A ilha do tesouro, Robert Louis Stevenson

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♦ Informações sobre o autor e a obra ♦ Curiosidades

♦ Contexto histórico e literário ♦ Escritores e personalidades da época

No século XVIII, o jovem inglês Jim Hawkins parte para uma grande aventura: buscar um tesouro enterrado em uma ilha distante e perdida no meio do oceano. Mas a viagem não seria tranquila, pois Hawkins iria se deparar com piratas e outros perigos que rondam os mares. A Ilha do Tesouro, uma das mais importantes obras de Robert Louis Stevenson, segue a tradição literária das viagens marítimas que encantaram e continuam fascinando os leitores ávidos por narrativas de aventuras.

Alexandre Camanho

♦ Cronologia do autor

ROBERT LOUIS STEVENSON

A ILHA DO TESOURO

com

OS C I S S Á L C DOS L UNIVERSA

A ILHA DO TESOURO

ROBERT LOUIS STEVENSON

ALMANAQUE

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ILHA DO TESOURO Este volume apresenta

“A Ilha do Tesouro é um dos clássicos juvenis mais elogiados e influentes, um absoluto favorito entre os romances de aventuras. [...] Alguns dos motivos explorados por Stevenson em A Ilha do Tesouro se tornaram absolutamente indispensáveis em qualquer história de bucaneiros surgida depois e sempre reaparecem nelas: o mapa do tesouro, o pirata da perna de pau, o papagaio de pirata, o baú do morto e os esqueletos junto a ele, as canções de bebedeiras, escunas à deriva, ilhas tropicais com coqueiros e praias de areias claras, ameaças de motim a bordo... [...] Por tudo isso, a narrativa é muito forte, direta e cheia de possibilidades oferecidas ao leitor atento, para que perceba sutilezas e entenda mais do que está apenas sendo apresentado na superfície.”

ISBN 978-85-96-00403-9

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Prefácio de Ana Maria Machado

Tradução e adaptação

Rodrigo Machado


ILHA TES



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TESOU


HA DO

OURO ROBERT LOUIS STEVENSON

A ILHA DO TESOURO Tradução e adaptação

Rodrigo Machado

Ilustrações

Lelis 1a· edição

São Paulo — 2016


Copyright © Rodrigo Machado, 2016 Todos os direitos reservados à EDITORA FTD S.A. Matriz: Rua Rui Barbosa, 156 — Bela Vista — São Paulo — SP CEP 01326-010 — Tel. (0-XX-11) 3598-6000 Caixa Postal 65149 — CEP da Caixa Postal 01390-970 Internet: www.ftd.com.br E-mail: projetos@ftd.com.br

Diretora editorial Ceciliany Alves Gerente editorial Isabel Lopes Coelho Editora Débora Lima Editor especialista Luis Camargo Preparadora Elvira Rocha Revisora Bruna Perrella Brito Projeto gráfico e diagramação Aeroestúdio Editoração eletrônica Paulo Minuzzo Supervisor de iconografia Expedito Arantes Pesquisadora iconográfica Priscila Liberato Narciso Diretor de operações e produção gráfica Reginaldo Soares Damasceno

Robert Louis Stevenson (1850-1894) nasceu em Edimburgo, na Escócia. Foi novelista, poeta e escritor, sendo muito aceito principalmente pelo público jovem. Escreveu também diversos relatos de viagem. É autor do famoso livro O médico e o monstro (1886). Rodrigo Machado é paulistano. Formou-se em Tecnologia de Processos Gerenciais pela Ebape/FGV. Desde criança é leitor voraz, principalmente de histórias de aventuras. Dedica-se atualmente à tradução e à adaptação de livros infantis e juvenis.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Stevenson, Robert Louis, 1850-1894. A Ilha do Tesouro / Robert Louis Stevenson ; tradução e adaptação Rodrigo Machado ; ilustrações Lelis. – 1. ed. – São Paulo : FTD, 2016. Título original: Treasure Island. ISBN 978-85-96-00403-9 1. Ficção juvenil I. Lelis. II. Título. 16-03015

CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura juvenil  028.5


SUMÁRIO A chave para descobrir os clássicos 8 Almanaque 13 Convite à leitura 30

PARTE 1 — O VELHO PIRATA CAPÍTULO 1 O

velho lobo do mar na Almirante Benbow 37

CAPÍTULO 2 O

Cão Negro aparece e desaparece 44

CAPÍTULO 3 A

mancha negra 51

CAPÍTULO 4 Baú CAPÍTULO 5 A

de marinheiro 59

última do cego 66

CAPÍTULO 6 Os

papéis do capitão 72

PARTE 2 — O COZINHEIRO DE BORDO CAPÍTULO 7 Vou CAPÍTULO 8 Na

para Bristol 81

tabuleta da Luneta 88

CAPÍTULO 9 Pólvora CAPÍTULO 10 A

e armas 95

viagem 102

CAPÍTULO 11 O

que eu ouvi no barril de maçãs 110

CAPÍTULO 12 Conselho

de guerra 117


PARTE 3 — M INHA AVENTURA EM TERRA FIRME CAPÍTULO 13 Como

começou minha aventura em terra firme 125

CAPÍTULO 14 O

primeiro ataque 131

CAPÍTULO 15 O

homem da ilha 138

CAPÍTULO 19 Jim

Hawkins retoma a narrativa: a guarnição na paliçada 165

CAPÍTULO 20 A

embaixada de Silver 172

CAPÍTULO 21 O

ataque 178

PARTE 5 — M INHA AVENTURA MARÍTIMA PARTE 4 — A FORTIFICAÇÃO CAPÍTULO 16 O

doutor continua a narrativa: como o navio foi abandonado 147

CAPÍTULO 17 O

doutor continua a narrativa: a última viagem do dingue 153

CAPÍTULO 18 O

doutor continua a narrativa: termina o primeiro dia de luta 159

CAPÍTULO 22 Como

começou minha aventura marítima 187

CAPÍTULO 23 A

maré vazante 194

CAPÍTULO 24 O

cruzeiro do coracle 199

CAPÍTULO 25 Abaixo

a Jolly Roger 207

CAPÍTULO 26 Israel

Hands 213

CAPÍTULO 27 Peças

de oito 223


PARTE 6 — CAPITÃO SILVER CAPÍTULO 28 No

acampamento do inimigo 231

CAPÍTULO 29 A

mancha negra novamente 240

CAPÍTULO 30 Palavra

de honra 247

CAPÍTULO 31 A

caça ao tesouro: o ponteiro de Flint 255

CAPÍTULO 32 A

caça ao tesouro: a voz entre as árvores 262

CAPÍTULO 33 A

queda de um chefe 269

CAPÍTULO 34 Finalmente

278

Mais sorte que juízo 284 Biografias 286


8

A CHAVE Esta coleção convida você a participar de grandes aventuras: mergulhar nas profundezas da Terra, erguer sua lança contra feiticeiros e gigantes, conhecer os personagens mais fantásticos e mais corajosos de todos os tempos. Algumas dessas aventuras farão sucesso para sempre e vão lhe possibilitar novas maneiras de enxergar a vida e o mundo. Farão você rir, chorar — às vezes as duas coisas ao mesmo tempo. Revelarão segredos sobre você mesmo. E levarão você a enxergar mistérios do espírito humano. Outras ficarão na sua memória por anos e anos. No entanto, você poderá reencontrá-las, não somente nas prateleiras, mas dentro de si mesmo. Como um tesouro que ninguém nem nada jamais tirará de você. Você, ainda, poderá presentear seus filhos e netos com essas histórias e personagens. Com a certeza de estar dando a eles algo valioso — que lhes permitirá descobrir um reino de encantamentos. É isso que os clássicos fazem: encantam a vida de seus leitores. No entanto, sua linguagem, para os dias de hoje, muitas vezes pode parecer inacessível. Afinal, não são leituras


VE PARA DESCOBRIR OS CLÁSSICOS corriqueiras, comuns, dessas que encontramos às dúzias por aí e esquecemos mal as terminamos. Os clássicos são desafiantes. Por isso, esta coleção traz essas obras em textos com tamanho e vocabulário adaptados à atualidade, sem perder o poder tão especial que elas têm de nos transportar, de nos arrebatar para dentro da história. A ponto de poderem muito bem despertar em você a vontade de um dia ler as obras originais. Tomemos como exemplo a obra Robinson Crusoé: o navio do sujeito naufraga. Com muito esforço, ele nada até uma ilha que fica fora das rotas de tráfego marítimo e se salva. É o único sobrevivente. Ao chegar à praia, estira-se na areia, desesperado, convencido de que jamais retornará à civilização e disposto a se deixar morrer ali. Muita gente poderia dizer que essa história não apresenta elementos dramáticos para os dias de hoje, pois dispomos de diversos recursos para evitar que esse tipo de situação aconteça. Com mapas, rastreamento dos navios por satélites, equipes de busca munidas de super-helicópteros e computadores ultramodernos, ele logo seria resgatado. E... a história acabaria.

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No entanto, somos cativados pela luta desse homem, que foi privado de tudo o que conhecia e isolado do mundo durante quase trinta anos. A gente se envolve com o personagem; somos tocados pela sua força de caráter e pela sua persistência em reconstruir, pouco a pouco, a vida, criando, a partir do nada, um novo mundo. O espírito dessa obra não tem a ver com época ou recursos tecnológicos, mas com o dom de exibir o extraordinário. Não apenas o da fantasia, mas o do ser humano. Portanto, o extraordinário de cada um de nós. Os clássicos falam de amor, ciúme, raiva, busca pela felicidade como outras obras não falam. Vão mais fundo, ao mesmo tempo em que são sutilmente reveladores. Não é à toa que atravessaram séculos (alguns, até milênios) e foram traduzidos para tantos idiomas, viraram filmes, desenhos animados, musicais, peças de teatro, histórias em quadrinhos. Existe algo neles que jamais envelhece, conserva-se intensamente humano. E mágico. Afinal, quem é capaz de ler Dom Quixote e não se divertir e se comover com o Cavaleiro da Triste Figura? Quem não torce para Phileas Fogg chegar a Londres, no dia e na hora marcados, e ganhar a aposta, depois de viajar com ele, superando obstáculos e perigos, nos 80 dias de volta ao mundo? Quem lê Os três mosqueteiros sem desejar, uma vez que seja, erguer uma espada junto com seus companheiros, gritando: UM POR TODOS E TODOS POR UM!? Os clássicos são às vezes mais vívidos do que a vida e seus personagens, mais humanos do que o ser humano, porque neles as paixões estão realçadas, e as virtudes e defeitos de seus personagens


são expostos com genialidade criadora, literária, em cenas que jamais serão esquecidas e falas que já nasceram imortais. Os clássicos investigam os enigmas do mundo e do coração, da mente, do espírito da gente. Eles falam de nossas dúvidas, de nossas indagações. Geralmente, não oferecem respostas, mas vivências que nos transformam e nos tornam maiores... por dentro. São capazes de nos colocar no interior do submarino Nautilus, vendo com olhos maravilhados prodígios imaginados por Júlio Verne em Vinte mil léguas submarinas. Ou nos levam à França do século XIX. Num piscar de olhos, estamos prontos para iniciar um duelo de espadas, noutro instante, intrigados, fascinados com a obsessão de Javert, um dos mais impressionantes personagens criados pela literatura. Assim como, em certos trechos, já nos vemos em fuga desesperada sofrendo com toda a injustiça que se abate sobre o herói de Os miseráveis. As traduções e adaptações desta coleção buscam proporcionar a você um acesso mais descomplicado aos clássicos, como se fosse uma chave para descobri-los, para tomar posse de um patrimônio. O melhor que a humanidade produziu em literatura. Luiz Antonio Aguiar Mestre em Literatura Brasileira pela PUC-RJ. É escritor, tradutor, redator e professor em cursos de qualificação em Literatura para professores.

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A ILH

TESOU

ROBERT LO STEVE


HA DO

OURO ALMANA

QUE

RT LOUIS VENSON


Seu nome de batismo é Robert Lewis Balfour Stevenson. Nasceu em Edimburgo, Escócia, em 13 de novembro de 1850, e morreu em 3 de dezembro de 1894, nas Ilhas Samoa — na Polinésia, centro-sul do oceano Pacífico. Seu romance mais famoso é A Ilha do Tesouro, publicado em 1883. Também bastante popular foi O estranho caso do Doutor Jekyll e do Senhor Hyde, de 1886, que no Brasil ficou conhecido como O médico e o monstro. Além dessas obras, em meio aos muitos romances e contos que escreveu, seus fãs costumam destacar Kidnapped Stevenson, cerca de 1880 (Raptado, 1886), The Master of Ballantrae (O senhor de Ballantrae, 1889) e os episódios de As novas mil e uma noites, publicados a partir de 1882, em jornais e revistas. O escritor tinha uma legião de fãs entre seus irmãos de ofício, que admiravam a habilidade com que ele escrevia em variados gêneros: aventura, terror, suspense, histórico... Entre os mais importantes a lhe renderem homenagens estão o escritor russo, que morou a maior parte da vida na Inglaterra, Vladimir Nabokov (1899-1977), e o argentino Jor- Jorge Luis Borges ge Luis Borges (1899-1986). Borges escreveu que a descoberta de Stevenson é uma das “felicidades” que a literatura pode nos proporcionar e o qualificou como o escritor “mais escrupuloso, mais inventivo e mais apaixonante da literatura”.

Hulton Archive/Getty Images

D E S C O B R I N D O S T E V E N S O N...

Christopher Pillitz/Hulton Archive/Getty Images

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UMA HISTÓRIA PARA A GAROTADA

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Fagote, instrumento da família dos sopros

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Young Folks Paper. 1886. Departamento de Irvin de Livros Raros e Coleções Especiais da Universidade da Carolina do Sul.

Culture Club/Hulton Archive/Getty Images

Conta-se que a ideia de A Ilha do Tesouro surgiu quando Stevenson desenhou um mapa do tesouro, por brincadeira, para seu filho adotivo de 12 anos, Lloyd. Até mesmo a cantiga pirata do romance, “O baú do homem morto”, foi inventada por Stevenson, para ilustrar a narrativa que começava a nascer ali, um pouquinho todo dia, à medida que ele a contava (e criava) para o garoto. Mais adiante, a história começou a sair em capítulos — como todo bom folhetim (aquilo que é publicado nas folhas, ou seja, nos jornais e revistas), bem ao modo de Alexandre Dumas (1802-1870), que Stevenson tanto apreciava — na revista para adolescentes Young Folks. Os capítulos surgiram entre outubro de 1881 e janeiro de 1882, e o livro completo saiu em 1883. Foi o primeiro romance (história mais longa) de Stevenson e sua primeira obra dirigida à garotada. Alcançou enorme sucesso. No entanto, o retorno financeiro não foi equivalente à popularidade do livro, pois era considerado literatura menor, justamente por causa do público que a acolheu com mais entusiasmo — os adolescentes.

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C

A

Stevenson tinha talento musical. Tocava piano e fagote, e deixou mais de uma centena de composições e arranjos.


W E I R

O F

H E R M I S T O N

Jean-Baptiste-Édouard Detaille. 1891. Óleo sobre tela. Galeria de Arte de New South Wales. Sydney. Austrália.

O romance que Stevenson anunciava como sua obra-prima, seu melhor livro, nunca foi terminado. Weir of Hermiston era ambientado nas Guerras Napoleônicas (1803-1915), mas o escritor faleceu subitamente, deixando-o incompleto.

Napoleão na Batalha de Friedland

[…] o que o grande escritor, o mais criativo, nos mostra é a realização e a apoteose do que os homens comuns sonham acordados. Memories and portraits, 1887

Alexandre Camanho

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S

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Hulton Archive/Getty Images

Com pouco mais de 20 anos, começaram a se manifestar em Stevenson os primeiros sintomas de enfermidade nos pulmões. O clima frio da Escócia era particularmente severo para quem sofria de doenças desse tipo. Assim, o escritor passou boa parte de sua curta vida em viagens para lugares mais quentes. A tuberculose foi um mal comum, no mundo ocidental do século XIX — inclusive no Brasil. Não havia cura na época. Robert Louis Stevenson estava morando com a família em Vailima, um vilarejo perto de Apia, a capital de Samoa, nos mares do Sul, em 3 de dezembro de 1894, quando morreu de uma hemorragia cerebral, que pode ter sido precipitada pela tuberculose.

Casa em Vailima, Samoa, onde Stevenson viveu com a família nos últimos anos de vida

OUTROS ESCRITORES QUE PERDERAM A VIDA PARA A TUBERCULOSE Emily Brontë, autora de O Morro dos Ventos Uivantes, morreu aos 30 anos. Castro Alves, autor de Navio negreiro, lutou contra a escravidão, mas a

doença o levou aos 24 anos. Casimiro de Abreu, que escreveu o poema “Meus oito anos”, morreu vítima de tuberculose aos 23 anos.


OS PIRATAS Nem todos foram lendas. Mas muitas lendas nasceram das aventuras de piratas que, de fato, foram a praga dos mares. Muitos dos piratas citados em A Ilha do Tesouro, inclusive os seus nomes, são tirados das histórias desses Cavaleiros da Fortuna. Já no final do século XVIII, a Marinha britânica havia conseguido derrotar e executar os mais famosos piratas, pondo um fim a esse capítulo sangrento da história. Somente com o fim da pirataria, pôde prosperar o comércio marítimo no oceano Atlântico. Edward Teach, o Barba Negra. Inglês, de Bristol, nasceu por volta de 1680 e morreu em 1718. Numa batalha com a Marinha inglesa, na costa do que é hoje o estado da Carolina do Norte (EUA) (nesse tempo, colônia britânica), sua cabeça foi cortada durante uma luta e levada para exibição na Inglaterra. William Kidd. Escocês, nasceu em 1645 e morreu em 1701. Acredita-se que tenha sido o pirata mais bem-sucedido da História, tendo reunido imenso tesouro. Foi capturado quando já havia largado a pirataria e fugia da perseguição da Marinha inglesa. Enforcado, seu corpo foi exposto na entrada do rio Tâmisa, em Londres. Stede Bonnet. Nascido numa família aristocrática, em 1688, em Barbados, recebeu educação refinada. Foi companheiro do Barba Negra. Seu enforcamento, em Charleston, hoje Carolina do Sul (EUA), em 1718, foi alardeado como o fim da pirataria no Atlântico. Anne Bonny. Existiram também mulheres piratas. A mais famosa foi essa irlandesa, nascida por volta de 1700. Nunca se comprovou a data de sua morte. Foi capturada em Nassau, com outra pirata, Mary Read, e ambas foram condenadas à forca. Alegaram estar grávidas — e era proibido enforcar mulheres esperando um bebê. Não se sabe o que aconteceu depois, mas alguns autores afirmam que ela morreu com cerca de 80 anos, de volta a sua terra natal. Howard Pyle. Século XX. Ilustração. Coleção particular.

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PIRATA, CORSÁRIO, FILIBUSTEIRO, BUCANEIRO...

Há pequenas diferenças entre essas palavras, que se referem ao mesmo tipo de bandido... O nome mais comum é pirata e, só para se ver como a atividade é antiga, a palavra veio lá do latim. Do francês vem boucanier, ou bucaneiro, que também se referia a bandidos que, nas Antilhas, caçavam bois selvagens. Eram brutais assaltantes das florestas e estradas, que se incorporaram à pirataria. O filibusteiro também era o pirata que agia nas Antilhas. Aparentemente, a palavra vem do holandês vrijbuiter, ou “aquele que saqueia livremente”. Já corsário é o pirata que tem uma carta de corso, ou seja, que captura navios em nome de algum rei (que lhe dá a carta, legalizando sua profissão). Geralmente, esse pirata havia sido um bandido, mas foi ou capturado ou se rendeu às forças legais daquele país. Daí, perdoado, saía pelos mares pirateando, agora oficialmente, em troca de uma comissão paga aos reis sobre o butim (o saque, o que se toma dos navios capturados). No século XVIII, na Inglaterra, publicavam-se anúncios nos jornais, oferecendo trabalho a marinheiros com experiência, dispostos a virar corsários para caçar navios espanhóis. Claro que a carta só valia diante da Marinha e nos territórios daquele reino, e o pirata se comprometia a somente atacar e capturar navios de inimigos do rei ao qual servia. Willem Van de Velde the Younger. 1677. Óleo sobre tela. Museu Marítimo Nacional. Greenwich. Londres.

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Alexandre Dumas (1802-1870). Escritor francês, autor de Os três mosqueteiros e O conde de Monte Cristo, além de uma extensa obra, toda publicada em folhetins. Sobre ele, Stevenson escreveu: “Os livros que relemos com mais frequência nem sempre são os que mais admiramos, nós os escolhemos e os revisitamos por muitas e diferentes razões, assim como escolhemos e revisitamos as pessoas que são nossas amigas”. Entre os livros de Dumas, os que Stevenson escolheu e revisitava com enorme frequência foram Vinte anos depois e O visconde de Bragelonne, justamente as continuações de Os três mosqueteiros. Em 1887, Stevenson escreveu Memories and Portraits, coletânea de ensaios, e em um capítulo, chamado “Gossip on a novel of Dumas”, revisita momentos das tramas de Dumas e exibe efetivamente o imenso prazer em lembrá-los, cunhando, em homenagem a Dumas, uma preciosa síntese do gênero folhetim.

Alexandre Camanho

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[...] os personagens devem falar com fluência e pensar com naturalidade, mas todas as circunstâncias, numa história, relacionam-se entre si como as notas numa melodia. Memories and portraits, 1887

Culture Club/Hulton Archive/Getty Images

ADMIRADOS POR STEVENSON


Memories and portraits, 1887

Alexandre Camanho

Esta é, portanto, a parte plástica da literatura: integrar personagens, pensamentos e emoções em uma ação ou atitude que se grave poderosamente nos olhos da mente [do leitor].

A SINA DO ESCRITOR POPULAR

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O francês Alexandre Dumas e o escocês Stevenson, embora amados pelo público, não obtiveram reconhecimento da parte erudita da literatura de seus respectivos países. Dumas, mulato, nunca foi admitido na Academia Francesa de Letras, o que se tornou para ele uma grande frustração. A sina, aliás, perseguiu um leitor de Stevenson, o inglês Arthur Conan Doyle (1859-1930), nada menos do que o criador de Sherlock Holmes. Doyle foi até mesmo agraciado com o título de I ma gn o/ H cavaleiro pela Coroa inglesa — passou u a agregar o sir ao nome —, mas, desiludido com o pouco prestígio (entre acadêmicos e estudiosos) que suas novelas detetivescas lhe proporcionavam, chegou, por um período, a parar de escrever as aventuras do mais excêntrico morador da Baker Street e matou seu herói. Foi forçado, no entanto, a trazê-lo de volta por pressão dos órfãos de Holmes. Arthur Conan Doyle tty /Ge ive rch

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Long John Silver é considerado por muitos o melhor personagem-pirata de todas as histórias de pirata, um modelo para piratas do cinema, como Jack Sparrow (Piratas do Caribe). É um canalha irresistível e mentiroso convincente, até por ser privado de escrúpulos. Para ele, não existe o que o senso britânico chamaria de honra. Mas Stevenson sabia o que estava fazendo. Corajoso, feroz, habilíssimo combatente, mesmo equilibrando-se em sua perna de pau, insanamente ganancioso. Com todas essas características, combinadas a seu charme, o que temos aqui é uma fantástica composição de personagem, misturando contrastes muito difíceis de se fundir numa mesma criatura. Mas o sucesso do livro e a popularidade de Silver são bem a medida do talento e do trabalho de criação de Stevenson.

Filme de Rob Marshall. Piratas do Caribe 4: Navegando em Águas Misteriosas. EUA. 2011.

O MAGNÍFICO LONG JOHN SILVER

O MODELO PARA LONG JOHN SILVER Cole ar ticular. ç ão p

Entre os amigos que Stevenson fez no meio literário, estava Leslie Stephen, o editor da revista Cornhill. Foi quem o apresentou a outro amigo, em 1875, chamado William Ernest Henley. Henley se tornou grande amigo também de Stevenson. Era um homem expansivo, muito falante, que atraía atenções... e usava uma perna de madeira. Acabaram brigando por razões desconhecidas e se afastando em 1888. Mas contam as lendas literárias que Henley foi o modelo que inspirou Stevenson a criar seu mais famoso (e, segundo alguns, o melhor) personagem: Long John Silver.

William Ernest Henley


➔➔SOBRE A PIRATARIA... 23

Feng Yu/Shutterstock.com

A BANDEIRA. Não se sabe a origem da bandeira pirata mais comum, a caveira com os ossos cruzados, a Jolly Roger. Também é incerta a origem do seu nome. A bandeira era uma ameaça aos navios abordados, lembrando que não haveria clemência, nem prisioneiros, somente a morte para os derrotados.

Roger Viollet Collection/Getty Images

PIRATAS NO BRASIL NO SÉCULO XVIII. Os piratas, principalmente os franceses, foram um tormento frequente para os colonizadores nas costas brasileiras. Em 1711, o corsário francês Duguay Trouin (financiado pelo rei da França, Luís XIV) tomou de assalto o Rio de Janeiro. A cidade foi sitiada e bombardeada. As autoridades portuguesas foram postas em fuga, e os habitantes tiveram de pagar um resgate para que os piratas fossem embora.

Batalha do Rio de Janeiro, em 1711


REJEITANDO STEVENSON

Não estou aqui para explicar minha filosofia [...] mas para distribuir tortas de creme.

Alexandre Camanho

“A história do rapaz das tortas de creme”, em As novas mil e uma noites, 1882

ulton Archive/Getty Im sford/H ages Bere

A literatura de Stevenson teve severos críticos. Os mais eminentes foram a escritora Virginia Woolf (1882-1941) e os demais membros do Grupo de Bloomsbury, que se reuniam no bairro de Londres de mesmo nome. No fundo, como personalidades do novo século, o século XX, rejeitavam o passado vitoriano. E acusaram Stevenson de escrever uma literatura vitoriana. Não deixa de ser irônico que a londrina Woolf criticasse o escocês Stevenson, alegando que ele incorporava em sua obra os padrões da Coroa inglesa. Também vitorianos seriam Oscar Wilde, Charles Dickens, A escritora Virginia Woolf as irmãs Brontë e toda uma geração da segunda metade do século XIX. Foi por influência da obra deles que o Romantismo britânico deixou de ser uma escola exclusivamente de poesia e descobriu como seu gênero hegemônico a prosa (conto, romance). Entretanto, enquanto aqueles escritores foram tratados com cautela, Woolf e seus pares centraram fogo em Stevenson. Talvez por ele escrever uma literatura tida como mais ao gosto popular (e do público juvenil).

C. rge Geo

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A RAINHA VITÓRIA

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Franz Xaver Winterhalter. 1859. Óleo sobre tela. Coleção Real do Reino Unido. Palácio de Buckingham. Reino Unido

Alexandrina Vitória reinou de 1837 a 1901. Rainha de todo o Império Britânico e da Irlanda, além de imperatriz da Índia. Seu reinado se transformou numa Era... — a Era Vitoriana. Dizia-se que o Sol nunca se punha sobre seus domínios, já que era sempre dia em alguma parte do globo sob sua Coroa, fosse na Ásia, África, Oriente Médio, na Oceania ou nas Américas. A Inglaterra — a ilha, não o Império — era vista pelos ingleses como o coração e o cérebro do mundo. E a herdeira natural da cultura clássica greco-romana. Caberia aos britânicos “civilizarem” os demais povos, e, a esses povos, caberia submeterem-se a sua cultura, se não ao poderio de sua Marinha. Eram esses os elementos que justificavam, para os ingleses, o Colonialismo — a dominação à força de populações e nações dos diferentes continentes. Não são poucos os personagens da ficção britânica que expressam esse sentimento de, saindo de Londres, abandonarem a contragosto o mundo, sendo forçados a penetrar na barbárie. Ao mesmo tempo, por inspiração da própria soberana, foi um tempo visto como extremamente puritano nos costumes e de rígido formalismo. Isso significava ser, além de britânico, vitoriano. Acima de tudo, em qualquer lugar ou circunstância, um súdito de Sua Majestade — como alguns dos personagens de A Ilha do Tesouro.


CONFLITO DE PERSONALIDADE Curiosamente, muitos dos leitores e críticos dos livros de Stevenson (principalmente O estranho caso do Doutor Jekyll e do Senhor Hyde) o apontam como o autor que melhor soube compor personagens e dramas, usando a matéria-prima dos recalques e conflitos entre o indivíduo e seu contexto social, sob a moral vitoriana. O Doutor Jekyll, por exemplo, incapaz de conciliar os diferentes fluxos de sua personalidade, divide-se entre o médico e o monstro. Essa é toda a sua tragédia e a energia maior dessa história. Já em A Ilha do Tesouro, a duplicidade de Long John Silver, ao mesmo tempo vilão e herói, não é característica vitoriana. IAM/akg-images/Latinstock

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INGREDIENTES EM AÇÃO O lugar de A Ilha do Tesouro na história da literatura, entre outros motivos, está marcado por certos ingredientes que se incorporaram, dali para sempre, às aventuras de piratas. Por exemplo, o papagaio, já veterano de muitas viagens, e a perna de pau, assinalando a violência do cotidiano de um pirata, são elementos que foram introduzidos por Stevenson na literatura.


Porém, o mais significativo desses elementos foi o mapa do tesouro, com o sinal “X” assinalado no local onde o baú (outro ingrediente trazido por Stevenson) estaria enterrado. É pouco provável que mapas assim tivessem existido de fato, assim como tesouros enterrados em ilhas remotas. Um mapa não teria utilidade para o capitão pirata real, se ele enterrasse suas riquezas numa ilha. Ele, mais do que ninguém, saberia que ilha escolhera e onde, na ilha, enterrara seu baú — se o tivesse feito. O que importa é que, depois de A Ilha do Tesouro, a imaginação das pessoas, em todo o mundo, sempre que se pensa em piratas, pensa em papagaios centenários, pernas de pau, ilhas perdidas, baús e mapas do tesouro. Mais do que os fatos, é a literatura que constrói nosso imaginário.

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pingebat/Shutterstock.com


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1850 13 de novembro, Edimburgo, Escócia. Nasce Robert Lewis (a partir dos 18 anos, Louis) Balfour (nome que abandonou, bem mais tarde) Stevenson.

1876

Fanny Osbourne Stevenson

Conhece Fanny Osbourne, com cerca de 35 anos, separada do marido, com dois filhos. Após o divórcio, os dois se casam, em 1880. Ficam juntos até a morte do escritor.

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(Bélgica) e chegando ao norte da França. Stevenson também se dedicaria, ao longo da vida, a escrever outros livros de viagem.

1880 A saúde de Stevenson começa a declinar gravemente. Ao mesmo tempo, sua carreira literária toma impulso.

1883 Hulton Archive/Getty Images

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1877 Publica contos em periódicos, inclusive alguns dos contos de As novas mil e uma noites, os quais seriam reunidos em livro em 1882. Stevenson passa a publicar contos com frequência.

1878 Publica An Inland Voyage (Uma viagem pelo interior), relato de uma viagem partindo de Antuérpia

Henry James

A Ilha do Tesouro (publicado em capítulos entre 1881 e 1882) sai em livro. Alcança enorme popularidade. Mais ou menos nessa época, torna-se amigo do escritor e ensaísta Henry James (1843-1916) — um dos mais


importantes da literatura inglesa em seu tempo e considerado um clássico hoje em dia.

1886 Publica o romance Kidnapped e a novela O estranho caso do Doutor Jekyll e do Senhor Hyde.

1888 Com a família, viaja para a Califórnia e depois para o oceano Pacífico, fazendo uma parada no Havaí. Em 1889, chega às Ilhas Samoa, onde passa a residir.

1894

Século XXI Após sua morte, alguns escritores e críticos ingleses de renome do século XX rejeitaram duramente a obra de Robert Louis Stevenson, a ponto de ele não ter sido incluído nas mais respeitadas antologias de literatura inglesa, sendo este reconhecimento algo recente.

Em 3 de dezembro, morre, vitimado pelo que hoje seria chamado de AVC (Acidente Vascular Cerebral).

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Tim Graham/Getty Image

Escultura de Stevenson

[…] com uma trincheira ainda mais funda do que a que se abre na maioria dos homens, separei, dentro de mim, os reinos do Bem e do Mal nos quais se divide e dos quais se compõe a natureza dual do ser humano. O estranho caso do Doutor Jekyll e do Senhor Hyde, 1886

Alexandre Camanho

Elaboração: Luiz Antonio Aguiar


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A Ilha do Tesouro é um dos clássicos juvenis mais elogiados e influentes, um absoluto favorito entre os romances de aventuras. Escrito pelo escocês Robert Louis Stevenson, viajou muito além das fronteiras de seu país, aclamado em toda parte, recebendo rasgados elogios dos maiores escritores da literatura internacional. Nada em sua origem fazia pensar que teria tamanho êxito. Na verdade, surgiu despretensiosamente de uma brincadeira num dia de muita chuva, na segunda metade do século XIX. Sem poder sair de casa e querendo distrair seu enteado, Stevenson desenhou com ele o mapa de uma ilha imaginária e começou a fantasiar uma história que se passasse nela. Empolgado com o que ia inventando, desenvolveu essa ideia e a foi fixando no

papel, escrevendo durante 15 dias seguidos os 15 primeiros capítulos. A partir da ideia inicial do mapa, pensou em fazer o que se costuma chamar de “romance de formação”, um livro que conta a história de como um adolescente vai se tornando adulto e amadurecendo enquanto se desenrolam as peripécias do enredo. Mas Stevenson logo teve de interromper esse fluxo de escrita porque adoeceu e em seguida teve de viajar para Londres. Só algum tempo depois dessa interrupção foi possível continuar o trabalho. Nesse intervalo, ain-­ da que não houvesse escrito, Stevenson elaborara um pouco mais aquilo que iria contar. A ideia de uma ilha deserta não era original e já vinha sendo explorada pela literatura desde que Daniel Defoe publicara


Robinson Crusoé em 1719 e fizera muito sucesso. Piratas e tesouros também já faziam parte do repertório do romance de aventuras em meados do século XIX e, com certeza, Stevenson também se inspirou nessas narrativas. Mas o tratamento que deu a todos esses temas é que o tornou único e lhe garantiu enorme sucesso, de público e de crítica, quando passou a publicar o romance em capítulos pela imprensa em 1881-1882. Um sucesso tão grande que logo em seguida foi editado como livro que começou a correr o mundo. Alguns dos motivos explorados por Stevenson em A Ilha do Tesouro se tornaram absolutamente indispensáveis em qualquer história de bucaneiros surgida depois e sempre reaparecem nelas: o mapa do tesouro, o pirata da perna

de pau, o papagaio de pirata, o baú do morto e os esqueletos junto a ele, as canções de bebedeiras, escunas à deriva, ilhas tropicais com coqueiros e praias de areias claras, ameaças de motim a bordo... No entanto, debaixo das aparências superficiais de ser apenas mais uma história de piratas como tantas outras, alguns aspectos da narrativa de Stevenson foram se revelando como traços especiais que acabaram por distingui-la. Nesse contexto, vale a pena chamar a atenção para a psicologia dos personagens, muito variada e coerente, nascida de um autor que sabia observar a natureza humana e refletir sobre ela. Veja-se o caso de Jim Hawkins, por exemplo, o adolescente que começa narrando a história em primeira pessoa. É um menino


entusiasmado por aventuras, feliz por ter a chance de se fazer ao mar, 32 mas modesto e sem nenhuma gabolice — não se acha o maior por ser tão corajoso e é capaz de perceber como seus impulsos súbitos podem ser perigosos e poderiam ter graves consequências. O doutor é alguém sensato, realista, capaz de discernir em quem se pode confiar, procurando ser justo, oscilando entre o excessivamente cuidadoso e o ingênuo. Por sua vez, Long John Silver é um personagem impressionante e inesquecível, rico em aspectos contraditórios e, ao mesmo tempo, coerente em sua ambiguidade. Já foi classificado por um crítico como “o vilão mais memorável de toda a literatura”. Para o leitor que vai travando conhecimento com a história, é impossível confiar nele, mas também é impossível escapar à sua atração e não admirá-lo. Para construir essa constelação de personagens tão diferentes entre si, o relato de Stevenson alterna a descrição minuciosa, por meio de traços e gestos mostrados de forma objetiva, com uma leve ironia que por vezes se manifesta quase zombeteira. Além disso, utiliza muito bem uma notável


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variação de pontos de vista narrativos, fazendo com que de vez em quando a voz que vem contando seja interrompida para que outro personagem possa também trazer seu testemunho do que viu e viveu de modo a relativizar aquilo que, de outra maneira, poderia se apresentar como verdade absoluta. Dessa forma, multiplica os ângulos em que os personagens e os fatos são mostrados e permite que transpareçam opiniões diferentes sobre o que acontece. Por tudo isso, a narrativa é muito forte, direta e cheia de possibilidades oferecidas ao leitor atento, para que perceba sutilezas e entenda mais do que está apenas sendo apresentado na superfície. Um mérito desta tradução e adaptação que agora lhe trazemos foi justamente o de procurar interferir o menos possível nesses procedimentos e buscar manter a riqueza dessas entrelinhas, de modo que A Ilha do Tesouro possa se mostrar em todo seu esplendor. Ana Maria Machado Ocupa a cadeira número um da Academia Brasileira de Letras, e no ano 2000 ganhou o Prêmio Hans Christian Andersen.

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A ILH

TESOU 34


HA DO

OURO 35


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PARTE 1 O VELHO PIRATA


CAPÍTULO 1

O velho lobo do mar na Almirante Benbow

O barão Trelawney e o doutor Livesey me pediram para escrever tudo o que aconteceu nessa história da Ilha do Tesouro, do começo ao fim, sem esconder nada (a não ser onde fica a ilha, pois lá ainda existe um tesouro que não foi trazido). Eu pego a pena neste ano de 17... e volto no tempo, até a época em que meu pai era dono da estalagem Almirante Benbow, ao dia em que o velho marinheiro moreno, com a cicatriz na cara, veio morar conosco. Lembro como se fosse ontem quando chegou, caminhando com dificuldade, puxando seu baú de marinheiro em cima de um carrinho de mão. Um sujeito alto, forte, pesadão, queimado de sol. O cabelo comprido, preso num rabo de cavalo, roçava o paletó azul sebento. As mãos, cheias de cicatrizes, tinham unhas pretas e quebradas. Um lado da cara era marcado pela cicatriz branca e suja de um corte de sabre. Lembro que olhou em volta, fiscalizando a pequena enseada, assobiando. Em seguida, começou a cantar aquela velha canção do mar que, depois, iria cantar tantas vezes:

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Quinze homens sobre o baú... 38

Yo-ho-ho, e uma garrafa de rum... Cantava alto, numa voz tremida. Depois, bateu na porta com um pedaço de bastão semelhante a um pedaço de mastro e, quando meu pai apareceu, pediu um copo de rum. Bebeu devagar, como se estivesse apreciando, sentindo o gosto aos poucos, sempre olhando em volta para as falésias. — Bem jeitosa esta enseada — disse — e um boteco bem agradável. Tem muito movimento, camarada? Meu pai disse que não, infelizmente. — Muito bem, então. Está bom para mim. Pediu ajuda com o baú, enquanto continuava: — Vou ficar um tempo por aqui. Sou um sujeito simples. Qualquer toucinho com ovos me basta, além daquele lugar para ficar olhando os navios. Meu nome? Pode me chamar de capitão. Jogou três ou quatro moedas de ouro. — Quando isso acabar, me diga, que é para eu pagar mais — disse, como quem fosse habituado a comandar. Na verdade, apesar das roupas e do jeito rude de falar, não parecia um marinheiro comum, mas alguém que dava ordens e estava acostumado a ser obedecido. Além do seu interesse pela paisagem da beira do mar e sua busca pelo sossego, nada mais pudemos saber de nosso hóspede. Era um homem muito silencioso. Todos os dias andava a esmo em torno da enseada ou pelo alto dos penhascos, com

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uma luneta de latão. Todas as noites se sentava num canto do salão perto do fogo e bebia uma mistura forte de rum com água. Quando alguém falava com ele, na maioria das vezes não respondia, limitando-se a olhar de forma feroz e a bufar pelo nariz como uma buzina de nevoeiro. Nós e todos os frequentadores da estalagem logo aprendemos a deixá-lo em paz. Todos os dias, quando voltava do seu passeio, perguntava se algum marujo tinha passado pela estrada. No início acreditávamos que perguntava por querer estar em companhia de seus semelhantes, mas depois notamos que desejava evitá-los. Quando um marinheiro se hospedava conosco (como de vez em quando alguns faziam, passando pela estrada costeira até Bristol), observava por trás da cortina da porta antes de entrar no salão e fazia questão de ser silencioso como um camundongo quando um deles estivesse presente. No que me cabia na verdade, isso não me incomodava, pois, de certa maneira, compartilhava de seus temores. Tinha me chamado num canto certo dia e me prometido uma moedinha de prata a cada começo de mês se eu pudesse ficar de “olho vivo e atento” em algum marujo de uma perna só e o avisasse logo que aparecesse. Quase sempre, quando chegava o primeiro dia do mês e eu aparecia para cobrar meu pagamento, ele apenas bufava pelo nariz e me olhava feroz. Mas, antes que a semana acabasse, pensava melhor a respeito, me trazia a moeda e repetia suas ordens para ficar de olho no “marujo com uma perna só”.

