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Viver do MMA é uma luta Os holofotes do octógono garantem interesse pela modalidade, mas é difícil arranjar patrocínio sem estar nas competições mais famosas O Brasil é o país com os mais reconhecidos atletas do mundo nas artes marciais mistas, o MMA. O esporte vive uma febre, com eventos lotados e alta audiência na TV - em uma edição de novembro de 2011, o share alcançado pela Globo foi de 43%, superior a de transmissões do futebol dominical. Nem por isso, viver das lutas é fácil, como prova a experiência dos gaúchos que buscam espaço na categoria. Praticante das artes marciais desde os oito anos de idade, Gustavo Kuhn iniciou no MMA em 2009 e, de lá pra cá, entrou em três competições, vencendo todas. Mesmo assim, Kuhn percebeu que a maior dificuldade de todo lutador é obter patrocínio suficiente para se dedicar exclusivamente ao esporte. “Não tem como sobreviver apenas do MMA. É um esporte muito complexo, envolve treinos específicos”, conta. Kuhn acredita que o UFC, sigla do Ultimate Fighting Championship, a organização que popularizou o octógono - o ringue em que são realizados os combates - e reúne lutadores profissionais, ainda é um sonho distante, mas se inspira na força de vontade dos brasileiros. Thiago Minu Meller (leia o perfil abaixo), 32 anos, o gaúcho de maior destaque no MMA, tem a mesma opinião. Com a rotina de treinos intensiva, depende do salário de sargento para se sustentar. “Se o Exército me pedisse, hoje, para eu parar de lutar, eu pararia, pois é a minha principal fonte de renda”, explica. UFC encanta o público, mas ofusca os menores O UFC, mais célebre competição do mundo das lutas, pode ser visto com dois enfoques diferentes. Se a popularidade do MMA foi multiplicada depois dos investimentos na glamourização do octógono, a supervalorização do campeonato faz parecer que competições periféricas não têm valor. “Monopólio sempre é ruim, mas são duas visões diferentes. A marca UFC cresceu muito e não temos investimentos em patrocínios que fomentem o esporte como um


todo, há apenas uma empresa fazendo isso”, avalia Silvio Luís Rickes, sócio da academia Combat Rider, a primeira de Porto Alegre especializada no esporte. O MMA ainda não havia estourado quando Rickes e o mestre Fabiano Gonçalves Montes fundaram o empreendimento. A ideia inicial era formar um ambiente privado, onde o próprio empresário pudesse treinar boxe. Porém a estrutura acabou ficando atraente para outros interessados. “Cuidamos tanto dos detalhes que eu fiquei com ciúme de abrir comercialmente o local. Então, selecionamos um público específico e conhecido para treinar”, explica Rickes. Enquanto a academia de estilo underground inspirada nos anos 1950 ganhava reconhecimento, o empresário também percebia o crescimento do MMA no país. Assim, começou a transformação da Combat Rider em um legítimo clube de luta, com direito a ringue oficial de boxe, onde campeonatos podem ser realizados. “Com o expansão do MMA, o Fabiano trouxe atletas para treinar na nossa academia. Desta forma, outros competidores começaram a aderir aos nossos treinos e hoje temos uma equipe formada por sete atletas”, diz o empresário. Ex-lutador de boxe, mestre Fabiano “Boxer” Gonçalves começou a dar aulas e, há mais de 10 anos, fez das artes marciais mistas o rumo preferencial de sua carreira. Hoje, o mestre vê o MMA como uma nova alavanca para as artes marciais e acredita que o crescimento deste tipo de combate vai ajudar na busca por todos estilos. “O MMA veio para ficar, pois as diferentes valências encantam o telespectador. Eu gosto do boxe, mas tenho que me render à modernidade do MMA, pois ele não é uma luta específica, mas mistura todas”, destaca o mestre. De Independência para Las Vegas O herói é encurralado em um beco sem saída. Ele se vê obrigado a lutar contra seus inimigos. Em uma batalha cheia de golpes fascinantes, o mocinho vence. Esta cena pode ser vista em qualquer filme de ação estrelado por atores como Jean-Claude Van Damme. Foi inspirado em combates assim que Thiago


Meller, ainda menino do município de Independência, no noroeste do Rio Grande do Sul, despertou seu interesse pelas artes marciais. Em um país onde o futebol é o esporte mais aclamado pela população, o garoto de 14 anos escolheu treinar karatê. Como em sua cidade não havia academia para realizar a atividade, Thiago tinha que treinar no município vizinho, Três de Maio. Com o passar dos anos, o gosto por outros estilos de lutas marciais aumentou. Em 1998, ele começou a treinar judô e kickboxing. Em 2000, quando estava na Escola de Sargentos das Armas (ESA), virou atleta de judô do Exército. Um ano depois foi morar em Porto Alegre, onde conheceu o muay thai e começou o curso de Direito na PUCRS. Foi dividindo a rotina entre o quartel, os treinos e os estudos que o então sargento Thiago Meller, do 3º Batalhão de Comunicações, passou a lutar jiu jitsu em 2003. Por ser do noroeste do estado, virou Galo das Missões, e, posteriormente, Minu, em referência ao antigo frigorífico de frangos de mesmo nome. Com o treinamento do mestre Fabiano Boxer Gonçalves, Meller alcançou dez vitórias por nocaute nas lutas que disputou. Percebendo o talento, Fabiano convidou o atleta para ingressar no MMA. Na sua primeira luta, em 2003, foram necessários apenas dois rounds para vencer o adversário, Atila Martins. No combate, Thiago Minu aplicou o que viria a ser sua especialidade, a “guilhotina”, golpe imobilizador. De 2003 até 2012, o cartel de Minu, registro de suas competições, ficou recheado de vitórias. Foram 18: cinco por nocaute, 12 por submissão (nove delas aplicando a guilhotina) e uma por decisão; teve apenas cinco derrotas. Depois de conseguir seis vitórias seguidas, Minu estava bem cotado para disputar o UFC. Porém, durante o período de negociações, surgiram oportunidades de lutar em dois campeonatos internacionais. Azar: Minu saiu derrotado das duas, e o interesse do UFC enfraqueceu. Ainda assim, o sonho persiste. Luta após luta, Minu espera vencer e convencer de que é capaz de competir em alto nível. Perfil


Nome: Thiago Meller Apelido: Minu Nascimento: 5/9/1979 Local: Independência (RS) Altura: 1,78m Peso: 73kg Equipe: Combat Rider/MFT Categoria: Peso Leve Cartel: 18 vitórias, 5 derrotas, nenhum empate Vitórias: 5 por nocaute/nocaute técnico, 12 por submissão, 1 por decisão Derrotas: 1 por submissão, 4 por decisão Estilos e graduações: grau preto em Muay Thai, faixa preta de Jiu-Jitsu e de Karatê Principais títulos: Impact Fighting Championship (Austrália), Israel Fighting Championship, Shooto Brazil 9 Os três passos para chegar ao UFC Passo 1 Construir um bom cartel O cartel do atleta (registro das competições em que aparecem os resultados das lutas) precisa ser repleto de vitórias e ter pelo menos oito lutas. Passo 2 Assinar com empresário “quente”


Nada melhor do que um bom negociador que saiba expor para a mídia as habilidades de seu atleta, ainda mais se ele tiver contato direto com alguns dos sócios do Ultimate Fighter. Passo 3 Ter triunfos consecutivos O UFC não contrata lutadores que tenham em seu cartel derrota nas últimas competições. Os competidores sempre vêm de vitórias consecutivas.


Viver do MMA é uma luta