


DA ARQUITECTURA reconstituição
RECONSTITUIÇÃO TRIDIMENSIONAL
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RECONSTITUIÇÃO TRIDIMENSIONAL
Eduardo Francisco Durão Antunes NO ÂMBITO DA
contributo para uma metodologia de (re)interpretação histórico-cultural do património arquitectónico de Cacela Velha
orientadores
Pedro Miguel Gomes Januário
Paulo Jorge Garcia Pereira
Tese especialmente elaborada para a obtenção do grau de doutor em Arquitectura, no ramo de Desenho e Computação



contributo para uma metodologia de (re)interpretação
histórico-cultural do património arquitectónico de Cacela Velha
Eduardo Francisco Durão Antunes
orientadores
Pedro Miguel Gomes Januário
Paulo Jorge Garcia Pereira
Tese especialmente elaborada para a obtenção do grau de doutor em Arquitectura, no ramo de Desenho e Computação
Pedro António Alexandre Janeiro
Professor Associado c/ Agregação
Faculdade de Arquitetura, Universidade de Lisboa
Bruno Acácio Ferreira de Figueiredo
Professor Associado
Escola de Arquitetura, Arte e Design da Universidade do Minho
Rui Pedro Mexia Lobo
Professor Associado
Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Victor Manuel Mota Ferreira
Professor Associado
Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa
Luís Miguel Cotrim Mateus
Professor Associado
Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa
Pedro Miguel Gomes Januário
18.VII.2025
Professor Associado
Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa

uma época não é apenas uma questão de tempo mas essencialmente um sentido de novo no eterno José de Almada Negreiros, conferência O Desenho, Madrid, 1927

Nunca nos temos completos
Nunca somos desvendados Os ramos são intrincados
A morte é um mero detalhe
Sempre que a história tem pressa O tempo tece bordados
E encobre a verdade
E quanto da raiz
Ainda vive no fruto?
Pergunta-se o velho e o puto
Nunca nos temos presentes Sem que o passado nos diga Onde é que tudo se liga (...)
Um Corpo Estranho, O Puto e o Velho
Setúbal: Malafamado Records, 2022
Património Arquitectónico
Cripto-História da Arquitectura (Re)interpretação histórico-cultural Modelo Diacrónico
Reconstituição tridimensional
Actualmente, vemos muito do nosso património arquitectónico ser abandonado ou, ao invés, desvirtuado em benefício de outros valores que, muitas das vezes, se sobrepõem à sua compreensão global enquanto parte de uma herança culturalmente reconhecida. Sendo que o património se encontra em constante renovação, também a sua valoração deve ser feita segundo um processo evolutivo, para se adaptar à visão mais englobante que o conceito tem alcançado.
Com esse facto em conta, o conceito de Cripto-História –enquanto disciplina transversal da História da Arte e da Arquitectura que se foca nas obras desaparecidas (total ou parcialmente)– leva-nos a considerar obras cujo carácter actual não revela toda a sua história como parte essencial desse nosso património, levando-nos simultânea e necessariamente a compreender o seu contexto original de concepção e evolução. Sendo assim, como hipótese de investigação, o que propomos é uma metodologia que permita uma (re)interpretação histórico-cultural desses objectos arquitectónicos (a que podemos chamar fragmentários), através da sua compreensão diacrónica –isto é, continuada e evolutiva, ao longo da sua história. Essa compreensão é feita de acordo com uma sua leitura integrada, contextualizada pelos diversos factores que enquadrem cada época de concepção, sejam eles políticos, económicos, sociais, culturais, etc. Esta metodologia é, aqui, aplicada ao caso de Cacela Velha, enquanto exemplo actual de reconhecido valor patrimonial, que congrega em si diversas épocas de ocupação, as quais contribuíram para o carácter actual do conjunto.
Neste processo, a utilização da representação bi e tridimensional como instrumento de investigação, demonstra-se uma mais-valia para a leitura e interpretação da informação (por vezes, esparsa) respeitante a essas obras, já que a sua objectividade nos incita e permite reconhecer eventuais incongruências aquando da sua conjugação e, com isso, coadunar os vestígios existentes dessas obras (sejam eles vestígios arqueológicos, iconográficos ou documentais).
Desta forma, pretendemos contribuir para uma renovada metodologia de leitura e compreensão integrada do nosso património arquitectónico, que tenha precisamente em conta o significado cultural na sua base (ao qual podemos já não ter acesso), possibilitando assim a sua posterior valoração, de modo a proporcionar a sua compreensão global(izante) e não somente o seu carácter histórico e formal conforme permanece aos dias de hoje.
keywords
Architectural Heritage
Crypto-History of Architecture
Historical-cultural (re)interpretation
Diachronic Model
Three-dimensional reconstruction
Nowadays, we see much of our architectural heritage left abandoned; or instead, distorted to the benefit of other values, that often obscure its global understanding as part of a culturally recognized heritage. Since our heritage is in constant renewal, its (e)valuation must also be carried out according to an evolving process, in order to adapt to the more comprehensive vision the concept has reached.
With this fact in mind, the concept of Crypto-History –as a transversal discipline within the History of Art and Architecture, focusing on (totally or partially) disappeared works– leads us to consider those works whose current nature doesn’t reveal their whole history, as an essential part of our heritage. This leads us necessarily to understand their original conception context and evolution.
Therefore, as a research hypothesis, we propose a methodology that allows for a historical-cultural (re)interpretation of these fragmentary architectural objects, through their diachronic understanding –that is, their continuous and evolutionary understanding, throughout their history. This is achievable according to an integrated interpretation, contextualized by each conception period’s varied framing factors, be it political, economic, social, cultural, etc. This methodology is applied here to the case of Cacela Velha, as a current example of recognised heritage value, case which brings together everal periods of occupation that have contributed to the current character of the place.
In this process, the use of two- and three-dimensional representation as a research tool, proves to be an asset for reading and interpreting the (sometimes sparse) information relating to these works. This tool's objectivity encourages us and allows us to recognise any inconsistencies when combining these information sources and, thus, it allows us to reconcile the existing traces of these works (e it archaeological, iconographic, or documentary).
In this way, we intend to contribute to a renewed methodology for an integrated intepretation and understanding of our architectural heritage, which takes into account its underlying cultural meaning (which we may no longer have access to). Thus, enabling its subsequent (e)valuation, towards its global understanding beyond the form that remains to this day.
A presente tese insere-se no contexto do curso de doutoramento em Arquitectura da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa (FA-ULisboa), integrando-se igualmente no Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design (CIAUD).
O desenvolvimento da presente investigação teve o apoio financeiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) entre Janeiro de 2020 e Fevereiro de 2024, através da Bolsa de Doutoramento com a referência SFRH/BD/144363/2019.
O texto desta tese foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (disponível desde 2010 no Portal da Língua Portuguesa), por estrita opção do autor.
A referenciação bibliográfica segue as convenções estabelecidas pela American Psychological Association (APA), norma mais comumente utilizada na referenciação bibliográfica no âmbito das ciências sociais e humanas.
As transcrições realizadas dos documentos históricos citados e referenciados nesta investigação foram incluídas na íntegra nos apêndices, tentando a paginação das transcrições aproximar-se o máximo à do documento original, para uma leitura mais próxima deste.
Quando citadas no texto, as mudanças de linha no texto original são sinalizadas com “/”, como é convenção na maior parte das transcrições.
Utilizámos também as seguintes notações, quando aplicável:
_____ – mudança de página; [abc] – texto conjecturado; [?] – leitura duvidosa.
Começo por deixar um primeiro e eterno agradecimento à Fundação para a Ciência e Tecnologia, cuja aceitação, para financiamento, da minha proposta de investigação se revelou um primeiro sinal de confiança e validação no/do trabalho aqui proposto.
Um particular agradecimento ao Museu de Lisboa e à Biblioteca Nacional de Portugal, cuja prontidão no acesso às informações requisitadas foi importante contributo para a boa realização dos trabalhos aqui expostos.
Ao júri que aceitou presidir a leitura e defesa desta investigação –os Profs. Bruno Figueiredo, Rui Lobo, Victor Ferreia, e Luís Mateus–, pelas críticas pertinentes e pelos contributos valiosos que servirão de complemento à presente investigação na sua inevitável e desejada continuação.
À Professora Cristina Garcia, em representação do Centro de Investigação e Informação do Património de Cacela, que conscientemente me confiou o caso de estudo ao qual dedica até hoje a sua vida profissional (e, em grande parte, também pessoal), na defesa do mesmo sentimento de património que aqui defendemos, e para cuja elevação espero ter minimamente contribuído, por entre apoios e acessos exclusivos valiosíssimos.
Num processo paralelo, agradeço ao Tiago Saraiva pelo acompanhamento prestado, pela enorme confiança que depositou em mim, no curto mas extremamente enriquecedor período de experimentação que me foi possibilitado percorrer na sua tutoria didáctica, ajudando-me a confirmar a perspectiva pedagógica que pretendo manter e incentivar.
Não poderia nunca passar por esta secção sem prestar o devido agradecimento ao Ricardo, meu mentor durante os primeiros anos de aprendizagem científica e investigativa, amigo profundo criado e mantido para lá dessa primeira abordagem, por entre um nível exemplar de confiança mútua, cujo singular exemplo de resiliência mantenho enquanto objectivo pessoal. Aquele que pretendeu sempre acompanhar e contribuir para o processo enquanto o conseguisse fazer, e que nunca me deixou que fizesse menos do que ele acreditava de que eu era capaz.
Também às presenças regulares e essenciais, pelo acompanhamento permanente que proporciona(ra)m, não apenas mas especialmente
emocional, ao longo de um processo deveras solitário. À Mariana, sempre e em particular, pela reconfortante constância da sua amizade, prestrada quer através do interesse e atenção ao estado do processo aqui defendido, quer pela (pre)disposição em manter um saudável nível de tranquilidade e humor para além dele. Também à Sara, ao Gonçalo, à Ana, ao Igor, algumas (nomeadas) presenças que foram demonstrando a sua permanente relevância, em quem pude e posso sempre depositar a minha confiança e que foram ilustrando o seu apoio e vontade de que saísse bem-sucedido.
Como é de esperar, o apoio familiar tornou-se por demais essencial neste processo e, assim, também deixo aqui fixado um agradecimento imperativo ao apoio incondicional, ao encorajamento contínuo, e à gestão do percurso que, quer o meu irmão, a minha mãe, e o meu pai, mantiveram presentes, como forma de restringir os meus indesejados desvios, mesmo quando infelizmente não soube seguir as dicas.
Ao Professor Paulo Pereira, cujo entusiasmo pela produção e transmissão do conhecimento é exemplo pertencente a um leque muito limitado de personalidades. Além disso, também agradeço o seu exemplo exímio de resiliência e dedicação, qualidades as quais, independentemente de quaisquer periódicas particularidades, manteve em favor da produção do trabalho aqui proposto. Sem esquecer, claro, a humildade e naturalidade com que constantemente exerce todas estas restantes qualidades, elevando a sua posição, mais que "apenas" de excelente professor e investigador, à de um grande Homem, a quem sempre aspirarei corresponder (num esforço infindável e possivelmente impossível, mas sempre recompensador).
Ao Professor Pedro Januário, que manteve e demonstrou um inteiro entusiasmo e crença no trabalho e seu empreendedor, face as inseguranças presentes ao longo de toda a investigação. Pela abertura do leque de possibilidades investigativas, pelas enriquecedoras propostas e pela desafio à expansão das capacidades que faz por reconhecer nos seus alunos (grupo ao qual sempre pertencerei, porquanto aí me aceite). Pela sua constante adaptação e crescimento, numa vontade de contrariar uma estagnação didáctica, exemplo de pedagogia rara e sempre bem-vinda à qual sempre farei por almejar (embora nunca tão capacitadamente). Por me continuar a aceitar enquanto aprendiz, reconhecer-me como um seu par, e reconhecer as vantagens recíprocas desta parceria e amizade.
Adarve (romaniz: ad-darb; “muro da fortaleza”) – na arquitectura militar, caminho estreito no topo dos muros de uma fortificação, típico das fortificações medievais, coberto externamente por um parapeito de alvenaria com ameias onde se rasgavam as seteiras, para protecção dos defensores. Estes corredores eram acedidos através de escadas, pelas muralhas ou torres.
Al-Andalus (do árabe الأندلس; romaniz. al-ʼAndalus; alåndɑlʋs) – denominação atribuída ao território ocupado pelo conjunto da Península Ibérica e parte da actual região sul da França –Septimânia– durante o século VIII, a partir do domínio do Califado Omíada.
Albarrã (romaniz: al-barran, “exterior”) – na arquitectura militar, torre saliente num castelo ou troço de muralha, à qual se liga geralmente por um passadiço. Este elemento arquitectónico foi introduzido pelos Almóadas no Al-Andalus, funcionando quer enquanto atalaia (se mais distante da muralha), quer para reforço da defesa dos muros através do ângulo criado (se mais próxima). Junto aos portões de entrada, dificultava o trabalho dos engenhos atacantes (p.e., aríetes). Posteriormente foram-lhe acrescentados mata-cães, aumentando-lhe o poder defensivo.
Alcácer (do árabe: قصر; romaniz.: Qasr/Gasr; no plural Qusur ou Ksour) –pequena vila fortificada, composta por casas, armazéns e outras estruturas colectivas, geralmente construída em adobe ou outro material semelhante.
Alcáçova (do árabe قصبة, romaniz.: qaṣaba; trad. al-qasbah, “cidadela”) – tipo de fortificação árabe sob a forma de uma cidadela, normalmente constituída por dois pátios a diferentes níveis: (1) o albacar, a um nível inferior e de maior dimensão, destinado a serviços menores e ao acolhimento do povo com o seu gado; (2) o pátio superior que albergava a mesquita –para os serviços religiosos– e o alcácer –para os serviços administrativos e de chefia.
Alcaide (do árabe قاضى; romaniz.: al-qādi, “juiz”) – governador de uma cidade ou vila acastelada ou fortificada, durante a Idade Média, na Península Ibérica.
O cargo destinava-se exclusivamente por um representante do próprio rei, representante que acumulava funções militares, administrativas e judiciais, em certos casos. Ao longo do tempo, a partícula “mor” foi acrescentada à designação do cargo, distinguindo desta forma o seu carácter militar.
Alcaria (do árabe: القرية; romaniz: al-gariya, “vila, povoado pequeno”) – pequena comunidade rural localizada nos arredores das grandes cidades (medinas) do Al-Andalus, constituída por um pequeno número de casas, onde a(s) família(s) residente(s) se dedicava(m) às actividades de agricultura e pecuária, servindo de certa forma como continuação das villas romanas.
Almedina ou medina (do árabe: المدينة العتيقة, “a cidade antiga”) – tipo de centro urbano islâmico com origem no século IX, geralmente muralhado e com uma estrutura urbana labiríntica.
Alvanel (do árabe: البَنّاء; romaniz: al-bannâ, “pedreiro”) – alvenaria.
Alqueire (do árabe: al kayl) – medida de capacidade para secos (1/60 do moio), cuja medida é actualmente variável entre 13,215 e 22,605 litros. No tempo do Condado Portucalense, o alqueire tinha sido importado das regiões peninsulares sob domínio árabe, onde o termo se referiria a uma medida única. A partir daí, terá sofrido diversas iterações simultâneas e modificações.
Ameia – na arquitectura militar, reentrâncias a intervalos regulares no parapeito de uma muralha ou castelo (parede baixa defensiva entre a altura do peito e a altura da cabeça), para permitir o lançamento de flechas ou outros projécteis de dentro das defesas.
Arrábita (em árabe: رباط; romaniz.: ribāṭ, “base” ou “retiro”) – mosteiro árabe consagrado à oração e à guerra santa, sendo simultaneamente fortaleza e posto de vigia. Continha no mesmo local oratórios ou uma mesquita, sempre associados às obras de fortificação.
Atalaia (do árabe: طالعة, “at-talai’a”) – em arquitectura militar, torre ou lugar elevado, de onde se vigia o território circundante. Normalmente o sistema defensivo de um castelo integra vários destes elementos, sendo distribuídos em lugares estratégicos na área em redor.
Baluarte – espécie de fortim construído onde as muralhas formam esquinas, avançadas em relação à estrutura principal de uma fortificação abaluartada.
Barbacã – na arquitectura militar, muro anteposto às muralhas, de menor altura do que estas, para protecção das mesmas contra impacto da artilharia.
Bateria – plataforma de uma fortificação, utilizada para posicionar uma ou várias peças de artilharia.
Behetria – povoação, que em Portugal tinha, entre outros direitos, o de eleger os seus administradores.
Caaba (do árabe: ٱلْكَعْبَة, romaniz. al-Ka bah, “O Cubo”) – edifício no centro da mesquita mais importante do Islão, a Masjid al-Haram em Meca, na Arábia Saudita. É o local mais sagrado do Islão, sendo considerado pelos muçulmanos como a Bayt Allah (do árabe: بَيْت ٱللَّٰه, romaniz.: “Casa de Deus”).
Califa (em árabe: خليفة; romaniz.: khalīfah, “sucessor” ou “representante”) – chefe de Estado de um Califado, e título para o governante da Umma muçulmana – denominação dada à comunidade mundial islâmica, governada pela sharia (direito islâmico). No Ocidente, é usualmente equiparada a condição de um califa à de um imperador.
Califado – Sistema de governo de um estado islâmico que combina a liderança política e religiosa na figura do califa (muito embora a posição de califa nem sempre fosse hereditária).
Casbá – mesmo que Alcáçova
Cetária – tanque de forma rectangular destinado à salga e fabrico de preparados de peixe durante a época romana, o qual podia assumir diferentes dimensões.
Comenda – benefício e uma honra concedida a eclesiásticos e cavaleiros de ordens militares. A comenda era remetida a uma porção de terra doada oficialmente como recompensa por serviços prestados, mas, ficando o beneficiado com a obrigação de defendê-la de malfeitores e de inimigos. De facto, nomeadamente os comendadores da Ordem de Cristo (e todos os outros) que tinham a responsabilidade de uma fortaleza, da qual eram, na maioria dos casos, alcaides, de acordo com as definições, eram obrigados a fazer homenagem (a sua vigilância e defesa) e esta ao serviço do Mestre, a autoridade temporal suprema na hierarquia da milícia.
Cora – demarcações territoriais nas quais ficou dividido o Al-Andalus durante o Emirado e o Califado de Córdova; coexistia com outra demarcação territorial denominada Marca (do árabe “Thagr”), que se sobrepunha às Coras nas zonas fronteiriças com os reinos cristãos.
Corografia (do grego χῶρος khōros; “lugar” + γράφειν graphein, “descrever”, “descrição de um país”, pelo latim chorographĭa) – especialidade da disciplina da Geografia que se dedicava ao estudo particular de um país ou uma de suas regiões. A clássica descrição corográfica incluía uma referência algo pormenorizada à historiografia local, tal como um estudo demográfico e antropológico das povoações descritas.
Dinastia Omíada – dinastia de califas muçulmanos do clã dos Coreichitas, que reinaram em Damasco de 661 a 750 e em Córdova de 756 a 1031.
Fortificação abaluartada – estilo de fortificação, desenvolvido inicialmente a partir do final do século XV na Itália, para confrontar o desenvolvimento da artilharia móvel, a qual era capaz de destruir as altas muralhas dos antigos castelos medievais. Esta modernização das fortificações começou pela adaptação das antigas fortalezas, tornando-se menos dispendioso que a total reconstrução do grande número de fortificações já existentes.
Gharb Al-Andalus (do árabe: غرب الأندلس; romaniz.: gharb al-ʼandalus, “ocidente do al-Andalus”) – parte do território do Al-Andalus correspondente maioritariamente à antiga província da Lusitânia Romana. Era limitado a Norte de forma inconstante pelos diferentes traçados que a linha de fronteira com os Reinos Cristãos apresentou, e incluía os territórios correspondentes ao termo de Coimbra, ao estuário do Tejo, ao Alto Alentejo, ao Baixo Alentejo e ao Algarve, estendendo-se ainda para as actuais Estremadura espanhola e Andaluzia Ocidental.
Hagiografia – descrição da vida dos santos.
Hégira (do árabe: هجرة; romaniz.: Hijra; “exílio”, “separação”) – fuga de Maomé de Meca para Medina, evento que marca o início do calendário islâmico, correspondente ao ano 622 d.C. do calendário gregoriano.
Hisn (do árabe: حصن; no plural Husûn) – denominação de certos castelos do território do Al-Andalus, que serviam de defesa militar a um território habitado. Os Husûn agiam como centros organizacionais e defensores de um determinado distrito, denominado Ŷuz’ (no plural Aŷzā’). No séc. X, esses distritos foram aumentando de tamanho, passando a ser denominados
Aqâlîm (do árabe: أقاليم; no singular: iqlîm إقليم) e constituindo uma parte essencial da organização do território do Al-Andalus em Coras.
Iqlim (do árabe: اقليم; romaniz.: iqlīm, “clima ou distrito”; no plural aqālīm) – demarcação segundo a qual uma Cora estava dividida. Os aqālīm eram unidades de carácter económico-administrativo, as quais estavam associadas a uma povoação ou castelo. Nos primeiros tempos da ocupação islâmica, os povoados dentro de cada Cora foram estabelecidos em torno de husûn, agindo como centros organizativos e defensores de um certo âmbito territorial.
Mata-cães – abertura no chão entre as mísulas que sustentam as ameias ou os balcões das fortificações medievais, através da qual se podia observar os atacantes que se encontravam na base da muralha defensiva e atacálos sem possibilidade de retaliação. Os mata-cães localizavam-se nas partes mais altas das muralhas, ao redor das torres, em casas-torre (geralmente sobre a entrada) e outras fortificações, sobressaindo destas para a parte exterior. Os primeiros mata-cães (também chamados de cadafalsos) eram construídos em madeira sendo, por regra, construções provisórias. A substituição da madeira pela pedra só ocorreu após os finais do século XIII.
Mirabe (do árabe: محراب; romaniz.: mi rāb) – termo que designa um nicho em forma de abside numa mesquita, com a função de indicar a direcção da cidade de Meca (quibla), para qual os muçulmanos se orientam quando realizam as cinco orações diárias (salá).
Mísula – ornamento que sobressai de uma superfície (geralmente vertical), servindo para sustentar um arco de abóbada, uma cornija, etc.
Moio (do latim “modius”) – termo metrológico que, ao longo da história de Portugal, designou diferentes medidas, seja de capacidade (para sólidos e líquidos), seja de superfícies. Como medida de capacidade, era normalmente definido através de um determinado número de alqueires ou almudes, com divisão em (4) quarteiros. A transformação em medida de superfície (agrária) ocorreu através da determinação da área média de terreno que podia ser semeada com um moio de semente. Até meados do século XII, a documentação medieval portuguesa apresentava o termo “moio” como especificação dos preços, mantendo-se essa utilização até mais tarde em algumas regiões rurais. No entanto, o valor associado não equivalia ao “modius” romano, nem ao moio-medida que era oficialmente usado no Condado Portucalense, ou mesmo nos primeiros reinados da monarquia portuguesa. O moio-preço tinha um valor próximo de 25 a 55 litros de cereal, valor próximo dos moios usados antes da introdução do alqueire e de todo o sistema do Condado Portucalense.
Musalla (do árabe: مصلى, romaniz: mu allá) – espaço aberto para oração, exterior ao edifício da mesquita.
Necrópole (do grego antigo: νεκρόπολις romaniz.: nekropolis; “cidade dos mortos”) – cemitério projectado, de grandes dimensões, com monumentos de túmulos elaborados. Contrariamente aos túmulos dentro das cidades,
estes eram geralmente locais de enterro separados e distanciados das mesmas, e diferentes dos campos de sepultura, que não apresentavam estruturas acima do solo. Mais tarde, o termo foi reutilizado no início do século XIX para se referir a cemitérios urbanos planeados.
Neoclassicismo – movimento cultural revivalista nascido na Europa Ocidental em meados do século XVIII, com larga influência na arte e cultura ocidental até meados do século XIX. Teve como base os ideais do Iluminismo e um renovado interesse pela cultura da Antiguidade Clássica, advogando os princípios da moderação, equilíbrio e idealismo como reacção contra os excessos decorativos do Barroco. Em termos da arquitectura, recupera a gramática formal da Antiguidade Clássica grega e romana, surgindo após o Barroco tardio e o Rococó. Este período coincide com a Revolução Industrial, observando-se um particular interesse pelo tema da prática construtiva.
Precatório – formalização documental de uma requisição de pagamento, de uma determinada quantia devida pela Fazenda Pública, em face de uma condenação judicial definitiva, ou irrecorrível.
Qibla (do árabe: القبلة; romaniz.: al-qībla) – palavra genérica para direcção, definida no Islão como a direcção da Caaba em Meca para onde devem ser dirigidas as orações. Em cada mesquita existe um lugar que indica a direcção da quibla chamado mirabe
Ribat – mesmo que Arrábita
Seteira – na arquitectura militar, vão na alvenaria da muralha na forma de uma faixa vertical cuja altura corresponde a aproximadamente cinco vezes a sua largura, bastante empregue na arquitectura medieval. Conforme o período construtivo ou região, o seu desenho pode ser simples ou cruzetado.
Sufismo (do árabe: تصوف; romaniz.: tasawwuf) – Movimento religioso islâmico, composto de práticas de devoção mística e contemplativa, que se espalhou sobretudo do século IX ao século XII.
Villa – moradia rural (casa de campo) para pessoas/famílias de maiores posses na Roma Antiga, cujas edificações formavam o centro de uma propriedade agrícola onde normalmente se centravam as explorações agrárias de maior vulto, embora houvessem casos onde não houvesse exploração agrícola associada.
resumo abstract
notas pré-textuais
agradecimentos
glossário
índice de figuras
introdução
Enquadramento
Objecto de estudo
Questões de investigação
Objectivos
Conceptualização da Cripto-História da Arquitectura
(Re)interpretação histórico-cultural do estudo de caso
Contributo para um itinerário metodológico
Hipótese de investigação
Desenho da investigação referências bibliográficas
Desenraizamento do significado arquitectónico
Património ou Património Histórico?
Critérios de valorização patrimonial
O imediatismo português
referências bibliográficas
Abordagem iconológica na História da Arte
A Cripto-História da Arte
Para uma Cripto-História da Arquitectura
referências bibliográficas
(re)interpretação histórico-cultural
Da re(con)stituição à (re)interpretação
Reconstituição (tridimensional) cripto-histórica
Categorização das fontes medievais
Na presença de vestígios arqueológicos
Noção de diacronismo
Restituição para (re)contextualização
O caso da Ópera do Tejo
Construção de um modelo de ideação
Aplicação da abordagem cripto-histórica dedutiva
referências bibliográficas
reconstituição cripto-histórica de cacela velha
A escolha de Cacela
Contextualização histórico-cultural
Origens na Antiguidade
Península Hispânica
Islamização do Al-Andalus
Cacela islamizada
A (re)conquista cristã do Sul
Cacela sob a Ordem de Santiago
Cronologia breve de Cacela
referências bibliográficas
Do Sincrético ao Holístico
Do Holístico ao Sinóptico
referências bibliográficas
(re)interpretação em anacronia da arquitectura de cacela velha
Fase 0 – Ocupação na Antiguidade ( –ca 712 d.C.)
Vestígios pré-históricos Vestígios romanos
Fase II – Ocupação Cristã (ca 1240 d.C.–1621 d.C.)
Leituras iconográficas
Transcrições documentais
Reconstituição interpretativa
Fase I – Ocupação Islâmica (ca 93 AH–637 AH / 712 d.C.–1240 d.C.)
Do castelo à alcáçova
Da igreja à mesquita
Bairro do Poço Antigo
Fase IV – Ocupação Cristã (1758 d.C.–1794 d.C.)
Fase III – Ocupação Cristã (1621 d.C.–1758 d.C.)
Fase V – Ocupação Actual (1794 d.C.– presente)
referências bibliográficas
re(con)stituição tridimensional de cacela velha
Vasconcelos, 1758/1790
Massai, 1617/1621
Alcáçova islâmica, séc. XII
Restituição axonométrica relacional
referências bibliográficas
para uma valoração integrada do património (arquitectónico)
Reconstituição 3D como ferramenta
Contributo da e para a Cripto-história
(Re)valoração diacrónica
No âmbito da prática projectual
Próximos passos
referências bibliográficas
bibliografia
apêndices
Fig. 1 Organograma do desenho da investigação
Fig. 2 Caricatura por Osbert Lancaster, onde se pode ler "Cavalheiros, acertemos as nossas prioridades. Não podemos permitir que os edifícios históricos se atravessem no caminho de acomodação dispendiosa para os turistas que vêm ver estes edifícios históricos" [tradução livre pelo autor] (Fawcett, 1976: 64)
Fig. 3 Transversalidade de diferentes obras arquitectónicas aos âmbitos cripto-históricos sugeridos
Fig. 4 Esquema pelo autor da abordagem metodológica da presente investigação.
Fig. 5 Vista aérea da restituição tridimensional do Teatro Romano de Lisboa (Fernandes & Sales, 2007: 14)
Fig. 6 Restituição tridimensional de um celeiro da villa romana de Casal de Freiria (Alvito, 2011: 49)
Fig. 7 Restituição tridimensional do Theater van het Tapissierspand (Antuérpia, Bélgica, 1711-1746) como terá sido em 1743 (De Paepe, 2010: 33)
Fig. 8 Abordagem metodológica para a reconstituição de obras arquitectónicas perdidas no tempo e na memória (Januário, Kong, & Neto, 2015: 681)
Fig. 9 Comparação entre a a restituição tridimensional da Ópera do Tejo e documento de distribuição dos lugares do teatro (Antunes, 2015)
Fig. 10 Trinómio Espaço > Forma > Contexto
Fig. 11 Vista aérea Sul do Núcleo de Cacela Velha
Fig. 12 Vista aérea Nordeste do Núcleo de Cacela Velha (Foto: Vasco Célio)
Fig. 13 Vista sobre as casas em frente do cemitério novo, a Poente do núcleo de Cacela
Fig. 14 Vistas sobre as casas a Norte da praça de entrada na fortaleza de Cacela Velha
Fig. 15 Vista exterior Sul sobre os baluartes da fortaleza de Cacela Velha
Fig. 16 Vistas internas da fortaleza de Cacela, sobre o baluarte Poente; sobre o corredor de entrada; e as escadas de acesso à plataforma superior
Fig. 17 Vista exterior da porta de entrada; e vistas interiores dos altares a Norte; e da nave central da Igreja de Cacela
Fig. 18 Vista sobre a torre sineira da igreja de Cacela Velha, a partir da plataforma superior da fortaleza
Fig. 19 Vista geral do núcleo urbano de Cacela Velha (Paiva, 2021)
Fig. 20 Vista sudeste do túmulo megalítico de Santa Rita após conclusão dos trabalhos arqueológicos de 2008 (Inácio et al, 2008: 42)
Fig. 21 Mapa cronológico sinóptico desenvolvido pelo autor, representativo dos diversos conflitos que foram marcando a evolução da ocupação do território actualmente correspondente à Península Ibérica.
Fig. 22 Mapa da Hispânia, por Jean Claude Golvin, com a demarcação das principais civitates e respectivas ligações viárias.
Fig. 23 Pintura por Mariano Barbasán Langueruela (1882), representando a Batalha de Guadalete, travada a 31 de Julho de 711, no sul da actual Espanha, a qual marcou o fim do Reino Visigótico e o início do domínio muçulmano do AlAndalus.
Fig. 24 Cronologia entre 1700 a.C. e 500 d.C., ilustrando iversos factores em paralelo: (a) Pessoas e Eventos; (b) Materiais e Tecnologia; (c) Conhecimento e Ensino; (d) Métodos de projecto; (e) Ferramentas de Projecto: Desenhos e Cálculos; (f) Edificações (Addis, 2007: 10-11)
Fig. 25 Mapa (cronológico) sinóptico desenvolvido pelo autor, representativo dos diversos factores contextuais (culturais, económicos, políticos, etc.), influenciadores da evolução do Núcleo Urbano de Cacela Velha.
Fig. 26 Parte do Quadro Cronológico (organizado por Isabel Cristina Ferreira Fernandes), ilustrando a correspondência de anos e eventos entre os calendários cristão e iislâmico (Macias & Torres, 1998: 22)
Fig. 27 Planta das estruturas expostas durante a intervenção arqueológica no Túmulo Megalítico de Santa Rita (Inácio et al, 2010: 80)
Fig. 28 Alçado e fotografias dos vestígios do forno romano da Quinta do Muro (Oliveira et al, 2020: 139)
Fig. 29 Filtragem dos elementos topográficos do cadastro romano nas zonas de Balsa e Cacela, com respectivo ajustamento linear segundo as respectivas orientações ortogonais dominantes em cada uma, e através da aplicação de módulos métricos romanos (Silva, 2010)
Fig. 30 “Sobre a Vª de Cassella” in Descrição e plantas da costa, dos castelos e fortalezas, desde o reino do Algarve até Cascais, da ilha Terceira, da praça de Mazagão, da ilha de Santa Helena, da fortaleza da Ponta do Palmar na entrada do rio de Goa, da cidade de Argel e de Larache (Massai, 1617)
Fig. 31 “Sobre a Vª de Cassella” in Descrição e plantas da costa, dos castelos e fortalezas, desde o reino do Algarve até Cascais, da ilha Terceira, da praça de Mazagão, da ilha de Santa Helena, da fortaleza da Ponta do Palmar na entrada do rio de Goa, da cidade de Argel e de Larache – continuação (Massai, 1617)
Fig. 32 Planta da “Vª de Cassella” in Descrição e plantas da costa, dos castelos e fortalezas, desde o reino do Algarve até Cascais, da ilha Terceira, da praça de Mazagão, da ilha de Santa Helena, da fortaleza da Ponta do Palmar na entrada do rio de Goa, da cidade de Argel e de Larache (Massai, 1617)
Fig. 33 “Relação e trassa da Villa de Cassella” (Massai, 1621)
Fig. 34 Planta da Vª de Cassella (Massai, 1621)
Fig. 35 Sobreposição das duas versões [de 1617 e 1621] da planta de Cacela Velha, da autoria de Alexandre Massai
Fig. 36 Sobreposição da planta de Cacela Velha de 1621 por Massai, com a respectiva reconstituição vectorial e transcrição da legenda original
Fig. 37 Sobreposição da planta de Cacela Velha de 1617 por Massai, com a respectiva reconstituição vectorial e transcrição da legenda original
Fig. 38 Sobreposição da reconstituição vectorial (pelo autor) da planta da “Vª de Cassella” por Massai (1621), com o levantamento vectorial de 2013 de Cacela Velha.
Fig. 39 Adaptação, por Cristina Garcia, da reconstituição da planta de Massai de 1621 às actuais edificações (Garcia, 2015a: 195)
Fig. 40 Adaptação da Planta da Vila de Cacela de 1621 por Massai, ao levantamento actual em SIG do núcleo de Cacela Velha
Fig. 41 Levantamento vectorial da sondagem arqueológica do baluarte
Sudoeste da fortaleza de Cacela Velha (Garcia, 2015a: 162)
Fig. 42 Entrada para a Capela de Nossa Senhora dos Mártires, localizada na fachada Norte da actual Igreja de Nossa
Senhora da Assunção (Cacela Velha), onde se pode ver em cima inscrição alusiva à sua construção em 1586
Fig. 43 Mapa (cronológico) sinóptico desenvolvido pelo autor, representativo dos diversos vestígios (construídos, iconográficos, etc.) dos elementos edificados existentes no Núcleo Urbano de Cacela Velha.
Fig. 44 Levantamento da sondagem arqueológica da muralha norte de Cacela Velha, com presença de barbacã a norte da antiga muralha islâmica (Garcia, 2015a: 180)
Fig. 45 Reconstituição hipotética, por Cristina Garcia, da Alcáçova de Cacela Velha, com demarcação dos vestígios arqueológicos conhecidos (2015a: 189)
Fig. 46 Pavimento de seixos com moldura entre a Igreja de Cacela e muro em frente, eno decorrer da obra de drenagem realizada na falésia em 1998 (Garcia, 2015a: 180)
Fig. 47 Demarcação primária do que poderia ter sido a muralha islâmica defronte da igreja (conforme ilustrada por Massai), considerando o muro como sendo a barbacã erigida após (re)conquista cristã, e tendo em conta as medidas dos vestígios da muralha islâmica na zona Norte da povoação.
Fig. 48 Quadratura da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, conforme representada por Massai.
Fig. 49 Igreja matriz e torreão fronteiro, encostado ao muro (assinalado), inexistente à actualidade (Padrão, 1967, apud Garcia, 2015a: 99)
Fig. 50 Sobreposição da reconstituição da muralha da alcáçova por Garcia (2015a) , com reconstituição vectorial da planta de Massai (1621), e levantamento actual do núcleo de Cacela.
Fig. 51 Nova proposta de delimitação da Alcáçova Islâmica, com reconstituição vectorial da planta de 1621 por Massai, e levantamento vectorial de 2013 de Cacela.
Fig. 52 Indicação da direcção da quibla sobre a reconstituição vectorial da planta de 1621 por Massai, com ortofotomapa actual do núcleo de Cacela.
Fig. 53 Comparação do traçado de implantação, baseado no rectângulo raiz de Φ, entre a Igreja de Mértola, a Igreja de Cacela actual, e a Igreja de Cacela conforma representada por Massai.
Fig. 54 Capitel das colunas interiores e pormenor da frontaria da igreja de Cacela Velha.
Fig. 55 Implantação da igreja de S. Pedro, relativa à malha urbana da cidade de Coimbra (Martins, 2023: 442)
Fig. 56 Comparação entre os alinhamentos e o traçado regulador de antigas mesquitas andaluzes com: (1) Igreja de S. Pedro em Coimbra; (2) Igreja de Sta. Maria de Marvila em Santarém; (3) Igreja de Sta. Maria da Alcáçova em Santarém; (4) Mesquita Aljama de Córdoba; (5) Mesquita del Cristo de la Luz em Toledo; (6) Igreja de Santa Maria em Badajoz (Martins, 2023: 444)
Fig. 57 Levantamento vectorial da sondagem arqueológica feita no Largo da Fortaleza e Muralha Nascente (Garcia, 2015a: 112).
Fig. 58 Mapa (cronológico) sinóptico desenvolvido pelo autor, representativo dos diversos factores influenciadores de uma dada concepção arquitectónica.
Fig. 59 Levantamento vectorial da sondagem arqueológica de 2001 ao Bairro do Poço Antigo (Garcia, 2015a: 199).
Fig. 60 Escavações arqueológicas sobre o Bairro do Poço Antigo, em Dezembro de 2018; e em Julho de 2022
Fig. 61 Carta Topographica dos baldios, e terras incultas do termo da villa de Casella, aonde se declarao os nomes dos seos senhorios, os moios de terra que tem, o que pódem levar em semeadura, o que pódem produzir, e o custo que farâo para se reduzirem a cultura, mandada tirar por Ordem do Ill.mo
E. Ex.mo Senhor Dom Joze Francisco da Costa, e Sousa, armador mor de sua Mag.e G.or e Cap.am G.nal. de este Reyno d’ Algarve, pello Sarg.to mor Jozé de Sande Vas.cos e desenhada pello mesmo Saro.to mr. Anno de 1775
Fig. 62 Pormenor da Carta Topographica dos baldios, e terras incultas do termo da villa de Casella (…), por Vasconcelos (1755), onde se vê representado o edificado do núcleo de Cacela Velha, com legendagem.
Fig. 63 Sobreposição da Carta Topographica dos baldios, e terras incultas do termo da villa de Casella (…) com o actual levantamento vectorial dos territórios circundantes a Cacela.
Fig. 64 Pormenor da Carta Topographica dos baldios, e terras incultas do termo da villa de Casella (…), por Vasconcelos (1775), com sobreposição do levantamento actual de Cacela.
Fig. 65 Primeira página da Explicação da carta topográfica do termo da v.ª de Cacella (Vasconcelos, 1755: 1)
Fig. 66 "N. 8 Fort. d’Cacella” in Mappa da configuração de todas as praças fortalezas e baterias do reyno do Algarve / Segundo a ordem do Ill.mo e Exmº Senhor Conde D´ Val D´ Reis G[overnad]or e Capp[it]am General do mesmo Reyno ; Feito pello Ten[en]te Cor[on]el Jozè d´ Sande Vasco[ncelo]s (Vasconcelos, 1784: 5)
Fig. 67 Planta do estado antiguo, e prezente da fortaleza de Cacela / pelo Coronel Jozé de Sande Vasc[oncel]os ; delineada, e mandada tirar geometricamente pelo Conde Val de Reys, g[overnad]or e cap[it]am g[e]n[er]al do R[ei]no d´ Alg[arv]e, pa[ra] ser presente ao Principe N. S. (Vasconcelos, 179?)
Fig. 68 Reconstituição vectorial da planta e cortes do estado anterior ao terramoto da Fortaleza de Cacela, por Vasconcelos, e sobreposição desta com o desenho original
Fig. 69 Reconstituição vectorial da planta e cortes do estado posterior ao terramoto da Fortaleza de Cacela, por Vasconcelos, e sobreposição desta com o desenho original
Fig. 70 Sobreposição da reconstituição vectorial da planta do Forte de Cacella de 1790 por Vasconcelos, com o levantamento vectorial de 2013 de Cacela Velha.
Fig. 71 Sobreposição da versão de 1621 da planta de Cacela Velha, por Massai, com a planta do estado anterior ao terramoto da Fortaleza de Cacela Velha por Vasconcelos (179?)
Fig. 72 Costa Sul de Portugal. Barra de Cacela. Plano hidrográfico levantado em Outubro de 1915 pelo 1.º tenente J. Herz. Correcções feitas em 1916 pelo Cap.ão tente E. T. d’Almeida Carvalho em serviço da Missão Hidrografica da Costa de Portugal (Herz, 1915)
Fig. 73 Carta corografica do reino do Algarve, que faz parte da corografia do mesmo reino (Lopes, 1842)
Fig. 74 Pormenor do Plano hidrográfica da Barra de Cacela, por Herz e Carvalho (1916), com sobreposição do levantamento actual de Cacela Velha.
Fig. 75 Sobreposição do Plano hidrográfica da Barra de Cacela com o actual levantamento vectorial dos territórios circundantes a Cacela.
Fig. 76 Esquematização axonométrica das diferentes fases históricas de ocupação de Cacela Velha, segundo reconstituição em anacronia de cada uma.
Fig. 77 Sobreposição da restituição da reconstituição tridimensional da planta da fortaleza prévia ao terramoto, segundo Vasconcelos com a do forte segundo Massai.
Fig. 78 Sobreposição da restituição da reconstituição tridimensional da planta de Massai com a da alcáçova islâmica.
Fig. 79 Esquematização axonométrica da evolução da ocupação histórica de Cacela Velha, segundo uma compreensão diacrónica das diferentes fases.
Fig. 80 Esquematização axonométrica da evolução da ocupação histórica de Cacela Velha, segundo uma compreensão diacrónica das diferentes fases, com ilustração dos elementos mantidos entre épocas.
Fig. 81 Caricatura por Osbert Lancaster, onde se pode ler "Aquilo é St. Paul, pois era!" [tradução livre pelo autor] (Fawcett, 1976: 73)
Fig. 82 Vista sobre um dos baluartes intervencionados da Fortaleza de Juromenha, onde se denota a diferença entre a antiga e a nova morfologia (Foto: Pedro Pacheco arquitectos)
Fig. 83 Vista do exterior sobre a Porta de Armas do Castelo de Monsaraz, de acesso à antiga cidadela, a Sul (Foto: Pedro Pacheco arquitectos)
Fig. 84 Vista do pátio interno do Colégio Mira Rio, onde se vê a conexão do projecto novo com o edifício do antigo Convento de Telheiras (Foto: Fernando Guerra | FG+SG)
Fig. 85 Vista geral sobre o lado norte do Colégio Mira Rio, onde se pode ver o pátio de entrada do que era o antigo Convento de Telheiras (Foto: Fernando Guerra | FG+SG)
Tab. 1 Matriz de evidências indicativa dos diversos registos de vestígios edificados de Cacela Velha.
1 Serrão, 2017: 10-11
2 Tafuri, 1995 [1986]: 97
No domínio da História da Arte –enquanto conhecimento que utiliza bases teórico-metodológicas e instrumentos operativos (pluridisciplinares em constante renovação1) para o entendimento de um dado período e sua evolução–, mais do que uma investigação que se debruce meramente sobre a descrição de princípios e realizações, é fundamental assegurar um enfoque no estudo e na interpretação dos factos, a fim de se construir um entendimento mais claro dos acontecimentos que lhe deram origem.

History is not about objects (…). What is essential to understanding architecture is the mentality, the mental structure of any given period. The historian’s task is to recreate the intellectual context of a work. 2
3 Serrão, 2001: 11
4 Choay, 2013 [1984]: 17-18; Jorge, 2003: 13
No actual paradigma da arquitectura, relativamente à conservação do património –e considerando como principal objectivo desta disciplina científica “analisar, estudar, identificar, conservar – em suma, re-conhecer” 3 as obras que demarcam a evolução da humanidade ao longo do tempo–, a perpetuidade de uma dado valor cultural depende, em grande parte, dos modos de representação da identidade que lhe é inerente e que na arquitectura está sobretudo relacionada com a forma 4
5 Serrão, 2014: 35
6 Serrão, 2017: 11
Sabe-se, aliás, que o património cultural, apesar de ser algo renovável e em constante enriquecimento, tende a ser desprezado em favor de valores (muitas vezes não totalmente compreendidos) que desprezam os critérios que lhe deram origem ou sem sequer os tentar compreender, por desconhecimento da sua utilidade5. Na actualidade, muitas vezes, a atribuição de valor a uma obra de arquitectura tem sido apenas representativa, justificada por motivos históricos, negligenciando o real contexto cultural em que originalmente se encontravam inseridas. Isto tem levado a que, muitas vezes, ao longo dos tempos, a que obras com interesse patrimonial tenham sido inevitavelmente destruídas ou abandonadas 6. Aliás, como é frisado na Convenção para a Protecção do Património Mundial, Cultural e Natural:

(…) o património cultural e o património natural estão cada vez mais ameaçados de destruição, não apenas pelas causas tradicionais de degradação, mas também pela evolução da vida social e económica que as agrava através de fenómenos de alteração ou de destruição ainda mais importantes. 7
Considerando este facto, torna-se da máxima urgência dotar o património arquitectónico de uma estratégia de conservação cujo programa de trabalhos esteja em constante evolução, já que todo o património cultural é testemunho, numa altura ou noutra, das fases históricas em que se integra, carecendo muitas vezes de um processo cientifico-analítico que suporte a avaliação dos fragmentos de uma memória desvanecida. 8

Heritage information is required to acquire knowledge, understand meaning and values, promote the interest and involvement of people, permit informed management, and ensure long-term maintenance and conservation of heritage places. It may also be considered as a kind of insurance policy against loss and as a posterity record for future generations. 9
Visa-se, assim, contrariar uma estratégia de reconhecimento e consequente valorização patrimonial despojada de uma interpretação integrada do valor identitário de uma dada comunidade –expresso na arquitectura pelo seu carácter simultaneamente histórico e sintomático– porque a História da Arquitectura não deve ser estanque na sua abordagem.
Com efeito, a interpretação dos factos históricos que constituem verdadeira herança cultural deve sofrer uma transformação, já que o carácter dessa herança é apenas parcialmente inteligível, por pertencer sempre a um passado a que não temos já acesso, ainda que associado a um sentimento de pertença que se gera numa dada comunidade. Precisamente por isso, diferentes metodologias de trabalho devem ser consideradas para o trabalho historiográfico, de modo a prever situações em que os meios mais comumente utilizados por si só, já não se asseverem suficientes para o o entendimento necessário desse passado.
7 UNESCO, 1972: 1
8 Serrão, 2017: 10
9 Letellier; Schmid; LeBlanc, 2007: xvii
10 Serrão, 2001: 11;
Serrão, 2017: 16
11 Serrão, 2017: 12-13
Serrão descreve a Cripto-História como sendo transversal e essencial à disciplina da História da Arte, visto ter em conta o papel que obras de arte “mortas” e/ou fragmentárias possam ter para a caracterização histórica, iconológica, política, ideológica, e estética, de um dado período histórico 10
Dado que muitas dessas obras que não subsistiram até aos dias de hoje possuem um sistema de valores estéticos cuja base ideológica e conceptual já não nos é veiculada, por terem perdido o seu sentido original, “(…) impõe hoje o aprofundamento de estudos de reconstituição, passíveis justamente de ser cumpridos através do enfoque iconológico e cripto-artístico” 11
Esta sub-disciplina tem sido essencial na identificação da essência da concepção de obras de arte, a qual, auxiliada por processos de reconstituição tridimensional, poderá ser aplicada ao contexto da arquitectura, contribuindo assim para uma estratégia de preservação integrada do património arquitectónico em Portugal, no sentido de garantir a sua perpetuidade ao longo do tempo.
A partir destas noções, e tendo em conta a possibilidade do contributo desta disciplina para uma renovada leitura do património, uma primeira questão que surgiu como princípio para esta investigação foi de que modo a CriptoHistória, aplicada ao caso de estudo de Cacela Velha, poderia construir um itinerário metodológico de (re)interpretação histórico-cultural que pudesse contribuir para a sua valorização integrada enquanto património (arquitectónico).
Consequente e complementarmente, uma segunda questão à qual pretendíamos fazer face durante a realização do nosso trabalho, como resposta ao exposto no conceito que seria o nosso objecto de estudo, era de que modo a reconstituição tridimensional poderia auxiliar a abordagem iconológica da Cripto-História da Arquitectura.
Propõs-se atingir um conjunto de três objectivos que contribuíssem para uma estratégia de valorização integrada do património arquitectónico capaz de (re)interpretar, de forma actualizada e inteligível, o significado a sua concepção arquitectónica, nos seus diversos âmbitos e factores.
Reconhecendo a escassez de informação bibliográfica acerca da CriptoHistória reportada à arquitectura, foi necessário conceptualizá-la no sentido de ser aplicada numa estratégia de preservação patrimonial. Como tal, será primeiramente necessário compreender a importância do estudo do contexto histórico-cultural de uma dada obra de arquitectura no sentido de garantir a herança dos ensinamentos passados que suporta, e de forma a responder aos desafios futuros. Depois disso, pretendeu-se dissertar acerca das três abordagens que compõem o estudo historiográfico de uma obra arquitectónica (filológica, iconográfica e iconológica), conhecendo o tipo de informação que as constitui e de que maneira se relacionam. Por fim, procurou-se definir um conjunto de procedimentos metodológicos, ao nível da reconstituição tridimensional, que permita a sua interpretação integrada e globalizante.
(re)interpretação histórico-cultural do estudo de caso
A aplicabilidade prática desse conjunto de procedimentos, no sentido de o tornar itinerário metodológico, foi testada através do estudo diacrónico, essencialmente iconológico –a par do iconográfico e filológico– de uma obra de arquitectura com elementos entretanto desaparecidos, através do seu contexto histórico-cultural.
Depois da recolha e inventariação da respectiva informação, procedeu-se à reconstituição tridimensional dos elementos desaparecidos. Resultante de um processo de interpretação comparativo, foi possível identificar o significado da concepção arquitectónica.
A formalização do referido itinerário, com o objectivo último de o aplicar a outros estudos, foi instruído por um conjunto de etapas e respectivos procedimentos metodológicos, incluindo a determinação do tipo de informação a recolher, como critérios-chave de uma estratégia de preservação integrada do património arquitectónico.
Arecorrente atribuição de valor patrimonial às obras de arquitectura tem sido apenas fundamentada por questões de representação formal, negligenciando o entendimento do seu significado histórico intrínseco. Assim sendo, e tendo em conta as questões de investigação inicialmente estabelecidas, com o objectivo de se valorizar o património arquitectónico, será essencial identificar os critérios que estão por trás da sua concepção originária, no que toca aos aspectos físicos e construtivos, determinados a maioria das vezes pela contextualização histórica, nomeadamente geográfica, cultural, social, política e económica na época da sua edificação e posterior uso, re-uso e transformação –em suma, o seu metabolismo.
Para que não se trate apenas de uma análise descontextualizada, é necessário, portanto, alargar as bases teórico-metodológicas da presente investigação sobre as quais a História da Arte e, particularmente, a História da Arquitectura opera, de modo a funcionar em conjunto com outras disciplinas do conhecimento, num exercício transdisciplinar de entendimento das obras de arquitectura com interesse patrimonial. É para colmatar este eventual hiato que surge a Cripto-História, enquanto estudo de património desaparecido, o qual passa obrigatoriamente pela análise formal dos seus símbolos culturais, cuja lógica interpretativa ter-se-á, entretanto, perdido 12
12 Serrão, 2017: 15; Jorge, 2003: 11, 13
Através deste tipo de análise, total e integrada, da contextualização de uma dada obra, acreditávamos que seria possível contribuir para uma estratégia de preservação, através da compreensão do seu significado cultural.
Para atingir esse objectivo, foi necessário realizar um estudo prévio dos factos históricos que estão na origem de uma mesma concepção arquitectónica relativa ao caso em estudo, que nos permitisse ter um seu entendimento evolutivo e continuado. O resultado final será benéfico, não só para garantir o valor identitário da obra que ainda existe, mas também para completar o conhecimento histórico da concepção arquitectónica das fases que entretanto desapareceram.
Actualmente, a representação e modelação tridimensional, no âmbito da prática projectual da Arquitectura, é tendencialmente considerada ferramenta de pré-visualização de resultados, não sendo explorado o seu potencial enquanto instrumento de investigação pelo arquitecto projectista. A verdade é que o rigor e precisão inerentes às ferramentas de reconstituição bi e tridimensional permitiram, aqui, realizar uma interpretação comparativa dos elementos morfológicos, estruturais, decorativos, compositivos e/ou programáticos da obra arquitectónica seleccionada, tendo contribuído para um entendimento mais completo e integrado do significado cultural patente na sua concepção original.
Por sua vez, este processo permitiu interpretar, de forma multidimensional, os factos pelos quais se justificam a ocorrência de determinados fenómenos, que, na Arquitectura, se descrevem às várias escalas de abordagem, a cada momento e num determinado lugar. Neste sentido, julgamos ter sido possível demonstrar que os processos de modelação e representação tridimensional podem contribuir para a preservação integrada do património arquitectónico, através do seu auxílio a uma (re)interpretação histórico-cultural da sua concepção arquitectónica.
13 Popper, 2011 [1993 ]
Como procedimento investigativo, foi utilizado o método hipotético-dedutivo proposto por Popper 13, para validação da veracidade da nossa teoria por meio de hipóteses confrontadas com factos científicos. Tratou-se de testar uma solução para o problema apresentado através de um processo crítico dessa solução, com vista à eliminação de erros e validação do resultado.

