Nina Rizzi. Design: Nina Rizzi Endereço eletrônico:: http://www.ellenismos.com/ E-mail: ellenismosrevista@gmail.com ISSN: 2316-1779

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Revista Ellenismos 23  

Amor e Revolução