Canino branco, de Jack London

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♦ Curiosidades

♦ Contexto histórico e literário ♦ Escritores e personalidades da época ♦ Cronologia do autor

CANINO BRANCO

No final do século XIX, o jovem escritor Jack London viaja para o noroeste do Canadá e empreende uma das mais importantes aventuras de sua vida, a que alimentaria a sua imaginação para escrever este romance. A história do lobo que aprende a lidar com o seu instinto selvagem nasceu nesta viagem. Quando Canino Branco foi publicado, em 1906, London já era conhecido entre os leitores norte-americanos por seus romances e contos. Hoje, este clássico deve ser lido não só por quem gosta de narrativas de aventura mas também por quem quer saber mais sobre a relação entre o ser humano e a natureza, o coletivo e o individual, o doméstico e o selvagem.

ISBN 978-85-96-01233-1 9

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CANINO BRANCO

♦ Informações sobre o autor e a obra

JACK LONDON

JACK LONDON

com

OS C I S S Á L C DOS L UNIVERSA

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ALMANAQUE

ÃO COLEÇ

CANINO BRANCO Este volume apresenta

“A descrição da vida sofrida na natureza canadense deve ter sido uma grande descoberta jornalística quando o livro foi lançado nos Estados Unidos, no começo do século XX. Jornalista investigativo e aventureiro, Jack London usou talento afiadíssimo para marcar sua passagem nesta vida com pioneirismo. Atuou no segmento do jornalismo literário, campo de excelência na literatura, abrindo caminho para autores como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Gay Talese, Truman Capote, Tom Wolfe, Norman Mailer, entre tantos outros. Foi também um dos autores que inspiraram Jack Kerouac a escrever o livro On the Road (Pé na estrada), obra que influenciou toda uma geração de jovens norte-americanos na década de 1960, a geração beatnik.” Trecho do Convite à leitura por José Hamilton Ribeiro

Tradução e adaptação

Rodrigo Machado

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NINO ANCO JACK LONDON

CANINO BRANCO Tradução e adaptação

Rodrigo Machado

Ilustrações

Anthony Mazza 1a· edição

São Paulo — 2018

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Copyright © Rodrigo Machado, 2018 Todos os direitos reservados à EDITORA FTD S.A. Matriz: Rua Rui Barbosa, 156 — Bela Vista — São Paulo — SP CEP 01326-010 — Tel. (0-XX-11) 3598-6000 Caixa Postal 65149 — CEP da Caixa Postal 01390-970 Internet: http://www.ftd.com.br E-mail: projetos@ftd.com.br Diretora editorial Gerente editorial Editor Editora assistente Preparadora Revisores Editor de arte Projeto gráfico e diagramação Editoração eletrônica Supervisão da iconografia Pesquisadora iconográfica Diretor de operações e produção gráfica

Ceciliany Alves Isabel Lopes Coelho Estevão Azevedo Camila Saraiva Jane Pessoa Ibraíma Dafonte Tavares e Huendel Viana Daniel Justi Aeroestúdio Heidy Clemente Elaine Bueno Erika Neves do Nascimento Reginaldo Soares Damasceno

Tradução e adaptação de White Fang, Londres, Puffin Classics, 2008, ISBN 978-01-41-32111-0. Jack London, escritor norte-americano, nasceu em São Francisco em 12 de janeiro de 1876 e faleceu em 22 de novembro de 1916, em Glen Ellen, na Califórnia. Foi jornalista e escritor prolífico. As viagens marítimas que fez pelo oceano Pacífico, pelo mar do Caribe e pelos mares do Sul, além da cobertura jornalística que realizou sobre a corrida do ouro no noroeste do Canadá e sobre a Guerra Russo-Japonesa, o inspiraram a escrever seus livros. Entre suas publicações estão O chamado selvagem (1903), O lobo do mar (1904) e Canino Branco (1906). Rodrigo Machado é paulistano. Desde criança é leitor voraz, principalmente de histórias de aventuras. Dedica-se atualmente à tradução e à adaptação de livros infantis e juvenis. Entre os clássicos que traduziu e adaptou estão A Ilha do Tesouro e As aventuras de Robin Hood. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) London, Jack, (1876-1916) Canino Branco / Jack London ; tradução e adaptação Rodrigo Machado ; ilustrações Anthony Mazza. – 1. ed. – São Paulo : FTD, 2018. Título original: White Fang ISBN 978-85-96-01233-1 ISBN 978-01-41-32111-0 (ed. original) 1. Ficção – Literatura juvenil I. London, Jack 1876-1916. II. Mazza, Anthony. III. Título. 17-10684

CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção: Literatura juvenil  028.5

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SUMÁRIO A chave para descobrir os clássicos 8 Almanaque 13 Convite à leitura 30

por José Hamilton Ribeiro

PARTE 1 CAPÍTULO 1 A

trilha da carne 37

CAPÍTULO 2 A

loba 45

CAPÍTULO 3 O

grito de fome 56

PARTE 2 CAPÍTULO 4

A batalha das presas 67

CAPÍTULO 5 A

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toca 76

CAPÍTULO 6

O filhote cinzento 87

CAPÍTULO 7

A parede do mundo 93

CAPÍTULO 8

A lei da carne 105

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PARTE 3 CAPÍTULO 9

Os fazedores de fogo 113

CAPÍTULO 10

O cativeiro 126

CAPÍTULO 11 O

proscrito 135

CAPÍTULO 12 A

trilha dos deuses 139

CAPÍTULO 13 O

pacto 145

CAPÍTULO 14 A

grande fome 153

PARTE 4 CAPÍTULO 15 O

inimigo da sua espécie 163

CAPÍTULO 16 O

deus louco 173

CAPÍTULO 17 O

reino do ódio 180

CAPÍTULO 18 A

morte que segurava firme 186

CAPÍTULO 19 O

indomável 199

CAPÍTULO 20 O

senhor do amor 205

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PARTE 5 CAPÍTULO 21 A

longa trilha 221

CAPÍTULO 22 As CAPÍTULO 23

terras do Sul 227

Os domínios do deus 235

CAPÍTULO 24 O

chamado da espécie 247

CAPÍTULO 25 O

lobo adormecido 255

Aprendendo com a natureza 266

por Rodrigo Machado

Quem é Rodrigo Machado 268 Quem é Anthony Mazza 269 Crédito das imagens 271

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A CHAVE Esta coleção convida você a participar de grandes aventuras: mergulhar nas profundezas da Terra, erguer sua lança contra feiticeiros e gigantes, conhecer os personagens mais fantásticos e mais corajosos de todos os tempos. Algumas dessas aventuras farão sucesso para sempre e vão lhe possibilitar novas maneiras de enxergar a vida e o mundo. Farão você rir, chorar — às vezes as duas coisas ao mesmo tempo. Revelarão segredos sobre você mesmo. E levarão você a enxergar mistérios do espírito humano. Outras ficarão na sua memória por anos e anos. No entanto, você poderá reencontrá-las, não somente nas prateleiras, mas dentro de si mesmo. Como um tesouro que ninguém nem nada jamais tirará de você. Você, ainda, poderá presentear seus filhos e netos com essas histórias e personagens. Com a certeza de estar dando a eles algo valioso — que lhes permitirá descobrir um reino de encantamentos. É isso que os clássicos fazem: encantam a vida de seus leitores. No entanto, sua linguagem, para os dias de hoje, muitas vezes pode parecer inacessível. Afinal, não são leituras

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VE PARA

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DESCOBRIR OS CLÁSSICOS corriqueiras, comuns, dessas que encontramos às dúzias por aí e esquecemos mal as terminamos. Os clássicos são desafiantes. Por isso, esta coleção traz essas obras em textos com tamanho e vocabulário adaptados à atualidade, sem perder o poder tão especial que elas têm de nos transportar, de nos arrebatar para dentro da história. A ponto de poderem muito bem despertar em você a vontade de um dia ler as obras originais. Tomemos como exemplo a obra Robinson Crusoé: o navio do sujeito naufraga. Com muito esforço, ele nada até uma ilha que fica fora das rotas de tráfego marítimo e se salva. É o único sobrevivente. Ao chegar à praia, estira-se na areia, desesperado, convencido de que jamais retornará à civilização e disposto a se deixar morrer ali. Muita gente poderia dizer que essa história não apresenta elementos dramáticos para os dias de hoje, pois dispomos de diversos recursos para evitar que esse tipo de situação aconteça. Com mapas, rastreamento dos navios por satélites, equipes de busca munidas de super-helicópteros e computadores ultramodernos, ele logo seria resgatado. E... a história acabaria.

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No entanto, somos cativados pela luta desse homem, que foi privado de tudo o que conhecia e isolado do mundo durante quase trinta anos. A gente se envolve com o personagem; somos tocados pela sua força de caráter e pela sua persistência em reconstruir, pouco a pouco, a vida, criando, a partir do nada, um novo mundo. O espírito dessa obra não tem a ver com época ou recursos tecnológicos, mas com o dom de exibir o extraordinário. Não apenas o da fantasia, mas o do ser humano. Portanto, o extraordinário de cada um de nós. Os clássicos falam de amor, ciúme, raiva, busca pela felicidade como outras obras não falam. Vão mais fundo, ao mesmo tempo que são sutilmente reveladores. Não é à toa que atravessaram séculos (alguns, até milênios) e foram traduzidos para tantos idiomas, viraram filmes, desenhos animados, musicais, peças de teatro, histórias em quadrinhos. Existe algo neles que jamais envelhece, conserva-se intensamente humano. E mágico. Afinal, quem é capaz de ler Dom Quixote e não se divertir e se comover com o Cavaleiro da Triste Figura? Quem não torce para Phileas Fogg chegar a Londres, no dia e na hora marcados, e ganhar a aposta, depois de viajar com ele, superando obstáculos e perigos, nos 80 dias de volta ao mundo? Quem lê Os três mosqueteiros sem desejar, uma vez que seja, erguer uma espada junto com seus companheiros, gritando: UM POR TODOS E TODOS POR UM!? Os clássicos são às vezes mais vívidos do que a vida, e seus personagens, mais humanos do que o ser humano, porque neles as paixões estão realçadas, e as virtudes e os defeitos de seus

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personagens são expostos com genialidade criadora, literária, em cenas que jamais serão esquecidas e falas que já nasceram imortais.

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Os clássicos investigam os enigmas do mundo e do coração, da mente, do espírito da gente. Eles falam de nossas dúvidas, de nossas indagações. Geralmente, não oferecem respostas, mas vivências que nos transformam e nos tornam maiores... por dentro. São capazes de nos colocar no interior do submarino Nautilus, vendo com olhos maravilhados os prodígios imaginados por Júlio Verne em Vinte mil léguas submarinas. Ou nos levam à França do século XIX. Num piscar de olhos, estamos prontos para iniciar um duelo de espadas, noutro instante, intrigados, fascinados com a obsessão de Javert, um dos mais impressionantes personagens criados pela literatura. Assim como, em certos trechos, já nos vemos em fuga desesperada, sofrendo com toda a injustiça que se abate sobre o herói de Os miseráveis. As traduções e adaptações desta coleção buscam proporcionar a você um acesso mais descomplicado aos clássicos, como se fosse uma chave para descobri-los, para tomar posse de um patrimônio. O melhor que a humanidade produziu em literatura. Luiz Antonio Aguiar Mestre em Literatura Brasileira pela PUC-RJ. É escritor, tradutor, redator e professor em cursos de qualificação em Literatura para professores.

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CANI

BRAN

J LOND PDF1-LIT-F2-7174-VU-ML-M18.pdf 12

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NINO ALMANA

ANCO QUE

JACK DON PDF1-LIT-F2-7174-VU-ML-M18.pdf 13

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UM

JOVEM

AVENTUREIRO

Jack London em seu veleiro

John Griffith Chaney nasceu em São Francisco em 12 de janeiro de 1876, filho único do astrólogo William Chaney e de Flora Wellman, uma espiritualista que dava aulas de piano para sobreviver. Seus primeiros meses foram passados na casa de uma ama de leite, Virginia Prentiss. William, que nunca reconheceu a paternidade da criança, abandonou Flora, que posteriormente se casou com John London, um viúvo veterano da Guerra Civil e pai de duas garotas, Eliza e Ida. Aos oito meses, quando levado de volta para a casa da mãe, o menino, que foi adotado por

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London, passou a ser chamado de Jack Griffith London. O garoto Jack passou a infância em Oakland, na Califórnia, onde sua família acabou se instalando. Lá, estudou até os 14 anos, quando começou a trabalhar numa fábrica de conservas. Sua fuga da estafante rotina de 12 horas de trabalho era para a biblioteca local, onde devorava romances de aventura. A aventura, diga-se de passagem, vibrava no seu sangue e aparece em seus livros mais autobiográficos, como A estrada (1907), Martin Eden (1909) e John Barleycorn (1913). Neles, London retrata sua dura infância e adolescência, tanto como “pirata de ostras”, aos 14 anos, saqueando viveiros particulares, quanto como marinheiro, a bordo da escuna Sophia Sutherland, um sangrento abatedouro de focas, que o levou até a costa do Japão, aos 17 anos. Ou ainda como hobo, ou seja, um jovem andarilho e vagabundo, viajando clandestinamente de trem, pulando de vagão em vagão e cruzando vários estados norte-americanos, até ser preso por vadiagem quando visitava as Cataratas do Niágara, entre os

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estados de Nova York, nos Estados Unidos, e Ontário, no Canadá. Passou um mês detido na penitenciária do condado de Erie, no estado de Nova York. De volta a casa, e determinado a se tornar escritor, retomou os estudos, frequentando por pouco tempo a Universidade da Califórnia. Com a descoberta de ouro na região do Klondike, no Canadá, o jovem Jack empreendeu aquela que seria a sua aventura central, a que lhe daria não ouro, mas muitos elementos para contos e romances que se tornariam grandes sucessos, como O filho do lobo (1900), A filha da neve (1902), O chamado selvagem (1903), O lobo do mar (1904) e Canino Branco (1906), para citar alguns títulos. Passou então a se dedicar integralmente à literatura e se casou com Elizabeth Bess Maddern, com quem teve duas filhas. Sempre mergulhando de corpo e alma nos seus assuntos literários, viajou para Londres, em 1902, de onde realizou uma grande e pungente reportagem sobre a vida miserável na área pobre de East End. Todo o seu trabalho de pesquisa e de observação foi publicado em O povo do abismo (1903). Também escreveu o romance O tacão de ferro (1908), de viés mais social.

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Tornou-se uma celebridade do mundo literário norte-americano, sendo sempre alvo de polêmicas nos jornais. Até mesmo sua vida privada foi exposta quando se separou de Bess para se casar com Charmian Kittredge, com quem viveu mais uma aventura, a bordo de um barco a vela que ele mandou construir, o veleiro Snark. Sua obra e seu estilo de vida influenciaram pessoas comuns e também escritores que depois se tornaram reconhecidos pelo público norte-americano e mundial, como Jack Kerouac. Morreu aos 40 anos, no dia 22 de novembro de 1916, como um dos mais populares escritores dos Estados Unidos.

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Capa do livro Na Natureza Selvagem, de Jon Krakauer, publicado nos Estados Unidos em 1996, que conta a história verídica de Christopher McCandless, um jovem andarilho que se inspirou na obra de Jack London, Henry David Thoureau e Tolstói ao planejar sua travessia pelos Estados Unidos

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◆ Quem eram os hoboes? Os hoboes eram andarilhos que viajavam clandestinamente de trem pelos Estados Unidos e viviam de bicos 16 e mendicância. Segundo especialistas, o termo pode ter origem na expressão hoe-boy, como eram chamados os ajudantes de fazenda, ou ainda na saudação Ho, boy!. Também pode ser a abreviação de homeward bound (a caminho de casa), ou a junção de Houston e Bowery, cruzamento de duas ruas onde os hoboes costumavam se encontrar, em Nova York. Um exemplo de hobo mais atual é retratado na obra Na Natureza Selvagem, de Jon Krakauer, inspirada na vida de Christopher McCandless, um jovem que atravessou os Estados Unidos, viajando de carona ou clandestinamente, rumo ao Alasca.

Cena do filme Na Natureza Selvagem (dir. Sean Penn, EUA, 2007), baseado no livro com o mesmo título

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A principal função do homem é viver, não é existir. jack london

OBSERVADOR DA VIDA Quando Jack London publicou Canino Branco, em 1906, ele já era conhecido entre os leitores norte-americanos. Seus contos e romances faziam razoável sucesso, principalmente porque ele inseria o elemento da aventura em suas narrativas, criando um ritmo intenso e concentrado. Além disso, também se mostrava um construtor de paisagens desoladas, marcadas

Foto de venda de roupas velhas em East End, Londres, publicada na primeira edição de O povo do abismo

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pela natureza selvagem e inóspita, em que o homem se vê espelhado pelo meio, que determina suas ações. E muitas de suas narrativas nasciam de 18 sua presença no lugar, como testemunha e observador. Esse é o caso de O povo do abismo, ou do autobiográfico A estrada. Muito dessa concepção literária vinha do Naturalismo francês, dos romances de Émile Zola, que influenciaram vários autores norte-americanos, mas também de sua leitura – um tanto apressada, segundo seus críticos – das obras do filósofo Herbert Spencer e do naturalista Charles Darwin. “Vou falar sobre a evolução, a civilização de um cachorro – sua domesticação, fidelização, moralização e amor”, teria dito ele ao seu editor. Jack London queria mostrar como o animal se transformaria após o contato com a crueldade e a bondade humana.

➔➔N ATURALISMO O Naturalismo surgiu na Europa na segunda metade do século XIX e tinha no romancista francês Émile Zola (1840-1902), autor de Germinal, o centro difusor dessas novas ideias, baseadas em métodos científicos. Em seu manifesto “O romance experimental” (1879), ele afirmava: “Toda a operação consiste em pegar os fatos na natureza e depois estudar o mecanismo dos fatos, agindo sobre os mesmos pelas modificações das circunstâncias e dos meios, sem nunca se afastar das leis da natureza. Ao término, há o conhecimento do homem – conhecimento científico – em sua ação individual e social”. O romancista deveria ir a campo

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O escritor Émile Zola, retratado por Édouard Manet, 1868

buscar sua matéria, observar as atitudes humanas, para só então criar a sua literatura.

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EM BUSCA DO OURO A aventura vivida por Jack London na região do Klondike, no Canadá, ficou para sempre marcada em sua obra literária. Foi lá que o explorador George Carmack encontrou um veio de ouro, em 1896. Um ano depois, a notícia já corria o mundo, e homens e mulheres de vários lugares se aventuraram nessa grande corrida do ouro. Em menos de dois anos, mais de 100 mil pessoas tentaram a sorte nessa região, entre eles, o jovem aventureiro Jack London. No dia 25 de julho de 1897, ele seguiu no vapor Umatilla para o Alasca, de onde prosseguiria para Dawson, cidade próxima à área do garimpo. Mas o pior estava por vir: cruzar a passagem do Chilkoot, uma íngreme cadeia de montanhas geladas. As adversidades eram muitas, e a natureza criava barreiras e obstáculos a cada passo. Jack London e seus colegas passaram quase todo o inverno em uma cabana abandonada, sem chegar ao destino final. E, nesse meio-tempo, ele aproveitou para ler bastante e para conversar com garimpeiros, caçadores, mineradores e índios.

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A íngreme escalada na passagem do Chilkoot, em 1898, na fronteira entre o Alasca e o Canadá

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Quando chegou a Dawson, encontrou o inferno: uma cidade de jogos de azar, botequins e prostituição, onde a brutalidade comandava. Foi 20 nesses lugares que ele fez o seu garimpo de narrativas, de histórias que ouvia aqui e acolá, recolhendo-as no seu diário. Embora tenha voltado dessa aventura sem nenhum tostão no bolso e fragilizado pelo escorbuto, trazia consigo uma determinação: a de ser escritor. Este foi o ouro que Jack London arrancou daquelas terras frias, e que lhe renderia algumas de suas melhores páginas.

HERÓIS CANINOS A loba Kiche e o seu filhote Canino Branco não foram os primeiros animais heróis das narrativas de Jack London. O primeiro foi o cachorro Buck, cruzamento de são-bernardo com scotch shepherd, do romance O chamado selvagem (1903). Sua história segue o caminho inverso de Canino Branco: ele começa sua vida num rancho na Califórnia. Com a corrida do ouro para o Alasca, é roubado e vendido para puxar trenós, enfrentando um mundo selvagem, em que sua natureza primitiva vem à tona, e ele termina vivendo com um bando de lobos. Segundo um biógrafo de Jack London, Alex Kershaw, o escritor injetou muito de sua experiência na violenta

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Imagem ilustrativa de uma edição americana do romance O chamado selvagem

penitenciária de Erie na composição dessa personagem canina, como também muito desse chamado interior para a aventura que sempre marcou a trajetória do escritor norte-americano.

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MESTRES DA AVENTURA No universo literário de Jack London, três escritores de língua inglesa ocupam um lugar de destaque: Herman Melville, Robert Louis Stevenson e Rudyard Kipling. Foi neles que London buscou inspiração para suas narrativas de aventura, principalmente aquelas em que o homem se depara com a desolação de paisagens inóspitas e perigosas. HERMAN MELVILLE

O autor de Moby Dick, Herman Melville

Herman Melville nasceu em Nova York, em 1819. Teve uma infância marcada por dificuldades econômicas, que o levaram muito cedo a largar os estudos e a começar a trabalhar, assim como aconteceria com Jack London. Iniciou num banco, passou depois por uma fazenda e também deu aulas. Mas a sua primeira grande aventura

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foi a bordo do St. Lawrence, como camareiro, numa viagem a Liverpool. Em 1841, vivendo em New Bedford, capital mundial dos baleeiros, partiu em viagem num veleiro, que marcaria em definitivo sua literatura. Dessas viagens vieram seus romances Typee (1846) e o grande clássico Moby Dick (1851), livro de cabeceira de London. Entre suas obras mais importantes também se destaca a novela Bartleby, o escrivão: uma história de Wall Street (1853). Melville morreu em 1891, em Nova York, como um escritor esquecido. Sua obra foi redescoberta nos anos 1920, quando seus livros voltaram a circular, obtendo grande sucesso e entrando para sempre no imaginário dos homens.

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ROBERT LOUIS STEVENSON

Detalhe do retrato de Stevenson, por John Singer Sargent

Robert Louis Stevenson nasceu em Edimburgo, na Escócia, em

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1850. Começou a escrever muito cedo, tendo publicado seu primeiro 22 livro, O levante de Pentland, aos 16 anos. Em 1880, depois de uma vida boêmia e marcada por viagens, casou-se com a americana Fanny Osbourne, na Califórnia. O casal foi viver em Bournemouth, no litoral sul da Inglaterra, onde ele escreveu seus livros mais famosos, A Ilha do Tesouro (1883) e O médico e o monstro (1886). Como era tuberculoso, acabou indo morar em Samoa, onde os nativos o chamavam de Tusitala, ou seja, o contador de histórias. Morreu em 1894, aos 44 anos, sendo enterrado perto do monte Vaea, lugar que Jack London, em suas viagens com o veleiro Snark, chegou a visitar, subindo até o topo da montanha. “Eu não me desviaria do caminho para visitar o túmulo de nenhum outro homem no mundo”, disse o escritor. RUDYARD KIPLING Rudyard Kipling era anglo-indiano, tendo nascido em Bombaim, na Índia, em 1865, filho de ingleses. Foi poeta e exímio contista. Passou muitos anos estudando na Inglaterra. Em 1882, voltou para a Índia, onde conseguiu

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Retrato de Rudyard Kipling, por Elliot & Fry, 1907

emprego num jornal local e passou a escrever seus primeiros contos e reportagens. Com a venda dos direitos autorais de suas coletâneas de contos, fez várias viagens, como aos Estados Unidos, onde se encontrou com o escritor Mark Twain. “Kipling foi muitos homens – o cavalheiro inglês, o imperialista, o bibliófilo, o interlocutor de soldados e montanhas; mas nenhum com mais convicção que o artífice”, escreveu sobre ele o argentino Jorge Luis Borges. Foi lendo e relendo sua obra, bem como copiando-a em sua máquina de escrever, que o jovem Jack London fez sua oficina de literatura, procurando aprender os macetes da arte da narrativa curta. Kipling morreu em 1936, deixando mais de 250 narrativas curtas, cinco romances e 800 páginas de poesia.

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➔ NAS TELAS DOS CINEMAS Traduzido para diversos idiomas, Canino Branco também tem sua história no cinema. Ganhou várias adaptações, como a italiana Zanna Bianca, de 1973, com direção de Lucio Fulci, que chegou a filmar uma segunda parte, Il ritorno de Zanna Bianca, em 1974. No entanto, a mais famosa foi realizada em 1991, com direção de Randal Kleiser, tendo como protagonista o jovem órfão Jack Conroy, interpretado por Ethan Hawke. No filme, ele viaja para o Alasca para encontrar uma mina de ouro deixada por seu pai e, durante a viagem, conhece um lobo, batizado por ele de Canino Branco, que se torna seu fiel companheiro.

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Cena do filme Caninos Brancos, de 1991, estrelado por Ethan Hawke

Eu não vivo para o que o mundo pensa de mim. Eu vivo para o que eu penso de mim mesmo. jack london

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O presidente norte-americano Theodore Roosevelt

POLÊMICA NA CASA BRANCA A publicação de Canino Branco, em 1906, acabou gerando uma polêmica inesperada para o escritor Jack London. Um de seus leitores, nada menos que Theodore Roosevelt (1858-1919), então presidente dos Estados Unidos, não gostou do romance, como conta o biógrafo de London, Alex Kershaw. Ele acusou London de “ser um falsificador da natureza” e pouco conhecer sobre a vida dos lobos: “Estou certo de que ele não sabe nada sobre a luta deles, ou então, como realista, não escreveria esse conto”. O que incomodava Roosevelt

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era a passagem em que Canino Branco enfrenta um buldogue numa luta de vida e morte. London respondeu à altura, com a pena da ironia: “O que me intriga é como a diferença de opinião sobre os méritos relativos de um buldogue faz de mim um falsificador da natureza e do presidente Roosevelt um cientista legítimo e triunfante”. O fato é que muitos achavam que London tratava a região de Klondike de forma muito violenta e sangrenta. Mas, para o romancista, que também era socialista, o que interessava não era apenas a vida selvagem dos animais, mas principalmente a dos homens, que se engalfinham de forma voraz na luta pelo dinheiro.

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C

R

O

N

O

L

O

G

I

A

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A cidade de São Francisco no começo do século XX

1876

1886

Nasce John Griffith Chaney no dia 12 de janeiro, em São Francisco, Califórnia. Passa seus primeiros oito meses de vida na casa de sua ama de leite, Virginia Prentiss. Sua mãe, Flora Wellman, casa-se com John London, veterano da Guerra Civil, que adota o menino Jack, como ele passa a ser chamado pela família.

Sua família se muda para Oakland, perto de São Francisco. Lá, ele continua realizando pequenos trabalhos, como entregador de jornais e arrumador de pinos de boliche. Descobre a biblioteca local, onde passa a ser orientado pela poeta Ina Coolbrith, e lê grandes obras da literatura.

1881

1890

Jack começa a estudar e também a trabalhar numa fazenda. Nessa época, sua mãe sobrevive dando aulas de música.

Diploma-se na Cole Grammar School, em West Oakland, mas, sem dinheiro para prosseguir os estudos, começa a trabalhar na fábrica de

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conservas Hickmott. Com dinheiro emprestado de sua ama de leite, 26 compra a corveta Razzle Dazzle e passa a roubar viveiros de ostras – é o “príncipe dos piratas de ostra”. Pouco tempo depois, quando seu barco sofre uma avaria, muda de lado, trabalhando para a Patrulha Pesqueira local.

1893 Embarca na escuna Sophia Sutherland, com caçadores de foca, passando sete meses no mar, chegando até a costa do Japão. Na volta, vai trabalhar numa fábrica de juta. Apoiado pela mãe, escreve o artigo “Typhoon off the Coast of Japan” [Tufão na costa japonesa], e, disputando com estudantes de Stanford e da Universidade da Califórnia, ganha o concurso literário do jornal San Francisco Call.

1894 Junta-se aos road-kids, garotos que viajam de trem pelos Estados Unidos, sempre clandestinamente, pulando de vagão em vagão. Depois, acompanha o Exército de Desempregados de Kelly até Washington. Acaba se afastando do grupo e passa a viajar sozinho, sendo preso por vadiagem em

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Buffalo. É então enviado para a penitenciária de Erie, onde cumpre 30 dias de trabalho forçado.

1895 No retorno, passa um ano na Oakland High School, onde se interessa pelo socialismo e ingressa no Partido Socialista Operário. O “pirata das ostras” e o “garoto marinheiro” é agora conhecido como “o menino socialista de Oakland”, fazendo comícios em praça pública. Prepara-se para o exame de admissão da Universidade da Califórnia, onde permanecerá apenas um ano.

1897 Descobre que seu pai não é John London e passa a procurar o pai biológico, que se recusa a recebê-lo e a assumir a paternidade. Começa a trabalhar na lavanderia de Belmond Academy, da escola militar em São Francisco. Morre John London, seu pai adotivo. Engaja-se na corrida do ouro do Alasca, embarcando para Juneau em 25 de julho.

1898 Retorna para casa quase um ano depois. Decide que quer ser escritor e passa a se dedicar inteiramente

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ao ofício, enviando contos a revistas e jornais.

1899 Consegue uma oferta de trabalho numa agência de correio, mas não aceita e escolhe viver da literatura. Seis meses depois, uma de suas histórias é aceita na Overland Monthly, a revista de maior prestígio literário do Oeste norte-americano. Rapidamente envia outro texto, “O silêncio branco”, que é publicado no mesmo ano.

1900 Sai pela Atlantic Monthly mais um conto seu: “An Odyssey of the North” [Uma odisseia do Norte]. Publica nesse mesmo ano a coletânea O filho do lobo, e casa-se com Elizabeth (Bess) Maddern.

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1901 Nasce sua primeira filha, Joan London. Sai candidato a prefeito de Oakland pelo Partido Socialista, recebendo 245 votos (o candidato que ganhou recebeu 2 548 votos). É publicada The God of His Fathers [O Deus de seus pais], sua segunda coletânea de contos.

1902 Muda-se para Piedmont Hills. Publica seu primeiro romance, A filha da neve. Nasce sua segunda filha, Becky London. Vai para Londres e faz uma reportagem sobre a miséria da região de East End.

1903

Capa da revista Overland Monthly, de julho de 1896

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Apaixona-se por Charmian Kittredge e decide se separar de Elizabeth. Publica nesse mesmo ano O chamado selvagem e O povo do abismo, este último resultado de sua imersão na vida miserável londrina.

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1904

28 Torna-se correspondente dos jornais

da Hearst Corporation na Guerra Russo-Japonesa.

1905 Depois de sua vida particular ter sido vasculhada pela imprensa por causa de seu caso com Charmian Kittredge, casa-se com ela.

1906 Começa a tumultuada construção do barco de seus sonhos, o veleiro Snark. Publica Canino Branco e conclui a escrita do romance O tacão de ferro, que será publicado em 1908.

1907 Com o barco pronto, sai em uma nova aventura com Charmian Kittredge pelo Pacífico Sul.

Publica A estrada, livro que relata suas experiências como hobo e que acabou influenciando escritores como John dos Passos e Jack Kerouac.

1909 Depois de uma série de aventuras pelo Havaí, onde aprende os rudimentos do que um dia viria a ser o surfe, resolve suspender o projeto de sete anos no mar e retornar para a Califórnia por motivo de doença. Publica Martin Eden, seu romance autobiográfico.

1913 Enfrenta graves problemas de saúde. Além disso, a chamada Casa do Lobo, uma mansão de pedra que construíra no seu rancho, sofre um incêndio.

Veleiro Snark, construído por Jack London

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Surfistas no começo do século XX no Havaí

Publica o romance John Barleycorn, sobre sua experiência com o alcoolismo, que o acompanhou desde a infância, nos bares do cais de Oakland.

1914 Enquanto cobria, como repórter, a Revolução Mexicana, teve uma forte inflamação no intestino que o debilitou muito.

1915 No final da vida, escreveu alguns de seus melhores contos, como

“The Sea Farmer” e “Samuel”. Foi nessa época também que escreveu a ficção científica The Scarlet Plague e o romance The Star Rover, uma história fantasiosa inspirada em sua estadia na prisão.

1916 Desliga-se do Partido Socialista. Com a saúde bastante debilitada, morre no dia 22 de novembro, após um ataque de uremia e uma overdose de medicamentos.

Elaboração: Heitor Ferraz

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Canino Branco tem um começo maravilhoso, arrasador. Um grande escritor mostra sua arte, e a gente vai como se estivesse acompanhando de perto uma barbárie se aproximando, passo a passo, detalhe a detalhe. Não há como parar de ler. No Canadá gelado, com invernos tão rigorosos que a noite chega a durar um mês, sem nenhum raio solar, e os rios congelam a ponto de se andar por cima deles, dois homens andam num trenó puxado por seis cães. Eles estão levando um morto, dentro de um caixão. A caminhada é longa e di­ fícil, o vento fere o rosto, a nevasca atrapalha a visão e dificulta a locomoção, a comida é escassa. Uma travessia fadada ao fracasso. Mas tudo isso ainda não é nada perto do que virá.

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Um bando de lobos magros e famintos (dentre eles uma fêmea, mistura de lobo com cachorro) segue o trenó, em círculos cada vez mais apertados, esperando a hora de atacar a carne para devorá-la sem dó, tanto a canina quanto a humana. Na primeira noite, eles matam e comem um cão; na segunda, outro. Em poucos dias, vão-se todos os cães, e os lobos estão cada vez mais próximos: a hora dos dois homens está chegando. Um fraqueja, se entrega. O outro tenta lutar sozinho, mas acaba sem defesa, conformando-se em ficar à espera de ser rasgado e devorado vivo pela canalha em fúria. Tudo isso muito bem descrito, coisa mesmo de se guardar num lugar de honra na estante e na memória.

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Logo após esse episódio tenso e repleto de ação, a narrativa muda de foco. É quando destina espaço e detalhes para a dura vida de uma família selvagem: a de um casal (o pai lobo, a mãe – aquela fêmea meio cachorro meio lobo) e sua ninhada, destruída pela fome. Dos cinco filhotes, só o mais forte se salva. Este é Canino Branco, cuja história é contada de maneira grandiosa e que se entremeia outra vez com os seres humanos, ora como inimigos, ora como companheiros. Tudo muito forte, inesquecível. Aqui cabe um parêntese: o lobo da história é o norte-americano – o que vive nos Estados Unidos e no Canadá –, parecido com o lobo europeu dos contos de Chapeuzinho Vermelho. Nós aqui não vemos esse animal na fauna

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brasileira; o que chamamos aqui de lobo é o guará, avermelhado, bonito e dócil, que se alimenta até de frutas. O mais grave que pode fazer de atrocidade é atacar um galinheiro, atrás de ovos ou das próprias galinhas. Muito diferente do Lobo Mau. A descrição da vida sofrida na natureza canadense deve ter sido uma grande descoberta jornalística quando o livro foi lançado nos Estados Unidos, no começo do século XX. Jornalista investigativo e aventureiro, Jack London usou talento afiadíssimo para marcar sua passagem nesta vida com pioneirismo. Atuou no segmento do jornalismo literário, campo de excelência na literatura, abrindo caminho para autores como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Gay

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Talese, Truman Capote, Tom Wolfe, Norman Mailer, entre tantos 32 outros. Foi também um dos autores que inspiraram Jack Kerouac a escrever o livro On the Road (Pé na estrada), obra que influenciou toda uma geração de jovens norte-americanos na década de 1960, a geração beatnik. London não é um escritor norte-americano, é um homem do mundo, na forma como entende o ser humano – e os animais. E de como escreve sobre eles, com energia, vibração, ritmo, criatividade. Porém o mundo tão pouco lhe deu: Jack London morreu aos 40 anos, com tantos livros ainda por escrever e histórias boas para nos contar. José Hamilton Ribeiro

Jornalista ganhador de sete prêmios Esso, repórter especial do Globo Rural (TV Globo) e autor de livros, entre eles O gosto da guerra, sobre seu trabalho como correspondente na Guerra do Vietnã.

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CANI BRAN 34

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NINO ANCO 35

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PARTE 1

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CAPÍTULO 1

A trilha da carne

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Abetos negros se debruçavam zangados sobre as margens do rio congelado. Um vento recém-removera a camada de geada de cima das árvores, que, sob a luz fraca, pareciam sombrias e sinistras. Um silêncio imenso reinava sobre a terra, que era em si uma desolação, sem vida e sem movimento, tão solitária e fria que nem sequer era triste. Lembrava mais um riso terrível do que qualquer tristeza. Era a poderosa sabedoria da eternidade rindo da futilidade da vida e do empenho em viver. Era a Natureza Selvagem, a selvagem floresta boreal de coração gelado. Mas havia vida, por toda parte e desafiadora. Descendo o rio congelado, penava uma fila de cães parecidos com lobos, com o pelo ouriçado coberto de geada. A respiração deles congelava no ar assim que saía da boca, e a espuma vaporosa que surgia logo grudava no pelo de seus corpos, formando cristais de gelo. Vestiam arreios de couro, e tirantes de couro atavam-nos a um trenó que era arrastado mais atrás. O trenó não tinha lâminas. Era construído com casca de bétula, e toda a sua superfície repousava sobre a neve. Sobre o trenó, bem amarrada,

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havia uma caixa longa e estreita. O trenó leva38

va outras coisas: cobertores, um machado, um bule de café e uma frigideira. Mas, ocupando quase todo o espaço, destacava-se a caixa longa e estreita. Adiante, usando largas raquetes para an-

Calçado para andar na neve, em forma de raquete, que distribui o peso do corpo para evitar que o pé afunde.

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dar na neve1, penava um homem. Na retaguarda, um segundo homem também penava. No trenó, dentro da caixa, jazia um terceiro homem cujo penar se encerrara. A Natureza Selvagem o oprimira até que não pudesse mais se mover ou lutar. Mesmo oprimidos e esmagados por ela, os dois homens que ainda não tinham morrido penavam, destemidos e indomáveis. Seus corpos estavam cobertos com peles e couro macio. Seus rostos se escondiam sob uma camada de cristais. Viajavam sem falar nada, guardando o fôlego para o trabalho duro. A luz pálida do dia curto começava a sumir quando um grito fraco e distante soou. Poderia muito bem ser uma alma perdida gemendo, porém impregnada de tristeza feroz e fome ansiosa. O homem da frente se virou até que seu olhar encontrasse o olhar do homem de trás, e ambos acenaram com a cabeça.

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Outro grito soou, perfurando o silêncio como uma agulha. Localizaram a origem, um pouco mais atrás, na extensão

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de neve que tinham acabado de cruzar. Um terceiro grito veio em resposta, um pouco à esquerda do segundo. — Bill, estão atrás de nós — disse, rouco e com dificuldade, o homem que ia à frente. — A carne anda escassa — respondeu o outro. — Não vejo nenhum coelho há dias. Não falaram mais, ainda que estivessem atentos para os gritos que continuavam. Quando caiu a escuridão, conduziram os cães para um bosque perto do curso d’água e acamparam. O caixão, ao lado do fogo, servia de banco e mesa. Os cães, agrupados no lado mais distante do fogo, rosnavam e brigavam. — Estão ficando mais próximos do acampamento, Henry — disse Bill. Henry, agachado perto do fogo, confirmou com a cabeça, mas não disse nada até se sentar no caixão e começar a comer. — Sabem onde estão seguros — disse. — Preferem comer a virar comida. São bem sagazes, os cães. Bill balançou a cabeça. — Sei não. Seu companheiro o olhou com espanto. — É a primeira vez que ouço você dizer que não são sagazes.

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— Henry — disse o outro, mastigando devagar os fei-­ 40

jões —, você notou o rebuliço que os cães fizeram quando lhes dei comida? — Eles disputaram mais que o usual — Henry confirmou. — Quantos cães nós temos? — Seis. — Bem, Henry… — disse, fazendo uma pausa para enfatizar suas palavras. — Temos seis cães, e peguei seis peixes da sacola. Dei um peixe para cada cão, e faltou um peixe. — Você se confundiu. — Temos seis cães — o outro reiterou, sem alterar a voz —, peguei seis peixes. Orelha ficou sem. Tive que pegar mais um. — Temos só seis cães — Henry disse. — Henry — Bill continuou —, não estou dizendo que todos eram cães, mas sete ganharam peixe. Henry parou de comer para observar por cima da fogueira e contar os cães. — São apenas seis — disse. — Vi o outro fugir correndo pela neve — Bill afirmou, categórico. — Eu vi sete. Henry olhou para ele com compaixão e disse: — O fardo está pesado demais e está lhe dando nos nervos. Você está vendo coisas. — Até pensei nisso — Bill respondeu. — Então fui procurar e encontrei os rastros. Estão ali, se quiser conferir.

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Henry mastigou em silêncio até terminar a refeição e se servir de um pouco de café. Limpou a boca com as costas da

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mão e disse: — Você acha que… Um uivo longo e feroz, vindo de algum lugar na escuridão, interrompeu-o. Parou para escutar e terminou a sentença, apontando para a origem do som: — … era um deles? Bill concordou. — Só pode ser isso. Você mesmo reparou na algazarra dos cães. Uivo após uivo, um em resposta ao outro, foram transformando o silêncio numa balbúrdia. Os gritos vinham de todos os lados, e os cães revelaram seu medo se amontoando o mais perto do fogo que podiam. Bill alimentou o fogo antes de acender o cachimbo. — Parece desanimado — Henry disse. — Henry — o outro fumou o cachimbo por um instante antes de continuar —, estava pensando em como ele tem mais sorte que nós. E com o polegar para baixo apontou para a terceira pessoa que jazia no caixão abaixo deles. — Eu e você, Henry, quando morrermos, teremos sorte se alguém cobrir nossas carcaças com pedras para manter os cães longe de nós.

