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corrente contínua ANO XXX - Nº 219 - MARÇO/ABRIL - 2008

A REVISTA DA ELETRONORTE

Uma gota, um riacho, um rio, um lago, um mar...

A água que corre para nós, corre o risco de secar Nos reservatórios hidrelétricos, qualidade e usos múltiplos

Eletronorte


SUMÁRIO

TRANSMISSÃO Energia de Tucuruí chegará a Manaus e Macapá Página 3

ENTREVISTA Edson Lobão, ministro de Minas e Energia Página 28

ENERGIA ATIVA Página 34

MEIO AMBIENTE

CORRENTE ALTERNADA

Sede de quê? - Página 14

Página 12 e 41

CIRCUITO INTERNO Qualidade de vida no trabalho Página 42

TECNOLOGIA Soluções bioenergéticas

GERAÇÃO As custosas termelétricas Página 22

Página 48

AMAZÔNIA E NÓS Página 56

CORREIO CONTÍNUO Página 58

FOTOLEGENDA Página 59 Conselho Editorial: Diretor-Presidente - Carlos Nascimento - Diretor de Planejamento e Engenharia - Adhemar Palocci - Diretor de Produção e Comercialização - Wady Charone - Diretor Econômico-Financeiro - Astrogildo Quental - Diretor de Gestão Corporativa Manoel Ribeiro - Gerentes Regionais - Coordenação de Comunicação e Relacionamento SCN - Quadra 06 - Conjunto A Bloco B - Sala 305 - Entrada Norte 2 Empresarial: Zenon Pereira Leitão - Gerência de Imprensa: Alexandre Accioly - Edição e Reportagem: Alexandre Accioly (DRT 1342-DF) - Bruna Maria Netto (DRT 8997-DF) CEP: 70.716-901 - Byron de Quevedo (DRT 7566-DF) - César Fechine (DRT 9838-DF) - Érica Neiva (DRT Asa Norte - Brasília - DF. 2347- BA) - Jéssica Souza (DRT 1807-PA) - Márcia Oliveira (DRT 1.116-MT) - Michele Fones: (61) 3429 6146/ 6164 Silveira (DRT 11298-RS) - Viviane Vieira (DRT 543-RO) - Núcleos de Comunicação das e-mail: imprensa@eln.gov.br unidades regionais - Fotografia: Alexandre Mourão, Roberto Francisco, Rony Ramos, site: www.eletronorte.gov.br Núcleos de Comunicação das unidades regionais - Foto da capa: Rony Ramos - Arte da contracapa: Sandro Santana - Tiragem: 10 mil exemplares - Periodicidade: bimestral

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Prêmios 1998/2001/2003


César Fechine Finalizada em 2006, a Usina Hidrelétrica Tucuruí continua a sua expansão para garantir o suprimento de energia elétrica ao Sistema Interligado Nacional - SIN. A Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel publicou no dia 31 de março de 2008 o edital para a licitação da linha de transmissão Tucuruí-Macapá-Manaus, necessária à interligação energética dos sistemas isolados do extremo norte, e para diminuir o elevado custo dos parques termelétricos. A sessão pública de realização do leilão ocorrerá no dia 27 de junho de 2008, às 10 h, nas instalações da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro.

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TRANSMISSÃO

Energia de Tucuruí vai tirar Manaus e Macapá da dependência termelétrica

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O projeto da interligação faz parte do Programa de Expansão de Transmissão – PET 2008-2012, elaborado a partir de estudos de planejamento desenvolvidos pelo Ministério de Minas e Energia, por intermédio da Empresa de Pesquisa Energética – EPE, que reúne o conjunto de instalações planejadas na rede básica e demais instalações de transmissão a serem incorporadas ao SIN. O PET é desenvolvido em conjunto com as empresas concessionárias do Setor Elétrico, com o objetivo de relacionar as obras necessárias à expansão da rede básica, buscando o atendimento com confiabilidade, segurança e menor custo. O projeto do “linhão” Tucuruí-MacapáManaus também integra o Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, criado pelo Governo Federal para incentivar os investimentos em infra-estrutura, estimular os setores produtivos e levar benefícios sociais para todo o Brasil. Os estudos preliminares sobre a viabilidade da interligação de Tucuruí a Manaus (AM), contemplando o Estado do Amapá, surgiram no final da década de 80. Mas somente com a aprovação do Plano Estratégico para o Desenvolvimento da Região Amazônica Sustentada, pela Diretoria Executiva da Eletronorte, em abril de 2003, eles prosseguiram. O Plano deu início aos trabalhos de campo e à elaboração dos primeiros relatórios sobre a viabilidade da interligação energética da Hidrelétrica Tucuruí com os sistemas isolados de Manaus e Macapá. Os estudos continuaram em 2004, quando foram aprovadas as leis nº. 10.847 e nº. 10.848, que instituíram o novo marco regulatório do Setor Elétrico. A EPE foi efetivamente constituída em 2005, quando o governo retomou o planejamento e os estudos de expansão dos sistemas elétricos. Em 2007, o projeto do linhão foi retomado e apresentado ao MME, EPE e Aneel. As empresas que integram o Grupo Eletrobrás, o Grupo Rede e consultorias contratadas junto a instituições tais como a Universidade de Brasília (UnB) foram parceiras dos estudos. “O trabalho foi desenvolvido pela Eletronorte, com contribuições importantes dos colegas de Furnas, da Chesf e de especialistas de outras instituições e exigiu, sobretudo, grandes esforços da nossa equipe”, diz João Neves Teixeira Filho, superintendente de Planejamento de Expansão da Eletronorte.

Viabilidade - Desde então foram desenvolvidos quatro relatórios. O primeiro refere-se ao estudo de viabilidade técnico-econômico; o segundo ao detalhamento das alternativas, que compreende os transitórios eletromagnéticos, curtos-circuitos e condutores econômicos; o terceiro estudo é a caracterização e análise socioambiental, com dados sobre o corredor estudado; e o quarto é o relatório que descreve a rede existente e as necessidades de novas instalações. Esses quatro relatórios compõem o estudo de viabilidade da interligação Tucuruí-Macapá-Manaus, que prevê o seguinte: a linha terá 1.472 quilômetros de extensão em tensão de 500 kV, circuito duplo; e 339 quilômetros de linhas em 230 kV, também em circuito duplo, que são as derivações para abastecer o Amapá, totalizando 1.811 quilômetros. A capacidade de transporte da linha é inicialmente de 1.730 MW, podendo ser expandida para 2.530 MW. Isso se deve ao fato de o estudo prever a utilização da tecnologia da compensação série, que permitirá um ganho de 800 MW, o que equivale à construção de um terceiro circuito sem nenhum impacto ambiental. Os investimentos totais previstos para a implantação da linha são da ordem de R$ 3 bilhões. “A linha vai se pagar em pouco


em tensão de 500 kV, e custo de R$ 560,2; e Itacoatiara-Cariri, em Manaus, com 211 quilômetros e custo de R$ 343,1 milhões, mais as subestações associadas Itacoatiara e Cariri. Alternativas - Os cuidados com a preservação ambiental e o detalhamento das diversas alternativas para o traçado da linha foram as principais preocupações dos técnicos envolvidos com o projeto. Os profissionais da Eletronorte participaram durante o ano de 2007 de diversas apresentações e debates sobre o projeto da linha com a Aneel e o Operador Nacional do Sistema Elétrico – ONS. A Aneel contratou uma consultoria da Universidade de São Paulo – USP, que fez muitas indagações sobre os estudos. “Esses questionamentos foram todos respondidos e alguns valores foram agregados aos estudos, buscando uma convergência de idéias”, relata João Neves (foto acima). Nessas reuniões foram esclarecidas questões referentes à travessia do Rio Amazonas, à tecnologia a ser empregada para essa traves-

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mais de um ano, pois só o custo com combustível fóssil passa de R$ 2 bilhões por ano nos sistemas Manaus e Macapá, além de o fornecimento passar a ser feito, predominantemente, com energia limpa e renovável”, explica João Neves. A licitação do “linhão” ocorrerá em três lotes. O primeiro lote inclui as linhas de transmissão Tucuruí II-Xingu, de Tucuruí a Altamira, no Pará, orçada em R$ 402,4 milhões, com 264 quilômetros de extensão e tensão de 500 kV. Esse lote inclui também a linha XinguJurupari, na margem esquerda do Rio Amazonas, ao custo de R$ 405,5 milhões, com 257 quilômetros, mais as subestações Xingu e Jurupari. O segundo lote será formado pela linha Jurupari-Oriximiná, no Estado do Amazonas, com 370 quilômetros de extensão em 500 kV e investimentos de R$ 560,2 milhões. Este lote também contempla os trechos JurupariLaranjal, no Amapá, com 95 quilômetros em 230 kV e custo estimado de R$ 76,9 milhões; Laranjal-Macapá, com 244 quilômetros e custo de R$ 182,7 milhões, além das subestações Oriximiná, Laranjal e Macapá. O terceiro lote será formado pelas linhas Oriximiná-Itacoatiara, com 370 quilômetros

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Manaus à esquerda e Macapá à direita: potencial de Tucuruí: se expande pela Amazônia

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sia, o porquê do circuito duplo, a contrapartida de geração elétrica em Manaus, a contrapartida de fornecimento de gás em Manaus, o efetivo a ser considerado, entre outras. Após os debates, a Aneel entendeu que há de fato a viabilidade da linha de transmissão e encaminhou o projeto ao Tribunal de Contas da União – TCU, como de rotina, para uma análise crítica sobre a questão ambiental e sobre a viabilidade econômica do empreendimento. A demanda foi deferida pelo Tribunal. Os custos do estudo de viabilidade da linha são estimados em R$ 2 milhões, que deverão ser ressarcidos pelo concessionário que arrematar o empreendimento em leilão. Além de várias horas de sobrevôos, foram realizadas análises de mapas cartográficos, imagens de satélites, que constituem uma verdadeira radiografia da região, buscando consistência para se chegar à alternativa menos impactante. “A maioria dos estudos foi feita em nosso laboratório de geoprocessamento”, informa o geólogo Gustavo Chedid de Oliveira Lima, da Gerência de Estudos e Projetos Ambientais para Sistemas de Geração de Energia Elétrica da Eletronorte. Ele participa desde 2003 dos estudos de caracterização e análise socioambiental. Os técnicos utilizaram uma matriz em que foram ponderados os fatores positivos e negativos para o traçado da linha. O que se buscou foi eliminar as alternativas menos atrativas, como trechos de corredor sem apoio logístico, que foram descartados. Na Amazônia, há trechos de floresta em que se percorre centenas de quilômetros sem qualquer estrada e sem qualquer apoio logístico. Esses desafios,

Seminário debate implantação da parcela variável Observar fatores como a exposição ao risco no gerenciamento de ativos, fazer do gerenciamento da manutenção uma estratégia empresarial e procurar a eficiência da logística de manutenção e a disponibilidade de equipamentos na melhoria do desempenho do sistema elétrico. Essas são algumas das constatações do Seminário Internacional de Gerenciamento de Ativos, Manutenção da Transmissão e Desempenho do Sistema Elétrico – Sigamt, realizado em Brasília, sob a coordenação da Eletronorte. O evento reuniu mais de 300 profissionais de empresas públicas e privadas do Setor Elétrico, órgãos reguladores, centros de pesquisas, universidades, fabricantes e representantes de diversas instituições da América do Sul, propiciando o intercâmbio de informações. “As experiências apresentadas vão ajudar as empresas a buscar melhorias na gestão dos seus processos empresariais e na operação e manutenção”, afirmou Josias Matos de Araújo, superintendente de Engenharia de todavia, foram contornados com o aprofundamento dos estudos. Inicialmente foram consideradas seis alternativas para o traçado da linha. O tipo de vegetação e o uso do solo foram pontos relevantes na definição das alternativas. Por exemplo, se havia uma alternativa em que a linha se confrontava com a floresta ou com várzea, e outra em que havia pasto ou capoeira, a opção era sempre pela última.


Corredor de estudo - A prioridade do traçado foi dada às áreas em que havia estradas ou zonas urbanas. “Sempre que possível, foi colocada como diretriz preferencial que o traçado da linha de transmissão passasse próximo a estradas, cidades, portos e seguisse o contorno dos grandes rios, onde balsas possam chegar com equipamentos pesados”, informa Gustavo. Quando se observava a interferência em áreas legalmente protegidas, tais como terras

indígenas e unidades de conservação, buscava-se alterar o traçado. Os fatores constantes da matriz que balizou os estudos também foram considerados para se fazer os desvios necessários e, nos trechos de florestas densas, está prevista a utilização de torres alteadas e de helicópteros durante a etapa construtiva. “Eu diria hoje que essa alternativa é inquestionável, porque nós observamos os aspectos econômico, téc-

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Operação e Manutenção da Transmissão da Eletronorte e coordenador-geral do Sigamt. O tema recorrente entre os palestrantes foi a implantação da Resolução nº 270 da Aneel, que trata da chamada Parcela Variável, a ser efetivamente adotada a partir de junho de 2008. A Parcela estabelece as disposições relativas à qualidade do serviço prestado pelas empresas de transmissão, associada à disponibilidade das instalações integrantes da rede básica. A preocupação com os impactos da resolução mobiliza as empresas do Setor Elétrico.

Durante o evento, o diretor de Produção e Comercialização da Eletronorte, Wady Charone, defendeu no evento o gerenciamento estratégico da manutenção da transmissão para superar os desafios. “Eu diria que, agora, nós estamos encarando algo muito importante: quais são os nossos riscos? Temos um cenário no Setor Elétrico que impõe novas regras e mudanças, tais como a parcela variável. E temos que investir na mudança de comportamento, de cultura”, disse. A Parcela Variável, conforme explica Josias, foi um dos temas motivadores do evento. “Sempre que um equipamento ficar indisponível, a empresa será penalizada. Então, nós queremos compartilhar experiências com outras empresas de transmissão para juntos melhorarmos as nossas práticas e os nossos resultados.” Roberto Gomes, diretor de Administração do Serviço de Transmissão do Operador Nacional do Sistema Elétrico – ONS ressalta que, com a vigência da Resolução, as empresas precisarão aumentar os investimentos na engenharia de manutenção e nas técnicas de monitoramento e prevenção. “O que nos interessa é trabalhar para que o sistema não caia. A meta ideal é trabalharmos com uma disponibilidade de 100%. Não queremos penalizar o transmissor. O que precisamos, todos, é prestar um serviço adequado para a sociedade brasileira”, esclarece.

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nico, mas, sobretudo a questão ambiental”, reforça João Neves. Os investimentos previstos para mitigar os impactos ambientais e preservar o meio ambiente na implantação do “linhão” são da ordem de R$ 190 milhões, incluídos os custos de implantação de infra-estrutura e outros necessários para minimizar esses impactos. O relatório de caracterização ambiental considerou um corredor de estudo com 20 quilômetros de largura, o que possibilita uma análise detalhada e uma representação numa escala adequada das grandezas da Amazônia. A diretriz da linha será planejada dentro desse corredor de estudo e o licenciamento ambiental deverá ser feito pelos concessionários vencedores dos leilões.

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Travessia - Um dos pontos fundamentais nos estudos diz respeito à travessia dos rios da Amazônia. Há determinados pontos em que o Rio Amazonas tem até dez quilômetros de largura, mas há pontos mais estreitos, com ilhas no meio. A alternativa contemplada no projeto do “linhão” prevê a travessia pela Ilha de Jurupari, próximo à foz do Rio Xingu, à margem esquerda do Amazonas. Neste trecho, há um vão de 1,6 mil metros até a Ilha. A linha passará por ela, alcançando a margem esquerda do Amazonas após uma travessia de dois mil metros. A alternativa prevista no projeto considerou também a densidade de circuitos por extensão de corredor. No futuro, com a exploração de outros potenciais energéticos, há a probabilidade de se acrescentar um terceiro circuito à linha, usando o mesmo corredor

de estudo e diminuir a extensão da área de servidão, evitando desmatamentos ou cortes seletivos. Os investimentos necessários para as travessias dos rios são estimados em R$ 150 milhões. Além do Amazonas, destaca-se a necessidade de outras grandes travessias, tais como as dos rios Trombetas e Uatumã. No Rio Trombetas, a travessia também será feita por meio de uma ilha com dois vãos de 950 metros e quase 1,2 mil metros. Já a distância a ser vencida no Rio Uatumã é de cerca de 2,2 mil metros. O estudo prevê que as travessias serão feitas ponto a ponto, com um vão único de uma margem a outra. Neste caso, as torres poderão alcançar cerca de 220 metros de altura – equivalente a um prédio com 73 andares, com o objetivo de permitir a navegação plena nos rios. Mas há outra alternativa, conforme foi feito pela Eletronorte há 23 anos no Rio Guamá, na linha que sai de Vila do Conde para Belém. São 1,8 mil metros de travessia, feita com uma torre intermediária dentro do leito do rio. Hoje, com as tecnologias modernas de ligas de alumínio e cabos flexíveis, é possível projetar linhas de transmissão com vãos ainda maiores. “Por exemplo, se houver um vão de dois mil metros, pode-se usar duas torres intermediárias a 500 metros de cada uma das margens, encurtando o vão principal para cerca de mil metros”, opina Neves. Regionalização - Outro aspecto levantado nos estudos é a chamada regionalização, que vai consumir recursos da ordem de R$ 180


milhões. Esses são os custos adicionais para se instalar os equipamentos e a infra-estrutura da linha na região amazônica. Ou seja, apesar de utilizar o que já existe na região, sempre é preciso fazer algumas estradas, estruturas de portos, aeroportos, pequenas vilas e pequenos hospitais, que ficarão para as comunidades. São investimentos que estão embutidos no custo da obra, comenta João Neves, mas que serão transformados em benefício para a Amazônia. Nos estudos houve também grande preocupação dos especialistas com os aspectos socioeconômicos e de se fazer a interligação de modo sustentado. Será criada toda uma infra-estrutura na região que passa por Altamira, pelo Rio Xingu, pela Ilha Jurupari e

desce pela margem esquerda do Amazonas, na região chamada de Calha Norte, passando por Almeirim, Alenquer, Monte Alegre, Oriximiná, Faro, Itacoatiara e Manaus. A previsão é que a interligação ocorra no final de 2011. A carga prevista para Manaus e o Amapá naquele ano será de 1,6 mil MW. A geração da região, considerando o gás natural e a conversão das máquinas térmicas, é estimada em cerca de 800 MW. Mesmo que seja implantada uma nova planta de ciclo combinado de 240 MW, ainda haveria um déficit da ordem de 600 MW, que só poderia ser atendido com combustível fóssil. Com a entrada em operação da interligação, grande parte dos sistemas isolados da Região Norte estará conectada ao SIN, per-

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Para atravessar os rios, ilhas e elevados serão usados na instalação das torres

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mitindo a substituição da energia gerada pela queima de combustíveis fósseis por energia de origem principalmente hidráulica, de menor custo e limpa. A interligação dos estados do Amazonas, Amapá e oeste do Pará vai gerar uma economia para o País com a redução da Conta de Consumo de Combustíveis -CCC dos sistemas isolados em cerca de R$ 2 bilhões por ano em valores de hoje, pois a queima de combustível líquido será 100% superada. A CCC é um encargo setorial arcado por todos os consumidores brasileiros, cuja destinação é subsidiar a geração termelétrica nos sistemas isolados da Região Norte. (ver matéria na página 22) A eliminação do consumo de combustível fóssil vai corresponder a cerca de três milhões de toneladas de carbono que serão seqüestrados da atmosfera. Com o preço colocado hoje no mercado internacional em cerca de 20 euros por tonelada de carbono, o concessionário que vencer a licitação poderá obter recursos com a negociação de créditos de carbono estimados em cerca de R$ 150 milhões por ano. A linha cria também uma sinergia com outros aproveitamentos e potenciais da Amazônia, sem muitos custos adicionais. O poten-

cial remanescente de geração de energia na região amazônica é estimado hoje em cerca de 100 mil MW. Apenas o aproveitamento de Belo Monte, no Rio Xingu, chega a 11 mil MW. O potencial do Rio Tapajós é estimado em nove mil MW. Cachoeira Porteira no Rio Trombetas pode gerar 1,4 mil MW e há vários outros aproveitamentos na região. “A sinergia de que falamos é que a linha vai passar próxima a esses sítios e não haverá a necessidade de se implantar nem um quilômetro de linha a mais”, declara João Neves. Isso sem falar do grande potencial mineral da região. A mineração Rio do Norte, por exemplo, instalada próximo a Oriximiná, no Amazonas, faz a exploração de bauxita e transporta o minério para o Maranhão e a África, onde faz a transformação de alumina em alumínio, pois falta o insumo básico que é a energia. A demanda para que a transformação ocorra no Amazonas é da ordem de 480 MW. Trata-se, enfim, de um projeto estruturante, visto por muitos técnicos do Setor Elétrico como uma espécie de coluna vertebral para o desenvolvimento sustentado da Amazônia, permitindo que as gerações futuras possam usufruir de melhores condições de vida e de todos os benefícios que esse empreendimento energético possibilitará.


