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[Ano II, No. 22 - 2012] A ARTE NO PÓS-COLONIALISMO E PÓS-DITADURAS


CORRESPONDÊNCIAS, EDITORIAL

EM

LUGAR

DE

Nina Rizzi

Yinka Shonibare (britânico-nigeriano, 1963-), Gallantry and Criminal Conversation, 2002. Siga com Dangerous Games, de Marina Abramovic, da série Arte do Mundo: Histórias sobre Direitos Humanos, inspirada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 2008.

ARTE: NOVOS HORIZONTES Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 mudaram o mundo. O seu impacto na arte está, talvez, ainda nas suas primeiras fases, mas trouxe à tona novas perspectivas globais. Talvez as mais pertinentes sejam os objetivos e ideais do Pós-Colonialismo -


um movimento galvanizado pelo Orientalismo de Edward Said, segundo o qual o Ocidente tem sistematicamente construído a ideia de um Oriente subalterno e inferior ou "outro"; os países ocidentais colonizaram o mundo a partir do século XVI para explorar o potencial comercial dos territórios não ocidentais, pois embora a maioria dos países tenha agora a sua independência, a constante posição econômica dominante por parte da Europa e dos EUA geralmente coloca os interesses do Ocidente acima dos demais; o Pós-Colonialismo visa corrigir este desequilíbrio -, comparado com as lutas das sociedades em todo o mundo, as preocupações da arte ocidental - desde a academia ao Pós-Modernismo, parecem marginais. Os artistas não ocidentais, com as suas próprias heranças e agendas, estão a ficar cada vez mais em evidência. HIBRIDISMO

Anish Kapoor (indiano, 1954-), Untitled (3), 1988, Color aquatint. Siga com Inverno, de Carito e Os Poetas Elétricos.


O Objetivo do Pós-Colonialismo é igualar o estatuto econômico e cultural das sociedades não ocidentais presentes e passadas. Levanta questões de identidade, consciência étnica, classe e gênero através de um vasto espectro de circunstâncias. Para os artistas com uma herança não ocidental, com antecedentes de diáspora, colocam-se questões sobre a forma e interpretação da expressão artística e cultural. Existe um argumento de que o fenômeno do Pós-Modernismo é exclusivamente ocidental e de pouca importância para as culturas não ocidentais. Se é este o caso, então como deveremos ver a arte no século XXI? Alternativamente as liberdades de expressão geradas na pós-modernidade podem oferecer uma nova e abrangente plataforma para futuros artistas de todo o mundo. As respostas às questões levantadas pelos estudos pós-coloniais na literatura têm sugerido o hibridismo como um caminho a seguir. Artistas, tanto ocidentais como não ocidentais, têm-se inspirado nas formas artísticas para lá das fronteiras culturais. Recentemente, por exemplo, Anish Kapoor (indiano-britânico, 1954-), que nasceu na Índia, e Yinka Shonibare, que nasceu na Inglaterra de pais nigerianos, recorreram à sua herança cultural para as suas obras. Shonibare explora pinturas de cânone ocidental a partir de uma perspectiva pós-colonial, enquanto Kapoor recorre a cores e texturas da Índia nas suas obras. CAMÕES NA ILHA DE MOÇAMBIQUE Jorge de Sena, Camões Dirige-se aos seus Contemporâneos, 1973 É pobre e já foi rica. Era mais pobre quando Camões aqui passou primeiro, cheia de livros a cabeça e lendas e muita estúrdia de Lisboa reles. Quando passados nele os Orientes e o amargor dos vis sempre tão ricos, aqui ficou, isto crescera, mas a fortaleza ainda estava em obras, as casas eram poucas, e o terreno passeio descampado ao vento e ao sol desta alavanca mínima, em coral, de onde saltavam para Goa as naus, que dela vinham cheias de pecados e de bagagens ricas e pimentas podres. Como nau nos baixios que aos Sepúlvedas deram no amor corte primeiro à vida, aqui ficou sem nada senão versos. Mas antes dele, como depois dele, aqui passaram todos: almirantes,


ladrões e vice-reis, poetas e cobardes, os santos e os heróis, mais a canalha sem nome e sem memória, que serviu de lastro, marujagem, e de carne para os canhões e os peixes, como os outros. Tudo passou aqui ─ Almeidas e Gonzagas, Bocages e Albuquerques, desde o Gama. Naqueles tempos se fazia o espanto desta pequena aldeia citadina de brancos, negros, indianos e cristãos, e muçulmanos, brâmanes, e ateus. Europa e África, o Brasil e as Índias, cruzou-se tudo aqui neste calor tão branco como do forte a cal no pátio, e tão cruzado como a elegância das nervuras simples da capela pequena do baluarte. Jazem aqui em lápides perdidas os nomes todos dessa gente que, como hoje os negros, se chegava às rochas, baixava as calças e largava ao mar a mal-cheirosa escória de estar vivo. Não é de bronze, louros na cabeça, nem no escrever parnasos, que te vejo aqui. Mas num recanto em cócoras marinhas, soltando às ninfas que lambiam rochas o quanto a fome e a glória da epopeia em ti se digeriam. Pendendo para as pedras teu membro se lembrava e estremecia de recordar na brisa as cróias mais as damas, e versos de soneto perpassavam junto de um cheiro a merda lá na sombra, de onde n’alma fervia quanto nem pensavas. Depois, aliviado, tu subias aos baluartes e fitando as águas sonhavas de outra Ilha, a Ilha única, enquanto a mão se te pousava lusa, em franca distracção, no que te era a pátria por ser a ponta da semente dela. E de zarolho não podias ver distâncias separadas: tudo te era uma e nada mais: o Paraíso e as Ilhas, heróis, mulheres, o amor que mais se inventa,


e uma grandeza que não há em nada. Pousavas n’água o olhar e te sorrias ─ mas não amargamente, só de alívio, como se te limparas de miséria, e de desgraça e de injustiça e dor de ver que eram tão poucos os melhores, enquanto a caca ia-se na brisa esbelta, igual ao que se esquece e se lançou de nós. Julho 72 AS NOVAS LEIS Fernando Lemos, Teclado Universal, 1963 Atrás de qualquer porta está sempre o mar alto que me espreita Ou então a capa em que o vento abate a dúvida ou a suspeita Linhas rectas seguem cidades quebrando fazendo nós quando um homem lança mão num estrado de abelhas completamente sós Criaram-se novas leis novos modelos de calçado Fotografias com cores décors do patriarcado Mas as facas de cortar fruta que correm a praia de extremo a extremo dançam em pontas sobre o pequeno E as mães que já não sabem fazer as suas contas deitam-se ao mar pelo que vêem e julgam-no sereno Saem dos astros pés das ondas mãos a taparem os rostos os medos As fardas que andam nuas sobram armas lugares amenos


O mundo não previa tanto e esgotou-se a lotação Vão pelos canos correndo pardais cegos como convém à perseguição Criaram-se novas leis há pânico pelas nossas varandas nascem entretanto árvores nuas tantas Mas os dentes ainda são de pedra apesar da nova lei que os não respeita Embora a máquina de fazer peças para novas peças seja o mar alto que atrás da porta me espreita.

Gerald Laing (inglês, 1936), Estudo para Cappricio, 2005. Coleção particular. Em resposta aos abusos de prisioneiros no Iraque, Laing usa formas de Pop Art para simbolizar o imperialismo dos EUA e levantar preocupações sobre o seu papel político no Iraque. O uso da arte para o comentário e sátira políticos tornou-se de novo uma importante forma de expressão artística.


