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Revista de literatura

2ºnúmero

Distribuição Gratuita

Julho /Agosto 2020

O Verão, o amor e o mar!

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Catarina Dinis Pinto Editora Ecos da Palavra Autora / Poetisa/ contadora de histórias

O Verão, o amor e o mar, um trio inebriante que nos inspira… Foi este o mote para o tema do nosso 2º número da revista Ecos da Palavra. Com palavras e imagens fomos dando vida a cor do verão, a sensação do amor e dando sabor ao mar. Foram imensos os trabalhos que foram entregues e todos de excelência e qualidade. Há que dar os parabéns a cada um dos selecionados pois há uma magia única em cada um. Ainda estamos num clima de instabilidade pandémica e arduamente trilhamos o nosso caminho e destino. Desejo que disfrutem a leitura da revista assim como eu disfutei na construção de cada página!

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Índice

Índice- _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 4 Biografia _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 5 Eventos históricos e datas importantes_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 6 Lugares de Portugal- Poema do Douro _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 7 Participação Especial- Emilia Silva _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 8 Sugestões/ Apresentações _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 9 Autores Selecionados _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _10 Tema da próxima edição _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _200

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Biografia

Alexandre O´Neill Poeta Português

Nascido em Lisboa a 19 de Dezembro de 1919 e faleceu a 21 de Agosto de 1986. Descendente de irlandeses. Autodidacta, O'Neill foi um dos fundadores do Movimento Surrealista de Lisboa. É nesta corrente que publica a sua primeira obra, o volume de colagens A Ampola Miraculosa, mas o grupo rapidamente se desdobra e acaba. As influências surrealistas permanecem visíveis nas obras dele, que além dos livros de poesia incluem prosa, discos de poesia, traduções e antologias. Não conseguindo viver apenas da sua arte, o autor alargou a sua acção à publicidade. É da sua autoria o lema publicitário «Há mar e mar, há ir e voltar». Foi várias vezes preso pela polícia política, a Pide. Recebeu, pelas suas Poesias Completas, o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários (1983). Entre 1948 e 1986, o poeta editou 15 obras. Conheça aqui os seus nomes e datas de publicação. »Ampola Miraculosa», Cadernos Surrealistas, 1948, «Tempo de Fantasmas», Cadernos de Poesia, 1951, «No Reino da Dinamarca», 1958, «Abandono Vigiado», 1960, «Poemas com Endereço», 1962, «Feira Cabisbaixa», 1965, «Portogallo mio rimorso», 1966, «De Ombro na Ombreira», 1969, «As Andorinhas não têm Restaurante», 1970, «Jovens, Nova Fronteira», 1971. «Entre a Cortina e a Vidraça», 1972, «A Saca de Orelhas», 1979, «As Horas já de Números Vestidas», 1981, «Dezanove Poemas», 1983, «Uma Coisa em Forma de Assim», 1985.

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Eventos históricos e datas importantes 9 de Agosto 1896 - Nascimento de Jean Piaget, pesquisador e estudioso do desenvolvimento intelectual. 1963 - Nasce Whitney Houston, cantora norte-americana. 12 de Agosto 1907 - Nasce Miguel Torga, escritor português. 1908 - A fábrica Ford Motor Company de Detroit (EUA) coloca no mercado o primeiro modelo de automóvel Ford T 333. 1964 - Morre Ian Fleming, escritor britânico, criador de James Bond. 27 de Agosto 1770 - Nasce Georg Friedrich Hegel, filósofo alemão. 1910 - Nasce Agnes Gonxha "Madre Teresa de Calcutá", religiosa albanesa, Nobel da Paz de 1979. 1910 - Primeira demonstração do kinetófono, cinematógrafo com som, inventado por Thomas A. Edison. 28 de Agosto 1749 - Nasce Johann Wolfgang Goethe, escritor alemão. 1950 - Morre Cesare Pavese, escritor italiano. 31 de Agosto 1867 - Morre Charles Baudelaire, poeta francês. 1997 - Diana Spencer, princesa de Gales, morre em Paris em um acidente de automóvel.

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Um Poema de Portugal Douro Douro Ò Douro… Douro de ouro Que és tão belo E tanto nos dás, A todos dás de beber Mesmo a quem não sabe entender O esforço e trabalho Que tens por trás. Douro do vinho, Da paisagem, Da gastronomia, E dos filhos que em ti trabalham Durante o ano inteiro, És o pai a quem servimos Com sentimento verdadeiro. Quem te vê de longe Não sabe aquilo que conténs, Suor, lágrimas, Mãos de mais de mil homens, Mas também outros bens. Todos os nossos antepassados Por ti passaram E nós passaremos também, És o tesouro de quem te conhece, E o fascínio De quem cá vem. Douro do nosso coração! Emilia Silva

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O Verão, o amor e o mar! Na praia onde partiste Estou aqui, Na praia onde partiste, Sentada no areal Onde em tempos Vimos o mar, E mesmo sabendo Que não voltas, Estou aqui na esperança Que ainda possas voltar. O Verão Chegou à poucos dias Mas já é tanto o calor, Preciso de ti Aqui junto a mim. Regressa meu amor! As ondas hoje estão enormes E a água abraça Com rapidez o areal, Também eu te abraçaria Se pudesse E se não tivesses ido Na noite daquele temporal. Aqui permaneço, À espera que um dia O mar que te levou Te traga até mim, Até lá aqui fico, A ver os barcos Irem para longe de mim. Emilia Silva

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Sugestões/ Apresentações

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Autores selecionados Adilson Roberto Gonçalves Adnelson Campos Adriano Besen Agnes Nagashima Agostinha Monteiro Alexandre Andrei Aline Bischoff Amia Maia Ana Cláudia da Silva Arena Ana Paula Anaí Bueno André Shibuya Pessoa Augusto Filipe Gonçalves Breno de Lucena Bruna Longobucco Bruna Farias Bruno Blum Bruno Félix Carine Mendes Carla Castro

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Carmo Bráz de Oliveiro Clara Tornelli Cristina Bresser de Campos Daniela Ganem Delmar Bertuol Dery Ohanna Edilma Silva Santos Edmilson Naves Eduarda Martins Mendes Eduardo Rodrigues Amorim Elaine Valeria de Camargo Élida Ramalho Francine Cruz Grison Gabriela Giordani Gisela Lopes Peçanha Glauco Paludo Gazoni Graziela Tosta Barros de Carvalho Guilherme Lotti Amaral Helder Junior Hudson Henrique Isabela M. Menezes Isathai Coelho Ítalo Dourado

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Jacqueline Valadão Jeane Bordignon Jéssica Iancoski Joel Denilson Adão Barceleiro Jorge Eduardo Magalhães Josafá de Orós José Airton Mellega José Neto Juliana Karol de Oliveira Falcão Karine Dias Oliveira Katherine Mcbride Keila Camila Lara Machado Larissa Lourenço Ratto Larissa S. Souza Laura Cristina Souza Leila da S. Pimenta Dombroski Luciene Farias Marcela Bomfim Luis Palma Marcela Alburqueque Márcia Letícia Márcio Paz Martins

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Marcos Andrade Alves dos Santos Maria Eduarda Amadeu Maria Silvana Prado Mariana Bortoletti Neusa Canabarro Pablo Hemanoel Patricia de Campos Occhuicci Paulo Roberto de Oliveira Caruso Pedro Dantas Pedro Guerra Demingos Pedro Panhoca Pedro Ricardo Poeta AntĂłnio Ferreira Priya Nilah Rafaella RĂ­moli Raquelita Turri Leme Renata Brito de Oliveira Rodrigo Lyra Roque Aloisio Weschenfelder Rosa Acassia Luizari Rose Rabelo Sandra Liss Sara de Lima

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Sarah John Sayonara Sales Sirineu Oliveira Sónia Regina Rocha Rodrigues Susana Mendes Társis Faria Tchello D´Barros Thais Andressa Thais S. Sousa Thasyel Fall Thiago David Thiago Fernandes Trevo Ribeiro Ulisses Andrade Valéria Pisauro Valqécia Costa Yasmin Zélia Sales

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Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador universitário. Membro da Academia de Letras de Lorena, da Academia Campineira de Letras e Artes e da Seção Campinas da União Brasileira de Trovadores. Autor do livro de poemas "O eu e o outro" e participou de antologias em verso e prosa. Escreve textos de opinião em jornais paulistas e na internet. (prodomoarg@gmail.com) Lembrando um verão Adilson Roberto Gonçalves puxando pela memória ondas de desejos e paixões espraiam-se pela mente turva, sibilantes em magistral composição imaginando sol&mar antes que a tarde passe a findar. pensamentos registrados amores calorosos vividos sensualizando a passagem sobre sentimentos esquecidos império de um verão quente vida que se preenche antes que a noite estrelada surja. amor é a palavra aqui proibida muitas vezes relembrada outras, relegada aos momentos revelando que o corpo reagiu

ouviu do mar o chamamento, sonhou para ser totalmente feliz, antes que um novo dia comece.