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Nem preciso contar como aquele personagem atormentava 40

meu sono. Nas noites de tempestade, quando o vento sacudia os quatro cantos da casa e as ondas rugiam por toda a enseada e penhasco acima, conseguia vê-lo de mil formas e com milhares de expressões diabólicas. Uma hora, a perna estava cortada na altura do joelho, depois na altura do quadril. Outra hora era uma criatura monstruosa que nunca teve duas pernas e tinha apenas uma saindo do meio do corpo. Imaginar esse monstro me perseguindo passou a ser o pior dos pesadelos. Essas fantasias apavorantes eram um preço bem alto por aquela moedinha mensal. Ainda que estivesse tão aterrorizado pela ideia do marujo de uma perna só, tinha muito menos medo do capitão do que qualquer outra pessoa que o conhecesse. Havia noites em que ele bebia mais rum com água do que sua cabeça podia aguentar, e começava a cantar antigas canções marinheiras, maliciosas e selvagens, sem se importar com ninguém. Outras vezes, mandava servir uma rodada a todos os presentes, que eram forçados a escutar suas histórias ou a engrossar o coro em sua cantoria. Quantas vezes ouvi a casa tremer com aquele “Yo-ho-ho, e uma garrafa de rum”, todos os hóspedes participando por amor à vida, com o medo da morte pairando sobre eles, cada um cantando mais alto que o outro, para evitar problemas. Pois nesses acessos ele se tornava a pessoa mais exigente que existia. Batia com a mão na mesa pedindo silêncio, podia explodir com raiva diante de uma pergunta,


ou porque ninguém perguntava nada, se julgasse que a plateia não estava acompanhando sua história. E não deixava ninguém sair da estalagem enquanto ele não bebesse até não poder mais e cambaleasse até o quarto. Mais do que tudo, as pessoas tinham medo das suas histórias. Eram histórias terríveis sobre enforcamentos, tempestades no mar e proezas selvagens no Mar das Caraíbas. Contava que tinha passado a vida entre alguns dos homens mais terríveis que já navegaram pelos mares. Meu pai dizia que a estalagem estava arruinada, pois as pessoas não iam querer continuar indo lá para serem tiranizadas e humilhadas antes de ir para a cama com arrepios. Mas eu acreditava que, na verdade, sua presença nos fazia mais bem do que mal. As pessoas ficavam apavoradas na hora, mas depois até gostavam. Era uma excelente diversão para aquela vida rural e pacata. Mas ele acabou contribuindo para nossa ruína, pois ficou por lá, primeiro, semana após semana, e, depois, mês após mês, até que seu dinheiro acabou, sem que meu pai tomasse coragem para cobrar algo mais. Durante todo o tempo que viveu conosco, o capitão nunca mudou as roupas que vestia, exceto por umas meias que comprou de um mascate. Nenhum de nós chegou a ver aberto o seu grande baú de marinheiro. Ele só foi contrariado uma vez, já no final, quando o declínio a que levou meu pobre pai já estava em fase bem adiantada.

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O doutor Livesey veio ao entardecer para ver o paciente, acei42

tou a pequena refeição oferecida por minha mãe e foi até o salão para fumar cachimbo enquanto seu cavalo era trazido da aldeia, pois não tínhamos estábulo na velha Benbow. Fui atrás e me lembro de reparar como o doutor, tão limpo e arrumado, com suas boas maneiras, contrastava com as pessoas brincalhonas do campo e, acima de tudo, com aquele nosso arremedo de pirata imundo e remelento, encharcado de rum, sentado com os braços jogados por cima da mesa. De repente, o capitão começou a cantar sua canção de sempre: Quinze homens sobre o baú... Yo-ho-ho, e uma garrafa de rum... Bebida e o diabo acabaram com o resto Yo-ho-ho, e não sobrou nenhum... A essa altura ninguém prestava mais muita atenção na canção. Naquela noite ela era novidade só para o doutor Livesey, que não gostou de ouvi-la, pois pareceu bem zangado antes de começar a conversar com o velho jardineiro sobre uma nova cura para o reumatismo. Enquanto isso, o capitão ia se empolgando em sua cantoria, até que bateu com a mão na mesa daquela maneira que todos nós sabíamos o que significava: silêncio. Todas as vozes se calaram de uma só vez. Somente o doutor Livesey continuou como antes, falando de forma clara e gentil, e tragando o cachimbo com vigor entre cada palavra ou duas.


O capitão bateu na mesa de novo, encarou fixamente o doutor e bradou com grosseria: — Silêncio no convés! — O senhor estava se dirigindo a mim? — perguntou o doutor. O rufião confirmou com outro grito. — Só tenho uma coisa a dizer ao senhor — replicou o doutor. — Se continuar bebendo rum desse jeito, o mundo logo se livrará de um canalha muito sujo! A fúria do velho capitão foi horrorosa. Ficou de pé num pulo, sacou e abriu um canivete de marinheiro e o balançou de um lado para o outro na palma da mão, ameaçando cravar o doutor na parede. O doutor nem chegou a se mover. Continuou falando com ele por cima do ombro e no mesmo tom de voz, apenas um pouco mais alto, de forma que todos na sala pudessem ouvir, mas em perfeita calma e firmeza: — Se não guardar essa faca de volta no bolso agora, prometo, pela minha honra, que a próxima sentença do tribunal tratará do seu enforcamento. Uma batalha de olhares entre os dois se desenrolou a seguir, mas o capitão logo cedeu, guardou a arma e sentou-se de volta, grunhindo como um cão castigado. Pouco depois, o cavalo do doutor Livesey chegou e ele partiu. O capitão ficou quieto naquela e nas noites seguintes, durante um bom tempo.

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CAPÍTULO 2

O Cão Negro aparece e desaparece

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Pouco tempo depois aconteceu o primeiro dos estranhos eventos que nos livrariam do capitão, mas não dos seus negócios. Era um inverno muito frio e severo. Meu pai estava cada vez pior, e minha mãe e eu tínhamos que tomar conta dele e de toda a estalagem sem nenhuma ajuda. Por isso não tínhamos tempo para dar atenção ao nosso hóspede desagradável. Era uma manhã de frio cortante, a enseada toda cinzenta de geada, a ondulação quebrando suavemente nas pedras, o sol ainda baixo, apenas tocando o topo das colinas e brilhando ao longe no mar. O capitão tinha se levantado mais cedo que o habitual e descido para a praia, com a luneta de latão debaixo do braço e o chapéu inclinado para trás na cabeça. Minha mãe estava no andar de cima com meu pai, e eu punha a mesa do café da manhã antes da volta do capitão, quando a porta do salão se abriu, e entrou um desconhecido. Era sebento e pálido, e lhe faltavam dois dedos na mão esquerda. Trazia um sabre na cintura, mas não parecia ser um


combatente. Fiquei intrigado. Não parecia um marinheiro, e ainda assim havia nele um bocado de mar. Perguntei como poderia servi-lo, e ele disse que queria rum. Quando fiz menção de ir buscar a garrafa, sentou-se junto a uma mesa e fez sinal para que me aproximasse. Parei onde estava. — Venha cá, guri — disse. — Chegue mais perto. Dei um passo adiante. — Essa é a mesa do meu camarada Bill? — perguntou, com malícia. Contei que nada sabia sobre seu camarada Bill e que a mesa era reservada para um dos hóspedes, que chamávamos de capitão. — Ora — disse —, meu camarada Bill bem poderia ser chamado de capitão. Tem uma cicatriz na bochecha e gosta de dar ordens, especialmente quando bebe. Digamos que seu capitão tenha um corte na bochecha, e digamos, se for do seu agrado, que seja na bochecha direita... Ora, veja! Nunca duvidei que era ele mesmo! Agora, por acaso meu camarada Bill está na casa? Contei que ele estava caminhando lá fora. — Pra que lado, guri? Por onde ele foi? Apontei para o rochedo, contei que o capitão devia voltar logo e respondi mais algumas perguntas. — Ora, ora — disse —, vai ser ótimo beber com meu camarada Bill.

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Enquanto dizia isso, sua expressão não era nem um pou46

co agradável e eu tinha minhas razões para desconfiar do que falava. Não sabia o que fazer. O estranho ficou por ali, bem perto da porta, espreitando a esquina como um gato esperando um rato. Em certo momento, quando saí, me chamou de volta imediatamente. Como não obedeci rápido o bastante, sua cara sebenta assumiu um ar horripilante, e ordenou que voltasse, com uma praga que me fez saltar. Assim que voltei, retomou suas maneiras anteriores, entre a bajulação e a zombaria. — Mas o melhor para meninos é a disciplina, guri, disciplina — disse. — Veja só, se tivesse navegado com Bill, nunca seria preciso lhe chamar duas vezes. E com certeza lá vem o meu camarada Bill, com sua luneta debaixo do braço. Nós dois vamos voltar para o salão, guri, e faremos uma surpresinha. Assim dizendo, voltamos para dentro do salão, e o estranho me colocou num canto, atrás dele, ambos escondidos pela porta aberta. Eu estava assustado e meus temores só aumentaram quando percebi que o estranho também estava apavorado. Ele mexeu no cabo do seu sabre e soltou a lâmina da bainha. Finalmente o capitão entrou com passos largos, a porta batendo atrás dele, sem olhar para nenhum dos lados, avançando pelo salão até a mesa onde o café da manhã o esperava. — Bill — disse o estranho, numa voz que pretendia ser potente e corajosa.


O capitão girou nos calcanhares e ficou de frente para nós. Todo o sangue fugiu do seu rosto. Parecia ter visto um fantasma ou um demônio. — Com certeza reconhece um velho colega de tripulação — disse o estranho. O capitão deu uma espécie de suspiro. — Cão Negro — disse. — E quem mais? — continuou o outro, ficando mais à vontade. — Cão Negro, sempre presente, fazendo uma visita ao meu velho colega Billy, na estalagem Almirante Benbow. Ora, Bill, vivemos bons tempos juntos, nós dois, cheguei até a perder duas garras — e exibiu sua mão mutilada. — Escute aqui — disse o capitão —, você me alcançou, aqui estou, então, vamos lá, desembucha: o que foi? — Esse é o Bill — respondeu o Cão Negro — e tem toda a razão, Billy. Vou pedir um copo de rum a essa criança adorável, a quem já estou me apegando. Vamos nos sentar e vamos falar com franqueza, como velhos camaradas. Quando voltei com o rum, já estavam sentados, um de cada lado da mesa onde o capitão costumava fazer seu desjejum. O Cão Negro perto da porta, sentado de lado, como se tivesse um olho em seu antigo colega de tripulação e o outro em sua rota de fuga. Mandou que eu saísse e deixasse a porta aberta. Retirei-me para o bar e por algum tempo, ainda que fizesse o possível para escutar algo, não conseguia ouvir nada além

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de uma conversa em murmúrios. Aos poucos as vozes começa48

ram a ficar mais altas, e consegui fisgar uma ou outra palavra, na maioria das vezes pragas do capitão. Então, de repente, foi uma tremenda explosão de xingamentos e outros ruídos. Ouvi mesa e cadeiras sendo derrubadas, o barulho de aço se chocando, seguido de um grito de dor. O Cão Negro saiu correndo, com o capitão em seu encalço, ambos com os sabres nas mãos, o primeiro com sangue escorrendo do ombro esquerdo. Ao chegarem à porta, o capitão tentou um último e tremendo golpe no fugitivo, mas seu golpe foi bloqueado pela grande tabuleta da Almirante Benbow. Aquele foi o último golpe da batalha. Uma vez na estrada, o Cão Negro correu a toda e desapareceu na crista da colina. O capitão, por sua vez, ficou olhando perplexo para a tabuleta. Depois passou várias vezes a mão sobre os olhos e voltou para dentro. — Jim, rum — disse e, enquanto falava, cambaleou um pouco, apoiando-se com uma das mãos na parede. — Você está ferido? — gritei. — Rum — repetiu. — Tenho que sair daqui. Rum! Rum! Corri para buscar a bebida, mas antes de voltar ouvi algo caindo com tudo no salão. Corri até lá e vi o capitão estirado no chão. Foi quando minha mãe, alarmada com o barulho da briga, correu escada abaixo para me ajudar. Levantamos a cabeça do capitão, que respirava com dificuldade, com os olhos fechados. A cor do seu rosto era horrível.

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Não tinha a menor ideia sobre como ajudar o capitão. Só conseguia imaginar que ele havia sido mortalmente ferido na briga. Foi um alívio quando a porta se abriu e o doutor Livesey entrou para sua visita ao meu pai. Ele logo percebeu que o capitão não estava ferido, mas tinha sofrido um ataque, como ele mesmo já o tinha alertado. — Agora, senhora Hawkins — disse ele —, suba para junto do seu marido e, se possível, não conte nada sobre o que aconteceu aqui. Farei o que puder para salvar a vida desse sujeito inútil. E você, Jim, traga-me uma bacia. Quando voltei com a bacia, o doutor já tinha rasgado a camisa do capitão e exposto seu grande braço musculoso. Tinha várias tatuagens: “Sorte Eterna”, “Bons Ventos, Billy Bones”, todas muito nítidas e bem desenhadas no antebraço. Perto do ombro, havia o desenho perfeito de um homem enforcado. O doutor perguntou se eu tinha medo de sangue e, quando disse que não, mandou que segurasse a bacia, pegou seu bisturi e deu um corte em uma veia. Saiu uma grande quantidade de sangue antes que o capitão abrisse os olhos e parecesse confuso. Logo sua cor mudou, e tentou se levantar, sem sucesso. O doutor o amparou e disse: — O que tenho a dizer é o seguinte: um copo de rum não vai lhe matar, mas se tomar um, vai acabar tomando outro, e mais um, e vai acabar morrendo. Você entende isso?

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Com muito esforço conseguimos içá-lo até o andar de 50

cima e o deitamos na cama, onde tombou, quase como se tivesse desmaiado. Depois disso, o doutor foi ver meu pai, me levando pelo braço. — Não foi nada — disse, assim que fechou a porta. — Tirei bastante sangue para deixá-lo quieto por um tempo. Deve ficar deitado onde está por uma semana, é o melhor para ele e para vocês. Se tiver outro derrame, vai ser o fim.


CAPÍTULO 3

A mancha negra

Por volta do meio-dia fui ao quarto do capitão com bebidas refrescantes e remédios. Estava deitado como o tínhamos deixado, apenas um pouco mais aprumado, e parecia tão fraco quanto agitado. — Jim — disse —, você é o único por aqui que vale alguma coisa e sabe que sempre fui bom para você. Nunca passei um mês sem lhe pagar uma moeda de prata. Agora pode ver, camarada, que estou bem por baixo, abandonado por todos. Jim, pode me trazer uma canequinha de rum agora, não é, amigo? — O doutor... — comecei. Mas ele disparou a amaldiçoar o doutor, numa voz fraca, mas apaixonada. — Doutores são todos patetas — continuou —, e aquele doutor, como assim, o que ele sabe sobre homens do mar? Estive em lugares quentes como piche derretido, com companheiros derrubados pela febre amarela por todos os lados e terras amaldi­ çoadas por terremotos, sacudindo como ondas no oceano. O que o doutor sabe disso tudo? O rum é a minha vida, meu amigo.

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Se eu não tiver mais o meu rum, serei só um casco velho de na52

vio abandonado numa praia. Minha morte assombrará você e aquele doutor pateta... Continuou por um tempo soltando pragas: — Veja, Jim, como meus dedos tremem — dizia, em tom de súplica —, não posso mantê-los firmes. Não entornei nem uma gota neste dia bendito. O próprio doutor disse que só um copo não me faria mal, eu lhe daria um guinéu de ouro por uma caneca, Jim. Ele foi ficando cada vez mais agitado, e isso me deixou um pouco preocupado com meu pai, que estava muito mal naquele dia e precisava de repouso. Além disso, depois de ouvir o capitão repetir as palavras do doutor, me convenci de que tinha razão. A oferta de suborno me ofendeu, mas atendi ao seu pedido. Assim que trouxe o copo, ele o tomou de minhas mãos e bebeu tudo de um só gole. — Ai, ai — disse —, assim é melhor, com certeza. Diga, amigo, por acaso o doutor falou quanto tempo devo ficar aqui neste velho ancoradouro? — Uma semana pelo menos — respondi. — Maldição, uma semana?! — gritou. — Não posso ficar aqui uma semana. Já terão me entregado a mancha negra até lá! Aqueles mandriões não souberam poupar e agora querem tomar o que é dos outros. Sempre fui econômico, jamais gastei meu


dinheiro à toa, nem o perdi por aí. Não tenho medo deles! Vou desviar de outro recife e despistá-los de novo. Enquanto dizia isso, ergueu-se com grande dificuldade, segurando no meu ombro com um tremendo apertão. Suas palavras tão intrépidas contrastavam com a fraqueza da voz que as pronunciava. Fez uma pausa quando conseguiu se sentar na beira da cama. — Aquele doutor acabou comigo — murmurou. — Meus ouvidos estão zumbindo. Ajude-me a deitar. Antes que pudesse ajudá-lo, já tinha caído de volta na mesma posição de antes, onde ficou quieto por um tempo. — Jim — disse afinal —, você viu aquele marujo de novo? — O Cão Negro? — perguntei. — Ah! O Cão Negro... — disse. — Esse é um sujeito mau. Mas existem outros piores. Ouça, se não conseguir escapar, e me marcarem com a mancha negra, preste atenção, é do meu velho baú que eles estão atrás. Então, pegue um cavalo e vá procurar aquele doutor pateta. Avise que vão pegar todos a bordo da Almirante Benbow, todos os que sobraram da antiga tripulação do Flint. Eu era o imediato e sou o único que conhece o lugar. Ele me contou em Savannah, já quase morto. Mas você não vai abrir o bico a não ser que eles me entreguem a mancha negra, ou se você vir aquele Cão Negro de novo, ou um marujo com uma perna só, Jim. Ainda mais neste caso... — Mas o que é essa mancha negra, capitão? — perguntei.

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— É uma convocação, camarada. Vou avisar se me trouxe54

rem. Mas fique de olhos bem abertos, e vamos dividir tudo meio a meio, prometo pela minha honra. Ele divagou um pouco mais, sua voz cada vez mais fraca. Quando consegui lhe dar o remédio, que ele tomou como uma criança, comentou: — Se algum marujo quis tomar remédio algum dia, esse fui eu. Caiu em um sono profundo e assim o deixei. Não sei o que deveria ter feito se tudo tivesse corrido bem. Acho que teria contado tudo ao doutor, pois morria de medo de que o capitão se arrependesse das confissões e desse cabo de mim. Mas acontece que meu pobre pai acabou morrendo de repente justamente naquela noite, o que deixou todo o resto em segundo plano. Nossa angústia, as visitas dos vizinhos, os arranjos do funeral, e ainda por cima, ao mesmo tempo, todo o trabalho da estalagem, tudo isso me manteve tão ocupado que mal tive tempo para pensar no capitão ou sentir medo dele. Na manhã seguinte, desceu e fez as refeições como sempre, embora tenha comido pouco. Ia por conta própria se servir no bar e deve ter bebido mais do que costumava. Na noite da véspera do funeral, estava mais bêbado do que nunca. E era revoltante, na casa em luto, ouvi-lo cantando aquela horrível canção. O capitão estava cada vez mais fraco, subia e descia as escadas com esforço. Ia e voltava entre o salão e o bar, sempre


procurando apoio nas paredes, ofegando cada vez mais forte e rápido como alguém que sobe uma montanha inclinada. Nunca falava comigo e parecia ter esquecido o que me confidenciara. Mas seu temperamento ficou imprevisível e mais violento que nunca, apesar da fraqueza física. Quando bêbado, passou a ter a mania assustadora de deixar o sabre à vista em cima da mesa. Mas já não prestava tanta atenção às pessoas, parecendo perdido dentro dos seus pensamentos. Uma vez, para nossa admiração, cantou uma espécie de canção rural de amor, que deve ter aprendido na juventude antes de partir para o mar. As coisas iam seguindo seu curso até que, certo dia, lá pelas três horas de uma tarde implacável de tão gelada e enevoada, eu estava parado à porta, cheio de pensamentos tristes sobre meu pai, quando percebi algo se movendo com lentidão pela estrada. Logo vi que era um cego, pois usava um bastão para tatear o caminho e tinha uma bandagem verde cobrindo os olhos e o nariz. O homem andava curvado, por velhice ou fraqueza, e estava vestindo uma velha capa de marinheiro muito esfarrapada com um capuz. Nunca tinha visto uma figura tão medonha. Parou a certa distância da estalagem e, levantando a voz em um tom cantado e estranho, se dirigiu ao vazio à sua frente: — Poderia alguma alma gentil ajudar um pobre cego, que perdeu a graça de enxergar defendendo com valentia sua terra natal, a Inglaterra? Em que canto do país estou agora?

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— Você está na Almirante Benbow, na enseada da Ponta 56

Negra, meu bom homem — eu disse. — Ouço uma voz — disse —, uma voz jovem. Poderia me esticar sua mão, meu jovem amigo, e me levar até lá dentro? Estendi minha mão, e a horrível criatura, de fala macia e sem olhos, a agarrou como se fosse um alicate. Fiquei tão assustado que tentei recuar, mas o cego me puxou para perto dele com força. — Agora, garoto — disse —, me leve ao capitão. — Senhor — respondi —, juro que não me atreveria. — Oh — zombou —, que coisa! Leve-me logo, ou quebro seu braço. E, enquanto falava, deu um apertão que me fez gritar de dor. — Senhor — murmurei —, digo isso em seu interesse. O capitão não é mais o mesmo. Senta-se agora com o sabre desembainhado. Um outro cavalheiro... — Vamos, agora, marche — me interrompeu, e nunca ouvi uma voz tão cruel, fria e medonha como aquela. Ela me intimidou mais do que a própria dor, e logo obedeci, entrando pela porta e indo direto ao salão, onde nosso pirata velho e doente estava sentado, zonzo de rum. O cego me abraçou, segurando meu braço com punho de ferro e jogando mais peso em mim do que eu podia carregar: — Leve-me direto até ele e, quando chegarmos, diga: “Aqui está um amigo seu, Bill”. Do contrário, vou fazer isso.


E me deu um beliscão tão forte que achei que ia desmaiar. A dor e a voz me deixaram completamente apavorado, a ponto de ter me esquecido do terror que o capitão me causava, e, assim que chegamos ao salão, gritei as palavras com uma voz trêmula. O coitado do capitão levantou os olhos, e foi o que bastou para o rum evaporar todo, deixando-o sóbrio e atento. Não parecia amedrontado, apenas muito doente. Fez menção de se levantar, mas acho que não lhe restava força suficiente. — Bill, quero que fique quietinho onde está — disse o sujeito. — Posso não enxergar, mas posso ouvir um dedo se mexendo. Negócios são negócios. Estenda sua mão esquerda. Garoto, pegue a mão esquerda dele pelo punho e a traga até perto da minha mão direita. Ambos obedecemos à risca. Vi quando passou algo, que trazia escondido na mão que segurava a bengala, para a palma da mão do capitão, que a fechou imediatamente. — Está feito! — disse o cego. Com essas palavras, largou-me de repente e, com extraordinária precisão e agilidade, escapuliu do salão em direção à estrada. Permaneci imobilizado enquanto pude ouvir o som de sua bengala tateando pelo caminho. Eu e o capitão ficamos atônitos por um tempo até que larguei seu pulso e ele recolheu sua mão e olhou intensamente para sua palma. — Dez horas! — gritou. — Ainda temos seis horas. Vamos conseguir! — e se levantou.

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Assim que o fez, cambaleou, levou a mão à garganta, vaci58

lou por um momento e, então, com um som estranho, caiu com tudo, de cara no chão. Corri até ele, chamando pela minha mãe. Mas a pressa não serviu de nada. O capitão sofrera um ataque fulminante. É difícil de entender, pois, com certeza, nunca tinha gostado dele, ainda que no final começasse a sentir pena. Mas, assim que o vi morto, me derramei em uma torrente de lágrimas. Era a segunda morte que vivia, e a dor da primeira ainda estava fresca na minha memória.


CAPÍTULO 4

Baú de marinheiro

É claro que não perdi tempo e contei logo para minha mãe tudo o que sabia. É provável que devesse ter contado bem antes, pois acabamos ficando em uma situação difícil e perigosa. Uma parte do dinheiro do homem, se é que havia algum, com certeza era devido a nós. Mas não estava muito claro se os antigos colegas do nosso capitão iam abrir mão de parte do seu butim para pagar as dívidas do morto. A ordem do capitão para montar de imediato e cavalgar até o doutor Livesey deixaria minha mãe sozinha e desprotegida, o que era impensável. Na verdade, parecia impossível para qualquer um de nós dois continuar por muito tempo naquela casa onde tudo nos enchia de pavores. Assombrados, imaginávamos passos se aproximando, e, com o capitão morto no chão do salão e a lembrança daquele detestável pedinte cego pairando por ali e podendo voltar de surpresa, houve momentos em que fiquei arrepiado de medo até o último fio de cabelo. Tínhamos que fazer algo rápido e afinal decidimos sair juntos para procurar ajuda na aldeia vizinha. Assim que pensamos

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nisso, saímos correndo, sem nem pensar em cobrir a cabeça, 60

através da neblina congelante do anoitecer. A aldeia não ficava longe, ainda que se localizasse fora da vista, do outro lado da enseada vizinha. O que mais me encorajava era o fato de ela ficar na direção oposta da qual tinha vindo o cego. Não permanecemos muito tempo na estrada e ainda assim paramos algumas vezes para ouvir com atenção, abraçados um ao outro. Mas não havia nenhum som incomum, somente o marulhar das ondas na praia e os barulhos dos habitantes da mata. As velas já estavam acesas quando chegamos à aldeia, e me animei ao ver aquela luz amarelada brilhando pelas portas e janelas. Só que nada conseguimos ali. Ninguém aceitou nos acompanhar de volta à estalagem Almirante Benbow. O nome do capitão Flint, embora novidade para mim, era bastante conhecido para alguns deles e trazia uma grande carga de terror. Alguns dos homens que naquele dia tinham trabalhado nos campos próximos à estalagem disseram ter visto estranhos na estrada. Um dos trabalhadores chegou a ver uma chalupa no local chamado de Gruta das Gaivotas. Bastava ser companhei­ro do capitão para deixá-los morrendo de medo. A verdade é que podíamos contar com vários homens que aceitariam ir a cavalo na outra direção e procurar o doutor Livesey, mas não havia nenhum que nos ajudasse a proteger a estalagem.


Depois da recusa geral, minha mãe fez um discurso. Declarou que não ia perder o dinheiro que pertencia ao seu menino órfão: — Se nenhum de vocês se atreve — disse —, Jim e eu vamos ter coragem. Vamos voltar lá, sem dever nada a esses marmanjos medrosos. Vamos abrir aquele baú, nem que tenhamos que morrer por causa disso. É claro que eu disse que iria voltar com minha mãe. Todos gritaram que éramos imprudentes, mas tudo o que fariam era me dar uma pistola carregada para caso fôssemos atacados. Enquanto isso um rapaz foi enviado a galope para buscar o doutor e alguma ajuda armada. Meu coração batia a toda quando nós dois saímos em nossa missão perigosa. A lua cheia tinha nascido há pouco e já aparecia avermelhada acima da neblina. Logo vimos que em breve estaria claro como dia e qualquer um que estivesse vigiando poderia nos ver. Avançamos junto à cerca, velozes e em silêncio, até que, para nosso alívio, a porta da Almirante Benbow se fechou às nossas costas. Passei logo o ferrolho. Paramos e ofegamos por um tempo no escuro. Minha mãe pegou uma vela no bar, e avançamos ao salão. O capitão estava estirado como havia caído, de costas, com os olhos abertos e um braço esticado. Fechamos as persianas para que não pudessem nos espiar lá de fora, e me ajoelhei junto ao corpo para procurar alguma chave que abrisse o baú.

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No chão, perto da sua mão, havia um pequeno pedaço de 62

papel, enegrecido em um dos lados. Não tinha como duvidar que fosse a mancha negra. Peguei o papel e li do outro lado, em uma letra muito nítida e bem desenhada, a pequena mensagem: “Você tem até dez da noite”. — Vão voltar às dez, mãe — disse, e foi só falar isso que nosso relógio começou a badalar. Ficamos assustados, mas eram boas-novas, pois ainda eram seis horas. Apalpei seus bolsos, um após o outro. Só encontrei umas poucas moedinhas, um pedaço de fumo de rolo mordido numa ponta, o canivete com o cabo torto, uma bússola de bolso e outros artigos de marinheiro. — Talvez esteja pendurada no pescoço — sugeriu minha mãe, angustiada. Com imensa repugnância, abri sua camisa no colarinho e, realmente, lá estava a chave, presa por um cordão que cortei com o canivete. Nossa esperança se renovou, e subimos com pressa a escada até o seu quarto, onde o baú tinha ficado desde o dia da sua chegada. Por fora, parecia com qualquer outro baú de marinheiro, com a inicial B queimada com um ferro em brasa na parte de cima e os cantos amassados e quebrados devido a muito tempo de uso bruto. — Dá aqui a chave — disse minha mãe, que abriu o ca­ deado emperrado num piscar de olhos.


Assim que levantou a tampa, um cheiro forte de tabaco e alcatrão veio de dentro, mas só víamos belas roupas escovadas e dobradas com cuidado. Debaixo delas, uma miscelânea: um quadrante, uma caneca de estanho, vários rolos de fumo, um par de pistolas muito bonitas, um lingote de prata, um velho relógio espanhol e uma meia dúzia de conchas exóticas das Índias Ocidentais. Muitas vezes me perguntei por que ele teria carregado essas conchas em sua vida errante, criminosa e assombrada. Não encontramos nada de valor além da prata, que não nos interessava. Por baixo de tudo havia uma velha capa de marinheiro, esbranquiçada com o sal marinho de muitos ancoradouros. Minha mãe a puxou com impaciência, e caíram à nossa frente as últimas coisas do baú: um pacote embrulhado com oleado que parecia conter papéis e um saco de lona que tilintou como ouro ao ser tocado. — Vou mostrar a esses patifes que sou uma mulher honesta — disse minha mãe. — Vou pegar o que ele me devia e nem um tostão a mais. Segure essa sacola. E começou a contar enquanto transferia o ouro do capitão para a bolsa que tinha sido emprestada por uma moradora da aldeia. Foi uma tarefa longa e complicada, pois as moedas eram de várias nacionalidades e tamanhos, todas misturadas. Minha mãe queria apenas os guinéus, que eram os mais raros naquela coleção.

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Quando estávamos quase na metade do trabalho, a inter64

rompi. Tinha ouvido um som que me trouxe o coração à boca: o tamborilar da bengala do cego sobre a estrada congelada. Ia se aproximando cada vez mais, enquanto prendíamos a respiração, sentados no chão. A bengala atingiu a porta da estalagem com força, e pudemos ouvir a maçaneta sendo girada e o ferrolho fazendo barulho com o miserável tentando entrar. Seguiu-se um longo período de silêncio, tanto do lado de fora como dentro da casa. Finalmente o tamborilar recomeçou e, para nossa imensa alegria e gratidão, se afastou bem devagar até não ser mais ouvido. — Mãe — disse —, pegue tudo e vamos. Com certeza a porta trancada tinha levantado suspeita e iria trazer todo o ninho de marimbondos para cima de nós. Mas minha mãe, mesmo apavorada como estava, jamais concordaria em levar um centavo a mais do que tinha direito, ao mesmo tempo em que insistia em não levar menos que a conta devida pelo capitão. — Não são nem sete da noite — ela disse. Conhecia seus direitos e faria com que fossem respeitados. Ainda estava argumentando comigo, quando ouvimos um assobio grave vindo do alto da colina. Foi o bastante. — Vamos! Vou levar o que já tenho — ela disse, ficando de pé num pulo. — E eu vou levar isso aqui para completar — disse, pegando o pacote de oleado.


Num instante tateamos escada abaixo, pois deixamos a vela junto ao baú vazio, e logo depois já tínhamos aberto a porta e disparado em fuga. A neblina se dissipava com rapidez e a Lua já brilhava bem clara no terreno alto de ambos os lados, e justamente o fundo do vale em torno da porta da estalagem era o único ponto ainda coberto por um fino véu de neblina que escondia os primeiros movimentos da nossa fuga. Bem antes da metade do nosso caminho até a aldeia, no início da subida da colina, seria inevitável ficarmos expostos ao luar. E isso não era tudo. O som de passos de várias pessoas começou a chegar aos nossos ouvidos e, quando olhamos em sua direção, uma luz balançando de um lado para o outro nos mostrou que um deles carregava uma lanterna. — Querido — sussurou minha mãe de repente —, pegue o dinheiro e corra. Vou acabar desmaiando. Pensei que seria nosso fim. Mas já estávamos quase na pequena ponte, e a ajudei até a margem do riacho, onde suspirou ao se apoiar no meu ombro. Consegui arrastá-la com dificuldade pelo barranco até debaixo do arco. Não dava para nos escondermos totalmente, pois a ponte era muito estreita e baixa. Estávamos tão perto da estalagem que podíamos ouvir tudo o que lá se passava.

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CAPÍTULO 5 66

A última do cego

Minha curiosidade era ainda maior que meu medo. Acabei engatinhando até o alto do barranco, onde, escondido atrás de uma moita, conseguia ver a estrada. Mal tinha me posicionado quando começaram a chegar, uns sete ou oito, correndo a toda. O homem com a lanterna vinha um pouco à frente. Três homens corriam juntos, de mãos dadas. Logo concluí que o que vinha no meio do trio era o pedinte cego. Em seguida, sua voz confirmou o que tinha imaginado. — Derrubem a porta! — gritou. Alguns deles arremeteram contra a Almirante Benbow. Ficaram surpresos de encontrar a porta aberta e pararam, cochichando. Mas a pausa foi breve, e o cego recomeçou com suas ordens, desta vez gritando com raiva e impaciência: — Para dentro! — berrou e os amaldiçoou pela demora. Quatro ou cinco obedeceram logo, dois ficaram na estrada com o cego. Houve uma pausa, seguida de um grito de surpresa. — Bill está morto! Mas o cego os xingou de novo pela demora:


— Malditos! Revistem logo o corpo! Os outros subam e peguem o baú! Pude ouvir o barulho dos passos subindo nossa velha escada. A janela do quarto do capitão foi aberta com toda força e a vidraça se quebrou. Um homem apareceu, cabeça e ombros ao luar, e gritou para o cego abaixo: — Pew! Alguém revirou o baú do casco até o mastro! — Mas o que procuro? Está aí? — rosnou Pew. — O dinheiro está aqui. O cego amaldiçoou o dinheiro. — Falo das anotações de Flint — gritou. — Não encontramos nada parecido — respondeu o homem. — Você, aqui embaixo, viu se está com Bill? — gritou o cego de novo. Nisso, outro sujeito, provavelmente o que tinha ficado no andar de baixo para revistar o corpo do capitão, veio até a porta. — Bill já foi todo revirado — disse — e não sobrou nada. — Foi aquele pessoal da estalagem. Foi aquele garoto. Devia ter arrancado os olhos dele! — gritou o cego. — Estavam aqui agora há pouco, tinham trancado a porta quando tentei entrar. Não podem estar longe. — Claro que foram eles, até deixaram uma vela aqui — disse o sujeito da janela. — Espalhem-se e os encontrem! Vasculhem a casa toda! — reiterou Pew, batendo com a bengala no chão da estrada.

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Em seguida houve imensa atividade por toda a estalagem, 68

com muito barulho de coisas sendo quebradas e reviradas, até que os homens viessem de volta para fora, um após o outro, declarando que nada havia para ser encontrado. Nessa hora o mesmo assobio que nos assustara antes foi ouvido com clareza de novo, mas, dessa vez, repetido duas vezes. Tinha pensado que era uma convocação para o ataque, mas agora percebia que era um sinal vindo da colina para os lados da aldeia e, pelo efeito causado, servia para alertá-los do perigo. — Dois assobios dessa vez! — disse um deles. — Vamos escapulir! — Ninguém vai escapulir! — gritou Pew. — Esses patifes devem estar por perto, não podem ter ido longe. Espalhem-se e procurem, seus gambás! Arre, se não me faltassem os olhos! Isso causou pouco efeito; dois deles começaram a procurar em volta, na pilha de lenha cortada, mas sem muito entusiasmo, mais preocupados com o perigo que corriam do que com a busca. Os demais continuaram onde estavam. — Vocês estão quase pondo as mãos em milhares de guinéus, seus estúpidos, e ficam parados! Seriam ricos como reis se pudessem encontrá-los e ficam aí encalhados. Nenhum de vocês ousou encarar Bill, e eu tive coragem: um cego! E estou perdendo minha única oportunidade por causa da covardia de vocês! — Calma, Pew, pegamos os dobrões! — rosnou um deles. — Pegue-os, Georges, em vez de ficar fazendo tempestade.


Tempestade foi o que veio a seguir, quando Pew reagiu com tanta raiva que começou a distribuir bordoadas para todos os lados. Algumas bengaladas pegaram em cheio em mais de um dos piratas, que praguejaram de volta e tentaram tomar a bengala de sua mão. Esse tumulto foi a nossa salvação, pois, naquele mesmo instante, do alto da colina do lado da aldeia, veio o som de cavalos galopando. Quase ao mesmo tempo, o brilho e o estrondo de um tiro de pistola veio dos lados da cerca viva. Era claramente o último sinal de perigo, pois todos os piratas fugiram, cada um para um lado. Logo não havia sequer sinal deles, restando apenas Pew. Foi abandonado, não sei se por medo ou como vingança. Mas lá ficou, batendo com a bengala pela estrada, tateando e chamando pelos companheiros. Até que pegou a direção errada e passou correndo por mim em direção à aldeia, gritando, pedindo para não ser deixado para trás. Bem nessa hora o tropel dos cavalos chegou ao alto da ladeira. Cinco cavaleiros apareceram ao luar e dispararam colina abaixo. Quando Pew percebeu seu erro, virou-se e tentou correr, mas caiu rolando na vala à beira da estrada. Logo se pôs de pé e deu outra arrancada, agora completamente desnorteado, bem em direção a um dos cavalos que se aproximavam. O cavaleiro ainda tentou desviar, mas era tarde demais. Pew foi abaixo com um grito alto que correu a noite. Os quatro cascos

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o pisaram e escoicearam e seguiram em frente. Caiu, primeiro de 70

lado, depois tombou devagar sobre o rosto e não se mexeu mais. Levantei num pulo e chamei os cavaleiros, que já puxavam as rédeas, horrorizados com o acidente. Logo vi quem eram. Aquele que vinha mais atrás era o rapaz que tinha partido da aldeia para chamar o doutor Livesey. Os demais eram oficiais da alfândega, que ele tinha encontrado no caminho e chamado em nosso socorro. Notícias sobre a chalupa na Gruta das Gaivotas tinham chegado ao ouvido do inspetor Dance, que partiu em nossa direção aquela noite mesmo. Foi essa circunstância que salvou nossas vidas. Pew estava morto como pedra. Quanto à minha mãe, logo se recompôs. Enquanto isso o inspetor Dance partiu com seus homens a todo galope para a Gruta das Gaivotas, mas não conseguiram chegar a tempo. Na praia ainda puderam ver a chalupa se afastando, bem próxima da arrebentação. O inspetor mandou que retornassem. Uma voz veio da embarcação, dizendo que ficassem longe do luar se não quisessem levar chumbo, e ao mesmo tempo uma bala assobiou bem perto do braço do inspetor. Logo depois, a chalupa dobrou a ponta da enseada e desapareceu. Tudo o que o senhor Dance pôde fazer foi enviar um homem até Bristol para acionar a Marinha. Voltei com ele até a Almirante Benbow. Nem dá para imaginar o quanto a casa estava destruída. O relógio tinha sido


jogado ao chão pelos sujeitos em sua busca furiosa. Não tinham levado nada além da sacola de moedas do capitão e umas poucas moedas de prata da caixa registradora, mas logo percebi que estávamos arruinados. O senhor Dance não conseguia entender. — Hawkins, você diz que eles pegaram o dinheiro. Mas, então, o que tanto procuravam? — Não creio que fosse dinheiro o que procuravam — respondi. — Acredito que tenho comigo o que queriam, no bolso do meu casaco. Para falar a verdade, gostaria de guardar isso em segurança. — Com certeza, garoto — disse. — Posso levar comigo, se você quiser. — Pensei, talvez, que o doutor Livesey... — comecei. — Perfeitamente — me interrompeu com um sorriso —, trata-se de um nobre magistrado. E, pensando bem, deveria mesmo ir até lá e relatar a ele todo o ocorrido. O senhor Pew está morto, afinal. Vão acabar apresentando acusações contra um oficial de Sua Majestade, se puderem. Agora, Hawkins, saiba que, se quiser, posso levá-lo comigo. Eu agradeci de coração pela oferta, e andamos de volta até a aldeia onde estavam os cavalos. Minha mãe estava lá e avisei sobre meus planos. Ao sinal do inspetor o grupo partiu num trote largo comigo na garupa de um dos oficiais.

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CAPÍTULO 6

Os papéis do capitão

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Cavalgamos bem rápido por todo o caminho, até chegarmos à porta do doutor Livesey. A frente da casa estava toda às escuras. O senhor Dance me disse para apear e bater, e foi o que fiz. A porta foi aberta quase imediatamente por uma criada. — O doutor Livesey está em casa? — perguntei. Ela disse que não. Tinha ido até o palácio para jantar com o barão. — Então, vamos lá, rapazes — disse o senhor Dance. Dessa vez, já que a distância era curta, não montei de novo, apenas fui correndo ao lado dos cavalos até os portões da guarita da mansão e pela longa alameda ladeada por árvores desfolhadas que deixavam passar o luar. Seguimos até chegar à fileira de prédios. Ali, o senhor Dance apeou do cavalo e foi admitido na residência, me levando também. O empregado nos conduziu por um corredor atapetado até a grande biblioteca, onde o barão e o doutor Livesey fumavam cachimbo, um de cada lado de um fogo vivo e brilhante.