Choay, Françoise (2013 [1984]). ”À propos de culte et de monuments”. In Riegl, Aloïs. Le Culte Moderne des Monuments. Son essence et sa genèse. Paris: Éditions du Seuil. pp. 7-20.
Jorge, José (2003). ”A Matéria do Património”. In Ramos, Manuel (coord.). A Matéria do Património – Memórias e Identidades. Lisboa: Edições Colibri. pp. 11-16.
Letellier, Robin; Schmid, Werner; LeBlanc, François (2007). Recording, Documentation, and Information Management for the Conservation of Heritage Places: Guiding Principles. Los Angeles: The Getty Conservation Institute.
Popper, Karl (2011 [1933]). Lógica da Pesquisa Científica. São Paulo: Cultix.
Serrão, Vítor (2001). A Cripto-História de Arte. Análise de Obras de Arte Inexistentes. Lisboa: Livros Horizonte.
_________ (2014). “Portugal em ruínas. Uma história cripto-artística do património construído”. In Silva, Gastão. Portugal em Ruínas. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos. pp. 7-46.
_________ (2017). “Iconoclastia e Cripto-História da Arte. Casos de Estudo e Acertos Teórico-Metodológicos no Património Artístico Português”. In ARTis ON (5). pp. 8-24.
Tafuri, Manfredo (1995 [1986]). “There is no criticism, only history” (Richard Ingersoll, entrevista). In Casabella, LIX(619-620). pp. 96-99.
UNESCO (1972). Convenção para a protecção do Património Mundial, Cultural e Natural. Paris. Disponível em: whc.unesco.org/archive/convention-pt.pdf
Como noção necessária ao entendimento da cripto-história, tentámos construir aqui os primeiros e tímidos passos em direccção a uma consciência patrimonial, partindo do momento em que podemos reconhecer uma (des)valoração da arquitectura através apenas dos seus aspectos formais sem a significação subjacente, e olhando a altura em que se passou a reforçar a importância do reconhecimento da arquitectura como símbolo representativo dos valores culturais da sua respectiva época, seguida de uma tentativa de reflectir sobre a forma como os critérios para a perpetuidade de tal herança podem ser pensados, perante o seu eventual reaproveitamento face as necessidades actuais.
Com a expansão marítima da Europa entre os séculos XV e XVII, na descoberta e contacto com diversificadas comunidades, cujos princípios culturais eram distintos dos europeus –reflectidos na própria arquitectura–, começou-se a entender a dificuldade que a generalização dos ideais instituídos desde o século I pelo arquitecto romano Vitrúvio, e seguidos em toda a chamada "Idade Clássica" (entre meados do século XV e inícios do século XIX), acarretava na teorização da Arquitectura e na sua prática. Estes não podiam mais ser considerados absolutos ou aplicáveis em toda a parte ou em todas as circunstâncias, pelo facto do seu significado não ser partilhado da mesma forma pelas diferentes culturas.
É precisamente neste seguimento que o arquitecto francês Claude Perrault (1613–1688) começou, ele próprio, a questionar a herança dos ensinamentos da Antiguidade, mais particularmente através da sua tradução e crítica ao tratado clássico De architectura libri decem de Vitrúvio, no seu próprio trabalho intitulado Ordonnance des cinq espèces de colonnes selon la méthode des anciens (1673), o qual traria, mais tarde, consequências quanto à forma como olhamos e valorizamos a Arquitectura e, especificamente, o património edificado.
Segundo o que Pérez-Gómez nos faz notar na sua introdução à edição de 1993 de Ordonnance (…), são, em certa medida, as contradições presentes no raciocínio de Perrault que podemos apontar como justificação para a presente (des)valorização do património enquanto herança de um dado período histórico. No seu questionamento da divinização dos antigos preceitos arquitectónicos –cuja narrativa espelhava a própria posição do Homem relativamente à religião e sociedade– à luz das novas teorias científicas humanistas da época, abre-se caminho para um raciocínio que ainda hoje se mantém presente, em parte inconscientemente.
Perrault, a partir do século XVII, assumiu a necessidade das proporções arquitectónicas, delineadas segundo uma narrativa mítica (que até aqui regia o desenho da Arquitectura Clássica), serem reequacionadas e relativizadas a favor de uma sua racionalização, numa tentativa de criar uma regra de proporções universais que se baseasse nos modelos antigos, mas sem a divinização ou as “irregularidades” da prática artesã, considerada indesejável ou de fraca habilidade por parte dos seus artesãos 14–, tornando-se estas meros elementos estéticos, artísticos, separados do verdadeiro significado da obra arquitectónica.
No entanto, se Perrault, por um lado, defendia a racionalização da arquitectura, por outro, o seu julgamento estético sobre esta tornara-se subjectivo, não dependente sequer da utilização dessas mesmas proporções mas de outros factores, o que desde logo abriu caminho para uma valorização meramente formal, arbitrária e relativa, da arquitectura 15. A arquitectura tornou-se, a partir daí, científica, quantificável, mas a sua valorização dependente do gosto do momento e da relação entre objecto e sujeito 16
Estas contradições no trabalho de Perrault derivam das disparidades entre a sua prática enquanto arquitecto e os seus ideais conceptuais, na utilização de diversos elementos estilísticos da arquitectura da Antiguidade Clássica como forma de justificar a sua teoria sem, no entanto, apoiar a sua veneração inquestionada 17. A sua avaliação do papel e valor cultural e simbólico da Arquitectura e, assim, do património clássico que analisava, era feita meramente com base nos formalismos do estilo em que era construída, rejeitando a relevância, na sua apreciação, do significado posto na concepção, o que ignorava completamente a possibilidade de uma análise aprofundada de como esse património se constituía enquanto testemunho de um dado conhecimento e forma de pensar, específicos à época e lugar. Assim sendo, Perrault iniciou uma ruptura profunda com a Antiguidade Clássica, trazendo ao de cima todas as incongruências que até hoje demarcam a Arquitectura Moderna e, mais, a perpetuidade do património arquitectónico precedente. A apreciação e valorização do património passa a ser meramente baseada na representação estilística que o objecto arquitectónico historicamente apresenta 18, desprendida no entanto da sua contextualização na sociedade em que surgiu e, assim, do significado cultural subjacente que esse património representa.
14 Pérez-Gómez, 1993: 22
15 op. cit.: 32-33
16 ibidem
17 op. cit.: 27
18 op. cit.: 36
19 Choay, 2013 [1984]: 16
Éprecisamente problematizando a aparente ou eventual irrelevância da valorização do património edificado como ilustração dos valores culturais de uma dada época, e no seu enaltecimento enquanto objecto físico representativo da sua historicidade, que foi fundamental o contributo de Aloïs Riegl (1858-1905). Foi essencial o seu trabalho, plasmado na obra "O Culto Moderno dos Monumentos" (1903), para a definição conceptual da conservação através de um ""(...) inventaire des valeurs non dites et des significations non explicitées, sous-jacentes au concept de monument historique" 19
Riegl propõe uma "teoria do valor" que ainda hoje ecoa em tudo o que respeita a avaliação do valoir intrínseco e extrínseco dos monumentos, a sua natureza, função e destino, e na sua apreensão enquanto portador de "valores memoriais" e "valores contemporâneos", dando-se assim mais um passo para a consolidação de uma verdadeira teoria da conservação do património arquitetónico.
No seguimento do trabalho de Riegl, terá sido o trabalho de Françoise Choay (1992) que se revelou decisivo como clarificação do entendimento da contextualização e evolução do conceito de património. No seu trabalho, ficou desde logo patente em que é que diferem os termos património e património histórico, interpretados de forma distinta nas práticas e políticas de conservação patrimonial de cada comunidade e de acordo com a sua respectiva cultura.
O que Choay começou por aludir é que, actualmente, quando nos referimos ao património –entenda-se, arquitectónico– é indicativo do património histórico, que engloba essencialmente os denominados monumentos históricos. Choay, no entanto, defende a definição do conceito de património arquitectónico como algo mais, numa contínua evolução e expansão do
termo 20. Enquanto o património histórico se reporta obrigatoriamente a uma mentalidade englobante de uma diversidade de objectos (entendase, de carácter artístico) comumente pertencentes ao passado, o conceito de património será mais vasto, englobando as significações de tudo o que pertence a uma herança culturalmente aceite 21
Nesse sentido, apenas após uma expansão da ideia de património histórico (surgida, enquanto tal, na Europa durante o séc. XIX) e, face os variados argumentos em favor de uma aparente necessidade de inovação contínua 22 , é que as estratégias de conservação patrimonial passaram a reconsiderar o património arquitectónico, mais do que um artefacto do passado (ao qual não temos acesso), enquanto expressão cultural de valores históricos, artísticos, técnicos ou científicos, sociais, urbanos ou estéticos das sociedades de que esse património é herança 23

20 Choay, 2014 [1992]: 11
21 Jorge, 2003: 11
22 Choay, 2014 [1992]: 15
23 op. cit.: 16; Jorge, 2003: 13
(…) we shall strive to achieve the rebirth of historic buildings and historic areas, which give us a felling of continuity and a sense of security, only derived from the familiar and the loved (…) 24
Desde sempre que, na história do conhecimento humano, existe a propensão do Homem legar às gerações futuras os conhecimentos adquiridos no passado. Neste contexto, a arquitectura acaba por ser expressão e testemunho dessa herança, cujo valor, quando culturalmente reconhecido, determina o que se considera ser património 25
Por esta razão, o estudo aprofundado das obras de arquitectura tem sido relevante para a garantia da preservação do património conforme Choay nos quis transmitir. Neste aspecto, também poderemos referir, por exemplo, os escritos concretizados no século XV por Alberti, quando procurava entender os critérios de concepção e valorização patentes nas obras antigas 26, já que tinha como fim, precocemente, a aplicação desses mesmos critérios, adaptados à realidade do presente, na execução de novas obras e sem pôr em causa a preservação das antigas.
24 GB Department of the Environment, 1975: xii
25 Jorge, 2003: 11
26 Alberti, 1966 [1485]; Alarcão, 2018: 22
Fig. 2 [página seguinte] Caricatura por Osbert Lancaster, onde se pode ler "Cavalheiros, acertemos as nossas prioridades. Não podemos permitir que os edifícios históricos se atravessem no caminho de acomodação dispendiosa para os turistas que vêm ver estes edifícios históricos" [tradução livre pelo autor] (Fawcett, 1976: 64)
27 Fawcett, 1976: 8

One of the ironies of architectural training is that it has been based on the study of old buildings, but has seldom bred a respect for them. 27
28 Rossa, 2002: 196
29 Serrão, 2014: 30
30 Jorge, 2003: 13
31 ibidem;
Alarcão, 2018: 17
Contudo, face às circunstancias anteriormente descritas, a actual prática da arquitectura tende a considerar o património arquitectónico na sua vertente exclusivamente histórica e, justificando-se com o facto de já não ter acesso aos princípios de conceptualização, encara a obra de arquitectura como matéria de actuação para novas intervenções sem olhar para o seu carácter original. Isto não significa que se deva adoptar uma estratégia de conservação estanque, sem adaptação às novas necessidades e circunstâncias que cada cultura vai desenvolvendo, mas significa que não se devem igualmente pôr interesses ulteriores ou agendas secundárias sobrepostas a uma valorização criteriosa desse património, situação que acontece “(…) quando estudamos a cidade antiga apenas pela sua imagem actual” 28


(…) a riqueza do património arquitectónico de um país constróise todos os dias através de novas existências e, necessariamente, da perda de obras que pereceram por morte natural. O património renova-se e enriquece-se, mas essa renovação da paisagem construída não tem de ser inevitavelmente marcada por ondas de destruição e por abandono sem critério 29
É nessa renovação que podemos olhar para o património arquitectónico, de certa forma, como um recurso que muitas vezes nos parece, à partida, inútil e por isso descartável 30, mas cujo reaproveitamento para outras funções poderá levar à renovação ou reavaliação do seu valor cultural. Por esta razão, não se tratará apenas de o “reinserir” numa nova realidade social e económica, mas antes ter em consideração a sua confrontação com os valores de natureza científica e cultural subjacentes à sua preservação enquanto herança, para que não se imponha uma (re) valorização patrimonial meramente representativa e em confronto com a lógica do passado 31
Em Portugal, o desafio de uma nova estratégia de preservação do património arquitectónico e da herança que lhe está subjacente torna-se ainda mais urgente já que aalgumas das actuais estratégias de valorização e intervenção são parcas de um conhecimento evolutivo do seu processo de concepção, tornando-o “(…) depósitos de memória visual atribuindo à arquitectura um estatuto que ela não deveria ter, o de cenografar novos modos de vida (pretensamente mais desenvolvidos) (…)” 32 Neste sentido, o património arquitectónico em Portugal deve ser entendido para além de monumentos históricos que isoladamente povoam o território, aproximando-nos da concepção de património histórico descrito por Choay: tentar entender essas obras como testemunhos representativos da evolução de uma herança e da caracterização histórico-cultural desse seu contexto territorial 33
No trabalho de síntese das diversas acções de valorização e conservação do património arquitectónico –realizado pela Direcção Regional de Lisboa, do Instituto Português do Património Arquitectónico no final do séc. XX, no sentido de entender novas possibilidades para futuras acções de classificação–, é chamada a atenção para a necessidade de salvaguardar o património como forma de transmitir às novas gerações as referências de um período específico, enquanto testemunho e consciencialização da identidade cultural portuguesa 34
Indo ao encontro destas premissas, Costa dá conta de que a cultura arquitectónica que seja comum a todo o património edificado em Portugal, resulta em grande medida de uma importação de modelos externos e da sua interpretação evolutiva e adaptativa à realidade do contexto nacional. É precisamente nessa maneira prática e empírica, não erudita, de abordar o acto de construir que encontramos a especificidade da arquitectura portuguesa 35

Desta história sem estilos, aprendida no acto de construir, souberam os nossos mestres pedreiros, de pais para filhos, analisando, copiando, inovando respeitosamente. De facto, os critérios da arquitectura portuguesa não são tanto os da coerência, mas sobretudo os da eficiência e, por isso,
32 Correia, 2018: 70
33 Jorge, 2003: 13
34 op. cit.: 19; Serrão, 2014: 39
35 Costa, 1995: 27
36 Costa, 1995: 28
37 Serrão, 2001: 11
muito ligados ao imediatismo da técnica produtiva (…) patente na leitura da tradição.36
Em síntese, associado ao que podemos designar “imediatismo português” patente no seu património edificado, mais do que valorizar determinadas obras pela representatividade de uma dada cultura arquitectónica ou concepção estilística, será sobretudo pertinente considerá-las como obras englobantes de uma herança de conhecimentos, patentes na prática construtiva subjacente à sua concepção e edificação.
Dada a necessidade de um entendimento clarificado do contexto em que essas práticas surgiram, as quais se baseiam em princípios e pretéritos, a Cripto-História poderá dar-nos a conhecer tais princípios e contextos através da interpretação dos seus factores histórico-culturais 37. Além disso, constituindo-se enquanto investigação historiográfica, a Cripto-História tem permitido apurar informação com detalhe e rigor suficientes para justificar de forma crítica essa interpretação, isto é, compreendendo as circunstâncias (sociais, políticas, culturais, entre outras) da sua concepção original, aplicada às necessidades do seu estudo presente.
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No presente capítulo, tratamos de expor o conceito que constituiu o nosso objecto de estudo, explorando algumas das bases conceptuais e metodológicas em que a Cripto-História se instaura e, subsequentemente, como as mesmas se poderão aplicar ao âmbito específico da arquitectura. lustramos, assim, desde o conceito de iconologia proposto por Panosfky, essencial ao nosso entendimento da sistematização da disciplina processada por Serrão, até à proposta de um conjunto de âmbitos reconhecidos e possíveis de englobar uma diversidade de casos de estudo no âmbito da Arquitectura, com base nos próprios fundamentos definidos ao contexto da História da Arte.
38 Panofsky, 1995 [1939];
Panofsky: 1976 [1955]: 47, 54
Tendo em conta que a codificação cultural patente na mensagem transmitida por uma dada obra artística estará sempre dependente de um sistema de valores, não basta existir um estudo da forma por si só sem um entendimento claro dos valores que estiveram na base da produção dessa obra.
É neste sentido que Panofsky faz, a partir de 1939, uma distinção entre o estudo iconográfico das obras de arte –enquanto processo de análise da transmissão de uma mensagem através da(s) sua(s) forma(s)– e o seu entendimento iconológico –enquanto interpretação dessa mesma iconografia 38, tendo conhecimento do código cultural que dá significado ao conteúdo da referida mensagem.
Oentendimento iconológico da relação que se estabelece entre a contextualização cultural em que ocorre a produção de uma dada obra e a ideologia (como forma de justificar a descrição da realidade que essa obra representa) através da qual foi produzida, exige uma simultânea compreensão do sistema de valores que está por detrás do referido código cultural e que justifica o conteúdo da mensagem transmitida, bem como dos factos histórico-culturais que estão na sua origem. Segundo Panofsky, este tipo de estudo pressupõe três aproximações complementares, que promovem uma melhor compreensão da obra analisada.
39 op. cit.: 50
Uma primeira descrição pré-iconográfica pressupõe a observação dos elementos que a compõem e como são expressos. Este primeiro nível de percepção está na base do entendimento da obra sem necessitar de qualquer conhecimento prévio (excluindo aquele que nos é dado pela experiência directa), dando-nos acesso ao que Panofsky denomina tema primário, aparente ou natural 39 No entanto, essa observação e enumeração dos elementos formais não é suficiente para ter uma percepção do que a obra significa.
Nesse sentido, uma análise iconográfica desses elementos permitirá dar a conhecer o que esses elementos pretendem transmitir, naquilo que Panofsky refere como o tema secundário ou convencional da obra 40. Esta análise permite-nos identificar e relacionar os diferentes conceitos, histórias ou alegorias manifestadas pelos vários elementos artísticos da obra, que apenas promove a mensagem da obra, sem ter em conta o contexto em que foi criada e transmitida.
Por fim, para um entendimento do significado intrínseco da obra, distinto do seu estudo iconográfico –neste sentido de contraposição entre os elementos formais que a compõem e a mensagem que pretende transmitir (entre o como e o "porquê", e "porquê assim", interrogações fundamentais)– Panofsky refere que o estudo iconológico dessa mensagem/tema pretenderá dar a conhecer o significado subjacente à produção da obra com um reforçado conhecimento da sua contextualização cultural, reportada à época em que a obra foi concebida, e da sua importância/valor face à sua contemporaneidade, e também já como herança a ser perpetuada (pelo entendimento do porquê).
Serve este estudo iconológico como síntese interpretativa da análise iconográfica feita anteriormente 41, algo que nos permitirá aceder ao conteúdo da obra, sob a forma de “(…) um princípio unificador que sublinha e explica os acontecimentos visíveis e sua significação inteligível e que determina até a forma sob a qual o acontecimento visível se manifesta” 42
Ainterpretação iconológica da concepção de uma dada obra arquitectónica é feita à luz de informações que dizem respeito à sua época, tradições, contexto religioso e/ou político, destino do objecto produzido, intenção do encomendate, entre outros aspectos, que nos informarão igualmente sobre um conjunto de outras obras com um mesmo enquadramento cultural 43 Olhamos já para a iconologia na arquitectura no seguimento de Pereira, na concepção dos objectos arquitectónicos como um todo portador de significado 44. Assim, a percepção de toda a contextualização cultural de uma dada obra arquitectónica que, entretanto, tenha desaparecido permitirá reconstituir aspectos da mesma que já não são passíveis de ser visualizados e presentificados, desde que auxiliados por um entendimento cripto-artístico, mais aprofundado, da sua concepção, levando assim a uma eventual valorização dessa obra enquanto património que nos reporta à sua época.
40 ibidem
41 op. cit.: 54
42 op. cit.: 50
43 op. cit.: 49
44 Pereira, 2012, Vol.I: 8
ACripto-História é um conceito relativamente recente, que surgiu enquanto ramo englobado e transversal à História da Arte face a uma identificação já antiga da quantidade de casos de obras artísticas que não sobreviveram até à contemporaneidade, devido a diversos factores, sejam eles resultantes de acções naturais ou humanas, de destruição ou modificação 44
45 Serrão, 2001: 11
46 ibidem
Assim, o que um estudo cripto-histórico suscita com vigor é um entendimento dessas obras desaparecidas numa determinada época, através da interpretação dos seus factores históricos, políticos, ideológicos e, na base de tudo isso, estéticos, contribuindo para a compreensão das tendências e condicionantes determinadas pelo seu contexto de produção45

47 op. cit.: 12
48 ibidem
O conceito apresentado por Serrão para descrever este tipo de investigação historiográfica pretende incorporar o estudo do património desaparecido na actual metodologia de trabalho da disciplina de História da Arte 46, já que “A sedimentação do conceito [permitirá] enquadrar melhor as valências da sua prática organizada e consistente” 47, para trazer uma objectividade necessária ao estudo destas obras cuja percepção generalizada não é tão facilmente consciencializada. É nesse sentido que Serrão apresenta quatro vertentes que acredita estarem na base de uma investigação cripto-histórica e as quais funcionam de forma transversal e coincidente.
Uma primeira, à qual denomina cripto-análise, passa pela análise e diagnóstico de elementos ou códigos artísticos sobre obras das quais não se conhece informação concreta sobre o seu contexto.
A segunda vertente, denominada dedução, visa focar-se nas obras desaparecidas que se integram no percurso de um dado autor, período, tipologia ou estilo artístico, através de uma análise visual, documental, estilística e/ou
iconográfica entre essas obras e as restantes que se insiram no mesmo conjunto artístico-estilístico.
A terceira vertente, da reconstituição, tem o intuito de tentar repor o que seria a estrutura inicial e completa de uma obra ou conjunto de obras artísticas parcialmente destruída(s).
Por último, a quarta, nomeada incriação, foca-se nas obras que foram idealizadas, mas nunca ou apenas em parte concretizadas, e possuem uma base programática fundamentada e reconhecida.
Através desta abordagem cripto-histórica, à semelhança do estudo iconológico definido por Panofsky –tendo conhecimento do sistema de valores que se encontra por detrás do código cultural que justifica o conteúdo da mensagem transmitida de uma dada obra artística–, poderemos “(…) analisar (…) o significado dos códigos e dos signos, sem deixarmos de olhar para todas as obras de arte (…)” 49, incluindo aquelas que entretanto desapareceram. Desta forma, poderemos chegar a um modelo de (re)interpretação dessas obras pelo entendimento mais clarificado dos preceitos que estiveram na base da sua concepção, e não apenas da análise preliminar e descontextualizada dos registos existentes.
Naturalmente que a proposta de Vitor Serrão se move no campo da História de Arte e, muito em especial, no domínio da re(con)stituição de obras de arte plástica (pintura, escultura), que são artes, como se costuma dizer “filhas do desenho”. Mas, “filha do desenho” era e é também a arquitetura; e a aplicação da Cripto-História a este âmbito –ao âmbito da História da Arquitetura– encontra-se em potência na sua proposta, e, diríamos nós, já como uma certeza, quando Serrão afirma que “A coerência de um inquérito histórico-artístico assim organizado com base nestas quatro vertentes de análise carreia um alargamento da metodologia geral da História de Arte, cuja eficiência urge ser reconhecida e revalorizada.” 50. Para logo acrescentar:

"Em suma: quero afirmar que pode fazer-se História de Arte objectiva (e cientificamente operativa) recorrendo-se a objetos mortos, à sua hoje diluída memória, às breves cicatrizes deixadas como rasto. Diria que deste modo se poderá fazer uma História de Arte de acrescida eficácia, pois dessa
49 op. cit.: 13 50 ibidem
ibidem
abordagem resultam sempre novas luzes que se revelam de manifesta utilidade para o diálogo íntimo a empreender com as obras vivas - isto porque se os historiadores de arte esquecerem ainda mais as peças já de si inexoravelmente olvidadas de estrutura matérica, sem lhes buscarem devolver um possível halo de memória, estarão a truncar a reconstituição histórica de factos valiosos para uma abordagem em globalidade e, sobretudo, estão a privar a fortuna crítica de elementos de informação que podem ser poderosamente influentes, sobretudo quando o juízo crítico do historiador de arte se encontra (de)formado por uma selecção artificial, fortuita ou comprometida, quer de «obras de arte» quer de artistas.” 51
O que daqui intuímos, e que sabemos ser, até por consulta de outros escritos posteriores do mesmo autor, é que a Cripto-História se estende devido ao seu potencial, à Arquitetura. Mais do que isso: a Arquitetura de obras “vivas”, ou de obras “mortas”, ou de obras inclusas ou alteradas, suscita ainda mais esta nossa metodologia de análise.
Não podemos, nem devemos, simplificar, e ficarmo-nos por renderings e suposições mais ou menos bem alicerçadas. No nosso caso escolhemos mesmo a via da profundidade, isto é, a de máxima recolha de dados, evidenciados na documentação, mas também através da instrumentação que nos é fornecida pela disciplina de Arquitetura, em relação com a obra em si e sob análise, caso ainda exista mas tenha sofrido mutações, fruto do metabolismo através dos tempos. E em profundidade, aplicando-a aqui ao domínio da arquitetura o que implica, medições, verificações rigorosas, confrontações entre registos antigos e recentes, mobilidade de pensamento, proposições que se validam ou invalidam (como veremos), mas que são o cerne daquilo a que chamamos Cripto-História da Arquitetura.
A seguir demonstramos como se construiu a nossa metodologia que se pauta por princípios de cripto-análise, bem entendido, mas também, pela necessidade de rigor face às fontes disponíveis; que se pauta, enfim, por uma micro-análise, por um escrutínio intensivo dessas mesmas fontes, como facto de elucidação e de validação ou invalidação de hipóteses. Suscitando interrogações e hesitações, que não deixaremos de enunciar
Na linha das abordagens que Serrão prescreve no âmbito da Cripto-História e como extensão natural para o contexto da História da Arquitectura, podemos de igual maneira sugerir quatro distintos âmbitos categóricos em que obras arquitectónicas englobáveis pela disciplina em causa se inserem. A repartição em diferentes âmbitos categóricos que seguidamente sugerimos é realizada independentemente da tipologia subjacente ao caso de estudo, sendo antes fruto da sua génese (histórica) conceptual.
Desta feita, muitos casos patentes nestes âmbitos informarão, para lá da sua execução, uma lógica de pensamento dos seus autores, e daí a sua incorporação na presente categorização
1. As obras projectadas mas nunca/parcialmente executadas
Estas remetem para uma diversidade de projectos que não passaram da fase de concepção ou que, tendo-se iniciado a sua construção, não foram levados ao seu termo pretendido. Aqui poderemos incluir, a título exemplar o projecto para o Erário Régio, encomendado em 1789 ao arquitecto José da Costa e Silva (1747–1819), cujo único elemento edificado foram as fundações, hoje visíveis ao nível subterrâneo do jardim do Príncipe Real, em Lisboa; ou o Palácio Nacional da Ajuda, projecto originalmente concebido por Manuel Caetano de Sousa e que, após o início da sua construção em 1795, sofreu profundas alterações através de novo projecto em 1802 da autoria do arquitecto italiano Francisco Xavier Fabri (1761–1817) com José da Costa e Silva, também este não concluído.
2. As obras imaginadas como concretizáveis, conceptualizadas em propostas com diversos graus de idealização
Muitas destas não passarão de iconografias nunca transpostas para a realidade, como serão os desenhos que o humanista, arquitecto, escultor, desenhador, iluminador e pintor português Francisco de Holanda (1517–1585) teve presentes na sua obra “Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa”,
publicada primeiramente em 1571. Esta obra retratava à época a situação da cidade de Lisboa e propunha soluções para vários dos problemas urbanos aí presentes, fazendo-se acompanhar de diversos esboços ilustrativos das propostas projectuais.
Vários deles, tinham como objectivo oferecer uma escala à cidade apropriada à imagem que o império português pretendia demonstrar; outros, apontavam diversas possíveis inovações, ao nível da arquitectura militar, por exemplo –muitas vezes fantasiosas, simplesmente não praticáveis, o que terá em parte contribuído para a sua não efectivação.
3. As obras conceptualizadas no contexto de exercícios académicos
Realçamos sobretudo as enquadradas entre os finais do século XVIII e inícios do XIX, resultantes de concursos - p.e. na Academia de Bolonha, por serem as que, no caso da arquitectura portuguesa em especial, se encontram melhor documentadas.
4. As obras concretizadas mas modificadas, com fases desaparecidas e/ou transformadas ao longo do seu tempo de existência
Remetemos para este último contexto aquele que constituirá certamente o maior conjunto de casos de estudo afectos à disciplina para a qual aqui contribuímos, já que este último contexto não é limitado a um qualquer período específico às suas circunstâncias contextuais, como sejam os anteriores tópicos, por esses surgirem do reconhecimento de uma época em que o ensino da Arquitectura se passara a fazer num âmbito académicoprofissional, para lá da etimologia original da própria palavra. Significa isto que, se enquanto até ao Renascimento não havia distinção entre a actividade conceptual de projecto e a execução física do mesmo, estando todas as actividades disciplinares subordinadas à figura do mestre-construtor, a partir de então o arquitecto surge enquanto figura isolada, separada dessa outra, separando-se igualmente o aspecto intelectual das questões estritamente artefactuais. Assim, o acto projectual passou a ter a formalização iconográfica que comumente associamos à disciplina da arquitectura.
Como o próprio nome indica, pretendemos aqui incorporar todos os casos de estudo que tenham sobrevivido até aos dias de hoje, ainda que sem vestígios construídos. Entenda-se, ainda que a presença física dessas construções
possa não se ter mantido, existirão de alguma forma vestígios indirectos das mesmas, sejam escritos, iconográficos, entre outros. Não obstante, será pertinente considerar aqui a inclusão também de obras que, permanecendo fisicamente na actualidade, possam ter passado por diferentes fases de concepção e construção, ao ponto de manterem subliminarmente a necessidade do entendimento de uma ou outra época.
Mais do que propormos uma série de âmbitos estanques para o que designamos de Cripto-História da Arquitectura, o que aqui pretendemos desde o início foi levar a cabo a apresentação e experimentação de uma proposta de diferentes âmbitos englobáveis na própria, pelo reconhecimento da origem dos diferentes casos de estudo que se inserem na disciplina.
Dito isto, o que nós próprios reconhecemos desde logo foi o facto de vários desses casos poderem intersectar diferentes âmbitos, assumindo a sua transversalidade à disciplina e enriquecendo, assim, a própria abordagem. Nesse seguimento, se deixamos aqui este contributo, é no intuito de poderem ser feitos acrescentos a uma disciplina que queremos, de alguma maneira, consolidar e, até certo ponto, "oficializar", abrindo igualmente o campo de trabalho a outros âmbitos intermédios, que reconheçam situações particulares que aqui não expusemos.

No esquema acima, pretendemos precisamente ilustrar a transversalidade face aos diferentes âmbitos que diferentes casos de estudo podem, na verdade, possuir. Se colocámos o caso do Palácio Nacional da Ajuda na primeira categoria, o facto de possuir um projecto original que foi modificado insere-o de semelhante maneira das categorias 2 e 4, ao possuir uma proposta
Fig. 3 Transversalidade de diferentes obras arquitectónicas aos âmbitos cripto-históricos sugeridos (esquema pelo autor)
iconográfica (ou uma presença física) original que sofreu, entretanto, alterações.
Também o caso do que é presentemente o Palácio do Manique do Intendente, propriedade residencial encomendada por Diogo Inácio de Pina Manique (1733-1805), viu a sua construção ser interrompida com o seu falecimento. Assim, o palácio segundo o projecto originário nunca foi terminado (enquadrando-se, de forma clara, na categoria 1), mas a sua inclusão num plano de maior âmbito e alcance –que visava a criação de uma vila com uma configuração arquitectónica racionalista que, para além do palácio, incluía, entre outros, a Câmara Municipal, o pelourinho, o Palácio da Justiça e a igreja– engloba-o na categoria 2; assim como a destruição da cobertura do claustro e restauro da igreja em 1941 (e subsequentes obras de reconstrução nas décadas seguintes) permite a sua inclusão na categoria 4, por ter modificações que podem levar a uma diferente interpretação da obra.
Não pretendemos tanto instaurar, aqui, uma nova disciplina –visto a mesma necessitar de uma sedimentação baseada na sua variada aplicação, seja ao nível dos casos de estudo a que se possa aplicar, seja dos critérios propostos na sua metodologia–, mas antes sim contribuir com a nossa própria investigação para uma metodologia já existente e fundamentada, assim como chamar a atenção para um conjunto de circunstâncias que este tema pretende esclarecer e, dessa forma, trazer a possibilidade da sua inclusão no pensamento de uma disciplina (neste caso, a Arquitectura) que se pretende inter e transdisciplinar e que não pode nem deve fugir do(s) contexto(s) em que surge e sobre o(s) qual(is) trabalha.
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(RE)INTERPRETAÇÃO HISTÓRICO-CULTURAL
Seguidamente, é apresentado parte do trabalho que perfez o estado do conhecimento respeitante à temática na base do nosso título. Não se pretendeu tanto a realização de um levantamento exaustivo de todos os trabalhos dentro do âmbito a que nos propomos, cuja impossibilidade se reconheceu imediatamente perante a vastidão de investigação nesse contexto. Pretendemos desde cedo fazer uma selecção abrangente mas sintetizada, que nos permitisse entender uma base metodológica comum. Simultaneamente, procurámos entender como esta temática investigativa tem sido aplicada e utilizada no âmbito nacional português
Anossa metodologia passou primeiramente pela avaliação dos métodos utilizados em semelhantes trabalhos de reconstituição cripto-histórica que recorressem à utilização de ferramentas digitais de representação e modelação bi e tridimensional, com o intuito de clarificar os procedimentos subjacentes a cada investigação e seu desenvolvimento.
A partir daí, foi nosso próprio entendimento optar pela sua maior ou menor conformação face às abordagens cripto-históricas de investigação que Serrão instaurou no campo da História da Arte pelo que nos informámos da relevância desses trabalhos para a definição de uma verdadeira metodologia cripto-histórica, aplicável à Arquitectura. Necessariamente, para a síntese desses trabalhos e sua consequente avaliação, procurámos a adaptação das vertentes investigativas cripto-históricas ao contexto disciplinar do nosso trabalho, tendo em conta a sua aplicação ter sido até agora primordialmente aplicada à análise de obras de arte figurativa. Todavia, teria sempre sido necessária a consolidação do método de Serrão no sentido de contribuir para o que denominámos como Cripto-História da Arquitectura.
Sendo assim, ainda que o resultado seja flexível na génese do estudo de caso ou no conjunto de ferramentas de representação e reconstituição aplicadas, o que tentámos exortar foi a existência de um denominador comum a todos os trabalhos, passados e futuros, composto de um conjunto de critérios aplicáveis e necessários a qualquer investigação dentro dos parâmetros (de reconstituição cripto-histórica) pelos quais guiámos o nosso próprio trabalho. Terá sido a partir desses mesmos elementos comuns que posteriormente iniciámos o nosso próprio estudo de caso, cujo desenvolvimento não deixou de complementar e consolidar o método referido, tendo em conta as particularidades inerentes bem como o preenchimento de quaisquer lacunas reconhecidas durante o processo.

Esquema pelo autor da abordagem metodológica da presente
52 Golvin, 2003: 39
Se utilizámos a palavra reinterpretação como mote para a nossa própria investigação –enquanto aglutinador de uma série de procedimentos práticos e interpretativos direccionados para um mesmo objectivo de contextualização histórica e cultural do objecto em estudo–, foi na leitura de diversas definições, recorrentemente reconhecidas na base de trabalhos semelhantes ao aqui proposto, que encontrámos uma justificação reforçada para a utilização dessa mesma definição. Foram as palavras do arquitecto e historiador Jean-Claude Golvin que explicitaram algumas das definições fundamentais 52 e que tivemos em conta ao tratarmos da representação de elementos arquitectónicos históricos inexistentes.
O que o autor faz tenção de reforçar é uma diferenciação entre os conceitos de "Restituição", "Reconstituição" e "Restauração". Teríamos assim: Restituição –enquanto reconstituição de uma imagem específica da obra num momento específico da (sua) história; Reconstituição – enquanto colocação dos elementos conhecidos da obra entre si numa ordem relevante ao seu entendimento conjunto; Restauração – enquanto conceito de melhoria das condições de um edifício, para a sua conservação e, mais, para a compreensão da sua imagem pertinente. A estes acrescentaríamos ainda a noção de evocação, que remete para alguns trabalhos reconstitutivos, antes influenciados por uma interpretação pessoal do próprio autor, ainda que baseados em factos científicos.
53 Restauração. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa Lisboa: Priberam Informática. Acedido a 21-05-2020 em: https:// dicionario.priberam.org/ restauração
Apesar de “restauration” não apresentar diferença entre 'restauro' ou 'restauração' (quando traduzimos o conceito tratado por Golvin), escolhemos a segunda por remeter mais amplamente para uma noção de 'restabelecimento' ou 'recomposição' 53, ao invés apenas do conjunto de técnicas mais particularmente relacionados com a ideia típica de reparação de uma dada obra arquitectónica. Ainda que a definição do autor se pareça referir à primeira vertente, terá sido no seu enfoque quanto à importância da compreensão da arquitectura para lá da mera melhoria do seu estado que encontrámos o especial interesse no âmbito que nos toca, em sequência e complemento das restantes, a que acresce a nossa própria visão sobre o património.
O que se tornou particularmente interessante no nosso Estudo de Caso foi o facto do trabalho desenvolvido ter, no final, visado uma integração destas três diferentes abordagens de base. O que inicialmente visou a restituição (representada tridimensionalmente) da imagem de diversas épocas de uma mesma obra, passou necessariamente pela reconstituição dos elementos conhecidos (e desconhecidos) do objecto arquitectónico em causa, para o objectivo último da (re)interpretação e ideação do património que a arquitectura dessa obra engloba, potencialmente, para a sua restauração, numa visão de perpetuidade do seu significado contextual(izado).
Desde o final do século XX que se levantaram questões relativas aos benefícios dos meios computacionais quando aplicados a um estudo de cariz historiográfico. Tome-se o exemplo de Mohler, que nos descreve os benefícios da utilização dos meios digitais para reconstituir cenários de teatros não mais existentes, de forma a entender como se procediam as encenações nos espaços teatrais dos séculos XVI a XVIII 54. Contudo, Molher salienta a impossibilidade destes meios recriarem, mesmo na sua linguagem virtual, o edifício em estudo sem um grau de conjectura associado, dada a escassez de registos visuais 55. Isto deve-se ao facto da investigação do autor se focar numa abordagem cripto-histórica analítica, exclusivamente dedicada à informação iconográfica existente sobre a obra, analisando ao pormenor os vestígios desenhados existentes embora sem assumir uma atenção mais robusta ao seu contexto histórico-cultural.
Semelhantes reservas relativamente à representatividade dos vestígios (construídos ou iconográficos) através destas ferramentas são mostradas no trabalho de Masuch et al (1999). Neste caso, apesar de realçarem já as possibilidades que as ferramentas digitais oferecem enquanto método investigativo no processo de análise e representação do património
54 Molher: 1999: 417
55 op. cit.:418
56 Masuch et al: 1999: 88
arquitectónico, apontam igualmente para o risco das mesmas oferecerem nas suas possibilidades uma representação realista, talvez excessiva. Se, por um lado, oferecem a possibilidade de rápida e tangivelmente visualizar uma restituição de uma hipótese de investigação sobre os vestígios arqueológicos, o realismo potenciado pelas mesmas pode oferecer a essas hipóteses, face utilizadores menos conhecedores, uma cientificidade não existente 56
57 op. cit.: 87
58 op. cit.: 88 59 ibidem
No entanto, não deixam os autores de demonstrar a polivalência destas ferramentas digitais que, no seu processo investigativo em contínua evolução, revelam deficiências no trabalho reconstitutivo –através da sua versatilidade de utilização e interactividade– que, pelos meios tradicionais, não seriam tão facilmente reveladas 57. Desta forma, tomando o trabalho que executaram para a restituição do Palácio Imperial do imperador Otão I do Sacro Império Romano-Germânico, localizado em Magdeburgo entre cerca dos séculos X e XIII, é feita uma categorização das origens de informação possíveis na reconstituição de obras arquitectónicas do Período Medieval com uma base arqueológica 58. Assim, subdividem-nas em:
1) achados – significando quaisquer vestígios arqueológicos escavados;
2) deduções – como os factos que podem ser derivados directamente da escavação efectuada;
3) analogias – enquanto factos que podem ser deduzidos de edifícios semelhantes do mesmo período arquitectónico da obra em causa;
4) premissas – detalhes assumidos logicamente, mas sem base de escavação.
Ainda que os autores procedam à categorização em causa, apontam o risco quanto à utilização das categorias 3) e 4) no âmbito de um trabalho de restituição de qualquer obra da Idade Média. Isto porque sendo reconhecida a falta de construção padronizada na Europa nesse período, assim como o facto da maioria das construções medievais terem sido destruídas ou alteradas nos séculos posteriores à sua edificação, apontam precisamente para a insuficiência em tentar encontrar soluções comuns com outros casos do mesmo período ou tipologia. Indicam os autores, assim, a hipótese de apenas influências locais poderem ter servido de eventuais padrões 59, visto serem os construtores locais os responsáveis pela obra, num período onde a difusão de meios era muito pouca.
Foi apenas durante a primeira década do século XXI, com o progresso acelerado das técnicas computacionais, que foram sendo enaltecidas as possibilidades oferecidas pela reconstituição tridimensional no campo da historiografia. Percebendo as várias limitações dos meios existentes pelos quais esta disciplina se orientava, dada a possível precariedade ou incongruências existentes nos dados utilizados, estas ferramentas digitais foram-se tornando métodos úteis para colmatar essas fragilidades.
Um primeiro estudo nacional terá sido a concepção virtual do Teatro Romano de Lisboa, resultante de uma parceria entre o desenhador Paulo Sales e a arqueóloga Lídia Fernandes (2005). Deste teatro, localizado a meio da colina onde se encontra o Castelo de S. Jorge, descoberto em 1798 aquando das obras após o Terramoto, só se possuíam alguns desenhos de levantamento da autoria do arquitecto italiano Francisco Xavier Fabri (1761-1817). Acresce que, apesar das ruínas da estrutura que foram sendo colocadas a descoberto nas intervenções arqueológicas ao longo dos anos, não havia um conhecimento aprofundado do que poderia ter sido aquela estrutura à época da sua construção.
A particularidade deste caso deve-se ao seu acesso a registos gráficos e ao levantamento arqueológico da estrutura, em parte ainda existente, e não unicamente a um modelo conjecturado. Ainda assim, necessariamente, vários dos elementos reconstituídos foram interpretados a partir dos diversos preceitos teóricos de Vitrúvio que estariam na base da edificação, interpretados face às hipóteses em causa para o contexto histórico (espacial e cultural) específico do caso em estudo 60
Contrariamente ao trabalho de Masuch et al, a possibilidade de procurar referências proporcionais a outra balizas bibliográficas para complementar a reconstituição, indiciava desde logo o reforço de uma abordagem cripto-histórica dedutiva como resposta às lacunas que os vestígios apresentavam.
60 Fernandes & Sales, 2005: 32
Fig. 5 Vista aérea da restituição tridimensional do Teatro Romano de Lisboa (Fernandes & Sales, 2007: 14)

Fig. 6 Restituição tridimensional de um celeiro da villa romana de Casal de Freiria (Alvito, 2011: 49)

61 Alvito, 2011
62 ibidem
Otrabalho de Alvito relativo à reconstituição da villa romana de Freiria partiu igualmente de uma base arqueológica existente, a partir do qual o processo do seu autor passou, num primeira etapa, pela criação de vários modelos tridimensionais, representativos de uma teoria ou hipóteses diferentes. Os modelos foram baseados em planos prévios realizados com recurso a Desenho Assistido por Computador (CAD) –através da plataforma Autodesk® AutoCAD– para a reconstrução do edificado, e utilizando Sistemas de Informação Geográfica (GIS) –ESRI®– para a recriação do terreno 61. Assim, o autor logrou criar uma representação realista dos vestígios existentes, assim como uma representação aproximada do que poderá ter existido na altura da edificação principal. Este estudo não teve como pretexto fazer uma reconstituição inteiramente fidedigna da obra em estudo no seu contexto originário, mas antes oferecer aos investigadores de uma visão primária das suas descobertas, de modo a potenciar o levantamento de novas questões que não existiriam sem uma visualização do espaço a três dimensões 62
63 El-Hakim, Lapointe, & Whiting, 2008
64 Rodríguez-Gonzálvez et al, 2019: 177
Diacronismo. In Dicionário infopédia da Língua Portuguesa. Porto: Porto Editora Acedido a 26-05-2020 em: www.infopedia. pt/dicionarios/linguaportuguesa/diacronismo
Já o trabalho desenvolvido por El-Hakim et al (2008) reportou-se ao estudo de estruturas arquitectónicas que, ao longos de diferentes períodos, foram objecto de modificações, ou que porventura tenham sido parcial ou totalmente destruídas, com uma básica modelação tridimensional através de diferentes fontes iconográficas, fossem pinturas ou fotografias, das diferentes épocas de uma dada obra. Desta forma, os autores apresentaram a noção de um modelo diacrónico 63, como abordagem representativa da evolução histórica de uma dada obra de arquitectura desde a sua concepção, suscitando um entendimento da sua evolução morfológica e estilística 64 Através do método fotogramétrico que utilizaram –de interpretação de informação contida em imagens fotográficas–, para a análise das obras de arquitectura, é possível uma observação de detalhes mais subtis entre os diferentes modelos tridimensionais, não tão perceptíveis com outros modos de trabalho. Esta formalização permite desde logo a confirmação de registos históricos e a colmatação de outras informações bibliográficas sobre a obra.
No entanto, apesar da inquestionável relevância destes detalhes numa percepção da evolução de uma dada obra ao longo da sua cronologia, da maior ou menor modificação da sua estrutura arquitectónica, para um entendimento contextualizado da sua importância a cada período, os autores Russo e Guidi (2011) lembram a necessidade de analisar em profundidade o que chamam de “mecanismo arquitectónico global” 65. Significa isto que o estudo não se atém nem se detém sobre os pormenores arquitectónicos patentes na obra sem a tentativa de compreensão das relações espaciais e estilísticas que lhes estão subjacentes e lhes dão significado no conjunto.
Sendo assim, quando se propõe a modelação tridimensional de estruturas inexistentes, é exigida uma capacidade de observação, análise, interpretação e síntese aprofundada das informações históricas, cadastrais e iconográficas do artefacto, integradas com o uso das regras de um dado vocabulário de representação arquitectónico adaptado às técnicas estilísticas e de construção locais que lhe proporcionaram o carácter único ao seu contexto.
É neste sentido que os autores acrescentam a necessidade de, numa modelação diacrónica, do conhecimento dos períodos individuais ser integrado no posterior estudo das relações existentes entre as diferentes épocas históricas, justificando as evoluções progressivas do objecto arquitectónico 66
No processo de reconstituição diacrónica, o necessário primeiro passo foi o redesenho das iconografias existentes através de ferramentas de CAD. Nesse processo, é patente uma indissociável falta de objectividade e coerência entre desenhos, seja devido a alguma falta de precisão das ferramentas originais ou outros factores que alteram o estado das iconografias ao longo do seu tempo de vida, pelo que é necessário arranjar um sistema de mediação, que através de uma coerência proporcional 67 permita fazer a transição dos métodos tradicionais originários para os métodos computacionais, mais precisos.
Também na presença de vestígios arqueológicos, quaisquer incoerências podem ser evitadas através de uma comparação entre as medidas reais às correspondentes representadas computadorizadamente. Inclusivamente, na ausência de iconografia suficiente para a representação total, relembram os autores a necessidade do próprio processo se basear na cultura local e
65 Russo & Guidi, 2011a: 203
66 op. cit.: 206
67 Guidi & Russo, 2011: 374; Guidi, Russo, & Angheleddu, 2013: 103-104
68 Guidi, Russo, & Angheleddu, 2013: 99, 102
lógicas construtivas pertencentes a um vocabulário arquitectónico comum, em comparação com regras formais de outros exemplos dentro da mesma tipologia 68. Assim, este processo acaba por criar a necessidade de uma abordagem integrada quando nos propomos a realizar uma reconstituição tridimensional de um sítio arqueológico, que tenha como base a documentação dos vestígios existentes e se proponha a um progressivo refinamento da hipótese reconstitutiva com recurso a elementos iconográficos.
69 op. cit.: 100
Existe, no entanto, uma ressalva apontada pelos autores: a fraca confiabilidade que a reconstituição possa apresentar, devido à disjunção normalmente existente entre os técnicos responsáveis pelo modelo tridimensional, que trabalham isoladamente dos investigadores responsáveis pelo estudo histórico e sem os seus conhecimentos sobre a obra. É desta forma que a comunicação entre ambas as partes se torna essencial para a boa realização desta metodologia reconstitutiva, envolvendo permanentemente os investigadores na verificação do processo de reconstituição 69. No caso da nossa investigação, visto ambos os processos serem conduzidos pela mesma pessoa –que, enquanto arquitecto, possui no seu currículo pedagógico disciplinas ligadas à História da Arquitectura e à Modelação Tridimensional–, existirá uma maior coerência nos diferentes passos do processo reconstitutivo, num processo dinâmico entre as diferentes etapas.
70 CET Centro de Estudos de Teatro, 2013; Peña et al, 2015
Outro referente particular, interessante no modo como a reconstituição de um edifício é possível apenas da escassa informação sobre si existente, é o modelo reconstitutivo coordenado por José Camões (2013) no âmbito de um projecto de investigação do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Este estudo centrou-se numa reconstituição virtual do Pátio das Arcas 70, exemplo de uma tipologia de teatros "à espanhola" denominados “corrales de comedia” que surgiram por volta de 1580. Neste trabalho, o grupo de investigação propôs-se a realizar uma reconstituição tridimensional do teatro, nas suas duas fases distintas de funcionamento –desde a sua construção em 1593 até ao incêndio que o destruiu em 1697; e da sua posterior reconstrução até à destruição pelo Terramoto de 1755.
Carecendo de quaisquer vestígios arqueológicos ou testemunhos iconográficos de representação do projecto, os autores viram-se necessitados a recorrerem a outros elementos, fossem manuscritos descritivos da propriedade à qual a obra estava sujeita, das medições do pátio e sua estrutura, depositados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Também para uma percepção da sua implantação, a equipa socorreu-se de elementos que, embora não directamente indicativos do projecto, pudessem dar pistas quanto à sua integração no contexto urbano. A planta da cidade de Lisboa de 1650, da autoria de João Nunes Tinoco, e a maquete representativa da morfologia urbana de Lisboa anterior ao Terramoto de 1755, realizada por Gustavo Matos Sequeira entre 1955 e 1958, constituiram elementos úteis para perceber a localização do referido Pátio nas épocas pretendidas 71
Assim, a partir de um primeiro ensaio da planimetria das referidas fases do Pátio pelo arquitecto e cenógrafo Juan Ruesga Navarro, com base no conhecimento de outros exemplos da mesma tipologia, foi possível testar uma reconstituição a três dimensões que, necessariamente, trouxe uma revisão dessa primeira hipótese face à análise da morfologia urbana onde se inseria e às descrições existentes. Neste sentido, esta investigação será, de entre as que analisámos, um caso único e de particular interesse, por expressar inteiramente os princípios cripto-históricos que aqui apresentámos, englobando diferentes vertentes das descritas por Serrão. Se na sua base está um estudo reconstitutivo e sua inserção numa tipologia oferecendo a base para uma pesquisa dedutiva, o desconhecimento generalizado deste caso específico, pelas escassos fragmentos existentes, parece inseri-lo de certa forma na vertente cripto-analítica.
Nos anos mais recentes, o trabalho realizado pelo investigador Timothy De Paepe torna-se particularmente pertinente, explicitando as condições e as vantagens dos resultados obtidos pelas reconstituições virtuais tridimensionais, num contexto de investigação historiográfica mais amplo. No seu caso, essas reconstituições serviram como um meio a partir do qual foi possível entender melhor a contextualização social, política e económica na época que determinou a evolução das regras das organizações que
71 CET Centro de Estudos de Teatro, 2013
72 De Paepe, 2010: 28
geriam os teatros em Antuérpia (Bélgica) nos séculos XVII e XVIII, e sob as quais os teatros eram pensados 72

