Calor: Outro, de Getulio Souza

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CALOR : OUTRO

Getulio Souza



Ă€s pedras e aos tantos.





A seco Tenho que me respirar de fora, pois a vontade nĂŁo sabe o que quer.

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Largo Ando suspirando desterros nos intervalos, o vazio grita. Ando escutando lampejos no silĂŞncio do rasgo, a voz se estica.

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Ao canto sentido é nada sentindo é pele sem saber berro o que não diz dizendo como me tomas engasga o fluxo nessa briga de conchas somos somas de vultos estala a língua que há lá antes abre o peito-rosto arregala vontades mancas beije meu beijo-soco enfim, traduzir riscos tortos línguas mortas lentes falsas ninguém quer comunicar em si quer comum e carne.

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Balaústre Certo dia, inspirando Barros, quis me pássaro. Meia dúzia de Riveras à frente só me via prédio, espaço de densidade entre um arbusto e uma telha de amianto. Umas calçadas me passam, por vezes me entupo bueiro, por vezes me contornam passos. Esse castelo requentado de feitos carrega em suas franjas universos potenciais de mineral sapiência. Sigo reverberando metais desalentos e apenas aspiro reentrâncias.

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Para além da lavra Para além da lavra há um corpo onde perna é rio. Lá onde rir é intempestade, lá onde tenho, sem saber, ido lá onde um riso há entre rastros. Tenho buscado para lá do traço a larva do lastro. Entre pernas e pedras profanam-se lamentos. No tecido de meu suor-musgo há esse choro fino, do escárnio vizinho, mas que rasga na pele da face o grito. Há também um corte fundo. Nesses casos, que se rasgue a roupa de um teto pra fazer da pele da estrada a casa em andamento. Quando o traço doer, e o sintagma ruir, | 14 |


no sussurro das horas encontro o alento no subverso da quina do vento.

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Vão Vento de esquina, uma faca na garganta. Toda infância em um milissegundo suspiro-solfejo de descuido. Um arroubo entre estratos na tez da teia de cacos da memória qual frágil haste entre o tempo e qualquer coisa. Ah... esse corpo desorganismo.

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Alastrado Às vezes, o peito é pedra, mas pedra à beira, à beira do barranco ainda-não ou já não-pedra. Às vezes, o peito é pedra. Pedra na iminência de areia, que dissolve o tempo de pedra. Tempo outrora-ainda-aqui pedra. Aos meses, o tempo é pedra ao perorar a fala pedra que penhora o tempo do vento sobre a borda que molda na volta. Às pressas, o peito é pombo, que se anseia mensagem quando ainda é pena e finda-se alegoria do milho, do trigo, do grão no não-tempo do pão. Pão e milho é pedra | 17 |


é pombo e o peito é o tombo. Às voltas, a pedra é fati de um tempo mesmo que em iminência. É no sonho do pé um fardo é na força da foz um parto.

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Tropofagia Meus pés trastejam em seus rastros. Agarrado à sua cintura, relampejo mergulhando em tudo que for cabível. Não tem cabimento, porém. Tracejamos em transbordo. É tônus, torços e tropos. Seu quase olhar é uma trapaça e eu olho e me ofereço. Graças aos sopros o corpo insiste. Pressinto que você bagunçará tudo que tenho guardado em [perfeitos não lugares... qualquer livro debaixo da cama, clipes segurando calças, meias manchadas. Pressinto-te na bagunça dos troços e torço para que você me perca em não-juízos e me guarde longe da minha vista. Sou rastro até para os pés e você bagunça as pegadas. Algumas moedas, pratos, camisas velhas, papéis, papéis e papéis... uns chãos sobre papéis toda a rigidez trôpega de folhas deitadas.

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Nossos tempos traquejam legiões numa guerra de frestas numa festa de gretas e assim vai, sai, cai 10, 11, meio dia a dentro dentro de um dia inteiro nas estâncias de nossos fulgores. E nessa, meus poços deitam a seus pés e ouso poderes na altura de seu ventre, um trecho. Entre nós, linha tênue duma inscrição em suspenso, engulo o quarto todo sugando a fumaça das pelves nessa anti-pele. Os semáforos continuam se alternando a rua adentra a janela num revés de tempo. O cheiro do feijão cozinhando na vizinha e o compasso ofegante [de nosso tropismo desenha-nos. Somos apenas suspiros em staccato do fogo-fátuo dos gases da cidade.

