
M A N U A L D O
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M A N U A L D O
São Paulo
Manual do consumidor
© Glauco Mattoso, 2026
Editoração, Diagramação e Revisão
Lucio Medeiros
Capa
Concepção: Glauco Mattoso
Execução: Lucio Medeiros
Fotografia: Akira Nishimura
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Mattoso, Glauco
MANUAL DO CONSUMIDOR / Glauco Mattoso. –– Brasil : Casa de Ferreiro, 2026. 188 Páginas
1.Poesia Brasileira I. Título.
25-1293 CDD B869.1
Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia brasileira
NOTA INTRODUCTORIA ou
O leite ja na caixa vem azedo e azeda mais ainda na panella? A minha geladeira é que não gela, allega o vendedor, e eu retrocedo. Contem veneno a tincta do brinquedo, mas, só depois que a midia nos revela o risco, é que o governo intima aquella industria a recolher o que dá medo. Vivemos como a typica cobaya dum louco scientista: emquanto nada peor accontesceu, que o leite saia! Morreu uma creança envenenada? Melhor, antes que o lucro delles caia, lançar outra boneca addocicada, ou outro “protector”: depois da praia, a moça que, então, arda, assim tostada!
Em Roma se pagava p’ra cagar, mas hoje a taxação tem melhor nivel.
O imposto sobre a merda é deductivel do grosso que teremos de pagar.
Não ande em contramão, va devagar.
As mulctas são pesadas, coisa horrivel!
Ja não se tracta mais de “causa civel”: “tributaristas” temos que tragar!
O Harrison ja disse que a receita lhe deixa um só, retendo dezenove. Sacou ou não sacou? Gostou, my love?
Achou sua parcella muito estreita?
Da sua grana a fonte então comprove, sinão a mão em tudo ella lhe deita!
Não é, gajo, uma machina perfeita?
Só falta tributarem quando chove!
Puzeram menos metro no papel e cada vez o rollo está mais curto. Na mesma proporção, com dó me furto a estar com mais frequencia no miguel. No vaso, pouco movo o carretel e privo-me dos livros que mais curto. Si for mui dysenterico meu surto, terei que usar o dedo no outro annel. Lavar as mãos borradas é o de menos.
Difficil é poupar papel na hora de abrir um dos rollinhos tão pequenos. Comnosco perguntamo-nos: “E agora?” Problemas taes não são dos mais amenos! Mal rasga-se, e metade foi-se embora, tão fino e fragil é! Sorte que dê-nos discreta caganeira, e um mez demora.
Bollaram um imposto interessante na enesima reforma tributaria que iria reduzir a “necessaria” e enorme carga em cyma do elephante. Assim como ja exsiste um excorchante “imposto sobre o solo”, uma arbitraria cabeça inventa a nova taxa e pare-a {sic} de “imposto sobre o ar”, por mais que expante! Si polluido está, a desculpa dada é que é p’ra melhorar a qualidade e, quando puro, vira marmellada! Quem respirar demais paga a metade de quem menos consome, e em quasi nada incide o que mais alto se arrecade. Babaca cada qual de nós é, cada detento tambem, porra, attraz de grade!
Defende-se quem pode! O estellionato agora é cybernetico: annuncia na China um bom negocio alguem que espia seu micro emquanto um sitio attrae o ratto. Sem firma, sem recibo e sem contracto, você vae se foder! Segunda via nem tente reclamar! Ou quer que ria na sua cara quem o fez de pato? Peor é quando a compta alguem lhe invade e saca todo o saldo pela rede! Queixar-se a quem? Ao bispo? Ao padre? Ao frade? Portanto, si o vigario lhe diz “Crede!”, não creia, ja que a probabilidade é o demo ter ouvidos na parede.
Fodeu-se em virtual realidade quem quiz “monetizar” com muita sede.
Naquelle shopping center tem de tudo: revolver imitando os de verdade, carrinho-miniatura, annel que aggrade ao dedo mais grahudo e ao mais mehudo. Sofá forrado em couro ou com velludo, vitrines exhibindo, em variedade, o tennis do rapaz cujo pae nade em grana e que não gaste só no estudo. Da praça das comidas sobe um cheiro moderno, irresistivel, de batata assada ou fricta, alem do pipoqueiro. Dos oculos escuros, ha o que batta no preço dum diamante verdadeiro, mas meu bolso com elles não empatta. Alli sou eu appenas um rasteiro freguez da lanchonette mais barata.
Nas ruas ja não cabe tanto carro e a industria do automovel continua querendo que ‘inda caiba em nossa rua aquelle ultimo typo em que me ammarro! Vontade é o que não falta, mas exbarro no preço do vehiculo: insinua a falsa propaganda ser a sua faceta a “popular”, mas cheira a sarro! Appenas porque o banco é reclinavel ou vem na cor de burro quando foge, a loja ja arredonda algum centavo! Commigo não tem dessa! Inda que ennoje pisar num cocozinho, eis que desbravo a pé minha calçada, olhando um Dodge, faz tempo, abbandonado, uma admiravel visão catastrophista, das do George.
A safra foi recorde novamente, sei la quantos milhões de tonneladas, comida que alimenta até manadas humanas, pois tambem o gado é gente! No entanto, uma parcella mais carente do povo nunca come essas saladas lindissimas e tão bem temperadas que nem parescem vindas da semente! Vermelhos, os tomates são fartura enchendo nossos olhos pela feira, ao lado das montanhas de verdura! Não fosse achar na xepa alguma inteira cenoura ou mandioca, o pobre jura que a farta agricultura é brincadeira appenas de creança, travessura egual à de quem planta bananeira.
Peguei no pullo quando a nota fria passava em plena feira um piccareta: comprou elle um saccão de ameixa preta e quasi um caminhão de melancia. Pagou e pediu troco; até queria moedas excolher numa gaveta da banca de pigmenta malagueta na qual tem o feirante parceria. O dono da barraca desconfia e a scedula rabisca com canneta p’ra ver si a tincta expalha ou cores cria. Prevendo que o papel mais se derreta, ja troca na local pastellaria e guarda um maço falso na maleta o typico punguista que, da guia, jogou um cego dentro da sargeta.
“Repercutindo” a festa de Madame, commenta o badalado columnista que tal ou qual dondoca fora vista vestindo um costureiro que bem chame. Fulano ou Fulaninho deu vexame trajando algo que entrou para uma lista dos dez deselegantes da revista de modas e fofocas mais infame. Só nisso pensa o rico: ser notado por todos como alguem que bem ja nasce, qual ratto que jamais se mixturasse ao ratto e boi que brilhe em meio ao gado. A merda que elle caga tem mais classe: num tom menos marron, mais azulado, não desce, gruda em tudo, mostra o lado humano e de seu dono obstenta a face.
Attraz do restaurante, rente ao muro do becco, em lattões altos se accumula o lixo e, alli por perto, perambula um velho, a revirar cada monturo. Emquanto alguem, la dentro, o azeite puro derrama na salada e cede à gula, na latta um fructo agguarda quem o engula e ha muito está passado de maduro. A scena, que alguns acham tão nojenta, não causa, alli, pudores indigestos. Por entre insectos move-se a cinzenta e gorda rattazana, e fartos restos mixturam-se, da almondega à polenta. Ninguem diz, nem nos lares mais modestos, que mal e porcamente se alimenta, malgrado os esquerdistas manifestos.
A cada refeição, mais me appercebo de que peora a carne brazileira: vae toda pro exterior, si é de primeira, e aqui só fica bucho, nervo e sebo. Na bronca é que as noticias eu recebo accerca do occupante da cadeira de chefe da nação, que à churrasqueira se farta e ainda bebe o que não bebo. Por isso é que eu odeio um presidente: passeia o tempo todo, não faz nada e nunca na muchiba mette o dente! Maldicto! Rogo praga p’ra que cada dentada e cada gole mais lhe augmente a chance de morrer numa engasgada ou, pelo menos, que elle simplesmente se borre numa liquida cagada.
Producto “maquillado” nos enganna bem facil: no biscoito e no papel hygienico, se perde nossa grana mais vezes que com vento no pastel!
O assucar empedrado era de canna, mas “puro” informa o rotulo do mel!
E quanto menos chique a zona urbana, maior o readjuste no aluguel!
Está o consumidor mais que fodido, pois paga bem mas toma o comprimido pensando ser remedio, e não placebo!
E come, em vez de carne, podre sebo!
No voto, a mesma coisa: o candidato se elege mas, emquanto não o macto, só delle uma banana é o que eu recebo! Nem mesmo uma luzinha mais percebo!
“Você foi sorteado…!”, alguem lhe liga.
Paresce uma noticia muito boa.
“Ganhou, gratis, um curso…”, a voz amiga lhe falla, e aquillo como premio soa.
O cara é um vigarista duma figa.
Você jamais suspeita da pessoa, porem: fornesce dados e se obriga a um tracto que no bolso depois doa.
“Você só pagará…”, bem… “a appostilla!”
A fraude é bem manjada, e prevenil-a depende do bom senso, simplesmente.
Mas, mesmo assim, enganna muita gente.
Esmolla gorda, o sancto desconfia.
Vantagem todos querem: todavia, appenas quem a leva é o delinquente, a rir de quem otario ja se sente.
De salto agulha, altissimo, a dondoca passeia na calçada, em frente à chique vitrine, se exhibindo e tendo, em troca, olhares sobre si, fora algum clique. Num punk a represalia ella provoca: o cara, que ja sente odio a butique, questão faz de mostrar que da malloca sahiu e quer que alguem sem graça fique. Advança para a moça, como quem assalta e de roubal-a intenção tem. Em panico, a perua correr quer.
Coitada da chiquerrima mulher! Porem o salto fino se esphacela e, sem que o punk um dedo encoste nella, por terra berra, como uma qualquer, qual puta, que exgoela onde estiver.
Chamava-se o carrão de “cadillaque” si fosse ultimo typo e o dono rico. Em sendo o carro velho e tendo acchaque, é como “calhambeque”, eu classifico. Agora ambos são dados de almanach, mas cada qual ja teve anno de picco. Quem quer que um delles, hoje em dia, emplaque verá que as peças ja não teem fabrico. Playboys que cadillaques, nos sessenta, usaram, exhibindo-se nas modas de então, só querem hoje barulhenta perua, com tracção nas quattro rodas. Preferem digital som à buzina que ao somno alheio impoz ja tantas podas e, quando dão carona a uma menina, teem mais trazeiros bancos para as fodas.
Ganhou o appostador na lotteria e quiz mudar de vida: implanta dente, faz plastica, suppondo que teria mais chance si ellas acham-no attrahente.
Casou-se, mas a esposa só queria a grana, e envenenou-o… Quem se sente vingado é quem gastou essa quantia da apposta em tiragosto ou aguardente. Pergunta-se o chocolatra: addeanta ficar sem chocolate e pagar tanta fezinha? Compensou ser um sortudo? Não é qualquer trocado tão mehudo! Da vida o que se leva é o que se vive: quem quer approveitar, que não se prive do pouco pela apposta em ganhar tudo. Prefiro uns brigadeiros. Não me illudo.
A camera indiscreta e patrulheira que ha no supermercado photographa os passos do moleque que se exgueira por entre as pratteleiras e as “abbafa”. O joven ladrãozinho faz a feira: biscoitos, doces, ballas… A garrafa de whisky não lhe excappa à mão certeira! Minutos mais, e o joven ja se sapha! Detido na sahida, foi levado ao proximo districto. Ha quem confisque aquillo que roubou. É o delegado, que indaga: “Si é por fome, por que whisky?” O cynico ladrão nem titubeia, sciente de seu risco, caso pisque. Sabendo que não fica na cadeia, responde: “Só por pão, tem quem se arrisque?”
Uma saccola plastica demora cem annos (é o que dizem) para, emfim, deixar de polluir tudo que, agora, pollue! É muito tempo, para mim! Em casa, aquelle lixo para fora jogamos sem pensar! Não sendo assim, o plastico accumula e, alguma hora, terá que lhe ser dado qualquer fim. Exsiste solução? Alguem tem peito? Saccolas recyclaveis solução sensata me parescem, porem não entende assim qualquer governo estreito. Dos taes “especialistas” eu suspeito. Que querem? Quando não houver logar nenhum mais para o plastico jogar, com elle forraremos nosso… leito!
Si somos, das potencias, o quintal, e tudo fornescemos, por que não tornarmo-nos, tambem, cannavial a fim de produzir-lhes combustão? De canna um mar, e nada mais… Que tal? Petroleo ja não basta: agora são testados combustiveis com aval dos maus ecologistas de plantão! Alcoholico quer ser o carro gringo e, quando não nos reste mais um pingo, em outras fontes elles vão mammar, brindando alegremente em cada bar! O amargo gosto fica em quem se priva da canna doce, para que bem viva quem só desertifica o que era mar e sobre nossos lixos quer lucrar!
Si alguma escuta houvesse, alli na salla que toma as decisões da companhia, a gente iria ouvir, e condemnal-a, a mais bandida e suja theoria. “Como é que se produz, em larga escala, productos fajutados que, no diaa-dia do consumo, em nossa mala de grana, roubem mais à freguezia?”
Em termos mais ou menos parescidos os donos das empresas, reunidos, decidem como assaltam o povão otario, que lhes compra a producção. Si os phones lhes grampeia a lei, verá que differença alguma ja não ha entre os que formam mafia e “honestos” são, alem dos que governam a nação.