Nunca tinha visto o barão tão de perto. Era um homem alto e espadaúdo. Tinha o rosto bronzeado, maltratado e marcado por suas longas viagens. Suas sobrancelhas eram bem negras e muito expressivas, o que o fazia parecer alguém de temperamento forte, não uma pessoa má, mas muito impulsivo e incisivo. — Entre, senhor Dance — disse, num tom majestoso. — Boa noite, Dance — disse o doutor, com um aceno de cabeça. — E boa noite para você, meu amigo Jim. Que bons ventos os trazem? O inspetor se aprumou todo e contou a eles sua história. Os dois cavalheiros se inclinavam para a frente e olhavam um para o outro, e até se esqueceram de fumar, tamanha era sua surpresa e interesse. Quando ouviram como minha mãe e eu voltamos até a estalagem, o doutor Livesey deu um tapa com força na própria perna, e o barão gritou “Bravo!” e quebrou seu longo cachimbo contra a grade da lareira. Muito antes do fim da história, o senhor Trelawney (que você vai se lembrar, é o nome do barão) começou a andar de um lado para o outro pelo aposento. Creio que, para ouvir melhor, o doutor tirou sua peruca e lá ficou sentado, parecendo muito estranho com seu próprio cabelo preto e cortado bem curto. Quando a narrativa chegou ao fim, o barão disse: — Dance, você é um sujeito muito nobre. Não se preocupe por ter atropelado aquele patife miserável, isso foi um ato de virtude.

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A seguir tocou a sineta e pediu que servissem cerveja ao 74

senhor Dance. — E então, Jim — disse o doutor —, se entendi bem, você traz o que eles procuravam, não é? — Aqui está, senhor — e entreguei a ele o pacote de oleado. O doutor examinou o embrulho. Parecia querer abri-lo. Mas, em vez disso, guardou, em silêncio, o pacote no bolso do casaco. Quando o senhor Dance fez menção de me levar de volta para casa, o doutor sugeriu que eu dormisse aquela noite em sua casa. O senhor Dance recebeu mais alguns cumprimentos e foi dispensado, enquanto me traziam um grande empadão de carne de pombo que ataquei com paixão, pois estava faminto. Os dois cavalheiros se entreolharam. — Suponho que já tenha ouvido falar desse Flint — disse o doutor. — Se ouvi falar?! — gritou o barão. — Quer saber? Ele era o pirata mais sanguinário que já navegou. Dava um medo tão extraordinário nos espanhóis que cheguei a me orgulhar de ele ser inglês. Vi as velas mais altas do seu navio na costa de Trinidad, e aquele covardão com quem eu navegava fugiu para se esconder em Porto de Espanha. — Bem, também já ouvi falar dele — disse o doutor. — Mas o que interessa, ele tinha dinheiro?


— Dinheiro! — gritou o barão. — Não ouviu a história? O que aqueles vilões procuravam além de dinheiro? A troco de que arriscariam suas carcaças podres? — É o que saberemos logo, logo — respondeu o doutor. — O que eu quero saber é o seguinte: supondo que o que trago no meu bolso indique onde Flint enterrou seu tesouro, de qual soma de dinheiro estaríamos falando? — Soma! — gritou o barão. — Vai somar o seguinte: se tivermos essa pista de que falou, vou fretar um navio no porto de Bristol, e encontraremos aquele tesouro nem que leve um ano inteiro. — Muito bem — disse o doutor. — Então, se Jim concordar, vamos abrir o pacote — e o depositou à sua frente em cima da mesa. O pacote estava todo costurado, e o doutor teve de cortar os pontos com sua tesoura de médico. Continha duas coisas: um livro e um papel selado. — Vamos começar com o livro — observou o doutor. Ficamos o barão e eu espiando por cima dos seus ombros enquanto ele abria o pacote. Na primeira página havia só alguns rabiscos, como se alguém com uma caneta estivesse entediado ou praticando. Um dos rabiscos era o mesmo da tatuagem “Bons Ventos, Billy Bones”, depois havia um “Sr. W. Bones, imediato”, “Acabou o rum”, “Levou aq’ilo ao largo da Ilha da Palmeira” e alguns outros garranchos, a maior parte palavras soltas e ilegíveis.

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Não conseguia parar de imaginar quem tinha levado “aq’ilo” e o 76

que era “aq’ilo” que ele tinha levado. Podia ser uma facada nas costas ou algo assim. As dez ou doze páginas seguintes estavam preenchidas com uma série curiosa de registros. Havia uma data no começo de cada linha e no final uma quantidade de dinheiro, como num livro-caixa comum, mas, no meio de cada coluna, em vez de algo descrevendo as operações de entrada ou saída, havia quantidades variadas de cruzes. No dia 12 de junho de 1745, por exemplo, uma soma de 70 libras passou a ser devida por alguém e havia apenas seis cruzes para explicar o motivo. Em poucos casos, é verdade, o nome de algum local era registrado, como “Ao largo de Caracas” ou uma mera dupla de latitude e longitude, como 62° 17’ 20’’ 19° 2’ 40’’. Os registros foram feitos durante cerca de 20 anos, o valor de cada entrada crescendo com o tempo e, no final, um grande total tinha sido feito depois de umas cinco ou seis correções, e o acréscimo das seguintes palavras “A pilha de Bones”. — Isso pode significar qualquer coisa — disse o doutor Livesey. — Está tudo claro como o sol do meio-dia — gritou o barão. — Esse é o livro-caixa daquele cachorro sem coração. Essas cruzes correspondem a navios ou cidades que afundaram ou saquearam. As somas são a parte que coube ao patife e, onde poderia haver alguma dúvida, ele acrescentou algo para esclarecer.

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— Isso! — disse o doutor. — Veja como os valores vão crescendo conforme ele foi subindo na carreira de pirata. O volume trazia poucas anotações de coordenadas geográficas, indicando alguns locais em meio a páginas em branco. — E agora — disse o barão — vejamos esse outro. O papel estava selado com cera em vários lugares. O doutor abriu os selos com extremo cuidado, e de dentro caiu o mapa de uma ilha, com latitude e longitude, sondagens de profundidade, nomes de colinas, baías, enseadas e cada pormenor necessário para levar um navio a salvo até ancorá-lo com segurança em sua costa. A ilha media em torno de 9 milhas de comprimento por 5 de largura, numa forma parecida com um dragão gordo de pé. Tinha dois locais protegidos, ideais para se instalar um porto, e uma elevação na parte central marcada como “Luneta”. Havia alguns acréscimos feitos mais tarde, sobretudo, três cruzes em tinta vermelha, duas na parte norte da ilha e uma no lado sudoeste. Ao lado desta última, na mesma tinta vermelha, numa letra bem pequena e caprichada, bem diferente das letras irregulares do capitão, essas palavras: “Grosso do tesouro aqui”. No verso, a mesma mão escreveu ainda a seguinte informação: “Árvore alta, franja da Luneta, apontando para o N de N.N.E.” “Ilha do Esqueleto E.S.E. e por E.” “Dez passos”

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“A barra de prata está no esconderijo do norte, pode achá-lo 78

seguindo pelo rumo do outeiro oriental, dez braças a sul do penhasco negro com o rosto.” “As armas estão fáceis de se encontrar, na colina de areia, ponto N. do cabo da Enseada do Norte, virado para E. mais um quarto para N.” “J. F.” E era tudo. Mas, por mais breves que fossem as informações, e incompreensíveis para mim, encheram o barão e o doutor Livesey de satisfação. — Livesey — disse o barão —, você vai largar essa prática desgraçada por um tempo. Amanhã mesmo parto para Bristol. Daqui a três semanas... Três semanas! Duas semanas, dez dias, vamos ter o melhor navio, senhor, e a mais seleta tripulação da Inglaterra. Hawkins deve vir como grumete. Você vai ser um grumete famoso, Hawkins! Você, Livesey, vai como doutor de bordo. Eu sou almirante. Vamos chamar Redruth, Joyce e Hunter. Não teremos a menor dificuldade em encontrar o ponto exato onde nos espera uma pilha de dinheiro para nos saciar. — Trelawney — disse o doutor —, irei com você. E aposto que Jim irá também, e nos será de grande ajuda. Só existe uma pessoa que me preocupa. — E quem é esse?! — gritou o barão. — Senhor, diga o nome do cachorro!


— Você — respondeu o doutor —, pois não consegue segurar sua língua. Não somos os únicos que sabem desse mapa. Esses sujeitos corajosos e desesperados que atacaram a estalagem hoje à noite com certeza também sabem. E temos ainda os que ficaram a bordo da chalupa, e outros mais, arrisco-me a dizer, não muito distantes daqui. Todos dispostos a tudo para pôr as mãos nesse dinheiro. Você deve buscar Joyce e Hunter quando for para Bristol, e desde agora até a partida nenhum de nós deve sequer pensar em falar sobre o que descobrimos. — Livesey — retornou o barão —, você está sempre com a razão. Serei mudo como um túmulo.

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PARTE 2 O COZINHEIRO

DE BORDO


CAPÍTULO 7

Vou para Bristol

Demorou mais do que o barão imaginava até que estivéssemos prontos para partir, e nenhum dos planos iniciais correu como imaginávamos. O doutor teve de ir a Londres para conseguir um médico que o substituísse, o barão ficou muito ocupado em Bristol e eu acabei ficando na mansão sob a guarda do velho Redruth, o guarda-caça. Era quase como se eu fosse um prisioneiro, mas mesmo assim não parava de sonhar com o mar e antecipar fascinantes aventuras. Meditava sobre a hora que passei vendo o mapa com o doutor e o barão, lembrando-me de todos os detalhes possíveis. Na minha fantasia me aproximava daquela ilha, vindo cada vez de uma direção. Explorei cada acre da sua superfície. Mil vezes escalei aquela colina alta que chamavam de Luneta, e lá do alto apreciei a maravilhosa paisagem. Algumas vezes, a ilha era habitada por indígenas, com quem lutávamos. Outras vezes, estava repleta de animais selvagens. Mas nunca me acontecia coisa alguma tão estranha e trágica quanto nossa aventura de verdade.

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As semanas se sucederam, até que chegou uma carta ende82

reçada ao doutor Livesey, com o adendo “Em caso da sua ausência, para ser aberto por Tom Redruth, ou pelo jovem Hawkins”. Obedecendo, descobrimos, ou melhor, eu descobri, já que o guarda-caça tinha muita dificuldade em ler o que não fosse impresso, as seguintes notícias: Estalagem da Âncora Velha, Bristol, 1.o de março de 17... Caro Livesey, como não sei se você já se encontra na mansão ou ainda em Londres, mando uma cópia dessa carta para cada um dos dois lugares. A embarcação já foi comprada e preparada. Está ancorada, pronta para partir. Você nem imagina como essa escuna é adorável, até uma criança pode navegá-la, tem 200 toneladas. Seu nome é Hispaniola. Quem a conseguiu para mim foi meu velho amigo Blandy, que se revelou um reforço inesperado. Esse sujeito admirável tornou-se escravo dos meus interesses, bem como, posso dizer, todos em Bristol. Assim que tivermos vento podemos deixar o porto para trás e partir. Interrompi a leitura e comentei com o guarda-caça que o doutor Livesey não ia gostar de saber que o barão andava falando demais, apesar de todas as recomendações. Ele resmungou algo sobre o barão não dever obediência a um doutor. Assim, desisti de comentar mais qualquer coisa e li tudo até o final:


Foi o próprio Blandy que achou a Hispaniola e a conseguiu por uma ninharia. Muitos em Bristol têm preconceitos contra Blandy. Chegam a ponto de declarar que ele faria qualquer coisa por dinheiro, que a Hispaniola lhe pertencia, que me vendeu a escuna por um preço absurdo. Nenhum deles ousa, contudo, negar as virtudes da embarcação. Até agora não tivemos sequer uma dificuldade. É verdade que me irritei com a lentidão dos empregados do estaleiro e alguns outros, mas isso acabou se resolvendo. Era a tripulação que me preocupava. Gostaria de ter exatos 20 homens, para o caso de encontrarmos nativos, piratas ou os franceses. Sofri um bocado para conseguir ao menos uma dúzia, ainda que a fortuna tenha me trazido o homem de que precisava. Estava parado na doca, quando, por mero acaso, comecei a falar com um velho marinheiro. Ele mantém uma taverna e conhece todos os marujos de Bristol. A vida em terra firme lhe custou a saúde e procurava um trabalho como cozinheiro de bordo para poder navegar novamente. Tinha manquitolado até ali para sentir um pouco do sal da brisa marinha. Num gesto de pura misericórdia, contratei-o para o posto de cozinheiro de bordo. Long John Silver é o seu nome, e lhe falta uma perna. Mas isso me serve como uma

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recomendação, já que a perdeu servindo ao país, sob o co84

mando do imortal Hawke. Pensava ter encontrado apenas um cozinheiro, mas foi mais que isso. Com Silver encontrei em poucos dias uma seleção dos marinheiros mais calejados e resistentes que pode imaginar. Nada bonito de se ver, mas sujeitos, pelas suas expressões, de enorme espírito indomável. Afirmo que pode­ ríamos combater uma fragata. Long John até precisou se livrar de dois dos seis ou sete que eu já havia contratado. Bastou um momento para me mostrar que eram apenas marinheiros de água doce que iam nos deixar na mão em uma aventura de tal responsabilidade. Estou muito bem-disposto, comendo como um touro, dormindo como uma pedra, mas ansioso para ouvir os cabos sendo puxados pelo cabrestante. Esqueça o tesouro! É a glória do mar que me virou a cabeça. Então, Livesey, venha assim que puder, isso é uma ordem. Deixe o jovem Hawkins ir ver a mãe dele e depois venham a toda velocidade para Bristol. JOHN TRELAWNEY P.S.: Blandy vai nos enviar um resgate caso não voltemos até o final de agosto e nos conseguiu um sujeito admirável para ser nosso timoneiro. Long John Silver desencavou Arrow, um homem muito competente para ser o imediato. Tenho


um contramestre que sabe apitar, Livesey, então creio que tudo vai funcionar bem a bordo da nossa boa embarcação Hispaniola. J. T. P.P.S.: Hawkins pode passar uma noite na casa de sua mãe. J. T.” Essa carta me deixou bastante animado. Estava quase me virando pelo avesso de tanta alegria e, se alguma vez desprezei um homem, esse era o velho Tom Redruth, que só conseguia resmungar e se lamentar. Na manhã seguinte ele foi comigo até a Almirante Benbow e lá encontramos minha mãe bem-disposta e com boa saúde. O capitão, que por tanto tempo nos trouxe desconforto, havia partido para um lugar onde não incomodava mais. O barão tinha mandado reparar tudo o que tinha sido quebrado. Também ganhamos novos móveis. O barão também encontrou um menino para ser aprendiz, para ajudá-la enquanto eu estivesse fora. Ao ver aquele menino pela primeira vez, compreendi minha situação. Até então tinha pensado nas aventuras adiante, nunca no lar que deixaria para trás. Agora, ao ver aquele estranho desajeitado, que iria ficar no meu lugar ao lado da minha mãe, tive meu primeiro ataque de choro. A noite passou e, no dia seguinte, depois do almoço, eu e Redruth partimos. Despedi-me da minha mãe, da enseada onde

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nasci e da velha e nostálgica Almirante Benbow. Um dos meus 86

últimos pensamentos foi sobre o capitão, que tantas vezes caminhou pela praia com seu chapéu de abas largas, seu sabre à cintura e sua velha luneta de latão. A carruagem nos pegou ao entardecer. Fiquei espremido entre Redruth e um velho senhor corpulento. Apesar do movimento constante e do ar frio da noite, cochilei bastante no começo e depois dormi como uma pedra, morro acima e colina abaixo. Só acordei quando me deram um cutucão nas costelas. Abri os olhos para descobrir que estávamos parados em frente a um grande prédio na rua de uma cidade e que o dia já estava claro havia muito tempo. — Onde estamos? — perguntei. — Em Bristol — disse Redruth. — Desça do carro. O senhor Trelawney tinha fixado residência numa estalagem bem perto das docas, para supervisionar os trabalhos na escuna. Tivemos que andar até lá. O caminho, para minha alegria, passava pelo cais e ao lado de uma imensa variedade de embarcações de todos os tamanhos e bandeiras. Em um deles, marinheiros cantavam enquanto trabalhavam. Em outro, havia homens nos mastros, bem acima da minha cabeça, segurando-se em linhas que pareciam ser da espessura de uma teia de aranha. Ainda que tivesse vivido no litoral durante toda a minha vida, parecia que até então eu nunca tinha estado perto do mar de verdade. O cheiro do alcatrão e do sal era uma novidade. Vi muitos


velhos marinheiros, com brincos nas orelhas, bigodes enrolados e tranças alcatroadas, e seu andar desajeitado e oscilante.

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O melhor de tudo era que eu mesmo estava indo para o mar. Para o mar numa escuna, com um contramestre apitando comandos e marujos cantando e usando tranças. Para o mar, rumo à ilha desconhecida, para procurar tesouros enterrados! Enquanto ainda estava nesse meu delicioso sonho, chegamos de repente a uma grande estalagem e encontramos o barão Trelawney, todo vestido como um oficial da Marinha, saindo pela porta com um sorriso no rosto. — Aqui estão vocês! — gritou. — E o doutor chegou na noite passada de Londres. Bravo! A tripulação do navio está completa! — Senhor — gritei —, quando navegamos? — Navegar! — disse. — Vamos navegar amanhã!

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CAPÍTULO 8 88

Na tabuleta da Luneta

Quando acabei de fazer o desjejum, o barão me deu um bilhete destinado a John Silver, na Taverna da Luneta, e disse que eu encontraria com facilidade o lugar se seguisse na direção das docas, mantendo os olhos atentos para uma pequena taverna com uma grande luneta de latão servindo de tabuleta. Parti, cheio de alegria com a oportunidade de ver mais navios e marujos. Peguei meu caminho por entre uma multidão de gente, carrinhos e fardos sendo carregados, pois era a hora de maior movimento no cais, até que achei a tal taverna. Era pequena, mas parecia ser bem iluminada e agradável. Ficava entre duas ruas e tinha uma porta aberta de cada lado, de modo que era fácil enxergar dentro do seu grande salão de teto baixo, apesar das nuvens de fumaça de tabaco. Os clientes eram em sua maioria homens do mar e falavam tão alto que empaquei na porta, quase com medo de entrar. Enquanto fiquei ali parado, um homem saiu de uma sala lateral, e bastou uma olhada para eu ter certeza de que ele era Long John. Sua perna esquerda tinha sido cortada bem perto do


quadril, e usava uma muleta, que era manipulada com maravilhosa destreza, pulando por sobre ela como se fosse um pássaro. Era muito alto e forte, mas parecia inteligente e alegre. De fato, parecia estar com ótimo humor, assobiando enquanto se movia entre as mesas, com uma palavra simpática ou um tapinha no ombro dos seus clientes favoritos. A verdade é que, desde a primeira menção a Long John na carta do barão Trelawney, fiquei com o pavor de que ele fosse exatamente o marinheiro com uma perna só que tinha me aterrorizado por tanto tempo na velha Benbow. Mas um passar de olhos sobre o homem na minha frente já bastava. Tinha visto o capitão, e o Cão Negro, e Pew, o cego, e pensei que sabia reconhecer um pirata. Uma criatura bem diferente, de acordo com minha experiência, daquele cavalheiro limpo e de temperamento agradável. Tomei coragem de uma vez, cruzei a soleira e andei em direção ao homem, que falava com um freguês, enquanto se apoiava em sua muleta. — Com licença, senhor Silver? — perguntei, segurando o bilhete. — Sim, meu rapaz — disse. — Esse é o meu nome. E quem seria você? Quando viu a letra do barão, foi como se estivesse recomeçando a conversa. — Ora! — disse bem alto e estendendo a mão. — Entendo. Você é nosso novo grumete. Prazer em conhecê-lo.

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E pegou minha mão dando um aperto longo e firme. 90

Bem nessa hora, um dos fregueses do outro lado do salão se levantou e saiu porta afora. Sua pressa me chamou a atenção, e o reconheci de relance. Era o homem de cara sebosa a quem faltavam dois dedos que visitara a Almirante Benbow. — Ei! — gritei. — Parem aquele homem! É o Cão Negro! — Não dou a mínima para quem ele é — gritou Silver. — Mas não pagou a conta. Harry, corra atrás dele e o traga de volta. Rápido! Um dos que estavam perto da porta deu um pulo e começou a perseguição. Depois, finalmente Long John soltou minha mão e perguntou: — Quem você disse que ele era? Cão o quê? — Cão Negro, senhor — disse. — O senhor Trelawney não lhe contou sobre os piratas? Ele era um deles. — O quê? — gritou Silver. — Na minha casa? Era você que estava bebendo com ele, Morgan? Dê um pulo aqui. O homem que ele chamou de Morgan, um velho marinheiro grisalho e bem moreno, obedeceu sem questionar e veio logo, enrolando um cigarro. — Diga-me, Morgan — perguntou Long John, muito severo —, você nunca foi da turma desse Cão Negro, foi? — Nunca fui, senhor — disse Morgan, com uma continência. — Nem sabia seu nome, não é?


— Não, senhor. — Pelos poderes divinos, bom para você! — exclamou o proprietário. — Se você estivesse misturado com essa gente, nunca mais poria os pés na minha casa, pode ter certeza. Tom, volte para seu posto de marinheiro de terra firme. Com isso, enquanto Morgan voltava para onde estava antes, Silver sussurrou para mim, em um tom confidencial que me deixou cheio de orgulho: — Tom Morgan. Ele é um homem honesto, apesar de estúpido. E agora... — e começou a falar alto de novo — Cão Negro? Não sabia que era esse o nome dele. Acho que já tinha visto esse mandrião. Costumava vir aqui com um pedinte cego. Sim, costumavam vir juntos. — Pode ter certeza que vinham juntos — eu disse. — Conheci aquele cego também. Pew era seu nome. — Era mesmo! — gritou Silver, agora bem animado. — Pew! Esse era seu nome sem dúvida. Ai, e ele parecia um tubarão! Se conseguirmos pegar esse Cão Negro, vão ser boas notícias para o capitão Trelawney. Durante todo o tempo em que esteve lançando essas frases no ar, demonstrava tanta indignação que teria convencido um juiz da Old Bailey, a corte criminal de Londres. Minhas suspeitas tinham se reacendido ao ver o Cão Negro ali e observei o cozinheiro com bastante rigor. Mas ele parecia tão íntegro e tão solícito que, quando Harry voltou, sem fôlego, e

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confessou ter perdido o rastro do fugitivo na multidão, eu já 92

estava convencido da inocência de Long John Silver. — Agora veja, Hawkins — disse. — Imagine o que o capitão Trelawney vai pensar quando souber. Tinha aqui esse desgraçado, sentado na minha própria casa, bebendo meu rum! Aí você vem e simplesmente me mostra a verdade. E eu ainda o deixo escapar bem debaixo das minhas lanternas de proa! Agora, Hawkins, faça-me justiça com o capitão. Você é jovem e é esperto como o diabo, pude notar desde que pus os olhos em você. Vamos ao que interessa: o que eu poderia ter feito com esse toco velho onde me apoio? Quando eu era um mestre marinheiro de primeira classe, eu teria chegado nele, mano a mano, e o teria derrubado com uma gravata e umas boas sacudidas. Teria, porque agora... Lembrou-se da conta que não foi paga e acabou tendo um acesso de riso, que durou até que lágrimas escorressem pelas suas bochechas. Não consegui evitar me juntar ao riso descontrolado, e rimos em conjunto, repique após repique, até que a taverna inteira se juntou a nós. — Ora, vejam que velho marinheiro sensível eu sou! — disse, afinal, limpando as lágrimas. — Nós vamos nos dar muito bem, Hawkins, pois o certo era eu ser nomeado grumete também! Mas, vamos lá, dever é dever. Vou vestir logo meu velho chapéu, e vamos encontrar o capitão Trelawney e fazer um relato do que aconteceu por aqui. Pois, escute o que lhe digo, foi


algo sério, meu jovem Hawkins. Mas com meus botões! Até que a história da conta foi engraçada. E começou a rir de novo, com tanta emoção que, ainda que não achasse graça como ele achou, não pude deixar de rir de novo. Na nossa curta caminhada ao largo das docas, ele foi uma companhia muito interessante, me contando sobre as diversas embarcações pelas quais passávamos, sua mastreação, tonelagem e nacionalidade, explicando o trabalho que era executado. Mostrava-me como uma descarregava, outra levava carga para bordo e uma terceira estava pronta para zarpar. E aqui e ali me contava uma pequena anedota sobre navios ou marujos, ou repetia uma expressão náutica até que eu a entendesse perfeitamente. Parecia ser um dos melhores companheiros de tripulação que eu poderia ter. Quando chegamos à estalagem, o barão e o doutor Livesey estavam sentados, terminando uma caneca de cerveja antes de irem a bordo da escuna para uma visita de inspeção. Long John lhes contou a história do princípio ao fim, com uma grande dose de inspiração e sendo bastante fiel aos fatos. — Foi assim que tudo ocorreu, não foi, Hawkins? — ele dizia, a toda hora, e eu sempre podia confirmar tudo. Os dois cavalheiros lamentaram que o Cão Negro tivesse fugido, mas todos nós concordamos que nada podia ser feito. Depois que se despediram, Long John pegou a muleta e partiu.

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— Todos no convés às quatro da tarde — berrou o barão, 94

quando ele saía. — Sim, senhor! — berrou o cozinheiro. — Muito bem, barão — disse o doutor Livesey. — Eu geralmente não ponho muita fé nas suas descobertas, mas vou lhe dizer uma coisa, esse John Silver me agrada. — O homem é um trunfo para nós — declarou o barão. — E agora — acrescentou o doutor — creio que Jim pode vir a bordo conosco, não é? — Com certeza — disse o barão. — Pegue seu chapéu e vamos ver a embarcação, Hawkins.


CAPÍTULO 9

Pólvora e armas

A Hispaniola estava ancorada um pouco distante do cais, e fomos até lá num escaler. Encostamos ao seu lado e, assim que pusemos o pé a bordo, fomos recebidos pelo imediato, o senhor Arrow, um velho marinheiro com brincos nas orelhas e um olhar vesgo. Ele e o barão pareciam se dar muito bem, mas logo reparei que o senhor Trelawney não gostava do capitão. Este era um homem de olhar afiado, que parecia sempre insatisfeito. Mal tínhamos descido para a cabine e um marinheiro já tinha nos seguido. — Senhor, o capitão Smollett quer falar com o senhor. — Sempre estou disponível para o capitão. Mande-o entrar — disse o barão. O capitão, que estava logo atrás do mensageiro, entrou imediatamente e fechou a porta atrás de si. — Bem, capitão Smollett, qual é o assunto? — Senhor — disse o capitão —, é melhor ser franco, mesmo com o risco de ofendê-lo. Não me agrada essa viagem e não gosto da tripulação nem do meu oficial.

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— Talvez a embarcação não lhe agrade? — indagou o ba96

rão, muito zangado. — Não se trata disso, pois ainda não a vi sendo posta à prova — disse o capitão. — Parece ser fácil de manobrar. — Então seu problema é com seu empregador? Foi quando o doutor Livesey se intrometeu. — Muita calma, por favor! — ele disse. — Assim só vamos causar mal-estar. Por um lado, o capitão já falou demais, por outro, disse muito pouco, e preciso entender melhor o que quer dizer. Você diz que não gosta desta viagem. Mas por quê? — Fui engajado, senhor, no que se chama de contrato lacrado, para conduzir essa embarcação aonde me fosse determinado — disse o capitão. — Até aí, tudo bem. Mas agora descubro que todo homem do mastro para a frente sabe mais do que eu. Você acha isso justo? — Não, não acho justo — disse o doutor Livesey. — E tem mais — continuou o capitão — descobri por um tripulante que vamos atrás de um tesouro! Caçar tesouros é um trabalho perigoso, mas fica pior quando é uma viagem secreta e o segredo foi contado até para o papagaio. — O papagaio de Silver? — perguntou o barão. — É só uma maneira de dizer — explicou o capitão. — Creio que nenhum dos dois cavalheiros tenha noção de onde estão se metendo. Na minha opinião, é uma questão de vida ou morte, e vocês vão precisar ter sorte.

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— Isso está bem claro — respondeu o doutor Livesey. — Assumimos riscos, mas não somos tão ingênuos como imagina. E sobre a tripulação? Não são marujos safos o bastante? — Não gosto deles, senhor — devolveu o capitão Smollett. — Preferiria ter escolhido as mãos que terei ao meu dispor. — Deveria ao menos ter sido consultado — respondeu o doutor. — Mas pode acreditar que isso não foi por má-fé. Qual é o problema com o imediato? — Não gosto dele. Acredito que seja um bom marinheiro, mas ele dá confiança demais para a tripulação para ser um bom oficial. Um imediato não pode ficar bebendo com os marinheiros no convés! — Entendo. Capitão, conte-nos o que deseja — pediu o doutor. — Então — disse o capitão —, permitam-me ainda umas poucas palavras. Estão guardando a pólvora e as armas no compartimento de proa. Vejam bem, vocês têm um ótimo espaço sob a sua cabine. Por que não colocar o paiol ali? Este é o primeiro ponto. Além disso, por que não acomodar os quatro homens de sua confiança ao lado da cabine ao invés de nos beliches da proa? Este é o segundo ponto. — Algo mais? — perguntou o senhor Trelawney. — Só mais uma coisa — disse o capitão. — Já houve tagarelice demais. — Houve mesmo — concordou o doutor.

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— Eu mesmo ouvi — continuou o capitão Smollett — que 98

vocês têm um mapa de uma ilha, que há cruzes no mapa mostrando onde está o tesouro e que a ilha fica em... — e declamou a latitude e a longitude exatas. — Nunca contei isso — gritou o barão — para uma só alma! — Os marujos no convés já sabem disso, senhor — devolveu o capitão. — Livesey, só pode ter sido você ou Hawkins — gritou o barão. — Não importa tanto quem foi que contou — respondeu o doutor. Pude ver que nem ele nem o capitão ligaram para os protestos do senhor Trelawney. Também não me convenceu totalmente, pois ele era mesmo um tagarela. Mas, nesse caso, até acho que ele estava certo e que nenhum de nós havia falado sobre a localização da ilha. — Bem, cavalheiros — continuou o capitão —, não sei quem tem o mapa, mas quero que prestem atenção neste último ponto: isso deve ser mantido em segredo. Se tudo isso não for possível, devo pedir que aceitem minha demissão. — Se eu estou entendendo — disse o doutor —, você quer manter essa questão em segredo, que montemos guarnição na popa da embarcação, cercada pelos meus homens de confiança, munidos de todas as armas e pólvora que temos a bordo. Em outras palavras, você teme um motim.

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— Senhor — disse o capitão Smollett —, não foi isso que eu disse. Nenhum capitão teria justificativa para zarpar se pudesse dizer isso convicto. No que cabe ao senhor Arrow, acredito que seja honesto, o mesmo quanto a alguns dos homens. Talvez todos o sejam. Mas sou o responsável pela segurança da embarcação e pela vida de todos a bordo. Eu vejo coisas que, do meu modo de ver, não estão certas. E lhe peço que tome certas precauções ou deixe que eu abra mão do meu posto. Só isso. — Capitão Smollett — começou o doutor, com um sorriso —, já ouviu aquela fábula da montanha que pariu um rato? Ouso dizer que o senhor me fez pensar nessa história. — Doutor — disse o capitão —, o senhor é inteligente. Quando entrei nesta cabine, pretendia ser dispensado. Imaginava que o senhor Trelawney não ouviria uma palavra sequer. — E não ouviria mesmo — gritou o barão. — Se Livesey não estivesse aqui, teria respondido à altura. Mas, seja como for, acabei ouvindo. Vamos fazer como deseja. Mas fique sabendo que penso o pior a seu respeito. — Se isso for do seu agrado, senhor — disse o capitão. — Pode ter certeza que cumprirei meus deveres. E pediu licença para deixar a cabine. — Trelawney — disse o doutor —, contrariando minhas expectativas, creio que conseguiu trazer a bordo dois homens honestos com você: o capitão e John Silver.

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— Silver, se você quiser assim — berrou o barão —, mas, 100

quanto a esse falastrão intolerável, declaro que considero sua conduta indigna de um homem de bem, de um marinheiro e, acima de tudo, não é digna de um inglês. — Bem — disse o doutor —, acho que ainda descobriremos. Quando voltamos ao tombadilho, os homens já haviam começado a mudar as armas e a pólvora de lugar, cantando enquanto trabalhavam sob a supervisão do capitão e do senhor Arrow. O novo arranjo me agradou bastante. A escuna inteira tinha sido reformada. Na popa, em parte do depósito principal, tinham sido construídos seis beliches, e uma passagem estreita a bombordo era a única comunicação dessas cabines com o castelo de proa. Os planos iniciais previam que o capitão, o senhor Arrow, Hunter, Joyce, o doutor e o barão ocupassem esses beliches. Agora, eu e Redruth iríamos ganhar dois deles, e o senhor Arrow e o capitão dormiriam no convés, debaixo da escada que levava ao tombadilho. Para acomodá-los foi preciso aumentar a cobertura até que se tornasse quase possível chamar aquilo de cabine. Claro que era muito baixa, mas havia espaço suficiente para pendurar duas redes, e mesmo o imediato parecia satisfeito com o arranjo. Estávamos todos trabalhando duro, transportando a pólvora e adaptando os beliches, quando os dois últimos tripulantes, acompanhados de Long John, se aproximaram em um bote.


O cozinheiro subiu pelo costado da embarcação com agilidade digna de um macaco e logo perguntou: — Ui! O que estão fazendo? — Estamos mudando a pólvora de lugar — respondeu um dos homens. — Pra que isso agora? — gritou Long John. — Assim vamos perder a maré da manhã! — São minhas ordens! — disse o capitão secamente. — Você pode ir descendo agora. Os homens vão querer comer depois do trabalho pesado. — Sim, senhor — respondeu o cozinheiro antes de desaparecer na direção da cozinha. — É um bom homem, capitão — disse o doutor. — Muito provavelmente, senhor — respondeu o capitão Smollett antes de correr para pedir mais cuidado aos sujeitos que estavam rolando barris de pólvora. De repente, vendo que eu examinava o longo canhão de bronze que carregávamos da popa para a proa, gritou: — Ei, você, grumete! Desça e vá arrumar algum trabalho com o cozinheiro. Saí correndo, mas ainda o ouvi dizer, numa voz bem alta, para o doutor: — Não tenho favoritos no meu navio. Sem dúvida, eu concordava com o barão e detestava o capitão profundamente.

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CAPÍTULO 10

A viagem

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Durante a noite toda foi um grande alvoroço para ter tudo arrumado em seu lugar. Nunca houve uma noite na Almirante Benbow em que eu tivesse metade do trabalho que tive. Mas, mesmo acabado como estava, não consegui deixar o convés quando, um pouco antes do amanhecer, o contramestre tocou seu apito, e a tripulação começou a usar os cabrestantes. Tudo era tão novo e interessante para mim, as ordens curtas, a nota aguda do apito, os homens se agitando para seus lugares. — Vamos, Long John, puxe daí uma canção para nós! — pediu uma voz. — Está bem, amigos — disse Silver, que estava parado observando a faina, apoiado em sua muleta. De repente, rompeu o ar com aquelas palavras que eu tinha ouvido tantas vezes: Quinze homens sobre o baú... Em seguida, toda a tripulação continuou em coro: Yo-ho-ho, e uma garrafa de rum! E, ao final de cada “yo-ho-ho”, puxavam os cabos num esforço sincronizado.


Logo a âncora foi levantada e ficou pendurada na proa, com a água e o lodo ainda escorrendo. As velas foram abertas, a terra firme e os outros navios foram ficando para trás, e a Hispaniola começou sua travessia rumo à Ilha do Tesouro. Não vou relatar a viagem em seus mínimos detalhes. Foi bastante tranquila. A escuna provou ser uma embarcação excelente, os marujos eram capazes e o capitão sabia o que estava fazendo. Mas, antes que chegássemos ao nosso destino, duas ou três coisas aconteceram que devem ser contadas. Para começar, o senhor Arrow não tinha a menor autoridade entre os marinheiros, que faziam o que bem entendiam. Mas isso não era, de forma alguma, o pior de tudo, pois, após um ou dois dias de viagem, começou a aparecer no convés apresentando vários sinais de bebedeira. Quanto mais o tempo se passava, mais a desonra se abatia sobre ele. Eram raros os dias em que conseguia comparecer ao trabalho num estado ao menos aceitável. Não fazíamos a menor ideia de onde ele arrumava a bebida. Quando o questionávamos, ele apenas ria, se estivesse bêbado, e, quando estava sóbrio, negava com veemência ter bebido qualquer coisa além de água. Era um completo inútil como oficial e uma péssima influên­ cia entre os homens. A verdade é que ninguém ficou surpreso de verdade, nem lamentou muito, quando, numa noite escura, com o mar revolto, desapareceu totalmente e nunca mais foi visto.

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— Deve ter caído no mar! — disse o capitão. — Bem, cava106

lheiros, isso nos poupa o aborrecimento de pô-lo a ferros. Ficamos sem um imediato e foi preciso promover alguém ao posto. Job Anderson, o contramestre, era o homem mais habilitado a bordo para isso e acabou mantendo o cargo, mas acumulando as funções. O senhor Trelawney já tinha feito várias travessias e podia assumir um turno de vigília quando as condições do mar e do vento estavam favoráveis. O timoneiro, Israel Hands, era um velho e experiente marinheiro, em quem se podia confiar em qualquer situação no mar. Por falar no timoneiro, é inevitável contar algo sobre o cozinheiro de bordo, pois eram muito próximos. A bordo da embarcação, Long John carregava a muleta pendurada no pescoço, mantendo as duas mãos tão livres como fosse possível. Era algo para se admirar quando ele firmava a ponta da muleta em um anteparo, se escorava nela e conseguia cozinhar como alguém em terra firme. Toda a tripulação o respeitava e até mesmo obedecia a ele. Tinha um jeito próprio de falar com cada um e de servir de forma particular a todos. Comigo, era gentil ao extremo e sempre parecia feliz de me ver na cozinha de bordo, que mantinha imaculada e arrumada. Num canto, uma gaiola com seu papagaio. — Pode entrar, Hawkins — ele dizia. — Filho, ninguém é mais bem-vindo aqui do que você. Sente-se e ouça as novidades.


Esse aqui é o Capitão Flint, que tem esse nome por causa do famoso pirata. Estava agora mes-

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mo prevendo o sucesso dessa travessia. Não estava, capitão? E o papagaio dizia, muito rápido: — Peças de oito!1 Peças de oito! Peças de oito! — até que perdesse o fôlego ou John cobrisse a gaiola com um lenço. — Hawkins, essa ave — dizia — deve ter uns 200 anos de idade. Elas vivem para sempre, por assim dizer. Essa já viajou muito e andou numa pescaria em torno de navios naufragados cheios de prata. Foi lá que aprendeu a gritar “Peças de oito”, veja que maravilha. E, olhando para ela, até parece que ainda é um bebê. — Preparem-se para abordagem! — o papagaio gritava. — Ora, é uma peça rara, é mesmo... — o cozinheiro dizia e lhe dava torrões de açúcar que tirava do bolso. A ave bicava o doce e praguejava sem parar. — Veja, rapaz — ele continuava —, você não pode tocar o piche e achar que não vai se sujar. Aqui está esse meu pobre papagaio velho e

Peça de oito: moeda corrente na Espanha colonial.

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inocente, soltando fogo pelas ventas. Ele só repete o que escutou 108

por aí. Falava de um jeito que me fazia acreditar que ele fosse o melhor dos homens. Enquanto isso, o barão e o capitão Smollett se mantinham distantes. O barão não escondia de ninguém que desprezava o capitão. Por sua vez, o capitão não costumava falar muito, mas, quando falavam com ele, respondia de forma curta, seca e afiada, sem nunca desperdiçar uma só palavra. Reconhecia, quando era colocado contra a parede, que tinha errado sua avaliação a respeito da tripulação, que alguns deles eram tão safos como gostaria que fossem e que todos tinham se comportado bem. No que se refere à embarcação, estava deslumbrado por ela. — Ela mantém o rumo da maneira mais confiável que se pode esperar! Tivemos algum mau tempo, que apenas comprovou as qualidades da Hispaniola. A tripulação era difícil de agradar, mas mesmo assim parecia alegre e satisfeita com o tratamento recebido. Também, por qualquer motivo, os homens recebiam uma dose dupla de grogue, uma mistura de rum com água parecida com a que o capitão tomava na Almirante Benbow. A cada dois ou três dias, era servido pudim, quando, por exemplo, o barão ouvia falar que era aniversário de alguém. E sempre havia um barril de maçãs aberto no convés, para que qualquer um se servisse quando tivesse vontade.


Quando nos aproximamos da ilha, passamos a manter vigília atenta noite e dia. Era o último dia da nossa travessia de ida,

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pelos nossos cálculos mais conservadores. A qualquer momento daquela noite, o mais tardar no próximo amanhecer, deveríamos avistar a Ilha do Tesouro. A Hispaniola deslizava firme, rumo a sul-sudoeste, com uma brisa constante de través e mar calmo. Todos a bordo pareciam animados e valentes, pois estávamos bem perto de concluir a primeira fase da nossa aventura. Logo depois do pôr do sol, ao final do meu turno, já a caminho do meu beliche, me deu vontade de comer uma maçã. Corri para o convés. O turno de vigília estava todo na proa procurando pela ilha. O homem no timão estava assobiando calmamente para ele mesmo, prestando atenção na curvatura de uma vela, e esse era o único som além do silvo do mar batendo contra a proa e passando pelos lados do barco. Só restava uma última maçã, lá no fundo, e tive de entrar no barril. No escuro, não sei se devido ao balanço das ondas ou ao som da água batendo no casco, acabei caindo no sono, ou estava quase cochilando, quando um homem pesado se sentou fazendo barulho, ao lado do barril. Quando se encostou, o barril chegou a balançar e eu já ia me levantar, mas ouvi a voz de Silver. Bastou ouvir uma dúzia de palavras para decidir que não apareceria por nada deste mundo. Fiquei ali, tremendo e ouvindo, num extremo de medo e curiosidade. Logo entendi que a vida de todos os homens honestos a bordo dependia de mim.