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— Não teríamos dinheiro para um funeral, de qualquer 42

jeito. — O que eu não entendo é por que um sujeito que é um nobre ou coisa assim vem parar neste fim de mundo. — Ele poderia viver até ficar bem velho se tivesse ficado em casa — Henry concordou. Bill ia falar algo, mas em vez disso apontou para o muro de escuridão que os oprimia por todos os lados. Nada podia ser visto, a não ser um par de olhos brilhando como brasas. Henry indicou com a cabeça um segundo par, e mais um. Um círculo de olhos brilhantes se fechava ao redor do acampamento. Os cães se agitavam cada vez mais, até que fugiram em pânico para perto do fogo. No atropelo, um deles acabou empurrado para cima das chamas e berrou com dor e terror enquanto o cheiro de couro queimado impregnava o ar. A comoção interrompeu o avanço e fez recuar o círculo de olhos, mas assim que os cães se acalmaram, o cerco voltou a se apertar. — Henry, é uma pena estarmos sem munição. Bill acabara o cachimbo e ajudava o parceiro a arrumar a cama feita de peles e cobertores por cima dos ramos de abeto que espalharam sobre a neve. Henry grunhiu e perguntou: — Quantos cartuchos você disse que ainda tem? — Três — veio a resposta. — Gostaria que fossem trezentos, aí eu daria uma lição nos malditos. — Agitou o punho fechado com raiva na direção dos olhos flamejantes. — E

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gostaria que o frio desse um descanso — continuou. — Não estou gostando nada disso. Tenho uma sensação estranha.

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Gostaria de acabar logo com isso e ficar junto ao fogo no Forte McGurry. Henry grunhiu e se arrastou para a cama. Estava quase dormindo quando foi despertado. — Aquele outro que veio e pegou um peixe… Por que os cães não reagiram? — Está cismado demais, Bill — foi a resposta sonolenta. — Cala a boca e dorme. Os homens dormiram um ao lado do outro. O fogo deu lugar a um braseiro e os olhos flamejantes fecharam o círculo em torno do acampamento. Os cães, apavorados, amontoaram-se, e de vez em quando rosnavam, ameaçadores, quando um par de olhos se aproximava. Até que o alarido acordou Bill, que se levantou com cuidado e alimentou o fogo. Assim que surgiu uma chama, o círculo recuou um pouco. Olhou de relance para o grupo de cães. Esfregou o rosto e olhou com mais atenção. Então se arrastou para dentro dos cobertores. — Henry — disse. — Ei, Henry! Henry resmungou um pouco e perguntou: — O que foi agora? — Nada, só que são sete de novo. Acabei de contar. Henry confirmou com um grunhido que acabou virando um ronco quando retomou o sono.

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Às seis da manhã, Henry acordou primeiro e despertou o 44

companheiro. Ainda faltavam três horas até a luz do sol. Na escuridão, Henry começou a preparar o café, enquanto Bill enrolava os cobertores e preparava o trenó. — Henry — a pergunta veio de repente —, quantos cães você disse que temos? — Seis. — Errado. — Bill proclamou, triunfante. — Sete de novo? — Não. Cinco. Um se foi. — Que inferno! — Henry gritou, irado, largando as panelas e indo contar os cães. — Você está certo — concluiu. — Gorducho se foi. — Sempre foi um cachorro bobo — disse Bill. — Mas nenhum cão bobo seria bobo o bastante para fugir correndo e se suicidar assim. — E olhou para o resto do grupo. — Aposto que nenhum deles faria isso. — Não seria possível afastá-los do fogo, mesmo usando um porrete. — Bill concordou. — Sempre achei que havia algo errado com o Gorducho. E esse foi o epitáfio de um cão morto na trilha das terras do Norte, mais adequado que o epitáfio de muitos outros cães, até mesmo de alguns homens.

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CAPÍTULO 2

A loba

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Depois de comerem e carregarem o trenó, os homens deram as costas ao fogo acolhedor e se lançaram escuridão adentro. Logo surgiram os gritos tristes e ferozes rasgando o ar frio. A conversa cessou. A luz do sol surgiu às nove da manhã. Ao meio-dia, o sol trouxe ao sul do horizonte um pouco de calor em tons rosados. Mas a luz rosa desapareceu suavemente. A luz cinza do dia resistiu até as três da tarde, quando também sumiu, e a palidez da noite ártica2 desceu sobre a terra solitária e silenciosa. Com a escuridão, os gritos, à esquerda e à direita, e na retaguarda, aproximaram-se e chegaram tão perto que mais de uma vez causaram ataques de pânico nos cachorros. Ao final de um desses ataques, quando

Noite que pode durar até um mês, na região do Ártico, durante o inverno. Já no verão ocorre o fenômeno do sol da meia-noite, quando um dia pode durar até 24 horas.

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ele e Henry conseguiram acalmar os cães, Bill disse:

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— Queria que farejassem um bando de alces e nos dei46

xassem em paz. — É de enlouquecer — Henry concordou. Nada mais falaram até montar o acampamento. Henry adicionava um pouco de gelo à panela de feijão que borbulhava quando o som de uma pancada, um berro de Bill e um rosnado agudo de dor entre os cães chamaram sua atenção. Chegou a ver um vulto veloz sobre a neve desaparecendo na escuridão. Então viu Bill, em pé entre os cachorros, meio triunfante, meio abatido, com um porrete numa mão e na outra apenas metade de um salmão curado pelo sol. — Pegou metade — anunciou —, mas acertei uma bela cacetada. Ouviu o gemido? — Deve ser um lobo domesticado. — Deve mesmo, para vir até aqui na hora da comida e pegar seu naco de peixe. Naquela noite, quando acabaram de jantar e se sentaram em cima do caixão para fumar, o círculo de olhos flamejantes se fechou ainda mais que na noite anterior. De manhã, Henry foi acordado por Bill blasfemando de pé entre os cães, ao lado do fogo, com os braços erguidos e uma expressão enlouquecida. — Ei, o que houve? — perguntou. — Sapo se foi — respondeu.

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Henry se levantou num pulo, foi até os cães e os contou com cuidado. Então, juntou-se ao parceiro, amaldiçoando os po-

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deres da Natureza Selvagem, que lhes surrupiara mais um cão. — Sapo era o mais forte do bando — Bill afirmou. — E com certeza não era um cão bobo — Henry acrescentou. E esse foi o segundo epitáfio registrado em dois dias. Comeram em silêncio, e os quatro cães restantes foram atrelados ao trenó. O dia foi como os anteriores. Com a chegada da noite, os gritos soaram mais próximos e os cães ficaram cada vez mais excitados e apavorados. — Aqui está! Isso vai dar um jeito nesses bobões — Bill disse, satisfeito, naquela noite. Henry largou o preparo do jantar e foi ver. Seu parceiro prendera os cães com varas, como fazem os índios. Passara uma tira de couro ao redor do pescoço de cada cão e amarrara uma vara grossa de mais ou menos um metro e meio em cada uma delas. A outra ponta da vara tinha sido presa a outra tira de couro numa estaca enfiada no chão. O cão não conseguia roer o couro do seu lado da vara, e a vara o impedia de alcançar o couro que amarrava a outra ponta. Henry aprovou com a cabeça. — Só assim para segurar Orelha — disse. — Ele consegue roer o couro como se o cortasse com uma faca. De manhã estarão todos aqui.

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— Pode apostar que sim — Bill concordou. — Se sumir 48

mais um cão, fico sem meu café. — Eles já sabem que não temos como matá-los — Henry comentou quando foram dormir, indicando o círculo flamejante que os encurralava. — Se pudéssemos dar um par de tiros, teriam mais respeito. Chegam cada vez mais perto. Tampe a luz do fogo com as mãos e veja. Ali! Viu aquele ali? Por algum tempo distraíram-se observando o movimento das formas vagas à beira da luz do fogo. Olhando com firmeza para onde um par de olhos flamejava na escuridão, a forma do animal aos poucos se revelava. Foram atraídos por um som entre os cães. Orelha gania ansioso enquanto atacava a escuridão até onde a vara permitia. — Olha só, Bill — Henry sussurrou. A luz do fogo revelou um animal semelhante a um cachorro se aproximando furtivamente, de soslaio. Agia com um misto de desconfiança e ousadia, observando os homens com cuidado enquanto mantinha a atenção nos cães. Orelha tentou ir na direção do intruso e ganiu com ansiedade ao ser contido pela vara. — Esse tonto do Orelha nem parece estar com tanto medo — Bill disse baixinho. — É uma loba — Henry respondeu num sussurro. — Isso explica o que houve com Sapo e Gorducho. Ela serve de isca para atrair o cachorro, depois o bando cai em cima e o devora.

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O fogo estalou. Uma tora rachou ao meio, caindo e fazendo um barulho alto. O estranho animal saltou de volta para a

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escuridão. — Henry, estou pensando que… — Bill anunciou. — Pensando o quê? — Que foi esse aí que acertei com o porrete. — Não tenho a menor dúvida — foi a resposta. — E com isso quero dizer — Bill continuou — que a familiaridade desse animal com fogueiras é suspeita. — Com certeza sabe demais sobre elas — Henry concordou. — Um lobo que sabe o suficiente para se juntar aos cães na hora da comida já experimentou isso antes. Você está certo. Aquele lobo é um cão. — E, se eu tiver uma chance, esse lobo que é um cachorro vai virar comida — Bill declarou. — Não podemos nos permitir perder mais nenhum dos cães. Pela manhã, Henry reavivou o fogo e preparou o café enquanto seu companheiro ressonava. — Estava dormindo tão bem — Henry comentou quando o acordou para comer. — Não tive coragem de te chamar antes. Bill começou a comer, sonolento. Reparou que sua caneca estava vazia e fez menção de pegar o bule. Mas ele estava fora de seu alcance, ao lado de Henry. — Ei, Henry — queixou-se, gentil —, não esqueceu nada?

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Henry olhou de volta e balançou a cabeça. Bill mostrou a 50

caneca vazia. — Não tem café para você — Henry anunciou. — Acabou o café? — Bill perguntou, ansioso. — Não. A raiva tomou conta do rosto de Bill. — Então me diga o que está acontecendo, diabos! — Colosso sumiu — Henry respondeu. Sem pressa, com um ar resignado, Bill virou a cabeça e contou os cães. — Como pode? — perguntou, desanimado. Henry deu de ombros. — Não sei. A não ser que Orelha tenha roído a tira de couro. — Maldito cachorro — Bill disse num tom grave, sem demonstrar a raiva que sentia. — Só porque não conseguiu se soltar, mastigou a coleira do outro. — Bem, os problemas do Colosso já eram. Deve ter sido devorado a essa altura e está balançando no estômago de vinte lobos diferentes — foi o epitáfio de Henry para o mais recente dos cães perdidos. — Tome um pouco de café, Bill — Henry disse, levantando o bule. Mas Bill balançou a cabeça e virou a caneca para baixo. — Eu disse que ficaria sem café se perdêssemos mais um cão e ficarei.

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— O café está muito bom — Henry insistiu. Mas Bill era teimoso. Comeu o desjejum a seco, praguejan-

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do a cada naco engolido. — Vou amarrar cada um fora do alcance do outro esta noite — Bill disse quando retomaram a trilha. Tinham percorrido pouco menos de noventa metros quando Henry, que ia à frente, se inclinou e pegou alguma coisa que chutara com seu sapato de neve. No escuro não dava para ver o que era, mas a identificou pelo tato. Jogou-a para trás e ela quicou no trenó antes de cair aos pés de Bill. — Acho que vai precisar dela em sua tarefa — Henry disse. Bill soltou uma exclamação. Era tudo o que restara de Colosso: a vara à qual fora amarrado. — Foi devorado com pelo e tudo — Bill anunciou. — Não sobrou nada. Estão famintos, Henry. O dia parecia com todos os outros. A luz apareceu às nove horas. Ao meio-dia o sul do horizonte foi aquecido pelo sol oculto, e então começou a tarde cinza e fria que, três horas mais tarde, iria dar lugar à noite. Foi logo após o esforço fútil do sol em aparecer que Bill puxou o rifle de debaixo das correias do trenó e disse: — Siga em frente. Vou ver o que consigo descobrir. — É melhor você ficar perto do trenó — o outro protestou. — Temos só três cartuchos, e nenhuma ideia do que ainda pode acontecer.

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— Quem está com lamúrias agora? — Bill perguntou, 52

triunfante. Henry não respondeu e prosseguiu sozinho. Uma hora depois Bill reapareceu e fez seu relato: — Estão bem espalhados ao nosso redor, nos acompanhando enquanto tentam caçar outras presas. Já nos têm como garantidos e sabem que só precisam esperar pela hora certa. Enquanto isso, procuram qualquer coisa que possam comer pelo caminho. — Eles pensam que estamos garantidos — Henry contestou. Bill ignorou o comentário. — Vi alguns deles. Estão bem magros. Imagino que não comam coisa alguma há semanas, além de Gorducho, Sapo e Colosso. E são tantos que isso foi quase nada. Estão bem desesperados e vão acabar enlouquecendo, posso garantir. Poucos minutos depois, Henry, que agora ia na retaguarda, deu um assobio baixo de alerta. Bill se virou e olhou, parando os cães sem fazer barulho. Lá atrás, na curva da trilha que tinham acabado de contornar, vinha trotando uma forma peluda e furtiva. Seu focinho apontava para a trilha, e sua marcha era peculiar, parecendo deslizar sem embaraços. Quando pararam, ela parou, erguendo a cabeça e olhando-os firme. Suas narinas se contraíram ao captar e analisar o odor dos homens.

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— É a loba — Bill respondeu. Os cães se deitaram na neve, e ele se juntou ao seu parcei-

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ro no trenó. Juntos, observaram o estranho animal que os perseguira por dias e já dera cabo de quase metade dos seus cães. Após um exame criterioso, o animal trotou mais alguns passos adiante. Isso foi repetido algumas vezes, até que sua distância do trenó era menor que cem metros. Parou perto de um grupo de abetos, levantou a cabeça e estudou os homens, farejando e observando. Era grande para um lobo, e sua figura magra anunciava o porte de um animal entre os maiores da sua espécie. — Ela tem quase um metro de altura perto dos ombros — Henry comentou. — E arrisco dizer que não está longe de quase dois metros de comprimento. — A cor dela é bem estranha para um lobo — foi a crítica de Bill. — Nunca tinha visto um lobo vermelho. Parece quase cor de canela. Com certeza o animal não era cor de canela. A cor dominante era o cinza, e ainda que houvesse um fraco tom vermelho, era instável, aparecendo e desaparecendo como se fosse uma ilusão. Bill abanou a mão, ameaçando-a, e soltou um grito alto, mas a loba não demonstrou medo. A única alteração que notaram foi um aumento do alerta. Continuava a observá-los com uma ansiedade faminta e impiedosa. Eles eram carne, e ela tinha fome. Se fosse mais ousada, adoraria ir lá e devorá-los.

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— Ei, Henry — Bill sussurrou. — Temos só três cartuchos. 54

Mas é um tiro certo, não tem como errar. Ela já deu fim a três dos nossos cães, temos que acabar com isso. O que você acha? Henry concordou com a cabeça. Bill puxou o rifle sob as correias do trenó e o levou à altura do ombro. Nesse mesmo instante a loba pulou de lado, da trilha para dentro do grupo de abetos, e desapareceu. Os dois homens se entreolharam. Henry deu um assobio longo e contido. — Deveria ter imaginado — Bill se recriminou ao guardar a arma. — Uma loba que sabe tanto sobre os homens para vir comer com os cães na hora do jantar deve conhecer armas de fogo. Garanto que ela é a causa dos nossos problemas. Tínhamos seis cães, e agora só restam três por causa dela. Ah, mas eu vou pegá-la, prometo. Pode ser esperta demais para levar um tiro em campo aberto. Mas vou esperá-la numa emboscada. — É melhor não ir muito longe — seu parceiro aconselhou. — Se aquele bando resolve cair em cima de você, três cartuchos não vão servir para nada. Estão bem famintos, e, quando começarem, com certeza vão acabar com você, Bill. Acamparam cedo naquela noite. Três cães não podiam puxar o trenó por várias horas como seis cães eram capazes. Os homens foram cedo para a cama, mas antes disso Bill verificou se os cães estavam presos a uma distância suficiente para que um não pudesse soltar o outro.

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Os lobos estavam ficando mais ousados, e os homens foram acordados mais de uma vez. Eles se aproximavam tanto que

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os cães entravam em pânico, e era preciso realimentar o fogo com frequência para manter os invasores distantes. — Já tinha ouvido falar de tubarões perseguindo uma embarcação — Bill comentou quando voltou de um desses rea­ bastecimentos. — Bem, lobos são como tubarões da floresta. Conhecem seu trabalho e vão nos pegar. Eles estão certos de que vão nos pegar, Henry. — Pare de se lamentar. Estou ficando exausto. Henry rolou zangado para o lado e se surpreendeu por Bill não ter feito o mesmo. Esse não era o estilo de seu parceiro, que sempre se irritava facilmente com palavras ríspidas. Enquanto fechava os olhos e tentava dormir, Henry pensou que, sem dúvida, Bill estava em profunda depressão e era preciso animá-lo pela manhã.

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CAPÍTULO 3

O grito de fome

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O dia começou auspicioso. Não haviam perdido nenhum dos cães durante a noite e partiram rumo à escuridão fria e silenciosa com o ânimo mais leve. Bill parecia ter superado o desânimo da noite anterior e chegou a ralhar amistosamente com os cães quando o trenó tombou numa parte acidentada da trilha. O trenó ficou emborcado entre o tronco de uma árvore e uma grande rocha, e eles foram obrigados a soltar os arreios dos cães para desenrolar os tirantes. Os homens se debruçavam sobre o trenó, tentando aprumá-lo, quando Henry notou que Orelha se afastava de forma furtiva. — Ei, Orelha! — gritou, ficando de pé. Mas Orelha disparou numa corrida pela neve. E lá, na trilha percorrida, a loba esperava por ele. Enquanto se aproximava dela, o cão tomou-se de cautela. Diminuiu o passo até um andar alerta e depois parou. Desconfiado, observou-a com cuidado, mas também com desejo. A loba pareceu sorrir para ele, mostrando os dentes de uma forma mais insinuante que ameaçadora. Ela se aproximou com passos travessos e parou. Orelha

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chegou mais perto, ainda alerta e cauteloso, o rabo e as orelhas em pé, a cabeça ereta.

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Ele tentou tocar o focinho dela, mas ela recuou, arisca. A cada avanço dele, a loba respondia com um recuo similar. Um passo de cada vez, ela o atraía. Por um momento, um lampejo o alertou, e ele se virou e olhou de volta para os homens que o chamavam. Mas foi distraído de novo pela loba, que avançou em sua direção, roçou o focinho no dele e retomou seu recuo tímido ante cada avanço. Bill pensou no rifle, que estava debaixo do trenó virado. Quando conseguiram pegá-lo, Orelha e a loba já iam longe. Era tarde demais quando Orelha percebeu o erro. De repente começou a correr na direção deles. Então viram, aproximando-se da trilha pelos dois lados, uma dúzia de lobos magros e cinzentos saltando pela neve e cortando a rota de fuga do cão. Num instante sumiu o ar tímido e brincalhão da loba, que saltou rosnando sobre Orelha. Ele a empurrou com o ombro e, tentando desviar daqueles que bloqueavam sua fuga, mudou de rota para circundá-los, numa última tentativa de voltar ao trenó. Mais lobos surgiam e se juntavam à caçada. A loba estava apenas um salto atrás de Orelha. — Aonde você vai? — Henry perguntou de repente, pondo a mão no braço do parceiro. Bill o afastou e disse: — Não aguento. Não vão pegar mais outro cão se depender de mim.

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Com a arma na mão, Bill mergulhou na vegetação rasteira 58

que ladeava a trilha. Pretendia cortar caminho e alcançar o círculo percorrido por Orelha antes dos lobos. Com o rifle, à luz do dia, talvez conseguisse espantá-los e salvar o cão. — Bill! — Henry chamou. — Tenha cuidado! Não corra nenhum risco! Henry se sentou e observou. Era só o que podia fazer. De vez em quando conseguia ver Orelha por entre a vegetação baixa e os grupos de abetos. Calculou que o cão estava condenado e sabia disso. Orelha corria pelo círculo externo enquanto a alcateia corria por um círculo interno mais curto. Não parecia ter chances de se salvar. Henry sabia que, em algum ponto na neve, oculto da sua visão por árvores e moitas, a alcateia, Orelha e Bill se aproximavam do lugar onde se encontrariam. Tudo aconteceu muito rápido. Ouviu um tiro, depois outros dois, e soube que Bill ficara sem munição. Então ouviu um alarido de rosnados e ganidos. Reconheceu o ganido de dor e terror de Orelha, e um grito de um lobo que devia ter sido atingido. E foi tudo. Os rosnados cessaram. Não houve mais ganidos, e o silêncio reinou novamente. Ficou sentado por um bom tempo no trenó. Sabia o que acontecera sem precisar ver. Ficou sentado e meditando por mais um tempo com os dois cães restantes encolhidos e tremendo a seus pés. Afinal, pôs-se de pé, cansado, como se toda a resiliência tivesse deixado seu corpo, e começou a prender os cães

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ao trenó. Passou uma corda por cima do ombro e puxou o trenó junto com os cães. Não foi muito longe. Ao primeiro sinal da es-

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curidão se apressou a montar acampamento e juntar um generoso estoque de lenha. Alimentou os cães, esquentou e comeu seu jantar, e fez a cama perto do fogo. Mas não chegou a desfrutar da cama. Antes que fechasse os olhos, os lobos se aproximaram demais. Já não era preciso esforço para vê-los. Estavam por todos os lados, num círculo apertado, e podiam ser vistos com nitidez à luz da fogueira, uns deitados ou sentados, outros se aproximando e recuando em seguida. Alguns chegavam a dormir. Aqui e ali se via um enrolado na neve como se fosse um cão, aproveitando o sono negado a Henry. Manteve o fogo ardendo, pois sabia que apenas isso manteria seu corpo longe das presas famintas. Os dois cães encostados nele, um de cada lado, em busca de proteção, ganiam e, às vezes, rosnavam desesperados quando um lobo se aproximava demais. Todo o círculo se agitava com a reação dos cães, e os lobos se levantavam. Depois, o círculo se acalmava, e aqui e ali um lobo retomava a soneca interrompida. Mas esse círculo ia se fechando cada vez mais. Um pouquinho de cada vez, até poucos metros de distância. Então ele pegava tições acesos e os lançava no bando. Isso sempre espalhava os animais, mas eles recomeçavam o cerco. A manhã encontrou um homem abatido e exausto, os olhos abertos lutando contra o desejo de dormir. Às nove horas, quando a alcateia recuou com a chegada da luz do dia, ele se

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lançou à tarefa que planejara durante a noite. Cortou duas árvo60

res jovens e fez um andaime, amarrando-as a árvores maiores. Usando os arreios do trenó para improvisar um guindaste, içou a caixa para cima da estrutura com a ajuda dos cães. — Eles pegaram Bill, e pode ser que me peguem, mas não vão pegá-lo, meu jovem. Então retomou a trilha, o trenó mais leve sacudindo atrás dos cães. Os lobos já não se escondiam, trotando calmos e mantendo distância na retaguarda e de cada lado do trenó. Seus flancos magros mostravam as costelas a cada movimento. Não se atreveu a viajar até tarde. Ao meio-dia, o sol chegou a aparecer no horizonte ao sul, pálido e dourado, em vez de apenas aquecê-lo como nos outros dias. Recebeu isso como um sinal de que os dias se alongavam. Mas parou para acampar logo depois que a luz mais alegre sumiu, e usou as horas de penumbra sombria para cortar bastante lenha. Com a noite veio o horror. Além dos lobos famintos cada vez mais ousados, a privação do sono cobrava seu preço. Henry cochilava contra sua vontade, agachado junto ao fogo, com o machado entre os joelhos. Acordou uma vez e viu à frente um grande lobo cinzento, um dos maiores do bando, que nem ligou por estar sendo observado. Espreguiçou-se como um cachorro grande à espera de uma refeição garantida. O grupo compartilhava dessa certeza. Henry conseguiu contar pelo menos vinte, olhando famintos para ele ou dormindo calmamente na neve. Pareciam

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crianças sentadas em volta da mesa esperando o jantar. Só que o jantar era ele. Imaginou quando a refeição seria servida.

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Despertou de um cochilo que era quase um pesadelo para ver a loba com tons avermelhados diante de si. Estava sentada e olhando-o, desejosa. Os dois cães choramingavam e rosnavam, mas ela não lhes dava atenção. Olhava só para o homem com grande desejo. Sua boca se abriu, a saliva escorreu, e ela lambeu os beiços, antecipando o prazer. Henry foi invadido por um espasmo de medo. Tentou pegar um tição para jogar nela, mas de imediato a loba deu um salto e se afastou. Percebeu então que estava acostumada que lhe jogassem coisas. Enfrentou o bando faminto com tições em brasa durante toda a noite. Quando cochilava contra sua vontade, os ganidos e rosnados dos cães o despertavam. A manhã chegou, mas pela primeira vez a luz do dia não dispersou os lobos. O homem esperou em vão que eles se fossem. Permaneceram num círculo em volta dele e do fogo, demonstrando uma arrogância que abalou sua coragem nascida com a luz da manhã. Fez uma tentativa desesperada de partir pela trilha. Mas, assim que deixou a proteção da fogueira, o mais ousado dos lobos saltou sobre ele, e Henry só escapou por muito pouco. O resto do bando agora estava de pé, aumentando a pressão, e foi preciso arremessar tições para todos os lados para fazê-los recuar. Mesmo à luz do dia, não ousava se afastar do fogo para cortar mais lenha. A pouca distância se erguia um imenso abeto seco.

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Investiu metade do dia movendo o acampamento até a árvore, 62

usando galhos em chamas para afastar os inimigos. Ao chegar à árvore, derrubou-a na direção que resultaria em mais lenha. A noite foi como a anterior, a não ser pelo desejo de dormir, que se tornava cada vez mais insuportável. Os rosnados dos cães já não faziam efeito. Acordou num sobressalto. A loba estava a menos de um metro. Tão perto que, por reflexo, ele enfiou um tição na boca aberta que rosnava. Ela saltou para longe, gritando de dor. Dessa vez, antes de cochilar de novo, amarrou um nó de pinho em chamas à sua mão direita. Fechava os olhos por uns minutos, até que o calor da chama o acordava. Durante várias horas, despertava desse jeito, espantava os lobos com tições voa­dores, reabastecia o fogo e refazia o arranjo do nó de pinho na mão. Tudo corria bem, até a vez que não amarrou bem o nó de pinho. Ao fechar os olhos, o pedaço de madeira caiu no chão. Sonhou. Já estava no Forte McGurry. Havia calor e conforto. Só que lobos sitiavam o forte. Uivavam aos portões, sem invadi-lo. De repente houve um estrondo e a porta se abriu. Os lobos tomaram o grande salão do forte de assalto. Pulavam direto em sua direção. Com a porta aberta, o som dos uivos aumentou bastante. Então despertou e descobriu que os uivos eram reais. Os lobos atacavam entre rosnados e ganidos. Um deles cravou os dentes em seu braço. Por instinto, ele saltou para dentro da fogueira, e enquanto pulava sentiu a dor aguda provocada pelos dentes que rasgavam sua perna. Uma guerra de fogo teve início. Suas luvas

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grossas lhe protegeram as mãos por um tempo, e assim ele jogou brasas pelos ares, até que o acampamento parecesse um vulcão.

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Mas não poderia resistir muito tempo. O calor lhe castigava o rosto, e já era insuportável para seus pés. Com uma acha flamejante em cada mão, saltou para a beirada da fogueira. Os lobos haviam recuado. Por toda parte, onde as brasas tinham caído, a neve chiava, e de vez em quando um lobo em retirada saltava e bufava ao pisar numa delas. Atirando suas achas na direção do inimigo mais próximo, enfiou as mãos na neve e bateu com os pés no chão para esfriá-los. Os dois cães haviam sumido, para serem servidos como um dos pratos da longa refeição que começara dias antes com Gorducho e poderia muito bem terminar em breve com ele próprio. — Ainda não me pegaram! — gritou, agitando de forma selvagem o punho. Ao som da sua voz, todo o círculo se agitou, e houve um alarido geral. A loba passou furtivamente por ele, exibindo um desejo faminto. Então, ele começou a trabalhar em uma nova ideia. Estendeu o fogo num grande círculo e se agachou dentro dele. Seu material de dormir servia de proteção contra a neve derretida. Assim que desapareceu dentro do seu escudo de chamas, toda a alcateia se aproximou curiosa à beira do fogo para entender para onde ele tinha ido. Ao terem o caminho bloqueado pelo fogo, acomodaram-se em um círculo fechado, como tantos

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outros cães, bocejando e se espreguiçando naquele calor inusita64

do. A loba se sentou e, com o focinho apontado para uma estrela, começou a uivar. Um por um, os lobos se juntaram a ela, até que todo o grupo uivava seu grito de fome. Veio a aurora e a luz do dia. O fogo enfraquecia. A lenha acabara. O homem tentou buscar mais fora da proteção do círculo de fogo, mas os lobos logo lhe bloquearam o caminho. Já não se afastavam mais com as achas flamejantes, e ele teve que desistir. O homem então se agachou sobre os cobertores. Inclinou-se para a frente e relaxou os ombros. A cabeça apoiada nos joelhos anunciava que havia desistido. De vez em quando erguia a cabeça e observava o fogo morrendo. O círculo de chamas e brasas se quebrava em segmentos com espaços entre eles. Os espaços aumentavam e os segmentos diminuíam. — Podem vir me pegar quando quiserem — resmungou. — De qualquer modo, vou dormir. Acordou uma vez, e numa abertura do círculo bem à sua frente viu a loba observando-o. Acordou mais uma vez alguns minutos mais tarde, ainda que lhe parecessem muitas horas. Uma mudança misteriosa acontecera. Tanto que despertou por completo. Algo acontecera. Primeiro, não entendeu, mas, depois, descobriu. Os lobos haviam ido embora, e a neve pisoteada ao seu redor indicava como tinham chegado perto. O sono retornava e começava a tomar conta dele de novo, a cabeça voltando a procurar os joelhos, quando despertou com um alerta inesperado.

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Eram gritos de homens, sons de trenós e ganidos ansiosos de cães se esforçando. Quatro trenós vieram do leito do rio

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até o acampamento, e meia dúzia de homens o cercaram e o sacudiram até que retornasse à consciência. Olhou para eles e, parecendo um homem embriagado, balbuciou um discurso desconexo e sonolento: — Loba vermelha… Vinha como se fosse um cão na hora da comida… Primeiro comeu a ração dos cães… Então comeu os cães… E depois, comeu Bill… — Onde está lorde Alfred? — um dos homens berrou em seu ouvido, sacudindo-o bruscamente. Ele balançou a cabeça devagar: — Não, ela não o comeu… Ele está descansando numa árvore no último acampamento. — Morto? — o homem gritou. — Numa caixa — Henry respondeu. Libertou-se do agarrão e continuou: — Deixem-me em paz… Já não aguento mais… Boa noite a todos. Seus olhos se fecharam. Seu queixo caiu sobre o peito. E enquanto os homens o acomodavam sobre os cobertores, seu ronco já se espalhava pelo ar gelado. Mas havia outro som, ainda que fraco e distante. Era o choro da alcateia faminta que buscava a trilha de outra presa em vez do homem que tinham acabado de perder.

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PARTE 2

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CAPÍTULO 4

A batalha das presas

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Foi a loba a primeira a captar o som das vozes humanas e a lamúria dos cães de trenó que chegavam, e a primeira a se afastar do homem encurralado. O bando não gostou da ideia e hesitou por alguns minutos antes de sair em saltos pela trilha deixada pela loba. Correndo à frente do bando ia um grande lobo cinzento. Rosnava, alertando os mais jovens, ou atacava com as presas quando algum mais ambicioso tentava passar à sua frente. Foi ele quem acelerou o passo quando avistou a loba, que seguia trotando pela neve. Ela se pôs ao seu lado, como se essa fosse sua posição designada, e acompanhou o passo do grupo. Ele não rosnou para ela nem lhe mostrou os dentes quando um dos seus saltos a fez ficar um pouco à frente. Pelo contrário, parecia bondoso com ela, bondoso até demais para o seu gosto. Quando se aproximava demais, era ela quem rosnava e lhe mostrava os dentes. Nessas ocasiões, ele se limitava a saltar para o lado e a continuar correndo adiante com saltos desengonçados. Esse era o maior problema dele para liderar o grupo, mas ela tinha outros problemas. Do seu outro lado corria um lobo

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velho e magro, acinzentado, com cicatrizes de muitas batalhas. 68

Tinha somente um olho, o esquerdo, e também vivia a importuná-la, tentando encostar seu focinho marcado no corpo, ombro ou pescoço dela. Da mesma forma que fazia com seu parceiro de corrida à esquerda, ela repelia essa atenção com os dentes. Mas quando ambos a cortejavam ao mesmo tempo, era obrigada a afastar os dois com mordidas rápidas para poder continuar em frente. Os rivais mostravam os dentes e rosnavam ameaças um para o outro. Poderiam lutar, mas até o romance e a rivalidade têm que esperar diante da fome. Depois de cada repulsa, ao desviar bruscamente dos dentes afiados da loba, o velho lobo esbarrava ainda em um lobo de três anos de idade que corria à sua direita. O jovem lobo alcançara seu porte maduro e, considerando a condição de fome e fraqueza da alcateia, possuía vigor e ânimo acima da média. Mesmo assim, corria com a cabeça alinhada com o ombro do lobo mais velho. De vez em quando, contudo, ele se deixava atrasar um pouco e se esgueirava entre o velho líder e a loba. Isso causava uma dupla reação, até mesmo tripla. Tanto a loba como o velho lobo giravam e investiam contra o lobo mais jovem, e algumas vezes o líder à esquerda virava e o atacava também. Nessas horas, o jovem lobo parava de repente, apoiando-se nos quadris, esticando as patas dianteiras, mostrando a boca ameaçadora e o pelo eriçado. Isso sempre causava rebuliço na retaguarda. Os lobos que vinham atrás colidiam com o jovem

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lobo e o castigavam com pequenas mordidas em seus flancos. Apesar desses riscos, ele insistia na manobra, sem obter nada em

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troca além de frustração. Houvesse comida, o amor e a luta poderiam ter prosperado, e a formação da alcateia teria se desfeito. Mas a situação do bando era desesperadora. A longa fome deixara todos muito magros. Na retaguarda claudicavam os fracos, os muito jovens ou muito velhos. Na dianteira iam os mais fortes. Correram muitos quilômetros naquele dia e durante a noite. E o dia seguinte ainda os encontrou correndo sobre a superfície daquele mundo morto e congelado. Nenhuma vida se mexia. Apenas eles se moviam pela vastidão, vivos e à procura de outros seres que estivessem vivos, para devorá-los e continuar a viver. Cruzaram vales e uma dúzia de pequenos córregos antes que a busca fosse recompensada. Chegaram às pastagens de alces. O primeiro que encontraram era um grande macho. Era carne e vida, sem a proteção de fogos misteriosos e mísseis flamejantes. Eles conheciam cascos achatados e chifres espalmados, e deixaram a cautela de lado. Foi uma luta breve e feroz. O grande macho foi atacado por todos os lados. Seus cascos poderosos rasgaram a pele e quebraram crânios. Os enormes chifres cuidaram de esmagar muitos dos atacantes. Mas ele acabou devorado vivo pelo bando, antes mesmo que parasse de lutar. Havia bastante comida. O macho pesava mais de trezentos quilos, pelo menos dez quilos para cada membro do grupo. Logo uns poucos ossos espalhados eram o que restava da

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esplêndida forma de vida que enfrentara a alca70

teia fazia poucas horas. Agora havia muito que descansar e dormir. Com a barriga cheia, começaram as disputas e as brigas entre os machos mais jovens, e isso continuou até a dissolução do grupo alguns dias depois. A fome acabara. Os lobos se encontravam em território de caça, e passaram a ser mais cautelosos, escolhendo as fêmeas mais pesadas ou os machos mais velhos e fracos. Chegou um dia em que a alcateia se dividiu em duas, cada uma seguindo uma direção. A loba, junto com o jovem líder e o ancião de um

Rio no noroeste do Canadá, descoberto em 1789 pelo explorador escocês Alexander Mackenzie.

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olho só, liderou um grupo até o rio Mackenzie3, e depois até o leste. A cada dia, o bando diminuía. Aos pares de um macho e uma fêmea, os lobos iam desertando. De vez em quando um macho solitário era enxotado pelos dentes afiados dos rivais. Até que restaram apenas quatro: a loba, o líder, o ancião de um olho só e o ambicioso de três anos. A essa altura, a loba desenvolvera um temperamento feroz. Seus três pretendentes sofriam, mas nunca respondiam com mordidas. Se eram cheios de suavidade em relação a ela, a

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fúria era total entre eles. A ambição do lobo de três anos cresceu demais. Ele atacou o lado cego do ancião de um olho só e lhe

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retalhou a orelha em tiras. Ainda que o lobo velho e acinzentado só pudesse enxergar de um lado, usou a sabedoria de anos de experiência contra a juventude e o vigor do outro numa batalha que começou justa. Mas não dava para saber o que aconteceria, pois o terceiro lobo se juntou ao ancião, e ambos trucidaram o ambicioso de três anos. Ficaram para trás os dias em que caçaram unidos, a fome que enfrentaram. O tempo do amor havia chegado, muito mais duro e cruel do que a procura por comida. Enquanto isso, a loba, a causa de tudo, observava, satisfeita. Era o seu dia — e isso era raro —, quando pelos se eriçavam e presas batiam contra presas e rasgavam a carne, tudo por sua posse. E a primeira aventura amorosa do lobo de três anos de idade acabou lhe custando a vida. De cada lado do seu corpo ficou de pé um rival. Fitavam a loba, que estava sentada sobre a neve. Mas o ancião era sábio, muito sábio, tanto no amor como na batalha. O líder virou a cabeça para lamber uma ferida no ombro, exibindo a curva do pescoço. Com o olho bom, o ancião viu a chance. Atacou-o como uma flecha e lhe deu uma mordida longa e dilacerante, além de profunda. Seus dentes rasgaram a grande veia da garganta, e ele se afastou com um salto. O jovem líder rosnou, mas uma tosse seca interrompeu seu rosnado terrível. Sangrando e tossindo, já ferido de morte, saltou sobre o

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ancião e lutou enquanto a vida lhe fugia e seus golpes e saltos fi72

cavam cada vez mais curtos. Esse tempo todo a loba permaneceu sentada. Ficou contente de um modo vago, pois assim é o amor na Natureza Selvagem, um romance trágico só para os que morrem. Para os que sobrevivem não é tragédia, só realização e conquista. Quando o jovem líder ficou estirado no chão e não se mexia mais, Caolho se aproximou furtivamente da loba. Sua postura era um misto de triunfo e cautela. Esperava ser rejeitado, e ficou surpreso, pois pela primeira vez ela o recebia com bondade. Encostou seu focinho no dele e até se permitiu pular e brincar com ele como se fosse um filhote. Nos dias seguintes permaneceram juntos, caçando, matando e comendo em dupla. Depois de um tempo, a loba começou a ficar inquieta. Parecia procurar por algo que não conseguia encontrar. As cavidades embaixo das árvores caídas pareciam atraí-la, e passava muito tempo farejando entre as fendas maiores e cheias de neve e nas cavernas das barrancas dos rios. O velho Caolho não se interessava, mas a seguia com boa vontade. Sem permanecer num só lugar, viajaram através da região até voltarem ao rio Mackenzie. Acompanharam as suas margens, afastando-se com frequência para caçar junto aos seus pequenos afluentes, porém sempre voltando ao curso maior. Numa noite de lua cheia, correndo pela floresta silenciosa, Caolho parou de súbito. Levantou o focinho e retesou o

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rabo. Suas narinas se dilataram como se farejasse o ar. Continuou assim por um tempo, mas uma simples fungadela satisfez

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sua parceira, que seguiu adiante. Ele foi atrás, ainda desconfiado. Cautelosa, ela rastejou para a beira de uma grande clareira. Um pouco depois Caolho se juntou a ela, ainda cismado e alerta. Ficaram ali, observando, escutando e farejando. Ouviram o som de disputas e brigas entre cães, gritos graves de homens, vozes agudas de mulheres e o choro queixoso de uma criança. Pouco podia ser visto além de grandes tendas feitas com couro de animais e das chamas de uma fogueira. Alcançava suas narinas, porém, uma variedade de cheiros, contando uma história incompreensível para Caolho, mas conhecida nos mínimos detalhes pela loba. Ela parecia perturbada e farejava cada vez com mais satisfação. O velho Caolho estava desconfiado. Demonstrou sua apreensão e tentou sair dali. Ela se virou e, com o focinho, tocou-lhe a nuca numa atitude tranquilizadora, voltando a observar o acampamento. Sentia uma vontade urgente de ir em frente e se aproximar daquele fogo, de brigar com os cães, e de evitar e driblar os pés dos homens. Caolho se moveu, impaciente, ao lado dela. Ela sentiu seu desconforto e se lembrou daquela necessidade imperativa de encontrar o que procurava. Virou-se e trotou de volta para a floresta, para grande alívio de Caolho, que também buscou o abrigo das árvores. Deslizaram silenciosos como sombras ao luar até encontrarem um rastro. Aproximaram o focinho das pegadas frescas na

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neve. Caolho correu adiante com cautela, sua parceira logo atrás. 74

Ele captou um sutil movimento de algo branco em meio ao resto do branco. Antes parecia rápido, mas nada comparável à velocidade de agora. A tênue mancha branca que descobrira saltava à sua frente. Eles corriam por uma trilha estreita flanqueada por abetos jovens. Caolho alcançava com rapidez a forma branca, que fugia. Já estava sobre ela, a um salto de capturá-la. Mas, de repente, bem acima dele, pairava a forma branca. Uma lebre que agora se debatia numa dança fantástica no ar, sem retornar ao solo. Caolho se encolheu num susto e rosnou ameaçador contra aquilo que não entendia. Mas a loba passou tranquila por ele. Parou por um instante e saltou até a lebre dançante. Ela subiu bem alto, mas não o bastante, e seus dentes se fecharam no ar, fazendo um estalo metálico. Saltou de novo, e depois mais uma vez. Aos poucos, seu parceiro relaxou e passou a observá-la. Até que ele próprio deu um poderoso pulo para o alto. Seus dentes se fecharam em torno da lebre, e ele a trouxe de volta ao solo. Mas ao mesmo tempo houve um estalo suspeito ao seu lado, e Caolho se espantou ao ver um jovem abeto se inclinando para atacá-lo. Suas mandíbulas deixaram a presa escapar, e ele saltou para trás, a fim de fugir do estranho perigo, rosnando e se eriçando. Na mesma hora a árvore jovem se aprumou, e a lebre voltou a pairar, dançando no ar. A loba se zangou e enfiou os dentes no ombro do parceiro, que, assustado, reagiu com fúria. A loba avançou sobre ele,

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rosnando indignada. Ele percebeu o erro e tentou acalmá-la, mas foi punido até se submeter. Enquanto isso, a lebre dançava

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acima deles. A loba se sentou, e o velho Caolho saltou de novo. Quando voltou ao solo trazendo a lebre presa nos dentes, manteve um olho no jovem abeto, que voltou a segui-lo até o chão. Ele se encolheu diante do golpe iminente, mas este não veio. A árvore continuava curvada. Quando ele se mexia, ela se mexia também. Se ficava parado, ela ficava parada. Preferiu ficar quieto. Ao menos o sangue morno da lebre tinha um gosto bom em sua boca. Foi sua companheira que resolveu o dilema. Tomou a lebre de sua boca e, enquanto o abeto balançava ameaçador sobre ela, calmamente arrancou a cabeça da lebre. De uma vez só, o jovem abeto se levantou, e não causou mais problemas. A loba e Caolho devoraram a caça que o misterioso abeto jovem capturara para eles. Havia outros rastros e trilhas onde lebres se penduravam no ar, e o par de lobos explorou todas, a loba na frente, o velho Caolho a segui-la, observando e aprendendo o método de roubar armadilhas. Esse conhecimento iria mantê-lo em boa forma no futuro.

