Page 1


HILEMORFISMO NEURAL: OS FUNDAMENTOS FÍSICOS DO ESPÍRITO VOLUME 2


MARCOS EDUARDO NOGUEIRA

HILEMORFISMO NEURAL: OS FUNDAMENTOS FÍSICOS DO ESPÍRITO VOLUME 2

São Paulo 2017


Copyright © 2017 by Editora Baraúna SE Ltda

Capa

Débora Neves

Diagramação Editora Baraúna Revisão

Mariana Benicá

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ N713h v. 2 Nogueira, Marcos Eduardo Hilemorfismo neural : as bases físicas do espírito / Marcos Eduardo Nogueira. - 2. ed. - São Paulo : Baraúna, 2017. il. Sequência de: Hilemorfismo neural: as bases físicas do espírito, volume 2 ISBN 978-85-437-0790-7 1. Filosofia. 2. Metafísica. I. Título. 17-43436 CDD: 100 CDU: 1 ________________________________________________________________ 18/07/2017 19/07/2017 Impresso no Brasil Printed in Brazil

DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br

Rua Sete de Abril, 105 – Cj. 4C, 4º andar CEP 01043-000 – Centro – São Paulo - SP

Tel.: 11 3167.4261 www.EditoraBarauna.com.br


Quand une chose a été dite et bien dite, n’ayez aucun scrupule, prenez-la, copiez Anatole France: Anatole France en pantoufles, de acordo com Jean-Jacques Brousson (1924).


Sumário

1. OUTROS ARES. A PSICOLOGIA ACABOU ENVOLVIDA EM UMA ANTIGA DISPUTA......................................................................................... 9 2. DESCARTES “PSICOFISIÓLOGO”....................................................... 27 3. UMA COSMOLOGIA AFASTADA DA ESCOLA: A VETUSTA COSMOLOGIA FILOSÓFICA.................................................................... 39 4. ORA, POR QUE NÃO? O DIREITO COMO A MATÉRIA DA EPISTEMOLOGIA ETOLÓGICA............................................................... 59 5. PLATÃO NA INTIMIDADE...................................................................... 93 6. O LIVRO E AS EPISTEMOLOGIAS CORRELATAS........................... 189 7. NEM TUDO CHEIRA A NAFTALINA................................................... 213 8. MICROCOSMO HILEMÓRFICO NEURAL........................................ 373 9. UM FRAGMENTO DAS VICISSITUDES DA COSMOGONIA OCIDENTAL................................................................... 407 10. ECUMENISMO COSMOGÔNICO E UMA ACHEGA À GÊNESE DO MAL.................................................................. 483 11. ESSE É O MOMENTO NO QUAL TODA A HISTÓRIA RECOMEÇA?............................................................ 573 REFERÊNCIAS............................................................................................. 579

7


1. OUTROS ARES. A PSICOLOGIA ACABOU ENVOLVIDA EM UMA ANTIGA DISPUTA

A principal rota do hilemorfismo “descendente”, desde origem até o sujeito singular, pode se entrever no transcendentalismo ou, mais exatamente, uma forma de transcendentalismo que pode estar associada à introspecção. Isso é significativo, pois os estudos genéticos no âmbito da filosofia – no caso: a metafísica, a epistemologia e a ontologia – foram considerados completamente inconclusivos e inúteis para a filosofia, segundo Comte. Quando Comte proclamou isso para seus alunos e discípulos na Escola Politécnica de Paris, Eugen Düring (1833-1921), professor, filósofo e economista da Universidade de Berlim o delatou como perpetrador do “crime de lesa-ciência”. Parece que Düring havia se esquecido de Kant, quando ele afirmou que tinha acordado do sono dogmático por Hume: A lembrança de David Hume foi justamente o que há muitos anos interrompeu, pela primeira vez, o meu sono dogmático e deu às

9


minhas pesquisas no campo da filosofia especulativa [sinônimo de metafísica] uma direção completamente nova (KANT: Prolegômenos a toda metafísica futura que possa apresentar-se como ciência, 1783a, em CAYGILL, 2000, p. 106, na versão inglesa: KANT: Prolegomena to any future metaphysics, 1783, segundo James FIESER, 1997, p. 6, na qual o referido “sono dogmático” consta como dogmatic slumber: “torpor dogmático”).

