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Revista Trimestral

Casado Médico IMPRESSO

ENTREVISTA

Ano 19 | n.68 | Setembro de 2017

ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE MEDICINA | ARARAQUARA

Quando a saúde dos médicos está em

risco

Submetidos a tensão constante, profissionais da medicina estão entre os grupos mais expostos a transtornos mentais como a depressão e a síndrome de Burnout. Demora em buscar tratamento agrava o problema

Luís Henrique Brandão Falcão, novo presidente da APM Araraquara DIVULGAÇÃO

Evento conscientiza sobre problemas respiratórios MEMÓRIA VIVA

Dr. Nicolino Lia, o médico que também era instrutor de voo FORA DO CONSULTÓRIO

Cirurgião organiza o Clube do Jazz, com música e dança

“O Grito”, pintura do norueguês Edvard Munch, de 1893.


Dr. Luís Henrique Brandão Falcão Presidente Dr. Sérgio Delort Vice-presidente Dra. Ticiane Corina Ribas 1a Secretária Dra. Renata Ferlin Arbex 2a Secretária Dr. Sidney Antonio Mazzi 1º Tesoureiro Dr. Marcus V. Platzer do Amaral 2º Tesoureiro Dr. Fernando Linares Diretor de Defesa Profissional Dr. Eli Aparecido dos Santos Júnior Diretor Social Dra. Fabiane A. Alves Madureira Diretora Cultural e Científico

A revista Casa do Médico é uma publicação trimestral editada pela Associação Paulista de Medicina (APM) - Secção Araraquara. Produção Editora Casa da Árvore Reportagem Vitor Haddad Prado Impressão Gráfica Art Point Tiragem 1.000 exemplares Distribuição Gratuita. APM Araraquara | Casa do Médico Rua Voluntários da Pátria, 1478 Centro, Araraquara, SP

novos associados

PHELIPE ANTÔNIO CALIXTO MEDICINA FAMILIAR CRM: 149266

FERNANDO GATTO MIDE ENDOCRINOLOGIA CRM: 156763

GUSTAVO MARQUESI COSTA ROQUE PEDIATRIA CRM: 163235

JULIANA MARQUES NAUFEL DE TOLEDO DERMATOLOGIA CRM: 124628

JULIANA REINESCH OTORRINOLARINGOLOGIA CRM: 156175

MARIANA SAN NICOLAS DUBRULL LIA DERMATOLOGIA CRM: 151743

MEDICINA E SOCIEDADE

Participe dos canais de comunicação social da APM Araraquara A APM Araraquara mantém diversos canais de comunicação com o objetivo de aproximar os profissionais de medicina e a população da cidade e região. Além da publicação da revista Casa do Médico, a associação disponibiliza um site (www. apmararaquara.org), um canal com

vídeos no YouTube e uma parceria com veículos de imprensa para a divulgação de informações de interesse público sobre medicina e saúde. Semanalmente, a rádio Jovem Pan (FM 95,7) e o portal A Cidade ON, ambos do Grupo EPTV, divulgam a coluna Dicas do Doutor,

produzida em parceria com a APM Araraquara. Médicos também podem encaminhar artigos para publicação na revista, participar de entrevistas e sugerir temas e eventos para cobertura. Para participar, envie um email para apmaqa@uol.com.br.

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Ano 19 | n.68 | Setembro de 2017


HISTÓRIA DA MEDICINA

Médicos fazendeiros A aplicação de reservas acumuladas cados como “doutores”. Como não na aquisição de glebas de terras, para há outras informações que permitem a plantação de café, foi uma forma co- identificar a identidade desses acadêmum de comportamento no uso do ca- micos; tanto podem ser médicos que pital entre médicos do interior, no fim não atuaram na profissão quanto addo século XIX até os anos de 1920. Ad- vogados. Era comum, ainda, pessoas vogados e outros profissionais liberais de outras localidades manterem protambém adotaram esse procedimento priedades no município, os chamados em investimentos que lhes asseguras- absenteístas. sem sustento após o período de trabaAbordando o exercício da profislho, na velhice. são de médico no século XIX, Lycurgo Se o caso do dr. Picaroni, como Santos Filho, em sua História da Medise verá, não foi daqueles que, com a cina no Brasil, afirma que no “interior prosperidade agrícodo país não foi raro la, deixaram a profismédicos se tornarem são, houve médicos fazendeiros. Contitão bem sucedidos nuaram, regra geral, Houve casos de na atividade agrária a exercer a medicina: médicos tão bem que abandonaram a muitos, entretanto, sucedidos na atividade profissional apegaram-se bastanacadêmica. Alguns, te às propriedades atividade agrária quando não deixarurais, tanto que acaque chegaram ram de vez a profisbaram esquecendo a a abandonar são, passaram a exerprofissão”. cer a medicina apenas O caso do dr. a atividade como uma atividade Américo Dória, denprofissional complementar, setre inúmeros outros, da medicina, cundária, eventual. é um exemplo de Dos registros de profissional que se ou passaram a óbitos assentados em dedicou à agricultuexercê-la de modo Araraquara no fim ra, sem deixar de lado secundário, eventual do século XIX, períoa atividade médica. do áureo da lavoura E o dr. Attílio Pabis cafeeira, constata-se é um dentre outros que, oficialmente, não exemplos locais de houve casos de abandono da profissão médico que se dividiu entre as duas após a aquisição de terras. Mas pode ocupações, atuando como médico e ter ocorrido, sim, redução de tempo dedicando-se à agricultura do café em dedicado à atividade profissional. Américo Brasiliense. Dentre outros, estiveram neste O doutor Pavis aparece desde o caso, além do dr. Picaroni, cuja história final do século com certa frequência é tratada à parte, os doutores Luiz Cri- nos assentamentos de óbitos do munisóstomo de Oliveira, Nicolau de Car- cípio, aparentemente com consultório neiro Leão e Attílio Pabis, que foram em Américo Brasiliense. É em Américafeicultores em Américo Brasiliense. co que ele aparece como exercendo a O médico baiano Américo Francklin medicina em 1915, no álbum editado de Menezes Dória, que teve grave en- naquele ano. volvimento no caso do “linchamento Pode-se, a princípio, supor que com dos Britos”, foi proprietário na sede, a prosperidade cafeeira ele tenha se reem Araraquara. tirado para uma vida de maior conforHá, nas relações de produtores de to na capital, tornando-se um daqueles café, nos livros de tributação munici- proprietários absenteístas, tão comum pal, inúmeros contribuintes qualifi- na lavoura da época, ou seja, que não Ano 19 | n.68 | Setembro de 2017

