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É presidente e membro fundador do Group for the Study of the Psychoanalytic Process e analista didata e membro fundador do Berkshire Psychoanalytic Institute, da Contemporary Freudian Society e da National Psychological Association for Psychoanalysis.

Antonino Ferro Analista didata e supervisor da Società Psicoanalitica Italiana

Dominique Scarfone É professor e pesquisador do departamento de psicologia da Université de Montréal, onde leciona teoria psicanalítica e faz supervisão clínica. Psicanalista em sua clínica particular, é analista supervisor e membro da Société Psychanalytique e do Institut Psychanalytique, ambos em Montreal.

1.

Introdução: de um universo de presenças a um universo de ausências

2. Um espelho vazio: reflexões sobre a não representação

3. A tela incolor: representação, ação terapêutica e a criação da mente Presença e ausência: estudos teóricos

4. De traços a signos: apresentação Organizadores

Howard B. Levine | Gail S. Reed | Dominique Scarfone

Estados não representados e a construção de significado Contribuições clínicas e teóricas

PSICANÁLISE

Aspectos clínicos e teóricos da representação: uma introdução

Parte II

Estados não representados e a construção de significado

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Gail S. Reed

Estes textos transmitem e investigam o espírito do trabalho do psicanalista que, como o artista, deve manter os fragmentos da experiência vivos e reunidos a fim de criar um novo significado. Portanto, a leitura deste livro é uma experiência estética que oferece impressões novas e prazerosas, que poderão conduzir a uma integração inovadora e pessoal, expandindo os horizontes da teoria analítica. O texto nos oferece uma percepção aguçada e ampla da psicanálise e de suas possibilidades transformadoras.

Parte I

PSICANÁLISE

É docente no Psychoanalytic Institute of New England East, analista supervisor do Massachusetts Institute for Psychoanalysis e psicanalista clínico em Brookline. Também é membro fundador do Boston Change Process Study Group e do Boston Group for Psychoanalytic Studies.

Conteúdo

Levine | Reed | Scarfone

Howard B. Levine

e representação

5. Figurabilidade psíquica e estados não representados

6. “Se apenas soubéssemos o que existe!” 7. Estados mentais “não representados” Parte III

Explorações clínicas

8. Pulsão, representação e as demandas da representação

9. A descoberta do guarda-chuva 10. 11. 12.

Em busca da simbolização: o trabalho de sonho do analista O inconsciente inacessível e a rêverie como um caminho de figurabilidade O processo de representação na primeira infância


Estados não Representados e a Construção de Significado Contribuições clínicas e teóricas

Organizadores

Howard B. Levine | Gail S. Reed | Dominique Scarfone Tradução

Patrícia Fabrício Lago

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Authorised translation from the English language edition published by Karnac Books Ltd. Título original: Unrepresented States and the Construction of Meaning: Clinical and Theoretical Contributions © 2013 Howard B. Levine, Gail S. Reed e Dominique Scarfone © 2016 Editora Edgard Blücher Ltda. Equipe Karnac Books Editor-assistente para o Brasil Paulo Cesar Sandler Coordenador de traduções Vasco Moscovici da Cruz Revisora gramatical Beatriz Aratangy Berger Conselho consultivo Nilde Parada Franch, Maria Cristina Gil Auge, Rogério N. Coelho de Souza, Eduardo Boralli Rocha

F i c ha c ata l o g r á f i c a

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br

Estados não representados e a construção de significado contribuições clínicas e teóricas / organização de Howard B. Levine, Gail S. Reed, Dominique Scarfone ; tradução de Patrícia Fabrício Lago. – São Paulo : Blucher, 2016. 388 p. (Série Ideias e Aplicações Psicanalíticas)

Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 5. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, março de 2009. É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da Editora.

Bibliografia ISBN 978-85-212-1134-1 Título original: Unrepresented States and the Construction of Meaning: Clinical and Theoretical Contributions 1. Psicanálise I. Levine, Howard B. II. Reed, Gail S. III. Scarfone, Dominique. IV. Lago, Patrícia Fabrício. 16-1409

Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.