Fig. 7 Restituição tridimensional do Theater van het Tapissierspand (Antuérpia, Bélgica, 1711-1746) como terá sido em 1743 (De Paepe, 2010: 33)
73 op. cit.: 29
74 op. cit.: 32
O facto, por exemplo, de muitos desses teatros terem tido um menor período de edificação que o expectável, foi o que levou De Paepe a utilizar as ferramentas de modelação virtual num âmbito cripto-histórico, podendo assim ter uma visualização tridimensional dos palcos desse período e, consequentemente, da forma como as peças teatrais tiravam proveito dos espaços para os quais eram especificamente encenadas 73 Para além disso, uma outra vantagem que a utilização dessas ferramentas trouxe foi o facto de permitir uma constante actualização dos resultados obtidos conforme o surgimento de novas informações sobre as obras em estudo, ainda que com um grau de conjectura e interpretação inerentemente associado 74
Mais recentemente, De Paepe, em colaboração com outros autores, tem apresentado uma hipótese de investigação com repercussões interessantes pela forma como se pode expandir a integração das ferramentas digitais na análise iconográfica de fontes históricas. Como demonstrado, a reconstituição tridimensional envolve sempre um nível de conjectura, face à falta de informação iconograficamente registada, sejam planos, desenhos, gravuras, entre outros. No entanto, muitos casos de obras artísticas e/ou arquitectónicas contém elementos textuais de descrição que muitas vezes ou não são considerados, ou são interpretados apenas parcialmente, sem haver uma contextualização no conjunto da obra, como é o caso do armário Panpoëticon Batavûm 75
75 van Deinsen & De Paepe, 2017: 49
Apesar de ser uma peça de mobiliário, o que os autores demonstram é precisamente a falta de um olhar global sobre o caso de estudo em questão, o que leva a enormes incongruências entre os diferentes meios de informação, sejam eles iconográficos ou textuais. Neste contexto, o que a utilização dos meios informáticos (enquanto forma de albergar toda essa informação num mesmo modelo) pode vir a ajudar, é na possibilidade de testar as interpretações feitas, reinterpretando-as numa base mais globalizante, pois:

(…) a computer reconstruction demands specific decisions and forces one to deal with the contradictions. In search of an understanding of the cultural importance (…), one is confronted with very diverse primary sources, and, above all, with inconsistent and even unrealistic interpretations of later researchers. A computer model can help to reconcile the sources and to determine which interpretations are plausible 76
Isto torna-se óbvio na tentativa de reconstituir visualmente o que antes poderia ser apenas descrito por palavras 77, já que é necessário conciliar e avaliar a correspondência entre diferentes fragmentos de informação que, fora de contexto, poderiam aparecer como irredutíveis. Consequentemente, a determinação de uma aproximação à obra como esta teria sido, permitirá também um modelo para a avaliação das opções na base da sua concepção.
Este estudo de caso mostrou-se, assim, como uma aproximação ao tipo de ferramenta interpretativa que queríamos desenvolver no âmbito da arquitectura, perante um olhar por vezes estanque sobre obras de carácter histórico.
No âmbito de um projecto do Centro de História da Arte e Investigação Artística (CHAIA) da Universidade de Évora, foi levado a cabo um vasto empreendimento com vista a “(…) evocar (…) com a ajuda das novas tecnologias da computação gráfica (…)” 78 a realidade urbana de Lisboa anterior ao terramoto, para lá da sua abstracta percepção através da pesquisa bibliográfica e iconográfica 79. A interactividade patente nesta reconstituição tridimensional, realizada por Silvana Moreira através da plataforma Second Life® sob a orientação de Alexandra Gago da Câmara, permite um contínuo teste em tempo real de diversas conjecturas, numa experiência interactiva mais próxima do utilizador, em detrimento de ilustrações estáticas ou vídeos, ilustrativos de um ponto de vista particular 80. Na idealização deste traçado urbano e edifícios entretanto inexistentes, foi dada especial atenção ao da Ópera do Tejo, numa interpretação mais evocativa da ambiência que representativa daquilo que terá efectivamente existido 81
76 ibidem
77 van Deinsen & De Paepe, 2017: 54
78 Câmara, 2006: 208
79 Lisbon Pre 1755 Earthquake, 2010a
80 Lisbon Pre 1755 Earthquake, 2010b
81 Câmara, 2006: 209
82 Gallasch-Hall, 2006: 235
Foi neste seguimento que Aline Gallasch-Hall de Beuvink, em colaboração com Francisco Brandão (2006), realizou uma semelhante evocação do espaço interior da Ópera do Tejo, baseada nas iconografias originalmente descobertas por Figueiredo (nomeadamente uma planta térrea e corte longitudinal). A plausibilidade desta restituição tridimensional foi desde logo questionada pelos próprios autores 82, que apontam a discrepância entre as dimensões das diferentes fontes bibliográficas sobre as quais foram anteriormente realizados estudos.
83 ibidem
84 ibidem
85 ibidem
No entanto, “(…) serviu [esta evocação] para tentar compreender a orgânica do espaço” 83, assim como para imaginar o que poderia ter sido a ambiência da Ópera do Tejo, mais do que procurar uma reconstituição da obra na sua forma final. Nesse sentido, poder-se-á apontar o perigo da representação realista escolhida pelos autores, pelas razões apontadas anteriormente, por Masuch et al (1999), já que passará ao público científico uma imagem finalizada de uma investigação que à partida assume não o ser 84. Apesar disso, será na forma como preencheram as lacunas respeitantes à decoração do interior do teatro nas fontes utilizadas através de ilações a partir de outras iconografias –que apresentavam elementos estilísticos “(…) dentro do género da época (…)” 85–, que reconhecemos o realce na vertente cripto-histórica dedutiva.
86 Gallasch-Hall, 2012: 99
87 op. cit.: 102-103
Mais tarde, a mesma investigadora contribuiria para a hipótese de existirem ainda hoje em dia vestígios arqueológicos do teatro, sobre os quais o actual edifício do Arsenal da Marinha teria sido construído. Partiu de uma afirmação já de anteriores autores que, aliada à clara correspondência da delimitação da zona do teatro na planta de levantamento da cidade de 1759 para a sua reconstrução 86, levou a autora a realizar um reconhecimento empírico do existente, que permitiu a compreensão de incongruências arquitectónicas no novo edifício, assim como correspondências específicas no interior com a referida planta 87
Na sequência destes primeiros trabalhos, surgiu aquele que interpretamos de maior relevância e coerência, não apenas no que toca ao estudo específico da Ópera do Tejo, mas inclusiva e especialmente na sua contribuição para a análise e interpretação metodológica do caso referido e, posteriormente, para a criação de uma metodologia transversal a várias disciplinas, assente

Fig. 8 Abordagem metodológica para a reconstituição de obras arquitectónicas perdidas no tempo e na memória (Januário, Kong, & Neto, 2015: 681)
88 veja-se Fig. 8 [p. 48]
89 Januário 2008, Vol.I: xxxvii
em procedimentos reconstitutivos específicos que, em conjunto, auxiliam a obtenção e validação de reconstituições cripto-históricas de obras arquitectónicas desaparecidas 88
Não se tendo centrado somente no edifício em causa, o trabalho de Pedro Januário (2008) focou-se primordialmente em todo o contexto (político, espácio-temporal, social, cultural, económico, tecnológico, conceptual e urbano) da obra arquitectónica. Desta forma, o objectivo foi uma percepção de todas as variantes que terão afectado a concepção e construção do teatro, para a posterior revelação de pistas que apoiassem a reconstituição da Ópera do Tejo a que o autor se propunha como resultado final.
Durante o desenvolvimento da sua investigação, Januário acabou por conferir particular enfoque ao estudo do percurso e âmbito pessoal e profissional do seu autor, Giovanni Carlo Sicinio Galli Bibiena, permitindo a compreensão das influências e referências que o arquitecto da obra foi retendo ao longo do seu percurso e que terão influenciado as suas escolhas projectuais 89 , especialmente aquando da sua contratação por D. José I e concepção dos teatros que iria realizar para o monarca, de entre os quais a Ópera do Tejo. Isto possibilitou igualmente relacionar as obras entre si, numa investigação cripto-artística verdadeiramente integrada da obra particular deste arquitecto, para uma visão globalizante da sua obra. Aliado a esse entendimento, terão sido as análises realizadas o elemento mais relevante para o levantamento de outras hipóteses que ajudassem a um estudo reconstitutivo da obra, por não tomarem quaisquer ilações anteriores por certas e antes buscarem a utilização das possibilidades das ferramentas computacionais para uma visão integrada e crítica sobre a obra arquitectónica.
90 op. cit.: 667
Após o levantamento e análise preliminar de toda a bibliografia conhecida sobre o teatro, fosse a certidão de medições, as diferentes descrições, a ilustração das ruínas do teatro por Le Bas após o terramoto ou as iconografias descobertas em 1933 por José de Figueiredo, o investigador tomou os anteriores estudos realizados sobre o caso em estudo 90, de forma a averiguar a veracidade das hipóteses levantadas e contribuir para a sua confirmação ou debate. Aproveitando desde logo as dúvidas levantadas por Augusto Vieira da Silva (1869-1951) sobre a correspondência das iconografias existentes do teatro
com o seu estado finalizado 91, o autor realizou um conjunto de análises aprofundadas, através da sua reconstituição com recurso a CAD e posterior representação tridimensional. Além de confirmar as suspeitas de Vieira da Silva, o autor acrescentou compreensão aos aspectos programáticos e estruturais através de um suporte visual manipulável além das duas dimensões que, sempre em conjugação com as restantes informações cadastrais e materiais, permitiu assumir certas hipóteses construtivas mais plausíveis, como seja o exemplo das escadarias, coberturas ou fundações 92
Daqui, achamos desde já relevante realçar a coerência proporcional (que mais tarde Guidi e Russo realçaram 93) mantida por Januário entre as suas diferentes análises, tomando como padrão metrológico a referência gráfica da escala dos desenhos (“palmi romano [di campidoglio]”) 94, por forma a manter a lógica geométrica e construtiva inerente, assim como um raciocínio de análise mais aproximado do que teria sido a concepção originária do projecto pelo arquitecto. Esse raciocínio também terá permitido a análise mais concreta entre diferentes elementos, tendo possibilitado a confrontação com as análises (geométrica, espacial, compositiva e estrutural) anteriormente realizadas à gravura das ruínas –às quais Januário concedeu serem a representação mais fiel da Ópera, dado o rigor patente na representação 95
Tendo em conta as dúvidas levantadas e/ou confirmadas, e tendo em conta a análise integrada de toda a obra do arquitecto Giovanni Carlo Sicinio, o autor levantou posteriormente a hipótese da existência de fontes iconográficas que se pudessem aproximar mais do projecto final. É assim, numa sobreposição dos desenhos originalmente imputados por anteriores autores ao Teatro Real de Salvaterra de Magos (1753) do mesmo arquitecto com a planta de levantamento da cidade de Lisboa 96, que o autor produz uma sobreposição quase perfeita. Consequentemente, foi realizada a representação em CAD das iconografias, a partir das quais o autor pôde levantar uma hipótese de restituição preliminar dos planos que agora eram atribuídos ao teatro em estudo, sem deixar de parte a incompletude do mesmos, quando e onde a informação se encontrava em falta 97
91 op. cit.: 670
92 op. cit.: 677-697
93 ver nota 67 [p. 42]
94 Januário 2008, Vol.I: 672
95 op. cit.: 601
96 op. cit.: 706
97 op. cit.: 708-709
98 Antunes, 2015: 104-105; Januário & Antunes, 2015: 241-242; Antunes & Januário, 2018: 84
Neste contexto de trabalho, também não poderemos descurar a investigação de mestrado de Eduardo Antunes, em 2015, que, no seguimento directo da investigação de Januário, reforçou o contributo da abordagem criptohistórica dedutiva para uma restituição mais aproximada da realidade do caso de estudo da Ópera do Tejo, nas semelhanças tipológicas e estilísticas com outros casos de estudo. Tomando a hipótese levantada por Januário, e face à falta considerável de informação nos planos considerados pelo anterior autor, Antunes realizou uma síntese e avaliação dos estudos anteriores e, subsequentemente, de vários documentos que, independentemente da sua relação directa com o caso em estudo, pudessem oferecer pistas para o preenchimento das reconhecidas lacunas dos planos que Januário considerou e restituiu 98
99 Januário, 2008, Vol.I: 220, 538
100 Antunes, 2015: 110
101 ver nota 93 [p. 50]
Acreditando-se que o arquitecto da Ópera do Tejo ter-se-ia feito acompanhar de um conjunto de desenhos e gravuras aquando da sua vinda para Portugal, existia a hipótese deste poder ter assimilado a influência de outras obras dentro do mesmo tipo arquitectónico de teatro à italiana bibienesco, particularmente no âmbito familiar do arquitecto. Surgiram assim correspondências –já anteriormente referidas por Januário 99– com o Teatro de Nancy, projectado por Francesco Bibiena, pai de Giovanni Carlo (França, 1704). Estas semelhanças foram possíveis de verificar através de uma primeira sobreposição sem escala dos cortes longitudinais de ambos os teatros, na qual o autor percebeu a correspondência directa entre a estrutura da sala de ambos os teatros em termos proporcionais, com igual número e disposição dos elementos estruturantes 100. Para além disso, outros aspectos estilísticos e relacionados com a organização programática dos teatros revelavam-se semelhantes (ainda que não sobreponíveis), levando o autor a promover um estudo comparativo mais particular de aspectos físicos e construtivos das iconografias de ambos os edifícios, tornado possível pela sua representação bi e tridimensional, através do software SketchUp™ de modelação 3D integrado com as ferramentas de CAD, e tendo sempre em conta a mesma coerência proporcional utilizada por Januário 101
Para ser estabelecida uma relação entre os desenhos relativos ao Teatro de Nancy e à Ópera do Tejo, foi necessário proceder a uma análise metrológica,
de modo a determinar a correspondência entre as escalas em que os mesmos foram projectados, utilizando-se o sistema métrico para a sua transposição e, assim, estabelecer um paralelismo com a nossa realidade102 Foi possível a partir daí verificar-se uma sobreposição exacta de ambos os arcos do proscénio, assim como um comprimento quase igual para ambas as salas dos teatros, confirmando e reforçando a hipótese relativa à possível influência que o arquitecto sofreu de outras obras dentro da mesma tipologia arquitectónica para a concepção da sua própria arquitectura.
Foi este o itinerário seguido por Antunes para estabelecer uma correspondência metrológica, morfológica, compositiva e programática com outro caso de estudo, traduzindo-se num paradigma de concepção arquitectónica existente em ambas as obras e realçando a importância da abordagem cripto-histórica dedutiva para completar quaisquer lacunas existentes nas informações relativas à obra, indo de encontro à categorização 103 que já Masuch havia feito no início do século.
102 Januário & Antunes, 2015: 242
Antunes & Januário, 2018: 86
103 ver nota 56 [p. 39]
Fig. 9 Comparação entre a a restituição tridimensional da Ópera do Tejo e documento de distribuição dos lugares do teatro (Antunes, 2015)

Tomando de antemão o levantamento e análise comparativa das investigações, que no processo de avaliação dos seus métodos foram à partida indiciando uma série de critérios comuns entre si – fosse na procura de um entendimento (cripto-)histórico do objecto, fosse na variante reconstitutiva através de ferramentas digitais de representação e modelação–, foi-nos possível sintetizá-los num modelo de ideação sinóptica para a representação (não física) de obras de arquitectura desaparecidas. Esse modelo é representativo da concepção e materialização das ideias subjacentes à (re)interpretação feita do nosso estudo de caso, para a sua posterior reconstituição.
Numa primeira fase, é realizada a interpretação iconológica do estudo de caso. Necessariamente, essa passa pelo levantamento das diversas fontes de informação da obra arquitectónica em estudo (sejam eles fontes bibliográficas, elementos iconográficos ou vestígios arqueológicos). Através de posterior análise filológica –entenda-se aqui, a análise feita através do estudo e comparação com as fontes escritas e orais– dos registos visuais sobre a obra, é possível determinar a contextualização histórico-cultural da mesma e, assim, identificar a concepção arquitectónica que lhe está subjacente.
No levantamento desses registos focamos a relevância da utilização de ferramentas de desenho assistido por computador para garantir uma maior objectividade na sua representação e avaliação, e assegurar uma necessária integração e mediação entre diferentes fontes de informação sobre um mesmo tecto metodológico. É imprescindível, assim, no entendimento iconológico do que constitui um conjunto de preceitos comuns à época em questão, definir um sistema proporcional que aproxime o investigador das lógicas originais de concepção.
Asegunda fase passa pela construção do modelo diacrónico evolutivo da obra. Esta abordagem pressupõe desde logo a inevitabilidade de uma
compreensão integrada do objecto, ao longo das suas diversas épocas de existência. Mas mais do que a contextualização individualizada em cada época, o que este modelo deve presumir é o entendimento das causas e modos de evolução entre épocas e, assim, das influências que tais factos tiveram na consequente modificação da representatividade morfológica e estilística da obra arquitectónica em cada período. Para esse efeito, após o levantamento e representação das fontes iconográficas existentes, é possível passar à realização de um conjunto de análises que permitam descodificar os diversos aspectos intrínsecos à arquitectura do caso em apreço.
Essas análises não se devem somente centrar no edificado em estudo, necessitando de uma contextualização morfológica, já que poderá permitir o entendimento de certas particularidades definidas ou influenciadas pela sua inserção no respectivo desenho urbano.
Tendo em consideração o seu contributo particular, a reconstituição tridimensional é o passo central em todo este processo, no qual todos os outros processos confluirão e a partir do qual serão retiradas posteriores hipóteses sobre a verdadeira ideação da obra desaparecida. Este procedimento requer um enorme dinamismo entre os diferentes processos representativos mas igualmente investigativos, necessitando de uma contínua renovação dos dados inseridos, conforme novas informações ou as análises que surjam, com uma constante interacção entre diferentes meios digitais. Assim, cada restituição deve também sofrer o seu próprio conjunto de análises, segundo os aspectos que se verificarem indispensáveis para o seu entendimento, o que pode significar um retorno a uma anterior hipótese, conforme quaisquer contradições ou falhas que se detectem em cada modelo proposto.
É neste seguimento que se insere aquilo a que chamámos interpretação comparativa, a qual pressupõe a possibilidade de induzir e deduzir factos referentes ao período de construção da obra arquitectónica estudada através de outras obras que com essa partilhem referências ou semelhanças estilísticas e/ou tipológicas, para a colmatação das lacunas existentes na informação recolhida do caso cripto-histórico.
Na falta de uma construção padronizada, será na procura das edificações realizadas pela mesma e pressuposta equipa de atores artefactuais,
fossem mestre-pedreiros, arquitectos ou orrnamentistas, que poderemos reconhecer particularidades partilhadas entre obras de diferentes âmbitos tipológicos, territoriais, de forma geral, arquitectónicos. Isto porque existiu um conhecimento inerente a essa equipa transportado e partilhado entre diferentes projectos e autores, em épocas históricas em que os meios e modelos de concepção arquitectónica não eram ainda largamente disseminados. Mais, independentemente do período histórico em causa, o contexto temporal e espacial específico em que estas obras se integram trazem sempre influências locais particulares, seja numa aplicação dos conhecimentos locais à obra, seja devido à adaptação de um determinado modelo externo a uma dada cultura.
aplicação da abordagem cripto-histórica dedutiva
Ao discorrer sobre os métodos utilizados nas diferentes investigações de semelhante âmbito disciplinar e investigativo possível, encontrámos nas suas abordagens de base a forma mais sintetizada de descrever a metodologia cripto-histórica e sua aplicação ao nível da Arquitectura. Se Serrão diferenciou entre quatro abordagens complementares aquando da sua definição do nosso objecto de estudo (quando aplicado à História da Arte), uma posterior adaptação dessas abordagens aos estudos anteriormente descritos permitiram-nos entender já a descrita Abordagem Dedutiva –relembrando, o estudo das obras desaparecidas como parte integrada de um dado percurso (autoral, tipológico, estilístico)– enquanto método ou ideia patente em quase todos eles, para o preenchimento das lacunas nas fontes de informação existentes.
Para que este exercício seja possível, é sempre necessário analisar os elementos da obra devidamente contextualizados. Assim, a análise de um qualquer vestígio, seja construído ou iconográfico, não deve ser feita à parte das restantes, antes incorporando os diferentes elementos em conjunto e não isoladamente, de modo a obter uma verdadeira ideia de reconstituição de uma obra, à partida, despojada da sua contextualização original, literal e/ou simbolicamente.
Realçamos desta forma as noções de émica –enquanto abordagem científica antropológica realizada a partir da perspectiva de um sujeito pertencente à cultura em questão; e de ética –enquanto abordagem realizada a partir da perspectiva do observador, externo à cultura em estudo. Necessariamente, pretende-se uma aproximação à abordagem émica, para um entendimento interno, pelos próprios termos culturais, dos significados subjacentes à obra arquitectónica em estudo que não serão partilhados por outras culturas. No entanto, para que não se caia no erro de nos envolvermos demasiado no objecto de estudo sem daí extrairmos conclusões que nos permitam avançar no trabalho reconstitutivo, é necessária uma sua conjugação com a abordagem ética, que nos permitirá ter uma visão objectiva e retrospectiva sobre a leitura émica previamente realizada.
Este dinamismo na própria abordagem científica de análise permite posteriormente examinar os factos levantados por forma a realizar-se uma síntese dos mesmos de forma mais objectiva. A resposta ao exercício proposto nunca se fará unilateralmente, visto o objecto de estudo e seu contexto o não serem.
Espaço Forma
Fig. 10 Trinómio Espaço > Forma > Contexto (esquema resultante de conversas com Januário)
Tempo — Contexto —
Lugar
OEspaço e a Forma existem num dado Contexto (Lugar e/ou Tempo). O Tempo, o Lugar e a Forma definem, entre si, a base daquilo que confere sentido ao Espaço. Assim, qualquer bem patrimonial (neste caso, especificamente arquitectónico) é testemunho representativo de um dado Contexto que se encontra encriptado. Por isso mesmo, conforme esse mesmo Contexto se modifica e evolui, também o sentido do Espaço se altera, ainda que se perpetue a sua Forma correspondente.
Nesse sentido, acreditando e transportando constantemente no nosso raciocínio que a percepção do património arquitectónico não deve ser feito sem o entendimento do seu contexto cultural, toda e qualquer obra patrimonial deverá ser estudada no seu âmbito contextual e não à parte deste. Sendo assim, fará ainda mais sentido que este estudo dedutivo seja um passo sempre necessário no âmbito da Cripto-História da Arquitectura.
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Aaplicação da abordagem metodológica subjacente à disciplina da cripto-história de uma maneira mais abrangente, levou-nos a considerar cuidadosamente a escolha de um estudo de caso ao qual a pudéssemos aplicar. Aqui, após a explicitação dos critérios de escolha do caso em estudo, procurámos realizar uma contextualização histórico-cultural que, mais que extensiva e completa, procura informar as circunstâncias mais relevantes de edificação do território, com base em mudanças de causalidade, tentando compor uma breve cronologia compreensiva da evolução do território ibérico (mais generalizadamente) e de Cacela Velha (em particular).
345 ver subcapítulo Para uma Cripto-História da Arquitectura [p. 28]
Na procura de um estudo de caso que se enquadrasse na metodologia cripto-histórica que viemos a construir até então, surgiu a necessidade de seleccionarmos uma obra sobre a qual existisse prévia investigação. O intuito era o de não nos dispersarmos na eventual pesquisa de informação documental e iconográfica sobre a obra seleccionada, antes sustentando a nossa perspectiva investigativa numa base já estabelecida, com maior ou menor grau de desenvolvimento, sem limitar o potencial contributo que pretendíamos/pretendemos oferecer com a nossa perspectiva metodológica.
À partida, procurámos o enquadramento no âmbito das abordagens definidas anteriormente 104, no que poderão ser indícios para a definição de uma Cripto-História no âmbito da Arquitectura, relembrando:
1. as obras projectadas mas nunca executadas;
2. as obras imaginadas como concretizáveis, conceptualizadas em propostas com diversos graus de idealismo;
3. as obras conceptualizadas no contexto de exercícios académicos, sobretudo as enquadradas entre os finais do século XVIII e inícios do XIX;
4. as obras modificadas, com fases desaparecidas e/ou transformadas ao longo do seu tempo de existência.
Tendo em conta também algumas das questões abordadas no subcapítulo (Re)interpretação histórico-cultural, respeitante à construção da nossa abordagem metodológica, e face à necessidade de clarificação dos critérios de selecção, observámos com particular relevância a questão do diacronismo –enquanto leitura das influências entre as diferentes épocas de edificação de uma obra, para um entendimento integrado da totalidade da sua identidade segundo a noção de património abordada na problemática.
Tendo também em vista a perspectiva de valoração do património arquitectónico, e a eventual contribuição desta tese para uma renovação da interpretação e
manutenção da memória subjacente a esse património, classificado ou não, integrámos originalmente uma candidatura a financiamento no âmbito do concurso “Desenvolvimento local através da Salvaguarda e Revitalização do Património Cultural Costeiro”, do Programa de Cultura dos EEA Grants105, que tinha em vista a salvaguarda e revitalização do património cultural costeiro classificado ou em vias de classificação, através do desenvolvimento sustentável das comunidades locais e do reforço da sua memória e identidade, com vista a um entendimento da sua influência na cultura local.
Esta parceria surgiu no seguimento do trabalho desenvolvido no projecto Arquitecturas do Mar –desenvolvido pelo Sustenta – Laboratório de Projecto Sustentável, grupo de investigação do Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design (CIAUD) da FA-ULisboa–, que pretendeu tornar compreensível as alterações a que o território do litoral português foi sujeito (especificamente, na Orla Marítima da Arrábida e na Costa do Sotavento Algarvio), para apresentar um modelo de análise e diagnóstico das áreas costeiras como base para eventuais propostas de intervenção integrada
Surgiu desta forma a hipótese de nos cruzarmos com o projecto em curso “Muçulmanos e Cristãos em Cacela Medieval: território e identidades em mudança” por parte do Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património (CEAACP) em parceria com o Município de Vila Real de Santo António e a Direcção Regional de Cultura do Algarve (DRC Algarve).
Este projecto surge no seguimento dos trabalhos de escavação arqueológica desenvolvidas em Cacela Velha durante os anos de 1997 e 2007, estes últimos coordenados pela Professora Cristina Teté Garcia, umas das coordenadoras da investigação, com o objectivo principal de consolidar a informação histórico-arqueológica adquirida previamente e de obter novos dados que substanciem o conhecimento sobre o povoamento de Cacela e suas diversas povoações na transição entre a ocupação islâmica e a cristã.
Abordando três distintos mas interdependentes planos de desenvolvimento, o projecto foca-se na concretização de prospecções e escavações arqueológicas, assim como na realização de análises multidisciplinares dos dados e materiais arqueológicos adquiridos. A vantagem em integrar esta investigação evidenciava-se na vontade de integrar uma verdadeira
105 O EEA Grants é um Mecanismo Financeiro plurianual estabelecido na sequência do Acordo do Espaço Económico Europeu (EEE) assinado na cidade do Porto em 1992, em que a Islândia, o Liechtenstein e a Noruega se tornaram parceiros no mercado interno com os Estados-Membros da União Europeia (UE). O objectivo deste mecanismo é o apoio financeiro dos Estados membros da UE cujo PIB se desvie da média europeia, como forma de promover um contínuo e equilibrado reforço das relações económicas e comerciais (mais informações em www. eeagrants.gov.pt)
106 Garcia, 2015a: 198; Garcia, 2015b: 210-211
transdisciplinaridade, onde a formação de estudantes e sua integração nos trabalhos ocupava lugar essencial no seu desenvolvimento, visando uma verdadeira valorização, conservação e reabilitação do Património Cultural de Cacela Velha 106
Aescolha de um caso de estudo preliminarmente integrado no último dos enquadramentos cripto-históricos anteriormente referidos ter-se-á revelado do maior interesse no nosso actual âmbito investigativo, possibilitando o enfoque numa obra que mantém, ao presente, vestígios construídos, mas que não revelam o carácter original da obra. Desta forma, conseguimos focalizar o nosso estudo num caso único sem, por isso, nos cingirmos a um único âmbito histórico-cultural e possibilitando uma base (teórico-metodológica) historiográfica mais vasta, já que para tal exercício reconstitutivo seria sempre necessária a restituição diacrónica da obra em estudo, ao longo dos diferentes âmbitos espácio-temporais em que a obra se enquadra.
Para isso, foi necessário compreender a contextualização da obra em cada uma das respectivas épocas em que deixou presença física, não apenas para perceber a origem da sua edificação e os factores contributivos para a posterior modificação e/ou destruição dos seus elementos constituintes, mas igualmente o conteúdo e a forma como cada época foi subsequentemente relevante para a nossa apreciação e consequente valoração da obra como um todo coerente, para lá da sua imagem actual que sabemos à partida não revelar inteiramente o seu carácter pretérito.
Assim, direccionámo-nos para a realização de um estudo cripto-histórico focado no núcleo urbano de Cacela Velha, localizado no município de Vila Real de Santo António (no Algarve, em Portugal) e incluído no Parque Natural da Ria Formosa e na Zona de Proteção Especial da Ria Formosa (Rede Natura 2000). Incluindo elementos arquitectónicos classificados como Sítio de Interesse Comunitário, a primordial estrutura na sua génese surge enquanto fortificação muçulmana, anterior à Reconquista Cristã da Península Ibérica, período após o qual o núcleo tomou nova forma, tendo sido reconstruída após o terramoto de Lisboa de 1755 (entre 1770 e 1794), chegando à sua actual forma, consolidada ao longo do séc XX.


Fig. 13 Vista sobre as casas em frente do cemitério novo, a Poente do núcleo de Cacela (fotografia do autor)


Fig. 14 Vistas sobre as casas a Norte da praça de entrada na fortaleza de Cacela Velha (fotografias do autor)




Fig. 15 Vista exterior Sul sobre os baluartes da fortaleza de Cacela Velha (fotografia do autor)
Fig. 16 Vistas internas da fortaleza de Cacela, sobre o baluarte Poente; sobre o corredor de entrada [em baixo, à esquerda]; e as escadas de acesso à plataforma superior [baixo, à direita] (fotografias do autor)






Fig. 17 Vista exterior da porta de entrada [em cima, à esquerda]; e vistas interiores dos altares a Norte [cima, à direita]; e da nave central da Igreja de Cacela (fotografias do autor)
Fig. 18 Vista sobre a torre sineira da igreja de Cacela Velha, a partir da plataforma superior da fortaleza (fotografia do autor)

Começamos desta forma uma contextualização de Cacela Velha pela exposição breve da sua breve situação espácio-temporal, para de forma imediata ilustrar os dados que informaram a nossa própria interpretação. Pesará sempre a possibilidade de atribuição de menor relevância de um ou outro período de existência física no caso em estudo, face à escassez de evidências quanto a essa presença, ainda que o trabalho a que nos propusemos e que aqui expomos passasse, desde logo, pela tentativa (nunca certa) de contrariar esse facto pela relação intra e interdisciplinar. Saiba-se, o conjunto que perfaz o actual núcleo urbano de Cacela Velha tem o seu assentamento geográfico na zona do Sotavento Algarvio, zona oriental do território do Algarve. O recinto parcialmente muralhado situa-se no topo de uma arriba
O seu perímetro urbano quase circular, delimitando um conjunto edificado pouco denso, organizado em redor da praça, constitui um espaço quase centralizado onde se conjugam os vários equipamentos urbanos tradicionais: a igreja, a casa da Câmara, a casa da Misericórdia e a fortaleza. Por isso, revela naturalmente uma adptação do casario e dos eixos viários à topografia. Trata-se de um conjunto composto por casas térreas com açoteia ou telhado de duas águas, onde se destaca a chaminé de base quadrangular e secção piramidal. Apresentam planta rectangular, com pequenos pátios fronteiros às casas, com árvores de fruto e floreiras. Foi sede concelhia medieval. Apesar de se nos apresentar hoje nas suas reduzidas dimensões, contando escassos quarteirões, onde a malha urbana não chega a ganhar consistência, apesar da centralidade da praça. Sublinha-o o facto de inexistir toponímia e números de polícia.
Atente-se que é visível ou, melhor, presumível num primeiro relance, e desde logo, a potencial continuidade da ocupação do lugar desde a Época Pré-clássica, daqui resultando uma notável conjugação entre o valor arquitectónico, urbano e paisagístico, adquirindo o espaço e território envolventes papel fundamental na singularidade de Cacela Velha. Este conjunto, de grande valor histórico, conjuga harmoniosamente o património edificado e a sua localização privilegiada na área de protecção do Parque Natural da Ria Formosa. O cemitério antigo possui uma capela-altar com algum interesse e um ossário particularmente raro.

Sabe-se, assim, que Cacela Velha foi uma povoação portuária integrada no mundo costeiro da bacia de Cádis (situada no extremo sudoeste da Espanha e sul de Portugal, entre o estreito de Gibraltar e o cabo de São Vicente).
A sua origem remonta possivelmente ao período do Califado Omíada, séc. X, em posição no extremo ocidente do al-Andalus, denominação atribuída ao território ocupado pelo conjunto da Península Ibérica e parte da actual região sul da França –Septimânia– durante o séc. VIII.

Sobranceira à Ria Formosa, Cacela Velha implanta-se numa falésia do Miocénico, 26 metros acima do nível médio do mar. Toda a envolvente é caracterizada por vegetação de pequeno porte, com concentração de grandes manchas de piorno e de figueiras da Índia. A nordeste, a paisagem é estruturada pela ribeira de Cacela, que alberga ainda uma importante jazida fossílifera, cuja transição para a Ria Formosa é feita por abundantes áreas de piorno. A Norte, a paisagem é enquadrada por um espaço de grande amplitude associado a prado de sequeiro.
O castelo de Cacela situava-se, por conseguinte, no ponto de confluência entre o delta do Guadiana e o rio de Faro (actual Ria Formosa) na época medieval, e foi porto estratégico para a navegação de quem pretendia aceder à cidade de Faro pelo sotavento e para as embarcações que pretendiam subir o rio Guadiana. A fortificação sofreu alterações nos períodos subsequentes. No reinado dos almóadas, o interior da alcáçova recebeu obras, como a construção de uma área de armazenamento de cereais e alojamentos na zona inferior. Por então, Cacela expandiu-se em direcção ao porto, surgindo um bairro novo junto da foz da ribeira das Hortas
São conhecidos neste local vestígios arqueológicos que remontam ao Paleolítico Médio, e acredita-se que o primeiro povoamento no território ibérico assentou na época pré-romana, com ligação ao mar e às privilegiadas condições naturais da lagoa. Cónios, fenícios e cartagineses ter-se-ão instalado neste local, de forma a torná-lo num relevante entreposto comercial, na sua relação com o Mar Mediterrâneo.
Conhece-se, no território de Cacela, diversas estruturas pré-históricas, nomeadamente túmulos megalíticos –desvendados e estudados pelo arqueólogo Sebastião Estácio da Veiga (1828–1891) em 1886–, entre os quais o Túmulo Megalítico de Santa Rita assume particular relevância, pela sua proximidade com o sítio de Cacela Velha. Ter-se-à dado o caso de ter, inclusivamente, mantido a sua função enquanto espaço funerário para ocupações posteriores 107 107 Inácio et al, 2010: 82

Fig. 20 Vista sudeste do túmulo megalítico de Santa Rita após conclusão dos trabalhos arqueológicos de 2008 (Inácio et al, 2008: 42)
108 Alarcão, 1988: 13, 17
109 Alarcão, 1988: 31
110 Alarcão, 1988: 28
Apesar da existência de vestígios pré-históricos, a própria etimologia da palavra Cacela –anteriormente conhecida como Cacetala ou Castellu–associa este lugar como tendo sido fundado durante a ocupação romana.
A conquista romana do território que hoje corresponde à actual Península Ibérica iniciou-se no ano de 218 a.C., com um período mais intenso de guerra contra os Lusitanos entre 155 e 136 a.C. 108. Porém, a conquista romana deste território apenas foi concluída pelo imperador Augusto em cerca de 27 a.C., tendo procedido nesse momento à divisão do território ibérico (a partir daí conhecido como Hispânia) em três províncias, nomeadamente: a Baetica –que correspondia aproximadamente ao território da moderna Andaluzia, na Espanha, e qual foi atribuída ao senado–; a Lusitania –que abrangia o atual território português a sul do rio Douro, juntamente com a Estremadura espanhola e parte da província de Salamanca–; e a Tarraconensis (reservada para o próprio imperador) 109. A partir daí, Augusto instaurou uma reforma político-administrativa da zona mais ocidental da Península, procedendo à instituição e delimitação de civitates; e à urbanização das cidades capitais; para além de estabelecido o programa de rede viária e promoção do desenvolvimento económico da Lusitânia e de territórios meridionais 110
Oprocesso de romanização encontra-se amplamente estudado na Península Ibérica e, designadamente nas províncias da Lusitânia e da Bética, que são, para o caso, a que nos interessam. Destaca-se o conjunto de procedimentos administrativos e uma relação com o território que visou não apenas conquistar, mas também promover uma integração mais ou menos conflituosas e, certamente mais aceite nas marcas meridionais por deterem relações comerciais intensas com os povos da bacia do Mediterrâneo.
Com efeito, a faixa nascente da Ibéria foi objecto de uma romanização precoce, e este mesmo fenómeno iria estender-se aos territórios ocidentais, onde pontificava a Bética como unidade provincial forte, abrangendo, com fronteiras relativamente estáveis, o contexto territorial do que constitui hoje o Algarve em geral, e o seu Sotavento em especial, e onde se situam os mais importantes agregados urbanos, refundados ou mesmo fundados de raíz. É aqui que encontramos o nosso objecto de estudo.
Note-se a importância da exploração deste rincão peninsular no lado atualmente português, com paralelismo com o restante território bético, no que concerne à exploração de recursos naturais como fossem o pescado e seus derivados, a agricultura, particularmente hortícola, com o nascimento de proto-industrias e manufaturas locais associadas ao azeite e, ocasionalmente, ao vinho, e à exportação de "garum", articuladas, ao que se sabe, com a produção de cerâmica comum, também de índole localista na zona litorânea),
É também de apontar que a organização territorial romana fez sentir a sua maior influência no sul do actual território português, pela localização priveligiada desses núcleos urbanos 111. São os maiores exemplos de capitais de civitates nesse território, Ossonoba (correspondente actualmente a Faro) e Balsa (actualmente, onde se enquadra Torre de Aires, nos arredores de Tavira).
A existência em massa de pequenas povoações (populi), de reduzidas áreas geográficas, tornava impraticável a sua eventual transformação em civitates, também por ilustrarem uma, digamos, caótica organização social, e uma variedade de diferentes cultos, que dificultava a sua eventual harmonização112
Entre 145 e 147 d.C., a Mauritânia (província romana localizada no noroeste da África, no território onde se localiza actualmente Marrocos e as cidades espanholas de Ceuta e Melilla) sofreu ataques dos mauros, que se estenderam à Hispânia Baetica. Estes ataques poderão ter levado ao desenvolvimento portuário do Algarve, particularmente de Ossonoba (cidade que, mais tarde, se tornaria em Faro), tendo levado a inquietações sociais na Lusitânia após 171, e tendo os ataques apenas acalmado em cerca de 176/177 113
Entre o final do séc. III e o início do séc. IV, conta-se com um momento significativo em relação às cidades lusitanas, com a edificação de muralhas como resposta às invasões bárbaras de 260/270, facto significativo por essas muralhas terem tido influência na delineação e evolução das respectivas cidades, com um eventual adensamento do tecido urbano 114
Em Cacela Velha, os vestígios existentes da época romana indicam a existência provável de uma villa marítima. Aliás, de resto verifica-se a curiosa abundância de marcas de cerâmicas para construção no Algarve, onde não haveria justificação para instalação de empresas manufatureiras em maior número ou dimensão 115. Verifica-se também uma continuidade de ocupação de sítios romanos na transição para o período islâmico.
111 Rosa, Lopes & Ribeiro, 2015: 796
112 Alarcão, 1988: 53-54
113 op.cit.: 29
114 op.cit.: 75-76
115 op.cit.: 139
Fig. 21 [página seguinte] Mapa cronológico sinóptico desenvolvido pelo autor, representativo dos diversos conflitos que foram marcando a evolução da ocupação do território actualmente correspondente à Península Ibérica.

Divisão da Hispânia em províncias segundo Augusto no ano 27
235 Domínio Romano da Hispânia
Império Romano Crise do terceiro século
séc. I séc. II séc. III

Reino Visigótico em 586 depois das conquistas de Leovigildo
Império Romano Ocidental 476
Califado Omíada


Califado de Córdova cerca do ano 1000
do Al-Andaluz
Emirado de Córdova
Califado de Córdova
#3 712
Taifas #1 Período almorávida Califado Almóada 1492
Emirado Nacérida de Granada
Conflitos
ataques dos mauros à Mauritânia; estendem-se à Bética
260/270 invasões bárbaras
409 invasão da península por Suevos, Alanos e Vândalos
lutas dos Visigodos contra os reinos Suevo e Merovíngio; luta pela hegemonia interna
454 Suevos conquistam grande parte da Hispânia
Distribuição entre Suevos, Vândalos e Alanos entre 409 e 429

549-554 guerra civil na Hispânia
ataques dos piratas escandinavos
966 terceira invasão normanda

888 guerra civil
Ocupação da Península Ibérica em 1360 1189 primeira conquista cristã do Ocidente Algarvio
Batalha de Guadalete (711) início da invasão islâmica da Península
Califado Omíada cerca de 719, na sua maior extensão

intensificam-se lutas de cariz religioso
Ordem de Santiago toma posse de todas as cidades e castelos do Gharbe Al-Andaluz
1249
conquista de Faro; fim da islamização do Gharbe Al-Andaluz
Ocupação em 1210, durante o domínio almóada no sul

Guerra da Restauração
Fig. 22 Mapa da Hispânia, por Jean Claude Golvin, com a demarcação das principais civitates e respectivas ligações viárias.

Essa presença romana em Cacela Velha foi identificada em 1888 pelos arqueólogos Estácio da Veiga e José Leite de Vasconcelos (1858–1941).
Esta consistia num forno datado do séc. III d.C., utilizado para cozimento de materiais cerâmicos de construção, e igualmente cerâmica comum.
O forno (única estrutura do género conhecida no Sotavento Algarvio e ainda preservada aos dias de hoje) poderá ter feito parte de um pequeno aglomerado urbano, parte integrante de uma estrutura do tipo villa como referimos atrás, que se desenvolvia desde a actual povoação de Cacela estendendo-se à Quinta do Muro, localizada a poente da povoação, e onde se encontraram vestígios de cetárias, mosaicos, fustes de colunas, cerâmica de construção, e fragmentos de esculturas.
116 Viegas, 2006: 178
Assim, a par com o tipo de vestígios e a dimensão do sítio da Manta Rota –onde Estácio da Veiga dentificou fundações de edifícios grandes dessa época, e semelhantes vestígios de produção cerâmica 116– podemos assumir que a unidade agrícola de Cacela teria a sua actividade complementada por povoações próximas, com a exploração dos recursos marinhos e a transformação dos preparados de peixe. Ainda neste seguimento, referimos a presença nas proximidades da barragem romana de Santa Rita, a Nascente do povoado homónimo, a qual se poderá pressupor que servisse para abastecimento de água desta exploração agrícola.
C
erca do ano de 712/713 d.C. do calendário cristão (correspondente ao ano 93/94 AH do calendário islâmico), os muçulmanos invadem a parte ocidental da actual Península Ibérica, após a prévia conquista do reino visigótico. Houve uma facilidade e rapidez patentes na conquista da Península Ibérica pelos Muçulmanos, condições que se deveram desde logo à débil situação social e política à altura do Reino Visigótico, em consequência das lutas contra os reinos Suevo e Merovíngio, assim como a luta pela hegemonia interna. Para além disso, o facto da aristocracia do reino dos visigodos se encontrar em quase constante estado de rebelião, fez com que o poder da Nobreza e Igreja estivesse longe de satisfazer os grupos sociais mais desfavorecidos 117
A conquista faz-se, entre os rios Tejo e Mondego, sensivelmente através do estabelecimento de tratados, mantendo estas regiões a sua autonomia, sem um domínio árabe sobre a população. Certos vestígios arqueológicos demonstram mesmo uma continuidade comercial entre a ocupação visigótica e a islâmica, perpetuando a ideia de uma ocupação contínua e asssimiladora, mais que impositiva 118
O propósito primeiro dos Muçulmanos foi conquistar as cidades visigodas maiores, passando consequentemente os mais pequenos assentamentos
117 Catarino, 1998a: 63
118 Picard, 1998: 25-26
Fig. 23 Pintura por Mariano Barbasán Langueruela (1882), representando a Batalha de Guadalete, travada a 31 de Julho de 711, no sul da actual Espanha, a qual marcou o fim do Reino Visigótico e o início do domínio muçulmano do Al-Andalus.