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CAPÍTULO 5

A toca

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Durante dois dias permaneceram perto do acampamento indígena. Quando, numa certa manhã, o ar foi perturbado com o estampido de um rifle e uma bala atingiu um tronco bem perto da cabeça de Caolho, não hesitaram e partiram num longo galope até estarem bem distante do perigo. Não foram muito longe, apenas poucos dias de viagem. Agora era urgente a necessidade da loba de encontrar o que procurava. Estava ficando pesada e não conseguia mais correr tão rápido. Uma vez, no encalço de uma lebre, desistiu e parou para descansar. Caolho veio até ela, mas, quando lhe tocou a nuca com o focinho, ela tentou mordê-lo com tanta ferocidade que ele chegou a tropeçar enquanto escapava dos seus dentes. Seu pavio estava mais curto do que nunca, mas ele se tornou mais paciente e mais solícito. Afinal ela encontrou o que procurava. Um lugar perto de um pequeno riacho que no verão corria para o rio Mackenzie, mas que, naquela época, estava congelado até o fundo em todo o seu curso. A loba trotava cansada sobre o riacho sólido, seu

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companheiro bem adiante, quando ela se aproximou de um barranco alto e pendente sobre o curso do rio. Chegou mais perto.

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Enxurradas e o derretimento da neve tinham lavado o barranco, e num certo local formaram uma pequena caverna numa fissura do terreno. Ela parou na entrada da caverna e examinou a parede do barranco com cuidado. Depois correu de um canto ao outro pela base do barranco. Retornando à caverna, passou por sua entrada estreita. Teve que se arrastar no começo, mas depois havia mais espaço para os lados e para cima. Era um recinto arredondado de uns dois metros de diâmetro. O teto quase batia em sua cabeça. Era seco e aconchegante. Examinou todo o ambiente com extremo cuidado, enquanto Caolho permanecia à entrada. Ela deixou cair a cabeça, colou o focinho ao chão em um ponto próximo a suas patas e deu várias voltas em torno desse ponto. Com um suspiro cansado que era quase um rosnado, enroscou o corpo, relaxou as pernas e tombou com a cabeça apontada para a entrada. Caolho, com as orelhas em pé e atentas, partilhou da satisfação da parceira. Ele sentia fome. Deitou-se na entrada e dormiu, mas seu sono foi inquieto. Acordava e ouvia o mundo brilhante lá fora. O sol voltara e toda a vida despertava e chamava por ele. A primavera estava no ar e na sensação de vida nascendo sob a neve, da seiva subindo pelas árvores, dos brotos arrebentando os grilhões da geada.

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Ele olhava ansioso para a companheira, que não mostra78

va sinal de querer sair de onde estava. Olhou para fora, e um bando de aves voou pelo seu campo de visão. Fez menção de se levantar, olhou de volta para a parceira e se acomodou e cochilou. Um mosquito insistente, depois de ficar congelado o inverno todo, acabou fazendo com que não resistisse ao chamado do mundo. Além disso, sentia fome. Rastejou até a parceira e tentou convencê-la a se levantar, sem sucesso. Saiu sozinho para o brilho do sol, onde encontrou neve fofa e difícil de percorrer. Foi para o leito congelado do rio, onde a neve, à sombra das árvores, continuava dura e cristalizada. Depois de oito horas, voltou pela escuridão com mais fome. Pausou pela entrada da caverna com uma suspeita repentina. Lá de dentro vinham sons fracos e estranhos. Não eram sons feitos por sua companheira, mas ainda assim lhe eram remotamente familiares. Arrastou-se com cuidado para dentro, e a loba o recebeu com um rosnado de alerta. Não se perturbou e, obediente, manteve distância. Mas continuava interessado nos outros sons, uns soluços fracos e abafados. Sua parceira fez outro alerta irritado, e ele se enroscou e dormiu na entrada da caverna. Quando amanheceu e uma luz tênue invadiu a toca, voltou a tentar entender a origem daqueles sons vagamente familiares. O tom no rosnado de sua companheira mudou um pouco. Era um tom ciumento, e ele foi muito cuidadoso, mantendo uma distância respeitável.

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Contudo, conseguiu perceber, abrigados entre as pernas e o corpo dela, cinco criaturinhas, muito fracas e desamparadas,

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soltando ganidos baixinhos, com olhos fechados. Ficou surpreso. Não era a primeira vez que isso acontecia em sua longa e bem-sucedida vida. Acontecera muitas vezes, e era sempre uma nova surpresa. Sua parceira olhou-o ansiosa. Grunhia a todo momento e, quando ele pareceu querer se aproximar, o grunhido se transformou em um rosnado cortante. Da sua própria experiência não tinha memória disso ter acontecido antes, mas em seu instinto, que era a experiência de todas as mães lobas, havia o aviso sobre pais que comiam seus descendentes recém-nascidos e indefesos. Um forte medo tomou conta dela, que não permitiu que Caolho se aproximasse e inspecionasse os filhotes. Mas não havia perigo. O velho Caolho sentia um impulso premente, que por sua vez havia lhe sido legado por todos os pais lobos. Não questionou nem parou para pensar a respeito. Obedeceu e deu as costas para a nova família, indo em busca da caça onde ela vivia. A oito quilômetros da toca, o riacho se dividia, seus braços partindo rumo às montanhas num ângulo reto. Seguindo pelo córrego à esquerda, Caolho chegou a um rastro fresco. Farejou-o e o achou tão recente que se agachou com suavidade e olhou na direção em que sumia. Virou-se e voltou para o braço à direita. Aquela pegada era muito maior que suas próprias,

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e o lobo sabia que naquela trilha haveria pouca carne para ele. 82

Meio quilômetro acima pelo braço à direita, seus ouvidos captaram o som de dentes roendo. Espreitou a caça e descobriu que se tratava de um porco-espinho, ereto contra uma árvore, mordendo sua casca. Caolho se aproximou com cuidado, sem esperanças. Conhecia a espécie, e nunca porco-espinho fora uma refeição. Mas já aprendera que existe algo chamado oportunidade, e então se aproximou. Nunca se sabe o que vai acontecer, pois com seres vivos, de algum modo, os eventos ocorrem cada vez de um jeito. O porco-espinho se enrolou como se fosse uma bola, irradiando longos e pontudos espinhos em todas as direções. Em sua juventude, Caolho já chegara perto demais de uma dessas bolas de espinhos e acabara recebendo um safanão de um rabo na cara. Um espinho ficou espetado no focinho por semanas, queimando e doendo, até que conseguisse removê-lo. Por isso, deitou-se numa posição confortável e com o focinho fora do alcance do rabo. E assim ficou, bem quieto, esperando por alguma oportunidade para um golpe rápido e certeiro com a pata. Mas depois de meia hora se levantou, grunhiu zangado para a bola paralisada e trotou para longe. Já esperara muitas vezes em vão por porcos-espinhos se desenrolarem. Continuou subindo o córrego, sem obter nenhuma recompensa. Era forte a urgência do instinto paterno que fora despertado. Precisava de carne. À tarde encontrou um

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lagópode4 por mero acaso. Saiu de dentro de uma moita e viu a ave lenta, sentada num tronco caído, a um palmo do seu focinho. Cada um viu o outro. A ave ensaiou um voo assustado,

Ave do gênero Lagopus, da ordem dos galináceos, que habita as regiões frias do Hemisfério Norte.

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mas o lobo lhe acertou um golpe com a pata, levando-a ao solo e dando um bote em seguida. A ave tentou correr e decolar, mas foi abocanhada. Quando seus dentes mastigaram a carne tenra e os ossos frágeis, a reação natural foi continuar a comer. Então se lembrou, e retomando a trilha se dirigiu para casa com a presa na boca. Um quilômetro acima da bifurcação do rio, correndo com patas de veludo como era seu costume enquanto explorava, cuidadoso, cada canto da trilha, acabou deparando com novas pegadas, como as que descobrira mais cedo. O rastro seguia o mesmo caminho que ele, que continuou alerta em cada curva da trilha para o caso de encontrar o dono das pegadas. Num ponto onde o rio fazia uma curva mais longa, deslizou a cabeça por trás de uma pedra e viu algo que o fez se agachar em silêncio. Era a dona do rastro, uma grande fêmea de lince. Estava deitada, como ele estivera mais cedo, com

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a mesma bola de espinhos diante de si. Ele se arrastou em silên84

cio, como se fosse a sombra de um fantasma, até circundá-la e se afastar do par imóvel. Deitou-se na neve, depositando a ave ao seu lado e espiando, por entre a folhagem de um abeto mais baixo, o jogo da vida disputado entre a lince e o porco-espinho. O velho Caolho também desempenhava seu papel nesse jogo, atento a alguma oportunidade inesperada que o ajudasse em sua busca por carne. Uma hora passou e nada aconteceu. A bola de espinhos poderia ser uma pedra, a lince poderia estar congelada, e o velho Caolho, morto. Ainda assim, os três animais viviam uma tensão que era quase dolorosa. Caolho fez um movimento mínimo e espreitou ansioso. Algo acontecia. O porco-espinho achou que o inimigo fora embora. Devagar, com cautela, começou a desenrolar a bola de armadura inexpugnável até, com extrema calma e lentidão, se desenrolar todo. Caolho sentiu a boca umedecer e a saliva escorrer, excitado pela carne viva que se expunha como uma refeição à sua frente. O porco-espinho nem tinha acabado de se desenrolar quando descobriu o inimigo. Nesse instante a lince o atacou, rápida como um raio. A pata, com garras poderosas e curvas como as de uma ave de rapina, golpeou-lhe a barriga macia e recuou com um movimento dilacerante. Se o porco-espinho tivesse notado o inimigo uma fração de segundo depois, a pata da lince

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teria escapado ilesa, mas um golpe lateral do seu rabo enfiou nela espinhos afiados.

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Tudo aconteceu muito rápido: o ataque, o contra-ataque, o guincho de agonia do porco-espinho, o grito dolorido da grande gata. Caolho se levantou excitado, as orelhas em pé, o rabo esticado e trêmulo. A lince se enfureceu e saltou selvagem sobre quem lhe causava dor. Mas o porco-espinho, gritando e grunhindo, muito fraco e machucado para se enrolar de novo em sua bola protetora, deu mais um golpe com o rabo, e mais uma vez a grande gata gritou com dor e espanto. Ela recuou, o focinho parecendo uma monstruosa almofada de alfinetes. Esfregou o focinho com as patas, tentando remover os espinhos que ardiam. Buscou alívio na neve, e esfregou o focinho em galhos, cada vez sentindo mais dor. Enquanto a lince se acalmava, Caolho observava. Os pelos do seu dorso se arrepiaram quando, sem aviso, ela saltou no ar com um grito agudo e tomou o caminho da trilha, gritando a cada salto que dava. Só quando a gritaria desapareceu ao longe Caolho se aventurou a avançar. Caminhou com todo o cuidado pelo chão coberto de espinhos enfiados na neve. O porco-espinho saudou sua aproximação com um guincho furioso e um bater de dentes. Conseguiu se enrolar de novo, mas já não era aquela bola compacta de antes. Seus músculos estavam machucados demais e ele sangrava em profusão.

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Caolho encheu a boca de neve ensopada de sangue. Mas86

tigou e saboreou antes de engolir. Isso lhe serviu de aperitivo, e sua fome cresceu. Mas já vivera demais para deixar a cautela de lado. Deitou-se e esperou enquanto o porco-espinho rangia os dentes e soltava grunhidos, suspiros e um guincho agudo ocasional. Pouco depois, Caolho reparou que os espinhos pendiam caídos em meio a uma grande tremedeira. De repente o tremor parou por completo. Todos os espinhos tombaram e o corpo relaxou. Caolho usou a pata para esticar o porco-espinho, virando-o de costas. Nada aconteceu. Estava morto. O lobo analisou a situação e depois, com os dentes, segurou a presa com firmeza e começou a arrastá-la. Lembrou-se de algo, repousou a carga no chão, e trotou de volta para onde deixara o lagópode. Não hesitou por um segundo sequer. Sabia o que devia ser feito, e logo comeu a ave. Em seguida, voltou e pegou a carga. Quando arrastou o resultado do seu dia de caça para dentro da caverna, a loba fez uma inspeção, virou o focinho para ele e lambeu de leve sua nuca. Mas no momento seguinte já o alertava para se afastar dos filhotes com um rosnar menos áspero que o de costume, e que parecia mais um pedido de desculpas que uma ameaça. O medo instintivo do pai de sua ninhada diminuía. Ele se comportava como um pai lobo deve agir, sem parecer querer comer sua cria.

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CAPÍTULO 6

O filhote cinzento

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Ele era diferente de seus irmãos e irmãs. A pelagem desses todos já denunciava o tom vermelho herdado da mãe, enquanto somente ele parecia com o pai nesse particular. Era o único filhote cinzento da ninhada. Parecia um Caolho em miniatura, com a única diferença de ter dois olhos. Seus olhos tinham começado a se abrir havia pouco tempo, mas sua visão já era nítida. E antes de ter aberto os olhos, já sentia, experimentava e cheirava. Conhecia muito bem seus dois irmãos e suas duas irmãs. Já brincava com eles e ensaiava até lutar, sua pequena garganta vibrando com um som estranho (o projeto de um rosnado). E muito antes de abrir os olhos, aprendera a conhecer, pelo tato, pelo gosto e pelo olfato, sua mãe, uma fonte de calor, alimento líquido e ternura. Dormiu a maior parte do seu primeiro mês. Mas agora enxergava com clareza e passava longos períodos acordado. Começava a conhecer muito bem seu mundo. Era um mundo escuro, mas ele ainda não sabia disso, pois não conhecia nenhum outro. Vivia na penumbra, mas seus olhos nunca haviam precisado se

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ajustar a outra luz. Seu mundo era muito pequeno. Seus limi88

tes eram as paredes da toca, mas como nunca conhecera o vasto mundo lá fora, nunca se sentiu confinado. Mas já descobrira que uma parede do seu mundo era diferente das outras. Era a entrada da caverna e a fonte da luz. Já sabia que a parede era diferente antes mesmo de começar a pensar. Quando a luz bateu em suas pálpebras fechadas, seus olhos e seus nervos ópticos pulsaram com lampejos que pareciam centelhas, com cores quentes e uma satisfação estranha. Todas as fibras do seu corpo ansiavam por buscar a luz como a química de uma planta a direciona para o sol. Desde o começo, arrastou-se em direção à entrada da caverna. Nisso, seus irmãos e irmãs eram iguais. Nunca, nesse período, algum deles procurou os cantos escuros da parede dos fundos. Era a luz que os atraía. Depois, quando começaram a desenvolver sua individualidade, a atração pela luz só aumentou. Estavam sempre se arrastando em sua direção, para serem guiados de volta pela mãe. Foi assim que o filhote cinzento aprendeu sobre outros atributos da mãe, além da língua macia e tranquilizadora. Em seu arrastar-se insistente acabou descobrindo nela um focinho que dava cutucões, e depois uma pata que o esmagava e o fazia rolar com um golpe de força calculada. Assim, conheceu a dor e, sobretudo, aprendeu a evitá-la. Não correr risco e depois, se preciso, desviar e recuar diante da dor eram ações conscientes,

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e foram suas primeiras generalizações sobre o mundo. Antes recuava automaticamente da dor, assim como se arrastava para a

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luz. Depois da lição, recuava da dor porque sabia que era dor. Era um filhotinho feroz. Como também eram seus irmãos e irmãs. Era de esperar. Era um animal carnívoro. Descendia de uma dinastia de predadores comedores de carne. O leite que sugara com seu primeiro impulso de vida era produzido a partir da carne. E agora, com um mês de vida, ele mesmo começava a comer carne. Carne que era meio digerida pela loba e regurgitada para os cinco filhotes que já começavam a exigir demais de suas mamas. Mas ele era, disparado, o mais feroz da ninhada. Podia rosnar mais alto e áspero que os outros. Foi o primeiro a aprender o truque de fazer um irmão rolar com um golpe sagaz da pata. E foi o primeiro a segurar a orelha de outro filhote com os dentes e puxar, arrastar e rosnar por entre as mandíbulas cerradas. E com certeza era quem dava mais trabalho à mãe em sua faina de manter a ninhada longe da entrada da caverna. O fascínio do filhote cinzento pela luz crescia a cada dia. Partia perpetuamente em aventuras de um metro em direção à entrada da caverna. Só que ele não sabia nada sobre entradas, essas passagens por onde se vai de um lugar para outro. Não conhecia nenhum outro lugar, muito menos um modo de chegar lá. Então, para ele, a entrada da caverna era uma parede. Uma parede de luz que era o sol do seu mundo. A vida que crescia dentro

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do seu corpo o forçava a buscar a parede de luz. A vida dentro 90

dele sabia que aquele era o único caminho a seguir quando ele mesmo ainda nem sequer sabia que existia um mundo lá fora. Havia apenas uma coisa estranha sobre a parede de luz. Seu pai. O filhote já reconhecia o pai como aquele outro habitante do seu mundo, uma criatura como sua mãe, que dormia perto da luz e trazia comida. Seu pai tinha um jeito de passar pela parede branca e desaparecer. O filhote cinzento não conseguia entender. Ainda que sempre tivesse sido impedido pela mãe de chegar perto daquela parede, aproximara-se das outras paredes, e lá encontrara uma dura obstrução na ponta do seu focinho macio. Aquilo doía. Após várias dessas aventuras, deixou as paredes em paz. Sem pensar muito a respeito, aceitou o desaparecimento na parede como uma peculiaridade do pai, assim como o leite e a carne meio digerida eram da sua mãe. Na verdade, o filhote cinzento não era de pensar muito. Tinha um método de aceitar as coisas sem questionar o porquê e o motivo. Nunca se perturbava por que algo acontecera. Como ocorrera era o suficiente. Então, depois de esbarrar o focinho na parede algumas vezes, aceitou que não desapareceria parede adentro. Do mesmo modo, aceitou que o pai podia fazer isso. Mas não dava a mínima para descobrir a razão da diferença entre ele e o pai. Como a maioria das criaturas da Natureza Selvagem, logo experimentou a fome. Chegou um tempo em que o suprimento

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de carne cessou e o leite não vinha mais das mamas da mãe. Primeiro os filhotes ganiram e choraram, mas na maior parte do

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tempo dormiam. Logo tinham entrado numa espécie de coma faminto. Não havia mais brincadeiras, disputas ou aventuras rumo à distante parede branca. Os filhotes dormiam, enquanto a vida que restava neles fraquejava e morria aos poucos. Caolho estava desesperado. Percorria distâncias cada vez maiores e dormia muito pouco na toca. A loba também foi atrás de caça, deixando a ninhada sozinha. Nos primeiros dias após o nascimento dos filhotes, Caolho viajou várias vezes de volta até o acampamento indígena e roubou as lebres das armadilhas. Porém, com o derretimento da neve e da água dos rios, o acampamento fora movido, e ele perdeu essa fonte de alimentos. Quando o filhote cinzento voltou à vida e a ter interesse pela distante parede branca, descobriu que lhe restava só uma irmã. Os demais haviam desaparecido. Quando se sentiu mais forte, precisou brincar sozinho, pois a irmã não levantava mais a cabeça nem se mexia. A carne que comia agora e que arredondava seu pequeno corpo chegara tarde demais para ela. Depois veio um tempo em que o filhote cinzento não via mais o pai aparecendo e desaparecendo pela parede. Foi no final de uma segunda e menos severa escassez. A loba sabia por que Caolho nunca voltava, mas não havia como contar para o filhote cinzento o que vira. Caçando pelo córrego esquerdo, onde vivia a lince, ela seguiu uma trilha que Caolho deixara na véspera.

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E o encontrou, ou o que restava dele, no final da trilha. Havia 92

muitos sinais de batalha e da retirada da lince para sua toca após a vitória. Antes de deixar o local, a loba encontrou a toca, mas tudo indicava que a lince estava lá dentro, e ela não ousou entrar. Depois disso, em suas caçadas, a loba evitou o braço esquerdo do rio. Sabia que a toca da lince guardava uma ninhada de gatinhos, e que a lince era uma criatura feroz e lutadora implacável. Seria fácil para meia dúzia de lobos espantar um lince para cima de uma árvore, mas muito diferente se um lobo solitário encontrasse um lince. Especialmente se fosse uma fêmea de lince com uma ninhada faminta. Mas uma mãe é sempre feroz quando é preciso defender sua cria, e chegaria a hora em que, para o bem do seu filhote cinzento, a loba iria se aventurar pelo braço esquerdo até a toca nas pedras para enfrentar a ira da lince.

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CAPÍTULO 7

A parede do mundo

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Quando a mãe começou a deixar a caverna em suas expedições de caça, o filhote aprendera bem a lei que o proibia de se aproximar da entrada. Além de essa lei ter sido impressa várias vezes e com força pelo focinho e pela pata da mãe, já crescia nele o instinto do medo. Até aquele momento, nunca, em sua breve vida na caverna, se deparara com algo a que devesse realmente temer. Ainda assim, o medo existia dentro dele, herdado de ancestrais remotos. Era uma herança recebida diretamente de Cao­lho e da loba, mas que também vinha sendo transmitida por cada um dos milhares de gerações de lobos que haviam existido. Por isso o filhote cinzento já conhecia o medo, ainda que não soubesse na prática do que o medo era feito. É provável que o aceitasse como uma das restrições da vida. Pois já aprendera que existiam restrições. Conhecera a fome e a restrição ao não conseguir saciá-la. A dura obstrução da parede da caverna, o cutucão agudo do focinho da mãe, o golpe esmagador de sua pata, a fome não saciada diversas vezes, tudo isso incutira nele que nem tudo no mundo era liberdade. Às vezes havia limitações e restrições

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que deviam ser respeitadas como se fossem leis para escapar 94

da dor. Não perguntava por quê. Apenas identificava as coisas que doíam e as que não doíam. Depois disso, evitava as primeiras para saborear as demais. Em obediência à lei aplicada pela mãe, além da lei daquela coisa desconhecida, o medo, manteve-se afastado da entrada da caverna. Esta continuava sendo para ele uma parede de luz. Na ausência da mãe, ele dormia a maior parte do tempo, e quando acordado permanecia muito quieto, segurando os ganidos chorosos que coçavam sua garganta em busca de atenção. Mas havia outras forças agindo sobre o filhote, e a maior de todas era o crescimento. Lei e instinto exigiam dele obediência. Já o processo de crescimento impunha a desobediência. Sua mãe e o medo o impeliam a se manter longe da parede branca. Mas crescimento é vida, e a vida sempre procura a luz. Assim, não havia como segurar a maré que subia dentro dele. Até que um dia o medo e a obediência foram varridos pelo ímpeto da vida, e o filhote, depois de titubear um pouco, avançou em direção à entrada. Ao contrário das outras paredes, esta parecia recuar diante do seu avanço. Nenhuma superfície sólida colidiu com seu focinho macio quando fez a primeira exploração de perto. A substância da parede parecia permeável e macia. Aos seus olhos, a luz parecia ter forma, e, assim, ele entrou no que parecia ser uma parede para se banhar na substância de que era feita.

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Era estonteante. Avançava e a luz ficava cada vez mais forte. O medo o impelia a recuar, mas o crescimento o empurrava

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adiante. Chegou à entrada da caverna. A parede dentro da qual acreditava ter penetrado saltou para longe a uma enorme distância. A luz chegava a doer de tão brilhante, deixando-o tonto. Também sentiu vertigem com aquele aumento súbito de espaço. Automaticamente seus olhos se adaptaram à luminosidade, concentrando-se em encontrar o foco dos objetos distantes. Ele conseguia ver de novo a parede que saltara para longe, e agora ela tinha outra aparência. Era uma parede com diversas cores, composta pelas árvores que ladeavam o riacho, a montanha que aparecia por trás das árvores e o céu que ficava acima da montanha. Foi tomado por um medo imenso. Era mais um encontro com o terrível desconhecido. Agachou-se na borda da caverna e observou o mundo lá fora. Tinha muito medo. Como era desconhecido, tudo era muito hostil. Sendo assim, seu pelo se eriçou em todo o seu dorso, seus lábios se enrugaram debilmente numa tentativa de um rosnado feroz e intimidador. Com todo o medo que sentia, desafiou e ameaçou o imenso mundo. Nada aconteceu. Continuou observando, e com isso se esqueceu de rosnar e de sentir medo. O crescimento assumira o controle e tinha tomado a forma de curiosidade. Começou a reparar nos objetos mais próximos: um trecho do rio que refletia o sol, o resto do pinheiro atingido por um raio na base da encosta, e a própria

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encosta, que corria direto até ele, parando a apenas meio metro 96

da borda da caverna onde estava agachado. Até aquele dia o filhote cinzento vivera toda a sua vida em um mundo plano. Nunca experimentara a dor de uma queda. Não sabia o que era uma queda. Então deu um passo corajoso no ar. As pernas traseiras continuavam apoiadas na borda, e, de repente, ele caiu de cabeça para baixo. Bateu o focinho com força no chão. A pancada o fez ganir. Começou a rolar sem conseguir parar. O pânico tomou conta dele. O desconhecido o apanhara, não o largava e ameaçava lhe causar uma dor terrível. O crescimento perdeu o controle para o medo, e ele ganiu como um cãozinho assustado. Agora que o desconhecido tomara conta dele, o silêncio não adiantava nada. Então ganiu sem parar. E já não era o medo, mas o terror, que o assolava. A encosta se tornou mais suave, e sua base era coberta de grama, o que fez com que o filhote parasse. Deu um último ganido e mais um longo lamento choroso. Em seguida, lambeu o pelo, como se já tivesse se limpado milhares de vezes. Olhou em volta, sentindo-se poderoso. Rompera a parede do mundo, libertara-se do desconhecido e não se machucara. Mas estranhava tudo à sua volta. Sem nenhum conhecimento prévio, o filhote explorava um mundo novo. Agora que o terrível desconhecido o libertara, esqueceu-se de que o desconhecido tem muitos terrores. A curiosidade o instigava a querer saber sobre tudo ao seu redor. Inspecionou

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a grama sob as patas, o arbusto com frutinhas um pouco além, e o tronco morto do pinheiro atingido por um raio. Um esqui-

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lo, correndo em torno da base do tronco, deu de cara com ele, causando-lhe um grande susto. O filhote recuou e rosnou. Mas o esquilo se assustou também. Subiu correndo pela árvore, e de um ponto seguro trincou os dentes de volta. Isso encheu o filhote de coragem, que prosseguiu confiante em seu caminho. Tal era sua confiança que, quando um gaio pulou à sua frente, tratou de lhe atingir com uma patada. O resultado foi uma bicada na ponta do focinho que o fez se encolher e ganir. Foi barulho demais para o gaio, que voou em busca de segurança. Mas o filhote estava aprendendo. Sua pequena mente difusa já fizera uma classificação inconsciente. Havia coisas vivas e coisas sem vida. E era preciso ficar atento às coisas vivas. Coisas sem vida ficavam sempre no mesmo lugar, mas coisas vivas se moviam, e não havia como prever o que fariam. Devia estar sempre preparado para isso. Movia-se muito desajeitado. Tropeçava nas irregularidades do terreno e às vezes calculava mal os passos e caía de focinho no chão. E havia ainda as pedras soltas que se mexiam debaixo de suas patas. Aprendeu que nem todas as coisas sem vida tinham o mesmo equilíbrio estável de sua caverna. Mesmo assim, ia aprendendo. Quanto mais andava, menos tropeçava. Ia se ajustando e aprendendo a calcular os próprios movimentos, a conhecer suas limitações e a medir distâncias.

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Teve sorte de principiante. Tendo nascido para ser um ca98

çador, mesmo sem saber disso, deu de cara com carne em sua primeira aventura fora da toca. Por puro acaso encontrou um ninho de lagópodes ao cair dentro dele. Arriscara um passeio sobre o tronco de um pinheiro caído. A casca apodrecida cedeu sob suas patas e ele escorregou, atravessando a folhagem de um arbusto baixo. No coração da moita, junto ao chão, viu-se no meio de sete filhotes de lagópode. Os filhotes fizeram barulho, e a princípio ele ficou apavorado. Mas logo percebeu que eram muito miúdos, e se encheu de valentia. Então eles se mexeram. Ao colocar a pata sobre um deles, seus movimentos se aceleraram. Isso lhe deu prazer. Cheirou-o. Pegou-o com a boca. Ele lutou e fez cócegas em sua língua. Ao mesmo tempo se deu conta de que sentia fome. Suas mandíbulas se fecharam. Ossos frágeis foram esmagados e o sangue morno correu em sua boca. O gosto era bom. Era carne, a mesma que sua mãe lhe trazia, com a diferença de estar viva entre seus dentes e, por isso, melhor. Então comeu o lagópode. Não parou até devorar toda a ninhada. Lambeu os beiços, igual sua mãe fazia, e começou a se arrastar para fora da moita. Foi barrado por um redemoinho de penas. Ficou cego e confuso com o ataque e o bater de asas zangadas. Escondeu a cabeça entre as patas dianteiras e ganiu. Os ataques aumentaram. A mãe lagópode estava furiosa. Então ele se zangou. Levantou-se rosnando e atacando com patadas. Afundou seus dentinhos

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numa das asas, puxou-a e a sacudiu com força. A ave lutou, desferindo golpes com a asa que estava solta. Era a primeira batalha

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do filhote cinzento. Eufórico, esquecera-se de tudo sobre o desconhecido. Lutava, rasgando uma coisa viva, que o atacava de volta. E essa coisa viva era carne. Acabara de destruir sete coisinhas vivas. Ia destruir agora uma coisa viva grande. Estava ocupado e feliz demais para saber que estava feliz. Estava eletrizado e exultante de um jeito que nunca imaginara estar. Segurou firme a asa e rosnou por entre os dentes bem apertados. A lagópode o arrastou para fora da moita. Quando tentou puxá-lo de volta, ele a afastou dali e a empurrou para uma pequena clareira. Sentia uma tremenda excitação. O sangue lutador de sua linhagem tomava conta dele. Isso era viver, mesmo que não soubesse. Descobria o papel que teria no mundo, o que fora criado para fazer: matar carne, e lutar para matá-la. Depois de um tempo, a ave parou de lutar. Ele ainda a segurava pela asa, e se deitaram no chão olhando um para o outro. Tentou rosnar ameaçador e feroz. Ela bicou seu focinho, que depois de tantas aventuras estava todo machucado. Ele se encolheu, mas continuou segurando-a. Ela bicou de novo e de novo. Ele começou a ganir. Tentou recuar, sem perceber que era ele quem a segurava e a arrastava contra ele. Uma chuva de bicadas caiu sobre seu focinho machucado. A onda lutadora amainou dentro dele e, soltando a presa, virou-se e saiu em desaba­lada e inglória retirada.

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Deitou-se para descansar à beira dos arbustos, do ou100

tro lado da clareira, ofegante, com o focinho ainda dolorido. Mas, enquanto descansava, foi tomado por uma sensação de algo terrível e iminente. O desconhecido, com todos os seus terrores, tomou-lhe de assalto e, por instinto, ele recuou e se encolheu debaixo de uma moita. Assim que fez isso, uma lufada de vento o atingiu, e um grande corpo alado deslizou sinistro e silencioso. Um falcão, surgindo do nada, por pouco não o viu. Ficou debaixo da moita, recuperando-se do susto e espiando, medroso. Do outro lado da clareira, a lagópode saiu alvoroçada do ninho saqueado. Por causa da perda, não prestou atenção na flecha alada vinda do céu. Mas o filhote viu — e isso serviu de alerta e lição para ele — a descida rápida do falcão, a curva rente ao solo, o golpe de suas garras no corpo da ave e seu grito de agonia e terror, além da arremetida do falcão de volta para o alto, carregando a presa. Passou muito tempo até que o filhote deixasse seu esconderijo. Aprendera bastante. Coisas vivas são carne. Elas são boas de comer. Além disso, coisas vivas, quando grandes o bastante, podem causar dor. É melhor comer coisas vivas pequenas, como os filhotinhos de lagópodes, e deixar as coisas vivas grandes, como mães lagópodes, em paz. Ainda assim, sentiu uma pontinha de ambição, um desejo de ter outra batalha com aquela ave. Só que o falcão a levara embora. Talvez encontrasse

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outros lagópodes. Iria procurar. Desceu por um declive até a beira do riacho. Nunca havia visto água. Parecia bom de pisar.

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Avançou cheio de coragem e acabou caindo na água muito fria. Engasgou enquanto tentava respirar. Sem ter consciência disso, experimentou a agonia da morte. Aquela dor parecia a soma de todos os terrores do mundo. Voltou à superfície, e o ar doce preencheu sua boca. Não afundou de novo. Como se fosse um velho hábito, bateu as pernas e começou a nadar. Só que estava virado para a margem oposta. Era um pequeno riacho, mas naquele trecho havia um remanso que chegava a seis metros de largura. No meio da travessia, o filhote foi levado pela corrente rio abaixo. Foi pego pela pequena corredeira no final do remanso. As águas mansas ficaram bravas de repente. Foi jogado com violência para o fundo e de um lado para outro, de vez em quando sendo arremessado contra alguma pedra. No remanso seguinte acabou sendo levado para a margem e depositado com gentileza sobre uma cama de cascalho. Engatinhou frenético para fora da água e se deitou. Aprendera algo mais. Água não era viva. Mas se movia. E parecia sólida como a terra, porém não tinha nenhuma solidez. Sua conclusão foi de que as coisas nem sempre são o que parecem ser. Outra aventura o aguardava naquele dia. Lembrara-se da mãe. E isso trouxe a sensação de querer estar com ela mais do que todas as outras coisas no mundo. Não era apenas o

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seu corpo que estava cansado das aventuras, 102

seu pequeno cérebro também estava exausto. Em nenhum dos dias que vivera até então tinha trabalhado tão duro como naquele. Além disso, sentia sono. Começou a procurar pela caverna e por sua mãe, sentindo-se ao mesmo tempo muito só e vulnerável. Corria precipitado por entre alguns arbustos quando ouviu um grito agudo e assustador. Viu uma mancha amarela se movendo

Um dos menores carnívoros da natureza. Uma de suas espécies mais conhecidas é o furão.

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rápido. Era uma doninha5 saltando para longe dele. Apenas uma coisa viva pequena. Não havia o que temer. Então, bem na sua frente, perto de suas patas, viu uma coisa viva muito pequena, de poucos centímetros. Era uma jovem doninha, que, desobediente como ele, saía em aventura. Ela tentou recuar. Ele a derrubou com uma patada. Ela soltou um rangido estranho. No momento seguinte, a mancha amarela reapareceu como um raio. Ouviu de novo o grito assustador, e ao mesmo tempo sofreu um golpe severo na lateral do pescoço, sentindo os dentes afiados da mãe doninha em sua carne. Enquanto gania e recuava assustado, viu a mãe doninha pular sobre o filhote e desaparecer na folhagem

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espessa. O corte dos dentes dela em sua nuca ainda doía. Estava confuso e se sentou, gemendo baixinho. A mãe doninha era tão

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pequena e tão selvagem! Ainda choramingava quando a doninha reapareceu. Ela não o atacou, agora que sua cria estava a salvo. Aproximou-se dele com cautela, e o filhote pôde observar seu corpo esbelto. Parecia uma cobra com a cabeça ereta. Seu grito agudo e amea­çador lhe eriçou o pelo, e ele rosnou de volta em alerta. Ela chegou mais perto. Houve um salto, mais rápido que seu olhar inexperiente, e a mancha amarela sumiu do seu campo de visão. No momento seguinte, ela estava em sua garganta, os dentes cravados no pelo e na carne. De início ele rosnou e tentou lutar. Mas era muito novo, e aquele era apenas seu primeiro dia no mundo. Seu rosnado virou um ganido, e ele tentou escapar. A doninha não deixou, e já estava quase conseguindo rasgar a grande veia no pescoço do filhote. Era uma bebedora de sangue e gostava de sugá-lo direto da garganta das presas. O filhote cinzento teria morrido, e não haveria história alguma para contar, se a loba não chegasse saltando os arbustos. A doninha soltou o filhote e atacou feito um raio a garganta da loba. Errou o alvo, mas conseguiu agarrar a mandíbula. A loba sacudiu a cabeça, desfazendo a pegada da doninha e jogando-a pelos ares. E ainda no ar, as mandíbulas da loba se fecharam em torno do corpo esbelto e amarelo da doninha, que acabou mastigada.

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O filhote sentiu mais um acesso de afeto por sua mĂŁe. 104

A alegria que ela sentia por ter encontrado o filhote era ainda maior do que a dele por ter sido encontrado. Ela fez um carinho nele com o focinho e lhe lambeu as feridas. EntĂŁo, juntos, mĂŁe e filhote comeram a doninha. E depois voltaram para a caverna e dormiram.

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CAPÍTULO 8

A lei da carne

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O progresso do filhote foi rápido. Depois de descansar por dois dias, ele se aventurou de novo para fora da caverna. Foi nessa aventura que encontrou o filhote da doninha que comera junto com sua mãe e tratou de garantir que tivesse o mesmo destino da mãe. Mas nessa aventura não se perdeu. Quando ficou cansado, encontrou o caminho de volta para a caverna e dormiu. E dia após dia voltou a sair para cobrir uma área maior. Começou a conhecer melhor sua força e suas fraquezas, e quando devia ser valente ou cauteloso. Achou por bem ser cauteloso o tempo todo, exceto nos raros momentos em que, seguro de si, permitia-se pequenas raivas e desejos. Era um pequeno demônio furioso sempre que encontrava um lagópode desgarrado. Nunca deixou de responder zangado ao bater de dentes do esquilo no tronco do pinheiro chamuscado. E a visão de um gaio quase sempre despertava nele a raiva mais selvagem, pois nunca perdoou a bicada no focinho dada pelo primeiro que encontrou. Mas quando se

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sentia ameaçado por algum outro predador, nem mesmo um 106

gaio conseguia afetá-lo. Nunca se esqueceu do falcão, e sua sombra em movimento sempre o fazia se esconder na moita mais próxima. Não saía correndo precipitado nem indeciso, e já tinha o andar parecido com o da mãe, furtivo, aparentando não fazer esforço enquanto deslizava com rapidez e discrição. Em matéria de carne, toda sua sorte de principiante acabara. Os sete filhotinhos de lagópodes e a bebê doninha foram todas as suas matanças. Seu desejo de matar crescia a cada dia, e ele acalentava ambições gulosas a respeito do esquilo. Mas, assim como as aves podiam voar, o esquilo podia subir nas árvores, e só restava ao filhote rastejar sem ser notado pelo esquilo quando este estava no chão. O filhote mantinha profundo respeito pela mãe. Ela conseguia carne e nunca deixava de trazer seu quinhão. Além disso, não tinha medo das coisas. Ele não sabia que a falta de medo diminuía com a experiência e o conhecimento. Ela representava o poder para ele, e quanto mais crescia, mais sentia esse poder na forma de uma repreensão com a pata e de golpes com os dentes. Por isso mesmo, com sabedoria, respeitava a mãe. Ela exigia obediência e tinha cada vez menos paciência com o filhote. Veio mais um período de escassez aguda, e dessa vez o filhote conheceu a dor da fome com clara consciência. A

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loba emagreceu em sua busca por carne. Quase não dormia mais na caverna, passando a maior parte do tempo no rastro

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da carne, em vão. Essa escassez não foi longa, mas foi severa enquanto durou. O filhote não encontrou mais leite nas mamas da mãe e não ganhou nenhuma porção de carne. Antes, caçava por diversão. Agora, caçava por necessidade, e nada encontrou. Mas as falhas aceleraram seu progresso. Estudou os hábitos do esquilo com grande atenção e dedicou o melhor de suas habilidades para surpreendê-lo. Estudou os ratos-do-mato e como desentocá-los. Aprendeu muito sobre os gaios e os pica-paus. E chegou o dia em que a sombra do falcão não o levou a se encolher numa moita. Tornara-se mais forte, sábio e confiante. E desesperado também. Então se sentava em campo aberto e desafiava o falcão a vir ao solo. Pois sabia que aquilo que flutuava no azul acima dele era carne. A carne que seu estômago desejava com tanta insistência. Mas o falcão se negou a descer e combater. E o filhote acabou rastejando para dentro de uma moita, onde choramingou desapontado e faminto. A fome severa terminou. A loba trouxe carne. Era uma carne estranha, diferente de qualquer outra que ela já trouxera. Era um filhote de lince, que ele pôde comer sozinho. Sua mãe matara a fome antes, ainda que ele não soubesse que aquele era o que restara da ninhada que a satisfizera. Nem sabia o tamanho do desespero que motivou tal façanha.

