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Edward Feser

A última Superstição Uma Refutação do Neoateísmo

Tradução: Eduardo Levy


A Última Superstição: Uma Refutação do Neoateísmo – Edward Feser 1ª edição – julho de 2017 – Edições Cristo Rei Título original: The Last Superstition: A Refutation of the New Atheism, St. Augustine’s Press, South Bend, United States, 2010. Editor Guilherme Ferreira Araújo Tradutor Eduardo Levy Revisor Guilherme Ferreira Araújo Diagramação Antonio Donceve Capa Cristiano Chauí

Os direitos desta edição pertencem a EDIÇÕES CRISTO REI Belo Horizonte/Minas Gerais Contato: contato@edicoescristorei.com.br www.edicoescristorei.com.br Reservados todos os direitos desta obra. Proibida toda e qualquer reprodução desta edição por qualquer meio ou forma, seja ela eletrônica ou mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer outro meio de reprodução, sem permissão expressa do editor.


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A publicação deste livro só foi possível graças à generosa contribuição das pessoas que participaram da campanha de financiamento coletivo veiculada pelo website da Kickante (http://www. kickante.com.br). Muito obrigado pela confiança! Abaixo listamos os colaboradores que optaram por ter seus nomes divulgados nesta obra: Alan Grobério Braga

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Wagner Cerqueira

Thomas Eastwood

Wagner Marchiori

Tiago dos Santos Vitale

Waldemar Chaves Nascimento Penna

Vital Luis Veas

Wanderson Bezerra de Azevedo


Índice

Prefácio e Agradecimentos ...........................................................11 1. Religião fajuta .........................................................................17 “O neoateísmo” ...................................................................18 A velha filosofia ....................................................................21 O abuso da ciência ...............................................................27 Religião e contrarreligião .....................................................30 O que está por vir ................................................................37 2. Presente de grego .....................................................................45 De Tales a Sócrates ...............................................................46 A Teoria das Formas de Platão .............................................49 Realismo, nominalismo e conceptualismo .............................57 A metafísica de Aristóteles ....................................................67 A. Atualidade e potencialidade ........................................70 B. Forma e matéria .........................................................74 C. As quatro causas ........................................................79 3. Ficando medieval .....................................................................91 O que Tomás de Aquino não disse ........................................92 A existência de Deus ...........................................................107


A. O Motor Imóvel .......................................................108 B. A Causa Primeira ......................................................120 C. A Inteligência Suprema .............................................127

4. Destreza escolástica ...............................................................137 A alma ...............................................................................138 Lei natural .........................................................................149 A fé, a razão e o mal ...........................................................171 5. O declínio dos modernos .......................................................183 O pré-natal do moderno .....................................................184 Metafísica exaustivamente moderna ...................................188 Inventando o problema mente-corpo ..................................202 Ácido universal ..................................................................216 A. O problema do ceticismo ..........................................216 B. O problema da indução ............................................219 C. Identidade pessoal ....................................................220 D. Livre-arbítrio ...........................................................225 E. Direitos naturais ......................................................226 F. Moralidade em geral .................................................229 De volta à caverna de Platão ..............................................238 6. A vingança de Aristóteles .......................................................247 Como ficar louco ................................................................248 O torrão debaixo do tapete ................................................254 Teleologia irredutível ..........................................................265 A. Fenômenos biológicos ..............................................266 B. Sistemas inorgânicos complexos ...............................275 C. Leis fundamentais da natureza .................................277 É a lua, imbecil ...................................................................283 Notas ........................................................................................287


Prefácio e Agradecimentos

“Por isso, quando um orador, ignorando a natureza do bem e do mal, se dirige aos seus concidadãos, que sofrem da mesma ignorância, para os tentar persuadir a não tomarem a sombra de um burro por um cavalo, ou o mal pelo bem; quando, depois de ter ouvido as opiniões da maioria, a impele para o mau caminho, em casos como este, quais são, a teu ver, os frutos que a arte oratória pode colher daquilo que semeou?” Platão, Fedro1 “Um pequeno erro no princípio é grande no fim.” São Tomás de Aquino (parafraseando Aristóteles), O ente e a essência2 No momento em que escrevo este prefácio, faz exatamente uma semana que a Suprema Corte do Estado da Califórnia determinou que os homossexuais têm o “direito civil fundamental” de casar-se com pessoas do mesmo sexoI. Ainda não é possível afirmar se os Sólons do estado da Corrida do Ouro farão corroborar este extraordinário veredicto de uma decisão que torne um burro semelhante a um cavalo, mas eles já foram muito além do sofista do diálogo de Platão ao “tomarem o mal pelo bem”, para não dizer a loucura pela razão. É famosa a afirmação de Malcolm Muggeridge segundo a qual “sem Deus, resta-nos escolher entre sucumbir à megalomania ou I Em 16 de junho de 2008, a Suprema Corte da Califórnia decretou que era ilegal, de acordo com a constituição do estado, impedir que casais do mesmo sexo se casassem. (N. T.)

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à erotomania”.3 Ao determinar por pura sanção judicial que a família e a sodomia têm dignidade idêntica perante a lei, a maioria dos juízes da corte parece ter dado um passo à frente da afirmação de Muggeridge, sucumbindo a ambas ao mesmo tempo. A referência a Deus é pertinente. Os êxitos do movimento que deseja o reconhecimento do “casamento entre pessoas do mesmo sexo” vieram de uma hora para outra. Há apenas uma década essa mesma ideia teria sido motivo de chacota por sua excentricidade e radicalismo; hoje, aqueles que se opõem a ela é que são rotulados de excêntricos e radicais. Mas igualmente súbita foi a ascensão da ostentação de descrença como posição obrigatória da patota dos bem-pensantes. Os progressistas e inconformistas mais célebres das gerações passadas consideravam necessário professar crer pelo menos em um “evangelho social” e ocultar as dúvidas sobre as verdades metafísicas da religião sob uma névoa de psicobaboseira pseudoteológica. Contudo, a moda ateísta tornou-se, como que do nada, o substrato dos bestsellers, das causas apoiadas por celebridades e dos grupos de leitura de donas de casa. É como se o progressismo secularista cosmopolita dos jantares inteligentes que caracterizou o século XX tivesse, por meio da intoxicação lenta – mas certa – produzida por uma série ininterrupta de triunfos sociais e judiciais, se tornado no século XXI o bêbado troca-pernas da sarjeta e perdido todas as inibições, ora blasfemando, ora prostituindo-se e sempre pronto a ofender toda a sensibilidade sã e decente de acordo com o próprio estado de espírito. A confluência desses acontecimentos não é acidental, embora não pelos motivos que os secularistas imaginam. Na cabeça deles (ou no que restou dela), a libertinagem sexual e o desprezo à religião como fenômenos públicos e de massa (e não como excentricidades privadas de uma elite decadente, as quais, é claro, sempre estiveram entre nós) constituem a vitória definitiva da razão, são os frutos gêmeos da cosmovisão científica moderna, cujas consequências integrais só agora, quatro séculos depois do seu início, estão se tornando amplamente perceptíveis. Mas trata-se, na verdade, (parafraseando Santo Tomás de Aquino parafraseando Aristóteles) de dois “grandes erros”, enormes, que foram resultado gradual – mas inevitável – não de alguma descoberta factual da ciência moderna, mas antes daquilo que à primeira vista parece, pelo menos relativamente, no máximo um “pequeno erro” de natureza filosófica cometido pelos fundadores da ciência e da filosofia moderna.


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Este livro trata desse erro: O que ele é, por que é um erro, quais são as suas consequências e como a sua correção revela que os religiosos tradicionalistas (de certo tipo), e não os progressistas seculares, é que são os verdadeiros portadores da razão. Repugnância e aflição pelo neoateísmo de Richard Dawkins e de outros da mesma laia e pelo colapso quase completo da moralidade tradicional representado pelo “casamento entre pessoas do mesmo sexo” e fenômenos assemelhados foram apenas metade da minha motivação para escrever este ensaio. A outra metade foi repugnância e aflição pela resposta enormemente inepta e ineficaz (segundo me parece) dada a esses acontecimentos por muitos religiosos e conservadores. Em vez de rebaterem a falsa asserção do cético de que a religião se baseia necessariamente na “fé” (no sentido distorcido de disposição de crer em algo na ausência de provas), muitíssimos defensores contemporâneos da religião parecem se contentar em sugerir que muito daquilo em que creem os secularistas também se baseia em fé, que, seja como for, a crença religiosa veio para ficar e tem certos benefícios sociais, e assim por diante. Em face de decisões judiciais como a que foi tomada recentemente na Califórnia, muitos palpiteiros conservadores questionam quem deveria “definir” o que é o casamento: “o povo” ou os tribunais, aceitando na prática a suposição idiota de seus oponentes de que a questão concerne essencialmente ao sentido que devemos atrelar de maneira arbitrária a determinada palavra. Mas o que é mais importante saber a respeito da crença de que Deus existe não é o fato de que a maioria dos cidadãos, por acaso (e pelo menos por ora) partilha dela, nem que tende a sustentar a moralidade pública, nem nada semelhante. O que é mais importante saber a respeito dela é que é verdadeira, e o é demonstravelmente. Similarmente, o dado mais importante a respeito do “casamento entre pessoas do mesmo sexo” não é que tenha sido imposto ilicitamente por certos tribunais, embora a maioria dos cidadãos, por coincidência, seja contra ele (de novo, pelo menos por ora). O dado mais importante a respeito dele é o de que a sua ideia mesma é uma absurdidade metafísica e uma abominação moral, e o é (de novo) demonstravelmente. Não cabe nem aos tribunais nem ao “povo” “definir” o que é o casamento ou decidir se a religião é algo bom, assim como não lhes cabe “definir” se o Teorema de Pitágoras se aplica aos triângulos retângulos nem se a água tem a estrutura química de H2O. Em cada um desses casos o que está em jogo é uma questão de objetividade factual que é tarefa da razão discernir, não do processo democrático estipular.