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CAPÍTULO 11

O que eu ouvi no barril de maçãs

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— Não — disse Silver. — Flint era o capitão. Eu era contramestre. Na mesma troca de tiros de canhão em que perdi minha perna, o velho Pew ficou cego. — Ah! — gritou outra voz, que reconheci como sendo do tripulante mais jovem a bordo. — Flint era o rei dos piratas! — Davis também era um grande homem, é o que todos dizem — disse Silver. — Não cheguei a navegar com ele. Comecei com England, depois com Flint, e agora estou por conta própria, por assim dizer. Consegui guardar 900 guinéus com England e 2 mil ao lado de Flint. Nada mal para um marujo adiante do mastro, tudo bem seguro no banco. Não conta tanto quanto você ganha, mas o quanto você consegue guardar. O velho Pew pode ter perdido a vista e passado vergonha, mas gastou 1200 libras em um ano. Onde está ele agora? Bem, está morto. Mas, uns dois anos atrás, o homem estava passando fome. Ele mendigou, e roubou, e cortou gargantas, e passou fome, pelos poderes divinos! — Bem, dá no mesmo para ele, agora — disse o jovem marujo.


— Dá no mesmo para os tolos, pode ter certeza! — gritou Silver. — Mas, veja bem, você é jovem e é esperto como o diabo, pude notar desde que pus os olhos em você, então vou falar contigo de homem para homem. Pode imaginar como me senti quando ouvi esse velho trapaceiro abominável se referir ao outro com as mesmas palavras de elogio que usou para mim. Acho até que, se houvesse um jeito, eu o teria matado de dentro do barril. Enquanto isso, continuou falando, sem supor que estivesse sendo ouvido. — Cavalheiros... Levam uma vida dura e se arriscam como se estivessem numa corda bamba, mas, quando terminam uma viagem, trazem centenas de libras em vez de centenas de níqueis. Verdade que acabam gastando tudo em rum e numa boa farra, e voltam para o mar só com a roupa do corpo. Mas não foi esse o rumo que eu tomei. Sempre guardei, um pouco aqui, outro tanto ali, nunca em um só lugar, para não chamar a atenção. Tenho 50 anos, pode anotar: quando voltar dessa viagem, vou mudar de vida. Já passou da hora, eu diria. Não posso reclamar de nada, sempre fiz o que meu coração queria, dormi bem e comi do bom e do melhor quando não estava no mar. E como comecei? Adiante do mastro, como você! — Mas — perguntou o outro — como vai poder voltar para Bristol depois desta viagem? — Onde você acha que o meu dinheiro está guardado? — perguntou Silver, demonstrando desprezo.

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— Em Bristol, em bancos e lugares assim — respondeu seu 112

companheiro. — E estava quando levantamos âncora — disse o cozinheiro. — Mas minha velha senhora está com tudo agora. E a Luneta foi vendida, com a licença, o ponto e todo o cordame. Minha velha senhora partiu para me esperar onde combinamos de nos encontrar. Eu até lhe contaria o lugar, já que confio em você, mas os outros camaradas ficariam com ciúmes. Cavalheiros bem-afortunados geralmente confiam muito pouco uns nos outros e estão cobertos de razão, pode se fiar nisso. Mas tenho o meu modo de pensar, ora se tenho. Depois que um camarada tenta me enrolar, deixa de pertencer ao mesmo mundo que o velho John. Alguns tinham medo de Pew, e havia aqueles que temiam Flint. Mas Flint tinha medo de mim, se você quer saber. Era a tripulação mais encrespada e brutal a bordo, aquela de Flint. O próprio diabo teria medo de zarpar com eles. Mas, vou te contar, não é que eu goste de me gabar, e sabe que sou uma pessoa de fácil convívio, mas, quando eu era contramestre, não se pode dizer que os velhos piratas de Flint fossem uns carneirinhos. Ah, você precisava se impor no navio do velho Flint. — Olhe, John, vou te confessar — replicou o rapaz — que o trabalho não me agradava nem um pouco até ter essa conversa com você. Mas agora fique sabendo que pode contar comigo. — Você é um rapaz corajoso. E é esperto também — respondeu Silver, trocando um aperto de mãos com tanto entusiasmo


que o barril chegou a balançar. — Nunca conheci uma pessoa com tanto jeito para se tornar um cavalheiro bem-afortunado. A essa altura, já começava a compreender que “cavalheiro bem-afortunado” claramente queria dizer um reles pirata, e a pequena cena que havia escutado tinha sido o último ato de corrupção de um dos trabalhadores honestos, talvez o último que restasse a bordo. Em seguida, Silver chamou com um assobio curto um terceiro homem, que veio caminhando e sentou-se com os dois. — O Dick está no esquema — disse Silver. — Sempre soube que Dick estaria no esquema — respondeu a voz de Israel Hands, o timoneiro. — Ele não é bobo. Cuspiu o fumo que girava na boca e continuou: — Mas vamos ao que interessa, Long John, o que eu quero saber é por quanto tempo isso ainda vai durar! Já aturei o suficiente desse capitão Smollett! Quero entrar naquela cabine e pegar todos os picles e vinhos que ele guarda lá. — Israel — disse Silver —, sua cabeça não está funcionando muito bem, nem nunca funcionou. Sua orelha é grande o bastante, então pelo menos você deve conseguir escutar. Você vai pilotar a embarcação pelas ondas, e vai trabalhar duro, e falar macio, e vai ficar sóbrio, até eu dar o sinal. Pode acreditar nisso. — Bem, nunca disse que não faria isso. Ou disse? — resmungou o timoneiro. — Estou falando sobre quando.

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— Quando! — gritou Silver. — Vai ser o 114

mais tarde possível. Temos o capitão Smollett conosco, um homem do mar de primeira categoria, navegando essa bendita embarcação para nós. Temos também o barão e o doutor com um mapa que não sei onde está. Então, pretendo deixar que o barão e o doutor encontrem o material e ainda nos ajudem a trazê-lo a bordo! Não fosse por vocês, deixaria o capitão Smollett nos levar até metade do caminho de volta antes de atacar. Somos todos apenas marujos do castelo de proa. Podemos manter um rumo, mas quem é que vai nos colocar no rumo certo? Se as coisas correrem como quero, vou deixar o capitão Smollett nos levar de volta pelo menos até os alísios. Aí não corremos risco de errar nos cálculos e acabar ficando sem água. Mas eu sei muito bem como vocês são. Querem dar cabo deles na ilha, assim que o pacote estiver a bordo, e só tenho a lamentar. Vocês nunca estão satisfeitos até estarem bêbados. Só posso rir, é uma vergonha navegar com tipos como vocês! Pode me

Sotavento: direção para onde sopra o vento.

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escutar, Israel, já vi uma coisa ou outra no mar. Se você soubesse traçar um rumo, com um destino a sotavento2, poderia andar de carruagens.


Mas não! Sei muito bem. Amanhã mesmo vai estar com a boca cheia de rum e vai acabar enforcado. — Todo mundo sabe que você fala como um padre. Mas existiram outros que sabiam pilotar e comandar tão bem quanto você — disse Israel. — Eles gostavam de se divertir também. — E daí? — disse Silver. — Como e onde estão agora? Pew era um desses e morreu como um mendigo. Flint era também e acabou morrendo de tanto rum em Savannah. Suas tripulações viviam satisfeitas, não viviam? Mas onde estão agora? — Bem — perguntou Dick —, o que vamos fazer com eles, quando for a hora? — Garoto esperto! — gritou o cozinheiro, admirado. — Abandoná-los numa praia deserta, como England faria? Ou, quem sabe, cortá-los como se fossem porcos? Flint e Billy Bones teriam feito assim. — Billy era o homem certo para esse tipo de coisa — disse Israel. — “Homens mortos não mordem”, ele dizia. Bem, ele mesmo está morto agora, e sabe como isso funciona. Se havia alguém brutal, esse era Billy. — Nisso você tem razão — disse Silver —, brutal e preparado. Mas é preciso fazer o que deve ser feito. E dou logo meu voto: morte. Quando eu estiver no Parlamento, ou andando no meu coche, não quero saber deles voltando para casa e me assombrando. Eu digo para esperarmos, mas, quando chegar a hora, vamos acabar logo com a vida deles! Só tem uma coisa de

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que eu não abro mão: quero Trelawney. Vou torcer aquela cabeça 116

de bezerro até arrancá-la do corpo com minhas próprias mãos! — Dick, seja um bom rapaz e pegue uma maçã para mim. Pode imaginar o terror que eu vivi! Devia ter pulado para fora e corrido para me salvar, se tivesse encontrado força para isso, mas digamos que não pude contar com meus pulmões e coração. Ouvi Dick se levantar, e então a voz de Hands exclamou: — Ora, deixe disso! Vai comer essa porcaria que ficou o dia todo pegando borrifo salgado? Vamos tomar uma dose de rum. — Dick — disse Silver —, confio em você. Tenho um barril trancado. Tome a chave, encha uma caneca e nos traga aqui. Dick se ausentou por algum tempo e, enquanto isso, Israel falou no ouvido do cozinheiro. Só consegui pescar poucas palavras, mas ainda assim consegui uma informação valiosa, pois, entre outros pedaços que apontavam na mesma direção, entendi uma frase inteira: “Nenhum dos outros homens vai se alinhar conosco”. Isso significava que ainda havia homens leais a bordo. Quando Dick voltou, cada um dos três homens, um de cada vez, bebeu da caneca, cada um fazendo um brinde diferente. Foi quando uma luz se derramou sobre mim dentro do barril e, olhando para cima, vi que a lua estava alta no céu e deixava o topo do mastro da mezena todo prateado enquanto a vela do traquete brilhava toda branca. Quase ao mesmo tempo, a voz do vigia soou: — Terra à vista!


CAPÍTULO 12

Conselho de guerra

Foi uma correria pelo convés. Pude ouvir gente saindo das cabines e do castelo de proa aos trambolhões. Deslizando para fora do barril, mergulhei por trás do traquete, dei meia-volta rumo à popa e apareci no convés a tempo de me juntar a Hunter e ao doutor Livesey em sua corrida para a proa. Todos os demais já estavam lá. Uma camada densa de neblina tinha se elevado quase ao mesmo tempo em que a lua aparecia. Ao longe, a sudoeste de onde estávamos, víamos dois pequenos morros, cerca de umas 2 milhas distantes um do outro, e, aparecendo por trás de um deles, um terceiro mais alto cujo pico ainda estava encoberto pela neblina. Todos tinham a forma de cones pontudos. Foi isso que vi, como se estivesse sonhando, pois ainda não me recuperara do horrendo terror que estava sentindo não fazia nem 2 minutos. E, então, ouvi a voz do capitão Smollett dando ordens. A Hispaniola mudou de rumo, indo mais um pouco contra o vento, e agora navegava num curso que passaria rente a leste da ilha.

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— Quero saber — disse o capitão, quando todas as velas 118

estavam ajustadas ao novo rumo — se algum de vocês já avistou essas terras antes. — Eu avistei, senhor — disse Silver. — Paramos aqui para nos abastecer de água num navio mercante em que era o cozinheiro. — O ponto de ancoragem é ao sul da ilha, protegido por uma ilhota, estou certo? — perguntou o capitão. — Sim, senhor. Ela é chamada de Ilha do Esqueleto. Aqui já foi um antro de piratas, e um dos marinheiros a bordo sabia todos os nomes que eles usavam. Aquele morro mais ao norte é chamado de Morro do Traquete. São três morros numa linha, Traquete, Grande e Mezena, senhor. Mas o Morro Grande, aquele maior, com o pico nas nuvens, preferiam chamar de Luneta, devido a um posto de observação que mantinham lá quando estavam ancorados para limpeza. Pois era lá que limpavam suas embarcações, senhor. — Tenho uma carta comigo — disse o capitão Smollett. — Veja se é esse o lugar. Os olhos de Long John pegaram fogo quando pôs as mãos no mapa. Mas bastou o jeito novo do papel para se desapontar. Não era o mapa que encontramos no baú de Billy Bones, mas uma cópia exata, com a única exceção das cruzes vermelhas e das anotações. Diante de tamanho desagrado, Silver teve força mental para não demonstrar o aborrecimento.


— Sim, senhor — disse —, esse é o ponto, com certeza. É um mapa muito bem desenhado. Fico imaginando quem o teria feito. Os piratas eram muito ignorantes, devo reconhecer. Ora, aqui está: “Ancoradouro do capitão Kidd”. Justamente o nome que meu colega usava. Existe uma forte corrente na costa sul da ilha, que depois vira para norte, na costa oeste. — Obrigado — disse o capitão Smollett. — Mais tarde precisarei da sua ajuda novamente. Pode ir agora. Surpreendi-me com a frieza de John ao assumir conhecer a ilha. Fiquei apavorado quando o vi se aproximando de mim. Ele não sabia, com certeza, que eu escutara sua conversa de dentro do barril de maçãs. Mas tinha criado tal horror à sua crueldade e falsidade que mal pude disfarçar um tremor quando ele pôs a mão sobre meu braço. — Ah, esse é um lugar precioso — ele disse. — Uma linda ilha para um rapaz pôr os pés. Você vai poder tomar banho, subir em árvores e caçar cabras. Poxa, isso me faz sentir jovem novamente. Quando quiser explorar um pouco a ilha, basta me pedir e lhe preparo um lanche para você levar. Deu um tapinha no meu ombro e desceu para a cozinha. O capitão Smollett, o barão e o doutor Livesey conversavam no passadiço. Mesmo muito ansioso para lhes contar a minha história, não ousei interrompê-los. O doutor Livesey me viu e pediu que buscasse seu cachimbo na cabine lá embaixo. Foi a oportunidade para me

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aproximar o suficiente para lhe falar sem o risco de ser ouvido 120

em volta: — Doutor, preciso lhe falar. Chame o capitão e o barão e desçam até a cabine. Estando lá, arranje um pretexto para me chamar. Tenho novidades terríveis. O doutor quase perdeu a compostura, mas logo recobrou o controle e me agradeceu pelo cachimbo. Em seguida, virou-se de volta e retomou a conversa com os outros. Falaram um pouco entre si e, ainda que nenhum tivesse demonstrado alarme ou levantado a voz, ficou claro que o doutor Livesey tinha passado o meu recado. Logo depois, o capitão deu uma ordem a Job Anderson, e todos os marinheiros foram chamados ao convés. — Rapazes — disse o capitão Smollett —, a terra que acabamos de avistar é o lugar para onde navegávamos. Todos sabemos como o senhor Trelawney é generoso e, já que todos os homens a bordo cumpriram seus deveres, embaixo no convés e na mastreação, lá no alto, vocês terão o grogue servido para que possam brindar à nossa sorte e saúde, enquanto vamos, eu, ele e o doutor, descer para brindar à sua sorte e saúde. Tenho certeza de que vão dar uma boa saudação do mar para esse nobre homem. Os marinheiros gritaram e aplaudiram, como era de esperar, mas a saudação foi tão calorosa e sincera que, confesso, mal podia acreditar que aqueles mesmos homens estivessem tramando a nossa morte.


— Mais um viva para o capitão Smollett — gritou Long John, quando a primeira onda de aplausos tinha passado. E os gritos e aplausos voltaram com vontade. Foi quando os três cavalheiros desceram, e pouco depois veio a ordem para que Jim Hawkins se apresentasse na cabine. Encontrei os três sentados em torno da mesa, com uma garrafa de vinho espanhol e algumas uvas-passas à mesa, e o doutor fumando seu cachimbo, com a peruca no colo. Sabia que isso era um sinal de que ele estava agitado. — Vamos, Hawkins — disse o barão —, tem alguma coisa para dizer, então fale logo. Fui tão direto quanto consegui ser, até contar todos os detalhes essenciais da conversa de Silver. Nenhum deles me interrompeu nem sequer se mexeu enquanto não terminei. — Jim — disse o doutor Livesey —, sente-se. Encheram minhas mãos de passas e me serviram um copo de vinho. Os três então beberam à minha saúde, prometendo lealdade em gratidão à minha sorte e coragem. — Capitão — disse o barão —, você estava certo e eu errado. Reconheço que fui um tolo e estou às suas ordens. — Fui tão tolo quanto o senhor — devolveu o capitão. — Nunca tinha ouvido falar de uma tripulação tramando um motim que não desse nem um sinal desses planos. Sempre é possível perceber a patifaria e tomar as providências. Mas essa tripulação me enganou.

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— Capitão — disse o doutor —, com sua permissão, isso é 122

coisa de Silver. Ele é um homem excepcional. — Não vai parecer tão excepcional quando estiver enforcado, pendurado em uma verga — devolveu o capitão. — Mas isso não nos levará a lugar nenhum. Vejo três ou quatro pontos a se considerar e, com a permissão do senhor Trelawney, gostaria de listá-los. — O senhor é o capitão. A palavra é toda sua — disse o barão. — Primeiro ponto — começou o senhor Smollett. — Precisamos prosseguir, porque não podemos recuar. Se der a ordem para voltarmos, o levante vai começar de imediato. Segundo ponto, o tempo age a nosso favor, pelo menos até encontrarmos o tesouro. Terceiro, ainda existem marinheiros leais. Como a coisa toda vai estourar mais cedo ou mais tarde, o que eu proponho é usar a surpresa a nosso favor e começar a atacar um belo dia, quando eles menos esperarem por isso. Se entendo bem, senhor Trelawney, podemos contar com seus criados? — Como pode contar comigo — declarou o barão. — São três — contou o capitão —, conosco somam sete, contando com o Hawkins que aqui está. E quanto aos marinheiros honestos de que falaram? — Mais provável que sejam os que Trelawney engajou — disse o doutor —, aqueles que escolheu por conta própria, antes de conhecer Silver.


— Não sei se podemos confiar — respondeu o barão. — Hands era um dos meus. — Eu pensei que podíamos confiar em Hands — disse o capitão. E acrescentou: — Bem, só nos resta aguentar firme, sem dar sinais de termos descoberto o plano, e devemos nos manter atentos. Será um desafio, reconheço. Seria um alívio começar logo a lutar, mas temos que esperar o momento em que o vento sopre a nosso favor. — Jim pode nos ajudar mais que qualquer um — disse o doutor. — Os homens não se intimidam com sua presença, e ele é um rapaz observador. — Hawkins, tenho tremenda fé em você — acrescentou o confiante barão. Comecei a me desesperar com isso, pois me sentia absolutamente desamparado. Contudo, por uma estranha série de circunstâncias, nossa derradeira chance acabaria dependendo de mim. Enquanto isso, podíamos confiar apenas em sete entre 26. E um desses sete era um menino, ou seja, tínhamos seis adultos do nosso lado contra os 19 deles.

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PARTE 3 MINHA

AVENTURA EM TERRA FIRME


CAPÍTULO 13

Como começou minha aventura em terra firme

Quando cheguei ao convés na manhã seguinte, a paisagem à frente tinha mudado totalmente. Tínhamos feito um grande progresso durante a noite, mas agora estávamos numa calmaria a cerca de meia milha a sudeste da costa leste da ilha. Grande parte da sua superfície era coberta por florestas acinzentadas onde vários pinheiros se destacavam, mais altos que as outras árvores, alguns isolados, outros aglomerados em pequenos bosques. Os morros erguiam-se muito acima da vegetação em espirais de rocha nua. Todos tinham formatos estranhos, e o Morro da Luneta, uns 300 ou 400 pés mais alto que os demais, era o mais estranho de todos, com todas suas faces muito íngremes e o topo plano como se fosse um pedestal para se pôr uma estátua. A Hispaniola balançava com a ondulação e a água entrava e saía pelas aberturas de resbordo. As polias das retrancas rangiam, o leme era sacudido de um lado para o outro e a embarcação inteira parecia estalar, gemer e pular. Tive que me segurar firme no estai de popa, e a vertigem quase tomou conta de mim, pois ficar parado e ao mesmo tempo ser jogado de um lado para

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o outro era algo que nunca aprendi a encarar sem enjoar, ainda 126

mais logo pela manhã e de estômago vazio. Talvez fosse o enjoo, ou então era a visão da ilha, cinzenta e melancólica, somados à arrebentação que podíamos ver e ouvir espumando e trovejando na praia íngreme. A verdade é que, apesar do calor e do brilho do sol, das aves marinhas pescando e guinchando ao nosso redor, em vez de estar feliz com a ideia de pisar em terra firme depois de tanto tempo no mar, o meu coração ficou apertado e passei a odiar a Ilha do Tesouro só de pensar nela. Não havia vento algum e seria preciso baixar os escaleres para, a remo, rebocar a embarcação por umas 3 ou 4 milhas até contornarmos a ilha e passarmos pelo canal estreito rumo ao refúgio atrás da Ilha do Esqueleto. Eu me ofereci para ir em um dos botes, onde era claro que não teria nada a fazer. Os homens resmungavam ferozes enquanto trabalhavam no calor abafado. Anderson estava no comando do meu barco e, em vez de manter sua tripulação na linha, reclamava mais alto que qualquer outro. — Pelo menos — disse como se fizesse uma promessa — não será para sempre. Pensei que isso era um péssimo sinal, pois, até aquele dia, todos os homens realizavam suas tarefas prontamente e com boa vontade, mas bastou a ilha ter sido avistada para que a tripulação relaxasse quanto à disciplina.


Durante toda a manobra de aproximação, Long John ficou ao lado do timoneiro e conduziu a embarcação. Conhecia a passagem como a palma de sua mão: — A maré vazante arrasta tudo nesse canal — disse — e essa passagem aqui acabou ficando mais funda, como se alguém tivesse desbastado as pedras com uma espada. Levamos a embarcação até o ponto exato que estava marcado com uma âncora na carta, distante cerca de um terço de milha de cada ilha, a maior de um lado e a Ilha do Esqueleto do outro. O chão onde baixamos a âncora era de areia clara e ficava numa enseada toda cercada por terra firme coberta por florestas, com árvores até a linha da maré alta. O litoral da ilha era quase todo plano, e os topos dos morros se destacavam a distância como se formassem um anfiteatro. Dois pequenos riachos, ou, talvez, dois pântanos, desaguavam na pequena enseada que mais parecia um lago. A folhagem ao redor brilhava muito. Se não fosse pelo mapa que tínhamos, poderíamos ser os primeiros a ancorar ali. Não havia uma só lufada de vento, nem outro som além da arrebentação trovejando a cerca de meia milha dali, lá fora, nas praias e sobre os rochedos. Um cheiro de folhas encharcadas e troncos podres tomava conta do ancoradouro. O doutor aspirava o ar o tempo todo, como se cheirasse um ovo suspeito. — Não sei se existe um tesouro aqui — disse —, mas aposto que há febre.

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Quando os homens voltaram a bordo, sua conduta ficou 128

apavorante para valer. Permaneciam no convés e se aglomeravam em rodas de conversa. A mínima ordem era recebida com um olhar tenebroso, executada com descuido e acompanhada de resmungos. O risco de motim estava claro, pairava sobre nossas cabeças como se fosse uma nuvem de tempestade. Nós da cabine não havíamos sido os únicos a perceber o perigo. Long John se esforçou indo de grupo em grupo, dando conselhos, e nenhum homem poderia ter dado melhor exemplo. De todos os aspectos sombrios daquela tarde sombria, essa evidente ansiedade por parte de Long John pareceu ser o pior. Reunimos um conselho na cabine. — Senhor — disse o capitão —, se me arrisco a dar mais uma ordem, toda a embarcação se levanta contra nós. Parece que só podemos contar com Silver para nos ajudar. Ele está tão ansioso quanto eu e você para acalmar as coisas. Vamos lhe oferecer a chance de contornar o mau humor e desarmar os espíritos com uma conversa. Vamos propiciar aos homens uma tarde em terra firme. Se todos forem, podemos dominar a embarcação. Se nenhum deles quiser ir, bem, nos resta ficar encastelados na cabine e rezar. Se alguns forem até a praia, aposto que Silver vai trazê-los de volta mansos como carneirinhos. Assim ficou decidido. Todos os homens de confiança receberam pistolas carregadas. Hunter, Joyce e Redruth foram informados de tudo e receberam as notícias com menos surpresa


e uma disposição melhor do que esperávamos. O capitão foi até o convés e se dirigiu à tripulação.

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— Rapazes — disse —, tivemos um dia bem quente e estamos todos cansados e desanimados. Um passeio na costa não pode fazer mal a ninguém e os escaleres ainda estão na água. Quem quiser pode pegar os botes e ir para terra firme pelo resto da tarde. Dispararei um tiro de canhão meia hora antes do pôr do sol. Creio que aqueles sujeitos idiotas devem ter pensado que iam dar uma topada no tesouro assim que pusessem os pés em terra, pois todos se libertaram do mau humor em um instante e explodiram em comemoração. O capitão era esperto demais para ficar no caminho. Saiu de perto de imediato, deixando que Silver organizasse a missão, o que fez muito bem. Não havia mais dúvida de que Silver era o capitão de fato e comandava uma tripulação rebelde e poderosa. O grupo se organizou. Seis marinheiros ficariam a bordo e os 13 restantes, incluindo Silver, embarcariam nos escaleres. Foi quando tive a primeira das ideias ousadas que tanto contribuíram para salvar nossas vidas. Se seis homens estavam sendo deixados por Silver, era claro que minha presença a bordo não faria diferença em caso de luta. Resolvi ir para terra firme; num instante, deslizei por cima da amurada e me aninhei no chão, no espaço existente na proa do bote mais próximo, bem na hora em que começaram a remar.

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Ninguém notou minha presença além do remador de proa, 130

que disse: — É você, Jim? Mantenha a cabeça abaixada. Mas Silver, no outro barco, olhou com atenção e chamou de volta para saber se era eu mesmo. Daquele momento em diante comecei a lamentar minha decisão. As tripulações disputavam uma corrida rumo à praia, mas o bote em que eu estava tinha partido com alguma vantagem e, além disso, sendo mais leve e mais bem conduzido, acabou disparando na frente. Quando a proa alcançou as primeiras árvores da beira do mar, consegui me agarrar a um galho e me balancei para fora do bote, me enfiando dentro do matagal mais próximo, enquanto Silver e os demais ainda estavam umas 100 jardas distantes. — Jim! Jim! — ouvi Silver gritar. Mas não lhe dei atenção. Pulando, rastejando e abrindo caminho, corri para onde meu nariz apontava, até que não tivesse mais fôlego.


CAPÍTULO 14

O primeiro ataque

Estava tão satisfeito em ter escapado de Long John que comecei a apreciar a situação e a olhar em volta com algum interesse por aquela terra estranha. Cruzei um alagadiço cheio de salgueiros, juncos e outras árvores estranhas e bizarras. Depois, cheguei à beira de um trecho aberto de solo arenoso e ondulado, salpicado de poucos pinheiros e um bom número de árvores retorcidas, com tronco e galhos parecidos com os do carvalho, mas com uma folhagem pálida. Do outro lado do terreno aberto, erguia-se um dos morros, com dois picos esquisitos e escarpados. Sentia pela primeira vez o prazer da exploração. Fui para lá e para cá entre as árvores. Aqui e ali havia plantas com flores que me eram desconhecidas. Vi até uma cascavel em uma saliência de rocha. Cheguei afinal a um bosque que se estendia desde a parte mais alta do terreno arenoso até o brejo. Era composto por aquelas árvores parecidas com carvalhos, que depois fiquei sabendo serem azinheiras3. Cresciam baixas sobre a areia como espinheiros,

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os ramos curiosamente torcidos, a folhagem 132

compacta como palha. Debaixo do sol forte, nuvens de vapor subiam do pântano, e o contorno do Morro da Luneta tremia através da cerração. De repente começou uma espécie de alvoroço no meio do junco, e um pato selvagem voou com um grasnado, seguido por outro, e logo depois toda a superfície do pântano foi coberta por uma grande nuvem de pássaros que levantaram voo gritando e fazendo círculos no ar. Imaginei que alguém estava contornando a borda do brejo. Logo depois ouvi uma voz humana, primeiro muito baixa e distante, depois se aproximando e ficando cada vez mais alta. Isso me deixou com muito medo, e rastejei para me esconder embaixo da azinheira mais próxima. Fiquei agachado ali, ouvindo com atenção, tão silencioso como um camundongo. Eram

Azinheira: árvore de copa ampla e folhas espinhosas. Chega a medir 10 metros de altura. Comum na região da Europa Mediterrânea e no norte da África.

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pelo menos duas pessoas. Reconheci a voz de Silver e percebi que a conversa era franca e até mesmo feroz, mas não consegui distinguir nem uma só palavra. Afinal os dois pareceram parar de conversar e talvez tenham se sentado, pois os pássaros começaram a se acalmar e a pousar de volta.

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Nesse momento, pensei que, já que tinha sido tão audacioso em vir para terra com aqueles desesperados, o mínimo que deveria fazer era escutar o que falavam em suas conversas. Engatinhando de forma lenta mas constante, avancei na direção de onde tinha escutado o som, até que, afinal, levantando a cabeça até alcançar uma abertura entre a folhagem, pude ver a clareira ao lado do pântano onde Long John Silver e outro membro da tripulação conversavam. O sol os iluminava por inteiro. Silver tinha largado o chapéu no chão ao seu lado, e seu rosto grande e claro brilhava com o calor. — Camarada — estava dizendo —, só quero o melhor para você. Pode confiar nisso! Se não fôssemos tão próximos, acha que estaria aqui o avisando? É para salvar seu pescoço que o estou alertando e, se um daqueles selvagens souber disso, me diga, Tom, o que vai ser de mim? — Silver — disse o outro homem, e pude notar que seu rosto estava muito vermelho, e sua voz muito rouca e tremida —, você já está velho e tem fama de ser um homem honesto. E tem dinheiro também, ao contrário de um monte de marinheiros pobres. E é valente, ou estou muito enganado. E agora vem me dizer que está envolvido com esse bando de mandriões? Não pode ser! Prefiro perder uma mão que... E foi interrompido por um barulho. Eu tinha acabado de descobrir quem era um dos marinheiros honestos. E quase ao mesmo tempo fiquei sabendo sobre outro. Do pântano veio,

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de repente, um som parecendo um grito de raiva, então ou134

tro som em sequência, e depois um berro longo e horrendo. As pedras do Morro da Luneta ecoaram algumas vezes o grito, e todo o bando de aves do pântano alçou voo de novo, escurecendo o céu de uma só vez. O grito da morte continuou soando na minha mente, mesmo depois que o silêncio se restabeleceu, e a tarde abafada era perturbada apenas pelo sussurro das aves pousando e pelo estrondo das ondas distantes. Tom deu um pulo quando ouviu o som, como um cavalo esporeado, mas Silver nem piscou. Ficou onde estava, apoiado de leve na muleta, observando fixamente seu companheiro como uma serpente pronta para dar o bote. — John! — disse o marinheiro, esticando a mão. — Não encosta em mim! — gritou Silver, pulando para trás com a velocidade e precisão de um ginasta treinado. — Calma — disse o outro. — Somente o peso na cons­ ciência pode fazer você sentir medo de mim. Pelo amor de Deus, me diga o que foi aquilo. — Aquilo? — devolveu Silver, sorrindo. — Aquilo? Imagino que tenha sido Alan. Foi quando o pobre Tom assumiu ares de heroísmo. — Alan! — gritou. — Que descanse em paz! E quanto a você, John Silver, por muito tempo fomos amigos, mas isso acabou. Vocês mataram Alan, não é? Matem-me também, se puderem, faço o desafio.


E, com isso, esse sujeito corajoso virou as costas para o cozinheiro e saiu andando em direção à praia. Mas não chegou a ir muito longe. Com um grito, John se agarrou a um galho de uma árvore e arremessou sua muleta como se fosse um míssil pelo ar. Ela acertou o pobre Tom em cheio e com violência impressionante. A ponta de madeira o atingiu bem entre os ombros, no meio das costas. Suas mãos se levantaram, deu uma espécie de suspiro e caiu. Se estava muito ou pouco machucado, ninguém nunca saberá, pois nem houve tempo de ele sequer recobrar os sentidos. Silver, sem perna nem muleta, estava sobre ele no momento seguinte, enterrando duas vezes a faca até o cabo no corpo indefeso. Do lugar onde eu estava escondido, pude ouvi-lo arfando alto enquanto desferia os golpes. Quase desmaiei. Tudo pareceu flutuar à minha volta, Silver e as aves, o alto cume do Morro da Luneta, girando e girando, e todos os sons pareciam como sinos tocando e vozes distantes gritando no meu ouvido. Não sei quanto tempo passou, mas, quando voltei a mim, o monstro já limpava a lâmina suja de sangue em um tufo de grama, numa tranquilidade assustadora. Eu mal podia acreditar que havia ocorrido um assassinato e que uma vida humana tinha sido interrompida com crueldade havia pouco, diante dos meus olhos. Em seguida John levou a mão ao bolso, pegou um apito e soprou uma série de toques modulados. Mesmo sem saber

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do que se tratava, isso logo despertou meus temores. Outros 136

homens viriam. Eu poderia ser descoberto. Já tinham matado duas pessoas honestas. Depois de Tom e Alan, eu seria o próximo? Imediatamente comecei a engatinhar de volta, com o máximo de pressa e silêncio que conseguia, até a parte aberta da mata. Assim que lá cheguei, pude ouvir o velho pirata e seus comparsas trocando chamados, e esse sinal de perigo me deu asas. Assim que saí do arvoredo, corri como nunca havia corrido antes, sem me importar muito com a direção da fuga, minha urgência era me afastar dos assassinos. Enquanto corria, o medo crescia cada vez mais, até que virasse uma espécie de frenesi. Realmente, naquele momento podia alguém estar mais perdido do que eu? Quando o canhão fosse disparado, como poderia ousar descer até os botes entre os demônios, ainda fedendo aos seus crimes? Será que o primeiro que me visse não torceria meu pescoço como se eu fosse um pobre marreco? Será que minha ausência já teria servido como evidência do meu alarme e, portanto, do meu conhecimento dos seus planos? Era meu fim. Tudo estava acabado, pensei. Cada vez mais desesperado, corria sem prestar muita atenção e acabei me aproximando do pequeno morro com os dois picos, numa área da ilha onde as azinheiras cresciam mais


esparsas e se pareciam mais com árvores normais. Misturados com elas havia uns poucos pinheiros dispersos, alguns bem altos. O ar era bem mais fresco e cheirava melhor que perto do pântano. Foi quando um novo alarme disparou meu coração e me imobilizou.

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CAPÍTULO 15 138

O homem da ilha

Da lateral do morro, que era escarpada e pedregosa, uma torrente de cascalho caiu, barulhenta, pelo meio das árvores. Olhei para aquela direção e vi uma figura saltar com grande rapidez por trás do tronco de um pinheiro. Não poderia dizer se era urso, homem ou macaco. Pareceu-me sombrio e desgrenhado, nada sabia além disso. Mas a nova aparição me aterrorizou e parei onde estava. Mesmo sabendo dos perigos que havia atrás de mim, preferi dar meia-volta em vez de enfrentar aquele ser desconhecido. Continuei olhando para trás com muita atenção enquanto me afastava dali. Logo a figura reapareceu. Tinha feito uma grande volta e cortado minha rota de fuga. Mesmo que eu estivesse descansado, não seria capaz de ser mais rápido que tal adversário. A criatura andava se escondendo como um animal no mato, mas nesse momento já tinha certeza de que era uma pessoa. Comecei a me lembrar do que tinha lido sobre canibais. Estava a ponto de pedir socorro, mas a lembrança da minha


pistola me fez pensar que não estava indefeso. Encarei o homem da ilha, me enchi de coragem e andei em sua direção. Ele estava escondido atrás de uma árvore e, assim que comecei a me aproximar, ele reapareceu e deu um passo ao meu encontro. Então hesitou, recuou, avançou de novo e, afinal, para meu espanto, se pôs de joelhos e juntou as duas mãos numa súplica. — Quem é você? — perguntei. — Ben Gunn — respondeu com uma voz rouca e estranha. — Faz três anos desde que falei com um cristão. Tinha feições agradáveis e sua pele branca, onde estava exposta, era tão queimada de sol que até os lábios eram pretos e seus olhos claros eram um pouco assustadores naquela cara tão escura. Vestia-se com retalhos de velas de navios antigos e de roupas de marinheiro usadas, que eram costurados com toda sorte de artifício: botões de latão, pedaços de galhos e laços de tecido alcatroado. Em torno da cintura, usava um antigo cinto de couro com fivela de bronze que parecia ser a única coisa sólida em toda a sua vestimenta. — Três anos! — gritei. — Sua embarcação naufragou? — Pior, meu caro — disse. — Fui abandonado na praia. Já tinha ouvido falar a respeito e sabia que era uma forma terrível de punição, bastante comum entre os piratas, em que se abandona a pessoa numa ilha deserta e isolada, só com a roupa do corpo, pólvora e alguma munição.

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— Desde então tenho vivido de cabras, frutas silvestres e 140

ostras — continuou. — Um homem sobrevive como for possível. Será que traria com você um pedaço de queijo? Não? Bem, já foram tantas as noites em que sonhei com queijo, tostado de preferência, e acordei de novo... Ainda assim, aqui estou eu. — Se eu conseguir voltar a bordo — disse —, você há de ter queijo, lhe prometo. Enquanto isso, parecia uma criança, me examinando satisfeito. Mas, com essas minhas últimas palavras, se assustou. — Se conseguir voltar a bordo? — repetiu. — Por quê? Quem o está impedindo? — Não é você, eu sei — foi minha resposta. — Claro — ele gritou. — Agora, me conte, como se chama? — Jim — contei a ele. — Jim, Jim — disse, alvoroçado. — Bem, Jim, passei por maus bocados que deixariam você envergonhado só de me ouvir falar sobre eles. Parece mentira, mas eu tive uma mãe religiosa. Bem religiosa. Eu mesmo era um menino devotado e podia recitar o catecismo tão rápido que as palavras se misturavam. E olhe o meu estado, Jim. Bem que minha mãe me avisou. Comecei apostando nos dados e acabei nessa ilha deserta. Aqui, me arrependi e voltei à devoção. Não vai mais me pegar bebendo tanto rum, só um dedinho para dar sorte, na primeira chance que tiver, é claro. E, Jim — continuou, agora olhando em volta e baixando a voz até um sussurro —, sou muito rico.


Agora tinha certeza de que o pobre sujeito ficara maluco em sua solidão. Ele pareceu ler meus pensamentos, pois repetiu a afirmação com veemência: — Rico! Rico! É o que eu digo. E vou lhe contar o seguinte: você vai agradecer aos céus, ora se vai, ter sido o primeiro a me encontrar! E nesse momento foi como se tivesse baixado uma sombra sobre seu rosto, e ele segurou com força meu braço e levantou um dedo ameaçador: — Você precisa me contar a verdade! Aquele é o navio de Flint? Foi quando tive uma feliz inspiração. Percebi que tinha encontrado um aliado e respondi de pronto: — Não é o navio de Flint. Ele está morto. Mas não vou mentir para você, temos a bordo alguns dos antigos marinheiros de Flint. Para azar do restante de nós. — E um deles seria um homem... com uma perna só? — suspirou. — Silver? — perguntei. — Ah, Silver! — disse. — Esse era o seu nome. — É o cozinheiro. E também o chefe do bando. Ele ainda estava me segurando e, quando falei isso, torceu meu braço com força. — Se você foi enviado por Long John — disse —, sei que sou um homem morto. Mas continue sua história.

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Tomei uma decisão sem pensar muito e lhe contei tudo so142

bre a nossa viagem e a situação em que nos encontrávamos. Ele me escutou interessado. — Você é um bom rapaz, Jim — disse, quando terminei. — Acabou de confiar em Ben Gunn e acontece que Ben Gunn é o homem certo para ajudá-lo. O que você acha? Será que o seu barão vai se revelar generoso em caso de ajuda? Disse a ele que o barão era o mais generoso de todos os homens. — Mas veja bem — devolveu Ben Gunn. — Não estou falando de me darem um emprego de porteiro, com uniforme e essas coisas. Seria ele capaz de me deixar ficar com pelo menos umas mil libras, parte do dinheiro que na prática me pertence? — Tenho certeza de que seria — disse. — O combinado sempre foi que dividiríamos o tesouro, todos nós. — Além de uma passagem para casa? — acrescentou, com um olhar de muita astúcia. — É claro — gritei —, o barão é um cavalheiro. Além disso, se nos livrarmos dos outros, vamos querer sua ajuda para navegar de volta. — Ah, assim é melhor — disse. E pareceu muito aliviado. — Veja, vou lhe contar uma coisa — continuou. — Estava no navio de Flint quando ele enterrou o tesouro, ele e outros seis. Os seis eram marinheiros fortes. Ficaram em terra firme


quase uma semana inteira, enquanto o resto de nós ficou no seu velho navio, o Morsa. Num belo dia, lá veio Flint sozinho num pequeno bote, com a cabeça enfaixada com um pano azul. Ele parecia pálido, mas a verdade é que estava voltando ao navio, enquanto os outros seis estavam mortos. Mortos e enterrados. Como ele fez isso, nenhum outro homem a bordo conseguia entender. Deve ter sido horrendo, pois era ele contra seis. Billy Bones era o imediato, Long John, o contramestre, e perguntaram onde estava o tesouro. Ele respondeu: “Se quiserem, podem ir para terra firme e ficar lá, mas essa embarcação está pronta para ir buscar mais!”. E continuou: — Há três anos, estava eu em outra embarcação e avistamos essa ilha. Contei aos rapazes que a ilha escondia o tesouro de Flint e sugeri que fôssemos encontrá-lo. O capitão não gostou nada disso, mas meus companheiros pensaram diferente e todos foram até a terra. Procuramos por 12 dias, e a cada dia me dirigiam palavras piores, até que voltaram todos a bordo. “Quanto a você, Ben Gunn”, disseram, “aqui está um mosquete, uma pá e uma picareta. Pode ficar por aqui e encontrar sozinho o tesouro de Flint.” — Bem — continuou —, por três anos fiquei aqui, e nem uma migalha de dieta cristã desde aquele dia. Mas olhe para mim: eu pareço um dos homens de adiante do mastro? Não, você vai dizer. Porque eu não era um grosseirão, não era mesmo.

