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Sobre a coragem e outras virtudes

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MUTAÇÕES

Essa ressignificação da virtude, trazida pelo livro, se mostra fundamental diante dos desafios de uma realidade cotidiana em constante mutação. À medida que nos deparamos com o avanço das ameaças à democracia, os ditames da tecnociência e a apatia generalizada frente à urgência climática que nos põe em rota de autodestruição voluntária, são colocados em xeque nossos paradigmas de conhecimento, e vemos lançada em crise a própria noção de verdade, reduzida à disputa superficial de opiniões mediadas por algoritmos. O medo da catástrofe exige de nós a busca por novos caminhos. Corajoso, afinal, não é quem não tem medo; é quem o enfrenta, apesar dos riscos. E só há coragem possível onde há esperança.

SOBRE A CORAGEM E OUTRAS VIRTUDES ADAUTO NOVAES . A CORAGEM DA VERDADE FRÉDÉRIC GROS A CORAGEM DA VERDADE: MEMÓRIA E IDEOLOGIA HELTON ADVERSE . PODE-SE DEFENDER A CORAGEM? FRANCIS WOLFF . A ANARQUIA DA CORAGEM MARCIA SÁ CAVALCANTE SCHUBACK . REFLEXÕES SOBRE A CORAGEM DAS MULHERES DENIS DIDEROT . A CORAGEM DE FALAR E A POTÊNCIA POLÍTICA DAS VOZES NEGRAS TESSA MOURA LACERDA . LIVRAR O PASSADO DE SEU PRÓPRIO EXÍLIO VLADIMIR SAFATLE A VARIANTE AUDACIOSA LUIZ ALBERTO OLIVEIRA . CORAGEM COMBINA COM ESPERANÇA LILIA MORITZ SCHWARCZ . NIETZSCHE E A VIRTUDE DA CORAGEM OSWALDO GIACOIA JUNIOR . AS AMBIGUIDADES DA CORAGEM JORGE COLI . CORAGEM E SOLIDÃO NEWTON BIGNOTTO . DO PARAÍSO PERDIDO À TERRA

NO NOVO MUNDO PEDRO DUARTE . O VAZIO DA CORAGEM EUGÊNIO BUCCI

Eugênio Mattioli Gonçalves é doutor em filosofia

pela USP, com estágios na Universidade de Turim e na Universidade Jean Moulin Lyon III. Leciona no Liceo Scientifico Dante Alighieri e é pesquisador da Unicamp.

Org. Adauto Novaes

PROMETIDA OLGÁRIA MATOS . AQUÉM DO TEMOR RENATO LESSA . MEDO E CORAGEM MARIA RITA KEHL SOBRE ALGUMAS FIGURAÇÕES CONTEMPORÂNEAS DO HUMANO MARCELO JASMIN . CORAGEM DE ENTRAR

Sobre a coragem e outras virtudes

Desse modo, a cada página somos convidados a revisitar nosso passado não apenas mirando a compreensão do presente, mas sobretudo em vista da construção de um novo futuro. Pela mão dos autores, gradualmente vamos atualizando para nossos dilemas contemporâneos as formulações filosóficas clássicas acerca da coragem, numa rica reflexão sobre os diferentes aspectos relacionados a ela, como o medo e a solidão.

MUTAÇÕES

Sobre a coragem e outras virtudes Organização Adauto Novaes

Conservamos no nosso imaginário comum a representação da coragem na figura do herói, encarnada no homem que, movido por um ideal, se dispõe a enfrentar forças que lhe são superiores. Essa narrativa da pulsão corajosa do protagonista nos acompanha ao menos desde as epopeias gregas e traz consigo uma visão calcada na bravura do combatente, que se vê inserido em um universo maniqueísta, simples e finito, em geral dividido entre uma massa de pessoas comuns, alheias aos grandes acontecimentos, e o corajoso, que por meio de sua virtude se destaca dos demais. Assim, o foco do olhar reside no indivíduo escolhido como modelo de inspiração moral para o espectador, tornando o contexto mero cenário inerte do ato de valentia retratado. O mundo é ofuscado pelo brilho do herói. Não é isso, contudo, o que encontramos em Mutações: sobre a coragem e outras virtudes. Nesta coletânea de ensaios resultante do ciclo homônimo, organizado por Adauto Novaes, é o próprio mundo um protagonista em si. É a partir do mundo grego e da invenção da pólis que compreendemos a importância da coragem democrática na construção de um universo político verdadeiramente representativo. Da nossa tragédia escravocrata e dos incontáveis exemplos de resistência a ela, esquecidos pela historiografia, vemos brotar a determinação no enfrentamento do racismo entranhado em nossas instituições. Na constituição social dos gêneros, fruto do patriarcado heteronormativo – que nos ensina desde a infância que ser corajoso é “ser homem” –, encontramos o ideal de uma coragem feminina, marcada não pelo medo da morte, mas pelo amor à vida. O exemplo recente das experiências totalitárias e dos campos de concentração nos reveste de força na recusa peremptória ao retorno da barbárie e da relativização do horror. É do próprio mundo, portanto, que nasce a coragem necessária para transformá-lo.


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