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O que é necessário para confrontar a demência libertina e antirreligiosa do momento, portanto, não é recorrer ao populismo grosseiro nem a estratégias políticas de curto prazo, mas reconsiderar as questões relevantes a partir dos primeiros princípios. Se também acha que esses acontecimentos constituem uma espécie de demência e quer compreender como chegamos a um ponto tão baixo na história da nossa civilização, você desejará ler este livro. Se, ao contrário, não os considera uma demência, você precisa lê-lo – para que veja, se me permite dizê-lo, que está no mau caminho, ou pelo menos, se não for plausível que isso aconteça, para que compreenda o ponto de vista daqueles que discordam de você. Gostaria de agradecer ao meu agente, Giles Anderson, por propor este projeto, e ao meu editor, Bruce Fingerhut, por torná-lo realidade. Nos vários meses em que trabalhei para terminar este livro, muitas vezes passei a impressão de não fazer mais nada além disso. Por essa razão e por muitas outras, minha maior dívida é com a minha amada esposa, Rachel, e com os nossos queridos filhos, Benedict, Gemma, Kilian e Helena, por sua paciência e amor. É a eles que dedico este livro, embora também o dedique, e acima de tudo, ad maiorem Dei gloriam. Essas dedicatórias não são de modo algum pro forma. Se parece que este livro é colérico, é porque ele é. Mas espero que seja também, e mais profundamente, uma expressão de lealdade, gratidão e amor – a Deus e Suas várias graças, à família e a uma civilização que outrora se definia em função dessas coisas e que, mesmo na deprimente decadência em que se encontra, conseguiu transmiti-las para mim e para aqueles que amo. Com relação a isso, devo deixar claro desde o início que isto não é uma defesa de uma coisa amorfa e ecumênica chamada “religião”, mas única e especificamente do teísmo clássico e da moral tradicional da civilização ocidental, que, sustento, são superiores, no âmbito racional, moral e sociopolítico, a quaisquer alternativas disponíveis. Tampouco sugiro apenas que se conceda a estes elementos fundadores da nossa civilização, depois de muitas mesuras, um assento à mesa de uma espécie de grande bufê multicultural ao lado do progressismo secularista que pretende destruí -los. Afirmo, ao contrário, que se deve restituí-los ao seu legítimo lugar de princípios norteadores do pensamento, da sociedade e da política do Ocidente e que, portanto, o secularismo deve ser lançado de volta à marginalidade intelectual e política donde veio e à qual deseja despachar a moralidade tradicional e a religião. Pois por mais bem-intencionado que


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possa ser este ou aquele secularista em particular, seu credo é, eu sustento (parafraseando a infame descrição que Dawkins faz dos críticos do evolucionismo), “ignorante, estúpido, demente e maligno”.4 É um perigo claro e imediato para a estabilidade de qualquer sociedade e para o destino eterno de qualquer alma que caia sob a sua influência nefasta. Pois quando se formulam de maneira coerente as consequências de seus fundamentos filosóficos, revela-se que ele solapa a própria possibilidade de exercício da racionalidade e da moralidade. Como este livro mostrará, a própria razão atesta que contra a praga do progressismo secularista só pode haver um remédio: Écrasez l'infâme.


1. Religião fajuta

No ano de 2004, o filósofo Anthony Flew, que até aquele momento fora talvez o ateu mais proeminente do mundo, anunciou que havia mudado de ideia. Embora não tivesse nenhuma intenção de aderir ao cristianismo nem a qualquer outra religião monoteísta tradicional, revelou que havia sido levado, por meio de argumentos filosóficos, a concluir que de fato existe um Deus afinal de contas — especificamente, uma Causa Primeira do universo, tal como descrita por Aristóteles. Talvez o raciocínio aristotélico por trás da mudança de Flew surpreenda tanto quanto a própria conversão. Ao lado de Platão, seu professor, Aristóteles é quase universalmente considerado o maior filósofo que já existiu. As ideias de ambos são conhecidas e estudadas há mais de 2.300 anos. Flew, que tinha 81 anos na época da conversão, fora considerado, nos 50 anteriores, um dos filósofos mais respeitados e influentes do mundo. Seria natural pensar que, sem dúvida, não existia nenhum argumento a favor da existência de Deus que ainda não conhecesse. Contudo, no fim da carreira e em face do ateísmo cuja defesa fizera sua reputação por meio século, Flew viu-se admitindo que o antigo pensador grego ao qual os medievais se referiam como simplesmente “O Filósofo” estivera certo o tempo todo. “Como não era especialista em Aristóteles”, explicou Flew, “havia partes de sua filosofia que estava lendo pela primeira vez”.1 Fora das fileiras religiosas, a reação ao recém-descoberto teísmo de Flew parece ter sido de sarcasmo unânime. O comediante Jay Leno ridicularizou: “É claro que agora acredita em Deus — ele está com 81 anos!” Outro comentarista especulou que, “confrontando o fim da vida”, Flew 17


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estava simplesmente “fazendo uma desesperada tentativa final de se salvar” (embora Flew tivesse deixado claro que ainda não acreditava em vida após a morte).2 Um filósofo de tendência secular considerou a conversão “lamentável” e “vergonhosa”, declarando que “a velhice, como sabemos, cobra seu preço das pessoas de diferentes maneiras” e que a compreensão que Flew tem de teorias científicas relevantes “não é, por assim dizer, robusta”.3 Outro acusou Flew de ser “deliberadamente desleixado com o rigor acadêmico”.4 Além de alegar que a perspectiva de Flew se baseava na teoria cientificamente infame do “design inteligente” e de rejeitá-la peremptoriamente com base nisso, a maioria dos críticos teve pouco interesse em examinar a fundo as razões que poderiam tê-lo levado a mudar de ideia. Em particular, desconsideraram de maneira deliberada o papel central desempenhado evidentemente por um reexame da filosofia de Aristóteles.5 Enquanto a conversão de Flew era apenas um rumor, os secularistas que o admiravam lutaram furiosamente para negar que tal coisa poderia acontecer a um homem tão inteligente; quando ele mesmo confirmou os rumores, foi tratado como um herege e um fantoche do inimigo fundamentalista e seus argumentos foram desprezados e considerados indignos de apreciação séria. “Meus companheiros de descrença me acusaram de estupidez, traição, senilidade e tudo o que se pode imaginar”, queixou-se Flew, “e nenhum deles leu sequer uma palavra de qualquer coisa que escrevi”.6 “O neoateísmo” Esse episódio ilustra, sob muitos aspectos, os principais temas deste livro. Na suposição paternalista de que a crença em Deus só pode ser produto da confusão entre desejo e realidade, da estupidez, da ignorância ou da desonestidade intelectual; na recusa correspondente a considerar a sério a possibilidade de que essa crença possa ser verdadeira e de que os argumentos a favor dela possam ser sólidos; e no pressuposto raso de que as únicas considerações racionais relevantes para o tema são as “científicas” e não as filosóficas; em todas essas atitudes, os críticos de Flew revelam a quintessência da mentalidade do secularismo moderno. E na medida em que sua complacente rejeição a priori dos que não pertencem ao grupo como primitivos e dos desertores como maldosos ou insanos o protege da necessidade de lidar com a crítica rigorosa, o secularismo é uma mentalidade que ecoa os preconceitos retrógrados e a irracionalidade que costuma atribuir às pessoas religiosas. À sua maneira, ele é uma religião para si


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próprio, religião incapaz de tolerar infiéis e hereges. Veremos ao final deste livro que não se trata de modo algum de um acidente, mero subproduto das paixões e loucuras a que todo ser humano sucumbe de tempos em tempos. Pois o secularismo é, necessária e inerentemente, uma visão de mundo profundamente irracional e imoral, e quanto maior o grau de amplitude com que seus adeptos o assimilam, maior o grau de amplitude com que se apartam da possibilidade mesma de exercer discernimento moral e racional. Ademais, e por essa razão mesma, é inevitável que essas pessoas achem difícil, em verdade quase impossível, enxergar sua verdadeira condição. Quanto menos compreendem, menos a compreendem. Sei que essas afirmações são bastante chocantes, sobretudo por contrariarem completamente a autoimagem dos secularistas. Nos dias e semanas que se seguiram às eleições presidenciais de 2004 – nas quais, segundo a crença geral, questões relativas aos valores morais e religiosos tradicionais tiveram papel determinante –, eles passaram a definir-se como membros da “comunidade baseada na realidade” em contraste com a suposta “comunidade baseada na fé” dos religiosos. Como se em resposta ao abandono do ateísmo por Flew, dois filósofos secularistas publicaram recentemente, com grande fanfarra, obras que pretendem demonstrar as deficiências morais e racionais da crença religiosa tradicional: A morte da fé: religião, terror e o futuro da razão, de Sam Harris e Quebrando o encanto: a religião como fenômeno natural, de Daniel Dennett. A esses livros logo se seguiram Deus, um Delírio, do biólogo Richard Dawkins, e Deus não é grande: como a religião envenena tudo, do jornalista Christopher Hitchens, e a imprensa rapidamente passou a opor o “neoateísmo” de Harris, Dennett, Dawkins e Hitchens à hipotética ressurgência do irracionalismo e do fundamentalismo anunciada pelos defensores do “design inteligente”, pelos “teocons” e por bichos-papões semelhantes7. Alguns anos atrás, num artigo publicado no New York Times, Dennett fez a famosa sugestão de que os secularistas adotassem o rótulo de “esclarecidos” [bright] para distinguir-se das pessoas religiosas.8 Parece que a proposta não pegou (talvez porque, sem dúvida, um adulto que saia por aí piando, a sério, “eu sou esclarecido!”, soa antes como um idiota). Quaisquer que sejam as deficiências retóricas do “esclarecido”, porém, o termo condensa perfeitamente a autossatisfação da mentalidade secularista: “Nós somos inteligentes, instruídos e racionais, ao passo que as pessoas religiosas são estúpidas, ignorantes e irracionais, de modo algum esclarecidas como nós”.