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Olhos outros Fragmentos flagram-me no corpo da palavra impossível. Nesse estalo a coisa me pensa o que sobra se emenda. Minha mão encostada na árvore, num revés de aqui, brota-me outro num em-si-outro árvore. Sabedoria interstício da palavra-átomo, que na iminência de não ser é árvore-mão não sendo. A palavra é morta infinita mas o falante respira. A palavra me respira no avesso do ar.

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Olhos seus Cada encontro tem uma coerência interna, mas se o tempo de uma brisa é o mesmo tempo do tempo de uma vida, essa coerência é do eterno externo até lá onde nem faz borda, lá onde o interno é etéreo. Cada encontro tem uma linguagem interna, e já disseram que a linguagem não tem externo. Quero nos apertar no esterno de nossa linguagem. Cada linguagem consterna-nos no pré-luto do desencontro. Cada desencontro porta todas as faces em espera. Cada desencontro tem uma incoerência em espera. Cada desencontro é um suspiro que desterra. Cada sonho é pedra roseta de sua própria quimera. | 24 |


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Olhos outrem A rosa dos pregos é um beijo interminável no nada. Zênite de nada ou arquibancada no palco.

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Olhos noutros Tenho me assombrado com as coisas que somem quando são. Um movimento de dança, um gesto. Aquilo que rasga o pano das coisas presumidas e salta ao que falta. Algo que falta calça-me. Algo que em mim falta é queda e caução. Por isso me assombra o que contorna no limite de faltar. O intento do bailarino só traça o invisível fazendo borda quando os braços e pernas permitem-se limite entre “há e não há” no limite da desintegração do corpo. Corpo em ato não é corpo | 27 |


é métrica e melodia. Corpo em ato nem é corpo é reentrância e eternidade. Corpo que trança ares, segundos e traduções impossíveis como palavra de criança. Assombram-me as coisas, pois só são posto que faltam. No balé dos olhos que criam bebo um gole de montanha na bica que goteja nuvens no cilindro de areia escorrendo milênios. Em cada gota sorvida tateio cego o saber da feitura de si sentido pela pele do em si sentindo.

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Um não há Quem tem céu tem medo. Quem tem algo para falar que se coise. A coisa lá que se fale na pala que a pariu. Valha-me coisa, coito entre o sendo e o fingindo entre vindo e findo estamos em nascedouro nascedouro vindo. Quem tem cu tem texto.

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Eu trouxe Todas as noites, meus sonhos me amanhecem e despejam-me ilhas sobre constelações de inconteste extemporaneidade. Constelações de coisas no rastro papagaio da letra errada entornam-me no corpo do querer nu a sofreguidão da sentença engasgada. De tanto engasgo, ando por aí em vida gaguejando numa gagueira sobeja. O que sobra na soleira do céu da boca aterra e de cegueira em cegueira eu-mundo ando em mim e em tudo. O resto mudo, | 31 |


no rastro do fundo, me bebe. Bêbado e um tanto gago, faz-se em mim do caos espaço.

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Espora Isso que em nós se inscreve [crava na pedra da pele [os contornos de uma didática impossível do sutra de nossas veias em transfusão de letras.

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Amanita Há que se amadurecer para cuidar de flores - epítome de nossa fantástica insignificância. Nos damos com as flores do modo que não se dá. Nesse ponto, respiramos para além do ar somos suspiros.

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I Ela era o vocativo da beleza das coisas. Tinha vocação mineral.