119 Catarino, 1998a: 68-69; Picard, 1998: 27
120 Catarino, 1998b: 215;
Correia & Macias, 2019: 60-61
121 Correia, 1998: 194; Correia & Macias, 2019: 61
122 Correia & Macias, 2019: 39
123 Torres, 1998: 57-59

automaticamente ao seu controlo, onde os Judeus ou Cristãos que neles habitavam passaram a administrá-los, enquanto aliados. Também alguns senhores visigodos se convertem, sendo então "utilizados" pelo poder central para gerirem restantes regiões e respectivas cidades
A partir do ano 743 d.C., com o estabelecimento dos contingentes militares sírios, iniciam-se as jundes, primeiras divisões administrativas e militares do território, as quais eram constituídas por circunscrições simultaneamente militares e “feudais” 119
No início da ocupação muçulmana, deverão ter-se mantido os amuralhados do Baixo Império Romano do Ocidente, semelhantemente ao que aconteceu com outras civitates que foram ocupadas enquanto dioceses visigóticas. Durante o século VIII, aparte a actual cidade de Silves, o Garbe al-Andaluz deverá ter mantido o mesmo tipo de povoamento anterior à conquista islâmica, tendo a ocupação nas cidades maiores sido feita como sobreposição a sítios (pré)romanos, ainda que com modificações especialmente nas estruturas ligadas ao poder 120
Mesmo os locais fortificados dos finais do domínio romano ou de época visigótica continuaram a ser utilizados com poucas alterações de traçado, dado o seu papel decisivo na organização do território, sendo os inícios do período islâmico marcados pelos reaproveitamento dos materiais e sistemas defensivos existentes para a sua (re)construção 121. Assim, as edificações árabes poderão ter, em vários casos, efectuado sobre tardo-romanas; caso de Mérida, onde o castelo (qasaba) aproveitou material romano, fora algumas ampliações posteriores 122
A Ágora e o Fórum gerco-romanos terão mesmo sido integrados na delineação dos seus espaços urbanos. A Alcáçova era implantada sempre dentro do núcleo urbano, junto da muralha, para uma maior facilidade na sua defesa. Esta funcionava como um núcleo menor, dentro da urbe mais geral, sendo geralmente edificada no sítio elevado onde anteriormente a acrópole romana estaria. Já a medina seria o segundo pólo agregador na urbe islâmica, que partia geralmente de uma zona portuária nos casos litorais ou ribeirinhos, ou de uma portela terrestre, servindo de abrigo aos trabalhadores que atravessavam a muralha para cultivar terrenos dos arrabaldes 123
No período califal, as cidades dividiam-se em vários sectores; eram organizadas, em termos militares e urbanos, segundo a alcáçova/qasaba, um espaço muralhado, onde se organizava o poder central (a partir do palácio do governador), protegida por fortes muralhas torreadas, com portas defensivas que abriam para a zona urbana a "cerca" da medina 124
A ortogonalidade urbana, quando e se existia, estava relacionada com a presença de um poder (local) capaz de impôr esse modelo, sendo as cidades mais mercantilizadas organizadas de forma mais orgânica e funcional 125
Aquando da conquista do território ibérico, o Califado Omíada, composto por população árabe convertida recentemente, adoptou os modelos bizantinos de administração, mantendo uma certa tolerância religiosa. Dessa forma, posteriormente à conquista do território do al-Andaluz, seguiu-se um período de indulgência para com a população cristã residente, que aceitaram a ocupação muçulmana com pouca oposição. Tornaram-se, por conseguinte, uma espécie de arrendatários, com uma certa independência ou, em alguma instâncias, mesmo aderindo à cultura e religião islâmica. Isso fazia com que os muçulmanos compusessem sensivelmente menos de um quarto da população do Al-Andaluz durante o século IX. Aliás, a presença dos invasores muçulmanos no território conquistado (maioritariamente berberes) durante, pelo menos, a primeira metade do século VIII, dever-se-á ter restringido a algumas cidades importantes e guarnições militares, a partir das quais era exercido o poder sobre o restante território 126
No início do século IX dá-se uma ruptura entre a zona em volta da capital e as regiões periféricas. Agravando-se os problemas internos no território do AlAndaluz já que, a par dos recorrentes ataques cristãos, começam também os ataques por piratas escandinavos. A partir de 844, as invasões normandas levaram à reparação de antigas muralhas urbanas e à construção de novas fortalezas (incluindo ribates) que protegiam a costa e os grandes rios 127. A partir de 913, procedeu-se ao reforço das fortificações do Gharb al-Andalus, especialmente no ocidente peninsular, definindo grandes linhas de defesa do centro e sul ocidental contra as invasões cristãs oriundas do norte 128
Terá sido após a terceira invasão normanda em 966 que começaram a ser construídos portos defensivos ao longo da costa atlântica, denominados
124 Catarino, 1998a: 106; Correia & Macias, 2019: 62
125 Correia & Macias, 2019: 61-62
126 Catarino, 1998a: 85
127 Catarino, 1998b: 215
128 Correia, 1998: 194
129 Picard, 1998: 27, 29; Catarino, 1998a: 72
ribats ou arrábitas (de que o Convento da Arrábida será um dos mais claros exemplos). Para além destes edifícios fortificados, é também iniciada a construção de vários castelos, os husûn (hisn, no singular), assim como a fundação e reconstrução de diversas cidades 129
130 Batista, 1997: 69; Rei, 2003: 139
Neste contexto, a localização, a muitos títulos estratégica, do território de Cacela terá desempenhado um importantíssimo papel na posição comercial e defensiva da orla costeira do Al-Andaluz, especialmente considerando a necessidade de estruturas de defesa na costa algarvia para o controlo das actividades de construção naval, trocas comercias e operações militares (defensivas e ofensivas) aí realizadas; assim como para a defesa contra a pirataria, corso e escravatura. Até porque as características geográficas e orográficas da costa algarvia eram as condicionantes ideais para os ataques marítimos que ocorreram entre os séculos VIII e XVIII 130
131 Catarino, 1998a: 88
Algumas villae tardo-romanas do Alentejo e do Algarve continuaram a ser ocupadas pela população autóctone, conservando em uso, pelo menos, parte das estruturas habitacionais e da exploração dos terrenos. Para que se desse uma ocupação controlada dos territórios conquistados, procedeuse a partir dos séculos IX e X, à fundação de novas capitais regionais, com população árabe dominante, que se tornaram mais tarde em centros políticomilitares e administrativos, como foi o caso de Silves 131
132 Pereira, 2012: 1067
A islamização da antiga Lusitânia poderá ter sido mais esparsa e fragmentária do que se supõe, uma vez que foi sobretudo assente na dominação militar e económica, verificável pela actual quantidade de vocábulos e topónimos portugueses de origem árabe ligados à vida material e à arte da edificação militar 132
133 op. cit.: 1071
Nesse sentido, também a edificação das mesquitas no território português poderá ter consistido, em diversos casos, em edifícios de uma escala menor, proporcionalmente construídas à modesta dimensão do aglomerado urbano em que se inseririam. Assim sendo, para lá da islamização conturbada do território do Gharb Al-Andalus, o generalizado desaparecimento ou fácil reconversão destas estruturas arquitectónicas pode igualmente relacionarse com a fragilidade das mesmas, já que seriam construídas em muitos dos casos com recursos escassos e endógenos, segundo técnicas locais 133
Aeste ponto, começou-se a verificar um enfraquecimento do Emirado de Córdova (regime então em vigor no território andaluz), devido às rivalidades entre berberes e os visigodos convertidos, levando a conflitos locais e, consequentemente, ao surgimento dos principados autónomos que, eventualmente, formariam as denominadas taifas, numa vontade de reforçar a presença dos moçárabes no panorama político geral. Este movimento de revolta no final do século IX surtiu uma reacção e reforçou a islamização do Al-Andaluz, assim como a uma renovação económica no território 134
Assim, foi durante o século X que se estabeleceu mais profundamente o processo de islamização no Al-Andaluz, com um enriquecimento à escala local que permitiu a reconstrução de cidades e fortalezas durante esse período. Começam a surgir no Al-Andalus, durante o período califal, fortificações construídas em taipa, as quais eram normalmente rebocadas e pintadas nas juntas, para simular uma construção mais sólida, como por exemplo em Alcácer do Sal, Silves, Paderne e Salir 135
Em termos sociais, e apesar do estabelecimento de Árabes e Berberes, as cidades do Al-Andaluz continuaram a ser povoadas por Cristãos e recémconvertidos ao Islamismo, mantendo os habitantes cristãos a posse das suas propriedades. Não tendo a população cristã que vivia nos campos, durante este período, sido privada da sua liberdade religiosa nem dos bens que possuíam, essa autonomia estava, no entanto, dependente do pagamento de um tributo sobre as colheitas e do imposto de capitação 136
Face esse apoio concedido aos Cristãos já residentes, verifica-se progressivamente uma aceitação mais generalizada do Islão por grupos cada vez mais numerosos da população autóctone. Foi proporcionado mesmo o direito de total expressão aos Cristãos que se mantiveram no Andaluz, os quais se passaram a denominar de Moçárabes, pela influência da cultura árabe sobre eles exercida, passando mesmo a desenvolver comunidades importantes nas principais cidades. No sul, grupos moçárabes mantiveramse grandemente, apesar do acelerado processo de islamização 137
As comunidades cristãs ou moçárabes eram, portanto, toleradas e desempenharam papel importante na cultura e na economia do território. Adoptaram os costumes slâmicos, mantendo ao mesmo tempo fidelidade religião cristã 138
134 Picard, 1998: 27
135 Correia, 1998: 195-196
136 Catarino, 1998a: 86
137 Catarino, 1998a: 89; Picard, 1998: 26
138 Pereira, 2009: 103
139 Catarino, 1998a: 86
Apartir da conquista islâmica da Península Ibérica, são instituídos diferentes tipos de propriedade agrícola: a pequena propriedade campesina; as da aristocracia rural; aristocracia absentista (residente na cidade); e as terras do Estado. A maioria da população ficou adstrita a esta última, sendo que cada comunidade rural passou a ser considerada uma unidade fiscal, por forma a evitar o despovoamento rural 139
140 Oliveira, 2003: 144
Enquanto isso, durante a segunda metade do século XI, formaram-se no Algarve os ‘ulamã’, elites de sábios responsáveis pela introdução das normas de conduta islâmica e pela difusão do ensino religioso. Apenas na época almóada a sua densidade atingiu uma dimensão capaz de assegurar a islamização eficaz de toda a região. Neste âmbito, talvez também o processo de islamização mais tardio no Algarve tenha demonstrado, em retrospectiva, um carácter mais local 140
141 Catarino, 1998a: 92
No séc. XI, a população moçárabe era ainda bastante numerosa, em particular nos territórios rurais. Foi a partir daí que se acentuaram as disparidades sócioreligiosas, com a verificação do aumento de migrações de Moçárabes para reinos cristãos, verificando-se até uma quase desertificação das populações moçárabes ou pouco islamizadas, assim como o despovoamento de pequenos povoados rurais cuja ocupação continuou a partir de anteriores villae do período tardo-romano, e nos quais não se identificaram vestígios materiais do período almóada 141
142 Correia, 1998: 195-196
143 Catarino, 1998a: 77, 81; Correia, 1998: 196
Nas fortificações das épocas emiral e califal, era comum a edificação de torres maciças, em alvenaria, de planta rectangular e pouco salientes da muralha, como no caso de "Mesas do Castelinho". Esses sistemas defensivos consolidaram-se sobretudo em zonas mais sensíveis. Se, por um lado, as técnicas construtivas pareciam seguir generalizadamente modelos de inspiração cordovesa, com a aplicação de aparelhos de silharia regular, mantinha-se o recurso à arquitectura de terra com taipais, mais frágil, mas substancialmente mais económica em termos de materias e tempo de edificação 142
Com a guerra civil que provocou o fim do Califado, em definitivo, no ano de 1031, dá-se início à fragmentação do poder central e, consequentemente, à desagregação político-militar e regionalização do al-Andalus nas entidades territoriais independentes denominadas reinos de taifas 143. Iniciou-se, assim,
um programa de reforço de muralhas, assim como de novas construções, e a uma definição de novas linhas de torres de vigia ou atalaias 144
Com o surgimento das taifas, o sul do (agora) território ibérico foi dividido em pequenos estados, sofrendo o Gharb um forte crescimento, através do uso incremental das vias terrestres e marítimas. Foi o principal período de propagação da cultura árabe, com particular força no sul. A fragmentação política levou à multiplicação dos centros do poder, concorrentemente a um grande desenvolvimento cultural e artístico, assim como ao ao desenvolvimento de técnicas artísticas alternativas, levando a partir dos séculos XI e XII, à difusão de uma inovadora e variada série de materiais, formas e soluções técnicas145 É também durante as taifas que os bairros urbanos nas áreas periféricas se tornaram sensíveis à fixação de novos modelos arquitectónicos, que vieram a reflectir uma nova planimetria e funcionalidade das habitações, as quais passaram a ter o (re)conhecido pátio interior central para onde se viravam os restantes compartimentos. A arquitectura rural no Al-andaluz não tinha semelhanças com o modelo urbano mais comum. As formas e técnicas eram conservadoras, coadunadas com as actividades agro-pastoris no sul.
Apesar dessa luta interna, o território do Al-Andaluz volta a estar reunificado em 1090. Posteriormente, durante os domínios almorávida/almóada, a população do al-Andaluz era maioritariamente muçulmana, verificando-se nos finais do século XII e no século XIII uma considerável homogeneidade religiosa 146. Após um primeiro momento de austeridade de carácter mais fundamentalista, os Almorávidas foram, por fim, permeáveis à vivência cultural do al-Andalus 147
Os Almóadas surgiram, com efeito, num contexto de generalizada confrontação islamo-cristã, após uma nova divisão em taifas no início da segunda metade do séc. XII, tendo instaurado hegemonia absoluta e uniforme do islamismo no restante território do al-Andalus 148. Com a nova reunificação do território peninsular, durante o Califado Almóada foi organizado o mais forte momento de concepção de sistemas defensivos (embora já inciado durante o período almorávida), com a construção de novas fortificações no sul de Portugal até à fronteira com o Tejo, de forma a ser travado o avanço cristão 149
144 Correia, 1998: 197
145 Picard, 1998: 30-31; Sidarus, 1998: 259; Torres, 1998: 57-59
146 Catarino, 1998a: 92
147 Sidarus, 1998: 261
148 ibidem
149 Correia, 1998: 199-200; Catarino, 1998b: 216; Fernandes, 2020b: 121; Correia & Macias, 2019: 38
150 Picard, 1998: 25-31
151 Correia, 1998: 199-200; Catarino, 1998b: 216; Fernandes, 2020b: 121; Correia & Macias, 2019: 38
152 ibidem
Com essas movimentações, deu-se uma vasta migração de populações muçulmanas para o sul, provocando um excedente de actividades na região e uma forte pressão demográfica, assim contribuindo para tornar sítios até aí modestos, como Tavira ou Cacela, em verdadeiras cidades 150
Assim, na segunda metade do séc. XII, o Califado Almóada influenciou a caracterização monumental, de estética austera, do Al-Andalus (especialmente no sul do território), através da implementação de uma rede de fortificações que incluía alcáçovas urbanas, castelos, fortificações menores, e torres e atalais costeiras. Algumas alçarias passaram a estar providas de cercas amuralhadas e torres albarrãs, parte de uma estratégia político-militar central e provincial, para protecção dos núcleos urbanos. Estas torres albarrãs foram uma das características mais marcantes da arquitectura (militar) da fase almóada, as quais estavam desligadas e salientes da muralha, unidas a esta por um passadiço superior em arco ou através de um pano de muro mais ou menos extenso 151
Insistimos e recapitulamos: deram-se grandes inovações ao nível da arquitectura militar durante o período almóada, nos sécs. XII e XIII. Neste período, assistiuse à generalização do uso das entradas "em cotovelo", dotadas de um recinto intermédio, e as portas podiam ter cotovelos múltiplos, podendo o sistema da porta ser secundado por torres albarrãs 152
153 Correia & Macias, 2019: 41-42
154 op. cit.: 60
Assistiu-se também à generalização do uso da taipa militar, que possibilitava uma edificação acelerada das muralhas através da utilização de terra autóctone, misturada com cal em cofragem horizontal, oferecendo uma maior resistência à taipa resultante. Deste tipo de muralhas em taipa, temos exemplos em Alcácer do Sal, Elvas e Juromenha 153
155 op. cit.: 87-88
Para além do posicionamento estratégico da maioria das ocupações se perto de cursos de água 154, a água tinha, em termos públicos, uma importância social, havendo uma grande preocupação com o saneamento, enquanto garantia de qualidade de vida dos habitantes. Desta forma, os sistemas de eliminação das águas residuais eram concebidos antes mesmo da construção dos bairros, fazendo-se o planeamento urbano sem discrepâncias entre a rua, as casas e os esgotos, devendo estes últimos ser sempre mantidos em bom estado. De igual maneira, todas as cidades islamizadas dispunham de banhos públicos 155
Opovoamento de Cacela abrangia a plataforma superior desse território, onde se terá edificado o castelo (ou alcáçova). Nesta zona exterior ao perímetro amuralhado da alcáçova, viu-se edificado o agora denominado bairro islâmico do Poço Antigo, em zona ribeirinha na confluência da Ria Formosa e da ribeira das Hortas, a Nascente do povoado. A necrópole islâmica incluía uma zona portuária, situando-se perto de uma das entradas da "cidade" e ladeando um dos caminhos de acesso ao núcleo urbano, semelhantemente à época romana 156
Este bairro islâmico sucedeu-se provavelmente à reorganização do al-Andalus sob o poder almóada, que resultou na concentração demográfica das populações na orla costeira e no crescimento urbano das povoações. Podem-se apontar semelhanças entre a população do bairro do Poço
Antigo e as populações do Castelo de Salir e Villa Vieja, estas últimas localizadas, correspondentemente, no interior das regiões de Ossónoba (que é actualmente Faro) e Tudmir (correspondente a Calasparra, na Espanha).
Estas eram comunidades rurais, com habitações de áreas de construção modestas, que utilizavam o mesmo tipo de matérias-primas e técnicas construtivas presentes em Cacela Velha 157
Este bairro correspondia a diferentes tipologias de casas urbanas islâmicas, com uma arquitetura característica do al-Andalus, organizando-se em redor de um pátio interior central para onde se viram os restantes compartimentos158
A maioria das casas islâmicas nesta época tinham cozinha com um espaço independente exclusivo, cujo carácter autónomo se perdeu após a Reconquista, deixando a cozinha de surgir como espaço individualizado na habitação. Existiam também pequenos compartimentos onde, por vezes, é visível a separação entre espaços de armazenamento e áreas de fogo. O primeiro desses compartimentos era constituído por uma pequena antecâmara ligada directamente ao pátio, sendo provavelmente destinado a armazenamento. Nas cozinhas, o espaço interior era sobretudo destinado às lareiras, feitas sobre o chão ou em estruturas (semi)circulares de pedra, cravadas no solo 159
156 Macias, 1998: 117
157 Garcia, 2015a: 212
158 Garcia et al, 2015: 1019-1020; Macias, 1998: 110
159 Macias, 1998: 114
160 Martins, 2020b: 100
161 Oliveira, 2014a: 89
162 ibidem
163 op. cit.: 91
164 Catarino, 1998a: 83
165 Oliveira, 2014a: 91
166 Coutinho, 1998: 855
Asegunda fase da reconquista cristã, após o ano de 1169, demonstrou um desinteresse por parte da Coroa, notável pelo desvio de recursos para outras frentes, e pela dificuldade de mobilizar a hoste régia para sul do Tejo, devido à recusa da nobreza no cumprimento dos seus compromissos militares e falta de perspectivas lucrativas 160. Neste período, a oferta por D. Afonso Henriques de diversas fortalezas ao longo do Tejo à Ordem de Santiago foi feita com a pretensão de manter uma defesa da fronteira do rio, a qual era ameaçada pela crescente pressão dos exércitos almóadas; assim como de neutralizar o potencial perigo que uma ordem militar fundada pelo rei de Leão representava 161
Devido à vasta extensão do território doado e dos poucos recursos existentes para manter a sua totalidade, a Ordem terá perdido alguns pontos estratégicos que regressaram à posse dos muçulmanos. Esse facto terá posto em causa a fidelidade da Ordem aos olhos da Coroa Portuguesa, podendo ter levado, potencialmente, ao confisco dos restantes bens em Portugal (apesar das incertezas nessa hipótese) 162. Ainda assim, mais tarde, D. Sancho I volta a ceder os lugares hipoteticamente confiscados à Ordem, sob a condição da mesma servir a monarquia 163
Em 1189, D. Sancho I atacou, em duas expedições, a costa do Algarve, conquistando com cruzados todo o Ocidente Algarvio. Durante a primeira metade do século XIII, cavaleiros da Ordem de Santiago, comandados por D. Paio Peres Correia, , tomaram posse aos poucos de todas as cidades e castelos do Al-Andalus 164, perdendo, em contraponto, o controlo sobre os pontos estratégicos a sul de Lisboa 165. No entanto, esta tomada dos territórios ibéricos teve avanços e recuos constantes, levando à perda para os muçulmanos de Silves logo em 1191 166
167 Magalhães, 2012: 17
Depois da perda de Silves, o processo de (re)conquista cristã manteve-se num estado de estagnação, o qual apenas foi revitalizado após 1232, altura em que as operações militares passaram a ganhar uma estratégia globalizante. Essa eficácia deveu-se ao arreganho das ordens militares-religiosas, que apresentavam doravante uma clara organização e hierarquia e apoiando-se numa vivência do território geo-estratégica 167
Foi o desfazimento da unidade política e do poder almóada no sul da Península após 1212, com a consequente reorganização nos reinos de taifas em 1231, que permitiu o avanço definitivo dos cristãos para o sul do território, no tempo que D. Fernando III era rei de Leão e Castela 168 Deu-se assim, no reinado de D. Sancho II (1223-1248), uma grande ofensiva cristã no Algarve, que culminou na conquista de Faro em 1249 169, a qual sinalizou o final da islamização do Gharb Al-Andaluz.
Após a (re)conquista cristã, foi criada uma relação jurídica entre a Coroa Portuguesa e os muçulmanos, através de uma carta de foral. As cartas régias consignavam que o alcaide, eleito pela comunidade, tinha jurisdição sobre a população muçulmana, impedindo os cristãos e judeus de exercer poder sobre aquela. Da mesma forma, definiam em contrapartida, uma série de serviços que passavam a ser exigidos aos muçulmanos, sempre com base no direito islâmico 170
A sul do Tejo, constituíram-se juidicamente as comunas, constuídas em entidades administrativas com direito e autoridade próprias, livres dos centros urbanos, cuja população era maioritariamente muçulmana. Com o tempo, muçulmanos destas comunas integraram-se gradualmente na população livre cristã 171. Apesar de ser a defesa e não a conversão o principal objectivo das ordens, a pressão social deveria ser suficiente para suscitar várias conversões nas terras conquistadas pelos cristãos 172
Durante o séc. XVI, deu-se um afastamento da população do núcleo urbano de Tavira, devido ao desaparecimento gradual de actractivos comerciais. Deu-se um enfoque na ruralização, com uma aposta na economia agrícola, devido à riqueza da terra em redor (como, por exemplo, junto a Cacela), com diversas propriedades de grande rendimento 173
A partir das fortificações de Mértola, Aiamonte e Cacela assegurava-se o controlo do acesso à Andaluzia e da chegada de reforços e recursos, afirmando a importância das estruturas entretanto criadas pelas campanhas da Ordem sobre a maior parte das cidades do Algarve, durante os anos 40 do século XIII 174
168 op. cit.: 16
169 Coutinho, 1998: 855
170 Barros, 2020: 126
171 op. cit.: 126-127
172 Oliveira, 2020: 46
173 Magalhães, 2012: 269-271
174 Oliveira, 2014a: 96
175 Coutinho, 1998: 855
Acrónica da conquista do Algarve (1419) refere o ano de 1238 como a data da conquista cristã de Cacela, expressamente atribuída à Ordem de Santiago de Espada, cujas forças eram comandadas por Paio Peres Correia, mestre da Ordem de Santiago. Com efeito, após a ofensiva no Algarve durante o reinado de D. Sancho II, Tavira e Cacela foram doadas à Ordem de Santiago de Espada pela contribuição providenciada na ofensiva 175. Em 1240, Dom Sancho II fez a carta de doação do Castelo de Cacela à Ordem de Santiago, acto confirmado cinco anos depois pelo papa Inocêncio IV, e em 1248 por Dom Fernando III de Castela.
É reportado na crónica que o domínio pelos cristãos dos castelos nas localidades de Estômbar e Alvor, na proximidade da foz do rio Arade e do seu vale, transmitia insegurança aos mouros de Silves, ao ponto destes últimos terem proposto a troca de Cacela Velha por essas outras, de forma a afastar os cavaleiros para mais longe do centro do reino 176
176 Magalhães, 2012: 18; Oliveira, 2014a: 96
177 Magalhães, 2012: 18-19
Curiosamente, Cacela oferecia aos "mouros" a vantagem da instalação dos cristãos perto de Tavira, terreno que não era muito fértil nem quer muito extenso ou povoado, não ficando, por isso, em teoria e na prática, ameaçado de corte de comunicações marítimas 177
178 Oliveira, 2014a: 96
179 Magalhães, 2012: 19
180 Oliveira, 2014a: 96
Deixamos a nota avançada por Oliveira (2014a) de que este facto, apesar de reportado na crónica, poderá ter sido hipotetizado pelo autor da crónica, por forma a explicar uma troca na cronologia das conquistas de Aiamonte e de Cacela, tentando dessa forma legitimar a posse (cristã) desses territórios à respectiva altura 178. Da mesma forma, Magalhães (2012) apontou uma possível incongruência nas eventuais (des)vantagens na suposta troca de Cacela, reportando as condições favoráveis para os cristãos, apesar da troca ser feita a favor das forças islâmicas, desconsiderando-as, porém, por ter verificado a falta de referência à fortaleza de Aiamonte, que guardava a foz do rio e que teria sido o alvo das forças cristãs (em vez de Cacela) 179
A fortaleza de Cacela (a par de Aiamonte) passa a ser uma estrutura decisiva, e local de partida das incursões da Ordem sobre o restante território algarvio180
A partir de então, os monges guerreiros da ordem ali se instalaram, consolidando dessa forma a sua posição militar na costa algarvia e isolando os centros urbanos a ocidente do Guadiana.
O povoamento cristão da região iniciou-se pouco depois da sua conquista, correspondendo, deste modo, ao momento histórico de transição e definição de novas elites ligadas ao poder após a conquista cristã no sudoeste peninsular 181. A população medieval cristã de Cacela é decorrente do ambiente instável vivido na região por força dos conflitos existentes com o al-Andalus e, posteriormente, com Castela 182
A conquista alterou profundamente a sua estrutura social e territorial. Após a ocupação do castelo pela Ordem, as muralhas terão sido preservadas, verificando-se no recinto, todavia, o abandono e aterro das construções islâmicas. A Ordem terá iniciado então a construção de nova fortificação no extremo sudeste da alcáçova, tendo as muralhas da frente marítima e flanco oriental sido reaproveitadas, tendo construído de raíz os lados norte e ocidental por forma a criar um quadrilátero com torres nos cantos.
As ordens militares uniam a profissão das armas à vida monástica, segundo um compromisso simultâneo com a protecção dos fiéis e com a guerra contra os muçulmanos. Vários estudos assinalaram o vanguardismo militar das construções destas ordens, patente na difusão de diversas novidades arquitectónicas trazidas da Terra Santa e na adopção da herança construtiva do Islão, ou mesmo, mais tarde, na utilização de plantas geométricas 183
Os castelos das ordens militares foram essencialmente estudados como teatros de guerra e de poder. Como estruturas fortificadas, não era muito o que distinguia os castelos das ordens das fortificações ordenadas pelos monarcas. Contudo, por se destinarem a albergar uma comunidade de religiosos que unia o exercício da guerra às obrigações do monge, os castelos das ordens militares respondiam a necessidades particulares, sem paralelos evidentes noutras fortificações, já que tinham que garantir a reclusão indispensável à vida monástica e proporcionar as acomodações exigidas pela vida em comunidade 184
Mais tarde, após a conquista de Faro em 1249 por D. Afonso III, na qual também participou D. Paio Peres Correia, o rei não recompensou a Ordem para evitar que a mesma acumulasse demasiado controlo sobre o Algarve, face ao receio quanto à sua putativa ligação originária com a coroa espanhola. Foi apenas com a assinatura de um acordo de paz em 1253 entre
181 Garcia & Curate, 2010: 228
182 Garcia, 2015b: 213-214
183 Oliveira, 2014b: 389-390
184 Oliveira, 2014b: 390
185 Coutinho, 1998: 856-858
as duas nações (portuguesa e espanhola) que Afonso III mudou a sua atitude para com a Ordem de Santiago, para evitar eventuais conflitos posteriores. Dessa forma, em 1255 D. Afonso III doou à ordem a fortaleza de Cacela, confirmando o acto do seu antecessor D. Sancho. Posteriormente, o Tratado de Badajoz (assinado em 1267) reconheceu formalmente o direito da Coroa Portuguesa às terras algarvias 185
186 Oliveira, 2014a: 98-99
Com a ocupação formal de Castro Marim, o rei Afonso III assegurou controlo da fronteira junto à foz do Guadiana, iniciativa que foi do desagrado da Ordem de Santiago, a qual afirmou que a nova vila se encontrava dentro dos limites do termo de Cacela. Após o processo judicial que contestava as doações de Tavira e Cacela à Ordem de Santiago, foram as mesmas entregues de volta à Coroa em 1272. Desta forma, assegurava o rei controlo sobre a fronteira com Castela, razão pela qual à partida decidira formalizar a ocupação de Castro Marim 186
187 op. cit.: 99-100
188 op. cit.: 102
Em 1297, sendo dirigida por um mestre eleito no reino, a milícia consegue recuperar a vila de Cacela, por doação do rei, a qual não tinha, no entanto, a mesma dimensão aquando da doação de Sancho II em 1240. Isto porque, com a criação de Castro Marim e Alcoutim, os limites da vila reduziram-se substancialmente, deixando a Ordem de ser responsável pela vigilância da fronteira com Castela 187. De forma generalizada, os monarcas portugueses preferiram manter as vilas e cidades maiores do Alentejo e do Algarve sob o seu domínio. Assim, para a Ordem de Santiago apenas sobravam os núcleos de menor dimensão e/ou mais periféricos 188
189 Garcia, 2015b: 213
Aconstrução da nova fortificação em Cacela Velha foi levada em frente na segunda metade do séc. XIII. Durante as obras, terá sido criado um espaço eclesial fora do perímetro do castelo, onde antes estava edificado o bairro islâmico portuário 189
Entregue à Ordem de Santiago, a comenda de Cacela criou as bases da organização paroquial do espaço rural do Algarve oriental através da construção da primeira igreja na região. Foi assim construída a primeira igreja da comenda de Cacela, de invocação a Nossa Senhora dos Mártires, com cemitério. Foi também criada a Mouraria, que acolheu os moradores islâmicos do termo.
Situado entre a cidade de Tavira e a fronteira lusocastelhana, o termo do enclave de Cacela foi sendo reduzido gradualmente. Alterações na geomorfologia lagunar terão igualmente contribuído para o seu despovoamento. Cacela recebeu mais tarde uma nova obra de fortificação, durante o século XVI, por via do impulso da ocupação das praças norte-africanas e do reforço defensivo da linha do Guadiana 190
Cacela Velha continuou o seu papel político-administrativo, militar e reiligioso até ao ano de 1775, ano em que se deu o dramático megasismo, sendo a partir daí o povoamento sido extinto por Sebastião de Carvalho e Melo e reintegrado no concelho de Vila Real de Santo António, que havia recentemente criado.
Apesar de afectada pelo terramoto e destituída da sua importância, a vila mantém ainda hoje a sua configuração urbanísitica praticamente intacta 191
190 Garcia, 2015a: 13
191 Batista, 1997: 71
192 Direcção-Geral do Património Cultural, 2010b Garcia, 2015a: 198; Garcia, 2015b: 210
• Construções hipoteticamente da Antiguidade Tardia;
hipot. séc. IX-X
séc. XII/XIII
1.ª met. séc. XIII meados séc. XII 1240 1242 1249 1283
séc. XIII/XIV 1465
1.ª met. séc. XIII 1521/1578 1538 1565
séc. XVI-XVII 1617
• Construções islâmicas;
• Ocupação na época Almóada;
• Abandono e derrocada do Bairro no final do período almóada;
• Ocupação do sítio arqueológico por areias;
• Conquista aos mouros por D. Sancho II e doação à Ordem de Santiago;
• Retoma da vila por D. Paio Peres Correia, após nova ocupação islâmica;
• D. Afonso III confirmou a doação feita à Ordem de Santiago, pelos bons serviços prestados pelo comendador Paio Peres Correia durante as campanhas da (Re)conquista. O monarca mandou reedificar a fortificação medieval composta por um forte castelo e uma cintura de muralhas que defendia a povoação e se estendia por terras hoje submersas pelo mar;
• D. Dinis concedeu foral a Cacela, com a categoria de vila;
• Construção da Ermida de Nossa Senhora dos Mártires e necrópole; Reforço da fortificação; Construção de igreja matriz de uma nave;
• Referência à acentuada desertificação da vila, devido ao facto dos seus habitantes terem ido combater para Ceuta e Alcácer;
• Obras de reconstrução da Igreja e Fortaleza;
• Construção da "actual" fortaleza nos reinados de D. João III e de D. Sebastião, devido às estruturas defensivas quase desmanteladas;
• Igreja de Nossa Senhora da Assunção em construção, sobre as ruínas da igreja medieval, conforme consta da Visitação da Ordem de Santiago;
• Ainda existia a pequena igreja primitiva em madeira, com invocação de Nossa Senhora dos Mártires, a “quall foy Igreja Matriz desta Villa”.
Neste ano os visitadores da Ordem descrevem a fortaleza: “Visitámos ho castello ho quall he todo murado e a muralha reformada de novo ho quall he quadrado e tem em cada canto sua torre”;
• Construção de algum casario;
• Levantamento de Alexandre Massai da vila; o castelo encontrava-se arruinado, não havendo moradores na vila; Proposta para se “desmanchar” o castelo e extinguir a povoação;
• Planta da fortaleza, da Descrição do Reino do Algarve, por Alexandre Massai;
• Alusão à existência de uma Casa da Misericórdia;
• Possível data da fundação da Irmandade da Misericórdia de Cacela;
• Era Prior Manuel Gonçalves Crespo, também Capitão-mor da Vila;
• Arruinação da fortaleza e igreja matriz pelo terramoto;
• Contagem de 291 fogos na vila e cerca de 828 habitantes;
• Incêndio na povoação;
• Reconstrução da fortaleza;
• Reconstrução da fortaleza com instalação de um farol, a mando de D. Rodrigo de Noronha, governador do Algarve;
• Extinção da sede concelhia em Cacela, decretada pelo marquês de Pombal;
• Abandono;
• Finalização da reconstrução da fortaleza por D. Nuno José Fulgêncio de Mendonça e Moura, conde de Vale de Reis, sendo inspector da obra José Caetano de Andrade e Castro, guarda-mor da cidade de Tavira, conforme consta da inscrição conservada no portal;
• Finalização da recuperação da igreja matriz, realizada por iniciativa do bispo D. Francisco Gomes de Avelar;
• Abandono
• Desembarque liberal em Cacela, tendo as tropas do duque da Terceira conquistado o Algarve em poucos dias;
• Existência apenas da igreja, das ruínas da antiga Casa da Câmara (em frente da entrada da fortaleza), das residências do pároco e do sacristão, e de cerca de seis ou sete casas;
• Referência ao aparecimento de alicerces e ruínas no lado N., indiciando que a antiga vila se desenvolveu nessa zona;
• Ocupação das dependências da fortaleza pela Guarda Fiscal;
• Desactivação do cemitério antigo;
• Instalação da rede de distribuição de água;
• Repavimentação dos espaços públicos
• Zona Especial de Proteção, definida por despacho do Ministério da Cultura;
• Revolvimentos da época moderna;
• Contagem cerca de 50 habitantes;
• Definição da Zona Especial de Proteção, por portaria.
• Terras agrícolas de ocupação recente
2.ª met. séc. XVIII
XIX-XX
XIX-XX
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Apresentada uma prévia leitura historiográfica do caso em estudo, entendemos a necessidade de constituir uma interpretação conjugada dessa pesquisa, tendo em vista a faciilitação das noções abordadas no Capítulo IV - (Re)interpretação histórico-cultural (em especial, da diacronia), no que consiste como uma primeira fase do nosso contributo para a metodologia que perfaz o subtítulo da nossa investigação. Especificamos, assim, durante este capítulo, os conceitos e exemplos que informaram o nosso raciocínio por trás da formalização do mapa sinóptico que construímos.
193 A historiografia positivista, baseada nas ideias do filósofo francês Conde de Saint Simon (1760 -1825), entende que há um progresso constante da humanidade, a qual nunca regrediria, mas tenderia a ser mantida sempre em evolução
194 Pereira, 2012, Vol.I: 7
Com esta direcção em mente, considerámos a própria visão positivista193 sobre a História da Arquitectura –entenda-se, aquela que renuncia à necessidade de investigação da causa dos fenómenos naturais e sociais na base da História e, como tal, não permite senão uma leitura factual da mesma–, como contraditória à leitura das particularidades construtivoestilísticas a que nos propusemos fazer, por ser uma racionalidade onde as estruturas arquitectónicas são (necessariamente, nesta perspectiva, por motivos de pragmatismo para uma leitura globalizante) encaixadas e lidas numa progressão temporal sintetizada, aparentemente linear 194
195 op. cit.: 11
Se Masuch et al, em 1999, haviam já antecipado as dificuldades inerentes à restituição de obras arquitectónicas no período medieval, devido à dificuldade de correspondência com exemplares arquitectónicos adicionais –à partida, não enquadráveis numa reconhecível padronização construtiva e/ou conceptual–, a leitura estabelecida por Pereira de compreensão dos processos subjacentes à criação e construção dos edifícios construídos durante a Idade Média oferece uma base intelectual para abordar essa questão. Esta base parte precisamente do conceito de iconologia anteriormente referido, perspectiva contrária à positivista no sentido em que inscreve a compreensão dos “(…) objectos arquitectónicos (…) como um todo portador de significado (…)” 195, não apenas como objectos estanques sem referências, influências ou processo inerentes.
E se esta perspectiva fará sentido durante a Baixa Idade Média –período determinante na formação dos estados ocidentais europeus após a reconquista cristão das terras islamizadas–, a mesma lógica poderá não ser exacta ou imediatamente aplicável à época em que se assistia ao franco desenvolvimento cultural por que passava o território (no nosso caso, especificamente ibérico) durante os séculos VIII a XI.
Na sequência das visões émica e ética que focámos no subcapítulo que intitulámos, "Construção de um modelo de ideação", o período de ocupação islâmica do território ibérico levou-nos a enfatizar a necessidade de
pesquisar largamente sobre a sociedade desse período, em todos os seus factores (sociais, económicos, políticos, etc.), mas da mesma forma, e por isso mesmo, revelou-nos a necessidade de escolha e síntese da informação existente. Como tal, também a aplicabilidade da Abordagem Dedutiva, tal como reconhecêramos na nossa própria releitura das abordagens que Serrão prescreve no âmbito da Cripto-História da Arte, integrará fundamentalmente esta visão diacrónica sobre o objecto, na compreensão de um conjunto de influências partilhadas entre e durante as diferentes épocas.
Aideia do presente estudo nunca foi a de levar a cabo uma explicitação extens(iv) a dos factos históricos, contextualização feita já melhor por outros autores que dedicaram com o maior sucesso o seu inteiro trabalho a esse objectivo e que deixamos aqui referenciados. Antes, pretendemos oferecer uma visão historicizada segundo os nossos particulares objectivos, oferecendo uma (re) contextualização dos elementos arquitectónicos nos diversos factores que interpretámos como influenciadores das opções conceptuais e construtivas do objecto estudado e, a partir dessa recontextualização, procedendo à restituição dos restantes elementos segundo tais pressupostos.
Dada a contextualização de edificação e ocupação do núcleo urbano de Cacela Velha na estrutura territorial actualmente correspondente à Península Ibérica, visou-se um entendimento holístico dos fenómenos ocorridos neste território ao longo do seu período de desenvolvimento, nas suas diversas vertentes societais. Sendo assim, iniciou-se um estudo da ocupação histórica da península, repartido pelos seus diversos factores, sejam económicos, políticos, culturais 196, o que permitirá perceber em que períodos se concretizaram edificações em Cacela, e quais os factores que poderão ter influenciado as opções construtivas e arquitectónicas.
Aquando da nossa recolha e consecutiva análise de informação historiográfica respeitante ao estudo de caso em questão, houve um generalizado reconhecimento da quantidade de fontes bibliográficas direccionadas para aspectos e/ou períodos específicos; ou, ao invés, focalizadas numa leitura geral de toda a sua progressão, sem que se pudesse discriminar com rigor total uma especialização de todos os seus pontos.
196 Januário, Kong & Neto, 2015: 681
197 Holismo. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa Acedido a 15-11-2021 em: https://dicionario. priberam.org/holismo
Sincretismo. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa Acedido a 15-11-2021 em: https://dicionario. priberam.org/ sincretismo
Sinóptico. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa Acedido a 15-11-2021 em: https://dicionario. priberam.org/ sinóptico
Desta forma, a aplicação de uma necessária sintetização tornou-se imperativa para a progressão da nossa investigação, apoiando o nosso objectivo de substanciar uma leitura conjunta, transversal, daquilo que pretendemos realçado enquanto constitutivo do património.
O intuito foi sectorizar os diferentes âmbitos de contextualização da obra em causa para conseguirmos obter uma percepção dos diversos elementos em conjugação. Neste âmbito, foi proposto um mapa (cronológico) sinóptico –entenda-se, de análise sintetizada e simultânea–, a partir do qual lográmos reunir as diversas fontes de informação, de forma mais explícita e legível graficamente, para uma leitura holística do caso de estudo enquadrado pelos seus diversos factores contextuais.
À partida, esta posição diferencia e transfere aquilo que primeiramente se trata de uma visão sincrética –enquanto amálgama de concepções heterogéneas e/ou de elementos culturais diferentes– para a visão holística 197, enquanto método de análise que procura estudar os fenómenos de uma forma integral e integrada, ao invés de uma abordagem isolada ou particular dos seus constituintes.
Com este objectivo específico em mente, prevemos a dificuldade de conjugação de tão diversas fontes, onde a complementaridade entre elas revelar-se-ia à partida o desafio, em leituras possivelmente repetidas que se justificariam pelo mínimo acrescento de quaisquer pormenores que outra(s) fonte(s) pudesse(m) ter negligenciado, mesmo que propositadamente.
No entanto, foi nessa leitura conjugada que promovemos, a determinado momento da nossa pesquisa, o fortalecimento da metodologia de leitura cripto-histórica, através da análise selectiva dos elementos que reconhecemos enquanto factos e actos influentes das modificações na construção do objecto. Ainda que tal perspectiva pudesse ser questionada, em função da nossa categorização selectiva da informação analisada, tal passo foi necessária para determinar a visão sintetizada conducente à leitura diacrónica do objecto arquitectónico em estudo. Leitura essa para a qual o desafio seguinte se revelou na forma de demonstração da pretendida conjugação de informações.
Se reconhecíamos desde o Estado da Arte a potencialidade das ferramentas de representação computacional enquanto providenaciadoras de coesão entre elementos distintos e compreendidos isoladamente, foi nesta fase que simultaneamente se promoveu nova consulta das fontes escritas, para a aplicação de um modelo sistemático permitindo a conjugação de diferenciadas fontes de informação e, assim, a sua reunião para uma leitura conjunta e integrada dos elementos em si incluídos.
Por reconhecermos a necessidade de uma vis(ualizaç)ão ampla sobre toda a informação recolhida e analisada, de forma a podermos ter uma leitura relacional com o intuito de obter uma visão diacrónica, sem a reduzir a uma sucessão de eventos independentes entre si.
Assim, para lá de uma visualização linearizada da informação escrita, foi por nós idealizada uma leitura histórico-cultural mais aprofundada e versátil –na sua aproximação à pretendida interpretação cripto-histórica do conjunto arquitectónico–, cuja operacionalidade pudesse ser explorada através desta síntese.
Aevolução e “manutenção” do património advém de mudanças societais com menor ou maior impacto sobre a sua valoração, razão pela qual também a leitura (ou desde logo, a escrita) de fontes documentais poderá revelarse mais dificultada, dada a complexidade de factores presentes em cada momento, para cada decisão. Assim sendo, se numa leitura documental assistimos à necessidade de explicitação das causas de dados eventos, procurámos nesta explanação esquemática distinguir tais causas das suas repercussões, de forma a podermos tecer eventuais correlações para com a edificação dos elementos compositivos desse património que, por não sabermos a sua época exacta ou nem sequer lhes conhecermos elementos físicos, não conhecemos na origem.
À partida, para a leitura pretendida, o trabalho que Bill Addis realizou no início de cada capítulo da sua extensa obra –relativa às origens dos conhecimentos e competências subjacentes aos aspectos construtivos das edificações198 –
198 Addis, 2007 veja-se Fig. 24 [p. 106]
serviu de referência para a formalização da nossa própria leitura. Se, no seu caso, focado especificamente nos aspectos construtivos e projectuais desenvolvidos em cada época, a sua explicitação numa linha cronológica permitiu um entendimento clarificado da progressão dos conhecimentos a cada momento, e a sua influência nas edificações que permeiam a base de toda a cronologia –edifícios emblemáticos e/ou mais reveladores de cada época–, quisemos aqui trazer um maior desenvolvimento a essa ideia. Torná-lo meio essencial de leitura historiográfica, para lá do relegado complemento de leitura que o(s) relevante(s) esquema(s) na obra de Addis aparenta(m), aí, deter.
D199 Januário, 2008
Januário, Kong, & Neto, 2015
200 Macias e Torres, 2020: 16
esta forma, não apenas no seguimento da metodologia já utilizada por Januário 199, mas partindo (necessariamente) da nossa própria leitura bibliográfica e documental, dispusemos o mapa sinóptico desenvolvido segundo diversos factores significantes do processo de aculturação de um dado território, patentes e visíveis num esmiuçamento do discurso historiográfico.
Enquanto eventos considerados por si só, dispusemos os Conflitos armados à parte, reconhecendo-os enquanto catalisadores de uma mudança de paradigma causada por tais conflitos. Exemplarmente, após as invasões bárbaras entre os anos 260 e 270, é possível tecer a correlação directa com o plano de fortificações delineado para o território da Hispânia.
Se, no conjunto, os ‘conflitos’ servirão de elemento de enquadramento para os restantes factores, outros elementos devem ser lidos imperiosamente em conjunto entre si, de forma interdependente.
A título de exemplo, consideramos que, à partida, a construção antes ou após conflitos de maior escala poderá ter significado diferentes ritmos, recursos e/ou técnicas construtivas 200, como resposta prática a uma série de acontecimentos particulares ao objecto, que certamente terão em si próprios referências a exemplos de semelhante índole, ainda que diferenciados na sua especificidade.
Factor primordial, advindo do anterior, assumimos os Factores Territoriais como uma amálgama das diferenciações e delimitações decorrentes da evolutiva colonização e assentamento do/no território humanamente ocupado.

Fig. 24 Cronologia entre 1700 a.C. e 500 d.C., ilustrando iversos factores em paralelo: (a) Pessoas e Eventos; (b) Materiais e Tecnologia; (c) Conhecimento e Ensino; (d) Métodos de projecto; (e) Ferramentas de Projecto: Desenhos e Cálculos; (f) Edificações (Addis, 2007: 10-11)
As alterações territoriais, fronteiriças ou outras, consideradas neste sector advêm dos eventos anteriormente descritos, e situam-se na base do “mapa”, o mesmo acontecendo com as inflexões políticas que mais directamente contribuiram para uma delimitação territorial. Outros eventos sobrepõemse inevitavelmente a diversos factores que aqui, se colocaram numa linha factorial em detrimento de outra. Entende-se, a título de exemplo, a inclusão do momento de reunificação do território do Al-Andaluz, momento posterior à sua estratificação em Taifas –estas, divisões político-territoriais–, enquanto momento de restruturação política que terá afectado a leitura do território perante a sua ocupação islâmica.
Os Factores Políticos vêm a seguir como componente de maior influência na tomada de decisões. Incluem-se não apenas relevantes decisões tomadas pelo poder instaurado, mas também, importantes momentos de renovação e/ou (re)instauração desse poder, através de momentos críticos de instabilidade ou mudança política.
Sabemos que, de uma forma generalizada, o poder político durante a Idade Média estava intimamente ligado com a esfera espiritual e religiosa, razão pela qual a Religião se segue como factor na listada estratificação. Lêem-se momentos de vacilada relevância e consolidação da sua influência, quer no poder instaurado como na aculturação da população.
Seguem-se os Factores Económicos, capazes de oferecer em momentos, pistas concretas para opções (aqui, especificamente, arquitectónicas).
Apontamos explicitamente o exemplo da renovação económica no final do século IX e início do século X, concretizada após uma revolta no poder islâmico instituído na actual Península Ibérica, que terá levado à definição de principados autónomos e, com isso, à (re)construção de centros urbanos e algumas fortalezas. Esse facto poderá informar determinadas opções construtivas que, numa outra circunstância de menos recursos, poderiam não ter sido tomadas.
De forma a oferecer um encabeçamento às restantes linhas factoriais (ainda que não sendo o elemento final delineado), apresentámos o elemento Cultural, essencial e inseparável de quaisquer restantes elementos considerados. Não obstante, não pretendemos aqui apresentar a totalidade
da sua relevância numa leitura englobante de todo o “mapa”, antes tentando seleccionar momentos de forte mudança cultural no seio da população vigente, para demarcar eventuais períodos nos quais de testemunham iniciativas construtivas.
Assim, enquanto remate do conjunto de factores seleccionados, introduzimos por último os Factores Construtivos. Entendam-se estes como reformas arquitectónico-construtivas que mais directamente nos informarão da contextualização dos vestígios construídos em toda a restante temporização. Vestígios os quais, quer conhecidos mas desaparecidos, quer ainda existentes, foram inseridos transversalmente sob os restantes, para uma leitura directa de todos os elementos e/ou eventos edilícios de cada época.
Não carece, no entanto, esta nossa esquematização de elementos complementares que auxiliem a sua leitura. Chamamos atenção, exemplarmente, para o Quadro Cronológico organizado por Isabel Fernandes201, que apresenta diferentes factos e momentos históricos das ocupações cristã e islâmica em simultâneo, segundo os calendários distintos para cada uma dessas culturas 202. Revelar-se-á esta esquematização mais aproximada da visão émica que anteriormente referíamos, apresentando os factos a partir da Hégira (marca do início do calendário islâmico), com sua posterior correspondência com o calendário cristão.
Esta apresenta a vantagem de uma leitura repartida entre as duas culturas onde, ainda que possamos reconhecer eventuais correspondências directas entre ambas (veja-se, por exemplo, a Conquista de Silves, que vê as suas conturbadas invasões apresentadas em ambos os lados, representando os avanços e recuos da sua ocupação), a leitura de ambas é possível e benéfica quando realizada paralela mas separadamente. Em contrapartida, a leitura do mapa sinóptico desenvolvido permite uma sobreposição mais clara de certos elementos, e indicação de outros como catalisadores de determinadas decisões. Propusemo-nos, assim, à sintetização e integração de diferentes fontes de informação para um mesmo objectivo e contexto de trabalho, não apenas enquanto leitura facilitada de variadas fontes de informação, mas simultânea e mais relevantemente, contribuir numa segunda fase para a metodologia que perfaz o nosso objectivo com a presente investigação.
201 Macias e Torres, 1998: 22
202 veja-se Fig. 26 [p. 113]
Fig. 25 [página seguinte] Mapa (cronológico) sinóptico desenvolvido pelo autor, representativo dos diversos factores contextuais (culturais, económicos, políticos, etc.), influenciadores da evolução do Núcleo Urbano de Cacela Velha.
Forno romano da Quinta do Muro
4/5 delimitação das civitates
construtivos culturais económicos religiosos políticos territoriais conflitos factores
plano de fortificação das cidades da Hispânia
perseguição de muitos cristãos; declínio do Culto Imperial Romano
Tetrarquia: divisão do poder por 4 indivíduos
395 divisão do Império Romano
fortalecimento do poder político da Igreja Católica
549-554 guerra civil na Hispânia
472
Visigodos conquistam Hispânia Tarraconense
mesquitas construídas sobre antigas igrejas demolidas
654
compilação do Código Visigótico, importante livro de direito
Núcleo de Cacela Velha
Construções islâmicas hipoteticamente do séc. IX-X
(re)construção de centros urbanos e fortalezas na costa atlântica; arrabitas e husûn
Moçárabes, cristãos residentes influenciados por cultura árabe
desenvolvimento artístico e cultural
sistema fiscal herdado; considera cada comunidade rural uma unidade fiscal
Judeus ocupavam cargos importantes cidades portuárias
renovação económica
Reforço da muralha norte
propagação da cultura árabe
reforço muralhas
Data potencial de construção da nova fortificação
Bairro Islâmico
novas fortificações
disparidades sócio-religiosas; migrações de moçárabes
Igreja matriz de uma nave
renovação da arquitetura militar cristã estaleiros grande escala
1272
Processo judicial; Cacela de volta à Coroa
Obras de reconstrução da Igreja e Fortaleza
1641
Reconstrução da fortaleza
criado o Conselho da Guerra; responsável pela construção de fortificações
expedições marítimas portuguesas
poder da Nobreza e Igreja longe de satisfazer os grupos sociais mais desfavorecidos
débil situação social e política do Reino Visigótico
instabilidade política
741/743 jundes primeira divisão administrativa e militar
população cristã mantinha liberdade religiosa
movimento de revolta; reforço da islamização; principados autónomos
fundação de novas capitais regionais, com população árabe dominante
difusão do ensino religioso
fragmentação do poder central
1143
235
Império Romano
Crise do terceiro século
Império Romano Ocidental 476
Califado
Islamização do Al-Andaluz
Emirado de Córdova
454
Suevos conquistam grande parte da Hispânia
ataques dos mauros à Mauritânia; estendem-se à Bética
260/270 invasões bárbaras
409 invasão da península por Suevos, Alanos e Vândalos
Omíada Conquista Califado de Córdova
reunificação do Al-Andaluz homogeneidade religiosa muçulmana
1267
Tratado de Zamora; fundação de Portugal 1297
Cacela regressa à Ordem; limites da vila reduzidos
Tratado de Badajoz; direito português ao Algarve
1238-1240
Conquista de Cacela pela Ordem de Santiago
1164
fundação Ordem de Santiago
1551
incorporação da Ordem de Santiago na Coroa Portuguesa
1640 Restauração da Independência
1494
Tratado de Tordesilhas
Taifas #1 Período almorávida Califado Almóada 1492 Taifas #2 Taifas #3 1031 guerra civil 712
Ocupação de Cacela pela Ordem de Santiago
Emirado Nacérida de Granada
1774
Integração em Vila Real de Sto. António
1668
Tratado de Lisboa
1755
Terramoto; destruição parcial da fortaleza
966
lutas dos Visigodos contra os reinos Suevo e Merovíngio; luta pela hegemonia interna
terceira invasão normanda ataques dos piratas escandinavos 888
intensificam-se lutas de cariz religioso
1189
primeira conquista cristã do Ocidente Algarvio
Ordem de Santiago toma posse de todas as cidades e castelos do Gharbe Al-Andaluz
1249
conquista de Faro; fim da islamização do Gharbe Al-Andaluz
Guerra da Restauração
Com este modelo diacrónico sinóptico, aplicado ao nosso estudo de caso, pretendemos desde logo estabelecer as bases das premissas que nos permitem entender quais os elementos –sejam eles tangíveis ou intangíveis–fariam parte do património da obra arquitectónica, os quais requerem por si um estudo da temporalidade segundo os seus vários factores. Não só o modelo ajudará na reconstituição dos períodos anteriores por que Cacela passou, como no final informará potencialmente o que houver a considerar na valoração do património do sítio, conforme a sua importância e relevância, apoiada numa visão diacrónica e evolutiva da obra em causa, independentemente dos vestígios construídos correspondentes ainda existentes.
Àpartida, o enfoque na compreensão da época islâmica da ocupação do território que actualmente tomamos como a Península Ibérica justificarse-á face a quase completa escassez de vestígios vigentes –entendam-se, quer documentais, quer iconográficos, quer mesmo construídos, apesar das relativamente recentes descobertas arqueológicas. Esse facto incitou-nos a um certo nível de “assimilação” mais aprofundada. Considerando também a conjugação de diferentes domínios e culturas no seio de um mesmo território ao longo de um vasto período de tempo, ao invés de explicitarmos as diferentes aculturações, preferimos centrarmo-nos na inclusão desses eventos no território especificamente estudado, como forma de afunilar a aplicação da metodologia (e do “mapa”) –sem dispensar, no entanto, a inclusão dos períodos e/ou reinados associados, como forma de enquadrar constantemente a nossa leitura.
Ainda que o enfoque se faça na ocupação mais específica do actual território algarvio, enquanto território de base para o nosso caso em estudo, reportamo-nos, também, a factores generalizados de ocupação ibérica e além, já que o desenvolvimento desse território não será nunca desligado de uma estratégia geopolítica mais alargada.
No entanto, entendendo os factos específicos do território sul da península enquanto resultado dessa estratégia mais vasta por conta dos seus ocupantes –romanos, muçulmanos, cristãos, …– e em outras instâncias, enquanto influenciadores da mesma, entendemos novamente a necessidade
da sintetização de informação como maneira apropriada de tecer correlações sem uma perda de foco.
Por isso mesmo, várias das noções com que nos deparámos no nosso processo de selecção, leitura e análise bibliográfica ter-se-ão restringindo à sua inclusão ora na síntese bibliográfica que deixamos em anexo, ora no glossário que precede e informa a leitura, os quais, não obstante, serão de relevante interesse enquanto complemento à leitura desta investigação. Determinámos a sua permanência, numa ou noutra forma, por demais relevantes para uma leitura sistematizada, ainda que assumida e necessariamente sintetizada na sua formulação final.
A aproximação iconológica sobre as obras e seu significado dependerá sempre de uma série de factores extra-ordinários de interpretação que seriam impossíveis de levar a cabo numa única investigação. Ainda assim, a proposta que aqui deixamos pretendeu satisfazer as mais básicas necessidades de estudo, numa síntese que reconhecemos necessária à comprovação da hipótese de investigação.
Assim, ainda que não nos aproximemos de uma leitura émica mais clara, pretendemos antes clarificar a leitura para o público que será o receptor mais imediato desta pesquisa. Facto que não negará a adaptação da linha cronológica, visto esta pretender ser uma base para desenvolvimento, não tanto um fim em si próprio. Foi assim nossa intenção contribuir para uma evolução dos processos de leitura historiográfica, tal como já prescrito por Serrão 203, possibilitando uma cada vez maior transdisciplinaridade, versatilidade e, ao fim de contas, divulgação deste tipo de investigação.
Reconhecendo a dificuldade de delimitar temporalmente algumas dinâmicas/ transições históricas, serviram para levar a cabo, enfim, a leitura conjugada que pretendíamos, numa eventual possibilidade de delimitar certos momentos na confrontação com restantes dinâmicas.
Como exemplo demonstrativo da possibilidade de utilização desta ferramenta, deixamos a nossa própria correcção -em (re)leituras subsequentes dos dados bibliográficos- de alguns elementos dispostos no(s) mapa(s), aquando de uma confrontação com as informações complementares que lhes serviam de base.
345 ver subcapítulo A Cripto-História da Arte [p. 25]
Fig. 26 Parte do Quadro Cronológico (organizado por Isabel Cristina Ferreira Fernandes), ilustrando a correspondência de anos e eventos entre os calendários cristão e iislâmico (Macias & Torres, 1998: 22)