FRAGMENTO Henfil, Diretas Já! Ed. Record, 1984. Visitava Reagan o Brasil. Os colegas repórteres e os equipamentos das televisões NBC, CBS e ABC estavam acampados em salas e corredores cedidos pela TV Globo de São Paulo. Um dia... Um dia eu vinha chegando e notei que na porta estavam vários deles olhando para vários nossos. Na medida em que eu ia me aproximando, ia crescendo um calor na nuca, que é o que me dá quando fico constrangido. Mãe, os vários nossos estavam vestidos tradicionalmente: calças Lee, tênis Nike ou botas John Wayne, T-shirts com inscrições da Chicago University, I Love NY, Win. Os vários nossos, com seus óculos ray-ban porsches e relógios digitais fliperama, estavam reunidos a contemplar meia dúzia de Hondas, Yamahas, suas maravilhosas cilindradas e capacetes espaciais. E os vários deles? Os americanos estavam vestidos com aquelas calças de casimira, camisas brancas bem largas de algodão, sapatões de couro, meias brancas, alguns suspensórios e com as correntes dos relógios de bolso à mostra. Tudo vovô Rodrigo. Os vários nossos eram magrinhos, chupadinhos, pequeninhos e nos ouvidos portavam headphones, walkmen. Os vários deles eram fortes, grandes e nos olhos portavam um olhar... aquele olhar da gente quando contempla o filhinho de 3 anos usando de macaquice os sapatões do papai. Ai, que constrangimento. Nós vestidos como imaginamos que sejam vestidos os americanos, banhados dos pés aos ouvidos pelas lojas doshopping center. E os americanos reais ali, vestidos como nossos primos de Conceição do Mato dentro. Que respeito poderiam ter eles por nós? Que dignidade nacional podemos exibir na mesa do FMI? Era ver os olhos deles, divertidos, observando a chegada do novo mico que era eu e minha calça Levis, minha camiseta Hateras Cape e meu gingado ritaliano. Mas a que vem este romance? Vem da exigência do FMI para nos emprestarem dólares. Sem o menor pudor, exigem que facilitemos mais ainda a remessa de lucros das multinacionais para o exterior e que eliminemos as restrições ao envio de royalties (o que pagamos para usar as marcas deles nas nossas calças, camisas, carros, etc.) para o exterior.


Pois bem, que resposta deu a nação a ste ato de pura chantagem e pirataria? A mesma que vi ao lado da cena que descrevi. Os vários nossos bebendo Coca-Cola e os vários deles, os americanos, bebendo suco... o nosso suco. Quer saber? Somos uma nação de 130 milhões de Delfins Netto!

O CAVALO DE RUUSKANEN Bertolt Brecht. Poemas: 1913-1956; trad. Paulo César de Souza. Ed. 34, 2000. Ao chegar o terceiro inverno da crise do mundo Os camponeses de Nivala derrubaram árvores como de costume E como de costume os cavalos pequenos arrastaram os troncos de madeira Até os rios, mas este ano Receberam apenas cinco marcos finlandeses por um tronco, o preço portanto De um pedaço de sabão. E ao chegar a quarta primavera da crise Foram leiloadas as propriedades dos que não haviam pago os impostos no outono. E os que haviam pago não puderam comprar rações para seus cavalos Indispensáveis no trabalho da floresta e do campo De modo que as costelas dos cavalos apontavam no Pêlo sem lustre, e então o magistrado de Nivala Foi ao camponês Ruuskanen, em seu campo, e falou Com autoridade: “Você não sabe que existe uma lei que Proíbe a judiação de animais? Olhe seu cavalo. As costelas Estão à mostra. Este cavalo está doente E deve ser morto”. E foi embora. Mas três dias depois Ao voltar, ele viu Ruuskanen novamente Com seu cavalo esquálido no campo minúsculo, como se Nada tivesse acontecido e não houvesse lei nem magistrado. Aborrecido Enviou dois guardas com ordens estritas De tomar o cavalo a Ruuskanen e levar O animal maltratado imediatamente ao matadouro. Mas os guardas, puxando o cavalo de Ruuskanen Através da aldeia, viam, olhando em torno Cada vez mais camponeses saindo das casas Seguindo-os atrás do cavalo, e no fim do povoado Pararam, inseguros, e o camponês Niskanen Um homem devoto, amigo de Ruuskanen, sugeriu


Que a vila arranjasse alguma ração para o cavalo, de modo que A matança não fosse necessária. Então, em vez do cavalo Os guardas levaram consigo de volta, ao magistrado amante dos bichos O camponês Niskanen com sua feliz mensagem Em favor do cavalo de Ruuskanen. “Ouça, senhor magistrado”, disse ele “Este cavalo não está doente, apenas sem ração, e Ruuskanen Morrerá de fome sem seu cavalo. Mate o cavalo E logo terá que matar o próprio homem, senhor magistrado.” “Olhe como fala comigo”, disse o magistrado. “O Cavalo está doente e lei é lei, por isso será morto.” Preocupados Voltaram os dois guardas com Niskanen Retiraram do estábulo de Ruuskanen o cavalo de Ruuskanen Prepararam-se para levá-lo ao matadouro, mas Ao chegarem novamente à saída do lugar, lá estavam Cinquenta camponeses como se fossem grandes pedras, e Olhavam em silêncio para os dois guardas. Em silêncio Deixaram estes o cavalo velho na saída do lugar. E sempre em silêncio Os camponeses de Nivala conduziram o cavalo de Ruuskanen De volta ao estábulo. “Isto é rebelião”, disse o magistrado. Um dia depois Uma dúzia de guardas com rifles chegou com o trem de Oulu A Nivala, a vila tão agradavelmente situada Rodeada de prados, apenas para demonstrar Que lei é lei. Naquela tarde Os camponeses retiraram das paredes nuas Seus fuzis, pendurados junto aos quadros Pintados com frases bíblicas. Os velhos fuzis Da guerra civil de 1918, que lhes haviam distibuído Para usar contra os vermelhos. Agora Apontavam-nos contra os doze guardas De Oulu. Naquela mesma noite Trezentos camponeses, vindos de muitas Aldeias vizinhas, sitiaram a casa do magistrado Na colina perto da igreja. Hesitante O magistrado apareceu na escada, acenou com a mão branca e Falou do cavalo de Ruuskanen com palavras bonitas Prometendo deixá-lo viver, mas os camponeses Já não falavam do cavalo de Ruuskanen, mas sim exigiam Que os leilões cessassem e que os impostos Fossem perdoados. Amedrontado até a morte


O magistrado correuao telefone, pois os camponeses Haviam esquecido não apenas que havia uma lei, mas também Que havia um telefone na casa do magistrado, e agora ele telefonava Seu grito de socorro a Helsinque, e na mesma noite Chegaram de Helsinque, a capital, em sete veículos Duzentos soldados com metralhadoras, na frente Um tanque. E com esta máquina de guerra Foram derrotados os camponeses, açoitados na Casa do Povo Seus líderes arrastados ao Tribunal de Nivala e condenados A um ano e meio de prisão, para que a ordem Fosse restaurada em Nivala. Mas sobretudo, em seguida somente O cavalo de Ruuskanen foi anistiado Por intervenção pessoal do Ministro do Estado Em resposta às muitas cartas recebidas. outro tratado de paz nina rizzi, inédito

o espigão vai ser reformado antes que possamos ver os crepúsculos. foi lá que um deus-menino me olhou as lágrimas e seguiu pra califórnia antes que pudéssemos fazer, além de ser, amor. enquanto ele não volta, eu não voo, enquanto não me arrancam o espigão flerto co'as moças nuinhas, nuinhas, brincando de deusas.

CHIMAMANDA ADICHIE: O PERIGO DE UMA ÚNICA HISTÓRIA Nossas vidas, nossas culturas são compostas de muitas histórias sobrepostas. A escritora Chimamanda Adichie conta a história de como ela encontrou sua autêntica voz cultural - e adverte-nos que se ouvimos somente uma única história sobre uma outra pessoa ou país, corremos o risco de gerar grandes mal-entendidos: *

FRAGMENTO DE UMA OBRA INÉDITA (E QUE PERMANECERÁ NA GAVETA) Fernando Monteiro


Mesa de trabalho de Joseph Conrad.

