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PARAOLÍMPICOS: AS ESTRELAS DO BRASIL FOTOGRAFADAS POR UM DEFICIENTE VISUAL

Natália Falavigna, bronze no tae kwon do, Ketleyn Quadros, bronze no judô, e Maurren Maggi, ouro no salto em distância (no sentido horário, a partir da foto acima)

O DINHEIRO É ROSA

OLIMPÍADA VIRA FOCO DE NOVA GERAÇÃO DE EMPRESÁRIAS

NEYMAR

COMO O CRAQUE VAI AJUDAR A SELEÇÃO A GANHAR SEU PRIMEIRO OURO

MEIO AMBIENTE

O PÓDIO É

SAIBA COMO SERÁ VERDE A VILA OLÍMPICA E QUAIS SÃO OS PROJETOS DE DESPOLUIÇÃO DAS ÁGUAS CARIOCAS

EXCLUSIVO!

SEBASTIAN COE, O MITO DO ATLETISMO E CHEFE DE LONDRES 2012, DIZ QUE O RIO NÃO DEVE COPIAR NINGUÉM

www.istoe2016.com.br EXEMPLAR DE ASSINANTE Venda proibida

DELAS

NOSSAS ÚNICAS MEDALHISTAS OLÍMPICAS EM ESPORTES INDIVIDUAIS APONTAM OS CAMINHOS PARA O PAÍS FORMAR MAIS CAMPEÃS


EXPEDIENTE EDITOR E DIRETOR RESPONSÁVEL DOMINGO ALZUGARAY EDITORA CÁTIA ALZUGARAY PRESIDENTE EXECUTIVO CARLOS ALZUGARAY DIRETOR EDITORIAL CARLOS JOSÉ MARQUES DIRETOR EDITORIAL-ADJUNTO LUIZ FERNANDO SÁ EDITOR-EXECUTIVO AMAURI SEGALLA EDITOR EDSON FRANCO EDITOR DE ARTE PEDRO MATALLO EDITOR-EXECUTIVO DE FOTOGRAFIA CESAR ITIBERÊ EDITOR DE FOTOGRAFIA MAX G. PINTO COLABORADORES

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Flávia Ribeiro, João Marcelo Neto, Juliana Cariello, Hugo Cilo, Lucas Sanchez, Luiza Villaméa, Magic Paula, Márcio Kroehn, Roberta Namour, Rodrigo Cardoso, Rodrigo Novaes e Simone Goldberg (texto); Cássio Vasconcellos, Christian Gaul, Daryan Dornelles, Nana Moraes, Teco Barbera e Tom Cabral (fotos); L. Braga Jr. e Lúcio Fonseca (produção)

REPÓRTERES FOTOGRÁFICOS: Daniela Dacorso, João Castellano, Pedro Dias e Rafael Hupsel GERENTE: Maria Amélia Scarcello SECRETÁRIA: Terezinha Scarparo ASSISTENTE: Cláudio Monteiro AUXILIAR: Lucio Fasan

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Ricardo van Steen (colaborou Bruno Pugens) Arlete Mendes de Souza, Lourdes Maria A. Rivera, Mario Garrone Jr. e Neuza Oliveira de Paula GERENTE INDUSTRIAL: Fernando Rodrigues COORDENADOR GRÁFICO: Ivanete Gomes DIRETOR: Gregorio Franca GERENTE DE OPERAÇÕES: Thomy Perroni ASSISTENTE: Luiz Massa ASSISTENTES JR.: Fábio Rodrigo e Paulo Sergio COORDENADORA: Vanessa Mira COORDENADORA ASSISTENTE: Regina Maria ASSISTENTES: Karina Pereira, André Barbosa e Denys Ferreira

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EXECUTIVOS:

06 MARÇO 2011 | ISTOÉ 2016

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EDITORIAL

IDEIAS, IDEIAS E MAIS IDEIAS

V

OCÊ PROVAVELMENTE já viu por aí reportagens sobre os medalhistas paraolímpicos do Brasil. Talvez até tenha lido depoimentos interessantes que trazem histórias de superação. Mas acredite: o especial da 2016 sobre nossos campeões escapa a qualquer comparação. Nós fugimos dos estereótipos. Não se lerá, no texto que começa na página 36, uma linha sequer que apele para o sentimentalimo. Reconheça-se que não é tarefa fácil escrever sobre gigantes paraolímpicos sem cair na tentação de valorizar os aspectos dramáticos e deixar de lado as façanhas espetaculares que eles alcançaram no campo esportivo. Foi esse desprendimento que nós buscamos – e certamente conseguimos. A 2016 é de fato uma publicação com DNA inovador. As fotos dos cinco atletas retratados pela reportagem foram realizadas por um deficiente visual. Vê-lo trabalhar é algo para marcar a vida de qualquer um. Dotado de apenas 5% da visão do olho esquerdo, Antônio Barbero, o Teco, usou as mãos para “sentir” os atletas e, assim, definir o que desejava extrair deles. O que ele captou foi a própria atmosfera presente no estúdio: uma alegria contagiante que transparece em cada imagem publicada nesta edição. Outra reportagem de fôlego comprova que a redação da 2016 é fértil de boas ideias. Nossa capa desconstrói alguns mitos a respeito do esporte feminino no Brasil. Em vez de cair no lugar-comum do discurso que prega que as mulheres enfim desfrutam dos mesmos privilégios que os homens, nós apuramos a fundo as diferenças abissais – de remuneração, reconhecimento e visibilidade midiática, para citar apenas algumas – entre os sexos. O texto é embasado por entrevistas com as três únicas medalhistas olímpicas individuais do Brasil: a saltadora Maurren Maggi, a judoca Natália Falavigna e a lutadora de tae kwon do Ketleyn Quadros. Embora tão vitoriosas quanto os melhores atletas do País, elas estão longe de ser admiradas como gênios do esporte. Grandes histórias como essas criaram um daqueles problemas que nós adoramos: tínhamos em mãos duas excelentes opções de capa (observe ao lado), mas só uma poderia vingar. A escolha pela versão feminina se deve a uma adequação perfeita de data: março é o mês da mulher. Eis aqui nossa homenagem.

POR AMAURI SEGALLA EDITOR-EXECUTIVO asegalla@istoe.com.br


ÍNDICE EXPEDIENTE

06

EDITORIAL

07

ÍNDICE

08

CARTAS

12

COLABORADORES

13

CLIQUE

18

SEÇÕES AQUECIMENTO Entrevistamos o super-homem que correu 365 maratonas em um ano

22

RAIO X Conheça as regras e como são avaliadas as atletas do nado sincronizado, esporte que deixa os homens de fora

28

ARTIGO Magic Paula diz que o Brasil só vai formar mais campeões quando der atenção à escola

102

PERFORMANCE Para retribuir o bem que você faz ao meio ambiente quando troca o carro pela bicicleta, apresentamos equipamentos para deixar as suas pedaladas mais prazerosas

104

CONCENTRAÇÃO Livro mostra que os corredores têm muito o que aprender com uma tribo indígena do México

106

PAINEL Nenhum esporte olímpico fica de fora de nosso radar

108

PÁGINA DOURADA Mesmo depois de ter faturado cinco medalhas de ouro em Olimpíadas, Johnny Weissmuller é mais lembrado por sua parceria com a macaca Chita no cinema

114

30 SEBASTIAN COE

Organizador da Olimpíada de 2012 afirma que o Rio de Janeiro não deve copiar Londres

54 BOOM IMOBILIÁRIO

Se você pensa em investir no mercado imobiliário carioca, a hora é agora. Daqui até 2016, os preços só vão aumentar. E muito...

60 TRABALHO POR ESPORTE

Ser voluntário em eventos esportivos tem um componente viciante. A maioria dos que trabalharam no Pan de 2007 querem repetir a dose em 2016

78 MULHER, EMPRESÁRIA, EMPREENDEDORA

Lideradas pela ex-triatleta Fernanda Keller, uma nova geração de empreendedoras investe de olho em 2016

90 O BRASIL CONTA COM NEYMAR

Depois de ajudar o Brasil a vencer o Sub-20 e se classificar para Londres 2012, a estrela do Santos é a maior esperança para que o País conquiste o título que falta ao futebol

94 O FUTURO DE TIAGO BRÁS

O brasileiro é a grande revelação do salto com vara. Quem diz isso é Sergei Bubka, maior saltador da história

98 APETITE DE LEÃO

Cansado de perder seus atletas para outros clubes, o Sport Recife investe em estrutura para que as pratas da casa tragam ouros


66 BRASILEIRAS ÚNICAS

Maurren Maggi, Natália Falavigna e Ketleyn Quadros, nossas medalhistas individuais em Olimpíadas, querem ser tão reconhecidas quantos os astros masculinos

46

82 O PESO DO OURO

Desconhecidos, eles lutam contra a falta de recursos para fazer do levantamento de peso, esporte que dá muitas medalhas olimpícas, uma fonte de títulos para o País