Cerca de 38 empreendimentos constantes do planejamento da expansão da transmissão da Eletronorte serão energizados neste ano. “Cinco empreendimentos foram concluídos até o momento”, informa o superintendente de Expansão da Transmissão, Carlos Alberto Pires Rayol (foto abaixo). Em fevereiro foi energizada a Subestação Santa Rita, no Amapá, em tensão de 69/13,8 kV, garantindo o suprimento de energia à cidade de Macapá, em substituição à antiga subestação Macapá I, com investimentos de aproximadamente R$ 16 milhões. Em março, 29 dias antes do prazo concedido pela Aneel, foi energizado o segundo autotransformador 230/138/13,8 kV - 100 MVA da subestação Miranda II, no Maranhão, com seus respectivos equipamentos de conexão, onde foram investidos cerca de R$ 11,7 milhões. Miranda II é muito importante, por ser responsável pelo suprimento de energia elétrica para o abastecimento de água potável de São Luís. “A colocação desse equipamento também alivia a carga que existia sobre outro transformador e promove maior confiabilidade ao sistema, o que se traduz por um serviço com menor risco de interrupção”, afirma Rayol. Ainda no primeiro semestre de 2008 serão energizados no Maranhão os transformadores das subestações Peritoró, Porto Franco e Imperatriz, de 100 MVA, e Presidente Dutra, de 50 MVA, todos com tensão de 230 kV. O investimento em cada um desses empreendimentos é de cerca de R$ 12 milhões. Como resultado do leilão da Aneel, realizado em novembro de 2007, já foram iniciados no Maranhão os trabalhos visando à implantação da linha em 230 kV ente São Luís II e São Luís III e da subestação São Luís III, com energização prevista para março de 2009 (seis meses antes da data fixada pela Aneel), com investimentos que totalizam cerca de R$ 30 milhões. Em Mato Grosso o destaque é para o transformador de 230 kV, de 100 MVA, empreendimento emergencial solicitado pelo Ministério de Minas e Energia que está sendo implantado pela Eletronorte na subestação Coxipó, em Cuiabá. Esse empreendimento está sendo executado para suprir a falta de gás da Bolívia, com data prevista de energização para o mês de abril de 2008, antecipando o prazo concedido pela Aneel. Mais linhas - No Acre foram energizadas a linha de transmissão Rio Branco I-Epitaciolândia, com 200 quilômetros, e a nova subestação Epitaciolândia, além da ampliação da Rio

Branco. Os investimentos nesses empreendimentos somam R$ 63 milhões. Ainda no Acre estão sendo inauguradas a linha Rio Branco-Sena Madureira, com 150 quilômetros em 69 kV, juntamente com a nova subestação Sena Madureira, totalizando assim 350 quilômetros de novas linhas de transmissão no estado. Para que haja a integração do Sistema Acre/Rondônia ao Sistema Interligado Nacional, a Eletronorte também está construindo a linha em 230 kV no trecho Ji-Paraná-Pimenta Bueno-Vilhena, em Rondônia, com 278 quilômetros, bem como a implantação das subestações Pimenta Bueno e Vilhena, além da ampliação da Ji-Paraná. Esses investimentos somam cerca de R$ 167 milhões. Em Roraima a Eletronorte está concluindo a linha em 69 kV Boa Vista - Distrito Industrial, com 26 km, juntamente com a nova subestação Distrito Industrial. Os investimentos somam R$ 29 milhões e a meta de energização é junho. O empreendimento, segundo Rayol, viabilizará a instalação de empresas no Distrito Industrial de Boa Vista e o suprimento de energia a várias localidades do interior de Roraima. Finalmente, no Pará, a implantação de um banco de reatores 500 kV na subestação Marabá é um empreendimento de grande relevância para o Sistema Interligado Nacional, uma vez que, por ela, é escoada parte considerável da energia gerada na Usina Hidrelétrica Tucuruí. Esses reatores proverão o suporte de reativos para o controle de tensão e qualidade ao suprimento de energia. São investimentos da ordem de R$ 22 milhões.

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Investimentos na transmissão somam R$ 350 milhões em 2008

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CORRENTE ALTERNADA

Revitalizando a história rondoniense Viviane Assis

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População prestigiou a reinauguração

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Imagine na década de 50, uma praça no coração da Amazônia com um majestoso lago e uma pequena ponte sobre ele. Imagine, dentro do lago, moleques se refrescando na água límpida e brilhante sob o sol caloroso da Região Norte. Depois, se for possível, imaginem, nesse cenário paradisíaco, de uma hora para outra, filhotes de jacarés e peixes poraquês! Pois é, as crianças de Porto Velho que estavam acostumadas a brincar no lago da Praça Aluízio Ferreira não conseguiram dividir a área de lazer com os animais. A Prefeitura teve que acabar com a alegria das duas partes, reconhecendo a impossibilidade dessa convivência. O lago artificial foi destruído e em seu lugar surgiu um modesto parque com balanços e escorregadores. Assim a praça que já era denominada ‘da família’, voltou a ser freqüentada por adultos e crianças. Quem relembra a história pitoresca é o carnavalesco e jornalista Sílvio Santos, o Zé Katraca. Ele era um dos meninos que brincava nas águas do lago da Aluízio Ferreira, uma das cinco praças históricas de Rondônia. Cada uma com sua denominação específica,

aquela bem conhecida das cidades interioranas. Havia a praça da família – a Aluízio Ferreira, a dos cinemas – a Marechal Rondon; a dos taxistas – a Jonathas Pedrosa e as duas dos namorados – a das Três Caixas d’Águas e a da Ferrovia Madeira-Mamoré. Foi com as lembranças de menino que Zé Katraca (foto ao lado) acompanhou a reinauguração da Aluízio Ferreira, em 22 de março deste ano. Quase 60 anos depois, o espaço considerado patrimônio histórico e localizado no primeiro bairro de Porto Velho, passou por modernização. “A praça ficou maravilhosa. Esta foi mais uma brilhante inserção social que a Eletronorte fez em nosso estado. Primeiro reformando a Casa de Cultura Ivan Marrocos e agora revitalizando uma parte de nossa história”, afirmou animado o carnavalesco. “A Aluízio Ferreira é um dos poucos lugares que gosto de levar minha família para


Valorização cultural - A praça tem lugar cativo no coração do porto-velhense. Ela está na região central, próxima de uma tradicional escola pública – a Carmela Dutra - e do lado do ginásio de esportes Cláudio Coutinho. Seu nome é uma homenagem a um dos políticos mais influentes de Rondônia, o paraense Aluízio Ferreira, responsável pela nacionalização da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, e que também foi governador e deputado federal. A Aluízio Ferreira faz parte do projeto de revitalização do centro histórico de Porto Velho. A Eletronorte é mais uma empresa do Setor Elétrico a abraçar o processo que está

dando cara nova à região do Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira. A praça das Três Caixas d’Águas (estrutura responsável pelo abastecimento de água da vila de Porto Velho no período ativo da ferrovia) foi reformada por Furnas. No mesmo período, a Eletronorte presenteava a cidade com os bens imateriais da exposição Alma do Norte. Foi no lançamento dessa exposição que o diretor de Gestão Corporativa, Manoel Ribeiro, representando o diretor-presidente, Carlos Nascimento, firmou parceria com o prefeito, Roberto Sobrinho, para recuperar o espaço estratégico para a cultura e o comércio local. Com a revitalização, a praça que sempre foi palco de manifestações culturais ganhou um espaço maior para artistas e público, sem atrapalhar os mais de 50 vendedores de artesanatos e comidas típicas da Feira do Porto. Todos os sábados, das 16 às 23 horas, os visitantes percorrem as barracas e são atraídos pelo cheiro forte do jambú no tacacá, da galinha picante, da tapioca ou simplesmente tentam escolher uma das centenas de peças artesanais dispostas nos balcões. As pequenas tendas na cor azul atendem a uma solicitação antiga da Associação dos Barraqueiros: a de padronizar a Feira do Porto, incluída no investimento de mais de R$ 431 mil da Eletronorte, com contrapartida da Prefeitura.

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passear. Trabalho a semana toda na fazenda e no sábado e domingo quero ver meus filhos brincando e correndo à vontade. Aqui já era muito bom, agora ficou melhor”, comenta Edmilson Gonçalves, brincando com os filhos Isac e Tiago, na companhia da esposa, Maria Gonçalves (foto acima). A cerimônia de reinauguração contou com a presença do prefeito, Roberto Sobrinho; da senadora Fátima Cleide (PT); do deputado federal, Eduardo Valverde (PT); do representante do senador Valdir Raupp, o vereador Assis Raupp; e do representante do gerente regional da Eletronorte, Edgard Temporim Filho, Fernando Inácio Borges da Silva Bastos, coordenador da ISO 14001.

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MEIO AMBIENTE

Sede de quê? Se a resposta for água ela pode significar energia, alimento e até biotecnologia

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Michele Silveira

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A água tem cheiro. E às vezes a cor do céu e a cor do breu. E é claro que tem gosto. Aquela história de incolor, insípida e inodora só cabe nos livros. Porque na vida real ela tem o cheiro da chuva, do rio, das mãos em concha antes do sol aparecer. E faz falta. Muita falta. E mesmo assim, pode acreditar: o brasileiro gasta, em média, 40 litros de água a mais que o total de 110 litros per capita recomendado pela Organização das Nações Unidas

- ONU. Além disso, diariamente nas capitais brasileiras, o desperdício de água potável equivale a 2.500 piscinas olímpicas (cerca de 2,5 milhões de litros de água), resultado de vazamento nas redes de abastecimento, submedição e fraudes. Isso seria suficiente para abastecer 38 milhões de pessoas. Os dados, que fazem parte de um relatório do Instituto Socioambiental – ISA indicam ainda que a maioria das capitais – 15 das 27 – perde mais da metade da água produzida. Porto Velho, capital de Rondônia, é a campeã em desperdício, com 78,8% de perda. As cida-


Bom exemplo – Diferentemente do que o censo comum possa imaginar, no Setor Elétrico são encontrados bons exemplos de valorização e uso sustentável da água. A preocupação em manter a qualidade e garantir os usos múltiplos é reconhecida pela Agência

Nacional das Águas - ANA. “O Setor Elétrico conseguiu evoluir e se modernizar mais rapidamente no que se refere à utilização da água”, avalia o superintendente de Usos Múltiplos da ANA, Joaquim Gondim. Segundo ele, é indiscutível a evolução que a legislação brasileira atingiu em relação à gestão de recursos hídricos. “Essa questão que começou com o Código das Águas, em 1934, evoluiu muito. Ainda temos muito pela frente, mas hoje o Brasil já possui uma legislação moder-

Recurso hídrico imprescindível ao homem

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des de Rio Branco, Manaus e Belém também têm índices superiores a 70%. Não bastasse o desperdício, a poluição tornou 70% das águas dos rios, lagos e lagoas do Brasil impróprias para o consumo. Um relatório editado pela organização não-governamental Defensoria da Água, traz dados do período 2004-2008 e envolveu 423 pesquisadores, 830 monitores de campo e cerca de 1.500 voluntários, que identificaram 20.760 áreas de contaminação em todo o País. Em relação à primeira edição do documento, divulgado em 2004, a contaminação das águas superficiais cresceu 280%. De acordo com o relatório, a mineração, a produção de suco de laranja e de derivados da cana-de-açúcar são os principais atores nesse processo, causando problemas ambientais provocados pelo descarte inadequado de resíduos industriais e pelas conseqüências sociais ligadas aos empreendimentos.

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na, que traz diretrizes para a gestão de usos múltiplos”, explica Gondim (foto abaixo). De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, a informação sobre qualidade de água no País ainda é insuficiente, e muitas vezes inexistente, em várias bacias. Apenas nove estados brasileiros possuem sistemas de monitoramento da qualidade da água considerados ótimos ou muito bons, cinco possuem sistemas bons ou regulares, e 13 apresentam sistemas fracos ou incipientes. Mesmo assim, a importância da qualidade da água está bem conceituada na Política Nacional de Recursos Hídricos que define, entre seus objetivos, “assegurar à atual e às futuras gerações a necessária disponibilidade de água, em padrões de qualidade adequados aos respectivos usos”. Além disso, também determina “a gestão sistemática dos recursos hídricos, sem dissociação dos aspectos de quantidade e qualidade e a integração da gestão dos recursos hídricos com a gestão ambiental”. Na Eletronorte, um exemplo é o monitoramento limnológico na Usina Hidrelétrica Tucuruí. As ações começaram ainda no período de 1980 a 1984, com os primeiros dados obtidos pela equipe do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - Inpa, com o objetivo de conhecer as condições limnológicas do Rio Tocantins, onde o reservatório viria a ser formado. O programa começou de fato em 1985, com o enchimento do reservatório. De acordo

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com sua coordenadora, a engenheira química Carmen Rocha, os resultados são armazenados em um banco de dados, o qual permite a emissão de boletins periódicos, que são sistematizados anualmente e condensados em um relatório técnico consolidado, encaminhado ao órgão licenciador, no caso a Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará. O analista ambiental da Eletronorte, Rubens Ghilardi Junior, destaca que o monitoramento é essencial para que sejam estabelecidos os zoneamentos para os diferentes usos da água. “Além disso, é de fundamental importância conhecermos a dinâmica ecológica da área, os usos humanos e a biodiversidade aquática”, explica. De acordo com Carmen, as análises têm demonstrado que o reservatório tende a um novo equilíbrio limnológico. “Nesses 20 anos de monitoramento é possível perceber que o percentual de oxigênio absorvido se estabilizou e a quantidade de nutrientes diminuiu, ou seja, a qualidade da água melhorou”, explica. Apesar de ser um processo natural, o equilíbrio deve ser monitorado para, caso haja algum retrocesso, ser identificado e permitir a ações corretivas. Monitoramento - Mas, aqui, um parêntese: e o que é a limnologia? Sem a pretensão científica, um breve resumo da Universidade Federal do Rio de Janeiro –UFRJ, explica que, em virtude da etimologia da palavra (limne, palavra grega que significa lago) e pelo fato de as primeiras pesquisas terem sido realizadas quase que exclusivamente em lagos, a limnologia foi inicialmente conhecida como a ciência que estuda os lagos. No entanto, decidiu-se, no primeiro Congresso Internacional de Limnologia (1922), ampliar o campo de atuação dessa ciência, incluindo outros ecossistemas aquáticos continentais, tais

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Coletas e análises garantem a qualidade da água

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Os usos múltiplos na década da água

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“Água pra beber, água pra lavar, água que faz toda semente brotar/se ela vem do céu, do rio ou do mar/doce ou salgada, é a melhor coisa que há”. O ‘versinho’ seria mais um na retórica da conscientização, não fosse o tom melodioso com que sai das pequenas boquinhas de uma turminha escolar orgulhosa de vestir roupa azul e dizer que são os “defensores da água”. Formada por pequenos com média de três a quatro anos, a turminha nem imagina, mas nasceu na Década Brasileira da Água. Sim, há um decreto que assim definiu: Art. 1º: Fica instituída a Década Brasileira da Água, a ser iniciada em 22 de março de 2005. Art. 2º: A Década Brasileira da Água terá como objetivos promover e intensificar a formulação e implementação de políticas, programas e projetos relativos ao gerenciamento e uso sustentável da água, em todos os níveis, assim como assegurar a ampla participação e cooperação das comunidades voltadas ao alcance dos objetivos contemplados na Política Nacional de Recursos Hídricos ou estabelecidos em convenções, acordos e resoluções, a que o Brasil tenha aderido. Quando a Década da Água acabar, em 2015, a turminha já vai ter virado quase gente grande, e o que ela aprender até lá, é que vai fazer a diferença. “Hoje é cada vez maior a preocupação com o uso da água. E essa não pode ser uma ação apenas de governo, mas uma conscientização individual, que começa na casa de cada um”, alerta o superintendente de Usos Múltiplos da Agência Nacional das Águas – ANA, Joaquim Gondim. Com a Lei nº 9.433, de 1997, o princípio dos usos múltiplos foi instituído como uma das bases da Política Nacional de Recursos Hídricos – PNRH. Os diferentes setores usuários de água passaram a ter igualdade no direito de acesso a esse bem. A única exceção, já estabelecida na própria lei, é que em situações de escassez, a prioridade de uso da água no Brasil é o abastecimento público e a dessedentação de animais. Os

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como lagunas, açudes, lagoas, represas, rios, riachos, águas subterrâneas e estuários. Por isso pode ser definida como o estudo ecológico dos diversos ecossistemas aquáticos continentais, focalizando a física, a química, a geologia e a morfometria, a ciclagem de materiais e o fluxo de energia, a ecologia e biologia dos organismos e a recuperação e a utilização racional desses ambientes.

demais usos, tais como, geração de energia elétrica, irrigação, navegação, abastecimento industrial, turismo e lazer, dentre outros, não têm ordem de prioridade definida. A hidróloga Cíntia de Lima Vilas Boas (foto à esquerda), da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais, conhecida como Serviço Geológico do Brasil – CPRM, afirma no artigo que “o uso múltiplo de reservatórios” que, “dentro do moderno conceito de Gestão das Águas, os assuntos que envolvem o planejamento de uso, controle e proteção dos recursos hídricos assumem grandes proporções, devido às interações entre o aproveitamento racional da água e o uso do solo”. Usos múltiplos - No que diz respeito aos possíveis conflitos, Cíntia cita o autor Antônio Eduardo Lanna, engenheiro civil doutor em Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos. Segundo ele, “o uso múltiplo dos recursos hídricos não é uma opção que o planejador faz, mas uma realidade que ele enfrenta com o desenvolvimento econômico. A alternativa existente é integrar estes usos de uma forma harmônica, em que pese a complexidade da administração, ou deixá-los de uma forma desintegrada enfrentando, como conseqüência, conflitos entre os usuários que comprometem a eficiência do uso”. Não bastasse a disputa, o desafio é também adequar a questão dos usos múltiplos à preservação e sustentabilidade. É aí que reside, segundo Gondim, o diferencial que a ANA tem mantido nas disputas naturais das demandas dos usos múltiplos. Segundo ele, a Agência tem conseguido, na maioria das vezes, mediar os conflitos chegando a um consenso. “Um dos casos muito

No lago de Tucuruí, o programa de monitoramento inclui também o acompanhamento da ocupação de macrófitas aquáticas no reservatório mediante a análise de imagens de satélite. Logo após o enchimento do lago da Hidrelétrica, foi estruturado um laboratório para atender às análises físicoquímicas e biológicas da água. Sete estações coletoras foram colocadas a jusante e


nove a montante. Já no processo de licenciamento ambiental da segunda etapa de implantação da Usina, o sistema de monitoramento foi reestruturado com base no volume de dados já produzido, e considerando as características limnológicas de cada região amostrada. Nas estações a equipe faz as coletas na coluna d’água e na superfície, além da medição da transparência, fixação

Em Tucuruí, mais de dez mil pescadores produzem seis mil toneladas de pescado por ano (foto acima). Lá o Programa de Pesca e Ictiofauna busca alcançar o desenvolvimento sustentável e a melhoria da qualidade de vida das comunidades de pescadores no reservatório e no Rio Tocantins, a jusante da Usina. Além de programas de capacitação e gerenciamento pesqueiro, o Programa envolve conservação das espécies de peixes e de seus habitats e distribui alevinos de espécies regionais para projetos de criação de peixes em tanques-rede. Hoje o Brasil é o 22º maior produtor de pescado do mundo, com cerca de 1,1 milhão de toneladas/ano. De acordo com dados da Secretaria de Aqüicultura e Pesca - Seap, o País pode ser considerado a nova fronteira aqüícola do mundo, com 8.400 km de costa; 3,5 milhões de hectares de águas públicas represadas e outros 5 milhões de ha de águas privadas represadas. A demanda adicional de 90 milhões de toneladas nos próximos 25 anos só poderá ser suprida via aqüicultura e o Brasil poderá ser produtor de 21 milhões de toneladas de pescado. Em agosto de 2007 a parceria entre a Eletronorte e Seap anunciou a primeira etapa da demarcação do Parque Aqüícola de Tucuruí. A partir dos estudos entregues pela Empresa, a Seap deu início à demarcação do parque, que será o terceiro do País – já estão demarcados os parques aqüícolas de Itaipu, no Paraná, e Castanhão, no Ceará. A demarcação delimita as áreas do reservatório destinadas à piscicultura e identifica também quantas famílias poderão ser beneficiadas e a quantidade de peixe produzida nos tanques-rede a serem instalados no lago. A parceria entre as instituições continua e deve realizar os estudos para o zoneamento dos reservatórios de Balbina, no Amazonas, Samuel, em Rondônia, e Coaracy Nunes, no Pará.

do oxigênio e coleta de fitoplâncton. A etapa seguinte é alimentar o banco de dados para geração e análise dos boletins. É por isso que o trabalho dos três técnicos do laboratório, uma bióloga e um químico, além de Carmen, faz a diferença. Hoje, esse trabalho pode dar respostas que ainda não são encontradas na ciência; mas que estão a caminho.