Entrou na padaria um andarilho pedindo que lhe dessem de comer. Ao vel-o, maltractado e maltrappilho, acharam que não tinha o que excolher. Lhe deram uns pãesinhos: “Tó, meu filho!” Suppõe-se que sorriu foi de prazer. {Só pão ammanhescido? Não me humilho assim!}, é o que seus labios dão-me a ler. Palavras que, em canção, se recuperam. Estava eu certo. Saio da padoca e vejo que, la addeante, elle colloca no lixo o grande sacco que lhe deram. Burguezes conclusões vis asseveram. Ainda pelo chão umas bisnagas restavam. Por não terem sido pagas, não mactam fome, como elles esperam.
-- Meu bem, eu não fallei que o restaurante francez era um amor? Quantas escadas! As sallas são pequenas, mas bastante ornadas com panellas penduradas!
Si chega a demorar que a gente jante, mactamos nossa fome com entradas! Olhemos o garçon, tão elegante! Passemos patezinho nas torradas!
Que importa si a comida é demorada, si aqui maravilhados ante cada detalhe ficarão os visitantes?
Sim, este é um dos melhores restaurantes! “O que?! Esperamos tanto p’ra, no pratto, vir essa migalhinha? E ainda o chato sou eu? Por que você não fallou antes? Detesto restaurantes semelhantes!”
“Querida, o restaurante poz na compta até cada pedaço de palito de dente que eu quebrei! A somma monta centenas de reaes! Acha bonito?
Quebrei palitos, sim! Estava afflicto emquanto não ficasse a boia prompta! Você tinha que achar esse exquisito logar para comermos, sua tonta?
Sahi de la com fome! Só jantei patê com pão, batatas, e nem sei que carne era essa tal dessa medalha! Não ha compta que tanto assim nos valha!” -- Meu bem, é medalhão! Filé mignon! Não sabe appreciar? Tudo que é bom é caro! Quem mandou sermos gentalha? Arroz-pheijão é tudo que nos calha!
E quando installa um technico a novinha e cara apparelhagem que comprei?
Está toda testada, mas a minha festança dura pouco, reza a lei.
Que lei? Ora, a de Murphy! Ja adivinha você meu drama: mal eu dispensei o technico (e de longe o gajo vinha), defeitos verifico… Me ferrei!
Agora, só agendando outra visita!
O gajo volta, testa, e esta maldicta tranqueira então funcciona direitinho!
Da physica as leis sempre eu ca sublinho: Foi só virar as costas o subjeito, de novo verifico que o defeito perdura, e inutilmente me abbespinho.
Na physica ninguem é coitadinho.
Errar no troco é coisa que accontesce nas boas e melhores padarias. Por que será, porem, que o caixa exquesce de dar-nos um tostão todos os dias? Vem sempre troco a menos, reconhesce o proprio funccionario, o Malachias. Um troco a mais, jamais, nem que uma prece eu faça àquelle Murphy, que é Messias. Assim, de falha em falha, o Manoel que, claro, é proprietario brazileiro de estirpe lusitana, faz papel mais de banqueiro que dalgum padeiro. Quem é que não se lembra dos centavos que o banco “arredondava” com inteiro e solido consenso? Jamais bravos ficavamos, tão pouco era o dinheiro…
Chartões “corporativos”? Eu tambem desejo para mim essa mammata! Caramba! Ja pensou? A gente tem um saldo illimitado e alheia é a pratta! Gastamos, debitamos… e ninguem nos cobra, fiscaliza, nem delata! Salario é só fachada: o que mantem as comptas dum politico é pirata!
De “plastico”, o dinheiro, quando é nosso, nos custa, cada zero! Eu ca não posso gastal-o sem pagar juros ao banco. Eu, para ser bem franco, um trouxa banco!
Um “alto funccionario”, porem, saca no caixa, torra os zeros, e o babaca aqui sustenta a farra e aguenta o tranco! Que tal isso chamar de “cambio branco”?
Está na lei de Murphy: a gente faz mais compras do que pode consumir. Banana, por exemplo: o preço assaz barato não nos deixa resistir. Si vemos “em offerta” um elixir do somno, ou capillar, caro, aliaz, achamos que é vantagem. Si subir o preço, ninguem dorme mais em paz. Então sobra a banana, que appodresce ao lado de laranjas ou mammões. Cabello não terá queda que cesse por causa de elixires ou poções. O somno, como a merda, só vem quando quizer, não quando eu quero. Taes licções jamais apprenderei e, agora, mando à puta que pariu as promoções!
Diz Murphy: quem mais chora e mais reclama é aquelle que não paga, ou que se attraza. Cliente ponctual, de boa fama, com todos os direitos, poupa a Casa. O cara é caloteiro e “mala”: mamma nas tetas do governo, é mente rasa, estupido, bebum, ruim de cama, e como cidadão nobre extravasa. Fiado sempre leva, mas commenta que, aqui, as mercadorias são noventa por cento de segunda, e de terceiro provem o seu bagulho costumeiro. “Bem feito!”, pensa o chefe. “Accaba nisso dar credito a subjeito irritadiço, pois quanto mais luxento, mais fuleiro!” Na physica ha argumento mais certeiro?
Quem fez uma encommenda, prompto esteja: segundo Murphy, irá passar nervoso. Vencido ha muito o prazo, elle exbraveja, comsigo mesmo irrita-se, choroso. Godinho foi a victima: despeja a raiva numa charta e, pressuroso, despacha sua queixa malfazeja, de chulo estylo e effeito duvidoso.
A physica bedelho mette nessa!
Naquelle mesmo dia, em que regressa da agencia dos correios, uma expressa remessa empacotada elle recebe. Da physica a lei sempre foi atroz! Chega a mercadoria sempre appós cansados de esperar estarmos nós e o termos dicto em termos, como a plebe.
O frasco de remedio deveria à prova de creanças ser, mas quem garante? Aquelle adviso, em theoria, bastava estar no rotulo. Porem não pensa Murphy assim: caso a tithia, tentando, não consiga abrir, e nem consiga a vovozinha, o frasco cria a idéa de que a tampa veda bem. Bobagem! Vira as costas um adulto e logo a filharada faz o insulto que à industria pharmaceutica mais dóe. O frasco não resiste ao menor boy! Xaropes, gottas, pillulas ou pós, é tudo violavel, tudo! Appós romper o frasco, um filho ‘inda o destroe. Na physica se explica bem, hem? Ói!
Si houver, para um producto, garantia da technica assistencia por um anno, ou da reposição, Murphy advalia: em treze mezes surge-lhe algum damno. A Murphy é indifferente si confia você na qualidade que Fulano de Tal ou que Beltrano promettia no annuncio da tevê, garboso e uffano. Chamar de “obsolescencia programmada” é cynico euphemismo: aquillo é, nada mais, nada menos, que clichê fuleiro. Na physica se explica por inteiro. O troço autodestroe-se em treze mezes, deixando putos todos os freguezes e rico o fabricante trappaceiro. É quantica na veia, companheiro!
Sou puta, mesmo, e tenho orgulho disso! É minha e estou vendendo: o que ha de errado? Me exponho, ora aqui dentro, ora do lado de fora, e nunca durmo no serviço! E sabe duma coisa? Nem cobiço melhor compensação! Nunca me enfado! Ja tive até cliente appaixonado, querendo ter commigo um compromisso!
A coisa que, na vida, me emputesce é aquella mulher “seria”, tão mettida, que é como si boceta nem tivesse! Na moita, ella percebe que esta vida dá lucro e dá prazer! E o que accontesce? Me rouba a clientela, me endivida e, emquanto faz em publico uma prece, ficar me faz, assaz, emputescida!
Principio da bollacha: si é “maria”, “maizena” ou qualquer outra, só depende da forma e da emballagem. Quem a vende appenas engambella a freguezia. É “tender”? Calabreza? Ou só seria a padronização que se pretende em todos os productos? Bem mais rende ao rico fabricante que a maquia. O sonho dessa industria de comida é ver a humanidade consumindo um cubo de ração descolorida, sem cheiro, sem sabor, sem esse lindo frescor da natureza: que progrida a industria, pois robot vou me sentindo!
Um dia, tal porção será servida a bordo duma nave, em rhumo infindo…
Ah, não tem como errar! Logo à direita da praça, onde começa a Boa Vista, depois dumas trez portas, é o que dista a entrada, que de pedra é toda feita. No fundo, você advista a escada estreita que dá no consultorio do dentista. Subindo mais um lance, você advista a salla onde as appostas elle acceita. Pergunte pelo Pitta. Lhe dirão que o cara não está, pois você vae quando todos estão, mas elle não. Responda então: “Que pena! É que meu pae mandou pagar o mez! No feriadão eu volto, quando o proximo mez cae!”
Não é mesmo uma puta solução?
Periga só que digam {Ai, ai, ai…}
Daquella vez, estava eu mesmo duro, durão, na pindahyba, sem um puto! Que foi que eu fiz? Pensei num jeito astuto de dar um golpe e me livrar do appuro. Quebrei minha moringa! Não censuro quem usa desse truque: o que eu escuto é que sempre dá certo! Num minuto, sahi, na mão um caco, bem seguro. No parque, offeresci a reliquia a um gringo que, vendo a “antiguidade” artezanal, me deu por ella um dollar, no domingo. Agora, na segunda, ja estou mal de grana novamente, mas me vingo: mais cacos guardo, de valor egual! Por isso quem trambica nunca xingo: não roubo, não sou como um marginal!
Explode a batteria e, que nem molla, ao longe é arremessada. Um cellular virou bomba-relogio, sem marcar, comtudo, qual a hora em que decolla. Tá louco! O fabricante não controla aquillo que fabrica?! Vae fallar alguem ao telephone e, no logar da voz, escuta o extrondo, que o degolla!
A casa incendiada, o prejuizo na roupa extorricada, quando não um novo passageiro ao paraiso!
Será que um apparelho novo é tão urgente e necessario? Eu não preciso pagar tanto, si quero uma explosão! Me basta a bexiguinha, de improviso, em festa de creanças, no sallão…
Quem queira, suba o morro e venha ver a nossa informalissima maneira de se sobreviver! E, caso queira junctar-se a nós, topamos, com prazer! Trouxinhas, papellotes, a saber, productos desta industria tão caseira; tijolos, saccolés: para quem cheira ou fuma, nada falta, podem crer! Trabalho registrado? Eu, hem? Que nada! Salario de miseria não compensa! Prefiro esta bagunça organizada! Otario é quem trabalha nessa immensa cadeia productiva controlada! Bonde São Januario? Dá licença, doutor! Mas que conversa mais fiada! Ninguem ja no trabalho tem tal crença!
Garçon! Faça o favor! Corra e me traga, depressa, um chocolate, mas bem quente! Torradas com patê, mas um decente patê, sinão meu paladar estraga!
Aquella outra mesinha, alli, tá vaga? Prefiro sentar la. Me traga, urgente, presuncto fatiado, mas nem tente trazer daquelle, p’ra engannar quem paga!
Eu quero do importado! Ah, não se exquesça do bollo, com recheio e cobertura, mas não com cobertura muito espessa nem com glacê de crosta muito dura! Tem pinga de tonnel, da que envelhesça? Sim, vou querer cachaça, mas da pura, que a falsa só me dá dor de cabeça! A compta? Ah, desta vez você pendura!
Viver indifferente é uma conquista difficil de alcançar. Quem não tem grana disfarsa, canta, ri, mas não enganna ninguem, pois suas vestes dão a pista. Gravata, paletó, calças… a lista vae longe. Com que roupa? Elle tem gana de estar na festa, olympico e bacchana, mas vive exfarrappado, esse sambista! Será a philosophia efficaz meio de me manter estoico, indifferente à grana, ao consumismo? É o que eu receio. É a grande frustração que a gente sente. Perdidos como cego em tiroteio, philosophos tambem são, como a gente, subjeitos à vaidade, e papel feio farão, si os condecora o presidente.
Garçon, não quero nada. Nem café, nem leite, nem manteiga na torrada, nem agua bem gelada. Nada, nada! Só quero ficar só, chorar, até. Si as coisas não chegassem nesse pé, eu ia até pedir a marmellada da casa, aquella torta recheada de nozes e castanhas… Um filé, talvez, antes da torta, um medalhão ao molho de mostarda, que convida a arroz e frictas juncto, hem? Que pedida, não acha? Ou cê tem outra suggestão? Lombinho com farofa? Puxa vida! Foi muito bem lembrado! Traga, então, um pratto de torresmo, uma porção maior, p’ra accompanhar… Sim, a bebida!
Aqui, neste logar, neste logar que fora de nós dois, aqui jamais suppuz que voltaria, muito mais feliz e bem casado… É aqui meu lar! Eu sempre tinha estado neste bar, servido pelo mesmo garçon. Taes me foram os eventos, tão fataes, que até parei de vir, de frequentar. Agora, me livrei daquella mala sem alça, e retornei ao botequim mais chique do pedaço. E vim de gala. É poncto da maior honra p’ra mim! Sim, sei que toda a gente de mim falla! De terno, com gravata, assim eu vim por causa de mulher. Quero aggradal-a e sei que ella detesta alguem chinfrim.
DISSONNETTO SOBRE QUEM SE CONSOME NA CONSUMMAÇÃO [2983]
É facil redigir um estatuto que sirva, no inferninho ou gafieira, para disciplinar a malloqueira ralé que, alli, festeja, até de lucto. O rotulo de puta, às vezes puto, ninguem, é claro, assume. Alli, quem queira dansar e se mostrar, sabe a maneira correcta de portar-se, e que eu discuto. Mulher accompanhada não se tira para dansar, a menos que o fulano esteja a fim de briga e que a prefira. Peor é quando “mina” for dum “mano” a puta, a bem dizer, “mulher da lyra”. E quando alguem se isola, o desenganno se chama “fossa” e, caso fundo fira, que beba succo, ou caro sae o damno.