AS ÁGUAS DO RIO

36 EXTRAORDINÁRIOS

Convidamos um fotógrafo cego para produzir as imagens de cinco astros paraolímpicos que, juntos, colecionam mais medalhas que todos os atletas olímpicos brasileiros

Índice

O que está sendo feito para despoluir lagoas, praias e mananciais cariocas antes da Olimpíada de 2016


“O RIO NÃO DEVE COPIAR LONDRES” 30 MARÇO 2011 | ISTOÉ 2016

Foto: Oli Scarff/Getty Images

ENTREVISTA | SEBASTIAN COE


D

ono de duas medalhas de ouro olímpicas na prova dos 1.500 metros (Moscou 1980 e Los Angeles 1984) e com 11 recordes mundiais quebrados ao longo da carreira, o inglês Sebastian Coe poderia passar o resto de seus dias longe das pistas de atletismo que ainda seria considerado um mito. Aos 54 anos, porém, ele continua ligado ao esporte, mas agora do outro lado do balcão. Coe foi o idealizador da candidatura de Londres para sediar os Jogos Olímpícos e, vencida a eleição, se tornou presidente do comitê responsável pela organização do evento. Como executivo, tem se revelado um

PASSAGEIRO Coe, em um ônibus em Londres. Ele quer promover a primeira Olimpíada sustentável

inovador. Conseguiu convencer o governo inglês a abraçar a causa da sustentabilidade (o que resultou na construção de instalações temporárias para os Jogos, mais econômicas no consumo de energia) e a vender ingressos a preços populares (a final dos 100 metros rasos, a prova mais nobre da Olimpíada, vai custar a partir de 22 euros – R$ 50). Ele também quer deixar um legado: incentivar os jovens do mundo inteiro a praticar esporte. Em en-trevista exclusiva, Coe relembra passagens da carreira, fala dos Jogos de Londres e dos desafios do Brasil para 2016. Seu recado: “O Rio não deve copiar Londres”.

ENTREVISTA SEBASTIAN COE, PRESIDENTE DO COMITÊ ORGANIZADOR DOS JOGOS DE LONDRES 2012

POR ROBERTA NAMOUR


ENTREVISTA | SEBASTIAN COE

O sr. tem uma das carreiras mais impressio-nantes da história do esporte, com 11 recordes mundiais quebrados. Que fatores foram determinantes para que alcançasse tais resultados ? Minhas conquistas se devem a muito treino, a uma boa equipe e à determinação de nunca desistir. Também pude contar com o apoio fantástico da minha família. Não receio dizer que, sem a ajuda de meus familiares, eu definitivamente não teria alcançado nada. O que mudou para os atletas de hoje em comparação com os dos anos 80 do século passado, período em que o sr. alcançou seus melhores resultados? Atualmente, há mais recursos disponíveis para os atletas. Entre eles, podemos destacar o financiamento para o esporte de elite do governo do Reino Unido. Além disso, existe uma significativa ajuda da Loteria Nacional da Inglaterra (maior loteria do país que reverte 28% dos ganhos a causas determinadas pelo Parlamento) e de patrocinadores corporativos. Tudo isso faz uma enorme diferença para a vida de um atleta. É fácil de entender. Mais recursos disponíveis significam novos e melhores equipamentos, acesso a treinamento de ponta e financiamento para participações em importantes competições. Com essa assistên-

E quais aspectos são parecidos com os de seu tempo de competidor? O que não muda é a necessidade contínua da adoção de novas técnicas de treinamento e de tecnologias de ponta na preparação do atleta. Meu técnico desenhou exclusivamente para mim formas inovadoras de treinamento e introduziu conceitos fisiológicos na minha preparação. Isso me deu vantagem diante dos outros competidores. A descoberta se tornou hoje um padrão, mas os atuais atletas de elite e suas equipes encontrarão novas maneiras de melhorar seus rendimentos. Qual é a importância do esporte e de competições olímpicas para um país? O esporte é muito importante no desenvolvimento de um país, seja ele de qualquer parte do mundo, rico, pobre ou em desenvolvimento. O esporte é uma linguagem universal que todos podem compreender. Ele pode ajudar a mudar vidas e a abrir portas para noções de liderança, para uma boa saúde ou para simplesmente proporcionar a satisfação daqueles que o praticam. Além disso, as modalidades esportivas podem ser usadas para ensinar conceitos como confiança e respeito.