O humano se volta intensamente para seu interior e lá faz uma investigação racional de si mesmo, do seu ser; embora a bem conhecida expressão: “conhece-te a ti mesmo” apenas possa ser aplicada a Deus, segundo VOLTAIRE [Dicionário filosófico, verbete “alma”, 1752 (1984), p. 89], pois apenas a Divindade conhece sua própria essência. Ao estudo introspectivo da consciência humana poderia ser aplicado o nome sugerido por Christian Wolf (1679-1754) – um dos professores de Kant – de “psicologia racional” (a “metafísica da alma”) em contraposição à “psicologia científica ou experimental” que seria considerada como substituta legítima da primeira por ser de natureza científica e não metafísica, como se alegou. A psicologia racional tem (ou teve) grandes afinidades com a metafísica ou com ontologias e esses dois saberes incluem o absoluto como parte deles. Um dos muitos comentadores desses tópicos foi Herbert Spencer. Ele escreveu assim: Dizer que não podemos conhecer o absoluto, é afirmar implicitamente a sua existência; é provar que o absoluto está presente ao nosso espírito, não como um nada, mas como alguma coisa em si (...). Da mesma necessidade de pensar as relações, segue-se que também o relativo é inconcebível, se não está em relação com um não-relativo real (...), porque, não se admitindo um não-relativo real, o relativo torna absoluto e arrasta-nos à contradição. É, pois, impossível nos desembaraçarmos da consciência de uma realidade oculta que esteja debaixo das aparências e desta im-

10


possibilidade procede a nossa crença indefectível nesta realidade [SPENCER: First principles, chapter four: the relativity of all knowledge, 1862, p. 42, (edição de 2001); do mesmo modo: LAHR, 1968, p. 678].

As preocupações com ontologias ou com a ontologia nunca deixaram de existir no âmbito da filosofia ou da metafísica. Talvez houvesse até alhures algum comentador, filósofo profissional ou não, talvez até um estudante novato de filosofia ou de psicologia que se pronunciasse e alegasse que a ontologia chega até mesmo a ser não intencionalmente escamoteada em várias disciplinas filosóficas/psicológicas contemporâneas. A razão disso talvez esteja enraizada em Augusto Comte, que escreveu uma objeção de princípio à reflexão introspectiva nos seguintes termos: O espírito humano pode observar diretamente todos os fenômenos, exceto os seus próprios. Pois quem faria a observação? (...). O indivíduo pensante não pode, por conseguinte, dividir-se em dois: um que pensa e outro que se veja pensar (...). O órgão observado e o órgão observador sendo – neste caso – idênticos, como pode ter lugar a observação? Este pretenso método psicológico é, pois, radicalmente nulo [COMTE: Curso de filosofia positiva, 1830-42, p. 58 (14), segundo J. A. GIANNOTTI e Miguel LEMOS, 1978 e também em LAHR, 1968, p. 18].

Um detalhe importante na filosofia desse francês é que ele teria zerado o indivíduo em proveito do coletivo, a sociedade. “O homem propriamente dito, considerado fundamental e não segundo os sonhos materialistas ou espiritualistas, não pode ser compreendido sem o conhecimento preliminar da humanidade da qual ele necessariamente depende” (COMTE: Sistème de politique positive, Tome III, statique sociale, chapitre septième, 1852, p. 33, segundo GRATELOUP, 2004, p. 97). Seja como for essa inte11


