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MANUAL DE BRUXARIA

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MANUAL DE

BR U X A R I A

Glauco Mattoso

MANUAL DE BRUXARIA

São Paulo

Casa de Ferreiro

Manual de bruxaria

© Glauco Mattoso, 2026

Editoração, Diagramação e Revisão

Lucio Medeiros

Capa

Concepção: Glauco Mattoso

Execução: Lucio Medeiros

Fotografia: Akira Nishimura

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Mattoso, Glauco

MANUAL DE BRUXARIA / Glauco Mattoso. –– Brasil : Casa de Ferreiro, 2026. 126 Páginas

1.Poesia Brasileira I. Título.

25-1293 CDD B869.1

Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia brasileira

NOTA INTRODUCTORIA ou

DISSONNETTO PARA UMA CASTA SENHORA [1745]

O livro lhe chegou pelo correio, mandado pelo bruxo: um manual que ensigna a usar veneno sem receio de se exceder na dose e passar mal. Nesse mithridatismo a velha veiu a se especializar de modo tal que a feia aranha, o escorpião mais feio piccal-a podem, que ella acha normal. A velha agora cria a cabelluda tarantula, e seus habitos estuda a fim de descobrir por que ella picca com raiva, si estressada demais fica. Chegou à conclusão de que a bichana, assim como ella propria, só se irmana àquellas que se guardam duma picca e estão é rancorosas. Bem se explica.

DISSONNETTO MAGICO [0090]

Os bruxos, como eu, soffrem, e bastante, pois o onus do esoterico é um estigma, assim como o poeta é preso à rhyma e o peregrino tem destino errante. Compendios pegam pó na minha estante. Papyros emboloram logo accyma. Caminhos, de Sodoma a Hiroshima, esperam pelo pé do caminhante. Mas ja não posso ver tanto mysterio. Meus olhos se appagaram duma vez, punidos pela sadica torquez. O mago agora é cego, triste e serio. Um unico lazer será, talvez, abrir a cella deste monasterio ao mundo futil, torpe e deleterio para lamber o pé de um de vocês.

DISSONNETTO SOBRENATURAL [0430]

Historia de terror não é tão feia. Vampiro, lobishomem, nada disso. Me deixa arrepiado só o feitiço que sae duma pessoa quando odeia. Caveira, sexta-feira, lua cheia me comptam pouco, e os pellos nem eriço. Extranhas vozes, passos, um sumiço não teem mysterio, embora haja quem creia. De facto, o que preoccupa e mette medo é o tal do sentimento negativo, inveja, odio, rancor, humor azedo. Um inimigo é como um morto-vivo. Mas tenho contra elle meu segredo: Moeda egual. Devolvo o mal. Me exquivo. Aos odios dos amigos eu não cedo, tampouco de inimigos: faço o crivo.

CONTO PACTUADO [0480]

Um bruxo, recemvindo de Turim, me trouxe este enveloppe, que ‘inda guardo fechado, e ja me sinto um felizardo por ter Satan mandado a charta a MIM! Agora posso abril-o, porque vim a ser galardoado como bardo e o texto que preenche o papel pardo em versos dicta as regras do festim! Emfim sou o maior poeta vivo!

Si caro foi o preço, paciencia! Nos obitos famosos incentivo eu acho! Consciencia? Se dispense-a! De todos os remorsos eu me exquivo! Só falta eternizar a precedencia: Si algum novo desponcta no meu crivo, Satan fará que morra com urgencia!

DISSONNETTO PHILOSOPHAL [0871]

Transforma tudo em ouro, no que toca, o mago: inicialmente, fez successo lettrando uma canção que hoje nem peço que alguem me toque, tanto que se evoca! Depois elle bollou tal engenhoca demono-philosophica, que ingresso garante-lhe na casa cujo accesso é porta da immortal e astral malloca! Só mesmo um charlatão bemsuccedido ou bruxo de verdade alcança tanto e em tantos idiomas tem vendido ganhando nisso sabe-se la quanto! Não é nesse terreno que eu incido. Não é de sua sorte que me expanto, mas sim de meu azar, ja que só lido com pedras: na cegueira é pratta o pranto.

DISSONNETTO RODADOR [1001]

Palindromo perfeito é o “oroboro”, a cobra que devora o proprio rabo. Com esse talisman começo e accabo um thema que dos bruxos é namoro. Porem, como sou falto de decoro e de ser pornographico me gabo, engulo meu caralho, até me enrabo e rindo dessa dor gozo meu choro. Assim sempre vivi, junctando extremos, insomne em todo leito onde me deito, tirando da agonia meu proveito, casando maus anjinhos com bons demos. Erotico e autophagico é o conceito, portanto, do “oroboro”: nomeemos seu cyclo de “infinito”. Eis como vemos a cobra do palindromo perfeito.

DISSONNETTO DO BRUXO DE LUXO [1343]

Àquelle consultorio, quando fores, verás que o adivinhão te põe a nu: olhando-te, elle saca tuas dores e diz, na tua cara, quem és tu! Chamado “professor dos professores”, prefere ser tractado por “guru”; mais habil do que magicos e actores, plantando bananeira elle dá o cu!

Mais querem saber? Isto não lhes basta? Astrologo e vidente, na charteira de cada paciente tem certeira visão de quanto ganha e quanto gasta! Conhesce cada cofre, em cada pasta! Si chega alli um politico, o fakir converte e até convence o outro a convir que, em vez de fodedor, é pederasta!

DISSONNETTO DA FACHADA FECHADA [1367]

De dia, aquella casa ja me intriga, no fundo do jardim, sempre fechada. Disseram que quem vive alli se liga a coisas do outro mundo… Isso me aggrada! Fallei della a uma bruxa, minha amiga, e foi-me confirmado: essa morada, alem do solitario ser que abriga, recebe sempre alguem de madrugada. É muito extranho, mesmo, tanto affan. La não se accendem luzes, mas se escuta barulho de conversa e até de lucta e tudo fica quieto de manhan. Só sei que não será coisa christan. Talvez appenas sadomasochismo, mas, quando passo alli, commigo scismo que Sade tenha encontros com Satan.

DISSONNETTO DOS DOTES NOTAVEIS [1582]

Os bruxos, em geral, não são bonitos. As bruxas, muito menos. A razão do facto é que haveria alguns conflictos do magico poder com o que é vão. Si a bruxa attende aos bellos requisitos e o bruxo for descripto como “um pão”, a desmoralizar-se estão os mythos e a lei se exvae: cadê a compensação? Em nome do equilibrio universal, um typico factor se verifica. Quem ganha dons marcado é por signal visivel, que as feições lhe identifica: Nariz e bocca tortos, saliente orelha, verrugonas de cangica, testão, olho saltado, agudo dente, pelluda mão, gran crica e molle picca.

DISSONNETTO DA DADIVA ADVERSA [1583]

A dupla maldicção, que annulla a van belleza e as ambições futeis embarga, transforma o joven bruxo numa ran e a virgem bruxa numa velha amarga. Por outro lado, o typico galan obstenta da burrice a crassa carga, e a bella actriz, à qual não falta fan, só tem a offerescer a chota larga. Aos factos não ha nada que resista. O surdo é genial compositor. Maneta é aquelle celebre esculptor. O cego é o mais maldicto sonnettista. Assim Satan nos deixa a sua pista: Não ha do Alleijadinho obras que provem que quiz perder a mão, nem do Beethoven o ouvido, ou do Mattoso sua vista.

DISSONNETTO DA SOGRA [1620]

A sogra, coitadinha, só se queixa do genro, que a maltracta, que injustiça lhe fazem as piadas… Ninguem deixa que se defenda, e sobra quem attiça. São tantas qualidades que ella enfeixa: é boa, é generosa, vae à missa… Cordata, educa a filha como gueixa, mas soffre: é “intromettida” ou foi “ommissa”.

A velha ja nem dorme, está doente, de tanto ser a victima da intriga. E ainda, para cumulo, tem gente dizendo que em macumba ella se liga! “A mim aquella velha não me logra!”, commentam todos. “Bruxa duma figa!” “Não tem ninguem mais falso do que a sogra!” Até que um dos dois trae… e o casal briga.

DISSONNETTO PARA A BELLEZA ILLESA [2371]

Que dadiva divina que é a belleza! Melhor que nascer rico é ser bonito. Não compro melhor cara, mas, admitto, a cara linda attrae toda a riqueza. Ao bello a nossa vista sempre presa está: ninguem prefere o pé que eu cito, fedido, chato, enorme… É eterno o mytho do esthetico pezinho da princeza. A porta ninguem fecha à mulher bella e, quando uma beldade faz cagada ou caga, é sempre linda a merda della. Si, em senso lato, errou, é perdoada. Si, estricto senso, fezes fez, na tela do artista seu cocô commove e aggrada. Dahi porque só velha magricella, banguela e feia é bruxa, nunca é fada.

DISSONNETTO PARA UM MAU OLHADO MAL OLHADO [2508]

De palpebra cahida, olhar mortiço, aquelle meu amigo tem um ar de alguem com intenção de nos mactar. Maior é seu azar por causa disso. Embora enxergue bem, tem enfermiço adspecto: olho injectado, tumular e vitreo; emmoldurando aquelle olhar, sobrolhos traduzindo o mau feitiço. É tudo impressão má: rugas, terçol, pestanas remellentas, roxa olheira. Paresce até um vampiro à luz do sol! O cara appenas soffre, caso queira seus oculos escuros pôr no rol das coisas dispensaveis à caveira. Dahi porque, jogasse futebol, teria de Romario uma carreira.

DISSONNETTO PARA QUEM É DO RAMO [2544]

Ficou fora de moda a boa fada, aquella que fazia sempre o bem e só nas nossas vidas intervem nas horas em que a foda está empattada. Si, agora, por soccorro a gente brada, seremos soccorridos… Mas por quem?

Ja sabem: pela bruxa! Ella é que tem poder de nos tirar duma enrascada!

Aquella que em soccorro ca nos vem, ou pode tudo, ou nunca pode nada!

Si a bruxa é boa ou má, ninguem tá nem ahi: nos interessa é que ella é dada com Lucifer, mais forte la no Alem!