“VAMOS VENDER INGRESSOS POPULARES. A FINAL DOS 100 METROS VAI CUSTAR 22 EUROS” cia, o atleta pode usar seu potencial para correr atrás de seus sonhos e atingir performances dignas de medalhas olímpicas, sem se preocupar com dinheiro. Até pouco tempo atrás, mesmo um campeão olímpico poderia ter dificuldade para obter rendimentos dignos. Hoje isso, felizmente, não acontece mais.

O que é o programa Inspiração Internacional? É um programa que tem o objetivo de proporcionar esporte de alta qualidade, educação física e melhores oportunidades de treinamento para crianças ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Toda pessoa, independentemente de sua origem, tem o direito de sonhar com os Jogos Olímpicos e alcançar seu pleno potencial. O Inspiração Internacional dá a essas pessoas a oportunidade vital para seu desenvolvimento por meio do esporte. O comitê de Londres também disse que os Jogos Olímpicos no país seriam marcados pela criatividade e pela preocupação com o meio ambiente. O que isso significa na prática?

Fotos: AFP PHOTO/ BEN STANSALL e Hulton Archive

A candidatura de Londres na Olimpíada de 2012 foi baseada na ideia de servir como inspiração para atrair os jovens ao esporte. De que forma isso será feito? Quando Londres se candidatou para sediar os Jogos de 2012, dissemos que queríamos chegar aos jovens de todo o mundo e motivá-los a optar pelo esporte como caminho de vida. Nosso programa olímpico, chamado de Inspiração Internacional, tem sido muito bem-sucedido.


i Queremos usar os Jogos como um catalisador para regenerar e melhorar a qualidade de vida, principalmente no leste de Londres. Nossa intenção é incentivar uma vida mais sustentável em todo o território do Reino Unido. O discurso da sustentabilidade está em moda hoje em dia, mas ele é aplicado na realidade dos países? Objetivamente, de que forma os Jogos Olímpicos podem despertar o respeito ao meio ambiente? Nosso objetivo é estabelecer novos padrões de vida, criando uma mudança positiva e duradoura para o meio ambiente e para as comunidades. Ressalto que nós temos incorporado a sustentabilidade em nosso planejamento desde o início. Estamos empenhados em utilizar sempre que possível espaços já existentes no Reino Unido para a competição. Significa que construiremos estruturas esportivas permanentes apenas se tiverem um uso a longo prazo após os Jogos. Todo o resto será feito com estruturas temporárias. Isso representa uma economia brutal de recursos. Pessoalmente, o que significa presidir a organização dos Jogos de Londres 2012? Estou extremamente orgulhoso e honrado em ser presidente do Comitê Organizador de Londres para os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos. Nossa proposta de inspirar os jovens para a prática esportiva e de deixar um legado duradouro está acontecendo. Isso me deixa muito satisfeito. Como é o seu trabalho no dia a dia? Tenho acompanhado a evolução dos jovens nas escolas do Reino Unido desde que começamos a organizar a competição. Também visitei locais de treinamento e pude testemunhar o empenho de atletas aspirantes em melhorar suas marcas pessoais. A vida das pessoas começou a mudar na parte leste de Londres graças à construção dos parques olímpicos. No entanto, não teríamos chegado até aqui sem o fantástico trabalho, dedicação e empenho de todos os nossos colaboradores e voluntários que trabalham nos Jogos de Londres 2012. Eles estão nos ajudando a propagar a nossa bandeira no dia a dia. Os Jogos Olímpicos de Londres vão oferecer ingressos a preços mais populares? Recentemente, o Comitê de Londres anunciou que o processo de venda dos bilhetes para os Jogos Olímpicos será iniciado no dia 15 de março deste ano. As vendas vão durar seis semanas, permitindo que as pessoas analisem as opções antes de fazer as escolhas finais. Os preços vão de 22 euros a 2.292 euros. Os ingressos mais caros dão o direito de asssitir à cerimônia de abertura, mas os mais populares permitem ao torcedor o acesso à final dos 100 metros rasos, por exemplo. As pessoas no Brasil interessadas em comprar ingressos para os Jogos ou em ir a Londres devem contatar o seu Comitê Olímpico Nacional (CON). Esta é uma oportunidade única para ver os melhores atletas do mundo lutando pelo ouro no Reino Unido.