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Só sabia que aquele gatinho peludo era carne, e comeu, lam108

buzando-se a cada mordida. De estômago cheio, o filhote se deitou encostado à mãe e dormiu. Foi acordado pelo seu rosnar, o mais terrível que já ouvira ela soltar. Talvez fosse o mais terrível que deu em toda a sua vida, e ela sabia a razão. Quando uma toca de lince é espoliada, isso não fica impune. Na entrada da caverna, contra a luz do entardecer, o filhote viu a mãe lince. O pelo em seu dorso se eriçou com a visão. Era o medo, e nem era preciso contar com o instinto para saber disso. Se a visão não bastasse, o grito de fúria do intruso era convincente por si só. O filhote sentiu um choque de vida e se pôs de pé ao lado da mãe. Mas ela o empurrou para o fundo da toca. Como o teto da caverna era baixo, a lince não podia saltar, e precisou atacar rastejando. A loba pulou sobre ela e a cravou no chão. O filhote pouco viu da batalha. Foram muitos rosnados e gritos. Os dois animais se engalfinharam. A lince cortando e rasgando com suas garras, enquanto a loba usava só os dentes. A certa altura, o filhote saltou e afundou os dentes na pata traseira da lince, rosnando enquanto segurava firme. Ainda que não soubesse disso, o peso do seu corpo limitou os movimentos da perna da lince, poupando a mãe de muitos danos. Uma mudança nos rumos da batalha acabou

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deixando-o esmagado embaixo do peso das duas, e ele afrouxou a mordida. No momento seguinte, as duas mães se afastaram.

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Antes que voltassem a se enfrentar, a lince atacou o filhote com uma patada que lhe rasgou o ombro até o osso e o jogou contra a parede. Os gritos de dor e o terror do filhote se juntaram à algazarra. Mas a luta durou tanto tempo que ele teve oportunidade de parar de chorar e voltar a sentir valentia. O fim da batalha o encontrou mais uma vez mordendo uma pata traseira e rosnando furioso. A lince estava morta. Mas a loba estava muito fraca e doente. Primeiro cuidou do filhote e lhe lambeu o ombro ferido. Ela perdera muito sangue e estava sem forças. Ficou o dia todo e mais uma noite deitada ao lado da inimiga derrotada, sem movimento, mal respirando. Por uma semana não saiu da caverna, a não ser para beber água. Ao final desse período, a lince fora devorada e as feridas da loba estavam curadas o bastante para ela voltar a ir atrás de carne. O ombro do filhote estava rígido e dolorido, e por algum tempo ele mancou devido ao terrível golpe que levara. Mas o mundo parecia ter mudado. Andava com mais confiança, intrépido como nunca fora antes da batalha com a lince. Encarava a vida de um jeito muito mais feroz. Lutara. Enfiara os dentes na carne de um inimigo e sobrevivera. Começou a acompanhar a mãe no rastro da carne. Viu muitas matanças e começou a desempenhar nelas seu papel.

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Aprendeu assim, do seu modo difuso, a lei da carne. Existem 110

dois tipos de vida: o seu próprio e o outro tipo. O seu próprio incluía ele e a mãe. O outro tipo incluía todas as coisas vivas que se moviam, e era dividido em dois grupos. Uma porção era o que o seu próprio tipo matava e comia. Essa porção era composta pelos não matadores e pelos pequenos matadores. A outra porção matava e comia seu próprio tipo, ou eram mortos e comidos pelo seu próprio tipo. E a partir dessa classificação emanou a lei. O objetivo da vida é a carne. Vida em si é carne. Vida vive de vida. Haverá aqueles que comem e aqueles que são comidos. A lei era: COMA, OU SEJA COMIDO. Ele não formulou a lei em termos claros ou morais. Nem sequer pensou na lei. Apenas vivia a lei sem pensar a respeito. Viu a lei operando à sua volta. Comera os filhotinhos de lagópode. O falcão comeu a mãe lagópode. Ele poderia ter sido comido pelo falcão. Depois, queria comer o falcão. Comeu o filhote de lince. A mãe lince teria comido ele e sua mãe se não tivesse sido morta e engolida. E assim continuava. Ele próprio era parte da lei. Era um matador que só comia carne, carne viva. O terror e o mistério do desconhecido conduziam sua vida, mas havia momentos de alívio e satisfação. Ter o estômago cheio, cochilar ao sol, essas coisas eram recompensas para tanto trabalho árduo, enquanto seu próprio trabalho era recompensador por si só. Eram expressões de vida, e a vida

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sempre fica feliz ao se expressar. EntĂŁo o filhote nĂŁo brigava com o ambiente hostil. Era muito vivo, muito feliz e muito

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orgulhoso de si mesmo.

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PARTE 3

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CAPÍTULO 9

Os fazedores de fogo

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O filhote os encontrou de repente. Descuidado, deixara a caverna correndo para beber água no riacho logo depois de acordar. Passou direto pelo tronco do pinheiro chamuscado, cruzou a clareira e trotou por entre as árvores. Só sentiu o cheiro após vê-los. Diante dele sentavam em silêncio cinco coisas vivas, de um tipo que nunca havia visto antes. Foi seu primeiro contato com a espécie humana. Nenhum deles fez um só movimento, ficaram sentados em silêncio. O filhote também parou. Todos os seus instintos mandavam que corresse, exceto um novo instinto que surgia. De repente foi tomado por um sentimento de admiração e percebeu sua fraqueza e insignificância. Nunca havia visto um humano, mas trazia em si o instinto sobre o homem. De alguma forma sabia que era o animal que conquistara a supremacia sobre todos os outros animais da Natureza Selvagem. Não era através dos seus olhos, mas dos olhos de todos os seus ancestrais, que o filhote enxergava os humanos naquele momento. O medo e o respeito acumulados pela experiência

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de incontáveis gerações eram encantos fortes 114

demais para um lobo filhote. Se fosse um adulto, ele teria fugido. Mas se encolheu, paralisado pelo medo.

Os indígenas da região ártica do Canadá se autodenominam inuítes (inuit), que significa “o povo”.

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“Olhem os caninos brancos!”

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Um dos índios se levantou e foi até ele6. O filhote se encolheu ainda mais. Seu pelo se eriçou por reflexo. Seus lábios se contraíram e suas pequenas presas ficaram expostas. A mão, que descia sobre ele, hesitou, e o homem falou, rindo: — Wabam wabisca ip pit tah!  7 Os outros riram alto. Enquanto a mão se aproximava, dentro do filhote se travava uma luta furiosa entre dois impulsos: ceder ou lutar. Escolheu uma solução de compromisso. Atendeu a ambos. Cedeu até que a mão quase o tocasse. Então lutou, seus dentes atacando, como um raio, com um golpe que cravou os dentes na mão. Imediatamente recebeu uma pancada na cabeça que o derrubou. Toda a luta abandonou seu corpo. Seu lado filhote e o instinto de submissão o invadiram. Sentou-se sobre as ancas e ganiu. Mas o homem com a mão mordida se zangou. O filhote recebeu mais uma pancada do outro lado da cabeça. Sentou-se de novo e ganiu ainda mais alto.

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Os quatro índios riram alto, e até o homem mordido começou a rir. Cercaram o filhote e riram dele, que chorava.

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Mas, no meio disso tudo, ouviram algo. Era a mãe do filhote, que ouvira o seu choro e vinha rosnando e correndo para salvá-lo. Quando saltou no meio do grupo, foi uma visão assustadora. Ela se postou na frente do filhote, encarando os homens, que recuaram. Seus pelos se eriçaram e um rosnado ecoou fundo de sua garganta. Sua cara estava distorcida e ameaçadora. Foi quando se ouviu um grito: — Kiche! — Foi o que um dos homens disse. Era uma exclamação de surpresa. O filhote sentiu a mãe murchar com o som. — Kiche! — O homem gritou de novo, dessa vez com aspereza e autoridade. E o filhote viu a mãe, destemida, abaixando-se até encostar a barriga no chão, choramingando e abanando a cauda, em sinal de paz. O filhote não entendeu nada. Ficou atordoado e compreen­deu que seu instinto estava certo. Sua mãe também se submetia aos animais-gente. O homem que gritou veio até ela. Pôs a mão em sua cabeça, e ela rastejou mais para perto. Não mordeu, nem ameaçou morder. Os outros homens se aproximaram. Apalparam seu corpo, e ela não se incomodou. O filhote decidiu que não havia perigo e rastejou para junto da mãe, ainda eriçando o pelo de vez em quando, mas fazendo o possível para se manter submisso.

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— Não é estranho — dizia um índio. — Seu pai era um 118

lobo. É verdade que sua mãe era uma cadela, mas meu irmão a deixou amarrada na floresta por três noites na época do acasalamento. O pai de Kiche era um lobo. — Já faz um ano, Castor Cinzento, desde que ela fugiu — disse outro índio. — Não é estranho, Língua de Salmão — respondeu. — Era época da grande fome, e não havia comida para os cães. — Ela viveu com os lobos — disse um terceiro. — É o que parece, Três Águias. — Castor Cinzento concordou, passando a mão no filhote. — E aqui está a prova. O filhote rosnou um pouco ao toque da mão e recebeu uma bofetada. Isso o fez recolher as presas e se encolher, enquanto a mão voltava para esfregá-lo atrás das orelhas e no dorso. — Aqui está a prova — continuou. — Está claro que sua mãe é Kiche. Mas seu pai foi um lobo. Assim, ele tem muito pouco de cão e muito de lobo. Seus dentes caninos são brancos, e Canino Branco será seu nome. E será meu cão. Pois Kiche não era do meu irmão que está morto? Foi assim que o filhote ganhou um nome. Castor Cinzento pegou a faca de uma bainha que trazia pendurada no pescoço, foi até uma moita e cortou uma vara. Canino Branco só observava. O homem fez um talho em cada ponta da vara e neles prendeu cordões de couro cru. Um cordão foi amarrado em torno do

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pescoço de Kiche. Então ele a conduziu até um pequeno pinheiro, em torno do qual amarrou o outro cordão.

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Canino Branco os acompanhou e se deitou ao lado dela. A mão de Língua de Salmão baixou sobre ele e o colocou de costas no chão. Kiche observou, ansiosa. Canino Branco começou a sentir o medo tomar conta dele de novo. Não conseguiu conter um rosnado, mas não ameaçou morder. A mão, espalmada e com os dedos flexionados, esfregou sua barriga de um jeito brincalhão e rolou-o de um lado para outro. Era uma posição tão vulnerável que todo o instinto de Canino Branco se agitava. Mas a submissão dominou o medo e ele apenas rosnou suavemente. Canino Branco sentia uma indescritível sensação de prazer com a mão esfregando seu pelo para a frente e para trás. Quando foi rolado de lado, parou de rosnar. Então os dedos apertaram e cutucaram a base de suas orelhas, e a sensação de prazer aumentou. E quando, depois de uma coçada e esfregada final, o homem o deixou sozinho, todo o medo morrera em Canino Branco. Ainda sentiria medo muitas vezes em suas relações com as pessoas, mas seu sentimento a respeito dos humanos era de companheirismo. Um tempo depois Canino Branco ouviu sons estranhos se aproximando. Foi rápido ao identificá-los, pois já conhecia os barulhos produzidos pelos animais-gente. Minutos mais tarde o resto da tribo chegou, em fila. Havia outros homens, e muitas mulheres e crianças, quarenta almas no total, todos carregando

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bagagens e apetrechos. Havia também os cães, e estes, exceto 120

os filhotes em fase de crescimento, também carregavam material para o acampamento. Em sacos amarrados com firmeza em torno dos seus corpos, os cães chegavam a levar cargas pesando quinze quilos. Canino Branco nunca havia visto um cão, mas à primeira vista sentiu que eram do seu próprio tipo, apenas um pouco diferentes. Mas, quando viram o filhote e sua mãe, os cães avançaram sobre eles. Canino Branco eriçou o pelo, rosnou e mordeu, enfrentando a onda de cães. Podia ouvir os rosnados de Kiche, os gritos dos animais-gente, o som de porretadas sobre corpos e os ganidos de dor dos cães atingidos. Passaram-se apenas alguns segundos e ele já estava de pé novamente. Viu os cães serem enxotados pelos animais-gente. Do seu próprio jeito, sentiu a justiça dos animais-gente. Foi quando descobriu que faziam as leis e as executavam. Além disso, apreciou o poder que tinham. Ao contrário dos demais animais, não mordiam nem arranhavam. Reforçavam sua força viva com o poder de coisas mortas que lhes obedeciam. Assim, pedras e pedaços de pau, dirigidos por aquelas criaturas, pulavam pelos ares como coisas vivas, causando dor e machucados nos cães. Para sua mente, era um poder anormal, inconcebível e sobrenatural. Se pensasse como uma pessoa, Canino Branco os compararia a criaturas celestiais, no alto de uma montanha, distribuindo raios e trovões.

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O último cão foi enxotado e o tumulto acabou. Canino Branco lambeu as feridas e meditou sobre seu primeiro contato

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com o bando e sua crueldade. Nunca imaginara que existissem outros do seu próprio tipo além dele, sua mãe e Caolho. Sem aviso, de forma abrupta, descobrira que havia muitas outras criaturas que pareciam ser do seu próprio tipo. E ficou ressentido por terem vindo, logo de primeira, atacá-lo e destruí-lo. Da mesma forma, ressentia-se de sua mãe ter sido amarrada com uma vara, mesmo que isso fosse obra dos animais-gente. Sentiu o gosto da armadilha e do cativeiro, ainda que nada soubesse sobre ambos. Não gostou nada disso. Nem gostou quando os animais-gente acordaram e seguiram em sua marcha, pois um pequeno animal-gente pegou a outra ponta da vara e conduziu Kiche. Seguiu atrás, muito perturbado e preocupado com a nova aventura. Desceram o vale do riacho, indo bem além de onde Canino Branco já alcançara, até chegarem ao fim do vale, onde o riacho desaguava no rio Mackenzie. Ali, onde havia canoas guardadas sobre estacas e estantes para secar peixes, foi montado o acampamento. Canino Branco observou o movimento com admiração. O erguimento de estruturas de estacas capturou seu olhar, ainda que isso nem fosse tão extraordinário, vindo das mesmas criaturas que fizeram voar paus e pedras. Mas quando as estruturas de estacas foram transformadas em tendas cobertas com tecidos e peles, Canino Branco ficou atordoado. Impressionou-se com o porte colossal delas, enquanto surgiam ao seu redor,

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por todos os lados, como se fossem monstruosas formas de vida 122

crescendo rapidamente e ocupando quase todo o seu campo de visão. Ficou com medo delas, que assomavam sinistras acima de sua cabeça e, sob o vento, oscilavam em largos movimentos. Mas logo seu medo das tendas passou. Ele viu mulheres e crianças entrando e saindo delas sem sofrer mal algum, e viu os cães a toda hora tentando entrar nelas e sendo enxotados. Depois de um tempo, aproximou-se cauteloso da parede da tenda mais próxima. Foram a curiosidade do crescimento e a necessidade de aprender que o levaram a fazer isso. Afinal, seu focinho tocou a lona. Esperou. Nada aconteceu. Então farejou o estranho tecido, saturado do cheiro de gente. Pegou a lona com os dentes e deu um leve puxão. Apenas a área adjacente da tenda se moveu. Puxou com mais força. Houve um grande movimento. Era bom. Puxou com mais força ainda, e continuou até que toda a tenda se movesse. Então o grito áspero de uma índia lá dentro o fez fugir para perto de Kiche. E nunca mais sentiu medo algum dos vultos sombrios das tendas. Pouco tempo depois já se afastava da mãe mais uma vez. Um filhote um pouco maior e mais velho veio devagar em sua direção, ostentando certa arrogância. O nome do filhote, como Canino Branco ouviria o chamarem depois, era Lip-Lip. Este tinha experiência em brigas de filhotes, e já era um valentão. Era um filhote, e não parecia perigoso. Assim, Canino Branco se preparou para recebê-lo num espírito amistoso. Mas quando o

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caminhar do estranho se tensionou e seus lábios recuaram para expor os dentes, Canino Branco fez o mesmo. Cada um come-

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çou a dar uma volta em torno do outro, ameaçando, rosnando e eriçando o pelo. Isso durou alguns minutos, e Canino Branco começava a gostar daquilo, como se fosse um jogo. Mas, de repente, Lip-Lip saltou, mordeu e recuou. A mordida atingiu o ombro onde a ferida causada pela lince ainda não havia cicatrizado por completo. A surpresa e a dor fizeram com que Canino Branco ganisse. Mas no momento seguinte, num acesso de fúria, estava sobre Lip-Lip, mordendo-o como um alucinado. Lip-Lip passara a vida toda em um acampamento e já lutara muitas brigas com outros filhotes. Seus dentinhos afiados atingiram o recém-chegado muitas vezes, até que Canino Branco fugisse ganindo para a proteção de sua mãe. Foi a primeira de muitas lutas contra Lip-Lip. Kiche lambeu Canino Branco para acalmá-lo e para que ficasse junto dela. Mas a curiosidade dele era mais forte, e alguns minutos depois já se aventurava em mais uma exploração. Aproximou-se de Castor Cinzento, que estava agachado fazendo alguma coisa com gravetos e musgo seco. Canino Branco chegou perto e observou. Castor Cinzento fez ruídos com a boca que o filhote interpretou como amistosos, então chegou mais perto. Mulheres e crianças trouxeram mais galhos e gravetos. Canino Branco chegou mais perto até tocar o joelho de Castor Cinzento de tão curioso. De repente viu uma coisa estranha, como se fosse

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vapor, surgir dos gravetos e do musgo entre as mãos de Castor 124

Cinzento. Então, entre os galhos, surgiu uma coisa viva, enrolando-se e virando-se, de uma cor parecida com a cor do sol no céu. Canino Branco não sabia nada sobre o fogo. Ficou atraído por ele como ficara atraído pela luz quando era um filhotinho. Rastejou para perto da chama. Ouviu Castor Cinzento rir, e não havia hostilidade na voz. Então seu focinho tocou a chama, e ao mesmo tempo sua língua saiu da boca para senti-la. Por um momento ficou paralisado. O desconhecido, à espreita no meio do monte de gravetos e musgo, agarrou-o pelo focinho. E ele arrastou-se para trás, numa explosão de ganidos apavorados. Ao ouvir esse som, Kiche deu um pulo. A vara não permitiu que fosse em socorro do filhote, e ela ficou ali rosnando, furiosa. Mas Castor Cinzento ria alto, contando o que acontecera ao resto do acampamento, até que todos rissem. Canino Branco sentou-se sobre as patas traseiras e ganiu, desamparado no meio dos animais-gente. Era a pior dor que já sentira. Tanto o focinho quanto a língua tinham sido queimados pela coisa viva da cor do sol que crescera entre as mãos de Castor Cinzento. Chorou sem parar, e cada novo uivo era saudado por ataques de riso. Foi quando descobriu a vergonha. Conheceu o riso e seu significado. E sentiu vergonha de que rissem dele. Virou e fugiu, não da dor causada pelo fogo, mas da risada que doía fundo em seu espírito. Fugiu para perto de Kiche, a única criatura no mundo que não ria dele.

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Veio a noite e Canino Branco deitou-se ao lado da mãe. O focinho e a língua ainda doíam, mas algo maior o incomodava.

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Sentia saudades de casa. Tinha um vazio dentro do peito e sentia falta da calma e do silêncio da caverna no barranco perto do riacho. A vida se tornara populosa demais. Havia tantos animais-gente fazendo barulho. E havia os cães, sempre envolvidos em brigas e disputas, explodindo em algazarras e criando confusão. O sossego desaparecera. Agora até o ar palpitava com vida. Resmungava e zumbia sem cessar, mudando a intensidade e variando a altura de forma abrupta o tempo todo. Isso maltratava seus nervos e sentidos, tornando-o nervoso e inquieto. Estava sempre preocupado com a possibilidade iminente de algo acontecer. Observava os animais-gente indo e vindo em seus movimentos pelo acampamento. Era como se fossem deuses, criaturas superiores que detinham a autoridade, controlando toda sorte de poderes desconhecidos. Eram senhores das coisas vivas e não vivas, exigindo obediência do que se movia, dando movimento ao que não se movia, e capazes de usar musgo morto e madeira para fazer nascer vida, penetrante e da cor do sol. Eram fazedores de fogo! Eram deuses!

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CAPÍTULO 10

O cativeiro

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Os dias seguintes foram repletos de novas experiências para Canino Branco. Enquanto Kiche continuava presa, ele corria por todo o acampamento, investigando e aprendendo. Quanto mais conhecia os hábitos dos animais-gente, mais se justificava a superioridade deles, pois quanto mais mostravam seus poderes misteriosos mais se pareciam com deuses. Eram deuses sólidos ao toque, que ocupam espaço e precisam de tempo para realizar suas atividades. Não é preciso muito esforço de fé para acreditar em deuses assim. Lá estavam eles, eretos sobre duas pernas, porrete na mão, imenso e misterioso poder num corpo de carne que sangra ao ser rasgado e é tão bom de comer como qualquer carne. Assim como sua mãe, Kiche, que se submeteu ao primeiro grito de seu nome, Canino Branco também começava a se render. Concedeu que as pessoas tinham direito de passagem nas trilhas, e saía da frente enquanto andavam. Quando chamavam, ele ia. Quando ameaçavam, acovardava-se. Pois por trás de cada vontade deles havia o poder para impô-la, poder que machucava

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e se expressava por meio de pancadas e porretes, de pedras voadoras e chicotadas que pareciam ferroadas. O poder pertencia a

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eles como todos os cães pertenciam. Essa era a lição que aprendera. Uma lição dura que ia contra muitos aspectos poderosos e dominantes da sua própria natureza. Ainda que aprender isso o desagradasse, não sabia que estava aprendendo a gostar disso. Era passar o seu destino para outras mãos, uma transferência de responsabilidades pela existência. Isso em si era uma compensação, pois sempre é mais fácil se apoiar no outro do que ficar em pé sozinho. Canino Branco aprendeu depressa os hábitos do acampamento. Conheceu a injustiça e a ganância dos cães mais velhos quando carne ou peixe eram distribuídos nas refeições. Ficou sabendo que os homens eram mais justos, as crianças cruéis e as mulheres mais gentis e mais propensas a dar um pedaço de carne ou um osso a ele. E depois de duas ou três experiências dolorosas com as mães dos filhotes já crescidos, descobriu que era melhor deixá-las sozinhas e o mais longe possível, evitando-as quando se aproximavam. Mas a maldição de sua vida era Lip-Lip. Maior, mais velho e mais forte, Lip-Lip escolheu Canino Branco para ser sua vítima preferida. Canino Branco lutava com bastante disposição, mas era sempre superado. Seu adversário era grande demais. Bastava afastar-se da mãe para começar seu pesadelo. Lip-Lip o perseguia, forçava uma luta e sempre vencia. Era o maior prazer

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em sua vida, assim como era o maior tormento de Canino 128

Branco. Mas este não se acovardava. Ainda que fosse sempre derrotado, seu espírito não se rendia. Seu temperamento ficou ainda mais maligno e sombrio. Seu lado brincalhão e alegre de filhote não encontrava espaço, ele nunca brincava com os outros filhotes do acampamento. O resultado foi que Canino Branco praticamente não teve uma vida de filhote. Como não podia brincar, recolheu-se em si mesmo. Tornou-se ardiloso. Impedido de obter sua porção de peixe ou carne quando a refeição coletiva era servida aos cães do acampamento, tornou-se um hábil gatuno. Precisava alimentar-se por conta própria, e fazia isso muito bem, tornando-se uma praga para as índias. Aprendeu a se esgueirar pelo acampamento e saber o que acontecia em cada lugar, a ver e ouvir tudo à sua volta, e a raciocinar a partir disso. Quando executou seu primeiro plano elaborado, conheceu o gosto da vingança. Assim como Kiche atraía os cães dos acampamentos para serem devorados, Canino Branco atraiu Lip-Lip para a vingança. Recuando diante de Lip-Lip, ele escolheu uma rota de fuga que dava voltas pelo acampamento. Era um bom corredor, mais veloz que qualquer filhote do seu tamanho, e mais rápido que Lip-Lip. Mas não deu o máximo de si dessa vez. Correu apenas para manter a distância, um salto à frente de seu perseguidor. Lip-Lip, excitado pela caçada, esqueceu-se da cautela e da localização até ser tarde demais.

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Correndo a toda em volta de uma tenda, Lip-Lip deu de cara com Kiche, deitada, presa pela vara. Soltou um ganido de arre-

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pendimento, e as mandíbulas se fecharam sobre ele, punindo o valentão. Kiche estava presa, mas ele não podia fugir dela. Ela o rolou de pernas para o ar, para que não pudesse sair correndo, e deu-lhe seguidas mordidas. Quando afinal conseguiu se livrar dela, Lip-Lip se levantou com dificuldade, seriamente machucado, tanto no corpo como no espírito, e começou um longo gemido. Mas nem esse choro de filhote pôde terminar. No meio do uivo, Canino Branco atacou-o e cravou os dentes em sua perna traseira. O valentão já não tinha nenhuma vontade de lutar e correu vergonhosamente. Chegou o dia em que Castor Cinzento, decidindo que Kiche já cumprira a pena por ter fugido, soltou-a. Canino Branco ficou satisfeito com a liberdade da mãe. Acompanhava-a feliz pelo acampamento, e, enquanto ficava perto dela, Lip-Lip mantinha distância. Mais tarde no mesmo dia, Kiche e Canino Branco vagavam pela orla do bosque junto ao acampamento. Ele a tinha levado até ali, um passo depois do outro, e, quando ela parou, tentou seduzi-la a avançar. O riacho, a toca e os bosques tranquilos o chamavam, e Canino Branco queria que ela viesse com ele. Correu alguns passos, parou e olhou de volta. Ela não havia se movido. Implorou, ganindo, e correu brincalhão para dentro e para fora de uma moita. Algo o chamava

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na floresta. A mãe também ouvia esse chamado. Mas ouvira 130

aquele outro chamado ainda mais alto, o chamado do fogo e dos humanos. Kiche virou-se e lentamente trotou de volta para o acampamento. Canino Branco sentou-se à sombra de uma bétula e chorou baixinho. Era forte o cheiro de pinho, e o ar estava cheio de outras sutis fragrâncias de madeira, fazendo-o recordar-se da sua antiga vida em liberdade. Mas ainda era apenas um filhote em crescimento, e mais forte que o chamado dos humanos ou da Natureza Selvagem era o chamado de sua mãe. Então se levantou e trotou desanimado de volta ao acampamento. Na Natureza Selvagem o tempo de uma mãe com seu filhote é curto, mas sob o domínio dos homens, às vezes esse tempo é ainda mais curto. Foi assim com Canino Branco. Castor Cinzento tinha uma dívida com Três Águias, que partia numa viagem subindo o rio Mackenzie até o Grande Lago do Escravo. Uma tira de tecido vermelho, uma pele de urso, vinte cartuchos e Kiche pagaram a dívida. Canino Branco viu a mãe ser levada a bordo da canoa de Três Águias, e tentou segui-la. Um safanão de Três Águias o jogou de volta a terra firme. A canoa partiu. Ele pulou dentro da água e nadou atrás dela, surdo aos gritos ásperos de Castor Cinzento. Mas os deuses estão acostumados a serem obedecidos, e Castor Cinzento, irado, lançou-se com sua canoa em

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perseguição. Quando alcançou Canino Branco, pegou-o pela nuca e o tirou da água. Ao resgatá-lo, não o depositou no

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fundo da canoa. Segurando-o suspenso no ar com uma das mãos, com a outra começou a lhe dar uma surra. E foi uma senhora surra. Sua mão era pesada. Cada safanão o machucava, e foram vários. Sacudido pelos golpes por todos os lados, Canino Branco pendia para a frente e para trás como um pêndulo maluco. Foi tomado por várias emoções. Primeiro veio a surpresa. Depois um medo momentâneo, quando ganiu várias vezes sob o impacto da mão. Mas tudo isso logo deu lugar à raiva. Sua natureza livre se impôs e ele mostrou os dentes e rosnou destemido bem na cara do deus irado. Isso apenas o irritou ainda mais. Os golpes se tornaram mais rápidos e pesados. Castor Cinzento continuou a bater, e Canino Branco continuou a rosnar. Mas isso não podia durar para sempre. Um dos dois teria que ceder, e foi Canino Branco. O medo tomou conta dele novamente. Pela primeira vez era dominado de verdade por um humano. Rendeu-se e começou a chorar e a ganir. Por fim, Castor Cinzento recolheu a mão. Canino Branco, pendurado no ar, continuou a chorar. Isso pareceu satisfazer seu dono, que o jogou bruscamente no fundo da canoa. Enquanto isso a canoa deslizava rio abaixo. Castor Cinzento pegou o remo, Canino Branco estava em seu caminho, e ele o empurrou com o pé com brutalidade. Nesse momento, o

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espírito livre de Canino Branco reapareceu de 132 Calçado produzido originalmente pelos indígenas da América do Norte. Sem salto, pode ser feito de couro e de casca de árvore. Alguns modelos trazem franja e miçangas decorativas. 8

repente, e ele cravou os dentes no pé coberto pelo mocassim8. A surra anterior não foi nada comparada com a que veio depois. Além da mão, o remo de madeira foi usado, e seu corpo estava todo dolorido quando foi jogado no fundo da canoa de novo. Castor Cinzento lhe deu outro pontapé, agora com vontade. Dessa vez Canino Branco não repeliu o ataque com os dentes. Aprendeu mais uma lição em seu cativeiro. Nunca, não importam as circunstâncias, devia morder o deus que era seu dono e senhor. O corpo do seu dono e senhor era sagrado, não podia ser desafiado pelos dentes de alguém como ele. Era evidente que aquele era o crime dos crimes, a única ofensa para a qual não havia perdão ou tolerância. Quando a canoa tocou na margem, Canino Branco ficou ganindo imóvel, até que Castor Cinzento o atirasse a terra firme. Caiu de lado, levantou-se tremendo e continuou choramingando. Lip-Lip, que assistira a tudo da margem, avançou sobre ele, derrubando-o e cravando nele os dentes. Canino Branco estava desamparado

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demais para se defender, e o castigo teria sido pesado se Castor Cinzento não tivesse dado um pontapé violento em Lip-Lip, lan-

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çando-o longe. Essa era a justiça do animal-gente, e, mesmo em seu estado lamentável, Canino Branco sentiu alguma gratidão. Mancando, seguiu Castor Cinzento até a tenda. E foi assim que Canino Branco aprendeu que o direito de punir era algo que os deuses reservam para si mesmos e negavam às criaturas menores sob seu domínio. Naquela noite, quando tudo estava quieto, Canino Branco lembrou-se da mãe e chorou. Seu choro foi alto demais e acordou Castor Cinzento, que bateu nele. Depois disso, quando os deuses estavam por perto, lamentava-se baixinho. Mas, de vez em quando, vagando por conta própria pela orla da floresta, dava vazão ao seu sofrimento, e chorava alto com ganidos e uivos. Nessa época, poderia ter dado ouvidos às memórias da toca e do riacho, e fugido para a Natureza Selvagem. Mas a lembrança da mãe o conteve. Como os animais-gente iam e voltavam, ela também poderia voltar algum dia ao acampamento. Então permaneceu à sua espera. Mas o cativeiro não era só tristeza. Sempre havia algo acontecendo e despertando seu interesse. Além disso, estava aprendendo a lidar com Castor Cinzento. Obediência, rígida e constante, era o que se esperava dele para, em troca, escapar das surras. Mais que isso, o próprio Castor Cinzento de vez em quando atirava um pedaço de carne para ele e impedia que os

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outros cães lhe roubassem a refeição. E essa carne tinha seu pró134

prio valor. Valia mais, de uma forma estranha, do que uma dúzia de pedaços de carne vindos da mão de uma índia. Castor Cinzento nunca o acariciava. Talvez fosse o peso de sua mão, ou sua justiça, ou ainda seu estranho poder, ou talvez fosse tudo isso misturado que influenciava Canino Branco, pois alguma ligação se formava entre os dois. De um modo traiçoeiro, pelo poder de golpes de porrete e de pedradas, as amarras do cativeiro tomavam conta de Canino Branco. As características da natureza de sua espécie, que no começo permitiam que se aproximassem das fogueiras, eram características que podiam ser desenvolvidas. Elas estavam se desenvolvendo nele, e a vida no acampamento, ainda que cheia de sofrimento, cativava-o secretamente o tempo todo. Mas Canino Branco não sabia disso. Conhecia apenas a dor pela perda de Kiche, a esperança em seu retorno e um desejo faminto pela antiga vida de liberdade.

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CAPÍTULO 11

O proscrito

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Lip-Lip continuou a atormentar tanto seus dias que Canino Branco tornou-se mais feroz do que seria natural esperar. Ganhou uma reputação de maldade até mesmo entre os animais-gente. Onde surgissem encrenca e tumulto na aldeia, fosse briga ou disputa, ou ainda o grito de uma índia por um pedaço de carne roubado, todos tinham certeza de que Canino Branco estava envolvido, e quase sempre era a própria causa da confusão. Não se importavam em descobrir o motivo da sua conduta. Viam apenas os efeitos, e estes eram ruins. Descobriu-se um proscrito no acampamento populoso. Todos os cães jovens seguiam a liderança de Lip-Lip contra Canino Branco. Talvez percebessem sua linhagem selvagem, e por instinto sentissem por ele a mesma inimizade que o cachorro doméstico sente pelo lobo. De qualquer modo, juntaram-se a Lip-Lip em sua perseguição. Depois de terem declarado guerra, não lhes faltaram motivos para continuá-la. Todos sentiram seus dentes algumas vezes. Para seu crédito, deu mais mordidas do que recebeu. Poderia vencer a maior parte deles numa luta a

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dois. Mas negavam-lhe lutas assim. O começo de uma delas era 136

o sinal para que todos os jovens cães do acampamento viessem correndo para atacá-lo. Em virtude dessa perseguição da matilha, aprendeu duas coisas importantes: como cuidar de si próprio em meio ao ataque massivo; e como causar a cada cão sozinho o maior dano possível no menor espaço de tempo. Manter-se sobre as patas no meio de um grupo hostil era uma questão de vida ou morte, e isso ele aprendeu muito bem. Parecia um gato em sua habilidade de ficar de pé. Mesmo cães adultos conseguiam no máximo empurrá-lo para trás ou para o lado, sem conseguir derrubá-lo ou tirar suas patas do contato com o solo. Quando cães lutam, sempre há preliminares ao verdadeiro combate, com rosnados e pelos ouriçados. Mas Canino Branco aprendeu a suprimi-las. Atrasos resultavam em todos os jovens cães vindo para cima dele. Precisava fazer logo seu trabalho e cair fora. Então aprendeu a não dar sinais de suas intenções. Atacava, mordia e rasgava num instante, sem aviso, antes que o inimigo estivesse preparado para enfrentá-lo. Assim, aprendeu a causar danos severos com rapidez, e aprendeu também o valor da surpresa. Além disso, era muito fácil derrubar um cão pego desprevenido. E um cão assim derrubado sempre expunha por um momento a parte inferior e macia do pescoço, o ponto vulnerável a atacar. Canino Branco conhecia esse ponto. Era um conhecimento herdado das gerações de lobos caçadores.

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Ele desenvolveu o método de primeiro encontrar um jovem cão sozinho, depois surpreendê-lo e derrubá-lo, para finalmente

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afundar os dentes em sua garganta macia. Ainda em fase de crescimento, suas mandíbulas não tinham se tornado grandes o bastante para concluir com sucesso seu ataque mortal à garganta. Mas muitos dos jovens cães andavam pelo acampamento com a garganta dilacerada por ele. Certo dia, pegando um dos inimigos sozinho na orla da floresta, após derrubá-lo e atacar-lhe a garganta várias vezes, conseguiu cortar a grande veia e deixar a vida escorrer. Houve muita gritaria aquela noite. Ele foi observado, e a notícia chegou aos ouvidos do dono do cachorro morto. As índias lembraram de todos os casos de carne roubada, e Castor Cinzento foi cercado por muitas vozes raivosas. Mas ele resistiu com firmeza na entrada de sua tenda, onde estava o culpado, e não permitiu que as pessoas da tribo realizassem a vingança desejada. Canino Branco passou a ser odiado por humanos e cães. Durante todo o seu desenvolvimento, nunca teve um momento de sossego. Os dentes de cada cão estavam contra ele, assim como a mão de cada humano. Era recebido com rosnados pelos seus, e com pragas e pedras pelos seus deuses. Vivia tenso e sobressaltado, pronto para atacar e desconfiado do ataque iminente. Foi proscrito pela matilha de cães meio crescidos, mas seus métodos sanguinários e sua notável eficiência fizeram o bando pagar pela perseguição. Não podia correr com a matilha, mas

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por outro lado nenhum membro da matilha podia correr fora 138

dela. Canino Branco não permitia. Suas táticas de guerrilha e emboscada apavoravam os cães jovens. Com exceção de Lip-Lip, os demais se viam obrigados a aglomerar-se em busca de proteção mútua contra o terrível inimigo que fizeram. Um filhote sozinho na beira do rio significava um filhote morto ou alvoroçando o acampamento com seus gritos de dor e terror após fugir do ataque do filhote de lobo. Odiado pelos seus iguais e pelas pessoas, indomável, sempre envolvido ou provocando guerra, seu desenvolvimento foi rápido e desequilibrado. Não havia espaço para que gentileza ou afeto pudessem florescer. Dessas coisas não tinha a menor noção. As leis que aprendera tratavam de obedecer aos fortes e oprimir os fracos. Castor Cinzento era um deus e era forte. Por isso Canino Branco lhe obedecia. Mas os cães mais jovens e menores eram fracos, algo a ser destruído. Seu desenvolvimento era em direção ao poder. Para enfrentar o constante perigo da dor e até mesmo da destruição, suas habilidades predadoras e protetoras foram aprimoradas sem descanso. Seus movimentos eram mais rápidos que os dos demais cães, e suas passadas, mais velozes. Era cada vez mais ardiloso, ágil e mortal. Com músculos e tendões que pareciam de ferro, tornou-se mais resistente, cruel e feroz, além de mais inteligente. Precisou se tornar tudo isso, do contrário não teria sobrevivido ao ambiente hostil em que vivia.

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CAPÍTULO 12

A trilha dos deuses

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No outono daquele ano, quando os dias ficaram mais curtos e o frio machucava, Canino Branco teve sua chance de liberdade. Durante dias de muito rebuliço, o acampamento de verão estava sendo desmontado, e a tribo se preparava para partir para a caçada de outono, com armas e bagagens. Canino Branco observava tudo com olhos atentos, e, quando as tendas começaram a vir abaixo e as canoas foram carregadas nas margens, entendeu tudo. As canoas estavam partindo, e algumas já haviam desaparecido rio abaixo. De propósito, foi ficando para trás. Esperou por uma oportunidade e esgueirou-se para a mata. Lá, no pequeno riacho onde o gelo já se formava, escondeu seus rastros. Depois, rastejou para dentro de uma moita densa e esperou. Pouco depois, alternou entre cochilar e acordar durante horas. Até ser despertado pela voz de Castor Cinzento chamando seu nome. Havia outras vozes. Canino Branco podia ouvir que a esposa e o filho de Castor Cinzento participavam das buscas. Canino Branco tremeu de medo, mas resistiu ao impulso de sair do esconderijo.

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Após um tempo, as vozes sumiram, e pouco depois ele se ar140

rastou para fora para curtir o sucesso da missão. A escuridão se aproximava, e ele brincou um pouco entre as árvores, sabo­ reando a liberdade. Então, de repente, tomou consciência da solidão. Sentou-se para refletir, ouvindo, perturbado, o silêncio da floresta. Achou sinistro que nada se movesse ou fizesse barulho. Sentiu a apreensão do perigo desconhecido e inesperado. Ficou desconfiado dos troncos das árvores e das sombras escuras que podiam esconder todo tipo de coisas perigosas. Depois veio o frio. Não havia a lateral morna de uma tenda contra a qual se acomodar, e a geada congelava suas patas. Tentou se proteger com a cauda peluda e teve uma visão. Dentro da mente sucederam-se imagens de sua memória. Viu o acampamento de novo, as tendas, as chamas das fogueiras. Ouviu as vozes agudas das mulheres, os sons graves dos homens, os rosnados dos cães. Tinha fome, e lembrou-se dos pedaços de carne e peixe que haviam lhe atirado. Ali não havia carne, apenas o silêncio ameaçador que não podia ser comido. O cativeiro o amolecera. Não sabia mais se virar sozinho. A noite baixava. Seus sentidos, acostumados ao alvoroço do acampamento, habituados ao impacto contínuo de sons e imagens, agora estavam sem serventia. Não havia nada para fazer, nada para ver ou ouvir. Teve um princípio de pânico. Algo disforme e colossal corria pelo seu campo de visão. Era só a sombra de uma árvore banhada pelo luar depois que nuvens saíram da frente da Lua.