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comuns é dos setores hidroviário e elétrico, que podemos citar como exemplo Tucuruí, que por muito tempo esperou a conclusão das eclusas para garantir a navegabilidade do Rio Tocantins. Hoje, mais próximo da conclusão, reforçamos a importância das eclusas para o uso múltiplo”, avalia o superintendente. De acordo com a ANA, a Superintendência de Usos Múltiplos é também responsável pelo desenvolvimento de ações que preconizem a revitalização de bacias hidrográficas, bem como a conservação e a racionalização do uso da água. É uma estratégia para proteger e restaurar a qualidade ambiental e, conseqüentemente, os ecossistemas aquáticos. Essa abordagem baseia-se na constatação de que muitos dos problemas de qualidade e quantidade de água são evitados ou resolvidos de maneira eficaz por meio de ações que focalizem a bacia hidrográfica como um todo, as atividades desenvolvidas em sua área de abrangência e os atores envolvidos. É também essa Superintendência que define as operações de fiscalização das condições de operação dos reservatórios e faz a gestão de projetos como o de tanquesrede desenvolvidos pela Eletronorte em parceria com outras instituições. Em Rondônia, por exemplo, a Empresa, em parceria com o governo estadual e o Ibama, desenvolveu em Candeias do Jamari o projeto de Aproveitamento de Águas Improdutivas para Criação de Tambaqui em Tanques-rede (foto acima à esquerda), beneficiando cerca de 500 famílias de pescadores ribeirinhos. Entre os principais objetivos estão a redução da pressão sobre os estoques pesqueiros naturais, a geração de emprego e renda, e a profissionalização dos pescadores.

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A natureza emociona, mas também alerta o homem

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Genoma - O projeto Genoma Ambiental do Reservatório da Usina Hidrelétrica Tucuruí, coordenado pelo professor Artur Silva, da Universidade Federal do Pará-UFPA (foto abaixo), será mais um ator no processo. De acordo com o professor, pode parecer um pouco incomum imaginar que um lago possua um genoma, porque é o genoma o responsável pelas características hereditárias dos seres vivos. É nele que estão escritas todas as instruções de funcionamento de uma célula, um tecido e de todo o organismo. Sim, mas afinal o que é o genoma de um lago? Segundo Artur, pode existir um genoma, ou muitos genomas, até mesmo numa gota d’água. “Uma gota de água, um lago, um punhado de areia, são lugares onde vivem muitos micróbios. Assim, quando falamos do genoma do lago de Tucuruí, estamos nos referindo à população de microorganismos que colonizam este gigantesco corpo de água”, explica. O projeto iniciou-se há 14 meses, gerando muitos dados e processando grande quantidade de informações. A parceria com a Eletronorte viabilizou recursos para que o laboratório tivesse o único

equipamento na América Latina com configuração para realizar a separação de linhagens bacterianas por DHPLC (Cromatografia Líquida Desnaturante de Alta Performance). Esta é a primeira vez que abordagens baseadas na genética genômica são aplicadas em um ambiente de águas interiores tropicais e revela-se uma complexa estrutura ecológica dos microorganismos que fazem parte do ecogenoma do reservatório. Além do professor Artur, fazem parte do projeto Rubens Ghilardi Jr, a professora Maria Paula Cruz Schneider, também da UFPA, e o acadêmico Paulo Roberto Miranda, bolsista CNPq pela UFPA.


A história do uso da água no Brasil Sobre imagens de chafarizes, monjolos e pescadores de uma São Paulo das casas de banho, a Agência Nacional das Águas está escrevendo sobre como os brasileiros do período colonial lidavam com os recursos hídricos; ou como a água era usada para o desenvolvimento na época do Império. O livro “A História do Uso da Água no Brasil – do Descobrimento ao Século XX” começou a ser preparado ainda em 2007 e chega agora em sua versão preliminar. No site da ANA é possível contribuir com a obra por meio da doação de gravuras, pinturas, fotografias e a cessão de relatos históricos acerca do uso da água desde a chegada de Cabral. O livro fica pronto no primeiro trimestre de 2009. Logo nas primeiras páginas, é também o texto Água, de Rubem Alves, que faz as honras da introdução: “Difícil era tomar banho. Especialmente no tempo de frio. Era preciso esquentar água no fogão de lenha, e como não havia banheiro e chuveiro dentro de casa, o jeito era tomar banho de bacia, com canequinha. Complicado. O que significa que não se tomava banho todo dia. Banho diário é invenção moderna, felicidade não conhecida naqueles tempos. O que se usava, mesmo, era lavar os pés numa bacia. Foi assim durante milhares de anos. Jesus lavou os pés dos seus discípulos. Muitas vezes eu lavei os pés do meu pai”. Acompanhado de reproduções do século passado, cedidas por museus brasileiros, o texto começa a contar as conseqüências da colonização e das migrações no Brasil. “(...) Ocorreu uma gradativa perda da infra-estrutura e dos sistemas de vida (usos e costumes) nas primitivas formas de apropriação dos recursos hídricos para os mais diversos usos, (abastecimento público, dessedentação de animais, irrigação, geração de energia mecânica etc.) onde algumas subsistiram como patrimônio histórico (chafariz, aquedutos, açudes, monjolos, castelos) e outros ainda como único recurso alternativo de subsistência, tais como cacimbas, jegues, cântaros e moringas”. Para conhecer mais sobre a História do Uso da Água no Brasil acesse: http://historiadaagua.ana.gov.br/

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O primeiro objetivo do estudo é identificar a composição de micróbios do lago. “Com isso poderemos identificar o seu potencial biotecnológico e monitorar da melhor forma possível a qualidade de suas águas”, explica o coordenador. O segundo objetivo é ajudar a entender qual a real participação do reservatório na produção de gás metano, um dos principais gases na formação do efeito estufa. Também faz parte do trabalho estudar uma bactéria muito abundante em Tucuruí, que realiza fotossíntese e produz oxigênio; além de obter e identificar genes que produzem uma classe de enzimas, as celulases, que possuem alto interesse na sociedade moderna na indústria de biocombustíveis. Outro objetivo é formar recursos humanos em sofisticadas e eficientes tecnologias agregando valor à biodiversidade brasileira. A região de coleta, estação montante de Repartimento, faz parte do conjunto de localidades usadas pelo Centro de Proteção Ambiental –CPA, da Eletronorte no Programa de Monitoramento Limnológico e de Qualidade de Água. Para Carmen, a questão da medição de metano, por exemplo, é um passo importante para a pesquisa. “Hoje muitos dizem que há níveis elevados de metano em reservatórios. Mas precisamos de bases comparativas. Com o projeto Genoma poderemos conhecer as bactérias que temos no meio aquático e identificar quais as que consomem, quais produzem, e então produzir tecnologia para proliferar as que consomem mais metano, por exemplo”, avalia a coordenadora. O professor Artur concorda. Segundo ele, as análises hoje são parciais porque levam em consideração apenas as bactérias que produzem o metano, sem considerar a influência das que o consomem. “Uma análise correta e séria é a que levará em consideração todo o processo. Queremos saber de fato qual o balanço que existe no lago, sem analisar apenas a quantidade, mas também o consumo. E isso só podemos fazer com técnicas genômicas”, explica. Falando assim, a biotecnologia que pode resultar de programas como o Genoma parece simples e pode caber numa conchinha de mãos, num reservatório ou num pote. Sim, um pote como o descrito por Rubem Alves: “O importante no pote é aquilo que não existe: o vazio que está dentro dele. A cerâmica só tem a função de segurar o vazio... Porque é do vazio que a gente precisa. É o vazio que contém a água”.

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GERAÇÃO

A complexa operação dos parques termelétricos da Amazônia Sistemas isolados queimam petróleo 24 horas por dia Bruna Maria Netto

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Logística complexa, operação complicada

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Gerar e fornecer eletricidade na imponência da Amazônia Legal em nada se equipara à maneira das grandes hidrelétricas, como Tucuruí. Mas, enquanto o Sistema Integrado Nacional – SIN não chega em todos os estados nortistas, são as usinas termelétricas que enfrentam desafios diários, desde a custosa operação e manutenção das máquinas até as mais diversas animosidades próprias da Amazônia, para garantir o abastecimento de eletricidade, um insumo essencial para toda a sociedade. A Eletronorte é responsável pela operação de sete usinas termelétricas em três sistemas isolados na Região Norte (AC, RO e AP), mais o parque térmico da Manaus Energia. Gerando energia nas capitais – a dos municípios e

de outras cidades fica por conta das concessionárias estaduais – os parques termelétricos da Eletronorte somam 1.042,66 megawatts de potência instalada, sendo 599,26 MW de geração própria e 443,40 de produtores independentes de energia. O engenheiro João Valeriano de Camargos (foto ao lado), gerente de Engenharia de Operação e Manutenção da Geração Térmica da Eletronorte, explica que as dificuldades começam pelos diferentes tipos de equipamentos instalados: “Temos desde máquinas muito avançadas - como turbinas a gás - até motores diesel com versões bastante antigas, por conta das diferentes demandas encontradas em cada canto da Amazônia”. Somente o fato de se operar termelétricas no ambiente amazônico já é uma dificuldade


deira ficou tão baixo que a balsa-tanque não conseguiu passar, e por isso foi preciso fazer um comboio de caminhão-tanque saindo de Paulínia, em São Paulo” (foto acima). Clima x manutenção – O clima da região é outro fator preponderante para a operação das máquinas térmicas. O calor reduz a performance e o rendimento do equipamento, pois como ele já trabalha com a temperatura elevada, esta sobe ainda mais e a máquina acaba se desgastando com facilidade. A umidade causa pouco prejuízo na eficiência do equipamento, mas a máquina em si sofre grandes avarias. Quando o combustível é queimado, uma parcela de enxofre é liberada e entra em contato com a água da umidade depositada sobre a superfície metálica, formando o ácido sulfúrico, que provoca corrosão nos equipamentos. Além disso, a água da umidade condensada dentro dos tanques de combustível, por ser mais pesada, se separa do óleo, ficando depositada no fundo dos tanques, tendo que ser drenada dia e noite, a cada 12 horas, num processo contínuo (foto abaixo).

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muito grande, a começar pela distância dos grandes centros produtivos e fornecedores de insumos básicos. Quando uma máquina – que é importada - quebra, ela tem de retornar a operar o mais rápido possível para evitar racionamento. Miraelson Pereira Barbosa, operador da Termelétrica Santana (AP) há 14 anos explica o drama: “Quando pára alguma máquina o empenho de todos é grande, não atendemos telefone, não fazemos outra coisa até normalizar o funcionamento para não deixar ninguém sem energia”. Caso o componente avariado não esteja previsto no estoque de peças sobressalentes, a usina terá de lidar com a dificuldade de repô-lo com rapidez, o que obriga, em algumas situações, a terem um grande estoque de peças extras, gerando um custo muito elevado. “Já no Sul-Sudeste, a malha de transportes permite que uma peça seja embarcada no caminhão e chegue rapidamente ao ponto que a demanda, enquanto na Amazônia, algumas vezes a única via possível é a fluvial”, completa. Quando o problema é muito complexo, a ajuda externa é imprescindível. “Para fazermos a recuperação geral de uma turbina a gás temos que enviá-la para a Alemanha ou Estados Unidos em contêineres de dez metros de comprimento, do tamanho de um caminhão. A manutenção é feita fora do Brasil porque internamente não temos empresas com tecnologia ou estruturadas para isso, mas temos mão-de-obra qualificada, infelizmente em quantidade insuficiente”, lamenta João Valeriano. Segundo ele, assim como as máquinas, o combustível usado nos sistemas isolados também enfrenta um duro caminho até seu destino final. “Ele chega por meio de caminhão-tanque ou por balsa-tanque. O óleo que chega à usina Rio Madeira em Porto Velho, por exemplo, é deslocado por meio de balsa, vinda de Manaus, e faz uma viagem de uma semana até chegar à capital, onde é distribuído por caminhão-tanque. Dependendo da época do ano e do grau de pluviosidade, cria-se uma logística de suprimento de óleo, pois muitas vezes a seca não permite transitar de barco. Em 2006 tivemos um problema de abastecimento quando o nível do Rio Ma-

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Usina Térmica Rio Madeira: exemplo de responsabilidade ambiental

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Em julho de 1987 entrava em operação – em caráter emergencial para evitar o racionamento de energia na cidade de Porto Velho - a Usina Termelétrica Rio Madeira. A complexa montagem e os testes das três grandiosas turbinas LM 2500 mobilizaram dezenas de técnicos da Eletronorte, que se revezaram em plantões, dia e noite, mudaram a rotina das famílias da comunidade do bairro Nacional e representou um marco na história da Eletronorte em Rondônia. Hoje, 21 anos depois, continua operando somente em situações emergenciais, sendo fundamental para o abastecimento de energia elétrica na capital de Rondônia e para o Sistema Rondônia-Acre. Em fevereiro deste ano, suas quatro máquinas foram acionadas por 30 dias a fim de possibilitar a manutenção das máquinas da Termonorte – produtor independente contratado pela Eletronorte. Além de sua importância operacional e da competência do capital humano que a opera, a Usina Rio Madeira coleciona certificações e reconhecimentos únicos no Setor Elétrico brasileiro e mundial: a certificação na Norma Ambiental ISO 14001 que fez dela a única térmica do País a conquistar o ‘Selo Verde’, e o de Excelência em Gestão pelo Japan Institute of Plant Maintenance, na metodologia de Manutenção Produtiva Total (TPM), compartilhada apenas com outra usina da Eletronorte, a Térmica Santana, no Amapá. A instalação da Usina proporcionou o crescimento populacional e atraiu investimentos públicos: escolas, postos de saúde, policiamento e ruas asfaltadas. Hoje, mais de 21 mil pessoas moram na região do seu entorno. O trabalho árduo do passado, de engenheiros, técnicos eletricistas, de manutenção, de segurança no trabalho, operadores e outros profissionais que faziam plantões de até 12 horas para manter as turbinas em operação, garantindo energia elétrica aos porto-velhenses, foi reconhecido. Oportunidades de crescimento profissional não faltaram. A informatização nas usinas térmicas e hidráulicas possibilitou a saída desses profissionais, anteriormente em tempo integral, das máquinas e subestações para a pesquisa, inventos e melhorias. Exemplo disso foi a transformação, em 2000, de uma área de 56 metros quadrados degradada por resíduos de óleo diesel em

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“Apesar da drenagem, sempre sobra um resíduo que acaba indo para o nosso equipamento podendo provocar uma avaria, a curto, médio ou longo prazo. Isso ocorre em qualquer local, mas se fosse em Brasília, por exemplo, onde a umidade algumas vezes chega a 30%, seria bem diferente. Na Amazônia, quando a umidade cai muito, chega no máximo a 70%”, afirma Valeriano.

dois parques ambientais permanentes: o Antônio Onildo – em homenagem a um falecido colaborador da usina e o Várzea dos Buritis. O local, contaminado por 15 anos, em apenas quatro já comprovava sua recuperação. Espécies de peixes como a jatuarana e os da família dos bagres – bioindicadores de qualidade ambiental-, se reproduzem nos lagos dos parques: “A usina toda se mobilizou para o trabalho de recuperação”, relembra o técnico em Segurança no Trabalho, Adison Lino (foto ao lado). O piauiense de Cristalândia chegou a Rondônia para exercer a atividade de armador de ferragem, pela construtora Norberto Odebrecht, na Usina Hidrelétrica Samuel. Em 1981, ingressou na Eletronorte atuando no controle de manutenção da Usina Fausto Guimarães. Em seguida passou a integrar a equipe da Rio Madeira substituindo um colega que se aposentava na área da segurança.

Conta de todos - Com tantas dificuldades enfrentadas, a solução para o atendimento dos grandes centros consumidores é a interligação ao SIN, mas em pequenas localidades as termelétricas ainda farão a diferença por muitos anos, apesar de consumirem um combustível que além de poluente é muito caro. Com um milhão e meio de litros de óleo gastos por dia, pode-se imaginar o custo da luz na Região Norte. Ao consumidor final, o


Destino - O destino brincou sério com a vida do engenheiro de manutenção, Antonio César Gomes dos Santos (foto à esquerda). O mineiro de Itambacuri, por muito pouco não fez parte da história da Usina Rio Madeira. O pior, é que se ele não estivesse por lá muitas atividades podiam não ter acontecido com a rapidez e eficiência necessária. A entrada em operação da turbina III foi uma delas. Em 1985, um amigo de Antonio César – o Geraldo, o inscreveu no concurso público da Eletronorte. O amigo

acesso à energia é garantido porque brasileiros de todas as outras regiões contribuem com a Conta de Consumo de Combustível - CCC, um subsídio pago juntamente com a conta de luz que ajuda a saldar o alto preço da energia elétrica das regiões eletricamente isoladas. “É um subsídio muito inteligente, elogiado por pessoas de outros países, e interessante por fazer uma equalização de desenvolvimen-

fez a inscrição sem consultá-lo porque ele trabalhava em tempo integral em uma mineradora como instrutor de treinamento, e não estava muito interessado em concursos. Por isso, nem se lembrou do dia da prova. Outra vez, o Geraldo teve que lhe dar aquele empurrão. Foi atrás da gerência da mineradora para conseguir uma licença para os dois prestarem o concurso. Adivinhem quem passou?! O Antonio César, sem estudar, tirou nota máxima. Mas, quem disse que ele queria assumir o cargo!? Foi preciso a vida dar aquela reviravolta para ele começar a trabalhar na Empresa que precisava urgentemente de um engenheiro com sua qualificação. No ano seguinte, ele e Roberto Tomio Tomotani viajavam para os Estados Unidos para fazer um treinamento na General Eletric, com objetivo de aprender a trabalhar com as máquinas LM 2500. O conhecimento adquirido foi primordial para a montagem e funcionamento das turbinas. “Ajudei os técnicos a montar as máquinas. Trabalhamos direto, dia e noite, a fim de garantir a geração de energia elétrica para a cidade”, relembra o engenheiro. A experiência também possibilitou sua participação na montagem das turbinas das usinas térmicas de Santana (AP) e Rio Acre, em Boa Vista.

to social e econômico. Como energia elétrica é um insumo básico para a sociedade, não deixa de ser um subsídio justo, o que não significa que nós brasileiros tenhamos que conviver com isso eternamente”, afirma Hamilton Antônio da Rocha, gerente de Comercialização de Energia da Eletronorte. Segundo ele, sem a CCC – que neste ano foi orçada em R$ 3,0 bilhões, nenhuma empresa conseguiria se manter. “Se não houvesse a CCC, a Eletro-

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O primeiro passo para o projeto ambiental na Usina partiu de um curso que Adison e o coordenador da ISO 14001, Fernando Inácio Borges da Silva Bastos, participaram, em Porto Alegre, sobre recuperação de área poluída por produtos químicos. A idéia foi abraçada pelo gerente da Térmica, Roberto Tomio Tomotani e o gerente Regional, já falecido, Fernando Manoel Fernandes da Fonseca. Daí, para os demais trabalhadores aderirem ao desafio foi do dia para a noite. “Todos queriam contribuir com as atividades. Era sempre um e outro aparecendo no tempo vago para ajudar”, relembra Adison.

