“Um profissional adoecido apresenta uma tendência maior a deixar de escutar seus pacientes, ter ideias pré-concebidas, ser intolerante e inflexível” Fábio Fonseca, psiquiatra e psicoterapeuta
Sinais de alerta
Para o psiquiatra Luiz Dieckmann, international fellow da American Psychiatric Association (APA), enquanto o sistema de saúde lida com a pandemia de Covid-19, é mais importante do que nunca garantir o bem-estar da força de trabalho médica. “O surto de Ebola que ocorreu na África Ocidental em março de 2014 e, posteriormente, se espalhou para os países vizinhos é um exemplo de advertência para esse tipo de problema”, relembra. O especialista também faz questão de citar um trecho publicado pelo British Medical Journal, que diz: “À medida que o sistema de saúde ficou inundado de pacientes, os recursos necessários para proteger os profissionais de Saúde contra infecções se tornaram cada vez mais escassos. No final do surto de Ebola, mais de 50% dos profissionais de Saúde infectados morreram e, dos que sobreviveram, incontáveis ficaram com transtorno de estresse pós-traumático. Os profissionais se tornaram mártires, mas as repercussões foram catastróficas”. Dieckmann alerta que, mesmo ao tomar todas as precauções, existe uma preocupação constante em ser exposto ao vírus e espalhá-lo sem saber para pacientes e familiares. “Muitos trabalhadores da Saúde precisam evitar o contato com familiares vulneráveis, causando maior isolamento social. Além disso, o intenso escrutínio da mídia e a falta de entendimento da comunidade, incluindo hostilidade, podem aumentar o estresse”, revela. Segundo o profissional, sentir-se sob pressão é normal na situação atual, mas essas pressões agravadas podem levar a uma ansiedade mais séria, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e à síndrome de Burnout. Por isso, o médico alerta para os sintomas que podem indicar essa última condição e a necessidade de se procurar um especialista em saúde mental.
Cansaço excessivo (físico e mental); Dor de cabeça frequente; Alterações no apetite; Insônia e dificuldades de concentração; Sentimentos de fracasso e insegurança; Negatividade constante; Sentimentos de derrota, desesperança e incompetência; Isolamento social; Dores musculares; Problemas gastrointestinais; Alterações na frequência cardíaca e na pressão arterial.
De médico a paciente Situações de pressão, como muitos têm vivenciado no período de pandemia, podem desencadear diversos problemas de saúde. Porém, para muitos profissionais, não é fácil sair do papel de médico e se tornar um paciente. Nesse sentido, o psiquiatra Fábio Fonseca, psicoterapeuta cognitivo-comportamental, membro certificado da Academy of Cognitive Therapy, acrescenta que essa é uma questão particularmente delicada para profissionais de
Saúde. “Muitos tendem a ‘normalizar’, minimizar e negar os sinais de adoecimento, seja por medo, preconceito ou desinformação”, aponta. Segundo o psiquiatra, para essas pessoas, lidar com o estresse excessivo faz parte da rotina e muitos desenvolveram resiliência ao longo de sua formação e anos de experiência. Um grande exemplo dessa realidade é apresentado pela psicóloga hospitalar intensivista Mariana Leles, especialista em Psico-Oncologia, com residência em Psicologia Hospitalar de Urgência e Trauma.
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