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Acalmou-se e começou a ganir baixinho. Parou de ganir, temendo que o som atraísse algum dos perigos escondidos. Uma árvo-

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re estalou ao se contrair com o frio da noite, fazendo um barulho alto bem acima dele. Ganiu apavorado, e o pânico tomou conta dele. Correu como um louco para a vila, mas, ao chegar à clareira enluarada, nenhuma vila saltou aos seus olhos. Esquecera-se. A vila fora embora. A fuga desesperada foi interrompida. Não havia para onde fugir. Vagou sem direção pelo acampamento deserto, farejando as pilhas de lixo e os trapos deixados para trás pelos deuses. Foi até o local onde ficava a tenda de Castor Cinzento. Sentou-se no centro da área antes ocupada por ela. Apontou o focinho para a lua e chorou toda a sua solidão e medo. Uivou pela perda de Kiche e por todas as tristezas e angústias do passado, bem como por toda a apreensão que sentia. Era um autêntico uivo de lobo, com a garganta repleta de tristeza, o primeiro que já dera. A chegada da luz do dia espantou seus temores, mas aumentou a solidão. Não demorou muito para tomar uma decisão. Disparou floresta adentro e seguiu pela margem do rio, seguindo a corrente. Correu durante o dia todo sem parar para descansar. Parecia feito para correr para sempre. Não sentia fadiga. E, mesmo quando esta chegou, a resistência herdada dos antepassados para enfrentar desafios sem fim permitiu que continuasse. Onde o rio serpenteava por precipícios, escalou as montanhas como um alpinista. Onde riachos ou ribeirões se juntavam ao

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rio principal, ele atravessou o vau ou nadou. Muitas vezes optou 142

por andar sobre a camada de gelo que começava a se formar, e mais de uma vez viu o gelo se romper sob suas patas, e precisou lutar pela vida na correnteza gelada. Mantinha-se sempre atento à trilha dos deuses, onde poderia deixar o rio e avançar rumo ao interior. Correu a noite toda. No meio do segundo dia, já fazia trinta horas que corria sem parar, e o vigor dos seus músculos começava a fraquejar. Apenas sua resistência mental fez com que continuasse. Não comia havia quarenta horas e estava fraco de fome. Os sucessivos banhos na água gelada também cobravam seu preço. Sua pelagem estava toda suja de lama e suas patas feridas sangravam. Começara a mancar e, com o passar das horas, mancava cada vez mais. Para piorar, o céu escureceu e começou a nevar. Era uma neve fina e úmida, que derretia no chão e o fazia escorregar, escondendo os obstáculos do caminho que percorria. Naquela noite, Castor Cinzento pretendia acampar na margem oposta do rio, onde havia mais caça. Mas na margem de cá, logo antes de escurecer, um alce veio beber água e foi avistado por Kloo-Kooch, a esposa de Castor Cinzento. Se o alce não tivesse vindo beber água, se Mit-Sah, o filho de Castor Cinzento, não tivesse saído do curso devido à neve, se Kloo-Kooch não tivesse avistado o alce, e se Castor Cinzento não tivesse tido sorte para acertar um tiro improvável com seu rifle,

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todos os acontecimentos depois disso teriam sido diferentes. Castor Cinzento não teria acampado daquele lado do Mackenzie,

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e Canino Branco teria passado direto e ido além, até morrer ou encontrar seu caminho para se juntar a seus irmãos selvagens e se tornar um deles, um lobo até o final dos seus dias. A noite caíra. A neve caía mais grossa, e Canino Branco, ganindo baixinho enquanto tropeçava e mancava, chegou a uma trilha de rastros frescos na neve. Tão frescos que imediatamente entendeu o que significavam. Gemendo ansioso, seguiu os rastros por entre as árvores. Os sons do acampamento chegaram aos seus ouvidos. Viu o clarão do fogo, Kloo-Kooch cozinhando e Castor Cinzento agachado e mastigando um naco de sebo cru. Havia carne fresca no acampamento! Canino Branco esperava uma surra. Encolheu-se quando pensou nisso. Depois, seguiu adiante, apesar de temer o que sabia que estava por vir. Mas também sabia que teria o conforto da fogueira, a proteção dos deuses e a companhia dos cães. Esta última era uma companhia de inimigos, mas, ainda assim, poderia satisfazer suas necessidades gregárias. Veio rastejando encolhido até a luz da fogueira. Castor Cinzento o viu e parou de mastigar o pedaço de sebo. Canino Branco rastejou devagar, encolhendo-se e humilhando-se, submisso, cada passo em direção a Castor Cinzento mais dolorido e mais lento que o anterior. Afinal, deitou-se aos pés do dono, a quem se rendia e entregava, de forma voluntária, seu corpo e alma. Por sua própria vontade,

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veio se sentar junto ao fogo dos humanos, e a eles obedecer. Ca144

nino Branco tremeu, antecipando a punição. Uma mão se movimentou acima dele. Por reflexo se encolheu todo sob o golpe esperado, que não veio. Arriscou uma espiada. Castor Cinzento dividia o pedaço de sebo pela metade. Castor Cinzento oferecia a ele um pedaço do sebo! Com muito cuidado e alguma cautela, primeiro farejou o sebo e depois o comeu. Castor Cinzento mandou que trouxessem carne para ele, e o defendeu dos demais cães enquanto comia. Depois disso, grato e satisfeito, Canino Branco se deitou aos pés de Castor Cinzento, olhando o fogo que o aquecia, piscando e cochilando, seguro de que a manhã não o encontraria vagando pela floresta deserta, mas no acampamento dos animais-gente, com os deuses a quem entregara a vida e de quem agora era dependente.

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CAPÍTULO 13

O pacto

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Dezembro já ia bem adiantado e Castor Cinzento partiu numa jornada Mackenzie acima com Kloo-Kooch e Mit-Sah. Conduzia um trenó puxado por cães que negociara ou pegara emprestado. Um segundo trenó, puxado por um time de filhotes, era controlado por Mit-Sah. Era só uma brincadeira, mas também servia para Mit-Sah aprender a conduzir e treinar os cães, enquanto os próprios filhotes se acostumavam com os arreios. Além disso, o trenó tinha alguma utilidade, pois carregava quase noventa quilos de equipamento e alimentos. Canino Branco já tinha visto os cães do acampamento puxando trenós, então não estranhou quando lhe puseram os arreios. Ao redor do seu pescoço foi passado um colar estufado com musgo, ligado por dois tirantes a uma cinta em torno do seu tronco. Era a essa cinta que se atava uma longa corda pela qual o trenó seria puxado. Eram sete filhotes no time. Cada um ligado ao trenó por uma corda de comprimento variado. A diferença entre os tamanhos das cordas era sempre de pelo menos o tamanho do corpo

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de um cão. Todas as cordas passavam por um anel na frente do 146

trenó. Este não tinha lâminas, parecendo um tobogã feito de casca de bétula, com a frente curvada para trás, evitando que afundasse na neve macia. Sua forma distribuía o peso da carga do trenó por uma grande superfície de neve. Os cães à frente do trenó corriam numa formação em leque, distribuindo o esforço, sem tropeçar uns nos outros. Outra vantagem dessa formação era que as cordas de tamanho diferente impediam os cães de atacarem os que iam adiante. Para um cão atacar o outro teria que se virar para o cão que corria atrás com uma corda mais curta. Fazendo isso, ficava frente a frente tanto com o cão atacado quanto com o chicote do condutor. Mit-Sah já observara a perseguição de Lip-Lip a Canino Branco, mas naquele tempo não ousou intervir, pois Lip-Lip não lhe pertencia. Mas agora Lip-Lip era seu cão, e cuidou de se vingar dele, atando-o à corda mais longa. Isso fazia de Lip-Lip o líder, o que aparentava ser uma honra. Mas, na prática, retirava-lhe toda a honra, pois passava a ser o perseguido pela matilha. Assim que o trenó partia, o time iniciava uma perseguição a Lip-lip que durava o dia todo. No início ele tentava se virar para enfrentar os perseguidores. Mas todas as vezes Mit-Sah o castigava no rosto com seu chicote feito de couro de caribu9. Lip-Lip podia enfrentar a matilha, mas não o chicote, e só lhe restava manter sua longa corda esticada e os flancos longe dos dentes dos parceiros.

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Canino Branco aceitou tranquilo o trabalho. Com a partida de Kiche, só lhe restava

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ser leal ao dono. Então trabalhava duro, aprendeu a disciplina, e era obediente. Confiabilidade e boa vontade eram as características do seu trabalho. Lip-Lip não era mais o líder, e, com sua queda, Canino Branco poderia ter se tornado o líder da matilha. Mas era rabugento e solitário demais para isso. Bastava-lhe dar sovas nos companheiros. Ou ignorá-los. Saíam do seu caminho quando se aproximava, e nem o mais valente ousava tentar lhe roubar a carne. Pelo contrário, todos devoravam seu próprio alimento com pressa, temendo que ele o roubasse. Canino Branco conhecia muito bem a lei: oprimir o fraco e obedecer ao forte. Comia sua porção de carne o mais rápido que podia. E depois acossava o cão que ainda não tivesse terminado. De vez em quando, contudo, um ou outro cão inflamava-se, revoltado, e era logo subjugado. Isso manteve Canino Branco em forma. Era cioso do isolamento conquistado e lutava com frequência para mantê-lo. Mas todas essas lutas tinham curta duração. Era rápido demais para os

Veado de grande porte, também conhecido como rena. 9

cães, que já sangravam retalhados antes mesmo

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de começarem a lutar. Não tinha sido à toa que Canino Bran148

co havia conseguido vencer em sua luta pela sobrevivência nos seus dias de filhote. Para enfrentar o ambiente feroz da Natureza Selvagem, aprendera a pisar macio quando o mais forte se aproximava. Da mesma forma que oprimia os fracos, respeitava os mais fortes. Durante a longa jornada com Castor Cinzento, cuidou de pisar macio entre os cães adultos nos acampamentos de muitos animais-gente que encontraram. Os meses voavam, e a jornada de Castor Cinzento não terminava. A força de Canino Branco se desenvolvia com as longas horas percorrendo trilhas e puxando o trenó sem parar. Parecia que seu desenvolvimento mental estava quase completo. Não sentia afeto por Castor Cinzento. Aceitava seu domínio com boa vontade, mas era um domínio baseado em inteligência superior e força bruta. Havia algo no mais íntimo de Canino Branco que fazia esse domínio ser desejado, do contrário não teria retornado da Natureza Selvagem para oferecer sua lealdade. Porém, locais profundos em sua natureza nunca haviam sido explorados. Uma palavra gentil ou um toque de mão carinhoso por parte de Castor Cinzento poderiam ter revelado essas profundezas. Mas ele não acariciava nem dizia palavras gentis. Sua essência era selvagem, e com selvageria comandava, aplicando justiça com um porrete, punindo transgressões com a dor de uma pancada e recompensando o mérito não com gentileza, mas deixando de golpear.

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Então Canino Branco não esperava nada de bom ao toque da mão de um humano. De vez em quando ganhava carne, é

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verdade, mas era mais comum trazerem dor. Mãos jogavam pedras, brandiam varas, porretes e chicotes, davam tapas e socos, e eram habilidosas em machucar com beliscões e apertões. Foi na vila no Grande Lago do Escravo que, sofrendo com a maldade de uma mão humana, acabou modificando a lei que aprendera com Castor Cinzento, aquela que dizia ser um crime imperdoável morder um dos deuses. Nessa vila, do mesmo modo que todos os cães em todas as vilas, Canino Branco foi procurar comida. Um menino cortava pedaços de carne de alce congelada com um machado, e lascas voavam sobre a neve. Canino Branco parou e começou a comer essas lascas. Viu o menino deixar o machado de lado e pegar um porrete pesado. Canino Branco saltou para trás, bem a tempo de escapar de um golpe violento. O menino o perseguiu, e ele, um estranho na vila, tentou escapar por entre duas tendas, mas acabou encurralado contra um barranco alto. Não havia por onde fugir. O menino bloqueava a única saí­ da entre as duas tendas. Com o porrete na mão pronto para um golpe, ele se aproximou do adversário acuado. Canino Branco estava furioso. Encarava o menino, arrepiando o pelo e rosnando. Seu senso de justiça fora ultrajado. Conhecia a lei da comida. Toda carne desperdiçada, como as lascas congeladas, pertencia ao cão que a encontrasse. Não tinha feito nada errado nem

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quebrado nenhuma lei, e, no entanto, o menino se preparava 150

para lhe dar uma surra. Canino Branco mal entendeu o que houve. Fez aquilo num surto de ira. E fez tão rápido que o menino também não entendeu o que acontecera. Tudo o que o menino soube é que foi derrubado no chão e que a mão que segurava o porrete ficou toda rasgada pelos dentes de Canino Branco. Mas Canino Branco sabia que violara uma lei dos deuses. Enfiara os dentes na carne sagrada de um deles, e não podia esperar nada além de uma punição terrível. Fugiu para junto de Castor Cinzento e se encolheu atrás de suas pernas protetoras quando o menino mordido e seus familiares vieram exigindo vingança. Mas foram embora sem ter a vontade atendida. Castor Cinzento defendeu Canino Branco, que, ouvindo a batalha de palavras e observando os gestos zangados, compreendeu que seu ato era justificável. E assim aprendeu que havia deuses e deuses. Havia os seus deuses, e os outros deuses, e eles eram diferentes. Sendo justo ou injusto, ele devia aceitar qualquer coisa vinda das mãos dos seus deuses. Mas não era obrigado a aceitar injustiça vinda dos outros deuses. Era seu direito reagir com os dentes. E isso também era uma lei dos deuses. Antes de o dia terminar, Canino Branco aprenderia mais a respeito dessa lei. Mit-Sah, sozinho, catando lenha na floresta, encontrou o garoto que fora mordido, acompanhado de outros meninos. Palavras duras foram trocadas. Depois, todos os meninos atacaram Mit-Sah. Canino Branco apenas observou no

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início. Era um assunto dos deuses, não era do seu interesse. Então percebeu que era Mit-Sah, um dos seus deuses, que estava

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sendo maltratado. Um ataque súbito de raiva fez com que saltasse no meio dos combatentes. Cinco minutos depois a paisagem estava tomada por meninos em fuga. Quando Mit-Sah contou a história no acampamento, Castor Cinzento mandou que servissem carne a Canino Branco. Em seguida ordenou que servissem mais, e Canino Branco, depois de comer com voracidade, cochilou junto ao fogo sabendo que a lei fora confirmada. A partir dessas experiências Canino Branco aprendeu a lei da propriedade e o dever de defendê-la. Da proteção do corpo dos seus deuses até a proteção de suas posses foi um passo. O que pertencia ao seu dono devia ser protegido contra o resto do mundo, mesmo que fosse preciso morder outros deuses. Estes eram muito mais poderosos que qualquer cão, mas Canino Branco aprendeu a enfrentá-los. O dever sobressaiu ao medo, e os deuses ladrões aprenderam a deixar as propriedades de Castor Cinzento em paz. Como era sombrio e solitário, não tendo nada para fazer com os outros cães, podia ser um perfeito cão de guarda, e foi encorajado e treinado por Castor Cinzento nessa função. O resultado disso foi que Canino Branco ficou feroz e indomável, e ainda mais solitário. Os meses se passavam, fortalecendo cada vez mais o pacto entre o cão e o homem. Era o pacto ancestral que o primeiro lobo que saiu da Natureza Selvagem firmou com os humanos.

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E, assim como todos os lobos e cachorros selvagens que fizeram 152

o pacto anteriormente, Canino Branco elaborou o pacto para si mesmo. Pela posse de um deus, ele entregava sua liberdade. Fogo e comida, proteção e companhia, eram coisas que recebia dos deuses. Em troca, guardava as posses do deus, defendia seu corpo, trabalhava para ele e lhe obedecia. Mesmo que voltasse a encontrar Kiche, não largaria seu deus para ir com ela. No seu íntimo, sua lealdade ao homem de alguma forma parecia ser uma lei maior que o amor pela liberdade, pela espécie ou pela família.

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CAPÍTULO 14

A grande fome

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A primavera já estava próxima quando Castor Cinzento terminou sua longa jornada. Era abril, e Canino Branco tinha um ano de idade quando chegaram à aldeia natal e ele foi solto dos arreios por Mit-Sah. Junto com Lip-Lip, era o maior filhote com um ano de idade da vila toda. Herdara a força e a estatura tanto do pai, um lobo, como de Kiche, e já estava da mesma altura que os cães adultos. Mas ainda não encorpara. Seu corpo era esbelto e esguio, e sua musculatura era mais longa que robusta. O tom da sua pelagem era o típico cinza dos lobos, parecia mesmo ser um lobo. O quarto de linhagem de cachorro que herdara de Kiche não deixara nele nenhuma marca física, ainda que fizesse parte do seu modo de pensar. Passeou pela vila, satisfeito por reconhecer vários deuses que conhecia de antes da longa jornada. E havia os cães, filhotes crescendo como ele, e cães adultos que já não pareciam tão grandes e formidáveis quanto as lembranças que tinha deles, e também sentia menos medo deles do que antes.

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Havia Baseek, um velho cão cinzento com quem Canino 154

Branco aprendeu grande parte da sua própria insignificância, e agora aprendia quanta mudança e desenvolvimento aconteciam nele próprio. Enquanto Baseek perdia vigor com a idade, Canino Branco crescia com a juventude. Certa vez, quando esquartejavam um alce recém-abatido, Baseek cometeu o erro de avançar sobre um pedaço de carne que disputava com Canino Branco, esperando que ele batesse em retirada como costumava fazer. Isso foi demais para Canino Branco. Depois de passar meses dominando seus companheiros, estava além do seu autocontrole ficar parado enquanto outro cão devorava a carne que lhe pertencia. Atacou-o, como era seu costume, sem aviso. Com a primeira mordida, a orelha direita de Baseek foi rasgada em tiras, e ele ficou atordoado com o ataque repentino. Porém, outras coisas ainda mais graves também aconteciam de forma repentina. Baseek foi derrubado. Sua garganta foi mordida. Enquanto tentava voltar a ficar de pé, o jovem cão cravou duas vezes os dentes em seu ombro. A rapidez do ataque era espantosa. Tentou um contra-ataque, dando uma mordida ultrajada no ar. Em seguida seu focinho sangrava, e só lhe restava recuar para longe da carne. A situação se invertera. Canino Branco parou sobre a carne, ameaçador, enquanto Baseek se afastou, preparando a retirada. Não ousou correr o risco e lutar com aquele jovem

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relâmpago. Tentou manter a dignidade. Com calma, virou as costas para o jovem cão e o pedaço de carne, e, como se am-

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bos não devessem ser levados em consideração, afastou-se com passos grandiosos. Só parou para lamber as feridas que sangravam quando não podia mais ser visto. O efeito desse episódio sobre Canino Branco foi o fortalecimento de sua autoconfiança e de seu orgulho. Passou a andar com menos timidez entre os cães adultos. Não que andasse procurando encrenca, longe disso. Mas, do jeito dele, exigia consideração. Exigia o direito de seguir seu caminho sem ser molestado e sem precisar dar passagem para nenhum cão. Precisa ser levado em conta, só isso. Não podia mais ser desprezado ou ignorado como um filhote qualquer, e, mesmo sendo antissocial, solitário e sombrio, era temido e aceito como um igual entre os intrigados cães mais velhos. Estes logo aprenderam a deixá-lo sozinho, sem atos hostis ou tentativas amigáveis de aproximação. Se o deixassem em paz, ele os deixaria em paz. Esse estado de coisas era algo desejável, como descobriram após alguns encontros. No meio do verão, Canino Branco viveu uma expe­ riência marcante. Trotando silencioso pela aldeia, deu de cara com Kiche. Parou e encarou-a. Lembrava-se dela vagamente, mas lembrava. O mesmo não podia ser dito sobre ela. Kiche levantou o lábio com o antigo rosnado de ameaça, até que a memória dele então clareou. Sua infância

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esquecida, tudo o que era associado a esse rosnado familiar, 156

voltou de repente. Antes de ele conhecer os deuses, ela fora o centro do seu universo. Pensamentos familiares daquele tempo voltaram, crescendo dentro dele. Saltou com alegria ao seu encontro e foi recebido com presas afiadas, que lhe rasgaram a bochecha até o osso. Não entendeu nada, e então recuou, espantado e intrigado. Mas não era culpa de Kiche. Uma mãe loba não é feita para se lembrar de seus filhotes com cerca de um ano de idade. Então não se lembrava de Canino Branco. Era um animal estranho, um intruso, e sua ninhada atual de filhotes lhe dava o direito de se incomodar com aquilo. Um dos filhotes se aproximou de Canino Branco. Eram meios-irmãos, só não sabiam disso. Canino Branco, curioso, farejou o filhote, e Kiche reagiu, atacando-o e rasgando-lhe a face uma segunda vez. Ele recuou mais ainda. Todas as antigas lembranças e associações morreram mais uma vez e voltaram para o túmulo de onde haviam ressurgido. Ela não tinha mais valor para ele. O que ela significava foi esquecido. Não havia mais espaço para ela no seu esquema de coisas, assim como não havia mais lugar para ele no dela. Ainda estava parado, intrigado, quando Kiche atacou-o uma terceira vez, querendo afastá-lo das redondezas. E Canino Branco foi embora sem reação. Era uma fêmea de sua espécie, e existe uma lei entre os lobos que diz que

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machos não devem brigar com fêmeas. Não sabia nada sobre essa lei, mas a conhecia por meio de um estímulo secre-

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to, um desejo instintivo, o mesmo tipo de instinto que fez com que uivasse para a Lua e tivesse medo da morte e do desconhecido. Nos meses seguintes, Canino Branco cresceu e ficou mais forte, pesado e compacto. Seu temperamento se desenvolvia entre as linhas traçadas pela sua hereditariedade e pelo ambiente. A hereditariedade era um material vivo parecido com a argila, com mil possibilidades e capaz de ser moldado de várias formas. O ambiente servia para modelar essa argila e lhe dar uma forma particular. Se Canino Branco nunca tivesse se aproximado das fogueiras dos humanos, o ambiente teria lhe moldado num verdadeiro lobo. Mas os deuses lhe deram um ambiente diferente, e foi moldado num cão que parecia um lobo, mas era um cão, e não um lobo. Canino Branco, apesar de forte em diversos aspectos, sofria de uma fraqueza em especial. Não suportava que rissem dele. Odiava a risada das pessoas, e, se rissem dele, tinha um acesso de fúria que podia durar horas. Coitado do cão que cruzasse com ele nesses momentos. Em seu terceiro ano de vida, uma fome severa se abateu sobre os índios do Mackenzie. No verão, não houve peixe. No inverno, os caribus abandonaram as trilhas usuais. Os alces se tornaram raros, os coelhos quase desapareceram. Os

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predadores, com as fontes de suprimentos negadas e enfra158

quecidos pela fome, começaram a lutar entre si e a se devorar uns aos outros. Só os mais fortes sobreviveram. Os deuses de Canino Branco sempre foram animais caçadores. Os mais velhos e fracos morreram de fome. Na aldeia havia muito choro, pois as mulheres e as crianças ficavam sem comer para que o pouco de alimento que restava fosse para os caçadores magros e famintos que vagavam em vão pela floresta em busca de carne. Os deuses foram tomados por um desespero extremo e chegaram a comer até o couro macio dos seus mocassins e de suas luvas, enquanto os cães comiam os arreios e até as correias dos chicotes. Os cães também comiam uns aos outros, e os deuses os comiam. Os mais fracos e inúteis eram comidos primeiro. Os sobreviventes viram isso e entenderam. Os mais corajosos e sábios abandonaram as fogueiras dos deuses, que haviam virado matadouros, e fugiram para a floresta, onde acabaram morrendo de fome ou foram devorados por lobos. Canino Branco também escapou para a floresta. Estava mais adaptado a sobreviver do que os outros cães, pois seu treinamento de infância o guiava. Preferia emboscar pequenos seres vivos. Podia ficar escondido por horas, seguindo cada movimento de um esquilo, esperando, com uma paciência tão imensa quanto sua fome, até que o esquilo ousasse descer ao solo. Mesmo assim, Canino Branco

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não era precipitado. Esperava até ter certeza de poder alcançá-lo, antes que achasse refúgio numa árvore. Só então saía

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como um raio de seu esconderijo, um projétil cinza incrivelmente rápido que nunca errava o alvo. Ainda que tivesse sucesso com os esquilos, havia uma dificuldade que o impedia de sobreviver à base deles. Não havia esquilos suficientes. Então precisou caçar coisas ainda menores, deixando o orgulho de lado e desentocando ratos silvestres. Durante as piores pontadas de fome, voltou para perto das fogueiras dos deuses. Mas não chegava muito perto. Espreitava da floresta, evitando ser descoberto e roubando as armadilhas nos raros momentos em que capturavam algo. A sorte parecia favorecê-lo. Sempre que a fome apertava, acabava encontrando algo para comer. E, quando estava fraco, tinha a sorte de não ser encontrado por nenhum predador maior que pudesse comê-lo. Acabara de passar dois dias comendo a carne de um lince quando foi perseguido por uma alcateia de lobos famintos. Foi uma perseguição longa e cruel, mas estava mais bem alimentado e conseguiu escapar. E não apenas escapou como ainda contornou os perseguidores e abateu um dos retardatários esgotados. Durante o começo do verão, nos últimos dias da grande fome, encontrou Lip-Lip, que também fugira para a floresta, onde sobrevivera com dificuldades. Os dois vinham

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trotando em sentido oposto na base de um penhasco ro160

choso e, contornando uma grande pedra, deram um de cara com o outro. Pararam de imediato, alarmados, e trocaram olhares desconfiados. Canino Branco estava em condições esplêndidas. Vinha tendo sucesso na caçada e comera bem durante uma semana. Mas logo que viu Lip-Lip todo o pelo do seu dorso se eriçou. Era algo involuntário, um estado físico que no passado sempre acompanhara seu estado mental, determinado pela perseguição de Lip-Lip. Foi tudo rápido e eficiente. Lip-Lip ensaiou um recuo, mas Canino Branco o atingiu com força pela lateral. Lip-Lip foi arremessado e caiu de costas. Os dentes de Canino Branco voaram em sua garganta magra. Depois de observar a agonia da luta pela vida até o fim, Canino Branco retomou seu caminho. Poucos dias depois, chegou à orla da floresta, onde uma clareira estreita descia rumo ao Mackenzie. Já estivera lá antes, quando ali nada havia, mas agora estava ocupada por uma vila. Ainda escondido entre as árvores, parou para analisar a situação. Visões, cheiros e sons lhe eram familiares. Era a antiga vila que mudara de lugar. Mas as visões, os cheiros e os sons eram diferentes do que experimentara logo antes de fugir. Não havia choro nem gemidos. Sons alegres saudaram seus ouvidos, e percebia-se que eram sons de quem tinha a barriga cheia. Sentiu um cheiro de peixe no ar. Havia comida. A fome severa terminara. Corajoso, saiu da

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floresta e trotou acampamento adentro até a tenda de Castor Cinzento, onde foi recebido com gritos de alegria e uma gene-

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rosa porção de peixe fresco.

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PARTE 4

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CAPÍTULO 15

O inimigo da sua espécie

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Se havia alguma chance de Canino Branco vir a confraternizar com os da sua espécie, ela acabou de vez quando ele virou o líder do time do trenó. Agora os cães o odiavam pela carne extra e por todos os favores que recebia de Mit-Sah, e também porque estava sempre correndo à frente do bando, com a cauda balançando e as pernas traseiras enlouquecendo os perseguidores. Canino Branco os odiava também com a mesma amargura. Ser líder do trenó não lhe agradava nem um pouco. Ter que correr à frente do bando, que latia, os mesmos cães que dominara, um por um, nos últimos três anos, era algo quase insuportável. Mas precisava suportar ou desistir, e a vida que havia nele não tinha nenhum interesse em desistir. Assim que Mit-Sah dava a ordem para partir, o time todo, com latidos selvagens, pulava nos calcanhares de Canino Branco. Não havia defesa para ele. Se tentasse se virar, Mit-Sah o atingia na cara com uma chicotada. Não podia enfrentar seus perseguidores com o rabo e as pernas traseiras. Só lhe restava correr, e isso violava sua própria natureza e orgulho durante o

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dia todo. Ninguém viola a própria natureza sem pagar um pre164

ço. É como um pelo encravado, que em vez de crescer para fora do corpo, cresce para dentro e acaba causando inflamação e dor. Seu instinto pedia que desse meia-volta e enfrentasse o bando, mas os deuses desejavam o contrário e faziam valer sua vontade com um chicote de nove metros de comprimento feito de couro de caribu. Canino Branco só podia engolir a amargura e alimentar seu ódio feroz. Se houve alguma criatura inimiga da sua própria espécie, essa foi Canino Branco. Da mesma forma que estava sempre ganhando novas marcas e cicatrizes dos dentes da matilha, também deixava suas próprias marcas no resto do bando. Ao contrário dos demais líderes de trenó, que se mantinham perto dos deuses ao parar para acampar, Canino Branco desdenhava dessa proteção. Circulava valente pelo acampamento. Os outros cães, excitados pelo dia inteiro de perseguição, esqueciam a lição aprendida de deixá-lo em paz e sempre havia confusão. Quando Mit-Sah mandava o grupo parar, Canino Branco obedecia. No início, isso causava problemas para os outros cães. Todos avançavam sobre o líder odiado, para descobrir que o jogo virara. Agora Mit-Sah estava ao lado dele, com o grande chicote cantando em sua mão. Então os cães entenderam que, quando o grupo parava por causa de uma ordem, deviam deixar Canino Branco em paz. Mas quando este parava sem ordem nenhuma, então podiam avançar sobre ele e tentar destruí-lo.

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Depois de várias experiências, Canino Branco não parava mais sem ser ordenado. Era de sua natureza aprender rápido. Mas os

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cães não aprendiam a deixá-lo em paz no acampamento. Cada dia passado em perseguição a ele servia para apagar a lição da noite anterior, que teria que ser aprendida novamente na noite seguinte e assim por diante. Mas havia uma lição que os cães aprenderam: manter-se juntos. Canino Branco era terrível demais para qualquer um deles sozinho. Desafiavam-no em massa, do contrário ele mataria todos, um por um, em uma noite. Atacando juntos, ele não conseguia matá-los. Podia derrubar um deles, mas o resto do bando cairia sobre ele antes que pudesse continuar e desse sua mordida fatal na garganta. Ao primeiro sinal de conflito, todo o bando se juntava para enfrentá-lo. Os cães tinham suas disputas entre si, mas estas eram esquecidas quando o problema envolvia Canino Branco. Por outro lado, por mais que tentassem, não conseguiam matar Canino Branco. Ele era rápido, formidável e esperto demais para eles. Evitava locais apertados e sempre recuava quando encontrava o bando prestes a cercá-lo. Quanto a derrubá-lo, não havia cão entre eles capaz de tal feito. Suas patas se agarravam ao solo com a mesma tenacidade com que ele se agarrava à vida. Pois, na guerra interminável contra a matilha, o solo e a vida eram sinônimos. Desse modo, tornou-se o inimigo da sua própria espécie, aqueles lobos domesticados amaciados pelas

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fogueiras e enfraquecidos pela proteção do po166

der humano. Canino Branco era amargo e implacável. Sua argila fora moldada desse jeito, e, assim, declarou vingança contra todos os cães. Quando Canino Branco tinha quase cinco anos de idade, Castor Cinzento o levou em outra grande jornada, e ficou gravado na memória de muitos o estrago que ele causou aos cães de várias vilas à beira do Mackenzie, atravessando

O rio Porcupine tem mais de 900 quilômetros de extensão e é um afluente do rio Yukon, que tem mais de 3 mil quilômetros.

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as Rochosas e descendo o Porcupine10 até o Yukon. Ele se regalava em sua vingança contra a própria espécie. Eram cães ordinários e desavisados. Não estavam preparados para a rapidez e a precisão do seu ataque inesperado. Não conheciam sua fama de relâmpago carniceiro. Eriçavam o pelo, as pernas rígidas e desafiadoras, enquanto ele, sem perder tempo com preliminares, agindo como uma mola de aço, já estava sobre suas gargantas, destruindo-os antes mesmo que entendessem o que acontecia. Tornou-se um adepto da luta. Economizava. Nunca desperdiçava energia nem se engalfinhava. Entrava rápido na briga e, se não acertasse o golpe fatal, logo se retirava. Não tolerava lutas corpo a corpo nem o contato

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demorado com outro corpo. Isso o deixava em frenesi. Precisava se afastar, ficar sobre as próprias patas, sem tocar em outro ser

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vivo. Como consequência, os cães desconhecidos que encontrava não tinham chance contra ele. Escapava de suas presas. Ele os pegava ou se afastava, sempre saindo ileso. De vez em quando, havia exceções a essa regra, quando vários cães, atacando-o ao mesmo tempo, conseguiam puni-lo antes que se afastasse, e havia ocasiões em que apenas um cão conseguia afundar os dentes em seu corpo. Mas eram acidentes. Tornou-se um lutador tão eficiente que saía sem um arranhão na maior parte das vezes. Foi no verão que Canino Branco chegou ao Forte Yukon. Castor Cinzento cruzara a grande bacia entre o Yukon e o Mac­kenzie no fim do inverno e passara a primavera caçando entre os contrafortes das Rochosas. Depois que o gelo do Porcupine se rompeu, construiu uma canoa e remou até o Yukon, logo abaixo do Círculo Polar Ártico. Ali ficava o antigo forte da Companhia da Baía de Hudson, onde havia muitos índios, muita comida e uma excitação sem precedentes. Era o verão de 1898, e milhares de caçadores de ouro subiam o Yukon até Dawson e o Klon­dike. Ainda estavam a centenas de quilômetros de seu destino final, e o que viajara a menor distância já percorrera pelo menos oito mil quilômetros, enquanto muitos vinham do outro lado do mundo. Castor Cinzento parou por lá. Os rumores sobre a febre do ouro haviam chegado a seus ouvidos, e ele trazia vários fardos

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de peles e outros de luvas e mocassins. Não teria 168

se aventurado em uma viagem tão longa se não esperasse obter lucros generosos. Mas o que esperava não era nada diante do que ganhou. Em seus sonhos mais otimistas imaginava um lucro de cem por cento, e conseguiu lucrar mil por cento. Estabeleceu-se para negociar com cuidado e sem pressa, mesmo que fosse necessário passar todo o verão e o inverno até vender tudo. Foi em Forte Yukon que Canino Branco viu seu primeiro deus branco. Logo reparou que era um ser diferente, um deus ainda mais poderoso. Quando filhote, os vultos assombrosos das tendas erguidas pelas pessoas o afetavam como manifestações de poder. Da mesma maneira, via o poder nas casas e no forte construídos de troncos maciços. Aqueles deuses brancos eram

Termo depreciativo para se referir ao homem branco, supostamente utilizado por indígenas norte-americanos, foi popularizado por filmes e seriados de faroeste para televisão.

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fortes. Possuíam mais poderes que os deuses que já havia conhecido, inclusive Castor Cinzento, o mais poderoso que conhecia. Pois Castor Cinzento era um deus menino entre aqueles caras-pálidas11. Canino Branco sentia isso tudo, só que não de uma forma consciente. É a partir de sentimentos, muito mais do que pensamentos, que

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os animais agem. E cada ato de Canino Branco agora levava em conta a sensação de que os deuses brancos eram superiores.

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Para começar, desconfiava bastante deles. Não tinha como saber que terrores desconhecidos escondiam. Tinha curiosidade sobre eles, e medo de ser notado. Durante as primeiras horas, circulou sorrateiro e observou de uma distância segura. Então viu que nada acontecia aos cães que se aproximavam deles, e chegou mais perto. Por sua vez, era objeto de grande curiosidade para eles. Sua aparência de lobo saltava aos olhos, e o apontavam uns para os outros. Essa ação pôs Canino Branco na defensiva, e, quando tentaram se aproximar, ele lhes mostrou os dentes e recuou. Ninguém tentou encostar nele, e fizeram muito bem em não tentar. Canino Branco logo aprendeu que poucos daqueles deuses, menos que uma dúzia, moravam ali. A cada dois ou três dias um barco a vapor, outra enorme manifestação de poder, chegava à margem do rio e parava por várias horas. Deuses brancos saíam desses barcos e depois iam embora neles. Eram incontáveis. Bastou pouco mais de um dia para que visse mais deuses brancos do que os índios que tinha visto durante toda a sua vida. E isso continuou, dia após dia. Se os deuses brancos eram todo-poderosos, seus cães não valiam muito. Canino Branco logo descobriu isso ao se misturar com os que desembarcavam com os donos. Eram de formas e tamanhos irregulares. Alguns tinham pernas curtas demais,

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outros, longas demais. Tinham cabelo em vez de pelo, e alguns 170

tinham pouco cabelo. E nenhum deles sabia lutar. Como um inimigo da sua espécie, Canino Branco cuidava de lutar contra eles. Logo passou a desprezá-los. Eram uns molengas indefesos, faziam muito barulho e se debatiam, tentando resolver na força o que ele conseguia através da destreza e da astúcia. Corriam, latindo, para ele, que saltava para o lado. Ficavam sem saber para onde Canino Branco fora, e ele os atacava pelo flanco, rolando-os no chão e mordendo-os na garganta. Algumas vezes o ataque era bem-sucedido, e o cão atingido caía no chão para ser feito em pedaços pelo bando de cães dos índios, que esperava. Canino Branco era esperto. Fazia tempo que sabia que os deuses não gostavam quando seus cães eram mortos. Os deuses brancos não eram diferentes. Então se contentava em derrubar e rasgar a garganta deles e deixar que o bando terminasse o trabalho cruel. Os deuses brancos chegavam correndo, direcionando toda a ira ao resto do bando, enquanto Canino Branco saía discreto. Parava a uma curta distância e observava as pedras, os porretes, os machados usados contra seus semelhantes. Ele apreciava tudo isso. Não gostava da sua espécie, e era astuto o bastante para escapar ileso. No início, a matança dos cães dos deuses brancos era diversão. Depois de um tempo se tornou sua ocupação. Não havia trabalho para ser feito. Castor Cinzento estava ocupado negociando e prosperando. Então Canino Branco vagava perto do atracadouro, seguido pela

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desprezível matilha de cães dos índios, esperando pelos navios. Com a chegada do vapor a diversão começava. Depois de alguns

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momentos, quando os deuses brancos superavam a surpresa, a gangue se dispersava e a brincadeira terminava, até que o próximo vapor chegasse. Não era preciso muito para começar essas brigas. Bastava se mostrar para os forasteiros, que imediatamente avançavam sobre ele. Era seu instinto. Ele era a Natureza Selvagem, a amea­ça terrível e desconhecida que espreita na escuridão. Geração após geração, esse medo da Natureza Selvagem foi sendo estampado na essência desses cães, que tinham adquirido a licença de matar qualquer ser selvagem para proteger seus deuses. E assim, cheios de energia, vindos do suave mundo sulista, esses cães, trotando pela prancha de madeira e pondo as patas na margem do Yukon, só precisavam ver Canino Branco de relance para sentir o irresistível impulso de atacá-lo e destruí-lo. Podiam ser cães criados na cidade, mas o medo instintivo da Natureza Selvagem era o mesmo. Não enxergavam a criatura com jeito de lobo apenas com seus próprios olhos, mas com os olhos de seus antepassados. Assim, Canino Branco apreciava esses dias. Se bastava sua aparição para fazer com que os cães forasteiros caíssem sobre ele, tanto melhor para ele, e muito pior para eles. Não foi à toa que viu a luz do dia de dentro de uma toca solitária e travou suas primeiras batalhas contra a lagópode, a doninha e a lince. Nem foi à toa que seus dias de filhote se

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tornaram amargos com a perseguição promovida por Lip-Lip e 172

o resto da matilha de filhotes. Tudo poderia ter sido diferente. Se Lip-Lip não existisse, teria passado a infância com os outros filhotes e crescido mais parecido com um cachorro. Se Castor Cinzento tivesse um pouco de afeto e amor para dar, isso poderia ter tocado as profundezas da natureza de Canino Branco e trazido à superfície outras qualidades bondosas. Mas nada aconteceu assim. A argila de Canino Branco foi moldada até torná-lo aquela fera sombria e solitária, o inimigo de sua espécie.

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CAPÍTULO 16

O deus louco

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Poucos deuses brancos moravam no Forte Yukon. Estavam havia muito tempo na região e não sentiam nada além de desprezo pelos forasteiros que desembarcavam dos barcos a vapor. Divertiam-se com o infortúnio dos recém-chegados. Gostavam especialmente do tumulto causado entre os cães dos forasteiros por Canino Branco e a matilha desprezível. Quando chegava um vapor, os homens do forte faziam questão de descer até a margem do rio e ver a diversão. Mas havia um deles que se divertia mais que todos. Vinha correndo ao primeiro sinal do barco a vapor e, depois que a última luta terminava, voltava cabisbaixo para o forte. Algumas vezes, quando um cão sulista molenga ia ao chão, ganindo seu choro de morte sob os dentes caninos da matilha, esse homem chegava a pular no ar e a gritar de prazer. E sempre olhava Canino Branco com cobiça. Ele era chamado de “Beleza” pelos demais. Ninguém sabia seu nome, e, em geral, era conhecido como “Beleza Smith”. Mas não tinha beleza nenhuma. Seu nome era uma ironia. Era muito feio. A natureza fora mesquinha com ele.