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norte iria gerar energia, pois há demanda, mas não conseguiria vender para nenhuma distribuidora. Se não houvesse demanda, a Empresa nem sequer instalaria usinas térmicas por lá”. Hamilton (foto ao lado) também adianta que “a Eletronorte está providenciando uma licitação internacional, a fim de obter preços mais baixos do combustível utilizado em suas termelétricas. Adicionalmente, está implementando ações de manutenção, operação e melhoria de eficiência de suas máquinas, para obter melhor performance e rendimento dos equipamentos com o combustível empregado”. A estrutura que dá suporte aos sistemas isolados, oriunda do Grupo Técnico Operacional da Região Norte – GTON, faz um planejamento com as empresas, resultando no Plano de Operação dos Sistemas Isolados, que prevê quantas usinas estarão operando, quantas localidades serão atendidas e o quanto de combustível será gasto, além de elaborar o Plano Anual de Combustível. A partir da aprovação do GTON e da Aneel é estabelecido o valor da CCC - cuja contribuição paga o volume de combustível a ser consumido mensalmente pelas empresas responsáveis pelos sistemas isolados.

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Insubstituível e impagável - Se não houvesse esse recurso, a conta de energia elétrica dos consumidores da Região Norte seria impagável, não apenas por conta do poder aquisitivo deles - um dos grandes motivos da inadimplência nas empresas distribuidoras - mas pelo custo do MWh. O valor da conta seria pelo menos dez vezes maior daqueles beneficiados com a energia hidráulica, por exemplo. O técnico Aguilar Ferrari (foto ao lado), que auxilia Hamilton, exemplifica: “Eu moro num apartamento pequeno e pago a primeira taxa de tarifa, que é de R$ 306,00 o MWh. Então imagina esse valor duplicado em dez vezes: um consumidor da Região Norte pagaria por volta de R$ 3.000,00 o MWh, em um apartamento pequeno, como o meu. Lá ainda tem a agravante do clima, em que a pessoa depende de um ar condicionado ou pelo menos

um ventilador em quase toda parte do tempo. Em Tucuruí, por exemplo, o valor do MWh é bem menor, por volta de R$ 90,00”. Outra especificidade da Amazônia fica por conta de comunidades que sequer dispõem de dinheiro para pagar a conta de luz, literalmente. “Elas praticam o escambo, com peixe, especiarias etc., uma realidade invisível para muitas pessoas, que não sabem que ainda existem comunidades muito isoladas que vivem de extrativismo e da caça, não tendo renda fixa que permita pagar uma conta de energia mensalmente”, afirma Ferrari. A Eletronorte assumiu a operação de parque termelétricos das capitais de Rondônia, Acre, Amapá, Amazonas e Roraima a partir de 1984, por determinação do Governo Federal. No entanto, mesmo após pesados investimentos em expansão e melhorias, a Empresa paga um custo muito alto para operá-los. Hoje, fora do subsídio da CCC, para cada MWh gerado, a Eletronorte paga a tarifa do equivalente hidráulico – um valor arbitrado pela Aneel, que hoje é de R$ 63,14, além do ICMS do combustível usado nas termelétricas. Na Usina Termelétrica Rio Acre, por exemplo, o MWh custa R$ 728,00. Dessa parte, o ICMS e o equivalente hidráulico, mais o custo de manutenção da máquina, além da amortização do investimento do empreendimento que compõe o custo total, é pago pela Empresa. “Se essa energia for da Manaus Energia, nós pagamos ainda mais R$ 80,00 por MWh como tarifa fixa da disponibilidade das máquinas colocadas à disposição da Eletronorte. Com o MWh vendido por R$ 100,00, da substancial diferença surge o nosso prejuízo, somado aos desperdícios por conta da ineficiência das máquinas e das perdas comerciais geradas pelo consumidor que não tem condições de pagar a conta e faz ligações clandestinas, por exemplo”, enfatiza Ferrari. Esse prejuízo diário aos cofres da Eletronorte somente será sanado com a interligação ao SIN, o que deve ocorrer até 2011 (veja matéria na página 3) José Serafim Sobrinho, superintendente da Comercialização e Geração de Energia, lembra de mais benefícios trazidos pelo SIN: “Com apenas três ligações, Mato Grosso com Rondônia e Acre, e Tucuruí com Manaus e Amapá já se reduziria em mais de 70% a CCC, que ficaria no máximo em R$ 800 milhões ao ano, dando um real na conta de luz de cada consumidor. Já nas pequenas


Comunidade participa para diminuir aridez de uma termelétrica

Velhos tempos – Se hoje a situação é complexa nos sistemas termelétricos da Amazônia, no passado já foi pior, com os racionamentos que duravam até 12 horas diárias nas principais capitais, inclusive Belém. Eduardo Celso Carramaschi, superintendente de Engenharia de Operação e Manutenção da Geração da Eletronorte, conta que já teve de se adaptar a um cotidiano onde energia não era tão farta: “Eu morei em Belém entre 1979 e 1980, quando os edifícios eram vendidos com geração própria e todos tinham um grupo gerador para a falta de luz”. Hoje, Belém já não precisa mais desses geradores. Aliás, nem 99% do resto das demais regiões do País. Por meio do SIN, as hidrelétricas são ligadas às áreas de consumo por linhas de transmissão, permitindo que a energia gerada em Tucuruí seja recebida em Salvador, por exemplo.

Também dos velhos tempos são lembradas histórias pitorescas, como desligamentos causados pelos animais que convivem entre a floresta e as cidades. João Valeriano conta uma: “Embora cercadas, as máquinas, aliadas ao ambiente quente e úmido, atraem alguns animais, principalmente nas usinas que ficam próximas à mata. Quando as máquinas paravam sem explicação, averiguávamos o que era e aparecia um gambá, e como se sabe gambá não entende de eletricidade, e ao tocar em dois fios o circuito era fechado, desligando tudo. Muitos desligamentos eram provocados por gambás, cobras e outros animais. Isso é bem típico da Região Norte”.

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regiões é mais barato subsidiar do que fazer uma usina para atender 100 pessoas. Hoje, a gente opera e compra o diesel não porque queremos e sim por ser uma condição setorial que é imposta a nós, porque a partir do momento em que houver e interligação, nós poderemos competir mais no mercado, vender energia por um preço mais baixo e ter muito menos prejuízo”.

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ENTREVISTA corrente contínua

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Edison Lobão, ministro de Minas e Energia


Hoje, energia é pauta prioritária de fóruns de discussão da socioeconomia em todo o mundo. O Brasil e o modelo atual do Setor Elétrico estão no caminho certo? O atual aparato institucional, legal e de agentes, não apenas do Setor Elétrico mas de todo o setor energético brasileiro, permite acompanhar e ordenar o atendimento das necessidades energéticas crescentes do País com a participação da iniciativa privada. Isso se dá por meio dos leilões que vão garantir a infra-estrutura necessária à expansão da oferta de energia, buscando o equilíbrio, de modo transparente, entre a modicidade tarifária e a atratividade dos investimentos, inclusive para o longo prazo assegurado pelos contratos que seguem o leilão. Acredito que o atual arranjo institucional, equilibrado e claro, é a resposta madura que o desenvolvimento do Brasil tanto ansiava e os resultados são visíveis e incontestes.

complementados pelo planejamento e acompanhamento sistemático para ajustes de curto prazo, o que assegura satisfatório encaminhamento da oferta de energia no País. Afora isso, foram instituídos dois ambientes para celebração de contratos de compra e venda de energia: o Ambiente de Contratação Regulada - ACR, e o Ambiente de Contratação Livre – ACL. O primeiro, destinado ao atendimento do consumidor comum, com garantia de contratação de 100% da demanda com antecedência de três a cinco anos, conta com a participação de agentes de geração e de distribuição de energia elétrica. Do segundo participam agentes de geração e comercialização, importadores e exportadores de energia, além de consumidores de grande porte. “É fato que o arranjo institucional da indústria de energia, não só aqui, mas em todo o mundo, tem suscitado discussões e análises das mais diversas orientações e matizes. Após percalços e sucessos decantou-se o arranjo que, acreditamos, melhor se adequa a um país de porte continental como o Brasil”, afirma o Ministro. Confira a íntegra da entrevista: A matriz energética brasileira é fundamentada na hidreletricidade, mas a intenção é diversificar cada vez mais as fontes de geração. O Brasil deve continuar explorando seu potencial hidrelétrico ou vai investir maciçamente em fontes alternativas, como a eólica e a solar? Essa é o tipo de questão que o PNE se propõe a responder. Sempre que nos debruçamos sobre a matriz energética brasileira, em que pese o porte do País, chamam a atenção não só a participação da energia renovável (45.1% em 2006), mas também a diversidade de fontes de energia e recursos. A matriz de energia elétrica, considerando-se a natureza das importações, alcança impressionantes 89% de participação renovável e igual diversidade. Poucos países possuem tantas possibilidades para a oferta de energia. Dispomos de um potencial hidrelétrico imenso,

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O modelo atual do Setor Elétrico apóia-se nas leis nº 10.847 e nº 10.848, de 15 de março de 2004, e no Decreto nº 5.163, de 30 de julho de 2004. O novo arranjo institucional trouxe clareza ao setor energético. O governo retomou sua função indelegável de planejador. Para isso criou a Empresa de Pesquisa Energética – EPE, voltada à realização de estudos de planejamento para subsidiar o Poder Público em sua atuação estratégica; o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico – CMSE, mecanismo para avaliar permanentemente a segurança do suprimento de energia elétrica; e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica – CCEE, organização para dar continuidade às atividades do Mercado Atacadista de Energia - MAE, relativas à comercialização de energia elétrica no sistema interligado. Nesse contexto, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, ressalta a instituição do Plano Decenal de Expansão de Energia, um dos principais instrumentos de planejamento energético, que apresenta um programa de obras de referência no horizonte decenal, atualizado anualmente e do Plano Nacional de Energia - PNE, com visão estratégica de até 30 anos,

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bem como possibilidades invejáveis para geração elétrica a partir de várias outras fontes de energia tradicionais, como gás, energia nuclear e carvão, assim como as ditas energias alternativas. Em decorrência da enorme vantagem comparativa da hidreletricidade, tanto em termos de custos quanto de outras externalidades, em relação a outras fontes de energia ditas tradicionais, a geração elétrica a partir da energia eólica e da solar serão, por hora, complementares à geração hidráulica, nuclear e de carvão mineral, por exemplo. No Brasil, a geração hidráulica ainda é a que proporciona menores tarifas ao consumidor e, portanto, tem prioridade nos estudos de expansão. Observe que o potencial hidrelétrico remanescente não aproveitado no Brasil situase em torno de 173 GW segundo o PNE 2030, o que significa mais de duas vezes a capacidade instalada atual.

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“Dispomos de um potencial hidrelétrico imenso, bem como possibilidades invejáveis para geração elétrica a partir de várias outras fontes de energia tradicionais, como gás, energia nuclear e carvão, assim como as ditas energias alternativas”.

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Em relação aos sistemas de transmissão, o Brasil tem um modelo ímpar no mundo, que é o Sistema Interligado Nacional - SIN. Fale sobre a importância da interligação dos sistemas isolados Acre-Rondônia-Mato Grosso e Tucuruí-Macapá-Manaus. O SIN é singular porque com as interligações regionais que aproveitam a diversidade hidrológica entre as regiões, consegue-se um expressivo ganho energético da ordem de 6.900 MW médios, isto é, cerca de 13,7% de toda a energia produzida pelo sistema interligado, permitindo que a energia gerada seja importada e exportada entre as regiões brasileiras, de acordo com as condições e necessidades de cada região. Os sistemas isolados são supridos por energia elétrica cuja base de geração é fundamentalmente térmica, subsidiada pela Conta de Consumo de Combustíveis Fósseis - CCC. Com as novas interligações dos estados de Rondônia e Acre ao sistema Sudeste/Centro-Oeste e dos estados do Amazonas e Amapá por meio da interliga-

ção Tucuruí-Macapá- Manaus, o Brasil contará com todos seus estados conectados ao SIN, exceto – ainda - o Estado de Roraima. Nesse cenário, haverá uma redução significativa na CCC da ordem de 80%. A situação dos sistemas isolados é preocupante do ponto de vista operacional e econômico. A federalização das concessionárias e geradoras da Região Norte vai levar a uma solução? A CCC vai continuar existindo depois da interligação? A Conta de Consumo de Combustíveis Fósseis dos Sistemas Isolados CCC-ISOL é o encargo do Setor Elétrico brasileiro, cobrado nas tarifas de uso dos sistemas elétricos de distribuição e transmissão dos consumidores de energia elétrica, para cobrir os custos anuais da geração termelétrica, produzida nos sistemas isolados do Norte do Brasil. Exceto as empresas CEA, do Amapá, e CER, de Roraima, as demais estatais que atuam na região, nos estados do Acre, Rondônia, Amazonas e Boa Vista já são federais. A Eletrobrás aportou muitos recursos a essas empresas com pouco êxito, e o que se busca agora é rever a forma de gerir essas empresas para melhorar seu desempenho. Algumas concessionárias acabam arcando com certas dificuldades, por atender grande número de localidades remotas e de difícil acesso no imenso território da Amazônia. Essas condicionantes são importantes para o desempenho técnico e financeiro das empresas empenhadas no enfrentamento desses problemas. A interligação com o SIN vai diminuir significativamente o uso da CCC nos sistemas isolados. Contudo, algumas localidades continuarão isoladas, demandando recursos da CCC-ISOL. Que outras soluções podem ser dadas para resolver a insolvência das concessionárias estaduais e o prejuízo que esse sistema causa aos cofres da Eletronorte? Em valores correntes, estima-se uma economia da ordem de R$ 1 bilhão com a interligação do Sistema Acre-Rondônia e da ordem de R$ 2,5 bilhões, com a interligação dos sistemas do Amapá e de Manaus, pela linha Tucuruí-Macapá-Manaus, embora boa parte desses recursos continuará a ser arrecadada para cobrir os custos da sub-rogação dos projetos que ajudaram a reduzir a CCC quan-


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, sem vetos, a Lei 11.651, decorrente da Medida Provisória 396, que amplia a área de atuação da Eletrobrás, permitindo à empresa participações majoritárias em empreendimentos, maior flexibilização nos negócios e a atuação no exterior. Esse ato vai proporcionar maior competitividade ou o Estado volta a ser grande investidor, com capacidade de influenciar os resultados dos leilões? A nova lei fortaleceu o Grupo Eletrobrás e a sua atuação, muito à imagem do sucesso da Petrobrás. O que a impulsionou foi a possibilidade de fortalecer o laço com o capital privado e a construção do convívio empresarial mais produtivo no Setor Elétrico brasileiro, bem como realizar novos projetos, tanto nacionais como internacionais. A parceria com o capital empreendedor e a envergadura da Eletrobrás possibilitarão concretizar projetos antes considerados impossíveis, pois os custos de oportunidade e de organização

eram muito altos para o capital privado. Com isso, projetos importantes e lucrativos, alguns transnacionais, que beneficiariam comunidades e integrariam o continente, redesenhando a geopolítica regional, não eram executados. Não se tratando, tampouco, de uma volta do Estado como grande investidor do setor. A Eletrobrás será um novo player na região, assim como a Petrobrás e muitos outros players no mundo. Reger-se-á pelo conceito de parceria com o capital privado. Embora a Lei permita que haja uma participação da estatal e de suas subsidiárias nos empreendimentos energéticos majoritariamente ou até de 100% (anteriormente limitada a 49%), isso só ocorrerá, na ausência de propostas dos empresários, ou seja, quando se tratar de um projeto estratégico. Nesse caso, a Eletrobrás poderá assumi-lo sem limitações, respeitando, claro, o interesse dos acionistas. Com isso, a atuação da Eletrobrás será no domínio econômico. Portanto, não há que se falar de influência de preços ou de competição predatória. Há conselhos de administração, legislação constituída e controles administrativos e externos que trazem transparência aos processos de governança de uma empresa do porte da Eletrobrás.

“A situação financeira das empresas é ditada não só pelo equilíbrio entre receita e despesas, mas também pela eficiência da gestão empresarial, com destaque para a melhoria na arrecadação das contas de energia faturada, pela redução das perdas técnicas e dos furtos de energia”

Como será a nova Eletrobrás após a edição da Lei? Quais outros empreendimentos de vulto estão previstos para os próximos anos? As possibilidades são muito boas. O espírito da Lei é dar dinamismo e envergadura à atuação da Eletrobrás. Dessa combinação surgirá uma empresa com presença e capacidade empresarial para levar adiante vários projetos, em conjunto com a iniciativa privada. O novo quadro legal de atuação, por exemplo, facilitará a obtenção de financiamento junto aos bancos em modelos de

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do o sistema era isolado, conforme previsto em lei. Além disso, encontra-se em estudo a elaboração de regras para integração dos sistemas isolados ao SIN, em que o princípio do respeito aos contratos para produção de energia existentes nas localidades que forem interligadas deverá ser preservado, devendo essas apenas se ajustarem para operar de acordo com as regras do SIN e com menores gastos de combustível. A situação financeira das empresas é ditada não só pelo equilíbrio entre receita e despesas, mas também pela eficiência da gestão empresarial, com destaque para a melhoria na arrecadação das contas de energia faturada, pela redução das perdas técnicas e dos furtos de energia. As perdas de energia, de origem elétrica ou comercial, que comprometem grande parte da receita, precisam de cuidados redobrados para alcançar valores razoáveis. As despesas também necessitam ser controladas com todas as ferramentas disponíveis, otimizando tudo o que estiver ao alcance da administração. O custo da energia comprada ou produzida pela própria empresa, com exceção da questão dos altos custos provocados pelos combustíveis fósseis, merece atenção no que se refere ao parque térmico gerador existente, com vistas à sua modernização, em especial para as localidades que permanecerão isoladas por tempo ainda indefinido.