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II Quando enfim se tropeçaram não soaram trombetas, mas, de certo, acenderam-se velas em algum lugar sempre há velas sendo acesas. Dois caminhões se esbarraram na fila do banheiro rasgando sutilmente a estúrdia das respirações vulgares. Dois caminhões se acotovelaram numa rede de ponteios interrompendo estapafurdicamente a conversa das horas e, num relance, entre o perdido e o achado, num encontro-confronto de olhos ávidos infinitos se queriam nos ínfimos. Quando os sulcos enfim se encaixaram no supra-ângulo, se engalfinharam os dutos | 40 |


fazendo-se em rios o em si sem tudo. Gotejaram-se mutuamente da boca ao fundo dos trejeitos aos nervos das curvas às nucas do centro à borda da coxa à têmpora e o tempo cotejou traçados impossíveis, e lavou suas mãos. Entre ventos vagavam. Entre vazios e luzes, entre ventres vagavam por entres. Vagavam na rosa dos sensos de seus rostos-movimentos. Se apossavam das poças de fugas fazendo poças de luas sob a luz de rastros de olhos cotovelos ombros e nucas. Quando, enfim, esbarraram-se em quinas | 41 |


fizeram dos dias uma garagem de moinhos em suas ilhas. Das pontes improvisadas traçaram trilhas e, assim, deslizam. Traços mancos, mas que marcham quentes, porém mansos - uma imagem mansidão.

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III Certa vez, abracei o sol entre sua orelha e seu ombro direito. Abracei o sol num calor solar nascente à flor da pelve da nuca. Abracei o sol e num suspiro solo-lunar poente éramos metástase entre alter-cosmos juntando tropos. Descontente, e suposto sabedor de que nada mais haveria entre nosso nascente e poente, parti do mundo que se esgueirava em nossos fundos me entregando a qualquer feixe-reflexo de suspiros repisados. Desde então busquei esse gosto no gosto que em mim é ensejo. Sentava-me solar, como se ao sol eu me bastasse mas via que faltava ao arrebol o V de pescoço esguio.

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Num tropeço sôfrego busquei recompor o sol com fragmentos de todos calores já sentidos. Em vão corria acorrentado a um bem vivido, porém guardado e aos poucos entendi, estupefato, que no jogo de abraçar o acaso o que se recebe nunca será o que foi dado.

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IV Dias desses acordei com uma puta saudade. Uma saudade tão fantasmagoricamente imensa, que a sua fora-cidade era uma ponte-aguda-sensação de dor na base do osso do querer-ser que de tanto me jogar pra fora uma hora me deu saudade de mim ou de minha metade saudade. Mas saúde da saudade é saudar. Resolvi aproveitar a forência e ir com outro no percurso permitir-se ser caminhado por caminhos-esdrúxulos fazendo da angústia minha casa em movimento.

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V Por todo lugar em que passamos há esses espaços sem passos de certa escuridão. Espaços onde o altivo do Éden se entrecruza com o baixo meretrício dos acalantos mambembes. Espaços que se sustentam em suspenção límbica. Essas esquinas sem quinas devem ser formadas pela substância pegajosa de canções de ninar impossíveis em ouvidos perdidos na linha um dia carretel. Certa vez sentei-me nessa sombra a fim de que não atravessasse apenas as margens mas para que as margens me atravessassem. | 48 |


Quantas vezes se assim não fazemos acorrenta-se aos nossos sonhos esquecidos essas sombras-nuvens. Quantos de nós não estamos presos em sombra e idade. Mas, lá sentado, o coração surdo da ausência me sussurra algumas palavras: É preciso chorar essa lágrima espectral até que ela se torne real. É preciso entoar esse lamento ancestral para que sua voz soe ao sol. É preciso engolir essa água salgada para que do líquido impossível surja o sal-tempero.

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Trato Penso que você perdeu meu juízo. Façamos jus a tal façanha, dou-lhe a face e você desenha o rastro contornado de sua estadia. Engana-me com aquilo que finjo saber quero a tinta de sua passagem em meus quase feitos. Preciso, apenas, de um fio cambaio do ocorrente para sorver o sabor nu da rosa dos entres, entre dentes, e, aproveitando ensejo, sejamos um veio de água e que a boca seja sede. Quero andar o seu tempo quero ser momento de mofo. Dói-me na carne esse mais perto de mais tarde que às vezes parece muito tarde. A cada rasgo, porém, parto de novo em partes e a cada toque uno pedaços das palavras não-ditas | 53 |


e o toque é sentido ao encontrar o que nem sabia que buscava. Deixe-me esconder nas frestas de seu pente, esse querer está sempre a um passo do que supõe querer. Deixe-me esconder nas frestas de dentro em tudo nunca sabemos quando é o fundo pois dentro também é furo. Mas quero estar dentro, pois por entre sou quase um tudo no seu ventre.