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Adnelson Campos, 57 anos, Administrador, mora em São Mateus do Sul- PR. Possui mais de oitenta contos publicados em antologias impressas e digitais. www.adnelsoncampos.com.br. Assina a coluna Prismas em www.gazetainformativa.com.br/category/prismas/ Imagine Adnelson Campos Foi no final de 1980, ano em que a Volkswagen lançou o Gol e John Lenonn, depois de voltar a gravar um disco, foi morto no início de dezembro. Eu já completara os meus dezessete anos e, depois de um vestibular e de pouco mais de três anos em meu primeiro emprego, pude aproveitar as minhas primeiras férias. Em companhia de uma prima e de seu namorado, viajamos a bordo de um Fiat 147, o primeiro produzido pela fábrica italiana no Brasil, onde dividi o pouco espaço no banco traseiro com uma bombona cheia de etanol, pois naquela época ainda não era fácil encontrar o combustível em todos os postos no trajeto até uma cidade do litoral catarinense. Foram experiências incríveis na minha, também primeira, viagem sem a companhia de meus pais e quatro irmãos. Coisas simples como retirar berbigão das rochas, fervê-los em uma lata e comê-los com umas gotinhas de limão, era algo que eu não havia experimentado e acredito que até hoje eu não tenha repetido a sensação do gosto do pequeno molusco, que também era preparado com molho de tomate e alguns pedaços de pão, tudo preparado na areia da praia mesmo. O calor do sol que queimava a pele alva de quem morava no planalto também tornava ainda mais saborosa a cerveja fabricada numa antiga fábrica da Antarctica que operava numa cidade vizinha. Eu, que ainda não me acostumara às águas do Iguaçu, enfrentava agora as águas salgadas de mar aberto em brincadeiras, durante várias tardes, na companhia de um novo amigo, encontrado na vizinhança da casa daqueles que me acolheram durante as festas de fim de ano. À noite, saíamos para passear no centro da cidade, iluminado pelas luzes de Natal. Num dos passeios, quase em frente à Catedral, percebi, do outro lado da rua, um dos mais belos sorrisos que vi em minha vida. Ela sorria para mim. Os dentes perfeitamente brancos, destacam-se na pele morena, perfeitamente bronzeada. Perdi-a em meio à multidão, para nunca mais encontrá-la. Mesmo assim, me senti feliz por ser percebido pela garota de

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cabelos longos e ondulados. Nesta idade é natural que busquemos conhecer, experimentar, até que encontremos alguém que nos complete. Com a trágica morte de Lennon, uma de suas canções, Imagine, gravada em 1971 voltava a ocupar o primeiro lugar na parada de sucessos em várias partes do mundo. A música retratava muito bem os sonhos da juventude em poder mudar o mundo, convencer as pessoas de que é possível viver melhor e de forma solidária. A canção me marcou ainda mais. Na minha última noite daquelas férias, participei de um baile de fim de ano. Há muito boas bandas que tocam bailes, mas aqueles músicos e cantores do Quarta Redenção eram fantásticos. Eu, de certa forma tímido, passei quase todo o baile sentado e apreciando a boa música. Pouco antes da chegada de 1981, a banda começou uma série de músicas lentas e eu fui tirado para dançar pela prima da minha prima. Uma garota dois anos mais velha, muito animada e cheia de vida, de planos e de busca por independência. Chegamos à pista no exato momento em que os primeiros acordes de Imagine eram executados. Ela parecia um anjo e com sua leveza parecia flutuar pelo salão, me fazendo leve também. Em meio a canção, ouviram-se os sons dos fogos que cobriam os céus da cidade enquanto mantínhamos os rostos colados. O tempo passou e nunca mais voltei a encontrar minha companheira daquele momento mágico. Trinta e oito anos depois, recebi a notícia de sua morte. Não convivemos, mas partilhamos um instante que considero um dos divisores de águas em minha vida. Comecei a transformar os sonhos de adolescente na realidade de um adulto, também aprendi o que buscar num amor. Ainda é possível imaginar um mundo melhor, mesmo que os anos tenham passado e que algumas coisas não tenham acontecido como planejado, como gostaríamos.

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Adriano Besen : natural de Florianópolis (Santa Catarina) Autor do livro infantil: A história de uma galinha Foi colunista no jornal “O Tropeiro” Escritor, músico e Contador de histórias. Pesquisador e Aventureiro. Apaixonado por livros. e-mail: cp.adventure@bol.com.br Instagram: @adrianobesen WhatsApp: (48) 98863.3133

O MAR E O AMOR (Adriano Besen) Amor é o mar da vida Sob o Sol e sob a Lua O mar é alma livre Como de uma mulher nua Um mergulho nesse mar Sensação emocionante A dança do espírito Magia eletrizante

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Agnes Izumi Nagashima é paranaense, biotecnóloga e escreve contos e poesias. Sonhos de areia Na translação, surgem as estações. Verão tropical ardente. Refulge resplandecente no céu, Sol, estrela incandescente. Na praia, passos solitários na orla de areia. Refúgio para o intrépido coração sonhar. Um vazio sem cumplicidade permeia. Desolado, lágrimas na face, gosto de saudade, salgado e profundo como oceano. Na busca de um enlace, não desiste seu coração, um amor insano. Paz no sentimento, a olhar as ondas e o pôr do sol, a brisa a entoar, sonhos de areia e um amor feito mar.

Poesia e fotografia: Agnes Izumi Nagashima

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Alexandre Andrei é todas as vidas que teve. Pegando salteado: suburbano, parisiense, moleque que pulava rio, rato de biblioteca, goleiro do América, astrônomo, fulano que correu mundo, pai, avô, viúvo (o que é um ante-ser, acredite), namorado (o que é voltar a ser, voce sabe). Alexandre não é qualquer dos personagens das histórias que escreve, ao contrário, é quem sai da frente e lhes dá voz. (nem que precise subverter pontuação, acentuação e gramática) Email oat1aha@gmail.com

Agora (de Alexandre Andrei) um deus quase esmoler eu crio veredito bendito o verão um carater movimentado colhendo o vento, uma raspa de picole vermelho na minha mão um homem de calção encostado a uma mulher; declaro aberta a esmo a porta sazonal uma centelha setentrional: vou comer uma qualquer e comprar de manhã o jornal faço com que se inicie o verão a partir de hoje ao fim de abril cantam canarios queiram ou não o calor na cara de calvario que brota feito um esmeril, a rota de uma frota de caminhões fica decretado lindo idilico refrigerante e a ele chamaremos bençãos de monções doravante pela repetição nas radios das mesmas canções fica aberto o verão bem vindos tetos solares; uma estação contraria do secreto em que às vezes chove em vazão a dupla canicula antes que ares vai passar a ser uma centrifuga ventiladora no quarto condicionado. benvindas tetas e axilas afora as camisetas de sartos, aliviadores os partos

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conquanto cingi fecula fatua e brandi particula desejo agora longamente o verão que fique claro o ar devasso e que rosane ame louca ao seu irmão que tire pecaminosa a ultima delituosa voluptuosa peça do roupão que atire atras da porta aos outros meses e se ponha de calcinhas ao pregão desejo que o ar seja ardentemente benfazejo e sopre o verão que vejam o mesmo simum que eu vejo os cantores roxy comuns do olho esterico do furacão brotem sem aids em lavras sobre a multidão os canhões portugueses em vozes cavas em lavas a dizimar feito vulcões populações africanas e gerar pardos em multidões de escravas permito perdulario e alambique mouro repique algebra e afrodite afro o verão que traças eslavas de livros desejam mas nunca o terão ofidario em que dezenas de frutas deixando a terra circunvolvem apelos dos seios e dedos centenas de putas aflorando as mini-saias larvas saboreando os corpos em acenos sem medo faço com que se faça em um ativo o verão o unico e o verdadeiro que pertence a uma raça espoliada intelectualmente ao chão o rosto fica feito um manequim exposto numa fachada de mundo no fim e a fotografia em negativo sai enfim do mesquinho branco no preto de nanquim eu aspiro assim ao verão e que venha de rijo então um calor capaz de amolecer a vertigem virgem das igrejas um odor que a todos nos contente e que goteja eu me respiro carmim afim do verão uma podridão que nos desmancha em capim em doce e esperada decomposição brota dos muros o suor lascivo transpira da pele de todos os vivos

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eu quero e consigo aguardar até que pressinto e aspiro o verão e será uma parte praia fora do armario arte gosma de mimo no seu colchão vou parar de me roçar imaginario e farei rimas incestuosas para minha prima e enrijecido priapo vou andar de lima para quina para esquina atras das meninas de roldão em roldão vou recorrer aos bares e azares de botafogo no verão tiro a camisa dou ao meu corpo dias de tratante e tesão vou chupar os caroços do sol como um amigo vou chupar troços de cana na feira vivo dias sem litigio de vinho e tremoços não tenho eira nem ossos nem beiradas ou beiras sem linhas limites limitrofes azo vazo o perigo do verão preencho todo o tempo o vaso que leva o sangue ao coração completo o alcool da minha maquina e da que me leva dentro ao vulcão veloz como rapaz como capaz de deitar com minha acompanhante de pouco antes e me tornar diapasão dia pagão