Esta seção publica trechos selecionados da obra “A História da Medicina e dos Médicos de Araraquara”, de

Rodolpho Telarolli

habitavam o município onde eram proprietários. A gerência dos negócios ficava por conta de um administrador de confiança, o dono apenas comparecendo periodicamente para acertos de contas, controle e fiscalização. Também por ausência de informações, não se pode deixar de supor que tenha se transferido para São Paulo e lá instalado consultório. Era comum que médicos do interior se mudassem para a capital quando os filhos cresciam, a fim de proporcionar lhes melhores condições de estudos. Porém, há um assentamento de óbito assinado pelo dr. Pabis, datado de 21 de outubro de 1918, sobre a morte de um italiano picado por cobra. Isso tanto pode indicar que ele tenha retornado às suas atividades profissionais no município, ou ainda, o que é mais provável, que tenha apenas cumprido um dever de ofício em uma visita à sua propriedade, na eventualidade do acidente acontecido durante sua permanência na fazenda. (Trecho das páginas 98 a 101) g 3


NEUROLOGIA

A toxina que trata e reabilita Dario Baldo Júnior

A toxina botulínica é uma neurotoxina produzida pela bactéria Clostridium botulinum. No final da década de 60, Alan B. Scott, um oftalmologista americano, buscava uma alternativa eficaz no tratamento do estrabismo, desde que não cirúrgico. Recebeu uma amostra de toxina botulínica tipo A (TBA) e a utilizou em pequenas doses para o tratamento experimental de estrabismo em macacos. Na década de 70, recebeu autorização do FDA (Food and Drug Administration) para o uso da toxina para estudos em humanos. Na mesma década, quando o casal de oftalmologistas Jean e Alastair Carruthers utilizavam a TBA no tratamento do blefaroespasmo, observaram que além do bom efeito terapêutico, os pacientes apresentavam redução das rugas (linhas de expressão facial), iniciando-se assim o uso cosmético da toxina. A Clostridium botulinum é uma bactéria anaeróbia, e produz sete sorotipos diferentes da toxina (A, B, C1, D, E, F e G), sendo o sorotipo A o mais potente. Para a finalidade terapêutica e cosmética, é utilizada uma forma purificada, estéril e congelada a vácuo, proporcionando maior duração se seus efeitos. A toxina botulínica A é o veneno mais letal conhecido. A DL50 (dose letal capaz de matar 50% de uma população) desta toxina é de apenas 0,00000003mg/Kg de peso corporal, e estima-se que 28g seriam capazes de matar uma população de cem milhões de pessoas. A TBA atua no bloqueio de liberação da acetilcolina na junção neuromuscular, provocando fraqueza muscular local através de um mecanismo conhecido como denervação química. Este mecanismo envolve três etapas. A primeira consta da ligação da toxina a receptores pré-sinápticos na junção neuromuscular. Posteriormente ocorre a internalização da toxina ligada no citosol nervoso por meio da endocitose, mediada pelo receptor dependente de energia. Finalmente, no citoplasma do neurônio-alvo ocorre a 4

O autor é professor de Semiologia Neurológica e Neurologia do Curso de Medicina da Universidade de Araraquara (UNIARA). Formado em medicina pela Faculdade de Ciência Médicas da UNILUS, é especialista em Neurologia pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia em Medicina Regenerativa e Química Medicinal da UNIARA.

A toxina botulínica, ou TBA, é usada no tratamento de distúrbios de movimento e também por várias especialidades médicas, como dermatologia, oftalmologia, urologia, fisiatria e neurologia inibição da liberação de vesículas de acetilcolina. No campo terapêutico, a TBA é utilizada por diversas especialidades médicas como dermatologia, oftalmologia, urologia, fisiatria e neurologia. Na neurologia, a TBA é utilizada no tratamento de distúrbios de movimento, como as distonias, na neurorreabilitação, tratando a espasticidade, e no tratamento de condições dolorosas, como a migrânea crônica. Na migrânea crônica, o tratamento preventivo com a toxina apresenta resultados muito bons, desde que bem indicada e aplicada conforme protocolo estabelecido cientificamente (o protocolo PREEMPT). Uma condição importante na indicação deste tratamento na migrânea é a irresponsividade ao tratamento convencional com medicação via oral realizado previamente. Nas distonias, classificadas basicamente em focais e generalizadas, o