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E, ao falar isso, ele torceu e apertou meu braço com mais 144

força. Disparou a falar um monte de coisas desconexas sobre a vida na ilha e orações para sua mãe, até pedir finalmente: — Quero que repita essas palavras para seu barão, Jim — e ele continuou. — Durante três anos ele foi o homem da ilha, mas Ben Gunn é um bom homem, e aí ele terá mais confiança nesse que nasceu cavalheiro do que naqueles cavalheiros bem afortunados, sendo ele próprio um daqueles. — Olhe — disse —, não entendi uma só palavra do que estava falando. Mas, tanto faz, como faremos para ir a bordo? — Ah — respondeu —, esse é o problema, com certeza. Bem, temos o meu bote, que fiz com minhas próprias mãos. Eu o guardo debaixo da pedra branca. Ei! O que foi isso? Bem nessa hora, mesmo que ainda faltassem umas 2 horas até o sol se pôr, todos os ecos da ilha acordaram e gritaram com o estrondo de um canhão. — Começou a luta! — gritei. — Venha comigo. E comecei a correr rumo ao ancoradouro, esquecendo-me de toda cautela. Ao meu lado, bem perto de mim, o homem vestido com pele de cabra trotava ligeiro com facilidade. — Pela esquerda, pela esquerda — disse —, mantenha-se à esquerda, camarada Jim! Por baixo das árvores! Foi aqui que matei minha primeira cabra. Elas não aparecem mais por aqui, ficam todas encasteladas em sua montanha, com medo de Benjamin Gunn. Ah, e ali está o cetimério — cemitério, ele queria


dizer. — Você vê os túmulos? Venho aqui para rezar, de vez em quando, quando acho que é domingo. Prosseguiu falando enquanto eu corria, sem esperar nem receber nenhuma resposta. O tiro de canhão foi seguido, após um intervalo razoável, por uma salva de tiros de armas menores. Outra pausa, e então, menos de um quarto de milha à minha frente, pude ver a bandeira do Reino Unido tremulando no ar sobre um bosque.

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PARTE 4 A FORTIFICAÇÃO


CAPÍTULO 16

O doutor continua a narrativa: como o navio foi abandonado

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Passava um pouco de uma e meia da tarde quando os dois botes deixaram a Hispaniola rumo à terra firme. Estava tratando de nossos assuntos com o capitão e o barão na cabine. Caso houvesse uma lufada de vento, cairíamos em cima dos seis amotinados que foram deixados a bordo conosco, levantaríamos âncora e nos afastaríamos para alto-mar. Mas o vento estava ausente. Para completar nosso desamparo, Hunter desceu com a notícia de que Jim Hawkins tinha deslizado para dentro de um bote e ido para terra firme com os demais. Nunca duvidamos de Jim Hawkins, mas ficamos preocupados com sua segurança e víamos pouca chance de chegarmos a revê-lo. Corremos ao tombadilho. O calor era intenso e o cheiro de podre cada vez mais desagradável. Os seis canalhas resmungavam sentados e desajeitados embaixo de uma vela na proa. Na praia, podíamos ver os escaleres amarrados à margem, com um homem sentado em cada, um deles assobiando uma canção do mar.

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Esperar era uma agonia, e decidimos que 148   Dingue: pequeno barco de quilha curta, mastro inclinado sobre a proa e vela em forma de antena.

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Hunter e eu devíamos ir à terra firme com o pequeno dingue4 usado para transportar carga, em busca de alguma informação. Os escaleres estavam mais para o lado direito da praia, então Hunter e eu fomos direto em frente, na direção da paliçada marcada no mapa. Os dois marujos se alvoroçaram quando nos viram. O assobio parou, e pude vê-los discutindo o que deveriam fazer. Se tivessem ido contar para Silver, tudo poderia ter sido diferente, mas suponho que tinham recebido ordens e preferiram ficar onde estavam. Havia uma pequena curva na costa, e tomei um rumo que pôs a ponta da praia entre nós e eles. Antes de tocarmos em terra, já não podíamos ver os escaleres. Pulei para fora do barco e cheguei a correr, com um grande lenço de seda sob o meu chapéu para me refrescar um pouco e um par de pistolas carregadas e preparadas para me defender. Tinha avançado menos de 100 jardas quando encontrei a fortificação. Ficava no alto de uma pequena colina onde brotava uma fonte de água limpa, em torno da qual uma

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robusta casa foi construída com troncos de árvore. Era grande o suficiente para acomodar 40 homens, com aberturas em cada um dos lados, por onde se podia atirar com mosquetes. Em torno dela, uma grande área estava limpa, e a construção era protegida por uma paliçada de seis pés de altura, sem nenhuma porta ou abertura, tão forte que seria preciso muito tempo e trabalho para derrubá-la, enquanto as estacas eram separadas o suficiente para deixar exposto quem tentasse sitiar a fortaleza. Quem estivesse na casa fortificada teria a vantagem de estar abrigado enquanto podia atirar nos atacantes. Só precisariam manter vigília e ter alimentos, pois, exceto por alguma grande surpresa, poderiam defender o lugar contra um regimento inteiro. O melhor de tudo era a fonte. Tínhamos bastantes armas e munição na Hispaniola, coisas para comer e vinhos excelentes, mas não tínhamos água. Pensava nisso quando a ilha foi tomada pelo grito de um homem à beira da morte. Morte violenta não era novidade para mim, pois havia combatido e até mesmo sido ferido em Fontenoy. Mas o fato é que meu coração disparou e pensei que tínhamos perdido Jim. Não havia tempo a perder. Imediatamente voltei para a praia, onde pulei para dentro do dingue. Por sorte, Hunter era excelente remador, e rapidamente voltamos à escuna. Lá, encontrei todos abalados, como era de esperar. O barão estava sentado, branco como um lençol, sentindo-se culpado,

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pobre alma! Um dos seis marinheiros do castelo de proa parecia 150

abalado também. — Esse aí — disse o capitão Smollett — é novato no ofício. Quase desmaiou quando ouviu o grito. Mais um toque no leme e ele se junta a nós. Contei meu plano ao capitão, e combinamos os detalhes entre nós. Pusemos o velho Redruth no corredor entre a cabine e o castelo de proa, com três ou quatro mosquetes carregados e um colchão para servir de proteção. Hunter trouxe o barco até a janela de popa, e Joyce e eu começamos a carregar o dingue com latas de pólvora, mosquetes, sacos de bolachas, barris de carne de porco, uma pipa de conhaque e meu inestimável baú de médico. Enquanto isso, o barão e o capitão ficaram no convés, e este último chamou o timoneiro, que era o líder dos piratas a bordo. — Senhor Hands — disse —, somos dois com um par de pistolas cada um. Se qualquer um dos seis tentar alguma coisa, será um homem morto. Ficaram surpresos com isso e, depois de conversarem, dispararam pela escada de proa, pensando em chegar à popa por baixo do convés. Mas, quando viram Redruth esperando por eles no corredor estreito, voltaram. Uma cabeça apontou no convés.


— Abaixado, cão vira-lata! — gritou o capitão. A cabeça se escondeu de volta e, por algum tempo, ficaram quietos. Com o dingue tão carregado quanto possível, Joyce e eu saímos pela janela de popa e partimos rumo à praia mais uma vez, o mais rápido que podíamos remar. Essa segunda viagem claramente despertou os vigias na costa. Antes de perdermos contato visual atrás da pequena ponta, um deles disparou para o interior da ilha e desapareceu. Logo tocávamos em terra no mesmo ponto que antes e passamos a abastecer a casa fortificada. Fizemos uma primeira viagem, cada um levando uma carga pesada, e jogamos os suprimentos por cima da paliçada. Então, deixamos Joyce para guardá-los. Apenas um homem, com certeza, mas com meia dúzia de mosquetes. Hunter e eu voltamos ao dingue, pegamos outra carga mais uma vez. Assim fizemos, sem parar para tomar fôlego, até que tudo estivesse guardado. Os dois criados tomaram posição dentro do forte, e eu, reunindo toda a força que tinha, remei de volta para a Hispaniola. O barão me esperava na janela de popa, já livre de todo o desalento. Pegou o cabo que lancei, amarrou o dingue e começamos a carregar o barco o mais rápido que podíamos. Carne de porco, pólvora e pão era a carga, com apenas um mosquete e um sabre para cada um de nós. Jogamos o resto das armas e da pólvora dentro da água.

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A maré estava começando a vazar. Ouvimos vozes cha152

mando na direção dos dois escaleres e, ainda que isso tivesse nos tranquilizado sobre Joyce e Hunter, que estavam bem mais a leste, nos alertou de que devíamos partir logo. Redruth recuou do seu posto no corredor e se jogou para dentro do dingue. Levamos este para o costado da embarcação para facilitar o embarque do capitão Smollett. — Agora — o capitão disse — podem me ouvir? Não houve resposta do castelo de proa. — Abraham Gray, é com você que estou falando — retomou o senhor Smollett. — Estou deixando esse navio e lhe ordeno que siga seu capitão. Sei que no fundo é um bom homem e que nenhum de vocês é tão mau como parece. Dou-lhe 30 segundos para se juntar a mim. Houve uma pausa. — Venha, marujo — continuou o capitão —, não pense tanto. Estou arriscando nossas vidas a cada segundo que passa. Houve um tumulto repentino e lá veio Abraham Gray com um corte de faca em uma das faces, correndo até o capitão como se fosse um cachorro atendendo a um apito. — Estou com o senhor — disse. No momento seguinte, ele e o capitão pularam para dentro do dingue onde estávamos, e remamos para longe. Tínhamos saído sem problemas da embarcação, mas ainda não estávamos em terra firme, na nossa fortificação.


CAPÍTULO 17

O doutor continua a narrativa: a última viagem do dingue

Essa viagem foi bem diferente de todas as outras. Para começar, o barquinho estava muito sobrecarregado. Cinco homens crescidos, três deles com mais de 6 pés de altura, só isso já era mais do que ele poderia carregar. Some a isso pólvora, carne de porco e sacos de pão. A água estava entrando pela popa do dingue, e as abas do meu casaco já estavam encharcadas antes de avançarmos 100 jardas. O capitão nos fez equilibrar o barco, e começa­mos a navegar com um pouco mais de estabilidade. A maré estava vazando, e uma forte corrente varria a ensea­ da na direção oeste e depois rumava para sul através do estreito entre as ilhas, na direção do alto-mar. As ondas já ameaçavam o bastante nossa embarcação carregada, mas o pior é que nos desviávamos do rumo original para o local de atracagem ideal depois da ponta da praia. Se nos deixássemos levar pela correnteza, iríamos chegar em terra firme muito perto dos escaleres, onde os piratas poderiam aparecer a qualquer momento. — Não consigo manter o rumo — disse para o capitão. Eu estava no leme, enquanto ele e Redruth, dois homens

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descansados, remavam. — A maré continua me levando. Vocês 154

conseguem remar com mais força? — Se fizermos isso, enchemos o barco de água — disse. — Precisa insistir com o leme. Resistir contra a correnteza até ver que está ganhando. Tentei e pude constatar que a maré continuava nos empurrando para oeste até que eu apontasse a proa do barco para leste, quase perpendicular ao caminho em linha reta para onde queríamos ir. — Nunca chegaremos em terra firme desse jeito — eu disse. — Se esse é o único curso com que podemos contar, mais um motivo para se manter fiel a ele — devolveu o capitão. — Temos que nos manter contra a corrente. Nesse rumo que seguimos, a corrente deve enfraquecer mais à frente, e aí poderemos desviar de volta para a costa. — A corrente já está um pouco mais fraca, senhor — disse Gray, que estava sentado na proa. — Pode aliviar um pouco. De repente o capitão falou novamente, e notei que sua voz mudou um pouco. — O canhão! Tínhamos nos esquecido por completo do canhão longo de 9 polegadas, e lá estavam, para nosso horror, os cinco patifes ocupados em volta dele, tirando a capa de lona grossa que o cobriu durante toda a travessia. Pior, lembrei-me de que tínhamos deixado para trás as balas de canhão e a pólvora para dispará-las.


Bastaria um golpe de machado para os amotinados se apoderarem de tudo. — Israel foi o artilheiro de Flint — disse Gray, bastante rouco de medo. Arriscando tudo, embicamos o dingue direto para o ponto de desembarque. A essa altura já tínhamos avançado e saído do trecho onde a correnteza era mais forte, então conseguíamos manter o rumo sem precisar remar muito forte, e pude conduzir o pequeno barco firme na direção que queríamos. Mas o pior é que, com esse curso, ficamos com a lateral da nossa embarcação virada para a Hispaniola em vez da popa, oferecendo um alvo maior. Pudemos ouvir, e ver também, o patife Israel Hands rolando uma bala de canhão pelo convés. — Qual de vocês atira melhor? — perguntou o capitão. — O barão, sem dúvida — eu disse. — Senhor Trelawney, o senhor poderia, por favor, acertar um daqueles homens? Hands, se possível — disse o capitão. O barão parecia frio como aço. Conferiu que a arma estava carregada corretamente e a levantou. Os remos pararam, nos inclinamos para o outro lado para manter o equilíbrio, e todos os movimentos foram tão cuidadosos que não entrou uma gota sequer no bote. Os piratas já tinham colocado o canhão em seu suporte giratório, e Hands era o mais exposto de todos. Mas ele se

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inclinou para a frente justamente quando Trelawney atirou. A 156

bala assobiou por cima dele e atingiu um dos outros quatro piratas, que caiu. O grito que ele deu foi respondido não só pelos companheiros a bordo, mas também pelos em terra. Pude ver os outros piratas aparecerem na praia, correndo de dentro da mata e tomando seus lugares nos barcos. — Lá vêm os escaleres, senhor — eu disse. — Vamos dar tudo então — gritou o capitão. — Não importa mais se inundarmos o barco agora. Se não chegarmos a terra firme, estamos perdidos. — Apenas um dos escaleres está sendo tripulado — acrescentei. — A tripulação do outro deve estar dando a volta por terra para cortar caminho. — Então vão ter uma corrida bem dura — devolveu o capitão. — Não é com eles que me preocupo, mas com a bala do canhão. Barão, nos avise quando acenderem a mecha, e vamos aguentar firme. Avançávamos a uma boa velocidade em um barco sobrecarregado, com pouca água entrando nele. Estávamos bem perto de encalhar na praia, pois a maré baixa já tinha exposto uma estreita faixa de areia abaixo das árvores. O escaler não nos preocupava mais, pois a ponta da praia já os escondia da nossa vista. A maré vazante que tinha nos atrasado estava agora retardando os assaltantes. A única fonte de perigo era o canhão.

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— Lá vem! — berrou o barão. — Segurem-se! — ordenou o capitão.

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Ele e Redruth se abaixaram para trás com um forte impulso que acabou afundando a popa dentro da água. Ouviu-se um estrondo no mesmo instante. Ou pelo menos foi isso que Jim ouviu. Nenhum de nós sabe onde a bala passou, mas imagino que tenha sido logo acima das nossas cabeças e que o vento do seu deslocamento possa ter contribuído com o desastre. De todo modo, o bote afundou pela popa, bem devagar, em 3 pés de água, deixando a mim e ao capitão de pé, um de frente para o outro. Os outros três caíram de cabeça e se levantaram totalmente encharcados. Até então não tínhamos sofrido nenhum mal maior. Nenhuma vida havia se perdido, e pudemos alcançar terra firme em segurança. Mas todos os nossos mantimentos estavam no fundo, e o pior, das cinco armas, só restavam a minha e a do capitão. Eu tinha pegado a minha de cima dos meus joelhos e a segurado no alto por puro instinto. Quanto ao capitão, estava carregando a dele pendurada no ombro como se fosse uma cartucheira5 e, sendo um homem

Cartucheira: bolsa de couro ou lona, usada presa à cintura ou a tiracolo.

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sábio, com a fivela bem apertada. Os outros três mosquetes fo158

ram ao fundo com o barco. Para aumentar nossa preocupação, ouvimos vozes bem próximas na mata ao longo da costa. Havia o perigo de cortarem o nosso caminho até a fortificação, ou mesmo o de renderem Hunter e Joyce. Por isso, avançamos até terra firme o mais rápido que podíamos, deixando para trás nosso pobre barco e boa parte da nossa pólvora e provisões.


CAPÍTULO 18

O doutor continua a narrativa: termina o primeiro dia de luta

Atravessamos correndo a faixa de mata que nos separava da paliçada com as vozes dos piratas cada vez mais próximas. Logo já podíamos ouvir suas passadas e os galhos quebrando quando passavam por dentro de uma moita mais fechada. Percebi que teríamos uma escaramuça e conferi a carga do meu mosquete. — Capitão, Trelawney é nosso melhor atirador — eu disse. — Entregue a ele a sua arma, a dele não serve mais para nada. Trocaram de armas, e Trelawney, cheio de calma e frieza, parou um instante para verificar seu funcionamento. Nessa hora, vendo que Gray estava desarmado, passei a ele meu sabre. Ficamos mais animados ao vê-lo cuspindo na palma da mão, franzindo as sobrancelhas e fazendo a lâmina cortar o ar. Estava claro que nossa aquisição valia o sal que pesava. Chegamos à paliçada próximo ao meio do seu lado mais ao sul, e, quase ao mesmo tempo, sete amotinados, liderados por Job Anderson, o contramestre, apareceram gritando pelo canto a sudoeste.

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Pararam, tomados por surpresa, e não apenas o barão e eu, 160

mas também Hunter e Joyce na casa fortificada, tivemos tempo para atirar. Os quatro tiros saíram descoordenados, mas fizeram o serviço. Um dos inimigos caiu, os outros se viraram e afundaram na vegetação. Depois de recarregar as balas, andamos pelo lado de fora da paliçada para ver o inimigo caído. Estava morto como pedra, atingido bem no coração. De repente, o som do disparo de uma pistola veio da moita. Uma bala assobiou perto da minha orelha, e o pobre Tom Redruth cambaleou e caiu de cara no chão. O barão e eu devolvemos o tiro, mas não havia onde mirar, e é provável que tenhamos apenas desperdiçado pólvora. Recarregamos as armas e demos atenção ao coitado do Tom. Os piratas tinham se dispersado com os últimos tiros. Penamos para transportar o velho guarda-caça por cima da paliçada e depois carregá-lo, gemendo e sangrando, até dentro da casa de troncos. Dava para ver que era seu fim. Coitado dele, seguira cada ordem em silêncio e sempre fora fiel e eficiente. Tinha pelo menos uns bons 20 anos a mais que todos os outros do grupo e agora estava ali, deitado para morrer. O barão se deixou cair de joelhos ao lado dele e beijou sua mão, chorando como uma criança. — Estou partindo, doutor? — perguntou Redruth.


— Tom, meu bom homem — respondi —, você está indo para casa. — Gostaria de ter acertado antes um tiro neles — replicou. — Tom — pediu o barão —, diga que me perdoa! — Mas será respeitoso, digo, um criado perdoar o senhor? — foi a resposta. — Se é assim que deve ser, que assim seja, amém! Após um curto silêncio, pediu que alguém rezasse uma prece. Enquanto isso, o capitão, que estava todo inchado no peito e nos bolsos, começou a mostrar o que tinha conseguido trazer escondido sob sua jaqueta: a bandeira britânica, a Bíblia, um rolo de uma corda bem resistente, caneta, tinta, o diário de bordo e algumas libras de fumo. Encontrou dentro da cerca um tronco para servir de mastro e, com a ajuda de Hunter, o colocou no canto da casa fortificada. Depois, subindo ao telhado, amarrou a bandeira com as cores do Reino Unido. Isso pareceu lhe dar um novo ânimo. Voltou para dentro da casa e se pôs a contar os suprimentos, como se nada mais existisse. Mas mantinha um olho em Tom. Assim que tudo terminou, trouxe outra bandeira, que usou para cobrir o corpo com reverência. — Não se sinta culpado, senhor — disse, apertando a mão do barão. — Ele está bem, não há o que temer para um marinheiro que foi abatido cumprindo seu dever.

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E então me puxou de lado. 162

— Doutor Livesey — disse —, em quantas semanas você e o barão esperam que venham resgatá-los? Contei que não era uma questão de semanas, mas de meses. — Bem — devolveu o capitão, coçando a cabeça —, sendo bastante otimista, eu diria que estamos num curso bem apertado. Quanto à pólvora e à munição, podemos conseguir. Mas, doutor Livesey, as rações de comida estão muito apertadas, muito mesmo. Bem nessa hora, com um estrondo e um assobio, uma bala de canhão passou por cima do teto da casa de troncos e foi cair bem além de onde estávamos, na floresta. — Podem atirar à vontade! — gritou o capitão. Na segunda tentativa, a mira foi um pouco melhor, e a bola de ferro caiu dentro da paliçada, levantando uma nuvem de areia, sem causar danos. — Capitão — disse o barão —, devem estar mirando na bandeira. Não seria mais sábio a recolher? — Abaixar minha bandeira seria me render! — gritou o capitão. — Isso nunca! Respeitamos suas palavras. Mais do que um sentimento marinheiro bom e corajoso, era boa política também, pois mostrava aos inimigos que não temíamos seu bombardeio. O ataque continuou por toda a tarde, sem nos ameaçar de verdade.


O capitão pediu voluntários para tentar recuperar as provisões, aproveitando a maré baixa, mas a missão se revelou inútil.

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Os amotinados eram bem mais ousados do que imaginávamos e quatro ou cinco deles já levavam nossos suprimentos até um dos escaleres que estava próximo. Silver permanecia no comando, na proa desse escaler, e cada um dos seus homens agora estava armado com um mosquete vindo de algum arsenal secreto que ele tinha. O capitão se sentou com seu diário de bordo, e esse é o começo do registro: “Alexander Smollett, mestre; David Livesey, doutor de bordo; Abraham Gray, marinheiro e carpinteiro; John Trelawney, proprietário; John Hunter e Richard Joyce, criados do proprietário, homens de terra; sendo os que restam leais entre toda a tripulação da embarcação, com mantimentos para dez dias se as rações forem mínimas; chegamos à terra firme neste dia e fizemos tremular as cores britânicas na casa de troncos da Ilha do Tesouro. Thomas Redruth, criado do proprietário, homem de terra, foi alvejado pelos amotinados; James Hawkins, grumete...”. Eu me perguntava qual teria sido o destino do pobre Jim Hawkins, quando se ouviu um breve chamado vindo do interior da ilha. — Alguém está nos chamando — disse Hunter, que estava de guarda.

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— Doutor! Barão! Capitão! Alô, Hunter, é você? — vieram 164

os gritos. E corri para a porta a tempo de ver Jim Hawkins, são e salvo, escalando por cima da paliçada.


CAPÍTULO 19

Jim Hawkins retoma a narrativa: a guarnição na paliçada

Assim que Ben Gunn viu as cores da bandeira, ele estacou, me parou pelo braço e se sentou. — Devem ser seus amigos, com certeza — disse. — Mais provável que sejam os amotinados — respondi. — Aquela bandeira! — gritou. — Se fosse Silver, com certeza seria a Jolly Roger, a bandeira dos piratas. Não, aqueles são seus amigos. Eles estão em terra firme, dentro da velha paliçada, que foi feita há muitos anos por Flint. — Vamos! — disse. — Preciso reencontrar meus amigos. — Nada disso — devolveu Ben. — Você pode ir, mas Ben Gunn vai voar agora. Nem o rum me leva lá para dentro, onde está indo, não, nem o rum me leva, não antes de você ver esses cavalheiros bem-nascidos e ganhar sua palavra de honra. E você não se esquecerá das minhas palavras: “É um bom negócio (é isso o que você vai dizer), é um bom negócio ser confiável”. Quando quiserem Ben Gunn, você sabe onde encontrá-lo. Basta ir na direção de onde me encontrou hoje. E aquele que vier deve trazer alguma coisa branca na mão e deve vir sozinho.

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— Muito bem — disse. — Posso ir agora? 166

— Não vai se esquecer? — questionou, ansioso. — Bom negócio ser confiável. Bem, então — ainda me segurando — avalio que possa ir agora. E, Jim, se você visse Silver, não venderia Ben Gunn, venderia? E, se os piratas acamparem em terra firme, você poderia negar que haverá viúvas ao amanhecer?... Nesse ponto foi interrompido por um estrondo, e uma bala de canhão veio rasgando a folhagem até se enterrar na areia, a menos de 100 jardas de onde estávamos. Demos meia-volta cada um e seguimos em direções contrárias. Durante mais ou menos 1 hora, estrondos frequentes sacudiram a ilha, e bolas de ferro continuaram acertando as árvores na mata. Elas pareciam me perseguir enquanto ia me escondendo. O bombardeio começou a perder intensidade, mas não ousei ir direto em direção à paliçada, onde as balas de canhão caíam com mais frequência. Depois de um longo desvio para o leste, rastejei entre as árvores da linha da maré. O sol tinha acabado de se pôr, a brisa do mar fazia a mata farfalhar e encrespava a superfície do ancoradouro. A maré estava bem baixa, e grandes extensões de areia apareciam. O ar, depois de todo o calor do dia, me refrescava através da minha jaqueta. A Hispaniola continuava onde tinha sido ancorada, mas agora, com certeza, era a Jolly Roger, a bandeira negra da pirataria, que tremulava no alto do mastro principal. Bem nessa hora


veio um novo clarão vermelho e outro estrondo e outra bala redonda assobiou pelo ar. Era o último tiro. Fiquei um tempo deitado, observando a movimentação. Homens estavam usando machados para destruir algo na praia, perto da paliçada. Descobri depois que era o pobre dingue. Ao longe, perto da boca do rio, uma grande fogueira brilhava entre as árvores. Entre aquele ponto e o navio, um escaler ia e voltava sem parar, com os homens, antes tão tristes, gritando como crianças enquanto remavam. Havia um tom em suas vozes que sugeria rum. Pensei que poderia me dirigir à paliçada. Eu estava bem próximo da ponta do banco baixo de areia que protege o ancoradouro ao leste e praticamente se juntava à Ilha do Esqueleto na maré baixa. Quando me pus de pé, pude ver a certa distância, um pouco mais abaixo no banco de areia, apontando por entre as moitas baixas, uma pedra isolada, bem alta e com uma cor branca peculiar. Só podia ser a pedra branca da qual Ben Gunn tinha falado. Se algum dia precisasse de outro barco, já saberia onde procurar. Então fui contornando por dentro da mata até alcançar o lado de trás da paliçada para logo depois ser recebido com carinho pela tropa leal. Contei logo minha história e em seguida olhei em volta. A casa era toda feita de troncos roliços de pinheiro: teto, paredes e piso. Havia um alpendre na porta, e embaixo dele um

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olho-d’água brotava em uma bacia artificial bem singular, sim168

plesmente uma grande panela de ferro enterrada na areia “até a amurada”, como disse o capitão. Em um dos cantos, uma laje de pedra tinha sido semienterrada na areia e sobre ela uma velha cesta de ferro enferrujado servia para fazer o fogo. Todas as árvores, tanto no interior da paliçada quanto na encosta da colina, haviam sido derrubadas para construir a casa, e podíamos ver pelos tocos que ficaram que um bosque imponente tinha sido destruído. Bem perto da paliçada, perto demais para uma boa defesa, disseram, a mata verdejava alta e densa. A brisa fria do entardecer assobiava através de cada greta da construção, salpicando o piso com uma chuva constante de areia fina. Nossa chaminé era um buraco quadrado no teto e apenas uma pequena parte da fumaça encontrava o caminho para fora, ficando todo o resto rodopiando dentro da casa, fazendo todos nós tossir e lacrimejar. Além disso, Gray tinha uma bandagem na cara devido ao corte que sofrera quando escapava dos amotinados, e o pobre e velho Tom Redruth ainda estava insepulto, esticado junto da parede, firme e rígido, sob a bandeira do Reino Unido. Se nos deixassem ficar sentados sem fazer nada, teríamos caído em depressão, mas o capitão Smollett não era homem para deixar que isso acontecesse. Chamou todos e nos dividiu em turnos. Eu fiquei em um deles, com o doutor e Gray,


enquanto o barão, Hunter e Joyce ficaram no outro. Dois homens foram enviados para ca-

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tar lenha seca enquanto outros dois ficaram encarregados de cavar uma sepultura para Redruth. O doutor foi nomeado cozinheiro e eu fiquei de sentinela6. O capitão ficou o tempo todo indo falar com cada um, ajudando onde fosse preciso. Quando o doutor vinha até a porta para tomar um pouco de ar e descansar os olhos, afetados com tanta fumaça, sempre tinha uma palavra para mim. Certa vez, veio e ficou em silêncio por um tempo. Depois, perguntou: — Esse Ben Gunn é um bom homem? — Não sei, senhor. Não tenho muita certeza de que seja são. — Se você ainda duvida, então não é — devolveu o doutor. — Jim, não se pode esperar que um homem que esteve três anos numa ilha deserta pareça são. É da natureza humana. Você disse que ele deseja comer queijo? — Sim, senhor. Queijo — respondi. — Bem, Jim — ele disse —, você já viu minha caixa de rapé, não viu? Mas nunca me viu cheirando rapé. A razão disso é que na minha

Sentinela: soldado que guarda um posto; vigia.

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caixa de rapé trago um pedaço de queijo parmesão. Será um 170

presente para Ben Gunn. Sepultamos Redruth na areia e ficamos em torno dele por um tempo, com as cabeças descobertas e em silêncio. Trouxemos um monte de lenha seca para dentro da casa, mas o capitão achou pouco e pediu mais entusiasmo no dia seguinte. Comemos uma ração de carne de porco e cada um tomou uma boa caneca de grogue de conhaque. Depois, os três chefes se juntaram em um canto para discutir nossa situação. Não havia muito o que fazer. Os suprimentos eram tão poucos que teríamos que nos render diante da fome muito antes de o socorro chegar. Nossa única esperança, ficou claro, era ir matando os piratas até obrigá-los a se render ou fugir. Os 19 iniciais já tinham sido reduzidos a pelo menos 15, sendo que um, o que foi atingido junto ao canhão, estava ferido com gravidade. Além disso, tínhamos dois aliados valiosos: o rum e o clima. Já podíamos ouvi-los, bêbados, gritando e cantando. E o doutor apostava que, acampados onde estavam, no pântano, e sem remédios, metade deles estaria derrubada em menos de uma semana. — Então — acrescentou — talvez prefiram levar a escuna. É sempre uma embarcação, e podem voltar a praticar a pirataria, suponho. — É o primeiro navio que perco — disse o capitão Smollett.


Eu estava morto de cansaço e logo peguei no sono. Acabei dormindo como uma pedra. Os demais já tinham acordado, feito o desjejum e aumentado bastante a pilha de lenha quando fui acordado por um alvoroço e o som de vozes. — Bandeira branca! — ouvi alguém dizer, e imediatamente depois um grito de surpresa. — É o próprio Silver! Pulei de pé e, esfregando os olhos, corri para um dos buracos na parede.

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CAPÍTULO 20

A embaixada de Silver

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Realmente, havia dois homens do lado de fora da paliçada. Um deles acenava com um pano branco, e Silver estava imóvel ao seu lado. Era bem cedo, e a manhã mais fria que jamais enfrentei, com um vento gelado que doía nos ossos. Uma camada baixa de vapor branco que saíra do pântano durante a noite cobria o chão por onde andavam Silver e seu assistente. — Fiquem dentro da casa — disse o capitão. — Aposto que se trata de um truque. E gritou: — Quem vem lá? Parem, senão atiramos. — Bandeira branca — gritou Silver. O capitão estava no alpendre, cautelosamente abrigado. Virou-se e falou conosco: — Doutor Livesey, tome conta do lado norte. Jim, fique com o leste. Gray, a oeste. Todos do outro turno devem estar prontos para recarregar os mosquetes. Atenção, homens, e cuidado.


E virando-se para os amotinados: — E o que querem? — gritou. Dessa vez foi o outro homem que respondeu. — Capitão Silver, senhor, pede permissão para entrar — berrou. — Capitão Silver! Não o conheço — gritou o capitão. — Sou eu, senhor — respondeu Long John. — Esses pobres rapazes me escolheram para ser o capitão, depois da sua deserção, senhor. Enfatizou bastante a palavra “deserção”. — Queremos chegar a um acordo — continuou. — Tudo o que peço é sua palavra de que poderei sair são e salvo dessa paliçada. — Não tenho nenhuma vontade de falar com você — disse o capitão Smollett. — Mas pode vir tranquilo. Os traidores estão todos ao seu lado. — Isso basta, capitão — berrou Long John, animado. — Confio em sua palavra. Silver avançou até a paliçada, jogou sua muleta por cima e, com grande vigor e habilidade, conseguiu superar a cerca e caiu em segurança do lado de dentro. Devo confessar que estava entretido demais com o que estava acontecendo para ter qualquer serventia como sentinela. Já tinha me esgueirado para trás do capitão, que se sentara na soleira da porta.

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Silver teve muito trabalho para subir a colina, devido à in174

clinação do terreno e à areia fofa. Finalmente prestou continência diante do capitão. Estava vestido com suas melhores roupas, um imenso casaco azul com botões de bronze, chegando até seus joelhos, e um belo chapéu pendurado atrás da cabeça. — Aqui está você, homem — disse o capitão, levantando a cabeça. — É melhor se sentar. Se tem algo a falar, é melhor que diga logo. — Tem toda a razão, capitão Smollett — replicou Silver, sentando-se na areia. — Primeiro o dever, com certeza. Bem, vocês fizeram um bom trabalho ontem à noite. Algum de vocês bate com força. E não posso negar que muitos dos meus homens ficaram abalados. Mas pode anotar, capitão, isso não acontecerá duas vezes, com mil trovões! Vamos organizar nossos turnos de vigilância e maneirar um pouco no rum. Eu estava muito cansado, mas sóbrio. Se tivesse despertado um pouco antes, teria flagrado vocês no ato. Ele ainda não tinha morrido quando me aproximei. — E daí? — disse o capitão Smollett. Tudo o que Silver tinha dito parecia uma charada para o capitão. Do meu ponto de vista, fiquei com uma suspeita. As últimas palavras de Ben Gunn vieram à minha mente. Pensei que talvez ele tivesse feito uma visita aos piratas durante a madrugada, enquanto todos estavam caídos bêbados em torno do fogo, e calculei com satisfação que só restavam 14 inimigos.


— Bem, é o seguinte — disse Silver. — Nós queremos aquele tesouro e nós o teremos, isso é o que nos interessa! Vocês gostariam de salvar suas vidas, calculo, e é isso que lhes interessa. Vocês têm um mapa, não é verdade? — Pode ser que sim — respondeu o capitão. — Ora, veja, vocês têm, sei muito bem — devolveu Long John. — O que quero dizer é que nós queremos seu mapa. Saiba que nunca quis lhes fazer mal. — Isso não vai funcionar comigo, homem — interrompeu o capitão. — Nós sabemos exatamente o que você queria fazer e estamos pouco ligando. No momento, você sabe que não pode fazê-lo. E o capitão o encarou muito calmo, começando a encher o cachimbo. — Muito bem — disse. — Quem sou eu para dizer o que os cavalheiros devem julgar certo ou errado. Já que vai fumar um cachimbo, capitão, vou tomar a liberdade de fazer o mesmo. Encheu um cachimbo e o acendeu. E os dois homens se sentaram em silêncio, fumando por algum tempo. Ora olhando um para a cara do outro, ora socando o fumo no cachimbo. Foi divertido assistir a eles contracenando daquele jeito. — Então ficamos assim — recomeçou Silver. — Vocês nos dão o mapa do tesouro, param de ficar atirando em pobres marujos e arrebentando suas cabeças enquanto dormem. Assim, podem escolher: ou voltam a bordo conosco, depois que o

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tesouro tiver sido embarcado, e juro, pela minha honra, que vou 176

deixá-los em algum ponto seguro da costa. Ou, se isso não for do seu agrado, pois existem desavenças mal resolvidas, se preferirem ficar aqui, podem ficar. Dividimos mantimentos com vocês. E da mesma forma faço meu juramento de que avisarei o primeiro navio que avistar para que venham resgatar vocês. Agora você é quem sabe. O capitão Smollett se levantou e esvaziou o cachimbo na palma da mão esquerda. — Isso é tudo? — perguntou. — É tudo! — respondeu John. — Recuse essa oferta e só voltará a ver as balas dos nossos mosquetes. — Muito bem — disse o capitão. — Agora você vai me ouvir. Se vierem um de cada vez, desarmados, me comprometo a levá-los acorrentados de volta para casa, de forma que tenham um julgamento justo na Inglaterra. Se não vierem, meu nome é Alexander Smollett, já desfraldei a bandeira da minha pátria e mandarei todos vocês para o inferno. Não vão conseguir encontrar o tesouro, nem conseguem pilotar a embarcação. Não vão conseguir nos enfrentar. Gray sozinho escapou de cinco dos seus homens. Silver, seu navio está ancorado num abrigo a leste, e não vai passar disso. É o que tenho a lhe dizer. Por tudo o que é sagrado, atirarei em você na próxima vez que o encontrar. Ande, homem. Dê o fora daqui, nem que tenha que se arrastar, e faça isso rápido.


O rosto de Silver se desfigurou, seus olhos queimando de ódio. Despejou no chão as brasas do cachimbo. — Preciso de ajuda para me levantar! — gritou. — Não conte comigo — devolveu o capitão. — Quem vai me ajudar? — rugiu. Nenhum de nós se moveu. Rosnando os piores xingamentos, ele rastejou pela areia até conseguir apoio no alpendre para içar a si mesmo para cima da muleta. Cuspiu na fonte. — Com mil trovões, podem rir agora! — gritou. — Em menos de 1 hora, vou arrebentar sua velha fortificação como se fosse um barril de rum. Então, os que já estiverem mortos serão os sortudos. E, com as pragas mais tenebrosas, saiu tropeçando colina abaixo, arando a areia com sua muleta. Atravessou a paliçada com a ajuda do homem com a bandeira branca e desapareceu entre as árvores.

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CAPÍTULO 21

O ataque

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O capitão virou-se para dentro da casa e só encontrou Gray em seu posto. Foi a primeira vez que o vimos zangado de verdade. — Aos seus postos! — rugiu. E, quando voltamos aos nossos lugares, elogiou Gray por se portar como um verdadeiro marinheiro. O grupo do turno do doutor se posicionou junto às aberturas nas paredes, o restante estava ocupado carregando os outros mosquetes, todos envergonhados e calados. Em silêncio, o capitão olhou em volta por um tempo. Depois falou: — Acabei de chamar Silver para a briga — disse. — Foi de propósito que o deixei furioso, e, em menos de 1 hora, como nos disse, devemos ser atacados. Estamos em inferioridade numérica, mas lutamos protegidos, e, até um minuto atrás, acreditava que lutaríamos com disciplina. Estou certo de que podemos lhes dar uma surra. Então fez uma ronda e verificou, como disse, que estava tudo tranquilo.


Nas duas laterais da casa, a leste e a oeste, havia apenas duas aberturas. No lado sul, onde ficava o alpendre, outras duas. E, no lado norte, eram cinco delas. Tínhamos 20 mosquetes para os sete usarem. A lenha tinha sido arrumada em quatro pilhas, parecendo mesas, cada uma próxima a uma das paredes, e, em cada uma dessas mesas, um pouco de munição e quatro mosquetes carregados foram deixados prontos para serem usados. No meio, ficaram os sabres desembainhados. — Apague o fogo — disse o capitão. — O frio já passou e não precisamos de fumaça nos olhos. O senhor Trelawney carregou o cesto de ferro para fora e as brasas foram abafadas com areia. O capitão lembrou que eu não tinha comido nada e ordenou-me que me servisse de algo e voltasse para comer no meu posto. Depois mandou Hunter servir uma rodada de conhaque para todos os marinheiros. Enquanto tudo isso se desenrolava, o capitão completava o plano de defesa dentro da sua cabeça. — Doutor, você fica com a porta — recomeçou. — Observe, mas não se exponha. Atire sempre protegido. Hunter, fique com o lado leste, ali. Joyce, você fica a oeste, meu bom homem. Senhor Trelawney, o senhor é quem atira melhor, tomará conta, com Gray, do lado norte, com suas cinco aberturas. É onde mora o perigo. Se puderem chegar até ali e atirarem em nós pelas nossas próprias vigias, as coisas podem começar a ficar feias. Hawkins, nem eu nem você somos grande coisa atirando.

