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Sumário EDITOR CHEFE

Inês Nabais

EDITORA

Edições Hórus

COLUNISTAS: Ana Ribeiro Morphine Epiphany Jaconias Mocumbi Ana Linares Inês Nabais Douglas Bock

DESIGN:

Inês Nabais

Contacte-nos SEDE:

Rua de Olivença nº9 2ºEsq Sala 2 2800-183 Almada CONTATO: 968 487 291 WEBSITE www.edicoeshorus.com © 2016 por Edições Hórus. Todos os direitos reservados. A sua reprodução em um todo ou em parte é proibido. A revista Hórus Cultuliterarte é marca registada da Editora. Os textos publicados são da inteira responsabilidade dos autores e não dizem respeito à opinião do editor e seus conselheiros, isentos de toda e qualquer informação que tenha sido apresentada de forma equivocada por parte dos autores aqui publicados. .

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Editorial

P

orque não somos apenas uma editora que publica livros, mas também revistas.

Nesta que é a 1ª Edição da Hórus Cultuliterarte queremos destacar a importância das Antologias tanto para autores novatos ou para os já habituados a estas andanças de inúmeras antologias que dia-a-dia surgem nas redes sociais sabem-se lá vindas de onde e quem está por detrás delas. Para darmos a conhecer um pouco do que é a dinâmica de uma Antologia, eu mesma tenho uma coluna dedicada a este tema mostrando as 15 antologias publicadas pelas Edições Hórus desde a sua existência como editora e empresa que é. No decorrer da revista irão encontrar poemas de Morphine Epiphany e Jaconias Mocumbi e contos de Ana Ribeiro, Ana Linares e Douglas Bock. E ainda divulgação de Livros, Publicidade e Novidades! Quero dar as boas-vindas a todos os participantes desta primeira edição de muitas, e aproveitar para convidar novos participantes para as próximas edições bastando enviar um e-mail para edicoes.horus@gmail.com Esperando que esta pequena e primeira edição vos agrade! Feliz Natal e Feliz Ano Novo para todos! Até à próxima edição!

Inês Nabais Gerente/Editora das Edições Hórus e Autora desde os doze anos. Participou em Antologias. Publicou dois Livros pela Corpos Editora “Pedaços de Mim” e “Eu sou tu e tu sou Eu”, pela Poesia Fã Clube "Sonhos Coloridos" e em Edição de autor "O Sonho e a Sombra de Eduardo".

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Contents Aquilo que Ela não quer Ver

13 Conto de Ana Linares

14 ANTOLOGIAS: Porquê participar? Resumo de Inês Nabais

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Carta de Ricardo Reis para Mário de Andrade Conto de Douglas Bock

FOTO DE ALEXAS

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A Violência no namoro Um conto de Ana Ribeiro

Páginas de rodopio Poema de Morphine Epiphany

12 Alegria da Maria Poema de Jeconias Mocumbi

Foto de Ahmadreza

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A violência no namoro

Conto de Ana Ribeiro

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAA

FOTO DE ALEXAS

Ele não é rapaz para ti. É uma espécie de lobo em pele de cordeiro."

São onze da noite, estou sentada – sozinha – numa mesa perdida e desfocada do centro comercial, que está praticamente vazio. Circulam pelos corredores os últimos resistentes do dia e os poucos ruídos que se ouvem vêm das lojas onde os respectivos donos já fazem as limpezas de final de dia para depois fecharem e regressarem a casa. As lágrimas humedecem o meu rosto triste, abafado, amedrontado; não sabia o que havia de fazer e aproveitei a saída do Gonçalo – para um jantar entre amigos – e saí de casa. Vim até aqui, respirar um pouco de ar puro, tentar acalmar-me e descontrair uns segundos, para pelo menos tentar viver a vida com que sonhei, bastante diferente daquela que vivo. Só queria mesmo esquecer a realidade que estou a viver. Desliguei o telemóvel, não quero que ele me contacte, não quero ter de ouvir a voz dele, não quero pensar nele, imaginar como ele é: preferia não saber da sua existência. À minha frente fumega a única coisa que me apeteceu comer: um simples prato de sopa. Enfiei duas colheres à boca, engolidas a seco sem sequer ter tempo de as saborear, por entre uma respiração sôfrega e acelerada. Queria muito acalmar-me, mas não consigo. Sinto-me triste e angustiada. Há um desespero e um pânico incontroláveis que me consomem, não consigo descansar, não me consigo sentir