Em 1890, Joseph Conrad foi hóspede de Roger Casement, no Congo, durante duas semanas. Eu não sabia disso, e foi a anotação de Storrs que me pôs na pista do encontro do diplomata (mais tarde enforcado) com o autor de O coração das trevas. Nas suas notas de viagem, Conrad deixou registrada a boa impressão que teve daquele anfitrião talvez interessado em obter a adesão do escritor à campanha contra os abusos sofridos pelos negros africanos. Posteriormente, mudaria um pouco a sua opinião — um pouco antes da execução de Casement, em 1916 —, ao manter a lembrança de Roger como a de um “bom companheiro em se tratando do tipo de companhia que requer uma região como a savana selvagem” (o que o sempre preciso Conrad queria dizer com essa vaguedad? Por que naquela região, e não noutras, Casement seria esse tipo — qual? — de “companheiro” para lugares como as savanas, as selvas e as cidades precárias do Congo do fim do século dezenove?)... É, no mínimo, uma coisa propositadamente desfocada, ao se escrever sobre um homem como Casement, executado pelo,


digamos, “patriotismo errado” — para os novos compatriotas do polonês autoexilado. Com as nuances conradianas típicas (ou seja, um misto de hesitação e desconfiança), ficamos sabendo que, para o ex-capitão da marinha mercante, o futuro diplomata condenado por alta traição era “muito emocional e uma personalidade verdadeiramente trágica”, conforme ainda tergiversa o criador de Lord Jim, compondo aquelas suas frases numa espécie de limiar de opinião, de limbo de impressões ao mesmo tempo desconfiadas e fascinadas diante de personalidades que se afirmam um pouco tarde demais (é o caso de “Jim”, precisamente). Ainda está para se escrever um estudo sobre o Conrad que jamais se sentiu muito seguro de haver se tornado um “inglês”, após haver deixado de ser eslavo não por completo, talvez (ou daquela forma cabal como alguém se transforma noutro, entre dois espelhos que refletem o mesmo homem, com dois rostos olhando em direções opostas, na sombra que cai sobre um convés de conversas convencionais sobre lembranças do mar “largo o bastante para nele se poder dizer a verdade”). O que Lawrence iria escrever sobre Conrad? Digo, sobre Casement? Idéia interessante, a involuntária aqui no fundo desse lapso: “Lawrence escrevendo sobre Conrad”. Pergunta: Conrad escreveu sobre Lawrence? Thomas Edward foi um personagem conradiano típico, de carne e osso: um “Lord Jim” da vida real, encarnado num scholarde Oxford. Bem, na única vez em que se referiu a Lawrence, o escritor usou quase os mesmos termos das suas impressões sobre o irlandês pendurado pelo pescoço. Isso foi ao tempo em que o “herói” retornara da louca aventura na Arábia, viajando ao lado de Ronald Storrs para Jeddah, no coração do Hedjaz cerrado entre as portas islâmicas, quando a pequena obra-prima começa com o “jovem coração em dúvida sobre si próprio — diz o capitão Conrad —, um coração sincero traído pela velhice do mundo”... As mesmas cismas do sentimento vago pregadas nas palavras como títulos de nobreza ao contrário, antecipando más notícias sobre o passado (nomes falsos, nascimentos irregulares, dívidas impagáveis, garrafas de bebida como desjejum em casas alugadas etc; a lista pode ser longa e fastidiosa). Você podia confessar ao mar o “seu segredo” – e Conrad fará sempre mistério, é claro, sobre o quão secreto é esse segredo (“murmurado para a sombra de névoa da linha de algumas palmeiras borradas pela fumaça dos nativos”), naquela sua forma de manejar o inglês para aumentar incertezas e instilar


insegurança sobre a aparente verdade de “fatos” que não são realmente o que parecem, quer como fatos reais ou inventados (que raio de luz vaga pela divisória linha divisória de gaze da literatura escrita como uma recordação borrada?)... e, lógico, ele hesita, finge que ainda não sabe se quer, mesmo, expressar uma opinião, avançar um comentário, dizer “olhe, eu estava lá, mas, bem não vi muita coisa, ou pensei ter visto algo que me impressionou porque eu era jovem”... Aqui está um homem sentado no lado escuro de algum terraço virado de face para a noite forrada do odor de jasmins e charutos caros (a hesitação se tornará parte do seu estilo de aproximação entre curiosa e temerosa das coisas). O leitor se debruça para ouvir melhor, apreender o significado de um algum segredo sobre a África — e o capitão se retira para dentro da alma misteriosa dos seus personagens, com todos os “segredos” que o mar refuga entre conchas, latas de conserva e preservativos hoje usados pelos falsos nativos das savanas ou das ilhas de sombras simplesmente poluídas, nada mais. Oh, sim, porque se tornou impossível ter um destino, e até viver uma vida real entre anúncios de excursões a ex-colônias cujos roteiros convidam para trilhar uma “Lawrence’s Journey” na Jordânia, saindo de Ákaba, no Mar Vermelho, até chegar aos recortes (de tirar o fòlego) da bela mesquita omíada de Damasco, passados os antigos aquedutos romanos, de onde se deveria seguir em frente rumo à prefeitura improvisada, de onde “El Aurens” governou (?) a cidade por alguns dias – até entrar em colapso, trocar de roupa e pedir permissão para se retirar do teatro de guerra da Frente Oriental (com Allenby ali, era mais do que nunca um teatro de preparação do ViceReinado da Índia)... Após os idealistas sonhadores, os colonialistas práticos estavam chegando para por ordem na casa alheia – essa era a velha mania mais querida da Europa hoje invadida pelos homens sem alma que não são nem ingleses nem indianos, nem britânicos nem paquistaneses trabalhando nos empregos de terceira classe para cidadãos de quinta, na Inglaterra velha como o escárnio. “Ah, meu caro! Se ele houvesse feito apenas um gesto, antes de partir”... Eu gosto — ainda — do tom conradiano típico, tão antiquado em meio às frases diretas, pronunciadas entre chicletes, por moças de botas de couro falso. Às suas frases entrecortadas podem ser atribuídos os mais obscuros significados. Suspeitas indefinidas se elevam, mas se rebaixam pelo levantar de uma linha tênue de admiração mal sugerida, numa narrativa escrita para ser um pouco confusa (não muito) no início, depois dramática e, por fim, triste como uma despedida no mar. Não sei se fui claro, mas aludo à solene enfatização de culpas vagas que disputam com a confiança (nunca inteiramente confirmada) na alma intimorata que


— ah — é uma criação da dúvida, não? Quem nos cativa não é sequer essa “alma” indecisa, ou semi-velada sobre a linha d’água de romances que quase adernam sob o peso das pausas — aquelas responsáveis pelo fascínio dos meios tons usados por quem recorda (“não muito bem, meu caro”) uma visão borrada pela chuva, entre pausas calculadas enquanto o narrador acende um charuto e lança o fósforo para trás da cadeira de vime trançado. Conrad escreveu histórias que não são verdadeiras histórias sobre heróis que não são heróis autênticos — como Lawrence. A anotação de Storrs parecia se lançar como o pirilampo desse fósforo, para trás, na noite africana em que Casement também afirmara, sem mais preâmbulos, que “W”, “X” e “Y” eram espiões em Saint James [...] *

Malangatana Valente Ngwenya (moçambicano, 1936-2011). Transcendências (s/d) óleo. 1,25 x 1m

LÍNGUA DE CÃO Eduardo Quive

Já não é carro cobrador de impostos Nós descolonizámo-lo. Já não é terror quando entra na povoação


Já não é Land-Rover do induna e do sipaio. É velho e conhece todas as picadas que pisa. É experiente este carro britânico Seguro aliado do chicote explorador. Mas nós descolonizámo-lo. No matope e no areal Sua tracção às quatro rodas Garante chegada às machambas mais distantes Às cooperativas dos camponeses. Entra na aldeia e no centro piloto Ruge militante nas mãos seguras do condutor Obedece fiel a todas as manobras Mesmo incompleto por falta de peças. - Descolonizámos o Land-Rover (…) In: Descolonizamos o Land-Rover, Albino Magaia, poeta moçambicano E começo assim este meu pacato discurso, como um verdadeiro assimilado e não falante da língua dos ma-Changana, ma-Ronga e outras etnias que faz de nós não mulungos, esta cor branca que nos torna(rá) gente nesta terra. Começo assim este devaneio que me faz lembrar de uma pergunta que me é frequente: qual é a minha língua materna? I A quem disse-me que língua materna é aquela que nascemos e nos é ensinada logo a primeira, por outras palavras, é a primeira língua que falamos. II A quem disse-me que língua materna é aquela que me foi ensinada por minha mãe. Aquela que quando ela, a minha mãe, quando queria que me dirigisse a ela, a usasse. III A minha mãe é ma-Changana, por outras palavras, a minha mãe, nasceu em Chicumbane, distrito de Xai-xai, província de Gaza, sul de Moçambique. IV Nunca se quis saber, mas vou dizer, o meu pai é também ma-Changana, em outras palavras, o meu pai, nasceu em Novungueni, local onde graças aos heróis tombados, e como marca da descolonização (o que tem a ver Novungueni com o colono?) ganhou o nome de 3 de Fevereiro (dia dos heróis moçambicanos). V