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project finance antes vetado às empresas estatais, que, por exemplo, atualmente participam de consórcios para o investimento no complexo do Madeira junto a empresas privadas, minoritariamente. No plano internacional há boas oportunidades na Argentina, como Garabi e Corpus, e na Bolívia, com empreendimentos como Cachuela Esperanza, no Rio Beni, e a binacional Guajará-Mirim, na fronteira com o Brasil, no Rio Mamoré, que se junta com o Rio Beni e forma o Rio Madeira. Imagino que se pode apenas intuir o imediato, mas as possibilidades futuras são imensas. O Setor Elétrico é um dos que mais investem em pesquisa e desenvolvimento. Como o senhor pretende incentivar projetos de P&D e fazer que eles sirvam para alavancar o desenvolvimento do País? O Setor Elétrico sempre investiu muito, principalmente após entrar em vigor a Lei nº 9.991/2000, pela qual as concessionárias e permissionárias de serviços públicos de distribuição de energia elétrica ficam obrigadas a aplicar, anualmente, o montante de, no mínimo, setenta e cinco centésimos por cento de sua receita operacional líquida em pesquisa e desenvolvimento e, no mínimo, vinte e cinco centésimos por cento em programas de eficiência energética no uso final. Existem os fundos setoriais, entre eles um voltado à energia, o CT-Energ, gerido pelo Ministério de Ciência e Tecnologia. É um fundo destinado a financiar programas e projetos na área de energia, com especial ênfase em eficiência energética no uso final, bem como fontes alternativas. Juntamente com os mecanismos de incentivo à Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) adotado pela Aneel nos contratos de concessão, amplia sua abrangência setorial. No caso, as empresas concessionárias de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica repassam ao

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“A legislação ambiental brasileira é bem completa e abrangente e, em resposta, o MME mantém ações permanentes de avaliação das diretrizes ambientais para o setor, com adoção de metodologias cada vez mais adequadas e próximas à realidade das nossas atividades”

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fundo um percentual variável de 0,75% a 1% da receita operacional líquida. Os investimentos anuais das empresas do Setor Elétrico são da ordem de R$ 150 milhões em P&D (investimento direto pelas concessionárias) e pouco mais de R$ 300 milhões em eficiência energética (investimento direto pelas concessionárias). Avanços também têm sido alcançados na área de meio ambiente e responsabilidade social. O que fazer para demonstrar ao mundo e aos brasileiros que hidrelétricas e sistemas de transmissão podem ser feitos em consonância com a preservação da natureza e com o desenvolvimento sustentável? É inequívoco que toda interferência do homem no ambiente pode resultar em danos, além dos benefícios que se pode pretender. Os empreendimentos hidrelétricos não são exceção, embora entendamos que, nesse caso, o saldo é amplamente positivo. O Setor Elétrico tem-se comportado com responsabilidade diante das questões ambientais. Prima pelo planejamento e investe em pesquisa. A legislação ambiental brasileira é bem completa e abrangente e, em resposta, o MME mantém ações permanentes de avaliação das diretrizes ambientais para o setor, com adoção de metodologias cada vez mais adequadas e próximas à realidade das nossas atividades. Soma-se a esse esforço o bom relacionamento com os diversos segmentos sociais e a transversalidade no Governo Federal. Por exemplo: muito freqüentemente destaca-se como maior impacto ao meio ambiente a interrupção da migração de peixe e o deslocamento de populações ribeirinhas para formação do lago. Para lidar com esses problemas, existem diversos procedimentos adotados pelo Setor Elétrico visando a minimizar e compensar tais interferências. A demora na expedição das licenças ambientais ainda atrapalha o planejamento do Setor Elétrico? O MME vem atuando fortemente para estabelecer, em conjunto com o Ministério do Meio Ambiente, políticas e medidas de compatibilização das atividades de geração e preservação do ambiente a fim de se promover o desenvolvimento sustentável. Assim, internalizamos o conceito de usos múltiplos


Na área de petróleo, fale sobre as descobertas de novos campos petrolíferos pela Petrobras. Em novembro de 2007 a Petrobras anunciou ao Conselho Nacional de Política Energética - CNPE a existência de uma nova e significativa província petrolífera no Brasil, com grandes volumes recuperáveis estimados de óleo e gás natural, denominada de pré-sal. A análise e a interpretação dos dados obtidos nos poços perfurados pela Petrobras naquela área, integradas a um trabalho de mapeamento com base em dados geofísicos e geológicos, permitiram à empresa situar essa área entre os estados de Santa Catarina e Espírito Santo, nas bacias do Espírito Santo, de Campos e de Santos. A área delimitada possui cerca de 800 quilômetros de extensão e até 200 quilômetros de largura, em lâmina d’água que varia entre 1,5 mil e três mil metros de profundidade. Os testes indicaram a

existência de grandes volumes de óleo leve de alto valor comercial (30º API), com grande quantidade de gás natural associado. Nessa província, desde então, foram anunciadas as descobertas de Tupi, com reservas estimadas de cinco a oito bilhões de barris de petróleo, e as de Júpiter. Essas descobertas denotam um potencial imenso para a área do pré-sal e colocam o País sob nova perspectiva em termos de reservas de petróleo e gás natural, podendo situá-lo entre as dez maiores reservas mundiais. E a área de minas, como o governo pode incentivar a exploração de minérios e fortalecer o setor? O Brasil é um País privilegiado em recursos minerais. A última consolidação de investimentos em mineração no Brasil aponta para US$ 32 bilhões nos próximos cinco anos, com o protagonismo do segmento de minério de ferro, responsável por cerca da metade desses investimentos. Os estados de Minas Gerais e Pará são os líderes nacionais em produção mineral e em investimentos. O Brasil se destaca em mineração por sua posição no ranking de produção mundial, merecendo citação: ferro (1º), nióbio (1º), manganês (1º), bauxita (2º), grafita (3º), rochas ornamentais (4º), amianto (4º), magnesita (4º) e caulim (5º). Nos próximos anos, com os investimentos em curso, o País será também importante produtor de níquel e cobre. Gostaria de destacar um importante segmento da mineração brasileira que muitas vezes é relegado ao esquecimento. Refiro-me à pequena mineração, que não pode ser colocada em segundo plano. Esse segmento representa mais de 70% do número de empresas de mineração do País, 25% da mão-de-obra contratada (considerando a informalidade, alcança 40% dos trabalhadores do setor) e predomina na produção de argila para fabricação de tijolos e telhas, areia e brita para a construção civil, ardósia, calcário, gemas, gipsita, granito, diamante, feldspato, mica, quartzito e outros bens minerais.

“Considerando as metas de crescimento econômico e a necessidade de incremento da matriz energética da ordem de 4.800 MW/ano, em média, há algo a ser feito para compatibilizar esses cronogramas”

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no que concerne ao compartilhamento dos recursos hídricos, aprimoramos os mecanismos de regulação e a integração das políticas governamentais. Isso significa que o tratamento ambiental ganhou em detalhe e atenção. Também é verdade que, em razão da atenção ambiental que a sociedade hoje acalenta, muitos empreendimentos sofreram com atrasos. No período de 2003 a 2006 foram concedidas, no âmbito do licenciamento ambiental federal, 17 licenças ambientais para novas usinas hidrelétricas, totalizando um incremento na matriz energética da ordem de 1.940 MW, referentes às usinas que entraram em operação nesse período. Em 2007 somente duas licenças foram emitidas para usinas hidrelétricas pelo órgão federal de licenciamento ambiental, referentes ao complexo do Madeira e à Simplício. Considerando as metas de crescimento econômico e a necessidade de incremento da matriz energética da ordem de 4.800 MW/ano, em média, há algo a ser feito para compatibilizar esses cronogramas. Um exemplo interessante é o estudo realizado pelo Banco Mundial, segundo o qual a emissão de uma licença prévia tem levado em média 1.188 dias, enquanto a norma legal preconiza que se faça isso em até um ano. É claro que isso decorre tanto da complexidade da matéria, quanto da insuficiência de recursos, bem como do aparato legal correspondente, que permanece complexo e envolve diversos atores e instâncias.

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ENERGIA ATIVA

Dardanelos: um sopro de esperança nas cachoeiras de Aripuanã

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Márcia Oliveira

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Aos 64 anos, a cidade já viveu da extração do ouro, da borracha, da pecuária e da madeira. Teve certa riqueza em dois momentos pontuais que surgiram como promessas de um futuro próspero. Mas, as experiências foram antagônicas. Assim como trouxeram dinheiro fácil e em abundância, legaram traumas e a deixaram, por duas vezes, às portas da agonia. Hoje, ainda na fase de crescimento, Aripuanã, que fica a 1.095 quilômetros de Cuiabá, capital de Mato Grosso, e é acessada de forma mais rápida por um vôo de três horas, tem um novo alento, um sopro de vida para ganhar forças e recuperar a esperança de crescer. Porém, dessa vez de forma sustentável. A novidade chegou com a construção do Aproveitamento Hidrelétrico Dardanelos, coordenado pela empresa Energética Águas da Pedra, da qual a Eletronorte faz parte. Dardanelos é oriunda do Leilão nº 004/2006 , realizado pela Aneel em 10 de outubro de 2006, de cujo consórcio a Eletronorte participa com 24,5%. A Neo Energia tem 51% de participação e a Chesf outros 24,5%. As obras começaram em setembro de 2007 e estão em fase adiantada, com previsão de início de geração para janeiro de 2010, um ano antes do previsto. A receita estimada do empreendimento é da ordem de R$ 240 milhões por ano. “As escavações comuns e em rocha do canal de adução, da tomada d’água, dos condutos forçados da casa de força e do canal de fuga estão bastante adiantadas, algumas dessas estruturas já se encontram praticamente na cota final de es-

cavação”, afirma o gerente de Planejamento e Engenharia de Mato Grosso, Hélio Monti.. A previsão é que até o início de 2011 toda a potência de 261 MW seja transmitida pelo Sistema Interligado Nacional - SIN. “Dardanelos tem sido muito estimulante para a Eletronorte porque trouxe à Empresa, depois de muitos anos, o desafio de iniciar e concluir a construção de uma importante hidrelétrica. A Empresa segue firme com o objetivo de ganhar novos leilões de usinas e linhas, rumo a um futuro promissor, garantindo sua contribuição para o crescimento sustentável do País”, adianta Hélio. Tecnologia – Dardanelos será uma usina a “fio d’água”, o que elimina a necessidade de se construir um reservatório e, conseqüente-


crise com o fechamento de madeireiras ilegais e a perda de metade dos 30 mil habitantes, volta a dar sinais de ânimo. O aceno simples e concreto da investida positiva do empreendimento na cidade pode ser notado, segundo a presidente da Associação Comercial de Aripuanã, Seloir Peixes Reghin, no número de reformas e construções feitas nos últimos cinco meses. Foram ao menos vinte. São hotéis, restaurantes, supermercados e lojas de prestação de serviços, que melhoram a fachada, ampliam as instalações e redobram cuidados para atender à demanda da empresa e dos cerca de 800 trabalhadores que aportaram na cidade para construir a hidrelétrica. “O comércio estava em agonia desde a Operação Curupira, da Polícia Federal, que fechou várias madeireiras ilegais. Essas em-

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mente, prejudicar as cachoeiras do Rio Aripuanã. A partir da entrada em operação da primeira turbina, a cada três meses entrará em operação uma nova unidade geradora até completar o cronograma de funcionamento, que contempla quatro grupos de 58 MW e um de 29 MW totalizando a produção de 261 MW. Essa produção será direcionada para o SIN. O traçado do linhão irá acompanhar grande parte das margens das rodovias MT 420 e 208. A linha terá tensão nominal de operação de 230 kV, podendo ter seu cabo pára-raios utilizado nas telecomunicações em geral, viabilizando projetos empresariais, o aumento da oferta de emprego e a melhoria da qualidade de vida da população. Desde o início das obras, o comércio da cidade de Aripuanã, que estava paralisado e em

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presas, mesmo irregulares, empregavam e faziam o dinheiro circular. Sem elas, entramos novamente numa fase de estagnação que está sendo alterada com a vinda da obra”, afirma a comerciante que tem uma vídeolocadora, uma floricultura e uma loja de presentes. Nas próprias lojas, Seloir afirma que as vendas subiram 16% desde que os trabalhos começaram. “Mesmo não tendo todos os produtos, as vendas aumentaram. E com os pedidos de alguns que são mais exigentes, também estou diversificando e melhorando a oferta. A cidade com certeza mudou para melhor”, avalia. A secretária de Educação do município, Gladis Fabris, lembra que as expectativas da população com a presença do empreendimento são as melhores, pois, ela já teria passado por “altos e baixos”. “Quando eu vim para cá, como professora, na década de 1970, a principal atividade era o garimpo. Faziam-se compras de mercadoria com pepitas, para se ter uma idéia. Paralelo a isso tinha a atividade de extração de borracha, que nunca foi forte. No início dos anos 80, à medida que o ouro se acabava, a cidade também se definhava. Mas a migração de sulistas que passaram a explorar a madeira em paralelo com a pecuária, trouxe uma nova esperança. Com a extração de madeira a cidade voltou a crescer, porém o crescimento foi pautado em estruturas frágeis, mas agora estamos novamente esperançosos”. Gladis conta que para a Educação a contribuição da Energética Águas da Pedra foi uma parceria que garantiu o treinamento de 660 professores em técnicas pedagógicas, com um grupo de educadores do Rio de Janeiro. O mesmo treinamento será estendido também para os professores da zona rural.

Arrecadação - Fora as alterações visíveis na cidade, José Piccolli Neto, diretor-presidente da Águas da Pedra (foto abaixo), lembra que a partir do momento em que a usina começar a produzir energia, o município terá um acréscimo de 20% a 25% na sua atual arrecadação anual, hoje em R$ 17 milhões. “Isso apenas com o pagamento do ISS e das compensações pela área alagada (royalties). Mas com a finalização da obra, a cidade e a região ficarão mais atrativas para os investidores. Temos informações que a empresa Votorantin pretende se instalar aqui para explorar uma jazida de zinco. A produção de energia na região atuará como um chamariz para empreendimentos. Com isso, o local precisará melhorar sua infra-estrutura de estradas para escoar produtos, e de hotelaria para atender ao turismo, entre outras atividades. A economia como um todo será fomentada”, avalia Piccolli. O prefeito de Aripuanã, Ednilson Luiz Faitta (PP), afirma que a obra é vista como um trampolim para o desenvolvimento e que após o funcionamento das máquinas, a cidade terá


Ritmo das obras impressiona

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maior capacidade administrativa para investimentos. “Penso que o município poderá ser um pólo de desenvolvimento da região, principalmente se a Votorantin decidir se instalar aqui. Atualmente a empresa faz um estudo de viabilidade econômica para a atividade e caso o negócio seja concretizado, teremos vários outros impulsos”. Atualmente, com apoio da Águas da Pedra, o município trabalha o Plano Diretor da cidade. É no documento que ficarão estabelecidas as leis, regras e normas legais para o uso e ocupação do solo, para o cuidado com o meio ambiente, a coleta de lixo, entre outros, de forma a permitir a expansão planejada do município. O Prefeito (foto acima) afirma ter consciência que a cidade contará com o auxílio concreto do comércio durante a construção da usina, e, depois, maior capacidade econômica com o aumento da receita, mas que para se desenvolver de verdade, terá que fazer o dever de casa. Nele estão incluídas a urbanização do município, a criação do Parque das Cachoeiras das Andorinhas, a pavimentação do aeroporto e a melhoria de infra-estrutura turística.

Meio ambiente - O Presidente da Águas da Pedra lembra que 60% da mão-de-obra que atua no empreendimento é local e que haverá trabalho por dois anos e meio. Ao final, estará capacitada para atuar em trabalhos similares e na construção civil. Além disso, a empresa já desenvolve ou dá corpo a 31 programas, descritos no Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima), nas áreas socioambiental e de saúde. Entre eles está o Programa de Conservação da Flora, que consiste na coleta de sementes de árvores e plantas nativas para a criação de mudas. Com essa atividade, até o final de 2007 dez mil mudas foram criadas e atualmente são doadas para instituições que têm interesse no plantio. Há também o Programa de Monitoramento da Ictiofauna, que estuda as espécies e o ciclo de vida dos peixes nativos; o Programa de Monitoramento da Avifauna, que monitora as atividades dos andorinhões que habitam as quedas d’água e das aves da floresta; e o Programa de Monitoramento de Herpetofauna, que estuda os anfíbios. Todos os programas têm a intenção de evitar a morte ou qualquer atividade que prejudique a vida e a reprodução da fauna e da flora locais. “Desde que chegamos apoiamos várias ações do município nas áreas de saúde e meio ambiente, e mesmo ações sociais filantrópicas, como a da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionaisb - Apae, instituição para a qual doamos um furgão para auxiliar no transporte dos alunos. Até então, 20 crianças eram atendidas, depois, o serviço foi ampliado para 60 e a população local também se sensibilizou e passou a apoiar o trabalho da Apae”, relata. Piccolli lembra que até a estrutura do Banco do Brasil, que tinha o piso de chão batido,

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melhorou após a chegada da Águas da Pedra. E que na cidade, a pista de pouso que também é de chão e cascalho, já tem possibilidade de receber asfaltamento.

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Aripuanã passa por mais uma transformação

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Mudança de vida - Para a trabalhadora Claudete de Fátima Leal da Silva, a chegada da empreiteira em Aripuanã teve efeito imediato para a sua sobrevivência. Separada do marido e desempregada há três meses, desde que a madeireira em que trabalhou por 12 anos foi fechada, ela foi uma das primeiras a chegar no canteiro de obras, logo que conseguiu uma vaga de zeladora. O novo emprego foi decisivo para os rumos que sua vida iria tomar, pois caso não tivesse sido contratada para trabalhar na construção de Dardanelos, a saída para continuar sustentando seus dois filhos e a mãe, seria seguir o caminho de vários de seus colegas e abandonar a cidade em busca de sustento. “Eu já pensava na possibilidade de deixar a cidade e morar em outro lugar. Aqui o comércio tinha parado, as pessoas estavam sem esperança e minha última tentativa foi procurar emprego nos hotéis. Tive tanta sorte no dia que fui, um trabalha-

dor da obra que fazia contratações estava lá e pedi uma vaga, ele aceitou e graças a Deus pude ficar”. Claudete trabalhou por três meses como zeladora e quando os outros 800 trabalhadores que atuariam direto na obra chegaram, foi promovida a líder da equipe das 50 mulheres que fariam os serviços gerais. “No começo foi difícil, a maioria é de homens e eu, como a maioria das pessoas, nunca tinha trabalhado num canteiro de obras. Mas recebemos capacitação, treinamento para entender melhor de relacionamento humano e hoje me sinto uma pessoa iluminada. Tive a oportunidade e a segurei”, reconhece. A trabalhadora, assim como seus colegas, sabe que o trabalho atual terá duração definida de dois anos e meio, se corresponderem às expectativas da empresa. E se diz preparada para encarar novos desafios quando a obra terminar. “Sabemos que esse trabalho não é para sempre e acreditamos que a cidade voltará a crescer. As coisas já começaram a mudar. Muita gente que deixou a cidade em função da crise das madeireiras já retorna e também acredita que teremos um novo impulso de crescimento”, avalia.


Construção do amanhã Um ciclo de crescimento está marcando o ano de 2008 em Mato Grosso, com várias ampliações do sistema elétrico sob a responsabilidade da Eletronorte, com destaque para a subestação Barra do Peixe. Várias são as frentes de trabalho, e o sol, a chuva, o frio e o calor intenso não incomodam tanto. “Há quem afirme que já se acostumou às intempéries, mas o clima goiano de Ribeirãozinho requer superação, pois de dia é quente e à noite bate um ventinho gelado”, relata José Evaldo Costa da Silva, operador da subestação. Na verdade o Rio Araguaia contribui para a brisa noturna trazer novos ventos.