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Para começar, era um homem baixo, muito magro e com uma 174

cabeça pequenina. Sua testa era larga. Os olhos, grandes, assim como a distância entre eles. Seu rosto, em comparação com o resto do corpo, era enorme. Para compensar, a natureza lhe deu um queixo monstruoso, largo e pesado, projetado para a frente e para baixo, até parecer encostar no peito. Beleza Smith era conhecido por ser o mais fraco entre todos os covardes. Para completar, seus dentes eram amarelos e grandes. Seus olhos eram amarelados e encardidos, como se a natureza tivesse ficado sem pigmentos e precisado espremer o resto dos seus tubos de tinta. Seu cabelo era ralo e irregular, de cor amarela suja, crescendo em tufos esparsos na cabeça e no rosto. Em resumo, Beleza Smith era uma monstruosidade, e a culpa não era dele. Cozinhava para os outros do forte, além de lavar a louça e fazer a faxina. Eles não o desprezavam, apenas o toleravam. Além disso, temiam-no. Seus ataques covardes de fúria faziam com que temessem um tiro pelas costas ou veneno no café. Mas alguém precisava cozinhar, e, apesar dos defeitos, Beleza Smith sabia cozinhar. Esse era o homem que cobiçava Canino Branco. Quando suas abordagens ficaram frequentes, Canino Branco passou a eriçar o pelo, mostrar os dentes e re­cuar, pois não gostava daquele homem. Canino Branco estava no acampamento de Castor Cinzento quando Beleza Smith o visitou pela primeira vez. Pelo som distante de seus passos, antes mesmo de poder vê-lo, Canino

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Branco já sabia quem se aproximava e começou a eriçar o pelo. Estava deitado num canto confortável, mas logo se levantou, e

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quando o homem chegou, esgueirou-se até a beirada do acampamento. Não sabia o que conversavam, mas podia ver o homem e Castor Cinzento falando entre si e apontando para ele. Castor Cinzento se recusou a vender o cão. Já enriquecera com suas vendas e não precisava de nada. Além disso, Canino Branco era um animal valioso, o mais forte cachorro de trenó que possuíra. Não havia cão igual nem no Mackenzie nem no Yukon. Não, Canino Branco não estava à venda por valor algum. Mas Beleza Smith conhecia os hábitos dos índios. Visitou Castor Cinzento várias vezes, e sempre trazia uma garrafa. Um dos poderes do uísque é fazer surgir a sede. Castor Cinzento ficou com sede. Seu corpo começou a pedir mais e mais daquele líquido ardente, enquanto seu cérebro, desnorteado pelo estimulante, permitia que fizesse qualquer coisa para obtê-lo. O dinheiro que recebera pelas peles, pelas luvas e pelos mocassins se foi, e, quanto menos dinheiro sobrava, menos paciência lhe restava. No fim, seu dinheiro, posses e paciência acabaram. Não restou nada além da sede, mais forte a cada minuto. Foi quando Beleza Smith ofereceu certo número de garrafas por Canino Branco, o que agradou Castor Cinzento. Fizeram um acordo, as garrafas foram entregues e alguns dias se passaram. Canino Branco chegou ao acampamento e ficou satisfeito ao ver que o deus branco não estava lá. Evitara o acampamento

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durante vários dias. Não fazia ideia do mal que poderia vir da176

quelas mãos insistentes. Só sabia que traziam ameaça, e que o melhor era se manter fora do seu alcance. Mas mal se deitara e Castor Cinzento se debruçou sobre ele, amarrando uma tira de couro em volta do seu pescoço. Sentou-se ao seu lado segurando a ponta da tira com uma mão. A outra segurava uma garrafa, que, de tempos em tempos, era virada sobre a cabeça. Uma hora se passou, e a vibração de pés sobre o solo avisou que alguém se aproximava. Canino Branco foi o primeiro a ouvir. Eriçou o pelo em resposta, antes de Castor Cinzento, sonolento, perceber. Canino Branco tentou puxar suavemente a tira de couro da mão do seu dono, mas os dedos relaxados se fecharam com firmeza, e Castor Cinzento despertou. Beleza Smith veio e parou na frente de Canino Branco. Este obedeceu, rosnou suave, por medo. Uma mão foi estendida e baixou em direção à sua cabeça. O rosnado suave ficou mais áspero e tenso. A mão continuou descendo com lentidão, e ele se encolheu, rosnando cada vez mais. De repente, deu uma mordida como se fosse uma cobra. A mão se recolheu e os dentes se fecharam no vazio com um estalo agudo. Beleza Smith se zangou, apavorado. Castor Cinzento golpeou o lado da cabeça de Canino Branco, que se encolheu, obediente. Desconfiado, Canino Branco viu Beleza Smith se afastar e voltar com um porrete robusto. A ponta da tira de couro foi entregue a ele por Castor Cinzento. Beleza Smith começou a andar

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e puxou Canino Branco, que resistiu. Castor Cinzento deu pancadas em ambos os flancos de Canino Branco para que seguisse

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o outro. Ele obedeceu, mas o fez saltando sobre o homem que o puxava. Beleza Smith não recuou dessa vez. Esperava por isso e, manejando o porrete com habilidade, interrompeu o ataque, jogando Canino Branco ao solo. Castor Cinzento riu e aprovou. Beleza Smith puxou a tira de novo, e Canino Branco, atordoado, rastejou mancando para seus pés. Não atacou de novo. Um golpe do porrete bastara para convencê-lo de que o deus branco sabia como usá-lo, e não fazia sentido confrontá-lo. Inconformado, seguiu-o com o rabo entre as pernas, rosnando baixinho. Do lado de fora do forte, Beleza Smith o amarrou com cuidado e foi dormir. Canino Branco esperou por uma hora. Depois usou os dentes e, em dez segundos, estava livre. Não perdeu tempo mastigando nada, seus dentes cortaram o couro como se fossem uma faca. Canino Branco se levantou, rosnou para o forte e trotou de volta para o acampamento de Castor Cinzento. Não devia obediência àquele deus estranho e terrível. Entregara-se a si mesmo para Castor Cinzento, e a esse julgava pertencer. Mas o que acontecera antes se repetiu, porém com uma grande diferença. Castor Cinzento o amarrou com uma tira de couro e, quando Beleza Smith chegou, entregou a ele a ponta da tira. Mas, dessa vez, Beleza Smith lhe aplicou uma surra. Porrete e chicote foram usados sobre Canino Branco, que experimentou a pior surra de toda a sua vida. Beleza Smith gostou da tarefa.

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Teve prazer com ela, pois era covarde e cruel. Sempre choramin178

gando, encolhido diante de vozes mais poderosas, descontava nas criaturas mais fracas. Canino Branco sabia por que apanhava. Quando Castor Cinzento amarrou a tira de couro em volta do seu pescoço e entregou a outra ponta para as mãos de Beleza Smith, ele sabia que era a vontade do seu deus que fosse com Beleza Smith. E quando este o amarrou do lado de fora do forte, sabia que era sua vontade que ali ficasse. Assim, desobedecera à vontade de ambos os deuses, e merecia a punição consequente. Já havia visto cães mudarem de donos, e vira os fujões apanharem. Era esperto, mas, mesmo assim, na sua natureza havia forças maiores que a esperteza. Uma delas era a fidelidade. Não amava Castor Cinzento, era apenas fiel. Não podia fazer muito a respeito, era uma qualidade da argila da qual fora feito. Era a mesma qualidade que permitira que o lobo e o cão selvagem viessem a ser companheiros do homem. Depois da surra, Canino Branco foi arrastado de volta para o forte. Dessa vez, foi amarrado a uma vara. Mas não é tão fácil abandonar um deus. Castor Cinzento ainda era seu deus particular, e Canino Branco ainda se sentia ligado a ele. Então, durante a noite, quando todos dormiam no forte, Canino Branco usou os dentes na vara que o prendia. A madeira estava seca e amarrada tão perto do seu pescoço que mal conseguia alcançá-la com os dentes. Precisou de imensa elasticidade

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e paciência para ter sucesso roendo a vara por várias horas. Nenhum cão jamais conseguira fazer isso. Mas Canino Branco con-

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seguiu e se afastou do forte na manhã seguinte, arrastando um resto da vara ainda pendurado no pescoço. Era esperto. Se fosse apenas esperto não teria voltado para Castor Cinzento. Mas havia sua lealdade, e voltou para ser traído uma terceira vez. Novamente foi amarrado pelo pescoço por Castor Cinzento, e Beleza Smith veio buscá-lo. E dessa vez a surra foi ainda mais severa. Castor Cinzento olhava impassível, enquanto o outro homem manejava o chicote. Quando a surra acabou, Canino Branco estava em péssimo estado. Um cão sulista molenga não teria resistido. Mas ele se agarrava à vida com muita força. Beleza Smith precisou esperar meia hora para que ele conseguisse se levantar para arrastá-lo até o forte. A partir de então foi preso com uma corrente que desafiava seus dentes. Tentou em vão arrancar o grampo cravado num toco, onde ela estava presa. Alguns dias depois, sóbrio e falido, Castor Cinzento partiu Porcupine acima em sua longa jornada até o Mackenzie. Canino Branco ficou no Yukon, como posse de um homem meio louco e bruto por completo. Mas o que sabe um cão sobre a loucura? Para Canino Branco, Beleza Smith era um deus autêntico, apesar de terrível. Era um deus louco. E Canino Branco sabia apenas que devia se submeter à vontade do seu novo dono, obedecendo cada capricho e desejo.

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CAPÍTULO 17

O reino do ódio

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Sob a tutela do deus louco, Canino Branco se tornou um demônio. Era mantido acorrentado dentro de um cercado nos fundos do forte, onde Beleza Smith o instigava e o irritava, despertando seu lado selvagem com pequenos tormentos. Logo descobriu a suscetibilidade de Canino Branco às risadas, e fazia questão, após alguma maldade, de rir em sua cara. O riso era alto e debochado, e acompanhado de um dedo apontado na direção de Canino Branco. Nessas horas toda a razão fugia de Canino Branco, que tinha acessos de fúria enlouquecida. Antes, Canino Branco fora inimigo apenas da sua espécie. Agora havia se tornado inimigo de todas as coisas, e estava mais feroz do que nunca. Odiava a corrente que o prendia, os homens que o espiavam por entre as tábuas do cercado, os cães que os acompanhavam e rosnavam, malignos, para ele. Odiava cada ripa do cercado que o confinava. E, mais do que tudo, odiava Beleza Smith. Mas Beleza Smith tinha um propósito por trás do que fazia. Um dia, um grupo de homens se aglomerou em torno do cercado. Beleza Smith entrou, com o porrete na mão, e soltou a

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corrente do pescoço de Canino Branco. Quando seu dono saiu do cercado, Canino Branco avançou, tentando alcançar os ho-

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mens do lado de fora. Era magnífico e terrível. Medindo um metro e meio de comprimento, e com altura de quase um metro, pesava muito mais que qualquer lobo do mesmo tamanho. Herdara de sua mãe as proporções mais pesadas dos cães, e pesava mais de quarenta quilos, sem nenhuma gordura ou carne supérflua. Era só músculos, ossos e tendões, uma máquina de lutar em perfeitas condições. A porta do cercado foi aberta mais uma vez e um grande cão foi empurrado para dentro. Canino Branco nunca havia visto um cão assim. Era um mastim, mas nem o tamanho nem o aspecto feroz do intruso foram capazes de detê-lo. Ali estava algo que não era nem de ferro nem de madeira, onde podia descarregar seu ódio. Deu um salto e com um ataque das presas deixou um rasgo na lateral do pescoço do mastim. Este balançou a cabeça, rosnou roucamente e mergulhou sobre Canino Branco. Mas Canino Branco estava aqui, ali, em todos os lugares, sempre escapando e enganando, o tempo todo saltando adiante, atacando com suas presas e pulando para trás a tempo de evitar a retaliação. Os homens gritavam e aplaudiam, enquanto Beleza Smith, extasiado, delirava com o massacre executado por Canino Branco. O mastim não teve nenhuma chance. Era muito lento e pesado. No final, Beleza Smith afastou Canino Branco com um porrete e o mastim foi arrastado

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pelo dono para fora do cercado. As apostas foram pagas, e Be182

leza Smith encheu os bolsos. Canino Branco passou a esperar ansioso pela aglomeração em torno do seu cercado. Significava uma luta, a única oportunidade de dar vazão ao ódio. Beleza Smith acertara em sua avaliação, ele era imbatível. Um dia, três cães o enfrentaram em sequência. Em outro, um lobo adulto, recém-capturado na Natureza Selvagem, apareceu pela porta. Outro dia, dois cães foram trazidos para enfrentá-lo ao mesmo tempo. Esta foi sua luta mais difícil, e ainda que ao final tivesse matado a ambos, ele mesmo quase morreu. Naquele outono, Beleza Smith comprou passagens para ele e Canino Branco viajarem num barco a vapor que subiria o Yukon até Dawson. Canino Branco já tinha uma reputação na região. Era conhecido como o “Lobo Lutador”, e a gaiola em que era mantido no navio estava sempre cercada por humanos curiosos. Ficava furioso e rosnava para eles, ou então se deitava quieto e os estudava com ódio e frieza. Sua vida se tornara um inferno. Não fora feito para ficar confinado em lugares tão apertados, e, para piorar, as pessoas faziam o que ele mais detestava: apontavam para ele e riam. Aqueles humanos e seu novo ambiente moldaram um ser ainda mais feroz do que fora imaginado pela natureza. Mas a natureza também lhe deu maleabilidade. Onde muitos animais teriam morrido ou desistido, ele se adaptou e sobreviveu, apesar do sacrifício imposto a seu espírito.

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Beleza Smith era seu arqui-inimigo e sua tortura. Cada um enxergava no outro um demônio, e se odiavam sem parar. No

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passado Canino Branco fora sábio o bastante para se submeter a um homem com um porrete, mas agora toda a sabedoria o abandonara. A mera visão de Beleza Smith bastava para enlouquecê-lo. Mesmo após ser afastado com uma porretada, continuava rosnando e mostrando os dentes. Quando o vapor chegou a Dawson, Canino Branco desembarcou. Mas continuou vivendo uma vida pública, numa gaiola, cercado por pessoas curiosas. Era exposto como o “Lobo Lutador”, e as pessoas pagavam cinquenta centavos em pó de ouro para vê-lo. Não havia descanso. Quando se deitava para dormir, era cutucado com uma vara pontuda, para fazer valer o dinheiro da audiência. Para manter a atração interessante, era mantido em um estado de fúria constante. Era tratado como a mais temível das feras selvagens, e cada palavra ou gesto cauteloso das pessoas em volta da gaiola acabava alimentando sua terrível ferocidade. Além de ser uma atração a ser exibida, era um lutador profissional. Em intervalos irregulares, sempre que uma luta podia ser arrumada, era tirado da jaula e levado para a floresta a alguns quilômetros da cidade. Isso era feito à noite, para evitar a interferência da polícia montada. Ao amanhecer, a audiência e o cão contra quem lutaria chegavam. Assim, lutou contra cães de todas as raças e tamanhos. Era uma terra selvagem, e os

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combates terminavam quase sempre em morte. Como Canino 184

Branco continuava lutando, é óbvio que eram os outros cães que morriam. Nunca conheceu a derrota. O treinamento precoce, quando lutava contra Lip-Lip e a matilha de filhotes, o manteve a salvo. Dali veio a tenacidade com que se agarrava ao chão. Nenhum cão era capaz de fazê-lo perder o contato com o solo. Pessoas chegavam a apostar que isso aconteceria, mas Canino Branco sempre as desapontava. E era veloz como um raio, tendo imensa vantagem sobre seus oponentes. Não importava a experiência que tivessem, nunca tinham encontrado um cão que se movesse tão rápido. E ainda havia a questão do imediatismo do seu ataque, sem as preliminares habituais a que os cães estavam acostumados. Isso lhe dava tanta vantagem que virou costume segurar Canino Branco até que o outro cão terminasse suas preliminares e estivesse pronto para realizar seu primeiro ataque. Mas a maior vantagem de todas era a experiência de Canino Branco. Sabia mais sobre lutar do que qualquer um dos que o enfrentaram. Lutara mais vezes, enfrentara mais truques e possuía maior número de macetes, além de já ter um método quase perfeito. Com o tempo passou a lutar cada vez menos, pois ninguém aceitava mais os riscos envolvidos na disputa. Beleza Smith pagou para que índios capturassem lobos e os trouxessem para lutar contra ele. Depois, trouxeram uma lince fêmea adulta, e dessa vez Canino Branco teve que lutar pela vida. Ela era rápida

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e feroz como ele, e, enquanto ele lutava com suas presas, ela usava também suas garras afiadas. Depois da lince, cessaram as

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lutas. Não havia mais animais para enfrentá-lo. Nenhum que tivesse chances. Então continuou sendo exibido até a primavera, quando um tal de Tim Keenan, um crupiê, chegou à região. Com ele veio o primeiro buldogue a chegar ao Klondike. Que aquele cão encontrasse Canino Branco se tornou algo inevitável, e durante uma semana a luta que viria dominou os temas das conversas em certos bairros da cidade.

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CAPÍTULO 18 186

A morte que segurava firme

Beleza Smith soltou a corrente do seu pescoço e recuou. Canino Branco não atacou de imediato, como de costume. Ficou parado, as orelhas voltadas para a frente, alerta e curioso, avaliando o estranho animal. Nunca havia visto um cão assim. Tim Keenan empurrou o buldogue. O animal baixo e atarracado andou desajeitado até o centro do círculo. Parou e piscou para Canino Branco. A multidão gritou: — Pega, Cherokee! Pega! Mas Cherokee não parecia ansioso para lutar. Virou a cabeça e olhou para as pessoas que gritavam, enquanto balançava o cotoco da cauda. Não sentia medo, estava apenas com preguiça. Além disso, não lhe parecia necessário brigar com aquele cão que via à sua frente. Não estava acostumado a lutar com aquela espécie, e esperava que trouxessem o cão de verdade. Tim Keenan entrou no ringue, inclinou-se sobre Cherokee e começou a lhe esfregar o pelo. Aquilo aos poucos foi irritando o buldogue, que começou a rosnar. O rosnado foi aumentando

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junto com o ritmo das mãos. Isso teve um efeito sobre Canino Branco, que eriçou o pelo do pescoço e dos ombros. Tim

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Keenan deu mais um empurrão no buldogue e se afastou. Quando o impulso sobre Cherokee perdeu força, este voltou ao seu andar lento e desajeitado. Foi quando Canino Branco atacou. A multidão gritou admirada. Ele cobrira a distância parecendo mais um gato do que um cão, e com a mesma rapidez felina usou as presas para rasgar e depois recuou ileso. O buldogue sangrava por um rasgo em seu robusto pescoço. Não reagiu, nem mesmo com um rosnado, mas se virou e foi atrás de Canino Branco. A exibição da velocidade de um e da firmeza do outro excitaram a multidão. Outra vez, e depois mais uma vez, Canino Branco saltou, rasgou e recuou sem nenhum arranhão, e seu oponente continuava a segui-lo, sem pressa nem lentidão, determinado e sistemático. Havia propósito em seu método, algo que precisava ser feito e nenhuma distração o impediria de fazê-lo. Toda a sua conduta, através de cada ação, era movida por esse propósito, e isso confundia Canino Branco. Nunca encontrara um cão assim. Era macio e sangrava fácil. Não havia pelo grosso para bloquear seus dentes, como era comum nos outros cães. Seus dentes afundavam com facilidade e o animal não parecia capaz de se defender. Outra coisa perturbadora era que não fazia barulho, como era comum nos outros cães que já enfrentara. Fora um rosnado ou grunhido, o

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cão aceitava a punição em silêncio. E não deixava de perse188

guir Canino Branco. Não que Cherokee fosse lento. Podia se virar e rodopiar com bastante rapidez, mas Canino Branco nunca estava lá. Cherokee estava confuso também. Nunca lutara com um cão do qual não conseguisse se aproximar. O desejo de lutar corpo a corpo sempre fora mútuo. Mas ali estava um cão que mantinha distância, dançando e driblando para todo lado. E que, ao cravar seus dentes nele, não agarrava, mas soltava de imediato e recuava. Canino Branco não conseguia alcançar a região macia da garganta. O buldogue era muito baixo, e suas mandíbulas maciças uma proteção a mais. Canino Branco atacava e recuava ileso enquanto Cherokee ficava cada vez mais ferido. Sangrava muito e não parecia se perturbar com isso. Continuava sua perseguição incessante. Canino Branco atacou e recuou mais uma vez, rasgando o que restava de uma orelha. Com uma rápida manifestação de ira, Cherokee retomou a perseguição, tentando encaixar sua mordida mortal na garganta de Canino Branco. O buldogue errou por um triz, e a multidão gritou excitada enquanto Canino Branco escapava do perigo. O tempo passava. Canino Branco continuava dançando, saltando e driblando, sempre causando algum dano. E o buldogue continuava firme e determinado na perseguição. Cedo ou tarde conseguiria seu objetivo, e conseguiria a pegada que venceria a batalha. Enquanto isso, aceitava toda a punição. Suas

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orelhas pareciam trapos, o pescoço e os ombros retalhados em vários lugares, e até seus lábios estavam cortados e sangravam.

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Canino Branco tentou várias vezes derrubar Cherokee, mas a altura dele era muito diferente. Cherokee era muito atarracado, ficava perto demais do chão. Uma oportunidade surgiu em um dos rodopios. Ele pegou Cherokee com a cabeça virada para o outro lado e com o ombro exposto. Canino Branco atacou com tudo, mas seu próprio ombro estava muito acima, e o golpe foi dado com tanta força que ele acabou rolando por cima do corpo do oponente. Pela primeira vez em toda a sua história de lutas, Canino Branco foi visto de pernas para o ar. Seu corpo deu uma cambalhota no ar, e ele teria caído de costas no chão se não tivesse girado, como um gato, num esforço para trazer as patas de volta ao solo. Acabou caindo de lado com toda a força no chão. Logo depois já estava de pé, mas ao mesmo tempo os dentes de Cherokee se fecharam em torno de sua garganta. Não foi uma boa pegada, baixa demais, mais perto do peito, e Cherokee agarrou firme. Canino Branco ficou de pé e correu de um lado para outro, tentando se livrar do buldogue. Aquele corpo pesado pendurado em seu pescoço limitava seus movimentos. Era como uma armadilha, e todo o seu instinto reagiu. Era uma revolta frenética que durou vários minutos. A vontade de existir que vivia em seu corpo tomou conta dele. Toda a inteligência deu passagem para o amor à vida. Era como se não tivesse cérebro. Assim, rodopiou para um lado e para o outro,

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tentando sacudir aqueles vinte e poucos quilos agarrados à sua 190

garganta. O buldogue pouco fazia além de manter a pegada. Em ocasiões raras punha as patas no chão, podendo medir forças com Canino Branco. Mas logo em seguida era levantado e girado em mais um dos loucos rodopios. Sabia que fazia a coisa certa, e se satisfazia com isso. Mas o que importava de verdade para ele era manter a pegada, e foi o que fez. Canino Branco só parou quando ficou exausto. Não entendia como não conseguia fazer nada. Nunca, em toda a sua carreira de lutador, isso acontecera. Os cães contra os quais lutara não combatiam assim. Com eles era uma questão de mordidas e recuos em sucessão. Deitou-se meio de lado, ofegante. Cherokee, ainda mantendo a pegada, se lançou sobre ele, tentando fazê-lo se deitar todo de lado. Canino Branco resistiu. Podia sentir as mandíbulas mudando a pegada, relaxando de leve e mordendo de novo, como se mastigasse. Cada movimento fazia a pegada se aproximar da garganta. O método do buldogue era se agarrar como podia e aguardar a oportunidade para melhorias. Oportunidades surgiam quando Canino Branco ficava quieto. Enquanto Canino Branco lutava, Cherokee se contentava em se manter firme. A única parte do corpo de Cherokee que Canino Branco podia alcançar era sua nuca protuberante. Com os dentes, segurou-a perto da base do pescoço, junto dos ombros. Mas não conhecia a técnica de mastigar, nem suas mandíbulas eram adaptadas para isso. Em vez disso, usava as presas para dar mordidas

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e tentar achar um espaço. O buldogue conseguiu rolá-lo e, sem largar a garganta, ficou sobre ele. Canino Branco arqueou-se

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como um gato e, com as patas traseiras, começou a arranhar a barriga do inimigo, como se cavasse. Cherokee poderia ter sido estripado se não tivesse reagido rápido e pivotado sua pegada para sair de cima de Canino Branco. Não havia como escapar daquela pegada. Aos poucos ela se aproximou da jugular. O que salvava Canino Branco da morte era a pele solta do seu pescoço e a grossa pelagem que a cobria, que formavam um grande rolo dentro da boca de Cherokee. Mas, lentamente, sempre que surgia uma chance, o buldogue puxava um pedacinho de pele solta e pelo para dentro da boca. O resultado era o lento sufocamento de Canino Branco, que respirava cada vez com mais dificuldade. Parecia que a batalha terminara. A torcida de Cherokee ficou exultante e começou a oferecer apostas ridículas. Os torcedores de Canino Branco ficaram deprimidos na mesma proporção. Só Beleza Smith teve coragem de fechar uma aposta de cinquenta para um. Ele deu um passo dentro do ringue, apontou o dedo para Canino Branco e começou a rir debochadamente. Isso produziu o efeito esperado. Canino Branco se enfureceu. Buscou suas últimas reservas de energia e ficou de pé. Enquanto lutava, os vinte e poucos quilos do seu oponente ainda pendurados em sua garganta transformaram raiva em pânico. Seu instinto vital o dominou mais uma vez, e ele perdeu a razão. Deu várias voltas

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para todos os lados e para cima e para baixo, tentando em vão se 192

livrar da morte, que o segurava firme. Desabou afinal, exausto. O buldogue mudou a pegada de imediato, chegando mais perto do ideal e o sufocando cada vez mais. Aplausos e gritos começaram a pipocar, saudando o vencedor. Cherokee respondeu abanando o toco de rabo com vigor, mas sem se distrair. Cauda e mandíbulas não se relacionavam. Uma podia abanar, mas as outras mantinham a pegada terrível na garganta de Canino Branco. Foi quando o tilintar de sinos distraiu os espectadores, que, em seguida, ouviram gritos de homens conduzindo trenós. Todos, exceto Beleza Smith, ficaram apreensivos, com medo de ser a polícia. Mas eram apenas dois homens vindo pela trilha em um trenó com cães. Era evidente que chegavam de alguma viagem exploratória para os lados do córrego. Quando viram a multidão, pararam os trenós e vieram se juntar ao grupo, curiosos para saber qual era a causa de toda aquela excitação. O condutor usava bigode, mas o outro, um homem mais alto e jovem, estava barbeado. Canino Branco tinha parado de lutar. De vez em quando resistia, com espasmos sem objetivo algum. Conseguia muito pouco ar, e cada vez menos devido à pegada inclemente que só apertava. Mesmo com sua armadura de pelo, a grande veia da sua garganta já teria sido rasgada se a pegada inicial não tivesse sido tão baixa. Cherokee gastara muito tempo subindo a pegada pescoço acima, e isso enchera sua boca de pelo e dobras de pele.

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A brutalidade mais profunda de Beleza Smith aflorou nesse momento e tomou conta do seu cérebro, dominando qual-

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quer resto de sanidade que ainda possuísse. Quando viu os olhos de Canino Branco começarem a embaçar, soube que a luta estava perdida. Foi quando se descontrolou. Avançou sobre Canino Branco e começou a chutá-lo com selvageria. Houve vaias e protestos, mas não passou disso. Beleza Smith continuava a chutar Canino Branco, quando houve comoção entre a multidão. O jovem recém-chegado forçava a passagem, empurrando com os ombros os homens à sua esquerda e à sua direita, sem cerimônia ou gentileza. Quando entrou no ringue, Beleza Smith estava no meio de mais um chute. Todo o seu peso se apoiava em um pé só quando o recém-chegado lhe desferiu um soco direto na cara. Beleza Smith foi jogado de costas na neve. O recém-chegado se virou para a multidão: — Covardes! — gritou furioso. — Selvagens! Beleza Smith se levantou e veio na direção dele, fungando, acovardado. O recém-chegado não entendeu nada. Não conhecia a covardia do outro e imaginara que ele reagiria lutando. Então, com outro xingamento, aplicou um segundo soco em Beleza Smith, que caiu de costas na neve e lá preferiu ficar. — Venha, Matt, me ajude aqui — o recém-chegado chamou o condutor do trenó, que o havia seguido para dentro do ringue. Inclinaram-se sobre os cães. Matt segurou Canino Branco, pronto para puxá-lo quando as mandíbulas fossem abertas. O

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homem mais jovem tentou fazer isso, mas não teve sucesso, por 194

mais que tentasse. A cada tentativa fracassada, exclamava, ao retomar o fôlego: — Selvagens! A multidão começou a se agitar e alguns protestavam contra a interrupção. Mas ficaram quietos quando o recém-chegado os encarou por um momento. — Não tem jeito, Sr. Scott. Não vai conseguir separá-las assim — disse Matt. O recém-chegado estava cada vez mais aflito com a situação, e passou a golpear Cherokee na cabeça com selvageria. Mas isso não aliviou a pegada. Cherokee abanava o rabo. Sabia que tinha direito de continuar mantendo a pegada, e isso era apenas seu trabalho. — Ninguém vai ajudar? — Scott gritou, desesperado. Nenhuma ajuda foi oferecida. Em vez disso, começaram a debochar dele e a lhe oferecer conselhos absurdos. — O senhor precisa de uma alavanca — sugeriu Matt. O outro levou a mão ao coldre que trazia pendurado na cintura, pegou um revólver e tentou enfiar o cano da arma por entre as mandíbulas do buldogue. Forçou passagem até que fosse possível ouvir o ranger do ferro contra os dentes cerrados. Os dois homens estavam de joelhos, debruçados sobre os cães. Tim Keenan entrou no ringue. Parou ao lado de Scott, tocou-o no ombro e disse em tom de ameaça:

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— Ei, cara, não quebre os dentes dele. — Então precisarei quebrar o pescoço — Scott retrucou,

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continuando a forçar passagem com o cano do revólver. — Disse para não quebrar os dentes dele — o crupiê repetiu, ainda mais ameaçador. Se blefava, não funcionou. Scott não desistiu do seu objetivo, mas olhou tranquilo para o outro e perguntou: — É seu cachorro? O crupiê resmungou. — Então venha cá e o faça soltar a pegada. — Ora — o outro falou pausadamente —, está aí um truque que nunca aprendi. — Então saia da frente — foi a resposta. — E não me incomode. Estou ocupado. Tim Keenan continuou parado ao seu lado, mas Scott não tomou mais conhecimento da sua presença. Tinha conseguido enfiar o cano por entre os dentes de um lado e tentava fazer com que saísse pelo outro lado. Quando conseguiu, com cuidado e cautela, usou o cano como uma alavanca, afrouxando a mordida um pouco de cada vez, enquanto Matt, lentamente, soltava o pescoço mastigado de Canino Branco. — Apronte-se para receber seu cão — foi a ordem categórica de Scott para o dono de Cherokee. O crupiê obedeceu e segurou firme o cão. — Agora! — Scott avisou, dando a alavancada final.

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Os cães foram afastados um do outro, o buldogue lutando 196

com vigor. — Leve-o daqui! — ordenou Scott. Tim Keenan arrastou Cherokee para longe. Canino Branco tentou ficar de pé, sem sucesso. Chegou a se levantar, mas as pernas estavam fracas demais e ele voltou a se deitar. Seus olhos estavam mortiços. Não conseguia fe­char a boca, e a língua permanecia pendurada para fora. Parecia um cão que fora estrangulado até a morte. Matt o examinou. — A mordida quase furou a veia, mas está respirando bem. Beleza Smith havia se levantado e vindo ver Canino Branco de perto. — Matt, quanto vale um bom cão de trenó? — Scott perguntou. O condutor, ainda de joelhos, calculou por um momento. — Trezentos dólares — respondeu. — E quanto vale um que esteja todo mastigado como esse aí? — Scott perguntou, apontando Canino Branco com o pé. — Metade disso — foi o veredito do condutor. Scott se virou para Beleza Smith. — Ouviu isso, Sr. Selvagem? Vou levar seu cachorro por cento e cinquenta dólares. Abriu a carteira e contou as notas. Beleza Smith pôs as mãos para trás e se recusou a receber o dinheiro.

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— Não está à venda — disse. — Ora, se está — o outro garantiu. — Porque estou com-

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prando. Aqui está seu dinheiro. O cão é meu. Beleza Smith começou a recuar, ainda com as mãos para trás. Scott avançou sobre ele, armando outro soco. Beleza Smith se encolheu com a ameaça. — Tenho meus direitos — choramingou. — Perdeu qualquer direito sobre esse cão — foi a resposta. — Vai aceitar o dinheiro ou vou precisar bater de novo em você? — Tudo bem — Beleza Smith falou. — Mas aceitarei o dinheiro sob protesto. O cão é meu. Um homem tem seus direitos. — Correto — Scott respondeu, passando o dinheiro para ele. — Um homem tem seus direitos. Mas você não é um homem. É um animal. — Espere até eu voltar para Dawson — Beleza Smith ameaçou. — A lei vai tratar disso. — Se você falar muito quando voltar para Dawson, vou expulsá-lo da cidade, entendeu? Beleza Smith respondeu com um grunhido. — Entendeu? — trovejou o outro, feroz. — Sim — Beleza Smith resmungou e se afastou, encolhido.

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Scott voltou para perto de Matt para ajudá-lo com Cani198

no Branco. Alguns dos homens já partiam, outros permaneceram em grupos, olhando e conversando. Tim Keenan se juntou a um dos grupos. — Quem é esse sujeito? — perguntou. — Weedon Scott — alguém respondeu. — E quem é esse tal de Weedon Scott? — o crupiê quis saber. — É um desses sabichões da mineradora. Unha e carne com os figurões. Se quer se manter afastado de problemas, fique fora do seu caminho. Ele é bem relacionado com as autoridades. — Achei que fosse alguém importante — foi o comentário do crupiê. — Foi só por isso que mantive minhas mãos longe dele.

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CAPÍTULO 19

O indomável

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— Não há esperança — Weedon Scott concordou. Sentado num degrau da entrada de sua cabana, fitava o condutor de trenó, que respondeu com o mesmo desânimo. Olhavam para Canino Branco na ponta da corrente esticada, rosnando feroz, tentando alcançar os cães do trenó. Estes tinham aprendido, na base do porrete, a deixar Canino Branco em paz e a ignorar sua presença. — É um lobo, não pode ser domado — disse Weedon Scott. — Olhe, não estou tão certo disso — Matt discordou. — Pode ser um bocado cachorro, até onde posso dizer. Tem só uma coisa que tenho certeza. O condutor de trenó parou e assumiu um ar misterioso. — Conte logo o que você sabe. Diga. O que foi? — Scott disse seco, depois de esperar por um tempo razoável. O condutor apontou para Canino Branco. — Lobo ou cão, dá no mesmo, ele já foi domado. — Não!

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— Com certeza, e foi treinado para puxar trenós. Olhe aqui 200

de perto. Consegue ver as marcas cruzando o peito? — Tem razão, Matt. Era um cão de trenó antes de pertencer a Beleza Smith. — E não há motivos para que não volte a puxar trenós. — Será? Estamos com ele há duas semanas e parece mais selvagem que nunca. — Ele merece uma chance. Solte-o um pouco. — Foi o conselho de Matt. O outro o olhou, incrédulo. — Sim — Matt continuou. — Sei que você já tentou, mas não tinha um porrete. — Pode tentar. O condutor de trenó pegou um porrete e foi em direção ao animal acorrentado. Canino Branco olhava atento para o porrete. — Veja como mantém o olho no porrete e não ousa atacar — Matt disse. — É um bom sinal. Não é bobo nem louco. Quando a mão do homem se aproximou do seu pescoço, Canino Branco eriçou o pelo, rosnou e se encolheu. Mas, ao mesmo tempo que vigiava a mão que se aproximava, mantinha-se atento ao porrete na outra. Matt soltou a corrente e deu um passo para trás. Canino Branco mal conseguia perceber que estava livre. Tinha passado vários meses em posse de Beleza Smith e, durante todo esse tempo, não tinha tido um momento sequer de

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liberdade, exceto quando estava lutando com outros cães. Não sabia o que fazer. Alguma maldade podia estar sendo prepara-

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da por aqueles deuses. Andou devagar e com cautela, preparado para qualquer surpresa. Afastou-se dos dois deuses que o observavam e se dirigiu com cuidado até um dos cantos da cabana. Nada aconteceu. Estava perplexo e voltou parando várias vezes para olhar os homens com atenção. — Ele não vai fugir? — O novo dono perguntou. Matt deu de ombros. — O único jeito de descobrir é ver o que acontece. — Pobre coitado. Só precisa de alguma compaixão — disse Scott com pena, antes de se virar e entrar na cabana. Voltou com um pedaço de carne, que jogou para Canino Branco. Este deu um pulo para trás e, cheio de suspeitas, analisou a comida de longe. — Major, não! — Matt deu o grito de alerta para um cão, tarde demais. Major correu até a carne. Assim que a mordeu, foi atacado por Canino Branco e jogado no chão. Matt correu para intervir, mas Canino Branco foi mais rápido. Major tentou se levantar, mas o sangue que jorrava de sua garganta pintou a neve de vermelho. — É uma pena, mas ele mereceu — disse Scott. Matt já tinha armado o chute. Houve um salto, dentes entraram em cena, e ouviu-se um grito de dor. Canino Branco,

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rosnando feroz, se afastou, enquanto Matt examinava a pró202

pria perna. — Me pegou em cheio — anunciou, apontando para as roupas rasgadas e a mancha vermelha que crescia. — Eu lhe disse que não há esperança, Matt — Scott disse, desanimado. Ainda relutante, pegou o revólver e conferiu seu conteúdo. — Veja bem, Sr. Scott — Matt ponderou. — Esse cão viveu um inferno. Ele precisa de algum tempo. O senhor mesmo admitiu que Major mereceu. Um cão que não briga pela própria comida não é digno sequer do inferno. E eu também mereci, pois estava prestes a castigá-lo sem que tivesse feito nada errado. Não tinha o direito de chutá-lo. — Seria um ato de misericórdia — Scott insistiu. — Ele é indomável. — Dê uma chance ao pobre-diabo, Sr. Scott. É só a primeira vez que fica solto. Se depois de uma chance justa ele não mostrar nenhum progresso, eu mesmo trato de matá-lo. — Deus sabe que não quero vê-lo morto — Scott respondeu, afastando o revólver. — Vamos deixá-lo solto e ver como será afetado por um pouco de bondade. Vamos começar agora. Andou em direção a Canino Branco e começou a falar num tom suave e gentil. — Melhor ter um porrete à mão — Matt alertou.

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Canino Branco ficou desconfiado. Algo estava prestes a acontecer. Tinha matado o cão daquele deus e mordido o ou-

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tro deus. Só podia esperar uma punição terrível. Eriçou o pelo e mostrou os dentes, preparado para qualquer coisa. O deus não tinha um porrete. Então permitiu que chegasse bem perto. A mão do deus baixou sobre sua cabeça. Canino Branco tremeu e ficou cada vez mais tenso enquanto se encolhia. O perigo estava logo ali. Conhecia a habilidade das mãos dos deuses para dominar e machucar. Além disso, havia sua aversão a ser tocado. Rosnou ameaçador e se encolheu ainda mais rente ao chão, e mesmo assim a mão desceu. Não queria morder a mão, e tolerou a ameaça até a hora em que o instinto falou mais alto. Weedon Scott acreditava que seria rápido o bastante para evitar qualquer mordida. Mas ainda precisava conhecer a notável velocidade de Canino Branco, que o atacou com a precisão e a rapidez de uma serpente. Scott gritou de dor e surpresa, segurando a mão ferida com a outra. Matt, praguejando, veio para junto do patrão. Canino Branco se encolheu e recuou, com o pelo eriçado e mostrando as presas. Agora tinha certeza de que levaria uma surra, como as piores dadas por Beleza Smith. — Ei, o que você está fazendo? — Scott gritou de repente. Matt entrara correndo na cabana e voltara com um rifle. — Nada — respondeu devagar, fingindo estar calmo —, estou apenas cumprindo a promessa que fiz. — Não faça isso!

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Da mesma maneira que Matt havia suplicado pela vida 204

de Canino Branco quando fora mordido, agora era a vez de Weedon Scott. — Você disse que devíamos dar a ele uma chance. Então lhe dê essa chance. Isso foi só o começo, e não podemos desistir no começo. Veja como ele olha para você. Sabe para que servem as armas. Ele é inteligente e temos que dar uma chance para essa inteligência. Guarde essa arma. Matt concordou e apoiou o rifle numa pilha de lenha. Canino Branco se acalmou e parou de rosnar. Matt pegou o rifle de novo e, na mesma hora, Canino Branco rosnou. Quando se afastou do rifle, Canino Branco parou de exibir os dentes. — O senhor tem razão. Esse cão é esperto demais para ser morto assim.