E eu? Eu nasci na Matola, província de Maputo e cá vivo. Se sou de Maputo? Bem, no meu bilhete de identidade vem “natural de Maputo”. Mas voltemos à questão: qual é a minha língua materna? VI Na verdade a primeira palavra que disse (ou que gostaria de ter dito) quando comecei a falar, foi “mamã”! E mamã que língua é? VII Volvidos bons exercícios do “mamã” fui dizendo outras coisas, como “quer água”, “quero comida”, “quer dormir com papá e mamã” e tantas outras palavras em língua portuguesa como minha mãe ensinava assim como os meus irmãos mais velhos e meu pai. VIII Saí a rua (a minha rua chamava-se rua “O”, agora, é Av. Mártires da Machava, outros heróis moçambicanos que tomaram lugar), brinquei com Netinho, Simone, Nina, Helena, Djossefa, Lulu, Florêncio entre outros. Todos eles, expressavam no moderno xi-Ronga misturado com xi-Changana, afinal, Maputo é terra dos ma-Rongas! IX O que sei é que a segunda língua, aquela a que os meus amgiso falavam, os meus irmãos disseram-me que era Dialecto. E quando a minha mãe me ouvia a falar, deva-me uma tareia dizendo “não fala a língua de cão”. Aliás, quando descobriram que eu ia falando alguma coisa daquilo, proibiram-me de sair de casa. X Quando comecei a estudar História (5ª classe) no capítulo que falava da dominação colonial portuguesa em Moçambique, vi que uma das formas dessa colonização era fazer com que os moçambicanos abandonassem a sua cultura, a tal “cultura de selvagens” e por conta disso, as línguas (como muitos outros hábitos culturais) foram proibidos e até definidas como a principal barreira para a nossa civilização. Por tanto, o xi-Changana e outras línguas nativas passaram a ser conhecidas como línguas de cães e, como tal, não podia o Homem, tido como único animal racional, falar. XI A minha mãe tal como outras mães que sabem “o que custou a liberdade” teceram que só conhecendo o Português é que se podia ser gente na sociedade. Realmente isso é um facto, descolonizado que foi o Português, já no Pós-colonial que vivia-se (ou vive-se) em que ele foi revogado como língua oficial, era de capital importância massificá-lo e fazer com que todo moçambicano o falasse.


XII Voltando a questão: qual é a minha língua materna? Bem, volvidos anos de lá até cá, aprendi que embora tenha falado a primeira o Português, ele já mais será a minha língua materna. A minha língua materna é o xi-Changana, essa língua de cão que os meus ancestrais, os vovô Txutxululu, Gutleia, Bovane, Muntimuni, Injuasse, Nlhevo e Nambita, este último meu chará de tradição, falaram. E aquela que desde ao ventre da minha mãe, me foi ensinada e hoje, falo com orgulho de poder partilhar o que sou com outros povos, ciente de onde venho. XIII Hoje, aliás, mesmo o Governo está ciente da importância das línguas nacionais ou línguas nativas, tanto que já está em implementação o ensino bilingue em todas escolas primárias. XIV Em jeitinho de conclusão, posso (ou podemos) dizer que só agora, com essa consciência, em mim (como pode ser em qualquer cidadão moçambicano), é que ultrapassamos o período pós-colonial em Moçambique. Período em faltava que nós, nos descolonizasse-mos de nós mesmos. *

Colagem de Cristina Couceiro (portuguesa, contemporânea)


PEQUENAS MEMÓRIAS ALIENADAS Roberto Lima Eu, que hoje entendo muito pouco de quase nada, naquele tempo já não entendia muito de muita coisa. Usava calças-curtas e cantava o hino nacional na escola, todos os dias, antes do começo das aulas. Era um menino católico - como todos os outros - e às vezes emprestava minha voz a um Padre Nosso meio desafinado, capenga, naquele país pré-Edir Macedo, pré-Robério de Ogum. Eu não sabia melhor. Todo sete de setembro eu desfilava na avenida - como um mestre-salas mirim - junto com uma legião de soldadinhos de carne e osso ao som de marchas militares e outros baratos afins. Às vezes um tanque nos servia de carro alegórico, e aquilo era imponente e intimidador. No palanque, homens com estrelas nos ombros, roupas engomadas e sapatos lustrosos sorriam. No rádio de ondas curtas, Dom e Ravel davam a saber que aquele era o lugar dos patriotas. "Eu te amo meu Brasil, eu te amo Meu coração é verde, amarelo, branco e azul anil eu te amo, meu Brasil, eu te amo ninguém segura a juventude do Brasil". A juventude, eu não sei, mas a infância brasileira fedia no escuro. Duvido de que pelo menos uma minoria dos meus contemporâneos tivesse consciência do que se passava no país daqueles dias. Naquele interior do interior do Brasil, eu era pequeno demais para saber que os descontentes desapareciam em porões. E que os contentes eram os homens vestidos de verde-oliva. E que eles eram truculentos, couraçados, trucidantes... Eu não sabia que o País do Futuro, no presente, não passava de mais uma republiqueta das bananas na America Latina. Eu era um passarinho engaiolado e não sabia. Infelizmente, daquela minha turma de meninos ninguém deu em grande coisa.


A minha geração foi uma das mais sacrificadas desde a colonização do país. Somos a chamada geração perdida, a que descobriu o caminho da emigração e despachou brasileirinhos e brasileirinhas para os quatro cantos do mundo. Nós nos instalamos entre os aborígenes da Austrália, entre os malditos chicanos do Texas e os brasiguaios de algum lugar mais dentro do que fora do Brasil, ali pelas cercanias de Assunção. Somos os subalternos, os estafetas, os contínuos. Somos os decasseguis, os brasucas, os expatriados. Somos aqueles que batem continência, os que abrem as portas dos carros e dos hotéis; e os que guardam o veículo e a casa alheia, os que se conformam com a sorte menor. Somos os que lavam os pratos. Os que limpam o chão. Somos os que lavam os cadáveres nos necrotérios. Os que passeiam os cães das madames. Os que servem à mesa. Os que cozinham para as bem nascidos, e muitos destes vieram tão depois de nós. Excessões? É claro que as há, como em toda regra criada pelo homem-lobo-do-homem. Mas não somos páreo para os de antes, nem para os de depois da década de 1960. Nós somos os de durante. Somos os zés e marias-ninguém deste gigante fincado na América do Sul. No grande esquema das coisas, somos uns desinfluentes quase sempre cheirando a suor e picotando o cartão de ponto em algum lugar. A minha geração nasceu condenada a ser menor. E isto, até outro dia, eu ainda não sabia. *

RE (ou DES) territorialização: patrimônios culturais ressignificados José Clewton do Nascimento

Podemos discutir o tema “pós-colonização”, no âmbito da história do Brasil, sob uma diversidade de aspectos. O mais comum, a meu ver, relaciona-se à condição de autonomia (ou não autonomia) do país, sob os pontos vista da economia, da política, da cultura, etc.