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Vamos ficar os dois na função de recarregar as armas e ajudar 180

onde for preciso. Já não estava frio e o sol aparecia por cima do nosso cinturão de árvores, castigando com toda a força a clareira e secando toda a umidade. Jaquetas e casacos foram postos de lado, as golas das camisas foram abertas e as mangas arregaçadas. Uma hora se passou. — Aguentem firme! — disse o capitão. — Isso é tão tedioso como uma calmaria. Gray, assobie para chamar o vento. E neste exato momento vieram os primeiros sinais do ataque. — Se me permite, senhor — disse Joyce —, se avistar algum deles, devo atirar? — Foi o que eu disse para fazer! — gritou o capitão. — Obrigado, senhor — devolveu Joyce, com calma e cortesia. Nada aconteceu por algum tempo, mas o comentário nos deixou todos alertas, de olhos e ouvidos bem atentos. Alguns segundos se passaram, até que de repente Joyce atirou. Foi respondido por uma saraivada vinda de fora, um tiro após o outro, de cada lado da fortaleza. Várias balas acertaram a casa de troncos, mas nenhuma chegou ao seu interior. Quando a fumaça dos tiros se dissipou, tanto a paliçada quanto a mata em volta pareciam tão calmas e vazias quanto antes. Nem um galho se movia, nem o


brilho de algum cano de mosquete denunciava a presença dos inimigos. — Você acertou o alvo? — perguntou o capitão. — Não, senhor — respondeu Joyce. — Creio que não, senhor. — Tudo bem — murmurou o capitão Smollett. — Carregue sua arma, Hawkins. Diria que havia quantos no seu lado, doutor? — Três tiros foram disparados desse lado — disse o doutor Livesey. — Vi três clarões, dois bem próximos um do outro, e o terceiro mais deslocado para o oeste. — E quantos do seu lado, senhor Trelawney? Mas isso não foi respondido com tanta facilidade. Muitos tiros tinham vindo do lado norte, sete segundo os cálculos do barão, oito ou nove, de acordo com Gray. Pelo leste e pelo oeste, apenas um tiro de cada lado. Estava claro, portanto, que o ataque se desenrolaria pelo norte, e que estávamos apenas sendo perturbados nos outros três lados numa demonstração de hostilidade. De qualquer forma, não tivemos muito tempo para pensar a respeito. De repente, com um grito de guerra a toda voz, uma pequena nuvem de piratas pulou para fora da mata do lado norte e correu em direção à paliçada. Ao mesmo tempo, abriram fogo de novo de dentro da mata, e uma bala de rifle voou pela porta e deixou o mosquete do doutor em pedaços. Os piratas subiram pela cerca como se fossem macacos. O barão e Gray atiraram e uma vez mais em seguida. Três homens

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caíram, um do lado de dentro da paliçada, dois para o lado de 182

fora. Mas, desses dois, um estava evidentemente mais apavorado que ferido, pois se colocou de pé num pulo e logo desapareceu entre as árvores. Quatro deles conseguiram invadir o interior da paliçada. Enquanto isso, protegidos pelas árvores, sete ou oito homens, cada um claramente de posse de vários mosquetes, mantiveram fogo pesado, porém inútil, sobre a fortificação. Os quatro que tinham conseguido nos abordar vieram direto para a construção, gritando enquanto corriam. Vários tiros foram disparados, mas nenhum teve efeito prático. Rapidamente, os quatro piratas subiram pela colina e estavam sobre nós. A cabeça de Job Anderson, o contramestre, apareceu na abertura do meio. — Todos ao ataque! Todos! — rugiu, numa voz de trovão. Neste exato momento, outro pirata segurou no cano do mosquete de Hunter, arrancou a arma da sua mão e, através da abertura da parede, deu-lhe um golpe em cheio, deixando o pobre sujeito inerte no chão. Um terceiro correu em volta da casa e apareceu de repente na porta, partindo com o sabre para cima do doutor. Nossa posição tinha se invertido por completo. Antes, estávamos atirando, protegidos, contra um inimigo exposto. Agora, nós que nos víamos desprotegidos, sem poder devolver os golpes.


A casa estava tomada pela fumaça dos mosquetes, o que acabou nos ajudando. Houve gritos e confusão, clarões e estampidos de tiros de pistola, até que ouvi um gemido alto. — Para fora, rapazes! Vamos sair e lutar contra eles em campo aberto! Aos sabres! — gritou o capitão. Catei um sabre na pilha e disparei pela porta. Lá fora, o doutor perseguia seu atacante, que o derrubou. — Em volta da casa, rapazes! Contornem a casa! — gritou o capitão, e mesmo em meio a todo o corre-corre pude perceber uma mudança no tom da sua voz. Obedeci sem pensar. Virei em direção ao leste e, com o sabre em punho, corri e dobrei a esquina da casa. Em seguida me vi frente a frente com Anderson, que gritou bem alto e levantou a espada acima da cabeça. Eu não tinha tempo para ficar com medo. Pulei num instante para o lado e, tropeçando na areia fofa, acabei rolando uma cambalhota colina abaixo. Quando tinha arremetido porta afora, os outros amotinados já estavam superando a paliçada para acabar de vez conosco. Um homem, vestindo um gorro vermelho, tinha chegado a passar uma perna por cima da cerca. Tudo aconteceu tão rápido que, quando recuperei o equilíbrio, o sujeito com o gorro vermelho ainda estava no meio do caminho e outro ainda tinha apenas a cabeça aparecendo por cima da paliçada. Nesse curto intervalo, a batalha tinha terminado, e a vitória era nossa.

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Gray havia atingido o contramestre com um golpe mor184

tal. Outro pirata levou um tiro através da abertura na parede, bem quando tentava atirar para dentro da casa. Já tinha visto um terceiro ser posto fora de combate pelo doutor. Dos quatro que tinham formado a primeira onda de invasores, apenas um continuava ileso, e este, largando o sabre no chão, escalava a cerca para fugir. Acabou desaparecendo com os demais na mata. Em três segundos, o único sinal do grupo atacante eram os cinco abatidos: quatro no lado de dentro e um no lado externo da paliçada. Eu corri a toda com o doutor e Gray em busca de abrigo, temendo que a qualquer momento o fogo recomeçasse. Só então descobrimos o preço pago pela vitória. Hunter estava caído ao lado da abertura, atordoado. Joyce, ao seu lado, tinha sido atingido na cabeça e nunca mais se moveria. Bem no meio da casa, o barão estava dando apoio para o capitão, cada um mais pálido que o outro. — O capitão está ferido — disse o senhor Trelawney. — Eles fugiram? — perguntou o senhor Smollett. — Todos os que puderam correr, com certeza — devolveu o doutor. — Mas cinco deles não correrão nunca mais. — Cinco! — berrou o capitão. — Vamos lá, assim é bem melhor! Cinco perdas contra três nos deixa com quatro para enfrentar nove. São números melhores que tínhamos no começo.


A verdade é que os amotinados logo seriam apenas oito, pois aquele que foi atingido pelo senhor Trelawney a bordo da escuna morreu naquela mesma noite do ferimento. Mas ainda não sabíamos disso.

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PARTE 5 MINHA

AVENTURA

MARÍTIMA


CAPÍTULO 22

Como começou minha aventura marítima

Os amotinados não voltaram e não houve mais nenhum tiro vindo da mata. Tinham recebido “sua dose diária de ração”, como foi dito pelo capitão, e ficamos à vontade para cuidar dos feridos e ter uma refeição. Sem nos importar com o perigo, o barão e eu cozinhamos do lado de fora, mas mesmo assim era difícil se concentrar enquanto ouvíamos os gritos e gemidos dos pacientes do doutor. Dos oito feridos, apenas três ainda respiravam: aquele pirata que foi atingido através da abertura na parede, Hunter e o capitão Smollett. Desses três, dois estavam à beira da morte. De fato, o pirata não resistiu à cirurgia de emergência tentada pelo doutor, e Hunter, por mais que tentássemos reanimá-lo, nunca recobrou a consciência. Resistiu durante o dia inteiro, respirando com dificuldade. Mas os ossos do seu peito tinham sido esmagados pela pancada e seu crânio foi fraturado na queda, e, em algum momento da noite seguinte, se foi sem sinal nem aviso. Os ferimentos do capitão não eram perigosos. Uma bala tinha quebrado sua escápula e ferido um pulmão de raspão.

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Outro tiro tinha apenas ferido sua batata da perna. Teria de ficar 188

de repouso pelas próximas semanas. Depois da refeição, o barão e o doutor sentaram-se ao lado do capitão e confabularam por um tempo. Quando terminaram, o doutor pegou o chapéu e duas pistolas, embainhou o sabre e, com o mosquete pendurado no ombro, cruzou a paliçada pelo lado norte e partiu por entre as árvores. Eu estava sentado ao lado de Gray do outro lado da fortificação. Ele ficou surpreso com aquele acontecimento. — Ora! — disse. — Será que o doutor Livesey ficou louco? — De forma alguma — respondi. — Ele seria o último da nossa tripulação a enlouquecer, tenho certeza. Se não me engano, o doutor deve estar indo ver Ben Gunn. E eu não estava enganado, como se revelou mais tarde. A casa parecia um forno de tão quente e uma ideia se apossou da minha mente. Comecei a sentir um pouco de inveja do doutor, andando na sombra fresca das árvores, com os pássaros em volta, e o agradável cheiro dos pinheiros, enquanto eu ficava ali, assando. Além do calor, o sangue espalhado e o cheiro dos mortos e dos feridos foram me enchendo de nojo, e a inveja foi ficando cada vez mais intensa enquanto lavava a casa e os instrumentos usados na refeição. Resolvi agir. Quando notei que ninguém me observava perto de um saco de pães, enchi os bolsos do casaco com pedaços de pão.


Admito que fui um tolo, mas estava determinado a cometer aquele ato imprudente com todas as precauções possíveis. Aqueles pedaços de pão, caso fosse necessário, não me deixariam passar fome até o dia seguinte. A próxima coisa que peguei foi um par de pistolas, e, como já tinha um chifre cheio de pólvora e munição, me senti bem armado. Meu plano era descer pelo banco de areia que separava a ancoragem do mar aberto a leste e encontrar a pedra branca que tinha avistado, para verificar se o barco de Ben Gunn estava escondido ali. Ainda acredito que valia a pena se arriscar por um barco. Como sabia que não me deixariam sair da fortificação, planejava sair me esgueirando quando ninguém estivesse olhando. Só isso já bastava para mostrar como eu estava errado. Afinal surgiu a oportunidade perfeita. O barão e Gray estavam ajudando o capitão com as ataduras, e aproveitei para dar uma corrida e pular por cima da paliçada. Antes que minha ausência fosse notada, já estava fora do alcance dos gritos dos meus companheiros. Foi minha segunda tolice, muito mais grave que a primeira, pois dessa vez tinha deixado dois homens sozinhos para guarnecer a casa. Mas, da mesma forma que a primeira, acabou sendo uma ajuda para nos salvarmos. Fui direto em direção ao lado leste da ilha, pois estava decidido a percorrer o lado do banco de areia voltado para o mar

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de forma a não ser visto desde o ancoradouro. A tarde avançada 190

ainda estava ensolarada e quente. Continuei pelo meio das árvores e comecei a ouvir ao longe não só o trovejar contínuo da arrebentação, mas também o som da folhagem e dos galhos sendo sacudidos por um vento mais forte que o comum. Logo fui atingido por lufadas de ar frio e alguns passos adiante vi o mar azul e o sol no horizonte, com as ondas quebrando e espalhando espuma por toda a praia. Fui andando na beira do mar até achar que já estava bem ao sul. Então passei a me proteger entre os arbustos e rastejei com cautela até o limite do banco de areia. Atrás de mim estava o mar e, em frente, o ancoradouro. A brisa marinha já amainava. Dava lugar a ventos muito leves e inconstantes vindos de sul-sudeste, trazendo grossos rolos de nevoeiro. O ancoradouro, a leste da Ilha do Esqueleto, se mantinha calmo e imóvel, e a imagem da Hispaniola se refletia completa naquele espelho perfeito, desde a ponta do mastro até a linha-d’água, com a bandeira dos piratas hasteada bem no topo. Um escaler estava ao lado da embarcação maior, com Silver ocupando a proa, enquanto dois homens se debruçavam sobre a amurada da proa. Um deles era o mesmo patife com um gorro vermelho que algumas horas antes tentara pular a paliçada. Eu estava muito longe para ouvir uma só palavra do que diziam, mas parecia uma conversa amena.


Logo depois, o escaler se afastou e seguiu na direção da costa. O homem com o gorro vermelho desceu com seu cama-

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rada para a cabine. Bem nessa hora, o sol acabou de se esconder por trás do Morro da Luneta e, como a neblina estava se formando rapidamente, começou a escurecer de verdade. Percebi que não podia perder tempo se quisesse encontrar o barco naquela tarde. A pedra branca, bem visível por cima da vegetação baixa, ainda estava um pouco distante, banco de areia abaixo. Tive bastante trabalho para percorrer esse trecho, rastejando e engatinhando por entre as moitas. A noite já tinha quase chegado quando alcancei a pedra. Embaixo dela havia uma depressão muito pequena, escondida por pequenos bancos de areia e uma moita densa de vegetação rasteira. O chão ali era todo coberto de relva verde que crescia em abundância, e lá estava, no centro do pequeno declive, uma pequena tenda feita de couro de cabra. Entrei no buraco, levantei um dos lados da tenda e vi o barco de Ben Gunn. Se algum dia algo pareceu ser feito à mão foi esse barco. Uma moldura torta e rudimentar feita de madeira resistente, com couro de cabra esticado sobre ela com a parte do pelo para dentro. Era muito pequeno mesmo para mim, e era difícil acreditar que poderia flutuar levando um homem adulto. Havia uma espécie de banco no fundo do barco e dois remos para propulsão.

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Jamais tinha visto um coracle, um daqueles barcos que os 192

bretões ancestrais construíam, mas vi um desde então e não posso descrever de forma mais justa o barco de Ben Gunn: era disparado o pior coracle já construído pelo homem. Mas pelo menos era muito leve e fácil de transportar. Essa descoberta devia bastar, mas, nesse meio-tempo, já tinha tido outra ideia. Iria deslizar escondido na calada da noite, cortar o cabo que prendia a Hispaniola e deixá-la à deriva para ir de encontro à costa. Estava convicto de que aos amotinados, depois de termos rechaçado sua investida naquela manhã, só restaria levantar âncora e partir para alto-mar. Pensava que seria bom evitar que isso acontecesse e, vendo como deixaram os vigias a bordo sem um barco, pensei que haveria pouco risco. Esperei a escuridão, aproveitando para comer os pedaços de pão. Era uma noite perfeita para meu plano. A neblina tinha coberto tudo e a escuridão total baixou sobre a Ilha do Tesouro. Quando finalmente levantei o coracle sobre meus ombros e comecei a levá-lo para a água, havia apenas duas pequenas luzes visíveis em todo o ancoradouro. Uma era a grande fogueira na costa, em torno da qual os piratas derrotados festejavam no pântano. A outra, um mero borrão de luz na escuridão, indicava a posição da embarcação ancorada. Tinha girado com a maré, sua popa agora estava virada para mim. As únicas luzes a bordo vinham da cabine e o que

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eu via era apenas o reflexo na neblina dos raios de luz que saíam pela janela de popa. A maré já tinha vazado por algum tempo, e tive que andar por um trecho largo de areia encharcada antes de chegar até a beira da água. Avancei mais um pouco a pé por dentro da água e coloquei meu coracle, de casco para baixo, sobre as ondas.

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CAPÍTULO 23

A maré vazante

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O coracle, logo descobri, era muito seguro para uma pessoa do meu peso e tamanho, tanto em flutuação quanto em estabilidade, mas era o barco mais torto e intratável para se pilotar. Enquanto não peguei seu jeito, ele se virava para todas as direções exceto aquela para onde eu queria ir, e não teria conseguido chegar ao navio se não fosse a maré. Para minha sorte, ela estava me arrastando bem na direção da Hispaniola. A escuna estava no meu caminho e era difícil errar o alvo. Primeiro ela surgiu como um borrão de algo mais escuro que a escuridão. Depois a mastreação e o casco começaram a tomar forma, e, logo depois, eu já estava passando pelo seu cabo de amarração e nele me agarrei. A amarra estava esticada como uma corda de arco. A corrente era tão forte que a embarcação tentava puxar a âncora. Em torno do casco, a corrente espumava e fervilhava como se fosse um pequeno riacho na montanha. Um corte com meu canivete e a Hispaniola iria com a corrente.


Por sorte, dei-me conta de que um cabo tensionado daquele jeito, quando cortado, é tão perigoso quanto o coice de um cavalo. Caso tivesse sido tolo, cortando-o, teria sido jogado longe. Isso me fez parar por completo e, se a sorte não tivesse me favorecido de novo, teria de abandonar meu plano. Pois a leve brisa que começou soprando de sul-sudeste depois do cair da noite acabou rondando para sudoeste. Bem quando estava pensando no que fazer, veio uma rajada que pegou a Hispaniola e a empurrou corrente acima. Para minha grande alegria, senti o cabo folgar um pouco a tensão, e a mão com que o segurava afundou por um segundo dentro da água. Isso me fez decidir agir. Peguei o canivete e cortei os cordões que compunham o cabo, um após o outro, até que a embarcação estivesse presa por apenas dois deles. Tive de esperar mais um pouco para poder romper esses últimos quando a tensão do cabo fosse aliviada de novo por outra lufada de vento. Enquanto isso, ouvia o som alto de vozes vindas da cabine, mas estava mais concentrado em cortar o cabo. Agora, enquanto esperava, comecei a prestar atenção. Um deles era o timoneiro, Israel Hands. O outro com certeza era meu amigo de gorro vermelho. Ambos estavam bêbados e continuavam a beber, pois um deles abriu a janela de popa e jogou ao mar algo que parecia ser uma garrafa vazia. Além disso, era claro que estavam furiosos. Pragas voavam como granizo, e a todo momento parecia que tudo ia explodir em agressões

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físicas, mas se acalmavam e voltavam a resmungar baixinho. 196

Isso se repetiu algumas vezes, sem que a tempestade caísse de verdade. Afinal a brisa veio e a escuna se aproximou na escuridão. Senti outra vez o alívio na amarra e, com um só golpe, cortei as últimas fibras. A brisa tinha pouco efeito sobre o coracle e quase imediatamente fui arrastado de encontro à proa da Hispaniola. Ao mesmo tempo a escuna começou a rodar sobre seu eixo, girando lentamente até dar meia-volta com a força da corrente. Logo percebi que não seria capaz de afastar o coracle da escuna. Comecei a me impulsionar em direção à popa e consegui me livrar do perigo. Assim que dei o último empurrão para me afastar do casco da Hispaniola, minhas mãos sentiram um cordão fino que estava pendurado por cima da amurada de popa. Imediatamente me agarrei a ele. Não posso explicar qual o motivo para ter feito isso. Foi só um instinto, mas, uma vez que tive o cordão em minhas mãos e senti que estava preso na outra ponta, a curiosidade tomou conta de mim, e precisei dar uma olhada pela janela da cabine. Agarrado à corda, levantei-me um pouco e consegui ver o teto e um pedaço do interior da cabine. Nessa hora, a escuna e o coracle deslizavam com rapidez pela água. Na verdade, já tínhamos emparelhado com o acampamento. O navio falava, como dizem os marinheiros, bem alto,


lidando com as inúmeras ondinhas e borrifando água salgada com um barulho incessante. Eu não me arriscaria a ficar muito tempo em pé naquele bote traiçoeiro, mas bastou uma espiada rápida para descobrir que Hands e seu companheiro estavam engalfinhados em luta mortal. Caí sentado de volta no banco e larguei a corda. E já não era sem tempo, pois estava quase caindo do coracle. De repente, fui surpreendido por um solavanco do coracle. Ao mesmo tempo, a escuna se desviou subitamente e pareceu mudar de rumo. Enquanto isso, a velocidade aumentou de forma estranha. Por toda a volta havia pequenas ondas fosforescentes, rebentando com um som eriçado. Estava no turbilhão da esteira da Hispaniola, que já se distanciava umas poucas jardas. Foi quando vi a escuna parecer vacilar, balançar os mastros e virar para sul. Olhei por cima do ombro, e meu coração quase saiu pela boca. Bem atrás de mim estava a luz da fogueira no acampamento. A corrente tinha mudado de direção em ângulo reto, arrastando com ela a alta escuna e o pequeno coracle pelo estreito, rumo ao mar aberto. De repente a escuna à minha frente deu outra guinada violenta, se virando, talvez, uns 20 graus, e quase ao mesmo tempo um grito se seguiu a outro a bordo. Pude ouvir passos na escada do tombadilho. Os dois bêbados tinham interrompido sua briga

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e se deram conta do desastre iminente. No final do estreito, cer198

tamente a escuna iria se espatifar contra algum banco de areia castigado por ondas violentas. Deitei no fundo do coracle e comecei a rezar. Devo ter ficado por horas sendo batido de um lado para o outro pelos vagalhões, de vez em quando sendo molhado pelos borrifos, e sempre esperando encontrar a morte no próximo mergulho. Aos poucos o cansaço começou a crescer, uma espécie de dormência ou torpor preencheu minha mente e tomou o espaço do meu terror, até que o sono prevaleceu e dormi no meu coracle balançado pelo mar. Sonhei com minha casa e a velha Almirante Benbow.


CAPÍTULO 24

O cruzeiro do coracle

Não sei quanto tempo dormi, mas já era dia claro quando acordei e vi que estava a sudoeste da Ilha do Tesouro. O sol ainda se escondia atrás do Morro da Luneta, que desse lado da ilha descia quase até o mar. Estava bem próximo do Morro da Mezena. Naquele trecho o mar batia em penhascos de 40 ou 50 pés de altura cercados de grandes pedras caídas no mar. Estava perto e meu primeiro pensamento foi remar de volta para terra. Essa ideia foi logo abandonada. Entre as pedras, a arrebentação espumava e uivava. As ondas reverberavam pesadas, uma após a outra, borrifando água salgada que ia alto e caía com tudo. Logo vi que não tinha a menor chance de sobreviver tentando chegar à terra por ali. Um pouco mais ao norte, o terreno se estendia por um longo trecho, revelando com a maré baixa uma longa faixa de areia amarela. A ponta oposta dessa praia era chamada de Ponta das Florestas no mapa, e merecia o nome. Era coberta por pinheiros verdes que vinham até a beira do mar.

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Veio à minha memória o que Silver tinha dito sobre a cor202

rente que corria para norte ao longo da costa oeste da Ilha do Tesouro. Pela minha posição percebi que já estava sob sua in­ fluência e preferi reservar minha força para tentar desembarcar na Ponta das Florestas, de aparência mais amistosa. O mar se movia com uma ondulação alta, mas suave. O vento soprava firme e gentil vindo do sul, não havia conflito entre ele e a correnteza, e os vagalhões se levantavam e caíam sem quebrar. Caso as condições fossem outras, teria morrido. Acabou sendo uma surpresa como meu barquinho leve era levado com facilidade e segurança para cima e para baixo pelas ondas. Eu ficava a maior parte do tempo deitado no fundo, só espiando por cima da amurada, e via aquele grande pico azul se levantando bem perto de mim. O pequeno coracle sacudia um pouco, dançava como se estivesse em uma corredeira e deslizava por trás da onda, leve como um pássaro. Reuni coragem e me sentei para tentar remar. Mas, mal tinha me movido, o barco já interrompera seu movimento suave e ritmado, passando a descer uma parede de água tão íngreme que me deu vertigem, embicando o nariz e borrifando água salgada de encontro à onda seguinte. Fiquei encharcado e apavorado, e voltei à posição anterior, onde me pareceu que o coracle tinha reencontrado o rumo de novo, me levando suavemente como antes pelos vagalhões.


Estava claro que não podia interferir, e daquele jeito, já que não podia alterar o curso, que chance teria de chegar a terra firme? Comecei a ficar com um medo horrível, mas mantive a cabeça fria. Primeiro, me movendo com todo o cuidado, usei meu gorro para esvaziar o fundo do coracle. Depois, observando por cima da amurada, me concentrei em estudar como o barquinho fazia para deslizar com tanta calma por aqueles rolos. O coracle, quando deixado por conta própria, virando de bordo em bordo, percorria, por assim dizer, o melhor caminho, preferindo as partes mais baixas das ondas, evitando suas colinas mais íngremes e os picos mais altos. Notei que não podia alterar seu equilíbrio, mas que seria possível pôr o remo por cima da borda e, de vez em quando, nos trechos mais serenos, dar uma remada ou duas na direção da costa. Comecei a agir assim que pensei nisso. Fiquei deitado sobre os cotovelos numa postura cansativa, e de vez em quando dava uma ou duas pequenas remadas para alterar o rumo do coracle em direção à terra. Era cansativo e demorado. Mas, mesmo visivelmente ganhando terreno, quando cheguei perto da Ponta das Florestas, ficou claro que não conseguiria desembarcar naquele ponto. Mesmo assim, tinha avançado umas 100 jardas para leste e estava, de fato, bem perto. Podia ver as copas das árvores se agitando com a brisa e tive certeza de que conseguiria chegar ao promontório seguinte.

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O sol já ia bem alto e comecei a ser torturado pela sede. A 204

visão daquelas árvores tão próximas quase me deixou doente de ansiedade. Mas a correnteza logo me carregou para além daquele ponto e, quando o próximo trecho de mar se revelou diante dos meus olhos, tive uma visão que mudou o rumo dos meus pensamentos. Bem à minha frente, nem meia milha distante, avistei a Hispaniola com as velas levantadas. É claro que tinha certeza de que seria capturado, mas estava tão aflito com a sede que nem ligava. Porém, a surpresa logo tomou conta da minha mente, e não pude fazer nada além de olhar e me admirar. A escuna estava com a vela principal e duas bujarronas desfraldadas ao vento. Quando a vi pela primeira vez, as velas estavam enfunadas e ela rumava para noroeste. Presumi que os homens a bordo estivessem contornando a ilha para voltar ao ancoradouro. Logo depois ela começou a buscar cada vez mais o rumo oeste, então pensei que tivessem me visto e partido em perseguição. Finalmente, contudo, ela se deixou levar para a linha do vento e ficou ali, inerte e indefesa, com as velas panejando. — Sujeitos trapalhões — falei sozinho. Enquanto isso, a escuna aos poucos atravessou a linha do vento e acabou mudando de bordo, começando a inflar as velas de novo. Navegou suavemente por cerca de 1 minuto e ficou mais uma vez com o nariz voltado para o vento. Todo o movimento se repetiu outras vezes. A Hispaniola velejava na base de


arranques e impulsos, dando voltas como se ninguém a dirigisse. Deviam estar bêbados ou até mortos. Se conseguisse embar-

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car, talvez pudesse recuperar o navio. A corrente empurrava o coracle e a escuna para o norte. Quanto ao velejo desta última, era tão selvagem e intermitente, e ficava tanto tempo de cara para o vento, que com certeza não avançava nada, se é que não se atrasava na prática. Resolvi me arriscar a sentar e remar para tentar alcançá-la. A lembrança do tonel de água no castelo de proa dobrou minha coragem crescente. Sentei-me e fui imediatamente recebido por outra nuvem de borrifo, mas dessa vez mantive meu propósito e comecei, com o máximo de força e cuidado, a remar. Aos poucos, peguei o jeito e conduzi meu coracle pelas ondas, com raros momentos em que a água entrou por cima da borda e a espuma veio na minha cara. Estava tão perto da escuna que já podia ver o bronze da cana do leme refletindo o sol enquanto batia de um lado para o outro. Não havia alma viva no convés. Por algum tempo ela ficou fazendo a pior coisa possível para mim: ficou parada. Quando ela não se atrasava dando voltas, a força da corrente somada ao efeito do vento sobre seu casco e velame fazia com que se afastasse. Mas de repente, afinal, tive minha chance. A brisa amainou por alguns segundos, e a correnteza gradualmente fez a

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escuna girar, até que ficou com a popa virada para mim, com a 206

janela de popa ainda aberta e o lampião sobre a mesa ainda aceso, mesmo durante o dia. A vela principal se deixou cair como um estandarte. Ela estava imóvel, a não ser pela correnteza. Nos momentos anteriores, eu tinha perdido terreno, mas redobrei meus esforços e me aproximei mais uma vez. Estava a menos de 100 jardas dela quando o vento voltou de repente. A escuna deu uma volta, até ficar de lado para mim, e continuou girando enquanto percorria a metade, e depois dois terços, e então três quartos da distância que nos separava. Podia ver as ondas espumando contra sua linha-d’água. Parecia imensamente alta da minha posição rasteira no coracle. Foi quando me deu um estalo e comecei a compreender. Tinha muito pouco tempo para pensar. Aliás, mal tive tempo para agir e me salvar. Estava no topo de uma onda quando a escuna veio deslizando por cima da seguinte. O gurupés estava sobre minha cabeça, fiquei de pé e saltei, afundando o coracle para dentro da água. Com uma mão me agarrei à retranca da bujarrona, e meu pé se alojou entre o estai e seu suporte. Enquanto me agarrava como podia, um barulho seco me contou que a escuna tinha abalroado o coracle, e eu estava na Hispaniola sem ter como fugir.


CAPÍTULO 25

Abaixo a Jolly Roger

Mal eu tinha me acomodado no gurupés, a bujarrona panejou e se encheu de vento em outro bordo, com um estrondo como se fosse um tiro de canhão. Com a mudança de rumo, o navio tremeu em torno da sua quilha, mas, no momento seguinte, enquanto as outras velas ainda se enfunavam, a bujarrona panejou de volta e ficou pendurada indolente. Isso quase me jogou para dentro da água e, sem perder tempo, me arrastei pelo gurupés até cair de cabeça no convés. Estava a leste do castelo de proa, e a vela principal, que ainda estava enfunada, impedia que eu fosse visto do convés superior. As tábuas do convés, que não tinham sido esfregadas desde o motim, exibiam várias pegadas, e uma garrafa vazia, quebrada no gargalo, rolava para cima e para baixo. De repente a Hispaniola se virou de cara para o vento. As velas atrás de mim estalaram bem alto, o leme bateu de um lado para o outro. Todo o navio pareceu suspirar e se arrepiar. A retranca do mastro principal girou por cima do convés principal, os cabos gemendo nas roldanas, e pude ver a cena.

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Lá estavam os dois vigias. Gorro Vermelho ao fundo, duro 208

como pedra, com os braços abertos como num crucifixo e os dentes aparecendo na boca semiaberta. Israel Hands apoiado na amurada, com o queixo encostado no peito, as mãos caídas para a frente, o rosto pálido. A embarcação continuou sacudindo e deslizando como um cavalo xucro. Com o barulho das velas enfunando e depois panejando, as retrancas batendo e os mastros gemendo, tudo parecia mais tempestuoso dentro daquele navio de mastros altos do que no coracle, que agora estava no fundo do mar. A cada pulo da escuna, Gorro Vermelho deslizava para lá e para cá sem esboçar reação aos maus-tratos. Hands também parecia, a cada pulo, se afundar mais, se esparramando no convés, o corpo se inclinando para a popa, de modo que seu rosto ia aos poucos se escondendo de mim. Observei que em volta dos dois havia respingos de sangue nas tábuas do assoalho e supus que ambos tinham se matado em sua cólera embriagada. Enquanto eu estava olhando e imaginando, num momento de calmaria, Israel Hands se virou um pouco e, com um gemido alto, se contorceu de volta para a posição inicial. O gemido me atingiu direto no coração. Mas me lembrei da conversa que tinha escutado escondido no barril de maçãs, e toda a pena me abandonou. Andei em direção à popa até chegar ao mastro principal.


— Olá, senhor Hands — disse, com ironia. Ele virou os olhos com dificuldade, mas já estava muito mal para expressar surpresa. Só foi capaz de balbuciar uma palavra: — Conhaque. Sem demora, me desviando da retranca enquanto ela varria mais uma vez o convés, deslizei para a popa e desci pela escadaria que levava à cabine. A confusão da cena era inimaginável. Todos os armários e gavetas foram arrombados na busca pelo mapa. O chão estava grosso de lama, e as paredes da cabine, todas pintadas de branco e enfeitadas com detalhes dourados, agora estavam decoradas com marcas de mãos sujas. Dúzias de garrafas vazias batiam umas contra as outras sendo levadas de um canto ao outro pelo balanço do navio. A cena sombria se completava com o lampião que continuava irradiando sua luz esfumaçada, deixando tudo com um tom marrom de terra. Fui até o depósito. Todos os barris tinham sido levados e fiquei surpreso com a quantidade de garrafas que beberam ou jogaram fora. Desde que o motim começara, aqueles homens beberam sem parar. Acabei encontrando uma garrafa com um resto de conhaque para Hands. Peguei um punhado de bolachas, algumas frutas em conserva, um monte de passas e um pedaço de queijo para mim. Voltei ao convés, deixei meu farnel atrás da roda do leme e, me mantendo longe do timoneiro, fui até a proa onde

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ficava o barril de água e matei minha sede. Só depois disso levei 210

o conhaque até Hands. Deve ter tomado pelo menos uma dose inteira antes de afastar a garrafa dos lábios. — Arre — disse —, como eu queria um pouco disso! Já tinha me sentado no meu canto e começado a comer. — Muito machucado? — perguntei. Ele gemeu, ou melhor, posso dizer que latiu. — Se aquele doutor estivesse aqui, me curaria em um par de turnos. Mas não tenho esta sorte. Esse esfregão aí está bem morto, pode acreditar — e apontou para o homem com o gorro vermelho. — E você, de onde apareceu? — Vim a bordo para tomar o controle dessa embarcação, senhor Hands — disse. — E você deve me tratar como capitão até ordem em contrário. Olhou para mim bem irritado, mas não disse nada. Um pouco de cor tinha voltado para suas bochechas, mas ainda parecia muito doente e continuava a escorregar e se recompor com o balanço do navio. — A propósito — continuei —, não posso navegar com essa bandeira desfraldada. Melhor não ter nenhuma hasteada do que essa. E, mais uma vez desviando da retranca, corri até os cabos coloridos e trouxe abaixo aquela maldita bandeira negra, atirando-a ao mar.


Hands me observava de forma dissimulada, o queixo afundado sobre o peito. — Imagino — disse afinal — que agora o capitão Hawkins vai querer alcançar terra firme. Devíamos conversar. — Sim, será um prazer — respondi. — Diga lá. E voltei para minha refeição, cheio de apetite. — Esse homem — começou, apontando com a cabeça para o cadáver — se chamava O’Brien, um irlandês nojento. Nós dois levantamos as velas, pretendendo navegar de volta. Bem, ele está morto agora, e não sei quem é que vai navegar essa embarcação. Não vejo quem possa fazer isso. Porque, até onde eu sei, não é você que vai. Agora, veja bem, se você me der alguma coisa para comer e beber, um pano para enrolar no meu ferimento, eu digo o que deve fazer. Acho que é um trato justo. — Mas aviso logo uma coisa — eu disse. — Não vou voltar para o ancoradouro do capitão Kidd. Pretendo ir para a En-­ seada do Norte. — Com certeza pretende — gritou. — Tentei minha sorte, perdi, e agora você está tapando meu vento. Quer ir para a Enseada do Norte? E eu tenho escolha? Isso pareceu fazer sentido. Fechamos o acordo. Em 3 minutos eu pus a Hispaniola para velejar suavemente com o vento perto da costa da Ilha do Tesouro. Pretendia contornar a ilha ao norte e, orçando contra o vento, chegar à Enseada do Norte antes da maré alta, quando poderíamos levá-la em

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segurança até a praia e esperar até que a maré baixasse para 212

desembarcar. Prendi a roda do leme para manter o rumo e desci até meu beliche onde estava meu baú. Lá peguei um lenço macio da minha mãe, que dei para Hands fazer, com a minha ajuda, um curativo no grande corte que havia sofrido na briga e não parava de sangrar. Depois disso, comeu um pouco e tomou uns goles de conhaque. Melhorou visivelmente e começou a se sentar mais ereto e a falar mais alto. A brisa nos ajudava bastante e deslizávamos com facilidade, enquanto víamos a costa da ilha se afastar e a vista mudar a cada minuto. Pouco depois já tínhamos ido além e contornado o canto da colina rochosa que delimitava a ilha ao norte. Estava entusiasmado. Tinha bastante água para beber e coisas boas para comer, e minha consciência, que já tinha me torturado por causa da minha deserção, se acalmou com a grande conquista realizada. Estaria tranquilo, se não fosse o olhar do timoneiro que me seguia zombeteiro e sorridente pelo convés. Era um sorriso de um homem velho e cansado. Mas, além disso, também expressava uma pitada de desprezo e uma sombra de traição.


CAPÍTULO 26

Israel Hands

Como se atendesse aos nossos desejos, o vento rodou para oeste. Podíamos percorrer com muito mais facilidade a costa nordeste da ilha até a entrada da Enseada do Norte. Só que havia tempo de sobra, pois não tínhamos como ancorar e não me atreveria a encalhar na praia antes da maré subir um pouco mais. O timoneiro me ensinou a parar a embarcação, o que consegui após algumas tentativas. Depois, nos sentamos em silêncio para outra refeição. — Capitão — disse afinal, com aquele mesmo sorriso incômodo —, suponho que poderíamos jogar o cadáver de O’Brien ao mar. Eu não tenho nenhum remorso por tê-lo mandado para o inferno, mas não é algo agradável de se ver, não acha? — Não tenho força suficiente para levantá-lo, além de não gostar nada do serviço. Se depender de mim, vai ficar ali mesmo. — Ora! — disse. — Deixe estar, então. De qualquer jeito, espíritos não me importam, depois de tudo o que já vi. Jim, seria

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muito gentil da sua parte se descesse até aquela cabine e pegasse 214

uma garrafa de vinho... Esse conhaque aqui é muito forte e está me dando dor de cabeça. Não acreditei nem um instante naquela história de ele preferir vinho a conhaque. Sabia que era um pretexto para que eu deixasse o convés. Só não sabia qual seria sua intenção. Ele desviava seu olhar do meu e sorria o tempo todo, pondo a língua de fora com tal ar de culpa e embaraço que até uma criança notaria que estava tentando esconder algo. Vi onde residia minha vantagem. Era um sujeito tão estúpido que eu poderia ocultar minhas suspeitas até o final. — Um pouco de vinho? — disse. — Está bem. Você prefere tinto ou branco? — Não vejo diferença, camarada — replicou. — Se for forte e a garrafa estiver cheia, o que mais importa? — Então, vou lhe trazer vinho do Porto, senhor Hands — respondi. — Mas vou precisar procurar um pouco. Desci a escada fazendo todo o barulho que podia, tirei meus sapatos, corri em silêncio pela estreita galeria, subi a escada do castelo de proa e coloquei a cabeça para fora pela abertura no convés. Sabia que ele não esperava me ver ali, mas mesmo assim tomei todas as precauções possíveis. Minhas suspeitas se confirmaram. Ele estava engatinhando e, ainda que sua perna doesse visivelmente quando se movia, se arrastou pelo convés com


uma boa velocidade. Chegou aos embornais de bombordo e tirou de dentro de um rolo de corda uma faca longa manchada de sangue até o cabo. Olhou para ela por um momento, testou seu fio com a palma da mão e, depois de escondê-la com pressa no forro da jaqueta, arrastou-se de volta ao lugar original encostado na amurada. Era tudo o que precisava saber. Israel podia se mover e agora estava armado. E estava claro quem seria sua vítima. O que ele faria depois, se tentaria atravessar a ilha rastejando, da Enseada do Norte até o acampamento por dentro dos pântanos, ou se iria disparar o canhão, confiando em que seus camaradas viessem socorrê-lo, eu não tinha como saber. Mas, ainda assim, podia contar com ele para uma coisa, já que nossos interesses convergiam sobre o destino da escuna. Ambos desejávamos que ela encalhasse em segurança, num lugar abrigado, de forma que, na hora certa, ela pudesse ser desencalhada para navegar novamente. Até que isso fosse feito, podia considerar que minha vida seria poupada. Enquanto minha cabeça pensava nisso, voltei até a cabine, calcei os sapatos de volta, peguei uma garrafa ao acaso e reapareci no convés. Hands estava deitado onde o tinha deixado, caído como um monte de roupas sujas, com os olhos meio fechados, fingindo estar fraco demais para encarar a luz. No entanto, levantou o olhar quando cheguei. Quebrou o gargalo da garrafa

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e tomou um belo gole. Ficou quieto por um tempo e então, 216

sacando um pedaço de fumo de rolo, me pediu que cortasse uma lasca. — Corta um naco disso para mim— disse —, pois não tenho faca nem força para cortar. É, Jim, acho que estou nas últimas. — Bem — respondi —, vou cortar algum fumo, mas, se fosse você e pensasse estar tão mal, me dedicaria às orações, como um cristão. — Durante 30 anos — disse — naveguei por esses mares e vi o bem e o mal, o melhor e o pior, tempo bom e traiçoeiro, provisões terminando, facas voando e tudo o que se possa imaginar. Bem, vou lhe contar uma coisa, ainda não vi sair boa coisa de bondade. Quem ataca primeiro sobrevive, homem morto não morde, é nisso que acredito. De repente, mudou o tom de voz: — Agora, veja bem — continuou —, a maré já subiu o bastante. Faça o que eu lhe disser, capitão Hawkins, e vamos terminar logo com isso. Tínhamos pouco menos que 2 milhas para percorrer, mas a navegação era delicada, a entrada do ancoradouro ao norte era bem mais estreita e rasa. Creio ter sido um ótimo ajudante, e tenho certeza de que Hands era um excelente piloto, pois fomos com extremo cuidado, desviando dos bancos de areia, com precisão e habilidade que dava gosto de ver.