Na hora do leilão, o leiloeiro
loteia tudo quanto está no prego: “Mulata, violão, samba… Eu entrego trez terços do thesouro brazileiro!”
Seguindo seu exemplo, eu, por dinheiro, penhoro aqui a fortuna que carrego. Do cofre dum podolatra que é cego, trez peças todo mundo quer primeiro:
A bota dum soldado que ‘inda serve nas forças do sertão e do cerrado. Nem dou mais pormenor: só pelo estado da sola, se vê como o pé lhe ferve!
A meia do soldado, sujo o lado de fora e ‘inda, por dentro (Que conserve o cheiro, bom seria!), alguem observe, suada! E o proprio pé, tambem suado!
“Pouquinho” do Brazil? Eu não resisto, sarcastico que sou, si pouco caso achei nessa expressão! Sempre extravaso meu riso, si daqui só cantam “isto”. Cascatas, mattas… coisas dum bemquisto paiz, a mim me soam como raso pretexto às ommissões do que deu azo a lettras mais raivosas. Nisso insisto: Fedor, polluição: tudo sae caro!
Sucatas, lattas velhas: estas são as rhymas mais exactas, chatas, claro, porem inevitaveis, na nação.
Às instituições podres comparo a quasi que total devastação do nosso verde, cada vez mais raro. Não ha por que escrever bella canção.
Manhattan, uma sola de sapato, dos negros tem o bairro la no salto, mas onde o arranhacéu fica mais alto é aqui no bicco, e apperta o meu pé chato. Ja fui às torres gemeas. Me engravato, agora e, appós pisar sangue no asphalto, me agguarda um compromisso ao qual não falto, no predio onde o que é caro sae barato. Alheio ao chaos, dos riscos me previno. Souzandrade antevira aqui um inferno, mas calço meu lustroso bicco fino. Bilac a achou mui moça e mui moderno seu porte. Eu, callejado, vaticino que a traça entrou na meia e quer meu terno. Pensando bem, prefiro o meu junino, sem neve, bem mais leve, meu hinverno.
São cinco, mas parescem ser cincoenta aquelles papagayos que, no meio do supermercadinho, dão passeio à solta, pois ninguem os affugenta!
Fechado estava o emporio, em modorrenta manhan de feriadão. As aves, creio, entraram pelo tecto. E que recreio acharam! Quanta coisa o olho lhes tempta!
Daqui pralli, furando com o bicco, não deixam nada intacto! Excorre um monte de grãos no chão, que eu nem identifico!
De tudo quanto é sacco vaza, compte você, mil contehudos! Fica o mico ao dono, e com o estrago se defronte!
Não sendo o proprietario la tão rico, de renda vê mais micha a sua fonte.
A midia, que devia comprar briga, não compra. O radio, eu acho, que receia perder um patrocinio, titubeia. E pros consumidores ninguem liga. Eu mesmo testemunho: duma figa são essas emballagens! Quem tacteia torradas, ou queijinho, soffre, creia, emquanto desembrulha! E você? Diga! Depois que, emfim, consigo abrir a bosta daquelle pacotinho que detono, foi tudo esphacelado! E me questiono: será que o fabricante disso gosta? Mas pode interessar ao proprio dono da fabrica que a gente, por resposta, se enchendo a paciencia do que a tosta, suggira de seu rotulo o abbandono!
Mas como? Um cellular, você não tem?
Não tem chartão de credito, tambem? Nem camera, nem banda larga, nem um plano de sahude? É um Zé Ninguem!
Não vê que a informação se padroniza?
Ainda nem comprou computador?
Não posso accreditar! Você precisa plugar, se connectar, a par se pôr! Pamonhas são “caseiras”, ouça: “Venha provar, minha senhora, é uma delicia!” É a chance à sua porta! Desperdice-a e alguem, no seu logar, lhe ganha a senha!
Se priva quem tostões economiza! Jamais se exquesça, quando você for à feira, da banana! Uma pesquisa revela que ella cura e tira a dor! Fallando em cura, nova versão vem da pillula do cancer, do recem lançado xaropinho do nenen, do “cha da meia-noite” ao “pó do Alem”!
Sim, somos complexados, se constata. Eu quero ter mais nivel, mas não deixo de lado meu relaxo e meu desleixo. Por isso é que me sinto um viralatta. Ser “classe media”, appenas, não convence. Quer seja mais rural ou mais urbano, não ha regionalismo que compense a falta de algo grego ou de romano. Rhymando estão “paulista” e “masochista”. Rhymarmos “carioca” com “masoca” não é, portanto, absurdo, e a gente evoca alguns outros gentilicos na lista. Da Atlantida? De Roma? Atheniense? Por mais que eu, paulistano, seja uffano, ha sempre um fluminense que me vence, pois quanto mais me gabo, mais me damno. Não ha Terceiro Mundo que nos batta! De que nos orgulharmos? Sermos “eixo”? De estarmos no Brazil é que eu me queixo! É disso, conterraneos, que se tracta!
Nem toda paizagem se sustenta. Na beira da represa, um arvoredo esconde o que accontesce, tarde ou cedo, em volta da lagoa fedorenta.
Familias invadindo aquillo vão em casas clandestinas. No começo, paresce tudo solido, mas não. O custo nunca batte com o preço. As aguas que recuam e distantes se advistam, de repente voltam, tudo cobrindo: nada resta do mehudo casebre e da mansão que estavam antes. Não dura muito tempo uma invasão: appenas para entrar um endereço no imposto predial que cobrarão, até que tudo vira pelo advesso. Será que residir la ninguem tenta? Alli ninguem mais vende? Enganno ledo! Depois da chuva, acchegam-se, sem medo! Um dia, a nuvem volta, à tarde venta.
De “theatro” ha quem o chame e eu com “circo” o identifico. Mas não chamem de “reclame” nem de “annuncio” o appoio rico. “Patrocinio” é o nome infame do negocio, que, no picco da audiencia, rende o “arame”, mas, na baixa, vira mico. Não tem jeito de excappar: futebol, corrida, nada disso evita a marmellada, ou no podio, ou no placar. É bastante elementar: na victoria, ninguem cobra. Na derropta, foi “manobra” e é preciso “investigar”.
“Até ja! Dentro de instantes, voltarei, tá? Fique ahi!
Vae ser rapido! Mas, antes, o intervallo, hem? Ja sahi!”
Promoções, refrigerantes, bancos, lojas… Eu ja vi esse filme! Que tractantes!
Pois irei fazer chichi!
Dá até tempo de cagar, de limpar bem cada banda e voltar ao meu logar, que não finda a propaganda!
O subjeito, mal voltou, para fora, às pressas, anda!
Interrompe, rindo, o show e outra pausa ja commanda!
Descobrir uma obviedade é frequente pela imprensa. Que o barulho desaggrade pesquisarmos se dispensa. Pois achar publicidade barulhenta nem compensa: todo annuncio que me invade pela tela é sem licença. No intervallo, sempre o som amplificam! Que agonia! Si o negocio fosse bom, eu da salla não sahia!
Tecla “mudo” no controle é p’ra isso: me allivia por um tempo. Quem engole gritaria da Bahia?
Capital, mesmo, só vejo um peccado: o da avareza. Este, sim, é malfazejo, não o orgasmo e a rolla tesa! Quem dinheiro tem, sobejo, mas não quer fazer despesa, este é cego, pois, sem pejo, poupa até na luz accesa! Nem conhesço outro peccado. Quem bem come ou bem fornica não peccou: appenas fica mal, depois de saciado. Tambem vale este recado: Quem seu gosto satisfaz, com mulher ou com rapaz, a mais sempre dá um trocado.
Si houver consummação, pode o consumo ficar muito mais caro em minha mesa. Si o pratto consumido é da franceza cozinha, me abhorresço e me consumo, pois facto consummado é que, si o rhumo for esse de evitar a pança obesa, porções sempre menores, com certeza, virão, e as refeições nunca eu consummo. Terei, portanto, o estomago vazio, quer seja o preço baixo ou elevado, ao fim de cada almosso onde o boccado não chega! E, quando passo fome, eu chio! O duro é pagar caro e, consummado o assalto ao bolso, sem nem dar um pio ao ver a compta, achar que me enfastio por só ter consumido um grão piccado!
Que boa idéa eu tive para abrir a minha empresa! Quero fabricar sabão feito de lixo! Em cada lar terei materia-prima a conseguir! Emquanto um charlatão vende elixir rejuvenescedor e o patamar se eleva da inflação, baratear eu posso o nosso asseio, sem fingir! Verdade é que o sabão não tem odor assim tão aggradavel, mas fazer o que? Bem sei que a barra nem prazer nos causa, visual, por sua cor… Calumnia, todavia, é me dizer alguem que elle não limpa e que, si for ver bem, até mais suja! Ah! Por favor, assim ja é demais! Vão se foder!
Cahiu como uma bomba a preoccupante noticia: novo imposto se prepara, que pode tributar quem tenha cara mais feia e descuidada, doradvante.
Não ha mais dura regra que se implante! Mulher ou homem, quem não se compara a algum galan famoso, a alguma rara beldade feminina, é mau semblante!
Noticia assim é pessima à ralé!
Imposto tal, é claro que tributa a grande maioria! Attinge até o gordo, o cego, o pobre, a velha, a puta… Quem pode fazer plastica, quem é mais rico, ainda as rugas recauchuta. O resto… que mais pobre fique, ué! Ninguem nos tribunaes isso discuta!
Entrou de mau humor na padaria e foi directo ao caixa. Ella reclama do troco dado a menos: “Isso é trama! Vocês dão de proposito, eu sabia!” O caixa se desculpa. Mas a “thia” está malhumorada. Ja da cama cahiu, ao levantar-se. E quem tem fama de ser mais deshonesto é quem expia. “Tostão tambem custou nosso suor! Si fosse sem querer, por que não dão o troco, nunca, a mais? Sempre a menor! Que nada! Estou cansada de ladrão!” Hysterica, a mulher causa, ao redor, tremendo malestar. Essa tensão, chegou, premenstrual, hoje, peor, é tudo o que a dizer alguns estão.
Coitado do mendigo! Offende o faro!
Fedendo, exguedelhado, barba suja, ninguem em sordidez o sobrepuja naquelle quarteirão, nem rico avaro!
Então chega um gaiato e diz: “Meu caro, assim parado ahi, você enferruja!
Encare a situação! Vamos, não fuja!”
E o gajo lhe suggere o motte ignaro: “Você vestindo azul, a sorte muda!
Coragem, mano! Vamos la, se troque!
Precisa dar à vida novo enfoque!
Sorria! Mude a cara carrancuda!”
Sem forças, o coitado accusa o choque, mas fica quieto. O instincto diz: “Caluda!”
Mantem no bolso a mão, a lingua muda.
Ainda o boyzão acha quem o soque!
Empunha uma espingarda de chumbinho o joven, que de media classe é filho. Sem pena, mette o dedo no gattilho e attinge, da janella, um garotinho. E accerta em outro, em outro… No caminho, quem entra, alvo se torna! Até me pilho com raiva, como aquelles que no milho fazel-o adjoelhar-se acham pouquinho! Pegal-o todos querem! Affinal, percebem de onde partem os disparos! Depois, sae a noticia no jornal, devida aos columnistas de bons faros. Ommitte-se, entretanto, o tal local. Lyncharam o rapaz! Não são tão raros taes factos… Alguns acham: foi fatal comprar, para o filhão, brinquedos caros.
Um “teenager” arrogante se lamenta: está sem grana. Tem dinheiro, e tem bastante, um masoca, que lhe explana: “Si deixar, no seu pisante, que eu a lingua passe, affana o que tenho!” O joven, ante tal offerta, ja se uffana: {Então lamba! Limpe a sola! Folgo, até, si alguem exfolla sua lingua em meu sapato!
Ande, lamba! Pague o pato!}
Lambe, então, e se colloca por debaixo: ser masoca não sahiu muito barato. Mas gozou, é o que eu constato…
Na basilica tem fila para tudo: comprar vella, confessar-se, consumil-a, gastar grana dentro della. Pequenina foi a villa. Hoje, a egreja se revela tão turistica, que à argilla do riacho ja se appella. “Esta lama maravilhas faz! Milagres, minhas filhas!”, diz um padre, e cobra ingresso. O local faz um successo!
Me previno e sou seguro: visitar eu nem procuro sanctuarios, quando peço, pois peccados nem confesso.
Senhor! Por gentileza, venha por aqui. Fique à vontade, senhor. Queira sentar-se. Prompto! Estou à sua inteira, total disposição… Pois não, senhor! Deseja reclamar? Seja o que for, resolvo ja! Difficil? De maneira nenhuma! Com a nossa costumeira presteza, ficarei ao seu dispor!
Tractamos o cliente como gente!
Então, de que se tracta? Qual serviço deixamos de prestar devidamente? Repita, por favor! Então é isso? Ah, tenha paciencia! Logar quente é a cama! Va chorar la, meu! Que enguiço! Sem chance! Eu, perder tempo? Não! Nem tente, siquer, vir me accusar de ser ommisso!
Sem premio, sem concurso, sem sorteio. Promette o vendedor que você ganha appenas por comprar. Levar na manha seu rico dinheirinho: eis ao que veiu. Você, depois, se toca. Perdeu feio na compra. Tudo aquillo que accompanha o raio do producto tem extranha e falsa procedencia, ao fisco alheio. Descreu que um golpe desses fosse infame!