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A ironia é que, para qualquer um que conheça de fato alguma coisa da história e da teologia da tradição religiosa ocidental pela qual Harris, Dennett, Dawkins e Hitchens mostram tanto desprezo, os livros deles sobressaem pela manifesta ignorância dessa tradição e pela impressionante superficialidade da análise filosófica de temas religiosos que fazem. Em verdade, como veremos, eles não chegam nem sequer a começar a compreender o que a própria palavra “fé” significa de fato, historicamente, na principal corrente dessa tradição. A impressão que fica é que o grosso do conhecimento de teologia cristã desses autores consistiu na leitura de Elmer GantryII na faculdade, complementada por algumas horas assistindo a O vento será tua herançaIII e uma manhã de domingo zapeando por canais evangélicos. Eles demonstram igualmente não ter a mais mínima noção do papel histórico central desempenhado por ideias derivadas da filosofia clássica – a tradição de pensamento que procede de Platão e Aristóteles e cujos maiores representantes no cristianismo são Agostinho e Tomás de Aquino – na autocompreensão e no conteúdo da principal corrente da tradição religiosa do Ocidente. Isso talvez não surpreenda no caso de Dawkins, um autor de livros de divulgação científica que evidentemente não saberia diferenciar metafísica de Metamucil, nem no do menino da Vanity Fair, Hitchens, para quem metafísica deve ser aquela baboseira que gente como Shirley MacLaine diz quando cai em desgraça. Mas essa ignorância é simplesmente vexatória no caso de Dennett e Harris, que são filósofos de formação. Ninguém imaginaria, ao ler um dos “neoateus” (para não mencionar outros inumeráveis intelectuais secularistas), que a vasta maioria dos grandes filósofos e cientistas da história da civilização ocidental – não apenas os já mencionados, mas também muitos pensadores modernos que não pertencem à tradição clássica, como Descartes, Leibniz, Locke, Berkeley, Boyle, Newton e outros – acreditava firmemente na existência de Deus, com base em argumentos inteiramente racionais. E, nem preciso dizer, eles não explicam aos leitores nenhuma das sérias objeções filosóficas levantadas sistematicamente ao longo da história da filosofia contra o naturalismo – o ponto de vista segundo o qual o mundo natural, material, é tudo o que existe e que a ciência empírica é a única fonte racional de conhecimento – a que aderem, Romance satírico de Sinclair Lewis publicado em 1926 que ridiculariza o evangelismo norteamericano. (N. T.)

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III Peça de Jerome Lawrence (1955) posteriormente transformada em filme por Stanley Kramer (1960) e vários outros. Critica o macartismo e o criacionismo. (N. T.)


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objeções que muitos filósofos contemporâneos sofisticados e influentes continuam a levantar com insistência. No entanto, o fato é que, ao contrário da caricatura usual dos filósofos como céticos inveterados que não querem saber de religião, a ideia de que a existência de Deus pode ser demonstrada racionalmente “gozou [entre os filósofos] de vasta aceitação, senão hegemonia (...) da antiguidade clássica até bem depois do alvorecer da Modernidade” (de acordo com o filósofo David Conway, em um livro que teve grande influência na conversão de Flew ao teísmo filosófico);9 e a sugestão de que a razão humana pode ser explicada em termos puramente materialistas foi, historicamente, considerada pela maioria dos filósofos uma absurdidade lógica, um erro demonstrável. De modo geral, considerou-se, na tradição filosófica clássica, que a crença na existência de Deus e a falsidade do materialismo se assentam firme e diretamente na razão, não em “fé”. A velha filosofia Isso nos leva a outro tema essencial deste livro que o caso Flew, aliás o próprio Flew, ilustra. Quando se passa a conhecer bem a tradição filosófica clássica que Platão, Aristóteles, Agostinho e Tomás de Aquino representam – e não a mera caricatura pasteurizada que é a ideia que dela fazem até muitos filósofos profissionais, para vergonha deles –, descobre-se que os vários pressupostos filosóficos tipicamente “naturalistas” da Modernidade que a maior parte dos pensadores contemporâneos (e certamente a maioria dos secularistas) simplesmente aceita, sem discussão racional, são, em grande medida, contingentes e questionáveis. Compreende-se ainda que, como a filosofia clássica é completamente teísta e sobrenaturalista, os fundamentos racionais da tradição religiosa ocidental são poderosos. Aliás, constata-se que a própria possibilidade de exercício da razão e da moralidade é, na melhor das hipóteses, profundamente problemática dentro da visão de mundo naturalista, mas perfeitamente inteligível na cosmovisão da filosofia clássica e na perspectiva religiosa que ela sustenta. Mais do que isso: compreende-se que, com toda a probabilidade, é apenas de acordo com a cosmovisão religioso-filosófica clássica que a razão e a moralidade podem fazer sentido. A verdade é precisamente o oposto do que prega o secularismo: só a cosmovisão religiosa (de um determinado tipo) é racional, moralmente responsável e sã; e as cosmovisões irreligiosas são, consequentemente, profundamente irracionais, imorais e mesmo


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insanas. O secularismo jamais conseguiu se basear verdadeiramente na razão, mas apenas na “fé”, como os próprios secularistas entendem o termo (que entendem mal, como veremos): um compromisso inabalável cujo fundamento é não a razão, mas antes uma obstinação total, um desejo profundamente arraigado de querer que as coisas sejam de determinado modo a despeito do que mostram as evidências. Mais uma vez, faço afirmações duras, mas elas serão amplamente fundamentadas nas páginas que se seguem. Por ora, basta observar, se tiver alguma serventia – e visto que já estamos considerando o caso individual de um filósofo específico, Flew –, que a minha própria experiência as corrobora. Eu mesmo fui por muitos anos ateu e naturalista convicto. Não o conto para narrar uma espécie de saga emocional do Caminho para Damasco: eu jamais militei contra a religião (e me comprazo em poder dizer que Dennett e sua laia sempre me pareceram fanfarrões pé-no-saco), muito menos “encontrei Jesus” de repente no fundo de uma garrafa de uísque ou ao final de algum dramalhão, à maneira dos contos de conversão sentimentaloides que fazem sucesso nesta nossa época terapêutica. É só que por muitos anos estive firmemente persuadido, a partir de fundamentos intelectuais, de que o ateísmo e o naturalismo deviam ser verdadeiros e depois comecei gradualmente a me dar conta, mais uma vez a partir de fundamentos intelectuais, de que na realidade não eram nem podiam ser verdadeiros. Essa mudança de ponto de vista começou, ironicamente, com a análise das obras de Gottlob Frege e Bertrand Russell, os fundadores mesmos da tradição contemporânea da filosofia “analítica”, da qual Dennett e Harris, assim como muitos secularistas, são adeptos. Frege defendeu de maneira persuasiva uma espécie de platonismo – a ideia de que existe, além do mundo material e do “mundo” no interior da mente humana, um “terceiro mundo” de entidades abstratas, particularmente de significados e de objetos matemáticos como os números – como o único modo de a própria possibilidade de comunicação linguística fazer sentido. Russell argumentou que a natureza da experiência perceptiva e da teorização científica implica que, em verdade, podemos conhecer muito pouco do mundo material e especificamente apenas sua estrutura abstrata, mas não sua natureza intrínseca. A obra desses dois filósofos me convenceu de que a suposição dos materialistas e naturalistas de que o mundo material é a pedra de toque da realidade e de que temos mais conhecimento dele do que de qualquer outra coisa é completamente ingênua e infundada.