Do Mal é que queremos ver livrada a vida! Com poder não ha ninguem melhor, pois, que o Demonio, em sua alçada!

DISSONNETTO SOBRE UMA FEITICEIRA FETICHISTA [2999]

-- Botei “prefume” só p’ra “vim” te “vê”! {Essa neguinha não me deixa quieto!} -- Ei, tira a mão dahi! Isso é correcto? {Bruxinha, toda a “curpa” é de você!} -- Neguinho, me “arrespeita”! Caso eu dê p’ra ti minha boceta, ganho affecto? {Si não for eu, seu nego predilecto, quem é que vae, Bruxinha, lhe “querê”?} -- Ninguem mais, meu neguinho! Eu sou “muié” “dereita”, mas ninguem faz, como eu faço, “cosquinha” bem na “parma” do teu pé. De tanto “fazê”, nunca canso o braço, nem fico com nojinho do chulé. {Bruxinha, assim eu caio no seu laço! Então, alem de foda e cafuné, cê faz “cosca” na sola? Eu tô cahidaço!}

HERVA ESSENCIAL [3398]

Fizeram sacanagem, sim, commigo! Ah, não! Não é possivel! Quem será que andou pondo veneno no meu cha? Não, gente! Não meresço tal castigo! Explico ao meu leitor a situação. No meio da cegueira, tudo preto enxergo em pleno dia e, à noite, não descanso sem compor mais um sonnetto. Mas, antes de deitar, si tomo o tal chazinho da vovó, cores começo a ver, kaleidoscopicas, e peço que aquillo nunca accabe! É tão legal! Agora sacar tudo vocês vão. Não é que alguem trocou os potes? Metto num delles a colher, preparo e, então, percebo que tomei pó de graveto! Alem de não saber disso o perigo, não vejo mais as cores! Só me dá vontade de mijar! Que sorte má! Cuidado com os chas, é o que lhes digo!

A VOLTA DO MOTTE DO MEDO [3632]

Na floresta, chichi faz o rapaz. Um monstro advista seus pentelhos. Delle attraz logo corre, e elle o despista. Uma bruxa no rapaz vê o perfeito masochista: dá-lhe abrigo e sopa, mas seu feitiço não conquista. Conclusão: que é pentelhudo no que a sunga se recheia, quer provar mas teme tudo um rapaz que a sós passeia. Este motte eu levo em compta, pois que pega bem na veia: “Lobishomem me ammedronta, mais ainda mulher feia.”

A RACCONTADA FABULA DO SAPO ENCANTADO [3686]

Diz um sapo ao outro: “Eu não sou commum como você!

Sou eu principe! É questão só dum beijo e alguem que o dê!” O outro diz: {Mas onde, então, a princeza está? Cadê?}

E risada todos dão dum condão que ninguem vê. Passa o tempo, até que, um dia, dá um beijinho a velha thia no coitado, ja descrente deste pantano inclemente. Transformado, emfim, num velho, só uma bruxa não repelle-o. Moral: sapo é que nem gente. Não, beijal-o ninguem tente!

DIABOLICA PARABOLA

(1)

(1/10) [3911/3920]

“God is dead!”, affirma, afflicto, no vizinho appartamento, o inquilino, abrindo o rito diabolico. Ouço, attento.

Meu apê, grande e bonito, tem estylo. Só lamento não prever todo esse agito que alli rolla no momento.

Pois paresce-me que adhere ao “Bebê de Rosemary” a familia inteira, alli!

Mal consigo accreditar! Bem ao lado do meu lar, Satan mora, chora e ri!

(2)

No centrão, ja decadente, de São Paulo, o que eu sonhara tanto tempo, finalmente encontrei: a joia rara!

Neogothico na frente, appesar de não ter clara luz na salla, o apê somente me custou o olho da cara.

Mas valeu, pensei, a pena, pois não ha salla pequena nem quartinho neste predio.

Suspeitar eu não podia que esse apê do lado iria me impedir de sentir tedio.

(3)

Demorei a mobilial-as, tão solennes são, mas fiz tudo para que, nas sallas, não faltasse o que mais quiz.

As poltronas, fui achal-as em brechós e, com lambris, eu forrei ambas as alas do escriptorio: é o que condiz.

Lustres, cheios de pingentes crystallinos, mais decentes eu achei para o sallão.

No meu quarto, mandei pôr uma commoda da cor que reveste todo o chão.

(4)

Noutro quarto, achei extranho que uma porta só se abrisse para o armario, do tamanho dum saguão… Que exquisitice!

Nada alli guardei: ja ganho muito espaço, a mim eu disse, no apposento onde me accanho ao dormir… Quanta crendice!

Figurei malassombrado o edificio, mas seu lado luxuoso me accalmava.

Eis que, agora, o ritual do vizinho é tal e qual um delirio que se aggrava!

(5)

Toda sexta-feira, escuto choradeira e cantoria noite addentro! Algo de bruto e terrivel se annuncia!

Mas, no sabbado, eu imputo a mim mesmo essa phobia: tudo aquillo appenas fructo do meu sonho não seria?

Ja cruzei, no elevador, com aquelle morador ou alguem que chega ou sae.

São até gentis commigo: consideram-me um amigo e me tractam como um pae…

(6)

Convidou-me elle, outro dia, para um cha… Cruzes! E agora? Recusar eu não podia, pois seria bolla fora.

Acceitei, né? Tarde fria, pleno hinverno… Boa hora para aquillo que eu queria: saber como elle decora.

Seu apê, gemeo do meu, de mais moveis elle encheu, mas suggere egual comforto.

Impressão tive, primeiro, que o local tem forte cheiro do vellorio dalgum morto…

(7)

Só depois eu me dei compta de que aquella extranha porta para o apê do lado apponcta, e tal coisa não comforta…

Ao contrario: me ammedronta! Varias vezes, nessa morta, falsa camara eu, à tonta, fui testar si um vão a corta.

Caso a camara maccabra dê passagem e, assim, abra um ao outro appartamento…

Que accontesce? Que perigo! Si eu dormir, um inimigo entrará a qualquer momento!

(8)

Meu diario se alimenta destas notas, passo a passo… Hoje é sexta e, fora, venta, chove… Eu, lendo, as horas passo.

De repente, aquella lenta cantilena escuto! Faço o trajecto até a cinzenta porta e, quando extendo o braço…

Está aberta! Mas fechada ella estava! Eu, caso invada o outro lado, que haverá?

Pela fresta, vejo luz e a passagem me conduz ao recincto do sabbath!

(9)

Hontem, sexta, finalmente, desvendei, de cabo a rabo, tudo quanto aquella gente pensa e espera do Diabo.

Repassou na minha mente todo o filme que, hoje, accabo de rever! Quem não se sente bem, revendo? Até me gabo!

Passo a passo, fiz suspense, mas não quero que alguem pense que eu pretenda ser modesto.

O que, agora e aqui, confesso, não me dóe: perdão não peço si é verdade o que eu attesto.

(10)

Resumindo, eu agguardado sempre fora! Mal eu entro nessa roda, sou chamado de Satan! Fiquei no centro!

Não penetro, não invado: todo o tempo estava eu dentro dessa trama! Sou culpado? Nas perguntas me concentro…

Tenho alguma liderança? Meu poder será que alcança cada cantho do Universo?

É o que vou adveriguar! Por emquanto, o meu logar infernal é só no verso…

FIM DO FESTIM [4000]

Não exsiste melhor data, si este outubro chega ao fim, do que aquella que arremacta meu festejo: o Halloween. Ja nem fallo dessa chata molecada; fallo, sim, dos bruxões, da velha natta satanista, minha affim. Harry Potter que se foda! Sua auctora tambem va! Eu commigo tenho toda a familia, no sabbath! No fundão do meu armario (Rosemary morou la) abrir novo itinerario uma falsa porta irá!

BONDE FOGOSO [4163]

Si, quando me queimei, ardeu-me o dedo, ja posso imaginar o que tu vaes sentir si eu te puzer fogo! Que mais deleita um bruxo sadico sem medo? Te ammarro e liberdade não concedo, ainda que me implores! Infernaes e ardentes labaredas, que jamais sentiras, sentirás! E ainda é cedo! Primeiro, deleitar-me aos poucos busco com essa scena quente que me inflamma e, emquanto a pelle allivio ja reclama, em ponctos isolados te chammusco! Depois que me chupares (e quem mamma não chora), accenderei, num gesto brusco, o isqueiro que illumina o luscofusco, cantando “Sobe, chamma! Sobe, chamma!”

O CAUTO CAUSO DA EXTERMINADORA DE MENDIGOS [4182]

“Coitada, é louca! (dizem) E varrida!” Ao vel-a gargalhar sozinha, a gente suspeita que a velhinha está demente, mas não que ella no crime reincida. Descobrem que ella sempre tira a vida dos outros com veneno, simplesmente nos coppos despejando um innocente pozinho exbranquiçado… E alguem duvida! “Não creio que ella coisas assim faça! Será possivel? Ella vive rindo de tudo, sempre alegre, achando graça, fazendo crer que o mundo seja lindo!”

Descobrem, mas é tarde! Com a raça a velha ja accabou, no seu infindo humor negro, de tantos, nesta praça! Cuidado com o que ella vae servindo!

O CAUTO CAUSO

DA

CURANDEIRA PROCURADA (1/10) [4251/4260]

(1)

Molecada experta, aquella que no matto entra e vasculha! A paizagem lhes revela o soppé da petrea agulha.

Da montanha, vê-se a bella amplidão, que expanta e orgulha. Um moleque aos mais appella e, apponctando, lhes diz: “Ulha!”

Advistando uma casinha, para alli ja se encaminha a curiosa molecada.

Porem, antes de chegar, scena notam, invulgar: uma velha, ao sol, sentada!

(2)

Ella, immovel, os advista. Nem se importa, todavia. Um garoto mais sarrista berra, accena: “Olha aqui, thia!”

Nada! A velha, nem que insista o garoto, não desvia seu olhar. Ja pouco dista della a turma, na follia.

De repente, um delles cae, quebra a perna e solta um ai de agudissima agonia.

Lhe ficou fractura exposta! Quem irá, naquella encosta, soccorrel-o? A velha iria!

(3)

Se approxima do moleque a extranhissima senhora.