Damos como exemplo a ‘(re)construção de centros urbanos e fortalezas na costa atlântica; arrabitas e hisn’, cuja primeira disposição (durante o Período Califal da ocupação islâmica do Al-Andaluz) não se coadunava com a referência 204 do início destes trabalhos durante o reinado do Emir Abdemarrão II, em meados do séc. IX, antes da instituição do Califado de Córdova. Confusão inicialmente feita com a referência, no mesmo texto, da terceira invasão normanda, que interpretáramos como ponto de ebulição destas movimentações territoriais, e verificada numa leitura visual de todo este período no mapa.
Addis, Bill (2007). Building: 3000 Years of Design, Engineering, and Construction Londres: Phaidon.
Catarino, Helena (1997). O Algarve oriental durante a ocupação islâmica: povoamento rural e recintos fortificados. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Tese de Doutoramento.
Januário, Pedro (2008). Teatro real de la Ópera del Tajo 1752-1755: Investigación sobre un teatro de ópera a la italiana, para una posible reconstitución conjectural, basada en elementos iconográficos y fuentes documentales. Madrid: ETSAM/ UPM. 3 Vols. Tese de Doutoramento.
Januário, Pedro; Kong, Mário; Neto, Maria (2015). “Unveiling a heritage through digital enlightenment: the Lisbon Royal Opera House of Tagus”. In HERITAGE and TECHNOLOGY. Mind, Knowledge, Experience. Nápoles: La scuola di Pitagora. pp. 676-685.
Macias, Santiago; Torres, Cláudio (ed.). (1998). Portugal Islâmico. Os últimos sinais do Mediterrâneo. Lisboa: Museu Nacional de Arqueologia.
_________ (2020). “O Gharb: Cristãos e Muçulmanos no século dos Almóadas”. In Guerreiros & Mártires - A Cristandade e o Islão na formação de Portugal Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. pp 14-21.
Pereira, Paulo (2012). A “Fábrica” Medieval. Concepção e construção na arquitectura portuguesa (1150-1550). Lisboa: FA-UTL. 3 Vols. Tese de Doutoramento.
204 Catarino, 1998: 72
(RE)INTERPRETAÇÃO EM ANACRONIA DA ARQUITECTURA DE CACELA VELHA
Finalizada a fase de enquadramento histórico do caso em estudo, com sua consequente sintetização no mapa sinóptico, passamos neste capítulo ao trabalho de reconstituição de cada um dos elementos conhecidos de cada período de ocupação. Segue-se uma sua restituição hipotética, tendo em conta uma análise relacional e interpretativa dos elementos de origem documental, iconográfica, e arqueológica. Termina o capítulo com um mapa sinóptico, agora dedicado à conjugação dessa informação (respeitante aos vestígios registados de Cacela), para uma sua leitura segundo os princípios referidos no capítulo anterior.
Com o fim último de contribuir para a compreensão diacrónica de Cacela Velha –enquanto exemplo ilustrativo de uma metodologia analítica que se pretende eventualmente extensível na sua aplicabilidade–, o nosso esforço de análise e interpretação relacional das diversas iconografias respeitantes ao caso em estudo constituiu um passo indispensável nesse sentido, para a compreensão da continuidade dos vestígios construídos e como esses foram sendo (re)apropriados ao longo das suas diversas épocas de existência.
Nesse sentido, apontamos a existência de um conjunto diminuto mas revelador de iconografia que aponta a trajectória histórica mais tardia da vila. Nele, a partir do século XVII, surpreende-se o conjunto de Cacela Velha fruto de constantes renovações face a períodos de reformas defensivas e arquitectónicas, transacções proprietárias ou parcial destruição.
Para a seguida reconstituição gráfica –bi e tridimensional– do objecto da nossa investigação, entendemos desde logo a importância em estabelecer previamente as fases definidoras da diacronia, segundo a estruturação sinóptica. São estas fases as que considerámos melhor representativas dessa evolução histórica e ilustrativas das suas consecutivas épocas de ocupação. Pretendemos, desta forma, ilustrar momentos mais concretos da ocupação edificada deste território, por forma a permitir desde logo uma leitura selectiva, e igualmente uma futura complementaridade investigativa, focalizada em uma dada época. No entanto, não devemos ler cada uma destas sectorizações de forma inteiramente desfasada e isolada.
Aordem porque são aqui apresentadas as fases seleccionadas tem uma lógica própria que não acompanhou uma linearidade temporal. Antes, começámos por analisar os vestígios iconográficos disponíveis individualmente, a partir dos quais, indo de encontro ao diacronismo subjacente, foi possível retirar algumas conclusões para complemento das épocas que lhes antecediam. Assim, o capítulo salta da análise da(s) iconografia(s) do séc. XVII para a ocupação islâmica que lhe é anterior, e novamente das iconografias do séc. XVIII para a época entre ambos os conjuntos de iconografias.
Pretendendo com a presente investigação contribuir para uma visão diacrónica o mais completa possível para o estudo de caso assinalado, apercebemo-nos à partida da dificuldade de tal exercício quando olhámos para a ocupação deste território na chamada Antiguidade, por não existirem vestígios (não apenas construídos, mas igualmente documentados) suficientes para discernir um enquadramento nítido dessa época. E se nos propusemos a “experimentar” o preenchimento das lacunas através da contextualização histórico-cultural que resultou no anteriormente explanado mapa sinóptico, a contextualização numa historiografia mais vasta da ocupação do território que é hoje a Península Ibérica não permitia reconstituir uma imagem histórica específica ao núcleo de Cacela Velha neste período, prévio à sua ocupação islâmica. Ainda assim, alguns factos apontam para uma determinada ocupação do território de Cacela, aquando de uma análise do seu âmbito geográfico envolvente mais alargado, possível por existirem alguns indícios que apontam para uma ocupação concreta prévia.
Já havíamos referido a existência do Túmulo Megalítico de Santa Rita, a Nor(oes)te da povoação de Cacela, o qual permite um enquadramento ocupacional ainda mais antigo para esta zona 205. Uma análise desses vestígios permitiu até entender alguma continuidade funcional e simbólica após a sua edificação original, mesmo que sem uma cronologia inteiramente definível. Inácio et al puderam verificar a existência de uma necrópole sobre a antiga estrutura, já alegadamente colapsada, cuja (re)utilização (que remonta ao ano 2500 a.C.) se terá prolongado pelo menos até próximo do ano 1000 a.C.206. Foram mesmo descobertos indícios de revolvimentos de época romana, incluindo uma pequena estrutura junto aos vestígios do túmulo, pondo o aproveitamento deste lugar (mesmo que com outro intuito) até ao século IV/V d.C. 207
205 Garcia, 2008; Oliveira et al, 2020: 140
206 Inácio et al, 2008: 48; Inácio et al, 2010: 82, 86
207 Inácio et al, 2010: 77, 79, 83-84
Fig. 27 Planta das estruturas expostas durante a intervenção arqueológica no Túmulo
Megalítico de Santa Rita (Inácio et al, 2010: 80)

208 CMVRSA, s.d.
Outros vestígios que aí se encontram são a Fonte e Poço Velho de Santa Rita, o primeiro dos quais, sendo de planta quadrada e cupulada, se tratava originalmente de uma fonte, conforme verificável em cartografia antiga, apesar de ser designado actualmente enquanto o “Primitivo Santuário de Santa Rita” –devido à lenda que identifica este local como sendo onde a santa apareceu inicialmente; e tendo sido o poço mais tarde erigido 208
209 CIIPC, s.d.-a Viegas, 2006: 178
210 Garcia, 2008: 130-132
Oliveira et al, 2020: 140; veja-se Fig. 28 [p. 120]
Foi no início do último quartel do século XIX que o arqueólogo Sebastião Estácio da Veiga (1828–1891) identificou duas esculturas em mármore, para além de restícios arruinados de edificações romanas e objectos de uso quotidiano variados, entre o que é actualmente a Quinta do Muro e o povoado de Cacela Velha 209. Terá sido apenas um século mais tarde, numa excavação arqueológica de emergência realizada em 1990, que no mesmo local desses vestígios foi identificado um forno do mesmo período romano, de planta quadrangular com 2,85m de lado 210. Assim, ficou desde logo demarcada a existência provável de uma villa romana em/junto a Cacela Velha.
211 Viegas, 2011a: 397
Semelhantemente a este, também é conhecido a existência do sítio romano da localidade de Manta Rota (a Nascente de Cacela Velha), onde Estácio da Veiga descobriu alicerces de grandes ediflcios de época romana (além de oulros achados do periodo islâmico). De entre essas estruturas, tal como na Quinta do Muro, verificou-se a presença de uma estrutura para produção de cerâmicas (de construção e não só) 211
A partir destes achados, ficou claro que estas localizações se encontravam integradas nos circuitos comerciais do ocidente do Império Romano, clarificado pelo favorecimento da sua localização costeira e, talvez de semelhante maneira, pela sua proximidade de grandes centros urbanos como seria o caso do núcleo de Balsa.
Fig. 28 Alçado e fotografias dos vestígios do forno romano da Quinta do Muro (Oliveira et al, 2020: 139)

Onúcleo urbano de Balsa –identificado desde o século XIX como tendo estado localizado na actual localidade de Torre de Ares (a Sudoeste da cidade de Tavira)– terá estado no expoente do seu desenvolvimento durante toda a segunda metade do século I a.C., estando à altura –em conjugação com a cidade de Baesuri (correspondente ao que hoje é Castro Marim)– integrada nas rotas comerciais estabelecidas, com forte integração na economia da província vizinha 212
Aliás, a presença de estruturas de produção de preparados piscícolas com cetárias em determinados aglomerados urbanos (como o de Balsa) terá significado a exploração dos recursos marinhos nessas regiões como importante componente da economia urbana do Algarve durante a ocupação romana –e particularmente incomum para a época em questão do Alto Império, entre 27 a.C. e 3 d.C..
212 Viegas, 2011b: 15, 18-19
213 Viegas, 2011a: 397, 522, 569
214 op. cit.: 522
Verificamos até semelhanças com os sítios da Manta Rota e Quinta do Muro, onde os vestígios de cetárias e de produção de ânforas indiciam um mesmo tipo de exploração de tipo villa com exploração agro-pecuária, simultaneamente associada à produção de preparados piscícolas 213 Quanto à cronologia desta ocupação, o conjunto de dados recuperados nos anos 1990 por Garcia apontam para que tenha tido início na primeira metade do séc. I, prolongando -se até aos finais do séc. IV ou início do séc. V 214
Fig. 29 Filtragem dos elementos topográficos do cadastro romano nas zonas de Balsa e Cacela, com respectivo ajustamento linear segundo as respectivas orientações ortogonais dominantes em cada uma, e através da aplicação de módulos métricos romanos.
(Silva, 2010)
Sendo assim, entre a existência do denominado Forno Romano da Quinta do Muro, localizado a Poente do Núcleo de Cacela Velha; o Forno Romano de Manta Rota, a Nascente; e a povoação de Balsa da qual era "vizinha", tornar-se-á facilitado considerar a contextualização de Cacela Velha numa territorialização romanizada de maior relevância que se terá formado nesta zona, entre estes pontos de contacto que funcionavam como portos e urbes importantes para esta zona do Baixo Guadiana.
No entanto, a compreensão da extensão e importância d(ess)a potencial ocupação em Cacela estará sempre dependente de indícios mais concretos, neste caso eventualmente arqueológicos, que nos permitam conceptualizar uma resituição mais fiel.

Quando procedemos à pesquisa de iconografia respeitante a Cacela Velha, a mais antiga com que nos deparámos foi a planta realizada por Alexandre Massai (15??–1638), arquitecto e engenheiro militar de origem napolitana que se instalou em Portugal no final do século XVI (durante o domínio filipino) para a fortificação do porto de Lisboa, aquando de um programa de construção de defesas ao longo da frente costeira do país 215
Essa planta foi, então, realizada no âmbito da requisição, em 1617, de um levantamento das obras e fortalezas do reino do Algarve e da calheta de Sines, composto de descrições sobre a história e a geografia dos diversos sítios; sobre o seu estado, à altura, das fortificações e das obras necessárias às mesmas; as guarnições e a artilharia existentes; entre diversas outras particularidades. Essas descrições fizeram-se, pois, acompanhar de levantamentos gráficos, sob a forma de plantas ou traças com as respectivas legendas ou declarações.
Resultou desse levantamento o documento intitulado “Descrição e plantas da costa, dos castelos e fortalezas (…)”, concluído em 1621, destinado a informar o Conselho de Guerra e da Fazenda do rei sobre as obras e reparos necessários às fortificações litorais, no qual se inclui a referida planta respeitante a Cacela Velha (f. 26, 27), que nos informa da proposta de reformulação por Massaii do dito castelo, segundo uma adaptação às novas tecnologias bélicas 216
No entanto, se é referida a realização destes trabalhos entre 1617 e 1621, a planta presente no Arquivo da Torre do Tombo –versão com que nos deparámos primeiramente– aparece datada de entre 1607 e 1617. Fazendo uma breve pesquisa a este documento, não encontrámos qualquer referência fixa à data de realização.
Além desta questão, sabíamos desde logo da existência de uma outra versão da mesma planta –incluída em trabalho datado de 1617/1618, completado em 1621–, essa presente nos arquivos do Museu de Lisboa, já referenciada e ilustrada no trabalho de Garcia 217, pelo que a comparação entre as duas
215 O percurso de Alexandre Massai encontra-se bem estudado, sendo uma personagem relevante da arquitetura e da cartografia portuguesa no inÍcio do século XVII. Para uma biografia mais pormenorizada de Massai, v.:
Viterbo, 1989, Vol. 2: 152-153, 461-467; Moreira, 1988; Guedes, 1989; Lanzarini, 1998-1999: 185-188, 198-199; Quaresma, 2008; v. também: Câmara, Moreira & Viganò, 2010
216 Garcia, 2015a: 102
217 Garcia, 2015a: 102
Fig. 30 “Sobre a Vª de Cassella” in Descrição e plantas da costa, dos castelos e fortalezas, desde o reino do Algarve até Cascais, da ilha Terceira, da praça de Mazagão, da ilha de Santa Helena, da fortaleza da Ponta do Palmar na entrada do rio de Goa, da cidade de Argel e de Larache (Massai, 1617)


Fig. 31 “Sobre a Vª de Cassella” in Descrição e plantas da costa, dos castelos e fortalezas, desde o reino do Algarve até Cascais, da ilha Terceira, da praça de Mazagão, da ilha de Santa Helena, da fortaleza da Ponta do Palmar na entrada do rio de Goa, da cidade de Argel e de Larache –continuação (Massai, 1617)
Fig. 32 "Planta da “Vª de Cassella” in Descrição e plantas da costa, dos castelos e fortalezas, desde o reino do Algarve até Cascais, da ilha Terceira, da praça de Mazagão, da ilha de Santa Helena, da fortaleza da Ponta do Palmar na entrada do rio de Goa, da cidade de Argel e de Larache (Massai, 1617)



versões seria desde já de uma grande importância, para entender a razão para a existência de ambos os documentos.
Imediatamente reconhecíveis numa visualização e comparação directa dos documentos, são as diferenças entre eles, maioritariamente na representação de alguma contextualização territorial envolvente na versão de 1621, do Museu de Lisboa. Com maior particularidade, reconhecemos a representação de acessos aos diferentes corpos edificados e ao poço, assim como de uma linha de água a Este, da encosta a Sul de todo o núcleo, e do que poderá ser a ilustração de um ligeiro mas saliente declive anterior à linha de contacto com a Ria Formosa 218
No mesmo documento, reconhece-se também a existência de baluartes do lado norte da fortaleza e de um acesso vertical de entrada, o que, conforme referido acima, indicará possivelmente a proposta edificatória de Massai para a fortaleza que não se terá efectivado 219
No entanto, para lá destas diferenças, todos os aspectos reconstituídos conforme a planta de 1617 se sobrepõem perfeitamente à iconografia de 1621, exceptuando apenas uma ligeira variação de escala na representação do poço (indicado com a letra E na legenda de ambos os documentos) 220
Será importante notificar que para obter uma sobreposição mais exacta de ambos os levantamentos (e dada a digitalização do vinco patente no documento de 1617) 221, foi necessário efectuar uma ligeira rotação de parte do documento –a que contém a representação do núcleo urbano em si–, de modo a possibilitar a correspondência entre os elementos com maior grau de exactidão.
Tendo estes factos em consideração, procedemos inicialmente à representação vectorizada da iconografia de 1617 –a inicialmente disposta–, através da utilização de software de desenho assistido por computador (os denominados CAD). Para tal, procedemos ao escalonamento da referida planta segundo uma correspondência de 1 palmo para 0,22 metros 222, e utilizámos um arredondamento até duas casas decimais nas medições, de forma a nos aproximarmos do que maginamos ter sido a lógica metrológica do levantamento realizado à época.
218 veja-se Fig. 34 [p.127]
219 Garcia, 2015a: 102
220 veja-se Fig. 31 e 33 [pp. 124, 126]
221 veja-se Fig 32 [p. 125]
222 Cunha, 2003: 59; Pereira, 2022: 175; Gil, 2014
Fig. 35 Sobreposição das duas versões [de 1617 e 1621] da planta de Cacela Velha, da autoria de Alexandre Massai


Fig. 36 Sobreposição da planta de Cacela Velha de 1621 por Massai, com a respectiva reconstituição vectorial e transcrição da legenda original

Fig. 37 Sobreposição da planta de Cacela Velha de 1617 por Massai, com a respectiva reconstituição vectorial e transcrição da legenda original
223 veja-se Fig. 32 [p. 125]
Isso permitiu-nos, em primeira instância, criar uma base rigorosa para posteriormente a confrontarmos com a outra do Museu de Lisboa, para desta maneira entendermos quaisquer distinções formais, e sua potencial significação, perante a pequena discrepância temporal entre ambas.
Foi nesse trabalho de adaptação à escala utilizada nos desenhos que descobrimos uma clara incoerência, entre as iconografias da autoria de Massai na sua correspondência com as actuais medidas.
224 veja-se Fig. 34 [p. 127]
Na iconografia de 1617, a escala representada conforma-se segundo uma “medida de sincoenta Braças de dez palmos cada huã” 223. Considerando a anterior correspondência de 1 palmo para 0,22 metros, verifica-se pelo escalonamento de uma para outra medida (e na eventual sobreposição preliminar com o actual levantamento do núcleo de Cacela Velha), uma relação bastante coerente dos elementos –mais explicitamente, da Fortaleza e da Igreja, que se mantêm do conjunto original–, tendo em conta o seu posicionamento (ainda que relativizado) mas, mais relevantemente, as suas medidas. Já no desenho referente ao ano de 1621, o petipé representado é indiciado como uma “Medida de sem palmos” 224, apesar da indicação de 10 palmos, nessa iconografia, corresponder ao que serão 10 braças (ou seja, 100 palmos) na representação precedente, de 1617.
Esta aparente incoerência levou-nos a proceder a uma (re)leitura e transcrição das descrições que acompanham essas plantas, para um eventual entendimento das razões que tenham levado à mudança na escala explicitada.
Analisando a página escrita que acompanha a representação de Massai de 1621, a mesma refere que “(…) tem o seu Castello desviado da costa 1600 palmos (…)”, indo de encontro à escala conforme presente na iconografia anterior –cuja descrição escrita que a acompanha refere igualmente que “(…) O Castello stá em sitio Eminente desviado da Praja 160 Braças (…)” e cuja legenda reportada à planta aponta a dita distância enquanto “(…) 1600 palmos que são 160 braças de 10 palmos cada huã (…)”
Ainda assim, a legenda da planta mais recente –onde se lê “Declaração da seg. te planta” 225 – indica a distância entre a muralha Sul da Fortaleza e a linha de costa como “(…) 160 palmos digo Brassas de 10 palmos cada huã (…)”, confirmando a dúvida na escala utilizada, já verificada através do desenho.
Fazendo uma medição da distância entre a linha de costa (representada a azul) e o lado sul da fortaleza, com base no escalonamento de 1 palmo para 0,22 metros da planta de 1617, pudemos verificar tal distância como próxima dos 1600 palmos inicialmente referidos nos documentos, e indicada nessa planta de 1617.
Sendo assim, esta discrepância nas medidas indicativas, quer entre iconografias, quer entre referências no mesmo documento, trata-se não de uma modificação do sistema de medição utilizado de uma para outra iconografia (a qual se poderia justificar numa eventual uniformização metrológica durante o domínio filipino de Portugal), antes um lapso do autor devida e imediatamente rectificado no texto pelo mesmo –quando indica “(…) palmos digo Brassas (…)”–, embora não corrigido no desenho em si.
Outros elementos esclarecedores que se puderam retirar do(s) documento(s) acompanhante(s) foram algumas referências justificativas deste levantamento realizado por Alexandre Massai.
Veja-se a indicação da queda de parte do muro Sul/Sudeste do, à altura, denominado castelo de Cacela, devido ao peso que as edificações que correspondiam às instalações do alcaide exerciam sobre essa parte do muro.
Não apenas esse facto, mas igualmente a erosão da vertente natural sobre a qual o forte foi posicionado 226 (e a própria dinâmica da ria que auxiliará a essa condição) poderá indiciar a razão da deterioração da estrutura defensiva, visto ser ainda causa de visível preocupação ao tempo actual.
Por isso, é referida por Massai a sugestão de reconstrução destas edificações com um piso apenas:

(…) Cahio hu~pedásso de muro / do ditto Castéllo da párte do már por ter emsima de si cazas de mtº pezo oquál se deve conserár / e escuzár as cázas sobradádas que sendo neçessárias se pódem fazer terreas no sitio assinádo em / atráça seguinte com aletra F, Ho muro q cahio hé ode cor vermelho assinádo A 227
225 veja-se Fig. 33 [p. 126]
226 Garcia, 2015a: 175
227 Massai, 1617; veja-se Fig. 30 [p. 123]; veja-se Apêndice 1.
228 Massai, 1621;
veja-se Fig. 33 [p. 126]

(…) Castello oquál sedeclara natrassa seg.te q’he hu~pedasso demuro q’aruinou pello m.to pezo q’sobre si elle tinha, o qual / sedeve comsertar, Efazendoçenão secaregua mais nelle q’ hu~sóo sobrado decazas eq.do noditto Castello seja neçess.ro mais cazas / sefessão terreás nositio q’naditta trassa seaponta (…) 228
Alexandre Massai apontava igualmente para a hipótese de transferência da igreja para outro lugar mais interior, enquanto alternativa a uma restruturação militar, reconhecendo o facto da população da dita vila habitar nos seus arredores em quintas com produção própria:

229 Massai, 1617;
veja-se Fig. 31 [p. 124]
veja-se Apêndice 1.
(…) enão avendo naV.ª moradores / eno Castéllo prezidio que aguárde edeffenda não no apróvo mas antes aprovarei que se desman= / che esse pásse a Egreija em outra p.te pella térra adentro eque no tál sitio não ája Povoassão (…) 229
Ainda assim, simultaneamente a essas indicações, é apresentada uma proposta de reconstrução da fortaleza pelo autor, reportando que a a que ali se encontrava era pouco eficaz, face a vasta superfície de areal defronte da estrutura militar:

230 Massai, 1617;
veja-se Fig. 31 [p. 124]
veja-se Apêndice 1.
231 Massai, 1621;
veja-se Fig. 33 [p. 126]
veja-se Apêndice 2.
(…) o fórte do módo que / ao prezente está não defende os moradores por aver como tenho ditto seis Légoas de Prája (…) praja de máis de ser Légoas como tenho ditto e em toda élla se dezembárqua enão hé /seguro 230

(…) oditto forte do tál modo como / estanão defende nem asegura os moradores nem daV.ª nem dotermo (…) 231
Assim, a proposição do engenheiro –representada a amarelo, na planta de 1617; e através de linhas vermelhas, na de 1621– passava pelo abaluartamento do castelo nos seus quatro torreões, cujo estratégia defensiva permitiria, à partida, um posicionamento mais eficiente –em termos de alinhamento bélico– contra os eventuais desembarques que ali acontecessem. De igual maneira, poderemos antever a maior robustez dessas (re)construções como facilitadoras de um assentamento mais estável da vertente Sul do forte sobre a arriba íngreme, sem necessidade de inteiramente recondicionar ou reposicionar o forte.

Ode cor amaréllo hé afortifiquação que se podia fazer denovo p.ª que o mosquete de posta / guárde edefenda melhór amurálha (…) 232

(…) decor vermelha se afortifiquação q’ se podia e deviafazer denovo p.ªq’ os mosquettes deposta guarde Edefenda milhor a muralha ~ 233
À partida, esta sugestão de redesenho ilustra e justifica a diferença entre ambas as versões, apresentando a mais recente uma maior definição da proposta desenhada, especificamente no que tocava a frente Norte/Noroeste, de entrada, do forte:

(…) onde está a Porta B, fazerlhe / hu~fossette com sua Ponte Levadissa (…) 234

Sedevia fazer denovo ofossete por fora daporta doditto Castello com sua pontelevadiça (…) 235
Entende-se o intuito de resolver os pontos preocupantes, abordados primeiramente, numa proposta concreta e justificada, onde a relação escrita do traçado de 1621 apresenta um tópico exclusivamente dedicado à descrição do estado da infantaria, com a enumeração das diversas sugestões do engenheiro, assim como a explicitação dos custos associados aos propostos encargos.

(…) Eaos muros, etorres selhedeve fazer denovo tudo oq’naseg.tetrassa seve asinaladoEdeclara / do q’ pondoçe por obra emtendo fara de custo quanto asima tenho ditto 900 (…) 236
Numa posterior (ainda que elementar) justaposição com o levantamento (vectorial) do núcleo urbano de Cacela à actualidade 237, a falta de correspondência directa entre os suportes era por demais evidente. À partida, por falta de elementos mais concretos, tomaram-se, como elementos referenciais para a justaposição, os torreões Norte (indicado com a letra M) e Poente (com a letra N), que mantêm uma planificação semelhante à actual. Reconheceu-se (entre os suportes) uma sobreposição próxima dos muros Nordeste, Noroeste e Sudoeste da fortaleza; um alinhamento aproximado
232 Massai, 1617; veja-se Fig. 31 [p. 124] veja-se Apêndice 1.
233 Massai, 1621; veja-se Fig. 33 [p. 126] veja-se Apêndice 2.
234 Massai, 1617; veja-se Fig. 30 [p. 123]
veja-se Apêndice 1.
235 Massai, 1621; veja-se Fig. 33 [p. 126] veja-se Apêndice 2.
236 Massai, 1621; veja-se Fig. 33 [p. 126] veja-se Apêndice 2.
237 O levantamento vectorial a que tivemos acesso tem duas origens: os volumes básicos (demarcados a cinzento nas sobreposições) provêm do Plano de Pormenor de Salvaguarda (...), de 2007; e o levantamento dos interiores provém do trabalho realizado por Costa & Batista (2013: 75). Ainda que não actualizados à data da presente investigação, podendo assim não incluir obras mais recentes, considerámos os mesmos com grau suficiente de informação e rigor para os objectivos do nosso estudo.
238 veja-se Figs. 38 [p. 136]
239 Garcia, 2015a: 194-195
do muro Sul/Sudeste (presente entre as letras A e L) com a actual bateria Sudoeste; e o desvio do corpo indicado ‘Egreija de nossa sorã da Asunssão’ e muro defronte em relação ao que serão as suas actuais correspondências238 Podendo apontar a larga diferença temporal entre ambos os períodos dos documentos analisados como razão para a falta de correspondência directa na planificação –no que, à partida, sabemos ser a menor exactidão das ferramentas de representação à altura, comparativamente às que temos actualmente à nossa disposição–, assume-se que a diferenciação nos meios de referenciação geográfica dos utilizados presentemente justificaria as eventuais incongruências existentes.
Aliás, é necessário deixarmos, entretanto, o reparo que, nesta sobreposição, é visível o desalinhamento da indicação da coordenada Norte da iconografia (à direita) para com a actual (à esquerda, no topo) –situação que se verificaria novamente, mais tarde, com a iconografia de Vasconcelos de c. 1790, conforme se mostra em subcapítulo próximo. Tendo em conta que, de outra forma, o alinhamento quer da fortaleza, quer da própria indicação dos limites da vertente se torna mais rigoroso se não for considerada esta discrepância, desconsiderámos a mesma para as posteriores análises.
Seriam logo estas razões suficientes para levar à assunção de que, para uma leitura mais “correcta” da iconografia, seria necessário um “ajuste” desta ao actual levantamento –reconhecendo a necessidade de uma sobreposição dos elementos desenhados para a expressão concreta de uma continuidade construtiva entre épocas que, pressupõe-se, se tenha dado.
Nesse sentido, tendo como referência o essencial trabalho de Cristina Garcia239, no que toca a sua própria reconstituição (histórico-arqueológica) das obras de reconstrução de Cacela ao longo dos períodos de ocupação, tomámos a adaptação da planta da Vila de 1621 ao levantamento vectorial das estruturas actualmente edificadas, que poderia oferecer uma mais clara (re)interpretação dessa iconografia para um seu entendimento diacrónico. Essa representação por Garcia vê a adaptação dos torreões Sudoeste e Sudeste da representação de Massai de 1621, aos baluartes de correspondentes
Fig. 38 Sobreposição da reconstituição vectorial (pelo autor) da planta da “Vª de Cassella” por Massai (1621), com o levantamento vectorial de 2013 de Cacela Velha.

240 veja-se Fig. 39
241 Garcia, 2015a: 160 veja-se Fig. 41 [p. 139]
orientações, segundo o canto Norte de ambos 240. Isto, sucedendo a sondagem arqueológica iniciada originalmente em 2004 –que revelou vestígios na “praça” interior, na zona do baluarte Sudoeste 241, precisamente no canto Noroeste–, oferecendo a confirmação praticamente indubitável da presença da fortaleza na época setecentista conforme representada pelo engenheiro, e segundo um mesmo (ou minimamente semelhante) posicionamento ao da actual edificação.

Fig. 39 Adaptação, por Cristina Garcia, da reconstituição da planta de Massai de 1621 às actuais edificações (Garcia, 2015a: 195)
Assim, testámos a nossa própria adaptação de uma para outra planta –pressupondo a mesma reutilização das estruturas edificadas entre épocas–, com um maior grau de rigor, através da utilização de Sistemas de Informação Geográfica. Importando a iconografia produzida por Massai para o ArcGIS, para a sua adaptação ao levantamento existente na base de dados do próprio programa (segundo o sistema de georreferenciação PT-TM06/ETRS89, utilizado em Portugal Continental), era necessária a correspondência de pontos comuns para testar a eventual mudança no sistema de georreferenciação.
Delineámos inicialmente como referentes os vértices dos torreões Norte e Sul da fortaleza, assim como os vértices da entrada (Poente, portanto) da Igreja.
Verificámos, no entanto, na tentativa de alinhar os pontos da Igreja, uma grande deformação da planta de Massai, para acomodar tais alinhamentos. Experimentámos então alinhar apenas os torreões Norte do forte, em conjunto com os vértices do topo Nascente da Igreja –por ter um maior número de pontos numa pequena área. A relação com os pontos correspondentes ao levantamento presente, apresentou uma grande deformação da fortaleza242 , perdendo-se assim as relações geométricas desta, cuja correspondência com a actualidade reconhecíamos já como quase certa.
242 veja-se Fig. 40

Regressando, a este ponto, à adaptação reconstitutiva por Garcia, se a referida sondagem arqueológica oferecia confirmação da sobreposição do elemento arquitectónico militar, não justificava necessariamente a sobreposição directa do corpo da igreja, conforme igualmente ilustrado aí. À partida, a hipótese não era descabida, podendo o corpo da igreja actual (para lá das suas diferenças tipológicas) ter sido edificado sobre (o d)a “primária” igreja do século XVII, num aproveitamento dos materiais já existentes.
Fig. 40 Adaptação da Planta da Vila de Cacela de 1621 por Massai, ao levantamento actual em SIG do núcleo de Cacela
Fig. 41 Levantamento vectorial da sondagem arqueológica do baluarte Sudoeste da fortaleza de Cacela Velha (Garcia, 2015a: 162)

Apesar disso, existe uma visível diferenciação –da iconografia para o actual estado– na relação entre a fortaleza e a igreja. O corpo Nascente da Igreja, sobressaído –possivelmente correspondente ao que seria o altar-mor–, não alinha com o torreão Sudoeste do forte (como actualmente o corpo correspondente faz); e o próprio muro em frente da Igreja vê a sua edificação nascer no canto Sudoeste desse torreão, contrariamente ao actual, que parte do canto Noroeste. Distinções que, ainda assim, poderiam ser interpretadas como novas incongruências nesta representação, causadas pela eventual diferenciação no sistema de referenciação geográfica.
Mas considerando, à partida, a falta de outros referentes territoriais precisos, e uma correspondência bastante acertada do posicionamento geográfico de todos os elementos arquitectónicos com as suas respectivas edificações à actualidade (independentemente das diferenças de implantação), considerámos estas relações entre os diferentes objectos arquitectónicos –segundo distanciamentos e alinhamentos entre os elementos– um dos instrumentos com que Massai se terá salvaguardado para conseguir fazer o levantamento com a precisão requerida pela corte.
Neste ponto, propusemo-nos a congregar num mesmo suporte as diversas referências a qualquer vestígio edificado respeitante ao nosso estudo de caso, por forma a facilitar uma consulta de tão variadas fontes e, consequentemente, auxiliar a colmatação destas incongruências.
Recolhidas numa mesma matriz de evidências 243, as referências estão organizadas desde logo por elemento edificado:
a Igreja Matriz (de origem no século XII, a partir da primeira referência à mesma);
· a Fortaleza (o elemento que advém desde a muralha islâmica até à última “versão” da fortaleza de Cacela como a conhecemos);
o Bairro do Poço Antigo (considerando-o como um todo constitutivo das diversas habitações que o compõem);
· a Casa Paroquial; a Casa da Câmara;
· o Pelourinho/Cisterna (unificados, pela Cisterna ter sido construída no sítio onde antes se encontrava o Pelourinho);
a Ermida (elemento distinto da Igreja Matriz, apesar da sua denominação enquanto Igreja Antiga).
A partir daí, encontramos:
· a descrição de cada um dos vestígios conhecidos/achados;
· a(s) respectiva(s) referência(s) bibliográfica(s) onde foi feita a leitura destes; a/o respectiva/o época/ano inicial de construção a que o vestígio se reporta ou, ao invés, ano em que foi referenciado tal elemento ou vestígio concreto numa determinada situação;
· quando possível, aquilo que denominámos como uma ilustração do vestígio (em forma de fotografia); e/ou de uma Planta (que poderá corresponder a uma iconografia específica, ou iconografia produzida pelos autores consultados, como se verifica exemplarmente para a maioria dos vestígios arqueológicos).
Deixámos também um espaço dedicado a breves observações, permitindo a indicação de uma qualquer leitura directa do vestígio em questão, de qualquer correlação com outro indicador na tabela, dentro do mesmo elemento arquitectónico ou entre diferentes elementos; ou para indicação de um outro vestígio que se reporte à mesma referência bibliográfica.
Na secção dedicada à Igreja Matriz, deixámos todas as referências que se reportam à edificação erigida na zona onde a actual se encontra, pese embora a eventual hipótese desta poder ter uma implantação diferente da actual no início do século XVII, conforme verificado na comparação entre iconografias. Reconhecemos, no entanto, uma certa continuidade tipológica
243 veja-se Tabela 1 [pp. 141-143]
Tab. 1 [páginas seguintes] Matriz de evidências indicativa dos diversos registos de vestígios edificados de Cacela Velha.
ElementoReferênciaÉpocaDescriçãoIlustraçãoPlantaObservações
Garcia, 2015a: 193Séc. XIIIconstrução da nova fortificação com alojamento dos militares Inventário igrejas , 1320-1321 apud Garcia, 2015a: 98 1321Igreja de Santa Maria de Cacela Oliveira, 2008: 1441482visitadores da Ordem encontraram as igrejas do sotavento algarvio, incluindo Cacela, muito danificadas Serra, 1996: 216 igreja de uma nave
Serra, 1996: 219 Cavaco, 1987: 23 apud Garcia, 2015a: 190 torreão defronte da Igreja tinha função de campanário
Direção-Geral do Património Cultural 1538Igreja de Nossa Senhora da Assunção em construção, sobre as ruínas da igreja medieval

Direção-Geral do Património Cultural Garcia, 2015a: 99
(ver: Fortaleza > Torreão sul, de cronologia medieval)
confirmar: Visitação da Ordem de Santiago (…) 1554 Obra praticamente terminada; adro demarcado Visitação à igreja; referida uma porta lateral a Sul nenhuma porta indicada a Norte, onde existe actualmente
1586Inscrição alusiva à construção da Capela de Nossa Senhora dos Mártires

Massai não representa capela a Norte, onde está actualmente alguma ligação com Ermida?
1617 Ainda não existia qualquer capela lateral a Norte do corpo da igreja Porta lateral localizada na fachada Sul (ver: acima)

Massai, 16171617/1621 "(…) aprovarei que se desman= che esse pásse a Egreija em outra p.te pella térra adentro (…)" significa esta referência uma posterior reedificação da igreja?
Garcia, 2015a: 1001662referida necessidade de conserto da parede do campanário da igreja
Direção-Geral do Património Cultural Garcia, 2015a: 100
1664Referência à existência de uma Confraria de Jesus que funcionava em dependência anexa à igreja 1755Ruína da igreja provocada pelo terramoto
Memórias paroquiais 1758 Três naves; Capela-mor; Capela de Nossa Senhora dos Mártires
Direção-Geral do Património Cultural Garcia, 2015a: 101 1780Inscrição no lintel da Casa da Misericórdia
Garcia, 2015a: 1001794
Reconstrução após terramoto abertos os janelões e reconstruídas capelas laterais do lado sul, que tinham sofrido derrube torre sineira coroada por cupulim
Garcia, 2015a: 180Séc. X/XIMuralha da Alcáçova a Norte
Garcia, 2015a: 191Séc. XII/XIIIReforço de taipa da muralha norte, no período das primeiras taifas ou mesmo época almorávida



Garcia, 2015a: 176?Restos de muralha pertencentes à fortificação medieval Padrão, 1967 apud Garcia, 2015a: 98, 177, 190 ?Torreão Sul, de cronologia medieval, defronte da Igreja em 1518, tinha função de campanário da Igreja

Garcia, 2015a: 178 Paredes junto da Muralha Norte da Alcáçova
Sec. XII/XIII
Garcia, 2015a: 119 Paredes junto do muro Norte da Fortaleza



(ver: Muralha da Alcáçova a Norte)

Garcia, 2015a: 1921240erigida barbacã em redor das muralhas islâmicas preservadas

(ver: Muralha da Alcáçova a Norte)
Carta Foral 1283 apud Garcia, 2015a: 190
1283Atalaia a Oeste da fortaleza
Garcia, 2015a: 193Séc. XIIIconstrução da nova fortificação com alojamento dos militares


Relatório do estado das fortificações algarvias apud Garcia, 2015a: 193
1475castelo derrubado
Garcia, 2015a: 162-163Muralha e torreão
Garcia, 2015a: 174-175, 190Porta lateral entaipada, ao lado do torreão nordeste da fortaleza quinhentista;
Séc. XVI
Direção-Geral do Património Cultural Garcia, 2015a: 194
Campanha renascentista Construída parede de taipa de sustentação, aquando do aterro do talude Nascente reforço de taipa foi aplicado igualmente na arriba Sul, junto da igreja





"(…) poderia denominar-se “Porta do Mar” em época islâmica acesso ao arruamento que atravessava o bairro do Poço Antigo com sentido oeste-este, conduzindo ao porto da povoação"
Bairro do Poço Antigo
Direção-Geral do Património Cultural 1521 estruturas defensivas medievais quase desmanteladas; mandada construir a fortaleza
Cavaco, 1987: 276-277
apud Garcia, 2015a: 194 1565
visitadores do Mestrado de Santiago viram "o castelo todo murado e a muralha reformada de novo, o qual é quadrado e tem em cada canto sua torre"; queda de uma torre a Sul Garcia, 2015a: 1941573 revista às fortificações marítimas algarvias castelo de Cacela recuperado
Guerreiro & Magalhães, 1983: 54, 169 apud Garcia, 2015a: 194 1600castelo mantinha-se “muito forte, com duas torres muito boas"
Massai, 16171617/1621
Levantamento e projecto de reedificação do forte "Cahio hu~pedásso de muro do ditto Castéllo da párte do már (…) oquál se deve conserár" torre de 47 palmos de altura

confirmar: Visitação da Ordem de Santiago (…)
Casa Paroquial
Memórias paroquiais1758
SomentetemhumCastello aopé daIgreja (…) (…) grande Ruina no Terremoto (…) (…) oqualestá quazi Reparado (…)
Vasconcelos, 17841784Mapa de configuração da fortaleza
difere da referência de 1565, que indicava torre em cada canto; poderá significar já os problemas na muralha Sul, conforme depois indicado por Massai?
parece apresentar desenho originário do castelo cristão apresenta adaptação pretendida


representado [estado após terramoto] na planta de Massai (ver: Projecto de restruturação da fortaleza)
Vasconcelos, 179?179? Projecto de restruturação da fortaleza; mudança na entrada e corpos interiores apresenta o estado da fortaleza prévio ao terramoto
Garcia, 2015a: 1011794lápide alusiva à conclusão em 1794 das "obras de reedificação"
Garcia, 2015a: 201Séc. XII embasamento das casas constituído por muros em alvenaria sobre maciço rochoso, com largura 0,5 m; altura dos muros entre 0,5 e 1,2 m Garcia, 2015a: 306
Garcia, 2015a: 193Séc. XIIIConstrução das casas da paróquia
Garcia, 2015a: 103Séc. XVEstrutura provavelmente quinhentista





Casa da Câmara Garcia, 2015a: 106?construções de taipa; encostavam à muralha norte representadas no desenho de Massai
Pelourinho/Cisterna Cavaco, 1990: 246 apud Garcia, 2015a: 107
Direção-Geral do Património Cultural Cavaco, 1987: 24, 275 apud Garcia, 2015a: 193
Serra, 1996: 219 Visitação da Ordem de Santiago (…) apud Cavaco, 1987: 24, 275 apud Garcia, 2015a: 193
1662 pelourinho foi consertado em 1662 e foram adicionados dois argolins; representado na planta de Massai (1621) e, posteriormente, na Carta topográfica de Vasconcelos (1775)
Séc. XVIIIactual cisterna será uma obra da segunda metade do século XVIII
Séc. XIIIprimeira igreja da comenda de Cacela, da invocação de Nossa Senhora dos Mártires com cemitério adossado
Direção-Geral do Património Cultural 1565 ainda existia a pequena igreja primitiva em madeira, com invocação de Nossa Senhora dos Mártires, a "quall foy Igreja Matriz desta Villa" conhecida como ermida de Nossa Senhora dos Mártires alguma ligação com a Capela da Igreja Matriz?
1518 Igreja Antiga da Comenda de Cacela no exterior do castelo, onde existia o bairro islâmico
e estruturante suficiente para significar dois momentos de uma mesma estrutura arquitectónica.
Neste seguimento, os referentes à primitiva igreja erigida em Cacela (antiga Igreja da Comenda de Nossa Senhora dos Mártires) foram deixados à parte, por se reportarem a uma estrutura edificada numa zona inteiramente diferente, ainda durante a instauração da ocupação da Ordem de Santiago na zona, significando certamente um carácter (e por conseguinte, tipologia) distinto(s) da Igreja Matriz.
Simultaneamente à formulação desta matriz, apercebemo-nos da necessidade de, paralela e complementarmente à mesma, fazer uma sua transposição para o mesmo formato do mapa sinóptico anteriormente realizado.
Pretendemos neste novo registo oferecer ao leitor um esclarecimento dos diversos tipos de vestígios “utilizados“ para cada elemento arquitectónico em análise. Assim sendo, se na base deste novo mapa sinóptico cada elemento do edificado tomaria a mesma “posição“ que os factores contextuais tinham no original, estes expandiram-se para incluirem os seus diversos vestígios:
· existentes (significando, referências temporais que reportam à data originária de aspectos do edificado que permaneçam à actualidade);
· arqueológicos (reportando aos vestígios descobertos em escavações);
· documentais (respeitantes a referências em documentos escritos originais; ou datações mencionadas em bibliografia diversa);
· iconográficas (quaisquer peças desenhadas).
De acordo com a matriz anteriormente referida, os elementos principais –a Igreja Matriz e a Fortaleza– receberam uma secção própria. No entanto, os restantes elementos conhecidos e/ou recolhidos da povoação –relembrando: Bairro do Poço Antigo, Casa Paroquial, Casa da Câmara, Pelourinho/Cisterna, Ermida–foram englobados numa mesma secção, em parte por uma questão de limitação no suporte aqui utilizado, mas essencialmente por estes não terem elementos suficientes que justificassem a sua inclusão em secção própria e individualizada. Também para estes casos, por apenas termos recolhido dois tipos de referências durante a nossa investigação, apenas incluímos registos arqueológicos e documentais para estes elementos arquitectónicos.
Porque a leitura se pretendia a mesma do anterior mapa sinóptico, incluímos alguns factos históricos “fundacionais“, por poderem servir de contextualização a um conjuntos de referentes e, também assim, de fundamentação para eventual momento de restruturação. De notar, o constante movimento de destruição e recuperação da fortaleza nos tempos anteriores à formulação do mapa de Alexandre Massai, intercalados pela campanha renascentista de reconstrução do núcleo, o que poderá ilustrar à partida uma vontade mais vincada de resolver questões permanentes.
Foi então numa nova leitura do documento que acompanhava a iconografia delineada por Massai, a par com uma (re)leitura das sondagens arqueológicas, que levantámos uma nova hipótese para o estado das edificações durante o primeiro quartel do século XVII. Veja-se o caso da falta de representação de uma capela a norte no mapa de 1621, apesar da inscrição sobre a actual Capela de Nossa Senhora dos Mártires a datar de 1586; ou a entrada na fachada Sul, da qual nenhum vestígio existe.
Alexandre Massai aponta, como proposta resolução para as questões levantadas da povoação, uma possível relocalização da igreja, dada a fraca ocupação da vila à altura. Não tendo sido dado seguimento ao aconselhamento do engenheiro –numa presumível vontade política em manter uma activa ocupação militar na zona em questão–, era à partida visível a intenção demonstrada então em transpor aquela estrutura para outro lugar, por o seu valor poder não ser inteiramente reconhecido pela população.
Maior factor, no entanto, será seguramente a já indicada dificuldade de manutenção das estruturas perto/sobre (d)a arriba que, face os vários reportados derrubes e/ou danos, vê na campanha renascentista de reconstrução da Igreja e Fortaleza –com o reforço de taipa dos muros
Nascente e Sul 244– numa franca tentativa de colmatar essa dificuldade, tendo aliás em conta o derrube do castelo em 1475 245, e a deterioração da Igreja (em visitação da Ordem em 1482), quase quatro décadas previamente ao reforço supramencionado 246
Fig. 43 [página seguinte] Mapa (cronológico) sinóptico desenvolvido pelo autor, representativo dos diversos vestígios (construídos, iconográficos, etc.) dos elementos edificados existentes no Núcleo Urbano de Cacela Velha.
244 Garcia, 2015a: 191
245 Garcia, 2015a: 193
246 Oliveira, 2008: 144
Fig. 42 Entrada para a Capela de Nossa Senhora dos Mártires, localizada na fachada Norte da actual Igreja de Nossa Senhora da Assunção (Cacela Velha), onde se pode ver em cima inscrição alusiva à sua construção em 1586 (fotografia pelo autor)


Construções islâmicas hipoteticamente do séc. IX-X
(re)construção de centros urbanos e fortalezas na costa atlântica; arrabitas e husûn
Igreja vestígios
reforço de muralhas
Data potencial de construção da nova fortificação (com alojamento dos militares), da ermida e casas da paróquia
novas fortificações
estaleiros grande escala
renovação da arquitetura militar cristã
iconogr docum arqueol existentes

Fortaleza

Bairro do Poço Antigo
1164
Igreja matriz de uma nave
1321
Campanha Renascentitsta; reconstrução da Igreja e Fortaleza

1518
Igreja de Santa Maria de Cacela 1482 visitação da Ordem encontraram igrejas do sotavento algarvio, incluindo Cacela, muito danificadas
1240 erigida barbacã em redor da muralha islâmica
Reforço de taipa da muralha norte Islamização do Al-Andaluz
1283
atalaia a Oeste da vila, de onde se podia vigiar o poço
Primitiva Igreja, com cemitério
1238-1240
Conquista de Cacela pela Ordem de Santiago
1272
1297
1554

Obra quase acabada; adro demarcado; porta a Sul 1586 Inscrição sobre Capela de Nossa Senhora dos Mártires
Uma nave; torreão frente à Igreja era campanário
1518
parede de taipa de sustentação, aquando do aterro do talude Nascente

1465 apenas resta castelo
1475 castelo derrubado
Possível datação da casa paroquial
1617-1621
referência à eventual mudança da implantação da igreja; porta lateral a Sul
1758
Três naves; Capela-mor; Capela de Nossa Senhora dos Mártires
1794
1662 parede do campanário precisa de obras
1573 revista às fortificações marítimas algarvias; castelo recuperado
1565 muralha reformada; queda de 1 torre Sul
1518
Igreja Antiga da Comenda no sítio do bairro islâmico
1600 castelo com 2 torres boas
1617-1621
1465
fundação Ordem de Santiago 1551 incorporação da Ordem de Santiago na Coroa Portuguesa
Processo judicial; Cacela volta à Coroa
Cacela regressa à Ordem; limites da vila reduzidos
comendador da Ordem pede autorização para povoar vila



Mapa de configuração da fortaleza 1775 Carta topográfica da Vila de Cacela
Reconstrução; abertos janelões; reconstruídas capelas a Sul; cupulim da torre sineira 179?

queda do muro Sul e projecto de reforma 1662 pelourinho consertado e adicionados 2 argolins
1641
criado o Conselho da Guerra; responsável pela construção de fortificações
Guerra da Restauração
Projecto de restruturação da fortaleza; mudança na entrada e corpos interiores 1784

1774
Integração
1755
Terramoto
247 Garcia, 2015a: 192
248 Garcia, 2015a: 179-180;
veja-se Fig. 44
Assim, o que antevimos foi a possibilidade da igreja poder ter sido inicialmente edificada mais próxima da arriba (conforme a representação de Massai), para ser posteriormente vitimada pela erosão da vertente de forma drástica, recebendo mais tardiamente uma sua reedificação.
Também a presença de um muro barbacã em redor e próximo da muralha islâmica, mais baixo que esta e de pouca espessura –edificado aquando da reconquista cristã do território 247, e revelado (parcialmente, a Norte da povoação 248) em sondagem arqueológica entre 2004 e 2009–, poderia sinalizar uma pista coadunável com o desvio entre a representação de Massai e o levantamento actual, correspondendo o muro defronte à Igreja (na iconografia) a essa mesma inicial barbacã, não coincidente com o actual muro.
Fig. 44 Levantamento da sondagem arqueológica da muralha norte de Cacela Velha, com presença de barbacã a norte da antiga muralha islâmica (Garcia, 2015a: 180)

249 Garcia, 2015a: 175;
250 ibidem
251 veja-se Fig. 46 [p. 150]
Aliás, a descoberta de pavimentação na zona a Sul da igreja 249 revela um pormenor bastante interessante e coadunável com esta hipótese. A direcção da moldura desse pavimento, paralela (sensivelmente, acrescentamos) à fachada da igreja, revela-se na realidade segundo a mesma direcção segundo a qual Alexandre Massai representa a igreja e muro no(s) seu(s) levantamento(s) de 1617/1621, como a própria autora apontou 250
É até visível, pelo registo fotográfico, a direcção da moldura oblíqua ao muro actualmente existente. Observando a reconstituição de Garcia 251, a autora considerou a demarcação dessa moldura como parte do que teria sido o sector Sul da muralha islâmica, mas a diminuta largura do elemento em
questão não aparenta ser parte de uma prévia muralha. Aliás, Garcia refere igualmente a existência na arriba (portanto, mais à frente) de duas linhas diferentes de restos de muralha. Pelo que acreditamos que esta possa então ter sido um elemento pertencente à igreja que Massai representou.