Os operadores – Eles são categóricos: “Não é fácil não, tanta gente trabalhando ao mesmo tempo e nós operando a pleno vapor”. O recorde estimado foi de 200 pessoas no pátio da subestação. Um detalhe: com a subestação energizada. Para quem está acostumado ao dia-a-dia pacato de Ribeirãozinho, é movimento garantido. O emocional às vezes fica à flor da pele, mas eles sabem contar até dez, respirar fundo e realizar todas as atividades com precisão. “Vem muita gente animada para cá, trabalha o tempo todo bem-humorada, elevando o astral da turma, mas sem perder de vista o comprometimento e as metas a serem cumpridas. Uns contam piadas, outros cantam... será que dá para adivinhar quem são, pois a gente conta a estória, mas não conta o santo?”, brinca um colaborador anônimo. A segurança – Promover a segurança é dever de todos e esta é uma tarefa que os operadores estão sempre ligados. Olhar atento, procurando e procurando para nenhuma condição insegura existir. Não

são super- homens, mas a visão tem que ser de raio X. “Temos que nos superar para ‘cuidar’ de tantas vidas expostas a riscos”, diz Wesley Oliveira Berigo, que completa: “O bom é que o trabalho está sendo realizado em equipe e todos têm um espírito de integração”. A cidade – Localizada quase na divisa de Mato Grosso com Goiás, Ribeirãozinho, distante 595 km de Cuiabá, tem 2.096 habitantes, um hospital – instalações cedidas pela Eletronorte após a implantação da subestação em 1993 -, o Rio Araguaia, que é lindo de se ver pela paz que transmite, é opção certa de lazer. As cachoeiras são um caso à parte “O trança-trança de homem é diferente, carro da Eletronorte para cá, carro da Eletronorte para lá. Toda vez que tem obra a cidade se transforma. Há quem ache muito bom”, avalia Fernando da Silva Monteiro, morador da cidade. “Nosso hotel agora é concorrido, tem até lista de espera, o que é renda certa no final do mês. O investimento para o futuro tem que ser feito agora”, afirma Jean da Silva Matos, do Thenda’s Hotel. Nos restaurantes, na pizzaria da Dona Catulé, nas lanchonetes, nas padarias, o empregado da Eletronorte, ou quem trabalha como terceiro para a Empresa, é o rei. O restaurante campeão de bilheteria no horário do almoço é o do Seu Alfredo, na rodoviária, pode acreditar! Mas também tem o Thenda´s Hotel, mais conhecido como da Lilinha; nos outros, só por encomenda. No Seu Alfredo, a melhor pedida é o comercial, fartura e bom preço. Um cuidado é imprescindível: à noite tem um bichinho, tipo besourinho, que pode te molhar, o pior é que queima. Nada de ficar ao relento e muito menos apertá-lo. Dica de quem sempre vai para lá. O comissionamento - A hora é de se concentrar em pensamentos positivos e a torcida silenciosa é para que tudo que foi checado e testado, por dias ou até meses, se mostre perfeito na prática. Descrito como o momento mais crítico e tenso do trabalho, a

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A obra – Está sendo implantado um arranjo definitivo da instalação com duas barras, disjuntor de interligação de barras, seccionamento da linha Rio Verde/Rondonópolis, circuito II, passando a ser a Rio Verde/Barra do Peixe, circuito I com banco de capacitor série no terminal de Barra do Peixe e a linha Barra do Peixe/Rondonópolis, circuito I, com banco de capacitor série também no terminal de Barra do Peixe. A linha Barra do Peixe/Rondonópolis, circuito I passará a ser a Barra do Peixe, circuito II e com banco de capacitor série no terminal de Barra do Peixe. Para proporcionar essa ampliação foram instaladas duas salas de relés com sistemas de proteções digitalizados. Difícil de entender? Leia novamente, releia. Na verdade o importante é saber que a subestação Barra do Peixe está sendo ampliada e essa ampliação possibilitará maior confiabilidade na transmissão de energia elétrica.

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energização dos equipamentos de uma subestação é também a hora de verificar se o comissionamento, o teste final de qualidade, cumpriu seu propósito. É exatamente nessa fase que trabalham pelo menos 25 técnicos e engenheiros no pátio da subestação Barra do Peixe, no município de Ribeirãozinho. Depois de obras de engenharia, montagem de equipamentos, planejamento e várias reuniões, o momento é do ajuste final, de fazer o trabalho que exige atenção, cuidado, capacidade técnica e precisão. E muita precisão, pois uma falha não identificada, deixada para trás ou ignorada, pode causar explosões, acidentes ou simplesmente, muita frustração: os equipamentos podem não funcionar!

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A hora da verdade - Mas, mesmo diante de toda a minúcia, das horas diárias de trabalho, da distância da família, os técnicos e responsáveis pelo comissionamento em Barra do Peixe afirmam que o trabalho é prazeroso. “É neste momento, eu sempre digo para a minha equipe, que é hora de aprender. Pois no comissionamento temos tempo de checar, testar, conversar com o fabricante, tirar dúvidas. É um trabalho gostoso quando feito de forma planejada e organizada”, afirma o coordenador da equipe de eletromecânica, o técnico José Gonçalves da Costa. Ele lembra que a tensão da energização se justifica muitas vezes pelo tempo dedicado a um equipamento e por aquela ser ‘a hora da verdade’. “Com uma equipe de até três pessoas, às vezes levamos 15 dias para comissionar um transformador, o principal equipamento de uma subestação. Ele é o que nos toma mais tempo. São vários itens para checar, verificar. E só sabemos com certeza se está tudo bem, ao energizarmos o equipamento”. Desde que começaram os comissionamentos, os técnicos e responsáveis pelo trabalho já energizaram cinco etapas, ou seja, já concluíram definitivamente a maior parte do trabalho. Agora faltam duas, das quais a final está prevista para ser concluída neste mês de abril.

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A equipe - Além da equipe de eletromecânica, num comissionamento atuam a de linha, que é responsável por testar a prontidão e eficácia das estruturas de barramentos aéreos, as estruturas metálicas e ao final, energizar. E também, a equipe de sistema de proteção, automação, comando e controle (SPCS), que testa as estruturas as

quais permitem o comando e o controle da subestação, do local e a distância, e como diz o nome da equipe, também checa todo o sistema de proteção. “O trabalho é muito puxado e corrido. A localidade é de difícil acesso e para transportar as peças e mesmo o pessoal demanda um pouco de trabalho. Mas, já energizamos um vão, ao todo são cinco”, conta o coordenador da equipe de SPCS, Marcos Roberto Nonato. A equipe de linha é a penúltima e também a última a entrar na subestação. Depois de comissionar as estruturas de barramento aéreo e a das torres, ela volta após a equipe do SPCS terminou o seu trabalho, para finalmente, energizar. “Cabe a nós fazer o fecho do trabalho. Ligamos um cabo a outro com as mãos, ligando a estrutura antiga à nova, sem desligar o abastecimento de energia. E quando tudo isso dá certo, vemos no rosto de cada um o sorriso de missão cumprida. É uma responsabilidade muito grande, logo, quando tudo dá certo, vem o alívio”, relata o coordenador da equipe de linha, Wilson da Silva Malheiro. (Colaborou Cristina Souto Melo, da Regional de Transmissão de Mato Grosso)


Infra-estrutura da Empresa vai facilitar as ações do governo estadual e ajudar no comércio de excedentes em telecomunicações Jéssica Souza Uma das etapas do projeto Navega Pará, desenvolvido pelo governo do estado em parceria com a Eletronorte, terá uma de suas fases inaugurada neste mês de abril, em Marituba, que está entre as cidades a serem beneficiadas pelo Programa Digital Paraense. A ação marca a interiorização e o início concreto das atividades previstas pelo projeto de inclusão digital, o qual não teria grandiosidade e viabilidade não fosse a infra-estrutura disponibilizada pela Eletronorte. Os trabalhos iniciaram-se em 2007 e estão em fase acelerada de instalação. O projeto de parceria começou a partir da proposta feita pelo diretor de Produção e Comercialização da Eletronorte, Wady Charone, ao governo paraense na perspectiva de se aproveitar melhor o potencial óptico da Empresa a partir da instalação de um supersistema digital com densa capacidade de transmissão de luz e ondas: o DWDM. De acordo com Carlos Nylander (foto abaixo), gerente da Divisão de Telecomunicações da Regional de Transmissão do Pará, em troca do investimento, o governo poderá ampliar o seu projeto lançando mão da malha de fibras ópticas dos sistemas de transmissão da Empresa, enquanto a Eletronorte comercializará o excedente da capacidade instalada. Atualmente, a Eletronorte dispõe de 36 fios de fibras ópticas instaladas ao longo das linhas que interligam as subestações de Belém, Santa Maria, Vila do Conde, Tailândia, Tucuruí, Jacundá e Marabá; e 24 nas subestações do Tramo-Oeste - Pacajá, Altamira, Uruará, Rurópolis, Santarém e Itaituba, sendo que estas são oriundas de negociação com a Celpa. O papel que caberá à Empresa será o de alugar canais de telecomunicações para clientes como Vivo, Embratel, Oi e Brasil Telecom, ampliando a potencialidade de inclusão digital no Pará. Direta e indiretamente, 20% da população dos 64 municípios nas proximidades por onde passa o sistema de transmissão da Eletronorte serão beneficiados. Do

total de quase sete milhões de habitantes, a intenção é chegar inicialmente a pelo menos dois milhões. “Concluímos que tanto a Eletronorte, quanto o governo estadual, economizaram considerável valor para desenvolver um projeto que, com certeza, trará muitos resultados para a população dos municípios envolvidos nessa grande ação de inclusão digital e também do ponto de vista social”, afirma Nylander. O projeto prevê ainda a construção de infovias e a instalação de telecentros para uso geral e de negócios, dentre os quais a teleducação e a democratização do acesso à Internet. De acordo com o cronograma de atividades da Eletronorte, a entrega da instalação do sistema DWDM deve ocorrer até setembro de 2008. Desde dezembro de 2007, quando a Empresa assinou o convênio de cooperação técnica com o governo do Pará, até hoje, a Eletronorte já desenvolveu ações como as de vistorias e levantamentos em campo, bem como as de elaboração e entrega dos manuais de instrução sobre os equipamentos. Nesse momento, os empregados da Empresa passam por treinamento preparatório. A instalação propriamente dita do sistema deve se iniciar a partir do mês de maio de 2008.

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CORRENTE ALTERNADA

Eletronorte é parceira em projeto que viabiliza inclusão digital no Pará

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CIRCUITO INTERNO corrente contínua

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Programa de Qualidade de Vida traz benefícios pessoais e profissionais para os empregados Érica Neiva Uma música leve sereniza o ambiente onde ocorre parte das atividades do Programa Bem-Viver - ação de qualidade de vida da Eletronorte -, conhecido como Espaço Azul. Além deste espaço, os empregados são beneficiados em suas próprias salas de trabalho. Em 2007, o Programa realizou 8.590 atendimentos, cujo objetivo é a prevenção de doenças, promovendo o bem-estar físico e psíquico dos trabalhadores. As atividades começaram em 2000. Porém, em 2003 foi desenvolvido um trabalho com os técnicos de saúde da Sede da Eletronorte e profissionais da Universidade de Brasília- UnB, a Pesquisa de Qualidade de Vida e Estresse. A consulta buscou a complementação e o levantamento de informações sobre a saúde, estilo de vida e hábitos do empregado. É importante destacar que um dos indicadores considerados, o índice de absenteísmo por doença, ou seja, a falta do empregado ao serviço por problema de doença, que era de 2,36% em 2004, em 2007 foi de apenas 1,0%, na Sede da Empresa. O empenho da Eletronorte na busca de atividades que visam a promover a saúde e a reduzir o estresse do empregado foi reconhecido, em 2004, quando o Programa Bem-Viver ficou como primeiro colocado, na categoria Empresa Pública, na premia-

Yoga: reaprendendo a respirar

ção da Associação Brasileira de Qualidade de Vida - ABQV. O importante é contar com uma força de trabalho saudável para que o nível de produtividade seja satisfatório. “Precisamos de empregados em condições de saúde integrais, para que o nosso planejamento estratégico não seja comprometido. Não adianta pensar em redução de prejuízos e atingir metas, se não há o principal elemento de uma empresa, que é o ser humano com qualidade de vida. O entusiasmo, a felicidade e o bem-estar do empregado são elementos que contribuem para melhor atuação do colaborador e para que ele venha para o trabalho mais feliz”, destaca o gerente de Promoção da Qualidade de Vida, José Alberto Mascarenhas. O Programa Bem-Viver compreende 15 atividades: massoterapia; ginástica laboral; reembolso-academia; teatro amador; coral; yoga; cinesioterapia laboral; educação postural; circuito inteligente de energia; oficinas de qualidade do sono – insônia e apinéia; reeducação alimentar; educação e prevenção do diabetes mellitus; controle do tabagismo; e educação e prevenção da hipertensão arterial. Um sopro de vida - Uma respiração plena... O corpo executa movimentos e se molda em posturas que garantem não apenas oequilíbrio físico; a mente busca aquietação e tranqüilidade dos pensamentos para que se


Apesar de praticar os exercícios há apenas dois meses, o biólogo já percebe significativas mudanças no seu corpo. “A yoga trabalha grupos musculares que, geralmente, não são exercitados. Permite percebermos melhor o nosso corpo. Ainda estou na fase de aprendizado, no entanto, sinto-me mais flexível; o problema de coluna e as dores ósseas melhoraram. Também permite aumento da concentração. Com o tempo, sei que vou conseguir extrair mais benefícios da atividade”, expõe William.

Ginástica laboral (foto acima) - São 8h45. Uma equipe de trabalho composta por dois educadores físicos e seis estagiários sai a campo. Em seus uniformes, uma combinação das cores vermelha e azul, percorrem as salas da Sede da Eletronorte. A função desses rapazes e moças é levar a ginástica laboral

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possa entrar em contato com o a essência e profundidade de cada ser. Esse é o propósito da yoga, prática e filosofia indiana que surgiu no ano 8.000 a.C. Para Patañjali Yoga, mestre que organizou esse conhecimento, “yoga é a cessação das flutuações da mente”. Na Eletronorte essa atividade teve início em 2007. Hoje conta com quatro instrutores e cinco turmas. A instrutora Aida Cruz reconhece que os alunos alcançam uma melhor qualidade de vida no aspecto físico e mental. “Durante as aulas, percebemos que as pessoas estão ficando mais alongadas, com menos problemas de saúde. É importante essa busca pela yoga, pois isso significa que a pessoa, internamente, quer uma mudança. Alguma coisa dentro dela está pedindo para ser transformada”, afirma a instrutora. Yoga quer dizer união. Seu elemento principal é o ato de respirar. “O primeiro sopro de vida é a respiração. À medida que respiramos, tomamos consciência de nós mesmos. Ao respirarmos bem, vivemos bem. Somos aquilo que pensamos e a respiração tem uma ligação direta com nossos pensamentos”, enfatiza Aida. A instrutora relata o caso muito interessante de uma aluna que sempre tentava fazer uma determinada postura da yoga, conhecida como postura da vela, mas o corpo dela não conseguia subir. “Era uma luta entre ela e seu próprio corpo. Há alguns dias, ela conseguiu. A sala toda comemorou, pois é um trabalho de superação das pequenas dificuldades. É como uma criança que começa a dar os primeiros passos. Ela vai cair e continuar novamente tentando”, conta Aida. O biólogo William Katagiri (foto acima) trabalha há pouco mais de um ano nas ações socioambientais dos empreendimentos da Eletronorte. Tal trabalho já o possibilitou conhecer vários lugares na Região Norte, aproximando-o de hábitos, culturas e costumes diversificados. Ele sempre buscou atividades que trabalhassem os aspectos mental e físico. Crises de asma o levaram a fazer opção por melhor qualidade de vida. Começou com corridas e, hoje, também adotou a yoga para auxiliar na parte respiratória, força física e alongamento.

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Malhação e arte O reembolso-academia diz respeito à parte do valor mensal (60% do valor, limitado a R$ 70,00) pago pela Eletronorte ao empregado para que este pratique exercícios físicos na academia de ginástica de sua preferência. O programa teve início em agosto de 2005 e hoje atende um total de 433 empregados. As pessoas que apresentam algum fator de risco devem realizar exames e acompanhamento nutricional a cada seis meses; para os que não possuem nenhum fator de risco, o acompanhamento é anual. Desde o começo do programa, há um grupo de controle composto por 30 empregados que possuíam pelo menos um fator de risco - pressão arterial, índice de massa corporal, colesterol, triglicérides ou glicemia. Constatou-se, na última avaliação, que 12 deles não apresentavam mais nenhum fator de risco e que o restante possuía melhorias no resultado dos exames.

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Coral - O Programa Bem-Viver abrange também atividades artísticas para proporcionar ao empregado da Eletronorte maior contato com seu talento e sensibilidade. O coral da Eletronorte surgiu em 1978. Fez importantes exibições, viajou, participou de festivais e encontros.

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diretamente ao local de trabalho. A atividade começou em 2005, com a proposta de prevenção de doenças ocupacionais. Os exercícios físicos aplicados no local de trabalho duram entre sete e dez minutos, e decorrem de um plano de aula padronizado para toda a Empresa. Essa padronização possibilita que os resultados possam ser medidos e se tornem mais concretos. Em 2007, a média diária de participação foi de 700 empregados. Para o educador físico Márcio Falcão, a ginástica laboral não é apenas uma maneira

Apresentou-se para o ex-presidente da República João Figueiredo, ministros e o Papa João Paulo II. Hoje reúne um coro de 50 vozes e encontra-se sob a regência do Maestro Deyvison Silva de Miranda. Por sua vez, em 1997, houve a primeira apresentação do teatro amador da Empresa. A peça intitulada Ser Mãe e Trabalhar na Eletronorte é... foi escrita, dirigida e encenada por colaboradores. Narrava a trajetória de uma empregada, desde seu período de estágio na Empresa até sua aposentadoria, destacando seu desenvolvimento profissional e pessoal. A partir daí, o grupo de teatro não parou mais.

de prevenir doenças ocupacionais. “Trabalha também a interação entre colaboradores, sem atrapalhar a sua rotina. Alcançamos bons resultados com relação à diminuição de atestados e afastamentos por problemas osteomoleculares, sem contar que as pessoas relatam mais conforto no trabalho e redução de dores”. Outra característica importante da ginástica laboral é a participação de estagiários. São selecionados estudantes do último ano do curso de Educação Física que permane-


Circuito Inteligente de Energia – O termo Circuito Inteligente de Energia não é apenas uma analogia à atividade desenvolvida pela Eletronorte. Ele também diz respeito aos exercícios físicos que são realizados em um circuito dividido em estações e composto por cama elástica, step, aparelho de abdominal, corda, pesos, extensores de elástico, bola suíça, estacas para demarcar corridas, entre outros. “São materiais simples e de baixo custo, o que viabilizou a implementação dos exercícios. Alcança o mesmo objetivo que uma academia oferece no tocante ao condicionamento físico”, esclarece o professor de Educação Física Márcio Falcão. O objetivo da atividade foi retirar o empregado do sedentarismo, tornando-o mais ativo, com melhor condicionamento físico. O cumprimento desse propósito leva a adoção de alguns cuidados com a segurança do aluno. O primeiro deles reza que todos passem por uma avaliação multidisciplinar com fisioterapeuta, nutricionista, profissional de Educação Física e cardiologista para o teste cardiorrespiratório. Os exercícios, praticados duas vezes por semana durante 30 minutos (foto ao lado), são alternativa para as pessoas que não têm tempo para realizar atividades físicas fora da Empresa. Os resultados dos primeiros testes de reavaliação detectaram melhora nos índices de colesterol e também emagrecimento de alguns alunos. “Um dos objetivos da Educação Física é a promoção de saúde. Estamos no ambiente de trabalho realizando

um programa de atividade física. Isso é algo novo nas empresas e a Eletronorte é uma das pioneiras”, avalia Falcão. Horário cronometrado. Às 6h30, a assistente de Processamento de Dados da Eletronorte, Lucimar Nunn (foto acima), sai de casa com as filhas de 8 e 11 anos; deixa-as na escola e segue para a Empresa. Meio-dia retorna à escola para apanhá-las e, freqüentemente, depara-se com engarrafamentos. Ao chegar em casa, almoça rapidamente e retorna para concluir mais um dia de trabalho. Nesta vida corrida de dupla jornada, onde Lucimar tem que se desdobrar como profissional, mãe e mulher, as atividades do Programa Bem-Viver, entre elas a do circuito e yoga, surgem como uma oportunidade para se permitir conceder um pouco de atenção a si mesma. “Os exercícios significam um momento de relaxamento, quando estou em sintonia comigo mesma. Nossa vida é tão corrida que, às vezes, não tiramos um tempo para nós. No caso do circuito, são 30 minutos dedicados a mim. Isso é muito importante, pois é uma forma de harmonizar a vida de nós mulheres e também aumentar a nossa auto-estima”, reflete Lucimar.