Não tenho dúvida que esses aspectos serão abordados por outras contribuições a serem dadas nesta edição. Não tenho dúvida também que acabarei, nas minhas palavras e nos meus desenhos, entrando também nestes assuntos. Alerto, entretanto, que a minha “especialização” no assunto História da Arquitetura e do Urbanismo, com ênfase em na “especialização da especialização” Patrimônio Edificado, me leva a pensar e escrever sobre o tema, a partir do grande legado que o nosso colonizador, oriundo lá da Península Ibérica, nos deixou: um vasto conjunto edificado que, seguindo uma vasta discussão acerca das atribuições de valores conferidos, são partes integrantes dos nossos bens culturais. (Neste momento, vejo a necessidade de abrir um grande parêntese para tecer a seguinte consideração: o fato de tratar do assunto de maneira específica, não significa que abro mão do caráter universalista: enquanto escrevo essas linhas, retomo em minha memória, o fantástico personagem Palomar, de Ítalo Calvino, e suas tentativas de compreender e discorrer sobre as grandes questões universais, a partir das suas observações acerca das situações vivenciadas pelo seu cotidiano...). O que trago como contribuição nestas linhas, é uma proposta de se discutir o "póscolonização" a partir do "legado deixado pelos portugueses no Brasil, que hoje constitui um vasto conjunto de nosso patrimônio cultural ( e falarei especificamente do conjunto edificado). A discussão sobre assunto girará em torno de dois aspectos: o primeiro, diz respeito ao que que motivou o reconhecimento desses bens como patrimônio cultural (os primeiros estavam relacionados aos fatos notáveis, memoráveis, excepcionais de nossa história, que necessariamente estavam vinculados ao processo de colonização portuguesa, que impôs a sua perspectiva de vida no Brasil, instituindo e construindo igrejas, cadeias, engenhos, etc; o segundo, trata de trazer alguns exemplos que buscam dar outros sentidos, outras atribuições de valores a esse reconhecimento dos espaços como patrimônio cultural, ressignificando-os. Abordarei, especificamente, dois casos: o primeiro, é o restauro do solar do Unhão em Salvador, concebido pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi. O conjunto edificado é um dos exemplares mais significativos da unidade de produção canavieira, atividade responsável pelo alto grau de desenvolvimento econômico da região do Recôncavo Baiano, da qual Salvador foi a “cabeça”. O conjunto, portanto, identificado como símbolo do poder econômico do sistema canavieiro, foi reconhecido como espeço representativo de nosso Patrimônio cultural. O restauro concebido por Lina, ressignificou o espaço “do poder”, em espaço de produção cultural, incluindo museu e uma espécie de escola de "artes e ofícios", e ainda é utilizado como espaço para apresentações musicais - como é o caso da tarde de jazz e blues, aos sábados, no largo da capela que faz parte do conjunto. A própria capela teve


seu espaço ressignificado, e compõe também o grupo de espaços destinados à exposição.

RE (ou DES) territorialização 1 – Solar do Unhão: antiga casa-sede do engenho, hoje área de exposição do conjunto do Museu de Arte Moderna, Salvador/BA

RE (ou DES) territorialização 2 – Capela e Largo do conjunto do Solar do Unhão, Salvador/BA. Espaço do Jazz e Blues, aos sábados.


O segundo caso, é o da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no distrito de Almofala, Itarema, Ceará: a capela, localizada em terras povoadas por indígenas (os famosos tremembés), foi construída no intuito de possibilitar a catequização do índios da região, ou seja, a existência da edificação revela a lógica impositiva portuguesa, via religião, de firmar território e destruir os empecilhos à sua política colonizadora. o edifício foi tombado, levando em consideração a presença portuguesa no território brasileiro. No entanto, o que deveria se tornar um marco dessa lógica impositiva para os tremembés, passou, na verdade a ser um marco (de extremo valor simbólico) na demarcação de sua territorialidade. Para exemplificar essa questão, refiro-me ao uso do espaço da praça contígua à Igreja, como espaço que os índios geralmente usam (inclusive em datas festivas) para realizarem a dança do torém, um dos principais legados da cultura tremembé.

RE (ou DES) territorialização 3 – Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Almofala, Itarema / CE. Construída o intuito de catequizar os índios tremembés, atualmente, é incoproporada pelos indígenas como espaço referencial de definição de seu território.


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QUATRO POEMAS DE LARA AMARAL [Cf.: http://laramaral-teatrodavida.blogspot.com.br/] Cabimento

Pelo que querem de mim me desconheço É uma junção de passos em linhas paralelas o corpo fundindo-se a bases de pirâmides quadrados enquadram mentes em transe Meu jeito trôpego mandam logo para o espaço concêntrico de ângulos compassados Pergunto o que há de errado em desamparadas geometrias Encaram-me com seus olhos losangulares dão-me mais de quilômetros de fitas métricas e respondem com suas vozes trianguladas: “Meça aí sua quilogonal insignificância”

Laminados


rodeados de enredos subtitulados que os outros nomeiam apontam, sussurram aos ouvidos adjacentes repletos de círculos de fogo em andaimes hasteados dizem com o que se parecem ao que aludem detalham cada linha que os amarram a horizontes desnorteados envoltos em tantos efeitos jamais saberão dizer na real o que o outro é

Calma.ria

Como ambicionam essa paz truncada de nuvens que não saem do lugar com folhas que não varrerão o asfalto? [Há ventania demais cá dentro de onde se olha a alvorada raspar a vidraça e nem chiar]


Empalhados ali, na sala de estar [onde as crianças não correm não podem esbarrar nas velas de cristal no abajur ancestral nos porta-retratos preto e brancos e monótonos] tomam chá fervente na sala temperatura ambiente queimam a língua com suas caras de paisagem enquanto olham lá fora a frente fria brevemente esboçam por baixo de seus casacos sem pele um arrepio que não lembram mais.

Da janela transversal

da parede, ver o universo girando pelo buraco ouvir, pelas vibrações da terra a mensagem os sentidos acionam-se


por pequenas centelhas porque o que mundo dá é nada para entender muita miséria e

inacabáveis sinais de fogo sem combustão para absorver *

NÃO EXISTE O PÓS-COLONIAL! Jota Mombaça


paranóia e náusea entre os povos civilizados O Pequeno Albert que erra entre cômodos, prepara armadilhas e busca a janela fecha a porta. Mil ratos, e coelhos e bonecos de pelúcia branca o habitam. Avesso a si mesmo, o menino dorme com olhos neuróticos. O Dr. Aubrey Levin decepa o sexo de órfãos saudoso ao rememorar The good old days in South Africa quando o Apartheid. Depois do Estudo de Milgram, não se soltou o botão. Bolsonaro, Conde de Gobineau, Adolf Hitler e outros iluminados… Educação Behaviorista, Eugenia, Assepsias Mentais e outras faxinas… Os cães de Pavlov somos nós.


biopolícia NÃO ME PEGARAM, AMARRARAM E ENFIARAM A MINHA CABEÇA N’ÁGUA GELADA POR REPETIDAS VEZES; NÃO DERAM CHOQUES EM MINHA GENITÁLIA OU NUMA FERIDA DE BALA QUE EU POR VENTURA TIVESSE; NÃO ESFREGARAM SAL EM MEUS OLHOS; NÃO ESTUPRARAM MINHA MULHER GRÁVIDA EM MINHA FRENTE; NÃO ASSASSINARAM MEUS COMPANHEIROS; NÃO ENFIARAM AGULHAS EM MINHAS UNHAS; NÃO ME ARRANCARAM DENTES A ALICATE; NÃO ME CURRARAM COM UMA MESA DE EVISCERAÇÃO; NÃO ME CHICOTEARAM; NÃO ME LEVARAM À RODA DO DESPEDAÇAMENTO; NÃO ME DEITARAM NO BERÇO DE JUDAS; NÃO ME LEVARAM À DAMA DE FERRO; NÃO ME FURARAM COM O GARFO DO HEREGE; NÃO TOCARAM FOGO EM MIM.


me mataram por dentro

não existe o pós-colonial no dia 10 de setembro de 2012, às 14:30, fui ao fórum - prédio imponente, localizado em algum ponto da cidade aonde é praticamente impossível chegar de ônibus - para que um juiz determinasse uma pena relativa ao meu hábito maconheiro. portas giratórias, elevadores numerados, ascensoristas, corredores, o nada das antessalas... a arquitetura organiza a cena: na sala-de-audiência, microfones apontados para todas as direções, câmeras filmando, uma cadeira no centro da arena, esperando sempre e com sede o próximo rato a cair na ratoeira. era eu, obrigado ao silêncio (que não é o silêncio