Nesse seguimento, se traçarmos uma linha paralela ao limite do muro junto à igreja (do mapa de 1617/1621), com 1 m de distância, para Norte (através do comando ‘Offset’, no programa AutoCAD®), seguida de uma outra linha, paralela a essa entretanto realizada, distanciada dela 2,4 m 252 –medidas que podemos retirar da sondagem arqueológica de 2004–2009, no que toca à espessura da muralha islâmica e seu distanciamento da barbacã 253–, verificamos a quase correspondência desta última linha com o limite da parede sul da igreja na representação de Alexandre Massai.
O que, na nossa perspectiva, comprovaria a hipótese do muro, conforme representado pelo engenheiro (não coincidente com o actual na nossa justaposição), corresponder à secção Sul da mesma barbacã desvendada entre 2004 e 2009, podendo ter sido a igreja (à altura da (re)conquista cristã do território) edificada com o seu alçado Sul encostado ao antigo limite da muralha islâmica. Esta última ficaria (de acordo com o desenho acima descrito) entre a igreja e o muro, em
Fig. 45 Reconstituição hipotética, por Cristina Garcia, da Alcáçova de Cacela Velha, com demarcação dos vestígios arqueológicos conhecidos (2015a: 189)
252 veja-se Fig. 47 [p. 151]
253 ver nota 248 [p. 149]
Fig. 46 Pavimento de seixos com moldura entre a Igreja de Cacela e muro em frente, eno decorrer da obra de drenagem realizada na falésia em 1998 (Garcia, 2015a: 180)

254 Garcia, 2015a: 176
Fig. 47 Demarcação primária do que poderia ter sido a muralha islâmica defronte da igreja (conforme ilustrada por Massai), considerando o muro como sendo a barbacã erigida após (re) conquista cristã, e tendo em conta as medidas dos vestígios da muralha islâmica achados na zona Norte da povoação.
sítio coincidente com a actual zona da arriba onde estão ainda presentes vestígios de enrocamentos de cronologia medieval 254
Para fundamentação desta hipótese, propomos a demonstração do rigor

255 veja-se Fig. 48

Fig. 48 Quadratura da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, conforme representada por Massai.
presente no levantamento de Massai, verificado através da aplicação de uma quadratura 255 à reconstituição vectorial nossa da planta da igreja conforme representada pelo engenheiro na(s) planta(s) de 1617/1621.
Conseguimos à partida inserir na planta dois quadrados contíguos, rotacionados a 45º relativamente às paredes laterais da igreja, entre o limite exterior da entrada (a Poente) e o limite interno do altar-mor (a Nascente), tocando os limites externos das paredes laterais (Norte e Sul). A partir daí, pudemos verificar uma certa proporcionalidade; em que espessura das paredes corresponde a 1/10 da medida do eixo entre vértices opostos dos quadrados mencionados, e tendo o altar-mor sensivelmente 4/10 dessa mesma medida.
Sensivelmente, porque verificamos simultaneamente uma diferenciação no alinhamento do altar-mor, não se mantendo simétrico ou centrado ao eixo longitudinal do restante corpo da igreja. Verifica-se ainda um ligeiro desvio, em 2 graus, das paredes laterais do altar-mor relativamente à direcção das paredes laterais do restante corpo da igreja, não se verificando paralelismo entre os dois conjuntos de paredes –e não se verificando perpendicularidade entre as paredes laterais e a parede de fundo do corpo sobressaído, sendo esta última paralela à parede (Poente) de entrada na igreja. Verificam-se,
assim, relações de paralelismo e perpendicularidade entre todas as paredes da igreja, exceptuando as duas paredes laterais do corpo ressaltado.
Entretanto, o mesmo desalinhamento do altar-mor no estado actual da igreja não se coaduna o que verificámos. Antes, o altar-mor actual apresenta uma inclinação de 5º para Sul em relação às paredes laterais da igreja segundo o levantamento actual.
Ainda que esta quadratura não revele uma contingencial aplicação de uma lógica geométrica a priori no desenho e edificação da igreja –por entre a dificuldade do seu preciso emprego na construção em si– não deixa de revelar a aplicação de um extremo rigor na representação pelo engenheiro, mesmo nos elementos de menor relevância e dimensão.
Ajudará também a esta hipótese um outro factor. Conhecemos a existência até recentemente de um torreão de origem medieval (cuja base era ainda parcialmente visível em 1967, de acordo com registo fotográfico 256), fronteiro à igreja –com função reportada de campanário 257 durante a visitação da Ordem de Santiago em 1518. O seu posicionamento na inflexão do muro em frente da entrada da actual Igreja (conforme visível na fotografia 258), posiciona-o alinhado, tangencialmente, com a fachada Sul do corpo assinalado como “‘Egreija de nossa sorã da Asunssão” na iconografia do século XVII. Ficamos, assim, com uma conjugação de factores que apontam para a possibilidade desta presença arquitectónica prévia à implantação actual.
Ainda adicionamos o facto de na Visitação da Ordem a Cacela em 1518 ser referido que “(...) O corpo da dita Igreija [de Nossa Senhora de Cacela] hé de huma soo nave (...)“ 259, sendo em 1538 a (re)construção da Igreja (aqui, já dedicada a Nossa Senhora da Assunção) feita sobre as ruínas da igreja medieval 260. Ainda que não conclusivo, poderá tratar-se de mais um indício de que houve uma outra fase da Igreja, potencialmente ilustrada por Massai e distinta da actual.
Não deixamos, no entanto, de assinalar a estranheza de um tão mínimo desvio –um recuo de tão poucos metros, no que significaria à época um esforço injustificado de reconstrução da edificação em causa–, para mais, considerando a aparente inexistência de modificações tipológicas ou morfológicas (ao nível da implantação geral) entre ambos os registos
256 Padrão, 1967 apud Garcia, 2015a: 98, 190
257 Serra, 1996: 219; Cavaco, 1987: 23 apud Garcia, 2015a: 190
258 veja-se Fig. 49 [p. 153]
259 Serra, 1996: 216
260 Direção-Geral do Património Cultural, 2010b
Fig. 49 Igreja matriz e torreão fronteiro, encostado ao muro (assinalado), inexistente à actualidade (Padrão, 1967, apud Garcia, 2015a: 99) 261 Garcia, 2015a: 195 veja-se Fig. 39 [p. 137]
arquitectónicos da igreja. A eliminação da entrada a Sul (sensivelmente coincidente com o actual altar no mesmo sítio, mas não se sobrepondo); assim como a construção da torre campanário e da capela do lado Norte da igreja matriz (talvez uma transmutação da antiga ermida de Nossa Senhora dos Mártires, adossada à igreja em data posterior ao levantamento de Massai?); poderiam ter sido modificações pontuais ao existente e não necessariamente representativas da reconstrução do objecto arquitectónico.

Ainda assim, vemos no apontamento destas incongruências e leituras cruzadas o necessário contributo da utilização das ferramentas que nos propusemos utilizar e que aqui fomos descrevendo, independentemente do resultado da sua aplicação com maior ou menor grau de finalização, por terem permitido uma análise integrada dos dados que, de forma isolada, seria possível.
Com esta hipótese, a adaptação por Garcia da planta de 1621 por Massai, ao levantamento actual 261 não se justificaria, e ficaria (sensivelmente) “legitimada” a falta de sobreposição de todos os elementos, sem, no entanto, termos elementos que nos permitam posicionar temporalmente as presumidas modificações, entre esta época e o século XVIII –em que sabemos terem ocorrido as modificações mais próximas do estado actual (demonstrado em subcapítulo próximo).

Se fomos apontando a dificuldade em compreender e estabelecer precedentes para a época islâmica, foi de facto para esse período de ocupação do núcleo de Cacela Velha em que as maiores dificuldades se expressaram na nossa vontade de restituição de um qualquer momento específico na vasta história de ocupação muçulmana deste território.
No entanto, face à hipótese levantada, fixámos como objectivo próximo a reavaliação dos dados conhecidos dessa época perante estas novas idealizações. Propusemo-nos, a partir daí, fazer a nossa própria “revisão” (em jeito de complementaridade e continuidade) da reconstituição da alcáçova islâmica que Garcia sugeriu na sua investigação em 2015.
262 veja-se Fig. 47 [p. 151]
263 ver nota 248 [p. 149]
264 veja-se Fig. 44 [p. 149]
265 Garcia, 2015a: 171
Fig. 50 [página anterior] Sobreposição da reconstituição da muralha da alcáçova por Garcia (2015a) , com reconstituição vectorial da planta de Massai (1621), e levantamento actual do núcleo urbano de Cacela Velha.
De acordo com a proposição do capítulo anterior, iniciámos o nosso “ajuste” a Sul do sítio da Igreja, de acordo com a delineação do muro realizada por Massai, considerando-a enquanto parte da barbacã de origem cristã. Se anteriormente apontámos o distanciamento (de 1 m) entre esse elemento e o que teria sido a alcáçova 262, como reflexo do que foi possível testemunhar nas escavações de 2004–2009 263, para o nosso ensaio desenhámos a alcáçova nessa zona com o seu limite exterior encostado ao limite interior do muro. Com o comando ‘Offset’, no programa AutoCAD®, traçámos uma linha paralela ao limite do muro para Norte com os já reportados 2,4 m que a alcáçova tem.
Fica a resultante delineação “encaixada” entre os dois elementos (muro e igreja), presumindo a possibilidade da barbacã ter sido erigida junto à alcáçova, enquanto reforço do existente, devido à dificuldade de construção na arriba –como, aliás, é reportado para a parte da muralha a Norte (do séc. XII/ XIII)264, ou para a parte da muralha Nascente (revelada como sendo de entre os séculos XV e XVII) 265
Seguindo a sua delimitação na direcção Este, mantivemos o muro Sul da fortaleza como limite para a muralha nessa zona, na assunção de que teria havido um
aproveitamento aquando da (re)conquista cristã da muralha previamente erigida como base estrutural para a fortaleza. “Facto” aqui assumido para o qual contribuiu a diferenciação em apenas cerca de 0,4 m da medida da muralha descoberta para a dessa parede do forte (em 1617/1621).
Seguidamente, procedeu-se à (de)limitação da muralha do seu lado Nascente, ao considerarmos a presença do muro de taipa nessa parte da povoação, por ser um reforço da muralha já existente (que estaria basicamente derrubada) erigido aquando do aterro da plataforma próxima, durante os trabalhos de restruturação arquitectónica no segundo quartel do séc. XVI das áreas da Igreja, Fortaleza e vias circundantes 266
Na zona Norte da povoação, a (re)definição do perímetro da alcáçova torna-se mais facilitada por um lado, por existirem registos arqueológicos da mesma, mas simultaneamente dificultados, por serem escassos e não permitirem uma definição mais precisa de toda a extensão da muralha aí, pelo que considerámos essa porção da muralha com uma mesma direcção em todo o seu comprimento.
Por fim, o limite Poente da muralha foi mantido conforme o referido por Garcia, tendo em conta a sua menção à estrutura de pedra sobre a qual a parede do
Cemitério Antigo se edifica 267. Não deixamos qualquer definição da entrada na fortaleza, visto não existir qualquer registo concreto que nos indicie para um possível apontamento da mesma. Ainda que subscrevamos a hipótese levantada pela autora mencionada 268, tendo em consideração a visível particularidade dos ângulos patentes na implantação das habitações que delimitam a actual entrada para o largo da fortaleza.
Relativamente às torres albarrãs, presumiu-se que a medida padrão, tendo em conta os torreões (re)conhecidos 269: seja o patente no(s) mapa(s) de Massai. Tendo inicialmente considerado a restituição das torres da alcáçova de acordo com uma completa adaptação dos torreões visíveis nas plantas de Massai face à implatanção actual do forte –no pressuposto da continuidade construtiva e morfológica entre épocas–, entendemos de maior consistência e coeerência não proceder a tal redesenho, por não o termos feito na representação vectorial dos planos por Massai, devido a ligeiras incoerências.
266 Garcia, 2015: 194
267 Garcia, 2015: 189-191
268 Garcia, 2015a: 190
269 Cavaco, 1983: 23; apud Garcia, 2015a: 190-191
270 Garcia, 2015a: 190
Além disso, a adaptação da implantação dos torreões implicaria posteriormente a modificação do perímetro da muralha nessa zona, procedimento para o qual não teríamos justificação (iconograficamente sustentada). Mais, estes procedimentos poriam parcialmente em causa a representação por Massai, na qual reconhecemos rigor proporcional e metrológico, conforme demonstado para a igreja no final do subcapítulo anterior; rigor esse que antevimos de igual maneira para a fortaleza, pese embora as pontuais incongruências (veja-se, no alinhamento por inteiro dos torreões).
Foi o que nos levou a consultar novamente o mapa sinóptico, no intuito de entender a eventualidade desse(s) desvio(s). Verdadeiramente, já antes do projecto de reformulação tipológica da fortaleza de 1621, vira a fortaleza quinhentista/seiscentista por diversas vezes a queda do seu lado Sul, mesmo após a Campanha Renascentitsta de reconstrução da Igreja e Fortaleza de Cacela Velha durante o séc. XV.
Desta forma, tal como afirmado para a igreja, nada apontava para um posicionamento dos torreões desde então coincidente com os actuais; não descurando simultaneamente a hipótese da edificação da fortaleza após a (re)conquista cristã ter assumido a posição da alcáçova sua “antecessora”.
Nesta linha de pensamento, entendemos manter o desenho das torres Sudeste da nossa proposta de delineação da alcáçova de acordo com a restituição e sobreposição do mapa de 1621; modificando apenas a posição do que seria a torre junto à entrada (actualmente entaipada) para o denominado Bairro do Poço Antigo, no que julgamos credível ser um elemento mantido durante as várias épocas.
Assumimos nesse (re)desenho da alcáçova a torre correspondente ao torreão Sudeste setecentista como eventual torre de menagem, de maior porte e destacada, na sua posição priveligiada em relação à entrada na Ria.
Foi, então, com base nas medidas das “restantes“ torres (Sul e Poente) que delineámos o que poderiam ter sido as albarrãs nas intersecções entre a muralha norte e as muralhas Nascente e Poente, coincindido a posição do extremo Noroeste com a do enrocamento ainda visível, face à própria observação por Garcia 270

Fig. 51 Nova proposta de delimitação da Alcáçova Islâmica, com reconstituição vectorial da planta de 1621 por Massai, e levantamento vectorial de 2013 de Cacela Velha.
271 Disponível em: qiblafinder.withgoogle.com
272 veja-se Fig. 52
CFig. 52 Indicação da direcção da quibla (a azul) sobre a reconstituição vectorial da planta de 1621 por Massai, com ortofotomapa actual do núcleo de Cacela.
uriosamente, ao considerarmos a planta de Massai de acordo com a sobreposição por nós realizada, verificámos, na posição diferenciada da Igreja, um seu alinhamento Noroeste–Sudeste, sensivelmente correspondente à quibla nesta posição geográfica.
Ademais, aproveitando a ferramenta disponibilizada pela Google™, de nome ‘Qibla Finder’ 271, foi-nos possível verificar a exacta correspondência da orientação da igreja segundo Massai com o ângulo correspondente à quibla conforme indicada pelo programa 272. Curiosamente, dizemos, por sabermos primeiramente a impossibilidade de medição tão exacta à altura, e por sabermos ter resultado este posicionamento da igreja de um ajuste não verificado do desenho de 1617/1621.
Ainda que não justifique a posição do que teria sido a reedificação posterior (do séc. XVIII), contribuiu para aceitar a hipótese da implantação representada por Massai enquanto um momento prévio, explícito, ao alimentar a ideia de que essa implantação poderia até ter sido, anteriormente, coincidente com a de antiga mesquita, adaptada aquando da (re)conquista cristã do núcleo. Podendo, até mesmo, o ligeiro desalinhamento que verificámos no desenho do altar-mor resultar de um nível de adaptação do que teria sido o mirabe dessa mesquita ou um posterior acrescentro à estrutura originária.

Mais, conhecendo a existência do torreão de origem medieval, fronteiro à igreja273, para o qual apontámos a “coincidência“ do seu alinhamento com a parede Sul da representação de Massai da igreja, levou-nos a tecer a possibilidade desse torreão poder ter sido, anteriormente à ocupação cristã, a torre minarete, posteriormente convertida em campanário, conforme referido 274 na Visitação da Ordem de Santiago ao Algarve em 1518; e cuja localização coincidiria com a parede poente do templo, conforme é possível verificar de igual maneira na Igreja de Mértola 275 –curiosamente com semelhante invocação a Nossa Senhora da Assunção.
Dado o desenho circular desse torreão, considerámos até empregar a mesma delimitação morfológica a todos os torreões demarcados para a nossa proposta da Alcáçova, numa assunção de um desenho unitário, reconhecendo a presença da primitiva torre do campanário, a qual apresenta, apesar da sua planta planta quadrangular, uma parte circular 276 que indicia desde logo a organização interna da escada de caracol aí presente.
Factos que nos levaram a reforçar a possibilidade daí poder ter sido erigida, em tempos, a mesquita do povoado muçulamano de Cacela, estrutura da qual este torreão poderá ter sido parte constituinte, enquanto elemento fulcral dessa tipologia arquitectónica, dada também a presença usual deste elemento tipológico junto da entrada principal, na parede noroeste, das mesquitas presentes no território do Al-Andaluz 277
Com estas questões em mente, procedemos ao ensaio do que poderia ter sido o traçado da mesquita que teria tido aqui lugar, remetendo para regras comuns conhecidas da época. Em primeiro lugar, utilizámos o rectângulo raíz de Φ, esquema proporcional em diversas igrejas adaptadas de mesquitas, como sejam a Igreja de Mértola, ou a Igreja de Santa Maria da Feira, situada em Beja 278
Se, à partida, a morfologia era basicamente idêntica entre a igreja representada por Massai e a actual implantação, a aplicação das proporções patentes nos casos referidos acima “encaixam” na morfologia desenhada por Massai, notando-se uma correspondência entre as diagonais das Igrejas de Cacela e Mértola. A partir daí, percebemos também a correspondência entre a medida do vão da nave Sudoeste da Igreja de Mértola com a profundidade do altarmor da Igreja de Cacela (segundo Massai) 279. Se compararmos à actual
273 veja-se Fig. 49 [p. 153]
274 Serra, 1996: 219
275 Macias, Barroa & Martínez: 2018: 71
276 ibidem
277 Martins, 2023: 447
278 Pereira, 2022: 113
279 veja-se Fig. 53 [p. 161]
280 Martins, 2023: 445
281 veja-se Fig. 56 [p. 165]
Fig. 53 Comparação do traçado de implantação, baseado no rectângulo raiz de Φ, entre a Igreja de Mértola, a Igreja de Cacela actual, e a Igreja de Cacela conforma representada por Massai.
situação da igreja de Cacela, percebemos a existência de uma modulação, correspondente à profundidade do altar-mor, que sensivelmente iguala a medida do vão entre os pilares que compõem a nave central, no seu sentido longitudinal. Proporções que, no entanto, não são as mesmas no desenho de 1617/1621, voltando a reiterar a hipótese de serem edificações distintas.
Já se considerarmos um traçado regulador composto a partir de uma composição quadrada, conforme determinada pela configuração original da mesquita de Córdoba 280 (mais relevante edifício no Al-Andalus à altura), conseguimos perceber, na representação de Massai, uma relação proporcional quase exacta de 1 para ½ entre os lados internos do edifício, se olharmos a quadratura anteriormente aplicada 281. E desta forma, olhámos a hipótese de, como tantos outros exemplos, esta de facto poder ter sido antes uma mesquita, transformada em igreja aquando da (re)ocupação cristã.

Para qualquer uma das hipóteses, considerámos o desenho abarcando o altar-mor dentro do perímetro esboçado. No entanto, se tomarmos em consideração o desalinhamento do referido altar-mor, à semelhança do que acontece com a referida igreja em Beja –que vê o seu altar-mor enquanto
“acrescento” ao desenho original da mesquita, sinalizado pela torção da parede à qual liga 282–, poderíamos assumir a aplicação dos traçados lançados da parede de entrada para o altar-mor. A partir daí, vimos uma aproximação desse traçado ao torreão circular.
Atendendo ao rigor posicional e métrico das plantas de Massai, continua, no entanto, por explicar a sua, ainda que ligeira, “rotação” oblíqua da igreja, diferindo a da sua posição atual. A proximidade e quase sobreposição das estruturas que constatamos existir, não faria sentido caso se viesse a dar uma reedificação total da igreja, após a planta que Massai produziu, isto, é depois de cerca de 1617/1620 mas antes do Terramoto de 1755.
Tudo leva a crer, assim, que não houve “transferência” do templo e que, no fim de contas, Massai "errou" (?) na triangulação, já que o seu intuito primordial era de natureza militar e virado para a necessidade de avaliação do castelo/ fortaleza. A igreja era secundária. De toda a maneira, este intrigante erro de registo não contraria a análise que a seguir fazemos do castelo do período islâmico e medieval, baseado no seu levantamento, que nesse segmento aparenta ser preciso.
Recapitulando: a igreja mais antiga, resultante da transformação da mesquita estaria certamente a uso por volta de 1250 e disso nos dão conta os dois vãos de arco quebrado ainda existentes. Mas a que hoje encontramos é já do século XVI, fruto de uma remodelação profunda dessa igreja primitiva, remodelação essa que parece ter sido desejada – e começada - já em 1518. Sabemos de reconstruções e até de reedificações, mas neste caso estranha-se que tal tivesse acontecido dando origem a uma repristinação, mais do que a um restauro ou reparação, a poucos metros (ou até centímetros) de um edifício anterior, facto que não parece lógico, ou económico. Com efeito, se analisarmos o templo como ele se nos apresenta hoje, não encontramos indícios fortes de mudanças de implantação. A estrutura do edifício não nos autoriza tal conclusão. O que podemos dizer é que o templo cristão, fundado no século XIII, se sobrepôs a uma mesquita. E que depois foi objeto de uma ampla modificação.
A remodelação haveria de ter lugar; mas nada garante que se concluísse rapidamente. Apontaríamos, aliás, para um período de remodelação que
282 Pereira, 2022: 113
283 No caso, a paroquial de Nª. Sª. da Graça em Moncarapacho, a igreja de Nª. Sª da Conceição de Tavira e o exemplo eloquente de Santa Maria de Tavira (sobre esta última, v. Fernandes, 2000: 40-41)
se deve ter estendido no tempo, e que continuou na década de trinta, não esquecendo o sismo de grandes proporções que abalou o reino em 1531 e que terá, decerto, obrigado a reparações no edifício, ao ponto de uma “visitação” mencionar que, ainda em 1538, a igreja se encontrava em obras, facto reiterado na “visitação” de 1554.
Em termos morfológicos e estruturais, os arcos divisórios das naves obedecem ao esquema e proporções típicas do período manuelino ou tardomanuelino, com aduelas chanfradas pousadas em capitéis sobre colunas cilíndricas de tambores -a exemplo de outras igrejas algarvias próximas de fundação medieval 283. Em Cacela, a capitelização, pese embora o adiantado da obra, é claramente manuelina, com capitéis oitavados com golas, “cordas” e “billettes”, esquema típico no sul do reino, e até no Algarve Parecem resultar de uma primeira campanha de reconstrução: a divisão da nave do templo em três naves. Essa remodelação justificaria, também uma alteração da fachada principal e um possível alteamento das fachadas laterais. A inclusão do portal renascentista da “escola” de André Pilarte (c. 1517-1551), datará de uma segunda campanha, posterior aos anos 30 do século XVI.

Fig. 54 Capitel das colunas interiores [à esquerda] e pormenor da frontaria [à direira] da igreja de Cacela Velha (fotografias do autor)

A dimensão da igreja e dos anexos permitem extrapolar o processo de transformação de uma mesquita em igreja. Na distribuição dos volumes, considerando aqui a totalidade da obra como hoje se nos apresenta, o esquema proporcional da nave, projetado para o exterior a norte, assume a figura de um quadrado. Este quadrado é formado pela projeção em quadrante do lado maior da nave da igreja, permitindo intuir que a área mais
tarde ocupada pela Igreja e instalações da Misericórdia de Cacela, adossada à igreja, se serviram de um conjunto de alicerces pré-existentes ou, pelo menos, serviram-se da área delimitada para servir de guia para a edificação destes anexos. Ora, essa área, eventualmente exterior, corresponderia, pelo menos em parte ao sahn –ao pátio da mesquita– antes da sua conversão em igreja cristã. Do mesmo modo, o lugar hoje ocupado pela torre sineira, que se construía ainda em 1526, poderá ter sido o lugar de implantação do minarete ou “torre de chamamento” –em alternativa à nossa anterior suposição da torre-campanário.
Conforta esta hipótese um levantamento de várias mesquitas transformadas em igrejas cristãs no território do Al-Andalus, e para o caso que nos interessa, do Gharb Al-Andalus que se integra hoje no território português. Há, de facto, notícia segura, de modificações deste tipo –isto é, do aproveitamento de mesquitas e a sua conversão em igrejas cristãs segundo esquemas idênticos. Entre nós o exemplo melhor documentado arquitetonicamente é a Igreja Matriz de Mértola, antiga Mesquita almóada e amplamente estudada e que já referimos 284. Chama-se a atenção para o período em que tais alterações decorreram, notando-se um paralelismo de datas no que concerne à conversão da mesquita em igreja quanto a Mértola e Cacela:

Esta adaptação da mesquita em igreja cristã ocorreu imediatamente após a conquista da cidade, em 1238, pelos Cavaleiros da Ordem de Santiago. Naquele momento, o altar foi colocado na parede norte, onde permaneceu até ao século XV, e o mihrab acabaria por ser entaipado.
A remodelação cristã alterou, portanto, a distribuição espacial interna, tendo, com toda a probabilidade, levado ao alargamento da nave central. A nave que circunscrevia a qibla e que se situava paralelamente à parede onde se abria o mihrab, era, originalmente, também mais larga, formando um “T” – e assim se manteve. (…)
Só mais tarde, em 1535, e por iniciativa de D. João de Mascarenhas, é que a igreja é objecto de nova reforma, sendo coberta por um telhado único de duas águas. É nessa altura que os tramos da nave são reduzidos a quatro, eliminando-se algumas colunas. Das vinte inicialmente existentes, passam a doze, com reaproveitamentos e acrescentos em altura de modo a receberem as abóbadas artesoadas. 285
284 cf. Boiça & Barros, 1999: 341-365
285 Pereira, 2012, Vol.III: 1072-1073
Fig. 55 Implantação da igreja de S. Pedro, relativa à malha urbana da cidade de Coimbra (Martins, 2023: 442)

Fig. 56 Comparação entre os alinhamentos e o traçado regulador de antigas mesquitas andaluzes com: (1) Igreja de S. Pedro em Coimbra; (2) Igreja de Sta. Maria de Marvila em Santarém; (3) Igreja de Sta. Maria da Alcáçova em Santarém; (4) Mesquita Aljama de Córdoba; (5) Mesquita del Cristo de la Luz em Toledo; (6) Igreja de Santa Maria em Badajoz (Martins, 2023: 444)

Sublinhamos: não é fortuita a coincidência de datas para estas operações em Mértola e Cacela, cabendo ambas as iniciativas à Ordem de Santiago, titular de ambos os templos, e contando Mértola, também, com a colocação de um novo portal de estética renascentista devida, igualmente à “companha” de André Pilarte”.
Podemos comparar tais adaptações ao ocorrido em outros templos, e segundo outros estudos 286. Referimo-nos às Igrejas de São Clemente em Loulé, Santa Maria da Alcáçova em Elvas e Santa Maria de Beja. Neste caso estaremos perante “mesquita maiores”.
A orientação da capela-mor da paroquial de Cacela no levantamento (erróneo ou não de Massai) aponta para uma direção de cerca de 97º Sueste, ou seja, uma direção correta para a qibla, onde se encontraria o mihrab, apontando para Meca. Já a igreja atual, que se supõe corresponder ao edifício que ali sempre existiu, apresenta uma ligeira torsão na parede meridional da capelamor, o que aponta para uma inclinação em grados que pode confirmar a nossa suposição. Martins (2023) encontrou orientações predominantes em várias igrejas que foram previamente mesquitas, entre elas, pelo que propõe, a Igreja de S. Pedro de Coimbra 287, nestes casos, presumindo uma orientação da qibla apontando para Sueste (como Santa Maria de Tavira) na ordem dos 120 grados 288
Tenhamos em linha de conta que as orientações da qibla não são constantes no Al Andalus, pese embora predominarem os 120 grados naquilo que consistiria na parede meridional se nos referimos a mesquitas transformadas em igreja. Em Cacela esta orientação, em que a parede meridional se encontra com um ligeiro desvio ou ligeiramente obliquada, não se verifica de forma cabal, exceto no intrigante registo de Massai, no qual a parede nascente e a respetiva capela-mor indica um desvio de cerca de 97º.
Mais um motivo para olharmos com dupla hesitação para a nossa reconstituição, com ou sem o registo de Massai. Mas, eis o que autoriza especular sobre o que terá sido a antiga mesquita que foi substituída pelo templo cristão no séc. XIII (e de que subsistem duas portas góticas, visivelmente mais antigas do que o resto do templo), pelo menos no que toca à área que ocupou e que foi apropriada na reformulação de 1518 e na de cerca de 1531-1550.Fica a hipótese.
286 op. cit.: 1078
287 Martins, 2023, 428-435;
veja-se Figs. 55 e 56 [p. 165]
288 No que respeita à orientação astronómica ou aproximativa das qiblas das mesquitas ibéricas e magrebinas, v. Rius, 2000
289 Buen & Daza, 2003: 58
Segundo Bueno & Daza (2003), a ccompreensão da construção militar andaluz deve ser feita através de necessária relação entre os campos histórico, arquitectónico e arqueológico, já que a generalizada ausência de dados demonstra a necessidade de uma tentativa de definição arquitectónica das estruturas existentes através dos aspectos construtivos, formais e funcionais 289
De facto, para além dos escassos registos, foram os vestígios arqueológicos os elementos que mais nos auxiliaram para tirar as ilações necessárias para uma reconstituição do aglomerado urbano de Cacela Velha nesse período historiográfico.
290 Garcia, 2015a: 190-191
Fig. 57 Levantamento vectorial da sondagem arqueológica feita no Largo da Fortaleza e Muralha Nascente (Garcia, 2015a: 112)
Tendo Garcia apontado já a possibilidade da divisão da antiga alcáçova em três patamares distintos 290 –um patamar superior, junto da arriba a Sul, correspondente ao alcácer, espaço militar e mesquita da povoação; um patamar intermédio, onde se localizariam a residência senhorial e dos funcionários, assim como os silos da comunidade; e um patamar inferior, orrespondente às construções junto da muralha Norte, dedicadas a um bairro possivelmente militar–, não existem dados suficientes que nos permitam delinear uma hipótese de delimitação dos mesmos, mesmo reconhecendo os vestígios arqueológicos existentes defronte da entrada da actual fortaleza, de sua origem entre os séculos XII/XIII.

Regressando, assim, à abordagem cripto-histórica dedutiva, complementámos o nosso trabalho através do conhecimento arquitectónico e construtivo dessa época (do Califado Islâmico Almóada, em particular) e território (do Al-Andalus), de forma a complementar a escassa informação.
Sabemos existir, numa primeira instância, a reutilização das cidades préexistentes, por fontes escritas da época. Zonas mais antigas de algumas cidades maiores faz-se sobreposta a sítios romanos, fenómeno de continuidade confirmado pela sobreposição da topografia das cidades islamizadas do Garb às antigas urbes do final do Império Romano 291
No entanto, essa “reutilização” resultava necessariamente numa mudança da ocupação da sua estrutura, com modificações especialmente nas estruturas ligadas ao poder, devido à diferença religiosa e organização social. Assim, assiste-se a um generalizado fechamento dos muros e fachadas exteriores para a rua, tal como um estreitamento das ruas das antigas cidades romanas, através de novas ruas mais arbitrárias que inclusivamente atravessavam algum do edificado pré-existente, de forma a criar uma ligação com os pátios internos das habitações 292
A presença de maior ou menor ortogonalidade nos traçados urbanos revela uma hierarquização que tinha em consideração o grau de dependência do povoado com um poder central, capaz de impôr esses processos de urbanização. A Antiga Lusitânia teria um grande número de cidades de tamanho médio, o que poria○Cacela Velha num estatuto de ‘aglomerado urbano’, e não exactamente de cidade, dada a sua área inferior a 5 hectares293
As cidades na época islâmica funcionavam enquanto centros de território mais ou menos extensos, condição verificada maioritariamente nos territórios de interior. Ainda assim, a maioria das ocupações no Gharb faziam-se perto de cursos de água, ou em posições estratégicas junto da água, quer no litoral, quer em leitos de rios navegáveis, mantendo os povoados aí edificados, portanto, um carácter marítimo e comercial 294
Dentro de cada povoado, a área do poder central era concentrado na Alcáçova, a qual incluía o Alcácer (célula de funções maioritariamente militares), geralmente erigida sobre uma antiga acrópole romana 295. No caso específico das referidas cidades-porto, a sua divisão fazia-se entre (um)a alcáçova e um bairro periférico portuário 296, situação que se verificará para Cacela.
Fig. 58 [página seguinte] Mapa (cronológico) sinóptico desenvolvido pelo autor, representativo dos diversos factores influenciadores de uma dada concepção arquitectónica.
291 Palazón & Castillo, 2007: 260; Gómez, Macías, & Torres, 2007: 116;
Correia & Macias, 2019: 60-61
292 ibidem
293 Gómez, Macías, & Torres, 2007: 116-117;
Correia & Macias, 2019: 60-61
294 Gómez, Macías, & Torres, 2007: 116-117;
Correia & Macias, 2019: 60-61
295 Gómez, Macías, & Torres, 2007: 116-117;
296 op. cit.: 124
Forno romano da Quinta do Muro
Factores
plano de fortifi
mesquitas construídas sobre antigas igrejas demolidas
Construtivos
Territoriais
Tipológicos
Morfológicos
Materiais
Estilísticos
estreitamento das ruas da cidade romana pré-existente
pouca alteração do traçado dos locais fortificados romanos
(re)construção de centros urbanos e fortalezas na costa atlântica; arrabitas e husûn
linhas de atalaias (torres de vigia)
Bairro Islâmico
Potencial novo forte
Igreja matriz de uma nave
novas fortificações
estaleiros grande escala
amplos recintos para albergue das tropas
casas com pátio central para onde viram compartimentos
torres das fortificações de planta quadrangular, pouco salientes da muralha
portas fortif. “em cotovelo”
fortificações com torres maciças, em alvenaria; aparelhos de silharia regular
fortificações em taipa rebocadas e pintadas
templos moçárabes com pedras adornadas com motivos encordados
Islamização do Al-Andaluz
Reforço da muralha norte Reconstrução
igrejas cristãs 1 ou 3 naves
Obras de reconstrução da Igreja e Fortaleza
1641
renovação da arquitetura militar cristã
criado o Conselho da Guerra; responsável pela construção de fortificações
castelos c/ adarves uso de barbacãs
torres albarrãs, salientes da muralha, unidas por passadiço
est. militares trapezoidais quase rectangulares, eixo maior N>S, máx. 440 m
Quadratura das igrejas com módulo de 8 “pieds de roi”
reforço muralhas construção de silharia aparelhada
uso da taipa militar
desenho fechado e compacto dos castelos cristãos
aumento de muros e torres de castelos
Ocupação de Cacela pela Ordem de Santiago
Emirado Nacérida de Granada 1492
297 Palazón & Castillo, 2007: 261
298 op. cit.: 262
Aquando da conquista de uma cidade, havia a necessidade de reserva de um espaço para a oração, primeiramente sob a forma de uma musalla, sendo depois as igrejas já existentes demolidas para dar lugar a um oratório muçulmano, construído sobre as suas ruínas, demonstração de poder da nova elite social e política.
A mesquita é uma das poucas tipologias de criação “original“ islâmica. Esta tipologia assumia igualmente outras funções públicas, dando-se inclusivamente o estabelecimento de diversos postos comerciais em torno do seu lugar. Qualquer nova rede de ruas estendia-se mesmo à criação de uma ligação do lugar da mesquita com as portas da cidade e ruas principais, como forma de facilitar o acesso ao centro da cidade 297. Talvez por isso, os antigos foruns e ágoras não tenham um correspondente directo na organização urbana islâmica 298
299 Correia & Macias, 2019: 37
300 Bueno & Daza, 2003: 60-61
É também durante este Califado Almóada que é reforçado o programa de edificação de muralhas, ao qual se junta muitas vezes a edificação de novas mesquitas, como forma de propaganda almóada através da defesa da fé 299
Sabemos também que as estruturas militares almóadas eram geralmente formadas por um conjunto trapezoidal quase rectangular, com o seu eixo maior orientado de Norte para Sul, com 440m de comprimento máximo e que a definição de amplos recintos para albergue de tropas ter-se-á mantido na última fase construtiva da reforma islâmica almóada 300
301 Correia & Macias, 2019: 41
Em termos dos sistemas construtivos utilizados na ocupação muçulmana do Al-Andalus, existem grandes inovações ao nível da arquitectura militar durante o período almóada, nos sécs. XII e XIII. O taipal permitia a edificação acelerada de muralhas através da utilização de terra autóctone, misturada com cal em cofragem horizontal, oferecendo grande resistência a taipa resultante 301. Encontramos exemplos da aplicação desse sistema nas muralhas de Alcácer do Sal, Elvas e Juromenha.
302 Bueno & Daza, 2003: 58
Pese embora a sua importante utilização durante o período almóada, o taipal não é um seu exclusivo 302, pelo que não será suficiente para a caracterização da estrutura defensiva presente em Cacela, ou enquanto justificação para a selecção de um qualquer elemento comparável.
Mas contrariamente aos aspectos construtivos –e de forma generalizada, aos aspectos formais–, que são compreendidos apenas de modo sincrónico, é apontado o facto dos aspectos funcionais, tipológicos, tenderem a manifestar-se diacronicamente, resolvendo (formalmente) necessidades semelhantes de uma para outra época 303. Por isso mesmo, as construções árabes poderão ter, em vários casos, base em construções tardo-romanas; como seja o caso de Mérida, onde o castelo (qasaba) aproveitou material romano na sua edificação, fora algumas ampliações posteriores 304
Um novo mapa sinóptico foi, então, nesta fase pensado 305, agora focado meramente nos factores construtivos do mapa originário, aqui expandidos. Para lá de um conjunto de momentos (de)marcantes na produção das diversas tipologias edificadas, que serviram para enquadrar a origem das construções em eventuais momentos reformadores, importou nesta fase enquadrar igualmente um conjunto de soluções e conhecimentos mais particulares ao nível da produção arquitectónico-construtiva (de semelhante forma ao trabalho de Addis 306, mas de forma mais localizada), por forma a tentar colmatar lapsos de informação através de um retrato o mais próximo possível do que se terá passado à altura.
Assim, estabelecemos uma série de sectores com o intuito de oferecer uma hierarquização à leitura deste, neste caso pela escala. Ainda que este exercício pudesse ter sido realizado por tipologia arquitectónica, não houve neste caso indícios suficientes que justificassem tal divisão. No final, se não nos foi possível tecer um panorama suficientemente viável do que poderá ter sido o aglomerado muçulmano de Cacela Velha, pudémos mesmo assim, contribuir para o que acreditamos ser um processo de leitura bibliográfica e subsequente (re)interpretação do património arquitectónico do estudo de caso em questão e, esperamos, para futuras investigações.
Olhando o(s) mapa(s) sinóptico(s) 307, reconhecemos a renovação económica ocorrida a partir do final do século IX, dada após uma revolta no poder islâmico instituído, o que terá levado à definição de principados autónomos e, com isso, à (re)construção de certos centros urbanos e algumas fortalezas, nos quais os “baldios” (fora do núcleo central) poderão ter sido uma
303 Bueno & Daza, 2003: 59
304 Correia & Macias, 2019: 39
305 veja-se Fig. 58 [p. 169]
306 veja-se Fig. 24 [p. 106]
307 veja-se Fig. 25 [p. 109];
veja-se Fig. 43 [p. 147];
veja-se Fig. 58 [p. 169]
308 ver nota 59 [p. 39]
consequência, no desenvolvimento alargado do núcleo urbano de Cacela. Dada a coincidência com a data prevista para as construções islâmicas que aí terão existido por volta dos séculos IX a X, estes factores oferecem-nos um indício para determinar mais linearmente a época específica em que terão sido erigidos e, assim, para prever algumas das influências e opções construtivas optadas.
Reiterando mesmo a dificuldade disposta de encontrar uma presumível padronização e/ou delimitação temporal de alguns destes movimentos de reforma arquitectónica 308, não daixámos de deixar sublinhadas também aqui algumas comparações já por outrém sugeridas em outros casos no território mais ou menos próximos e de semelhante morfotipologia ou materialidade.
À309 Garcia, 2015a: 202
310 Catarino, 1998, Vol.I: 453-454
partida, já haviam sido referidas semelhanças específicas com o caso do Castelo de Salir 309, até ao nível da sua historicidade, onde os factores de contextualização parecem assemelhar-se, aparte as condições territoriais distintas. Referimos a sua origem na referida campanha de defesa almóada do território ibérico face à pressão militar de conquista cristã. E se o território é distinto entre ambos os casos, com o Castelo de Salir edificado num contexto de interior rural, o seu sítio de assentamento assemelha-se ao de Cacela, com uma vasta vertente (no seu caso, a Norte) em volta da qual foi criado o perímetro amuralhado muçulmano, pontuado pelos torreões, contruídos no mesmo sistema de taipa. Apesar disso, destaca-se Salir pela escala do seu povoado, aliado a uma alcaria, não possuindo alcáçova, contrariamente ao pressuposto para Cacela.
É também apontado para este caso a presença de indícios de ocupação prévia romana, através de uma villa romana mantida até ao período visigótico ou inícios da ocupação muçulmana. Assim, embora o Castelo de Salir se possa associar às fortificações em taipa produzidas durante os períodos almorávida e almóada da ocupação muçulmana, consegue-se apontar a sua ocupação para épocas anteriores, face um intuito de exploração intensiva dos recursos económicos endógenos 310
Ainda que já tivéssemos referido a condição prévia e própria das ocupações islâmicas como a de Cacela, de carácter marítimo e comercial –pela sua
condição litoral e perto de uma linha de água–, tendo em anexo um bairro periférico portuário, ficam patentes aspectos tipológicos que assemelham as habitações destes dois povoados e poderão justificar a abordagem dedutiva, revelada pelos mútuos elementos arqueológicos existentes.
Foram esses elementos arqueológicos que se revelaram de grande interesse para o presente estudo, tendo em conta as novas campanhas arqueológicas levadas a cabo em tempos recentes (particularmente em Junho de 2022) 311 pela equipa do Campo Arqueológico de Mértola. Alvo dessas escavações foi o denominado Bairro do Poço Antigo –assim chamado por se ter confirmado a existência aí de um poço antigo em pedra 312–, do qual se conhecem ao momento da presente investigação, um conjunto de cinco (5) habitações, datadas do Califado Almóada. Este bairro, após o final da ocupação muçulmana, esteve sob ocupação cristã, com a presença inicial da Ermida de Nossa Senhora dos Mártires neste sítio, assim como a sua (re)ocupação como necrópole, durante a segunda metade do século XIII e século XIV 313
Se referimos que era comum à época em que se enquadra o conjunto islâmico de Cacela Velha, a edificação junto de cursos de água, e, nesses casos, a edificação de um conjunto habitacional nos arrabaldes da alcáçova, a posição priveligiada de Cacela Velha junto à Ria Formosa, com este bairro a fazer a transição entre o que seria a alcáçova e a entrada da ria pelo território, na ligação com a linha de água a Nascente, torna-a por demais um caso exemplar desse tipo de ocupação.
Estas habitações trouxeram algumas interessantes revelações para o entendimento da lógica organizativa da população muçulmana no núcleo de Cacela, e que permite entender as grandes alterações e perturbações que Cacela sofreu ao longo das suas diversas conjunturas, particularmente na passagem para a ocupação cristã.
Ficou patente desde logo uma organização na estrutura periurbana dos elementos arquitectónicos revelados no Bairro do Poço Antigo, reconhecível no estabelecimento de uma hierarquia, através da delineação de uma via rectilínea por entre as (até agora, poucas) habitações reveladas, direccionada
311 veja-se Fig. 60 [p. 176]
312 Garcia, 2015a: 198
313 ibidem
314 Pereira, 2022: 109-110
aparentemente para o que seria a entrada Nascente para a alcáçova, demarcada pela agora porta entaipada (visível apenas pelo interior do forte).
Parece o desenho deste bairro –ainda que sem uma total compreensão da sua extensão e organização–, contradizer a generalizada ideia de um organicismo morfológico que é atribuída, fundamentadamente, ao urbanismo de raiz muçulmano 314, para revelar aqui um contexto aparentemente mais organizado. Poder-se-á dever esse facto à menor escala patente neste conjunto edificado, ou mesmo ao aproveitamento de uma estrutura anterior.
Ademais, o facto de sabermos serem maioritariamente reutilizadas as antigas estruturas (peri)urbanas romanas pré-existentes na passagem para a ocupação muçulmana, a ortogonalidade aqui visível torna-se uma pista, considerando a sua possível significância enquanto demonstração de uma organização territorial potencialmente mais vasta.
315 Palazón & Castillo, 2007: 266
Fig. 59 Levantamento vectorial da sondagem arqueológica de 2001 ao Bairro do Poço Antigo (Garcia, 2015a: 199)
Note-se, que apesar da tipologia habitacional ser a de casa de pátio central, semelhante à romana, verificavam-se diversas diferenças morfológicas, a fim de manter a intimidade doméstica no caso da sociabilidade muçulmana. Alturas e vistas dos terraços eram limitados, e era visível um desalinhamento das portas de entrada 315. Aqui, pela mais clara modéstia das habitações, vemos as entradas acederem a um pequeno átrio de entrada, direccionado geralmente para o pátio da casa, para ondes as restantes divisões, efectivamente, se viravam.


Fig. 60 Escavações arqueológicas sobre o Bairro do Poço Antigo (a Este da vila de Cacela), em Dezembro de 2018 [ao lado]; e em Julho de 2022 [em baixo] (fotografias do autor)



Com o terramoto que devastou o território português no ano de 1755, dáse um momento de necessária revitalização, face os estragos que, não obstante o seu menor impacto no caso do território de Cacela, terão servido de oportunidade para mudanças estruturantes no edificado.
Na altura, José de Sande Vasconcelos (1738–1808), engenheiro militar e cartógrafo português, viu-se como um dos principais inovadores em termos do desenvolvimento da Cartografia Militar em Portugal (em particular sobre o que era então denominado como Reino do Algarve), tendo produzido uma vasta representação cartográfica da costa Sul de Portugal.
316 veja-se Fig. 61 [p. 178]
Desde logo, remetemos para a “Carta Topographica dos baldios, e terras incultas do termo da villa de Casella (…)”, realizada duas décadas após o terramoto, onde é possível visualizar –ainda que com pequeno grau de pormenor, dada a amplitude do território abrangido na representação– como se constituía o termo da Vila de Cacela 316. São desde logo deixadas algumas pistas para um entendimento das mudanças feitas do século XVII para o seguinte em termos do edificado (não apenas) militar, mas que se revelariam mais expeditas em documentos que o autor em questão posteriormente produziu.
317 veja-se Fig. 62 [p. 179]
Observando-a em pormenor 317, é possível ver grandes modificações na organização do núcleo de Cacela relativamente ao existente no primeiro quartel do século anterior, de alguma forma ilustrando uma maior dedicação ao povoamento de Cacela Velha, contrariamente às primeiras sugestões de Massai. Se, antes, reconhecíamos apenas quatro estruturas construídas –relembrando, o Forte, a Igreja, a Casa do Prior, e a Casa da Câmara–, vemos aqui já uma nova composição “urbana” do conjunto com:
· o Pelourinho na posição do que actualmente existe; as Casas do Padre Ajudante, no posicionamento da actual Casa do Pároco;
· o que aparenta ser uma extensão da antiga Casa da Câmara para Poente e Nascente, certamente de forma a incluir a referida zona de cadeia; a Casa do Governador, aparentemente fora do perímetro (actual) da vila (considerando a muralha a Nascente);

Fig. 61 Carta Topographica dos baldios, e terras incultas do termo da villa de Casella, aonde se declarao os nomes dos seos senhorios, os moios de terra que tem, o que pódem levar em semeadura, o que pódem produzir, e o custo que farâo para se reduzirem a cultura, mandada tirar por Ordem do Ill.mo E. Ex.mo Senhor Dom Joze Francisco da Costa, e Sousa, armador mor de sua Mag.e G.or e Cap.am G.nal. de este Reyno d’ Algarve, pello Sarg.to mor Jozé de Sande Vas.cos e desenhada pello mesmo Saro.to mr. Anno de 1775
318 veja-se Fig. 61 [p. 178]
319 ver nota 222 [p. 124]
· e ainda uma referência ao Poço da antiga Vila, apenas visível em época de maré baixa, e aos vestígios na zona do Sítio do Muro (que se poderão reportar ao anterior assentamento islâmico, ou mesmo à antiga povoação romana).
Reconhecendo a priori esta renovada composição do assentamento, ensaiámos uma justaposição desta representação iconográfica com o levantamento actual. Tivémos em conta o “Petipé de meio quarto de Legoa” referido na iconografia 318 (correspondente a um total de 342 braças, também aí indicado), segundo um escalonamento de 1 Braça para 0,22 metros 319
Fig. 62 Pormenor da Carta Topographica dos baldios, e terras incultas do termo da villa de Casella (…), por Vasconcelos (1755), onde se vê representado o edificado do núcleo de Cacela Velha, com respectiva legendagem:
Explicaçao’ d’Casella 1. Igreja. 2. Porta da Fortaleza. 3. Pelourinho.
4. Cazas do P.e Ajudante. 5. Camera, e cadeia.
6. Cazas do Governador.
7. Poço da antiga V.ª que, aparece na vazante das marés. / No Sitio do muro aparecem tambem veftigios da antiga V.ª

Ao experimentarmos esta sobreposição –sem referenciação geográfica, aproveitando a linha de água a Nascente da Vila de Cacela, denominado neste mapa como ‘Ribeiro das Ortas’ enquanto elemento de referência–, denotamos desde logo uma considerável correlação, visível na sobreposição das linhas de água com as fronteiras dos terrenos representados na iconografia –pese

320 Declinação magnética é a inconstância entre as marcações da bússola e a geográfica definida pela posição astronómica
321 Herz, 1915; veja-se Fig. 72 [p. 194];
embora a falta de correspondência do ‘Norte’ entre os dois suportes, que aqui, no entanto, coincide com um desvio de c. 15º Oeste, indicado como a declinação magnética 320 no “Plano hidrográfico da Barra de Cacela” 321
322 veja-se Fig. 64
A partir daí, não nos foi possível compreender consistentemente as relações transitórias de assentamento, ao reconhecer o baixo grau de rigor do registo iconográfico de 1775 –no que toca à representação do edificado, entendase–, mais focada numa sua transposição representativa no território alargado, do que num enfoque especializado no edificado. Aliás, porque, na sobreposição segundo a topografia, o aglomerado de Cacela Velha fica desviado (para Sudoeste) da sua actual localização. Ao invés, fazendo um ajuste da iconografia com referência no edificado, é imediatamente visível a impossibilidade de uma sobreposição directa, sendo necessária nova rotação da coordenada Norte do mapa 322 . Mais, os elementos edificados (na sua indefinição), ainda que mantenham a implantação e posição entre si sensivelmente coadunáveis com a verificada presentamente, não mantêm as relações proporcionais conformes ao actual assentamento.
Fig. 64 Pormenor da Carta Topographica dos baldios, e terras incultas do termo da villa de Casella (…), por Vasconcelos (1775), com sobreposição do levantamento actual de Cacela Velha.