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Agostinha Monteiro É portuguesa, natural de Aguiar da Beira, mas residente em Vila Nova de Gaia. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas e Mestre em Educação, reparte a sua atividade profissional pela docência, formação, investigação, tradução e escrita. Conta com algumas publicações individuais Contos de Esperança, Lendas e Histórias de Aguiar da Beira e Aprender a Escrever, mecanismos de estruturação textual, assim como várias participações em coletâneas em Portugal e no Brasil. Amor de verão No teu olhar podemos ver Um infinito amor a crescer, Onde a luz do sol faz brilhar O azul do mar do teu olhar. Juntos na praia nos deleitamos Em carícias e beijos contidos, Ao som das ondas navegamos Num amor platónico envolvidos, E renitentes nos evitamos Para não causar maiores perigos. Mas o amor é puro veneno Que nos entorpece a razão E quando o sentimos em pleno Damos conta que já passou o verão. Resta-me somente a sensação De mais um amor de verão, Que foi intenso e ardente, Que prometia ser para sempre, Que todos diziam ser o tal, Mas que pouco durou, afinal! Agostinha Monteiro

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Aline Bischoff é paulista paulistana e atua em diversos segmentos artísticos. No campo literário, atualmente possui dois livros de poesias escritos. Também atua como design gráfico, fotógrafa e ilustradora. Suas obras já estiveram presentes em exposições, tendo sido recentemente premiadas pelo FENAPO, Festival de Arte e Poesia, da cidade de Osasco, São Paulo, no ano de 2019, nas categorias Foto Poesia e Poesia Escrita. E-mail: aline.b.bischof@gmail.com

Olhos do mar Na melancolia de teus olhos Eu sinto a noite se inclinar E ouço as cantigas antigas Do mar. Vinícius de Moraes Uns olhos de verde-mar; (...) uns olhos cor de esperança; uns olhos por que morri; que ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo depois que os vi! Gonçalves Dias

Nas profundezas do teu olhar, Me pego submersa a viajar... Como um barco a afundar Na imensidão do teu mar. Sob o cálido Sol do verão, Tuas águas harmoniosas e mansas, Me contam sobre a estação, Das mais gostosas lembranças.

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Como pirata em busca do ouro, Ansiando pela terra inexplorada, Sei que em tua alma dourada, Encontrarei meu maior tesouro.

Que a canção do mar nos seduza E juntos iremos velejar e amar, Por entre essas ondas sem par... Para onde quer que nos conduza! Aline Bischoff

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Amia Maia, professora efusiva, pesquisadora transgressiva e poeta compulsiva-subversiva. Há mais de dez anos trabalho com educação universitária, na área de comunicação social, buscando dar asas ao conhecimento. Nos picadeiros da vida, colecionei ouros de tolos e de louros: poucas premiações, várias contemplações e algumas aporrinhações.

Pseudônimo: Amia Maia O choro da sereia O vento açoitava como foice, Um coração ardido pela areia. As espumas brancas saltitavam, Fazendo da ventania, vívida teia. Já lépidas estrelas do mar dançavam; Para cavalos marinhos, florida plateia! A maresia abraçava o raio de sol e sais, Em uma alma divagante, nua e sem cais; Tensas pulsões e desilusões ressoavam; No crepúsculo de desejos abissais, fatais, Os tentáculos da paixão se incorporavam... No cume do arrecife, o choro de uma sereia Seduzia o náufrago com o canto ou correias. Esculpindo os versos com as lágrimas e veias; Com a ventania, a magia da idolatria incendeia; No findo encontro, só outro espírito que vagueia.

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Ana Paula de Oliveira Gomes. Professora, pesquisadora, jurista e escritora cearense. Idealizadora da Academia LiterĂĄria Engenho de Letras (ALEG). Na ALEG, seu patrono ĂŠ Belchior. Membro da Academia Mundial de Cultura e Letras (AMCL). Na AMCL, ocupa a cadeira 87. Patrono: Quintino Cunha AZUL MARINHO

Pela poetisa cearense Ana Paula Gomes apogdevagaresempre@gmail.com

Ondas calam desejos... Mar de amor veranil Inicia onde a terra finda.

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Anaí Bueno mora no sul do sul do país, é bacharel em direito, servidora pública e apaixonada por livros. E-mail: anaibuenoc@gmail.com

A cada um a sua onda Anaí Bueno Natália banha os pés na água e pensa em como cada onda chega diferente até a beira da praia e talvez por isso algumas conchas tenham mais sorte do que as outras. Caminhou em direção à areia seca acompanhada de uma estranheza à qual não estava habituada; há seis meses Geraldo tinha partido, deixando não só o vazio da presença, mas também o espaço dos anos de responsabilidades e sentimentos contraditórios. Ah se o termo atípico e os grupos de apoio tivessem surgido antes de se habituar a uma vida quase monástica, tudo seria de outro modo, ruminou Natália. Só que em 1992 a vibe era outra. Quando a mãe foi em busca dos próprios sonhos, coube a ela, aos dezesseis anos de idade, cuidar do irmão gêmeo enquanto o pai trabalhava. O último ano do segundo grau foi cursado no turno da noite e a vida que considerava normal podia ser vivida até certo limite. Tinha folga quando o pai tinha folga do trabalho; quando este morreu, foi tudo com ela. Abnegou-se. Aprendeu com Geraldo um jeito de viver. Teve pandemia, revolução, mudanças climáticas bruscas e Natália manteve-se firme naquilo em que se tornou sua missão de vida e, hoje, aos cinquenta e oito de idade, sem o objeto do seu cuidado, sentia-se zonza. Nem o macramê, fonte de sua renda e de sua tranquilidade reconhecida por todos, foi capaz de lhe tirar do torpor em que se encontrava; às vezes achava que não, aquilo não estava acontecendo; tratava-se de um surto e logo voltaria a si, com a sua rotina de cuidadora e artesã dos entrelaçamentos. Deitou-se exausta na areia e adormeceu. Ao acordar, ouviu o trecho da música Oh, my life/Is changing every day/In every possible way, vinda de um carro em movimento e à sua esquerda enxergou um casal flertando. Isso lhe trouxe boas memórias e, ainda naquele estado de quem está se situando no tempo e no espaço, logo após despertar de um sono fora de hora, resolveu bisbilhotar. - Eu já disse que você é linda? 29


- Sim ... – respondeu a garota tímida. Os dois estão em pé, frente a frente, ele voltado ao mar, ela voltada à cidade. O rapaz inclina o dorso, põe a mão na cintura da jovem, aproxima o rosto ao dela. Desse jeito, eles parecem uma fotografia; à beira da praia, com o mar velado pelo céu e suas nuvens em chamas. Natália lembra que um dia já esteve assim, entre a timidez e a chama. E de repente uma buzina; dentro do carro, um homem e um adolescente; este com as mãos cerradas pressionando os ouvidos, balançando o corpo num vaivém para frente e para trás, falando estridente “Geraldo tem medo do mar, medo do mar, medo do mar, medo do maaaaaar!”. A jovem se desvencilha do quase abraço, afasta o quase beijo e sai correndo em direção ao carro, sem olhar para trás. Envergonhada, senta no banco carona da frente, encolhe-se e diz: - Pai, anda de uma vez e vê se faz esse garoto ficar quieto! O que vocês estão fazendo aqui? Por que ele veio com você? - Calma minha filha. Eu sei que hoje era o seu dia livre, mas me chamaram na firma. E a D. Joana não pôde ficar com ele de última hora. Era ela. Natália no seu verão de 1993, quando estava prestes a beijar, com todo medo do mundo, o esquisitão charmoso da sua escola e foi impedida pela vergonha. Será que hoje em dia aconteceria algo assim? E se eu tivesse te beijado Thiago? Você descobriria a culpa, a vergonha e a humilhação do despreparo. Será que ainda me acharia linda? Talvez sim, talvez não. Talvez você também resolvesse realizar os seus sonhos sem mim.

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André Shibuya: Formado em produção audiovisual, trabalhei na parte de criação em agências de publicidade. Depois de sair do mundo corporativo, viajei pelo país e pelo mundo. Sempre interessado em movimentos culturais e representatividade popular, me inseri no meio literário escrevendo diários de viagem, onde descrevia meus dias através da poesia. Escrevi um romance sobre o folclore e crenças populares e também alguns livros infantis. Procuro sempre abordar a cultura e a sociedade brasileira nos meus escritos. Atualmente escrevo e ilustro para o laboratório Verso. Contato: andre.shibuya@gmail.com http://instagram.com/verso.art Doze meses e uma semana Ana Maria Falcão tinha como costume banhar os olhos. Observava o oceano numa espera sem fim. Esperava por Bernardo de Alcântara há 12 meses. Bernardo não retornava e não mandava notícias. As garrafas que continham cartas não chegaram, as gaivotas nada sabiam e não havia nem ao menos uma história de pescador. A espera fazia aniversário e o vestido de Ana Maria já alongava suas pernas. O sorriso partiu com Bernardo e o olhar vivia longe. Não houve prece que resolvesse, Deus que ajudasse, ou profecia que se cumprisse. Só a cansativa e longa espera. Naquele dia, desiludiu-se e evaporou a promessa feita há tanto tempo. Esperou Bernardo por um ano, foi o trato que fizeram. O vestido novo já esperava. No baile, faltavam-lhe os passos e até o sorriso fez menção de aparecer. Ana Maria Falcão abandonou o posto de vigília. Deus cuidaria de Bernardo. Que ele estivesse bem e guardado no seio do mar. Ela cuidaria de si. Bernardo de Alcântara voltou uma semana depois. Os olhos marejados, a boca escancarada e a saudade já sem fim. Mas, Ana Maria mudou-se para a capital. Casou-se com um dentista bom de dança e começava uma vida na barriga do casal. "Bernardo errou a sorte por uma semana", diziam. Por destino ou azar parou uma semana na calmaria sem vento e por dias seguidos contaria essa história para a escória dos bares. “Uma semana!” ele embriagadamente proferia, “uma semana!”. Mas todos sabiam que o tempo de atraso não era de uma semana e sim doze meses.