tratamento implica em uma melhora considerável na qualidade de vida, uma vez que tal condição pode implicar uma limitação funcional importante, além do constrangimento vivido pelos pacientes, provocado pelos movimentos distônicos. As distonias mais tratadas são as focais, como por exemplo: blefaroespasmo, espasmo hemifacial, câimbra do escrivão, distonia cervical, entre outras. O tratamento da espasticidade é o que apresenta maior custo, devido às altas doses utilizadas. Porém, é quando se verifica um maior impacto no incremento na qualidade de vida dos pacientes, assim como dos cuidadores, uma vez que a espasticidade implica em deformidades das articulações envolvidas, dor, limitação para higiene local, dificuldade de reabilitação motora, entre outras. Pacientes, crianças e adultos, com sequela de paralisia cerebral, AVC, traumatismo crânio-encefálico e/ou raquimedular, são os que mais procuram por este tratamento. O tratamento com TBA é oferecido pelo SUS, através de centros de referência credenciados, e está disponível também na rede privada, inclusive com a cobertura pelos planos e operadoras de saúde. É importante que o paciente seja encaminhado pelo seu médico para um centro ou profissional capacitados, uma vez que, na maioria das vezes, existe a ideia de que não há nada para fazer nestes casos e, por isso, muitos pacientes não recebem o tratamento mais adequado. g Ano 19 | n.68 | Setembro de 2017


SAÚDE DA MULHER

O sentido que faz Lia Gomes Todo dia tem alguma coisa, aquela centelha, que fica na gente. Sim, claro. Tem que ser assim, senão viver perde intensidade e não dá pra ser mesmice. Há que se agarrar a isso, mesmo quando se está longe do óbvio esperado, se o trabalho é com promoção de saúde. “Mudança de comportamento no longo prazo”, a gente diz. Mas o hoje foi incrível. Não teve necessariamente mudança, mas teve sentido. E resposta ali, imediata. Esta semana foi a Semana Internacional da Amamentação (de 1 a 7 de agosto) e não tinha como programar algo expressivo, que demandasse uma superprodução. É Médicos Sem Fronteiras e a gente realmente não reserva toda aquela grana para pequenos eventos. A criatividade precisa voar, mas nem muito longe. Uma coisinha simples, intimista, pra elas. Uma sessão com um filme educativo e uma roda de conversa entre mulheres. Sem expectativas, pelo menos de minha parte. Interessante o tanto que a gente tenta se educar durante a vida inteira para não se deixar levar pelas expectativas, o tempo que se investe nisso. Quando vê que, naturalmente, elas deixaram de estar ali, nem que por um só instante, é libertador. E a gente ganha asas dessa liberdade. Sentadas ali, nos tapetes coloridos e tão respeitados por todos aqui,

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O autora (na foto, ao centro) é promotora de saúde em Maiduguri, capital do estado de Borno, na Nigéria, desde junho de 2017, coordenando atividades de educação em saúde em dois centros de nutrição no sul da cidade. É responsável pela equipe de agentes comunitários que monitoram a situação nutricional da população na região, encaminhando crianças desnutridas para tratamento e apurando informações sobre sua vulnerabilidade.

Promotora de saúde relata sua experiência junto a um grupo de lactantes na Nigéria, por ocasião da Semana Internacional da Amamentação, no último mês de agosto

muitas com suas crianças no colo ou amarradas às costas, super atentas. Perturbadas por um ou outro choro estridente, mas ali, presentes. A projeção tímida, improvisada em uma lousa branca na tentativa de um pouco mais de nitidez, hipnotizava. As cabeças acompanhando, acenando positivamente com entendimento, e as mãos tocando os seios, se entendendo parte daquilo tudo. Tantas perguntas. Sorte ter uma pediatra ali, um palpite assertivo. Acaba a sessão, mas não as perguntas. Amamentar logo que nasce o bebê pode? Deve. Engravidar enquanto amamenta pode? Pode. Amamentar enquanto grávida pode? Pode. Meu primeiro leite grosso é ruim? É lindo e o mais importante. Misturar água com leite materno antes dos seis meses pode? Não pode, gente. Mas e se a gente não tiver leite suficiente? Tem que complementar com fórmula. E se não tiver dinheiro pra comprar? Vem até aqui que a gente arruma. Aí, ó. Resultado imediato. Não só porque a gente tem uma solução, mas porque a gente tem respostas para as perguntas, recomendações e colo pra elas e para as crianças. Duas foram parar comigo durante a sessão. É dividir, e isso alivia. Me esforço, mas ainda não entendo todas as palavras. O alívio me pega também. Transbordou recompensa da gente. Hoje fez sentido. g

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REPORTAGEM

Quando salvar vidas põe em risco a própria saúde A rotina de trabalho extenuante, o estresse das urgências e emergências, a pressão de salvar (e também de perder) vidas humanas, tudo isso faz dos médicos uma das categorias mais expostas ao comprometimento de sua própria saúde física e mental. Um dado alarmante é que profissionais de medicina estão entre as classes mais sujeitas a quadros de depressão e até suicídio. Segundo a American Foundation for Suicide Prevention, em média, 300 a 400 médicos cometem suicídio por ano em todo o mundo. Um estudo da mesma entidade, feito em 2008, aponta que o risco de suicídio entre médicos é 70% maior­do que na população em geral. Entre mulheres médicas esse índice é ainda mais alarmante e chega a 400%. Assim como entre a população em geral, o uso abusivo de álcool e drogas pode ser um fator de risco. No Brasil, dados do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) mostram que houve um aumento significativo nos registros de suicídio em atestados de óbito de médicos na década passada, entre os anos de 2000 e 2009. Nesse mesmo período, o suicídio foi a segunda maior causa de mortes entre médicos, perdendo apenas para acidentes automobilísticos. Esse número deve ser 0

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As dificuldades encontradas pelos médicos e os transtornos psicológicos adquiridos devido à exaustiva rotina profissional

Suicídio é segunda maior causa de mortes entre profissionais da medicina, perdendo só para acidentes automobilístico. Médicos estão especialmente vulneráveis no início da carreira e a demora na busca por tratamento agrava o problema. ainda maior, já que médicos podem ter dificuldades e dúvidas ao atestar uma morte como causada por suicídio, seja por motivos legais, religiosos, ou mesmo para proteger a privacidade do paciente em relação à opinião pública. Mesmo em casos menos graves, médicos que sofrem de algum tipo de distúrbio mental leve devem, o quanto antes, procurar atendimento e acompanhamento psiquiátrico especializado, uma vez que a demora em

iniciar o tratamento agrava o problema e dificulta sua reversão. Profissionais da medicina também relatam que há uma certa dificuldade e até resistência da população em aceitar o fato de que médicos também ficam doentes e passam por crises de saúde física e mental, muitas vezes de modo ainda mais intenso, por conviverem profissionalmente e terem um entendimento científico de sua condição.