bem. Tenho medo que ele me descubra, que ele me encontre. Tento disfarçar ao máximo o que sinto, não quero que me vejam assim, quero a todo o custo evitar que me abordem e que me façam perguntas às quais não quero responder. Tenho medo que alguém que ele conhece me reconheça e lhe vá contar alguma coisa, só queria desaparecer, fugir para um sítio qualquer, para bem longe dele. Eu e o Gonçalo conhecemo-nos por mero acaso numa saída nocturna: fomos à mesma discoteca com o respectivo grupo de amigos. Enquanto eu e a Clara dançávamos na pista de dança ao som de uma das músicas do momento, o Gonçalo, com o seu ar de galã de olhos verdes e corpo atlético, muito extrovertido e entusiasmado, aproximou-se de mim e tentou cortejar-me e seduzir-me, sorridente e alegre. Fiz por não ligar muito, continuei a dançar e a divertir-me e resisti às suas diversas investidas. Estava nitidamente a armar-se em convencido. A noite foi longa e intensa, o Gonçalo continuou a tentar mais algumas vezes uma aproximação bem-sucedida: sentando-se na mesma mesa que eu, convidando-me para dançar e até pedi o meu número de telemóvel; mas sem sucesso. Não lhe dei hipótese.

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Mas alguns dias mais tarde, aquilo que parecia inevitável acabou por acontecer: eu e o Gonçalo acabámos por marcar um encontro, para um café e uma conversa. Ele parecia-me uma pessoa radicalmente diferente, longe das noitadas: era simples, humilde e muito menos extrovertido e rebelde. Gostei dele e posso afirmar que foi amor à segunda vista. Houve um encanto mútuo e, a partir desse momento, nunca mais nos largámos. A nossa inesperada amizade (e cumplicidade) apanhou toda a gente de surpresa. As minhas amigas estavam estupefactas, principalmente porque na discoteca eu não tinha engraçado com ele e elas diziam-me várias vezes que nunca na vida me imaginariam a ser amiga dele. Porque, na realidade, nós eramos diferentes; apesar de termos algumas coisas em comum. De simples amigos até namorados inseparáveis, foi um instante: poucas semanas. Apesar das prováveis diferenças que nos separavam, eu gostava cada vez mais dele, de estar com ele, das surpresas que ele me fazia, de receber mensagens a toda a hora. Era a relação perfeita e de sonho. Já andávamos a planear as primeiras férias de Verão juntos e tudo. Mas num ápice, tudo mudou. Numa tarde em que o Gonçalo iria estar ocupado, em aulas, fui tomar café com o Paulo. Um amigo de infância que já não via há imenso tempo. Foi uma tarde divertida, a recordar momentos do passado, a rir e a pôr a conversa em dia. Gostei mesmo muito de o reencontrar e de recordar velhos tempos. No entanto, quando me encontrei com o Gonçalo ao final do dia, ele praticamente não me falava e as poucas palavras que me dirigiu, foi com maus modos e má vontade. A princípio fiquei sem perceber a sua atitude, até que… ele perguntou onde é que eu tinha estado. Disse-lhe que tinha aproveitado a tarde para ir tomar café com um amigo e de seguida perguntou-me com a fúria a instalar-se na voz: “Quem é ele?”. Expliquei-lhe quem era o Paulo mas, de repente, o meu telemóvel acusou a recepção de uma mensagem escrita: peguei no telemóvel e vi que era uma mensagem do Paulo a dizer que tinha gostado do reencontro e de ter notícias minhas. Que esperava poder falar comigo mais vezes. Fiquei contente e sorri e foi a partir desse momento que a atitude e o comportamento do Gonçalo se alteraram por completo e para sempre: arrancou-me o telemóvel das mãos, leu a mensagem e, sem me dar tempo de reagir, deu-me uma estalada.