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CDD 150.195

Índices para catálogo sistemático: 1. Psicanálise

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Conteúdo

Série Ideias e Aplicações Psicanalíticas 9 Editores e colaboradores 11 PARTE I Aspectos clínicos e teóricos da representação: uma introdução 1. Introdução: de um universo de presenças a um universo de ausências 21 Gail S. Reed, Howard B. Levine & Dominique Scarfone

2. Um espelho vazio: reflexões sobre a não representação 41 Gail S. Reed

3. A tela incolor: representação, ação terapêutica e a criação da mente 73 Howard B. Levine

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conteúdo

PARTE II Presença e ausência: estudos teóricos 4. De traços a signos: apresentação e representação 115 Dominique Scarfone

5. Figurabilidade psíquica e estados não representados 141 César Botella & Sara Botella

6. “Se apenas soubéssemos o que existe!” 175 Laurence Kahn

7. Estados mentais “não representados” 211 Marion M. Oliner

PARTE III Explorações clínicas 8. Pulsão, representação e as demandas da representação 237 Marilia Aisenstein

9. A descoberta do guarda-chuva 257 Jacques André

10. Em busca da simbolização: o trabalho de sonho do analista 273

Roosevelt M. S. Cassorla

11. O inconsciente inacessível e a rêverie como um caminho de figurabilidade 295

Giuseppe Civitarese

12. O processo de representação na primeira infância 321

Christine Anzieu-Premmereur

Referências 341 Índice remissivo 367

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PA RT E I Aspectos clínicos e teóricos da representação: uma introdução

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1. Introdução: de um universo de presenças a um universo de ausências Gail S. Reed, Howard B. Levine & Dominique Scarfone

Nas últimas décadas, o campo analítico ampliou-se significantemente em seu escopo. Um crescente número de analistas considera, agora, que a tarefa terapêutica requer que paciente e analista trabalhem juntos para fortalecer, ou criar, a estrutura psíquica anteriormente frágil, inexistente ou funcionalmente inoperante. Esse ponto de vista, que pode se aplicar a todos os pacientes, mas que é especialmente relevante para o tratamento de pacientes e de estados mentais não neuróticos, cria um contraste com a suposição mais tradicional de que a tarefa terapêutica envolveria a descoberta da dimensão inconsciente de uma formação de compromisso patológica que aprisiona um ego potencialmente saudável. O contraste ao qual queremos chamar a atenção é aquele que existe grosseiramente entre as formulações sobre estrutura e

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introdução

funcionamento psíquicos que eram consideradas como tendo sido suficientemente bem explicadas pelas hipóteses da teoria topográfica de Freud e aquelas que não eram.1 As primeiras são modeladas a partir da neurose e da interpretação dos sonhos, onde os conflitos entre desejos relativamente bem definidos (saturados) e psiquicamente representados são entendidos como operando sob a égide do princípio do prazer-desprazer. As últimas envolvem um nível diferente de funcionamento e registro psíquico, que está mais associado a trauma psíquico pré-verbal e/ou intenso, bem como a estados mentais primitivos. Operam “além do princípio do prazer”. De forma complementar, a teorização psicanalítica começou a mudar de uma concepção exclusiva ou predominantemente de um universo de presenças, esquecido, oculto ou disfarçado, mas disponível para ser descoberto, para um universo negativo de vazios, onde a criação da estrutura faltante, muitas vezes referida por “representação” pela designação metapsicológica freudiana, torna-se necessariamente parte da cura (por exemplo, Bion, 1970; Botella & Botella, 2005; Green, 1993, 1997; Roussillon, 1999; Winnicott, 1971c). A representação, independentemente de como seja conceituada psicanaliticamente, é o ápice de um processo através do qual impulso e conteúdo, e em circunstâncias favoráveis, versões ​​ disfarçadas daquela parte do conteúdo que está inconsciente, devem estar todos ligados. É um termo com raízes históricas na metapsicologia de Freud, e seu uso psicanalítico remete a essa tradição e domínio teóricos. Não deve ser confundido com a forma como este termo ou termos similares são usados ​​em outras disciplinas – por exemplo, no desenvolvimento infantil ou nas neurociências –, tampouco as referências à sua ausência devem ser mal interpretadas e necessariamente implicar a total inexistência de algum tipo de registro ou inscrição no “ser” – isto é, na psique ou no soma – do indivíduo.