Ella faz que o sangue seque e a ferida, então, melhora!

Lhes paresce de pileque estar ella, que a Deus ora, gesticula e, antes que impreque, entra em transe, urra, estertora!

Os amigos, que de tudo se convencem, teem um mudo sentimento de affeição.

Si quebrada estava a perna do garoto, agora eterna gratidão elles terão!

(4)

E retornam da montanha. Normalmente um delles anda, appesar dessa tamanha cicatriz, envolta em banda!

A turminha nem se accanha de, fazendo propaganda, bem fallar daquella extranha “thia”, immovel, na varanda!

Ninguem nelles accredita, pois a perna está bonita, sem vestigio da fractura!

Mas insistem: é verdade!

E ninguem se persuade de que a velha tudo cura!

(5)

Radiographam a perninha do garoto: lhes paresce que quebrada estava e tinha se curado! Isso accontesce?

Delle a mãe é que adivinha o occorrido: foi a prece dessa velha, a ladainha, que o curou, sem mais estresse!

Se commenta na cidade que a tal velha ninguem ha de encontrar, pois será bruxa!

Mas ahi que algum valente exhibir-se quiz na frente dos demais, e desembucha:

(6)

“Não podemos acceitar que uma bruxa la resida! Acharemos o logar e a traremos, mas com vida!”

-- Mas… e si ella recusar? -alguem, sceptico, duvida. “Virá morta!” É bem vulgar essa malta reunida.

Se organiza a expedição e, com base no que vão indicando os gurys, sobem.

O valente vae na frente e lidera aquella gente rancorosa: “Não se affobem!”

(7)

E, procura que procura, acham onde a feiticeira tem a casa. A tarde escura vae ficando, o sol se exgueira.

Sae a velha. Tem postura bem altiva e sobranceira. Intimada, com seccura na voz, falla: {Como queira!}

E accompanha seus captores. Apparenta sentir dores, mas caminha com firmeza.

Encarando um dos meninos, seu olhar dos mais malignos não é: torna-se indefesa.

(8)

O menino se perturba, ao olhal-a, e se appavora. Faz a festa toda a turba e a victoria commemora.

Onde a matta se conurba, chegam elles. Ella, agora, está presa, o que conturba a cidade sem demora.

Ja levada a julgamento, o juiz pede um momento de silencio e falla grosso: -- Cidadãos! Nós, hoje em dia, à maldicta bruxaria não podemos dar endosso!

(9)

Refestela-se na mesa esculpida e à velha falla: -- Quer fazer sua defesa? Ella, impavida, se cala.

Os meninos, com clareza, contam tudo. Attenta, a salla se impressiona com a presa feiticeira e quer lynchal-a.

Proferindo o veredicto, o juiz encerra o rito condemnando a velha à cella.

Esta appenas o fuzila com os olhos e, tranquilla, nem supplica, nem appella.

(10)

Sae, às pressas, o juiz, pois está passando mal. Ir p’ra casa elle nem quiz: vae directo ao hospital.

O valente que, feliz, se gabava, teve tal dysfuncção, que ja nem diz nada: falla por signal.

O menino que quebrara a perninha só se ampara em muletas, pois peora.

Si a velhinha vingativa lhes paresce, quem archiva seu processo corrobora.

ANTIETHICA GENETICA (1/10) [4491/4500]

(1)

Um casal muito animado, os paes della. Sua irman é tambem: tem namorado rico, athletico e galan.

São bonitas ambas, dado serem gemeas: folgazan uma, sempre olhando o lado positivo; outra, a villan.

Kathia chama-se a que tem riso franco, está de bem com a vida e nunca briga.

Cynthia chama-se a que a cara fecha e a porta fecha para um amor, o amigo, a amiga.

(2)

Cynthia tranca-se no quarto! Deciphral-a é o que, aqui, tento. Poetiza? Isso eu descharto: não tem de Emily o talento.

Seja surto ou seja parto prematuro, tudo advento. [avento] Todo mundo está ja farto de suppor um argumento.

Nunca mostra o rosto a Cynthia! Muitos tomam por accincte a attitude misanthropa.

Sociavel, mesmo, é Kathia! Haja alguem que desaccapte-a, si cahiu no mel a sopa!

(3)

Um cachorro Kathia tem, sem fallar do namorado.

Si tem Cynthia amado alguem, é segredo, esse, de estado.

Numa caixa, qual refem, Cynthia guarda com cuidado uma aranha, que lhe vem passear no braço dado.

Passa, a sós com a bichana, horas nessa doida, insana amizade confidente.

As más linguas fallam disso como um pacto, um compromisso entre pellos, bicho e gente.

(4)

Nem a propria mãe alli quer entrar mais, receosa. Cynthia appenas disso ri, a allisar sua lycosa.

Por aquillo que ja li, essa aranha é venenosa, mas, no caso desta aqui, com a dona ella se entrosa.

Piccará si ammeaçada, caso alguem o quarto invada, si estiver solta a bichana.

É melhor, por precaução, sem que Cynthia deixe, não entrar la, sinão se damna!

(5)

Pois não é que o tal cãozinho, encontrando entreaberta a fatal porta, bobinho, acceitou, temptado, a offerta?

No que entrou, viu o damninho bicho solto na coberta, a passar devagarinho. Dorme Cynthia e nem desperta.

Quando chega perto, o cão sente como si um ferrão agudissimo lhe entrasse.

Morrerá mais tarde, quando, mais sorrindo que chorando, o bebê de Kathia nasce.

(6)

Kathia perde seu mascotte mas mamãe é, toda attenta a quem chama de “filhote” e, entre beijos, ammammenta.

Ja nem ha quem bisbilhote no covil da rabugenta, rancorosa Cynthia, e bote rancor nisso! Quem a enfrenta?

Solteirona, agora thia de verdade, ella se enfia no seu quarto com a aranha.

Mais reclusa, agora, fica, remoendo sua zica, e attenção de ninguem ganha.

(7)

Cynthia vê que ninguem ia sentir falta della e sae de seu quarto: agora a thia cumprimenta a mãe, o pae.

Sorridente (Quem diria?), ella às compras até vae e ao sobrinho, de valia, dá presentes! Em si cae?

Talvez seja fingimento, mas mudou em cem por cento seu estylo secco e rude.

Kathia até nem jovial mais paresce agora, tal é da mana a juventude!

(8)

Mezes passam. O bebê pela casa ja passeia. A vovó chama, “Cadê meu nettinho?”, volta e meia.

Procurando fica e vê que está Cynthia, de mão cheia, se tornando babá… Crê quem quizer: que a velha creia!

A creança está no collo mais da thia que no solo apprendendo a caminhar.

Kathia, às vezes, com ciume, quer que o filho se accostume por si mesmo… Deu azar.

(9)

Numa dessas, o menino, irrequieto, sae da vista dos adultos e um vão fino duma porta aberta advista.

Não appenas o destino quer que a Morte não desista de rondar: um assassino gesto deixa alguma pista.

Caso Cynthia não tivesse tal descuido, agora a prece dos avós nem logar tinha!

Mas é tarde: o garotinho entrará no quarto e o ninho da lycosa ja exquadrinha!

(10)

Uma aranha-lobo fica mais feroz quando, em defesa do seu ninho, verifica que um menino é sua presa!

Sob a cama a “toca” estica seus limites: mão illesa ninguem mette alli, pois picca a lycosa com presteza!

Tanto fora o pote à bicca, que eu nem quero à scena rica de detalhes dar riqueza.

Dera Cynthia sempre a dica de que a aranha era uma crica em jejum de rolla tesa.

SUPERSTIÇÃO SUBESTIMADA [4734]

“Sou foda! Sou marrento! Sou marrudo! Si alguem me questionar, nem me molesto! Só pedra eu não attiro em cego! O resto eu faço e me lixando estou p’ra tudo!” Assim disse um malandro. Não me illudo: um gajo desses pensa até no incesto! Jogava, com certeza (eu proprio attesto) pedrada num ceguinho carrancudo. Achava-se que pedra, si attirada num cego, attrahiria a maldicção, pois bruxos de nós muitos sempre são, mas hoje não influe a praga em nada. Ao menos é o que pensa o marmanjão que adora appedrejar-me e dá risada si accerta a ponctaria: aguento cada cascalho! E o cara a rir, como dum cão!

ILLUSORIA TRAJECTORIA [4810]

Procurando a curandeira, um ceguinho della escuta: “Não, meu filho! Essa cegueira não tem cura! Não discuta!” Mas o cego acha besteira dar um credito à fajuta curandeira: {Caso eu queira me curar, irei à lucta!}

Ninguem mão de bruxas lance! Noutras dellas quem procura não encontra dessa cura a menor, mais rara chance!

Quem crê nellas que, então, danse! Annos passam, e o ceguinho bruxas tira do caminho.

Não ha besta que não canse!

RELENDO GUIMARÃES JUNIOR [5227]

Bom, este sonnettista! Muito bom! Fez, sobre um pé de moça, o mais perfeito sonnetto que encontrei. Do mesmo jeito retracta themas outros. Tem o dom! Junina festa. Todos andam, com algum receio, à noite: acham suspeito, no matto, um barulhinho. Eu, claro, acceito que exsistam bruxas… Ouçam esse som!

Fogueiras crepitando? Risos? Dansa? Festejam São João, appenas? Não!

Seria algum sabbath essa festança? Dedicam ao Cappeta a tal canção?

Até que poncto o risco nos alcança? Exquiva-se o poeta: de paixão nos falla… Mas, de medo, não descansa ninguem na roça quando é São João.

BOCCA DO POVO [5290]

Duvido que ella seja bruxa. Só por causa dos chazinhos que ella faz?

Magina! Tanta gente intenções más disfarsa, sem fazer cha desse pó! Affirmam que o pozinho da vovó é feito de substancias que, por traz da formula singella, dão aos chas poderes mysteriosos… Tenham dó!

Magina! Cada coisa teem fallado! Coitada! Só quer ella allivio dar aos gazes, ao estomago embrulhado, à tosse, à rouquidão, à falta d’ar! Não creio que ella tenha collocado naquelles pós, moido, um tumular ossinho, ou carne humana em mau estado, tal como do governo ouvi fallar.