ligibilidade da “humanidade”, ninguém estava propenso a pender ao entendimento de Sade: “je suis l’homme de la nature, avant que d’être celui de la société” (“antes de ser um homem da sociedade, sou-o da natureza” (SADE: La nouvelle Justine ou Les malheurs de la vertu: Ouvrage orné d’un frontispiece et de 40 sujets gravés avec soin, 1797, segundo a WIKIQUOTE, verbete: Marques de Sade, 17/12/2012, p. 1). O sujeito humano, na sua singularidade, seria uma abstração. O singular deve se acomodar ao social e “o desenvolvimento individual [deve reproduzir] o social, porque o homem é um produto da sociedade” (LEÃO, v. 2, 1932, p. 258). Esta é uma observação crítica sobre Comte que Leão lhe consigna. A introspecção tem a ver com uma espécie de ontologia. Seja como for, parece impossível evitar (pelo menos) algum matiz ontológico quando alguém se acerca de temas filosóficos e isso não é, necessariamente, um entrave, pois, como escreveu o eticista britânico e membro da British Aristotelian Society Richard Mervyn Hare, (1919-2002): Não acredito que a metafísica tenha que ser superada, nem mesmo eliminada. Desde Aristóteles e até mesmo antes, a metafísica tem usado métodos linguísticos. Muitos dos problemas chamados “ontológicos” são, de fato, resolvidos por uma atenção cuidadosa às palavras que dão origem a eles e isso é verdade, sobretudo na ética. Mas considero isso não uma maneira de superar a metafísica e sim uma maneira de fazer metafísica competentemente – de dominá-la – [de acordo com o entendimento da palavra alemã contemporânea: überwinden, que também é o título de um livro de CARNAP (1932): Überwindung der Metaphysik durch logische Analyse der Sprache, ou seja: Superação da metafísica pela análise lógica da linguagem] (HARE, 2003, p. 20-1).

Como assim? Existiriam filósofos que, ainda que não exerçam seu mister aberta e ostensivamente de “modo metafísico”, modo este assim reconhecido por esses mesmos filósofos ou por outros 12


estudiosos ao encarar o trabalho desses filósofos, e se tal possibilidade (a prática filosófica extra-metafísica) puder existir no mundo concreto. De qualquer forma, os filósofos, verdadeiramente, têm legítimas investigações ontológicas e assim, do ponto de vista da história da filosofia, é saudável o hábito metafísico, como o preceitua Boaventura, que via no exercício do conhecimento “señal de nobleza em la criatura conocer muchas cosas, y de mayor nobleza saber todavia más cosas; luego la ciencia que es de infinita nobleza se extiende a infinitas cosas” (Giovanni de Fidanza, o BOAVENTURA DE BAGNOREGIO: Cuestiones disputadas acerca de la ciencia de Cristo, cuestión I: si la ciencia de Cristo em cuanto es el Verbo, se extiende em acto a infinitas cosas, tópico 5, s.d., p. 1). Quem filosofa poderia ser encarado como estando a praticar um conhecimento do ente diferenciado do ser – a diferença ontológica – pois o ente é um ser determinado, que participa do ser de um modo finito. Entretanto, o conceito do ente oferece dificuldades próprias, como já se vê, por exemplo, no Aquinate: También el ente se predica de diversas maneras. Sin embargo, todo ente se dice por orden a uno primero. Pero esto primero no es el fin ni la causa eficiente, como en los ejemplos citados, sino el sujeto. Pues unos se dicen entes o que son porque tienen el ser por sí, como las sustancias, que se dicen entes principal y primariamente. Otros, porque son pasiones o propiedades de la sustancia, como los acidentes propios de cada sustancia. Algunos se dicen entes porque son vía para la sustancia, como las generaciones y los movimientos. Otros se dizen entes porque son corrupciones de la sustância (Tomás de AQUINO: Comentario a la ‘Metafísica’ de Aristóteles, segundo Clemente FERNANDEZ: Los filósofos medievales, II, achado em Faria QUEIROZ, parte 2, s.d., p. 1-2).

Desde vários séculos, os que se dedicam à filosofia e metafísica têm aprendido que existem graus diferentes de entidade. O 13