Queixar-se? A quem? Ao bispo? Este, mais cedo, tractou de excafeder-se! Então reclame no radio, nos jornaes! Não tenha medo! Direito tem você! Si até a madame reclama! Eu, si lhe vendo, me excafedo! Que fique ahi você, dando vexame! Adjude a fomentar o pobre enredo!
Parava eu no pharol (ou no signal, um outro diz), no transito daquella estreita transversal, quando um flanella franzino, um flanellinha, foi fatal: Chegou, surgiu do nada, rindo e, mal a cara delle entrou pela janella, senti que me encostava um ferro. Bella manhan! Dia bonito, hem? Que legal! Vivi João Nogueira, no logar. O bafo era terrivel! Tempo só deu para lhe dizer: “Pode levar! Não quero reagir, não! Tenha dó!” Ainda destravei mais o gogó: “Eu chupo seu pau! Pago, alli no bar da exquina, um lanche! Tenho fumo e pó! Até lambo seu pé! Quer appostar?”
Na latta de sardinhas tem de estar escripto, bem legivel, este adviso: “Em oleo comestivel…” É preciso?
Ainda tal adviso tem logar?
“Em oleo combustivel”, por azar, alguem compra sardinhas? Mau juizo farei si, no patê que ao lanche biso, o peixe me amargar o paladar!
“Atum seleccionado…”, está na latta, e querem que tal dado o povo acceite, em lettras mehudinhas, “…em azeite…”
Será? “…de lamparina…”: alguma errata?
Nenhuma! A phrase serve como enfeite?
Producto desse typo é só pirata?
Ou devo accreditar que alguem nos tracta, acaso, como otarios, por deleite?
Mas isso é mesmo o cumulo! A frescura chegou ao poncto maximo! Eis que, agora, virou “sommelier” quem diz que adora sabor achar num coppo d’agua pura!
Até “flavorizar” virou figura corrente de expressão e, sem demora, adhere à nova moda quem “decora” o liquido e attenção chamar procura!
As aguas teem sabores, não sabia?
Ninguem queira saber qual a receita! Alguns são tão subtis, que nem suspeita a gente si é de coco ou melancia! Exsiste uma, de petalas, perfeita às linguas delicadas! Quão macia a sua subtileza! Que seria das fraudes sem o otario que as acceita?
Não somos um paiz dicto “emergente”? Então! Nesse conceito é que eu me escudo! Pois “emergencial” que seja tudo!
P’ra que “licitação”, si é tudo urgente? “Desburocratizar”: por isso a gente luctando vem faz tempo! Um novo estudo mostrou: “custo Brazil”, eis nosso agudo problema, que encarar temos de frente! Licitação só serve para mais attrazo! O vencedor, ora barato, querer vae “revisões contractuaes”! Depois, tudo se “embarga”! Só constato serviços mal prestados, os fataes “augmentos de tarifa”, e eu pago o pato!
Por que não assumirmos, addemais, que está dentro do queijo o proprio ratto?
Vocês viram? A velhinha de rogada não se fez! Foi entrando na cozinha e checando até patês!
Restaurante, si é francez, é mettido: não se appinha nelle o povo, só freguez que tem classe e que tem linha! Mas a velha não quiz nem saber: queijo achou que tem validade ultrapassada!
Não é mesmo uma damnada?
Delatou? Não, mas agora todos tractam a senhora por madame! Pagou? Nada! Quem achou que esteve errada?
Ethelwynna, eu as dezenas accertei na lotteria!
Não trabalho mais! Appenas viajar é o que eu queria!
Não sahi jamais de Alfenas, mas, agora, até a Bahia eu irei! Tambem à Athenas brazileira irei, um dia!
À Veneza brazileira
vou ainda! E estar à beira duma praia carioca!
Sim, você será dondoca!
Gastarei todo o dinheiro no turismo brazileiro, que por dollar ninguem troca! Quer sahir desta malloca?
Por favor! Eu só queria seis pãesinhos, uma broa, leite magro, uma fatia desse bollo… O tempo voa! Ah! Tambem, si está macia, esta torta e, si está boa, esta pizza! Si está fria eu não levo! Ah! Quem perdoa? Pizza deve estar é quente! Si deixar que experimente, vou provar aquella torta!
Um pedaço, ‘ocê me corta? Calma, gente! Estou na frente! Mas que povo impaciente!
Nem tem fila até na porta! De esperar, alguem se importa?
Ella achou meio ammassada mas levou do longa-vida a caixinha. Agora nada mais fará que reincida. De licção serviu: de cada uma, agora, ella duvida. Comprar coisa que estragada vendem, acto é suicida!
Longa vida não dará a ninguem o que está ja estragado na caixinha!
Qualquer anta ja adivinha! Está tendo é vida curta o producto que nos furta, por ganancia, a moedinha!
Qualquer anta noção tinha!
Recebi pelo correio um extenso questionario. Pacientemente o leio e respondo ao que é primario.
Branco? Negro? Bello? Feio? É patrão? É funccionario?
Fica em casa? Dá passeio?
Quanto ganha de salario? É casado? Pae? Solteiro?
Tem chartão? Usa dinheiro?
Compra à vista? Compra a prazo?
Paga logo ou com attrazo?
Percebi que isso não era censo algum e sim paquera de mercado, e nem fiz caso.
Sou otario, por acaso?
Mas que cara de pau! Mal um espirita que cura ganha fama, acha normal cobrar tudo, até aptadura! Vender agua mineral, elle vende, mas é pura illusão a excolha. Qual? Natural? Ou com tinctura? É questão sophisticada: si eu quizer “energizada” (milagrosa), custa cada garrafinha mais que o dobro!
E elle insiste nessa prosa de bebida milagrosa: quando eu quero da gazosa, bebo um liquido salobro!
Só verá burocracia quem deseja ser honesto. Tudo facil eu teria si dissesse que não presto! Quem trabalha todo dia e os impostos paga, attesto eu, só come porcaria e vomita algo indigesto! Para casa a gente leva desafforo e, ja na treva, soffre cortes de energia, banho toma d’agua fria!
Si ser logico eu pudesse e meu voto fosse prece, Satanaz eu elegia p’ra gerir esta anarchia!
O problema da saccola deschartavel ja se aggrava. A desculpa que não colla do mercado, eu mando à fava! Proteger a bella bolla planetaria? Tem quem lava suas mãos doando esmolla a quem lucro maior cava? Eu tambem vou dar pittaco! Si quizessem, mesmo, um meio ambiente menos feio, davam gratis outro sacco! É commum o que eu destacco! Que exemplar supermercado!
Quer cobrar pelo que dado sempre fora! Que velhaco!
Ja vi muito exsecutivo
appoiando os pés na mesa. Passa a moda pelo crivo dos yuppies, com certeza. Esses jovens que eu, lascivo, cobicei com rolla tesa, teem perfil bastante exquivo: deixam sempre a luz accesa. Cabellinho penteado, pés na mesa, bem cortado teem seu terno… e meia cara!
Sim, por elles tenho tara!
Mas, si appago a luz, eu sinto, da braguilha fora, um pincto e um pé nu na minha cara!
Sonhar posso, né? Tomara!
Ja disseram que a sardinha estaria em exstincção, mas, na feira, a mehudinha nem se encontra mais! E então? Si estivesse, ja nem tinha da grahuda! As versões são conflictantes. Tenho a minha: só varia a quotação. Das commodities, a mais valiosa, que os jornaes “exstinguiram”, é a banana. Quem entende não se enganna. Nunca falta a fructa “exstincta”! Si especula quem a pincta como excassa, tenho gana de chamal-o de sacana.
Eu moro, vejam, numa verdadeira caixinha! Sim, de phosphoro! Os apês de classe media, aqui, de quem os fez reflectem a cabeça de toupeira! É tão pequeno o apê que, caso eu queira vestir um paletó, dou, toda vez, com minha mão no tecto ou, vão vocês rir mesmo, na parede! É brincadeira?
Me expremo, entre as poltronas e o sofá, si quero pela salla deslocar-me, e quando, na cozinha, tento achar-me, mal entro e minha mão queimada está! Nem caio mais da cama, pois não ha um vão tão largo assim! Não sei quem charme enxerga em tal apperto! Caso o allarme dispare, p’ra sahir daqui nem dá!
Pago até consummação. Não consummo e me consumo. Mal servido, sei que são vans as queixas. Levei fumo. Ja dormido comprei pão. Me fodi, mas me accostumo a ser trouxa em eleição, si o paiz está sem rhumo. Trouxas somos todos, mas são os cegos engannados com maior prazer, de más intenções estão cercados. Eu, que estou com Satanaz de mãos dadas, ouço os brados zombeteiros, mesmo nas festas, entre os convidados.
Ja passei raiva bastante com productos que não posso facilmente abrir. Pensante qual cabeça faz tal troço? maccarrão, desodorante, cha, torrada, até o pão nosso… Si voltarmos ao barbante e aos cartuchos, eu endosso! Ao ceguinho, mais perigo representa algo de embrulho tão difficil e me intrigo si productos taes vasculho. Sem a adjuda dum amigo, eu em secco engulo, engulho. Nem tesoura! Não consigo abrir… Perco o meu orgulho!
Protectores da pobreza muitos querem ser. Porem, o que sobra em sua mesa não repartem com ninguem. Quem a vista tem illesa chocolates tem, tambem. Mas dirá, por malvadeza, que ao ceguinho não dá, nem… Não fui nunca algum mendigo, mas bastante eu implorei que cegueira, por castigo, não constasse mais da Lei. Lei divina, que commigo foi severa, bem ja sei. Não bastasse um inimigo a zoar dum cego gay.
Eu não tenho onde morar, si não moro onde desejo. Só reside em bom logar quem o vê, mas eu não vejo. Pode um lar ser doce lar si ao comforto der ensejo, mas, si é para accommodar mal, a casa eu não festejo. Si faltou habitação, falta tudo nesta vida. Só se sente cidadão quem tem casa, tem comida. Por que fallo disso? O pão não me falta, nem devida moradia. Meu irmão é que, errante, me convida.
Si o freguez der um chapéu vou chamar de caloteiro. Mas si compra um bom chapéu paga caro ao chapelleiro. Si um cliente fica ao léu, com certeza é brazileiro. Mas la fora vira réu o lojista trappaceiro. Democratico, o trophéu premiou o trambiqueiro. O mandato appenas véu é no abuso do dinheiro. Indo para o beleléu vae o cego que, primeiro, chupa aquelle que do céu não sentiu, jamais, o cheiro.
É melhor nem ter lembrança si me lembro da visão. Logo, logo, o pau se cansa e me exquesço do tesão. Quem tem pouco na poupança a agguardar liquidação sempre fica, porem dansa, ja que o preço não cae, não. Tudo quanto se liquida perde, logico, o valor. Dum cegueta a propria vida liquidou-se, é de suppor. No varejo, quem convida o freguez é chupador de caralho. Que decida desfructar quem vivo for!
MEME DO CAMBIO [5915]
{O dollar está caro? Ora, melhor assim! Não acha, Glauco? Para mim, devia augmentar mais! Quem sabe, emfim, accaba a farra, a pandega maior!
Do mundo viajar vão ao redor bem menos, doradvante! Essa chinfrim domestica, a vovó do botequim, terão que fazer comptas, ja, de cor!
Viajem para as praias daqui, porra!
Conhesçam as bellezas do paiz! Sae muito mais barato! Olhe, eu não quiz chamar a faxineira de cachorra!} -- Magina! Quem dirá que nos occorra pensar mal de você! Mas ser juiz da vida alheia, alem desse infeliz conceito, vae fazer que rumor corra…
Num mundo marketeiro, vale tudo. Na falta de demanda, faço ou não “offerta”, “promoção”, “liquidação”…? No falso annuncio, facil eu illudo. Si eu vendo alguma coisa, posso dar descompto, parcellar, e até de graça ceder ammostras, disso estou a par. Pois bem, conhesço gente que ja caça freguez annunciando que, em logar do “artigo”, a ser um brinde o corpo passa. Da bocca, da boceta, ha quem ja faça campanhas promovendo e dando, gratis, geral degustação em plena praça. Nem tenho que me oppor! Si é com tomates, cenouras, orificios, si é devassa ou não a freguezia, toca aos vates!
Pedi cachorro quente, Glauco, por aquelle popular applicativo. Até na quarentena não me privo dum junkie food, egual ao meu doutor! Mas sabe o que occorreu? O entregador foi visto abrindo o lacre e, sem motivo algum, cuspiu no lanche! Ja não vivo pedindo o meu sanduba temptador! Bem, Glauco, na verdade não cuspira, appenas, na comida: antes, mordera com gosto, mastigara! Fosse pera, viria com buraco! Sem mentira! Entenda bem: tem gente que até pira de fome! Si juizo o boy perdera, é foda! Mas, Glaucão, não faço cera, cê sabe! Ja chupei-o! O mundo gyra!
Pedi que me entregassem cannellone, salada, sobremesa, até bebida inclusa, mas jamais suppuz na vida que venha a tal entrega por um drone! Foi foda, Glauco! Caso alguem accione errado, o troço chega, na descida, veloz, trombando em tudo! Quem decida paral-o mais verá que elle detone! Entrou pela janella, Glauco! Veiu batter contra a parede! Foi a massa aos ares se expalhando! Minha taça quebrou-se, de crystal, partida ao meio! Glaucão, aquelle estrago foi bem feio! Jamais peço de novo que se faça a coisa! Agora a fama pela praça divulgo desse troço! Reprovei-o!