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Augusto Filipe Gonçalves :Nasci a 20 de Junho de 1984. Natural e residente em Penafiel. Licenciado em Direito e Mestre em Ciências Jurídicas, Internacionais e Europeias, pela Universidade Lusíada do Porto Pós-Graduado em Ciências Forenses, Investigação Criminal e Comportamento Desviante Jurista na Penafiel Verde, E.M. Co-Autor do 1º número da Revista Web Ecos da Palavra E-mail: afgoncalves20@gmail.com Sensação de Verão O verão traz sensação, De calor ardente, De amor que se sente, Com imensidão. O mar clama por companhia, Para nele se irem refrescar, Alegra o mais sonolento dia, O amor consegue avivar. O azul celeste tem outro encanto, Quando se reflete no mar como um manto, Ondolado traz cheiro a maresia, Combina de forma singular, Os sentidos fa-los despertar, Dá outro encanto ao dia. Desperta o amor pelo ar, Consegue a felicidade espalhar, É uma intensa positiva sinestesia, Que até a alma mais tensa, Perante uma tranquilidade imensa, Doce e paulatinamente se esvazia. Augusto Filipe Gonçalves

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Breno de Lucena : Sou paulistano, nascido em 1999. Resido em São Miguel Paulista, bairro localizado no Lado Leste da cidade. Sou estudante de Economia e escrevo nas horas vagas

Na Praia Nesta manhã de verão Observo o sol nascendo No mar, o mexer das ondas E eu num canto, escrevendo. Vejo o sol tão solitário O mar gigantesco, triste Mas vive em meu coração Solidão maior que existe. O sol e o mar, imponentes Parecem querer saber Onde está você agora Por que não lhe estão a ver? Foram eles testemunhas Do nascimento do amor Que nos fazia encantados Sem tristeza ou dissabor. Mas chegou aquele dia A tristeza disse “sim” Todo o céu escureceu Nosso amor chegou ao fim. Juras de amor e promessas Foram todas pelo ralo. Disseste: “é fim eterno” Grande foi o meu abalo. Só que o sol tem a sua lua A quem dá luz e calor O mar tem a fina areia 33


A quem beija com ardor. Já eu não tenho ninguém (Na verdade, tenho sim: Tenho amiga a esperança De que voltes para mim). Breno de Lucena

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Bruna Longobucco é mineira de Belo Horizonte. Desde criança é apaixonada por livros. É autora independente há 16 anos. Pode-se dizer que nos textos e nos versos ela conta sua história

A Praia Bruna Longobucco Nas dunas, na areia Nascem castelos de sonhos Aos meus pés, tece o mar a teia Vejo o embalar dos sonos Ilusões Belos anéis Ao longe desenho os círculos Bem perto crio dosséis É o compasso de um tema O tema de um coração Um ritmo traz o sentido Na alma toca a canção E sigo seguindo As ondas invadindo A sós vejo formas e nuvens Observo o dançar dos sóis Ao meu lado as notas A imagem que guardei De um tempo Da água Da tarde em que te encontrei.

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Bruna Farias: Escritora, Poetisa, Cronista, graduanda de direito, aprendiz da vida e das palavras, busca na escrita uma forma de autolibertação e conhecimento. Contatos: Email: bruna.fariasd7@gmail.com Blog: https://palavrasinconstantes.wordpress.com/ Portfolio: https://medium.com/@bruna.farias

O Verão: o mar e o amor No verão nos encontramos, Seja pra nos amar nos refrescar, Estamos juntos, A única época do ano em que te ver é possível, A única vez que realmente amar parece possível, Nessa época do ano em que o amor parece está ao meu lado, E assim como o verão que parece longo, espero que esse amor dure, No verão nos encontramos no mar para celebrar o nosso amor.

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Bruno Blum : Estudante de Ciências Sociais pela UFRGS. Educador e escritor independente de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

Lágrimar Teu rosto o mar lavou E tornou-se sua lágrima o próprio mar . O sal na pele avisa Que a água te tempera. Nada até mim, Mas nada a falar. O mar é tão grande, Tão bom de confortar.

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Bruno Félix

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Carine Mendes : Escritora, psicóloga e professora, desenvolvo desde os 12 anos um percurso de produção textual. Destaco, principalmente, o gosto pela escrita da prosa poética, independente de gêneros. Reconheço a escrita como um ofício a ser aperfeiçoado pela insistência e que pode repercutir em atos revolucionários e transformadores. Email: carinevmendes@gmail.com Facebook: https://www.facebook.com/carinevaleria.mendes Instagram: @carinevmendes Fotografia Eu era criança e lembro dos momentos em flashes, clarões dinâmicos, perspectiva única e minha guardada no álbum pessoal de lembranças ambulantes. Era sempre dia, eram dias sempre ensolarados, quentes e ternamente familiares. Abrigavam-se uns embaixo do guarda-sol, outros com a coragem na pele expunham-se bravamente ao abraço em brasas. Crianças! Protetor solar. Íamos desabalados e despreocupados acampar na beirada do mar, brincando, conversando amenidades curiosas, dançando ao som e ao ritmo das ondas. As moças emolduravam-se com bronzeador, sempre aquele cheiro de amêndoas. Era criança suficiente para entender que algumas vaidades eram tão rotineiras que tinham até certa graça. Os rapazes amontoavam-se lépidos a correr atrás de bolas de frescobol, de vôlei e, é claro, de futebol. Entre gols, faltas e demonstrações pueris de virilidade abria-se sempre uma fresta para reparar nas moças do bronzeador. Os adultos então! Se juntavam a beber conversas banais, fofocas, piadas. Por breves momentos banhados a sol e sal estávamos todos livres e despreocupados. A lembrança das conversas é vaga, mas a imagem e o clima de descontração sem fim guardo capturados nas mais nítidas fotografias mentais. Nesses flashes que repasso sem muito me dar conta entendo a perspectiva da câmera. Esta que recebi no pacote do corpo e que selecionava ângulos sob a lente dos olhos infantis. Fotos vivi junto aos que me cercaram naquela areia plena de contentamentos, sorrisos soltos e tão naturais, quase involuntários. É que a felicidade simples nos enredava e trazia aos meus olhos infantis reflexos de bem querer. Carine Mendes

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Carla Castro possui formação em Letras, Pedagogia e Direito, especialista em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, atualmente cursa mestrado em Literatura Comparada na UFC. É autora de A Vida em Versos (Poesias) e Resquícios de Memórias dicionário Biobibliográfico de Escritoras e Ilustres cearenses do século XIX (Pesquisa em Literatura de autoria feminina cearense).

Mar Mar, Te ver, Te desvendar, Te desbravar. Irei, Eu, No verão, Te amar. Por seres Forte, Lindo, Imenso, Bravo Ou sereno, INTENSO!

Carla Castro

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Carmo Bráz de Oliveira: Nascido em Ubiratã em 20/03/1977 Mora em Foz do Iguaçu onde é professor há 20 anos. Autor de dois livros de poesia: Por Amor (Editora Recanto das Letras) e Mosaicos de Gelo (Editora Becalete). Duas vezes Classificado no Concurso Nacional de Novos Poetas, em 2018 e 2019, Conexão Brasil 2019 - Concurso Literário da Câmara Literária de Pomerode, FLIST 2019 (Festa Literária de Santa Tereza – Rio de Janeiro – Edição Especial Revista Phillos em homenagem a Chico Buarque); Revista LiteraLivre e Coletânea “Ao Intento do Vento 2” da Academia Mineira de Belas Artes. Prêmio: Medalha Patrono das Letras de das Ciências – D.Pedro II (FEBACLA); Comenda do Mérito Histórico Guanabara – Diploma de Mérito Cultural e Social; Prêmio Caneta de Ouro (FEBACLA);

Recordações Foi um verão tão lindo Seus pés molhados na água do mar Você tão bela, sorrindo Tudo tão perfeito para te amar O Sol tocava sua pele morena E você serena a me observar Produzindo tão mágica cena Minha pequena a me encantar Você pegou a minha mão Com emoção e calor Então foi naquele verão Que te declarei o meu amor. Como a mais bela canção Para cantar em teu louvor Uniu ao meu o teu coração: O Verão, o mar e o amor. Autor: Carmo Bráz de Oliveira https://www.recantodasletras.com.br/autores/carmobraz 41


Clara Tornelli de Almeida Cunha é mineira, tem 22 anos. Nos dias normais estuda Medicina em Ouro Preto. Nos dias anormais, lembrou que gostava de escrever. Iniciou durante a quarentena um Instagram de poesias e ilustrações feitas por uma amiga, Marina Leonel. Se você gostou dessa poesia, não deixe de conhecer o insta @de.clara.no.verso .