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2. Um espelho vazio: reflexões sobre a não representação* Gail S. Reed

Introdução Minha sobrinha, de cinco anos de idade, veio para o interior comigo um dia antes de seus pais, que não puderam vir por causa do trabalho. Ela havia decidido recentemente não se casar com seu pai quando crescesse e, em vez disso, casar-se com um menino de sua classe. Seu pai “seria muito velho” quando ela estivesse pronta para se casar, explicou. Há pouco tempo, ela havia feito o casamento de seu bichinho de pelúcia favorito, um macho, com uma fêmea de seu vasto zoológico. Ela trouxe esse animal favorito em nossa viagem. Antes de ir dormir, ela disse que a nova esposa desse animal não pôde vir porque estava “no trabalho”.

* Primeira publicação no The Psychoanalytic Quarterly, Volume 78, Número 1: 1-26, 2009. Publicado sob a permissão de The Psychoanalytic Quarterly.

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um espelho vazio: reflexões sobre a não representação

No dia seguinte, minha sobrinha me disse que, enquanto estava no carro no dia anterior, ela tinha imaginado sua mãe sentada ao seu lado, rindo e brincando com ela. Então ela trouxe à tona o assunto do envel­hecer e morrer e mencionou a minha própria mãe, que tinha falecido antes de ela nascer. Ela pensou por um momento e perguntou: “Quando ela morreu, você ficou muito, muito triste”? “Sim”, eu respondi. Ela me perguntou: “Mesmo tendo ficado zangada com ela, por que ela tinha que ir trabalhar?”. Minha sobrinha parecia estar perguntando se o seu senso da presença de sua mãe poderia sobreviver, dentro dela mesma, em face da hostilidade que sentia em relação à mãe. Se isso fosse possível, ela seria não apenas capaz de imaginar sua mãe, na ausência dela, mas também de pensar nela e sentir sua falta. Sua capacidade de evocar a mãe como uma companheira de brincadeiras e como um potencial objeto de luto – de fato, fazendo-lhe perguntas – surgiu para dar testemunho da conquista fundamental do desenvolvimento à qual eu me refiro, aqui, como representação de um objeto primário. Desse modo, não estou me referindo a todos os pensamentos e imagens de objetos importantes, mas a uma representação que, finalmente, envolve a diferenciação e a capacidade de lamentar, e é parte de um processo de simbolização (Segal, 1957, 1978). Embora eu tenha começado com uma ilustração cotidiana dessa conquista fundamental, o tema do meu estudo é menos familiar: a possibilidade de uma falha na representação de um objeto primário, um conceito forte e contrastante desenvolvido por André Green e outros pensadores franceses influenciados por ele (como por exemplo, Anzieu, 1986; Botella & Botella, 2005; Roussillon, 1999). Indago agora como podemos entender tal falha ao se apresentar no processo psicanalítico, e se a compreensão sobre esse pensamento teórico poderia nos ajudar a realizar nosso trabalho clínico. Ao considerar essas questões, não deverei me aventurar à análise comparativa das

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3. A tela incolor: representação, ação terapêutica e a criação da mente* Howard B. Levine

I Desde os seus primórdios, a psicanálise tem se confrontado com um dilema que é ao mesmo tempo epistemológico e metodológico. Bion (2005) resumiu sucintamente o problema ao escrever: “O nosso problema... é, como haveremos de ver, observar... essas coisas que não são visíveis?” Quando Freud (1900a, 1901b) demonstrou que os pensamentos e sentimentos inconscientes poderiam ser tanto legíveis como compreensíveis, sua descoberta foi tão poderosa que pode ter obscurecido o fato de ele ter afirmado que

* Uma versão anterior deste capítulo foi publicada no International Journal of Psychoanalysis, 93: 606-629 (2012), e é reproduzida com a gentil permissão de John Wiley & Sons Ltd.