ente máximo é o deus, o Ser Deus. Todos os demais entes se apresentam por si misturados com o não ser (também conhecido com “matéria”), existindo neles carência expressiva da entidade real. A lógica transcendental presente no interior da emanação hilemórfica humana exige que a maioria esmagadora dos entes seja despida da entidade real. Além disso, existem os entes da psique, grupo não homogêneo que inclui as cognições e os afetos. Os entes da psique foram, até dezenas de anos atrás, chamados de racionais. Freud (1856-1939), por exemplo, somou-lhes o “inconsciente” e chamou a este de “instância psíquica”. Parte importante da psique não seria propriamente racional, segundo Freud, pois ele dizia que a roupagem racional/irracional era um dipolo em extrema estreita para caracterizar a natureza das instâncias psíquicas por ele identificadas. Ademais, é problemático, hoje, se considerar, sem maior preocupação, os afetos (ou emoções) como sempre irracionais ou racionais, posições ideológicas que impedem, de fato, a exploração sistemática dos afetos, atividade ora em andamento. Para ilustrar, basta lembrar que os instintos muitas vezes foram considerados como irracionais. Contemporaneamente, muitos neurocientistas têm percebido que os instintos e os afetos podem chegar a ter teleonomias bem evidentes. Em outros termos: os afetos tanto podem ser do tipo difuso quanto do tipo restrito, no sentido destes últimos se voltarem para circunstâncias específicas na mente humana ou para ocorrências do ambiente “externo” à psique. Os afetos servem para balizar a atividade psíquica normal dos humanos, não pelo fato de serem, por natureza, racionais ou irracionais (em função de um critério discriminatório extraterritorial afetivo); mas sim por estruturarem o resultado da emanação de tal arquitetura neural que permitisse a adaptação biológica e psíquica ao planeta que não foi previamente moldado para os homens. O fulcro do hilemorfismo neural está no humano. Um dos filósofos que mais se aproximou na definição do objetivo das emanações foi Leibniz. Do decorrer da filosofia transcendental do 14


Medievo, Leibniz recolheu o brocardo latino: ens et unum convertuntur (segundo NAERT, 2001, p. 586). Das traduções possíveis dele; uma delas, que exalaria leve fragrância barroca, é a seguinte: “o ente e o único se autoconvertem mutuamente”. Leibniz, pensando no sentido (e, possivelmente, na concisão da sentença), escreveu uma carta na qual resumiu um dos pilares de sua filosofia e delineou com precisão o fulcro do hilemorfismo neural. O brocardo latino medieval é assimilado ao pensamento “como axioma que aquilo que não é um ser não é verdadeiramente ser. Sempre se acreditou que o um e o ser fossem coisas recíprocas. Uma coisa é o ser, outra são os seres, mas o plural supõe o singular, e onde não houver um ser haverá ainda menos vários seres” (LEIBNIZ: Carta a Arnauld, 30 de abril de 1687, segundo NAERT, 2001, p. 586). Com essa estratégica consideração, fica prevenido qualquer atrito porventura potencial ou real entre o hilemorfismo neural e Hegel, Durkheim e os sociólogos de uma maneira geral. A unidade essencial do hilemorfismo neural é o ser humano. A enunciação sintética pós-kantiana da unidade do eu coube a Hegel: A psicologia observadora (Die beobachtende Psychologie) [empírica, observacional] enuncia, primeiro, suas percepções dos modos universais que se lhe apresentam na consciência ativa; encontra numerosas faculdades, inclinações e paixões. Ora, na enumeração de tal coleção não se deixa reprimir a lembrança da unidade da consciência de si; por isso a psicologia deve, ao menos, chegar até o ponto de maravilhar-se de que possam estar juntas no espírito, como num saco, tantas coisas tão contingentes e heterogêneas, especialmente porque não se mostram como coisas mortas, mas como movimentos irrequietos. Na enumeração dessas diversas faculdades, a observação está no lado universal: a unidade dessas múltiplas capacidades é o lado oposto a essa universalidade: a individualidade efetiva (HEGEL: Fenomenologia do espírito, § 303, 1807, p. 97, e como está em P. MENESES e K.-H. EFKEN, 1992 e, por fim, em A. B. MARTINHO, 2011, p. 4-5).

15

hilemorfismo neural volume 2 15  

“A originalidade biológica do homem reside menos, talvez, em sua dessemelhança zoológica que no fato de ele ser homem sem ter perdido nada d...

hilemorfismo neural volume 2 15  

“A originalidade biológica do homem reside menos, talvez, em sua dessemelhança zoológica que no fato de ele ser homem sem ter perdido nada d...

Advertisement