DISSONNETTO DUMA PROPHECIA QUE ALLIVIA [5319]

Pego as chartas do baralho e, sem vel-as, as mixturo. Alguem acha que eu trabalho como bruxo, aqui no escuro. Não se tracta de acto falho: na verdade, algo eu appuro de proposito. E eu expalho: “Sim, serei propheta, eu juro!” Não esperem que eu delire! Quando pedem que eu retire uma charta, a scena adquire serio adspecto: eu ouço os demos! Pisarei em muito callo! Eu excolho a charta e fallo: “Ver eu posso! Vejo o abballo que, em mil annos, soffreremos.”

DISSONNETTO DUMA CAUSA INADDIAVEL [5384]

Que é que eu faço? Estou afflicto!

Donde tiro esse dinheiro?

Perco o emprego? Me demitto?

E meu carro? Encontro inteiro?

Candomblé? Não accredito!

Mago? Bruxo? Feiticeiro?

Chamarei Sancto Expedito!

Esse é mesmo milagreiro!

Ammanhan, si não me enganno, delle é dia, meu irmão!

Com fervor, aqui me irmano aos fieis que pedir vão.

Não! É hoje! É para agora!

Corra! Faça-lhe oração!

Quem adjuda não demora!

Quem demora adjuda ao Cão!

SOGRA QUE LOGRA [5511]

Não posso accreditar! Então exsiste um dia para a sogra? Quem será que teve tal idéa? Algum gagá? A delle, fallescida, o deixou triste? Em vida, rabugenta, dedo em riste, a velha ammeaçava. Agora, dá saudade a voz daquella bruxa má, coitada, sempre victima dum chiste. Talvez seja injustiça o que ja della fallaram: delirava, ardia em febre, surtava… Quem propoz que se celebre seu dia, tem razão, e ao senso appella. Jamais foi bruxa. Nunca num casebre morou, nem fez feitiço. Ainda bella, por cyma, foi, mas tarde se revela. Tabus, ha quem os lembre e quem os quebre.

TORPES LABÉUS [5610]

Chamaram-me do que era maldicção chamar, pois disso nada nos protege: satanico, prophano, bruxo, herege, sacrilego, blasphemo, atheu, pagão… Disseram que pornô sou e que não accapto uma moral, essa que rege os versos e valores bons elege… Disseram que só fallo palavrão. Resalvo que, comtudo, um porem ha naquillo que me accusam de fazer. O furo mais abbaixo um pouco está pr’aquelles que me querem entender: Meu sonho usar a lingua, sim, será, mas não para fallar e sim lamber! Sim, quero abrir a bocca, mas me dá vontade de que nella achem prazer!

BONS DONS [5631]

{Pertences, Glauco, a alguma dessas seitas? Que tu te julgas bruxo ou mago, ja fallaste disso muito. Mas vem ca, responde então: Por que não te approveitas? Protege-te! Te vinga das desfeitas! Te cura da cegueira, que tão má tornou a tua vida! Jeito dá na cama que te cabe e em que te deitas! A fama que meresces, por que não a crias? Por que editas sempre por pequenas editoras? Hem, Glaucão? Serias o maior, hoje, escriptor!} -- É facil explicar. Minha visão perdida compensar vou no que for possivel. Tu não notas, mas estão commigo os deuses. Tenho um defensor.

NOME FEIO [5670]

Mulher, que feiticeira seja, leva um nome que nos soa meio feio na lingua portugueza. Aqui nomeio Gertrudes, Hermengarda, Genoveva… Commum nesses paizes onde neva, tal nome, quando o citam, ja receio a praga, a maldicção, o manuseio de philtros e venenos, temo a treva. Mas tudo suggestão se nos paresce. O nome Geneviève, si em francez chamado, bello fica. Acham vocês que a bruxa agora até rejuvenesce? Talvez eu faça ao Demo minha prece, por isso me equivoco nos porquês. Mas sexta-feira, treze, todo mez de agosto, uma mulher me reconhesce.

LOUCURA SEM CURA [5720]

Me tractei na acupunctura e motivo para festa não vi. Dizem que ella cura… Xingo curas que nem esta. Me espetaram e foi dura a agonia. Quem attesta os effeitos da fé pura? A tractar-me quem se presta? Recorri tambem à bruxa, que diziam ser honesta. Mas a bruxa disse: “Puxa! Todo mago te detesta!” Me fallou Satan, na bucha: “A afflicção que te molesta nem tem rhyma!” Foi a ducha d’agua fria. Que me resta?

LEUCOPROPHILOS THEOLOGOS [5845]

{Hem, Glauco? O “beijo negro” não é dicto da bocca duma bruxa alli no rabo do Demo? Ora, pensando nisso, accabo chegando a reflexões que não evito… E o cu de Deus? Ninguem beija? Accredito que delle só beijaram a mão! Brabo ficou si lhe quizeram dar no nabo um beijo que entesasse… Estraga o rito! Hem? Thema theologico, Glaucão! Você não acha authentica a proposta de nisso nós pensarmos? Não apposta que muito se discuta tal questão?} -- Apposto. Mas não vejo um bom christão querendo do Senhor provar a bosta. Talvez um peccador queira, si gosta de caro pagar, antes do perdão…

MEME DA VERRUGA [5939]

Si for um condyloma, bem no cu se forma, mas na cara a coisa faz estrago mui maior, seja rapaz ou moça: a gente fica jururu. Ninguem acha bonito um rubro, cru caroço pela testa, nem appraz no queixo ou no nariz um que, aliaz, paresce uma castanha de caju. Imagem foi da bruxa mais fiel aquella nariguda, com verruga immensa, batatuda, alem de ruga no rosto todo, um typico pastel. Agora a mulherada faz papel de fada maquillada, mas sem fuga possivel da velhice, essa que estuga o passo com o tempo, que é cruel.

ESCRIPTA RESTRICTA [5968]

À practica do verso sei que calho, mas vejo muito auctor que na garrafa encontra inspiração e não se sapha de achar, entre dois goles, um attalho. Aos poucos, vae mudando o seu trabalho. Jamais um escriptor dactylographa. Agora só digita, sem estaffa. Assim é que calculo quanto valho. À machina saphei-me de escrever, e à mão, por me faltar calligraphia. Ao menos de teclar tenho o dever. Mas acham os que fazem poesia que sabem compor versos sem os ler alheios. Quem só tecla, a si plagia. Ao cego, seu teclado dá poder de mago ou de quem faça bruxaria.

MISCELLANEA DO SEXO FRAGIL [6003]

Mais della quer alguem qualquer virtude. “Muié”, “mulé”, “mulher”, “mulherh”, “mulhera”… Em cada cantho aos “ome” assumpto gera. Mas quem espera della mais se illude. Pensar nella com gozo pouco pude, pois muito mais presente e futil era a typica figura da megera que encanta ou que enfeitiça a juventude. Si for malvada, é vibora ou serpente. Si facil, é gallinha ou é cadella. Si temptadora, é gatta. Caso tempte demais, será panthera. Alguem por ella suspira? É ja pombinha. A mãe da gente, porem, é só sanctinha, feia ou bella. A alguma foi alguem indifferente, mas para a mãe a gente sempre appella.

LITORGIA [6091]

Faz tempo que não fallo com a bruxa. Agora a pego, calma, bem de jeito. Pergunto o que, commigo, ja suspeito. E a missa negra? A velha desembucha: {Ah, Glauco! Cê ja sabe disso, puxa! A gente colla a bocca alli, direito nas pregas. Passa a lingua, num effeito de lixa. Sim, de esponja. Até de bucha. Descrevo um movimento circular lingual. Algum volume está adherido às dobras. Que engolir eu nem duvido si tenho. Satan deixa sem limpar. As outras tambem querem o logar. Então eu cedo. Fico vendo. O ouvido sons capta, borbulhantes. Tá servido, Glauquinho? Faltou coisa a perguntar?}

MATTOSALEM [6094]

Disseram-me que muito viverei por ser considerado bruxo, mas ter mais longevidade não me faz nem principe dos lyricos, nem rei. Não sei si vou viver muito. Só sei que eterno compromisso o verso traz si for o nosso thema a Satanaz entregue e si seguirmos sua lei. Até que thematizo o Demo, sim, mas não com toda aquella gravidade. Por isso é que elle sempre persuade a bruxa ao “beijo negro”, não a mim. Provei, sim, seu chulé. Nem tão ruim achei, pois, affinal, sou fan de Sade. Mas, para alguem tão velho, Satan ha de convir que menos fede que um pé “teen”.

HASHTAG FOI MAU [6152]

Foi sua maldicção, cego damnado! Agora que recluso totalmente ficou pela cegueira, você sente inveja dos que estão em bom estado! Por isso é que, Glaucão, me desaggrado com sua bruxaria! Pela frente eu vejo tudo, luzes, cores, crente na vida, no futuro, no passado! Você, não! Por estar ja no degrau mais baixo, dependente, em casa fica rancores remoendo! Quer que zica egual todos tenhamos, e babau! Quer todos affundando nessa nau comsigo! Sei que a Juppiter supplica por essa quarentena! Ah, Glauco! Picca tomar deve no rabo, ouviu! Foi mau!

IMMAGICO [6248]

Responde-me, Glaucão: por que te dizes um bruxo, um mago, um typico propheta? Appenas porque, cego, ja te affecta a perda dos momentos mais felizes? Appenas porque exaltas os deslises daquelles que na merda mais completa chafurdam e por seres quem sonnetta accerca de immundicies que tu pises? Mas, Glauco, quem mandou tu seres quem humilha a personagem dum ceguinho? Quem foi que permittiu-te esse mesquinho direito de, em “missão”, seres refem? Foi elle? Foi Satan? Quem mais, alem de Lucifer, te inspira? Ah, não allinho meu codigo comtigo! Meu caminho me leva ao céu! Te cuida, Glaucão, hem?

MACHIAVELLICO [6265]

Tu queres cultuar a minha luz? Mas lembra-te, ceguinho, de que eu não sou unico, mas uma legião! Qualquer das minhas luzes te seduz? Advirto-te que um preço ja te impuz a fim de que tu possas ter visão das coisas, mesmo sendo-te illusão: terás que me beijar em muitos cus!