Fig. 63 [página anterior] Sobreposição da Carta Topographica dos baldios, e terras incultas do termo da villa de Casella (…) com o actual levantamento vectorial dos territórios circundantes a Cacela
Ainda assim, é possível entender já uma larga aproximação à organização actual do aglomerado, estando já definida uma linha de habitações na parte Norte da povoação, onde estão assinaladas a “Camera, e cadeia“. É interessante também verificar a presença da(s) “Cazas do Governador“, visto não haver qualquer registo anterior ou posterior deste elemento. Levando a questionar quanto durou esta construção e porque não perdurou.
O documento escrito explicativo que acompanha esta Carta Topográfica não apresenta por demais pistas para uma compreensão da evolução do assentamento edificado de Cacela, antes pretendendo realizar o levantamento (geográfico e administrativo) das terras circundantes, e posteriormente clarificar a capacidade de produção agrícola das mesmas:

OTermo d’effa Villa d’ Caffella nao’ tem falgados, tem terras in= / cultas, das quaes as melhores vao’ notadas na Carta Topographica (...)”
Alem de todo o plano que na Carta Topographica vai notado, fe avan / çao’ para a parte de terra finco legoas de ferra aspera, aqual comfina = / com os Termos de Caftromarim, e Alcoutim, que pornao’ fer terra inculta / a não’ notei na dita Carta, porque fegundo a informaçao’ dos praticos, co / que vi, toda aparte de terra della fe lavra, e fe femeia (...) 323

Tirando huã plena, e exata informaçao’ dos homens mais experi= / entes defte
Termo fobre a coftumada producçao’ das fuas terras (...) 324

323 Vasconcelos, 1775: 2; veja-se Fig. 65; veja-se Apêndice 4.
324 Vasconcelos, 1775: 3; veja-se Apêndice 4.
Fig. 65 Primeira página da Explicação da carta topográfica do termo da v.ª de Cacella (Vasconcelos, 1755: 1)
Fig. 66 N. 8 Fort. d’Cacella” [no topo] in Mappa da configuração de todas as praças fortalezas e baterias do reyno do Algarve / Segundo a ordem do Ill.mo e Exmº Senhor Conde D´ Val D´ Reis G[overnad]or e Capp[it] am General do mesmo Reyno ; Feito pello Ten[en]te Cor[on]el Jozè d´ Sande Vasco[ncelo]s (Vasconcelos, 1784: 5)
Além desta iconografia, Vasconcelos produziu uma descrição pormenorizada das fortificações e guarnições do Algarve, em documento intitulado “Mappa da configuração de todas as praças fortalezas e baterias do reyno do Algarve(…)” datado do ano de 1784, a (co)mando de Nuno José de Mendonça e Moura (1733—1799), o 6.º conde de Vale de Reis (referido na primeira página do referido documento) e então governador do território do Algarve.

325 veja-se Fig. 66
Nesse documento –e para efeitos da presente investigação–, é patente o levantamento em pormenor do que era o “Fort. d’Cacella” presente à altura no termo da Vila de Cacela Velha 325 e conforme representado na iconografia de 1775 previamente referida. Ainda que apresentando uma explicitação clara do tipo de configuração bélica que cada local abarcado apresentava, cada
uma das representações patentes é feita sem escala nem referenciação claras, servindo antes este documento enquanto compêndio das diferentes estruturas, mais que um exacto levantamento de cada uma destas.
Serve esta, no entanto, para confirmarmos a nova implantação e organização da fortaleza, após o projecto proposto por Massai para a sua restruturação.
Seria na década de 1790 que Vasconcelos realizaria a “Planta do estado antiguo, e prezente da fortaleza de Cacela (…)”, a mais ilustrativa representação do elemento militar presente na vila. Não apenas demonstra em pormenor e com escala entendível o desenho da fortaleza, mas simultaneamente permitenos fazer a leitura da sua evolução, ao emparelhar com um levantamento do estado da estrutura edificada anterior ao terramoto que a terá assolado 326 O documento apresenta uma planta, assim como duas secções (transversal e longitudinal) e dois alçados (das frentes Norte e Sul) para cada uma das situações representativas da fortaleza.
Sendo, uma das peças mais relevantes para um entendimento evolutivo da ocupação de Cacela Velha, procedemos, assim, primeiramente à reconstituição do referido ‘estado prezente’ da titular fortaleza (visível no lado direito do documento) com técnicas de desenho assistido por computador, através do software AutoCAD® 327, e segundo o “Petipé de 100 palmos” indicado na mesma. Considere-se também esta parte da iconografia ter a sua representação com maior detalhe, patente desde logo na representação na planta da constituição interior dos corpos internos, que serviriam de Quartel e/ou dormitórios para os oficiais e soldados (indicados com os números 14, 15, 16 e 17 na planta e correspondente legenda).
Posteriormente, procedemos à reconstituição do indicado ‘estado antiguo’ (entenda-se, anterior ao terramoto) 328, segundo a mesma escala. Aqui, dado o aparente e generalizado carácter inalterado da circunscrição das muralhas externas da fortaleza, procedemos à cópia da reconstituição das muralhas da anterior, para verificar essa invariabilidade: ficou confirmada, salvo alguns pequenos desalinhamentos em partes da muralha Este (à esquerda no desenho), os quais, dada a exiguidade dos mesmos, atribuímos à infiabilidade das técnicas representativas manuais.
326 veja-se Fig. 67 [p. 185]
327 veja-se Fig. 69 [p. 187]
328 veja-se Fig. 68 [p. 186]
Fig. 67 Planta do estado antiguo, e prezente da fortaleza de Cacela / pelo Coronel Jozé de Sande Vasc[oncel]os ; delineada, e mandada tirar geometricamente pelo Conde Val de Reys, g[overnad]or e cap[it] am g[e]n[er]al do R[ei] no d´ Alg[arv]e, pa[ra] ser presente ao Principe N. S. (Vasconcelos, 179?)



Fig. 68 Reconstituição vectorial da planta e cortes do estado anterior ao terramoto da Fortaleza de Cacela, por Vasconcelos [em cima], e sobreposição desta com o desenho original [em baixo]

Fig. 69 Reconstituição vectorial da planta e cortes do estado posterior ao terramoto da Fortaleza de Cacela, por Vasconcelos [em cima], e sobreposição desta com o desenho original [em baixo]

Fig. 70 Sobreposição da reconstituição vectorial da planta do Forte de Cacella de 1790 por Vasconcelos, com o levantamento vectorial de 2013 de Cacela Velha.

329 veja-se Fig. 70 [p. 188]
Após estas reconstituições, e tal como fizéramos para a iconografia de Massai, procedemos a uma semelhante sobreposição com o levantamento actual de Cacela Velha que, no respectivo escalonamento para o sistema métrico, assegurou-nos (tendo em consideração a anterior incerteza levantada com a escala da iconografia de 1621) a integridade do petipé da iconografia em causa. Todavia, num alinhamento segundo o Norte da iconografia por Vasconcelos, verificou-se um desalinhamento demasiado evidente para ser ignorado (como em situações anteriores descritas), e não coincidente com a declinação magnética de cerca de 15º Oeste.
Tendo esse facto em conta, e ainda que de forma elementar e imprecisa, procedemos à rotação da reconstituição para uma tentativa de alinhamento com o levantamento vectorial da Fortaleza, tendo como ponto de referência os baluartes Norte 329 (aliás, como já havíamos realizado anteriormente com a planta de 1621 por Alexandre Massai). A partir daí, é possível verificar uma correspondência já muito aproximada do que é a edificação ao presente, pese embora algumas inflexões no desenho das muralhas e o avanço maior da bateria Sudoeste. Atribuímos estas incongruências ao facto do levantamento da fortaleza ser feito isoladamento do seu contexto territorial, a par com a eventual dificuldade de um levantamento mais preciso das baterias sobre a arriba.
Se não existem, do nosso conhecimento, elementos para uma compreensão mais concreta da fase da ocupação de Cacela posterior aos documentos realizados por Alexandre Massai (previamente analisados), mas prévia à reconstrução que o terramoto de 1755 acarretou na sua estrutura edificada, foi a partir da iconografia por José de Sande Vasconcelos que conseguimos obter desde logo um elemento de conexão entre os autores e respectivos conjuntos iconográficos.
Desde logo, o que se percebe numa análise comparativa entre ambas as situações representadas, foi a diferença assumida (após o terramoto) para a formalização da entrada e para a (re)organização interior da fortaleza. A entrada passou a ser feita segundo o eixo simétrico do alçado Norte da fortaleza, e os corpos –denominados como quartéis (para oficiais inferiores) e dormitório (para soldados), segundo legenda do “estado antiguo”–tornaram-se mais alongados, certamente para albergar maior número de oficiais/soldados, assim como para acolher nova função de armazém; o dormitório de oficial de patente, conforme detalhado na legenda do estado do forte ao fim do século XVIII.
Para além disso, reconhecemos a clara diferença tipológica do forte relativamente ao levantamento que Massai realizara um século e meio antes, cujo desenho seiscentista difere de larga maneira do seu modelo mais tardio, mais próximo do actual, conforme ilustrado na iconografia por Vasconcelos. Constata-se desde logo uma fase de restruturação (pelo menos) da fortaleza (sendo o único elemento representado), no período entre a reformulação proposta por Massai e a existente aquando do terramoto.
Se era claro esse momento, pela mera existência da iconografia em causa, terá sido a leitura conjugada de ambas que nos possibilitou a sugestão de uma continuidade entre os dois momentos, através da justaposição (sem referenciação geográfica, mas devidamente escalada) das representações da fortaleza em 1617/1621 e da fortaleza prévia ao terramoto (visível no mapa de 179?) 330
Nesta, reconhecemos a semelhança no desenho da entrada em cotovelo, mas também a adaptação da frente ribeirinha da fortaleza: onde as torres Sul e Sudeste (separadas por uma bateria triangular) deram lugar a dois baluartes de larga área, avançados em relação ao espaço central do forte, pelo que assentariam na escarpa; e onde se reconhece a diferenciação na organização interna da fortaleza, com a presença de dois corpos centrais independentes, ao invés dos anteriores corpos edificados anexos às muralhas do corpo militar.
Face ao levantamento de Alexandre Massai, Garcia apontara à partida para o que, efectivamente, se consegue verificar como uma simplificação da intenção original de Massai 331. Foram mantidos os baluartes do lado Norte
330 veja-se Fig. 71 [p. 191]
331 Garcia, 2015a: 102
332 veja-se Fig. 43 [p. 147]
da fortaleza conforme se apresentavam já no século XVII, possivelmente por uma questão de controlo de custos, dado haver problemas continuamente reportados do lado Sul do forte durante os séculos XIV e XVI –conforme podemos verificar na nossa cronologia sinóptica 332
PFig. 71 Sobreposição da versão de 1621 da planta de Cacela Velha, por Massai, com a planta do estado anterior ao terramoto da Fortaleza de Cacela Velha por Vasconcelos (179?)
ara complemento da informação sobre o restante edificado durante esta época, decidimos consultar as denominadas “Memórias Paroquiais”. Documento produzido após o terramoto, entre 1758 e 1832, apresenta-se como o resultado de um inquérito requisitado a pedido do Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo. Com o intuito de fazer um levantamento de todas as paróquias e povoações de Portugal, para avaliar os estragos causados pelo terramoto , para além de recolher as respectivas descrições geográficas, demográficas, históricas, económicas, e administrativas dos lugares.

Aí encontram-se já mencionados vários dos elementos que não estavam presentes na representação e descrição de Massai, como os corpos anexados correspondentes aos altares a Norte. Para além disso, aponta para a reedificação do altar-mor, ao referir que o mesmo foi destruído pelo terramoto:

7. (...) Tem Capella Mor, que Se acha cahida pello / Terremoto passado, eo Corpo da Igreja sevay ratificando á / custa dos freguezes (...) ena Frontaria áface daparte do Norte tem o Al-/tar deNossaSenhora do Rozario, enaparededamesmaparte tem / huma Capella funda de NossaSenhora dos Martyrez, aonde cos-/tuma estar oSanctissimoSacramento. Tem trez Navez (...) 333
Fora as edificações religiosas, existe apenas uma pequena referência ao restante edificado da vila, onde consta o forte, o qual terá sofrido danos aquando do terramoto, no entanto quase reparado na altura do inquérito. Cruzando esta referência escrita com a iconografia de 179? –particularmente, com o “Prospecto de G.G.H.H.“ 334, correspondente ao alçado Norte da fortaleza. São referidas aqui também cinco casas, que poderão corresponder às que se vêem no documento iconográfico de 1775 335, correspondentes às casas do Padre Ajudante e do Governador; para além da referência às casas da Câmara, também elas danificadas e de reparação quase finalizada:

26. SomentetemhumCastello aopé daIgreja quepadecea / gran- / grande Ruina no Terremoto do anno demil eSetecentos eSincoenta / ecinco, oqualestá quazi Reparado, epouco lhefaltapara estar / detodo seacazo seacabar, e cinco cazas, eas daCamara de / quesó Consta aditavilla estaõ quazi Reparadas. 336
Ainda que não possamos confirmar a certeza desta correlação, podemos com bastante confiança afirmar que terá havido um nível de (r)estruturação do núcleo edificado em causa entre a época de Massai e o que vemos apresentado nestes documentos.
333 Memórias paroquiais (1758): 150; veja-se Apêndice 3.
334 veja-se Fig. 67 [p. 185];
335 veja-se Fig. 61 [p. 178];
336 Memórias paroquiais (1758): 152-153; veja-se Apêndice 3.
Se o nosso estudo se focou, de uma forma geral, no período compreendido entre os séculos VI (época em que se iniciou a ocupação islâmica do território actualmente ibérico) e XVIII (período após o Terramoto de 1 de Novembro de 1755), esse facto deveu-se à identificação desses períodos como os de maiores mudanças na estrutura edificada e organizativa do aglomerado, para as quais também se verificaram, como demonstrado, vestígios concretos (de natureza icongráfica e/ou arqueológica) disso comprovativos.
337 Garcia, 2015b: 210
338 Ribeiro et al, 2010
Aparte essa linha cronológica, são poucas as alterações que foram sendo feitas após a reconstrução do final do século XVIII, sendo apenas identificada, a nível arqueológico, um nível de lixeiras aquando do abandono nos séculos XIX-XX; e mais tarde, as obras de repavimentação dos espaços públicos já na década de 1980 337; para além das obras de reabilitação da Igreja Matriz de Cacela Velha de circa 2010 338, que puseram a descoberto alguns dos elementos aqui também expostos.
Deixámos, assim, um espaço à colecta de quaisquer restantes elementos documentados do estudo de caso durante o século XIX em diante, com sua eventual leitura interpretativa. Destacamos com algum interesse a Corografia, ou, Memoria economica, estadistica, e topografica do Reino do Algarve (1841), redigida por Silva Lopes (1781—1850), a qual apresenta indíncios documentados do estado das edificações presentes na vila de Cacela:

339 Lopes, 1841: 387;
veja-se Apêndice 5.
Hoje ape- / nas existe a antiga igreja, que, ficando muito arrui- / nada pelo terremoto, está reedificada (...) de 3 naves e magestosa (...) doada com seu castello em 20 de setembro de 1255 339
Apresenta particular enfoque no elemento religioso, sendo também esta pequena referência ao castelo na sua doação conjunta a única que lhe é feita em todo o documento, sem explicitação do seu estado. Para lá desta, o autor aponta para o estado ainda ruinoso das demais estruturas:

(...) ruinas dos anti- / gos paços do concelho, as casas da residência do pa- / rocho, e sacristão com mais 4 ou 6 moradas: para / a banda do N. se tem encontrado alicerces e ruinas, / que indicão ter sido alli a antiga villa 340
Acompanhando este documento, a Carta corográfica do reino do Algarve, que faz parte da corografia do mesmo reino, do mesmo autor 341, abrange (conforme a sua designação o indica) a inteira região do Algarve, uma simples referência à existência da Fortaleza de Cacela, e da presença de paróquia nesse sítio.

Além destes elementos documentais, a restante iconografia com particular realce no caso em estudo é o Plano hidrográfico para a Barra de Cacela, realizado em 1915 por Justino Henrique Herz (1880—?), com correcções no ano posterior por Ernesto Tavares de Almeida Carvalho (1867—1924), ambos Oficiais da Marinha.
340 ibidem veja-se Apêndice 3.
341 veja-se Fig. 73 [p. 195];
Fig. 72 Costa Sul de Portugal. Barra de Cacela. Plano hidrográfico levantado em Outubro de 1915 pelo 1.º tenente J. Herz. Correcções feitas em 1916 pelo Cap. ão tente E. T. d’Almeida Carvalho em serviço da Missão Hidrografica da Costa de Portugal (Herz, 1915)
Fig. 73 Carta corografica do reino do Algarve, que faz parte da corografia do mesmo reino (Lopes, 1842)

Neste plano, onde é utilizado já o sistema métrico (segundo uma escala gráfica visível no documento, a par da sua correspondência com o sistema imperial, através de uma escala gráfica em milhas), temos um vislumbre esquematizado da ocupação ao início do século XX, no qual se verifica uma grande aproximação à ocupação actual, com a presença do antigo cemitério nas traseiras da Casa do Pároco —em sítio antes ocupado, parcialmente, pelo conjunto de casas (do ‘P.e Ajudador‘, segundo Vasconcelos, 1775); com a presença do edificado desenhando a praça do forte, entre o já existente em 1775 e a fortaleza; assim como do novo cemitério a Poente da povoação, enquadrado por um conjunto de habitações desenhando a frente de rua 342

À semelhança do verificado com a Carta Topográfica de 1775, não existe rigor suficiente para uma percepção exacta de relações metrológicas ou proporcionais entre os elementos arquitectónicos visíveis, visto também não ser esse o propósito em causa. No entanto, é aqui maior a exactidão, particularmente na implantação dos diferentes elementos. Facto facilmente entendível face o enfoque: a primeira estendida à inteira região algarvia, enquanto esta outra abarcando “apenas“ a porção da Ria Formosa junto a Cacela Velha. Não obstante, reconhecemos certos desalinhamentos, tomando especial nota de atenção a igreja (representada aqui já com torre sineira e anexos posteriores).
Fig. 74 Pormenor do Plano hidrográfica da Barra de Cacela, por Herz e Carvalho (1916), com sobreposição do levantamento actual de Cacela Velha.
Fig. 75 [página seguinte] Sobreposição do Plano hidrográfico da Barra de Cacela com o actual levantamento vectorial dos territórios circundantes a Cacela

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Após as leituras iconográficas e documentais e respectivas interpretações entre si integradas, chegámos à última fase, de restituição tridimensional das diferentes fases resultantes da reconstituição cripto-histórica realizada, com base nos demais registos documentais e/ou arqueológicos que as complementassem. O resultado final tratou-se de conjugar todas as informações existentes e restituições realizadas num único suporte, para possibilitar a última fase da pretendida leitura diacrónica.
343 ver nota 77 [p. 46]
Partindo, nesta fase, já das restituições vectoriais realizadas a partir das nossas interpretações das diversas iconografias e registos existentes, propusemonos então a finalizar os princípios dispostos por van Deinsen & De Paepe 343 , rumo a um olhar globalizante e agregador que permitisse a leitura diacrónica num mesmo modelo.
Reportou-se, novamente, a uma conjugação de informações documentais, para complementar uma reconstituição e eventual restituição mais informada e reconhecível, para as diferentes fases assinaladas no capítulo anterior, na conjugação de todos os elementos que possibilitaram a referida (re) interpretação do caso em estudo.
Começámos aqui pela fase temporal que apresenta um dos elementos de maior rigor, respeitante à(s) iconografia(s) por José de Sande Vasconcelos.
344 veja-se Fig. 67 [p. 185];
345 ver subcapítulo Fase IV - ocupação cristã (1758 d.C.–1794 d.C.) [p. 177]
346 vejam-se Figs. 67 a 69 [pp. 185-187]
Tornou-se, assim, facilitado o trabalho de restituição tridimensional do elemento militar tendencialmente aí focado, após a anterior “reposição“ vectorial dos elementos gráficos. Isto, devido à existência na iconografia de 179? de dois cortes –nomeadamente transversal e longitudinal– e de dois alçados –Norte e Sul– para cada um dos estados aí representados (relembramos, prévio e posterior ao terramoto de 1755) 344
Considerando o enfoque da iconografia na fortaleza, e dada a falta de rigor e as incongruências reveladas aquando da análise das plantas de 1775 e 1784 345, questionámos a eventual representação tridimensional do elemento no seu restante contexto territorial (pelo menos, inicialmente), por não existir informação fiável quanto à implantação nesses suportes. Isto também porque, à partida, olhando a iconografia, percebemos existir uma uniformização e simplificação na representação do terreno e cotas 346: Se tomarmos atenção às secções transversais, ou seja, Este-Oeste (na iconografia, sinalizadas como ‘Sécçao’ de C.D.’ e ‘Secçao’ de O.P.’), vemos
o terreno representado de forma aplanada, que sabemos não ser verdade, dada a diferença de cota que se dá no lado Nascente da fortaleza –conforme, aliás, é visível no alçado Norte (‘Prospecto de Q.Q.R.R.’ na iconografia). Neste seguimento, e ao contrário desse alçado, vemos também nestas mesmas secções não se encontrar representado o baluarte nesse lado (Nascente) da fortaleza.
Já nas secções longitudinais (na iconografia, ‘Secçao’ de F.E.’ e ‘Secçao’ de N.M.’), embora já representados os baluartes no lado Sul da fortaleza, a diferença de cota desde a praça de entrada (a Norte) ao “fundo” da arriba é de 27 palmos (cerca de 6m), muito distinto das cotas actuais –correspondente a 10m para o baluarte Sul, e 18m para baluarte Sudeste.
Assim, para restituição tridimensional da fortaleza segundo Vasconcelos, desconsiderámos a representação do terreno. Tendo em conta ainda a falta de alguma informação nos cortes, procedemos ao preenchimento de lacunas reconhecíveis nas secções apresentadas, nomeadamente no que toca ao desenho das escadas de acesso à plataforma superior. Para tal, tomámos em consideração a cota entre o adarve e a praça interior, de 17 palmos (cerca de 3,90m) dividindo-a pelo número de degraus representado nas plantas. Neste caso, representando um total de 13 degraus, com 1,21 palmos de espelho cada (cerca de 0,28m) 347
Referimos aqui que, tal como indicado na leitura em anacronia da mesma iconografia (patente no capítulo anterior), tomámos primeira e especial atenção à representação da fortaleza posterior ao terramoto, dado ser a mais completa, e haver o mínimo de diferenciação face à que a precedeu. Isto inclui a representação das escadas, não presentes nesse desenho; tal como das muralhas já que, embora a sua representação em corte não apresente o parapeito do adarve esquerdo na ‘Sécçao’ de C.D.‘, ficaram representadas em planta com as mesmas medidas do estado posterior 348
No final, para a reconstituição tridimensional do estado anterior ao terramoto, e apesar destas diferenças, decidimo-nos a assumir a continuidade das muralhas, optando apenas por manter restituídos os danos na entrada na fortaleza, conforme se vê no alçado Norte (correspondente ao ‘Prospecto de G.G.H.H.‘).
347 veja-se Figs. 68 e 69 [pp. 186, 187];
348 veja-se Fig. 68 [p. 186];
Fig. 76 [página seguinte] Esquematização axonométrica das diferentes fases históricas de ocupação de Cacela Velha, segundo reconstituição em anacronia de cada uma.
Poço antigo



Casa do pároco
Igreja de Nossa Senhora da Assunção
· Reformulação da entrada e organização interna da fortaleza
Casa da Câmara
· Nova fortaleza; simplificação do projecto de Massai, com baluartes apenas a Sul;

· Possível aproveitamento dos torreões da Alcáçova;
· Projecto de abaluartamento do forte, por Massai;
Bairro Islâmico do período almóada, provavelmente 2.ª metade do séc. XII

Bairro islâmico *
* ruínas de algumas casas desvendadas, com vestígios de extensão do bairro
No que toca ao(s) mapa(s) do primeiro quartel do século XVII, não existia, a nível iconográfico, informação relativamente a cotas. Tínhamos, ao invés, acesso a informação documental escrita, nomeadamente a descrição que acompanha as representações iconográficas realizadas por Alexandre Massai, onde nos foi possível verificar diversas referências a cotas e pisos na legendagem do(s) respectivo(s) mapa(s):

349 Massai, 1621;
veja-se Fig. 33 [p. 126]; veja-se Apêndice 2.
D caza doAlcaidemor com dois sobrados emsima q’ sedevemcomsertar efazerlhe hu~sóo / sobrado (...) I, Torre q’tem duas cazas emsima, L, Torre teraplenada tem de alto 47 palmos (...) M, Torren onde esta osino deVegia; N, torre demenage com duas cazas emsima huã emsima / Daoutra 349
350 veja-se Fig. 38 [p. 136]
À partida, perante o alinhamento da nossa reconstituição vectorial da iconografia de 1621 com a actual implantação, decidimo-nos a utilizar a actual altimetria para o enquadramento territorial dos vários elementos restituídos (contrariamente à fase anteriormente exposta), dada o reconhecido alinhamento da demarcação da arriba de então com a actual 350. A partir daí, implantámos cada um dos elementos edificados através do alinhamento das respectivas entradas com a cota onde estas se implantavam.
351 veja-se Fig. 36 e 37 [p. 130]
Tomando então como referências as cotas referidas acima, tornou-se necessário um certo nível de interpretação. Isto porque, assumindo a referência à torre (neste caso, Sul/Sudeste, demarcada com a letra L) 351 que tem 47 palmos de altura, não nos era claro de onde era feita essa medição. Assumimos, então, essa medição a partir do interior da fortaleza, partindo do pressuposto que poderia ser limitada pela dificuldade dessa medição pelo exterior, do lado da arriba. Procedemos à restituição dessa primeira torre através da extrusão da sua geometria base no sensivelmente correspondente a 10,45m, a partir da cota do pátio interno do forte.
Relativamente aos restantes três torreões do forte, as suas medidas não eram claras, sendo apenas deixada pelo autor a referência à presença de
dois pisos (ditas casas) sobre dois deles –os torreões Norte e Noroeste, demarcados com as letras M e I, respectivamente–, e à presença do sino de vigía no restante –o Poente, de letra N. Perante a falta de demais informação, assumimos a mesma altura para todos os torreões, no que imaginámos também ser a necessidade de uma uniformização da morfologia do forte como resposta às necessidades defensivas.
Sem a existência de informação que nos oferecesse pistas sobre a altura das muralhas do forte/castelo, optámos por utilizar a mesma diferença de cota entre a praça interna e o adarve existente nos desenhos de Vasconcelos de cerca de 17 palmos (3,85m), escolha determinada pela diacronia entre fases históricas. Ainda que soubéssemos da necessidade de existir o parapeito externamente, resolvemos concretizar apenas uma ideia generalizada da muralha (e do restante forte), sem pormenores.
Se pretendíamos utilizar as ferramentas de reconstituição vectorial e tridimensional como forma de fazer escolhas perante a confrontação com a informação disponível, estas foram tomadas sempre de acordo ora com a sua análise e interpretação conjunta, ora por um raciocínio suficientemente fundamentado. Nesta instância, não pretendemos oferecer uma imagem finalizada, antes delinear uma primeira aproximação tridimensional, no entendimento das diferentes relações casuísticas e, mais, para uma ilustração da nossa interpretação
Fig. 77 Sobreposição da restituição da reconstituição tridimensional da planta da fortaleza prévia ao terramoto, segundo Vasconcelos (a castanho) com a do forte segundo Massai (a cinzento).

Fig. 78 Sobreposição da restituição da reconstituição tridimensional da planta de Massai (a castanho) com a da alcáçova islâmica (a cinzento).
“Filosofia” que se propagou para os restantes elementos restituídos (relembramos, a igreja, a Casa da Câmara, e as três casas), pelo que não oferecemos uma leitura de intuito realista, por não termos qualquer base sobre estas, fossem alturas/cotas, ou quantidade de pisos. Optámos por uma volumetrização de base apenas, extrudindo o desenho, em planta, das paredes conforme desenhadas por Massai com uma altura de cerca de 15 palmos (3,3 m), para oferecer uma ideia suficientemente clara do que poderia ser a altura de um piso, embora sem a informação precisa que justifique a medida aplicada.

352 veja-se Fig. 43 [p. 147]

353 Cavaco, 1987: 276-277, apud Garcia, 2015a: 194
No que dizia respeito à alcáçova islâmica, eram inexistentes os elementos que nos permitissem uma sugestão da sua tridimensionalidade, dificultandonos uma restituição a esse nível.
Verificando o mapa sinóptico dos vestígios 352, em busca de elementos que nos confirmassem uma sua formalização restitutiva, verificámos a queda em 1565 de uma torre do lado do mar 353. Se, à partida, isto indica a modificação dessa frente e sua eventual reedificação a partir desse momento –e, assim, da(s) sua(s) altura(s)–, esta não significaria que a mesma não tivesse seguindo, previamente a esse evento, a mesma delineação arquitectónica da fortaleza islâmica.
Considerámos até a possibilidade dessas quedas se poderem ter dado precisamente nos trabalhos de adaptação e restruturação das muralhas da antiga alcáçova, que apenas viram no eventual projecto proposto pelo engenheiro Massai uma possibilidade de verdadeira revitalização, na sua transformação em fortaleza abaluartada.

Assim, considerámos as torres do forte/castelo conforme representadas por Massai enquanto morfologia para o que poderão ter sido as torres da alcáçova. Novamente, sem uma restituição muito precisa no que concerne quaisquer elementos estilísticos ou tipológicos mais concretos (à partida, por esses outros elementos também não terem uma restituição exacta).
Mesmo no que concerne ao bairro islâmico, e não obstante a campanha de escavações mais recente, não nos foi possível a tempo desta investigação ter acesso a um registo mais completo para além do existente aquando de 2015. Mas, para além disso, não teríamos uma ideia exacta das alturas dessas casas. Dessa forma, optámos por utilizar a mesma altura-tipo de 15 palmos que utilizámos para os elementos dispersos de 1617/1621, com o mesmo objectivo ilustrativo desses elementos arquitectónicos. Elementos esses que carecerão, de futuro, de uma restituição mais completa, feita em contacto próximo com as campanhas de escavações aí realizadas.
Como referido, propuseme-nos numa primeira instância a ilustrar estas restituições tridimensionais de acordo com a interpretação em anacronia feita no capítulo anterior, com as restituições e correspondentes períodos reportados à respectiva iconografia que os informou (exceptuando a fase islamizada, por os não ter); e onde estes períodos e a continuidade do edificado entre eles eram interelacionáveis apenas pelo posicionamento entre si, sinalizados pelos tracejados visíveis.
Nesse primeiro esquema deixámos apenas a representação tridimensional da fortaleza na época correspondente a 1758 e 1794, por se tratar do único edificado suportado por elementos representativos rigorosos (não obstante quaisquer incongruências apontadas).
No entanto, dadas as mudanças no conjunto mais alargado entre 1621 e 1794 –patentes apenas na iconografia de 1775, embora sem o rigor necessário para uma restituição a partir dessa–, antevimos a necessidade de uma outra esquematização restitutiva, onde pudéssemos ensaiar esta ampliada perspectiva. Foi necessária assim a inclusão da época actual (entendase, séc. XX/XXI), como forma de enquadrar a leitura destas restituições como fases estratificadas na evolução do povoado tal como actualmente existente. Mais, a sua inclusão informaria os elementos de continuidade da apresentada época anterior (séc. XVIII).
Foi na transição entre actual e 1794 (ano seleccionado, apesar do desconhecimento da data exacta da iconografia, em referenciação à visitação da Ordem) que surgiu a primeira questão, relativamente ao desenho das baterias. À partida, na planta de 179?, foi possível entender o desenho quase simétrico das baterias e respectivos abaluartamentos, não visível actualmente, dado que a irregularidade da arriba terá implicado um abaluartamento maior do lado Sudoeste.
Se poderíamos ter assumido essa diferenciação no desenho como significante de uma fase de edificação intermédia –onde as baterias poderiam ter sofrido
Fig. 79 [página seguinte]
Esquematização axonométrica da evolução da ocupação histórica de Cacela Velha, segundo uma compreensão diacrónica das diferentes fases.
Elementos da época anterior

Carta Topographica (...) do termo da villa de Casella (...) José de Sande Vasconcelos





Planta da Vª de Cassella Alexandre Massai

· Consolidação do restante núcleo urbano;
· Casa do Governador desaparece;
· Mantém-se apenas Casa do Pároco principal;
* ruínas de algumas casas do Bairro Islâmico desvendadas, com vestígios de extensão do bairro para Norte
· Reformulação da entrada e organização interna da fortaleza
· Poço antigo apenas visível na maré baixa;
· Nova fortaleza; simplificação do projecto de Massai, com baluartes apenas a Sul;
Bairro Islâmico* do período almóada, provavelmente da 2.ª metade do séc. XII
Alcáçova, possivelmente dividida em 3 patamares
· Possível aproveitamento dos torreões da antiga Alcáçova para construção do forte;
· Cemitério sobre Bairro Islâmico;
· Projecto de abaluartamento do forte, por Massai;

354 ver nota 346 [p. 205]
alterações tendo em conta quaisquer estragos causados pelo terramoto–, a semelhança destas entre as duas fases representadas na iconografia de 179?, e as restantes semelhanças morfológicas e tipológicas entre esta e a fortaleza actual, levaram-nos a assumir a uniformização do respectivo desenho –semelhantemente à falta de representação altimétrica 354 –como resultado do que parece ser o intuito de representar a evolução da organização espacial interna da fortaleza, assim como o estado das suas muralhas, sem um enquadramento mais alargado.
Mais, voltando a observar o mapa da “Villa de Cassella“ (1621), conseguimos perceber (mesmo sem informação altimétrica completa) uma semelhante adaptação no desenho do forte; onde o torreão na mesma posição se apresenta de maior porte, para compensar certamente, em termos estruturais, a falta de terreno nesse sítio. E, assim, apenas faria sentido que o mesmo princípio surgisse na adaptação posterior.
Ainda assim, na procura de uma lógica coerente entre as diversas restituições, mantivemos também nesta fase (de 1794) o desenho da fortaleza tal como presente na iconografia respectiva, já que pretendemos uma leitura conjunta de todos os diferentes elementos, sejam iconográficos, documentais, ou arqueológicos.
355 veja-se Fig. 74 [p. 196]
Fora esse elemento –e apesar de entre 1775 e 1916 não existir, de nosso conhecimento e pesquisa, iconografia reveladora do restante edificado de Cacela Velha, para uma restituição mais completa deste último período–, dispusemos os elementos apontados na “Carta Topographica (…)” (1775) e respectiva legendagem, e visíveis ainda actualmente segundo a nossa própria sobreposição com o levantamento vectorial do povoado 355. Incluíram-se desta forma:
• a Igreja de Nossa Senhora de Assunção, de acordo com a actual tipologia, incluindo os seus anexos, conforme o que parece apontar a iconografia;
356 Garcia, 2015a: 103
• a actual casa paroquial, correspondente às ‘Caza do Pe. Ajudador’; aqui, levantamos a dúvida desta poder ser uma estrutura quinhentista (conforme referido por Garcia) 356, dada a sua omissão do levantamento setecentista, podendo no entanto ter feito parte da remodelação posterior;
• dada a larga correspondência do conjunto assinalado como ‘Camera, e cadeia’ com o actual contínuo de habitações mais a Norte da povoação, incluímos esse conjunto de casas na nossa restituição da ocupação do final do séc. XVIII, pressupondo um crescimento da ‘Caza da Camara’ visível na mesma posição 357 nos desenhos de 1617/1621;
• três casas, sobre o agora antigo cemitério; dada a referência na legenda às ‘Cazas do P.e Ajudador’, e tendo em conta a presença de dois elementos edificados correspondentes a essa legenda, assumimos o primeiro (dos dois, o mais a Nascente) como sendo o que na actualidade se conhece como Casa do Pároco; e o segundo (o mais a Poente) como a continuidadade das ‘Trez cazas’ que Massai representou nos seus documentos 358. Apesar de não termos forma de verificar esta última hipótese –reconhecendo mesmo a possibilidade de ser um elemento edificado em período intermédio, como assumimos para a Igreja–, mantivemos este elemento, face ao mesmo tipo de assunção tomada para os restantes elementos.
Para uma facilidade de leitura dessas situações, pretendemos ainda imbuir esta esquematização axonométrica mais alargada de uma mesma leitura diacrónica como a realizada nos mapas sinópticos. Nesse sentido, a própria leitura do esquema 359 foi imaginada para ser realizada da base para o topo, onde numa dada época foram incluídos os elementos da época anterior (indicados a cinzento), pretendendo oferecer uma leitura facilitada da posição das novas edificações relativamente às suas “antecessoras“.
Por forma a sistematizar ainda mais (ess)a leitura interpretativa e restitutiva que aqui realizámos, incluímos um segundo esquema 360, em quase tudo igual, onde não se incluem as épocas anteriores por inteiro. Antes, os elementos indicados a cinzento numa época ilustram aqueles elementos edificados que são mantidos (completa ou parcialmente) da época anterior. Assim, mesmo numa leitura isolada de cada época, conseguimentos ter uma noção da continuidade entre estas e, consequentemente, entender visualmente as interpretações e hipóteses aqui levantadas.
A título de exemplo:
• podemos verificar, em 1621, a noção defendida de que o castelo erigido aquando da ocupação cristã terá reaproveitado uma parte das muralhas islâmicas e correspondentes torreões (a cinzento);
357 veja-se Fig. 38 [p. 136]
358 veja-se Fig. 38 [p. 136]
359 veja-se Fig. 79 [p. 212]
360 veja-se Fig. 80 [p. 219]
361 veja-se Fig. 51 [p. 158]
• a reconstrução da frente Sul aquando da construção da fortaleza oitocentista, com o aproveitamento da estrutura dos torreões da entrada Norte do forte do séc. XVII;
• ou em 1794, em que se mantiveram maioritariamente as muralhas exteriores da fortaleza, tendo sido apenas reformulados os corpos internos e entrada
Passa(m) também este(s) esquema(s) diacrónico(s) a ser(em) enquadrado(s), para além dos mesmos elementos iconográficos (indicados à esquerda), por uma simplificada cronologia (à direita), onde são indicados momentos estruturantes da evolução da ocupação do povoado.
Apesar de se reconhecer a possibilidade da diacronia construtiva dos torreões do lado Norte da fortaleza entre o desenho de Massai e as épocas anterior e posterior, pudemos antever a falta de uma sobreposição exacta em todas as instâncias dos elementos desenhados, conforme ilustrado no capítulo anterior; exemplarmente, o torreão Norte 361
Se nesse capítulo apenas procedêramos à reconstituição vectorial da iconografia, reconhecendo essa incongruência mas sem qualquer reinterpretação da mesma, entendemos aqui como melhor opção proceder à sua restituição tridimensional tendo em consideração o desenho original e, por conseguinte, mantendo patente essa mesma incongruência, por querermos manter a maior fidelidade ao elemento em causa (entenda-se aqui, da iconografia correspondente). Apesar desse facto, a proposta restitutiva da alcáçova apresenta o correspondente torreão de acordo com o desenho de 1758 em diante, ficando patente, não obstante, a continuidade do elemento em causa através da utilização da indicação/sobreposição a cinza e do tracejado nos esquemas axonométricos conjuntos.
Cavaco, Hugo (1987). “Visitações” da ordem de Santiago no Sotavento Algarvio - Subsídios para o estudo da História da arte no Algarve. Vila Real de Santo António: Câmara Municipal de Vila Real de Santo António.
Garcia, Cristina (2015a). Cacela-a-Velha no contexto da Actividade Marítima e do Povoamento Rural do Sudoeste Peninsular nos séculos XII-XIV. Huelva: Universidad de Huelva. Tese de Doutoramento.
Fig. 80 [página seguinte] Esquematização axonométrica da evolução da ocupação histórica de Cacela Velha, segundo uma compreensão diacrónica das diferentes fases, com ilustração dos elementos mantidos entre épocas.

· Consolidação do restante núcleo urbano;
· Casa do Governador desaparece;
· Mantém-se apenas Casa do Pároco principal;
* ruínas de algumas casas do Bairro Islâmico desvendadas, com vestígios de extensão do bairro para Norte




Topographica (...) do termo da villa de Casella (...) José de Sande Vasconcelos Planta da Vª de Cassella Alexandre


· Reformulação da entrada e organização interna da fortaleza
· Poço antigo apenas visível na maré baixa;
· Nova fortaleza; simplificação do projecto de Massai, com baluartes apenas a Sul;
Bairro Islâmico* do período almóada, provavelmente da 2.ª metade do séc. XII
Alcáçova, possivelmente dividida em 3 patamares
· Possível aproveitamento dos torreões da antiga Alcáçova para construção do forte;
· Cemitério sobre Bairro Islâmico;
· Projecto de abaluartamento do forte, por Massai;

PARA UMA VALORAÇÃO INTEGRADA DO PATRIMÓNIO (ARQUITECTÓNICO)
Finalizada a re(con)stituição tridimensional do nosso estudo de caso, tecemos algumas considerações finais, em jeito de avaliação e reflexão sobre as abordagens utilizadas, enquanto contributo investigativo para uma reinterpretação do património arquitectónico, no sentido de uma eventual valoração renovada no âmbito da prática projectual. Pretendemos, assim, fazer uma síntese do contributo que a representação e visualização digital e que os mapas sinópticos oferecem na abordagem cripto-histórica, assim como ilustrar exemplos reconhecíveis da aplicação de uma visão criptohistórica em projectos recentes de arquitectura sobre edifiícios históricos, e pensar os passos possíveis para a continuação do presente trabalho.
Aarquitectura é –pela sua natureza, pela sua materialidade e, mais importante, pela sua inscrição na sociedade– efémera, pese embora a sua aparente inércia e sensação de perpetuidade. No entanto, e por isso mesmo, independentemente da sua aparente (e muitas vezes, efectiva) perpetuidade física, será relevante considerar todos os aspectos inerentes a essa efemeridade, precisamente para considerar de que forma se deve formalizar a sua perpetuidade numa memória colectiva partilhada.
Importa assim, mais que nunca, contribuir para a sua preservação, para uma sua compreensão enquadrada, globalizante, integrada. Pois, se negarmos o passado, perdemos uma consciência histórica da nossa culturalização e, dessa forma, a nossa capacidade de preservar a autenticidade originária do nosso património.
Omaior desafio consite, para os arquitectos (e demais profissionais cujo âmbito de actuação se foque no património físico), perceberem que os seus meios mais directos de actuação não são por si só resposta à questão do património, se não souberem à partida nomear as condicionantes que a questão pressupõe em toda a sua extensão. É uma questão de critérios e de escolha; mas, mais relevante é assegurar até que ponto essa escolha é informada. Pretende-se com esta perspectiva, capacitar os profissionais para uma selecção facilitada de critérios que os informem dos testemunhos relevantes para a preservação da herança imaterial que oferece significado ao património físico.
Quanto ao contributo auxiliar da reconstituição tridimensional para a abordagem iconológica da Cripto-História da Arquitectura, relembramos que as ferramentas como as de desenho assistido por computador ajudaram à partida na análise das iconografias, aos permitir escalar estes testemunhos conforme a lógica metrológica subjacente e compreender essa mesma lógica ao tecer comparações com processos actuais, num processo dinâmico entre as abordagens émica e ética que anteriormente referimos 362
Pese embora não ser específico ao nosso estudo de caso, a utilização da lógica metrológica através do (re)desenho vectorial das iconografias, possibilitou uma compreensão mais precisa de elementos documentais que, de outra forma, seriam aceites de forma estanque, na descoberta de eventuais incongruências e falsas interpretações (como foi o caso do petipé presente na iconografia de 1621 por Alexandre Massai).
A utilização das ferramentas de representação digital permitiram também completar informação ausente, como foi o caso dos cortes "simplificados" que José de Sande Vasconcelos levantou do forte em circa 1790, cuja interpretação foi possível na nossa análise conjugada da planta.
Mas se estas ferramentas de representação permitiram a delineação de uma base mais exacta dos elementos já existentes, a sua leitura isolada não ofereceu a correlação necessária entre eles para a sua (re)interpretação face os elementos filológicos (descritivos do seu âmbito histórico). Antes sim, a utilização dessas ferramentas, ofereceram elementos de análise, que não foram agora e tão só compreendidos unilateralmente, mas como factores decisivos quando postos em diálogo e "confronto" entre si.
Reportando novamente às palavras de van Deinsen & De Paepe 363, foi de facto apenas através da utilização das ferramentas de representação e visualização digitais que nos foi possibilitado tecer as hipóteses relativamente à ocupação histórica do caso de estudo, por nos levar a uma confrontação de informação díspar entre si, necessariamente confluente para uma leitura integrada e a obtenção dos meios 3D para a sua inscrição na vertente que elegemos: a da Cripto-História.
362 ver subcapítulo Aplicação da abordagem Cripto-histórica dedutiva [p. 56]
363 van Deinsen & De Paepe, 2017: 49;
ver nota 76 [p. 46]
No que concerne à nossa primária questão –quanto ao contributo para uma metodologia de (re)interpretação histórico-cultural do património (arquitectónico) através da Cripto-História–, podemos afirmar que a tridimensionalidade referida no título acabou por não se reportar apenas à utilização das ferramentas computacionais subjacentes à investigação, mas também às outras ferramentas que propusemos (sob a forma dos mapas sinópticos). Estas serviram para reforçar a visão de englobar a (re) leitura das iconografias utilizando as ferramentas originalmente pretendidas, em conjugação com uma análise simultânea, complementar, das restantes informações bibliográficas, para um entendimento holístico e (mais) completo do património.
Neste âmbito, os mapa sinópticos desenvolvidos poderão ser uma mais-valia na possibilitação da comunicação, de forma mais facilitada, dos aspectos histórico-culturais com e entre a equipa projectista e restantes profissionais que actuem sobre uma obra arquitectónica.
364 veja-se Fig. 25 [p. 109]
365 ver nota 198 [p. 104];
veja-se Fig. 24 [p. 106]
Se, pela leitura dos factores ilustrados (relembrando, políticos, sociais, culturais, etc.), o primeiro mapa sinóptico 364 serve como um auxílio visual ao enquadramento histórico da obra em causa (qualquer que ela seja), permitindo visualizar os períodos de reforma arquitectónica e construtiva (à semelhança do que Addis já havia feito 365) em confrontação com as informações dos restantes factores histórico-culturais que os terão influenciado, é no cruzamento com as colunas com as datações dos vestígios construídos e/ou arqueológicos existentes que se poderão retirar conclusões para uma mais estreita janela de construção desses mesmos vestígios e, assim, auxiliar ao entendimento da sua maior ou menor relevância histórica e patrimonial para a valor(iz)ação da obra.
Ademais, o mapa permitirá congregar datações distintas (de diferentes fontes) para determinados factos históricos ou mesmo períodos de construção, permitindo confrontar as diferentes informações sem imediatamente dispensar nehuma, desta forma facilitando o encontro de informações incongruentes e sua eventual análise para verificação.
A partir desse primeiro, o mapa cronológico sinóptico que congrega as informações respeitantes ao caso 366, permitirá mais facilmente focar na documentação (escrita e icongráfica) e vestígios (existentes e arqueológicos) da obra, de forma a enquadrar esses elementos na sua história específica. Essa leitura conjunta e cronológica dos vestígios poderá auxiliar no reconhecimento de períodos de escassa informação, ou de elementos que, aparentando ser de alguma relevância histórica, se demonstrem como acrescentos posteriores de ordem prática, informando tomadas de decisão.
O último mapa desenvolvido, assente nas especificidades construtivas (tipológicas, morfológicas, materiais, etc.) 367, será o que melhor informará aquando da recuperação de determinado(s) elemento(s) da obra em causa, na busca de uma aproximação à sua forma de construir. Foi, aqui, o menos desenvolvido, devido à falta de padronização generalizada no(s) período(s) estudado(s), mas a sua aplicação a outros períodos é inteiramente possível, e permitirá enquadrar as opções projectuais e construtivas da actuação.
Na base do nosso estudo estão também outros conceitos e metodologias, que contribuirão para a sistematização do que será a construção da Cripto-História da Arquitectura e sua aplicabilidade mais alargada. Reforçamos, a título de exemplo, a denominada arqueologia da arquitectura, enquanto “(...) metodologia específica que regista, em detalhe, os valores intrínsecos do objecto de intervenção e os interpreta, à luz de uma análise comparativa e do confronto com valores extrínsecos, possibilitando o conhecimento do seu passado através de um método mais coerente, objectivo e sistemático” 368. À arqueologia da arquitectura se fica a dever o objecto arquitectónico patrimonial, capaz de ajudar nas decisões interventivas no mesmo, seja em termos programáticos, conceptuais ou construtivos. Embora baseada no método arqueológico, consegue de forma analítica entender as edificações como estruturas estratificadas, complexas, resultado de subsequentes adições e subtracções 369
366 veja-se Fig. 43 [p. 147]
367-se Fig. 58 [p. 169]
368 Lacerda & Ramalho, 2006: 6
369 ibidem Fig. 81 Caricatura por Osbert Lancaster, onde se pode ler "Aquilo é St. Paul, pois era!" [tradução livre pelo autor] (Fawcett, 1976: 73)

370 ibidem
Assim, a ideia esta investigação foi conjugar diversos elementos que, reconhecemos, apontam para um mesmo objectivo estrutural, de forma a facilitar a necessária compatibilização dos conhecimentos necessários à preservação do património como tal com as necessidades do projecto 370

371 Serrão, 2014: 35-36
As novas gerações de historiadores, críticos de arte, conservadoresrestauradores e técnicos de património da era da globalização podem lidar melhor com a ruína envolvente porque aprendem nestas lições, que se tornam de evidenciada utilidade para uma cartografia de registo face à extensão brutal das perdas identitárias e para uma adequada intervenção preventiva. As possibilidades de intervenção de salvaguarda aumentam, também, fidelizadas ao respeito pelo valor máximo da “autenticidade”, tal como prescreve a Carta de Cracóvia. Mas se a história-crítica, na sua utilidade perene, fala com as obras de arte como “obras em aberto” (assim as definiu Umberto Eco), a verdade é que progrediu com dificuldade no seio de um mundo globalizado. Alargou a sua capacidade de análise crítica, sem dúvida, recentrou atenções regionais, disponibilizou apoios das tutelas, redefiniu o objecto de estudo com enfoque micro-artístico, amadureceu a sua visão patrimonialista sem peias auto-menorizadoras e reforçou esse seu entendimento (que só ela pode ter…) do “discurso da arte” como fenómeno que é, em todas as circunstâncias, inesgotável e “trans-contemporâneo”. Mas o dilema que permanece é que a força dessa consciência de saberes impõe sempre novas respostas dificilmente compagináveis com o fenómeno de descaracterização dos tecidos habitacionais. 371
Por isso, e ainda que o objectivo não fosse um enquadramento da/na actual prática do projecto de arquitectura –no que se revelaria, certamente, uma outra tese por si só–, a eventual utilidade de uma tal ferramenta de (re)interpretação histórico-cultural seria desde logo perdida, caso não levantássemos exemplos da prática actual que aplicam os preceitos da Cripto-História para uma valoração do edificado actuado e da sua memória, ilustrando a eventual aplicabilidade para lá do âmbito historiográfico na sua base e perante as necessidades evolutivas das populações.
Um primeiro exemplo que destacamos é o projecto de consolidação e restauro da Fortificação de Juromenha, da autoria do atelier Pedro Pacheco Arquitectos, em parceria com o arquitecto José Aguiar, entre 2018 e 2024.
Localizada na povoação homónima pertencente à União de Freguesias de Alandroal, São Brás dos Matos e Juromenha, no Município de Alandroal, distrito de Évora, em Portugal, esta fortaleza, de origens islâmica, foi tomada primeiramente em 1167 pelas tropas de D. Afonso Henriques, para ser definitivamente conquistada pela Ordem de Santiago em 1242, tendo sido circundada mais tarde, durante a época da Guerra da Restauração, por baluartes em forma de estrela e por revelins 372
Este projecto de arquitectura vale-se essencialmente pela ideia de encapsular um determinado período –neste caso, da ocupação islâmica– através da incorporação do estado actual, degradado, num (re)desenho de acordo com a informação existente do período islâmico sobre a utilização ali da taipa militar. Neste caso, que segue o mesmo dimensionamento do antigo sistema construtivo, para manter uma ideia de continuidade material e construtiva, mas também, essencialmente, do conhecimento e técnica patente na obra originária, agora aplicado a uma nova morfologia.
372 Direcção-Geral do Património Cultural, 2005
Fig. 82 Vista sobre um dos baluartes intervencionados da Fortaleza de Juromenha, onde se denota a diferença entre a antiga e a nova morfologia (Foto: Pedro Pacheco arquitectos)

Os autores referiram a intenção de não restituir inteiramente a muralha islâmica, por não possuírem a informação, e reforçando Aguiar a eventual falácia de o tentar fazer quando refere que "o restauro termina quando a hipótese
373 FA-ULisboa, 2021 [49 : 22]
374 ibidem [1 : 48 : 22]
Fig. 83 Vista do exterior sobre a Porta de Armas do Castelo de Monsaraz, de acesso à antiga cidadela, a Sul (Foto: Pedro Pacheco arquitectos)
começa" 373 –significando que não passava pelo papel dos arquitectos envolvidos recriar a história que não se conhece. Tendo, desta forma, o projecto feito por reconhecer o sistema construtivo em questão como o elemento verdadeiramente patrimonial a ser mantido e consolidado.
Outro exemplo que destacamos, da mesma autoria, é o projecto para a reabilitação do Castelo de Monsaraz, concebido em 2017 e construído entre 2019 e 2021. O conjunto de Monsaraz, localizado na freguesia homónima, no município de Reguengos de Monsaraz, distrito de Évora, em Portugal, encontra-se classificado como Monumento Nacional desde 1946.
Se inicialmente o projecto fora encomendado com a mera premissa de reabilitação e consolidação da muralha exterior, os arquitectos reconheceram a necessidade de olhar o património como algo viv(id)o, injectando-lhe antes uma intenção que se perdera com o enfoque na acessibilidade das viaturas. Assim, a partir de uma leitura do território, dá-se a reincorporação do caminho do antigo muro barbacã, cuja delimitação já não existia para lá da sua demarcação no solo , oferecendo uma nova forma de experienciar a obra. A equipa, assim, voltou a reforçar esse perímetro enquanto caminho pedonal como forma de recuperar o passado, sem no entanto criar um falso histórico, ao recuperar o muro em si sem conhecimento da sua altura.