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a tela incolor

somente alguma parte do inconsciente pode ser conhecida pelos traços simbólicos que deixa em nossas vidas conscientes, de vigília. Freud (1915e) delineou essa porção ao notar que alguns impulsos instintivos inconscientes são “altamente organizados, livres de autocontradição” (p. 190), relativamente indistinguíveis em estrutura daqueles que são conscientes ou pré-conscientes e, contudo, “eles são inconscientes e incapazes de tornarem-se conscientes” (pp. 190-191). Ele continuou: “qualitativamente eles pertencem ao sistema Pcs, mas factualmente ao Ics.” (p. 191, itálico original).1 A distinção que Freud estava fazendo era entre o subconjunto organizado e articulável do inconsciente que chamamos de inconsciente reprimido ou dinâmico, e o subconjunto de elementos “pré” ou “protopsíquicos”, muito maior, talvez infinito, amorfo, ainda não organizado ou articulável, que poderíamos chamar de inconsciente não estruturado ou não formulado.2 Desconsidera-se, frequentemente, quão pequena é a parte do inconsciente reprimido, considerando-se tudo o que é inconsciente e a totalidade do que pode vir a ser conhecido sobre a psique ou sobre a Experiência3 inconsciente existencial bruta de uma pessoa. Isso ocorre apesar do trabalho de autores, como Bion (1970), que lembrou-nos que, ao tentarmos entrar em contato e discernir o que é inconsciente no Outro ou em nós mesmos, estamos em busca de algo que não está disponível aos nossos sentidos, jamais poderá ser completamente contido dentro da psique e, portanto, nunca pode ser totalmente conhecido; e como Green (2005a, 2005b), que descreveu a significação, a perda de sentido, bem como a possibilidade de conhecer e experimentar o self que decorre da descatexia, da forclusão, da desobjetalização e da correspondente falha ou fragilidade na formação e na articulação das representações.

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PA RT E II Presença e ausência: estudos teóricos

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4. De traços a signos: apresentação e representação Dominique Scarfone

Apesar das aparências em contrário, a psicanálise tem se preocupado, desde sua criação, tanto com os aspectos representacionais como com os não representacionais da mente humana. Por “representacional” referimo-nos ao que Freud chama de “Vorstellungen” e que, como mostraremos mais adiante neste capítulo, pode ser incluído nos três tipos de signos de Peirce que podem ser ​​ativamente usados pela mente – ícones, índices e símbolos. Os símbolos (especialmente verbais) sendo a forma mais pura de representação. Os aspectos não representacionais apontam para o que não pode ser tratado como signo de qualquer espécie. Já no “Projeto” (Freud, 1950a [1887-1902]), o modelo de aparelho mental que Freud tentou expor baseava-se em dois elementos fundamentais: “neurônios” e “quantidade”. Naquele modelo inicial, uma “quantidade” excita os neurônios, cuja ação

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de traços a signos: apresentação e representação

principal é passá-la para os seus vizinhos, com o resultado final de permitir uma descarga ou uma transformação em redes complexas de “facilitações neuronais”. Os neurônios dessa rede de facilitações pertencem à categoria que Freud denominou de neurônios ψ, cuja principal característica é terem capacidade de memória, justamente por meio de sua interligação durável (isto é a “facilitação”).1 Os outros tipos de “neurônios” foram designados como φ: esses são neurônios que, no modelo de Freud, não retêm nada e não sofrem facilitação. Eles simplesmente descarregam a sua “quantidade”, seja para outros neurônios φ – e, após, para o aparelho muscular (através de neurônios motores) ou para o sistema glandular (por meio de neurônios “secretores” ou neurônios “chave”) – ou para neurônios ψ (p. 320). Em relação aos neurônios ψ, em vez de simplesmente descarregar a sua carga, eles criam redes estáveis que continuam crescendo à medida que a excitação se acumula. O sistema ψ é capaz de retardar a descarga também pelo fato de que a “quantidade” com a qual ele lida é pequena e, por conseguinte, a pressão em direção à ação é menor. O circuito criado por facilitação engaja a excitação em um trânsito maior do que o arco reflexo, de que os neurônios φ são evocativos. Escreve Freud: “Assim, a quantidade em φ é expressa por complicação em ψ. Por esse meio, a Q [quantidade] é retida de ψ, pelo menos dentro de certos limites... [e] ψ é catexizado a partir de φ em Qs [quantidades] que normalmente são pequenas” (Freud, 1915, p. 315). Em resumo, a quantidade de excitação do aparelho neuronal pode levar a uma liberação em uma ação externa ou em um evento somático interno, ou pode ter a liberação “retida” através de ramificações complexas dentro do sistema. Posteriormente Freud explicou que, à medida que elas se tornam “bem facilitadas”, essas ramificações neuronais geram redes estáveis que irão adiar a liberação motora de forma muito mais eficaz, favorecendo, em vez disso, deliberação e julgamento.