Os olhos arregala, labios crispa a bispa, no sermão, e cada crente o pé lhe beija, appós pagar, contente, seu dizimo. Oh, quão bello o pé da bispa! Mas, Glauco, reparei que ao templo chispa um bando de podolatras! Attente você para o pezinho que essa gente procura, a torcer para que se dispa! Pezinho, não: pezão! E de quem é? Do guardacostas della! Agora attina você? Querem beijar uma botina quarenta e quattro! Oh, como é bella a fé! Sabendo disso, o gajo ja seu pé por grana até concorda, até se inclina, na casa, a descalçar! Quem recrimina um gesto tão humilde da ralé?
Cahiram, Glauco, as vendas ja, durante os mezes dessa aguda pandemia, dos itens de hygiene! Quem diria que menos se vendeu desodorante? Hem? Isso não fará que cê se expante? Por que, Glaucão? Então quem passa dia e noite em casa abbraça a porcaria sem pejo dum cheirinho tresandante? Pensando bem, cecê creei, tambem! Meu corpo ja tem cheiro de café daquelles preferidos da ralé, fortissimos, que eu tomo assucar sem! Que foi isso, Glaucão? Que você tem? Ah, quer saber do odor que tem meu pé? É forte, sim, admitto, mas não é chulé para assanhar, assim, ninguem!
Glaucão, todo garçon me entende mal!
Si eu peço, sem gaz, agua, sempre vem aquella de garrafa, mas que tem algum sabor de assucar ou de sal!
Nem peço mais a aguinha mineral que sempre costumava pedir, nem siquer refrigerante, pois ninguem attende como quero, tal e qual! Antigamente, tinha agua com gaz ou agua torneiral! Está lembrado? Agora nada tem, do meu aggrado, nenhum boteco! O typo, tanto faz!
Pé sujo ou bistrô rico, o garçon traz o mesmo coppo plastico, fechado com lacre tambem plastico! Salgado, o preço me reporta a um ladravaz!
Que rosa linda, Glauco! Mas que flor cheirosa, colorida, até brilhante! Magnifica! Quem olha até garante ser unica! Ah, capaz sou de suppor! Ahi cabreiro fico! Sim, quem for pegar na mão, sentil-a com bastante cuidado, ja não acha algo que encante seu gosto pela forma, pela cor!
De plastico foi feita aquella bella flor, Glauco! Sim, de plastico! Tem graça? De fraude esse espectaculo não passa! Você, que é menestrel, não se rebella? Si dermos a tal rosa alguma trella, então é poesia a que se faça da falsa curtição, que enganna a massa, mas nunca à verdadeira dor appella!
Bombom de café, Glauco! Ja pudeste provar? Eu ja provei! Era suisso!
Até salivo quando penso nisso! Tem gente em chocolate, só, que investe! Sim, cada bombom vale (Não soubeste?) a nota de mais peso! Ouro massiço! Em bancos tal bombom encontradiço appenas é! Mas fiz meu proprio teste!
Peguei um chocolate bem barato, fiz nelle um buraquinho, o qual enchi com pó de café, desses por ahi achaveis baratinhos! Bem… foi chato! Não fica tão egual, vate, eu constato, mas posso, pelo menos, piriry ter, tanto que comi, Glauco! Ocê ri? Por que, si me fartei? Seja sensato!
Sabia, Glauco? Quando você for comprar a sua roupa nova, agora é só por internet e, sem demora, excolhe seu padrão, numero ou cor! Depois recebe em casa! Pode impor seu gosto ou preferencia! Simples, ora! Hem? Como? Quer você ver si vigora num tennis, que terá typico odor? Entendo! Quer um tennis com chulé!
Em summa, quer calçado bem usado, surrado, detonado! Do seu lado estou! Seu consumismo sei qual é! Então eu mesmo posso do meu pé tirar e lhe vender o meu calçado!
De tennis novo o preço a ser cobrado será! Lhe vendo meia velha, até!
Meu tennis não me serve mais, Glaucão! De tanto caminhar, ficou meu pé inchado demais! Logico, não é? Terei que comprar outro, meu irmão! Eu era magro, Glauco! Nunca tão gordinho fiquei! Acho que eu até andei comendo menos! A ralé mais come do que eu, nessa condição!
A crise não tá facil, cego! Ja que tem você fetiche por pisante usado, um que chulé guarde bastante, que tal de mim compral-o, meu? Não dá? Você me paga um novo! Então terá motivo para achar que se garante por muitas punhetinhas que, durante a sua quarentena, são mannah!
Chegando o Natal, vinha a senhorinha olhando umas vitrines na calçada, pensando na nettinha que, coitada, presentes não ganhava nessa linha. A velha decidiu que dar, sim, tinha algum presente desses. Mas si cada custava assim tão caro, que será da poupança da vovó, que é merrequinha? Pediu ao funccionario: “Ponha a minha pequena senha aqui, pois mal eu leio!” Na boa fé, mostrou-lhe, sem receio, a senha do chartão. Mas não convinha… Depois que foi roubada, a ladainha de sempre ella ao gerente contar veiu. Frustrada, consolou-se. Natal meio amargo, pois chorou, quando sozinha…
Glaucão, sou optimista! Bom motivo eu vejo, mesmo nessa carestia! Exsiste inflação? Sobe todo dia o preço da comida? Ah, bem me exquivo! Me viro! Sou bastante creativo! Si falta bacon, minha theoria é simples: de banana as cascas ia jogar no lixo? Nunca! Sou é vivo! As cascas, dependendo do que faço com ellas, frictas podem ser, Glaucão! Serão tiras de bacon, quando são salgadas, ao tempero dando espaço! Você nunca provou? Jamais excasso será tal alimento! Tambem não estão em falta, podem ser ração, das fructas ja chupadas, o bagaço!
Será que nem exsiste mais, Glaucão, aquelle tennis Conga, que não tinha cadarço? Mas você me entende! Minha vontade era chulé ter de montão! Assim eu poderia ser-lhe tão legal quanto você, que me escrevinha teclando, supportando uma excarninha postura minha, aqui na connexão! Bem, vamos combinar assim: si fica bem podre este meu tennis, elle é seu, por preço dum amigo que é judeu mas nunca teve compta la tão rica! Garanto-lhe um chulé, mais que titica, fedido! Porem, caso queira que eu lhe deixe me lamber como um lebreu, ahi custa mais caro, fora a bicca!
Perdeu-se paciencia com aquella maluca, que tocar fogo queria na grande e frequentada padaria por causa duma simples mortadella. Pedira a mortadella, mas sem ella estava a padaria. A louca, fria, tentou incendial-a. A freguezia, furiosa, reagiu. Quem não appella? Perdeu a paciencia aquella gente pacata. Quasi lyncham a maluca. Somente controlou toda a muvuca um membro da milicia, alli presente. A louca, todavia, novamente tentar irá, por causa duma cuca, tocar fogo na casa. Ah, não cotuca a falta de comida que ella sente?
EPA! VIVA A XEPA! [6954]
Não, nesta pandemia ja ninguem negar vae que da feira se approveita um monte de verdura! Agora acceita a gente comer isso, ou nojo tem? Mas nojo por que, Glauco, si tambem no lixo nós achamos insuspeita porção de coisa podre que, si feita alguma concessão, a servir vem? Tomates estragados teem sabor não muito differente dum bonito que, cheio de agrotoxico, eu vomito depois de ter comido! Por favor! Não sei si tanto nojo do fedor é livre e natural, ou só de mytho não passa! Nesta crise, eu accredito que xepa approveitar irão propor!
Canecas de cerveja, não acceito que sejam de metal! Sabes por que? Eu gosto de quebral-as, bem se vê! Concordas -- Né? -- commigo que é bem feito!
As quebro si o salario do prefeito augmenta, caso o meu p’ra nada dê!
As quebro si meu time cae da “B” p’ra “C”, depois dum penalty suspeito!
Algumas são quebradas ‘inda cheias, os cacos pelo chão todo molhado! Preju sei que terei, Glaucão, tomado, mas vale: tu tambem não te refreias! Tens sangue de baratta? Não, nas veias ainda algum humano tens! Meu lado, tu sabes, é o dos fraccos, sim, malgrado meus creditos e embora tu não creias!
Que foi? Tá me extranhando? O meu perfume achou forte demais? Agora cheiro gostoso tambem causa verdadeiro incommodo? Outra bronca cê que arrhume! Paguei barato, claro! O que resume essencias taes é “cheiro bom”! Nem beiro o nivel social e financeiro daquelles, de gastar, que teem costume! Da minha agua de cheiro você não gostou? Que preferia? Meu cecê? Meu sebo? Meu chulé? Que quer você? Que eu feda, abertamente, no sallão? Prefere que eu disfarse? Pois então! Não fique me cobrando, pô, não dê desculpa deslavada! Ah, meu, não vê que tenho o mesmo cheiro do povão?
Si temos “copyright”, hem, por que não alguem ter “copyleft”? Tahi, poeta! A nossa liberdade ninguem veta de termos um mercado livre, irmão! Mas nossos cellulares todos são chipados, grampeados! É completa a rede de espiões que nos affecta, fuçando, rastreando, como estão! Até quando transamos nos espia um typo voyeurista de robot, capaz de detectar o mais pornô signal da trivial podolatria! Sabendo qual chulé você lambia, vão elles lhe vender o que Rimbaud usou: meias eguaes às do vovô! Sim, Glauco, um vendedor nos teleguia!
O nosso cellular nos espiona, poeta! Sabe tudo sobre nós o proprio fabricante, pela voz, a cara, a roupa, joven ou cafona! Mas não appenas quando telephona a gente! Elle controla nossos prós e contras, até quando, logo appós fodermos, fica a gente mais cagona! Sim! Como nós levamos ao banheiro aquelle apparelhinho, saber vão quem menos é, quem mais será cagão, si limpo ou sujo temos o trazeiro! si duro ou molle faço o que primeiro sae, isso só me importa a mim, Glaucão! Por isso um cellular não quero, não! Não quero que elles sintam o meu cheiro!
Coitada da madame! Quando a mão lavar vae, do seu fino dedo tira aquelle lindo annel, mas o sabão barato mella a joia de mentira! A joia lhe excorrega e cae (Ai! Não!) la, justo na privada! (Ai! Não!) Se attira às pressas a coitada, mas em vão: no meio do cocô some a sapphira! Tristissima, a mulher se desespera! “Que bosta! Puta merda!”, a dama falla! Ainda que essa joia seja mera e simples fajutice, quer pegal-a! A dama se adjoelha, a mão enfia, tentando resgatar a sua opalla, no fundo, bem no fundo da bacia… até que grita, afflicta: o braço entalla!
Que mammata! A propaganda será paga por quem vota!
(1)
Eleição sempre demanda muita grana. A solução é cobrarem do povão (Que mammata!) a propaganda. Caso a practica se expanda, fará farra, com a nota que recebe, essa patota marketeira, e ja se assanha! Na campanha, até champanha será paga por quem vota!
(2)
Si os politicos appenas nos fornicam, qual será a campanha que tem ja seu horario? Quaes amenas discussões terão antennas? Fallarão em qual chochota, ou qual bocca, ou cu, se bota? Desse jeito o Brazil anda!
Que mammata! A propaganda será paga por quem vota!
Os politicos teem tudo que eu jamais terei na vida!
(1)
Teem carrão, saldo polpudo, caviar, champanhe, orgia, sinecura, mordomia… Os politicos teem tudo! Mas com isso não me illudo, pois o povo os appellida de “bundões” e uma soffrida praga aos fundos delles lança, qual um “cancer na poupança”, que eu jamais terei na vida!
(2)
Sem auxilio-moradia nem auxilio-paletó, vivo duro que dá dó! Ah, será que irei, um dia, me eleger? Que bom seria!
Ter carrão, boa comida, palacete onde resida… Mas, emquanto eu me saccudo, os politicos teem tudo que eu jamais terei na vida!
Com a rede virtual caretice não combina.
(1)
Dizer ouço que esse tal Zebedeu é o maior mala e patrulha quem mais falla com a rede virtual. Mas respondo ao pessoal que ouro vale aquella mina. Si um cliente elle adzucrina, perde-o para a concorrencia, pois com meio tão circense a caretice não combina.
(2)
Censurar pornographia na internet é como, pelo guardanappo, enxugar gelo! Mais ninguem quer, hoje em dia, ser dos povos o vigia!
Só quem alma tem sovina e mesquinha assim opina, mas, não tarda, se dá mal!
Com a rede virtual caretice não combina!
Desemprego leva a gente a alugar o cu na rua.
(1)
Demittida, a mulher crente deixa a crença e vende o furo, pois a tanto este inseguro desemprego leva a gente. Mas o amante intelligente nem se apperta e continua empregado, si tem sua profissão terceirizada. Elle obriga a bicha amada a alugar o cu na rua.
(2)
O machão desempregado, sem remorso, se dispoz a alugar a propria esposa, bem quotada no mercado. Mas, depois que do seu lado a mulher não continua, elle expõe a bunda nua, ja que a rolla tem cliente. Desemprego leva a gente a alugar o cu na rua.
Um pacote de torradas eu não abro sem quebral-as.
Por que cargas assim agem esses merdas? Quem os paga para terem noção vaga de “inviolavel emballagem”? Eu desisto! Não sou pagem dos productos desses malas, si ninguem os chama às fallas! Não me venham embrulhadas!
Um pacote de torradas eu não abro sem quebral-as!