selvagem, mas o silêncio omisso) e a calçar tênis, até os olhos calados. o juiz não me olhou uma vez sequer, somente para a advogada - que me representava. era eu, sujeito de um crime sem vítima, anulado, fichado, exposto às acusações e às defesas de outrem. fui condenado a três meses de tratamento. nunca terminei de ler O Processo; jamais assisti inteiro o filme Bicho de Sete Cabeças. recebi, hoje, um e-mail com um processo administrativo anexado. a ufrn, onde estudo, também achou por bem que eu sentasse no banco dos réus. não vivi o que aqueles papéis descrevem, não da forma como descrevem - papéis timbrados, siglas, assinaturas: são documentos oficiais. mas com que oficialidade documentam a memória? o vivido não cabe em papéis timbrados (nem mesmo na memória cabe). não sei em que isso pode dar. a minha voz não cabe nos gabinetes. as pessoas que moram em ocupações públicas no centro do rio de janeiro, quando forem expulsas pela polícia de choque em nome sabe-se lá de quê ou quem, não terão para onde ir. de certo que já aprenderam a hackear a cidade, por sobrevivência. a imensa classe média proletária brasileira, confortavelmente instalada em apartamentos parcelados (os endividados são prisioneiros políticos), poderá, quando for a hora, comprar todos os imóveis que a especulação imobiliária conseguir construir às costas do lumpenproletariado. no Quilombo Rio dos Macacos, os que vivem vivem em estado de sítio. à marinha brasileira interessa que desapareçam, da forma como conseguirem, ou morram o quanto antes. em Altamira não há leitos. pescadores, agricultores, ribeirinhos e moradores das cidades impactados pela usina; guerreiros Araweté, Assurini do Pará, Assurini do Tocantins, Kayapó, Kraô, Apinajés, Gavião, Munduruku, Guajajara do Pará, Guajajara do Maranhão, Arara, Xipaya, Xicrin, Juruna, Guarani, Tupinambá, Tembé, Ka’apor, Tupinambá, Tapajós, Arapyun, Maytapeí, Cumaruara, Awa-Guajá e Karajas preparam-se para a guerra contra Belo Monte. o governo do país parece cada vez mais obstinado a dar cabo de seu genocídio. os índios armam flechas em seus arcos, brandem lanças e facões contra o holocausto que os estados unidos do Brasil ameaçam perpetrar em nome da "ordem" e do "progresso".


alguma coisa está fora da ordem e não são os caveirões, as urnas eletrônicas ou as usinas hidrelétricas; a polícia, as empreiteiras e demais indústrias beneficiadas pela destruição da amazônia, os proprietários do imenso lixo imobiliário abandonado nos centros das capitais urbanas (que agora, na esteira dos processos de gentrificação e higienização, tentam reaver)... os biocacetetes policialóides cumprem a ordem; os bancos e suas telas negras cumprem a ordem; as famílias e suas taras presas cumprem, também, a ordem. quem esperou que a democracia representativa fosse conseguir aperfeiçoar de maneira tão elegante o projeto das ditaduras? os mártires mortos pelos generais brasileiros, os torturados, desaparecidos... quem serão os próximos? os caveirões não irão trazer o brazil à paz.


auschiwitz quer dizer alagadiço remove teu comboio, salu, de dois ou três escravos nordestinos. que eu voume embora para sá viana. em 1992 eu era um saco brilhante de lixo no jardim gramacho, der Muselmann sob o sol de satã. faça uma topografia do nosso momento über crack! obture minha paisagem desolada. confine-a. a canção inexprimível da gulag, o desterro do baldo, as palavras no sumidouro, uma literatura de diásporas, mas tu, ellena… “o teu canto mais parece um silêncio”.

As imagens que ilustram o texto acima, são esculturas do chinês Liu Xue (1983), da série "We are the world"/ Nós somos o mundo [Cf.: http://blog.artron.net/space.php?uid=370391].


ENSAIOS POESIA EM TEMPO DE CÓLERA Ronald Augusto (*) Diante do genocídio judaico perpetrado pelo regime nazista em escala industrial, o filósofo marxista T. W. Adorno disse – talvez não exatamente nesses termos – que depois de Auschwitz, seria impossível escrever poesia. Há, me parece, uma dose de eurocentrismo implicada nesta afirmação. Pois ela reforça uma constatação que se pode fazer a respeito do narcisismo da civilização moderna e tecnológica, a saber, a de que graças aos muitos meios de representação surgidos no século 20 tendemos a superdimensionar todos os eventos ocorridos em seu interior. Eles se tornam como que “mais” reais, ou mais pertinentes para a nossa disposição moderna, porque estão documentados para além da memória verbal escrita. O filme e a fotografia dos acontecimentos têm o incômodo poder de substituí-los. A memória e a recepção tornam-se mais frias e consensuais à medida que a realidade vai sendo capturada de modo peremptório por esses e outros meios. Entretanto, antes de continuar, abro parênteses para dizer que não se trata aqui de negar o acontecimento do crime nazista, isto é, o comprovado genocídio do povo judeu – não obstante o auxílio da eloquência da cinematografia usada para torná-lo torpemente memorável –, pelo contrário, essa tragédia, tal como outras em que populações inteiras desapareceram e ainda desaparecem, não pode passar em branco. Assim, o tema de fundo deste texto que submeto à reflexão do leitor se restringe tão-só a problematizar o que há de espetaculoso ou de efetivamente crítico na sentença adorniana. Fecho parênteses. Mirando outros eventos do passado – digamos que por um viés politicamente correto, para o desespero de alguns –, poderíamos parafrasear a frase de Adorno na análise, por exemplo, do massacre dos povos indígenas levado a efeito por espanhóis e portugueses na conquista do novo mundo. E a lógica da mesma frase se aplicaria à história da escravidão negra e à devastação étnica e cultural do continente africano – e que persiste até hoje. Como dar crédito à poesia depois da passagem desse verdadeiro “carro da miséria” por sobre tantas vidas? Contudo, todos esses dramas passaram em brancas nuvens, ou foram jogados no fundo do atlântico. A corda rebentara do lado mais fraco. Porque, neste caso, as vítimas eram os “outros”. Os poetas não estavam atentos às impurezas da poesia. Os Lusíadas, de Camões, representam o elogio épico dessas empresas imperiais, cujo processo civilizatório não esconde um apetite sicário. Lances históricos muito remotos, às vezes falseados, às vezes escassamente documentados, nos são antipáticos, ou seja, temos dificuldade de nos identificar com eles. Por outro lado, o acervo do passado é compilado e organizado de maneira a nos convencer de que é uma “perda de tempo” dispormos da nossa liberdade de dúvida questionando,


eventualmente, as versões dos acontecimentos que os compêndios acadêmicos nos oferecem em edições tão ricamente ilustradas. Muito se discutiu a respeito da afirmação polêmica do filósofo alemão. Aos que nunca foram grandes apreciadores de poesia, a máxima adorniana tem o condão de ser um golpe de misericórdia contra os impotentes poetas, esta espécie em extinção. Outros se rejubilam de provar o contrário, isto é, que Adorno se precipitou, que foi severo demais com a “mãe” de todas as artes. Eles argumentam que a poesia ainda tem muito a dizer, pois é justamente quando o homem parece ceder ao seu impulso de morte e destruição, retroagindo à condição bárbara, que ela se faz mais necessária: a poesia se eleva como o derradeiro reduto do humano. A “infelicidade” da visão de Adorno não se sustentaria para os que suportam a noção de poesia como lenitivo, como bálsamo divino às aflições da finitude, transcendência através da palavra fundadora do ser. Mas, para além das mistificações de um lado e de outro, o importante é considerar que talvez T. W. Adorno quisesse dizer que, após aquele marco histórico, a poesia (linguagem que, a partir de sua lógica interna, e como qualquer outra, pretende renomear o mundo) começava a entrar em crise. E a poesia, como discurso metalinguístico, autocrítico, enfim, como linguagem engendrada sobre a consciência de que “palavra e coisa jamais serão a mesma coisa” (SILVESTRIN, 1994, p. 28), não poderia ficar indiferente ao que se passava a seu redor. O tempo exigia outros paradigmas poéticos, e outras filosofias. O filósofo acertou: uma concepção de poesia – já bastante retardatária poder-se-ia dizer – foi enterrada junto com os mortos de Auschwitz. Hoje, a poesia parece estar mais atenta aos seus limites. E mesmo a sua propalada inutilidade, em contraste com o mundo da mercadoria, pode ser interpretada como um sinal de distinção ou de resistência – ainda que involuntária. Os poetas sabem da dificuldade de representar um mundo cada vez mais cinematográfico e dependente dos media. A subjetividade e a esfera privada se dissolvem frente à obsessão generalizada de expor suas entranhas às luzes do espetáculo público. Não há mais sentido para a poesia do heroísmo, porque “a febre digital/ das transferências bancárias” (SALVADORI, 2004, p. 15) emasculou o que ainda restava entre nós de um “eco épico”. O mundo moderno e contemporâneo sepultou seus guerreiros e seus celebrantes. Estamos condenados, ao que parece, à idade da impertinência da poesia. Referências bibliográficas: ADORNO, Theodor W. Minima Moralia – reflexões a partir da vida lesada. Rio de Janeiro: Azougue Editorial Ltda., 2008. SALVADORI, João Angelo. Teleférico. Porto Alegre: Ame o poema editora, 2004.