Naquela tarde Clara Tornelli Um pouco era a luz que batia no seu rosto Pela metade, como fosse duas Como quem não soube escolher O que já era escolha sua E que não importava também Um pouco era a fumaça que começava a bater A água gelada do mar, o vento que vem O incomodo da pedra que eu pisava Mas que tampouco doía Que de novo não importava Já era anestesiado por aquele dia Tamanha dessemelhança com minha vida Mais para uma nostalgia do futuro Quando me imagino entediado e lembro Do teu beijo jovem, teu olhar duro Da falta de obstáculos no mundo Dado um pouco omisso Que para mim, já haviam Mas não, aquele dia, não E um pouco era sobre isso. Mas quase tudo era sobre você

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Cristina bresser de campos Design Gráfico-UFPR, Proficiency in English-Cambridge University, Creative Writing University of Edinburgh. Autora conto Capitolina, livro Torre de Papel, 2015. Agosto/2016 primeiro prêmio conto Captolium, I Concurso Literário NIDIL, Fortaleza, CE. Primeiro romance, “Quase tudo é risível", Editora Benfazeja, 11/ 2016. “Literatura postal”, jornal Correio do Porto, Portugal. Em 2017, menções honrosas contos na Academia Letras MG, Microcontos Araraquara, Revista Conexão Literatura e Paranavaí Literária. Participação antologias: Microcontos- Lucas Palhão e PVB Editorial Em 2018, antologia impressa (conto e poema) “The Muse and The Flame”- Flucky Fiction Publishing, USA. 3° lugar Crônica Concurso Augusto Anjos, Bahia. Menção Honrosa Conto V Concurso Icoense, Ceará. Selecionada no Concurso Literário Prêmio VIP de Literatura Edição 2018, publicação na antologia impressa AR Publishers. Editora Jogo de Palavras publica crônica e poema no livro “Literatura de Outono”. Publicações em revistas/jornais literários Brasil, Austrália, USA, UK, Grécia e Índia

a mar cristina bresser de campos os franceses chamam o mar de la mère: é feminino. ressaca é tpm. calmaria é noite de amor ardendo sob a lua. manhã seguinte é caco de estrela na areia – sobras da farra sideral. mar é a mãe que acalenta, águas ondulantes. na praia, o tempo desacelera, amornado pelo calor, alguma brisa marinha. caminhando com dificuldade na beira da mar vem genésio, vendedor de amendoim. anda na ponta do pé esquerdo para compensar os centímetros a mais da perna direita. leva uma cesta carregada de doces e salgadas. há muito criou calo nos ombros, mas ano vindouro vai conseguir se aposentar. ele vai sentar na areia e tomar cerveja. jane, a vendedora de sorvetes, tem mais de setecentas músicas no playlist. quando passa por uma faixa de areia despovoada, aumenta o volume, porque tem de tudo nessa seleção, inclusive rock and roll. natália, a quituteira, braços cansados de carregar o cesto de salgadinhos por trinta anos na praia. hoje passa acompanhada da neta, mas é ela quem empurra o carrinho novo. a menina segura uma sombrinha na mão esquerda e digita no celular com a direita.

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marcos foi proibido de voar por aqui. teimoso, finca sua biruta na areia e decola com o para-motor. de cima, observa cardumes invisíveis aos pescadores, um segredo entre o homem-pássaro e a mãe-mar. enquanto isso, nós, os banhistas na areia, protegidos por cogumelos coloridos de lona (o meu, um cogumelo–corcunda, entortado pelo vento de outros tempos). passamos os dias observando maria-farinhas e dando sombra aos cães sem-teto, os capitães da areia. assim que amanhece, eles se esbaldam nas águas do riozinho que desemboca na mar. correm, rolam na areia e latem, mais um dia de vida no verão.

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Daniela Ganem, sou advogada velha e jovem escritora.

Onde está o amor que eu coloquei ali? Já passava das 10:00 horas e Daniela ainda não havia nem tomado café. ⁃ Com essa chuva, perdi até a vontade de ir à praia! ⁃ Não era você quem queria estar lá antes de 8:00 horas? E não vamos à praia, estamos a caminho da nossa praia!! Depois que o mundo invocou o estado de calamidade pandêmico, não colocamos os pés na areia... já somam 4 meses! ⁃ Verdade!! Lembrei! Vamos logo!!! Adiante!!! Com riso largo, Daniela lembrou o prazer de sentir o mar tocando sua pele novamente. E adiantou. ⁃ Está tudo pronto! Vamos?! Soube que o cantinho desse mês é um aconchego só! ⁃ Tudo pronto? E onde colocaremos todas as aquelas coisas ali? ⁃ Ué! Só faltam elas, você não pegou o...?? Antes que ela terminasse a frase (e para isso era preciso lembrar o nome do objeto ausente), correu até a sala, pegou um livro e deitou no chão, bem no lugar onde havia raspas de sol. ⁃ Verão arredio... como eu! Gosto assim, bem sapecado! ⁃ Daniela!!! Já estou na porta! Vamos? Ela dá um pulo e sai quicando, às gargalhadas, sem soltar o livro amarelo das mãos: ⁃ Prontíssima, só falta o... como é o nome daquele... feito para receber todas as coisas que eu deixei ali? Aquilo que sempre desejamos nas viagens? Inclusive as curtas? Entre um sorriso, um livro, uma não lembrança e um amontoado de coisas em cima da mesa, Daniela paralisa ao perceber a chegada de Elis, que com o frescor de quem chega com cabelo molhado, avisa: ⁃ Não vai dizer que está precisando do “culi”! Lembra, não? Eu peguei emprestado mês passado e esqueci de devolver... ⁃ Isso!!! Cooler!!! E agora? Onde vou colocar todas as minhas coisas??? 45


⁃ Desapega! Enquanto ela, Daniela, sentia que estava perdida, Luiz continuava na porta, à sua espera. ⁃ Mas eu sempre precisei de um “culi” para saber onde está o... ⁃ Amor?! Vamos, está ficando tarde!!!! Dalila Ribeiro

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Delmar Bertuol é professor de História. Colunista do Jornal Qtal e do site Pragmatismo Político. Além de participação em antologias com poemas, contos e crônicas, escreveu 'Transbordo. Reminiscências da tua gestação, filha.

ESPECTADORES

Delmar Bertuol https://www.facebook.com/delmar.bertuol O mar foi nosso mais leal cúmplice amoroso. Emprestou suas areias brancas em leito. Depois, limpou de ondas espumantes os vestígios de querer, evidentes em marcas no chão orvalhado do sereno. O sal temperou nossas urgências. A lua a tudo assistia, num voyeurismo indisfarçável.

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Me chamo Dery O'hanna, tenho 29 anos, sou quase formada em Design de Moda (desisti no TCC kkk) e poeta por vocação - mais niilista do que outras coisas. Imersa no cinema independente, aspiro a realidade de outras realidades e preciso de drama para compor a vida. Os gatos, os amores, os sentimentos e as ansiedades são minhas descobertas poéticas.” dery_dak@hotmail.com

Cuidado! Mar Perigoso no mar você também vira mar. ele mergulha na nossa imensidão mais profunda a gente vira areia, vira concha pra esconder o vazio na barrida da nossa’lma. a gente vira alga, que enrosca nas pernas fazendo-se dançar ao som das ondas batendo. a gente se transforma em tudo que está nele os peixes, as cabanas, das dunas, os mariscos, os guarda-sóis e as melancias perdidas na areia. cada onda tem um balanço diferente. e no mar tudo é possível. o mar é maior que amor - talvez o amor seja o mar mais perigoso.

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Edilma Silva Santos Professora no Colégio Estadual Pedro Diniz Gonçalves e na Escola Municipal Professora Josefa Inocência dos Santos, atuando em Salas de Recursos Multifuncionais com diversos cursos de extensão e aperfeiçoamento na área. Pedagoga; Pós-graduada em Arte Educação; Pósgraduada em Docência em Educação Infantil; Pós-graduada em Educação, Desenvolvimento e Políticas Educativas; Mestra e Doutoranda em Ciências da Educação. Atualmente mora em Areia Branca/Sergipe-Brasil. Tem 51 anos. +55 (79) 9 9876 8418 E-mail: edilmatecnologa@hotmail.com Facebook: https://www.facebook.com/edilmatecnologa

Pelico, o Papai Pelicano Amoroso Lenda de Origem da Idade Média Adaptação: Prof. Edilma Silva Santos No outono, a Senhora Pelicano foi visitar a família em outros mares, deixando o Senhor Pelicano cuidando de seus filhotes. O nome dele era Pelico, um chefe de família muito responsável e caridoso. Não muito longe de seu ninho havia um mar cheio de peixes. Era nesse mar que Pelico pescava o alimento para seus filhotes, quando tinha que sair, quase todos os dias, em busca de comida. Os filhotes de Pelico eram muito esfomeados, mas Pelico era tão bonzinho que não se cansava de dar várias voltas, indo até o mar, buscar comida. Ás vezes, na volta para casa, encontrava outros ninhos, de outras aves que moravam pelo caminho. E quando via, dentro dos ninhos, alguns filhotes, piando e famintos, sabe o que o Pelico fazia? Alimentava-os também, dando-lhes um pouco da comida de seus filhos e muito amor. Quando chegava em casa dividia o que trazia no bico com todos da sua família. Os filhotes de Pelico eram muito comilões e iam alvoroçados pegar o alimento, regurgitado em sua garganta. Vocês acreditam que, às vezes, eles comiam até 30 vezes por dia? A sorte é que abaixo do bico de 49