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5. Figurabilidade psíquica e estados não representados César Botella & Sara Botella

As noções de figurabilidade e o trabalho de figurabilidade apresentaram-se a nós progressivamente durante a nossa experiência no tratamento de estados mentais insuficientemente representados ou irrepresentáveis, iniciando com o tratamento de crianças que eram, na França, consideradas pré-psicóticas. Essa experiência nos proporcionou uma melhor compreensão de pacientes adultos borderlines e das estruturas psicossomáticas. Então, entendemos que, em cada análise, mesmo em estruturas claramente psiconeuróticas e edípicas também se encontra – caso o tratamento se estenda o suficiente – a problemática de um núcleo de estados mentais sem representação, ainda que oculto por detrás da rede de representações (ver Botella & Botella, 2005). Através do termo francês figurabilité, designamos uma noção que temos desenvolvido desde 1983, com base no uso que Freud

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figurabilidade psíquica e estados não representados

fez, ao longo de sua obra e de forma idêntica, do termo Darstellbarkeit. Ele faz isso principalmente em A Interpretação dos Sonhos (Freud, 1900a, p. 339), na formulação Rücksicht auf Darstellbarkeit,1 o título da subseção D do capítulo VI, cuja tradução francesa foi modificada quatro vezes em cerca de 75 anos. Será que essas modificações atestam o fato de que, quando se trata de designar um processo inconsciente, especialmente se esse ocorrer durante a regressão no sono, cada apresentação de palavra revela-se aproximada e, basicamente, decepcionante, não podendo deixar de “perder o ponto”, o que, de acordo com Steiner (1975), pode ocorrer em qualquer tradução? A que já dura a mais tempo é: La prise en considération de la Figurabilité. Devemos levar em conta que o termo Darstellbarkeit, que Freud provavelmente tomou emprestado das ciências, é aquele que, durante toda a sua obra, ele usa apenas em relação aos sonhos. Ele queria designar uma qualidade específica e única do trabalho do sonho, cuja existência jamais havia sido descrita e à qual nenhum termo existente poderia corresponder. Nesse sentido, o termo francês “Figurabilité”, que havia caído em desuso em francês, até ser ressuscitado, em 1967, por Laplanche e Pontalis em seu Vocabulário de Psicanálise (1967), visando descrever, no mais puro espírito freudiano, uma característica específica do sonho, parece-nos ser um termo mais adequado e que corresponde melhor ao espírito da Darstellbarkeit.2

A importância de duas últimas revoluções no trabalho de Freud Em conferência proferida em junho de 2011, em nossa Sociedade,3 eu (CB) sugeri que deveria ser estabelecida uma diferença entre o que chamo de pensamento de Freud de 1900, um modo de pensar presente na obra de Freud já em 1900, e a psicanálise vista principalmente como uma teoria da neurose, uma perspectiva para o qual Freud se voltou e à qual progressivamente se limitou,

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6. “Se apenas soubéssemos o que existe!” Laurence Kahn

Especulações Como nota de rodapé à sua tradução das Palestras das Terças-feiras de Charcot, ao comentar a famosa declaração de Charcot que “la théorie, c’est bon; mais ça n’empêche pas d’ exister”, Freud escreve: “Se apenas se soubesse o que existe”! e ele enfatizou o “que”(Freud, 1892-1894, p. 139).1 Isso ocorreu em 1887. Mas, até certo ponto, essa nota percorre todo o trabalho de Freud. Leva Freud a afirmar, em sua resposta a Einstein, que a teoria das pulsões é a nossa mitologia e que as pulsões são “entidades míticas, magníficas em sua imprecisão” (Freud, 1932a, pp. 57, 95). Está subjacente à analogia, inspirada em Kant, entre o território estrangeiro interno – isto é, reprimido – e o território estrangeiro externo – isto é, a realidade –, em que ambos devem ser distinguidos da modalidade na qual emergem. E o que devemos pensar sobre a hesitação de Freud em relação ao assassinato primitivo como realidade primária, se considerarmos

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“se apenas soubéssemos o que existe!”