CAMPANHA

Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio no Brasil. O objetivo é alertar a população sobre a realidade do suicídio no país e no mundo e suas formas de prevenção e tratamento. Desde 2014, durante o mês de setembro são feitas ações por meio da identificação de locais públicos e particulares com a cor amarela. São feitas ações para ampla divulgação de informações sobre o tema. O movimento é promovido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e a International Association for Suicide Prevention (IAPS), tendo instituído internacionalmente o Dia Mundial para Prevenção do Suicídio em 10 de setembro. Há mais informação sobre a campanha no site www.setembroamarelo.org.br. g

Setembro amarelo

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SOBRE A DOENÇA

Síndrome de Burnout por Fábio Aurélio Guzzi. Psicólogo A Síndrome de Burnout, descrita em 1974 por Herbert Freudenberger (foto ao lado), um médico americano, é atualmente considerada um fenômeno psicossocial que resulta do estresse crônico, típico do cotidiano do trabalho, quando existe excessiva pressão, conflitos, poucas recompensas emocionais e não reconhecimento. É uma resposta a um estado prolongado de estresse que provoca esgotamento físico e mental intenso. A tentativa de adaptação a esse estado de estresse pode gerar a cronificação do mesmo quando os métodos de enfrentamento falham ou não são suficientes. O ambiente de trabalho é percebido como uma ameaça ao indivíduo, repercutindo no plano pessoal e profissional, com demandas maiores do que a sua capacidade de enfrentamento. Atinge de preferência profissionais ligados ao trato com pessoas, como por exemplo, áreas de saúde, educação, assistência social, recursos humanos, agentes penitenciários, bombeiros, policiais e mulheres que enfrentam dupla jornada. SINTOMAS O termo burnout, deriva do inglês to burn out que significa em língua portuguesa “queimar por completo” ou “consumir-se” e os sintomas principais são: necessidade de se afirmar ou provar alguma coisa para si próprio ou para outros; descaso com as necessidades pessoais, até mesmo as mais básicas; dedicação intensificada ao trabalho nem sempre ordenadamente; recalque de conflitos; reinterpretação de valores na maior parte das vezes negativamente; insatisfação; negação do outro; recolhimento; isolamento de pessoas significativas; mudanças muito evidentes de comportamento; despersonalização; vazio

Estresse da residência Médicos atuantes em Araraquara consultados pela reportagem relatam que há uma especial vulnerabilidade dos médicos ao risco sobre sua própria saúde durante o período de residência médica, nos primeiros anos de atuação profissional intensa e especializada, com jornadas muitas vezes superiores a 20 horas seguidas de trabalho em regimes de plantão. São geralmente também os jovens profissionais os que relutam e demoram mais na procura por um diagnóstico e tratamento. A otorrinolaringologista Tatiana Gonçalves e o nefrologista Henrique Carrascossi estão entre os muitos médicos e médicas que já viveram situações de estresse ou depressão Ano 19 | n.68 | Setembro de 2017

interior; depressão e negatividade; sensação de que não está se fazendo o necessário dentro e fora do trabalho; sintomas físicos e esgotamento profissional, este último já se caracterizando como estado de emergência, sendo necessário acompanhamento médico e psicológico. Nesse estágio podem aparecer sintomas como: fortes dores de cabeça, tonturas, tremores, falta de ar, oscilações de humor, distúrbios do sono, dificuldade de concentração e outros como perda ou aumento de apetite, variações na pressão arterial, problemas no sistema digestório, problemas na pele, diabetes, diminuição da libido, entre outros. DESPERSONALIZAÇÃO Uma dimensão típica da Síndrome de Burnout, que a distingue do estresse convencional é a despersonalização que é uma maneira do profissional defender-se da alta carga emocional que vem do contato direto com outras pessoas. Nesse caso, sobrevém atitudes insensíveis em relação às pessoas dando a nítida impressão de que uma barreira foi criada para que os sofrimentos dos outros não penetrem em seu campo vivencial. Segundo Viktor Emil Frankl (1905-1997), psiquiatra e filósofo austríaco, o ser humano “...é já de si um ser ordenado ao sentido...”, sendo assim, todas essas situações podem levar a pessoa a não mais enxergar algum sentido em sua vida, e isto é uma situação que pode levá-la ao mais fundo abismo de sua existência, o que se torna uma situação perigosa devido a estar muito próximo da depressão, podendo levar ao suicídio em muitas ocasiões. E ainda há de se citar todo o comprometimento que essa situação causa na família e nas pessoas próximas, que se não estiverem bem orientadas e por dentro da situação, podem ter atitudes inconvenientes e contrárias ao tratamento da pessoa afetada. g

em função da dedicação intensa à de sono, entre outros sintomas”, relata. profissão. Após o diagnóstico, Gonçalves começou “Demorou para chegarmos a um um tratamento medicamentoso, diagnóstico, pois não procurei ajuda logo psicoterápico e foi afastada das nos primeiros sintomas”, diz Gonçalves. atividades diárias por um período, até “Familiares me ajudaram recuperar-se plenamente. e procurei a avaliação de O médico nefrologista Mortalidade um psiquiatra”, relata Henrique Carrascossi por suicídio ela, que passou por um também conta como lidou é maior entre com problemas relacionados quadro depressivo e sofreu uma síndrome médicos do que ao estresse da rotina médica. chamada de Burnout na população “Eu achava que era uma (veja no quadro acima) pessoa forte e que, por isso, em geral durante seu primeiro não viria a sofrer os sintomas ano de residência do estresse”, reconhece, “mas médica. “Eu sentia cansaço intenso, percebi que realmente era uma reação estresse, instabilidade emocional, física a todo o estresse psicológico a irritabilidade, desânimo, perda de que eu estava submetido em minha apetite, insônia, desatenção, distúrbios rotina de trabalho”. g 7