Sem carimbo e assignatura, formularios valem nada.
No chartorio, reconhesço minha propria firma, em quente, burocratico ambiente.
Guichês, filas, sempre um preço a pagar, ao qual advesso sou, de cara que ammarrada outros mostram ja na entrada. Abolir isso alguem jura?
Sem carimbo e assignatura, formularios valem nada!
Na primeira classe, alguem sempre fica sem sapato.
Extranharam o fedor, no avião, os passageiros. Que sentiram, os primeiros viram quando elle quiz pôr para cyma os pés, que dor lhe causavam. Insensato foi seu acto, mas eu batto palmas e acho que fez bem. Na primeira classe, alguem sempre fica sem sapato.
Vende pouco porque é caro ou é caro vice-versa?
Não terá muita sahida livro aqui vendido? Ou é o contrario? Falla até o livreiro que duvida da estatistica battida. Sebo é banco? Que conversa molle, hem, meu? Tapete persa não é livro, si eu comparo!
Vende pouco porque é caro ou é caro vice-versa?
(1)
Alguem que escuta annuncio mal proposto duvida que quem compra tem desgosto?
(2)
Não seja trouxa, amigo! Não se deixe jamais engannar pela fraudulenta offerta que lhe fazem desse peixe! Si nessa você embarca, só requenta o tal bordão: Fodeu-se? Não se queixe! Melhor se prevenir! Quem saca, attenta!
(3)
Enganne-se somente com a caixa, tão linda, de surpresas que eu lhe vendo! Producto tão fajuto, nessa faixa de preço, ninguem pode estar vendendo sinão a um paspalhão que se rebaixa, comprando um novo velho com remendo!
“Não só Bolsa Familia, nesta terra, exijo que tenhamos! À direita, tambem por Bolsa Lar a gente berra! A Bolsa de Valores Moraes feita foi para nos valer na sancta guerra! Por Bolsa Educação a gente acceita somente aquella civica, que encerra principios e deveres! Foi eleita a gente pela causa! Ninguem erra e segue impune aqui na nossa seita!” Ouvindo o pappo, penso que me ferra o “novo tempo” e sinto à minha expreita estar alguem que a practicas se afferra mais antidemocraticas. Estreita ficando vae a estrada e o carro emperra. De bolsa em bolsa, um bolso se approveita…
Tem quota para tudo no momento. Os negros conseguiram achar uma nas universidades. A contento conseguem outra quando vaga arrhuma alguem num gabinete. Dez por cento de gays, na sociedade, teem alguma funcção remunerada. Mais augmento consegue de salario quem não fuma, ainda mais mulher si for. Detento que varias engravida, caso assuma um cargo na prisão, engulo e aguento mais essa. Cadeirante, até, vae numa qualquer repartição ter seu sustento. O cego, não! Nem quando elle perfuma seu cu, na Academia tem assento! Calcule então aquelle que se estruma!
“Magina, Glauco! Nunca a gente illesa está! Calcule só si, de repente, se rompe essa velhissima represa que todos attestavam resistente manter-se, e somos pegos de surpresa! Caralho! Ja pensou? Vae morrer gente!” -- Talvez. Mas cê concorda que quem fez a barragem não foi muito intelligente? Bastava poupar menos a despesa e nada construir alli tão rente! Sahia mais barato pruma empresa tão grande enxergar lucro mais à frente! “Bobagem! Como podem ter certeza? É foda! Qualquer coisa que se tente errado dá! Você põe sobre a mesa um monte de papeis, inutilmente! Si não for a represa, vae talvez a mor chuva provocar alguma enchente!”
Fiquei sabendo disso por um crente… Pastores evangelicos, agora, adoptam estrategia convincente, alem da fé que, em dizimos, se explora: “Exsiste video, Glauco! Aquella gente que passa pelo palco onde a pastora está, lhe beija o pé! Passam em frente daquelle pé, da sua superiora, ao nivel duma bocca reverente!”
Ouvindo, reflecti que, si a senhora pastora não se encontra alli presente, algum pastor está. Naquella hora, eu chego e pago o dizimo! O que em mente terei vocês ja sabem! Elle adora ver homem ou mulher, obediente, curvando-se e beijando o que, de fora dum simples chinellinho, fica rente aos labios: seus artelhos! Gente chora, commove-se, exsultante! Eu, promptamente, em vez da reverencia de quem ora, lambendo vou e o cara, claro, sente a minha devoção! Crente sou, ora!
Ja quasi, de entrevista, não acceito convites, mas, abrindo uma excepção, gravei para a TV. Sempre foi feito assim: elles preenchem, mesmo à mão, um termo que assignamos. Eu suspeito que seja a necessaria permissão de usar a nossa imagem. O mau jeito se deu quando exquesceram a questão e, estando eu ja de volta, eis que a respeito contactam-me. Depois do trabalhão num leva-e-traz, está meu imperfeito e rustico rabisco, um jamegão, apposto ao documento. Me subjeito ao tosco protocollo, mas, turrão, indago: Que proposito ou proveito tem isso para alguem ja sem visão? Podiam dispensar-me, si direito de imagem eu não tenho! Claro ou não?
(1)
{Não, Glauco! Você nunca ouviu fallar na “logica do assalto”? Quem assalta é “victima”, no caso! Um assaltado “auctor” é desse crime! Culpa tem o proprio capital! Sim! Quem mandou alguem ter algo de util que o “ladrão”, dizer quero, o “coitado” necessita? Não fosse o consumismo, talvez nem daquillo o coitadinho precisasse! Mas ja que precisou, tem o direito de, claro, appropriar-se, Glauco! Vê você como é bem logico? O subjeito só rouba si não tinha aquillo, saca? Quem tinha não devia ter, é claro! Entende como é logico o clichê?}
(2)
-- Entendo. Quem não tenha, ainda, um lar a casa alheia invade! Só lhe falta a cama? Numa loja, o resultado do assalto foi a cama! Ja ninguem tem duvida: boceta, si faltou, compensa-se estuprando! Pode, então, quem “logica” adventou dizer que a dicta funcciona caso sua casa alguem occupe e seu cuzinho coma! A classe se inverte facilmente! Ammanhan, feito bem faz quem foi roubado em seu apê e rouba do vizinho! O mais perfeito joguinho de “justiça”! Algum babaca crê nisso? Caso creia, me declaro “carente” e requisito o seu bassê…
(1)
(1/2) [7962]
“Fundei um syndicato, Glauco! Agora, sim, posso ser aquella activa voz da minha tão soffrida, dessa tão fiel categoria dos que vivem sem trampo ou profissão! Ja lhes prometto a todos, todos, todos, Glauco, todos, que, em breve, terão todos um battente! Cobrar vou trez reaes, trezinhos só, por isso, mas garanto -- Ouviu? -- garanto que, ao menos, vou tentar! Que sou sincero tem duvida você, Glauco? Quem tem?”
(2)
-- Eu, duvida? Magina! Fico fora da sua alçada, amigo. Como nós sabemos, sou invalido, funcção nenhuma tem um cego. Mas activem vocês a sua lucta, sim! Sonnetto nem faço mais, mas, livre dos engodos da classe, recommendo que ‘inda tente fazel-os um novato. Caso o nó não aptem nem desaptem, nem ao sancto pedindo, lhes direi: Ganhei foi zero mas nunca peço um obolo a ninguem…
(1)
[7978]
“Não acho justo, Glauco, que alguem ganhe sem nada dar em troca! Quem chancella tal coisa é trouxa! Cego não tem nada que estar nos exigindo um tractamento melhor, mais attenção, nem mais direito que aquelle que trabalha normalmente, que rende e que produz, Glauco! Ora, bollas! Agora, porque é cego, o gajo vae querendo se exemptar de tudo quanto é duro ou é difficil? Que se foda! Se vire com o braille! Estude! Exforço demonstre, porra! Apprenda a ler na marra naquella porcaria de systema primario, ponctilhado, ou que se ralle!”
(2)
-- Magina, amigo! Quando a sua mãe ficar cega, você diz isso a ella, seu filho duma pura desgraçada! Que muitos assim pensem, nem lamento, pois vivo ouvindo alguem dizer: “Bem feito!” “Castigo meresceu!” “Você que aguente!” Ja vi, ja trabalhei, e das esmollas, por sorte, não dependo, mas quem sae na rua a mendigar, ou que do manto depende do governo, terá toda a minha solidaria these! Eu torço por elle, mesmo quando alguem me excarra na cara porque eu quero, alguem é thema da minha chupetinha… Tudo vale!
(1)
[7983]
{Nós somos altos, baixos, Glauco, mas si somos magros, gordos, mesmo si nós formos pobres, ricos, Glauco, faz alguma differença? Não! Aqui na Terra, até pessoas boas, más si formos, temos algo em commum! Li ja muito, Glauco, e ainda que me vás a these contestar, ja concluí que appenas em conjuncto pela paz podemos combatter, nunca por si luctando cada qual, como quem traz a braza ao proprio peixe! E quanto a ti?}
(2)
-- Não quero parescer-te descortez nem quero da questão ser urubu, mas acho que em commum nunca se fez justiça nem governo bom. Bem nu e nu te digo: pode ser burguez o gruppo, ou operario, que tabu será sempre esse thema. Toda vez que varios eus convivem, um rebu se installa. Até si todos em inglez se entendem, não serei eu como tu naquillo que queremos. Como vês, sem paz todos irão tomar no cu.
(1)
(1/2) [8004]
Remedio contra a queda de cabello ou para emmagrescer faz propaganda que entendo por piada prompta, visto tractar-se de producto ja suspeito de cara! Deante deste annuncio, alguem tem duvida? “Não creiam em qualquer offerta falsa dessas por ahi!” Só falta accrescentar: “Confiem só na nossa falsa offerta!” Até sincera me soa, pois você perfeitamente, por autosuggestão, pode ter cura usando algum placebo, não é mesmo?
(2)
Pensando bem, a phrase dicta pelo politico flagrado tambem anda por esse bom caminho: “Não sei disto nadinha! Fui trahido! Si um malfeito fizeram, quem fez pague!” Entendam bem o espirito da coisa: “Quem fizer malfeitos, de esconder tracte! Escondi mal? Esse foi meu erro!” Sente dó de gente desse typo só quem era louquinho para estar entre essa gente capaz de desfructar da sinecura tirando o cu da recta sem tenesmo…
(1)
[8084]
{Ai, Glauco! Os ricos, muito ricos, são malucos! O dinheiro os enlouquesce! Sabia que Bill Gates inventou… Sim, isso! Uma ecologica privada, capaz de transformar as nossas fezes em agua! Sim, em agua, em agua limpa! Fefito perguntou: “Você bebia tal agua, recyclada do cocô?”
Pois é, nosso querido cocozinho virando uma purissima bebida, fresquinha, transparente… Ou não. Talvez um pouco marromzinha, parescendo café com leite… Hem, Glauco? O que você me diz? Hem? Tomaria aquella aguinha?}
(2)
-- Ué, mas ja bebemos, amigão, tal agua! Nada vejo, mas paresce que sae ja da torneira como entrou, barrenta, cor de terra, amarellada. Por isso vou ficar fazendo theses assim conspiratorias? Minha grimpa nem coço. Sem comptar que bem podia a nossa ser cocô, porem… Hem, pô? Nem mesmo recyclada! Ja adivinho aquillo que você, que se intimida com isso, me dirá, por sua vez. Não sente o coração o que não vendo estão os nossos olhos. Quem não vê perguntas não fará. Quem adivinha?
VINHO NA BOTA (1/2) [8085]
(1)
{Agora a gente encontra, Glauco, à venda um’agua assim, direi, “saborizada”, purinha, sem assucar! Não é lindo? A gente abre a garrafa, saboreia, degusta, até commenta sobre nota, resaibo, transparencia, marca, tudo! Não é lindo, Glaucão? E faz tão bem ao corpo! Da sahude cuida quem consome essa bebida assim moderna!}
(2) -- Lindissimo, sem duvida. Ninguem da selecta sociedade exalta nada inutil nem superfluo. Sorrindo estou, veja você. Garrafa cheia nem quero ver sobrar. Quando na bota beberem, a brindar algum sortudo evento, fingirei ter nojo, nem pedir vou um golinho. Ora, quem tem visão va pedir agua na taverna!
INFINITILHO DA TELHA (1/2) [8110]
(1)
{Assim do nada, Glauco, me vem essa idéa bemfazeja de ser uma pastora! Não! Melhor dizendo, bispa! Maior sacerdotiza que eu não ha! Não acha, Glauco? Olhasse você bem, veria como tenho o pé bonito, pequeno, delicado, de dedão mais curto, bem greguinho, um tesão só! Calcule quantos dizimos me vão pagar para beijal-o! Só não sei como é que tal idéa não me veiu mais cedo! Vou chamar aquelle mano que faz a segurança alli da loja e, junctos, nosso templo montaremos! Que idéa genial! Não é, meu nego?}
(2)
-- Aquelle molecão? Caso me peça, eu entro para a seita! Cê me arrhuma alguma funcção, desde que eu não dispa a minha roupa. Alguma coisa dá que eu faça, né? Será que elle não tem vontade de ser bispo? Si eu lhe cito uns biblicos versiculos, christão se torna aquelle mano. Que chodó seria seu pezão! Será que não tem elle tambem curto dedão? Dei a minha suggestão. Acho que cheio da nota ficará, si não me enganno. Vocês dois, junctos… Orra! Quem se ennoja beijando pés assim? Consideremos fundada a Grande Egreja do Pé Grego!