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Por Vejo você reconhecendo suas marcas nos olhos turvos de um [riacho buscando como um meta-narciso o amor por aquilo que em si se diferencia. Percebo você flertando com suas marcas como olho que se apaixona pela luz que em si varia. Algo se mexe dentro de mim e é de uma lindeza cortante esse seu mergulho nas hiâncias da carne. Em cada intervalo, em cada sulco de pele, a pele de um tempo se costura em inúmeros fragmentos-sensações como um sexo de reminiscências. Vejo você se desconhecendo no espelho tentando nadar nos pesares dos brinquedos que perdera ou foram as brincadeiras que te perderam? Esqueci... você não sabe nadar, mas moça, não é sempre tempo de aprender a nadar? Veja você buscando nas brechas das rugas as pontas de cantigas impossíveis.

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É lindíssimo na medida do susto. É um suspiro, na medida do soluço.

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Nu(m) dependurado em uma xícara de chá sou o antelíquido. O resíduo dos suspiros pipila desígnios sem fito tornando-me. É momento antecanto de um soluço da coisa. Mundo numa inspiração-calor-líquido. Dependurado em uma xícara desse chá um torno de fluxos e vãos me faz nas raspas dos segundos. Cada gole é um tracejo. Minha boca um heteróclito onde ancoram galáxias é um ritmo frouxo um oco de engasgos ao avesso. Sugo o vácuo da xícara até que o furo preencha vazando. Essa xícara de chá são todas flechas em seu momento tensão. Um tesão esquisito ou um corpo em suspenso. | 58 |


Copo. Sinto todas as nucas num gole calmamente voraz. No vale das nervuras da coisa bicho esse chĂĄ ĂŠ um anti-beijo.

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Naquilo Cada quarto de minhas memórias, em um canto onde não vejo, solfeja os fragmentos de sua presença em minha pele buscando o tom ocre de nossa teia de brechas. Cada porta aberta de meus pensamentos se precipita na busca de nosso tempo-síncope dançávamos bem, mas pisávamos os pés. Hoje choro qualquer coisa brega que me permita o contexto do desterro fajuto. Hoje mastigo cada rastro de sua estadia tardia nesse não-aqui. Hoje gozo de gostar do que sobrou. Lembro-me do dia em que minha casa se foi quando alguma ponta interna de nossos nós se amarrou na borda de sua saia e a casa se estrebuchou avesso a fora depois que você partiu. Minha casa se foi como um eco do oco vomitado, mas mais forte do que antes minhas entranhas exortam sua presença em uma boca-avesso sob a pele das mentiras nunca contadas. Hoje choro qualquer lágrima que possa me trazer-te mesmo que sem rosto | 60 |


e dessa maneira torna-te virtualmente todos os choros toma-te atualmente todas as lĂĄgrimas.

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Lufo Quando, em suspensão, contorno-me em cada brisa úmida a contra vento da lembrança de seus particípios confronto-me - desaprendi a respirar sem seu pulso. Os reflexos não me oferecem mínima referência se não tenho o ritmo de suas passadas, se as horas se apressaram em me tirar o terreno onde construí meus anos, seus intervalos. Sem eles, sou ar sem sopro. Se o tempo te levou para fora dele; como hei de durar sem as esquinas de seus olhares, que me situavam? Acontecer não é mais possível, pois não tenho como me perguntar sobre o amor que sentíamos. Hoje faz-se necessário para possível ser reconstruir os olhares impossíveis sobre um pano branco. Sigo engolindo sua permanência ao avesso para ver se engasgado reconstruo qualquer resquício quente do que fomos quando éramos possíveis. | 62 |






Lúmen Da terra ao corpo sangue. Desterra o corpo transe. Se falta um torso o dente range. Antes só que todo estanque. Não sou poço nem poça sou tanque. Querendo e perdendo um desmanche. Se te tiram o gosto arranque.