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cem na Eletronorte por um ano. Para a estudante da Universidade Católica de Brasília, Juliana Natalhie de Ávila, 24 anos, o trabalho em equipe permite aprimorar seus conhecimentos e, conseqüentemente, atender melhor aos empregados. “Sinto que nosso trabalho é valorizado. Algumas pessoas que não faziam a aula passaram a fazê-la, adquirindo a consciência da importância dos exercícios no seu dia-a-dia. O estágio é importante, pois me permite praticar o que aprendo na faculdade. Assim, estarei mais bem preparada para ingressar no mercado de trabalho”.

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Oficinas preventivas – O Programa Bem-Viver também é composto por oficinas educativas cuja marca é a multidisciplinaridade entre as diferentes áreas – Nutrição, Serviço Social, Psicologia, Fisioterapia, Medicina, Educação Física e Odontologia. Entre elas podemos citar a oficina de qualidade do sono; educação e prevenção do diabetes mellitus; educação e prevenção da hipertensão arterial; controle do tabagismo e reeducação alimentar; totalizando a participação de 170 pessoas. Um dos grandes objetivos das oficinas é apostar na prevenção de doenças. “Sempre fui muito a favor deste tipo de programa, seja em empresas ou no serviço público de saúde, pois acho que enquanto não investirmos em prevenção, pior fica. Os dados de obesidade, hipertensão, diabetes, tabagismo, entre outros, são alarmantes. Portanto, medidas que enfocam a prevenção são essenciais e devem ser a prioridade de todo e qualquer serviço”, destaca a nutricionista Aida Ribeiro. Desde 1976, o administrador Afrânio Rodrigues (foto acima) trabalha na biblioteca da Eletronorte. Durante esse período, a biblioteca passou por grandes transformações, porém sua paixão pelo trabalho permanece a mesma. “Não sou formado em biblioteconomia, mas sempre trabalhei em bibliotecas. Há 32 anos estou na Empre-

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sa. É um trabalho que faço com prazer. O que mais me encanta é o aprendizado das pessoas, o saber e a vontade de aprender mais e mais”, admite Afrânio. Se a vida profissional de Afrânio é marcada pela satisfação e realização, a vida pessoal foi palco de algumas turbulências. Ao se deparar com os resultados dos exames periódicos, tomou um grande susto quando o médico perguntou se ele queria suicidar-se. “A maneira como o médico falou mexeu muito comigo. Ele foi radical, pois eu estava desatento com a minha qualidade de vida”, reflete. Diante do susto pregado pelos exames, Afrânio ficou um pouco desanimado, mas conscientizou-se e tomou uma atitude para superar os problemas de saúde. Procurou a oficina de reeducação alimentar e, sem hesitação, inscreveu-se. Hoje tem certeza de que a sua iniciativa e força de vontade foram fundamentais para reverter o quadro de saúde. Ele torna-se visivelmente entusiasmado ao falar dos resultados. “Foi excelente sabermos o que podemos, ou não, comer. Chegava ao supermercado e pegava o produto mais barato. Hoje, olho no produto as calorias, se contém açúcar, e também a questão da validade. Cheguei a emagrecer mais de quatro quilos. Na época, elogiaram-me, pois fui o participante da oficina que perdeu mais quilos. Levei a sério mesmo. Agora tenho mais disposição, faço caminhadas e durmo bem. Foi uma mudança de 180º”, relata o administrador. Cinesioterapia laboral – Em setembro de 2007 foi feita uma pesquisa na Eletronorte para saber quantas pessoas sentiam algum desconforto ósseo-muscular. A partir daí, abriram-se as inscrições para os interessados em participar de uma atividade voltada para atenuar essa dor ou desconforto. Iniciou-se, assim, a cinesioterapia laboral que se constitui na prática de exercícios preventivos, orientados e supervisionados por uma fisioterapeuta e educadores físicos, voltados para a região lombar, cervical, torácica e membros superiores (foto ao lado). As aulas acontecem duas vezes por semana, durante 20 minutos. A atividade compreende 15 sessões, em que também


O analista de suprimentos, Cleyber Cunha (acima), faz parte da turma que está concluindo a série de 15 sessões. Ele procurou a atividade por sentir dores na cervical e está satisfeito pelo resultado obtido. “Desde o início da cinesioterapia senti grande melhora. As dores na cervical diminuíram consideravelmente, ou melhor, quase não as sinto. Outro ponto positivo foi a minha postura na estação de trabalho com o posicionamento correto do computador e a regulagem adequada da cadeira”.

A realização de um sonho – Em 1994, não passava pelos planos da massoterapeuta Eline T. F. Acampora vir morar em Brasília. Ela residia no Rio de Janeiro e acompanhava as primeiras notícias sobre a aplicação da massagem em ambientes de trabalho nos Estados Unidos, Japão e China. Punha-se a questionar quando essas experiências seriam vivenciadas no Brasil. Dois anos se passaram e, em 1996, Eline mudou-se para o DF. Em 2000, tornouse uma das pioneiras na prática da massoterapia na Eletronorte. No início, a prática da massagem dava-se nas próprias salas de trabalho. “No começo, eu saía nas salas oferecendo massagem e as pessoas ficavam encantadas e questionando se o serviço seria descontado no salário. Com o passar do tempo, a equipe foi crescendo. As pessoas foram experimentando e vendo que era grande o beneficio tanto pessoal, quanto profissional”, destaca Eline. A massoterapia (abaixo) possibilita às pessoas terem maior consciência do seu corpo e da própria respiração. “Ela ajuda a relaxar, amenizar o estresse, melhorando a nossa qualidade de vida. Conseqüentemente, aumentamos a nossa produtividade na Empresa”, afirma o assistente administrativo que recebe massagens há sete meses, Douglas Faria dos Santos. Em 2007 foram realizadas 4.827 massagens, o que demonstra uma média de 402 massagens por mês.

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são passadas informações com relação à postura e atividades do dia-a-dia – como regular o banco do carro, realizar a limpeza da casa sem prejudicar a coluna, carregar peso, entre outras. Há orientações referentes ao ambiente de trabalho – regulação da cadeira, posicionamento correto do monitor, teclado e mouse. A fisioterapeuta responsável pelo plano de aula da cinesioterapia, Leane Faria Carvalho, frisa que a finalidade da atividade não é a cura. “O objetivo é educar as pessoas e dar orientações para evitar que o problema evolua. Inicialmente, começamos trabalhando a respiração abdominal; depois fazemos alongamento para a região com dor e também exercícios posturais e de fortalecimento. No final é realizado o relaxamento”.

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TECNOLOGIA

Soluções bioenergéticas: bem-vindos ao século da energia!

Fim do petróleo = crise energética? Que nada! Cientistas provam que estamos cercados de boas energias e apenas começamos a descobrir o admirável universo das fontes renováveis

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Byron de Quevedo

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O petróleo chegou a US$ 110,00 o barril e o mundo está menos em pânico hoje do que há quase 40 anos, durante a primeira crise mundial de abastecimento deste insumo, quando o barril não ultrapassava US$ 48,00: países chegaram a ir à guerra pelo chamado ouro negro. Entretanto, o alarme dos anos 70 mostrou que, se algo não fosse feito com urgência, várias nações entrariam em colapso, principalmente se ficassem a depender exclusivamente dos países exportadores de gás e petróleo. Governos, empresas e cientistas voltaram então as suas atenções para outras soluções viáveis. A Eletronorte, uma empresa geradora e transmissora de energia, de origem hidrotér-

mica, logo percebeu que fontes alternativas deveriam vir a se somar ao potencial do seu parque gerador, hoje na ordem de 9.737 mil MW, tendo em vista a crescente demanda por eletricidade no País. Nesse sentido, passou a montar equipes de estudo e a desenvolver programas de pesquisa e desenvolvimento que antecipadamente apresentassem soluções viáveis para a Amazônia, sua área básica de atuação. Ércio Muniz Lima, gerente de Desenvolvimento Energético em Comunidades Isoladas da Eletronorte, apresenta os inventos, procedimentos e processos implantados ou em implantação que ajudarão o Brasil atravessar este que já sendo chamado de “O Século da Energia”. Conversamos também com o químico e cientista Camillo Machado, 88 anos,


um dos pioneiros nos estudos de fontes renováveis de energia no mundo. Seus primeiros inventos sobre o tema são anteriores aos anos 40, época dos carros devoradores de gasolina. Ele inaugurou o ciclo de pesquisas na Eletronorte, em 2000, com uma palestra para cientistas e técnicos da Empresa sobre biocombustíveis. Atualmente, seu olhar paira além dos horizontes energéticos. Ele investiga o potencial de germinação das plantações e, com sua tese “Envelhecimento Precoce da Terra”, já vislumbra a possibilidade de que, com as colheitas em massa de vegetais para produção dos biocombustíveis, áreas improdutivas precisarão ser recompostas precocemente para que as produções não decaiam por safras contínuas.

Deixei essa invenção de lado, pois os biocombustíveis e os estudos do envelhecimento precoce da terra não me deixavam dormir”, comenta Dr. Camilo. O mundo gera mil toneladas de lixo por segundo. Algo tem que ser feito com urgência. Camilo Machado adverte que as liberações de eletricidade em lixões não reduzem a geração de gases, já usados inclusive para a geração de energia elétrica. Atualmente o tema tem sido objeto de vários trabalhos científicos onde se procura obter fontes alternativas de energia a partir da atuação de determinadas bactérias em esgotos, produção de energia em microeletrônica, alimentação de marcapassos etc. Um dado importante: bactérias geram energia 24 horas por dia.

Camilo e Ércio: histórias diferentes, objetivos comuns

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Bateria de microorganismos - Um dos primeiros inventos do Dr. Camilo, ainda iniciando a carreira de cientista da energia, ultrapassou as expectativas do próprio autor da idéia, que a relegou a segundo plano há quase 60 anos, como se fosse um invento menor, sem perceber que este poderia vir a ser uma solução energética amplamente estudada pelos centros de pesquisa em energia no mundo, neste novo século. Hoje há, inclusive, seminários internacionais específicos para acompanhamento de pesquisas sobre o assunto. Trata-se da Bateria de Microorganismos, uma descoberta intrigante. Camilo investigou os sucos de carnes apodrecidos e verificou que além de uma intensa atividade bacteriológica, havia a liberação de eletricidade. A experiência foi apresentada ao grande público, pela primeira vez, na I Feira Nacional de Ciência, no Pavilhão São Cristovão, Estado da Guanabara, em setembro de 1969. O seu simples artefato mostrou que era possível gerar uma diferença de potencial de 1,8 Volt e, assim, acender uma microlâmpada. Tratava-se de uma reação química de oxidorredução, na qual elétrons são extraídos de um dado meio orgânico. “Ficou evidente que na decomposição acontecia um processo com energia possível de captação. Sua aplicabilidade ainda precisa voltar a ser mais bem estudada, mas a tese, como princípio, funciona. E agora, com as novas tecnologias, há a possibilidade de produção de grandes volumes de energia em campos putrefáticos. Talvez estejamos perdendo milhares de megawatts por não utilizarmos o potencial energético dos lixões.

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Sobre a bateria de microorganismos, Ércio Muniz esclarece que são processos bioquímicos e fisioquímicos e, ao contrário do que pensa o Dr. Camilo, o assunto não estagnou e as alternativas biológicas já contemplam um vasto campo de conhecimentos acumulados. “A Universidade de São Paulo, por exemplo, usa células fotovoltaicas com pigmentos de plantas; ou seja, é a repetição em laboratório do processo da fotossíntese, com pigmentos que recebem a energia do sol e gera eletricidade. Ao invés de passar os raios do sol por placas de silício, cientistas já estão usando o processo orgânico: pigmentos de plantas, como o cupuaçu, que recebem a luz do sol e geram eletricidade. Este é um processo de acumulação de conhecimentos sobre energia que começou com pioneiros como o Dr. Camilo, sem dúvida”.

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Energia da madeira - Na Eletronorte, dois importantes trabalhos estão sendo desenvolvidos no Acre: o levantamento das oleaginosas nativas e o inventário de resíduos florestais, verificando-se o potencial de sobras de madeira para fins de produção de eletricidade. “Nos projetos de manejo oficiais e nas serrarias, levantamos o material disponível para gerar energia. Temos várias áreas de manejo controlado no estado, em Cruzeiro do Sul, Rio Branco, Carauacá e Assis Brasil, com madeireiras licenciadas geradoras de resíduos: folhas, cascas de árvores, serragem, tocos, raspas, lascas e sobras de madeira, que hoje se tornaram um passivo ambiental com utilidade”, afirma Ércio. Dr. Camilo, entretanto, adverte que a queima de sobras de madeiras para a geração de eletricidade acarreta uma emissão de CO² na atmosfera, o que exige um processo de

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limpeza da fumaça e, mais uma vez, sugere um dos seus inventos simples e eficazes: os tanques de sucção, pois de nada adiantaria resolver o problema da energia e da eliminação de sobras, e por outro lado contaminar ainda mais a atmosfera. Ele recomenda o uso de exaustores intermediários nas chaminés, com dutos fazendo a sucção dos gases para tanques preparados, por exemplo, com hidróxido de potássio (as cinzas da serragem das próprias serralherias diluídas em água), o que converteria o CO² em sais minerais para vários usos industriais “Toda combustão industrial provoca emissões. Temos que saneá-las antes de liberar os gases nocivos na atmosfera. Neste caso, podemos fazer canalizações obrigando que os gases retornem e passem por processos que os convertam em outras substâncias. No caso da passagem do CO² através do hidróxido de potássio, obtemos um sal de potássio: o carbonato de potássio, ao mesmo tempo em que formamos outros elementos que compõem uma boa adubação”, explica o cientista. Envelhecimento precoce da terra - Tanto para áreas em comunidades isoladas, como para grandes plantações, haverá sempre um momento em que se esgotarão os sais minerais e a terra necessitará de ter sua adubação recomposta. Nesse sentido o Dr. Camilo tem uma patente nova denominada “Envelhecimento precoce da terra”. Ele explica que nem sempre os vegetais encontram o sódio, o potássio, o fósforo (o NPK, o adubo perfeito) pronto para absorver. A partir dessa premissa, ele criou o CMV, um quelador que traz de volta a fertilidade. CMV significa Camilo Machado e Maria Vilma, em homenagem à sua esposa (foto ao lado). Esse quelador é um substrato natural que reduz as substâncias, favorecendo a absorção pelas plantas, e atua facilitando a ação do nitrogênio. O produto foi testado em plantações e demonstrou ser um excelente recuperador de áreas degradadas: nas fileiras de feijão com o quelador, por exemplo, o vigor e o crescimento dos vegetais chamaram a atenção seis meses depois do plantio. “Creio que até em áreas desérticas, se tivermos água, ele será capaz de recuperá-las”, diz Camilo. Segundo ele, é possível reverter uma terra infértil num período de até dois anos. “Com o meu quelador esee tempo diminui para três meses. Isto acontece porque a terra precisa de tempo para a acumulação de nutrientes.


Mulher de cientista

Se os elementos químicos já estiverem próximos às raízes, as plantas os absorverão economizando energia e crescendo mais rápido. Ao ganhar tempo nas colheitas consegue-se o tempo necessário para se evitar o desabastecimento de vegetais, tanto para a produção de combustíveis quanto para a geração de alimentos”. O cientista explica melhor: “Temos que envelhecer a terra precocemente para que ela possa receber as sementes, produzir e restabelecer o equilíbrio ecológico. E por

dizendo que ele estava doente. E começamos a nos arrumar para sair. De repente toda a escola estava na porta de minha casa para visitá-lo. Eu chorei muito e ele correu para cama para se fingir de doente. Muitos alunos tinham pais médicos e foi uma situação muito engraçada, mas estressante. De qualquer forma, sinto-me orgulhosa por ter um marido inteligente. Ele é muito modesto, mas eu sei o quanto é culto. Nossa união tem sido muito abençoada. Temos quatro filhos maravilhosos. Um engenheiro da Nasa, há alguns anos, assistiu uma experiência sobre biocombustíveis do Camilo e queria nos levar todos nóspara os Estados Unidos, com tudo pago, mas ele disse que preferia desenvolver seus inventos no Brasil. - O que a senhora diria para as mocinhas de hoje em dia? - Digo que se o pretendente for uma pessoa boa, não tem problema se casar com um cientista. Principalmente se as invenções não alterarem uma outra parte da pessoa. Camilo sempre foi um companheiro íntegro, honesto e com nobreza de sentimentos. E o que mais me conquistou nele foi o caráter. Eu o escolhi por ser um homem bom. Hoje em dia os amores parecem tão inconstantes, não é? - O fato de ser ele um químico ajudou na química entre vocês? - Ele diz que um elemento é perfeito quando resiste aos processos de fracionamento, apresenta constância nas suas propriedades e mantém as qualidades nas intempéries. E como ele sempre foi firme e com qualidades constantes, creio que combinamos quimicamente. Somos muito cordatos e vivemos harmoniosamente.

outro lado, aumentar as áreas verdes. As plantas, pela fotossíntese, ajudarão a eliminar os excessos de poluidores aéreos. Se não resolvermos estas questões, distúrbios ecológicos sérios poderão acontecer. Na atmosfera temos 78% de nitrogênio, 20% de oxigênio e 2% de gases nobres: argônio, xenônio, capitólio, neônio, radônio e o hélio. Eles não combinam e não temos como produzi-los. Se diminuir o oxigênio e os gases nobres se rarifizerem, os efeitos serão sentidos. Entre outras funções, eles agem

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No dia 8 de março comemorou-se o Dia Internacional da Mulher. Como forma de homenageá-las falamos com a virtuosa pianista e esposa do Dr. Camilo Machado, Maria Vilma Dau Machado, sobre a sua vida ao lado de um cientista, um homem controvertido e com contribuições para o Brasil e o mundo. Dizem que atrás de todo homem brilhante existe uma grande mulher. Mas no caso de Camilo e dona Vilma, foi diferente, ela sempre esteve atrás, ao lado e a maior parte das vezes à frente do seu homem. Eles foram como o sol, a terra e satélites em órbitas que se interagem em seus abraços siderais. E hoje, após uma pequena eternidade de meio século juntos, o universo continua conspirando a favor dessa família feliz. Vilma conheceu o jovem Camilo ainda meninota, como ela mesma gosta de dizer, quando vinha do colégio de freiras, e viu muita gente em volta de um rapaz falante numa praça. “O que se passa?” – perguntou. “Aquele moço ali está fazendo uma gasolina inventada por ele!” – responderam alguns descrentes. Nunca imaginaria que o inventor viria a ser um dia o seu marido. Coisa do destino. Engraçado que aquele não era o caminho normal dela ir para a escola: era um atalho. Só depois de muito tempo voltaram a se encontrar. Foi um namoro a distância, pois ele morava em Goiânia e ela em Franca (SP), mas se correspondiam. - Valeram à pena todos estes anos vida juntos? - Tem sido muito bom, porque com o Camilo conheci pessoas eminentes, cientistas, que não são de minha área, mas que eu aprendi a gostar. Eu estou sempre acompanhando-o. Não sei se dei alguma contribuição, mas fui aquela companheira constante. As experiências dele no fundo do quintal já me queimaram muitas vasilhas, recipientes, colheres, que eu gostava, mas tudo bem, pois ele lançou mão do material disponível no momento. Tivemos momentos difíceis como uma vez que eu queria ir ao cinema, que eu adorava, e ele nunca podia ir comigo, pois estava sempre lecionando ou pesquisando. Então telefonei para o colégio que ele lecionava

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Belém se prepara para receber um dos mais importantes centros de produção de biodiesel A Eletrobrás está investindo na montagem de uma planta-piloto em Belém (PA) para produzir biodiesel a partir da reação de óleo de dendê com etanol. A substância, que terá o selo de certificação da Agência Nacional de Petróleo - ANP, será testada como combustível de motores estacionários e como fonte de geração de energia elétrica. Desenvolvido pela Universidade Federal do Pará -UFPA, envolvendo diversas parcerias, o projeto contará, somente na Região Norte, com investimentos de R$ 800 mil, chegando ao total de R$ 4,7 milhões, se somado o financiamento que será destinado às demais regiões do País. A usina de biodiesel de Belém já está em fase avançada de construção no laboratório de Engenharia Química da Universidade. A expectativa é a de que a usina entre em operação já em abril de 2008. O incentivo à produção de biodiesel é de interesse do Governo Federal, que pretende se tornar menos dependente do petróleo como fonte de energia e se beneficiar das vantagens garantidas pela utilização de combustíveis à base de ésteres graxos, entre elas as de preservação ambiental, fomento à agroindústria e ao desenvolvimento sustentável. O projeto da Eletrobrás conta com o apoio do Instituto Militar de Engenharia -IME e do Centro Tecnológico do Exército (Cetex). A capacidade de produção será de sete mil litros de combustível por semana. A unidade do Pará deverá ser semelhante à implantada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa em Rio Preto da Eva, no Estado do Amazonas. Além dos profissionais de engenharia química, coordenados pelo professor Luiz Ferreira de França (foto acima), que acompanharão de perto o trabalho de produção do biodiesel, as pesquisas, na UFPA, envolverão o Departamento de Química, que fará o controle de qualidade do produto, e o de Engenharia Mecânica, responsável pelos testes nos motores de produção.