Pelico tinha uma espécie de bolsa que podia comportar até 3 litros de água, e ali ele guardava muita comida para quando os filhotes pedissem. Um dia, quando Pelico saiu para buscar mais comida, uma grande cobra subiu até o ninho para se alimentar dos seus filhotes. Ela ainda conseguiu ferir alguns, mas o Pelico chegou a tempo para salva-los, dando muitas picadas na cabeça da cobra até que ela morresse. Ao ver seus filhotes machucados, Pelico voou para o alto muito triste e feriu-se no peito, deixando cair algumas gotas de seu sangue sobre o bico dos filhotes feridos. Como um passe de mágica ou por um lindo milagre, as gotas de sangue curaram os filhotes. Quando chegou o inverno, daqueles bem rigoroso, os filhotes ainda não tinham chegado na maturidade para irem caçar seus alimentos sozinhos ou acompanhados de Pelico. O Mar estava tão congelado que não dava para Pelico bicar e quebrar o gelo para poder pescar. E agora? Como os filhotes iriam se alimentar? Pensou ele. Pelico, tão responsável que era, não podia deixá-los à mingua. Foi aí que ele teve outra ideia: começou a bicar novamente o próprio peito, dessa vez, arrancando sua própria carne... e assim, com ela alimentou os filhotes por todo aquele inverno. Quando chegou a primavera, a Senhora Pelicano voltou e observou que seus filhotes estavam bem e crescidos. Ela percebeu também que Pelico estava bem fraquinho. Foi quando descobriu seu peito aberto e todo dilacerado. - Oh, meu querido! O que foi que o senhor andou aprontando? Exclamou a Senhora Pelicano, que logo começou a cuidar de Pelico com muito amor e carinho. No verão, a família Pelicano saiu para passear pelos sete mares dos continentes, todos saudáveis e felizes. Fim

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No simbolismo católico o Cristo que deu seu Corpo da humanidade, ou Eucaristia.

pelicano é o próprio Jesus e Sangue para a salvação alimentando o homem na

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Pseudônimo: Ednaves Edmilson Naves de Oliveira, Resende - RJ - escritor com 6 e-books e 10 livros impressos publicados. Sua obra passeia pela crônica, contos curtos, poema e contos infantil.

A pequena Glória Eu acordo sempre cedo perto das seis e quinze da manhã. Eu mesmo arrumo a mesa, coloco a água do café e o leite para esquentar, faca e colher, manteiga e pão. É um ritual antes de sair para o escritório todos os dias. Pego minha pasta abro a porta do apartamento e já dou de cara com a dona Lúcia uma senhora de quase oitenta anos varrendo o corredor. Ela faz isso desde quando me mudei para cá há mais de quinze anos. Nunca desço ou subo de elevador até o terceiro andar são seis vãos de escada que faz bem à saúde. Chego ao hall que está vazio. Já não temos porteiro está muito caro, são somente doze apartamentos e todos os moradores são idosos e só temos crianças ou netos nos fins de semana e alguns gostam de receber as cartas e distribuir, se oferecem para pagar as contas é uma total harmonia aqui. Daqui para o meu trabalho são trinta minutos a pé o que faço com prazer e vou descendo já com a chave do portão na mão e ao abrir o portão me deparo com uma cena chocante, mas corriqueira que é gente deitada ao pé do portão. Só que nesta manhã meu coração doeu e até palpitou forte, estava ali deitada sobre um papelão com uma coberta fina e suja uma menina que aparentava uns dez anos no máximo. Olhei ao redor e gente passando pela calçada e o mais triste que na sua pressa as pessoas viram o rosto para o lado oposto, para talvez não sentir a dor que eu senti quando me deparei com a cena. E o que fazer naquela situação passar a chave no portão e sair caminhando na direção oposta. Olhei para os lados buscando a família ou a mãe daquela menina e ninguém por perto. E num ato impensável resolvi acordar a menina, ela despertou assustada eu do lado de dentro do portão e ela do lado de fora, perguntei se ela queria café, ela meio séria e desconfiada balançou a cabeça que sim, pedi para ela esperar, entrei no hall e peguei o elevador eu tinha pressa ela podia pegar suas bugigangas e ir embora sem comer, quando desci com o copo de café com leite e um prato com pão e biscoitos ela estava de pé em frente ao portão. Quando passei a chave no portão e olhei nos olhos dela ela sorriu, entrou sentou na escada, devorou o pão e sem olhar nos meus olhos falou baixinho: - meu nome é Glória! Eu peguei o prato e disse a ela 52


que iria buscar mais biscoitos e subi de elevador pela segunda vez em vinte minutos, entrei em casa e fui direto ao telefone e liguei para minha filha e pedi a ela que viesse rápido, desci com os biscoitos e em menos de meia hora minha filha chegou, conversamos com a pequena Glória por um bom tempo, de onde vinha se tinha casa, mãe e pai, quanto tempo estava nas ruas e etc. E hoje depois de quinze anos ao abrir o portão para dar minha caminhada vejo a imagem daquela menina deitada no meu portão. O celular toca e ao atender é Glória me ligando de São Paulo para dar bom dia, ela me liga todos os dias pontualmente às sete horas, pois foi à hora que a encontrei no portão, me deseja um bom dia e envia um beijo. Diz que está saindo para a faculdade e que no fim de semana virá me visitar e diz: - Te amo, vovô!

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Eduarda Martins Mendes: Nasceu em 1957 na cidade de Maputo, antiga Lourenço Marques, Moçambique. Em 1975 mudou-se para em África do Sul, onde se formou em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo. É formadora de Língua Inglesa e de Português Língua Estrangeira.

Amar-o-mar E o mar leva-me para longe daqui, para além do horizonte que, afinal, é já ali! Em busca de contos de histórias por contar o mar leva-me para junto de si. E desvenda-me mistérios e segredos escondidos perdidos nas suas sombras e nas suas ondas, E vejo sereias encantadas, nuas de pudor, a tocar notas eróticas de amor, sem flauta, sem pauta. Tanto mar para amar Para lá deste mar… E o mar leva-me Para junto de ti!

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Eduardo Rodrigues Amorim, um poeta, letrista e estudante de pedagogia na Universidade Estadual do Piauí - UESPI. Tenho 21 anos. Moro em Altos-PI e trabalho em uma escola da rede Municipal de Teresina-PI. E-mail:999eduardorodrigues@gmail.com AMEI Amei Apenas uma vez Mas isso eu já sei Agora estou chorando Se errei Foi ao não dizer O quanto eu te amei O quanto ainda te amo Eu sei Que não tornarei a ver A beleza do teu ser Os teus lábios que me encantam Eu vi Um brilho pelo ar Ao você chegar Mas tudo era um sonho E você e você Se foi pra longe E você e você Sumiu pelo horizonte Eduardo Rodrigues Amorim

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Elaine Valeria de Camargo é professora da rede pública municipal de São Paulo.

Sobre meninos e livros numa viagem à praia O que vão querer ler Num dia ensolarado de verão? Sobre o que passarão os olhos, Se o mar os chama lá fora? Que obra os seduzirá, Se a brisa refresca a tarde quente? Que texto os fará mergulhar no sol, no mar, na brisa? Não há poema que vença a poesia da própria natureza.

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Sou como o sfumato de um esboço qualquer, de poemas que faço de mim e do meu ser que é mulher. Sou como flor que está a desabrochar, Amélie Poulain que insiste em sonhar. Prazer, me chamo Élida Ramalho, amante da arte e da fotografia. Tenho um caso com a arquitetura, nasceu de mim a poesia.

você se move tranquilamente em passos lentos e calmos como a água salgada do mar às 8h da manhã a noite você sorrir e o teu riso fácil é como o azul do céu para mim o jeito que meu coração desabrocha em cada movimento teu é algo como prender-se ao universo imenso então, alinho-me aos planos faço sermos únicas e no inconsciente do nosso nós a terra se move ao redor do sol a procura de algo mais escuro e melhor que a noite mas nenhuma terra em nenhum mar mergulha tão fundo quanto meus olhos ao te ver chegar sob a luz da lua Élida Ramalho

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Francine Cruz é escritora e professora. Mestre em Educação pela UFPR é autora dos livros: Amor, Maybe (Ícone Editora, 2011), Educação Física na Terceira Idade: Teoria e Prática (Ícone Editora, 2013) e A Casa dos Dois (AudioLivro Editora, 2014). Com seu trabalho de incentivo a literatura, recebeu o prêmio Agente Jovem de Cultura do Ministério da Cultura (2012). Facebook: https://www.facebook.com/escritorafrancinecruz E-mail: francinecruz2011@gmail.com

Hacai

sob o sol brilhando teu cabelo bagunçado charme com certeza.

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Gabriela Giordani é uma escritora amadora apaixonada por poesias com temas cotidianos. Gabriela já teve seu trabalho publicado na Coletânea de trabalhos selecionados: Em Palavras, nas edições de 2018 e de 2019. Atualmente, ela compartilha diariamente textos autorais em seu instagram @com4mor, é membro do clube virtual @clubepoetico e cursa engenharia de telecomunicações na Universidade Federal Fluminense.

