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QUALIDADE DE VIDA

Ela conta que, no início da pandemia, acompanhou um intensivista, ao qual já havia sugerido que buscasse avaliação psicológica e psiquiátrica por apresentar sinais sugestivos de transtorno obsessivo compulsivo. “Houve uma resistência e naturalização do fato, que foi piorando com o passar do tempo e, quando a pandemia se iniciou, o risco de contaminação por estar na área de isolamento foi o gatilho para que ele tivesse uma crise de ansiedade no plantão. E o pior: durante um procedimento de intubação”, relata. Mariana conta que o foco do profissional estava tão direcionado ao pânico de contaminação que ele não conseguia se concentrar no procedimento. “Frente ao primeiro contato com secreções do paciente, o médico apresentou uma crise de ansiedade e teve que ser retirado do procedimento, exigindo que a equipe acionasse um médico de outra unidade às pressas, pois já havia sido feita a indução de sedativo e tratava-se de uma intubação de urgência. Isso poderia ter sido evitado”, assegura. Outro exemplo abordado pela psicóloga, retratando o grande impacto da pandemia na vida dos profissionais do setor, foi um evento de desespero coletivo e dessincronia da equipe frente a uma paciente (que também era membro da equipe) que apresentou um mal-estar súbito após admissão na UTI. “Essa situação ocorreu no primeiro plantão, após a mesma equipe ter perdido uma jovem colega da área da Saúde, que estava internada conosco há cerca de quatro dias com Covid-19 e, mesmo com toda a assistência ofertada e um processo de reanimação bastante longo, não conseguiu sobreviver”, lamenta. Mariana explica que, no primeiro evento em que as semelhanças começaram a surgir, fazendo-os rememorar uma situação traumática, o medo natural foi substituído pela paralisação e pelo desespero da equipe, situação que tornou o grupo momentaneamente incapaz de oferecer assistência em uma situação de crise. “Temos aqui um exemplo de transtorno mental prévio não tratado, no qual os efeitos da pandemia foram o gatilho da crise, e, no segundo exemplo, um evento reativo a uma situação traumática. Ambos geraram sofrimento emocional intenso e colocaram em risco tanto o paciente quanto o próprio profissional”, analisa.

Medidas em prol da saúde mental De acordo com a ONU, garantir a saúde mental dos trabalhadores dos serviços de saúde é um fator crítico nas ações de preparação, resposta e

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Novos desafios, novas exigências

Apesar de uma rotina em meio à linha de frente de cuidados contra o coronavírus gerar impactos consideráveis ao psicológico de alguns profissionais, a reformulação de atendimentos para o ambiente digital não fica atrás. Com a aprovação da Telemedicina, os médicos precisam se adaptar a novos tipos de consultas e rotinas de trabalho. De acordo com Fábio Fonseca, se por um lado a Telemedicina facilita o acesso a tratamentos durante a pandemia, ela traz muitos outros desafios para os médicos, que precisam desenvolver novas rotinas e protocolos de atendimento, que podem trazer um estresse adicional. “Os profissionais precisam decidir o que pode ou não ser resolvido em um atendimento a distância, assumir mais responsabilidades e mais demandas por parte dos pacientes, dos planos de saúde e do Conselho Federal de Medicina (CFM)”, detalha. O psiquiatra acrescenta, ainda, que muito do conhecimento e expertise que já tinha sido assimilado e automatizado precisa ser revisto de forma deliberada e cautelosa. “As consultas on-line podem ser mais cansativas, pois além da fadiga da tela, que exige mais esforço para manter a concentração, ainda é preciso lidar com todas as nuances do contato presencial que são perdidas”, avalia. O médico faz questão de evidenciar a importância de fatores como o calor humano, os sinais não verbais, o poder simbólico e curativo do ritual de ir a uma consulta, e a dificuldade de não haver o exame físico para a rotina de um profissional da Saúde. “Todos esses fatores podem ser muito reforçadores para os profissionais, que podem ficar muito mais exauridos após várias horas de consultas on-line”, explica.

recuperação da Covid-19. Além disso, há uma grande influência do psicológico tanto dos pacientes quanto dos profissionais na relação estabelecida em um atendimento. Segundo Fábio Fonseca, diversos fatores do dia a dia podem afetar o relacionamento de um médico com seus pacientes e colegas. “Isso significa que um profissional adoecido apresenta uma tendência maior a deixar de escutar seus pacientes, ter ideias pré-concebidas, ser intolerante e inflexível. Boa parte dos profissionais não consegue lidar bem com a própria vulnerabilidade e tende a rejeitá-la, negá-la ou projetá-la nos pacientes e colegas sob a forma de hostilidade, rotulação e desconsideração”, adverte.


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