INFINITILHO DO BRILHO (1/2) [8133] (1)
{Eu tenho competencia no mercado, Mattoso! O meu dindim tá garantido! Por isso não dependo de estataes, que são uns cabidões de emprego e vão, de mim si depender, privatizadas todinhas ser, Mattoso! Para a rua ir devem todos esses parasitas chamados “funccionarios”! Desemprego? Mendiguem, ora! Peçam que eu lhes deixe no meu sapato um brilho dar, que eu pago, talvez, um trocadinho! Sou bem franco, Mattoso! Só meresce emprego quem tem tino, tem cabeça! A maioria que fique na sargeta, que mendigue, que engraxe meu sapato! Não concorda?} (2)
-- Tractando de sapatos, não me evado e digo que lhe engraxo, no devido capricho, o borzeguim. Em tudo o mais, discordo de você. Nem todas são cabides e nem todas ser fechadas deviam. O governo continua gastando muito nellas, mas maldictas não podem ser chamadas. O sossego de muitos servidores que eu me queixe faz, claro. Mas não vejo tal estrago nas comptas, affinal. Aqui não banco o typico “perito”, mas alguem que entende de engraxada. Ah, si eu queria um brilho dar, de lingua, nesse big tamanho de sapato, seu calhorda!
É sempre assim! Gratuito se appresenta algum sitio na nuvem e você la posta seus archivos. Ja noventa pastinhas fez subirem, quando vê, attonito, um adviso! Essa avarenta empresa a dez limita o que se lê na tela! Alem da quota, você enfrenta a taxa que cobrarem, ou… Cadê seu lindo repertorio? Quem o tenta baixar ja nada accessa! Seu basset, nas photos, deletaram! Sua attenta agenda, seus poemas, o erregê, até, que escaneou! Sumiu? Aguenta! Se ferra quem na rede gratis crê! Mas tudo pifará, mesmo! Mais lenta será a velocidade, até que dê total panne e voltamos aos oitenta!
Eu tenho uma vizinha que brechós frequenta, a ver si encontra a mais barata camisa, calça, tunica que, appós morrer o portador, medida exacta nem tenha, mas que sirva, ja que nós, eternos pobretões, temos à cata de roupas que sahir. Mas minha voz embarga-se de nausea quando tracta alguem de conseguir coisa que avós deixaram para nettos, sem que batta na gente a passarinha sobre o coz da calça que emmerdou, sobre insensata que seja a percepção de mortem post naquelle mar de pannos que a baratta lambeu, traças comeram, paletós manchados de suor, virus de ingrata doença infecciosa que de atroz febrão mactou em proxima, até, data! Meus oculos de cego, quando a sós medito, quererei que muita pratta não valham, ou que gerem quiproquós?
Com menos comprimento o mesmo rollo do pessimo papel que limpa a bunda; com menos peso o mesmo chocolate que estava no formato duma barra; a duzia de dez ovos; as torradas a menos no pacote… Estellionato? Offerta? Promoção? Embromação? Tambem na poesia fica attento aquelle leitor probo, o cidadão padrão, consumidor mais consciente. Cuidado! Não se deixe engannar por quem faça de seis versos a septilha, com cinco uma sextilha, com só treze um falso sonnettilho, ou sem estrophes comptadas um poema assim, do typo daquillo que está lendo você neste momento! Não me venha, appós ter lido, querer devolução do tempo gasto!
Magina! A gazolina, alem do gaz, do diesel, das commodities, de tudo, emfim, que consumimos, ou directa ou indirectamente, tudo sobe!
Por que não subiria, Glauco, o preço dum livro de poemas? Você deve cobrar mais caro pelos seus volumes à venda, no papel ou em ebook! Sim, pelo que comptei, você está rico, Glaucão! Seu patrimonio litterario, extenso, gigantesco desse jeito, mais vale do que electricas usinas, petroleo bruto ou fontes de energia do typo renovavel, menestrel!
Hem? Como? Nada cobra por seus livros? Quer ser um Rockefeller ou um Gates da vida? Ah, poesia não tem esse valor? Então eu tive prejuizo, embora com descompto, no Bocage barato que encontrei fuçando um sebo!
Impostos nós teremos que pagar a vida toda, sobre qualquer coisa que seja consumida, alem da renda. Não ha como fugir dessa cobrança. Até na merda, a merda que cagamos, exsiste imposto, Glauco, sim senhor! A compta d’agua, a tira de papel hygienico, o producto perfumado usado na privada, alem da propria comida que, depois de digerida, virou aquella bosta alli no vaso! Cocô nos dá despesa, menestrel! E fede, ‘inda por cyma! Não dá raiva?
EGREJA BEMFAZEJA [10.107]
Pastor sou, mas não creio, meu irmão, ja nesses mandamentos. Para mim, teriam que dizer mais vezes “sim”, mas dizem elles, quasi sempre, “não”.
Egreja, pois, fundei esta. A questão, aqui, simples será, pois eu não vim dizer que se prohibe nada. Assim, legitimas quaesquer intenções são.
Peccado não exsiste, irmão, pois tudo podemos nós fazer, que nossa vaga está no céu mantida. Assim, ja adjudo.
E então? Sou bom pastor? A quem indaga respondo que serei o mais grahudo, pois ha quem altos dizimos me paga.
Tão grande, esta favella, que dá até um jeito de dinheiro proprio termos! Sim, “dollar nacional”! É nesses termos que chamo o trocadinho da ralé!
Nós mesmos fabricamos, Glauco, ué! Assim temos um jeito de comermos! Assim a gente tracta dos enfermos e compra arroz, pheijão, até filé!
É facil! Imprimimos o papel moeda alli na casa desse mano que emprega IA na veia, menestrel!
Ficou dollarizado tudo! Um panno nos passa a auctoridade! Coronel nenhum deixa que entremos pelo cano!
DIA DA INDUSTRIA AUTOMOBILISTICA [10.240]
Verdade, Glauco! Tive um “romisetta”! Carrinho de trez rodas! Se recorda? Agora mais ninguem tal thema abborda, mas quero fallar! Ouça, me prometta!
Um plano tenho, Glauco, não é peta: Pretendo fabricar um, bem na borda daquelle modellito! Ocê discorda de tudo que me venha na veneta!
Se lembra do Gurgel? Pois eu tambem, por compta propria, ainda monto o meu! Sim, falta grana… Sempre estive sem!
Eu, hem? Um “karman”, “fusca”, “alpha romeu” são coisas do passado! O meu ja vem com asas! Ou meu sonho se perdeu?
Meus collaboradores! Meus collegas de empresa! Meus amigos! Meus amados! Vocês ja me conhescem! Nestes lados ninguem é maior lider, nem mais Degas!
Mas sou comprehensivo! Nunca às cegas demitto nem contracto! Os empregados da casa teem seus justos ordenados em dia pagos! Acham meus plas bregas?
Pois bem! Tenho operario, funccionario, não “collaborador”! Sou é patrão, não “lider”! Ordenado, não “salario”!
Aqui sou eu quem manda, sim! Quem não concorda peça a compta! Que empresario irá me desmentir nesta nação?
Sim, tudo se approveita, até papel hygienico, poeta! Até bacia quebrada de privada! Não sabia? Precisa que eu lhe mostre, menestrel?
Em novo transformamos, bem fiel, o usado! Uma bacia até seria bem util como parte duma pia do typo das que vemos num hotel!
Artistas ja mostraram que independe de esthetica si temos um penico ou temos uma chicara! Me entende?
Mais uma vez, poeta, aqui lhe explico: Valor tem, alto, tudo que se vende! Um dia, nesse ramo, fico rico!
Mas como? Não estão comprando nada? Que data commemoram? Como pode alguem não consumir? E quem se fode? A casa de commercio que é fechada!
Eu, como cidadão, me sinto cada vez menos respeitado! Num forró de protestos, fazem tudo que incommode, aquelles militantes na calçada!
Accusam nossa febre consumista de estar, do capital, ao bel serviço! Censuram cada bem que a gente lista!
Assim não é possivel! Ja sumiço levou aquelle dildo que conquista meus maximos desejos e eu cobiço!
Comprei, Glauco, um “podildo” p’ra você! Um masculo pezão, de silicone, exactamente egual ao que, num clone daquelle filme duca, a gente vê!
Você nem pagaria mais michê só para ter a sola que ambicione na sua cara, Glauco! Ja seu phone mais mudo ficaria, e quieto o apê!
Azar, porem, eu tive! No momento exacto de na alfandega passar, abriram a bagagem! Eu lamento!
Aquelle pezão chato, cavallar, você não acha aqui! Quem sabe eu tento, na proxima, as revistas evitar…
Na vespera das festas, o correio entrava numa greve prolongada. Se lembra disso, Glauco? Ja mais nada chegava! Muito livro que eu não leio…
Ficavam, do caminho pelo meio, as chartas, os chartões, alem de cada presente que esperava a molecada ganhar pelo Natal e que não veiu!
Mas hoje não recebo nem remetto mais chartas, e encommendas ja não faço, porque ninguem tem grana, aqui no ghetto!
Não ha, pois, para greves esse espaço! Os tempos ja mudaram! Nem me metto, comtudo, num assumpto de palhaço!
Magina! Nem precisa sexta-feira ser para haver “total liquidação”, “estoques em offerta”, “promoção”, emfim, qualquer pretexto que se queira!
De “black” eu nada vejo, de maneira nenhuma, só de “fraude”, como vão chamando, no commercio, tal noção erronea de mais grana na charteira!
Conforme a piadinha, vendem “tudo” na loja que estiver “pela metade do dobro”, ou seja, nunca que eu me illudo!
Appenas uma coisa, na cidade, suppuz achar: aquelle pé thalludo, de plastico! Não acho um que me aggrade!
DIA PANAMERICANO DA SAHUDE [10.417]
Coitados delles, Glauco, puxa vida! Na America, não teem elles nem SUS nem plano de sahude! Se reduz a nada a chance duma sobrevida!
Si fica alguem doente, se liquida na compta do hospital! Vi corpos nus jogados na calçada, com seus cus à mostra, por não terem mais sahida!
Sem grana, sem parentes, o doente, sem alta ter siquer, fica à mercê dos rattos, na sargeta! Deprimente!
Paiz desenvolvido!? Mas você não acha que faltava alguem que tente mudar isso? Ja teve? Então, cadê?
Pedimos, sim, desculpas à cidade, que enfrenta, ha dias, falta de energia, da gotta d’agua, minima, na pia, emfim, pelo calor que nos invade…
Pedimos, sim, desculpas! Quem não ha de pedir, si nossa firma deveria prestar esses serviços? Caso um dia possamos, o faremos de verdade!
Agora, chega! Algum perdão a gente pediu! Hem? Não nos encham mais o sacco! Siquer nos processar que ninguem tente!
Alguem lavar não pôde seu sovaco? Achou na geladeira a boia quente? Bah, foda-se! Relaxa ahi, malaco!
Os oculos escuros de ceguinho, naquelle mais que classico modello, são algo que cobiço. Pude tel-o somente si pirata, baratinho.
Chinezes são, de estylo. No caminho os acho. Os camelôs dizem, com zelo, que passam por legitimos, appello que entendo ser risivel e excarninho.
Usei, ja, varios pares. Um egual àquelle do Ray Charles eu queria, mas nunca consegui. Fizeram mal.
Não duram. Se deformam. Mas, um dia, ainda terei, antes do final suspiro, uma legal mercadoria.
Glaucão, que conclusão, hem, você tira daquella profissão que nunca diz verdades dum producto que feliz jamais deixa ninguem? É só mentira!
Mentira, sim, Glaucão! Sinão, confira: Appenas nos enganna quem subtis vantagens nos apponcta, com ardis, na compra duma IA que sirva à lyra!
Cahi na propaganda, comprei uma, achando que “poeta maior” eu na certa viraria! Coisa alguma!
A “IA” só plagiou quem mais se leu na lingua portugueza! Quem arrhuma prestigio desse jeito, si é plebeu?
Nas minas de carvão sempre foi duro, Glaucão, de trabalhar. Meu pae contava que, quanto mais profundas, mais aggrava a chance de não terem um futuro.
Um desmoronamento… Nesse escuro momento, ninguem manda a sancta à fava. Às vezes, o resgate ja chegava, mas sempre lhe faltava algum ar puro.
Morreu elle nas minas, sim, Glaucão. Não era no Brazil aquelle inferno, nem hoje dependemos do carvão…
Sim, temos combustivel mais moderno. Comtudo, os nossos nettos, que dirão dum tempo em que rezei ao Pae Eterno?
(na voz dum ex-assistente social convertido)
Combatte eu, sim, ferrenho dou, poeta, àquillo que se chama de pobreza! Combatto quem não pode ter na mesa o minimo do minimo e se inquieta!
Combatto, Glauco, o pobre, esse proleta damninho, que experneia, na certeza de nunca permittir que fique illesa a nossa sociedade, que é correcta!
Os pobres são a praga deste mundo! Deviam ser exstinctos! Quando digo taes coisas, sei que insisto e que redundo!
Um pobre, Glauco, nunca ser amigo da gente poderá! Carente, immundo, doente, só nos serve de castigo!
Glaucão, eu não entendo de xadrez mas acho uma gracinha aquellas peças que estão no tabuleiro! Numa dessas, eu compro um, só de enfeite, dois ou trez!
Aquelle castellinho… Tu não vês que imita direitinho? Caso meças estylos e desenhos, tu não cessas de, em cada peça, ver o que se fez!