que, enquanto o clássico texto “O retorno do totemismo na infância” qualifica o assassinato do pai como “a grande tragédia primeva”, o manuscrito em sua versão final ainda evoca “a grande tragédia mitológica” (Freud, 1912-1913, p. 156; Grubrich-Simitis, 1996, p. 173)? Para Freud, a questão do fato primário, do material original, é, ao mesmo tempo, o vértice do seu trabalho e um problema para o qual ele sabe, desde o início, que nunca irá encontrar uma solução, nem mesmo na história da formação do psiquismo humano e seus desenvolvimentos cronológicos. O “protopsíquico” – se é que se pode falar em tais termos – deve permanecer como uma questão de especulação. Especulação e construção teórica são a mesma coisa. Consistem, de qualquer forma, em uma série de suposições confirmadas pela convergência única dos efeitos gerados pelo aparelho: o inconsciente é uma mera hipótese, simples e fortemente validada pela concorrência entre os derivativos que podem ser observados na superfície do funcionamento psíquico. Isso é exatamente o que Freud implica quando cunha o termo “Metapsicologia” em 1896.2 Ele está no processo de descoberta que a “sua” psicologia é tanto um método de tratamento como um método de investigação da vida psíquica como um todo, e ao mesmo tempo averigua uma das suas principais apostas: a capacidade de articular a descrição do aparelho psíquico em uma metalinguagem, uma representação “andaime” que efetivamente dê conta da sua estrutura e de suas produções. Freud reafirma isso bem no final de sua obra, em uma nota em “Análise terminável e interminável”, insistindo no fato de que a descrição metapsicológica é efetuada “por referência às relações dinâmicas entre os agentes do aparelho mental que foram reconhecidos – ou (se isso for preferível) inferidos ou conjecturados – por nós” (Freud, 1937c, p. 226, n. 2).

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7. Estados mentais “não representados” Marion M. Oliner

Como falar sobre estados mentais não representados? Meu interesse no tema dos “estados mentais não representados” começou com o estudo dos efeitos do trauma. As teorias mais prevalentes sobre o assunto assumem que as causas do trauma não são acessíveis à consciência, mas que a vítima encena ou repete experiências passadas, cujos significados se tornam evidentes apenas posteriormente, através da análise da situação atual em que estas são encenadas. Essas teorias, descritas por Bohleber (2010) em sua extensa revisão, postulam que “O trauma se torna o ‘buraco negro’ na estrutura psíquica” (p. 94). (Essa linha de raciocínio tem sido aceita pelos psicanalistas em geral, e tomada como evidência de Nachträglichkeit [après coup].) É nesse sentido que a experiência original geradora do trauma passou a ser comumente referida como “não representada”, mas essa designação implica algumas dificuldades lógicas que carecem de uma investigação mais aprofundada, tendo suscitado meu interesse nas questões de representação.

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estados mentais “não representados”

Minha maior dificuldade reside no contraste entre a suposta falta de representação do trauma e a incrível precisão dos enactments e atualizações dos eventos catastróficos que, de outro modo, não estão disponíveis à consciência. É impossível pensar que não haja qualquer ligação entre o evento posterior, que dá origem à repetição, e os traços mnêmicos da experiência original. É inconcebível que os traços mnêmicos originais não tenham algo em comum com o evento posterior, que lança luz sobre a experiência anterior e lhe dá um novo significado. A memória inicial tem que ter algumas propriedades que fazem com que ela seja retida e, no contexto dos acontecimentos correntes, seja atuada. Qual seria o motivo para registrar a experiência, e qual seria a ligação com um evento posterior, se não houvesse um elemento inerente ao evento “não lembrado“ que tenha criado a conexão entre os dois? Para que haja uma ligação, o traço mnêmico original deve ter tido alguns dos aspectos do significado posterior, que lhe é atribuído retroativamente. O impulso em direção ao enactment e à realização do trauma original sustenta a noção de que a experiência foi significativa. Além disso, o traço mnêmico original deve conter algum elemento que é responsável por seu posterior ressurgimento em sonhos, em enactments e em sua contínua redramatização. A questão a ser explorada gira em torno de uma compreensão mais clara da forma como essas experiências seguem vivas. Loewald enfatiza [...] que a atividade reprodutiva inconsciente... continua a determinar o caráter da experiência presente, na verdade ajudando-a a ser significativa e não insignificante. Creio que isso se aplica não apenas às estruturas dos processos mnêmicos intermediários, chamados de ideias ou fantasias inconscientes, mas também às assim chama-

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Estados não Representados e a Construção de Significado Howard B. Levine, Gail S. Reed Dominique Scarfone ISBN: 9788521211341 Páginas: 388 Formato: 14 x 21 cm Ano de Publicação: 2016 Peso: 0.476

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Estados não Representados e a Construção de Significado  

Estes textos transmitem e investigam o espírito do trabalho do psicanalista que, como o artista, deve manter os fragmentos da experiência vi...

Estados não Representados e a Construção de Significado  

Estes textos transmitem e investigam o espírito do trabalho do psicanalista que, como o artista, deve manter os fragmentos da experiência vi...