E o mar levou Foi naquele verão, que verão! Eu me lembro bem, todos os tons de azul que o mar refletia caíam tão bem com a nossa paixão. Cada por do sol em frente ao mar, cada toque, cada palavra. Sabe, as vezes eu fecho os olhos e começo a me lembrar daquela época. Foram dias bons na praia, foram dias bons para o amor. Uma pena que não puderam continuar. Uma pena você nem mais lembrar, que um dia me amou. É que o mar levou, levou para bem longe de nós, todo aquele amor.

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Gabriella de Sousa Tavares e possuo licenciatura em Letras, Língua Portuguesa e Literaturas pela UNEB. Faço especialização em Didática da Língua Portuguesa no IFBA. Email: gtavares59@yahoo.com.br

Soraya e o mar Gabriella Tavares Com o nascimento de um novo dia surge a esperança do aparecimento de um belo amanhecer, de um sol que ilumina a todos os cidadãos das cidades e também das zonas rurais. Por meio da expressão contínua do calor, têm-se a sensação de estarmos no verão. Mas, qual é o encanto dessa estação? O que a faz ser amada e esperada por tantas pessoas? Soraya sabia a resposta. Habitando em um vilarejo do interior, esta mulher de trinta anos ansiava pelo verão para se encontrar com a sua maior paixão, o mar. Ao chegar o verão, Soraya arrumou as suas malas e disse aos seus pais e parentes que iria para a cidade de Copacabana, para o seu encontro anual com o mar. Os seus pais não entendiam qual era o fascínio que a filha tinha pelo mar, que fazia a mesma enfrentar oito horas de viagem. Eles se questionavam qual a importância disso? Então, observe esta linha de raciocínio. Em sua concepção, o mar era a libertação, o encontro consigo mesma, o local em que a corajosa trabalhadora enfrentava todos os seus medos: de morrer sem ter realizado os seus sonhos, de perder os entes queridos sem ter feito o possível para ajudá-los, de não encontrar alguém para formar uma família, entre outras frustrações que pairavam pela sua mente. Soraya gostava de sentar na areia quente e ver as competições de surfe que tinham na época do verão. Era um verdadeiro encontro. Mas, qual a razão da fixação por assentar-se na areia quente? Era simples o motivo. Na realidade, a areia representava todos os desafios pelos quais atravessava naquele período. Então, ao colocar uma toalha em cima, ela lembrava que havia momentos em que as dores amenizavam, por isso, preferia enfrentálas de uma vez.

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A competição era o momento mais esperado. A primeira onda vencida, a menor, representavam todos os pequenos medos de Soraya, como, por exemplo, a primeira vez em que foi em uma roda gigante, aquele brinquedo que para uma criança tão pequena simbolizava o fim, e, no entanto, se tornou a sua diversão preferida. A cada onda vencida pelo surfista vinha a lembrança de um medo ou frustração superada. Porém, em cada queda, em cada onda gigante vinha a sensação das maiores dores da vida, aquelas difíceis de superar, como a morte de um primo muito amado por causa de uma doença degenerativa. Só que nestas derrotas e vitórias, ela não se esquecia do papel fundamental da prancha. O equilíbrio perfeito entre o surfista e as ondas, assim como na vida. É preciso ser equilibrado para não afundar nas ondas grandes e humilde para não subestimar as ondas pequenas. Ah, mas, após tudo isso, o triunfo, a vitória final! Que doce sentimento, que emoção maravilhosa, não só pela alegria do vencedor, mas, pela representação daquele gesto, choro de alegria, de ter finalmente vencido a dor, assim como a exultação resultante do encontro do amor. Por meio daquelas areias e ondas, Soraya havia encontrado o amor, a superação da dor, através do melhor encontro que a mesma poderia ter. Ela percebeu que o mar era formado não só por águas profundas, mas também, pelo verdadeiro elo que liga a todos, o amor e que assim como no surfe você pode cair e se levantar quantas vezes forem necessárias, utilizando o exemplo da prancha, é só saber se equilibrar.

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Gisela Lopes Peçanha Natural de Niterói, RJ. Escritora. Cantora. Graduada em Musicoterapia pelo Conservatório Brasileiro de Música do RJ. Alguns Prêmios Literários 1º Lugar - Concurso de Contos Prêmio José Cândido de Carvalho – Fundação de Artes de Niterói e Academia Fluminense de Letras - 2015 (Niterói/RJ); 1º Lugar - Concurso Internacional de Contos Prêmio Rubem Alves - Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto - 2015 (Ribeirão Preto/SP); 1º Lugar - Concurso Literário de Poesia Bauernfest - 2015 (Petrópolis/RJ); 1º Lugar - 11º Concurso de Contos – Mostra AcadêmicaUniversidade Metodista de Piracicaba UNIMEP - 2015 (Piracicaba/SP); Segundo Lugar – XXIV Concurso de Poesia e Prosa da ALSJBV - Prêmio Fábio de Carvalho Noronha – Academia de Letras de São João da Boa Vista – 2016 (SP); 1º Lugar – X Concurso Literário Poesiarte – 2016 (Cabo Frio/RJ); 1º Lugar - 12º Concurso de Contos - Mostra AcadêmicaUniversidade Metodista de Piracicaba UNIMEP - 2016 (Piracicaba/SP); 1º Lugar II Concurso Internacional de Poesia Casa de Espanha 2016- (Rio de Janeiro/RJ); Segundo Lugar – Concurso Literário da Academia Feminina Mineira de Letras da Universidade Livre e da Academia Mineira de Letras 2016 - (Belo Horizonte/BH); Segundo Lugar – XXVIII Concurso Internacional de Poesia da ALAP - Academia de Letras e Artes de Paranapuã 2016 – (Rio de Janeiro/RJ); Diploma de mérito Professora Adelaide Franco - II Concurso Literário Municipal de Barra Mansa –Biblioteca Municipal - 2018 (Barra Mansa, RJ); Segundo Lugar - V Concurso Cultural de Microcontos da Biblioteca Ignácio de Loyola Brandão do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP) – 2018 (Araraquara/São Paulo); 1º. Lugar - 2º Concurso Internacional da Revista Literária Inversos – Doces Poemas - Academia de Letras e Artes de Feira de Santana BH (ALAFS) –2019 (Feira de Santana, BA); Menção Honrosa – XX Prêmio Escriba de Contos 2019 – Prefeitura de Piracicaba, Secretaria Municipal da Ação Cultural e Turismo e Biblioteca Pública Municipal “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”- 2019 (Piracicaba, SP); Segundo Lugar I Concurso Nacional de contos da AGLAC Academia Gonçalense de Letras, Artes e Ciências – 2019 (São Gonçalo, RJ); 1º Lugar - 1º CONFUZINE – CONCURSO LITERÁRIO DO SUBURZINE – 2019 - premiada em 2020 (Rio de Janeiro); Semifinalista – PRÊMIO UIRAPURU DE LITERATURA 2019; Finalista – Concurso Habeas Liber – 2020 – UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA (DF). FACEBOOK: GISELA PEÇANHA

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FUNDO & SUSPIRO (Gisela Lopes Peçanha)

Embrulhei minhas perdas e danos minhas dores e prantos e ao grande mar: os arremessei. Ao ver afundar tal bagagem (obesa, pétrea, covarde) minguou o meu peito estourado – Coração, chumbo que arde e um bálsamo em Minh’ alma, se refez. Auroras que não nasceram verões candentes sem ventos vida que desperdicei... Ingratas partidas sem adeus: de quem tanto, ou nunca amei. Âncoras dos devaneios andorinhas sem rota, sem governo o sol rei, aquecendo meus gelos — Beijos, que não suguei... Para o fundo sucumbiram as tesas crostas – O sal de lágrimas o maciço dos desgostos submergindo, sob espumas e bolhas: mas dentro delas numa célula guardada sobrevivente da batalha (ainda), respirava o amor..

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Autor: Glauco Paludo Gazoni Chapecó-SC Brasil Contato: glaucopaludo@hotmail.com

Idílio de Estio Amor sazonal, Affair tão banal! É Amor de Verão: Não mais se verão...