Salientei ainda que há muito tempo que não o via e que ele tinha pedido o meu contacto a uma amiga para poder marcar um café. Senti-o mais calmo, parecia ter aceitado a minha explicação; mas não durou muito tempo. Logo de seguida, quando menos esperava, começou aos berros dizendo que eu era namorada dele, que não tinha nada que me andar a encontrar com outros rapazes à revelia dele e muito menos dar-lhes o meu número de telemóvel, para eles passarem o tempo todo a ligar e a mandar mensagens. Disse também que, a partir daquele momento, queria que eu lhe dissesse onde ia, com quem ia e com quem falava ao telemóvel. Abri a boca para contestar, mas logo de seguida ele fulminou-me com o olhar e agarrou-me pelo braço com força e brusquidão, dizendo: “Estamos entendidos?”. Disse-lhe logo que sim e seguimos juntos para casa. Desde esse dia que a minha vida nunca mais foi a mesma, tenho vivido um autêntico inferno: presa dentro de casa, privada da minha liberdade.

Arrancou-me o telemóvel das mãos, leu a mensagem e, sem me dar tempo de reagir, deume uma estalada."

O Gonçalo não me deixa sair sozinha com ninguém, nem com as minhas amigas – que ele conhece bem – com receio de que eu o traia com algum rapaz ou que conte a alguém mais do que devia. Também faz por controlar com quem falo: quer pessoalmente, quer por telefone. Ao final do dia, pega no meu telemóvel para averiguar as chamadas e mensagens que fiz. Há meses que só vejo o sol pela janela ou com ele sempre a meu lado a controlar-me, para onde quer que eu vá. Já não sei o que é descontrair, ter vida própria ou liberdade. Anda sempre no meu encalço. Infelizmente, não posso nem devo contrariá-lo porque ele não é uma pessoa estável e na primeira oportunidade que tiver ou em que me apanhar agride-me: às vezes violentamente. Não sei o que fazer à minha vida. Não aguento mais esta situação. Agora é que dou valor às palavras da minha mãe: “Ele não é rapaz para ti. É uma espécie de lobo em pele de cordeiro”. Levanto-me da mesa ainda a soluçar e só tenho tempo e espaço para me questionar sobre uma coisa: Porquê?

“Mas que merda é esta, Carolina? Enquanto namoras comigo, andas a trair-me com outro? Não te admito, ouviste?”. Fiquei assustada, com os olhos carregados de lágrimas perante a frieza, insensibilidade e agressividade do Gonçalo: a mudança abrupta da sua personalidade. Completamente em pânico disse-lhe que as coisas não eram bem assim como ele pensava. Expliquei-lhe que eu e o Paulo não tínhamos nada um com o outro, que éramos apenas amigos; ele mostrou-se desconfiado, parecia não querer acreditar em mim.