APM ARARAQUARA

Médicos precisam se reinserir na política de saúde, diz presidente Como se interessou pela medicina? Desde a escola, sempre gostei de temas de saúde e medicina foi o único curso que quis prestar e realizar. Desde o ginásio. Meu irmão mais velho também se interessava pela área e começou a cursar medicina em 1977. Eu ingressei no curso de medicina da PUC Campinas em 1982 e formei-me em 1987, completando agora 30 anos de formado. No final da faculdade interessei-me por cirurgia vascular. Voltei para Araraquara para atuar nesta especialidade, na qual atendo desde 1991, na Santa Casa e também em outros hospitais da cidade, atuando junto com profissionais como Eduardo Malavolta. g

Como foi seu ingresso na APM? Fui convidado para entrar na APM pelo doutor Jorge Hudari Neto, para integrar a diretoria, em 2002. Fui também vice-presidente e membro do conselho fiscal da entidade. Mas antes, em 1994, fui do conselho técnico da Unimed e depois, em 1997, fui para a diretoria executiva da Unimed. Também atuei no conselho técnico e no conselho de ética do Hospital São Paulo e no conselho fiscal da Unimed, sempre convidado a estar envolvido na colaboração com as instituições da área médica.

Luís Henrique Brandão Falcão

Médico formado pela PUC Campinas, especialista em cirurgia vascular. Foi eleito presidente da Associação Paulista de Medicina - Araraquara em setembro. sociais e científicos, sem deixar de trabalhar na defesa da classe médica. Queremos manter e trazer os associados para dentro da nossa associação, integrando e unindo a classe para conseguir que se atendam as nossas reivindicações.

“Temos que tentar restabelecer o papel e a posição dos médicos no comando das políticas de saúde e voltarmos a ter um papel mais importante nesse sentido”

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Qual sua visão, agora, como presidente eleito da APM Araraquara? Vamos dar continuidade ao trabalho feito durante as duas gestões do doutor Renato Chediek, que organizou a administração financeira da associação, com transparência e boa aplicação dos recursos. Foram feitas reformas importantes na sede social e no clube de campo da APM. A Casa do Médico está bem organizada, assim como o clube de campo, sempre com os investimentos dentro do orçamento e de modo que possibilitou o uso efeito dessas instalações, com conforto e bom serviços à disposição aos associados. g

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Como vê o papel do médico junto à sociedade? Temos que tentar restabelecer o papel e a posição dos médicos no comando das políticas de saúde e voltarmos a ter um papel mais importante nesse sentido. Muitas vezes, hoje, os médicos assumem papel secundário no enfrentando dos problemas da área. A ausência dos médicos na gestão é danosa para o cidadão. É preciso delegar tarefas importantes aos profissionais que são competentes. O médico tem se excluindo da política da saúde. É preciso, por exemplo, mobilizar os colegas contra projetos governamentais que levam à desvalorização da carreira do médico. Mas é preciso ter maior participação para que haja maior valorização. Precisamos ocupar esse espaço e não deixar outros ocuparem um espaço decisório que deve ser do médico. g

Há um plano específico para sua gestão à frente da associação? Sabemos o que é preciso fazer. Mas ainda vamos refletir com calma durante o início do mandato sobre o que exatamente será feito. Além da administração, um dos focos da APM continuam sendo os eventos g

“Esperamos contribuir para estimular a participação dos médicos na defesa da melhoria dos serviços de saúde oferecidos ao cidadão”

Qual o papel da APM Araraquara neste contexto? Esperamos, por meio da Associação Paulista de Medicina em Araraquara, poder contribuir para estimular a participação dos médicos na defesa da melhoria dos serviços de saúde oferecidos ao cidadão, também realizando eventos sociais e científicos e outros programas de interesse da classe médica e da sociedade. g

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ELEIÇÕES 2017

APM Araraquara elege nova diretoria Uma nova diretoria assumiu a gestão da Associação Paulista de Medicina - Secção Araraquara, em setembro de 2017. Segundo o presidente eleito, o médico cirurgião vascular Luis Henrique Brandão Falcão, a ideia é dar continuidade aos programas de melhoria da infra-estrutura e de organização administrativa da entidade (leia entrevista na página ao lado). A chapa tem como vice-presidente o médico dermatologista Sérgio Delort (veja lista à direita). Balanço de mandato Entre as principais realizações da gestão que se encerra, após dois mandatos do médico radiologista Renato Chediek, estão as reformas na Casa do Médico e no clube de campo da APM em Araraquara, o que impulsionou a realização de eventos nesses locais. Chediek explica que foram feitas adaptações estruturais no prédio para possibilitar a realização de projetos educacionais e eventos científicos. “Por conta das reformas e adequações, a Casa do Médico agora conta com acessibilidade para todos, já que um elevador foi instalado no prédio e uma rampa que dá acesso à entrada foi implantada”, conta. O prédio passou por uma adequação completa com base nas normas de segurança estabelecidas pelo Corpo de Bombeiros. Além das reformas estruturais, uma nova iluminação foi instalada no auditório e os jardins internos e externos foram restaurados. “Não teríamos conseguido realizar quase nada se não