“MEU TÉCNICO DESENHOU EXCLUSIVAMENTE PARA MIM FORMAS INOVADORAS DE TREINAMENTO E INTRODUZIU CONCEITOS FISIOLÓGICOS NA MINHA PREPARAÇÃO. ISSO ME DEU VANTAGEM DIANTE DOS OUTROS COMPETIDORES” O Brasil vai sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Qual a sua opinião sobre isso e o que o sr. espera ver no Brasil em cinco anos? Estamos muito felizes em entregar os Jogos Olímpicos para um país que colocará os jovens no coração de suas propostas e para um continente que nunca sediou a competição antes. Estou certo de que o Rio de Janeiro vai fazer um mandato espetacular. A beleza das Olimpíadas está em nenhum país copiar o outro. Nós devemos aprender com nossos antecessores, mas cabe ao novo anfitrião deixar sua marca na história dos Jogos Olímpicos. E eu acredito fortemente que o Rio de Janeiro fará isso.


PARAOLÍMPICOS

Daniel Dias O maior atleta paraolímpico do Brasil nasceu com má formação congênita dos braços e da perna direita. A prótese que o acompanha por todos os lados, embora não sirva para a natação, ajuda na locomoção diária. Com nove medalhas na última Paraolimpíada – quatro ouros, quatro pratas e um bronze –, Daniel tem o desafio de superar o próprio desempenho fantástico para se manter no topo. “Todo atleta se supera, mas nós que somos deficientes precisamos nos superar ainda mais” , diz o esportista, natural de Campinas (SP)

36 MARÇO 2010 | ISTOÉ 2016


Se não fosse deficiente físico, Daniel Dias provavelmente seria um ídolo do esporte brasileiro, tão reverenciado quanto Cesar Cielo ou Torben Grael. Se seu corpo não tivesse limitações, Daniel talvez nem sequer se tornasse um competidor obcecado por vitórias. Esse paradoxo persegue o homem que ganhou nove medalhas em Pequim 2008 e que detém cinco recordes mundiais na natação, o que faz dele um dos esportistas mais premiados do planeta. Mas Daniel não é o único multivencedor a viver mergulhado em contradições. Para os atletas paraolímpicos, os limites são ao mesmo tempo a força motriz e a barreira que os coloca diante de imensos – por v

EXTRAORDINÁRIOS NOSSAS ESTRELAS PARAOLÍMPICAS SÃO FOTOGRAFAS POR UM DEFICIENTE VISUAL E REVELAM COMO SUPERAM LIMITES E ADVERSÁRIOS

vezes intransponíveis – desafios. Engana-se, porém, quem pensa que as dificuldades fazem dos paraolímpicos pessoas amarguradas, inconciliáveis com a vida, divorciadas do destino. A reportagem da 2016 descobriu isso depois de uma série de entrevistas com cinco campeões paraolímpicos: Daniel Dias, Lucas Prado, Edênia Garcia, Natalia Mayara e Jonathan Santos, todos atletas com um impressionante rosário de vitórias e provações. A produção das fotos revelou-se quase tão extraordinária quanto a performance desses campeões. Todos eles foram retratados por um deficiente visual, o paulista Antônio Walter Barbero. Limites existem apenas para ser superados. POR LUCAS SANCHES FOTOS TECO BARBERO


PARAOLÍMPICOS

ucas Prado tinha 16 anos quando ficou cego. De uma hora para outra, o mundo do auxiliar administrativo do Banco do Brasil de Rondonópolis, em Mato Grosso, ficou insuportavelmente branco – e assim vai ficar para sempre. O deslocamento simultâneo de ambas as retinas, cuja causa exata nunca foi estabelecida pelos médicos, foi o início de uma nova vida que poderia não ter durado muito se ele não tivesse conhecido o esporte. Hoje, aos 25 anos, Lucas é um dos maiores velocistas do mundo, com três medalhas de ouro nos Jogos Paraolímpicos de Pequim (2008), dois recordes mundiais (100 metros e 200 metros rasos) e três medalhas de ouro no Mundial de Atletismo Paraolímpico realizado em janeiro, na Nova Zelândia. É fácil encontrar histórias de superação entre astros paraolímpicos, sejam aqueles que nasceram com algum tipo de limitação física, sejam os que adquiriram essa condição ao longo da vida. Difícil, mas absolutamente necessário, é evitar clichês. Tudo o que esses homens e mulheres menos querem é compaixão e condescendência. Seus resultados falam por si e sua trajetória deixa pouca margem para questionar o poder transformador do esporte. Foi graças ao esporte que Lucas saiu do desespero inicial da cegueira e chegou aos pódios do mundo. “Quando você perde a visão, os amigos somem e você entra em 38 MARÇO 2010 | ISTOÉ 2016