SILVESTRIN, Ricardo. Palavra mágica. Porto Alegre: Massao Ohno editor/Instituto Estadual do Livro, 1994. (*)

Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004), No Assoalho Duro (2007), Cair de Costas (2012) e Decupagens Assim (2012). Dá expediente no blog www.poesia-pau.blgspot.com e é diretor associado do website www.sibila.com.br

CRÍTICA EM DUELO: a polêmica tropical entre Veloso e Schwarz Denise Freitas* Recentemente publicada pela Companhia das Letras, a reunião de ensaios e entrevistas de Roberto Schwarz, intitulada Martinha versus Lucrécia, tem suscitado releituras que, seja pela controvérsia, seja pelas agitações provocadas instigam algumas notas. O alarido se deu em razão do ensaio “Verdade tropical: um percurso de nosso tempo”, nele, encontra-se uma análise à autobiografia de Caetano Veloso,Verdade tropical, publicada em 1997. Em linhas gerais, as críticas ao ensaio demonstram certo desatino quando acusam o autor de cometer equívocos e incoerências intelectuais que somente interpretações forçosas e calcadas na irreflexão seriam capazes de alcançar. A pressa na “defesa” ao músico tropicalista parece dar o tom aos comentários relacionados ao tema. No entanto, a atitude prestimosa não se ajusta à leitura do ensaio de Schwarz, que, em toda sua extensão não enseja manifestações desse viés simplesmente porque não se manifesta através de ataques. De maneira bastante pertinente, Roberto Schwarz reflete a certa altura do ensaio (e utiliza semelhantes esquemas interpretativos em diversos momentos do texto) sobre a postura daquela geração “a volta de 1964” (SCHWARZ, 2012, p. 52) e que, conforme a descrição de Caetano Veloso experimentaria o “direito de imaginar uma interferência ambiciosa no futuro do mundo” (SCHWARZ, 2012, p. 74); conforme a conclusão do crítico, o sentimento da época, assim apresentado, indica uma “ambição de fazer e acontecer na arena internacional – em lugar de questionar essas aspirações elas mesmas” (SCHWARZ, 2012, p. 74). Aqui, me parece, evidencia-se a diversidade discursiva, ou mesmo a polifonia ideológica contidas no depoimento de Caetano Veloso, contudo, perceber nesse depoimento, mesmo que antecipadamente mais identificável com a esquerda, indícios de premissas àquela época tidas como de direita não constitui imperícia da análise de Schwarz. É importante lembrar que interferências dessa ordem, bem como ambiguidades na formulação de discursos


identitários serão perceptíveis em qualquer contexto histórico a que se dedique atenção, pois nada há estanque; por fim, em leituras como essas, há muito tempo, não vai acusação alguma. Mesmo seguidas por qualificativos como “inglório” (SCHWARZ, 2012, p. 110), as observações de Schwarz aos vestígios do discurso “dos vencedores da Guerra Fria” (SCHWARZ, 2012, p. 109) em determinadas passagens do relato de Caetano estão seguramente distantes da quase condenação histericamente alardeada por Nelson Ascher em seu texto “O crítico justiceiro” publicado, na revista Veja, mais a título de subserviência ao astro pop dos recôncavos tropicais, do que para sublinhar panoramas de divergência analítica. Numa postura sem o frouxo dos aplausos fáceis, Schwarz deixa entrever sua discordância, não apenas com o que pôde perceber como resquício de uma ideologia vencedora e autoritária, como também evidencia os limites daquilo que considera esquerda e direita. Tal postura não compromete sua posição crítica – como sugerem algumas resenhas sobre o tema – já que a obra em análise não se configura enquanto literatura somente. Pretendendo-se relato de uma experiência que marcou um período da história brasileira (em todas as suas dimensões, não apenas política), Verdade tropical deve sim ser observada em razão dos próprios conceitos aos quais se vincula, ou aos quais consegue nomear. Da mesma maneira, Roberto Schwarz, apontando a obra em análise como quase romance, não atua de maneira equívoca ao demonstrar sua percepção da desfaçatez camaleônica[1] de Caetano Veloso já que se trata (a obra) de depoimento e, portanto, legitima-se em outros territórios além daqueles propícios ao fazer literário. Ainda que, no início do ensaio, o livro de Caetano seja anunciado como “romance de ideias” ou “prosa realista” (SCHWARZ, 2012, p. 52), Schwarz rapidamente lhe institui a legenda de história tropicalista e decrônica da geração à volta de 1964, com essa medida, não perde de vista a obviedade contida na narrativa de Caetano Veloso, e aparentemente negligenciada por grande parte dos críticos da crítica, sendo depoimento, pode ter reconhecidas, ou não, suas qualidades estéticas, mas não pode ser considerado sem a dimensão histórica que encerra – e nisto Schwarz acerta, pois evidencia essa perspectiva. Além disso, o autor do ensaio reconhece a atualidade de onde fala; sem reservar espaços a afecções, seu estudo ressuma um Brasil sem revolução, com a experiência de vinte anos de governo ditatorial, e amargando quase trinta anos de impunidade aos desmandos e violências praticados por esse governo inconstitucional – mesmo tendo assistido a uma significativa sucessão de governos filiados ao ideário de oposição àquele período. De seu texto infere-se a falta, na equação operada por Caetano referente à época do Tropicalismo, de atualização ou de reformulação dos sentidos atribuídos à esquerda que – assim como os atribuídos ao seu lugar de oposição, a direita – acabaram se mostrando insuficientes para a nomeação dos fenômenos experimentados naquele período e nas décadas subsequentes.


O matiz opositor explicitado no título do livro ressurge na faceta dualista utilizada para a abordagem dos fenômenos destacados ao longo do ensaio. Resta saber em que medida essas ponderações de caráter dualista poderiam ser visualizadas a partir de outra representação que não a da oposição. Isto é, seria legítimo esperar que se negligenciasse a perspectiva da dualidade numa abordagem dedicada ao relato dessa experiência artística (o tropicalismo) estreitamente vinculada a um período histórico no qual praticamente a totalidade das iniciativas de reflexão sobre aquele momento seria imediatamente transposta ao cenário da violenta disputa político-ideológica? Recuperando a Marc Bloch sua assertiva de que “para o desespero dos historiadores, os homens não têm o hábito, a cada vez que mudam de costumes, de mudar de vocabulário” (BLOCH, 2001, p. 59) é possível que tenha faltado, tanto a Caetano Veloso – na fatura de seu relato, Verdade tropical – quanto à boa parte da crítica dedicada ao ensaio de Schwarz alcançar uma outra dimensão aos vocábulos envolvidos nas legendas esquerda e direita. A partir daí, a pertinência de uma ponderação na qual, considerando limites, contradições e precariedades extraídas à leitura de Verdade tropical, a interpretação de Schwarz (e toda interpretação é uma possibilidade) estivesse mais ocupada em tornar nítidas as ambivalências discursivas que passaram a tomar o lugar daquela dualidade cujos agentes até então haviam pretendido delimitar com nitidez, do que em acusar ou condenar suas manifestações. Afinal, o próprio Schwarz considera que uma imagem totalizante da esquerda da época não corresponderia à realidade. Com efeito, as incompatibilidades ideológicas descritas por Caetano estariam mais bem dimensionadas à medida que relativizassem os diferentes componentes daquele grupo cuja amplitude não conseguiria escapar à diversidade. Enquanto se sobrepõe, no emaranhado de releituras seguidas à publicação de Martinha versus Lucrécia, uma incoerente salvaguarda à imagem do músico e escritor, ele mesmo, embora escape ao recalque daquela crítica protecionista de plantão, tropeça na infantilidade incompatível com as representações que Roberto Schwarz entrelaça em sua análise, e faz birra numa entrevista em que, para concluir suas distorções, apresenta o descabido argumento de que Schwarz teria chegado tarde para a crítica de seu livro, reproduz assim o lugar-comum, e vazio, do imediatismo. Ora, se o tempo comprometesse a importância de qualquer análise ou reflexão, não passaríamos de felizes (?) desmemoriados, sem acesso aos prazeres da tradição, que em seu conjunto é reivindicada a cada leitura. [1] Numa de suas resenhas, Euler de França Belém sinaliza uma incoerência teórica de Roberto Schwarz na forma como problematiza a narrativa de Caetano Veloso, negligenciando alguns de seus principais componentes, quais sejam, relato memorialístico e depoimento.