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Essa conclusão foi reforçada, no meu entender, pelas obras de filósofos contemporâneos como John Searle e Thomas Nagel – a propósito, pensadores puramente seculares, como Frege e Russell –, que, embora adeptos do naturalismo, argumentam que nenhuma tentativa existente de explicar a mente humana por meio dele chegou nem perto de ter êxito.10 Os trabalhos de outros filósofos contemporâneos, como Elizabeth Anscombe e Alasdair MacIntyre, mostraram que a obra de Aristóteles, particularmente no campo da ética, ainda é bastante potente e relevante. Os escritos de filósofos da religião contemporâneos como Alvin Plantinga e Richard Swinburne traziam a aplicação dos mais rigorosos métodos filosóficos modernos à defesa da crença religiosa, e a erudição de escritores como William Lane Craig e John Haldane mostrou que os críticos e comentadores modernos haviam entendido os argumentos de pensadores clássicos como Tomás de Aquino de maneira completamente errada. Tudo isso acabou me levando a um profundo reexame da tradição filosófica aristotélica em geral e da adaptação dela por Tomás de Aquino em particular, e como resultado final tornei-me convencido de que os pressupostos metafísicos fundamentais que os filósofos secularistas, de maneira demasiado irrefletida, tomam por premissa, sem os quais o ateísmo não é minimamente plausível, estão radicalmente errados. A concepção de mundo da metafísica clássica, que deriva de Platão, foi primeiro bastante modificada por Aristóteles, depois por Agostinho e finalmente aperfeiçoada por Tomás de Aquino e seus discípulos, está, segundo passei a acreditar, essencialmente correta, o que torna o ateísmo e o naturalismo efetivamente impossíveis.11 É certo que não presumo, pelo menos neste momento, que essas referências filosóficas signifiquem muito para os leitores que não conheçam alguma coisa de filosofia. (Em breve exploraremos muitas delas detalhadamente.) Meu objetivo, por ora, é apenas evitar o usual desprezo ad hominem à conversão religiosa, considerada um tema puramente subjetivo, uma questão antes sentimental que racional. Tratou-se, no meu caso, de uma questão de argumentação racional objetiva, mas ele está longe de ser peculiar. Ao contrário da caricatura propagada pela literatura secularista (e que se espalhou pela cultura popular em geral), a verdade é que sempre se insistiu, na principal corrente religiosa do Ocidente, que não apenas é necessário e possível justificar racionalmente as verdades fundamentais da fé, mas que é possível demonstrar que são racionalmente superiores às pretensões do


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ateísmo e do naturalismo. Se, apesar disso, alguns crentes manifestam uma infeliz tendência ao fideísmo – a posição de que a religião se baseia apenas na “fé”, entendida como uma espécie de vontade infundada de crer –, isso se dá precisamente porque eles, em grande medida, esqueceram a história de sua própria tradição e compraram a propaganda secularista que a ataca incansavelmente desde o autoproclamado “Iluminismo”. Seja como for, os secularistas que se dedicam a essas críticas ad hominem precisam compreender que ela pode ser aplicada a eles com igual justiça (e, na verdade, com muito mais justiça, como veremos ao final deste livro). Certamente é assim no que diz respeito à acusação de que muitas vezes suas crenças repousam na ignorância – juízo do qual compartilham inclusive alguns pensadores secularistas. O filósofo Quentin Smith, defensor muito mais sério e admirável do ateísmo do que qualquer um dos ditos “neoateus”, lamentou a espantosa falta de conhecimento que muitos pensadores secularistas manifestam quando tentam criticar a religião. Pois eles demonstram, em geral, desconhecer os sofisticados argumentos dos filósofos de inclinação religiosa, preferindo, em lugar disso, atacar espantalhos e fazer caricaturas jornalísticas simplórias da religião. Segundo Smith, a conclusão é que, com exceção de poucos especialistas em estudar e tentar contestar os argumentos dos pensadores religiosos importantes, como ele próprio, “a grande maioria dos filósofos naturalistas tem uma crença injustificada de que o naturalismo é verdadeiro e de que o teísmo (ou sobrenaturalismo) é falso”.12 O filósofo político Jeremy Waldron, que ninguém pode acusar de ser membro da “direita religiosa”, faz juízo semelhante das atitudes dos secularistas com relação ao emprego da argumentação religiosa na política: Muitos teóricos secularistas supõem saber como são os argumentos religiosos: apresentam-nos como uma prescrição divina rudimentar fundamentada pela ameaça de condenação ao Inferno e derivada de uma revelação coletiva ou individual, e depois o contrastam com a elegante complexidade dos argumentos filosóficos de, digamos, Rawls ou Dworkin. Com essa imagem em mente, acham óbvio que a argumentação religiosa deve ser excluída da vida pública. Mas aqueles que se deram ao trabalho de estudar bem os argumentos de fundo religioso existentes na teoria política moderna sabem que isso é em grande medida uma caricatura.13


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Além disso, mesmo quando se dão ao trabalho de considerar as ideias dos pensadores religiosos importantes, os intelectuais secularistas têm a peculiar tendência de aplicar a elas um padrão diferente do que aplicam a outros argumentos controversos. Secularistas podem argumentar a favor das conclusões mais repugnantes e intuitivamente absurdas – que não há nada intrinsecamente errado com a bestialidade, a necrofilia ou, digamos, o infanticídio, como sugere Peter Singer, professor de ética de Universidade de Princeton –, mas até os filósofos que discordam delas estão dispostos a tratá-las com a maior seriedade, insistindo que, ainda que implausíveis à primeira vista, devem ser recebidas pelo menos com respeito. Em todas as outras áreas de controvérsia, não se considera virtualmente nenhum argumento definitivamente refutado: a atitude comum é que o defensor de determinada posição sempre pode responder às objeções usuais a ela, de modo que se deve considerá-la “ainda na disputa”. Contudo, quando se trata, digamos, de um argumento a favor da existência de Deus, o mero fato de alguém algum dia ter levantado uma objeção a ele é tratado como prova afirmativa de que o religioso simplesmente “não conseguiu defender sua posição” e de que seu argumento não merece atenção ulterior. Contanto que aquele que as defende possua o mínimo de capacidade argumentativa e retórica, é certo que se dará atenção às ideias secularistas. Por mais especulativas, intuitivamente implausíveis ou mesmo mirabolantes que sejam, são consideradas meios de “fazer pensar”, de “fazer o debate progredir” e de “olhar as coisas de um outro ângulo” e ganham lugar na lista de leituras dos acadêmicos e no currículo universitário. O tratamento dado às ideias religiosas, em contraste, é o de que só argumentos incontroversos como uma prova geométrica poderiam torná-las dignas de um minuto de atenção. Que os secularistas, que se vangloriam de supostamente saber mais e ser mais razoáveis, condenem com tanta frequência os religiosos com douta ignorância daquilo que pensam de fato e sem aplicar a eles os critérios pelos quais julgam as próprias ideias, indica que outro fator normalmente atribuído aos religiosos está em jogo aqui, a saber, wishful thinking, um desejo tão grande de que uma ideia seja verdadeira, que triunfa sobre a análise racional das evidências a favor dela. Pois o caso é que as pessoas que acreditam em Deus não são, de modo algum, as únicas que podem ter possíveis interesses escusos na questão da existência dEle. O filósofo Thomas Nagel reconhece que há uma camada subterrânea de “medo da religião” em muitas obras de intelectuais secularistas e que isso trouxe


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“amplas e, não raro, perniciosas consequências para a moderna vida intelectual”: Falo por experiência própria, já que eu mesmo sou fortemente sujeito a esse medo: quero que o ateísmo seja verdadeiro e não me sinto à vontade com o fato de que muitas das pessoas mais inteligentes e bem informadas que conheço têm credos religiosos. Não se trata apenas de eu não acreditar em Deus e, naturalmente, esperar que esteja correto em minha convicção. É que espero que não exista Deus! Não quero que exista um Deus; não quero que o universo seja assim. Meu palpite é que esse problema de autoridade cósmica não é uma eventualidade rara e é responsável por muito do cientificismo e do reducionismo do nosso tempo. Uma das tendências que aí encontra apoio é o ridículo abuso da biologia evolucionista para explicar tudo sobre a vida e a mente humanas.14

É verdade que o medo da morte, a ânsia por justiça cósmica e o desejo de encarar as nossas vidas como dotadas de sentido podem nos levar a querer acreditar que temos almas imortais especialmente criadas por um Deus que nos recompensará ou nos punirá por nossas ações nesta vida. Porém, não é menos verdade que o desejo de libertar-se dos padrões morais tradicionais e o medo de certas consequências políticas e sociais (reais ou imaginárias) da veracidade da crença religiosa também podem nos levar a querer acreditar que somos apenas animais engenhosos cujas vidas não têm nenhum outro propósito além daqueles que escolhemos estabelecer e que não há nenhum juiz cósmico que nos punirá se desobedecermos a uma lei moral objetiva. Assim como a religião, o ateísmo se apoia com frequência mais na vontade de crer do que em argumentos racionais desinteressados. De fato, como afirmou o filósofo C.F.J. Martin, o elemento de punição divina – tradicionalmente entendido nas religiões monoteístas como uma sentença de condenação eterna ao Inferno – mostra que não é nem um pouco plausível que o ateísmo seja menos motivado por wishful thinking do que o teísmo. Pois embora seja difícil entender por que alguém desejaria acreditar que se arrisca à danação perpétua, não é nem um pouco difícil enxergar por que alguém desejaria desesperadamente não acreditar nisso.15


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O abuso da ciência A referência de Nagel à biologia evolutiva nos leva ao terceiro e último tema deste livro, o qual é ilustrado pelo episódio de Flew: o pressuposto de que determinar se a crença religiosa é racionalmente justificável é, em última análise, tarefa da ciência e de que quem quer que compreenda a ciência moderna verá que ela favorece a resposta secularista. No mesmo parágrafo, Nagel observa: “Darwin permitiu que a moderna cultura secular exalasse um grande e coletivo suspiro de alívio, ao fornecer, aparentemente, um meio de eliminar propósito, sentido e desígnio como características fundamentais do mundo”.16 Na verdade, a ideia de que a ciência elimina “propósito, sentido e desígnio como características fundamentais do mundo” remonta, como veremos, aos princípios da ciência moderna, muito anteriores a Darwin. E permeia a percepção generalizada de que há séculos ocorre uma guerra entre ciência e religião em que esta perde cada vez mais terreno. Contudo, a própria ideia em questão não é de modo algum científica, mas filosófica e, portanto, a lendária guerra entre “ciência x religião” é um mito – de fato, pode-se pensar nela como o mito fundador do secularismo moderno, com Galileu e Newton assumindo o lugar de Rômulo e Remo. Durante eras inauditas, disseram os secularistas modernos a si mesmos e a todas as outras pessoas, a humanidade permaneceu nas trevas do fanatismo religioso, da ignorância e da irracionalidade; depois veio a Ciência e desde então a Marcha do Progresso é implacável. Os pais fundadores da revolução científica deram o pontapé inicial, Darwin avançou muito com a bola e hoje (segundo se conta) uma explicação completa do universo em geral e da natureza humana em particular em termos inteiramente materialistas (e, especialmente, sem referência nenhuma a “propósito, sentido e desígnio”), está ao alcance do nosso entendimento. Como a maioria dos mitos fundadores, este é uma mistura de falsidade e simplificação. Como sabem os historiadores do período, a Idade Média, na realidade, simplesmente não foi a era primitiva de barbarismo e superstição generalizada retratada nas polêmicas seculares e na cultura popular.17 E a eliminação do propósito e do sentido na concepção moderna do universo material não foi e não é um “resultado” ou uma “descoberta” da ciência moderna, mas uma interpretação filosófica dos resultados da ciência moderna, que deve mais aos filósofos secularistas do início da Modernidade, como