Estás bem preparado? Os bruxos, sim, estão e lingua longa affundam em meu anus! Tens tal lingua, cego? Vem, então, te emporcalhar dentro de mim! À toa Satanaz a ser não vim!

Eu sou machiavellico, meu bem! A lingua que me excita nojo tem?

Terá que bom achar o que é ruim!

FÉ REQUENTADA [6296]

Tu sabes que sou bruxa! Não me evado de causas, consequencias… Não, de nada! Respondo, Glauco, quando perguntada, que é Deus, mesmo, o Diabo disfarsado! Jamais Deus exsistiu! O seu recado, suppostamente biblico, que enfada qualquer pensante cerebro, nem fada aguenta, muito menos quem é sado! Satan, porem, permitte que a figura christan do Omnipotente seja crida, emquanto da gentalha azara a vida e desce dos politicos à altura! luxuria, perversão, vicios, usura, virtudes são, satanicas! Incida alguem nalguma dellas, e valida o pacto, mas sae cara a sua jura!

ARES CAVALLARES [6314]

Archanjos cavalgar querem, si fores dar credito ao que expoz Jorge de Lima. Eu mesma, que sou bruxa, vou em cyma daquillo que escreveram taes auctores. Porem tu me perguntas si fedores maiores teem os peidos (e se estima que tenham) do cavallo de quem prima por cheiro ter de enxofre entre os odores. Sim, Glauco! De Satan peida fedido o mystico cavallo! Porem ha odor ‘inda peor: aquella má fumaça que Satan peida, querido! Si queres saber, mesmo, te convido ao beijo que nós damos, no Sabbath, naquelle trazeirão! Ah, Glaucão! Ah! Que exsista aroma assim até duvido!

DOSIMETRIA [6315]

O peido do Diabo! Mas que thema phantastico, Glaucão! Si fazem chiste, que façam, ora! Achei que não exsiste questão mais seria que essa these extrema! Si fede enxofre, deve ser problema do grau, da gradação… Acaso ouviste fallar da bruxa Alice? Ella bem triste está! Dirás si é justo que ella gema… Punida por Satan, por ter seus gazes ousado recusar, Alice está sentindo delles muita falta, ja! Terá mais chance, idéa tu ja fazes! No proximo Sabbath, fazer as pazes Alice com o Demo poderá! Mas só si supportar aquella má fragrancia! Augmenta a dose, nessas phases!

PLENA DISCIPLINA [6363]

De julho o vinte e quattro boa data ao sadomasochismo, Glaucão, é, em cuja acceitação eu boto fé por ter explicação brilhante e exacta! Quem serve, em septe dias cumpre e accapta as ordens que recebe, sob o pé de quem tenha poder de ser até mais forte que Satan e que lhe batta! Alem de, na semana, todo dia servir, todas as horas servirá de cada dia. Ahi, pois, é que está a compta mathematica! Sabia? Glaucão, sem servidão o que seria de mestres e de escravos? Que será das bruxas sem Satan, sem o sabbath? Feliz foi essa astral chronologia!

BRUXA LUXENTA [6394]

Glaucão, eu amo Lucifer, sabia? Sou mesmo ouriçadissima por seu sorriso de malandro, de plebeu folgado que, em tesão, nos assedia! Mas sabe, Glauco? É muita covardia que exija de nós todas, achei eu, o beijo no seu anus, que fedeu cocô recem cagado! Que mania! Eu faço o que elle queira: chupo o phallo de bode fodedor, deixo na chota, no recto me comer… Mas nessa quota oral de sacrificio não me rallo!

Você talvez, Glaucão, que ja tem callo na lingua, achasse leve essa devota beijoca anilingual, mas a velhota aqui tem nojo! Creia no que eu fallo!

MALFADADA FACHADA [6440]

Horror, Glauco! Um horror! Estou chocada! Você bem sabe, Glauco, que sou bruxa! De nada tenho medo! Não! Mas, puxa, aquella apparição foi malfadada! Nós todas, que treinadas como fada ja fomos, vemos gente tão gorducha, magrella, feia, bella… Mas na bucha pergunto: ja viu cara tão fechada?

Malvada, aquella fada nem collega eu quero que, na vida, minha seja!

Na face tem feição tão malfazeja que, só de vel-a, a praga a gente pega! Si vista for à noite, ninguem nega, nos causa tal pavor, que quem esteja sozinho, si cagou-se, nem lhe peja contar que em propria merda se excorrega!

DOLORIDO ALLARIDO [6477]

Estou sentindo tanta dor, mas tanta, por todo o corpanzil, ja tão malhado, que venho lhe pedir um dedicado poema, aquelle magico, que encanta! Você, que é bruxo, um verso faz que expanta encostos, como tantos que meu lado não deixam em paz, Glauco! O mau olhado me tolhe! Estou de praga até a garganta! Calcule só! Meu pincto, que jamais brochou, agora brocha! De tamanho até diminuiu! Ja não me assanho tal como outrora! Culpa dos chacaes! Me resta confiar que estes meus ais seus versos alliviem, como um banho de essencias milagrosas, ou appanho a peste e taes auês serão finaes!

I PUT A SPELL ON YOU [6620]

Não, Glauco, não me entenda mal! Foi isso um leve encantamento, simplesmente, jamais, como commenta aquella gente maldosa, alguma praga, algum feitiço! Practico bruxaria, sim! Serviço prestei, ja, para alguem bem influente, mas, quando uma paixão a gente sente, precisa appellar! Nunca sou ommisso! Por ella appaixonei-me, Glauco! O caso é simples: sou tão feio que, si não puder enfeitiçal-a, Ricardão não falta! Ficarei no meu attrazo! Você, que com as lendas do Parnaso se basta, satisfaz-se com a mão! Contenta-se, depois duma micção, com essa fedentina, alli no vaso!

CRENTE DEFICIENTE [6836]

Poeta, si perdesses a visão em epocha de Christo, que dirias àquelle que das trevas mais sombrias curava quem dissesse ser christão?

Dirias que em Satan não crês e não practicas as mais negras bruxarias?

Dirias que consagras os teus dias restantes ao Senhor e à salvação?

Dirias que teu verso ja até crê na palavra de Jesus e de Moysés?

Dirias que sacrilego não és e nunca maldisseste tua pena?

Dirias que, tal como Magdalena, querias é lavar de Christo os pés, beijal-os e lambel-os attravés dos dedos? Mas tal coisa Deus condemna!

MOTTE GLOSADO (1/2) [7410]

O fiel a sancta cruz beija e prova a sua fé.

(1)

Ao Demonio me dispuz, no sabbath, a dar a cara e saber si é como, para o fiel, a sancta cruz. Mas aquelle era, dos cus, o peor, mais sujo até que um exgotto normal é. Bocca alli tive que pôr, onde a bruxa, ante o fedor, beija e prova a sua fé.

(2)

Ao beijar o cu do Cão, levo um peido e sinto o cheiro. Ao lamber os beiços, beiro a loucura, pois é tão amargoso o cagalhão transitado alli, que até me pergunto si não é bem melhor crer em Jesus… O fiel a sancta cruz beija e prova a sua fé.

MOTTE GLOSADO [7463]

Eu não creio em bruxas, mas… em phantasmas… Minha nossa!

Expalhar noticias más me paresce bruxaria, que a mim nunca affectaria. Eu não creio em bruxas, mas sei que muita gente em paz ja nem dorme e se alvoroça, com pavor de que alguem possa, de repente, entrar no quarto! Sim, eu fallo (e os não descharto) em phantasmas… Minha nossa!

MOTTE GLOSADO (1/2) [7603]

Não tolero som extranho. Me paresce ser do Cão.

(1)

Heavy metal? Funk? Aquillo não é musica de gente? Apparenta ser dum ente diabolico esse estylo que me deixa ou intranquillo ou dopado, mais então si for foda o pancadão! Coça o cu! Não dá! Me assanho! Não tolero som extranho. Me paresce ser do Cão.

(2)

Quando beija o cu do Demo, uma bruxa faz barulho exquisito, que eu borbulho com a lingua si não temo imitar: resmungo, gemo, assobio nesse vão peidorrento do cagão infernal, do qual puns ganho. Não tolero som extranho. Me paresce ser do Cão.

MOTTE GLOSADO [7644]

Quem fallou que um metalleiro satanista se declara?

Imagina! Um cabelludo rapazelho de “bruxinho” ser chamado! Me apporrinho com tal peta! Eu é que grudo no Cappeta e sou de tudo accusado bem na cara! Quem tal typo ao Cão compara leia versos meus primeiro! Quem fallou que um metalleiro satanista se declara?

MANIFESTO SATANISTA (1/6) [7919]

(1)

“Entendo disso, Glauco! Quando alguem fez pacto com Satan, eu reconhesço! Bastante é nos seus olhos olhar bem e vejo si mui alto foi o preço!”

(2)

“Não basta que invoquemos, em Salem, Turim, Apparescida ou no endereço dum templo ou dum terreiro, o que nos vem em forma dum Exu, torpe e travesso!”

(3)

“Mas urge incorporal-o, Glauco! O Alem excolhe seus discipulos! Advesso não sendo a Satanaz, você tambem cedeu, não é? Me conte do começo!”

(4)

-- Você desconfiou? Que viu em mim? Ah, claro! Viu meu olho, que postiço não é, mas azulado pelo fim das luzes na cegueira, foi por isso!

(5)

Então sabe que Lucifer ruim jamais tem sido! Tenho um compromisso com elle, como o “bluesman”! Quando vim a versos compor, houve esse feitiço!

(6)

Agora virou vicio! Posso, emfim, dizer a quem, de facto, sou submisso! Só faço sacrificio no festim, beijando um cu que nunca foi castiço!

MANIFESTO MANICHEISTA (1/2) [7952]

(1)

“Não, Glauco! Não sou bruxa! Você, sim, é bruxo! Sou é fada! Sou do bem! Você ficou refem da perversão, querido! Não lhe quero mal, mas vamos convir que excolhi certo! Escrevo e leio somente coisas boas! Nunca fallo de nojo, de sujeira, mijo e merda! Sou limpa! Positivas vibrações transmitto, Glauco! Pense no que digo! Em tempo ainda está de bandear-se ao lado bom da vida, meu querido!”