Assim que passamos pela ponta dos promontórios nos vimos cercados por terra por todos os lados. A costa da Enseada do Norte tinha bosques tão densos quanto os da ancoragem ao sul, mas era muito mais longa e estreita, parecendo mais com o estuário de um rio. Logo à nossa frente, no extremo sul da enseada, vimos o casco de um navio naufragado em seus últimos estágios de decadência. Havia sido uma bela nave de três mastros, mas tinha ficado tanto tempo exposta às intempéries que estava coberta por grossas camadas de algas marinhas, e seu convés estava tomado por vegetação de restinga que agora crescia espessa e florida. Era uma visão triste, mas nos mostrou que era um ancoradouro protegido. — Agora — disse Hands — olhe só, esse é um lugar perfeito para encalhar um navio. Praia de areia plana, mar calmo e espelhado, árvores ao redor e flores que parecem um jardim naquele navio velho. — Depois que a escuna estiver encalhada — perguntei —, como vamos fazer para tirá-la daqui? — É simples — respondeu. — Na maré baixa, leve um cabo até aquele ponto da costa, passe-o por trás de um daqueles pinheiros maiores, traga-o de volta, passe-o em torno de um cabrestante e espere pela maré. Quando ela estiver cheia, todas as mãos a bordo fazem força puxando o cabo, e a embarcação vai girar docilmente. Agora, garoto, fique atento. Estamos

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quase agarrando no fundo, e ela está com muito impulso. Um 218

pouco para estibordo, assim... Firme... Estibordo... Um pouquinho pra bombordo... Firme! Firme! E foi dando os comandos, aos quais obedeci sem respirar, até que, de repente, gritou: — Agora, capitão, orce! Puxei o leme com força, e a Hispaniola girou rapidamente e foi a toda velocidade em direção à costa. A excitação com essas últimas manobras interromperam a vigília que vinha mantendo sobre o timoneiro. Estava tão interessado na pilotagem, esperando o toque do casco no fundo, que me distraí e fiquei me esticando sobre a amurada de estibordo, vendo as ondas causadas pela proa. Teria caído sem chance de reagir, se não tivesse sido tomado por um instinto e virado a cabeça. Talvez tenha ouvido algum estalo ou visto alguma sombra se movendo com o canto do olho. Ou foi como o instinto de um gato. Mas, com certeza, quando me virei, lá estava Hands, já na metade do caminho, com o punhal na mão direita. Na mesma hora em que ele avançou, pulei para o lado na direção da proa. Ao fazer isso, larguei a cana do leme que voltou com toda a força para sotavento, e eu acho que foi o que salvou minha vida, pois acertou Hands no meio do peito e o deixou imóvel por um momento. Consegui sair do canto onde estava encurralado e escapei para o deque do convés. Parei bem em frente do mastro


principal e saquei uma pistola do bolso. Mirei com frieza, ainda que ele já tivesse se levantado e viesse na minha direção, e puxei o gatilho. O cão da arma bateu, mas não veio nem o clarão nem o estampido. A espoleta tinha estragado com a água salgada. Amaldiçoei a mim mesmo por ser tão negligente. Por que não tinha, muito antes, trocado a espoleta e recarregado minhas próprias armas? Não estaria naquela situação vulnerável. Ferido como estava, ainda assim ele se movia rápido. Eu não tinha tempo para usar a outra pistola, nem muita vontade, pois certamente estaria imprestável também. Uma coisa estava clara: não adiantava apenas recuar, pois acabaria sendo encurralado na proa, da mesma maneira que quase tinha me cercado na popa um pouco antes. Apoiei as palmas das mãos contra o mastro principal, que era bem grande, e esperei, com os músculos tensionados. Vendo que ia me esquivar, ele também parou. Tentou algumas fintas que respondi com movimentos rápidos. Parecia até um jogo que brincava em casa, sobre as pedras da enseada da Ponta Negra. Só que pode ter certeza de que meu coração nunca esteve tão disparado. No entanto, era apenas um jogo de meninos, e confiava bastante na minha capacidade diante de um velho marujo com um ferimento na coxa. Comecei a pensar em formas de escapar. Por mais que acreditasse poder girar em torno do mastro por algum tempo, não via como lograr uma fuga definitiva.

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De repente a Hispaniola bateu, cambaleou, se apoiou por 220

um instante na areia e então, num só golpe, se inclinou sobre o costado de bombordo, até que o convés ficou em um ângulo de 45 graus. Um monte de água entrou pelos embornais e encheu uma verdadeira piscina entre o deque e a amurada. Nós dois caímos e rolamos quase juntos até os embornais. O defunto de gorro vermelho, com os dois braços ainda abertos, veio rolando todo duro por cima de nós. Mesmo meio tonto, me levantei primeiro, pois Hands tinha se embolado com o cadáver. A repentina inclinação do navio fez do convés um lugar onde era impossível correr. Tinha de encontrar outro meio de fugir e não podia demorar, pois meu inimigo estava quase me pegando. Rápido como pensamento, pulei nos brandais da mezena, usei mãos e pés para me arrastar engatinhando pela escada improvisada e só parei para respirar quando me encarapitei na última verga. Fui salvo pela minha pronta reação. Consegui chegar ao alto do mastro, e lá embaixo estava Hands com a boca aberta e a cara virada para mim, muito surpreso e decepcionado. Agora que tinha um momento de sossego, não perdi tempo e mudei logo a espoleta da pistola. Depois que terminei de deixar uma pronta para o serviço, por garantia, troquei a da outra e comecei a recarregar as duas com munição nova. Isso deixou Hands ouriçado. Depois de hesitar um pouco, ele também se suspendeu pesadamente nos brandais e, com


o punhal entre os dentes, começou a subir. Levou algum tempo e gemeu de dor enquanto

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fazia isso, e tive tempo para terminar de me preparar antes que ele chegasse a um terço do trajeto. Então, com uma pistola em cada mão, me dirigi a ele: — Pare, senhor Hands — avisei —, ou vou estourar seus miolos! Homens mortos não mordem, você sabe muito bem! Parou de imediato. Tentou pensar, mas era claro que tinha dificuldades para tal. Finalmente, depois de engolir em seco uma ou duas vezes, falou, ainda com o mesmo ar perplexo. Para poder falar, tirou a adaga7 da boca, mas de resto, permaneceu imóvel. — Jim — disse —, nós dois estamos em maus lençóis aqui e devíamos fazer um acordo. Se não fosse aquela guinada, teria pegado você, mas não tive sorte. Vou ter de atacar, e não tem como comparar a força de um marinheiro experiente com a de um novato a bordo como você, Jim. Eu estava saboreando suas palavras e sorrindo, vaidoso como um galo em cima de um muro, quando sua mão direita fez um

Adaga: espécie de punhal mais largo e pontiagudo.

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movimento rápido sobre o ombro esquerdo. Alguma coisa zu222

niu como uma flecha pelo ar. Senti um golpe seguido de uma dor lancinante, e lá estava eu espetado pelo ombro no mastro. Tomado pelo sofrimento e pela surpresa do momento, mal posso dizer se foi intencional, mas minhas duas pistolas dispararam e ambas caíram das minhas mãos. Com um grito sufocado, o timoneiro soltou as mãos que agarravam o brandal e mergulhou de cabeça na água.


CAPÍTULO 27

Peças de oito

Devido à inclinação da embarcação, os mastros pendiam bem longe por cima da água, e embaixo do meu poleiro na verga da mezena não havia nada além da superfície da baía. Hands caiu na água perto da amurada. Quando a água se acalmou, pude vê-lo jogado no fundo de areia clara, na sombra do costado da embarcação. Uns peixes passaram junto do seu corpo. De vez em quando, o movimento da água fazia parecer que ele estava se mexendo um pouco, como se tentasse se levantar. Mas estava bem morto e viraria comida para os peixes, sem dúvida. Assim que tive certeza disso, comecei a me sentir enjoado, fraco e apavorado. O sangue quente escorria pelas minhas costas e peito. O punhal que tinha me cravado contra o mastro parecia me queimar como se fosse ferro em brasa. Primeiro, fiquei com medo de cair junto do pirata e, apavorado, me segurei no mastro com tanta força que minhas unhas doe­ ram. Aos poucos, minha mente voltou a clarear, meu pulso caiu para um ritmo mais natural e retomei controle sobre meus atos.

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Tentei arrancar o punhal, mas ou ele estava cravado muito 224

fundo ou meus nervos me traíram, pois desisti com um tremor violento. E, por estranho que pareça, justamente esse tremor foi o que bastou para me soltar. A faca, na verdade, tinha me pegado de raspão e me prendia por uma simples dobra da pele, que foi rasgada pelo estremecimento. O sangue corria ainda mais rápido agora, mas pelo menos estava livre, preso ao mastro apenas pelo casaco e camisa. Rasguei o tecido com um puxão violento e desci de volta ao convés. Fui até a cabine e fiz o que podia para tratar do ferimento. Doía bastante e ainda sangrava sem parar, mas não era um ferimento profundo nem perigoso, nem atrapalhava meus movimentos. Voltei para o convés, olhei em volta e resolvi me livrar do último passageiro, O’Brien, o morto. Tinha ficado caído contra a amurada como se fosse um horrível e desajeitado fantoche em tamanho real. Com um bom impulso, o joguei na água. Caiu com um mergulho barulhento e seu gorro vermelho saiu de sua cabeça e ficou flutuando. Assim que a água se acalmou, pude vê-lo ao lado de Israel, ambos balançando com o movimento trêmulo da água. Estava sozinho no navio, a maré tinha acabado de virar. O sol estava quase se pondo. A brisa do entardecer despertou e, mesmo que estivesse bem protegido pelo morro com os dois picos a leste, o cordame começou a cantar suavemente e as velas caídas começaram a panejar um pouco.


Percebi que o navio corria perigo. Consegui abafar as bujarronas e trazê-las para o deque, mas era muito mais difícil com a vela principal. Quando a embarcação se inclinou, é claro que a retranca ficou pendurada para fora do convés, e sua ponta e um pedaço da vela ficaram debaixo da água. Peguei meu canivete e cortei a adriça. O topo da vela caiu instantaneamente e formou uma grande barriga, que ficou flutuando sobre a água. Puxei a vela do jeito que deu, mesmo que não pudesse mover sua parte inferior. A Hispaniola precisava contar com a sorte, como eu tinha contado. A essa altura, todo o ancoradouro estava na sombra. Começou a esfriar, a maré vazava rapidamente e a escuna cada vez se apoiava mais no seu costado. Rastejei até a proa e olhei sobre a amurada. Parecia bastante raso e, pendurado no que restava do cabo de amarração, desci até dentro da água. A profundidade mal chegava à minha cintura, e a areia era firme e ondulada. Andei triunfante por dentro da água, deixando a Hispaniola para trás. O sol acabou de se pôr e a brisa começou a assobiar baixinho por entre os pinheiros. Lá estava a escuna, livre de piratas e pronta para ser tripulada pelos nossos homens e voltar ao mar. Só queria retornar à paliçada e me vangloriar. Possivelmente seria repreendido pela minha indisciplina, mas a retomada da Hispaniola seria uma resposta firme, e esperava que até o capitão Smollett admitisse que não tinha gastado meu tempo à toa.

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Pensando assim, e com muito entusiasmo, parti. Lembrei 226

que o rio mais a leste entre aqueles que desaguavam no ancoradouro do capitão Kidd corria a partir do morro de dois picos à minha esquerda e desviei meu curso naquela direção para cruzar o riacho enquanto ele fosse mais estreito. Logo contornei aquele morro e em seguida atravessei o riacho com água pela cintura. Isso me trouxe para perto de onde tinha encontrado Ben Gunn, e passei a andar com mais atenção a tudo que se passava em volta. A escuridão já era quase completa e, quando passei pela fenda entre os dois picos, percebi uma luz oscilante que subia para o alto. Pensei que devia ser o homem da ilha assando o jantar em uma fogueira. Fiquei preocupado com ele se expondo de forma tão descuidada. Pois, se eu podia ver aquela luminosidade, ela não chegaria aos olhos do próprio Silver no local onde ele acampava? A noite ia ficando cada vez mais escura e só me restava tentar manter meu rumo próximo à direção desejada. Andava tropeçando nas moitas e rolando em buracos cheios de areia enquanto percorria o terreno baixo da ilha. De repente, uma espécie de brilho se derramou sobre mim. Olhei para cima e descobri que a lua tinha nascido. Com essa ajuda, avancei rapidamente pelo trecho que restava da minha jornada. Mas, quando cheguei ao bosque do lado da fortificação, reduzi o ritmo por cautela. Não queria que minhas aventuras tivessem o triste fim de levar um tiro de um companheiro por engano.


A lua subia cada vez mais no céu e sua luz começou a se derramar pelos trechos abertos da mata. Bem na minha frente surgiu entre as árvores um brilho de cor diferente. Era quente e vermelho, e de vez em quando parecia escurecer um pouco, como se fossem as brasas de uma fogueira sem chamas. Afinal, cheguei ao limite da clareira. O lado oeste já estava todo iluminado pelo luar. O resto, incluindo a casa de troncos, permanecia nas sombras. Do outro lado da casa, uma imensa fogueira tinha se consumido e deixado um leito de brasas vivas que emanavam uma vibração vermelha e firme, num forte contraste com a palidez da lua. Não se ouvia nada além do som causado pela brisa. Parei, admirado e com medo também. Não era nosso costume fazer grandes fogueiras. Aliás, o capitão exigia que fôssemos bastante sovinas com a lenha, e comecei a temer que algo tivesse dado errado na minha ausência. Contornei a clareira pelo lado leste e, me mantendo na sombra, atravessei a paliçada no ponto mais conveniente, onde a escuridão era mais espessa. Por via das dúvidas, fui engatinhando sem fazer barulho até o canto da casa. Quando me aproximei, fiquei aliviado com o som do ronco alto dos meus amigos dormindo tranquilos. Aquilo soou como música aos meus ouvidos. Fiquei ainda mais tranquilo quando ouvi o vigia dar o chamado de marinheiro: — Tudo bem!

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Com certeza, era um turno de vigia muito relapso. Se eu 228

fosse Silver e seus rapazes, estariam perdidos. Isso só acontecia, pensava, porque o capitão estava ferido, e mais uma vez me culpei por tê-los deixado em perigo com tão poucos para montar a guarda. Nesse momento, cheguei até a porta e parei. Tudo lá dentro estava na mais completa escuridão, e não conseguia ver nada. Quanto aos sons, apenas o ressonar constante dos que roncavam e um pequeno barulho ocasional, um tremor ou pancada ritmada que não conseguia reconhecer. Com os braços esticados para a frente, andei com cuidado. Resolvi me deitar no mesmo lugar de sempre e me divertir com as caras de espanto na manhã seguinte. Meu pé atingiu alguma coisa que se mexeu. Era a perna de um dos adormecidos. Ele se virou e resmungou, sem chegar a acordar. Então, de repente, ouvi uma voz aguda que começou a gritar na escuridão: — Peças de oito! Peças de oito! Peças de oito! Peças de oito! — e assim continuou, sem pausa ou alteração. O papagaio de Silver, Capitão Flint! Era ele que eu tinha ouvido se sacudindo e bicando um pedaço de cortiça. Foi ele que, mantendo melhor vigília que os seres humanos, anunciou minha chegada com seu refrão aborrecedor. Nem tive tempo para me recompor.

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Com o tom agudo e cortante do papagaio, todos acordaram e pularam de pé. Com um xingamento poderoso, a voz de Silver gritou: — Quem está aí? Tentei correr, esbarrei com violência em alguém, recuei e corri ao encontro dos braços de um segundo, que, por sua vez, me agarrou e segurou com firmeza. — Dick, traga uma tocha — disse Silver, assim que minha captura estava garantida. Um dos homens saiu da casa e logo voltou com um tição aceso.

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PARTE 6 CAPITÃO

SILVER


CAPÍTULO 28

No acampamento do inimigo

O brilho intenso e vermelho da tocha iluminou o interior da casa e mostrou que o pior tinha acontecido. Os piratas tinham tomado posse da casa e dos suprimentos. Lá estavam o barril de conhaque, a carne de porco e o pão, mas nem sinal de prisioneiros. Só podia imaginar que todos tivessem morrido e senti muito remorso por não ter estado ao lado deles na hora fatal. Havia seis piratas, dos quais cinco estavam corados e bem-dispostos, com jeito de quem acordava após uma bebedeira. O sexto apenas se apoiou no cotovelo. Estava muito pálido e tinha uma atadura manchada de sangue em torno da cabeça. O papagaio se sentou no ombro de Long John e começou a alisar sua plumagem com o bico. O pirata parecia mais pálido e sisudo do que o costume. Ainda vestia o mesmo traje azul de quando veio em missão diplomática, mas esse agora estava todo sujo de lama e rasgado pelos espinhos da mata. — Então, aqui está Jim Hawkins, com mil trovões! Voltou a bordo, não é? Vou encarar isso como um gesto de amizade.

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Em seguida, sentou-se sobre o barril de conhaque e co232

meçou a encher o cachimbo. — E, então, Jim — disse, enquanto acendia o cachimbo —, aqui está você, uma bela surpresa para o velho John. Vi que era um rapaz esperto desde a primeira vez que pus os olhos em você. Mas agora foi além do que poderia imaginar. Nada disso teve qualquer resposta da minha parte. Fiquei ali parado, encarando Silver, tentando aparentar coragem, mas tomado pelo desespero. Silver deu uma ou duas baforadas no cachimbo com bastante calma e aí recomeçou: — Agora, veja bem, Jim — disse. — Sempre quis que você se juntasse a nós e ficasse com sua parte, se tornasse um cavalheiro, e agora, meu caro, você conseguiu. O capitão Smollett é um bom marinheiro, mas é um pouco rígido demais quanto à disciplina. Fique fora do caminho do capitão, é o meu conselho — e continuou, sem esperar uma reação minha —; o doutor é outro que está zangado com você. “Patife ingrato” foi o que ele disse. Resumindo, você não pode voltar para seu pessoal, pois não vão recebê-lo bem. A não ser que você comece uma terceira tripulação, o que pode ser um tanto solitário, vai precisar se juntar ao capitão Silver. Até aí, tudo bem. Afinal, meus amigos estavam vivos e, mesmo que estivessem irritados com minha deserção, fiquei mais aliviado que preocupado com o que tinha ouvido.

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— Nem vou comentar sobre você estar em nossas mãos — continuou Silver. — E pode acreditar que está. Jim, se gos-

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tar do serviço, pode se juntar a nós, mas fique à vontade para dizer não. — Preciso responder agora, então? — perguntei com uma voz muito trêmula. Eu podia sentir a ameaça de morte que pairava sobre minha cabeça, e meu coração batia tão forte que chegava a doer. — Rapaz — disse Silver —, ninguém está pressionando você. Faça seus cálculos e escolha seu rumo. — Bem — disse, tomando um pouco de coragem —, se preciso escolher, tenho o direito de saber quais são as opções, por que vocês estão aqui e onde estão meus amigos. — Quais são as opções? — repetiu um dos piratas. — Ora, quem será o sortudo que sabe disso? — Quieto aí embaixo! — gritou Silver com truculência na direção do que resmungava. Depois voltou ao tom gracioso anterior e se voltou para falar comigo: — Ontem de manhã, no final do turno da madrugada, veio o doutor Livesey com uma bandeira branca e me disse: “Capitão Silver, o senhor foi traído. O navio se foi”. Quando olhamos, com mil trovões, a velha embarcação tinha sumido! “Vamos negociar”, propôs o doutor. Negociamos, eu e ele, e aqui estamos: suprimentos, conhaque, a paliçada, a lenha que

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vocês tiveram a consideração de cortar para nós, ou seja, todo 234

esse barco, da mastreação até o porão. Quanto a eles, zarparam e não faço ideia de onde estejam. Deu mais uma baforada no cachimbo. — A última coisa que você precisa saber — continuou — sobre como você entrou no trato. No final, quando eu perguntei quantos eram, ele disse: “Quatro, e um de nós está ferido. Quanto ao garoto, não sei onde está, não me importa. Cansamos de suas travessuras”. Foram essas suas palavras. — Isso é tudo? — perguntei. — Bem, isso é tudo o que vai ouvir, filho — respondeu Silver. — Ora, não sou idiota e sei muito bem o que vai acontecer comigo. Já espero o pior, então tem uma coisa ou outra que preciso lhe contar — disse, e a essa altura eu já estava bem agita-­ do. — Para começar, lá vai. O navio perdido, o tesouro perdido, os homens perdidos, todo o seu plano indo por água abaixo, se você quer saber quem foi o culpado: fui eu! Estava no barril de maçãs na noite em que avistamos terra e ouvi você, Silver, e você, Dick Johnson, e Hands, que agora está no fundo do mar, e guardei cada palavra que ouvi assim que saí de lá. E, quanto à escuna, fui eu que cortei o cabo, e fui eu que matei os que estavam a bordo, e fui eu que a levei para um lugar onde você nunca vai encontrá-la, nenhum de vocês vai. Sou eu que rio de vocês. Sinto tanto medo de vocês quanto sinto de uma mosca. Podem me matar se


quiserem, ou me poupar. Mas, se me pouparem, o que passou, passou, e, quando estiverem sendo julgados por pirataria, vou fazer todo o possível para salvá-los. Vocês que sabem. Podem matar mais um e não levar vantagem nenhuma com isso ou poupar minha vida e guardar uma testemunha para salvar vocês da forca. Parei, já me faltando o fôlego. Para meu espanto, ficaram todos sentados, me encarando como se fossem ovelhas. Continuaram me fitando por algum tempo até que Morgan, o velho marujo moreno que tinha visto na taverna de Long John no porto de Bristol, gritou: — Vou dizer mais uma coisa, foi ele quem reconheceu o Cão Negro. — E eu vou dizer ainda mais uma coisa — acrescentou Silver —, com mil trovões! Pois foi o mesmo garoto que pegou o mapa de Billy Bones. No fim das contas, nós nos enganamos a respeito de Jim Hawkins! — Então, lá vai! — disse Morgan, com uma praga. E, empunhando sua faca, saltou como se tivesse 20 anos. — Alto lá! — gritou Silver. — Quem você pensa que é o capitão por aqui, Tom Morgan? Com os diabos, vou lhe dar uma lição! Tente bloquear o meu vento e vai parar onde muitos homens melhores que você já acabaram nesses 30 anos. Alguns foram pendurados na verga do mastro, outros foram jogados por cima da amurada e no final todos viraram comida para os

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peixes. Ouça bem, ninguém me olhou atravessado e viu o dia 236

seguinte nascer. Morgan parou onde estava, mas um murmúrio rouco surgiu entre os demais. — Algum dos cavalheiros quer resolver isso agora, comigo? — rugiu Silver. — Definam logo o que querem fazer, deixem de se fazer de tontos. Quem quer alguma coisa que venha buscar. Vocês sabem como deve ser feito. São todos cavalheiros bem-afortunados ou pensam que são. Bem, estou pronto. Pegue um sabre, aquele que tiver coragem, e, com muleta e tudo, vou ver a cor das suas entranhas antes de esvaziar esse cachimbo. Ninguém se mexeu. Ninguém respondeu. — Bem, é assim que vai ser? — acrescentou e levou o cachimbo de volta à boca. — Fico feliz olhando para vocês. Não são tão bons para lutar. Vou explicar então. Sou o capitão escolhido por uma eleição. E sou o capitão porque sou o melhor marinheiro, por mais de 1 milha de distância. Então, com mil trovões, vocês vão obedecer e podem ter certeza disso! Eu gosto desse garoto, nunca vi menino melhor que ele. É mais homem que qualquer par de ratos que estão nessa casa agora. E quero ver se algum de vocês vai ter coragem para encostar um dedo nele. É isso que tenho a dizer, e podem acreditar. Houve uma longa pausa depois disso. Fiquei parado com as costas contra a parede, com o coração ainda batendo a toda velocidade, mas com um raio de esperança iluminando minha


alma. Silver se encostou de novo à parede, os braços cruzados, o cachimbo no canto da boca, calmo como se estivesse numa igreja. Mas seu olhar se deslocava furtivo e se mantinha atento a cada movimento dos seus seguidores infiéis. Estes, por sua vez, foram se juntando aos poucos no extremo oposto da casa e comecei a escutar um barulhinho contínuo de cochichos. De vez em quando um levantava a cabeça, um de cada vez, e dirigia o olhar para Silver. — Parecem ter muita coisa a dizer — comentou Silver, cuspindo longe. — Desembuchem logo, ou então vão se deitar. — Com seu perdão — respondeu um dos homens —, o senhor está tomando muitas liberdades em relação a algumas regras. Pode ser melhor ter o cuidado de prestar atenção a outras. Essa tripulação está insatisfeita. Essa tripulação não aguenta mais ser maltratada sem motivos. Essa tripulação tem seus direitos como qualquer outra tripulação. Por isso, entendo que posso, pelas nossas regras, falar com meus companheiros. Com seu perdão, senhor, reconheço que está nos capitaneando agora, mas exijo meu direito e irei lá fora para um conselho. E, com uma elaborada saudação de marinheiro, esse sujeito, um homem alto de uns 35 anos, com cara de mau e olhos amarelados, andou tranquilamente até a porta e desapareceu. Todos o seguiram, um depois do outro, cada um fazendo uma saudação, até que deixaram Silver e eu sozinhos com a tocha.

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O cozinheiro do navio logo tirou o cachimbo da boca. 238

— Escute aqui, Jim Hawkins — sussurrou —, você está bem perto da morte e, o que é bem pior, da tortura. Eles vão me depor. Mas estarei ao seu lado, mesmo nos piores momentos. Não era a minha intenção, até você dizer o que disse. Já estava desesperado por perder todo o tesouro, mas percebi que você é a pessoa certa para me salvar. — Farei o possível — disse. Ele se animou: — Negócio fechado! — gritou Long John. — Se você falar com bravura, como falou comigo, tenho certeza de que terei uma chance. Cambaleou até a tocha encaixada na pilha de lenha e acendeu de novo o cachimbo. — Estou do lado do barão agora. Sei que você deixou aquela embarcação em algum lugar seguro. Como conseguiu fazer isso, não faço ideia, mas ela está segura. Posso perceber quando um rapaz merece confiança. E você é tão jovem! Você e eu poderíamos ter feito muita coisa juntos! Encheu uma caneca de lata com o conhaque do barril. — Quer provar, camarada? — perguntou. Quando recusei, continuou: — Bem, vou tomar um gole, Jim. Preciso molhar a garganta antes dos problemas que virão. Por falar em problema, por que acha que o doutor me deu o mapa?


Meu rosto expressou tamanho espanto que ele nem precisou fazer mais nenhuma pergunta. — Bem, não importa — ele disse. — Deve haver uma razão, só não sei se é boa ou ruim. E tomou outro gole do conhaque, balançando a cabeça como alguém que espera o pior.

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CAPÍTULO 29

A mancha negra novamente

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O conselho dos piratas durou algum tempo, até que um deles voltou e, repetindo a mesma saudação, pediu a tocha emprestada. Silver concordou e o emissário retirou-se, nos deixando na escuridão. — Sinto uma brisa começando a soprar, Jim — disse Silver, com um tom cúmplice e amigável. Virei em direção ao buraco na parede mais próxima e olhei para fora. O grupo estava reunido mais ou menos na metade da descida até a paliçada. Um segurava a luz, outro estava de joelhos no meio deles, e eu podia ver o brilho de uma faca em sua mão, refletindo as cores diferentes da lua e da tocha. Os demais se inclinavam em volta, observando, até que aquele que estava ajoelhado se levantou, e todo o grupo começou a se mover em direção à casa. A porta se abriu, os cinco homens se agruparam logo na entrada e um deles se adiantou, empurrado pelos demais. Em outra situação, teria sido cômico observá-lo, hesitando, andando lentamente, com a mão direita fechada e estendida à sua frente.


— Anda, rapaz — gritou Silver. — Entrega logo isso, esfregador de convés. Conheço as regras, não vou ferir um emissário.

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Encorajado dessa forma, o marujo avançou com destemor e, depois de entregar algo na mão de Silver, voltou para junto dos demais. O cozinheiro olhou o que tinha lhe sido entregue. — A mancha negra! Já imaginava — observou. — Onde conseguiram o papel? Vejam só! Vocês cortaram um pedaço de uma Bíblia. Quem é tolo o bastante para cortar uma Bíblia? — Que foi que eu disse? — comentou Morgan, com os marujos. — Isso não é nada bom! — Vão todos balançar na ponta de uma forca, imagino — continuou Silver. — Qual marujo de miolo mole era dono dessa Bíblia? — Dick tinha uma Bíblia — disse um deles. — Então Dick pode começar a rezar — disse Silver. Mas, nesse momento, o homem alto de olhos amarelados o interrompeu. — Devagar com essa conversa, John Silver — disse. — A tripulação resolveu lhe entregar a mancha negra num conselho completo, como mandam as regras. Agora, você deve olhar o verso do papel e ler o que está escrito ali. Depois você pode falar o que quiser. — Muito obrigado, George — respondeu Long John. — Bem, vejamos, o que temos aqui? Ora! “Deposto.” É isso, não é?

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Muito bem escrito, com certeza. É a sua letra, George? Bem, 242

você já vinha se destacando como líder nessa tripulação. Será o próximo capitão, não me espantaria com isso. — Pode se achar muito divertido, mas acabou a brincadeira — disse George. — Você não vai continuar tapeando essa tripulação. É melhor descer desse barril e participar da votação. — Pensei que tinha ouvido você falar que conhecia as regras — retrucou Silver com desdém. — Pois eu conheço. Ficarei aqui onde estou e lembro a todos que ainda sou seu capitão, até que desembuchem suas queixas e eu as responda. Enquanto isso, sua mancha negra não vale um biscoito. Depois, veremos! — Sabemos muito bem o que temos a reclamar — replicou George. — Primeiro, transformou essa viagem em uma enorme confusão, não pode negar. Segundo, deixou o inimigo sair dessa armadilha a troco de nada. Por que eles queriam sair? Não sei. Mas é bem claro que queriam. Terceiro, não nos deixa ir atrás deles do outro lado do pântano. Ora, está bem claro para nós, John Silver, você quer fazer um jogo duplo, é isso que está errado. E, quarto, para terminar, temos esse garoto. — Isso é tudo? — perguntou Silver, com calma. — É o que basta — retrucou George. — Todos nós iremos balançar na forca e secar ao sol por causa das suas trapalhadas. — Bem, agora vejam, vou falar sobre esses quatro pontos. Transformei a viagem em uma confusão, foi? Mas todos sabem como eu queria que tudo acontecesse. Se tivessem me escutado,


estaríamos todos nós a bordo da Hispaniola, todos bem vivos e em boa forma, com comida e bebida, e o tesouro no porão da

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embarcação, com mil raios! E quem atravessou o meu caminho? Quem começou a dança, me entregando a mancha negra no dia em que desembarcamos? Ora, foram Anderson, Hands e você, George Merry! E só sobrou você. Você, que nos afundou, agora quer ser o capitão! Essa é a história mais sem pé nem cabeça que já se viu. Silver fez uma pausa e, pela cara de George e seus camaradas, pude ver que suas palavras não foram em vão. — Olhem, juro que já estou cansado de falar com vocês — gritou o acusado, secando o suor da testa. — Não têm um pingo de juízo nem memória. Não consigo entender como suas mães deixaram vocês virem para o mar. Mar! Cavalheiros bem-afortunados! Acho que servem mais para alfaiates. — Continue, John — disse Morgan. — Fale logo o que tem a dizer. — Dizem que a viagem está estragada — devolveu John. — Se pudessem entender o quanto ela está estragada, aí eu queria ver! Estamos tão perto da forca que meu pescoço endurece só de pensar. Talvez vocês já tenham visto como são os corpos pendurados em correntes, com os pássaros bicando seus corpos. Agora, estamos nessa posição, cada um de nós, porque fomos trazidos até aqui por ele, por Hands e por Anderson, e os demais tolos da perdição. Se quiserem saber sobre o número quatro, o garoto,

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ora, podem arrebentar meu costado, não é um refém? E pode ser 244

que nenhum de vocês saiba que um navio de resgate vai chegar. Pois é, e não vai demorar muito, e quando ele chegar vai valer a pena ter um refém. Então vamos desperdiçar um refém? Matar o garoto? Não contem comigo, camaradas! Sobre o número três? Ora, tenho algo a dizer sobre o número três. Pode ser que não enxerguem o valor de termos um médico de verdade vindo todos os dias para olhar como estão. John, com sua cabeça quebrada. Ou você, George Merry, que estava com tremores de malária não faz nem 6 horas, com os olhos da cor de casca de limão. Quanto ao número dois, e por que eu fiz um acordo, bem, foram vocês que pediram de joelhos para que eu o fizesse. Vieram ajoelhados, de tão desanimados e famintos que estavam. Mas isso agora não importa. Pois, vejam só, essa foi a minha razão! E jogou no chão um papel que eu reconheci de imediato. Nada menos que o mapa amarelado, com as três cruzes vermelhas, que eu tinha achado dentro do pacote de oleado que estava no fundo do baú do capitão. Os piratas nem podiam acreditar. Pularam sobre o mapa como um gato ataca um rato. O mapa passou de mão em mão, entre gritos e risos. Parecia até que já estavam navegando de volta para casa, sãos e salvos, de posse do tesouro. — Sim — disse um deles —, é a assinatura de Flint, com certeza. As letras jota e efe com um traço embaixo, e uma volta do fiel desenhada, como ele sempre fazia.


— Excelente — disse George. — Mas como vamos fazer para fugir com o tesouro, se não temos navio? De repente, Silver deu um pulo para a frente, apoiando-se com uma mão na parede: — Vou dar um aviso, George! — gritou. — Basta mais uma palavra atrevida e vou lhe chamar para uma briga de verdade. Como vamos fugir? E sou eu que tenho que saber? Você é que devia me dizer. Você e o resto, que perderam minha escuna. Se mantiver o respeito, pode falar comigo, George Merry. — Justo o bastante — disse o velho Morgan. — Justo! Penso que sim — disse Long John. — Vocês perderam a escuna, eu encontrei o tesouro. Quem se saiu melhor? Não tenho mais nada a dizer, pelo trovão! Elejam quem quiserem para ser seu capitão agora, já estou farto disso. — Silver! — gritaram. — Long John Silver para capitão! — Então é assim? — gritou Silver. — George, ainda não foi desta vez. Sorte sua eu não ser um homem vingativo. Quanto à mancha negra? Não serve de nada, não é? Só serviu para Dick estragar sua Bíblia. — Mas ainda vai servir para beijar o livro, não é? — resmungou Dick, um tanto incomodado com a maldição. — Uma Bíblia com um pedacinho arrancado! — devolveu Silver, com ironia. — Claro que não. Vale menos que um livro de aventuras. E virando-se para mim:

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— Tome, Jim. Aqui está uma curiosidade para você — e 246

me jogou o pedaço de papel. Era um pedaço redondo de papel, do tamanho de uma moeda de coroa. Um lado estava em branco, pois fora arrancado da última folha, o outro continha alguns versículos do Apocalipse. Umas palavras ficaram bem gravadas na minha mente: “Mas ficarão de fora os cães e os homicidas”. O lado impresso tinha sido escurecido com cinza da fogueira. No lado em branco, havia a palavra “Deposto”. Esse foi o final das negociações da noite. Logo depois, todos se deitaram, e a vingança de Silver começou a aparecer. George Merry ficou encarregado da sentinela, com ameaças de morte caso cometesse alguma falha. Com todas as emoções do dia, demorei a pegar no sono. Mas, acima de tudo, pensava no jogo admirável que tinha visto Silver dominar, mantendo os amotinados unidos com uma mão e se agarrando, com a outra, a qualquer possibilidade de conseguir uma trégua e salvar sua vida miserável. Ele dormia serenamente, roncando alto. Sentia pena dele, mesmo sendo malvado como era, ao pensar nos perigos sombrios que já tinha enfrentado, e no cadafalso vergonhoso que esperava por ele.


CAPÍTULO 30

Palavra de honra

Fomos todos acordados por uma voz clara e cordial vindo da margem do bosque. O sentinela inclusive, pois se levantou assustado de onde tinha caído dormindo. — Salve! — gritou. — Aqui é o doutor. E era mesmo o doutor. Senti vergonha de encará-lo frente a frente. Corri para um buraco na parede e olhei para fora. Pude vê-lo parado, com a névoa baixa cobrindo metade de suas pernas. — Bom dia, doutor! — gritou Silver, bem desperto e demonstrando ótimo humor. — Está tudo indo muito bem, seus pacientes estiveram todos bem-dispostos e felizes. Continuou a tagarelar, parado no alto da colina, com a muleta embaixo do cotovelo e uma mão apoiada na lateral da casa de troncos. Parecia bastante com o antigo John, tanto na voz quanto nos modos e na expressão. — Temos uma surpresa para o senhor — continuou. — Um pequeno intruso. He, he! Um novo companheiro de bordo,

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em ótima forma e com grande disposição. Dormiu como uma 248

balsa essa noite. Nesse momento, o doutor Livesey já tinha atravessado a paliçada e estava bem perto de Long John. Pude perceber a alteração no tom da sua voz ao dizer: — Seria o Jim? — O mesmo Jim de sempre — disse Silver. Ao ouvir a resposta, o doutor parou imediatamente, mas não disse nada. Só depois de alguns segundos voltou a andar. — Ora, ora — disse, afinal —, primeiro o dever, depois o prazer, como você mesmo poderia dizer. Antes, vamos dar uma olhada nesses pacientes. Entrou na casa de troncos, fez um cumprimento com a cabeça em minha direção e começou a cuidar dos doentes. Examinava seus pacientes como se estivesse fazendo uma típica visita a uma pacata família inglesa. Os homens o tratavam como se ele ainda fosse o médico de bordo, e eles continuassem leais marinheiros do castelo de proa. — Está indo muito bem, meu amigo — ele disse para o sujeito com a cabeça enfaixada. — Escapou por um triz. Sua cabeça deve ser dura como ferro — e, caminhando mais um pouco, virou-se para outro doente. — Bem, George, como vamos? Sua cor está bem melhor, certamente. Tomou aquele remédio? Homens, ele tomou o remédio? — Sim, sim, senhor, ele tomou — respondeu Morgan.


— Porque, entendam, já que sou o médico dos amotinados, ou médico da prisão, como prefiro pensar — disse o doutor

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Livesey, com ar alegre —, faço questão de não perder nenhum dos homens destinados ao rei George, que Deus o abençoe!, e seu cadafalso. Os patifes se entreolharam, mas engoliram a estocada em silêncio. — Dick não se sente bem, senhor — disse um deles. — Bem, venha até aqui, Dick, e deixe-me ver sua lín-­ gua — respondeu o doutor. — Ora, a surpresa seria se estivesse bem! Mais um com febre. — Pois é — disse Morgan —, acontece com quem estraga Bíblias. — Acontece com quem é, como costumam dizer, um completo idiota — retrucou o doutor — e acampa num charco sujo e pestilento. Fico admirado com você, Silver. Não é tão tolo quanto a maioria dos outros, mas mesmo assim parece não saber nada sobre as regras mais básicas de saúde. Continuou examinando os demais, perguntando se tinham tomado os remédios. Todos responderam que tinham se medicado, parecendo crianças num jardim de infância em vez de piratas sangrentos. — Bem, isso é tudo por hoje. Agora, preciso ter uma palavrinha com aquele garoto, por favor — o doutor acrescentou, ao terminar.

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E acenou com a cabeça em minha direção, com indiferença. 250

George Merry estava à porta, cuspindo e reclamando do gosto do remédio. Virou-se num gesto brusco e gritou: — Não! Maldito... Silver deu um tapa no barril com a mão espalmada. — Si-lên-cio! — rugiu ferozmente. Depois, retomou o tom usual. — Sei do seu carinho pelo garoto. E somos todos humildemente gratos por seus cuidados. Hawkins, sei que é um jovem cavalheiro. Pode me dar sua palavra de honra de que não vai fugir? Rapidamente dei minha palavra. — Assim sendo, doutor — disse Silver —, basta o senhor sair da paliçada e eu levo o garoto até lá. Ele fica do lado de dentro e vocês podem conversar através dos vãos entre as estacas. Leve nossas saudações ao barão e ao capitão Smollett. A explosão de reprovação irrompeu logo que o doutor deixou a casa. Silver foi diretamente acusado de estar fazendo jogo duplo e estar tentando conseguir uma trégua particular em separado. Ou seja, exatamente o que ele estava mesmo fazendo. Era difícil imaginar que os amotinados aceitariam aquilo. Mas a vitória dele na noite anterior ainda surtia efeito. Silver chamou os homens de tolos e patetas, esfregou o mapa na cara deles e questionou se estariam pensando em quebrar o trato justo no dia em que tinham uma caça ao tesouro programada. Isso pareceu confundi-los.


Mandou que acendessem o fogo e retirou-se, apoiado na muleta e com a mão sobre meu ombro. As vozes discordantes silenciaram, mas os descontentes não se convenceram. Foi com muita calma e sem afobação que avançamos pela areia até a paliçada. Assim que chegamos a uma distância que permitia conversar com o doutor sem gritos, Silver parou. — Anote o que vou falar agora, doutor — disse —, e Jim vai poder confirmar como salvei a vida dele e como fui deposto por isso. Estou rumando contra o vento, jogando minha vida contra a banca, e acho que mereço um voto de confiança. Não é só da minha vida que estou falando, mas da vida do garoto também. Se o senhor prometer testemunhar a meu favor, isso me dará um fiapo de esperança para continuar em frente. O senhor é um bom homem, nunca vi melhor! E sei que não vai se esquecer do que fiz de bom, assim como vai se lembrar do que fiz de errado. Vou me afastar um pouco e deixar vocês a sós. E vai levar isso em conta, pois sabe muito bem que não é pouca coisa. Assim dizendo, afastou-se um pouco, até que não pudesse mais nos escutar. Sentou-se sobre um toco de árvore e começou a assobiar. De vez em quando ele se virava, às vezes dando uma espiada em mim e no doutor, às vezes observando os ru­fiões rebeldes enquanto estes iam para lá e para cá pela areia entre a fogueira que estavam reacendendo e a casa, de onde traziam carne de porco e pão para fazer o desjejum.