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E tanto um canto qual peixe vivo palpitando no oceano da garganta. Um cancro o poema pretensamente puro é lágrima sem som do choro no escuro. Sem o pranto, sobra a língua morna da palavra infinitamente morta. O grito é o santo. Regurgita o mundo goela a braço cortando.

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Desde que Desde sempre, tentaram arrancar à força o sal de minhas veias. Acusaram-me devedor de meus próprios respingos. Cada hectare de meus desejos carrega a insígnia de uma luta diária. Desde sempre, tentaram acorrentar os pardais de meus pulmões as montanhas de minhas pernas. Cada desejo meu é um grito da mandrágora ao avesso que sou. Desde sempre, quiseram expropriar o ferro de meu pulso, por isso sempre me restou gritar antes os gritos que me quiseram arrancar. Cada voo de meu desejo é uma avalanche de rasgos. Desde sempre, venderam-me à força o chão de meus próprios [passos meus passos não entendem a linguagem da compra. Cada caminho de meus desejos é um passo em falso numa estrada de castas dadas.

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Excertos de um Intertexto ou das raspas de um sensível partilhado “A mente é uma alma de lembrações.” (Isaac Barbosa, 3 anos ) “se eu quiser saber de mim, terei que perguntar aos meus pais, certo? E aos Pais dos meus pais se quiser saber dos meus pais? E aos pais dos pais dos meus pais? Então para alguém saber de si próprio precisa perguntar aos que vieram antes? isso é a civilização?” (Isaac Barbosa, 7 anos e Davi Roseiro, 10 anos) “Meus sonhos não são escravos seus.” (Isaac Barbosa, 7 anos)

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Polos Em meus poros, a superfície é teto e poço. Tanto no raso quanto no dentro braços finos de rios escorrem inaudíveis de poro em poro. Fora dos segundos, o universo me respira atravessado. Nos vales em que eternos se perdem nos vertemos em beijos de poros, e nos sorvemos no enlace de fossos a superfície. Beijar é aos poros relacionar-se. Poros em toques fazendo-se fundos sem dentro.

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À parte isso Cada pé decalque que me encosta ao teto dessa ilha no vazio Cada orelha que me quebra o santo na planta da palma da mão brotando Cada segundo olhar em que me vejo mergulhado em fibras Cada passo rasgado desse ser que se engole de fora porta todas as lágrimas vertidas nas janelas que receberam em nuvens chorosas as cartas recebidas post-mortem. Ando aspirando um ser desterrado e uma faca corta-me o umbigo da vontade e extrai o metal de minhas veias. Isso está dentro de mim? Isso está em mim? Onde estou nisso em mim? Engulo esse avesso-mundo | 73 |


numa quase gargalhada de se perceber equívoco. Ao traçado dos lábios abertos segue-se a penumbra de galhos agitados sob o fundo cinza de um céu indócil. Onde me sustento algo me suspende o dentro. Um exército de tritões empalhados se enfileira no deserto de contornos que em mim habita. Hoje, o mar que já foram flana em potência como um sonho para as horas insones. Há muito não me encontro a ponto de esbarrar de relance com o susto de me perceber só quando me reparo estátua falando de si. Penso um alguma coisa em um segundo já não me contorna a importância. Alguém por favor me bata | 74 |


bem no saco me arranque as vísceras não aguento vísceras pensantes. Quando me perco em pensamentos, será que alguém me pensa? Você já se sentiu tão presente a ponto de uma ausência interstício tomar conta de todas as suas flores e derrubar todas as suas montanhas? Você já se sentiu tão só a ponto de um vórtice formado por todos os cortes invadir cada poro seu rasgando todos os poros quando se fazem seus? Você, só, já sentiu tanto a ponto de lamber no canto da boca uma gota com o sal de tudo quanto é mar aglutinado em um soluço? Não fomos preparados para esse agora, ele é de uma loquacidade atarantada que esmaga a possibilidade de qualquer fala. Não somos arquitetados para esse agora, quimera das bancas de revista. Nesse nascimento ao avesso, meu único medo é perder isso que me falta. | 75 |


Sobre andar Ando atrรกs de meu quarto de gentes meu quarto de vidro em movimento nuvens de espelhos diรกfanos. O pulso nos tem de quatro e de quatro em quadro sobramos solfejos da imensidรฃo de cรณcoras. Nesse sopro de traรงos atravessam-me rios.