(2)

-- Que bom que tem você pena de mim, amiga! Quem teria? Mais ninguem! Mas vamos e venhamos… Quantos são os lados da questão? Quantos os ramos por arvore? Pensou nisso? Recreio bem pode ser aquillo que, no callo de alguns, é descomforto. Quem bem herda a fama dos maldictos, com Camões não briga, minha amiga. Si commigo você combina, vamos sem disfarse vivendo. A tal convivio é que a convido!

MANIFESTO MATERIALISTA (1/2) [7953]

(1)

“Eu, como uma analysta financeira quotada que sou, digo-lhe, Glauquinho: Da vida não se leva nada! Nada! Entende, queridinho? É justamente por isso que eu a todos recommendo gastar, sem culpa, a grana, viajar, comer bem, badalar, curtir o luxo possivel e pagavel! Mas p’ra tanto, fofinho meu, nós temos que saber bem como o nosso rico dinheirinho se investe e multiplica, certo? O meio mais rapido e rentavel não é nem poupar na caderneta, que dá pouco, nem bolsa de valores, cujo risco é grande, e sim na rede virtual! Exacto! No cryptouro! Ouviu fallar, Glauquinho? Quer que explique isso melhor?”

(2)

-- Magina! Não precisa! Da maneira emphatica que falla, com carinho, prometto, pensarei nessa jogada! Qual mesmo? Cyberouro? Que se invente não falta, ja, mais nada, ‘tou sabendo, p’ra gente especular… ou applicar, tal como diz você. Ja que sou bruxo, não saco desses saques, mas garanto que sei como ganhar, no bolso ter o tal philosophal poder. Bom vinho e boa pastasciutta ja bem cheio me deixam, minha amiga. Aqui, porem, confesso que me deixa mesmo louco um vicio que não custa, nem petisco algum vale em sabor: o sensual prazer da poesia. Paladar nenhum deu-me o que a lyra dá de cor.

MANIFESTO PROSELYTISTA (1/2) [7954]

(1)

“Sou bruxa, sim, Glaucão! Sem culpa, assumo! Até vou convidar você, meu caro, a minha activa seita conhescer! Você, que eu sei, é bruxo. Quanto a mim, fundei um movimento satanista ao qual ja muitos magos adheriram. Faremos, Glauco, junctos um tremendo furor! Agitaremos o pedaço!

Nem pedra sobre pedra deixaremos!

Estude do bruxismo com carinho o methodo proposto e dê retorno, Glaucão! Aos inimigos nós iremos causar choro e ranger de dentes, hem?”

(2)

-- Lamento não seguir o mesmo rhumo que segue você, linda! Não declaro que estou em desaccordo. Com prazer festejo o movimento. Mas festim egual faço sozinho. Sem a vista, prefiro na clausura, aos que me admiram, mensagens enviar. Só recommendo cuidado com os dentes e lhe faço, tambem, a confissão: de tanto os demos ouvir, mordi da lingua um pedacinho… Agora mais insomne, tal suborno evito. Equidistante dos extremos, versejo sem razão dar a ninguem.

CONTRADICTORIO REPOSITORIO (1/2) [8072]

(1)

{Explica-me ca, Glauco, si és capaz: Os taes bozonazistas roxos, ou melhor, “bozolavistas”, são capazes de entrar nas nossas redes sociaes, milhões multiplicados por robôs, de memes expalhar, reputações com fake news de prompto diffamar, ir contra tudo, todos, que qualquer “mythada” denunciem por inteiro, incitam attemptados, golpes, actos contrarios ao estado de direito, às instituições… emfim, se gaba aquella turma toda de ser craque na guerra cultural… mas, todavia, porem, comtudo… fragil e impotente está perante cada “vazajacto” mambembe que espiona a mais banal conversa familiar! Glauco, me explica tamanha, tanta antithese, si podes ser bruxo, feiticeiro, ou…bem… vidente!}

(2)

-- Bem simples de explicar, caro rapaz. Tu sabes que entendido disto sou, de paremiologia. Tu, que fazes estudos tambem nessas culturaes sciencias, das mais cultas às pornôs, na certa adagio magico suppões que exsista para tudo. Vou citar aquelle que se applica de colher ao caso, ou seja: Casa de ferreiro, espeto de pau. Tenho os meus sapatos, tambem, appertadinhos. Sou perfeito exemplo do dictado, que me enraba. Sou bibliothecario, mas não ha que achar na minha estante a theoria

de eschola. Alli meus livros apparente idéa dão de estarem com sensato viés classificados, mas total a minha confusão se verifica.

Versiculos mixturam-se com odes, valsinha com rockão independente…

HELPING HAND (1/2) [8089]

(1)

{Eu tenho uma pergunta, Glauco, tão difficil de propor! Será que tu podias teus espiritos fazer, tambem, que me assistissem? Tu podias pedir a teus demonios o favor de, em sonhos, inspirar-me, Glauco, porra! Preciso duma adjuda, pois está tão fracco o meu poema, amigo! Vae, não sejas egoista, Glauco! Quero que tires essa duvida, affinal! Que tu me exclarescesses eu queria!}

(2)

-- Disseste bem: querias. Mas eu não te posso responder. Tomar no cu jamais irei mandar-te. Meu dever foi sempre pelas boas companhias zelar, com os meus prestimos de auctor maldicto. Mas nem sempre de Gomorrha, Sodoma, alem de Roma, vem a má ou boa bruxaria, nem meu pae permitte, elle que espirito severo tem sido, que favor eu faça tal, nem vive de favor a poesia.

CUESTA ABAJO (1/2) [8099]

(1)

{Que estás a pensar, Glauco, de mim? Pensas que devo ser modesta por que? Estás em duvida si tenho os predicados que tenho? Olha bem para a minha cara! Ah, deixa p’ra la! Cego estás, me exquesço. Mas sabes por demais como fui linda, charmosa, actriz famosa, até cantora! De sobra meu talento foi notado! Modestia? Qual modestia! Glauco, o meu exemplo mais marcante é o da Sarita, que sempre repetiu ser forte em tudo! Tambem sou diva, musa, bruxa, fada! Não passas tu por mago? Pois eu sou é quasi semideusa! Vae, pergunta ahi na rua, pelas praças, pelas barracas dos feirantes, pelos bancos todinhos de jardim! Sim, te dirão quem fui, quem sou, quem sempre serei: uma estrella, não cadente, mas brilhante!}

(2)

-- Eu nunca duvidei dessas immensas e bellas qualidades tuas, mas a zona que frequentas, pelos lados do corrego, mal hoje se compara aos tempos do coretto, do começo do seculo passado. Sim, ainda tens fama, si me informo com quem fora gary, choffer de taxi, delegado… Comtudo, o tempo passa. Ja cedeu logar o cinemão à tal mesquita, que, quando demolida, ao mais classudo puteiro passou poncto. Uma moçada mais nova fatalmente do teu show ja não se lembrará. Que tu defuncta

estejas, muitos acham. Das estrellas bem poucos são fans, hoje. Teus tamancos, porem, fazem successo, pois te são roubados com frequencia. Lhes perfuma teu cheiro o material. Não é bastante?

INFINITILHO DO ESPELHO (1/2) [8100]

(1)

{Entendo você, Glauco, pois tambem sou bruxa, feiticeira, maga, barda. Não era, ‘inda menina, todavia, tão má, nem vingativa. De repente fiquei, depois que vi meu namorado de infancia me trocar pela garota mais linda do collegio. Foi então que, vendo-me no espelho, descobri quão feia poderá ser a creança depois da rejeição. Naquelle dia não houve sol. Appenas a neblina tomou compta do bairro, da cidade. Não sou do typo Carrie, você sabe. Meu methodo tem sido como o seu, mental, mais litterario. Mas consigo, de facto, compensar o que soffri. Discipulas ja tenho, tambem boas nas artes da maldade, Glauco. Nós sabemos nos virar na nossa praia, não é? Você se sente compensado?}

(2)

-- Eu? Nunca! Compensado não sou, nem ninguem, duma cegueira. Mas me guarda Zeus dessas taes “discipulas”. Quem cria mais fake news que toda a sua gente? Daquellas fofoqueiras eu me evado! Mas pense bem, querida: cada gotta de lagryma chorada por nós não tem nada que compense. Quem se ri da gente chorará, mas a vingança é Zeus quem determina. Cê se via no espelho. Mas nem disso um cego opina. Parou para pensar? Não, ninguem ha de saber como me sinto. Não me cabe

saber como você se sente. Deu, a cada, Zeus um fardo. Meu castigo eu cumpro versejando. De persi, é cada qual um bruxo. Minhas loas vão para quem me goza, cuja voz me serve de incentivo. Quem me caia na teia que experneie, esse coitado!

JEITINHOSO [8669]

Simploria, a senhorinha me pergunta: “Seu Glauco, ja que bruxo o senhor é, me diga: Deus castiga, não castiga? Ao quincto dos infernos manda quem peccou! Não é verdade? E quem está alli, tomando compta desse inferno? Satan, não é verdade? Então Satan de Deus está a serviço, castigando aquelle que Deus manda castigar! Então Deus é peor que Satanaz, pois elle é quem decide si você meresce ir ao Diabo que carregue a sua alma damnada às labaredas! Quem é que salva a gente, então, seu Glauco?” Pensei e respondi: -- Só Satan mesmo! Deus manda, mas Satan desobedesce, depende só da gente. Si soubermos com jeito pactuar… -- A senhorinha paresce que entendeu, pois me sorriu.

POÇÃO MAGICA [8831]

Desculpa ahi, Glaucão, mas eu preciso saber de ti: Si és bruxo, não conhesces alguma poção magica que faça algum subjeito feio pegar uma mulher dessas lindissimas, com ella trepar dando umas quattro sem tirar de dentro, repetir todas as noites? Entendo… Si exsistisse tal poção, tambem te impediria de perder a vista… Mas um philtro tu conhesces, capaz de me illudir por um momento, fazer-me crer que lindo sou! Não é? Conhesces? Como? Um simples licor? Ah! Licor da Bruxa? A gente dorme e sonha? Preciso disso, cara! “Adonde” encontro? É mesmo? Um italiano de mentira é facil de encontrar? Gostei da dica! Commigo tu não queres tomar umas? Quem sabe me transmittes tu teus sonhos! Melhor não? Tu que sabes… Mas valeu!