Referências bibliográficas:


BLOCH, Marc. Apologia da História, ou, o Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. SCHWARZ, Roberto. Martinha versus Lucrécia: ensaios e entrevistas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

[*] Denise Freitas nasceu em Rio Grande (RS). Professora, Escritora e Historiadora. É

autora de Misturando Memórias (2007); Mares inversos (2010); está entre os autores que compõem a Antologia poética: Moradas de Orfeu (Letras Contemporâneas, 2011); possui publicações em diversas revistas e sites literários, dentre os quais Revista Sibila, Musa Rara, Revista Modo de Usar, etc. Escreve no blog: www.sisifosemperdas.blogspot.com *

A NOVÍSSIMA POESIA - LISA ALVES


Estéril Coletivo Ignorar o cheiro dessa maresia – ser tão antidionisíaco. Fechar o corpo ao calor dos trópicos. Cegar-se, perfurar a íris com versículos e leis. Atravessar o instinto, enjaular-se, calar o bálsamo terra-e-água. Abrigar-se por signos: crucifixos e ideais. Eis aqui um Eunuco. Filhos de Madalena Alastra-se um cobertor virótico nesse solo. Quem dorme não terá mais chance de dizer: “Bom dia!” Fazemos nossa parte: vendemos nossas vidas. Hoje nossas genitálias rendem o prato do dia. Renascença Quando a vida florescer sobre os escombros de um planeta demarcado pela bandeira da indiferença e nossos filhos não ingerirem o veneno fastfoodiano – renasceremos como borboletas em uma metamorfose além de Kafka. Quando as fronteiras da Terra forem abertas e exterminarem essa falsa cultura made in– confraternizaremos como uma irmandade terráquea. A América que conheço não tem nenhum tio chamado Sam. A América que cresci foi desertificada por um sonho que não é meu, que não é seu e nunca foi nosso. Nosso desejo de evolução não pode ser reproduzido por uma indústria. Nossas conquistas não podem ser resumidas na capacidade de adquirir coisas. O único 11 de setembro lastimável foi o de 1973. A palavra liberdade não pode ser representada por uma estátua. Eu não odeio o Norte – eu odeio a imposições, os embargos, a dominação. Salvemos nossa essência – Renascença!


Quadro de Avisos Há tempo de chuvas e guarda-chuvas Há tempo de secas e tempestades de areia Há tempo de sorte e milagres na mesa Há tempo de mesmices e singularidades Os tempos se conectam, fundem-se no hermetismo da vida. A criança de ontem abre o caderno de economia A mãe sai as seis e retorna no final da noite O padre estuda o evolucionismo A indústria que degrada usa selos de sustentabilidade

E acreditamos em nossas coincidentes diferenças (usamos o mesmo céu e rezamos a mesma cartilha) Discutimos comportamentos, aceitamos as imposições ( o homem mais rico do mundo continua certo) Há tempo de indiferença Há tempo de alienação Há tempo de injustiças A iniciativa privada priva-nos de qualquer iniciativa O novo é cativante e nos cativa nas algemas consumistas Há tempo de reformas Há tempo de mudanças Há tempo sem tempo O louco escreve prognósticos catastróficos, mas estamos em tempos de paz O capitalismo selvagem é civilizado, domesticado, mas somos nós que comemos a ração costumeira. Há tempo de pensamentos Há tempo de inquietações Há tempo de bandeiras Há tempo de poesia


Cairá a forma dominante das contradições? Estaremos em estado de arte? Haverá a ditadura do livre-pensamento? Seremos livres? Drummond avisou: No meio do caminho tinha uma pedra... E a pedra é enorme. A Marcha Retirar os olhos ao assistir o surgimento das chagas. Prever a queda e aprofundar a cova. Rasgar as fotografias, queimar os livros e riscar os discos do Pink Floyd. Beber toda a panaceia do mundo e testemunhar a convalescência coletiva. Rezar novena depois do golpe. Assinar contratos, brindar com o Mefisto. Pagar o dízimo e livrar-se das dores de consciência. Purificar as mãos, perverter a consciência. Cantar hinos glorificando personagens fictícios. Fazer juramentos, dedos cruzados. Torna-se um vestido, um terno e duas gotas de Chanel. Comprar fazendas, marcar o gado. Uniformizar, reformar, restaurar, reerguer antigas estátuas. Filmar-se, mostrar os dentes, doutrinar a língua. DIREITA & ESQUERDA, DESCANSAR! O Brado Entre a sede e o vício fico com a boca estéril e o estômago vazio. Lá fora a desarmonia Aponta o dedo e trama um novo bode – totalmente expiatório. Eu nunca estimei os muros e muito menos os blocos. Não abrigam – só apartam.


Há sede e vício nessas veias paralizadas. Há dívida de viciado com a nau traficante. Movimente a hemoglobina Oxigene as têmporas Sanguessuga é a velha União Europeia ou o louco Tio do “Times is money”?

Declarações Moribundas Éramos filhos de gerações – que não geravam ações, apenas a experiência de erros que não deveriam ser repetidos. Éramos muitos: fardados, naturalistas, modistas e contra tudo que fosse dito proibido. Éramos luz e trevas ao mesmo tempo – e ainda assim ajoelhávamos nas catedrais espirituais em busca de alguma salvação. Éramos príncipes, plebeus e às vezes democratas que sacudiam as ruas com placas e faixas reivindicando alguma mudança na consciência coletiva. Éramos trabalhadores e acreditávamos que a carga horária do dia nos tornaria a futura elite do país. Éramos bárbaros – matávamos por comida e por um pouco de fogo e sexo Éramos pré-colombianos, pré-greco-romanos, pré qualquer coisa escrita pela história oficial. – e ainda tiveram a ousadia de nos catequizar, estuprar e classificar nosso chão de Brasil Colônia. Éramos revolução industrial: fábricas, camponeses em áreas urbanas, favelas crescendo, densidade demográfica, fome, miséria e falta de saneamento básico. Éramos anarquistas, comunistas, populistas e fazíamos reuniões politico-intelectuais sem ao menos sentirmos no paladar o gosto do feijão requentado. (ou até a falta do mesmo)


Éramos padres e madres – rezávamos antes mesmo do sucumbir do sol e em noites enluaradas éramos insistentemente perseguidos pela voz do Demônio da Luxúria. Éramos Ladys e gentlemans – frequentávamos as melhores festas, fumávamos charutos contrabandeados e no final do mês nossos cheques especiais estavam estourados. Éramos artistas marginais – escultores, pintores, escritores e compositores. Até o dia em que a Indústria Cultural levantou uma cerca e transformou as grandes obras em linhas de produção. Éramos leais militares – direita, esquerda, volver! Nossa marcha era conduzida pelo patriotismo, idiotismo – Fascismo!? Éramos a pequena burguesia – cidadãos médios, assalariados, diplomados, comungados – Conformados!? Éramos tudo isso – um bando de ações que viciaram gerações. ***

expediente

Editora: Nina Rizzi Conselho Editorial: Alfredo Fressia (Uruguai/ São Paulo) António Saias (Évora/ Portugal) Eduardo Quive (Maputo/ Moçambique) Charles Ribeiro (Vitória da Conquista/ BA) Clewton Nascimento (Fortaleza/ CE) Fernando Monteiro (Recife/PE) Jota Mombaça (Natal/ RN) Roberta Fernandes (Niterói/ RJ) Roberto Lima (Newark/ EUA) Sérgio Pachá (Rio de Janeiro/ RJ) Waleska Carvalho (Fortaleza/ CE) Iconografia: A imagem que de contra-capa/ menu - que abre a edição atual é Cidades Internas, poema de Fernanda Meireles sobre desenho de Ramon Cavalcante; A imagem utilizada na capa da revista e neste expediente é uma colagem de Nina Rizzi. Design: Nina Rizzi


Endereço eletrônico: http://www.ellenismos.com/ E-mail: ellenismosrevista@gmail.com ISSN: 2316-1779

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Revista Ellenismos - 22