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Dendê - O óleo de dendê necessário para a produção do biodiesel será adquirido nas empresas produtoras da

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como os lubrificantes das vias respiratórias. Se, por exemplo, um recém-nascido ficar num ambiente sem estes gases, após umas 500 respirações os seus narizes começarão a sangrar - são gases harmonizadores. Deus criou as suas dosagens certas e não podemos alterá-las. Manter os ecossistemas não é apenas uma questão visual - belas paisagens, rios etc. -, é questão de sobrevivência”.

região, como a Agropalma. Segundo explica o professor França, o combustível pode ser facilmente produzido tendo como matéria-prima qualquer planta oleaginosa. No caso da Amazônia, são exemplos as árvores de andiroba, ucuúba e tucumã. Mas o projeto escolheu o dendê porque o Pará tem em suas proximidades cinco milhões de hectares de terra pronta para o cultivo desta espécie. O Governo, inclusive, oferece incentivos fiscais para a exploração dessa palmeira, pois é a que traz mais vantagens no que se refere às práticas do desenvolvimento sustentável na região. Já no Nordeste, por exemplo, o produto primário previsto no Programa Nacional de Produção de Biodiesel é a mamona, de modo que em outras localidades a matéria-prima escolhida também deve estar de acordo com as características regionais. Outra substância indispensável para a produção do biodiesel na UFPA será o etanol, produto químico que entra em reação com o óleo vegetal. De acordo com o professor França, apesar de algumas empresas já utilizarem o metanol como matéria-prima no mesmo processo, a Eletrobrás incentiva a utilização do etanol

Dr. Camilo também sugere transformar poluentes em produtos de mais fácil assimilação pela natureza. A presença de cloro, enxofre e outros poluentes de terras, rios e mares tem que ser eliminada. Ele criou catalisadores que podem retirar subprodutos nobres de poluentes. De um pneu, por exemplo, é possível extrair em torno de um litro de diesel, vários graxos, intercapa de asfalto e outros derivados, transformando-os em


Dendê: óleo de palma vira biodiesel

componentes de preços com a redução dos custos deste tipo de diesel. “O catalisador é um substrato orgânico, que estando presente em uma reação e havendo calor, quebra a molécula, reage e transforma produtos em outros subprodutos. Ou seja, se a molécula é longa ela poderá gerar moléculas menores como metano, etano, propano, butano. Este catalisador pode quebrar também polímeros, como o óleo da mamona, plásticos e outros

agroindústria”, observa França. Sem falar, é claro, no ganho científico e tecnológico que o Brasil inteiro receberá a partir do desenvolvimento das pesquisas. Processo de produção - O dendê é uma palmeira originária da costa ocidental da África. A espécie chegou ao Brasil por volta do século XVII e se adaptou facilmente ao clima equatorial. O principal produto do dendezeiro é o óleo extraído industrialmente da polpa do fruto, o óleo de palma. No Brasil, a produção anual do óleo de palma está em torno de 80 mil toneladas. O País consome 280 mil toneladas de óleo de dendê e derivados e importa em torno de 180 mil toneladas. O maior potencial mundial para a produção do óleo é o brasileiro, sendo o Estado do Pará o responsável por 70% dessa produção em todo o Brasil. Para se transformar em biodiesel, o óleo de palma precisa entrar em reação com o etanol, ou demais ésteres graxos, de modo que passa por um processo denominado transesterificação, onde os lipídios (gordura) presentes na substância são modificados a partir da utilização de hidróxido de sódio ou de potássio como catalisadores. (Colaborou Jéssica Souza, da Regional de Transmissão do Pará)

produtos. Ou seja, ele pode gerar vários subprodutos, inclusive gasolina. O etileno, por exemplo, pode-se polimerizar e se obter o polietileno. Se fizermos esta mesma reação com o propileno, teremos o propilideno: um plástico”, enfatiza o cientista. Mamonas divinas - Agora, quando se fala em surpreender nada bate a mamona. Questionados sobre o que seria possível se fazer com

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por este ser de caráter renovável e muito menos tóxico para o meio ambiente. Dessa forma, chega-se a uma mistura de ésteres graxos que substitui o óleo diesel comum como um combustível não muito poluente. “O CO2, principal gás causador do efeito estufa e da destruição da camada de ozônio, quando produzido pela queima de óleo vegetal e etanol, é consumido pelas próprias plantas oleaginosas, criando um ciclo permanente de produção e consumo que evita grandes agressões à natureza, já que provoca diminuição na concentração do dióxido de carbono na atmosfera”, explica o pesquisador. O biodiesel produzido na usina do Laboratório de Engenharia Química terá certificação de qualidade de acordo com a Resolução nº 42 da ANP e poderá, em um futuro próximo, substituir totalmente o uso do combustível comum no mercado brasileiro. “Aí entram em cena as demais vantagens econômicas e sociais da produção de biodiesel, que são, entre outras, a comercialização do álcool etanol para ser utilizado em veículos automotores e para geração de energia elétrica; e o incentivo à fixação do homem no campo por meio do fomento à

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a mamona, além dos bicombustíveis, Ércio e Camilo riram. Ércio apontou para um shopping center ao lado e disse: “Tirando os seres vivos, a água e o ar, tudo que tem no shopping, incluindo o próprio”. Já o Dr. Camilo foi mais além, e com o seu jeito de homem do interior apontou para o céu e para o chão e exclamou: “A mamona é polímero. Dela se faz os únicos lubrificantes não-congelantes para espaçonaves, milhões de objetos e fluidos e o melhor e mais ecológico combustível para se locomover na terra. Mas seus produtos são melhores quando craqueados, ou seja, quando aquecidos, conduzidos à torre de craqueamento e subdivididos em vários subprodutos!”

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A tecnologia permite aproveitamentos diferenciados

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Ércio completa: “Da mamona se consegue biocombustível pelo craqueamento ou por transesterificação. Os 40 bilhões de litros de diesel de petróleo que o Brasil consome por ano já recebem 2% de biodiesel. Este percentual, embora ainda pequeno, evita que 800 milhões de diesel sejam consumidos. Sob o ponto de vista tecnológico, creio, podemos usar até 100% de biodiesel nos motores. Os laboratórios de motores Lactec, IME, IPT, Cope e Cepel são capazes de condenar o óleo vegetal que cause danos aos motores. Acompanhamos testes de 1.500 horas de funcionamento de motores movidos a biodiesel e não vimos nenhuma perda de potência. Se tivermos produção suficiente para compor a matriz ‘óleo combustível x óleo para alimentação’, não haverá problemas desde que se usem os resíduos das oleaginosas para a produção dos óleos vegetais”. Entusiasmado sempre quando se fala em biocombustíveis o Dr. Camilo é ainda mais contundente: “Creio que estamos começando a perceber as coisas. Os países ainda desperdiçam insumos nobres com porcarias. Imagine fabricar pneus e solas de sapatos com látex de borracha, um produto nobilíssimo. Outro dia estava num seminário e quando eu disse que faço gasolina azul puríssima com o látex amazônico, todo mundo me olhou admirado!”


Eletronorte estuda soluções com os comentários das donas-de-casa. Ele funciona com vapor de uma pequena caixa d´água aquecida. A serpentina leva o vapor até um locomove - um motor de trem-de-ferro pequeno - que faz girar um dínamo de motor de automóvel – no caso, de um VW Brasília, que, por sua vez, gera a energia e a armazena numa bateria. A energia pode ser consumida em 110 ou 220 Volts acendendo até quatro lâmpadas e fazendo funcionar eletrodomésticos e microcomputadores”. Craqueamento - “Nossa atuação no Acre tem sido intensa. No Centro de Tecnologias Renováveis desenvolvemos o biocombustível com óleos regionais. Temos uma usina de craqueamento catalítico (foto abaixo) e outra de transesterificação, com a produção de 800 litros por dia, consumida pela frota de ônibus local; levantamos a potencialidade energética das oleaginosas; construímos uma unidade de extração de óleos no interior do estado; fizemos 11 microcentrais de geração com capacidade de 500 a 1.000 quilowatts; duas pequenas centrais hidrelétricas de cinco mil quilowatts cada; e com o Centro de Aprendizagem e Capacitação da Amazônia Legal fizemos parceria para o plantio experimental de dendê”, enumera Ércio. Abelhas turbinadas -Quanto à sua sintonia com a natureza, o biodiesel brasileiro surpreende a cada dia, por não conter elementos nocivos como o enxofre e o chumbo. É um produto nobre sob o ponto de vista ambiental. Ércio Muniz relata uma bela experiência: “Ano passado, viajávamos numa caminhonete movida a 100% de biodiesel pelas estradas do Acre. Ao pararmos para um café vimos muitas abelhas pousando no cano de escapamento do carro. Cremos que elas sentiram-se atraídas, pois o biodiesel é um produto tão natural que algo nele deve servir como alimento para as abelhas, normalmente arredias a qualquer produto tóxico. Abelhas bebendo os resíduos do biodiesel ninguém poderia prever: foi uma grata surpresa!”.

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A Eletronorte tem um acúmulo de conhecimentos sobre soluções tecnológicas e, em parceria com outros atores regionais, participa de vários programas e políticas de governo, de projetos como o Programa de Desenvolvimento Energético de Estados e Municípios- Prodeem, por meio do qual já implantou e mantém em funcionamento 2.700 sistemas de painéis solares para o atendimento de escolas, postos de saúde e igrejas, com recursos do Ministério de Minas e Energia. “Mas ainda há na região amazônica 29 mil escolas sem eletricidade, cadastradas pelo Ministério da Educação. O não-funcionamento delas por falta de energia, em nove estados, implica em deixar de fora da escola crianças de até sete anos de idade. Sem a escola elas irão trabalhar com os pais na pesca, na agricultura, nos serviços domésticos. O Prodeem ajuda a diminuir este déficit”, informa Ércio Muniz. Ele aponta alternativas energéticas inovadoras e não-poluentes. “Em Rio Branco, capital do Acre, por exemplo, temos o fogão ecológico (foto ao lado), um projeto em parceria com o governo do estado, Eletroacre e Embrapa. Empresários estão sendo chamados a investir numa fábrica desses fogões que são microusinas de eletricidade. Colocamos madeira para queimar, e enquanto se cozinha o almoço ou a janta, ele vai gerando energia. Temos 30 fogões já instalados e mais 70 a serem instalados em convênio com o governo estadual. Todo o processo está sendo experimentado no campo e monitorado

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AMAZÔNIA E NÓS corrente contínua

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AMAPÁ A Eletronorte chegou ao Amapá em 1974, 13 meses depois de sua criação, com o objetivo de concluir as obras da Usina Hidrelétrica Coaracy Nunes, no Rio Araguari. Primeira usina da Empresa na Amazônia, Coaracy Nunes foi inaugurada em janeiro de 1976, marcando o início da trajetória da Eletronorte na região. A missão da Empresa é gerar e transmitir energia no sistema isolado do Estado, onde é representada pelas unidades regionais de Produção e Comercialização e de Planejamento e Engenharia. A força de trabalho é formada por profissionais das mais diversas áreas, que trabalham pela melhor qualidade de vida dos amapaenses. Esse trabalho tem sido reconhecido ao longo dos anos, tanto pela satisfação dos clientes e consumidores quanto pelas diversas premiações recebidas, devido à excelência da gestão empresarial. Essas conquistas são fruto da prática constante dos valores do Credo da Eletronorte: excelência na gestão, valorização das pessoas, comprometimento, aprendizado contínuo, empreendedorismo, ética e transparência.

RESPONSABILIDADE SOCIAL No Amapá, a energia distribuída pela Eletronorte beneficia uma população de cerca de 500 mil pessoas. Além desse benefício, a Empresa desenvolve atividades de responsabilidade social com as comunidades. Entre os projetos, destaca-se o de desenvolvimento da piscicultura como alternativa alimentar, de geração de renda e melhoria da qualidade de vida nas comunidades do entorno de Coaracy Nunes. Em Ferreira Gomes, por meio de convênio com a Associação dos Produtores do Projeto Ferreirinha, a Empresa promove a abertura e a recuperação de estradas vicinais, proporcionando o escoamento da produção da comunidade e o acesso às políticas públicas para o desenvolvimento local. A Eletronorte também participa de projetos de alfabetização e de inclusão social, que proporcionaram o desenvolvimento de atividades socioeducativas, esportivas e de cidadania a 150 adolescentes.


MEIO AMBIENTE O respeito ao meio ambiente é prioridade para a Eletronorte. No Amapá, uma prova do comprometimento da Empresa com o gerenciamento ambiental são dois circuitos da linha de transmissão Central/ Santana, certificada com a ISO 14001. Essa linha, ao lado da Porto Velho/Abunã, operada pela Eletronorte em Rondônia, foi a primeira do Brasil a receber a certificação. No Amapá, outros empreendimentos da Eletronorte certificados com a ISO 14001 são as usinas Santana e Coaracy Nunes. Todos são acompanhados de programas de educação ambiental, de saúde, de controle erosivo, de recuperação de áreas degradadas, de indenização e desapropriação. A Empresa também promove ações de conscientização voltadas para a preservação do meio ambiente, bem como para o adequado uso e ocupação das terras por parte das comunidades do entorno. Outra ação importante são as campanhas anuais contra queimadas, vandalismo e sabotagem, que resultam em redução do número de desligamentos no sistema, provocados por incêndios próximos às linhas de transmissão, e a conscientização quanto aos prejuízos causados por atos dessa natureza.

TRANSMISSÃO A energia gerada pela Eletronorte é distribuída pela Companhia de Eletricidade do Amapá - CEA. O sistema de transmissão da Eletronorte no Amapá, estruturado a partir da entrada em operação de Coaracy Nunes, conta com 505 km de linhas de transmissão em 69 kV e 138 kV, dez subestações e capacidade de transformação de 690 MVA. A Empresa atende 12 dos 16 municípios do Amapá. Os outros são atendidos por pólos de geração descentralizada da CEA.

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GERAÇÃO No Amapá, a Eletronorte dispõe de uma potência instalada de 234,8 MW, que corresponde a 92,7% daquela efetivamente disponível no estado. O parque combina geração hídrica e térmica. Os 78 MW de potência instalada em Coaracy Nunes são complementados por 156,8 MW da Usina Termelétrica Santana. No período de seca no reservatório de Coaracy Nunes, entre setembro e dezembro, a Térmica Santana supre a necessidade de energia elétrica. No período chuvoso, quando a hidrelétrica opera a plena carga, a térmica atua como complemento de carga.

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CORREIO CONTÍNUO

“Excelente a nova Corrente Contínua. O editor e sua equipe estão de parabéns. Levamos exemplares da revista para uma reunião do Proset com as cooperativas e diversas instituições públicas, e a receptividade também foi muito boa”. José Luís da Silva Pereira - Gerência de Ações Socioambientais e Assuntos Fundiários - Brasília - DF “Meu caro Alexandre Accioly, mais uma vez parabéns pela edição da revista Corrente Contínua 218 ! Excelente a matéria do jornalista Byron de Quevedo”! Humberto Rodrigues Gama - Gerência de Geotécnica e Estruturas - Brasília - DF “Prezado jornalista César Fechine, confesso que me emocionei quando li a sua linda poesia que, de forma brilhante, fecha a edição número 218 da revista Corrente Contínua. Reportei-me ao cenário e vivi aquela situação ilustrada. Meus sinceros parabéns e continue a escrever assim sempre”. Eduardo de Oliveira Lima - Superintendência de Tecnologia da Informação - Brasília - DF “Cara jornalista Érica Neiva, gostaria de agradecer e parabenizá-la pela excelente reportagem da revista Corrente Contínua. Vocês souberam aproveitar bem as informações, retratando nosso trabalho de forma clara e objetiva”. Eden Brasilia de Assunção Damasceno - Superintendência de Desenvolvimento e Educação Empresarial - Brasília - DF “Prezada jornalista Bruna Netto, gostaria de parabenizá-la pela matéria da revista Corrente Contínua, inclusive pela capa ‘Corrida contra o tempo’. A matéria retratou bem os assuntos tratados, mantendo coerência e leveza, pois tratando de tema tão sério quanto a perda de energia por vendavais ou atos de vandalismo, você conseguiu transmitir a mensagem de todo o esforço feito pelos colaboradores e o sucesso do atendimento de emergência. Parabéns!” Eugênio Pacelli Antunes - Gerência de Engenharia de Manutenção da Transmissão - Brasília - DF

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“De ordem do deputado Paulo Rocha (PT-PA), agradeço o envio da revista Corrente Contínua, edição 218, de janeiro/fevereiro de 2008”. Raquel Paz - Assessora parlamentar do deputado Federal Paulo Rocaha - Brasília - DF

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“Prezados Senhores, recebemos e agradecemos pelo envio da publicação Corrente Contínua, de excelente qualidade gráfica e editorial. Informamos que é de grande valia para o acervo da Biblioteca do Iesam - Instituto de Estudos Superiores da Amazônia continuar a ser receptora de tão valiosa publicação”. Clarice Silva Neta - Bibliotecária do Instituto de Estudos Superiores da Amazônia - Belém - PA


FOTOLEGENDA

Pai falô que mãe contô que tô virando mulher Isso acho que já sô até o vô me avisô Do cuidado no dizer, pois agora sô é moça Vó dizia que palavra é igual canoa Quando tá pesada afunda à-toa, quando leve leva a gente Nas águas rasa a onda é longa, na água funda, docemente Às vezes sinto medo medonho... Tenho sonhos... Viver é bom, mas o que eu gosto é de gostar Zé me pediu pra namoro... Credo! Rio é feito é pra pescar O amor fisga no ar o querer que sente Linha pode até quebrar, descer água, libertar Mas o anzol fica na gente

Cê ta me olhando por quê, tá me achando esquisita? Pentearei meus cabelos do outro lado do rio Na vila agora tem luz e terá festa Arrumada eu sou bonita! Texto: Byron de Quevedo Foto: Rony Ramos

corrente contínua

A reza explica diferente Diz que o tempo cura tudo, Fé em Deus e vamo em frente

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Corrente Contínua 219  

A revista da Eletrobras Eletronorte

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