SALUTE! [8853]

Você jamais na vida me viu, Glauco! Distante prima sua sou! Só quero brindar à sua lyrica cegueira e sua litteraria maldicção! De tudo sei e quero lhe contar, primão, si é que você disso não sabe!

A sua avó materna jogou pragas satanicas em cyma de você por causa do maldicto casamento da sua mãe, fugida, com um pobre, ainda que italiano tambem fosse! Nasceu você, portanto, ja marcado, emquanto Satanaz dava risada!

Ja sabe que eu sabia, primo? Pois um vinho vou abrir agora! Ria commigo! Sou tambem bruxa, primão! Parentes ambos temos em Turim!

TOQUE AGRIDOCE [8896]

Sou bruxa, você sabe muito bem, querido Glauco! O vinho que lhe estou servindo por Satan foi baptizado! Sim, isso mesmo, o Vinho do Diabo! Provou, ja? Puxa! Até pensei que não! E então? Ja reconhesce esse sabor? Disseram que paresce ser do mijo que Lucifer destilla, mas é peta! O gosto mais me lembra aquella baba azeda, ao mesmo tempo doce, delle! Sabor incomparavel! Mas eu sei por que gosta você dessa bebida! Satan não só seu pão ammassa com as mãos: tambem as uvas com seus pés!

JOGOS MAGICOS [9217]

Rockeiros ja brincaram de magia, de bruxo, feiticeiro ou mago, mas quem pode brincar, mesmo, nunca brinca. Você, que tanto curte Sam the Sham, ja deve ter risadas muitas dado daquella brincadeira adolescente, Glaucão. Mas lhe pergunto: quem escuta um som mais satanista acaso pode crer nisso de verdade? Caso creia, talvez orgias faça com a trilha rockeira que com sadomasochismo mais tenha a ver, Glaucão! Ja pensou nisso? Pensou? Até lambeu, dum metalleiro, a sola chulepenta? Ah, fico por aqui! Nada mais posso perguntar.

BRUXO DE LUXO? [9343]

Pensaste, menestrel, em ficar rico cobrando pelas tuas prophecias? És bruxo, não és, Glauco? Pois então! Precisas explorar esses teus dons! Não podes? Não entendo… Por que, Glauco? Então, ou grana ganhas, ou poemas escreves, de valor? Não é possivel junctar as duas coisas? Mas que duvida!

Eu ca preferiria ganhar grana…

MATRIMONIAL? [9912]

Aquelle jogador, de tão famoso, é muit’assediado pelas fans, que levam ao estadio seus chartazes com esses costumeiros phraseados: “Amor, casa commigo!” “Quero sua cueca!” “Quero sua meia!” “Quero um filho seu!” Pergunto: o que teriam a ver as peças intimas com um desejo de casarem com o craque? Será que gostariam de fazer feitiço, como ouvi ja commentarem? Você não faz feitiço com a meia furada que eu lhe vendo, Glauco, faz?

FESTIM SEM FIM [10.199]

Concordo, não exsiste melhor data aos bruxos, quando outubro chega ao fim, que aquella mais festiva, que arremacta as minhas phantasias: Halloween.

Nem fallo, certamente, dessa chata e esnobe molecada; fallo, sim, dos magos e gurus, da velha natta de fama satanista, minha affim.

Aquelle Harry Potter que se foda! Eu, lyrico, commigo tenho toda a celebre familia, no sabbath!

Bebê de Rosemary: em meu armario o fundo falso um breve itinerario abrir-se ao infernal porvir irá.

DIA DA MADRINHA [10.351]

Não tive, como magica madrinha, quem fosse, nesta vida, aquella fada. Appenas uma thia que, coitada, nem grana para algum presente tinha.

Amigos bruxos contam, nessa linha de historias, que fadinha teve cada um delles. Perguntei si tudo ou nada fizeram as babás da carochinha.

“A minha me deu aulas de magia!” “A minha me ensignou a ser vidente!” “A minha me ensignou philosophia!”

Pensei aqui commigo: quem se sente por baixo, sendo cego, mais queria aquella que puddim faz, e cha quente…

DIA DA HERALDICA [10.404]

Os symbolos secretos estão, por milhares de brazões, representados. São signos que, satanicos, recados nos passam, de poder e de terror.

Amigos tenho, bruxos, que suppor ninguem iria. Guardam, com cuidados mil, sua descendencia. Taes guardados incluem muitas joias de valor.

Um delles me mostrou o que seria a bota de Satan. Eu a do Judas conhesço, que perdera certo dia.

Palavras, não as tenho. Tive, mudas de expanto, reacções de quem confia. Sim, uma das reliquias mais cascudas!

DIA DAS PLANTAS MEDICINAES [10.576]

O cha de chamomilla cura amor!

O cha de herva cidreira dá somneira!

O cha de boldo cura até frieira!

O cha de quebra-pedra accalma a dor!

Funccionam? Não funccionam? Quem suppor irá que estou mentindo? Só quem queira dum bruxo duvidar! Minha chaleira se indica para tudo quanto for!

Você tambem é bruxo, que eu sei, vate! Por que é que, em vez do quente chocolate, não toma meu chazinho curativo?

Não tenho uma plantinha que lhe tracte das dores oculares, mas dum matte amargo eu, masochista, não me privo!

DIA DOS NUMEROS KABBALISTICOS [10.677]

Não, Glauco, nem precisa ser um anno certinho, como foi dois mil e vinte, em dois de fevereiro, num requincte, de facto, palindromico! Não, mano!

Ja basta que estejamos num uffano primeiro de janeiro, pois seguinte se torna mez e dia, sem accincte, egual nessa comptagem! Sem enganno!

São numeros que, quando coincide de serem kabbalisticos, nós temos que bruxos ser, pois somos quem decide!

Proveito tire, Glauco! Com os demos! Componha alguns sonnettos que, em revide, compensem todos esses seus extremos!

DIA DO PHILTRO MAGICO [10.787]

Um philtro não se filtra. Não confunda ninguem essas origens. A poção que “magica” se diga tem a mão dum bruxo ou alchymista. Ahi redunda.

Difficil, hoje em dia, quem profunda noção dessas receitas tem, que são às vezes infalliveis na questão erotica, até mesmo pela bunda.

Não faço mera rhyma. Conhesci um gajo que queria abrir o cu mas tinha aquelle medo. Ouço quem ri.

Tomou dum bruxo o philtro. O tal tabu perdeu effeito. O cara até chichi aguenta receber… E faz “Uhu!”

OUTRO DIA DE COMBATTE À INTOLERANCIA RELIGIOSA [10.808]

Não, Glauco! Não consigo tolerar tamanha intolerancia! Feiticeira me chamam! Querem ver minha caveira! Não posso mais viver neste logar!

Disseram que Satan vou cultuar na sexta-feira à noite, que quem queira chas magicos, poções, vem aqui! Beira a falta de respeito! Vou chiar!

Tá certo que sou bruxa, que sou maga, mas isso não implica que eu devota me torne de Satan, que jogue praga!

Ah, deixe estar, Glaucão! Esse idiota que coisas taes postou, elle me paga! Irá se transformar numa marmota!

Me lembro duma velha thia minha, com fama, sim, de bruxa. Por que não, si todos na familia algum condão teem para a bruxaria? Eis que ella tinha!

Sabendo como um cego se apporrinha, tithia até sentia compaixão. Ahi mostrava como tinha mão de fada nos chazinhos da cozinha.

Não posso ver mais nada, mas, assim que aquelle cha doidissimo bebia, eu via as cores todas, sem ter fim!

Tal como si estivera, à luz do dia, olhando as flores varias dum jardim, por esse bom momento ja valia!

DIA DO CHA MUITO LOUCO [10.844]

DIA DO SUPERHOMEM [11.077]

Totaes superpoderes ninguem tem, Glaucão! Um superhomem poderia foder muitas mulheres? Gozaria orgasmos infinitos? Sabe quem?

Quem sabe mais poder tem esse zen buddhista que medita, que tem fria visão e fazer pode prophecia do pessimo porvir que ja nos vem?

Você, Glaucão, que é bruxo, tem a mente fortissima! Sem physico poder, destroe seus inimigos, inclemente!

Não sendo um supermacho, seu prazer consiste na desforra! Ah, ninguem tente nas lettras esnobal-o, pois vae ter!

DIA DA MADRASTA [11.127]

Coitada da madrasta! Às vezes nada fez ella de mal para levar fama de bruxa, de megera! Só quem ama os filhos comprehende essa coitada!

A minha, menestrel, era affamada com toda a propriedade, ja que dama cortez nunca foi! Dizem que, na cama, a velha até virava a melhor fada!

Um unico problema constrangia a todos: a megera só trepava com essa molecada mais vadia!

Eu nunca me metti: sou quem mais lava as mãos nessa bagunça! Affinal, ia trepar essa mulher com uma trava?

DIA DO BEIJO DE LINGUA [11.186]

Seria antihygienico um tal acto buccal e sexual? Talvez, segundo os medicos, mas não no meu submundo erotico, onde é sujo esse contacto.

O beijo negro, pelo oral relato das bruxas satanistas, tem immundo effeito, pois tal anus eu redundo si digo que é, de facto, o mais ingrato.

Satan não limpa a bunda. Assim, quem dá de lingua aquelle beijo verdadeiro cocôs está lambendo, ora si está!

Não quero nem lembrar! Alem do cheiro de enxophre, degustei a merda ja grudada alli faz tempo, companheiro!

DIA DA LONGEVIDADE SAUDAVEL [11.277]

Irás viver, Glaucão, até teus cem anninhos! Te garanto, como teu leitor, que meu avô tambem viveu cem annos, se sentindo muito bem!

Entendo que não sejas, Glauco, um zen buddhista, nem siquer epicureu philosopho, mas posso dizer: eu prevejo que és mais forte que ninguem!

Um bruxo, ou mago, penso que tu sejas! Compensas, na cegueira, toda a tua tragedia com, no bollo, umas cerejas!