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CAPÍTULO 20

O senhor do amor

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Enquanto via Weedon Scott se aproximar, Canino Branco rosnava e eriçava o pelo, avisando que resistiria à punição. Vinte e quatro horas tinham se passado desde que rasgara a mão agora enfaixada e pendurada numa tipoia. Já experimentara punições adiadas no passado, e temia que isso acontecesse. Como seria diferente? Cometera um sacrilégio: afundar os dentes na carne de um deus. O deus se sentou a alguns metros de distância. Canino Branco não via nada de perigoso nisso. Quando os deuses punem, fazem isso de pé. Além disso, o deus não trazia nem porrete nem chicote nem arma de fogo. Ainda por cima, ele mesmo estava livre. Não havia corrente nem vara prendendo-o. Poderia escapar em segurança caso fosse preciso. Enquanto isso, aguardaria, observando. O deus continuou quieto, sem se mexer. O rosnar de Canino Branco diminuiu de intensidade bem devagar, até cessar por completo. O deus falou, e ao primeiro som de sua voz o pelo de Canino Branco se arrepiou e o rosnar voltou à gar-

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ganta. Mas o deus não demonstrou hostilidade e continuou 206

sua fala mansa. Por algum tempo Canino Branco rosnou em coro, voz e rosnado no mesmo ritmo. Mas o deus não parava de falar. Falava com Canino Branco de um modo que ninguém nunca havia falado antes, num tom tão suave e gentil que, de algum modo, o tocou. Apesar de toda a desconfiança instintiva, Canino Branco começou a confiar naquele deus. Um sentimento de segurança que desmentia toda a sua experiência prévia com as pessoas. Depois de algum tempo, o deus se levantou e entrou na cabana. Quando voltou, foi examinado de forma atenta e apreensiva por Canino Branco. Sentou-se no mesmo lugar. Mostrou um pequeno pedaço de carne. Canino Branco levantou as orelhas e o investigou com cuidado, tentando manter o olho ao mesmo tempo na carne e no deus, alerta para qualquer ação, o corpo tenso e pronto para saltar para longe ao primeiro sinal hostil. Mas a punição continuava adiada. O deus apenas segurava a carne diante dele, e não parecia haver nada de errado com ela. Canino Branco continuava desconfiado enquanto a carne era mostrada para ele. Afinal, o deus jogou a carne na neve perto das patas de Canino Branco, que a cheirou com cuidado sem tirar os olhos do deus. Nada aconteceu. Pegou a carne com a boca e a engoliu. Nada aconteceu ainda. O deus ofereceu outro pedaço. Mais uma vez ele se recusou a pegar a carne direto de sua mão. De novo,

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o deus jogou o pedaço de carne no chão. Isso se repetiu algumas vezes. Até que o deus não jogou o pedaço de carne no chão.

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Continuou segurando-o na mão e o ofereceu com firmeza. A carne era boa e Canino Branco tinha fome. Um pouquinho de cada vez, com extrema cautela, aproximou-se da mão, até criar coragem para comer a carne. Sem tirar os olhos do deus, esticou a cabeça para a frente, com as orelhas achatadas para trás e o pelo da nuca eriçado. Um rosnado baixo vibrava em sua garganta como um aviso de que não estava para brincadeiras. Comeu a carne, e nada aconteceu. Um pedaço de cada vez, comeu todo o resto e a punição não veio. Lambeu os beiços e esperou. O deus começou a falar. Havia gentileza em sua voz, algo que Canino Branco não experimentara até então. Dentro dele brotaram sentimentos que nunca sentira antes. Tinha consciência de alguma estranha satisfação, como se alguma necessidade tivesse sido atendida. Então foi dominado mais uma vez com um cutucão do instinto, que o alertou sobre as experiências passadas. Os deuses eram cheios de artimanhas e conseguiam o que queriam de formas inesperadas. Ah, bem que ele sabia! Lá vinha a mão do deus, capaz de machucar, descendo sobre sua cabeça. Mas o deus continuou falando. Sua voz era macia e suave. A despeito da mão ameaçadora, a voz inspirava confiança. E, apesar da voz tranquilizadora, a mão causava desconfiança. Canino Branco se dividia entre sentimentos e impulsos conflitantes. Parecia que explodiria em

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pedaços, tão terrível era o controle que precisava exercer en210

quanto forças opostas lutavam para dominar sua vontade. Chegou a uma solução de compromisso. Rosnou, eriçou o pelo e achatou as orelhas. Mas nem mordeu nem saltou para longe. A mão desceu. Cada vez mais perto, até tocar a ponta de seus pelos eriçados. Canino Branco se encolheu. A mão subiu e desceu num movimento de afago e carinho. Os tapinhas continuaram por um tempo, mas a cada vez que a mão subia, o pelo se eriçava, e a cada vez que a mão baixava, as orelhas se achatavam e um rosnado cavernoso lhe surgia na garganta. Mas o deus falava macio, e a mão continuou subindo e descendo em afagos amistosos. Canino Branco experimentava sensações ambíguas. Era algo desagradável para seu instinto. Mas não era doloroso fisicamente. Pelo contrário, era até aprazível. Os tapinhas deram lugar a um esfregar das orelhas perto das bases, e o prazer físico até aumentou um pouco. Mesmo assim continuava com medo, de guarda, receo­ so de alguma maldade inesperada, alternando entre o prazer e o sofrimento. — Com mil diabos! Era Matt, saindo da cabana para esvaziar uma panela com água suja depois de lavar a louça. Assim que a voz rompeu o silêncio, Canino Branco saltou para trás e rosnou selvagem para ele. Matt fitou Scott com um olhar de desaprovação.

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— Se me permite a franqueza, Sr. Scott, o senhor é maluco de dezessete formas diferentes, além das outras que ainda não

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descobri. Weedon Scott sorriu com um ar superior, ficou de pé e andou na direção de Canino Branco. Falou suavemente com ele por pouco tempo e, bem devagar, pôs a mão sobre sua cabeça, reassumindo o afago interrompido. Canino Branco conservou a mesma atitude, mas manteve os olhos desconfiados, não no homem que lhe dava tapinhas, mas no outro que estava na porta da cabana. — O senhor pode ser o melhor especialista em mineração, é verdade — Matt continuou. — Mas perdeu a chance da vida quando era criança e não fugiu com o circo. Canino Branco rosnou com o som da voz, mas dessa vez não se afastou da mão que lhe acariciava a cabeça e a nuca com movimentos longos e tranquilizadores. Era o começo do fim para Canino Branco. O fim de uma vida dominada pelo ódio e o despertar de uma vida mais justa e razoável. Foi algo que exigiu muito pensamento e paciência infinita de Weedon Scott. Da parte de Canino Branco, foi necessário nada menos que uma revolução. Precisou ignorar os apelos e alertas do seu instinto e da sua razão e desafiar a experiência. Tudo o que já tinha vivido teve que ser abandonado. A mudança de rumo foi maior até do que a ocorrida quando saiu da Natureza Selvagem por vontade própria e aceitou Castor Cinzento

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como seu senhor. Era só um filhote na época, pronto para ser 212

moldado pelas circunstâncias. Agora era diferente, e as circunstâncias haviam feito muito bem seu trabalho. Fora transformado no Lobo Lutador, feroz e implacável, incapaz de amar e de ser amado. Para realizar tanta mudança era preciso inverter todo o sentido de uma fibra enrijecida e cheia de nós, sem a maleabilidade da juventude. Nesse novo sentido, também foi o poder das circunstâncias que o pressionou e o cutucou, amolecendo o que se tornara rígido, dando a ele uma forma mais razoável. Weedon Scott foi o agente desse poder. Ele foi até as profundezas da natureza de Canino Branco, e com carinho tocou as forças vitais que definhavam ali. Uma dessas forças era o amar, que substituiu o gostar, que outrora fora o mais alto sentimento em sua relação com os deuses. Mas esse amor não veio da noite para o dia. Começou com gostar e evoluiu aos poucos. Canino Branco não fugia, mesmo ficando solto, porque gostava desse novo deus. Com certeza era melhor que a vida na gaiola de Beleza Smith, e era preciso que tivesse algum deus. O domínio dos humanos era uma necessidade da sua natureza. Como precisava de um deus e gostava mais de Weedon Scott do que de Beleza Smith, Canino Branco ficou. Numa demonstração de lealdade, assumiu a tarefa de guardar a propriedade do seu dono. Ficava de vigia próximo à cabana enquanto os cães do trenó dormiam, e logo aprendeu a diferenciar os

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ladrões dos honestos, prestando atenção na forma como andavam e agiam. Os que chegavam sorrateiros e procurando as

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sombras logo eram condenados por Canino Branco e precisavam fugir correndo. Weedon Scott havia se incumbido da tarefa de resgatar Canino Branco numa tentativa de redimir a humanidade pelo mal causado ao animal. Tentava ser o mais carinhoso possível e fazia questão de acariciá-lo todos os dias. Primeiro desconfiado e hostil, Canino Branco começou a gostar dos afagos. Mas nunca deixou de rosnar enquanto os recebia. Era um rosnado num tom diferente. Um desconhecido poderia não reparar nesse tom e achar que o rosnado de Canino Branco era uma demonstração de selvageria. Mas a garganta de Canino Branco estava calejada de tanto fazer sons ferozes, desde seu primeiro acesso de raiva na toca de sua infância, e não podia suavizar os sons para expressar a mansidão que sentia. A audição e a percepção de Scott eram boas o bastante para perceber esse novo tom. Com o passar dos dias a evolução do gostar em amar se acelerou. Canino Branco começou a perceber isso. Ainda que amor não fosse algo consciente, sentia um vazio em seu ser, um vazio faminto, dolorido e ansioso que clamava por ser preenchido. Era uma dor e um desconforto que só amenizavam pela presença do seu deus. Apesar da maturidade vinda com os anos e da rigidez selvagem do molde que o formou, a natureza de Canino Branco se expandia. Sentimentos e impulsos inusitados

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desabrochavam, e seu antigo código de conduta sofria mudan214

ças. Gostar acabou substituído por amar. O amor conseguiu tocar as profundezas do seu ser que nunca haviam sido tocadas antes. E a resposta que veio dessas profundezas foi essa sensação nova para Canino Branco: o amor. Era como se fosse um deus. O deus-amor, um deus caloroso e radiante, que fez a natureza de Canino Branco desabrochar como uma flor ao sol. Mas Canino Branco não era efusivo. Já estava velho demais para se expressar de novas maneiras. Nunca havia latido, e agora não podia aprender a latir quando seu deus se aproximava. Seu amor era sempre expressado de forma sutil. Nunca corria para encontrar seu deus. Esperava à distância, mas sempre esperava, sempre estava lá. Seu amor assumia traços de um culto, uma adoração silenciosa. Somente a firme atenção dos seus olhos expressava seu amor. Quando seu deus o olhava e falava com ele, deixava trair um estranho constrangimento causado pela luta do amor que queria se expressar e a incapacidade física de expressá-lo. Teve que se ajustar de muitas maneiras. Precisou se impor a deixar os cães do seu deus em paz. Quando conquistou esse controle, passou a ter poucos problemas com eles, que, por outro lado, o deixavam em paz e obedeciam a suas vontades quando era preciso. Da mesma forma, passou a tolerar Matt, que era quem o alimentava. Mas Canino Branco imaginava que o alimento era de seu dono e, portanto, era seu dono que o alimentava.

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Foi Matt que tentou vesti-lo com os arreios do trenó para que o puxasse com os outros cães, sem sucesso. Só quando Weedon

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Scott pôs os arreios em Canino Branco ele entendeu. Tomou como se fosse o desejo do seu dono que Matt trabalhasse com ele, assim como conduzia os outros cães do dono. Os trenós do Klondike eram diferentes dos tobogãs do Mackenzie, pois usavam lâminas como patins. E o método de conduzir os cães também era distinto. Não havia formação em leque. Os cães seguiam em uma única fila, puxando tirantes duplos. E, no Klondike, o líder era mesmo o líder. O cão mais forte e experiente era o líder, e o grupo lhe obedecia e o temia. Era inevitável que Canino Branco logo ganhasse esse posto, e Matt descobriu isso depois de alguns problemas. Mas, mesmo quando trabalhava no trenó durante o dia, Canino Branco não abria mão de tomar conta da propriedade do seu dono durante a noite. No final da primavera, Canino Branco passou por uma grande aflição. Sem aviso, o senhor do amor desapareceu. Não entendera o significado da mala feita, e na noite da partida ficou esperando o retorno do dono. À meia-noite o vento gelado o obrigou a procurar abrigo no fundo da cabana, onde adormeceu, meio desperto, com os ouvidos atentos a qualquer som familiar. Às duas da manhã, a ansiedade que sentia o trouxe de volta para a fria soleira da porta, onde se encolheu e esperou. Mas o dono não veio. Quando Matt abriu a porta da cabana na manhã seguinte, encontrou-o encolhido junto à fria soleira

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da porta. Canino Branco o encarou, ansioso, mas não havia 216

como responder às perguntas que queria fazer. Os dias se passaram. Canino Branco nunca havia ficado doente, mas dessa vez ficou tão doente que Matt acabou precisando trazê-lo para dentro da cabana. Ao escrever para o patrão, relatou: “O maldito lobo não quer trabalhar. Nem comer. Parece não ter mais vontade de viver. Quer saber onde você está, mas não sei o que dizer a ele. Talvez morra logo”. E era verdade, Canino Branco não comia mais. Ficava deitado no chão da cabana, junto ao fogão, sem interesse por nada. Matt podia falar com ele com gentileza ou rogar pragas, dava no mesmo. Ele mal chegava a olhar para o homem, e depois retornava à mesma posição. Então, certa noite, Matt foi surpreendido por um ganido baixinho de Canino Branco, que se levantou. Logo depois Matt ouviu passos. A porta foi aberta, e Weedon Scott entrou. Os homens apertaram as mãos. Weedon Scott olhou em volta: — Cadê o lobo? — perguntou. Ali estava ele, de pé ao lado do fogão. Não correu como outros cães teriam feito. Ficou parado, olhando e esperando. — Com mil diabos! — Matt exclamou. — Olha só ele abanando o rabo! Weedon Scott avançou pela sala em sua direção enquanto o chamava. Canino Branco veio até ele, sem grandes alvoroços, mas com rapidez. Weedon Scott se agachou, ficou cara a

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cara com Canino Branco e começou a afagá-lo, esfregando-lhe a base das orelhas e fazendo movimentos amplos do pescoço

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até os ombros. Canino Branco rosnou em resposta com aquele tom cantado. Mas não parou aí. Toda aquela alegria causada pelo grande amor que sentia, aflorando e lutando para aparecer, acabou encontrando uma nova forma de expressão. De repente, Canino Branco enfiou a cabeça entre o corpo e o braço do dono. Ali, escondido da vista de todos, parou de rosnar e ficou cutucando e se aconchegando. Os dois homens se entreolharam. Os olhos de Scott brilhavam. — Eu sempre disse que esse lobo era um cachorro, olhe só isso! — disse Matt. Com a volta do senhor do amor, a recuperação de Canino Branco foi rápida. Ele passou mais duas noites e um dia inteiro dentro da cabana. Quando saiu pela primeira vez, os outros cães do trenó tinham esquecido o seu valor. Só se lembravam do passado recente e de sua fraqueza e doença. Assim que saiu da cabana, avançaram nele. Matt chegou a encorajar Canino Branco, mas nem seria preciso. O retorno do senhor do amor era o bastante. A vida pulsava mais uma vez, esplêndida e indomável. Lutou com pura alegria, e só poderia haver um desfecho: a matilha se dispersou numa derrota humilhante. Tendo aprendido a se aconchegar, Canino Branco repetia sempre que possível. Nunca tinha tolerado que lhe tocassem

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a cabeça. O medo de se machucar ou cair em uma armadilha 218

era um instinto natural. Mas agora, com o senhor do amor, seu aconchego era um ato deliberado de se colocar em uma posição de total vulnerabilidade. Era a expressão da confiança perfeita e da entrega absoluta. Uma noite, Scott e Matt jogavam cartas antes de ir dormir. Matt contava quantos pontos tinha feito quando ouviram um grito e sons de rosnados. — O lobo pegou alguém — Matt disse enquanto se levantavam. — Traga uma luz! — Scott gritou, enquanto saía porta afora. Matt o seguiu com um lampião, e a luz mostrou um homem deitado na neve. Os braços estavam dobrados, um sobre o outro, protegendo o rosto e a garganta. Tentava assim bloquear o ataque feroz de Canino Branco. O casaco de flanela azul já fora reduzido a trapos sujos, e sangue lhe escorria dos braços lanhados. Isso foi o que eles viram de imediato. Em seguida, Weedon Scott pegou Canino Branco pelo pescoço e o arrastou para longe. Canino Branco resistiu e rosnou, mas não tentou morder. Ao contrário, acalmou-se com a primeira palavra áspera do dono. Matt ajudou o homem a se levantar. Ao ficar de pé, o homem baixou os braços, expondo a cara grotesca de Beleza Smith. O condutor de trenó o soltou como se tivesse segurado algo pegando fogo. Beleza Smith olhava para eles, sem perder Canino Branco de vista, e o terror tomava seu rosto.

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Matt viu dois objetos sobre a neve. Aproximou o lampião e mostrou o que encontrara para o patrão: uma corrente de aço

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e um porrete robusto. Scott viu e fez um sinal com a cabeça. Não disseram palavra. O condutor de trenó pousou a mão sobre o ombro de Beleza Smith e o encarou. Não foi preciso dizer nada. Beleza Smith foi embora. Enquanto isso, o senhor do amor afagava Canino Branco ao mesmo tempo que falava com ele. — Tentou roubar você, não é? Até parece que você ia deixar! Ora, ora, ele cometeu um erro, não foi? Canino Branco, ainda excitado e com o pelo eriçado, rosnava sem parar. O pelo baixando aos poucos e o tom gentil, ainda que remoto e difuso, crescendo em sua garganta.

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PARTE 5

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CAPÍTULO 21

A longa trilha

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Estava no ar. Canino Branco sentiu a calamidade chegando muito antes de qualquer evidência. Captou isso por sinais dos próprios deuses, que nem percebiam que demonstravam suas intenções ao cão-lobo, que rondava a entrada da cabana. — Ouça isso! — O condutor de trenó exclamou uma noite durante o jantar. Weedon Scott escutou. Do lado de fora vinha um ganido baixo e ansioso, parecendo um soluço, seguido de uma longa fungada. — Acho que o lobo sabe de tudo — disse Matt. Weedon Scott encarou o outro com um olhar de culpa, mas suas palavras disseram o oposto: — Que diabos vou fazer com um lobo na Califórnia? — perguntou. — Pois é — foi a resposta —, que diabos o senhor vai fazer com um lobo na Califórnia? Mas isso não satisfez Weedon Scott, que se sentiu julgado pelo outro.

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— Os cães dos homens brancos não teriam chance contra 222

ele — Scott continuou. — Iria matá-los de imediato. Se não me levasse à falência por processos por perdas e danos, as autoridades o tomariam de mim e o sacrificariam. Outra fungada misturada com um ganido atravessou a porta. — Não há dúvidas de que ele gosta um bocado do senhor — Matt disse. — Mas o que mais me intriga é como ele pode saber que o senhor está indo embora. — Também não consigo entender, Matt — Scott respondeu. Enfim chegou o dia em que Canino Branco viu, pela porta aberta da cabana, a terrível mala no chão e o seu senhor enfiando coisas dentro dela. Havia também idas e vindas, e a atmosfera, sempre sossegada, estava perturbada e agitada. Ali estava a evidência palpável. O que Canino Branco já pressentia, agora entendia. Seu deus se preparava para partir de novo. Como não tinha sido levado anteriormente, agora podia esperar ser deixado para trás mais uma vez. Naquela noite deu seu longo uivo de lobo. Do mesmo jeito que havia dado, ainda filhote, ao voltar da Natureza Selvagem e encontrar a aldeia vazia. Apontou então o focinho para as estrelas e desabafou toda a sua tristeza. Dentro da cabana os homens tinham acabado de se deitar. — Ele não quis comer de novo — Matt comentou.

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Um grunhido veio do beliche de Weedon Scott, com um agitar de cobertores.

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— Do jeito que ele sofreu da outra vez, não duvido nada que acabe morrendo agora. Os cobertores no outro beliche foram agitados com raiva. — Cale a boca, homem! — Scott gritou na escuridão. — Chega de tanto resmungo. — Concordo com o senhor — respondeu o condutor de trenó, e Scott ficou sem ter certeza se o outro tinha rido um pouco ou não. No dia seguinte a ansiedade e a aflição de Canino Branco ficaram ainda mais evidentes. Seguia os passos do dono sempre que este saía da cabana. E ficava a postos na porta sempre que ele estava lá dentro. Pela porta aberta vislumbrava a bagagem no chão. A mala agora estava acompanhada de duas grandes sacas de lona e uma caixa. Matt enrolava os cobertores do patrão com uma pequena lona. Canino Branco gania enquanto assistia à operação. Mais tarde chegaram dois índios, que puseram a bagagem nas costas e foram levados por Matt colina abaixo. Mas Canino Branco não os seguiu. Seu dono ainda estava na cabana. Depois de um tempo, Matt voltou. O dono veio até a porta e chamou Canino Branco para dentro. — Pobre-diabo — disse gentil enquanto esfregava as orelhas de Canino Branco e lhe dava tapinhas no dorso. — Vou pegar

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a longa trilha, meu velho, onde você não pode me seguir. Agora 224

rosne para mim. Um último bom rosnado de adeus. Mas Canino Branco se recusou a rosnar. Em vez disso, depois de um olhar melancólico, aconchegou-se, escondendo a cabeça entre o braço e o corpo do dono. — O apito! — Matt gritou. Do Yukon soava o berro rouco de um barco a vapor. — O senhor precisa acabar logo com isso. Não se esqueça de trancar a porta da frente. Vou sair pelos fundos. Vamos! — Matt disse. As duas portas bateram ao mesmo tempo, e Weedon Scott esperou que Matt desse a volta até a frente. De dentro da cabana veio um choro baixo e soluços. — Tome conta dele, Matt — Scott disse enquanto desciam na direção do rio. — Escreva-me e me mantenha informado sobre ele. — Certo — foi a resposta. — Mas ouça! Os dois pararam. Canino Branco uivava de tristeza, num grito de cortar o coração. O Aurora era o primeiro vapor do ano para fora do Yukon, e o movimento de embarque era intenso. Perto da plataforma, Scott se despedia de Matt, que se preparava para voltar à margem. Mas Matt fixou os olhos em algo atrás de Scott, que se virou para ver o que era. Lá estava Canino Branco, sentado no convés a alguma distância, observando-os com melancolia.

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— Você trancou a porta da frente? — Matt perguntou. O outro concordou com a cabeça, e perguntou:

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— E a porta dos fundos? — Pode apostar que tranquei. — Foi a resposta imediata. Canino Branco levantou as orelhas, mas ficou onde estava, sem tentar se aproximar. — Vou ter que levá-lo para terra firme. Matt deu dois passos na direção de Canino Branco, mas ele se esquivou. O condutor correu, e Canino Branco escapou por entre as pernas de um grupo de pessoas. Driblando, contornando, ele escapava pelo convés, esquivando-se de todas as tentativas do outro para capturá-lo. Mas assim que seu dono falou, Canino Branco veio até ele, obediente. — Não vem para a mão que o alimentou todos esses meses — o condutor resmungou, ressentido. — O senhor nunca o alimentou depois daqueles primeiros dias de convívio. Não consigo entender como ele decidiu que o senhor é o chefe. Scott, que acariciava Canino Branco, curvou-se de repente e apontou cortes recentes em seu focinho e um talho entre os olhos. Matt se inclinou e passou a mão debaixo da barriga de Canino Branco. — Esquecemos a janela. Está todo cortado e arranhado por baixo. Deve ter fugido quebrando o vidro!

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Mas Weedon Scott nem escutava mais. Estava pensando 226

depressa. O apito do Aurora soou o derradeiro aviso de partida. Homens começavam a puxar a plataforma de embarque para a margem. Matt soltou a bandana do pescoço e começou a passá-la em volta do pescoço de Canino Branco. Scott segurou a mão do condutor. — Adeus, Matt, meu velho. Sobre o lobo… Não precisa escrever. Você sabe, eu… — O quê? — o condutor explodiu. — Quer dizer que…? — Isso mesmo. Tome sua bandana. Eu vou escrever para você sobre ele. Matt parou no meio da plataforma. — Ele não vai suportar o clima! — gritou de volta. — A não ser que o senhor corte seu pelo nos meses de calor! A plataforma foi recolhida, e o Aurora se afastou da margem, balançando. Weedon Scott deu um último aceno de adeus. Então se virou e se debruçou sobre Canino Branco. — Agora rosne, seu sem-vergonha, rosne — ele disse, enquanto fazia carinho em sua cabeça e esfregava suas orelhas.

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CAPÍTULO 22

As terras do Sul

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Canino Branco desembarcou do barco a vapor em São Francisco. Ficou chocado. Em seu íntimo, de forma inconsciente, havia associado poder com divindade. E nunca os deuses brancos pareciam tão maravilhosos como agora. As cabanas de madeira que conhecia foram substituídas por edifícios imponentes. As ruas eram cheias de perigos: coches, automóveis e enormes carroças puxadas por cavalos grandes e fortes. E havia os monstruosos bondes elétricos buzinando e ressoando no meio disso tudo, guinchando ameaçadores como os linces que conhecera nas florestas do Norte. Tudo isso era manifestação de poder. E por trás de tudo havia sempre as pessoas, controlando e expressando seu domínio sobre a matéria. Era colossal e estonteante. Canino Branco estava assombrado. O medo o dominava. Sentiu-se pequeno e insignificante, da mesma forma quando chegara ainda filhote à aldeia de Castor Cinzento. E havia tantos deuses! Ficava atordoado com aquela aglomeração e aquela movimentação incessante. O trovão das ruas martelava em seus ouvidos. Sentiu-se

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dependente do seu dono como nunca havia se sentido antes, e 228

o seguia, grudado em seus calcanhares, nunca o perdendo de vista. Mas Canino Branco teria apenas uma visão da cidade como se fosse um pesadelo, algo irreal e terrível que ainda perturbaria seus sonhos por muito tempo. Seu dono o pôs em um vagão de bagagem, acorrentado a um canto, entre pilhas de malas e caixas. Um deus atarracado e musculoso tomava conta do local. Arrastava as caixas e as malas, às vezes as puxando para dentro do vagão e as organizando em pilhas, outras vezes, para fora do vagão, onde outros deuses aguardavam por elas. Canino Branco pensou que fora abandonado pelo dono naquele inferno das bagagens. Até que sentiu o cheiro das malas com as roupas do dono e passou a tomar conta delas. — Já era tempo! — disse o deus da bagagem, uma hora depois, quando Weedon Scott apareceu na porta. — Aquele seu cão não me deixou encostar um dedo em suas coisas. Canino Branco apareceu do fundo do vagão. Estava atordoado. A cidade do pesadelo tinha desaparecido. Quando entrou no vagão, este era apenas um cômodo em uma casa, com uma cidade ao redor. Naquele intervalo a cidade desaparecera. O rugido não atordoava mais seus ouvidos. Diante dele havia um campo agradável, tranquilo e iluminado. Mas se maravilhou com a transformação por pouco tempo, e logo a aceitou como mais um dos incontáveis feitos dos deuses.

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Um coche os esperava. Um homem e uma mulher se aproximaram do dono. A mulher segurou o pescoço do dono

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com as duas mãos. Um ato hostil! No momento seguinte, Weedon Scott se soltou do abraço e segurou Canino Branco, que havia começado a rosnar feito um demônio enfurecido. — Está tudo bem, mamãe — Scott dizia enquanto segurava firme e acalmava Canino Branco. — Ele pensou que fosse me machucar, e não resistiu. Está tudo bem, tudo bem. Logo ele aprenderá. Terá que aprender, e aprenderá sem demora. Falou suave com Canino Branco até acalmá-lo, então sua voz se tornou firme. — Deita! Deita! Havia lhe ensinado esse truque, e Canino Branco obedeceu, deitando-se, relutante. — Agora, mãe. Scott abriu os braços em sua direção, mas se manteve atento a Canino Branco. — Deita! — advertiu. — Deitado! Canino Branco, arrepiando a pelagem em silêncio, interrompeu o movimento de se levantar e se deitou de volta. O ato hostil não parecia machucar, nem o abraço que veio depois. As sacas com roupas foram acomodadas no coche, os deuses estranhos e o dono subiram nele. Canino Branco os seguiu, sempre vigilante.

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Depois de quinze minutos o coche entrou por um por230

tal de pedras e seguiu entre duas fileiras de nogueiras que formavam um túnel. Nos dois lados do caminho havia gramados onde aqui e ali se erguiam carvalhos robustos. Um pouco adiante, contrastando com o verde da grama bem tratada, campos de feno queimados pelo sol exibiam um bronzeado dourado. Mais ao longe, viam-se as pastagens nas montanhas. No topo do gramado, na primeira ondulação suave no nível do vale, erguia-se a casa de varandas fundas e muitas janelas. Canino Branco teve pouca chance de apreciar tudo isso. Assim que entrou no terreno, foi confrontado por um cão pastor de olhos vivos e focinho longo, indignado e zangado com a invasão. Canino Branco não deu aviso, e seu pelo se eriçou enquanto preparava seu ataque silencioso. Mas esse ataque nunca foi completado. Parou de forma abrupta, com as pernas da frente retesadas, freando o movimento. Quase se sentou para trás. O cão era uma fêmea, e a lei da sua espécie levantava uma barreira entre eles. Para poder atacá-la precisaria violar seu instinto. Mas com o cão pastor era tudo diferente. Sendo uma fêmea, não tinha tal instinto. Por outro lado, sendo um cão pastor, seu medo instintivo da Natureza Selvagem, e especialmente de um lobo, era afiado. Canino Branco era um lobo para ela, o inimigo fundamental que atacava os primeiros rebanhos pastoreados e guardados por seus ancestrais. Assim, quando ele abandonou o ataque e evitou o contato, ela saltou sobre ele. Canino

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Branco rosnou involuntariamente quando sentiu os dentes dela em seu ombro, mas não tentou machucá-la. Recuou, com as

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pernas esticadas e tensas, e procurou contorná-la. Não teve sucesso, e ela continuava entre ele e o caminho que queria seguir. — Aqui, Collie! — disse o homem estranho no coche. Weedon Scott riu. — Não ligue, papai. É bom ele se acostumar. Canino Branco vai ter que aprender muitas coisas, e é bom que comece logo. Ele dará um jeito. O coche seguiu em frente, e Collie continuava a bloquear o caminho de Canino Branco. Ele tentou ultrapassá-la, saindo da estrada e contornando pelo gramado. Mas ela tomava o caminho por dentro, num círculo menor, e sempre reaparecia diante dele, exibindo os dentes reluzentes. Ele contornava de volta, atravessando a estrada e tentando pelo outro gramado, e, mais uma vez, lá estava ela. O coche levava o dono para longe. Canino Branco mal conseguia vê-lo de relance por entre as árvores. A situação era desesperadora. Ensaiou outra volta. Ela o seguiu, correndo veloz. E de repente ele se virou sobre ela. Era seu antigo truque de luta. Ombro a ombro, ele a atingiu com força. Collie não só foi derrubada como rolou várias vezes sobre o próprio corpo até se aprumar, gritando indignada e com o orgulho ferido. Canino Branco não esperou. O caminho estava livre, e isso era tudo o que queria. Ela foi atrás dele, sem cessar o alarido. Era

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uma linha reta agora, e, quando se tratava de correr de verdade, 232

Canino Branco podia ensinar-lhe algumas coisas. Ela corria frenética, esforçando-se ao máximo em cada salto, enquanto Canino Branco deslizava suave à sua frente, em silêncio e sem esforço. Quando contornou a casa, avistou o coche. Tinha parado, e o dono desembarcava. Nesse momento, ainda correndo a toda a velocidade, Canino Branco tomou conhecimento de um possível ataque vindo pelo lado. Era um galgo correndo em sua direção. Canino Branco tentou vencê-lo na corrida, mas o galgo corria rápido demais, e estava muito perto. Quando foi atingido no flanco, o ataque inesperado o fez rolar no chão. Levantou-se do tombo com as orelhas achatadas para trás, os lábios contorcidos, o focinho enrugado, os dentes estalando no ar, até que as mandíbulas erraram por pouco a garganta macia do galgo. O dono correu, mas estava longe demais, e foi Collie que salvou a vida do galgo. Antes que Canino Branco pudesse saltar e dar o golpe fatal, Collie chegou. Fora driblada e superada na corrida, além de ter sido jogada, rolando no cascalho, e sua chegada pareceu um tornado feito de dignidade ofendida, ira justificável e um ódio instintivo por esse invasor vindo da Natureza Selvagem. Ela atacou Canino Branco num ângulo reto bem no meio do seu salto, e mais uma vez ele foi atirado ao chão, e rolou sobre si mesmo. No momento seguinte o dono chegou e segurou Canino Branco com uma das mãos, enquanto seu pai chamava os cães.

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— Bem, foi uma recepção calorosa para um pobre lobo solitário do Ártico — o dono disse, enquanto Canino Branco se

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acalmava com o carinho de sua mão. — Em toda a sua vida, pelo que se sabe, apenas uma vez ele não conseguiu se manter sobre as patas, e aqui já foi rolado duas vezes em trinta segundos. O coche foi levado embora, e outros deuses estranhos apareceram de dentro da casa. Alguns se mantiveram respeitosamente à distância, mas duas mulheres perpetraram o ato hostil de agarrar o pescoço do seu dono com as duas mãos. Canino Branco, contudo, começava a tolerar esse ato. Nenhum mal parecia vir dali, e os sons que os deuses faziam com certeza não eram ameaçadores. Tentaram se aproximar de Canino Branco, mas foram alertadas por um rosnado e pelas palavras do dono. Canino Branco ficou grudado nas pernas do dono e recebeu tapinhas tranquilizadores na cabeça. — Dick, deita! O galgo obedeceu ao comando, subiu os degraus e se deitou na varanda, ainda rosnando e mantendo um olhar atento no intruso. Collie ficou a cargo de uma das mulheres, que a abraçou enquanto lhe dava palmadinhas e lhe fazia carinhos. Mas ela estava muito perplexa e preocupada, ganindo inquieta, ultrajada por permitirem a presença daquele lobo, e certa de que os deuses cometiam um erro. Todos os deuses começaram a subir os degraus para entrar em casa. Canino Branco seguia grudado nos calcanhares do

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dono. Dick, na varanda, rosnou, e Canino Branco, nos degraus, 234

rosnou e arrepiou o pelo em resposta. — Leve Collie para dentro e deixe esses dois brigarem — sugeriu o pai de Scott. — Depois disso serão amigos. — Pena que Canino Branco só poderá demonstrar sua amizade no funeral — riu o dono. O velho Scott olhou incrédulo, primeiro para Canino Branco, depois para Dick, e finalmente para o filho. — Quer dizer que…? Weedon concordou com a cabeça. — Quero dizer exatamente isso. Você terá um Dick morto em menos de um minuto, dois minutos no máximo. Virou-se para Canino Branco. — Venha, senhor lobo. É você que deve entrar. Canino Branco subiu tenso os degraus e atravessou a varanda, com o rabo em pé, mantendo os olhos em Dick para evitar um ataque lateral, e ao mesmo tempo preparado para qualquer manifestação feroz do desconhecido, que podia aguardá-lo dentro da casa. Mas não havia motivos para ter medo, e, quando entrou na casa, procurou com cuidado ao redor, sem encontrar nada ameaçador. Então se deitou resignado aos pés do dono, observando todos que entravam, sempre pronto para se levantar num salto e lutar pela vida contra os terrores daquela moradia.

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CAPÍTULO 23

Os domínios do deus

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Além de ser adaptável por natureza, Canino Branco já viajara bastante e conhecia a necessidade da adaptação. Na propriedade do juiz Scott, chamada Sierra Vista, Canino Branco logo aprendeu a se sentir em casa. Não tinha mais nenhum problema sério com os cães. Conheciam melhor as terras do Sul do que ele, e aos seus olhos ele fora aceito quando acompanhou os deuses casa adentro. Por mais que fosse um lobo, e isso não tivesse precedentes, os deuses haviam aprovado sua presença e os cães podiam apenas aceitar essa aprovação. Dick, no entanto, precisou passar por algumas formalidades tensas, mas depois aceitou Canino Branco como parte da propriedade. Se dependesse de Dick, poderiam ser bons amigos, mas Canino Branco tinha aversão à amizade. Durante toda a vida manteve-se afastado dos demais de sua espécie, e assim desejava permanecer. As investidas de Dick o incomodavam, então rosnava de volta. No Norte aprendera a deixar os cães do dono em paz, e não esquecera essa lição. Mas insistia em sua privacidade e isolamento, e tanto ignorou Dick que aquela boa criatura

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afinal desistiu e quase nem prestava mais atenção nele. Com 236

Collie era diferente. Entranhada em seu ser permanecia a memória dos crimes incontáveis que os lobos tinham cometido contra seus ancestrais. Isso a espezinhava, pedindo uma retaliação. Não podia atacá-lo diante dos deuses que haviam permitido sua presença, mas isso não a impedia de tornar a vida dele miserável nos mínimos detalhes. Collie tirava vantagem de ser uma fêmea para atormentar Canino Branco e maltratá-lo. O instinto dele não permitia que a atacasse, e a persistência de Collie não admitia que a ignorasse. Quando ela o atacava, ele virava o ombro protegido pela grossa pelagem para seus dentes afiados, e se afastava solene, com as patas tensas. Algumas vezes era obrigado a dar voltas em torno dela, com o ombro exposto e a cabeça virada para o outro lado. De vez em quando uma mordida em seu quarto traseiro o obrigava a bater em retirada apressado. Havia muitas outras coisas para Canino Branco aprender. A vida nas terras do Norte era pura simplicidade quando comparada aos assuntos complicados de Sierra Vista. Antes de tudo, precisou aprender sobre a família do dono. De certa forma já estava preparado para isso. Assim como Mit-Sah e Kloo-Kooch pertenciam a Castor Cinzento, compartilhando sua comida, seu fogo e seus cobertores, agora, em Sierra Vista, todos os habitantes da casa pertenciam ao senhor do amor.

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Mas nesse aspecto havia uma diferença. Várias, aliás. Sierra Vista era muito mais ampla do que a tenda de Castor Cin-

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zento. Havia muitas pessoas a serem consideradas. Havia o juiz Scott e a esposa. Havia as duas irmãs do dono, Beth e Mary. Havia sua esposa, Alice. E seus filhos, Weedon e Maud, crianças de quatro e seis anos. E não tinha como lhe explicarem sobre essas pessoas, seus laços sanguíneos e relações, que ele desconhecia e nem seria capaz de entender. Mas logo deduziu que pertenciam ao seu dono. Então, observando atento cada ação, discurso e tom de voz, aos poucos foi aprendendo quanta intimidade e que grau de afeição cada um desfrutava com o dono. E esse era o padrão usado no tratamento que Canino Branco dispensava a cada um. O que era valioso para o dono era tratado com carinho por Canino Branco e protegido com cuidado. Era assim com as duas crianças. Nunca tinha gostado de crianças. Odiava e temia suas mãos. Em seus dias nas aldeias dos índios havia aprendido lições desagradáveis sobre a tirania e a crueldade delas. Quando Weedon e Maud se aproximaram pela primeira vez, rosnou em alerta com um ar maligno. Uma bofetada e uma palavra dura do dono o obrigaram a aceitar as carícias. Continuou rosnando sob as mãozinhas, mas nunca com nenhum tom sentimental. Depois reparou que o menino e a menina eram de grande valor aos olhos do dono. A partir daí não foi mais preciso nenhuma bofetada ou palavra dura para que pudessem lhe fazer carinho.

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Canino Branco nunca foi efusivamente afetuoso. Submetia238

-se aos filhos do dono com certa má vontade, porém com total lealdade. E suportava suas brincadeiras como quem suporta uma operação dolorosa. Quando não aguentava mais, levantava-se e afastava-se, determinado. Depois de certo tempo passou até a gostar das crianças. Mas nunca demonstrava isso. Não as procurava. Por outro lado, em vez de se afastar ao primeiro sinal delas, passou a esperar que viessem até ele. Tudo isso foi uma questão de desenvolvimento, e levou tempo. Em sua ordem de estima, depois das crianças estava o juiz Scott. Essa afeição se devia a dois fatores. Primeiro, era evidente que se tratava de uma posse valiosa para seu dono, depois, ele não demonstrava emoções. Canino Branco gostava de se deitar aos seus pés na varanda enquanto o juiz lia o jornal, e de vez em quando ele lhe lançava um olhar ou uma palavra. Mas isso era apenas quando seu dono não estava presente. Quando o dono aparecia, todos os outros seres deixavam de existir no entender de Canino Branco. Ele permitia que todos os membros da família o afagassem do jeito que quisessem. Mas nunca respondeu a ninguém com o tom sentimental do fundo da garganta, e por mais que tentassem, nunca conseguiam convencê-lo a se aconchegar contra seus corpos. Essa expressão de entrega e confiança total e absoluta reservava somente para o dono. De fato, nunca considerou que os membros da família do dono fossem algo além de posses do senhor do amor.