Um dos outros pontos interessantes deste projecto é a forma como este foi sendo redesenhado em obra, precisamente pela comunicação com as outras disciplinas e profissionais envolvidos, como por exemplo a equipa de arqueologia. É exemplo o desenho das escadas junto à Porta Sul do Castelo, que dá acesso à antiga cidadela (transformada posteriormente em praça de touros), que viu o seu redesenho após a descoberta de uma escada lateral que ali tinha havido, tendo aproveitado a equipa para manter uma maior autenticidade. Dessa forma, ainda que o projecto se efective através de uma geometrização mais regular (face a maior organicidade original), é mostrada uma preocupação no desenho de estereotomias alinhadas com as pré-existentes, na aplicação da materialidade, etc., porque "O importante não é o desenho em si, é a acção sobre o lugar" 374
Mas se estes projectos "beneficiavam" do facto de não terem de (cor)responder a uma especificidade programática pré-estabelecida, indo assim mais ao encontro a uma "musealização" do conjunto arquitectónico (contrariando, no entanto, a estanquidade associada a essa noção), um outro exemplo que realçamos passou pela reabilitação e extensão de um conjunto patrimonial para abarcar um programa de usos muito específico, de índole escolar. O projecto de reabilitação e ampliação do Convento de Telheiras, para acolhimento do programa para o Colégio Mira-Rio, de autoria da parceria entre os ateliers LGLS | Arquitectos e CVDB Arquitectos Associados, concebido em 2012, e construído entre 2016 e 2020.
O edifício que correspondia ao Convento de Telheiras, fundado no séc. XVII, manteve-se desocupado durante largos anos, à medida que a cidade se foi expandindo, levando ao desaparecimento dos terrenos afectos e à mudança do traçado da Estrada de Telheiras, que delimita o lado Norte do edificado. Apesar disso, a escala das construções envolventes e a existência de grandes áreas ajardinadas, possibilitaram que o antigo Convento de Telheiras mantivesse o protagonismo urbano próximo do seu carácter original, e dessa forma ilustrasse ainda, em parte, uma realidade de relação entre rural e urbano, de outra forma já desaparecida.
Refere a equipa 375 que, da intenção de instalar ali um colégio, emergia a oportunidade de recuperar e valorizar a memória dessa época, procurando responder eficazmente às necessidades do novo programa funcional, com alterações mínimas à tipologia pré-existente. O(s) corpo(s) correspondentens à ampliação do Convento são servidos por uma estrutura de circulação que retoma a tipologia do claustro, através de uma hierarquia de pátios e espaços exteriores de diferentes usos e escalas.
Foi no processo de ampliação que se levantaram questões, a par do
375 LGLS | Arquitectos, 2012: 67
Fig. 84 Vista do pátio interno do Colégio Mira Rio, onde se vê a conexão do projecto novo com o edifício do antigo Convento de Telheiras (Foto: Fernando Guerra | FG+SG)

376 FA-ULisboa, 2023 [58 : 30]
Fig. 85 Vista geral sobre o lado norte do Colégio Mira Rio, onde se pode ver o pátio de entrada do que era o antigo Convento de Telheiras [à direita] (Foto: Fernando Guerra | FG+SG)
aproveitamento dos materiais do edifício original em si, de manutenção e preservação de uma certa autenticidade da obra original. É referido pelo arquitecto António Santos 376 que, no processo de restituir o portão de acesso ao pátio de entrada do edifício do Convento, foram aproveitadas soleiras e pilares pertencentes ao edifício, embora implantadas em sítio diverso ao original. O que o arquitecto acabou por referir foi a preocupação em criar um falso histórico, embora a decisão tenha tido em conta, precisamente, o facto de ter existido naquele sítio um portão, de acordo com iconografia, e verificável através de fotografias.

377 FA-ULisboa, 2023 [36 : 55]
Existe um outro pormenor que demonstra em particular a directa aplicação de um entendimento cripto-histórico da obra, no momento em que a equipa autoral do projecto insiste para preservar uma calçada em basalto escondida, a qual é (re)utilizada para definir um percurso pedonal entre os edifícios, cujo desenho corresponde ao percurso perimetral do claustro que estava previsto no projecto original mas que nunca fora concretizado 377
Esta ampliação acaba por demonstrar de forma bastante clara, nalgumas das suas opções, a possibilidade de aplicação da abordagem cripto-histórica a um projecto sobre um edifício histórico.
Embora a especialização da presente tese se tenha enquadrado desde o início (por necessidade) no ramo do Desenho e Computação, mais facilmente o seu repartido enfoque no ramo da Teoria e História ilustra a sinergia pretendida com a nossa hipótese de investigação e que aqui fizemos por ilustrar através do nosso contributo investigativo. E se nos propusemos, conforme revelámos no substítulo desta investigação, a oferecer um contributo para uma metodologia de (re)interpretação histórico-cultural do património arquitectónico, não se esgota esse objectivo na primária formulação que aqui oferecemos.
Por um lado, será na aplicação do nosso "modelo" a outros casos de estudo inseridos nos diversos âmbitos cripto-históricos referidos 378 que poderemos progressivamente substanciar a potencialidade da sua aplicação e, dessa forma, vincar a continuidade desta disciplina na consciência dos investigadores, profissionais e leigos.
Reforçáramos também de início 379 a necessidade de aplicação da Abordagem
Dedutiva conforme definida por Serrão –lembrando, como procura de padrões onde a concepção da obra em estudo se enquadre– para o eventual preenchimento de lacunas de informação presentes nos vestígios existentes (sejam eles quais forem: documentais, iconográficos ou arqueológicos).
Ainda que os mapas sinópticos tenham sido realizados com esse objectivo –apontando mesmo para o mapa sinóptico que pretendeu apontar os diversos factores construtivos influenciadores de uma dada concepção arquitectónica 380–, não nos foi possível ir mais longe nessa abordagem (no que toca a Cacela Velha), especificamente na procura de outras obras arquitectónicas que apresentassem semelhanças construtivas, para o reforço das restituições 3D formuladas.
Dessa forma, será necessário encontrar compatibilidades com outros casos de estudo que (se) apresentem (n)um semelhante contexto histórico-cultural, ou mesmo alicerçar em padrões reconhecíveis à época, mesmo que a um nível local, para a possibilidade de levantar hipóteses sobre opções tipológicas, morfológicas ou estilísticas mais concretas.
378 ver subcapítulo Para uma Cripto-História da arquitectura [p. 28]
379 ver subcapítulo Aplicação da abordagem cripti-histórica dedutiva [p. 55]
380 veja-se Fig. 58 [p. 169]
De igual forma, o acompanhamento dos trabalhos de arqueologia que têm posto a descoberto o bairro arrabalde do período do Al-Andaluz (e de quaisquer restantes operações complementares levadas a cabo pelo Centro de Investigação e Informação do Património de Cacela) será da maior importância, para reforçar não apenas o trabalho aqui exposto, mas, mais ainda: reforçá-lo como exemplo de uma operação replicável e simbólica da noção de património que, desde o princípio, defendemos.
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lisbon pre 1755 earthQuake (2010a). City and Spectacle: A Vision of PreEarthquake Lisbon [Vídeo]. Acedido a 20-05-2020, em: https://vimeo. com/17044721
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Silva, Luís (2010, 11 de Outubro). Cadastro Romano de Balsa / The Roman Cadastre of Balsa (Lusitania). Empirical evidence and gromatic interpretation Acedido a 26-03-2024, em: https://balsa-romana.blogspot.com/2010/10/ cadastro-romano-de-balsa.html
Massai, Alexandre (15??-1638). Descrição e plantas da costa, dos castelos e fortalezas, desde o reino do Algarve até Cascais, da ilha Terceira, da praça de Mazagão, da ilha de Santa Helena, da fortaleza da Ponta do Palmar na entrada do rio de Goa, da cidade de Argel e de Larache, 1607/1617 (PT/TT/CCDV/29). Disponível em: https://digitarq.arquivos.pt/details?id=3908671
Villa de Cassella, 1617-1618 completado em 1621 (MC. DES.1402.03). Disponível em: http://acervo.museudelisboa.pt/ficha. aspx?id=5363&ns=216000&Lang=po&museu=2#
“Cacela, Tavira” (1758). In Memórias paroquiais (1722 - 1832). IHRU: DGEMN/ DSID, DGEMN/DREMS; CCRAlg; CMVRSA; ADRIP; DGARQ/TT: , vol. 8, nº 27, pp. 149-156. (PT/TT/MPRQ/8/27). Disponível em: https://digitarq.arquivos. pt/details?id=4239384
Vasconcelos, José de Sande (1738-1808). Carta Topographica dos baldios, e terras incultas do termo da villa de Casella, aonde se declarao os nomes dos seos senhorios, os moios de terra que tem, o que pódem levar em semeadura, o que pódem produzir, e o custo que farâo para se reduzirem a cultura, mandada tirar por Ordem do Ill.mo E. Ex.mo Senhor Dom Joze Francisco da Costa, e Sousa, armador mor de sua Mag.e G.or e Cap.am G.nal. de este Reyno d’ Algarve, pello Sarg.to mor Jozé de Sande Vas.cos e desenhada pello mesmo Saro.to mr. Anno de 1775. I.G.P., Catálogo de Cartografia Antiga, Nº 261. Disponível em: https:// ciipcacela.wordpress.com/artigos-com-interesse/carta-topografica_1775 Explicação da carta topográfica do termo da v.º de Cacella. [Escala não determinada] [S.l. : s.n.], [1775] - 1 documento : ms., color. ; ; 69 x 52 cm. Disponível em: http://arquivodigital.defesa.pt/Images/winlibimg. aspx?skey=&doc=279829&img=30522
Mappa da configuração de todas as praças fortalezas e baterias do reyno do Algarve / Segundo a ordem do Ill.mo e Exmº Senhor Conde D´ Val D´ Reis G[overnad]or e Capp[it]am General do mesmo Reyno ; Feito pello Ten[en]te Cor[on]el Jozè d´ Sande Vasco[ncelo]s. - [Escalas não determinadas]. -[1788].44 plantas : manuscritas, color. ; 57x50 cm. Disponível em: https://purl.pt/762 Planta do estado antiguo, e prezente da fortaleza de Cacela / pelo Coronel Jozé de Sande Vasc[oncel]os ; delineada, e mandada tirar geometricamente
pelo Conde Val de Reys, g[overnad]or e cap[it]am g[e]n[er]al do R[ei]no d´ Alg[arv] e, pa[ra] ser presente ao Principe N. S.. - Escala [ca. 1:140], 100 palmos = [15,80 cm]. -[179?]. - 1 planta : manuscrito, color. ; 73x145 cm. Disponível em: https:// purl.pt/23873
Lopes, João Baptista da Silva (1781-1850). Carta corográfica do reino do Algarve, que faz parte da corografia do mesmo reino / publicada por J. B. da Silva Lopes ; J. A. de Abreu [primeiro ensaio a lápis]. - Escala [ca 1:200000], 5 Legoas de 20 ao Grau = [13,90 cm]. - Lisboa : J. B. da Silva Lopes, 1842 (Lisboa: Off[icina] Lith[ográfica] de M[anu]el Luiz da Costa). - 1 mapa : litografia, p&b; 45,30x79,90 cm, em folha de 51,30x83,80 cm. Disponível em: https://purl. pt/3973
Lopes, João Baptista da Silva (1781-1850). “Cacella”. In Corographia ou Memoria economica, estadistica e topographica do Reino do Algarve (1841) Lisboa, Typ.da Academia [R.das Sciencias de Lisboa]. pp. 387-388. Disponível em: https://archive.org/details/corografiaoumem01lopegoog/page/387
Herz, Justino Henrique (1880-?); Carvalho, Ernesto Tavares de Almeida (18671924). Costa Sul de Portugal. Barra de Cacela. Plano hidrográfico levantado em Outubro de 1915 pelo 1.º tenente J. Herz. Correcções feitas em 1916 pelo Cap. ão tente E. T. d’Almeida Carvalho em serviço da Missão Hidrografica da Costa de Portugal. - Escala 1:10000. - Lisboa : Missão Hidrográfica da Costa de Portugal, 1916. - 1 pl. : color. ; 37,30x37,30 cm em folha de 44,60x41,60 cm. Disponível em: https://purl.pt/27308.
— Transcrições dos documentos:
1. Massai, Alexandre (15??-1638). Descrição e plantas da costa, dos castelos e fortalezas, desde o reino do Algarve (...), 1607/1617 (PT/TT/CCDV/29).
2. Massai, Alexandre (15??-1638). Villa de Cassella, 1617-1618 completado em 1621 (MC.DES.1402.03).
3. “Cacela, Tavira” (1758). In Memórias paroquiais (1722 - 1832). IHRU: DGEMN/ DSID, DGEMN/DREMS; CCRAlg; CMVRSA; ADRIP; DGARQ/TT: , vol. 8, nº 27, pp. 149-156. (PT/TT/MPRQ/8/27).
4. Vasconcelos, José de Sande (1738-1808). Explicação da carta topográfica do termo da v.º de Cacella. [Escala não determinada] [S.l. : s.n.], [1775]
5. Lopes, João Baptista da Silva (1781-1850). “Cacella”. In Corographia ou Memoria economica, estadistica e topographica do Reino do Algarve (1841) Lisboa, Typ.da Academia [R.das Sciencias de Lisboa]. pp. 387-388.
— Posters realizados para o "Encontro com a Ciência e Tecnologia" em Portugal:
6. poster para edição de 2019, decorrida entre 8 e 10 de Julho de 2019;
7. poster para edição de 2020, decorrida entre 3 e 4 de Novembro de 2020;
8. poster para edição de 2022, decorrida entre 16 e 18 de Maio de 2022
SobreaV.ªdeCassella~ AdittaV.ªhétermodaCidadedeTaviraestásituádadap.te doLeitealem
DadittaCidadeduasLégoas,OCastelloestáemsitioEminemtedesviadoda Praja160BráçasnãoconthememsimáisqueodittoCastéllo,huãEgreijaetresmoradas decázashuãdasquaisservedecazadeAudiensia,entreaPrajaeoCastélloáhu~Posso deagoadebeberaoquálsevemfazerágoada,temhuãPrajademáisdeseisLégoas emaquálsedezembárquafassilmente,osmoradoresvivemaorredordaV.ªemquintas apartádasdellaotermohéterrafertildosfructosquenadescripçãodoReinosetem ditto,pertodelladap.te domársedeixadesemeárportemorquetemdeoscossários lhequeimáremosfructos,edizemsohiãovirpesquárnadittaPrajamt.os Pesquadores deFánegasequerendiãop.ªafaz.dadesuaMag.demáisdedousmilcruzadoscadaanno osquáisnãovempellodittotemoreporestároCastellodesbaratádoemálprovidoepeor segurop.ªrecolhimentodegente~
OsmoradoresdadittaV.ªqueestãofórasão180vezinhososquaisemtempoderebáttesserecolhião nodiitoCastéllooqueaoprezentenãofázemessenãoassérrasporqueCahiohu~pedássodemuro dodittoCastéllodapártedomárporteremsimadesicazasdemtºpezooquálsedeveconserár eescuzárascázassobradádasquesendoneçessáriassepódemfazerterreasnositioassinádoem atráçaseguintecomaletraF,HomuroqcahiohéodecorvermelhoassinádoA,devemsse consertártambemascázasdoAlcaidemóredapártedatérraondeestáaPortaB,fazerlhe hu~fossettecomsuaPonteLevadissaEsedevecobrirocorpodeguárdaassinadoC,Efazerlhearmadrª daPórtaquelhefáltaerrefazerdoussobrádosdascazasD,Eoutrosremendinhosqueporserem depouquasostanssiapostoqueneçess.os senãonomeãoquetudofarádecusto550Ur’s
HánodittoCastéllosinquoBerssosdebronzeedelleslhesfáltaasCamaraseadellesosrep.os deittadosportérrasãodedousatétresquintáiscadahu~sérvemp.ªnaviosenãop.ªfortale= zassedevemtomáremandároutraArtilhariadeferrooubronzeeassimandár-lhehuãduzea demosquetesdepóstaeassiacetacomoaasmáis[prouchas]depolvoraemonissõisdeque ágrandefaltaemtodascomotenhoditto~
EmodittoCastellonãomóraninguemeoCapitãosedesculpacomestárellearruinádo nemáBombardr.os quesedeveproverquuehédescuidoemtáltempotemadittaV.ªasvigias quenaRelaçãodaCidadedeTavirasedizemquehéaquesesegueeasRendasdeSuaMg.de
EstamanexasaadittaCidadeedéllasaCrástoMarimquesamassizasdésdeoRio dapédraaluaperaodittoCrastoMarim
EmodittoCastéllovigiãotreshómensagirossómentedenoitteenaPrajaseishoménsdeCavállo agirosdouscadanoittepáguosdodinheirodosdousporçento~
EmrezoluçãosobreadittaV.ªeemdescárgodeminhaconssienssiadiguoqueofórtedomódoque aoprezenteestánãodefendeosmoradoresporavercomotenhodittoseisLégoasdePrájaEaV.ª estádesbarattádaepostoqueoCastelloseconssérteédepouquoeffeittoesirvirámáisaoEne= miguoeoffenssadatérra,AvendosuaMag.de porbemqueseconsserteenãoavendonaV.ªmoradores enoCastélloprezidioqueaguárdeedeffendanãonoapróvomasantesaprovareiquesedesman= cheessepásseaEgreijaemoutrap.te pellatérraadentroequenotálsitionãoájaPovoassãopor seraprajademáisdeserLégoascomotenhodittoeemtodaéllasedezembárquaenãohé segurocomoentendoteráVS.ªporinformaçãomelhordoqueeuodiguo[EttJ]
~DeclaraçãodaSeg.te PlantadaV.ªdeCassella~
Prim.ªmt eseadvertequedomurodoCastélloasinádocomaletraAatéaPraja ondeestáaletraHsão1600pálmosquesão160bráçasde10pálmoscadahuã~
Oqueestádecorpárdohéafábriquavélhadomodoqueaoprezenteestáep.te dellasedeve ConssertárcomonaRelaçãosetemditto~
Odecoramaréllohéafortifiquaçãoquesepodiafazerdenovop.ªqueomosquetedepósta guárdeedefendamelhóramurálhadoquesenãotráttanaRelaçãoeportantose[advirte] aqui~
A,Heomuroquecahioquesedeveconsertárdenovo;B,HeaPortadoCastelloondese devefazerofossetteoucovarelatádonaRelação~C,HéoRebelimoucorpodeguárdaque sedevecubrirefazerlhesuaPortadeMadeira,D,CázasdeAlcaidemórcomdousso= brádosemsimaquesedevemconsertárefazellasdehúsósobrádo;E,Possodeq ’ seserveaVª~
F,Sitioondesepódemfazerhu~párdecázassendoneçessro~G,Celeiroquemandoufazerho
Comendádoraoquálsedeveconsertárotelhádo H,Prajadearea;I,Torreque temduascázasemsima,L,Torreterraplenádatemdeálto47palmoseoproprioomuro juntoaélladap.te doCeleiro;M,TorreondeesstáosinodaVigia;N,Torredemenágemcom duascazasemsimahuãporsimadoutra,O,EgreijadeNossaSorãdaAsunssão,P,Adrodella~
QCazadoprioreoutrasduasmáis;R,CazadaCamara;S,Pelourinho~
ELACAÕ,E,TRASSA,DA,VÍLLA,
,
,
Estasituadaemhu~sitiomaisaltoqáSuperfiçedomarcouzade60áte70palmosEestadisntantedaCidadedeTaviradu asLegoás,Edap.tedoLeste,ehetermodellatemoseuCastellodesviadodacosta1600palmosnoquálnãomoranelleoCapitãone~ legiãoporcausadasRoinasdasCazasemuros,nellehá5BerssosdecamaraadellessemaViam.to.Epostosemterra,sedeveprover doutrasortedeArtelhariaede12mosquettesdepostacomseuaviam.toemuniçãoq’denenhuãsorteátem,Easimmesmoólhebe neçess.rohu~Bombardr.ºeajudanteqõnãotemãvendonelleestarArtelharia~
AdittaV.ªnãotemmaisq’odittoCastelloehuãIgreiadalmVocassãodenossaSorãdasunssãocomsom.te 3moradoresdecazasq’ numadellassefasaudiençiaEp.to doCastellodap.te domarestahu~possodeagoádebeberq’serveáosq’alimorãoEaosmareá= ntesq’aellevãofazeraguoadasassimámigoscomoenemigospornãoaverofenssap.ªosestorvarem,àsuacostaepraiade maisde6Legoásdecompridop.ªap.tedoRiodeguadianaenellasepodeembarquaredezembarquarseguramte~
Todososmoradoresq’serão180vezinhosestãomorandoaoRedordadittaV.ªemquintasapartadasE[sobia]serq’amajorp.te dellesemtempo[deRebate]sevinhãorecolhendonodittoCastellooq’âgoranãofazemporasuadanifiquaçãoesenãoaserraaoredor daV.ªassimdap.te deterracomodadomarsãotodasterrasferteiseabundantesdemantim.tos doq’sedissenadescripçãodoReino poremdap..te domarosdonosdasterrasasdeixãodesameárpormedodoscorsariosq’lhevemqueimarasnovidades,Edizemos moradoresq’nassobredittas6Legoásdeprajasohiãoviraellapesquarm.tos comXavegasporseromarnadittaparagemâbun dantissimodepeixeeq’deprezenteodeixãodefazerpornãoestaremsegurosEpornãoterem[oemparo]dodittoCastellonemave ndonellequemosdefendaeseg.ro suásenformassõisdigodosnaturaisdizemq’seperdemnosdireitosdepeixemaisde800U [r’s]cadaannosom.te p.ªafaz.da desuaMg.te aforaodemais~
AsVegiassãoasseg.tes asquaisserepitemnaRelaçãoseg.te daCidadedeTavirraporserasobredittaV.ªsemtermo;NoCastelloVegião3 homésâgirosesom.te denoitte,enasobredittaprajavegião6deCavalloehuãsobreRoldaoshomes~âgirosdoisdellessom.teem Cadanoitteosquaissepagãododrºdosdoisporsento~
.1.Rendimento~
AsRendasq’aV.ªtemp.ªâfaz.ºªdesuaMg.de tambémsedizemnaseg.teRelaçãodeTaviraporseremaellaanexas,EdellasaV.ª decrastomarimEsamàssizasdo[Rio]depedraáSuaq’sãop.ªôdittocrastomarim~
.1.Emfant.ra~
Agentedepelejaq’estetermodasobredittaV.ªtemsão7decanalloE108depéq’portodassãoaspropriás~fiquamepordizer doconssertodoCastellooquálsedeclaranatrassaseg.teq’hehu~pedassodemuroq’aruinoupellom.to pezoq’sobresielletinha,oquál sedevecomsertar,Efazendoçenãosecareguamaisnelleq’hu~sóosobradodecazaseq.do nodittoCastellosejaneçess.ro maiscazas sefessãoterreásnositioq’nadittatrassaseapontaEasimmesmosedevemcomsertarascazasdoAlcaidemorEcomendadorq’de prezenteheBernaldimdetavoraásimcomoedaman.raq’deantesestavãosemmaisq'hu~sóosobrado
SedeviafazerdenovoofosseteporforadaportadodittoCastellocomsuapontelevadiça,Easimmesmosedevedecobrirocorpodeguar dacomoedaman.ra q’deantesestavaEaosmuros,etorresselhedevefazerdenovotudooq’naseg.tetrassaseveasinaladoEdeclara doq’pondoçeporobraemtendofaradecustoquantoasimatenhoditto900Uoq’nãosefazendomepareçeq’odittofortedotálmodocomo estanãodefendenemaseguraosmoradoresnemdaV.ªnemdotermo,nemosq’quizeremjrpesquarasuapraia,Ecomsertandoçede veestarnelleôCapitão,comôBombardr.ºeajudanteásimaditto,Artelhariaemosquettesemuniçõisneçess.ras q’deOutromodonão servemaisq’deArmadilhap.ªosenemiiguosprenderemquemasuasonbravierporSalvarçe,omaiscaloedirejdepalavra?
.1.Declaraçãodaseg.teplanta~
DesdeomurodoCastelloasinadocomaletraAáteapraiaondeestaaletraHhá160palmosdigoBrassasde10palmoscadahuã;Eoq’esta decorpardaseemtendeafabriquaVelhadomodoq’aoprezenteestaq’p.te dellasedevedecomssertarcomonaRelaçãoasimasetemditto;Eó decorvermelhaheafortifiquaçãoq’sepodiaedeviafazerdenovop.ªq’osmosquettesdepostaguardeEdefendamilhoramuralha~
A,Muroq’cahioq’sedevecomsertaroutravézdenovo;BfortedocastelloEdianteofossetecomsuapontelevadiça;CRebelimourcorpodeguarda q’sedevecobrirefazerlheamadr.ªdaporta;DcazadoAlcaidemorcomdoissobradosemsimaq’sedevemcomsertarefazerlhehu~sóo sobrado,E,Possodeq’seserveav.ªemareantes;F,sitioondesepodefazeralguãscazassendoneçess.ro G,Sileiroq’mandoufazerocomen dadorEsedevcecomsertarotelhado;H,Prajadearéa,I,Torreq’temduascazasemsima,L,Torreteraplenadatemdealto47palmos
Eomesmomurojuntoaelladap.te dosileiro;M,TorrenondeestaosinodeVegia;N,torredemenagecomduascazasemsimahuãemsima Daoutra;O,Igreia;P,adro;Qtrezcazas,R,cazadacamara;S,Piloirinho~
FreguesiadeCacella
Respondendoaoqueseprocurasaberdesta VilladeCacellaheoseguinte.
1. HeestaVilla,terradoReynodoAlgarvee BispadodeFaro,ComarcadeTavira,Villaápartee comseutermo;deumasófreguesiacomPrior,eAjudadorpostopelloOrdinario;aindaquenoseutermoentraparte daFreguesiada[Deleyte],comCapellãopostopellaOrdem, eentratãobemaFregueziadoAzinhalcomseu[cura],postopelloOrdinario,eambasasfreguesiasdotermodeCastroMarim.
2. HeaVilladeElRey,epertenceáOrdemdeSantihago comoseuCommendador,queaoprezenteheDomLuizde Portugal
3. Temestafreguesiaduzentos,enoventa,ehumFogos,esetecentas,eduaspessoasgrandes,ecento,evinteseispessoaspequenaz, Sómentede[confissaõ],etodosvivememquintas,efazendas,eos daSerraemSesmarias.
4. Estásituadaemhumalto,nacostadoMar,paraaparte domeiodia,enãosedescobredellapovoaçãoalguma;maiz queavilladeSantoAntoniodeArenilha,queaoprezente nãotemmaizquehumascabanas,commuitas[chávegas], aquechamãoaprayadeMonteGordo;edeMarsedescobre,desdeabarradaCidadedeFaroathéábarradá [Ponta]doReynodeCastellaemquehaveránove,oudéz Legoasdepraya;ficandoadittaVillaentreabarra de
deTavira,eabarradeAyamonteReynodeCastella.
5. Temseutermo:NãotemLugaresnelle,nemAldeas,maizque SómenteaAldeadeSantaRita,MeyaLegoadistanteda Igreja[Matriz]paraapartedoNorte.NãoseyquantosvizinhoztemotermoforadoqueconprehendeaminhaFreguezia. porentraremnelleasduasFregueziasasimanomeadas.etem aditaFregueziaLegoaemeyadecomprimentodoNórteao Sul,ehumadeLargoaindamaizdeNascenteaPoente.
6. A[Parrochia]estásituadanamesmaVilla,comoassimase diz,,semtermaizAldea,queadopédaSerra,aonde estáaErmidadeSantaRita,asimanomeada,dequehe Padroeyro,eFundadoroPrioractual.
7. OOragodaditaVilla,ou[Parrochia]heaoprezenteNossaSenhoradaAssunpção,sendoantigamentedeSantaMaria, Comoaindahojesepraticanosprecatorioz,quevemda[Meza]da[Carssinia],eOrdenz,porSerCabessado[Mestrado],eSerem [assesoaõ]acommendadadittaVillaCastromarim,eaVillade Alcoytim.TemCapellaMor,queSeachacahidapello Terremotopassado,eoCorpodaIgrejasevayratificandoá custadosfreguezes,enelletemáfacenafrontariaoAltar doNomede[JEsus],paraapartedoMeyodia,enaparede damesmaparteoAltardasSantasAlmas,eodeSanto Antonio,enaFrontariaáfacedapartedoNortetemoAltardeNossaSenhoradoRozario,enaparededamesmapartetem humaCapellafundadeNossaSenhoradosMartyrez,aondecostumaestaroSanctissimoSacramento.TemtrezNavez,e trezConfrariazcomhuaIrmandade,asquaizsaõ,doSanctissimoSacramentoRozario,e[Almas].
8. OSeuParochohePriordaOrdemdeSanthiago:Tem deRendadouzmoyoz,equarenta,eoitoalqueresdetrigo, douz
douz deCevada,quinzemilReizem[dinheyro],humapipade Vinho,pagotudopellaOrdem;etemmaizde[Titra],e [cahido]Setentaedouzalquerezdetrigo,etrintaedouzdeCevada,edepéde[Altar]teráCemmilReiz,oramaiz,oramennos,porserconttingente.
9. NãotemBeneficiados,maizquehumAjudador,postopello Ordinario,eterádouzmoyosdetrigo,poucomaiz,oumenos,e osseus[benessez].
10. NãotemConventoalgum.
11. NãotemHospital.
12. TemhumachamadaCazadaMizericordia,aqualnaõtem ErecçãoRegia,eSóoqueseacha,foibenzidaaIgreja porordemdoBispoDomFranciscoBarreto,enessemesmotempofizeraõaIrmandadeemdezessetedeNovembrode MileSeizCentoseSetentaeSinco:Temdouzmilequinhentoz eSetentaecincoReijde[Prior],epagadepenssaõdemissazquatroMil,SeijCentos,equarenta,ea[tumba]renderáSeijmil Reiz.
13. TemaErmidadeSantaRitanaAldeiadopé daSerra,distantedaIgrejameyaLegoaparaaparte doNorte,epertenceaoPrioractualcomojaledice.
14. Somentenavespera,[e]nodiadesuafestaacodegente [aesta],ealgumasRomariajparticullaresno[discurço]doannoquesaõpoucaz.
15. OsMoradorezcolhemtodaacastadefrutosempouca quantidade,eSómenteemmaiorquantidadeamendoase azeytequandooháporquehenovidademuitoincerta.
Tem
16. TemdouzJuizesordinarios,comSuaCamara,esómenteporappellaçaõ,ouaggravovayparaoJuizodaCorreyçaõdeTavira,ComoOuvidordasterrasdoMestrado.
17. NãoheCoytonemCabeçadeconcelhoouHonra,ouBehetria;somentecabeçadecomendadequeheCommendadorDomLuizdePortugal,comojásedice,comtudopertenceaSuaMagestadequeDeosguarde.
18. Hatradiçaõque[dallisahiaõ]variasfamilias,eamaiz[cõmuã] heafamiliadoExcellentissimoPedroMascarenhas,eCortez [Reao~].
19. NaõtemFeyra.
20. NaõtemCorreyo.
21. DistadacidadeFaro,CapitaldoBispado,SeteLegoas,ede Lisboa,CapitaldetodooReyno,quarenta.
22. TeveosprivilegiosdosmoradoresdeLisboa,dadoporElReyDomDe. nizemdezesetede[Julho]doannodemileduzentos,eointentae trezquehojeestaõperdidosporinerciadosSeusmoradores,eomesmo ReydeuaterraáOrdemdeSantiago.
23. Na~hánestaterraLagoanemfontes,maisquehuma,aqueclamaõa fonteSanta,SemSeSaber[della]maizVirtudequeadonome.
24. JáSediceestáavillanacostadomaremhumaaltura,distante [humalareyraadecarvalho],eporestacauzanãoentraõnellaembarCaçoéz
25. Aterranaõhemurada
26. SomentetemhumCastelloaopédaIgreja[quepadecea] gran-
grandeRuinanoTerremotodoannodemileSetecentoseSincoenta ecinco,oqualestáquaziReparado,epoucolhefaltapara[estar] detodoseacazoseacabar,ecincocazas,easdaCamarade quesóConstaaditavillaestaõquaziReparadas.
27. NaõhámaisnadaaqueSepossaResponderaoprezenteinterrogatorio.
OQuesepertendeSaberdaSerra heoSeguinte.
1. ChamaseestaSerradeCacellaaSerradoAlgarve,como vulgarmenteSechamaatodaaSerra[destaRegiaõ].
2. TemaditaSerradecomprimentoquepertenceaotermodeTavira TrezLegoasemeyadomeyodiaaoNorteprincipiandoda Aldea[do]daSerraeacabandoapartircomotermoda ViladeAlcoytim,edeLargurahumaLegoade[ponente]partindocomaSerradeTaviraaoNascentepartindocomamotraSerra daVilladeCastromarim.
3. Nãotemmaiznomes,oubraços,dequeSepossaFazermenção.
4. OsRios,ouRibeyrascomoCáchamaozquepertencemaesta FrgueziahesomentehumaRibeyra,aquechamaõdagáfa,que NascedamesmaSerradapartedoNascenteevay[finicer]paraaparte doPonentenaRibeyra,ouRiodoAlmargemdotermodacidade deTaviraenãotemospropriedadealgumanotavel,poremnomesmo TermotemoutroRio,ouRibeyra,aquechamaõaRibeyradaDeLeytenascedaSerradeFarocontandoaSerraemvariarfoe [gueriaz]sevaymeternoRioGuadiana:Hedeagoadoce,enasce dePonenteaLevante:TemmaisoutroRio,ouRibeyra,tambemdeagoadoce,aquechamaõBelixe,tambemnascimentona FregueziadeSantoAntoniodo[Machial],Serra,etermodacida
dadedeFaro,NemcontandoaSerradamesmaSorteametere NoMesmoRioGuadiana,quedevidePortugal,eCastella.
5. NãotemaditaSerraVilas,ouLugarez.
6. NãotemnoSeudestrictoFontealguma,quetenhapropriedadeRara.
7. Dizemtemalgunzmineraiz,masnaõsesabede[M]ez.
8. NãofaltaõnaditaSerraplantazouervazmedicinaiz,porem naõsaõconhecidaz:TodaellaseCultivaComRoças,ealgunz planoz[dealquevez],emqueSecolhemdetodaacatadefrutosembastantequantidade.
9. NaõhánaditaSerraMosteyros,nemIgrejaz.
10. OSeutemperamentohemoderado,porquenemdeVeraõhedemaZiadamenteCahido[enovi]dosventos,nemdeInverno;porque ascazas,quetemhenosaltos.
11. Criasenellatodaacastadegados,ecommaizabundanciacabras;criaLobos,muitasRaposaz,ealgunsporcosmontesez, emuitasperdizes,ecoelhos,ealgumasLebrez.
12. NaõhánellaLagoaznotaveis,nemFojos.
13. Naõtecouzaalgumamaiz,quenotavelseja.
DestaterraheoSeguinte.
1. NaõtemRiosmaizqueosmencionadoz.
2. AoSegundointerrogatoriosedáamesmaReporta.
3. Eomesmoaoterceyro.
4. AmesmaReporta.
5. OMesmo.
6. Aconta,quecorrejuntoa´mesmaVillahedeNascentea Ponente.
7. Naditacostahátodaacastadepexaria;masestasenaõpescana Ditavilla;masSimosbarcosdacidadedeTavira,eosdacidadDedeAyamonte;ReynodeCastella.
8. Asditazpescariazsepescaõemtodooanno.
9. Adizimadasditaspescariazpertencea´cidadedeTavira,aonDesedaránoticiadoquesepertendesaber.
10. Emalgumaspartessecultivaõassuazmargenzdetrigo, cevada,milho,emeloés.
11. NaõtemvirtudeparticularasSuasagoaz.
12. NaõháqueRespondernesteinterrogatorio.
13. [OMesmoheaeste].
14. OMesmo
15. NaõháPontez.
16. HánaditaFregueziatrezLagarezdeazeyteehummoinho,que sómóequandochóve:Temduashortas,ouPomarez,eSóhuma temnóra.
17. NaõSeSabe,queemtempoalgumsetirasseourodasSuaz areyas.
18. Naõháagoas,quetenhaõpençaõalguma.
19. JáestámencionadooqueRespeitaaoznascimentozdozRios,e aonde[?]epordondepassaõ.
20. Naõhámaizcouzaalgumanotavel,quesepossaResponder aestezinterrogatorios.
DOSBALDIOS,ETERRASINCULTASDOTERMODAVILLADECASELLA, Aondefedeclarao’osnomesdosfeosSenhorios,osmoiosdeterraquetem,oquepódemlevaremfemeadura,oquepódemproduzir, eocufto’quefarâo’,parafereduziremácultura mandadatirarporOrdemdo.
ILL.mo.EEX.mo
ARMADORMORDESUAMAG.e G.orECAP.amG.nal DEESTEREYNOD’ALGARVE. pelloSarg.to morJozédeSandeVas.cos edesenhadapellomesmoSarg’.to m.r Annode1775.
{Asterrasboasvao’deemcarnadoforte,asmedianasdeemcarnadobrando,easinferiores~ deemcarnadomaisbrandoesfumado,comotambemasterrasinnuteis. Osbaldiosvao’deverdemar;vendocedehumgolpedeviftatodasasterrasincultasdefteTermo. AlagoaquehépartedoTermodeCaffella,epartedodeCaftromarim,vaideaguadaverdemar; hindomaisfortenoslugaresaondemaistempoconservaaagoa.
Cadaporçao’deterrainculta,léva3.ordensdecaracteres,oprimeirodecaracteresRomanos,ex= plicarádoinferiordacolunaemqueeftao’,onomedofeoSenhorio,ouemfiteuta,ofegundode~ numerosordinariosdetintapreta,diráosmoios,ealqueiresdeterraquetem,eoterceirodenu= merosordináriosemcarnados,dirao’osmoios,ealqueiresdefemente,quepodelevardefemeadu= ra
VaidivididaeftaCarta,emmeridianos,e_ paralellosdiftantesentrefi,400.braçaspar= raquefevejadehumgolpedevifta,adiftan= ciaquehádehuãs,aoutrasterras.
deCartaTopographicadoTermoda. V.ªdeCacella.
IL.mo. E,EX.mo. SNR.’
{OTermod’effaVillad’Caffellanao’temfalgados,temterrasin= cultas,dasquaesasmelhoresvao’notadasnaCartaTopographicade= agoadaemcarnadaforte,asmedianasdeagoadaemcarnadabranda,e asinferioresdeagoadaemcarnadaesfumada,temalgunspequenos= baldios,epartedehualagoaquevao’deagoadaverdemarhindo maisfortenaparteaondetemagoaetabuasfendotambemnota= dasasextremidadesdoditoTermodepontosencarnados.
AlemdetodooplanoquenaCartaTopographicavainotado,feavan çao'paraapartedeterrafincolegoasdeferraaspera,aqualcomfina= comosTermosdeCaftromarim,eAlcoutim,quepornao’ferterrainculta anão’noteinaditaCarta,porquefegundoainformaçao’dospraticos,co quevi,todaapartedeterradellafelavra,efefemeia,tantonosmontes comonosvalles,aquechamao’córregos,huadefeteemfeteannos,outrade outoemouto,athédededzemdez,comformelhescreffeomatto,oqual róffao’,equeimao’,paraqueasfuasfinzasmifturadascomaterraafortifi= quem,paraafuaproducçao’,porquedeoutraformatemmoftradoaex= perienciaoperderceafementenaterra.
ALagoafeachapartenefteTermodeCaffella,epartenodeCaftro Marim,ecomoeunão’podiafaberparaqueládofefariaaextracçao’= Dasfuasagoas,femtiraromappadetodaella,nivelandoasfuasextenço= ens,otirei,paraquecomtodaafegurançadelineace(fegundoasincli= naçoensdasfuasagoas)asvallas,arrruellas,efargetasquenaCartaTo= pograficavao’designadas:todooespasodeftalagoanotempodeinver= nofeenchedeagoadacorrentedosmontes,pornao’terporondede= zaguar,porquealemdeficar4palmosmaisinferiorqueopontodo=
{dopreamardeagoasvivas,oventodomarlheacumulacomohumvalla= dodeareiapellapartedoful,athéquenao’podendocomopezodasdi= tasagoas,rompepellaparteX,ealgumasvezesporZ,concervandofem= preagoa,athéofimdefetembro,emqueficaaditalagoafeca,menosno lugar?efteterreno,hécheiodefustancia,enatadaterra,quedosmontes,e terrenosvezinhoslhetrasacorrentedasagoasdachuva,hécheiodees= trumesdetodaaqualidadedegadoquepastadentrodelle,enao’tempe= draalguã.podecedezaguareftalagoa,porhuãouduasvallascortadasde arruellas,efargetas,quedentrodellavao’delineadas,comduasportasnos lugaresS.eV.tendocuidadotodososannosdeabriremoespasodeareia quevaidoportaV.aopontoR.edaportaS.aopontoQ.
Hummoiodeterrafegundoaordemdasliziriasfao’9[§]600braças–Quadradas,termomedioentreosbons,emáosterrenos,aametadeda terradeManoeldaCoftaPinheironotadanaCartaTopograficacomcor amarellatem1[§]600braçasquadradas,quecorrespondema10alquei resdeterra,elevoufómenteS.emfemeaduraemhumanno,eemou trohumalqueiredemilho,naoutrametadequehéinfeior,femeou 6alqueiresdefenteio;efazendoadevidaproporçao’,acheiquenaqua= lidadedosterrenosdefteTermo,fenao’pódefemearemhummoio deterramaisque48alqueiresdetrigo,nomediano40,enoinferior 36defenteiomenosnasterrascopadasdearvoresporqueneftas levarao'comformeaquantidadedearvoresquetiveremosalquei= resdafuafemeadura,eaffimlhesdouemcadahuãoabatimento proporcionadoaoarvoredoquelhesvi,attendendotambemaque neftepaizdebaixodasmesmasarvorescoftumaproduziraterra.
Tirandohuãplena,eexatainformaçao’doshomensmaisexperi= entesdefteTermofobreacoftumadaproducçao’dasfuasterras, achei,quehúmmoiodetrigofemeadoemterraboa,produz= tresmoios,defevadaomesmo,ehumalqueiredemilhooutroal= queires,poremfegundoaproporçao’quefisdoquefefemeouna mesmaterradeManoeldaCoftaPinheiro,eoquepoduzio,vejo quenasterrasboasdefteTermohummoiodetrigohunsannospor outros,podeproduzirfincomoios,ehummotodemilhofincoen tamoios,nasmedianas,hummoiodefevadapodeproduzirtres,e defenteioomesmo,nasinferioreshummoiodefenteio,podepro= duzirdousemeio.Eftaqualidadedeterrasnao'fao’propriaspa= ralegumes,efófimasmelhoresparatrigo,emilho,asmedianas parafenteio,ealgumasparafevada;easasinferioresfómentepa rafenteio.
Hummoyodeterranalagoapodelevartambemhummoyodetri= goemfemeadura,epódeproduzirathédésmoyos,ehumalquei= redemilho,40alq.athé1moio,porqueextrahindoceaagoadadit= talagoapormeiodasvallas,jánao'ferádeverao’tao’frescaater= ra,motivoporquenao'poderáproduzirmais.
Poucogaftofepoderáfazerparareduziráculturaasterrasincul= tasdefteTermo,poisamaiorpartedellasneffecitao’fómentede roffarlhesomatto,ealgumasarrancarlhesapalma,efepa,quefegun= doaproporçao’quefizcomoquegaftouodittoManoeldaCofta Pinheiroemarrancardafuaterraapalma,efepa,puznomap= dadarespectivaexplicaçao’ocuftoquefefarácomcadapartede terra,comformeaqualidade,equantidadedemattoquevinellas nalagoafómentefefaráocuftodasabertas,edascomportas.
Cadapartedeterrainculta,levatrezcaracteres,oprimeiro,quehá deletraromana,explicaránofeomapparespectivoonomedoSe= nhorio,ouEmfiteutadaditaterra,ofegundodenumerosordina= riosemtintapreta,diráaquantidadedemoios,alqueires,equartas deterra,quetemaditaporçao’,oterceirodosmesmoscaracteres, diráonumerodosmoios,alqueires,equartasdetrigo,quepodele= varemfemeadura.enntendendocenaformafeguinte.
3.m 2.a. 1.4 Tresmoios,dousalqueires,huãquartadeterra.
3.m. 2.a. 1.4 Tresmoios,dousalqueires,huãquartadefemeadura.
Notei,quemuitapartedasterrasincultasdefteTermo,fenao'fabri= cao’porfaltadegado,epellapobrezadosSenhoriosdellas,deixan= doalgunsperderasfazendasporfaltadecultura,aomesmotempo= quelavrandoas,nao'fóluerariao’oaumentodellas,mastambemo productodafementequelheslançacem,outrasporfracas,outras porlhesnao'arrancaremafepa,eaindaasmesmasdecultura,nao' produzemoquedevempellamáqualidadedearadoscomqueas lavrao’,poismaisasriscao’,doqueaslavrao’,paffandodeordina riotres,quatroannosquefenao'cultivao’.
Heoquecomtodoorespeito,poffopornaprezençadaPeffoade
V.Ex.ªqueD. sG. dem’.ann’.
OSarg.tomr.JozédeSandeVas.cos
§. 58.º
Cacella.
Cacella,outr’orafamosaeantigavilla,tomada aosMourosporD.PaioPeresCorreianoreinadode D.SanchoII.,esuaresidencia.Dallisahioelleem auxiliodoscavalleiros,queosMouroshaviãoaccommettidonasAntas,etomouTavira,continuandosuccessivamenteaguerrearosMouros El-reiD Dinis lhedeoforalem17dejulhode1283(1).Hojeapenasexisteaantigaigreja,que,ficandomuitoarruinadapeloterremoto,estáreedificadapelobispoD. FranciscoGomes;de3navesemagestosa;comprior queeraprovidopelaOrdemdeS.Thiago,áqual haviasidodoadacomseucastelloem20desetembrode1255(2);osdizimosdacommenda,comprehendendoostermosdeCastroMarimeVillaReal, andavãoarrendados,livresdedecimaem16050000 réisnoannode1826.Conservaasruinasdosantigospaçosdoconcelho,ascasasdaresidênciadoparocho,esacristãocommais4ou6moradas:para abandadoN.setemencontradoalicerceseruinas, queindicãotersidoalliaantigavilla.Aproximidadedehumalagoa,quenestesitioformãoasaguas doribeirodeCacella,equeestagnaporlheimpediremasahidaasareiasdacosta,queosventospara aquiimpellem,tornaologardoentio,econcorreparaasuadespovoação.Sobreesteribeiro,eameia distanciaentreVillaRealeTavira,mandouobispoD. FranciscoGomesconstruirhumaboaponte
(1)Doc.Illust.n.1.
(2)L.1.deD.AffonsoIII.f.148edosMist.f.173.v.º col.2.ªTorredoTombo
dealvenaria,denominadadeCacella,aqualfeztransitavelaestradaquebastantearruinadaestavapor causadastransbordaçõesdoribeiro.Afregueziatem leguaemeiadeN.aS.,ebumadeE.aO.AaldeiadeSt.RitaficameialéguaaoN.juntoáserra: talvezfossemaiscommodoparaosfreguesestransferirparaaquiasededafreguezia:aigrejadeSt.ª Ritasimhepequena;masopovonãodeixariade concorrercomgostoparaaaugmentar;poisquea deCacellaficamaisdistante,noextremodafreguezia,queestáderramadaporcazaesefazendasem boasterrasdepão,vinhas,eoliveirascomlagares própriosparaafabricaçãodoazeite:bastantecultivadaatéaositiochamadoaCasadaAudiencialleguaO.deVillaReal,ondecomeçaoarealeopinhal.CorrenestafregueziaaribeiradaGafa,que nascedaserraaE.,evaiacabaraO.nadoAlmargem,fregueziadaConceição,comaqualconfinaa O.,CastroMarimaN.,VillaRealaE.,eOceano aS.
DeuotitulodebarãoaobrigadeiroAntonioPedrodeBrito,queteveestamercêpordecretode22 desetembrode1835.