Ja viste como o bello cavallinho daria, no dinheiro, grande effigie? Tambem a coroinha, direitinho!
Nas scedulas, é tudo que se exige, assim como no rotulo dum vinho! Fugi muito do thema, Glaucão? Vige!
DAY [10.639]
Faziam, aqui, só liquidação, só saldo, promoção, offerta… Agora virou mania! A gente commemora um dia de corrida às compras, vão!
Eu acho que ficamos é na mão, pois todos os annuncios estão fora daquillo que eu preciso, numa hora de extrema agitação! Não acha, não?
Reflicta aqui commigo, Glauco! Quem irá comprar aquillo que, de facto, usar vae? Não, na practica, ninguem!
Nem mesmo o tennis novo que, eu constato, meu numero não tem, me serve bem! Ficamos sem cachorro, pois, no matto!
Dos trouxas, dos otarios, está cheia a nossa assaz vulgar população, poeta! Não concorda? Charlatão nenhum bem se daria numa aldeia!
Mas, numa megalopole, essa teia de extensa falcatrua tem acção logistica perfeita! Algum ladrão que queira ser experto ja allardeia:
“Invista aqui! Garanto um rendimento accyma até da bolsa, accyma até dos fundos, das pyramides, por cento!”
No fundo, o que elle falla appenas é verdade para si mesmo! Lamento? Magina! Quem mandou botarem fé?
Não, Glauco! Nada tenho a ver com isso! Appenas eu trabalho numa empresa que explora algum subsolo! Uma surpresa foi esse terremoto! Um grande enguiço!
Por causa do terreno allagadiço, nenhuma area de praia fica illesa! Affunda tudo, pode ter certeza! Mas outras conclusões eu não attiço!
Somente com petroleo é que eu me envolvo! Não venha me imputar algum problema, achando que taes coisas eu resolvo!
Mas, que paresce coisa de cinema, paresce! Esses tentaculos dum polvo gigante sobre a Terra! Ha quem não tema?
DIA DO FUSCA [10.687]
Os ricos emergentes obstentar desejam loucamente, trovador! Comprar querem, de griffe, superior pisante, fora aquelle cellular!
Que importa si teriam de ficar na fila dos ingressos, seu suor na cara lhe excorrendo? Si é cantor da moda, caro gostam de pagar!
Mas, quando um empresario billionario à rua sae, de fusca dirigindo sozinho vae, qualquer que seja o horario!
Seu terno não tem nada, nem de lindo, tampouco de elegante! Funccionario commum paresce, como que fingindo!
Em terras européas, o dragão é monstro conhescido numa lenda qualquer. Mas falta alguem que comprehenda melhor esse bichão, sem má noção…
Até São Jorge, fora algum fodão e bravo cavalleiro, uma legenda às custas delle emplaca… Foi a renda daqui, porem, chamal-o de “inflação”.
Appenas no Brazil se symboliza a perda do poder acquisitivo com essa figurinha tão precisa…
Mas, como do passado ja não vivo, prefiro no dragão achar, à guisa de exemplo, um fascistoide compulsivo.
ENSHITTIFICATION DAY [10.813]
Razão tem quem fallou, poeta, nessa tal “bostificação”, pois, hoje em dia, peoram os serviços, porcaria que está, ja, nos governos, bem depressa!
Percebe-se, Glaucão, que ja começa, não só na inefficaz burocracia, mas mesmo na melhor philanthropia, a tudo peorar! É bosta à bessa!
Politicas mais publicas ja são cocô reconhescido pelo mundo affora, mas se impõe outra questão!
Até coisas mais chiques vão, segundo as fontes, se “embostando”! Um capitão qualquer ja se tornou, tambem, immundo!
A carne que exportamos, sim, poeta, é boa, tem immensa qualidade. Mas va você buscar, pela cidade, a mesma carne! Frustra a sua meta!
Comemos só muchiba que, em infecta nojeira, alguem nos vende! Mas quem ha de dizer abertamente? Nos invade um senso de impotencia a mais completa!
Os ricos, os politicos, churrasco só comem dos melhores cortes, mas a nós só cabe mesmo sentir asco!
Ainda que paguemos caro, más porções nos offerescem! Inda tasco, um dia, aquella alcatra! Sou tenaz!
Joguei, Glaucão, na mega da virada! Consigo, como sempre, accertar um só numero: cincoenta! Mais commum é dar quarenta e nove! Que roubada!
Estão os mathematicos vez cada mais scepticos e dizem que nenhum otario terá chance, de bumbum virado para a lua! Não, qual nada!
Porem, o meu vizinho, que sozinho ganhou na megasena, não quiz nem mudar-se! Não mudou nem seu caminho!
Foi logo sequestrado, de refem ficou por longo tempo! Ja adivinho que rolla, até, chupou! Ja pensou? Hem?
[10.940]
Ouvi no radio, Glauco, que você irá pagar com optimo descompto aquillo que nem mesmo ficou prompto ainda! Vantajoso, hem? Quem não vê?
Ouvi no radio que elles, na TV, estão mostrando scenas desse poncto de venda, aonde todos vão, e tonto o povo fica, olhando o tal apê!
No radio ouvi que, vendo um decorado, a gente até se encanta com tamanha vantagem, na cidade, deste lado!
Faltou ouvir no radio que se ganha salario que permitta a algum coitado comprar o que se ouviu com tanta manha!
Somente nessas coisas materiaes a gente está pensando o tempo inteiro! Pergunto, então: O que é que vem primeiro? O que é que nos provoca tantos ais?
A angustia, Glauco! Pelos nossos paes, appenas apprendemos que o dinheiro vem antes de mais nada, mas me inteiro agora das questões essenciaes!
Dinheiro compra tudo? Si comprasse, só ricos gozariam de sahude! Sahude, só, nos basta? Ou falta a classe?
Aos velhos é saudosa a juventude! Os jovens querem que ella nunca passe! Não falta alguma coisa? Alguem se illude?
Eu pego cada garfo, cada faca bonita, menestrel! Ah, pego cada colher, dessas pesadas, bem lavrada, e metto na algibeira! Ninguem saca!
Alli naquella loja, se destacca a linha de talheres! Não ha nada mais lindo que ver uma pratteada faquinha! Mas o dono nos acchaca!
Sim, cobra muito caro o tal faqueiro inglez, esse burguez ganancioso! Assim, eu roubo mesmo, companheiro!
Tão só por ter ficado, ja, famoso o gajo quer pedir tanto dinheiro num treco de metal tão duvidoso?
Incrivel! Num apê tão pequenino você tem tanta coisa, Glauco, tanta! Nem sei como junctou! Até me expanta que encaixe movel pobre em movel fino!
São quadros e mais quadros! Imagino que tenha visto cada! Até da Sancta Luzia, ao lado desse que me encanta, do Lennon com oclinhos! Cê tem tino!
Ah, pena que está cego! Poderia tornar-se singular decorador! Ah, cada bibelô! Que prattaria!
Eu, quando, só, morar um dia for, convido você, Glauco, qualquer dia, até para a privada me propor!
Você, que investidor é, venha dar appenas uma olhada neste lindo estudio decorado, pois bemvindo será, para morar ou alugar!
Estudio, não: suite! Hem? Que logar bonito! Bem pertinho do confim do metrô, num panorama tão infindo que perde, no horizonte, seu radar!
Invista parcellando! Veja só que plano offerescemos de bandeja! Visite-nos! E traga a sua avó!
Hem? Para que do bollo uma cereja paresça, lhe diremos que chodó será do seu totó! Não lhe sobeja?
Um cego reclamar quiz do serviço mal feito no cemento da calçada. Fallou ao funccionario, que de nada sabia, nada tinha a ver com isso.
Nervoso, o cego disse que era ommisso o gajo que escutara delle cada razão, cada palavra de indignada coragem, sem postura de submisso.
Porem, de sacco cheio, o servidor, fingindo conduzir o cego para algum departamento, quiz se impor.
O cego, num quartinho, sua tara de prompto satisfez: chupou, de dor gemendo, um pau sebento pela cara.
Só vale, pelas redes, hoje em dia, um monte de cocô monetizar, Glaucão! Eu tambem quero o meu logar ao sol! Vou bollar nova theoria!
Ja sei! Expalharei que poesia faz mal para a sahude e pode dar até doença rara, até mactar irá quem não tiver cabeça fria!
Ahi, para livrar-se do problema, vae todo menestrel me pagar um cursinho, no qual digo só: Não tema!
Ainda tendo medo do commum destino, os meus alumnos desse eschema irão chiar, mas mostro o meu bumbum!
Na feira alli do MASP eu, certa vez, achei um pé de pedra, aquelle exacto modello grego, um chato pé de pato, primor de precisão no que se fez.
Mais curto, o seu dedão, de embriaguez esthetica, attiçou-me. Fiz contacto com esse expositor e ja constato que fui, de facto, o seu melhor freguez.
Ja muitos pés de porte esculptural comprei do singular antiquario. Um dia, aquillo teve seu final.
Me leram seu modesto obituario achado num jornal local. Tal qual um fan, chorei. Sou delle tributario.
Cyclista, aquelle joven peão tinha deixado um hamburgão na portaria. Porem o morador delle exigia que fosse para a porta da cozinha.
Desceu o morador, que se abbespinha por pouco, e fez escandalo. Se via que estava alteradão. O joven chia, mas leva balla: assim a morrer vinha.
A midia, que audiencia ja fareja, explora a má noticia. Ja adivinha você qual é, no bollo, uma cereja.
Exacto: o morador fama damninha ja tinha, sendo um tira. Você veja que nada muda nesta patriazinha.
Hem? Pão ammanhescido? Jogar fora? Magina! Approveitar eu quero tudo! Dinheiro sempre falta, até mehudo! Eu como o pão durinho, às vezes, ora!
Jogar a mortadella fora? Agora que está tão cara, Glauco? Não! Eu grudo no beiço um naco podre, mas não mudo meu modo de pensar! Nada melhora!
Difficil é sobrar, mas, quando sobra, no lixo nunca jogo uma fatia de queijo, que tão caro o bar me cobra!
Fedendo pode estar o que eu teria, às vezes, exquescido numa dobra da velha toalhinha… Mas sacia!
SONNETTO DOS SIGNAES EXTERIORES [13.010]
Mamãe dizia achar melhor a gente nos outros despertar pena, mas não inveja. Penso nisso, pois questão eu faço de evitar, em ouro, um dente.
Mas muita gente eu noto que, na frente dos outros, obstentando o dinheirão que ganha, deixará forte impressão de estar na boa, alegre e sorridente.
Em seu sonnetto celebre, Raymundo fallou desse tesão de se exhibir, em voga, actualmente, em todo o mundo.
Não quero me gabar de ser fakir, masoca nem estoico, mas, segundo o Sartre, só me gabo de exsistir…
Você ja reparou, cara? A torrada menor está ficando no pacote! Alguem acha normal, hem, que se bote no sacco menos ballas? Que roubada!
Assucar, ovos, leite, café, cada producto, hoje, está caro, mano! O trote consiste em botar menos, cara! Annote o preço, o peso! Veja si lhe aggrada!
Assim não é possivel! Chocolate em barra vae ficando cada vez mais fino, mais levinho! Um disparate!
Mas, ‘inda assim, consigo ser freguez frequente! Esta charteira ninguem batte! Papae paga! Fortuna à bessa fez!
Dinheiro nunca leva desafforo. Jamais exsistiria almosso gratis. Pisar-te irei, Glaucão, caso me tractes a peso d’ouro, ja que faço khoro!
Meu tennis pagarás, desses de couro, carissimo! Quizesse eu mais quilates nalgum bom reloginho, uns outros vates eu punha sob as solas, sem desdouro!
Hem? Nestes nossos dias, a factura das taras sexuaes anda tão cara que quasi que só xeique me procura…
Por dollares, eu piso bem na cara! Por euros, ja practico uma tortura! Por joias, alguem chupa a minha vara…
SONNETTO DO TUPYNISMO [13.713]
Si estou na pindahyba, significa que grana não terei para mais nada alem da trivial maccarronada de massa que, instantanea, não é rica…
Estás na pindahyba? Ah, minha dica é seres economico! Faz cada mordida render mais que essa dentada faminta, que teus sonhos multiplica…
Mastiga devagar essa porção de misera farinha com pheijão a fim de eternizares o sabor!
Quem manda seres pobre? Por que não ficaste millionario? Come, então, o pão que te ammassou Nosso Senhor!
Heroe quem é, Glaucão? Quem, no primeiro dos mundos, sobrevive, escriptor sendo? Si estou eu no terceiro, bem entendo do que é sobreviver, meu companheiro!
Aqui neste paiz, sempre me inteiro dos dramas do povão, do monstro horrendo das hyperinflações, que vão comendo aquillo que valeu nosso dinheiro!
Mais facil, em Paris, é ser poeta! Eu quero ver, aqui, de equilibrista posar quem com os pobres não se affecta!
Agentes litterarios, numa lista, excolhe cada auctor, e ninguem veta seus livros na censura moralista!
O dollar é moeda forte? Bem…
Nem sempre. Si for falso, quem foi pago com elle se fodeu. Eu, mestre, cago praquelles que ja bronca de mim teem…
Eu antes só trampava com vintem, depois só com tostão, mas hoje trago no bolso, sempre, ingressos e um affago eu faço si sou feito de refem…
Pois é, com a policia não tem choro!
Me prendem, mas eu pago uma gorgeta e livro-me de encargos la no foro…
Por isso, ja advisei: Ninguem se metta commigo, pois, por falta de decoro, fodi parlamentares! Não é peta!