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Acima, médicos acompanham a eleição. A seguir, membros da diretoria que inicia mandato à frente da associação: Presidente: Dr. Luís Henrique Brandão Falcão Vice-Presidente: Dr. Sérgio Delort 1ª Secretária: Dra. Ticiane Corina Ribas 2ª Secretária: Dra. Renata Ferlin Arbex 1º Tesoureiro: Dr. Sidney Antonio Mazzi 2º Tesoureiro: Dr. Marcus Vinícius Platzer do Amaral Diretor de Defesa Profissional: Dr. Fernando Linares Diretora Cultural e Científico: Dra. Fabiana A. Alves Madureira Diretor Social: Dr. Eli Aparecido dos Santos

fosse a parceria com a APM estadual e, principalmente, a dedicação dos membros dessa diretoria, que conseguem tempo nas suas agendas para dedicar à nossa associação”, destaca. “Agradeço a todos pela valiosa colaboração.” Ações de comunicação também receberam atenção, com o objetivo de aproximar a APM Araraquara da comunidade local. Além da publicação trimestral desta revista, foi firmada parceria com Grupo EPTV para veicular no portal ACidade ON e na rádio Jovem Pan uma columa com dicas de saúde para a população, com a participação ativa de médicos associados. O material está também no site da APM local: www.apmararaquara.org. g

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COM A PALAVRA

Declaração polêmica de ministro contra médicos alerta para os dilemas do setor

Os médicos que atuam no Sistema Único de Saúde (SUS) continuam sendo alvos de investigações e polêmicas que envolvem sua jornada de trabalho. O tema voltou a ser discutido após uma declaração recente do ministro da Saúde, Ricardo Barros, em que ele diz: “Vamos parar de fingir que pagamos o médico e o médico [parar de] fingir que trabalha”. No mesmo discurso, como alternativa para Ricardo Barros, ministro da saúde: os médicos tentar resolver esse problema, o “fingem” que trabalham ministro defendeu a adoção da biometria digital nas unidades de saúde pública do país, com objetivo de gerar uma fiscalização mais confiável do trabalho dos médicos. A afirmação do ministro não agradou as entidades médicas, que saíram em defesa dos profissionais da área. Para o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), Lavínio Nilton Camarim, é inaceitável que o governo transfira para a classe médica a responsabilidade por um mau atendimento à população. Já o Conselho Federal de Medicina (CFM) reivindicou condições mínimas para o bom funcionamento dos serviços, pois a estimativa é de que 150 milhões de brasileiros dependem

unicamente do SUS. Segundo o médico especialista em saúde pública Rodolpho Telarolli Júnior, os problemas que envolvem a jornada de trabalho dos médicos que atuam no SUS são muitos e não podem ser resumidos a fraudes realizadas por alguns médicos. Telarolli diz que, além dos problemas estruturais, falta de equipamentos e medicamentos nos hospitais, o SUS convive Rodolpho Tellarolli Junior: com outros dilemas que conproblemas do setor vão tribuem para a intensificação muito além da jornada dos chamados “médicos fantasmas” na rede pública de saúde. Tais dilemas vão desde os baixos salários quando comparados aos honorários ganhos em consultórios até a grande quantidade de médicos residentes. Telarolli Júnior lembra que há quatro anos o SUS de Araraquara implantou o sistema de biometria digital. “O ponto digital foi a solução para que os médicos permanecessem dentro das unidades e contribuiu para diminuir fraudes no sistema”, explica. No momento crítico pelo qual o país atravessa, diz, a saúde pública continua a chamar atenção e o mínimo que a população e os profissionais esperam é ter condições básicas de atendimento. g

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Ano 19 | n.68 | Setembro de 2017


DIVULGAÇÃO DA MEDICINA

Problemas respiratórios foram tema de evento de conscientização Durante dois dias, uma equipe médica de pneumologistas esteve em shopping center atendendo o público para esclarecer dúvidas e difundir informações sobre doenças O evento “Venha Respirar Melhor”, realizado durante um final de semana (12-13) de agosto no Shopping Jaraguá Araraquara, ajudou a conscientizar a população sobre problemas gerados por doenças respiratórias. O evento contou com a apresentação do coral RespirAR, além de atividades como exercícios de canto, técnicas de respiração e palestras. A pneumologista Renata Arbex, organizadora do evento, conta que a realização foi motivada pela intenção de reverter a falta de informação dos pacientes sobre o tema. “Eu ficava inconformada como o fato de pacientes chegarem ao consultório com uma visão equivocada dos problemas de que sofriam”, diz. “Por isso a ideia do evento é levar mais informações para o público e mostrar, por exemplo, que a insuficiência respiratória não é algo comum e deve ser tratada corretamente”, explica Arbex. Durante os dois dias de evento, uma equipe médica esteve no local atendendo o público para esclarecer dúvidas e difundir informações. Além das atividades, vídeos informativos com orientações sobre doenças respiratórias, como asma, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), tromboembolismo pulmonar, tabagismo, câncer de pulmão e a síndrome da apnéia obstrutiva do sono (SAOS) foram transmitidos ao público em televisores instalados no local. Também participaram do evento os pneumologistas Flávio Ferlin Arbex, Ticiane Ribas, Eduardo Bonini, além da psicóloga Susana Zaniolo Scotton e o cirurgião torácico Caio Cirino. Casos de superação Joselise Angeli é paciente da pneumologista há cinco anos e pode ser considerada um exemplo de superação. Ela conta que ficou oito meses dependendo de ajuda para fazer praticamente tudo e seu quadro era dado Ano 19 | n.68 | Setembro de 2017