Sonnettos fazes sempre (e continua te sendo um bello thema) sobre egrejas satanicas, alem da nua rua!

HALLOWEEN DAY [11.349]

Embora a creançada, nesse dia, encare tudo como brincadeira, a gente, menestrel, sempre se inteira dos negros rituaes de bruxaria!

Eu mesmo, nessa noite, tive fria e tetrica accolhida! Alli na beira da matta, me fizeram ser quem cheira e beija sujas pregas! Não sorria!

Sim, Glauco, fallo serio! Satanaz estava alli, lhe juro, se sentando por sobre minha bocca, como faz!

Emquanto lhe fiquei sob o commando, provei sujos sabores e seu gaz entrou-me no nariz! Odor nefando!

SONNETTO DA MISOGYNIA POETICA [13.038]

Achou o Cruz e Souza morbidez demais numa mulher que elle compara à planta venenosa. Não é rara a perfida noção que ja se fez.

Si lesbica for ella, duma vez por todas, se deduz que encarna a tara maligna dessas bruxas que teem, para as lendas, a mais torpe sordidez.

Alguns bardos, de medo, morrem duma mulher, cujo retracto fazem só de modo horrorizado, que eu resuma…

Não tenho, nem do Souza, qualquer dó. Quem for, ora, misogyno, se assuma! Sinão, é bruxa até nossa vovó…

SONNETTO DOS RECEPTADORES DE HORRORES [13.210]

Glaucão, é minha thia feiticeira! Te juro! Mas não topa ser chamada de bruxa! Só de maga! Não lhe aggrada a fama que é, das bruxas, costumeira!

À noite, ella (a segui, Glaucão) se exgueira por entre velhos tumulos e nada impede que exhumar tente essa arcada dentaria que, dourada, acho na feira!

Sim, Glauco! No meu bairro, os camelôs revendem ossos, membros e caveiras, quer tenham algum ouro, quer não tenham…

Tithia até vendeu videos pornôs na feira, mas mais enchem as charteiras taes restos, que evangelicos desdenham…

SONNETTO DUMA BREGA COLLEGA [13.235]

Glauquinho, meu querido, que saudade! Faz muito tempo, mesmo, não é? Puxa! Mas deixa que eu te conte, pois de bruxa estão, ja, me chamando! Que maldade!

Bullyingam, só, com gente ja de edade! Taes chistes d’agua fria são a ducha na nossa triste estima! Desembucha, querido! Me consola! Ah, rir? Quem ha de?

Somente por ser velha, feiticeira me chamam! Não é justo, pois o cego não chupa só por causa da cegueira!

Concordas tu commigo? Não sossego emquanto não te vejo! Mais besteira ao vivo trocaremos, meu “collego”!

SONNETTO DA CURA DA GASTURA [13.243]

Na bocca dum estomago opprimido por tanta afflicção, Glauco, o que é que sente a gente? Essa gastura aguda, ardente! Com ella, ha tanto tempo, mestre, eu lido!

Na falta dum pozinho ou comprimido que seja a solução efficiente e rapida, achei, Glauco, uma vidente que, emfim, viu meu problema de libido!

Faltava aquelle estimulo que dá tesão, que nos inflamma, quer na cama, quer mesmo no terreiro, camará!

Agora, si nervoso fico, o drama affasto, um philtro magico, xará, tomando! Só quem toma, Glaucão, ama!

SONNETTO DA MILAGREIRA DA CEGUEIRA [13.245]

Ah, Glauco! Milagreira mesmo, ouvi dizer, é minha thia! Sim, é bruxa! Quem olha nem crê que essa tal gorducha poderes tenha: “Bruxa? Aquella alli?”

Mas ella faz milagres, sim! Sacy segunda perna ganha! Quem repuxa a perna agora pulla, dansa! Puxa! Dispensa a velha gaze e bisturi!

Ja cegos a visão de volta teem! Você não quer tentar, Glaucão? Não vem soffrendo, ja faz tempo, da desgraça?

Tithia cobrará barato! Nem precisa ser à vista! A dor, porem, só mesmo com a morte é que, emfim, passa!

SONNETTO DO PROCEDIMENTO ESTHETICO [13.280]

É facto que, veridico, ninguem contesta, menestrel! A minha thia, que é bruxa, quiz obter physiognomia de bella moça! Aquillo não foi bem…

Deu tudo mais que errado: ficou sem orelhas, sobrancelhas… A agonia da velha augmenta, agora, dia a dia, pois ja virou caveira! Azar não tem?

Usou tantas poções, como direi, kosmeticas, que sua antiga cara virou o que? Cratera? Ah, ja nem sei!

Coitada da tithia! Se mascara, agora, de mulher fatal! A lei de Murphy não adjuda: mais a azara…

SONNETTO DA MAMÃE BRUXA [13.291]

O filho duma bruxa não queria seguir da mãe os passos, nem beijar o rabo do Diabo. Seu altar só tinha figurinhas de Maria.

Mamãe não quiz, porem, tal teimosia topar. Forçou o cara a se prostrar, lamber do Demo os cascos e, com ar de supplica, a borrar-se, em agonia.

Satan riu como nunca ao sentir essa linguinha adolescente em suas pregas. Appenas commentou: “Não tenha pressa!”

A bruxa, agora, quando das collegas é thema de fofocas, faz promessa de, pelo filho, um cu chupar às cegas.

SONNETTO DO PAPAE BRUXO [13.292]

O filho que, dum bruxo, os passos não queria seguir, não topava, nem por sombra, trocar sua crença zen por outra, a satanista, a lei do Cão.

Um anus diabolico o pagão garoto repelliu. O pae, porem, forçou-o. Bem, na marra agindo, quem não lambe taes preguinhas? Hem, Glaucão?

O joven, humilhado, passou sua linguona à volta toda desse cu, alem de enfiar fundo! Quem recua?

Quem ousa recusar? Nenhum tabu supera aquella scena nua, crua, dos labios mergulhados num angu…

SONNETTO DA FILHA REBELDE [13.295]

Não posso tolerar alguem que diga tamanha asneira, Glauco! Minha filha virou ovelha negra da familia, tal como Ritta Lee, rebelde, instiga!

Scismou essa menina duma figa que bruxa quer virar! Ella me pilha! Não basta ter entrado na quadrilha dos manos satanistas? Quer é briga!

Deu para, às sextas-feiras, sahir toda vestida com aquella roupa preta! Si estrillo, me responde: “Que se foda!”

Ah, falta pouco para que eu commetta, Glaucão, um desattino! Gosto, pô, da menina, mas jamais dessa veneta!

SONNETTO IGNOBIL [13.455]

Alem do Ora Pro Nobis, da Cannabis Sativa, dos chazinhos e dos pós, alguem hoje entendeu algo que nós, os bruxos, ja sabiamos! Tu sabes?

És bruxo, tambem, Glauco? Não te gabes daquillo que tu sabes, mas a voz dos velhos alchymistas, dos avós de todos nós, razão te dá! Não babes!

De ti cheio não fiques, mas agora se sabe que chulé faz bem à nossa libido! Qualquer mago corrobora!

Pesquisa scientifica ha que possa provar, tambem: quem cheira algum, adora, lelé si for e lingua tiver grossa…

SONNETTO

DO EXORCISMO [13.565]

Eu, cego ficar? Nunca! Te exconjuro! Paresces um demonio, tu, Glaucão! Tu ficas praguejando por ja não estares enxergando, nesse escuro!

Hem? Vira a tua bocca! Não atturo ouvir as tuas queixas, que me são eguaes às dum eunucho, dum capão! Eu tenho o meu caralho sempre duro!

De tanto praguejares, és capaz de sobre mim lançares teu feitiço! As tuas intenções são muito más!

Si insistes, me livrar vou logo disso! Practico um exorcismo, meu rapaz! Comtigo findará meu compromisso!

SONNETTO DO BRUXISMO [13.583]

Meu somno, menestrel, bem intranquillo foi sempre! Eu ranjo os dentes, entendeu? Não fique impressionado, mas é que eu com bruxas me envolvi… Peço sigillo!

À noite, me visitam! Eu vacillo, mas transo, sim, com ellas! Nesse breu, nem vejo si são feias! Só me deu tesão, quando me chupam com estylo!

Meu ecstase é tão forte, que eu os dentes apperto, nesse sonho delirante! Por isso são trincados e pendentes…

Um dia, ainda faço algum implante, mas, grana me faltando, sorridentes imagens não farei mais, nesse instante…

SONNETTO DO KABBALISMO [13.686]

Nos numeros está a philosophia mais certa, mais exacta, mais fatal! Buscando um algarismo sempre egual eu posso mudar tudo no meu dia!

De grana posso obter qualquer quantia! Nas datas acharei meu carnaval e, para alguns rivaes, o funeral! Palindromos tambem servem de guia!

Si eu fosse numerologo, dos taes que bruxos são, ha seculos, na Terra, seus olhos estariam, Glau, normaes!

Mas, como na kabbala as visões erra a minha vista, ainda, muitos ais você, que se fodeu, no mundo berra!

SONNETTO DO TRADICIONALISMO [13.824]

Sciente estou da velha tradição imposta pelas bruxas satanistas, da qual foram deixadas muitas pistas nos livros de magia! Como não?

Um anus bem fedido tem o Cão! Ainda assim, estão sempre previstas, nas missas do Sabbath, as masochistas lambidas no trazeiro do mandão!

Mas reza a tradição, alem da bunda beijada, que Satan nos foda, a fundo, a bocca, da maneira mais immunda…

Fallei ja muito disto, mas redundo: Satan nos mija! Ahi que, então, affunda a rolla, até gozar, com ar jocundo!

SONNETTO DO MYSTICISMO [13.940]

Sou mystico, Glaucão, como você! Você não accredita numa fada madrinha, numa bruxa habituada aos peidos de Satan, nisso não crê?

Tambem creio naquillo que se vê à noite, em cemeterios, camarada, naquelles eskeletos que, em estrada deserta, causam tanto fuzuê!

Ja muito lobishomem advistei! Vi muita assombração, muito vampiro! De historias pavorosas, tantas, sei!

Por isso, menestrel, é que eu admiro você, que, mesmo cego, mesmo gay, entende que com vampas eu me viro…

Casa de Ferreiro

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