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Hobbes e Hume – bem como a filósofos que, embora não fossem ateus, eram igualmente antimedievais, como Descartes, Locke e Kant – do que aos grandes cientistas dos últimos séculos (ainda que muitos deles tenham aceitado essa interpretação filosófica dos resultados a que chegaram). Por fim, uma explicação completa do universo e da natureza humana que não faça referência alguma a propósito, sentido e desígnio não está e não estará jamais ao alcance do nosso entendimento, pela simples razão de que tal “explicação” é impossível em princípio e a esperança de que esteja algum dia não se baseia em nada além de uma mistura de confusão mental com wishful thinking. Podemos eliminar o propósito e o sentido da natureza tanto quanto podemos realizar a quadratura do círculo. Mais uma vez, sei que faço afirmações controversas, mas o objetivo dos capítulos que se seguem é justificá-las. Por ora basta dizer que a suposta “guerra entre a ciência e a religião” não é de modo algum uma disputa de fundo científico ou teológico, mas uma guerra entre duas cosmovisões filosóficas rivais. Ocasionalmente, encontramos um secularista que o admita. Nagel é um exemplo. Outro é o biólogo Richard Lewontin, que escreveu o seguinte: Nossa disposição de aceitar proposições científicas que são contrárias ao senso comum é a chave para compreender a verdadeira luta entre a ciência e o sobrenatural. Nós tomamos partido da ciência apesar da patente absurdidade de alguns dos seus construtos, apesar de ela não ter cumprido muitas das suas extravagantes promessas de melhorar a saúde e a vida de todos, apesar da tolerância da comunidade científica com histórias da carochinha, porque temos uma filiação prévia, a filiação ao materialismo... Não é que os métodos e as instituições da ciência nos coajam de algum modo a aceitar explicações materiais do mundo fenomênico, mas, ao contrário, é pela nossa aceitação a priori das causas materiais que somos forçados a criar um aparato de investigação e um conjunto de conceitos que produzam explicações materiais, por mais contraintuitivas, por mais mistificadas que sejam para os não iniciados. Além disso, o materialismo é absoluto, pois não podemos permitir que Deus entre pela nossa porta.18

Similarmente, o físico Paul Davies revela que “a ciência toma como ponto de partida o pressuposto de que a vida não foi feita por nenhum deus nem ente sobrenatural” e reconhece que, em parte por medo de


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“abrir a porta para fundamentalistas religiosos (...) muitos pesquisadores ficam incomodados em afirmar em público que a origem da vida é um mistério, muito embora admitam livremente, a portas fechadas, que estão confusos”.19 Dentre proeminentes filósofos contemporâneos, a opinião de Tyler Burge é que “o materialismo não foi confirmado, nem sequer expressamente respaldado, pela ciência” e que a influência que tem sobre os filósofos é análoga à influência das “ideologias políticas ou religiosas”.20 John Searle afirma que “o materialismo é a religião da nossa época”, que, “tal como as religiões mais tradicionais, é aceito sem questionamento e fornece a estrutura dentro da qual as outras questões podem ser levantadas, debatidas e respondidas” e que “os materialistas estão convictos, com uma fé semirreligiosa, de que seu ponto de vista deve estar correto”;21 e William Lycan admite, no que ele mesmo classifica como “incomum exercício de honestidade intelectual”, que os argumentos a favor do materialismo não são nem um pouco melhores que os argumentos contrários a ele, que sua “própria fé no materialismo baseia-se na idolatria da ciência”, e que, “além disso, nós sempre exigimos dos nossos oponentes padrões de argumentação mais elevados do que aqueles aos quais nós mesmos obedecemos”.22 O motivo do conflito, pois, não é nenhuma descoberta ou resultado factual da ciência, mas, antes, a questão filosófica mais fundamental de que tipo de resultado ou descoberta se permitirá considerar “científico”. Especificamente, esta é uma guerra em que está, de um lado, o que chamei de perspectiva filosófica clássica de Platão, Aristóteles, Agostinho e Tomás de Aquino e, do outro, a ortodoxia naturalista do secularismo contemporâneo, cujas premissas derivam de filósofos modernos como os mencionados acima. Como veremos, as diferenças radicais entre essas cosmovisões a respeito do que podem parecer à primeira vista questões razoavelmente abstrusas de metafísica – a relação entre universal e particular, forma e matéria, substância e atributos, a natureza da relação de causa e efeito e assim por diante –, na verdade têm graves repercussões para a religião, para a moralidade e até mesmo para a política. É só quando os resultados da ciência moderna são interpretados em função da metafísica naturalista que se pode fazer com que pareçam incompatíveis com a crença religiosa tradicional, e é apenas quando suas hipóteses são pressupostas e são negligenciadas as alternativas clássicas que se pode fazer com que os argumentos filosóficos a favor da cosmovisão religiosa tradicional (por


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exemplo, a favor da existência de Deus, da imortalidade da alma e da moralidade baseada na lei natural) pareçam problemáticos. Ao desconsiderar o desafio apresentado pela cosmovisão da filosofia clássica e distorcer suas principais ideias e argumentos nas raras ocasiões em que chega a considerá-la, o secularismo mantém o ilusório estatuto de posição racional padrão. Assim, é claro que naturalistas proeminentes como os neoateus “vencem” o debate público com os defensores das religiões tradicionais, sem que o grande público saiba que o jogo está sendo jogado com dados metafisicamente viciados. Religião e contrarreligião Afirmei que o próprio secularismo é uma espécie de religião. Reconheço que isso pode parecer estranho, considerando que seus adeptos evidentemente se veem como pessoas que rejeitam qualquer religião. Haverá na acusação algo mais do que mero giro retórico, a devolução de um insulto a quem insultou primeiro? Sim – e o fato de eu estar longe de considerar “religião” e “religioso” como descrições ofensivas em si mesmas não é o menor dos motivos. Na verdade, por razões que ficarão claras ao final deste livro – e são razões, não o ridículo espantalho da “fé” ao qual os neoateus, como todo ateu de província, adoram atirar pedras – eu diria que um homem verdadeiramente religioso, se tudo sair como esperado (e é claro que muitas vezes as coisas não saem como esperado), é, por esta razão e nesta escala, um homem sensato e virtuoso; ao passo que um homem irreligioso, e especialmente o homem que é afirmativamente hostil à religião, é (novamente, se tudo sair como esperado), por esta mesma razão e nesta escala, um homem defeituoso e um homem irracional. Em suma, a consciência religiosa, entendida corretamente, é uma virtude intelectual e moral; e a indiferença ou hostilidade à religião é um vício moral e intelectual. Assim, quando afirmo que o secularismo é uma religião e indico que isto é ruim, expresso-me de maneira bastante imprecisa, como que “falando com o vulgo”IV – em particular, falando com os próprios secularistas (não há gente mais vulgar), na medida em que afirmo que são “religiosos” IV A expressão usada, “speaking with the vulgar”, é do filósofo anglo-irlandês George Berkeley (1685-1753), bispo da Igreja da Irlanda. Berkeley defendeu uma teoria chamada por ele próprio de “imaterialismo”, segundo a qual não existe nenhuma substância material e o que chamamos de objetos são apenas ideias na mente de quem os percebe, produto da operação imediata de espíritos. Quando lhe objetavam que falar desta maneira era uma loucura, ele respondia que é verdade: é preciso “pensar com o douto e falar com o vulgo” [think with the learned, speak with the vulgar]. (N. T.)