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Canino Branco também aprendeu a diferenciar a família e os empregados do dono da casa. Estes últimos tinham medo

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dele, que se limitava a se conter e não atacá-los, pois considerava que também eram posses do dono. Entre Canino Branco e eles havia neutralidade e nada mais. Fora da propriedade havia ainda mais a ser aprendido por Canino Branco. Os domínios do dono eram vastos e complexos, mas tinham limites. A propriedade terminava na estrada do condado. Do lado de fora eram os domínios comuns a todos os deuses: a estrada e as ruas. E dentro de outras cercas havia os domínios particulares de outros deuses. Uma miríade de leis governava todas essas coisas e determinava condutas. O único jeito de aprender foi através da experiência. Seguia seus impulsos naturais até que o levassem a quebrar alguma regra. Depois que isso acontecia mais uma ou outra vez, aprendia a lei e passava a obedecê-la. Mas a ferramenta mais poderosa em sua educação era a bofetada da mão do dono e a censura em sua voz. Devido ao imenso e verdadeiro amor de Canino Branco, uma bofetada do dono lhe causava mais dor que qualquer surra que Castor Cinzento ou Beleza Smith jamais lhe deram. Eles machucavam apenas seu corpo, dentro do corpo o espírito resistia esplêndido e invencível. Com o dono a bofetada era sempre leve demais para machucar o corpo. Mas ia mais fundo. Era uma expressão de desaprovação, e o espírito de Canino Branco murchava com ela. A bem da verdade, a bofetada quase nunca era necessária. A voz

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do dono bastava. Era assim que Canino Branco sabia se agira de 240

forma correta ou não. Usava-a para calibrar sua conduta e ajustar suas ações. Era a bússola pela qual se orientava e aprendia a mapear os modos de uma terra e vida novas. Nas terras do Norte o único animal doméstico era o cão. Todos os outros animais viviam na Natureza Selvagem e eram, quando não formidáveis demais, presas legítimas para qualquer cão. Durante todos os seus dias ali Canino Branco se alimentara com criaturas vivas. Não entrava em sua cabeça que nas terras do Sul fosse diferente. Mas isso foi algo que aprendeu logo. Perambulando em torno de um canto da casa, deu de cara com uma galinha que escapara do galinheiro. O impulso natural de Canino Branco foi comê-la. Depois de dois saltos, uma mordida e um grito apavorado, a galinha aventureira virou comida. Criada na fazenda, era gorda e macia, e Canino Branco lambeu os beiços e decidiu que aquela presa era boa. Mais tarde naquele mesmo dia esbarrou com outra galinha perdida perto dos estábulos. Um dos criados correu para resgatá-la, usando um chicote leve para lhe servir de arma. Ao primeiro golpe do chicote, Canino Branco deixou de lado a galinha. Um porrete poderia pará-lo, mas não um chicote. Em silêncio, sem vacilar, ainda levou mais uma chicotada antes de saltar na garganta do criado. Ele gritou e recuou, largando o chicote e protegendo o pescoço com os braços; um deles foi rasgado até o osso. O homem estava muito apavorado. Ainda protegendo o pescoço

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com o braço rasgado, que sangrava, tentou bater em retirada para o celeiro. Teria sofrido um bocado se Collie não tivesse en-

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trado em cena. Assim como salvara a vida de Dick, ela salvava agora a vida do criado. Avançou sobre Canino Branco numa ira frenética. Ela sempre estivera certa. Sabia mais do que os deuses descuidados. Todas as suas suspeitas eram justificadas. Ali estava o inimigo ancestral com seus velhos truques de sempre. O criado escapou para os estábulos, e Canino Branco acabou precisando fugir a toda pelo campo para se afastar dos dentes cruéis de Collie. — Ele vai aprender a deixar as galinhas em paz — o dono disse. — Mas só conseguiremos lhe ensinar a lição se o pegarmos em flagrante. Duas noites depois veio o flagrante numa dimensão maior do que o dono imaginara. Canino Branco observara com atenção o galinheiro e os hábitos das galinhas. À noite, quando já estavam empoleiradas, escalou uma pilha de lenha recém-cortada. Dali chegou ao telhado do galinheiro, e foi só um pulo para o interior do cercado. No instante seguinte estava dentro do galinheiro, e a matança começou. De manhã, quando o dono apareceu na varanda, seus olhos encontraram cinquenta galinhas brancas dispostas em fila por um criado. Deu um assobio baixinho, primeiro de surpresa, depois de admiração. Seus olhos encontraram Canino Branco, que não demonstrava sinais de culpa ou vergonha. Ele parecia

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estar sentindo orgulho. Não havia nele a consciência do peca242

do. Os lábios do dono se crisparam quando encarou a desagradável tarefa. Falou áspero com o culpado involuntário, e sua voz soava como a fúria divina. Também esfregou o focinho de Canino Branco nas galinhas massacradas, ao mesmo tempo que lhe dava sonoras bofetadas. Canino Branco nunca mais atacou o galinheiro de novo. Era contra a lei, e já tinha aprendido a lição. Então o dono o levou para dentro do pátio das galinhas. O impulso natural de Canino Branco, quando viu toda aquela comida viva esvoaçando ao seu redor e bem debaixo do seu focinho, era avançar sobre elas. Obedeceu ao impulso, sendo contido pela voz do dono. Continuaram no pátio por meia hora. Às vezes o impulso tomava conta de Canino Branco, e sempre que isso acontecia era contido pela voz do dono. Assim aprendeu a lei, e, quando saiu do território das galinhas, passou a ignorá-las. — Não é possível curar um matador de galinhas — o juiz Scott balançou a cabeça tristemente na mesa do almoço, enquanto o filho narrava a lição que havia aplicado a Canino Branco. — Depois que criam o hábito e provam o sabor do sangue… E mais uma vez sacudiu a cabeça com tristeza. Mas Weedon Scott não concordava com o pai. — Farei o seguinte — acabou desafiando-o. — Vou trancar Canino Branco com as galinhas a tarde toda. — Mas pense nas galinhas — o juiz objetou.

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— Além disso — o filho continuou —, para cada galinha que ele matar, pagarei um dólar. Mas, se no final da tar-

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de Canino Branco não tiver machucado nenhuma galinha, para cada dez minutos que ele tiver passado lá dentro, você terá que lhe dizer, grave e solene, do jeito que faria se julgasse alguém no tribunal: “Canino Branco, você é mais esperto do que eu pensava”. Naquela tarde, trancado no pátio e abandonado pelo dono, Canino Branco deitou sossegado e dormiu. Após um tempo se levantou e andou até o cocho para beber um gole de água. Ignorou as galinhas calmamente. Para ele, era como se não existissem. Às quatro horas deu uma corrida curta, pulou para alcançar o telhado do galinheiro e de lá saltou para fora do cercado, de onde seguiu solene até a casa. Aprendera a lei. E na varanda, diante da família satisfeita, um solene juiz Scott, cara a cara com Canino Branco, disse lentamente, dezesseis vezes: “Canino Branco, você é mais esperto do que eu pensava”. Mas era o grande número de leis que atordoava Canino Branco e, com frequência, lhe causava muita vergonha. Precisou aprender a não tocar nas galinhas que pertenciam a outros deuses. E havia os gatos, coelhos e perus. Todos esses deviam ser deixados em paz. Na verdade, quando ainda não tinha aprendido toda a lei, sua impressão era de que deveria deixar todos os seres vivos em paz. No pasto, uma codorna certa vez esvoaçou bem debaixo do seu focinho sem ser molestada.

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Tenso e tremendo de ansiedade e desejo, ele controlou seu ins244

tinto e ficou firme. Obedecia ao desejo dos deuses. E então, certo dia, mais uma vez no pasto, viu Dick se lançar atrás de uma lebre em fuga. O próprio dono viu também e não intercedeu. Pelo contrário, encorajou Canino Branco a se juntar à caça. Assim aprendeu que lebres não eram tabu. Enfim, formulou a lei completa. Entre ele e todos os animais domésticos não podia haver hostilidades. Se não fossem amigos, pelo menos a neutralidade devia ser praticada. Mas os demais animais, esquilos, codornas e coelhos-do-mato, eram criaturas da Natureza Selvagem que não deviam obediência aos humanos. Eram presas legítimas de qualquer cão. Apenas os domesticados eram protegidos pelos deuses, e entre os domesticados não eram permitidos conflitos mortais. Os deuses detinham o poder sobre a vida e a morte de suas posses, e os deuses tinham ciúmes desse poder. O principal desafio imposto pelas complicações da civilização era manter o controle dentro dos limites. A vida tinha diversas faces, e Canino Branco descobriu que devia conhecer todas elas. Assim, quando ia à cidade de San Jose, correndo atrás do coche ou flanando pelas ruas quando o coche parava, a vida fluía ao redor, profunda, vasta e variada, atingindo seus sentidos sem parar. Era preciso sempre fazer ajustes imediatos e sem fim, quase sempre o obrigando a superar seus impulsos naturais. Havia açougues onde a carne ficava pendurada ao seu alcance. Essa

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carne não podia ser tocada. Havia gatos nas casas que seu dono visitava, e eles deviam ser deixados em paz. E havia por toda

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parte cães que rosnavam para ele mas não podiam ser atacados. Quando corria atrás do coche, nos arredores de San Jose, encontrava um grupo de meninos que costumava jogar pedras nele. Já sabia que não podia caçá-los e derrubá-los. Precisou violar seu instinto de autopreservação, pois estava se tornando domesticado e se qualificando para a civilização. Contudo, Canino Branco não estava satisfeito com esse arranjo. Não tinha a menor ideia do que fosse justiça, mas mesmo assim se ressentia da injustiça de não poder se defender dos agressores. Tinha esquecido que, no pacto entre ele e os deuses, estes se comprometeram a protegê-lo. E um dia o dono pulou do coche, chicote na mão, e passou uma descompostura nos atiradores de pedras. Outra experiência semelhante aconteceu no caminho para a cidade. Perto de um bar no cruzamento da estrada, três cães costumavam correr atrás dele quando passava por ali. Ciente de sua técnica de luta mortal, o dono nunca deixou de lembrar Canino Branco sobre a lei de não lutar. Assim, tendo aprendido a lição, Canino Branco passava por dificuldades sempre que atravessava aquele cruzamento. Depois da primeira investida, seu rosnado mantinha os perseguidores à distância, mas estes insistiam por um longo trecho, latindo e o provocando. Isso aconteceu por algum tempo, e os homens no bar chegavam a incitar os

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cães a atacar Canino Branco. Um dia instigaram os cães de for246

ma escancarada. O dono parou o coche. — Pode ir — falou para Canino Branco. Mas Canino Branco não podia acreditar. Olhou para o dono e para os cães. Então olhou de volta para o dono, ansioso à espera de uma confirmação. O dono concordou com a cabeça. — Pode pegá-los, meu velho. Faça picadinho deles. Canino Branco não hesitou nem um pouco. Virou-se e saltou em silêncio entre os inimigos. Os três o encararam. Houve muitos rosnados e grunhidos, dentes batendo e pelos eriçados. A poeira da estrada subiu e emoldurou a batalha. Mas após alguns minutos dois cães estrebuchavam no chão e o terceiro fugia desabalado. Este pulou uma vala, passou por uma cerca e fugiu por um campo. Canino Branco o seguiu, deslizando com a suavidade e a velocidade de um lobo. Sem fazer barulho, alcançou-o no meio do campo e acabou com o cão. Com essa tripla matança, terminaram seus problemas com os outros cães. A notícia se espalhou pelo vale e as pessoas viram que deviam cuidar para que seus cães não molestassem o Lobo Lutador.

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CAPÍTULO 24

O chamado da espécie

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Passaram-se vários meses. Havia bastante comida e nenhum trabalho nas terras do Sul. Canino Branco engordou, próspero e feliz. O carinho humano era como um sol brilhando sobre ele, que desabrochou como uma flor plantada em solo bom. Contudo, continuava diferente dos outros cães. Conhecia as leis melhor que qualquer outro cão, e as obedecia com mais disciplina. Mas ainda havia nele uma sugestão de ferocidade à espreita, como se a Natureza Selvagem ainda morasse em Canino Branco e o lobo nele estivesse apenas adormecido. Nunca criou laços com outros cães. Tinha vivido solitário até aqueles dias, e assim continuaria a viver. Quando pequeno, sob a perseguição de Lip-Lip e a matilha de filhotes, e nos dias de luta com Beleza Smith, adquirira aversão a cães. O curso natural da sua vida fora desviado, e, afastando-se dos outros de sua espécie, acabou se ligando aos humanos. Além disso, todos os cães das terras do Sul olhavam para ele com desconfiança. Despertava neles seu medo instintivo da Natureza Selvagem, e sempre o recebiam com ódio, demonstrado com grunhidos e

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rosnados. Ele, por outro lado, descobriu que não era necessário 248

lutar. Bastava exibir as presas e enrugar os lábios para pôr todos os cães para correr. Havia apenas um sofrimento na vida de Canino Branco. Collie nunca dava a ele um momento de paz. Ela não era tão obediente à lei como ele era. Resistiu a todas tentativas do dono para que travasse amizade com Canino Branco. Nunca lhe perdoara pela matança das galinhas, e tinha convicção sobre suas piores intenções. Considerava-o culpado por presunção. Tornou-se uma peste para ele, seguindo-o pelos estábulos e campos. Se ele se atrevia a mostrar interesse por um pombo ou galinha, ela irrompia num acesso de ódio e indignação. Sua forma favorita de ignorá-la era se deitar com a cabeça sobre as patas dianteiras, fingindo dormir. Isso sempre a confundia e silenciava. De resto, tudo corria bem para Canino Branco. Aprendera a se manter sob controle e em equilíbrio, e conhecia as leis. Alcançou uma serenidade firme e tolerante. Não vivia mais num ambiente hostil. Perigo, dor e morte já não o espreitavam em qualquer lugar. Com o tempo, o desconhecido, algo antes aterrorizante e ameaçador, passou a perder força. A vida corria tranquila e suave, sem medo ou inimigos a espreitar no caminho. Sentia falta da neve, mas não se dava conta disso. Em sua cabeça, era como se fosse um verão longo demais. Sofria um pouco mais no auge da estação, quando sentia saudades ao se lembrar das terras do Norte.

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Canino Branco nunca demonstrou muito suas emoções. Além de se aconchegar e do tom sentimental em seu rosnado

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amoroso, não tinha como expressar seu amor. Mas encontrou uma terceira maneira. Sempre fora sensível à risada dos deuses. Risadas sempre despertaram nele um frenesi furioso. Contudo, não podia se zangar com o senhor do amor, e, quando esse deus decidiu rir dele com boa vontade, por brincadeira, ficou perplexo. Podia sentir a ferroada da antiga raiva, que lutava para vir à tona, mas ela lutava contra o amor. Ele não podia se zangar, mas ainda assim precisava fazer algo. Primeiro assumiu um ar grave, e o dono riu ainda mais. Então tentou assumir um ar ainda mais sério, e o dono riu mais do que antes. No final, a risada do dono conseguiu tirá-lo do sério. Suas mandíbulas se separaram de leve, seus lábios se abriram um pouco, e uma expressão zombeteira, mais amorosa do que cômica, surgiu em seus olhos. Aprendera a rir. Também aprendeu a brincar com o dono, sendo alvo de truques bruscos que o derrubavam e o faziam rolar. Em resposta, simulava fúria, eriçando o pelo, rosnando feroz e batendo os dentes em mordidas que pareciam mortais. Mas nunca perdia o controle. Essas mordidas eram todas no vazio. Ao final de cada brincadeira, quando golpes, cutucões, mordidas e rosnados eram velozes e furiosos, afastavam-se de repente e ficavam parados a certa distância, um olhando para o outro. E então, de repente, como o sol nascendo no mar revolto, começavam a rir.

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Isso sempre culminava com o abraço do dono em Canino Bran250

co, que cantava e rosnava sua canção de amor. Porém ninguém mais brincava com Canino Branco. Ele se mantinha sério, e, quando tentavam, seu rosnado e o pelo eriçado alertavam que não estava para brincadeiras. Não era porque brincava com o dono que seria um cão comum, amando aqui e ali, acessível a todos. Seu amor pertencia a um só, e ele se recusava a desvalorizá-lo. O dono saía a cavalo com frequência, e acompanhá-lo era um dos principais deveres de Canino Branco. Nas terras do Norte já havia demonstrado sua lealdade puxando os trenós. Mas não havia trenós nas terras do Sul, nem os cães carregavam carga. Assim, demonstrava sua lealdade correndo com o cavalo do dono. O mais longo dia nunca esgotava Canino Branco. Marchava como um lobo, suave, incansável e eficiente, e ao final de oitenta quilômetros era capaz de correr feliz à frente do cavalo. Foi em torno das cavalgadas que Canino Branco alcançou mais uma forma de expressão, notável porque a utilizou apenas duas vezes em toda a sua vida. A primeira vez aconteceu quando o dono tentava ensinar a um fogoso puro-sangue como abrir e fechar portões sem que o cavaleiro precisasse desmontar. Todas as vezes em que aproximava o cavalo do portão para tentar abri-lo, este se assustava, empinando e disparando para longe. O cavalo ia ficando cada vez mais nervoso e excitado. Quando

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empinava, o dono o golpeava com as esporas, obrigando-o a colocar as patas dianteiras no chão, e, com isso, ele começava a dar

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coices com as traseiras. Canino Branco assistia a tudo cada vez mais ansioso, até que não conseguiu mais se conter. Saltou na frente do cavalo e latiu selvagemente. Ainda que tenha tentado latir depois disso, e o dono o incentivasse, só conseguiu mais uma vez, e não foi na presença do dono. Durante um galope pelo pasto, uma lebre que surgiu de repente bem debaixo das patas do cavalo causou uma guinada violenta, um tropeção, uma queda ao chão e uma perna quebrada no dono. Canino Branco pulou na garganta do cavalo agressor, mas logo foi censurado pelo grito do dono. — Para casa! Vá para casa! — o dono ordenou quando sentiu a gravidade da contusão. Canino Branco não pretendia abandoná-lo. O dono pensou em escrever uma mensagem, mas procurou nos bolsos e não encontrou nem papel nem lápis. Mais uma vez mandou que Canino Branco fosse para casa. Este o fitou ansioso, partiu, mas voltou ganindo baixinho. O dono falou de forma gentil, porém séria, e ele levantou as orelhas e escutou, atento. — Está tudo bem, velho amigo, só precisa correr para casa agora. Vá para casa e conte a eles o que aconteceu comigo. Vá para casa, seu lobo. Vá agora! Canino Branco conhecia o significado de “casa”, e, ainda que não tivesse entendido o resto da linguagem do dono, sabia

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que ele queria que fosse para casa. Virou-se e se afastou trotan252

do, relutante. Então parou, indeciso, e olhou por cima do ombro. — Para casa! — veio o comando seco, e dessa vez ele obedeceu. A família estava na varanda, aproveitando a brisa da tarde, quando Canino Branco chegou. Ofegante e coberto de poeira, meteu-se entre as pessoas. — Weedon voltou — disse sua mãe. As crianças deram as boas-vindas a Canino Branco com gritos alegres e correram ao seu encontro. Ele as evitou e atravessou a varanda, mas elas o encurralaram entre a cadeira de balanço e a parede. Ele rosnou e forçou passagem. A mãe das crianças olhou apreensiva em sua direção. — Confesso que fico nervosa quando ele está perto das crianças — ela disse. — Tenho pavor que um dia ele aja de forma inesperada. Rosnando selvagem, Canino Branco escapou do canto, empurrando o menino e a menina. A mãe chamou as duas crianças, dizendo que deixassem Canino Branco em paz. — Um lobo é um lobo — comentou o juiz Scott. — Não se pode confiar em nenhum deles. — Mas ele não é um lobo — discordou Beth, defendendo o irmão em sua ausência. — Você conta apenas com a opinião de Weedon a esse respeito — retomou o juiz. — Ele apenas presume que haja sangue

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de cão em Canino Branco, mas, como ele mesmo confirmou a você, nada sabe a esse respeito. Pela aparência…

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Não pôde terminar a sentença. Canino Branco parou diante dele, rosnando feroz. — Vá embora! Deite-se! — o juiz ordenou. Canino Branco se virou para a esposa do senhor do amor. Ela gritou apavorada quando ele lhe puxou o vestido com os dentes, até que o tecido fino se rasgou. A essa altura Canino Branco era o centro das atenções. Parou de rosnar e, de cabeça erguida, ficou olhando para eles. Sua garganta se moveu em espasmos, mas sem som nenhum, enquanto lutava para superar sua incapacidade de se comunicar. — Espero que não esteja enlouquecendo — disse a mãe de Weedon. — Eu disse para Weedon que tinha medo de que o clima quente pudesse fazer mal para um animal do Ártico. — Acho que ele está tentando dizer alguma coisa — Beth anunciou. Nesse exato momento, o discurso veio para Canino Branco, que disparou numa explosão de latidos. — Alguma coisa aconteceu com Weedon — sua esposa disse, decidida. Todos se colocaram de pé, e Canino Branco desceu correndo a escada, olhando de volta para que o seguissem. Pela segunda e última vez em sua vida latira e se fizera compreender. Depois disso, teve um lugar mais caloroso no coração da família

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de Sierra Vista, e até o criado que tivera o braço rasgado admitiu 254

que Canino Branco era um cão muito sábio, mesmo sendo um lobo. O juiz Scott mantinha sua opinião. E, para insatisfação geral, provava sua tese com medidas e descrições tiradas da enciclopédia e de vários livros de história natural. Os dias passaram. Quando começaram a se tornar mais curtos e chegou o segundo inverno de Canino Branco nas terras do Sul, o lobo fez uma estranha descoberta. Os dentes de Collie não eram mais tão afiados. Havia um ar de brincadeira e gentileza em suas mordidas, que já não machucavam como antes. Esqueceu-se de como ela tentava transtornar sua vida, e, quando Collie se divertia em torno dele, respondia constrangido, tentando ser amigável, mas um tanto desajeitado. Um dia ela o levou em uma longa perseguição pelo pasto dos fundos, até dentro da mata. Era uma tarde em que seu dono sairia a cavalo e Canino Branco sabia disso. O cavalo estava selado, esperando à porta. Canino Branco hesitou. Mas havia algo nele ainda mais profundo que todas as leis que aprendera, que os costumes que o moldaram, que o próprio amor pelo dono, que a própria vontade de viver. Assim, no momento de sua indecisão, quando Collie lhe deu uma mordida e disparou para longe, ele se virou e a seguiu. O dono cavalgou sozinho aquele dia, e na mata, lado a lado, Canino Branco correu com Collie, como Kiche e Caolho correram muitos anos antes na silenciosa floresta das terras do Norte.

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CAPÍTULO 25

O lobo adormecido

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Foi nessa época que todos os jornais traziam notícias sobre a ousada fuga de um condenado da prisão de San Quentin12. Era um homem feroz e mal de nascença. Nascera torto, e a sociedade tampouco ajudou a moldá-lo em algo melhor. As mãos da sociedade são duras, e esse homem era uma amostra impactante dessa dureza. Era uma fera terrível. Na

A Penitenciária Estadual de San Quentin é a prisão mais antiga do estado da Califórnia, Estados Unidos, inaugurada em 1852. 12

prisão de San Quentin se provara incorrigível. Punições não conseguiram dobrar seu espírito. Podia morrer lutando até o final, mas não suportava viver sendo derrotado. Quanto mais feroz em sua luta, mais duro era o tratamento da sociedade, e o único efeito desse rigor era torná-lo ainda mais feroz. Camisas de força, regimes de fome, surras e pauladas não funcionavam para Jim Hall. Mas era o tratamento que recebia.

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Foi em sua terceira passagem pela prisão que Jim Hall en256

controu um guarda que era quase tão feroz quanto ele. O guarda o tratou de forma injusta, mentiu sobre ele ao diretor, e o perseguia sempre que possível. A diferença entre eles era que o guarda carregava um molho de chaves e uma arma. Jim Hall dispunha apenas das próprias mãos e dos dentes. Mas um dia saltou sobre o guarda e usou seus dentes na garganta do outro, como um animal selvagem. Depois disso, Jim Hall passou a viver numa solitária. Ficou lá por três anos. Era uma cela toda feita de ferro, o chão, as paredes e o teto. Nunca deixava a cela. Não via nem o céu nem a luz do sol. O dia era uma penumbra e a noite, a escuridão silenciosa. Estava em uma tumba de ferro, enterrado vivo. Não via um rosto humano, nem falava com ninguém. Quando a comida era jogada para ele, rosnava como um animal selvagem. Odiava todas as coisas. Passou meses em silêncio, alimentando a ira sobre o universo. Era uma monstruo­ sidade tão apavorante quanto o medo imaginado nas visões de uma mente enlouquecida. E então, certa noite, ele escapou. O diretor disse que isso era impossível, contudo a cela estava vazia, com o corpo de um guarda morto estirado na porta. Outros dois guardas mortos sinalizaram sua trilha pela prisão até os muros externos. Matou a todos com as próprias mãos, sem fazer barulho. Estava com as armas dos guardas assassinados, um arsenal, fugindo pelos morros e sendo perseguido pela sociedade organizada. Um prêmio

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em ouro foi oferecido por sua cabeça. Fazendeiros gananciosos o caçavam com espingardas. Seu sangue podia pagar uma hipo-

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teca ou a faculdade de um filho. Cidadãos de espírito público tomaram de seus rifles e foram atrás dele. Um bando de cães de caça seguia a trilha de seu pé ensanguentado. E os sabujos policiais e todos os cães que trabalham para a sociedade se dedicavam dia e noite à caçada humana. Algumas vezes o encontravam, e homens o enfrentavam como heróis, ou fugiam por cima de cercas de arame farpado, sempre deleitando o cidadão comum que lia o relato enquanto fazia o desjejum. Depois desses encontros, os mortos e feridos eram removidos de rabecão ou ambulância, sendo substituídos por outros homens ávidos por se juntar à caçada humana. Até que Jim Hall desapareceu. Os sabujos tentavam em vão reencontrar seus rastros. Rancheiros inofensivos em vales remotos eram detidos por homens armados que exigiam que se identificassem. Ao mesmo tempo, os restos mortais de Jim Hall eram encontrados em doze encostas de montanhas diferentes por gananciosos que reclamavam o prêmio prometido pelo fugitivo. Enquanto isso os jornais eram lidos em Sierra Vista com mais ansiedade do que interesse. As mulheres tinham medo. O juiz Scott fazia pouco caso e ria, mas sem razão, pois nos últimos dias de sua atuação como juiz tinha condenado Jim Hall. E, diante de todos no tribunal, Jim Hall anunciara que no dia em que saísse da prisão iria se vingar do juiz que o condenara.

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Pelo menos daquela vez Jim Hall estava certo. Era inocen258

te do crime pelo qual tinha sido condenado. Era um caso de flagrante forjado. Fora preso em flagrante por um crime que não cometera. Como já tinha duas condenações, acabou sendo condenado pelo juiz Scott a uma sentença de cinquenta anos de prisão. O juiz Scott não sabia de tudo, e desconhecia fazer parte de uma conspiração policial, com provas forjadas e testemunhos falsos, e não sabia que Jim Hall não tinha culpa pelo crime de que era acusado. Por outro lado, Jim Hall não sabia que o juiz Scott era um mero ignorante. Ele acreditava que o juiz tinha conhecimento de tudo e fazia parte da conspiração que lhe causava uma tremenda injustiça. Assim, quando a pena de cinquenta anos foi imposta a ele pelo juiz Scott, Jim Hall se levantou e urrou no tribunal, até ser contido por meia dúzia de seus inimigos de uniforme azul. Para ele, o juiz Scott era a peça-chave de uma injustiça, e foi contra o juiz que descarregou toda a sua ira e dirigiu todas as suas ameaças de uma futura vingança. Depois disso, Jim Hall foi mandado para sua vida de morto-vivo… e escapou. Canino Branco não sabia de nada disso. Mas entre ele e Alice, a esposa do dono, havia um segredo. Toda noite, depois que todos em Sierra Vista já estavam na cama, ela se levantava e trazia Canino Branco para dormir no grande saguão. Toda manhã bem cedo ela descia discretamente e deixava que ele saísse, antes que o restante da família acordasse. Em uma dessas noites,

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enquanto toda a casa dormia, Canino Branco despertou e ficou bem quieto. E bem quieto farejou a presença de um deus di-

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ferente. E aos seus ouvidos chegaram os sons da estranha movimentação desse deus. Canino Branco não disparou a rosnar, furioso. Não era disso. O estranho deus andava macio, mas ainda mais macio andava Canino Branco. Seguiu-o em silêncio. Tinha aprendido na Natureza Selvagem a vantagem da surpresa. O estranho deus pousou os pés na grande escada e escutou. Canino Branco parou até de respirar, e, sem se movimentar, observou e esperou. Lá no alto da escada estavam o senhor do amor e suas posses mais preciosas. Canino Branco eriçou os pelos, mas esperou. O pé do estranho deus saiu do chão. Começava a subir. Foi então que Canino Branco atacou. Não houve aviso, nenhum rosnado antecipando sua ação. Levantou o corpo no ar num salto que terminou nas costas do estranho deus. Canino Branco segurou os ombros do homem com as patas dianteiras, enquanto enterrava as presas em seu pescoço. Agarrou-se por um momento, o suficiente para arrastar o deus para trás. Juntos caíram no chão. Canino Branco deu um salto de lado, e, antes que conseguisse se levantar, o homem já sofria de novo com as presas afiadas. Sierra Vista acordou alarmada. O barulho no andar de baixo parecia uma batalha campal. Houve tiros de revólver. A voz de um homem gritou com horror e angústia. Houve muitos rosnados e grunhidos, e sobre tudo isso se elevou o som de móveis

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e vidro se espatifando. Mas, quase tão rápido quanto irrompeu, 260

a comoção terminou. A luta não durara mais do que três minutos. Os moradores da casa se juntaram apavorados no topo da escada. Lá de baixo vinha um som de gorgolejo, como água borbulhando. Às vezes esse gorgolejo ficava mais sibilante, quase um assobio. Mas isso logo cessou. O único som que vinha da escuridão era o de alguma criatura lutando para respirar. Weedon Scott acendeu as luzes, e a escada e o saguão se iluminaram. Então ele e o juiz Scott desceram cautelosos e de revólveres em punho. Não havia necessidade de tanto cuidado. Canino Branco tinha feito seu serviço. No meio dos destroços da mobília derrubada e quebrada, um pouco inclinado, com a face protegida por um braço, estava estirado um homem. Weedon Scott se abaixou, tirou o braço da frente e virou o rosto do homem para cima. A garganta cortada explicava a causa da morte. — Jim Hall — disse o juiz Scott, e pai e filho se entreolharam. Então se voltaram para Canino Branco, que também estava inclinado. Seus olhos estavam fechados, mas as pálpebras se levantaram de leve num esforço para olhar para eles quando se abaixaram, e o rabo fez um movimento quase imperceptível, num esforço vão. Weedon Scott deu tapinhas nele, e sua garganta vibrou um rosnado de resposta. Mas era um rosnado fraco, e logo parou. Suas pálpebras se fecharam e permaneceram assim, e o corpo inteiro pareceu relaxar e se esticar sobre o chão.

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— Está nas últimas, pobre-diabo — murmurou o dono. — Vamos cuidar disso — afirmou o juiz, enquanto pegava

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o telefone. — Para ser franco, ele tem uma chance em mil — anunciou o cirurgião, depois de uma operação em Canino Branco que durou uma hora e meia. O amanhecer surgia pelas janelas. Com exceção das crianças, toda a família estava reunida em torno do cirurgião para ouvir o veredito. — Uma perna traseira quebrada — continuou. — Três costelas quebradas, e pelo menos uma delas perfurou os pulmões. Perdeu quase todo o sangue do corpo. É provável que haja contusões internas. Parece ter sido pisoteado. Sem falar nas três balas que o atravessaram. Uma chance em mil é otimista demais. Ele não tem sequer uma chance em dez mil. — Mas faremos tudo o que for possível para que não perca essa chance — exclamou o juiz Scott. — Arcaremos com qualquer despesa, radiografias, qualquer coisa… Weedon, envie um telegrama para o Dr. Nichols em São Francisco. Nada contra o senhor, doutor, o senhor compreende, mas precisamos garantir que ele tenha o melhor atendimento disponível. O cirurgião concordou com um sorriso e deu recomendações sobre os cuidados imediatos, prometendo voltar às dez horas. Canino Branco recebeu todos os cuidados. A sugestão feita pelo juiz Scott para que uma enfermeira fosse contratada

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foi rechaçada pelas moças, que assumiram essas tarefas. E Cani262

no Branco ganhou a tal chance em dez mil da qual o cirurgião duvidava. Este último não pôde ser censurado por esse diagnóstico equivocado. Em toda a sua vida tinha operado e cuidado de humanos amolecidos pela civilização, que viviam protegidos e descendiam de várias gerações protegidas. Comparados com Canino Branco, eram todos frouxos e molengas, incapazes de se agarrar à vida com alguma força. Canino Branco veio direto da Natureza Selvagem, onde o fraco logo sucumbe e ninguém tem abrigo garantido. Seu pai e sua mãe não lhe legaram qualquer fraqueza. Uma compleição de ferro e a vitalidade da Natureza Selvagem eram a herança de Canino Branco, e ele se agarrou à vida, de corpo e alma, com a tenacidade dos seus ancestrais. Passou semanas amarrado feito um prisioneiro, com os movimentos contidos pelo gesso e pelas ataduras. Dormia por longas horas e sonhava bastante. Por sua mente passou um desfile interminável de visões das terras do Norte. Todos os fantasmas do passado despertaram e fizeram companhia a ele. Mais uma vez viveu na toca com Kiche, rastejou trêmulo aos pés de Castor Cinzento para lhe jurar lealdade, correu para sobreviver diante de Lip-Lip e toda a matilha uivante de filhotes. Correu de novo pelo silêncio, caçando a comida nos meses de fome severa, e de novo correu à frente do grupo, as chicotadas de Mit-Sah e Castor Cinzento estalando no ar, suas vozes gritando “Raa!

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Raa!”, quando chegavam a uma passagem estreita e o grupo se fechava como um leque para atravessar. Viveu novamente todos

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os seus dias com Beleza Smith e as lutas das quais participou. Nessas horas gania e grunhia em seu sono. Mas havia um pesadelo em particular que o fazia sofrer. Os monstruosos bondes elétricos, guinchando e buzinando, parecendo colossais linces berrando. Ele se deitava em uma moita, espreitando um esquilo se afastar pelo chão do refúgio de sua árvore. Então, quando saltava para atacá-lo, ele se transformava num bonde elétrico, ameaçador e terrível, debruçando-se sobre Canino Branco como uma montanha, gritando, guinchando e soltando fogo. O mesmo acontecia quando espreitava o falcão no céu. Lá de cima ele despencava, transformando-se no onipresente bonde elétrico. Ou mais uma vez estava no ringue de Beleza Smith. Pessoas se aglomeravam do lado de fora, e ele sabia que haveria uma luta. A porta se abria e por ela entrava triunfal o horrível bonde elétrico. Mil vezes isso ocorreu, e a cada vez o terror vivido era ainda maior. Então chegou o dia de tirar a última bandagem e o último gesso. Era um dia de gala. Toda Sierra Vista se reuniu. O dono esfregou suas orelhas, e ele cantou seu rosnado de amor. A esposa do dono o chamou de “Bendito Lobo”, sob a aprovação geral, e todas as mulheres passaram a chamá-lo assim. Tentou se levantar, e depois de várias tentativas caiu de fraqueza. Tinha ficado tanto tempo deitado que seus músculos

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haviam perdido o vigor e toda a força. Sentiu-se um pouco en264

vergonhado de sua fraqueza, como se falhasse em seu dever de servir aos deuses. Por isso fez um esforço heroico para se erguer, e afinal se equilibrou sobre as quatro patas, trotando e camba­ leando de um lado para outro. — Bendito Lobo — as mulheres disseram em coro. — Verdade seja dita — disse o juiz —, foi o que eu sempre disse. Nenhum cão comum teria sobrevivido. É um lobo. — Bendito Lobo — corrigiu a esposa do juiz. — Sim, Bendito Lobo — concordou o juiz. — E será assim que passarei a chamá-lo. — Ele terá que reaprender a andar — disse o cirurgião. — Pode começar agora. Levem-no lá para fora, não lhe fará mal. E para fora ele foi, como um rei, com toda Sierra Vista em volta, cuidando dele. Estava muito fraco, e, quando chegou ao gramado, deitou-se e descansou um pouco. Então o cortejo prosseguiu, e pequenos surtos de energia alcançavam os músculos de Canino Branco à medida que os usava e o sangue fluía por eles. Chegaram aos estábulos, e à soleira da porta se deitava Collie, e ao seu redor meia dúzia de filhotes gordinhos brincavam ao sol. Canino Branco observou a cena com um olhar admirado. Collie rosnou para ele num alerta, e ele teve o cuidado de manter distância. Com a ponta do pé, o dono ajudou um dos filhotes a se aproximar dele. Desconfiado, eriçou o pelo, mas o dono

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avisou que estava tudo bem. Collie, presa pelos braços de uma das mulheres, olhava, ciumenta, e com um rosnado o alertou de

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que nem tudo estava bem. O filhote rastejou até a frente dele, que levantou as orelhas e olhou com curiosidade. Então seus focinhos se tocaram, e ele sentiu a língua quente do filhote em seu queixo. A língua de Canino Branco saiu da boca, nem ele sabia por quê, e lambeu a face do filhote. Os deuses saudaram a cena com palmas e gritos de alegria. Ficou surpreso e olhou em volta, desconcertado. Então foi tomado pela fraqueza, e se deitou, as orelhas em pé, a cabeça inclinada como se vigiasse o filhote. Os outros filhotes rastejaram até ele, para grande desgosto de Collie. E, muito sério, Canino Branco deixou que o escalassem e rolassem sobre ele. No começo, os aplausos dos deuses fizeram ressurgir seu antigo constrangimento e embaraço. Isso logo passou com a continuação das cambalhotas e das trombadas dos filhotes, e ele se deitou com pacientes olhos semiabertos, cochilando ao sol.

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APREND COM A

NATUR De todos os lugares remotos que já me fascinaram em visitas imaginárias, a Natureza Selvagem do Norte do Canadá se destaca pela mistura de exuberância e desolação. Hoje em dia existem muitos e variados programas sobre a natureza e locais remotos, mas, quando eu era criança, foi nos livros que conheci muitas das grandes aventuras em terras distantes. Agora que reli Canino Branco para adaptá-lo, fiquei reparando

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na forma como Jack London descreve o estado de espírito da natureza, tanto de seus animais quanto da sua paisagem. O frio, o vento, o riacho, até a fome, todas essas forças da natureza atuam como personagens no livro. E é notável a sua capacidade de nos fazer entender como funcionaria o raciocínio, a percepção e o instinto de um animal selvagem. O livro começa contando uma história do ponto de vista de dois

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NDENDO

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A

UREZA homens enfrentando a Natureza Selvagem. Mas depois disso, quanto mais vamos nos envolvendo com a história e com o modo de pensar do lobo, que também é cão sem deixar de ser lobo, mais vemos os seres humanos como animais-gente extraordinários e assombrosos, seres vivos que, poderosos, desafiam a natureza ao mesmo tempo que demonstram fraquezas e defeitos que não pertencem ao universo dos demais animais.

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Durante toda a história, acompanhamos Canino Branco lutando com força pela vida, mantendo-se íntegro e em constante evolução diante das forças brutais da Natureza Selvagem e dos animais-gente. Sua vontade de viver serve de inspiração para seguirmos enfrentando as dificuldades, sem perder a integridade e o respeito aos próprios valores. Rodrigo Machado

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QUEM É

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RODRIGO MACHADO Nasci em São Paulo, capital, e moro no Rio de Janeiro desde que tinha 6 anos de idade. Me sinto carioca, mas adoro a cidade de São Paulo, onde vive quase toda a família do meu pai. Além disso, tenho uma ligação muito forte com Manguinhos, no Espírito Santo, uma vila de pescadores onde passei todas as férias da minha infância. Cresci cercado por livros. Na casa dos meus avós maternos, em Manguinhos, havia várias estantes repletas. Uma coleção em especial,

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com suas capas coloridas, era o grande tesouro das tardes modorrentas, com adaptações de todos os clássicos da literatura universal que se possa imaginar. Foi esse o meu primeiro contato com autores como Alexandre Dumas, Mark Twain, Júlio Verne, entre tantos outros. Acabei trabalhando em outras áreas, desenvolvendo programas de computador e gerindo projetos, empresas e pessoas. Mas nunca me afastei dos livros e das histórias.

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QUEM É

ANTHONY MAZZA

Nasci em São Paulo, cidade que sempre me inspirou. Minha relação com desenhos vem desde muito cedo. Meu pai tinha uma pequena gráfica nos fundos de casa e deixava grande quantidade de papéis e outros materiais disponíveis para o meu deleite. Convivendo nesse ambiente, adquiri admiração pelo universo dos livros, alimentando minha paixão pelos ilustrados e por histórias em quadrinhos. Quando criança, lia muito Ziraldo e revistas em quadrinhos da

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Walt Disney. Eu sonhava em trabalhar com desenho e ilustração. Na adolescência, a pintura começou a fazer parte de minha vida. Fui estudar os grandes mestres das artes plásticas e comecei a pintar. Atualmente, faço trabalhos como ilustrador para diversas editoras. Ilustrei meu primeiro livro, Histórias de tirar o sono, aos 18 anos. Gosto de retratar o Brasil e as pessoas comuns, especialmente de São Paulo. Admiro o caos e o silêncio em proporção que reinam nessa capital.

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Crédito das imagens, da esquerda para a direita, de cima para baixo: p. 14, foto de Jack London, c. 1915, Adoc-Photos/Corbis/Getty Images; p. 15, Capa do livro Na Natureza Selvagem, de Jon Krakauer, da editora Companhia das Letras; p. 16, Cena do filme Into the Wild , Interfoto/FotoArena; p. 17, caricatura de Alexandre Camanho; Mary Evans/Peter Higginbotham Collection/AGB Photo Library, c. 1902; p. 18, Musée D’Orsay, Paris; p. 19, Paul Fearn/Alamy/Latinstock; p. 20, Susan Isakson/Alamy/Latinstock; p. 21, Paul Fearn/Alamy/Latinstock; Taft Museum of Art, Cincinnati, Ohio, EUA; p. 22, Joseph John Elliott e Clarence Edmund Fry; p. 23, Age Fotostock/Easypix Brasil; caricatura de Alexandre Camanho; p. 24, Hulton Archive/Getty Images; p. 25, Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Getty Images; p. 27, Overland Monthly Publishing Company, 1896; p. 28, State Library of Queensland; p. 29, Bettmann/Getty Images.

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Produção gráfica

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