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ISTOÉ 2016 (Junho de 2011)

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A NA

m A r C E L A

elétrica, agitada desde pequena, Ana Marcela passa longe do estereótipo baiano. Com ela, não tem moleza. Filha de um nadador e uma ginasta olímpica, tem o esporte no seu DNA. Aprendeu a nadar com dois anos, antes mesmo de falar “acarajé”. Aos 8 já participava de maratonas. Nessa mesma época, eu era um marmanjo e só entrava no mar usando uma boia de patinho na cintura. Marcela tinha 13 anos quando nadou duas etapas do Brasileiro de Maratonas, em Ilhéus e Juazeiro. Voltou para Salvador com a bagagem mais pesada: duas medalhas de ouro. No ano seguinte, saiu enfim da Bahia para competir todo o circuito brasileiro. Ganhou. Em 2006, 2007, 2009 e 2010 só deu ela. Quando a maratona aquática se tornou prova olímpica, ela estava lá: foi quinta colocada em Pequim 2008. Em 2010, arrasou: campeã mundial do circuito e bronze na prova de 5 km, no Canadá. Mas Ana Marcela não olha para trás. Classificou-se para o Pan de Guadajara com seu quinto lugar na Maratona Internacional de Santos. Agora está focada na seletiva para a Olimpíada de Londres, que acontece em julho. Caraca! Fico cansado só de escrever tantas conquistas... Atualmente tem 19 anos e mora em Santos com os pais. Só vai à praia tomar água de coco, prefere treinar em piscina. Como boa baiana, não atura água gelada. Correnteza, ondas, vento, só em dia de competição. Passa o dia na piscina da

CU N H A

Unisanta, Universidade Santa Cecília, seu clube. Quando não está contando azulejos, está fazendo abdominal, ioga, pilates ou alongamento. Dá uma paradinha à tarde para tirar um cochilo. Não sei se por necessidade do corpo ou por medo de perder a cidadania baiana. São 14 a 16 quilômetros por dia. Ou seja, se resolver voltar a nado para Salvador, em mais ou menos três meses estará de volta ao Farol da Barra. Portanto, para chegar a tempo de curtir o Carnaval no camarote 2222, basta cair na água em dezembro, antes do Natal... Ana Marcela também não tem tempo para estudar. A faculdade de educação física está trancada. E precisa? Se resolvesse me dar umas aulas de natação, não ia pedir seu diploma. Jura que não tem cuidados especiais. Mas faz um sacrifício arretado na hora das refeições, já que foi obrigada a cortar o azeite de dendê, correndo o risco de perder até o sotaque! Apesar de não ter nenhuma superstição, cultiva um hábito. Costuma levar na mala o DVD “Duelo de Titãs”, em que o galã Denzel Washington faz um técnico de futebol americano que comanda um time dividido pelo racismo. Enfrentamento, superação e final feliz lhe dão gás para brigar por mais uma medalha. Só não suporta o telecatch nas largadas das maratonas. Se toma um chega pra lá, fica na sua para evitar mais confusão. Como Poliana, também não nasceu para jiujuteira.

Sua maior adversária no Brasil é também sua companheira nas competições internacionais. Não costuma encontrar Poliana fora dos eventos esportivos. A diferença de idades é grande, nove anos. As duas vivem momentos diferentes. Como Poliana é casada com seu técnico, tem companhia fixa nas viagens. Eventualmente treinam juntas ou dividem o quarto. Porém, quando a maratona começa, nem lembra se Poliana é quase japonesa ou quase coreana. Ana Marcela também tem hora para ficar de bobeira. Aí, é shopping, praia e internet. Ainda não tem namorado. Acho que a rapaziada teme nadar e morrer na praia. À noite pode ser encontrada no facebook, no MSN ou no twitter (@anamarcela92). Tento segui-la, mas ela é muito rápida, difícil de acompanhar. Seu quarto é seu cafofo. Ali guarda seus 200 troféus, suas 600 medalhas! Se fosse ela, abandonava tudo e saía por aí com um cartaz “Vendo ouro”. Ia me dar muito bem. Talvez ela tenha esse plano. Mas ainda é cedo pra pensar nisso. Ainda tem muitas medalhas para chegar naquele quarto.


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