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no sentido excêntrico em que eles próprios empregam essa palavra, com a conotação de dogmatismo, ignorância e intolerância. Mas há mais. Muitos secularistas gostam de igualar religião e superstição, quando na verdade a superstição não é religião em si, mas no máximo a corrupção da verdadeira religião – assim como a tirania não é o governo em si, mas apenas a corrupção do governo, assim como o trabalho assalariado só muito remotamente e nas piores circunstâncias é comparável à escravidão e assim como a prostituição não é em nenhum sentido relevante nem remotamente comparável ao casamento, apesar de algumas analogias extremamente superficiais. Naturalmente, há pessoas que negam que essas diferenças tão óbvias sejam reais: marxistas, anarquistas, feministas radicais e outros frequentadores de favelas intelectuais que tomam por profunda argúcia a incapacidade de fazer as mais elementares distinções conceituais. Ao que parece, pode-se acrescentar a esses as fileiras dos “pensadores” secularistas. Quando os “neoateus” e outros da mesma laia garantem com toda a seriedade que acreditar em Deus é o mesmo que acreditar no Coelhinho da Páscoa, ou que o ensino religioso é equivalente à exploração infantil, lembram-me do calouro de filosofia que certa vez contou com orgulho sua “descoberta” de que não havia nenhuma diferença real entre chamar uma menina para sair e ligar para uma acompanhante, já que “é tudo uma questão” de dar algo em troca de sexo. Em ambos os acasos, propor tal análise é prova não de ter profunda compreensão filosófica, mas apenas de ser um jumento superficial e presunçoso. No entanto, muitos secularistas acreditam, ou pelo menos aparentam acreditar, em coisas que chegam a ser ainda mais crassamente estúpidas, coisas que fazem com que eles, mais do que ninguém, mereçam o rótulo de “supersticiosos”. Como o falecido David Stove mostrou exaustivamente, a famosa afirmação de Dawkins de que somos todos “manipulados” pelos nossos “genes egoístas” só poderia ser ao mesmo tempo verdadeira e relevante se interpretada, absurdamente, como uma atribuição literal de inteligência e astúcia sobre-humanas ao que são, muito obviamente, minúsculas partículas de matéria biológica desprovidas de racionalidade – isto é, como a atribuição de poderes divinos aos genes.23 (Veremos adiante por que Dawkins e outros pensadores “naturalistas” são, queiram ou não, necessariamente obrigados a tais absurdidades pela lógica da tentativa de


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combinar materialismo com o fato biológico de que os genes carregam informações.) Dawkins afirma ainda (assim como seu acólito Dennett) que nossa mente não passa de uma coleção de “memes” – ideias, práticas e outros fenômenos culturais – que, tal como os genes, “competem” entre si e que o processo de evolução cultural gerado por essa “competição” é o que de fato determina nosso pensamento e nosso comportamento. É a própria “seleção natural” que passa a ser tratada como uma pseudodivindade que guia nossos destinos. Dennett, de modo particular, refere-se com frequência, e descaradamente, ao “Bom Desígnio” manifestado pela evolução, muito embora “evolução”, como processo supostamente natural e supostamente cego, não possa em nenhum sentido verdadeiro e relevante manifestar “desígnio” nem “orientação” sem ter inteligência e vontade divina. (De novo, há razões, que exploraremos adiante, pelas quais Dennett tem de falar desse modo para que sua cosmovisão “naturalista” seja minimamente plausível, mas também pelas quais não lhe é possível fazê-lo de modo que seja, em última análise, coerente com o materialismo e o ateísmo.) E há também, é claro (para remontar a gerações prévias de secularistas), o estatuto semidivino que os marxistas concederam às leis da história e a autoridade semieclesiástica de que investiram o Partido Comunista, a “religião da humanidade” de Comte e assim por diante. É provável que G.K. Chesterton nunca tenha dito a frase que lhe é atribuída, segundo a qual “aquele que não acredita em Deus acredita em qualquer coisa”. Mas certamente a teria dito se tivesse tomado conhecimento das demências que os secularistas contemporâneos propagam. Na ponta mais extrema do espectro, encontramos os filósofos “materialistas eliminativos” que negam a existência mesma da mente humana – uma corrente minoritária, é certo, mas que é, como veremos, a conclusão lógica da tendência “naturalista” do pensamento filosófico moderno. Já mencionamos a obscena defesa que Singer faz do infanticídio, da necrofilia e da bestialidade. Para usar um exemplo que se tornou, infelizmente, bem menos exótico, tomemos a campanha corrente pelo “casamento entre pessoas do mesmo sexo”, uma absurdidade metafísica de quatro costados equivalente à quadratura do círculo (como, novamente, veremos adiante) que até os pagãos antigos considerariam uma desprezível marca de decadência social extrema. Há ainda as várias causas moralistas – ambientalismo, “direitos dos animais”, vegetarianismo, veganismo e similares –, que embora não sejam todas inerentemente insanas nem endossadas por todos os secularistas,


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são quase sempre adotadas fanaticamente por eles e recipientes de importância ridiculamente exagerada, cada uma delas associada aos próprios rituais obsessivo-compulsivos semissacramentais (separar o lixo em várias pilhas para reciclagem, dirigir apenas “veículos híbridos”, comprar apenas atum com o selo “dolphin safe” etc). Custaria a ele acreditar nisso, mas Chesterton acharia o Novo Homem Secularista versão 2008 uma criatura ainda mais absurda do que a encarnação com a qual teve de lidar: sempre ostenta uma cópia da revista Skeptic debaixo do braço e põe no para-choque do carro o peixe de Darwin, que sinaliza orgulhosamente sua identificação grupal com outros membros da horda dos “pensadores independentes”. Ele “sabe” que não existe Deus nenhum e não tem certeza nem se os pensamentos que pensa que tem são reais. Mas tem plena certeza de que os “genes egoístas” e/ou os “memes” manipulam de algum modo todas as suas ações e tem certeza absoluta de que de que não há nada de essencialmente questionável em “casar-se” com outro homem, estrangular um bebê deficiente indesejado e sodomizar uma cabra ou um cadáver (se isso “for sua praia”). Apesar de odiar a religião, acredita que o aquecimento global é um perigo maior que o terrorismo islâmico, e a ideia de que “comer carne é assassinato” é uma proposição que acredita ser eminentemente digna de reflexão. Com toda a evidência, já não se fazem mais céticos como antigamente. Uma segunda razão para caracterizar o secularismo como fenômeno religioso, portanto, é que ele lembra em alguns aspectos, se não a religião em si, pelo menos uma forma corrupta de religião: a superstição, com toda a irracionalidade e a credulidade que a acompanham. Mas as duas características “religiosas” do secularismo que descrevi até agora – a intolerância e a superstição – brotam de um terceiro e mais profundo aspecto, segundo o qual ele só pode ser compreendido adequadamente em função da religião, a saber, o fato de que seu conteúdo, enquanto filosofia e senso moral, é inteiramente parasitário da religião. Não é apenas que por coincidência os secularistas rejeitam a religião e se opõem a ela; é que seu credo não consiste em nada mais do que rejeitar a religião e opor-se a ela. Isto pode parecer uma obviedade, até uma banalidade, mas não é. Pois em geral os secularistas acreditam promover uma cosmovisão intelectual e moral afirmativa, não uma simples crítica à religião. Eles alegam ter algo novo para colocar no lugar. Logo, não apenas rejeitam a fé, mas endossam a razão e a ciência. Não apenas rejeitam a moralidade


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tradicional, especialmente no âmbito sexual, mas afirmam o valor da livre escolha. Não apenas rejeitam a autoridade eclesiástica, mas afirmam a democracia e a tolerância. E assim por diante. Mas se olhar mais de perto, você descobrirá que essa “cosmovisão afirmativa” não é nada além de uma reafirmação da negativa. Como já disse e como ficará ululantemente óbvio ao final deste livro, a própria tradição religiosa ocidental, na sua principal vertente, abraça a razão e a ciência e repousa sobre elas com bastante firmeza. Também insiste que a convicção religiosa e a virtude moral devem ser adotadas de livre e espontânea vontade, não impostas pela força; e apesar de sustentar que algumas das coisas que as pessoas escolhem fazer são moralmente inaceitáveis, os secularistas, que também professam acreditar na existência da diferença entre o certo e o errado, afirmam a mesma coisa. O filósofo protestante John Locke e o Concílio Vaticano II, para dar apenas dois exemplos, endossaram a tolerância religiosa e a democracia, e o fizeram, além do mais, com justificativas teológicas, ao passo que os secularistas não gostam nada de democracia quando, digamos, ela resulta em conselhos escolares que tornam obrigatório o ensino da teoria do “design inteligente” junto com a da evolução. Assim, expliquemme, por favor, o que há de especificamente “secularista” em razão, ciência, livre escolha, tolerância, democracia e coisas similares. Na realidade, absolutamente nada. O fato é que os secularistas são “a favor” da razão e da ciência só enquanto elas não levam a conclusões religiosas; celebram a livre escolha apenas na medida em que se escolha algo contrário à moralidade tradicional ou religiosa; e apoiam a democracia e a tolerância só enquanto levam a uma ordem política e social menos permeada pela religião. Novamente, a animosidade contra a religião não é simplesmente uma característica da mentalidade secularista; é a única característica. Em relação a isso, podemos observar um fato curioso sobre a prática dos filósofos acadêmicos contemporâneos no que diz respeito à religião. Como Dennett e Harris, muitos deles são ateus. Mas ao contrário do que ocorre com os dois, praticamente não se fala de religião nos trabalhos publicados por eles. Embora estejam cientes de que têm colegas religiosos e encarem os mais obviamente brilhantes dentre esses com respeito relutante e perplexo, agem de maneira a fazer com que o trabalho deles, pelo menos nos pontos em que lida com temas religiosos, seja praticamente ignorado. John Searle, com evidente anuência, explicou o que acontece:


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Hoje em dia ninguém se dá ao trabalho [de atacar a religião] e o mero levantar a questão da existência de Deus é considerado de leve mau gosto. Questões religiosas são como questões de preferência sexual: não devem ser discutidas em público e mesmo as questões abstratas só são discutidas pelos impertinentes (...). Para nós, os membros instruídos da sociedade, o mundo se tornou desmistificado (...). O resultado dessa desmistificação é que ultrapassamos o ateísmo e chegamos a um ponto em que o tema já não tem a relevância que tinha para as gerações passadas.24

No entanto, quem quer que estude com profundidade as obras dos filósofos analíticos contemporâneos descobre que uma de suas principais obsessões, talvez a principal obsessão, é o projeto de “naturalizar” este ou aquele fenômeno – a mente, o conhecimento, a ética e assim por diante – ou de mostrar, em outras palavras, que ele pode ser inteiramente explicado em função de propriedades e processos “naturais” compatíveis com a (concepção deles de) “ciência natural”. E dado o que se disse acima, isso significa em última análise apenas explicá-lo em termos que não façam nenhuma referência a Deus, à alma ou a qualquer outra realidade imaterial. Esses secularistas “pé-no-chão”, que gostam de fingir, para si mesmos e para os outros, que são superiores demais para dedicar qualquer tipo de pensamento à religião em seu trabalho diário, revelam, assim, pela substância desse trabalho, que na verdade e no fundo não têm nenhum interesse além dela. Em particular, a fixação em “naturalizar” qualquer problema filosófico em que coloquem as mãos evidencia o desejo de racionalizar o ateísmo, mesmo que indiretamente. Thomas Nagel (cujo mea culpa foi citado acima) é apenas um dos raros filósofos secularistas dispostos a deixar a máscara cair por alguns momentos. Ora, se o conteúdo do secularismo deriva inteiramente da sua oposição à religião, é claro que isto não é suficiente para transformá-lo em uma religião, assim como opor-se, digamos, ao comunismo, não torna ninguém comunista. Por coincidência, muitos anticomunistas foram acusados (geralmente de forma injusta, mas deixemos isso para lá) de terem se tornado, no seu excesso de zelo, a coisa mesma que odiavam. Tão fervoroso era seu ódio e tão mais concentrados estavam em destruir o objeto dele do que em promover uma alternativa positiva, que a cura se tornou tão prejudicial quanto a doença e até manifestou parte dos mesmos sintomas.