Equipe organizadora do evento (acima), com a pneumologista Renata Arbex (à esq.) e integrantes do coral RespirAR em apresentaçãoo (à dir.): fazendo a diferença

Exibição de vídeos informativos sobre asma, obstrução pulmonar, tabagismo, câncer de pulmão e apnéia do sono como terminal por alguns médicos. “Ninguém descobria o que eu tinha e a situação só piorava, foi quando fui a um cardiologista que me indicou um pneumologista”, relata. Angeli é uma das integrantes do coral RespirAr e se emociona ao falar sobre o motivo de

sua recuperação. “Sem o tratamento da Renata provavelmente eu não estaria aqui hoje, por isso cantar significa tanto para quem, há algum tempo atrás, mal respirava direito”, conta. A analista Keila Ribeiro Prado também faz parte do coral e superou um quadro crônico de insuficiência respiratória. Segundo ela, os pacientes iniciam o tratamento e não imaginam o quanto terão de desenvolvimento. “Eu sofria de muita falta de ar e com o tratamento minha qualidade de vida aumentou 100%”. Ainda de acordo com Keila, “a união do grupo e formação do coral incentivou todos a continuar lutando e somos gratos por isso.” g 11


FORA DO CONSULTÓRIO

Ao som do jazz na pista de dança Acervo Clube Araraquarense

Cirurgião Rafael Braga conta como passa boa parte de seu tempo longe da clínica e de hospitais, organizando e frequentando o Clube do Jazz

Médico de muitos hobbies, o cirurgião geral Rafael Braga é tenista, ciclista, já foi jogador de basquete e, hoje, tem como um de seus principais passatempos e opção de lazer organizar os encontros do Clube do Jazz. Eles acontecem na boate do Clube Araraquarense, na última quinta-feira de cada mês. Braga conta que a ideia de montar o Clube do Jazz começou muito tempo atrás, mas só virou realidade no começo deste ano. “Apresentei a proposta para o presidente do Clube Araraquarense, na época, que foi bem aceita. Eles cederam o espaço e divulgaram o evento para todos os sócios”, conta.

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A paixão pela música vem do berço: seu pai era violinista e Braga cresceu ouvindo boa música, hábito que cultiva até hoje, mesmo durante as cirurgias. “Não sou só eu; muitos médicos gostam de colocar música na sala cirurgia, isso ajuda a relaxar e concentrar durante o trabalho”, explica. Além de organizar o Clube do Jazz, Braga aos seus 68 anos de idade, pedala diariamente e joga tênis todas as semanas. Quando era universitário, jogava basquete pelo time da faculdade e diz que sempre teve o esporte como combustível para o corpo. A música é para a alma. g

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MEMÓRIA VIVA

Filho de Raffaele Lia e Annunciata Sambiase, imigrantes vindos da Itália, no final do século XIX, Nicolino Lia nasceu em Araraquara, no dia 4 de fevereiro de 1913, sendo o caçula de oito irmãos. Empreendedores natos, José e Domingos fundaram em 1927 a Indústria Reunidas Lia, cuja principal atividade era produção de papel. Em 1942, tendo também o irmão André como sócio, inauguraram a Fábrica de Meias Lia. Comandaram as duas empresas com extrema dedicação até a década de 50, quando foram obrigados a fechar as portas devido à falta de matéria-prima importada, decorrente das situações impostas pela Segunda Guerra Mundial. Esse momento difícil intensificou a união de toda a família, inclusive dos irmãos mais novos. Savério e Nicolino não só ajudaram a superar os obstáculos, como compartilharam um mesmo ideal e formaram-se médicos. Nicolino Lia casou-se em 28 de junho de 1936, com Honorina Comelli Lia, com quem teve cinco filhos: Raphael Carlos Comelli Lia, Maria Ignez Lia Neva, Marisa Lia Mondelli, Nicolino Lia Júnior e Marco Antônio Lia. Além de chefe médico da enfermaria da Santa Casa de Araraquara, do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS) e da Associação Ferroviária de Esportes, Nicolino Lia foi cirurgião dentista e professor universitário como catedrático na UNESP, na disciplina de Patologia e Terapêutica Aplicada. Também destacou-se na presidência do Aero Clube de Araraquara, onde foi piloto e instrutor de aviação com cinco mil horas de vôo. Seu filho Nicolino Junior relembra duas histórias interessantes que ocorreram com seu pai por ser ele um grande amante da aviação. Numa delas, uma sabotagem motivada por conflitos políticos da época fez com que desconhecidos enchessem o tanque de seu avião com água. Ao tentar levantar voo, o avião em que vijava Nicolino não subia, até que conguiu Ano 19 | n.68 | Setembro de 2017

Arquivo pessoal

Nicolino Lia: uma vida dedicada à saúde dos araraquarenses

Além de atuar como médico generalista e chefiar equipes em hospitais, ele foi cirurgião dentista, professor universitário e instrutor de aviação pousar. Outra aconteceu durante a revolução paulista de 1932, quando o governo proibiu a veiculação de táxis aéreos e lhe apareceu um rapaz desesperado dizendo que a mãe estava morrendo e que precisava ir para São Paulo vê-la. Mesmo com Nicolino dizendo que não poderia levar, o rapaz persistia no pedido. Após muita insistência, o médico decidiu ajudá-lo. Mas ao se preparar para voar o rapaz se revelou ser um policial e o levou preso para São Paulo. Nicolino Lia foi ainda presidente do Lions Clube e do Hospital São Paulo. Zeloso de seu exemplo, fez questão de transmitir aos cinco filhos, ainda crianças, a importância de participarem das discussões e juntos enfrentarem as dificuldades. Em casa, o lema era “tudo é da família e pela família”. Dois de seus filhos seguiram