paranoia”, diz o velocista. “Eu ia de segunda a segunda para o bar, ficava bêbado, queria arrumar briga e pensei em me matar.” Foi um amigo, também cego e que praticava futebol de cinco (modalidade para deficientes visuais) que o conduziu para o universo esportivo. Em 2004, enquanto treinava na cidade de Cuiabá, Lucas descobriu que os 5% de visão que ainda lhe restavam – suficientes apenas para deduzir vultos – não ajudavam tanto assim. “Muitas vezes, o cego total se movimenta melhor do que aquele que vê vultos”, diz. “Quem enxerga vultos tenta se movimentar pela visão e acaba se machucando.” Em 2005, depois de seis cirurgias, o matogrossense perdeu totalmente a visão, fato que não o deixou abalado. “Eu tenho um cérebro adaptado, meu olfato e minha audição estão muito mais desenvolvidos.” Adaptação é a palavra mágica dos esportistas paraolímpicos. Daniel Dias, o melhor nadador brasileiro da categoria (quatro ouros, quatro pratas e um bronze em Pequim 2008 e oito ouros e cinco recordes no último Campeonato Mundial, em 2010), que o diga. O atleta de 22 anos, natural de Campinas, no interior de São Paulo, nasceu com má formação congênita dos braços e da perna direita. Em 1991, quando ainda tinha 2 anos, passou por uma complicada cirurgia que permitiria a adaptação de uma prótese em sua perna. Anos mais tarde, com a evolução de materiais e da própria medicina, a prótese de R$ 80 mil se tornou parte crucial da vida do esportista, mesmo que ele não a utilize para a natação. “Ela facilita muito a caminhada”, diz Daniel. “Antes, eu tinha dor nas costas, mas agora isso melhorou muito.” Sua carga de treinamento é semelhante à de qualquer atleta olímpico. Seis vezes por semana, ele alterna musculação e natação, com poucas folgas para um dos passatempos favoritos: o videogame. “Todo atleta se supera, mas nós que somos deficientes precisamos nos superar ainda mais.”


O discurso da superação se deve à dura realidade dos treinos e, principalmente, aos obstáculos impostos pelo dia a dia. A também nadadora Edênia Garcia, eleita a melhor atleta paraolímpica brasileira de 2010 (conquistou três ouros nos 50 metros costas em três mundiais seguidos), ainda não conseguiu realizar um sonho: dirigir o próprio carro. A atleta, que é portadora de polineuropatia sensitivo-motora (doença hereditária e degenerativa que reduz progressivamente os movimentos), não consegue tirar carteira de motorista porque a cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, não tem autoescolas qualificadas para habilitação de deficientes. “Comprei

acondroplasia, condição mais conhecida como nanismo. Romarinho, como Jonathan é chamado pelos amigos, é uma das novas revelações paraolímpicas do Brasil, tendo quebrado dois recordes mundiais de arremesso de peso e disco em menos de quatro anos de treinamento. “Meu maior desejo é conquistar uma medalha nos Jogos Paraolímpicos”, diz. O caminho vem sendo trilhado com bons resultados, entre eles uma medalha de prata no arremesso de disco no Mundial de Atletismo Paraolímpico da Nova Zelândia, em que o Brasil terminou na terceira colocação geral, atrás apenas de China e Rússia. Também é na juventude de Natalia Mayara que o Bra-

se perdeu a vida em um acidente trágico. Ela não se lembra de nada do dia em que teve as duas pernas amputadas e sofreu traumatismo craniano, mas sabe relatar exatamente o que aconteceu. “Estava com minha mãe em um ponto de ônibus do Recife”, diz. “Ela me colocou no chão e, instantes depois, um ônibus invadiu a calçada e me atropelou.” Natalia diz que o acidente não teria sido tão grave se, depois do atropelamento, o motorista não tivesse tentado fugir. “Fiquei presa entre a roda e o ônibus, fui arrastada por vários metros até que o motorista desistiu e fugiu a pé.” Foram os pedestres que tiveram que levantar o pesado veículo para tirar a menina de lá. Natalia tinha acabado de sair