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(Novamente, é o que dizem – mas se você acha mesmo que Joe McCarthy, apesar de todos os erros que cometeu, é remotamente comparável a Stalin, Mao, ou mesmo Fidel, é melhor comprar uma passagem para Cuba.) Bem, quando consideramos: (a) o fato de que o secularismo não é muita coisa além de animosidade contra a religião, sem nenhum conteúdo afirmativo; (b) o fato de que muitos dos seus adeptos abraçam ideias tão supersticiosas e/ou delirantes quanto as manifestadas pelas formas mais corruptas de religião (ideias que, embora não sejam inerentes ao secularismo nem, portanto, aceitas por todos os secularistas, tendem no entanto a se seguir geralmente à rejeição da religião como substitutivas dela); e (c) o fato de que geralmente eles também manifestam para com a religião e os religiosos exatamente o mesmo tipo de ignorância, intolerância e dogmatismo que atribuem à religião; quando somamos todos esses fatores é sem dúvida tão plausível considerar o secularismo uma “religião” – algo que é, pois, precisamente aquilo que afirma combater – quanto é possível afirmar que o anticomunismo se tornou a coisa mesma a que ele se opunha. Aliás, mais ainda, dado que a maior parte das acusações contra os anticomunistas são (como eu disse) injustas. E dado que tantas vezes os próprios secularistas foram autores das mais estridentes e falsas acusações contra os anticomunistas (já que o comunismo foi uma das vacas sagradas de uma geração anterior de secularistas), não há nada mais apropriado do que virar o feitiço contra os feiticeiros. Assim, enquanto Dennett se propõe a explicar “a religião como fenômeno natural”, eu me proponho a interpretar o naturalismo e o secularismo como fenômenos religiosos. Aliás, se o secularismo não é exatamente uma religião, é o que podemos chamar de contrarreligião. Ele tem seus próprios contrassantos (Darwin, Clarence Darrow, Carl Sagan); contraprofetas do seu “Antigo Testamento” (Marx, Nietzsche, Freud); e contra -apóstolos mais gentis e benevolentes, cheios de esperanças na realização do Reino dos Semdeus na Terra via políticas educacionais “progressistas” e outros esquemas de alpinismo social, do seu “Novo Testamento” (Dennett, Dawkins, Harris e Hitchens – e na barganha, cada membro desse quarteto tem até seu próprio Evangelho). Ele fornece identidade e sentido a quem está a seu serviço e uma metafísica para interpretar o mundo, além de um sistema de valores para a vida, ainda que tudo isso seja pouco mais que a negação da metafísica e da moralidade associadas à religião: isto é, uma contrametafísica e uma contramoralidade.


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Entretanto, como afirmei, ele é ainda um sistema de crenças profundamente irracional e imoral, em verdade a própria negação da razão e da moralidade. Daí que eu o chame de a última superstição: “última” não apenas no sentido de aquela que resta depois que supostamente destruiu todas as outras, mas também no sentido de a superstição última, a “mãe de todas as superstições”. O que está por vir A tarefa dos próximos capítulos será, portanto, mostrar que: 1. a pretensa “guerra entre ciência e religião” é na verdade uma guerra entre sistemas filosóficos ou metafísicos rivais, a saber, a cosmovisão clássica de Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino de um lado e o naturalismo moderno de outro; 2. a cosmovisão naturalista, de que depende o secularismo, torna a moralidade e a razão impossíveis, mas elas são perfeitamente compreensíveis na cosmovisão clássica, a única aliás em que são compreensíveis; e 3. o secularismo não pode, portanto, deixar de manifestar o irracionalismo e a imoralidade que atribui falsamente à religião, ao passo que a perspectiva religiosa consagrada no teísmo filosófico clássico não pode deixar de mostrar-se louvável para qualquer ser humano racional e moralmente digno que o compreenda corretamente, liberto das calúnias e das caricaturas vendidas pelos secularistas. Nada do que se segue requer do leitor conhecimento prévio de filosofia nem de história da filosofia, mas em alguns pontos a discussão ficará um pouco abstrata e técnica, embora, creio, jamais enfadonha, e a importância vital das abstrações e tecnicalidades ocasionais para lidar com problemas de religião, moralidade e ciência oferecerá ampla recompensa ao leitor paciente. Em certo sentido, a argumentação filosófica básica a favor da existência de Deus, da imortalidade da alma e da moralidade baseada na lei natural é bastante simples. Porém, esses temas se tornaram cada vez mais obscurecidos a partir do momento em que os pensadores do pretenso “Iluminismo”, assim como seus predecessores, começaram a turvar o entendimento do homem ocidental, e atualmente a concepção que o cidadão médio (inclusive o intelectual médio) tem da religião é circundada por uma cortina de fumaça filosófica quase impenetrável de premissas não examinadas, falsidades, clichês, caricaturas, preconceitos, propaganda e confusão mental generalizada. É necessário considerável esforço intelec-


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tual para dissipar esta poluição cultural (pegando emprestado o feliz conceito criado por R. Emmett Tyrrell). A tarefa não é muito diferente daquela que enfrenta quem desmente teorias da conspiração populares, mas intelectualmente indefensáveis. Como lamenta Vincent Bugliosi em Reclaiming History, seu estudo colossal sobre o assassinato de John Kennedy, “é necessária apenas uma frase para defender a ideia de que o crime organizado encomendou o assassinato de Kennedy para livrar-se do irmão dele, o procurador-geral Robert Kennedy, mas são necessárias várias páginas para demonstrar que essa afirmação é inválida”. 25 Um dos motivos pelos quais isso acontece é que certas falácias e erros cometidos pelos teóricos da conspiração só podem ser expostos mediante análise meticulosa de testemunhos oculares, evidências balísticas, contexto histórico e pormenores semelhantes. Outro é o viés incorporado no vasto número de coisas que as pessoas acreditam saber sobre um caso específico e que na verdade não sabem. Para tomar apenas um exemplo, qualquer um que tenha lido um livro de teoria da conspiração ou visto o filme de Oliver Stone, JFK, “sabe” que é impossível que uma mesma bala tenha causado os ferimentos do pescoço de Kennedy e do governador Connally, uma vez que Connally estava sentado em frente ao presidente e o tiro em questão veio diagonalmente de trás – o problema é só que é um fato demonstrável que Connally não estava sentado diretamente em frente a Kennedy, mas na frente à esquerda e levemente abaixo dele em uma poltrona reclinável, o que fez com que o ferimento que sofreu estivesse perfeitamente alinhado ao do pescoço de Kennedy.26 Similarmente, todo o mundo “sabe” que o argumento cosmológico a favor da existência de Deus afirma que “tudo tem uma causa, logo o universo tem uma causa, a saber, Deus” e que é possível refutá-lo facilidade perguntando: “Bom, se tudo tem uma causa, então o que causou Deus?” – só que isto não é o que afirma o argumento cosmológico e nenhum dos filósofos que o defenderam – nem Aristóteles, nem Tomás de Aquino, nem Leibniz, nem nenhum outro – jamais cometeu uma falácia tão estúpida e óbvia. Todo o mundo “sabe” que afirmar que a moralidade depende da religião significa que Deus decide arbitrariamente ordenar uma coisa ou outra (“só porque ele tá a fim”, aparentemente) e a única razão para obedecer é o medo do inferno – só que dizer que a moralidade depende da religião não significa isto, pelo menos não no pensamento dos vários filósofos importantes que defenderam essa afirmação. E assim por diante.