Chamo-me Ana Ribeiro, tenho 29 anos, vivo desde sempre em Chaves e sou licenciada em Análises Clínicas e de Saúde Pública. Gosto de escrever desde muito nova, descobri a paixão pela escrita com o gosto pela leitura e a escrita de vários diários pessoais. Em 2011 editei o meu primeiro livro: “Diário de uma vida”, da editora Mosaico de Palavras, uma colectânea de textos poéticos de certa forma autobiográficos sobre situações que vivenciei, pessoas que me rodeiam e conheci, entre outros assuntos. Os textos que fazem parte do livro foram escritos entre 2009 e 2010. Recebi em 2011 um prémio literário da Editorial Caminho: “Uma Aventura Literária… 2011” com um texto de crítica literária. Participei numa feira do livro organizada pelas bibliotecas escolares da minha cidade e num projecto com algumas escolas para dar a conhecer o meu percurso a vários níveis de ensino, desde o pré-escolar ao ensino secundário. Em 2014 recebi o prémio júri Poesia da Editorial Caminho com o poema “Filha do Mar” Em 2015 editei o meu primeiro romance, intitulado “Um Amor Inexplicável”, publicado pela Capital Books. Que conta a história de um jovem que vai batalhar contra o cancro. Actualmente, terminei a edição do próximo livro, a publicar em 2017.

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Páginas de rodopio Morphine Epiphany

Pássaros moradores do meu cérebro Insistem em largar assobios Quando viro páginas As fadas preguiçosas no meu coração Vivem a ensaiar rodopios Quando toco a contra capa Faiscante vagueio pelos capítulos No encantar de um reino, almoço O café se casou com as madrugadas Em um delirar feito de títulos No atacar do suspeito, estremeço

Cristiane Vieira de Farias, ou Morphine Epiphany, nasceu em 1987, na cidade de São Paulo. Formada em Produção de Música Eletrônica. Possui textos publicados em revistas,antologias e coletâneas. Seu livro de poesias"Distorções" será lançado em 2016.

Expert em missões e até batalhas Fabriquei o escudo, a espada, Durante semanas, aprisionei criaturas Dormi em trovões e até fornalhas Do nostálgico encantado da primeira leitura Entrei em crises de monstros, curei dragões Sei que escalei doces e o chiclete falou comigo Do fantástico desperto na segunda leitura Celebrei andorinhas e unicórnios, criei poções Sei que cresci, encolhi num invisível abrigo

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Alegria da Maria Jeconias Mocumbi - Moçambique

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Maria foi a Veneza seu sonho de infância que plantou na relutância hoje volta a casa Como antes não era Alegre e em piruetas faz-se a mulher fera do planeta das Julietas A Maria é amada aprendiz como todo mundo diz amar é uma imaginária viagem A Maria amou e não ficou na paragem Foi a Veneza, a Dubai, até as estrelas hoje está de volta a casa e trouxe a machucada brasa o seu amor apagou as velas

PHOTO BY EDILSON SOSTINO

Edilson Sostino Mocumbi (pseudônimo Jeconias Mocumbi) nascido aos 2 de Março de 1997, casouse com a poesia em 2015 e sentiu-se acarinhado por ela, desde lá nunca mais pensou em cometer adultério. Residente na Cidade Capital de Moçambique, mas com grande influência Machope, ou seja passou a maior parte da sua adolescência em Inharrime distrito de Inhembane e considerase um autêntico Manhembana.

A Maria não sabe mais sorrir a vida a capulana do seu ventre se desajusta e deixa escorrer a lágrima vista em seu peito de mulher, velha amada.

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Aquilo Que Ela Não Quer Ver Artigo de Ana Linares Foto de Ahmadreza

F

echou os olhos. Beatriz não queria ver aquilo que não estava à sua frente. O seu namorado parecia ter se tornado um bicho.