seus passos, tornaram-se médicos, escolheram a mesma especialidade e hoje dividem a mesma clínica, que leva o nome de Clínica Dr. Nicolino Lia. Atualmente, a clínica funciona na mesma casa em que moravam com o pai, que foi adaptada para receber os pacientes, porém a maior parte do imóvel e decoração foi preservada em homenagem ao Nicolino. Sempre um pai muito presente, apesar de trabalhar muito, o maior ensinamento deixado por ele aos filhos e preservado até hoje é o de união familiar e a cumplicidade de sempre buscarem ajudar uns aos outros. Nicolino Lia gostava de passear com os filhos, os levava para ver o trem e, segundo seu filho homônimo, o pai os levava até no hospital aos finais de semana, quando era chamado para urgências, o que também contribuiu para que seguissem seus passos. O filho Nicolino Jr. lembra que o pai sempre exerceu a medicina como um sacerdócio, tratava todos seus pacientes com a mesma dedicação e carinho. Nunca se importou muito com a remuneração por meio de pacientes particulares, pois queria mesmo é servir a população carente. Trabalhava com EMDS e como médico do INAMPS, na época em que se uniram esses dois institutos. Como chefe na Santa Casa, atendia o povo mais humilde e sabia de cor o livro “Semiologia Médica”, de Vieira Romero, um texto base da medicina. Nicolino era um grande generalista e trabalhou com ortopedia, cirurgia geral, urologia e neurocirurgia. Também foi grande torcedor da Ferroviária. Era muito estimado pela família e é lembrado por todos como um homem divertido. Foi motociclista, além de cirurgião dentista, professor universitário, piloto e instrutor de avião. Nicolino viveu até o último dia de sua vida em Araraquara. Vítima de um AVC, faleceu no dia 4 de abril de 1994, deixando um legado de alegria, trabalho, respeito e sobretudo, união. g 13


EVENTO CULTURAL

‘Cinema, Conversa e Psicanálise’ tem novas exibições Dia 06 de Outubro - 19h30

ONDAS DO DESTINO (DMN 1996)

COMENTÁRIOS: Maria Letícia Wierman, psicóloga formada pela USP em Ribeirão Preto, mestre em Psicologia Clínica pela USP em São Paulo, psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto. Dia 10 de Novembro - 19h30

NISE: O CORAÇÃO DA LOUCURA (BRA 2016)

Equipe organizadora e convidados do evento, na Casa do Médico, durante a edição de agosto, que apresentou o filme “Laranja Mecânica”, debatido pela médica e psicanalista Maria Auxiliadora Campos, da USP de Ribeirão Preto. No início de setembro, a convidada também liderou o debate sobre o filme “Cisne Negro”. Confira, ao lado, a programação das próximas edições.

COMENTÁRIOS: Paula Costa Franco Esteves, psicóloga clínica, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, especialista em terapia de casal e família. Promove cursos e grupos de estudos na abordagem junguiana.

CURTAS DA SAÚDE O número de fumantes passivos no Brasil diminuiu quase pela metade nos últimos oito anos, de acordo com pesquisa do Ministério da Saúde, de 12,7% em 2009 para 7,3% em 2016. g

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O governo federal considerou encerrado, no início de setembro, o surto de febre amarela no país. O último caso oficial no país foi registrado em junho, no Espírito Santo. g

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) suspendeu a venda de 41 planos de saúde de 10 operadoras, após reclamações de usuários em relação à qualidade do atendimento. g

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RECEITA MÉDICA

Salmão ao molho de Mostarda com Risoto de Lula CHICO OLIVI Chef de cozinha e sommelier

MOLHO DE MOSTARDA

Ingredientes: 1 colher de sopa de mostarda Dijon 1 colher de sopa de mostarda Ancienne 1 colher de sopa de creme de leite 1 dente de alho picado 1/2 cebola picada Noz Moscada a gosto Modo de preparo Frite a cebola e o alho em um fio de azeite. Quando estiverem dourados, adicione as mostardas, o creme de leite e um pouco da noz moscada até o molho engrossar.

RISOTTO

Ingredientes: 2 xícaras de café de arroz para risotto 150ml de vinho branco seco 300g de lula fresca em anéis largos

ESPAÇO ULIVI GASTRONOMIA

Eventos privados e personalizados

www.espacoulivi.com Fone: (16) 99610 3433

500ml de caldo de peixe ou legumes 1/2 cebola picada 2 dentes de alho picados Salsinha e Cebolinha picadas Açafrão em pó Modo de Preparo Frite a cebola e o alho no azeite. Assim que estiverem dourados, deixem fritar por mais alguns segundos e, logo após, coloque o vinho branco e deixe secar. Após este processo, regue o risotto com o caldo até chegar ao ponto. Separadamente, frite as lulas em um fio de azeite e misture-as no risoto.

SALMÃO

Ingredientes: 400g de filet de salmão cortados em posta 6 flores de brócolis Modo de Preparo Grelhe o filet do peixe em uma panela antiaderente sem óleo, selando todos os lados (Dica: sempre comece pelo lado da pele). Depois salteie os brócolis na mesma panela e sirva. Harmonização Chardonnay Argentino Bodegas Rutini – Fresco, complexo e impactante, com estrutura e corpo ideais para acompanhar os temperos e as gorduras do prato. g

Dr. Hélio Primiano Jr.

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Profile for Editora Casa da Árvore

Revista Casa do Médico (Setembro 2017)  

Publicação trimestral da Associação Paulista de Medicina (APM) - Secção Araraquara

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Publicação trimestral da Associação Paulista de Medicina (APM) - Secção Araraquara

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