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— Então, Jim — disse o doutor, com tristeza —, aqui está 252

você. Os céus sabem que não consigo culpar você. Mas, enquanto o capitão Smollett estava bem, não ousou sair; bastou ele ficar doente, quando não podia fazer nada, e você foi um grande covarde! Reconheço que nesse momento comecei a chorar. — Doutor, me poupe, por favor. Já me culpei o bastante. Minha vida está por um fio, e poderia já estar morto a esta altura, se Silver não tivesse me defendido. Acredite em mim, posso morrer, e sei que mereço esse fim, mas o que mais me apavora é a tortura. Se me torturarem... — Jim — o doutor me interrompeu, e sua voz tinha mudado bastante —, pule por cima da paliçada e fuja comigo. — Doutor, dei minha palavra de honra — disse. — Sabe muito bem que não faria isso. Nem você, nem o barão, nem o capitão. Silver confiou em mim, dei minha palavra e preciso voltar. Mas, doutor, se chegarem a me torturar, posso acabar deixando escapulir uma palavra ou outra sobre onde está a escuna. Pois, um pouco por sorte, um pouco por ter me arriscado, consegui tomá-la. Ela está na praia que fica ao sul na Enseada do Norte, um pouco acima da linha de maré cheia. Com a maré pela metade, o casco todo já deve estar seco e fora da água. — A Hispaniola! — exclamou o doutor. Contei rápido minhas aventuras ao doutor, que ouviu tudo em silêncio.


— O destino parece brincar conosco — observou, quando terminei. — Damos voltas e é sempre você que salva nossas vidas. Como pode supor que deixaríamos perder a sua? Sem falar no barco, descobriu o plano dos amotinados, encontrou Ben Gunn, a maior contribuição que poderia nos dar. E, por falar em Ben Gunn... Silver! O doutor esperou Silver se aproximar para continuar falando: — Vou lhe dar um conselho. Não precisa se apressar para ir atrás daquele tesouro. — Bem, senhor, faço o que posso, mas acho que isso será impossível — disse Silver. — A única maneira que tenho de salvar nossas vidas é sair para procurar esse tesouro. — Sendo assim — respondeu o doutor —, espere tempestades quando o encontrar. — Senhor — disse Silver —, de homem para homem, está falando demais sem dizer nada. Não faço ideia do que pretendia ao sair daqui e me dar aquele mapa. Mesmo assim, fiz sua vontade sem pestanejar! — Não tenho o direito de dizer mais nada — disse o doutor —, não é meu segredo. Contaria se pudesse. Mas posso lhe dar um pouco de esperança: se nós dois sairmos vivos dessa armadilha em que nos metemos, farei o melhor que puder para salvá-lo, só não poderei cometer perjúrio. O rosto de Silver ficou radiante.

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— Nem minha mãe poderia prometer algo melhor — 254

gritou. — Agora, escute um conselho — acrescentou o doutor. — Mantenha o garoto perto de você e, quando precisar de socorro, chame. Vou agora buscar ajuda, e isso mostra que falo sério. Até logo, Jim. E o doutor Livesey apertou-me a mão através da paliçada, cumprimentou Silver com a cabeça e partiu acelerado por dentro da mata.


CAPÍTULO 31

A caça ao tesouro: o ponteiro de Flint

— Jim — disse Silver quando ficamos sozinhos —, jamais esquecerei que, se salvei sua vida, você também salvou a minha. Agora, vamos sair nessa caça ao tesouro, sem nenhum controle da situação, o que não é nada bom. Nós dois temos que continuar juntos, um protegendo o outro, e assim vamos salvar nossos pescoços. Um homem perto da fogueira nos chamou avisando que a comida estava pronta. Logo nos sentamos em torno da fogueira comendo pão e carne de porco frita. Tinham acendido um fogo que daria para assar um boi, e o braseiro já estava tão quente que só era possível se aproximar dele por barlavento. Tinham cozinhado três vezes mais do que seria possível comer, e um deles, com uma risada estúpida, jogou o que sobrou sobre o fogo. As chamas arderam e rugiram com esse combustível pouco usual. Em toda a minha vida nunca tinha visto homens tão descuidados quanto ao futuro. Podiam ser corajosos o suficiente para uma briga rápida, mas aquele desperdício de comida

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deixava claro que não tinham a menor capacidade para enfren256

tar uma campanha prolongada. Mesmo Silver, comendo um pouco afastado, com Capitão Flint sobre seu ombro, não tinha nem uma palavra para condenar toda aquela irresponsabilidade. — Ora, camaradas — disse —, sorte de vocês terem Long John para pensar por vocês. Consegui o que queria. Com certeza, eles estão com o navio. Onde ele está, ainda não sei, mas, quando tivermos o tesouro em nossas mãos, vamos procurar até encontrá-lo. E, como temos os botes, acredito que tenhamos vantagem nesse jogo. E continuou falando, com a boca cheia de toucinho quente, restaurando a esperança e confiança de todos, e estou convicto que dele mesmo também. — Sobre o refém — continuou —, acho que essa foi a última conversa que ele terá com seus amigos. Vou levá-lo preso por uma corda enquanto estivermos caçando o tesouro. Quando tivermos a embarcação e o tesouro, e estivermos navegando, aí vamos conversar sobre a situação do senhor Hawkins. Por enquanto, é como se ele valesse seu peso em ouro. Fiquei terrivelmente desanimado. Caso o plano que tinha imaginado pudesse dar certo, Silver não hesitaria em adotá-lo. Continuava com um pé em cada barco, e claro que preferiria riqueza e liberdade a uma remota chance de escapar da forca, que era o melhor que eu poderia oferecer.


Além disso, havia ainda o mistério sobre o comportamento dos meus amigos. Não conseguia encontrar explicação para terem abandonado a paliçada ou para terem cedido o mapa. E por que o doutor fizera o alerta: “Espere tempestades quando o encontrar”? Você pode imaginar o tamanho da minha aflição quando partimos na busca ao tesouro. Os piratas estavam armados até os dentes. Silver tinha dois mosquetes a tiracolo, um às suas costas, outro na frente, além do grande sabre pendurado na cintura e uma pistola em cada bolso de seu colete. Completando essa estranha aparência, Capitão Flint se empoleirava sobre seu ombro, tagarelando frases marinheiras sem sentido. Eu tinha uma corda amarrada em torno da minha cintura e seguia obediente Long John, que segurava a outra ponta da corda, umas vezes com a mão que estava livre, outras vezes com seus dentes poderosos. Parecia que eu era um urso dançarino sendo conduzido pelo dono. Os outros homens levavam cargas variadas. Alguns carregavam pás e picaretas, outros carne de porco, pão e conhaque para o almoço. Equipados dessa maneira, partimos todos, até o sujeito com a cabeça quebrada, que com certeza deveria ter ficado na sombra. Seguimos até a praia, onde os dois escaleres nos esperavam. Os dois barcos também exibiam sinais do desleixo embriagado dos piratas, um com o banco quebrado e ambos enlameados e cheios de água no fundo. Levaram os dois botes por

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precaução, metade do grupo em cada um deles. Partimos em di258

reção ao fundo da enseada. Enquanto avançávamos, houve discussão sobre o mapa. A cruz vermelha era grande demais para servir como ponto exato, e o que estava escrito no verso do mapa trazia alguma ambiguidade. O leitor pode lembrar que lá estava: “Árvore alta, franja da Luneta, apontando para o N de N.N.E.” “Ilha do Esqueleto E.S.E. e por E.” “Dez passos” Assim, uma árvore alta era o marco principal. Bem à nossa frente, a enseada era delimitada por um platô de uns 200 ou 300 pés de altura, que se juntava ao norte com as encostas do Morro da Luneta, subindo novamente em direção ao sul até se encontrar com os penhascos do Morro da Mezena. O topo do platô era coalhado de pinheiros das mais variadas alturas. Aqui e ali, uma árvore se destacava acima das demais. Não era possível saber ainda qual dessas era a “árvore alta” das anotações do capitão Flint. Mesmo assim, cada um dos homens já tinha escolhido sua árvore favorita. Long John apenas dava de ombros e pedia que esperassem até chegarmos lá. Depois de um longo percurso, desembarcamos na foz do segundo rio, que descia por uma fenda coberta por árvores na lateral do Morro da Luneta. Foi por ali que começamos a subir a encosta até o platô.


No primeiro trecho, a vegetação emaranhada e o solo pesado e lamacento do pântano nos atrasaram bastante. Mas, aos poucos, a colina começou a ficar mais íngreme, a vegetação menos confusa e passamos a ter pedras embaixo dos nossos pés. Na verdade, nos aproximávamos da área mais agradável da ilha. Vários arbustos floridos tomavam quase todo o lugar do capim, e moitas de moscadeiras eram vistas por todos os lados, misturadas com os troncos e as sombras dos pinheiros. O tempero da noz-moscada se misturava no ar com o aroma dos pinheiros. Além de todo o perfume, o ar era fresco e renovado, e isso, mais os tímidos raios do sol, nos revigorava de forma maravilhosa. O grupo se espalhou em forma de leque, gritando e pulando de um lado para o outro. Silver e eu seguíamos, mais ou menos no centro, bem atrasados em relação aos demais. Ele caminhava com dificuldade pelo caminho escorregadio, e eu continuava sendo puxado pela corda amarrada na minha cintura. De vez em quando eu precisava ajudá-lo para não escorregar ribanceira abaixo. Já nos aproximávamos da beira do platô, quando o homem que estava mais à esquerda começou a gritar, aterrorizado. Todos os marujos correram na direção do grito. — Não pode ser o tesouro, é claro que vai estar lá no al­to — disse o velho Morgan, enquanto passava correndo por nós, vindo da direita.

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Chegando ao local, vimos no chão, junto ao tronco de um 260

pinheiro bem grande, um esqueleto humano vestindo farrapos de roupa, envolto por trepadeiras. — Era um marujo — disse George Merry, que, mais corajoso que os demais, aproximou-se do esqueleto e estava examinando os trapos. — Pelo menos, isso aqui era um bom pano de roupa de marinheiro. — Ora, ora — disse Silver —, como se fôssemos encontrar um bispo por aqui. Mas como esses ossos ficaram nessa posição? Isso não parece natural. De fato, com exceção de alguns pequenos desarranjos, provavelmente causados pelos pássaros que tinham vindo se alimentar ou pelo crescimento lento das trepadeiras, que acabaram cobrindo os restos mortais, o homem estava todo esticado. Seus pés apontavam para um lado e suas mãos, levantadas sobre a cabeça, como se fosse um mergulhador, apontavam na direção oposta. — Tive uma ideia — comentou Silver. — Aqui está a bússola. Use a bússola para descobrir qual é a direção apontada pela linha dos ossos. Assim foi feito. O corpo apontava direto na direção da Ilha do Esqueleto, num rumo que a bússola revelou ser entre leste-sudeste e leste. — Como imaginava — gritou Long John —, temos aqui um ponteiro. Já temos a direção para chegar aos dobrões. Com


mil trovões! Essa é uma das piadas de Flint, sem dúvida. Matou cada um dos seis companheiros e arrastou esse aí até aqui, para servir de bússola. — Estranho — disse Merry. — Por que não encontramos sua faca? Flint não era homem de remexer nos bolsos de um marinheiro. E imagino que os pássaros a deixariam por aí. E não sobrou nem um objeto aqui, nem um botão de lata, nem uma caixa de tabaco. Não parece natural. — Não parece mesmo — concordou Silver. — Nem natural, nem bonito. Com mil canhões, camaradas, se Flint estivesse vivo, a cena seria horrorosa, para vocês e para mim. — Eu vi Flint morto com esses olhos que a terra há de comer — disse Morgan. — Billy me levou até lá onde ele estava estirado, com moedinhas de um centavo sobre os olhos. — Morto... Sim, com certeza, está morto e já desceu até as profundezas — disse o sujeito com a bandagem na cabeça —, mas, se alguma vez um espírito andou por aí, terá sido Flint.
 — Vamos — disse Silver —, parem com essa conversa fiada. Ele está morto e, até onde sei, não vai andar mais. De qualquer forma, não vai andar durante o dia. Vamos logo em frente atrás dos dobrões. Recomeçamos a caminhada, mas, a despeito do sol quente e do seu brilho intenso, os piratas não corriam mais nem gritavam pela mata. O terror causado pelo marujo morto tinha caído sobre seus espíritos.

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CAPÍTULO 32

A caça ao tesouro: a voz entre as árvores

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Em parte devido à depressão causada pela descoberta, mas também para que Silver e os doentes pudessem descansar, todo o grupo sentou-se assim que terminou de subir a encosta. Como o platô era um pouco virado para o oeste, nesse ponto em que tínhamos parado podíamos ter uma ampla visão da ilha e do mar em volta. Absoluto acima de nós despontava o Morro da Luneta, pontilhado com pinheiros solitários de um lado, negro com precipícios do outro. Nem sinal de vivalma, nenhuma vela no mar, a grande amplidão da vista aumentava a sensação de solidão. Assim que se sentou, Silver começou a fazer medidas com a bússola. — Ali estão três “árvores altas” — disse —, bem numa linha reta a partir da Ilha do Esqueleto. A “franja da Luneta” deve ser aquela ponta mais baixa logo ali. Vai ser fácil achar o pacote. Vamos almoçar primeiro. — Não estou disposto — resmungou Morgan. — Pensar no Flint acabou com meu apetite.


Desde quando tinham encontrado o esqueleto, iam falando cada vez mais baixo, e naquele momento já estavam praticamente cochichando, de tal maneira que o som da conversa mal quebrava o silêncio da floresta. De repente, vindo de entre as árvores em frente, uma voz alta e estridente atacou com tom e palavras tão conhecidas: Quinze homens sobre o baú... Yo-ho-ho, e uma garrafa de rum! A cor sumiu do rosto dos seis homens como por encanto. Alguns saltaram de pé, outros se agarraram entre si, apavorados. Morgan rosnou. — É Flint, com mil...! — berrou Merry. A canção parou tão repentinamente quanto tinha começado, como se, no meio de uma nota, alguém tivesse tampado a boca de quem cantava. — Vamos manter a calma — disse Silver, que também estava pálido. — Não posso identificar a voz, mas alguém está se divertindo conosco, alguém de carne e osso, posso garantir. Sua coragem voltou enquanto falava, e os demais já pareciam se recompor, quando ouvimos a voz de novo. Dessa vez, não estava cantando. Em vez disso, era um chamado fraco e distante que ecoou baixinho nos penhascos no Morro da Luneta. — Darby M’Graw — gemia a voz. — Darby M’Graw! Darby M’Graw! Busque o maldito rum, Darby! — seguido de uma praga que não ouso repetir.

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Os piratas, imobilizados pelo pavor, permaneceram gru264

dados no chão, os olhos quase saltando das órbitas. Algum tempo depois que a voz se calou, eles ainda permaneciam em silêncio, apavorados. — É o que basta! — suspirou um deles. — Vamos embora! — Foram essas as últimas palavras de Flint — disse Morgan, aflito. Dick havia tirado sua Bíblia do bolso e rezava com fervor. Dava para ver que, antes de sair para o mar e se juntar a companhias tão ruins, Dick tinha recebido uma boa educação. Silver, porém, não havia sido tomado pelo medo. Podia ouvir seus dentes batendo, mas ele ainda não tinha se rendido. — Ninguém nessa ilha jamais ouviu falar sobre o Darby — murmurou. — Ninguém além de quem está aqui. Camaradas, estou aqui para pegar aquele tesouro, e nem homem nem demônio vão me impedir. Nunca tive medo de Flint quando ele era vivo e, com mil trovões, vou encarar o fantasma dele, se for preciso. Tem 700 mil libras a menos de um quarto de milha daqui. Quando foi que algum cavalheiro bem-afortunado virou a popa para tanto dinheiro, só por medo de um velho marujo bêbado e morto, ainda por cima? Os outros piratas ficaram ainda mais apavorados diante da irreverência daquelas palavras. — Não fale assim, John! — disse Merry. — Não se provoca um espírito.


Os demais estavam aterrorizados demais para falar qualquer coisa. — Espírito? Bem, pode ser... — disse. — Só tem uma coisa que não entendo. Houve um eco. Vejam bem, nunca se viu um espírito com uma sombra. Então, me respondam, o que esse aí estava fazendo com um eco? Não seria natural, seria? Esse argumento me pareceu muito fraco. Mas, para meu assombro, George Merry ficou bem aliviado. — Está certo — disse. — Você tem mesmo uma cabeça em cima desse pescoço, John. Ânimo, camaradas! Essa tripulação está no rumo errado. Vamos pensar um pouco, parecia a voz de Flint, concordo, mas não era assim tão igualzinha à voz dele. Era mais parecida com a voz de outra pessoa... Era mais parecida... — Com mil trovões, Ben Gunn! — rugiu Silver. — Sim, isso mesmo! — gritou Morgan, ficando de pé. — Era a voz de Ben Gunn! — Isso não muda muito a situação, ou muda? — perguntou Dick. — Ben Gunn não está mais entre nós, tanto quanto Flint. — Grande coisa, quem se importaria com Ben Gunn? — gritou Merry, com desprezo — Morto ou vivo, ninguém se preocupa com ele. Não se ouviu mais nada. Ficaram mais tranquilos e puseram-se em movimento. Merry ia na frente com a bússola de Silver para manter o rumo certo em relação à Ilha do Esqueleto.

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Era verdade o que tinha dito, morto ou vivo, ninguém se im266

portava com Ben Gunn. Depois de passarmos pelo topo do platô, nosso caminho nos levava colina abaixo e a caminhada se tornou tranquila. Os pinheiros, grandes ou pequenos, cresciam bem afastados uns dos outros. Aqui e ali havia pequenos bosques de moscadeiras e moitas de azaleia, mas o sol esturricava as grandes áreas abertas. Caminhávamos através da ilha, quase na direção noroeste, e nos aproximávamos, de um lado, do Morro da Luneta, e, do outro, podíamos avistar a enseada onde eu tinha entrado e chacoalhado no coracle. Chegamos à primeira das três árvores altas e, de acordo com a bússola, não era a certa. Mesma coisa com a segunda. A terceira erguia-se a quase 200 pés. Era um gigante vegetal, com um tronco tão largo quanto uma cabana. Ficava bem longe do mar, tanto a leste como a oeste, e mesmo assim foi usada como um marco de navegação no mapa. Mas o tamanho não impressionava tanto os piratas quanto a noção de que 700 mil libras de ouro repousavam em algum lugar da sua ampla sombra. Pensar no dinheiro afastou o terror anterior. Seus olhos brilhavam, os pés aceleravam e não pesavam mais. Uma vida inteira de extravagância e prazer esperava por cada um deles. Silver, apoiado em sua muleta, mancava e resmungava, respirando com dificuldade. Furioso, puxava a corda que me


prendia e, de tempos em tempos, virava-se para mim com um olhar mortífero. Com certeza, não estava mais se dando ao trabalho de esconder suas intenções, e era fácil decifrá-las. Na proximidade do tesouro, todo o restante foi esquecido, tanto sua promessa como o alerta do doutor pertenciam ao passado. Sem dúvida pretendia apoderar-se do tesouro, encontrar a Hispaniola e, na calada da noite, cortar a garganta de cada uma das pessoas honestas na ilha, para depois ir embora carregado de crimes e riquezas, navegando como planejara desde o início. Foi difícil acompanhar o passo acelerado dos caçadores de tesouro. De vez em quando tropeçava, e nessas horas Silver dava os puxões mais violentos e me lançava os olhares mais sanguinários. Chegamos à margem da mata, e os mais adiantados começaram a correr. E, de repente, antes de percorrerem 10 jardas, vimos que pararam. Ouvimos um grito contido. Silver acelerou o passo, cavando o caminho com a ponta da sua muleta como se estive possuído. No momento seguinte, nós dois também paramos estarrecidos. À nossa frente havia uma grande escavação, com as laterais desmoronadas e grama nascendo no fundo do buraco. Viam-se os restos de uma picareta quebrada e, espalhadas em volta, várias tábuas arrancadas de caixotes. Em uma dessas

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tรกbuas, eu vi, marcado com ferro quente, o nome Walrus, o 268

nome do navio de Flint. Tudo estava bem claro. O esconderijo tinha sido encontrado e saqueado. As 700 mil libras haviam sumido!


CAPÍTULO 33

A queda de um chefe

Os piratas pareciam ter sofrido um ataque. Apenas Silver se recobrou do golpe quase de imediato. Passou apenas um breve segundo parecendo ter morrido ali, mas manteve a cabeça no lugar, recuperou os sentidos e mudou os planos antes que os demais pudessem entender o tamanho do desapontamento. — Jim — murmurou —, segure isso e prepare-se para encrenca. E me passou uma das pistolas de dois canos. Seu olhar agora era bem amistoso, e fiquei tão revoltado com aquelas constantes mudanças que não pude me conter e cochichei: — Então mudou de lado mais uma vez. Não houve tempo para a resposta. Os piratas, entre pragas e gritos, entraram no buraco e puseram-se a cavar com as próprias mãos, jogando para o lado as tábuas que encontravam pela frente. Morgan encontrou uma moeda de ouro, que passou de mão em mão durante uns 15 segundos.

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— Dois guinéus! — rugiu Merry, mostrando a moeda para 272

Silver. — Esse é o seu tesouro de 700 mil libras? Você é aquele que dizia nunca ter estragado coisa nenhuma, seu marujo de água doce! Desta vez todos os demais estavam inteiramente a favor de Merry. Saíram da escavação, furiosos. Para nossa sorte, todos eles saíram do buraco no lado oposto ao de Silver. Lá estávamos, dois de um lado, cinco do outro, o buraco entre nós, e ninguém com coragem para atacar primeiro. Até que Merry decidiu que precisava falar alguma coisa: — Camaradas — disse —, são dois do outro lado. Um deles é um aleijado que nos trouxe até aqui para toda essa estupidez. O outro é aquele moleque que aprendi a detestar. Agora, amigos... Quando ia fazer mira com sua pistola, vimos os clarões de três tiros de mosquete vindo da vegetação e ouvimos: “Crack! Crack! Crack!”. Merry caiu de cabeça dentro da escavação. O homem com a bandagem rodopiou como um pião e caiu de lado, estrebuchando. Os outros três correram o mais rápido que podiam. Antes que fosse possível piscar, Long John já tinha disparado dois tiros de uma pistola em Merry, que ainda se debatia. Quando o homem virou os olhos em sua última agonia, ele disse: — Pois é, George, acho que acertamos as contas.


Nesse momento, o doutor, Gray e Ben Gunn, todos com mosquetes ainda fumegantes, saíram da mata e se juntaram a nós. — Rápido! — gritou o doutor. — Não podemos deixar que cheguem aos botes. E disparamos a toda, algumas vezes atravessando moitas que vinham até a altura do peito. Silver tentava de tudo para manter-se próximo de nós, fazendo um esforço tremendo. Ainda assim, ele já tinha ficado umas 30 jardas para trás quando alcançamos o topo da colina. — Doutor! — chamou. — Veja lá! Não temos pressa! E pudemos ver, numa parte mais descampada do platô, os três sobreviventes correndo na mesma direção em que dispararam, direto para o Morro da Mezena. Já estávamos entre eles e os botes, então sentamos os quatro para respirar, enquanto Long John, enxugando o suor do rosto, veio devagar até onde estávamos. — Muito obrigado, doutor — disse. — A ajuda chegou bem na hora. E então, vejam só, é você mesmo, Ben Gunn! Essa é boa. — Sim, sou Ben Gunn, sou eu mesmo — respondeu o marinheiro abandonado, retorcendo-se como uma enguia em seu desconforto antes de continuar. — Como está você, senhor Silver? Muito bem, obrigado, você diz. — Ben, Ben! — murmurou Silver. — Nunca imaginei que podia me enganar!

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O doutor mandou que Gray buscasse uma das picare274

tas abandonadas pelos amotinados em sua fuga. Depois disso, enquanto prosseguíamos sem pressa morro abaixo até o lugar onde estavam os barcos, nos relatou, em poucas palavras, o que tinha acontecido. Era uma história que interessava profundamente a Silver. E Ben Gunn, o abandonado abobalhado, era o herói do começo ao fim. Ben, em suas longas e solitárias caminhadas pela ilha, acabou achando o esqueleto. Depois de despojar os restos dos objetos de valor, como a faca e os botões, acabou encontrando o tesouro e o desenterrando. A picareta quebrada foi deixada ali por ele. Carregou o tesouro nas costas, em várias viagens cansativas, até uma caverna que ocupava no lado nordeste da ilha. Isso tinha acontecido dois meses antes da chegada da Hispaniola. O doutor arrancou esse segredo dele na tarde do ataque. Na manhã seguinte, quando viu o ancoradouro vazio, deu o mapa, que se tornara inútil, a Silver e cedeu os mantimentos, pois a caverna de Ben Gunn estava bem suprida de carne de cabra salgada. Tudo era parte do plano para chegar são e salvo ao morro dos dois picos, onde estariam a salvo da malária e mantendo guarda sobre o dinheiro. Naquela manhã, ao descobrir que eu estaria envolvido na terrível decepção preparada para os amotinados, correu até a caverna e, deixando apenas o barão a tomar conta do capitão, levou Gray e Ben Gunn até perto do pinheiro alto. Porém, logo


descobriu que nosso grupo se adiantava. Ben Gunn, o mais veloz de todos, foi enviado na frente para tentar algo sozinho. Foi quando lhe ocorreu assustar seus antigos colegas de tripulação. E foi tão bem-sucedido que Gray e o doutor conseguiram chegar a tempo. — Ora — disse Silver —, foi muita sorte ter Hawkins ao meu lado. Eu teria sido cortado em pedacinhos, se não fosse por isso. Quando chegamos aos escaleres, o doutor, com uma picareta, destruiu um deles e, a bordo do outro, partimos para contornar a ilha pelo mar até a Enseada do Norte. Foi uma travessia de umas 8 ou 9 milhas. Deslizávamos com suavidade sobre um mar liso e num instante passamos pelo estreito e dobramos a ponta a sudeste da ilha. A mesma que quatro dias antes tínhamos contornado rebocando a Hispaniola. Quando passamos pelo morro com os dois picos, pudemos ver a entrada da caverna de Ben Gunn e o barão, de vigília. Agitamos um lenço e gritamos três vivas. Silver participou tão entusiasmado como todos nós. Três milhas adiante, já na entrada da Enseada do Norte, qual não foi nossa surpresa ao encontrarmos a Hispaniola navegando por conta própria? A última maré cheia tinha suspendido a embarcação e, se houvesse soprado um vento mais forte ou existisse uma corrente forte como no ancoradouro ao sul, nunca a teríamos visto novamente ou a encontraríamos indomável

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além do nosso alcance. Para nossa sorte, a escuna quase não ti276

nha sofrido danos, além da vela principal arriada. Outra âncora foi providenciada e jogada em uma profundidade de uma braça e meia. Remamos de novo até a Baía do Rum, o ponto de desembarque mais próximo da casa do tesouro de Ben Gunn. Depois disso, Gray voltou, remando sozinho até a escuna, onde passaria a noite montando guarda. Fomos recebidos pelo barão à entrada da caverna. Comigo foi cordial e gentil, não fazendo referência à minha escapada. Ficou vermelho diante da saudação polida de Silver: — John Silver — disse —, já fui informado que não poderei processá-lo. Que assim seja, não o farei. Mas o senhor carrega nas costas o peso de vários homens mortos. — Agradeço sinceramente, senhor — respondeu Long John, fazendo outra saudação. — Não ouse me agradecer! — gritou o barão. — É um grande desvio na minha conduta. Afaste-se. A caverna era ampla e arejada, com uma pequena fonte. Em frente a uma grande fogueira, estava deitado o capitão Smollett e, no canto mais distante, percebi grandes pilhas de moedas e quadriláteros feitos de barras de ouro. Era o tesouro de Flint que nos trouxe tão longe e que já tinha custado a vida de 17 homens da Hispaniola. — Entre, Jim — disse o capitão. — Você é um bom garoto, do seu jeito. Mas não acho que nós dois vamos navegar juntos


mais uma vez depois disso tudo. Tem mais sorte que juízo para o meu gosto. É você, John Silver? Que ventos o trazem? — Voltei para cumprir meu dever, senhor — respondeu Silver. — Ah! — foi tudo o que o capitão disse. Tive um ótimo jantar naquela noite, cercado por amigos. Foi uma refeição de verdade, com a carne de cabra salgada de Ben Gunn, algumas iguarias e uma garrafa de vinho da Hispaniola. Sentado longe da luz da fogueira, mas comendo com apetite, estava Silver, pronto para servir quem precisasse, até mesmo rindo conosco. Era novamente aquele marinheiro polido e obediente que partiu de Bristol.

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CAPÍTULO 34 278

Finalmente

Bem cedo na manhã seguinte, começamos a transportar o grande monte de ouro até a Hispaniola. Era uma tarefa considerável para um grupo tão pequeno de trabalhadores. Os três sujeitos que andavam soltos pela ilha não nos preocupavam muito. Bastava um sentinela no topo da colina para nos prevenir contra qualquer ataque de surpresa. Desta forma, o trabalho era executado com rapidez. Gray e Ben Gunn iam e vinham com o bote, enquanto o resto de nós empilhava o tesouro na praia. Da minha parte, já que as barras de ouro eram muito pesadas para mim, fiquei encarregado de embalar o dinheiro em sacos de pão. Era uma estranha coleção, parecida com o tesouro de Billy Bones na diversidade, mas muito maior e variada. Eram inglesas, francesas, espanholas, portuguesas, Georges e Luíses, dobrões e guinéus, as figuras de todos os reis da Europa nos últimos 100 anos, estranhas moedas orientais estampadas com o que parecia fiapos de barbante ou pedaços de teias de aranha, moedas redondas e quadradas, e moedas com um furo no


meio, como se servissem para pendurar no pescoço. Acredito que praticamente todas as variedades de dinheiro do mundo devem ter feito parte daquela coleção. Nosso trabalho prosseguiu por vários dias. No início, não ouvimos nenhum sinal dos três amotinados. Até que, penso que foi na terceira noite, ouvimos um som trazido pelo vento. Era uma mistura de gritos com cantoria. Foi só um fragmento que nos chegou aos ouvidos, seguido pelo silêncio anterior. — Que Deus os perdoe — disse o doutor. — São os amotinados! — Todos bêbados, senhor — comentou Silver. Silver tinha total liberdade para ir e vir e, a despeito de sofrer algumas rejeições diárias, parecia considerar-se novamente integrado. A resposta do doutor veio num tom ríspido. — Bêbados ou delirantes — disse. — Tem toda razão, senhor — continuou Silver —, e não podemos afirmar com certeza uma coisa ou outra. — Meus sentimentos podem surpreendê-lo, senhor Silver — devolveu o doutor, com um tom de sarcasmo. — Mas, se tivesse certeza de que estão delirando, deixaria esse acampamento e, correndo o risco que fosse, ajudaria como pudesse. — Com seu perdão, doutor, mas o senhor estaria cometendo um erro — disse Silver. — Perderia sua vida preciosa, pode ter certeza. Aqueles homens lá embaixo são incapazes de

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manter a palavra. Nem mesmo se assim o quisessem. E não 280

conseguirão acreditar na sua palavra tampouco. Bem, essa foi uma das últimas vezes que tivemos notícias dos três piratas. Um conselho foi formado e ficou decidido que devíamos abandoná-los na ilha, para imensa alegria de Ben Gunn e com a firme aprovação de Gray. Deixamos um bom estoque de pólvora e munição, a maior parte da carne de cabra salgada, uns poucos remédios e outros artigos úteis, como ferramentas, roupas, uma vela reserva, algumas braças de corda e, de acordo com a vontade do doutor, um belo presente em forma de tabaco. O tesouro já estava todo guardado e levamos a bordo água suficiente e o restante da carne de cabra salgada. Finalmente, numa manhã agradável, levantamos âncora e partimos pela boca da Enseada do Norte, navegando sob a mesma bandeira que o capitão tinha desfraldado e pela qual tínhamos combatido na paliçada. Para atravessar a passagem estreita, precisávamos passar muito perto do litoral mais ao sul e avistamos ali os três piratas ajoelhados em uma ponta de areia, suplicando com os braços levantados. Nossos corações ficaram tocados, mas não podía­ mos correr o risco de outro motim, e levá-los de volta para entregá-los à forca seria uma forma esquisita de compaixão. O doutor os chamou e contou sobre os mantimentos que tínhamos deixado e onde poderiam ser encontrados.


Quando os piratas viram que o navio seguia seu rumo, um deles ficou de pé, apontou o mosquete e deu um tiro que passou assobiando sobre a cabeça de Silver e através da vela principal. Depois disso, nos mantivemos abrigados e, quando olhei de novo, os três tinham desaparecido na faixa de areia, e a própria ponta de areia já ia sumindo de vista ao longe. Antes do meio-dia, não tinha como expressar minha alegria ao constatar que a mais alta rocha da Ilha do Tesouro tinha afundado no mar azul que preenchia todo o horizonte. Faltavam mãos para operar o barco e todos a bordo tinham que trabalhar. Exceto o capitão, que ainda precisava de repouso e só podia nos comandar deitado em um colchão na popa. Rumamos para o porto mais próximo na América espanhola, para nos reforçar com novos marinheiros descansados, pois não podíamos arriscar uma longa travessia. Realmente, bastou o vento variar um pouco e enfrentarmos um par de ventanias moderadas, e já estávamos exaustos. Baixamos âncora num lindo golfo protegido por terra por quase todos os lados. Era bem na hora do pôr do sol e fomos imediatamente cercados por canoas cheias de habitantes do local, vendendo frutas e vegetais, e se oferecendo para mergulhar em troca de moedas. O doutor e o barão desembarcaram e me levaram com eles para passar o início da noite em terra firme. Lá conheceram o capitão de um navio de guerra inglês que nos levou para

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conhecer o navio. Para resumir, foi tudo tão agradável que o dia 282

estava raiando quando voltamos à Hispaniola. Ben Gunn estava sozinho no convés e, mal chegamos a bordo, ficamos sabendo que Silver tinha ido embora. O marujo abandonado foi conivente com sua fuga numa canoa poucas horas antes. Mas dizia que só tinha feito isso para proteger nossas vidas, pois elas estavam correndo perigo com “aquele homem de uma perna só a bordo”. E isso não era tudo. Ele não tinha partido de mãos vazias. Tinha conseguido levar um dos sacos de moedas, valendo, talvez, uns 300 ou 400 guinéus. Penso que todos nós ficamos satisfeitos por nos livrarmos dele por tão pouco. Para encurtar uma longa história, completamos a tripulação e fizemos uma ótima viagem de volta para a casa. Chegamos a Bristol bem quando começavam a pensar no nosso resgate. Daqueles que tinham partido, apenas cinco homens regressavam. “Bebida e o diabo acabaram com o resto”, como se fosse vingança. Cada um ficou com uma parte generosa do tesouro, que foi usada de acordo com cada natureza. O capitão Smollett aposentou-se do mar. Gray não só soube poupar, como também ascendeu na vida. Passou a estudar e agora é dono de uma fragata mercante, além de ter se casado e tido filhos. Quanto a Ben Gunn, ficou com mil libras, que foram gastas em 19 dias. No 20.o dia, já estava de volta pedindo mais. Então ganhou uma

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cabana de guarda-caça para tomar conta, exatamente o que temia que acontecesse. Ainda mora lá e revelou-se ótimo cantor nas missas de domingo e festas na igreja do vilarejo. É muito popular por lá, ainda que seja alvo de brincadeiras dos meninos da região. Nunca mais ouvimos falar de Silver. Aquele marujo formidável com uma perna só não faz mais parte da minha vida. Mas ouso afirmar que ele reencontrou sua velha senhora, e talvez vivessem confortáveis com o papagaio Capitão Flint. As barras de prata e as armas ainda estão lá, até onde eu saiba, onde Flint as enterrou. Com certeza, se depender de mim, é onde ficarão. Não volto para aquela ilha nunca mais. Os piores pesadelos que tenho são aqueles em que ouço o barulho das ondas explodindo naquela costa, ou quando me sento assustado na cama, com a voz aguda do Capitão Flint ainda ecoando nos ouvidos: “Peças de oito! Peças de oito!”.

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MAIS SORT QUE Sou um apaixonado por navegação. Na infância, as férias passadas junto ao mar certamente são a semente dessa paixão. Ter morado quase a vida inteira no Rio de Janeiro ajuda também. Hoje dou vazão a essa paixão brincando de navegar em águas abrigadas com meu pequeno veleiro e me aventurando em travessias virtuais em um simulador de navegação oceânica na internet. Mas, quando era criança, foi a leitura de A Ilha do Tesouro que me levou em viagens “por mares nunca dantes navegados”, em busca de ilhas desertas e tesouros enterrados. Eu lia e relia esse livro durante as férias, enquanto o sol estava quente demais para brincar lá fora, e acho que em todas as vezes fiquei confuso entre ficar desconfiado ou deslumbrado com John Silver. Mesmo que tenham inspirado vários filmes sobre o tema, os

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piratas de A Ilha do Tesouro são bem menos idealizados e limpinhos que os mostrados nos filmes de piratas. Além de serem durões e destemidos, são desleixados e cruéis. Nesse sentido, os recentes Piratas do Caribe se parecem mais com os piratas apresentados por Stevenson. Ele nos conta sobre piratas que seriam capazes de matar covardemente um garoto e sua mãe, mas que respeitam religiosamente sua própria hierarquia e seus rituais. Isso é um dos aspectos mais interessantes da forma que a história se desenrola. Quase todos os personagens acabam apresentando uma ou outra contradição. Ben Gunn pode ter perdido um pouco da lucidez com o isolamento, mas se demonstra astuto e sagaz no momento decisivo. O barão fanfarrão e boquirroto não deixa de ser também um comba-

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RTE

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UE JUÍZO tente valente e um homem capaz de servir ao grupo e de reconhecer seus próprios erros. O doutor é observador e engenhoso, mas é capaz de renovar os votos de confiança em Long John Silver mais de uma vez. Ao falarmos da presença da contradição ou ambiguidade no comportamento dos personagens, sem dúvida nenhuma o maior símbolo disso é o cozinheiro de bordo. As cenas em que ele participa são sempre fascinantes, e, desde a primeira vez em que trocam palavras, Jim Hawkins pode até não ter consciência disso, mas percebe que o dono da taverna muda de tom quando se dá conta de que Jim foi enviado pelo barão e deve ser o grumete da tripulação. Gosto de uma passagem em especial, quando Jim está em poder dos amotinados na casa fortificada, e o capitão Silver recebe a

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mancha negra e joga com todas as armas ao seu dispor para manter suas opções em aberto enquanto for possível. Jim, por sua vez, além de amadurecer com o rumo tomado pelos acontecimentos, vai nos surpreendendo a cada vez que toma uma decisão imprevidente, algumas vezes irresponsável, para em seguida contribuir com sorte e valentia para que o desfecho não seja trágico para a companhia leal. Sobre o jovem grumete, me lembro de uma fala do capitão Smollett. Concordo com o capitão quando ele diz que Jim tem mais sorte que juízo, mas, na posição de leitor, gosto muito dessa característica, tão determinante para que essa história seja uma leitura essencial e garantia de bom divertimento. Rodrigo Machado

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QUEM É

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RODRIGO MACHADO Nasci em São Paulo, capital, e moro no Rio de Janeiro desde os 6 anos de idade. Sinto-me carioca, mas adoro a ci­dade de São Paulo, onde vive quase toda a família do meu pai. Além disso, tenho uma ligação muito forte com Manguinhos, no Espírito Santo, uma vila de pescadores onde passei todas as férias da minha infância. Cresci cercado por livros. Na casa dos meus avós maternos, em Manguinhos, havia várias estantes repletas. Uma coleção em especial,

com suas capas coloridas, era o grande tesouro das tardes modorrentas, com adaptações de todos os clássicos da literatura universal que se possa imaginar. Foi esse o meu primeiro contato com autores como Alexandre Dumas, Mark Twain, Jules Verne, entre tantos outros. Acabei trabalhando em outras áreas, desenvolvendo programas de computadores e gerindo projetos, empresas e pessoas. Mas nunca me afastei dos livros e das histórias.


QUEM É

LELIS

Nasci em Montes Claros, norte de Minas Gerais. Sou ilustrador e escritor de livros infantis e juvenis. Já trabalhei para o jornal Folha de S.Paulo e atualmente trabalho para o jornal Estado de Minas. Escrevi três livros e perdi a conta de quantos ilustrei. Sempre gostei do universo dos piratas. E, por consequência, sonhava um dia ilustrar esse incrível texto de Robert Louis Stevenson. Quando o pessoal da FTD Educação me convidou para este trabalho, me lembrei de dois dos maiores ilustradores norte-americanos da chamada Golden Age: Howard Pyle e N. C. Wyeth. Cada um, a seu modo, emprestou seu talento

para retratar de modo bem pe­ culiar o universo pirata. Para a pintura, usei a técnica da aquarela porque há muita luz no ambiente descrito por Stevenson. E essa luz combina bem com as transparências que a aquarela produz. A paleta de cores eu não modi-­ fiquei muito. Já uso entre cinco a sete cores permanentemente em meus trabalhos, acrescentando ou retirando alguma, dependendo da narrativa que desejo imprimir. O grande problema, na verdade, e aí divido com os editores, foi justamente escolher somente três cenas para ilustrar. O livro tem uma profusão de imagens que borbulham na cabeça de qualquer ilustrador.

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Produção gráfica

Avenida Antônio Bardella, 300 - 07220-020 GUARULHOS (SP) Fone: (11) 3545-8600 e Fax: (11) 2412-5375

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