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Vou Vó, pelo menos agora não imolarei os esquecimentos teus que me flagelam as costas. Quero exortar as tripas minhas em entranhas nossas. Conto-te o caos quando me mostrar a não lembrança. Vó, não me atrevo a entender a substância de suas ausências de olhos nos olhos. Pra ti um acalanto, pra mim um corte no eu-rebento. tens me ensinado, porém, a não me perder em quase pensamentos. Cada volta de seus perdimentos é como um carta musicada de Fliess a Freud Você esquece eu me estendo. Mas Vó, de todos os ensinamentos talvez o que se faz mais egrégio | 77 |


é essa anti-lição – Desaprenda a lembrar. Dói na pele da alma cada olhar de já quase não sei de quem são esses olhos. Dói na pele das lembranças, esse indelével caminho ao dentro em breve não mais aqui, porém presente. Dói aprender de fato como amar sem esperar. e... estou já aqui ainda na escrita do rasgo. Minha perna costurada na última letra impossível é o ante-pensamento carne latejando verso. Vó, esqueço-me e pertenço com texto. Hoje corto cada calçada que quase lembro com o vento da lâmina.

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Vó, hoje nos perfilamos nessa incauta estrada de tá só aqui só. Avizinhando-se, porém, das brisas cada um somos essa salsa despidos da temperança. Vó, receba esses cacos de uma carta num vis-a-vis do avesso ao verso.

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Índice remissivo 1. Moções telúricas 9 10 11 12 14 16 17 20 23 24 26 27 30 31 33 34

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A seco Largo Ao canto Balaústre Para além da lavra Vão Alastrado Tropofagia Olhos outros Olhos seus Olhos outrem Olhos noutros Um não há Eu trouxe Espora Amanita

2. Assoalho 39 40 43 46 48

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I II III IV V

3. Sabor nu. Não saber. 53 | Trato 56 | Por 58 | Nu(m)


60 | Naquilo 62 | Lufo

4. Do tacho à trova - todes contra o um

67 | Lúmen 68 | E tanto 69 | Desde que 70 | Excertos de um Intertexto ou das raspas de um sensível partilhado 72 | Polos 73 | À parte isso 76 | Sobre andar 77 | Vou


Copyright © 2019, Getulio Sérgio Souza Pinto Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio sem a permissão expressa e por escrito do autor ou da editora.

Produção editorial, projeto gráfico, preparação e editoração eletrônica MARÍLIA CARREIRO Revisão BARBARA DEPIANTTI Ilustrações CAIO AZOURY VARGAS

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) (Bibliotecária responsável: Bruna Heller – CRB 10/2348) P659c

Pinto, Getulio Sérgio Souza. Calor : outro / Getulio Sérgio Souza Pinto ; [ilustrações Caio Azoury Vargas].- Vitória: Pedregulho, 2019. 84 p. ; 15x21 cm.

ISBN 978-85-67678-39-9

1. Literatura brasileira. 2. Poesia brasileira. 3. Escritores brasileiros. I. Vargas, Caio Azoury. II. Título.

CDU 869.0(81)-1

Índice para catálogo sistemático: 1. Literatura em português 869.0; 2. Brasil (81); 3. Gênero literário: poesia -1

Este livro segue as regras Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), em vigor desde 1º de janeiro de 2009. Obra aprovada no Edital Secult/Funcultura nº 007/2018: Seleção e incentivo à produção e difusão de obras literárias inéditas de autores residentes no Espírito Santo.


Este livro foi composto no outono de 2019, na tipografia Minion Pro, corpo 11/12, sobre papel Pólen bold 90g/m².


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