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Para corrigir ideias tão disseminadas e enfadonhas, é necessário explicar como a tradição filosófica clássica entende o que é ser a “causa” de alguma coisa, o que significa descrever algo como “bom” ou “mau” e muitos outros tópicos filosóficos cuja compreensão foi enormemente distorcida pelos filósofos modernos e por seus sucessores. O que começou como má filosofia e propaganda antirreligiosa nos escritos de pensadores da Modernidade e do Iluminismo se cristalizou em uma espécie de pseudossenso comum, com mentiras e confusões tão profundamente imbricadas no pensamento contemporâneo, que poucas pessoas chegam a perceber que há alternativas a elas. É assim no caso da maior parte dos filósofos e intelectuais contemporâneos tanto quanto no das outras pessoas. Bugliosi relata que cerca de 90% dos 600 advogados de uma audiência com a qual fez uma enquete afirmaram discordar das conclusões da Comissão Warren.27 Contudo, apesar de o mesmo número de pessoas ter declarado que já tinha visto o filme de Oliver Stone ou lido algum livro de teoria da conspiração, quase ninguém – e note que estamos falando de advogados, profissionais que gostaríamos de acreditar estarem cientes da necessidade de ouvir os dois lados de uma questão – tinha lido de fato o relatório da comissão, presumivelmente porque “já sabia” que ele estava errado. Similarmente, um colega secularista me garantiu certa vez que não precisava dar-se ao trabalho de ler autores como Tomás de Aquino, uma vez que “já sabia” que devem estar errados – embora, a julgar pela compreensão que tinha do que “Deus” significava para esses autores (ele expôs convictamente alguns antropomorfismos idiotas, comparações enfadonhas com o Coelhinho da Páscoa etc.), era óbvio que não sabia de coisa nenhuma. É como tentar discutir Ticiano com uma criança de três anos que acha que quadro é uma coisa que se faz com os dedos. Como vimos nas queixas de Quentin Smith e Jeremy Waldron acima, fora os poucos que são especialistas de profissão em discutir sobre religião, os pensadores secularistas, em geral, não conhecem nada que não seja uma caricatura absurda das ideias religiosas tradicionais, ignoram completamente que exista algo além dessas caricaturas e assim não se dão ao trabalho de procurar nada além de espantalhos para atacar. Eles simplesmente não sabem do que estão falando e não sabem que não sabem. Se as coisas estão tão más com relação às pessoas que deveriam conhecer essas coisas – acadêmicos, escritores, filósofos, cientistas e outros intelectuais – não surpreende que o leitor culto


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médio seja tão ignorante quanto elas. O tratamento filosófico detalhado que darei ao tema neste livro é, pois, imprescindível para que o trabalho seja feito adequadamente. Há ainda outro obstáculo que é preciso enfrentar e, novamente, ele tem paralelo nos debates sobre teorias da conspiração. Bugliosi observa que “é inevitável que as pessoas achem as teorias da conspiração fascinantes e intrigantes e sejam, por consequência, inconscientemente mais receptivas a hipóteses conspiratórias”; aqueles que desmentem essas hipóteses são, portanto, considerados “estraga-prazeres”.28 E, como mostrei em outro lugar, as teorias da conspiração também prosperam no ambiente contemporâneo em que impera a crença geral (mas, como veremos, totalmente falsa) de que a função da ciência, da filosofia e do “pensamento crítico” em geral é essencialmente minar a autoridade, desbancar as “versões oficiais” e derrubar a sabedoria popular e o senso comum.29 Similarmente, dado que mesmo hoje a maioria das pessoas ainda recebe algum tipo de formação religiosa e que a perspectiva religiosa tem, inevitavelmente, o estatuto de visão tradicional ou transmitida das coisas, a perspectiva secularista, por mais fracos que sejam os argumentos a seu favor, não pode deixar de passar a impressão de ser nova, excitante e “intelectual”, ao passo que o defensor da religião, por mais poderosos que sejam seus argumentos, está fadado a parecer um distante e chato estraga-prazeres. Racionalmente falando, é claro que tudo isso é completamente frívolo e infantil, mas torna ainda mais imperativo para o defensor da crença religiosa apoiarse no puro poder filosófico de uma argumentação aprofundada, pois ele tem pouquíssimo a oferecer em termos de “sex appeal”. (Assim mesmo, prometo que direi algumas coisas francas e desagradáveis sobre sexo – embora suspeite que os maiores ofendidos por elas serão precisamente as pessoas que adoram posar de abertas a conversas francas sobre sexo.) Eis, portanto, o plano dos capítulos que se seguem. Os capítulos 2 a 5 constituem um “curso intensivo” de história da filosofia ocidental, ainda que altamente seletivo, sendo nosso interesse tanto as tendências que levaram em direção ao que chamo de cosmovisão filosófica “clássica” subjacente à tradição religiosa ocidental como aquelas que se afastaram dela. Especificamente, o capítulo 2 investiga as principais ideias metafísicas de Platão e Aristóteles e de suas respectivas escolas de pensamento; os capítulos 3 e 4 explicam como essas ideias foram desenvolvidas e utilizadas pelos pensadores escolásticos, especialmente Tomás de Aquino, para


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articular uma explicação sistemática abrangente da existência de Deus, da imaterialidade e imortalidade da alma e da base natural da lei moral; e o capítulo 5 examina o modo como os filósofos “modernos”, que romperam radicalmente com essa herança “clássica” grega e medieval, desencadearam um processo que iria, de maneira gradual mas implacável, minar não apenas a herança moral e religiosa do Ocidente, mas também os fundamentos da razão, da moralidade e da própria ciência. Nosso trajeto, pois, é o da ascensão contínua dos ensolarados vales gregos até as luzes divinas dos cumes góticos da Idade Média – seguida pela tenebrosa queda de tobogã rumo às entranhas sombrias da versão moderna da caverna de Platão. O capítulo 6 mostra a saída e o caminho de volta ao topo. Mostra, especificamente, que o quadro metafísico clássico que foi substituído pelo moderno é racionalmente inevitável e, portanto, tão defensável hoje quanto era no tempo de Tomás de Aquino; e também que, por se tratar de um quadro inevitável, a cosmovisão religiosa tradicional do Ocidente que ele implica também é racionalmente inevitável. Como afirmei, lidaremos ocasionalmente, ao longo deste livro, com certas questões técnicas de filosofia. (Alguns leitores podem achar partes dos capítulos 2 e 5 especialmente desafiadoras.) Mas as tecnicalidades não são mais difíceis do que aquelas que se encontram em livros de divulgação científica, e me sinto encorajado pelo exemplo de Mortimer Adler, que devotou sua carreira a expor Aristóteles para todos (para citar o título de um de seus livros mais conhecidos) e, ao que parece, ganhou zilhões de dólares com isso. (Certo, não é bem assim. No entanto, meu segredo foi revelado: escolhi a filosofia pelo dinheiro. Começo a achar que a orientação profissional da minha escola era meio piada.) Como também já afirmei, a necessidade das tecnicalidades ficará clara quando virmos as grandes implicações que têm para a religião, a moralidade e a ciência. E acredito poder garantir isto: se fizer o esforço de entender as ideias que exponho neste livro, mesmo que acabe não concordando comigo que a existência de Deus, a imortalidade da alma e a base da moralidade na lei natural são racionalmente inevitáveis, você vai entender como pessoas razoáveis podem estar convencidas disso. Como o leitor sem dúvida já notou, este livro será tão polêmico quanto filosófico, embora dificilmente mais do que os livros escritos pelos “neoateus” aos quais estou respondendo. Acredito que este tom é apropriado, aliás necessário, pois o neoateísmo deriva qualquer influência


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que tenha muito mais da sua força retórica e do seu “sex appeal” (como o chamei) do que do seu conteúdo intelectual assaz ralo. É essencial, portanto, não apenas que suas pretensões intelectuais sejam desbancadas, mas que sua retórica seja combatida com força igual e contrária. Em qualquer caso, como o argumento deste livro mostrará, foram os defensores da cosmovisão filosófica e religiosa tradicional do Ocidente, e certamente não os “neoateus”, que conquistaram o direito intelectual de engajar-se em polêmicas. Assim mesmo, e não obstante o que disse neste capítulo, quero enfatizar que não nego nem por um momento que haja ateus, secularistas e naturalistas bem-intencionados, que são (fora sua rejeição da religião) razoáveis e moralmente admiráveis. O que nego é que tenham ou possam ter – saibam eles ou não – qualquer justificativa racional cogente, sendo ateus e naturalistas, para crer na moralidade ou na racionalidade e também nego que possam racionalmente continuar secularistas, naturalistas ou ateus se vierem a compreender adequadamente tanto os pontos de vista religiosos que rejeitam como as dificuldades inerentes à própria posição. É claro que não sou tolo a ponto de acreditar que não é possível que pessoas razoáveis deixem de concordar comigo depois de ler este livro. Por melhor que sejam seus argumentos e por mais corretas que sejam suas conclusões, não se pode esperar que nenhum livro, por si só, qualquer que seja seu tema, convença todas as pessoas razoáveis, certamente não todas de uma vez, sozinho, ou depois de uma única leitura; o modo como nós seres humanos passamos a acreditar nas coisas, para o bem ou para o mal, é muito mais complexo que isso. (Não existem “balas de prata” na filosofia, assim como não existem no assassinato de Kennedy.) Ainda assim, rogo aos leitores secularistas que pelo menos considerem que o que tenho a dizer neste livro é apenas a ponta de um iceberg intelectual e que, se estudarem com profundidade as obras (sem dúvida muito melhores) de outros autores da tradição de pensamento que os meus argumentos representam, descobrirão que rejeitaram a religião com muita, muita pressa – e talvez tenham cometido um erro terrível ao fazê-lo. Rogo aos leitores secularistas, portanto, que façam o que Dennett, de modo tão paternalista e enfadonho, pede aos leitores religiosos que façam ao longo do livro Quebrando o encanto – considerem que estão engana-


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dos. Espero lhes mostrar que se são, como afirmam ser, verdadeiramente racionais e morais, verão que odeiam o que deveriam amar. E para não ficar muito simpático, verão que deveriam – literalmente – ficar de joelhos e adorar o Deus que os sustenta misericordiosamente no ser a cada instante, mesmo quando O ridicularizam insensatamente. Este não é apenas um ato de fé, propriamente compreendido; é a suprema manifestação e a suprema realização, pelo menos nesta vida, da própria razão humana.


A Última Superstição  

Uma refutação do neoateísmo

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