Ele, Luís, sempre tinha sido um pouco violento. Ela já sentira os seus punhos. Mas agora, de faca em riste, ameaçavalhe matar se Beatriz não tivesse relações sexuais com ele. Há um mês que lhe recusava. Ela queria acabar com Luís. Pensou que, dessa forma, ele se cansasse dela e a deixasse. Mas, agora, ali estava ele. O brilho daquela faca assustava Beatriz, ela chorava desconsoladamente. Beatriz sabia que não tinha hipótese. Apesar da gritaria entre eles, nenhum vizinho bateu à porta. Ninguém iria ajudar, ninguém chamaria a polícia. Beatriz não tinha qualquer chance. Teve de ceder. Deitou-se no chão frio da cozinha, como ele mandava. Sentiu ele abrir-lhe o botão das calças. Sentiu repulsa pura nesse momento. Mas não o demonstrou. Não queria que ele soubesse que tinha nojo dele. Só o irritaria mais, tinha a certeza. Rasgou-lhe a camisola e arrancou-lhe o soutien. Ela, assustada, gritou. Mas não tao alto quanto quando ele despiu as suas calças e entrou dentro dela. Gritou como se ele estivesse a matá-la. E estava a morrer por dentro. Enquanto ele entrava e saía de dentro dela, Beatriz tentou apurar se ouvia algum barulho de alguma vizinha. Nada! Não ouvia nada que raiva sentia naquele momento. Por ela e por ele. Enquanto ele gemia dizendo ‘Amo-te’, ela era incapaz de sentir esse sentimento por ele. Sentia pena, pois ele só à força conseguia algo com ela. Pena da figura que fazia. Mas, mesmo devastada, não deixou de gritar. Alguém com coração havia de aparecer. O mundo não podia ser assim tão ‘negro’. Os minutos passaram e ele parou. Deixou-se estar dentro dela, enquanto Beatriz chorava. Ninguém havia aparecido, ninguém. Beatriz não o queria por perto. A faca… ali tão perto. Com cuidado, para não o assustar, tentou agarrar a faca. Quando estava prestes a conseguir, ele levantou a cabeça e viu o que ela estava a fazer. Agarrou na faca e levantou-se. - Isto é só para aprenderes. – Disse Luís, enquanto aproximava a faca do pescoço dela. Beatriz gelou nesse momento. Não queria morrer. Mas Luís parecia não fazer caso do rosto aterrorizado de Beatriz. Era o fim. Sentiu quando a faca lhe cortou a garganta. Nua, com frio, com o pescoço cortado, deixou-se ficar no chão. Viu-o a partir, levando a faca consigo. Será que os seus pais demorariam muito a vir? Só eles a podiam salvar.

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Antologias Porquê participar?

Para autores que estão a entrar no mercado editorial e tentar publicar, as chamadas Antologias ou Coletâneas têm grande importância e impacto no "cv" de um autor. Até mesmo para os autores que já publicaram os seus livros. O papel das Antologias têm como finalidade divulgar os trabalhos literários dos autores. Na minha opinião as Antologias extensas a dezenas e até centenas de autores podem levar a que estes fiquem na obscuridade, perdidos no meio de tantos nomes. Mas nem tudo é mau. Ressalvo que as Antologias são um empurrão para os autores. Começam a ser levados a sério, convidados para eventos literários e até desperta o interesse de outras editoras em editarem os seus livros. Ter o nome em diversas Antologias é uma "Carta

de Apresentação". É já um passo para algo ainda maior e que muitos receiam. É melhor do que não ter o nome em lugar algum e ter os escritos guardados. O facto dos autores se poderem conhecer é uma mais-valia. Aliás, é fundamental, pois em conjunto podem criticar e rever os trabalhos um dos outros entre si, e melhor ainda é ter um colega escritor que poderá ajudar a recomendar artigos sobre escrita e até sobre publicações e editoras. Para a editora a grande vantagem é que os autores ajudam a divulgar a obra e a editora. Aconselho que participem no maior número de Antologias e concursos literários que puderem porque para além de ser um exercício de escrita divulgam o vosso trabalho. Lá está, irão adquirir contactos que poderão facilitar futuras publicações no futuro.