O BRASIL EM PEQUIM 2008 OS PARAOLÍMPICOS GANHARAM MAIS MEDALHAS NA ÚLTIMA EDIÇÃO DOS JOGOS

OLÍMPICOS: 15 MEDALHAS1,5% DO TOTAL DISTRIBUÍDO PARAOLÍMPICOS: 47 MEDALHAS 3,2% DO TOTAL DISTRIBUÍDO meu primeiro carro em 2005, mas até hoje tento tirar o documento e não consigo”, diz. Edênia afirma que a superação também diz respeito à falta de visibilidade do esporte paraolímpico. “Na Paraolimpíada, o atleta precisa ganhar sete ou oito medalhas para conquistar algum tipo de reconhecimento”, diz a nadadora. Não é segredo que bons resultados atraem mais gente interessada em praticar o esporte. É no exemplo do nadador Clodoaldo Silva ou da velocista Ádria dos Santos, mitos paraolímpicos do Brasil, que muitos dos novos talentos buscam inspiração. Jonathan Santos é um alagoano de 20 anos que nas horas vagas gosta de surfar e andar de skate, esportes cuja prática nunca foi problema para o jovem portador de

sil aposta suas fichas para galgar posições no tênis paraolímpico. A recifense de 17 anos, que atualmente vive em Brasília, foi a primeira brasileira a chegar ao Top 4 do ranking mundial juvenil da categoria e acabou de conquistar o campeonato nas duplas e o vice-campeonato individual no Master Junior, realizado na França em janeiro. A garota de olhar meigo e voz baixa concilia escola, treinamentos e baladas enquanto planeja estudar direito ou arquitetura. “Nunca pensei em largar o esporte por causa da grande carga de responsabilidades”, afirma. Com exceção da notoriedade local gerada pelos ótimos resultados esportivos, Natalia leva uma vida normal de adolescente, fato notável para quem, aos 3 anos de idade, qua-

do hospital para tratar de uma “coceira no pé”. É aqui que ela revela o bom humor, típico de quem está de bem com a vida. “Minha mãe diz que, depois do acidente, resolvemos a coceira de uma vez por todas.” Além do esporte como forma de reabilitação e inserção, esses atletas têm em comum histórias de preconceito para contar. Lucas, o velocista que é deficiente visual, lembra de episódios lastimáveis. Certa vez, proferiu uma sucessão de impropérios contra uma senhora que disse para o filho pequeno “não chegar perto do ceguinho, para não pegar a doença dele”. Em Brasília, Natalia teve que enfrentar o descaso dos organizadores de um show que não 39 MARÇO 2010 | ISTOÉ 2016


PARAOLÍMPICOS

Jonathan Santos O festival de medalhas no peito prova que Jonathan Santos, morador de Maceió (AL), se orgulha dos resultados esportivos. Em menos de quatro anos de treinamento, o jovem portador de acondroplasia, condição mais conhecida como nanismo, quebrou dois recordes mundias no arremesso de peso e disco. Romarinho, como é chamado pelos amigos, diz que não dá a mínima para a baixa estatura, tanto que ri do apelido. “Sempre tem brincadeira de mau gosto, mas vou dar bola para isso?”, pergunta o atleta. “Sou um profissional, ganho a vida com meu trabalho, tenho minha namorada e estou muito bem, obrigado”


Lucas Prado Ninguém no estúdio da 2016 escapou das constantes piadas de Lucas Prado, que acabou de voltar do Campeonato Mundial de Atletismo na Nova Zelândia com três medalhas de ouro. Depois de perder subitamente a visão em 2002 devido ao deslocamento de ambas as retinas, Lucas chegou a pensar em suicídio, abandonou a família e mergulhou no álcool. “Quando você perde a visão, os amigos somem e você entra em paranoia”, conta o atleta. A reabilitação começou em 2004, graças ao esporte. “Eu tenho um cérebro adaptado, meu olfato e minha audição estão muito mais desenvolvidos”


PARAOLÍMPICOS Natalia Mayara Cansa só de assistir a uma partida de tênis de Natalia Mayara. O constante empurrar da cadeira de rodas de um lado para o outro, as raquetadas poderosas e a concentração característica do esporte exigem esforço físico e mental pouco comuns. A recifense, que hoje mora em Brasília (DF), perdeu as duas pernas ao ser atropelada por um ônibus aos 3 anos de idade. O acidente não teria sido tão grave se o motorista não tivesse tentado fugir. “Fiquei presa entre a roda e o ônibus, fui arrastada por vários metros até que o motorista desistiu e fugiu a pé”


Edênia Garcia Em seu primeiro campeonato de natação, Edênia Garcia quebrou todos os recordes de todas as provas que disputou. Eleita a melhor atleta paraolímpica brasileira de 2010 (conquistou três ouros nos 50 metros costas em três mundiais seguidos), ela ainda não conseguiu realizar um sonho: dirigir o próprio carro. "Natal (RN) não tem uma autoescola sequer qualificada para habilitação de deficientes físicos", diz a esportista. Portadora de polineuropatia sensitivo-motora, doença degenerativa que reduz progressivamente os movimentos, Edênia é uma das esperanças do Brasil para Londres 2012