ESCRITO POR: INÊS NABAIS FOTOGRAFIA: EDIÇÕES HÓRUS Obras disponíveis no site: www.edicoeshorus.com .................................................................................................................................................................................................... 14

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Carta de Ricardo Reis para MĂĄrio de Andrade Rio de Janeiro, 10 de Dezembro 1935

Carta Conto de Douglas Bock FotograďŹ a de Andrys

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Q

uerido Mário de Andrade:

No começo de nossa amizade, em 1921, firmamos um ‘pacto pagão’. Combinamos que nossas conversas seriam sempre face a face, francas e livres. Sem segredos nem discussões religiosas, políticas ou morais. Penso que fui eu a propor o acordo porque tenho a cabeça panda de incoerências. Sobre Religião coleciono certezas absolutas, sobre Política (como monarquista ou sebastianista sem rei) não sei me explicar direito e ainda estou inventando uma moral para caber dentro dela. Concordamos, acima de tudo, em não trocar correspondências. As cartas são como fotografias, tentam deter o rio de Heráclito. E as relações humanas são dinâmicas, repletas de nuances, até as lembranças são falazes e enganosas. Sempre é melhor conversar, viver o momento e falar da cor real de cada coisa. Sei que és um missivista compulsivo e que nossos encontros são esparsos, mas calculo que a decisão foi acertada. Estou quebrando a regra acordada porque fui te procurar em S. Paulo e não encontrei. Sabes que, no Brasil, és meu mais próximo e confiável amigo. Era imperativo te falar sobre as estranhezas que aconteceram comigo duas semanas atrás. Todas as tribulações começaram num espelho, no fundo de um corredor numa quinta no Cosme Velho. Era quarta feira, dia 27 de novembro, estava visitando uma amiga e, antes do jantar, fui lavar as mãos. Quando me olhei no cristal prateado vi-me refletido como um retrato em preto e branco. Assustado, fiquei atento aos detalhes e percebi que a sombra também havia sumido. O efeito durou uns cinco minutos, depois tudo voltou ao normal. Conclui que foi uma vertigem, um delírio ou um mal estar e não dei muita importância. Na quinta feira, dia 28, minhas descolorações se amiudaram. As superfícies espelhadas, às vezes, me refletiam sem cores, desbotado, como uma fotografia antiga ou uma gravura sépia. Meus movimentos pareciam segmentados, de marionete, como num filme de cinematógrafo. Acordei sexta feira, 29, cintilante. Nos espelhos um homem tremeluzente me fitava, cambiando continuamente entre colorido e sépia. Resolvi tomar o primeiro trem para S. Paulo para conversar contigo. Tive a precaução de escolher ternos, camisas, gravatas e chapéu claros ou brancos e passar numa farmácia. Apresentei-me como médico e falei de uma doença estrangeira. O atendente me olhou espantado e confuso, mas foi solícito, recomendou, para disfarçar, um desses artifícios que as mulheres usam para empoar o rosto. Cheguei a tua paulicéia desvairada sábado bem cedo, me hospedei no Hotel Esplanada e tentei, o dia inteiro, falar contigo. Não consegui. Todos nossos amigos comuns me avaliavam ressabiados, e todos corroboraram que depois da tua nomeação para Diretor do Departamento de Cultura tinhas sumido do convívio, andavas sempre ocupado, sem paradeiro conhecido e sem tempo para nada. Permaneci no hotel decidindo o que fazer. No meio da tarde, lá pelas quatro horas, duas coisas aconteceram, uma surpreendente outra inesperada. Primeiro, de repente, a cor do meu corpo se estabilizou. Havia me transformado, permanentemente, numa personagem de fita de cinema, um homem vivo em preto, branco e tons de cinza, nenhuma outra cor participava do espectro. Ainda estava me acostumando com a nova situação quando Juzé, aquele sábio português que mora na Ladeira da Memória, bateu na minha porta. Lembra-te? Quando me apresentaste a ele garantiste que já estava no Brasil na época do descobrimento. Agora quase acredito nisso. Juzé soubera que andava à tua procura e gostaria de ajudar no que pudesse. Apreciei a solicitude e a disponibilidade dele, conversamos a tarde inteira e acabamos jantando juntos. Foi boa a palestra, o homem acompanhava tudo o que estava acontecendo nas letras portuguesas, e especialmente no nosso grupo. Havia conhecido Alberto Caieiro e gostava de ler Fernando Pessoa, Álvaro de Campos e meus poemas. Durante a conversa Juzé fez uma previsão enigmática, disse que num mundo mais estável Fernando ganharia o Prêmio Nobel. Não entendi direito e ele não quis se auto decifrar. Mário, falei-te muito desses poetas e mostrei-te vários poemas deles. Também já discutimos a relação esquisita que existe entre nós quatro e nossas obras. Às vezes desconfio que dividimos o mesmo espirito (ou a mesma alma cristã). Parece que vasos comunicantes ligam os quatro num mesmo inconsciente compartilhado. Alguns poemas meus são pensamentos de Fernando ou Álvaro escritos com minhas palavras. E alguns poemas deles são meus sentimentos transcritos de outro jeito. Tudo que acontece com cada um de nós afeta todos os outros.