PARAOLÍMPICOS

44 MARÇO 2010 | ISTOÉ 2016


A IMAGEM DA CEGUEIRA “O cego fotografa aquilo que está sentindo”, diz Antônio Walter Barbero, o “Teco”, quando perguntado como é possível que um deficiente visual registre imagens que não enxerga. O jornalista de 29 anos, nascido em Sorocaba (SP), tem apenas 5% da visão e quase a totalidade dela está concentrada no olho esquerdo. Portador de uma doença conhecida como persistência do vítreo primário, Teco aprendeu desde muito cedo a se virar. Fala italiano, inglês, espanhol e francês e já viajou sozinho para a Itália. Em 2002, quando um documentarista local resolveu iniciar um curso para cegos, mergulhou com tudo no projeto. Não demorou muito para que fosse convidado para fotografar a campanha publicitária da ADD (Associação Desportiva para Deficientes), trabalho que aumentou sua projeção no Brasil. “Se eu toco no rosto da pessoa e escuto o som do estúdio ou das ruas, formo a imagem na minha cabeça”, diz o responsável pelo ensaio da 2016. “A fotografia é uma maneira de registrar a imagem e de deixar a marca do próprio fotógrafo.” SENSIBILIDADE: o retratista e deficiente visual Teco clica as estrelas paraolímpicas do Brasil: "O cego fotografa aquilo que está sentindo", diz

SE O BRASIL É COADJUVANTE NA OLIMPÍADA, NÃO É EXAGERO AFIRMAR QUE JÁ É UMA POTÊNCIA PARAOLÍMPICA

reservaram lugares para deficientes físicos. “Teve até um sujeito ignorante que simplesmente disse que não podia fazer nada para nos ajudar”, diz a tenista. Em outros casos, a discriminação é velada. “Sempre existe aquele olhar desconfiado ou aquela cara de 'coitadinho' que fazem para o deficiente”, afirma Jonathan. Mesmo com essas dificuldades e com a considerável diferença de renda de um esportista olímpico para um paraolímpico – um atleta de ponta sem deficiência pode ganhar mais de R$ 50 mil por mês,

enquanto salários e patrocínios de campeões com limitações físicas não chegam a um quarto disso –, a elite do esporte paraolímpico diz que a situação nunca esteve tão boa quanto agora. Existem patrocinadores interessados nos feitos desses atletas e centros de treinamento e profissionais especializados. Isso se reflete em resultados. Em 1996, o Brasil conquistou apenas duas medalhas de ouro na Paraolimpíada de Atlanta. Doze anos depois, em Pequim 2008, esse número passou para 16. Se o Brasil é coadjuvante na Olimpíada, não é exagero afirmar que já é uma potência paraolímpica. Essa vi-

rada começou em 2001, quando a Lei Agnelo-Piva passou a destinar recursos das loterias federais para o esporte olímpico e paraolímpico. “Hoje, o Brasil é um país da elite e precisa lutar para manter essa posição”, diz Andrew Parsons, presidente do Comitê Paraolímpico Brasileiro. Parsons estabeleceu metas ambiciosas para o futuro. “Em Londres, nosso objetivo é galgar duas posições no quadro de medalhas e ficar em sétimo lugar”, diz. “Na Rio 2016, queremos pelo menos a quinta colocação geral.” A julgar pelo talento de nossas estrelas paraolímpicas, essas metas serão facilmente alcançadas.


CAPA

FALTA DE APOIO Ketleyn Quadros ganhou a medalha de bronze nos Jogos de Pequim e é forte candidata ao pódio na próxima Olimpíada. Mesmo assim, não é patrocinada por ninguém


PODEROSAS ELAS SÃO TÃO ESPETACULARES QUANTO ELES E JÁ FATURAM METADE DAS

MEDALHAS OLÍMPICAS DO BRASIL. MESMO ASSIM, AINDA NÃO DESFRUTAM DO MESMO RECONHECIMENTO QUE OS ÍDOLOS MASCULINOS. O QUE FALTA PARA QUE AS MULHERES SEJAM ADMIRADAS COMO GÊNIOS DO ESPORTE?

POR RODRIGO CARDOSO FOTOS NANA MORAES

67 MARÇO 2011 | ISTOÉ 2016


ISTOÉ 2016 (Março de 2011)  

Edição de março de 2011 da revista ISTOÉ 2016.

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