Douglas Bock – 64 anos, nascido em Alfenas/MG e morador de S. Paulo Capital. Formado em Filosofia (USP) e com pós-graduação em Computação (FEA-USP). Especialista em Sistemas Bancários e Executivo de Informática. Filósofo, Poeta, Escritor, Audiófilo, Cronista e Turista Paulista. Mas, principalmente, blogueiro de Artes e Humanidades (www.paulistando.com.br). Quatro livros publicados: Sol na Garganta / 1979 (Coletânea); 64 Dilemas / 2000 – (premiado pela Revista Cult); Contos de Audiofilia – Paixão, Ciência e Mania / 2014 – Perfumes do Machado – (Contos) Amazon

Mas voltando ao Juzé, quando lhe contei sobre minha metamorfose cromática ele escutou meu relato atenciosamente, porém perguntou apenas quais as últimas noticia que tinha de Fernando e Álvaro. Respondi que não sabia nada de novo. Fiquei aturdido, ao invés de discutir minhas mudanças de coloração ele só murmurou “isso acontece” e se embrenhou em parábolas intrincadas. Enumerou as turbulências que estavam varrendo o mundo: a revolta comunista no Brasil; a mudança de governo em Portugal; a revolução da Espanha; as agitações na Alemanha e Itália. Explanou que havia excesso de tensão nas fibras e tramas da realidade, ficava fácil eclodirem e prosperarem situações e desdobramentos bizarros. No fim da noite Juzé me acompanhou até a estação, antes do trem partir me aconselhou efusivamente a voltar para Portugal o mais breve possível. Sabes tudo sobre minha pessoa, Mário. Sou ataráxico na ação, gosto de observar o mundo sem tomar partido e sem me imiscuir nele. Meu desejar é intempestivo, sempre estou no local errado por motivos erráticos, querendo estar em outro lugar. Fiquei quase 20 anos no Brasil, cogitando voltar a Lisboa, sem me decidir a partir. Agora vou, já reservei as passagens. Tenho sonhado muito com Fernando. Toda noite, no amanhecer, ele aparece de mansinho e me lembra: “precisas voltar”. Nosso ‘pacto pagão’ está suspenso até discutirmos novas regras. Se receber cartas tuas lerei com prazer. Mas quero ressalvar, poderei ser omisso nas respostas. Não gosto de escrever cartas pessoais nem tirar fotografias. Evito deixar atrás de mim pedaços mumificados da existência. Assim, depois do que contei, espero-te em Lisboa, porque não aposto voltar ao Brasil. Um abraço Ricardo Reis. P.S. - Antes de fechar a carta soube que Fernando Pessoa morreu no dia 30 de Novembro às oito horas da noite. Quatro no Brasil, exatamente no momento em que virei personagem de cinema ou desenho a crayon. Preciso entender melhor isso.

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OBRAS A SOLO Recentemente editadas

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Estas obras podem ser adquiridas atravĂŠs do site da editora ou e-mail: www.edicoeshorus.com / edicoes.horus@gmail.com

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