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Graziela Tosta Barros de Carvalho: Tenho 22 anos, já cursei alguns anos de graduação em Letras na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e no Centro universitário Barão de Mauá, em Ribeirão Preto. Atualmente curso graduação em Psicologia na UNAERP e escrevo no blog "Palavras, café e amor" que possui também página no Facebook e perfil no Instagram. Link do blog: https://palavrascafeeamor.blogspot.com/. Pelas águas de mim Costumava ouvir com frequência: eu parecia um mar agitado, profundo, indecifrável. Pena que meu ex-marido errava profundamente: mais que mar, sou oceano. Um ser de infinitas possibilidades, cheia de energia, expansiva. E a presença dele sugava tudo isso, apoderava-se de minha energia, aprisionava minha infinitude. Com ele dentro de mim, eu era mar. Seu amor mudava sempre a maré. Às vezes, maré alta, sufocante. Às vezes, maré baixa, em que me machucava ralando o corpo na areia. Um corpo considerado seu. Posse. Encontrava-me isolada. Sem amigos, sem família. Eu deveria seguir suas orientações para guiar a minha maré, porque via-o enquanto lua. Sento-me diretamente na areia da praia, com os pés tocando as pequenas ondas. De biquini, posso sentir em totalidade os grãos de areia nas minhas coxas, pernas e pés. O calor da areia aquece-me do vento frio que sopra de manhã. Tão agradável é a paisagem... As ondas baixas formam-se discretas e quebram apenas na beira da areia. O céu com algumas nuvens dá ao mar uma tonalidade ora azul, ora mais esverdeada, a depender da luminosidade do sol. Na praia vejo poucas pessoas. Casais passeiam fazendo caminhada, vestidos com short, camiseta e tênis. Uns me observam com estranheza. Ainda é cedo para uma mulher, sozinha, sentar-se com o biquini diretamente na areia. Mas eu me sinto livre pela primeira vez em muitos anos. Não era suficiente para ele. “Que fique sozinho então”, penso. Há uma semana, saía do apartamento onde morávamos. Lembro-me ainda do dia decisivo. Ele jogava meus livros no chão, a frente de meus olhos, e pisava em cima deles com seus sapatos sujos, numa crueldade sem tamanho. Eu sabia que meu ex-marido às vezes depositava alguns no lixo reciclável. Uma vez, questionei o motivo de sua atitude e ele se justificou com o fato de eu não lhe dar a devida atenção por conta de minhas leituras. Indagava-me como era possível ele ter ciúmes até mesmo dos meus livros. 65


Sentia raiva por sua atitude, mas essa emoção rapidamente era substituída por um sentimento de que esse ciúmes dele era amor. Apenas queria mais da minha presença. Quanto era tola! A verdade era que quando ele chegava em casa, pouco carinho eu recebia. Tudo não passava da conversa rotineira e básica de como tinha sido nosso dia. Depois, ele dedicava-se totalmente ao trabalho. Ficava o restante do tempo no celular, em ligações importantes de outros advogados. De escanteio, recolhia-me nos livros. Ali, tinha vidas diferentes, compartilhava de outras trajetórias. Eram meus amigos, de uma conversa unilateral. Nós morávamos nessa cidade do litoral devido a uma oportunidade de emprego para ele e como dona de casa não tive a oportunidade de conhecer outras pessoas. Isolada. “Ah! Deus!”, suspirava, quando de repente o barulho da panela de pressão alertava-me de minha profunda angústia, sem que eu percebesse. Reflito, ao ver aquela imensidão azul, sobre em que momento de minha vida eu tinha decidido me recolher, abandonar minha carreira. E logo a memória me vem. Minha gravidez, eu, recém formada, meu ex-marido ainda no cargo de advogado, iniciando a carreira. O momento daquela concepção aconteceu devido a sua petulância. Bêbado em casa, após sair com seus amigos, ele se recusou a usar o preservativo, mesmo contra a minha vontade. Aquela madrugada lembrava-me de um passado obscuro em que eu cedia a suas vontades, pois queria satisfazê-lo! Queria tê-lo feliz ao meu lado, afinal, o ditado popular dizia às mulheres que os homens procuram na rua o que não possuem em casa. Não podia perdê-lo, porque o amava muito. O resultado: uma gravidez imprevista. Antes de nossa filha nascer ainda tinha conseguido defender o mestrado. Depois, tomei a decisão: não iria trabalhar para cuidar dela, porque não queria deixá-la nas mãos de babás. E não podia contar com meu parceiro, ele não iria poder vigiá-la, já que o serviço demandava boa parte de seu tempo. Essa escolha, aparentemente temporária, entretanto, acabou se estendendo muito. E o homem de quando namorávamos, sempre cavalheiro, gentil, romântico, aos poucos ia desaparecendo, tornando-se uma figura malhumorada, sempre reclamando do dinheiro que gastava com os estudos de nossa filha. Bastante tempo após o nascimento dela eu ainda mantinha contato frequente com minha família que me ajudavam. Tinha minhas amigas da faculdade, porém, logo essas amizades foram se dissolvendo. Meu exmarido mostrava-se ciumento quando eu saia com elas. Fazia mil questionamentos, e esses terminavam em brigas. Ele me chamava de 66


libertina, aquela que não se preocupava em estar com a família. Aos poucos, deixei de sair e perdi o contato com minhas amigas completamente. Quando nossa filha completou 10 anos, mudamo-nos para a cidade litorânea. Ele fora promovido a juiz. Feliz por sua conquista, apoiei. Embora dele recebesse apenas reclamações de como eu fazia os serviços domésticos. Ouvia insultos, era alvo de seus ataques de raiva. Projetava em mim o estresse do seu trabalho. Nosso relacionamento era um vaivém do mar. Muitas vezes, no meio de seus acessos de fúria, com medo, saia de casa e levava nossa filha para dormir comigo em um hotel qualquer. Dizia que iria me separar dele. Ele insistia, contudo, para o meu retorno no dia seguinte à discussão. E eu voltava, sempre, pois eu o amava, era alguém que admirava. Na semana anterior ao dia em que estou sentada nessa praia, desisti do nosso relacionamento, definitivamente. Ultrapassando todos os limites, ele criticava tudo em mim. Era insuficiente, feia, descuidada, burra, negligente, e não fazia nada além de ler. A leitura, o meu único refúgio, tornou-se alvo de sua raiva. Às vezes, chegava a acreditar em suas palavras duras. Sentiame inferior, com baixa-autoestima. Mas, no fundo, sabia que não podia me identificar com nenhum daqueles insultos. Lembrei-me, ao olhar uma foto minha jovem, o quanto tinha um sorriso radiante, a alegria de uma mulher que esperava no futuro ser independente. O contraste entre o que um dia eu quisera ser e o que de fato eu era doía-me, pois meu amor ao outro matara aquela jovem. Ao amá-lo tanto fui deixando de amar a mim mesma, achando que a concretização de seus sonhos poderia substituir os meus. Passo a mão por meus cabelos embaraçados. O vento os bagunça, enquanto penso sobre meus erros em ter insistido tanto naquele relacionamento. Nessa manhã, eu respiro finalmente o ar puro. O ar desejado há tanto tempo. O som das águas lembra-me o tanto de lágrimas já choradas. Águas de tristeza, raiva e alegria compõem-me. Quando pude enxergar que você não era a lua que me guiava e perceber o oceano dentro de mim, liberteime de suas amarras invisíveis, de real dor. Sabia que, logo mais as nuvens ainda escuras do céu desapareceriam e eu sorriria novamente em um belo dia de sol, de céu plenamente azul, com os pés cheios de areia e as águas salgadas a me banharem. Inteira.

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Guilherme Lotti Amaral : Nascido em Farroupilha, Rio Grande do Sul, cresci e estudei no Ceará e na Paraíba. Comecei a escrever poemas como forma de falar do que sentia em 2013. Aos 28 anos, comecei a levar a escrita mais a sério e a me aventurar por textos mais narrativos, como crônicas e contos. Atualmente busco mostrar meus textos para as pessoas como forma de compartilhar sentimentos e visões do mundo. E-mail: guilhermelottiamaral@gmail.com

Oceano na noite Subi o morro até o farol e me sentei de frente para o mar. Fitei o oceano no escuro da noite, iluminado apenas pela luz da lua cheia e dos postes atrás de mim e, entre um cigarro e outro, contemplei aquele momento. Se você já observou o oceano na noite, sabe do que eu estou falando: não se pode enxergar nada além da superfície negra e só nos resta o mistério de imaginar o que vive ali no fundo. O mar batia nas rochas ao pé do monte e o vento soprava quente, uivando lamentos passados e futuros, e pensei mais uma vez em escrever. Mas pra quê? As pessoas acham que sabem escrever, eu achava que sabia escrever, mas escrever de verdade não é tão simples. Claro, qualquer um pode enfeitar frases e colocar palavras bonitas e difíceis lado a lado, formar uma ideia e, ás vezes, rimar umas com as outras. Aliás, pra que rimar? Versos livres, versos brancos, poema é poesia e poesia é arte e toda arte é arte, desde que fale a verdade. Uma criança pode escrever um soneto e todo mundo na escola teve aulas de literatura e redação. Não é difícil escrever uma história narrativa: conta-se um fato abusando das descrições físicas e sensoriais e pronto. Classifica-se na categoria mais conveniente e temos um texto, e texto é poesia e poesia é arte e toda arte é arte, desde que fale a verdade. O Farol começou a ficar deserto, casais começaram a ir embora e eu fui ficando. Ouvindo os barulhos dos carros que passavam na avenida lá no fundo, perto de onde as ondas encontravam a areia, percebi que aquela paisagem era arte porque era real. Arte real e natural, criada pelo caos desordenado do universo e pouco apreciada por nós, seres humanos. Se eu fosse escrever precisaria falar a verdade e, geralmente, a verdade é difícil de ser dita. E dói. Não qualquer verdade, mas as nossas verdades. As verdades que escondemos no dia-a-dia, nas conversas superficiais e nos jogos mentais. 68


As verdades que queremos dizer mas não podemos ou temos medo de botar pra fora. Essas são as verdades que precisam ser escritas. Bote a culpa na licença poética. Não é você, é o eu-lírico. Fácil. Mas elas têm que estar ali. Enquanto o vento bagunçava meus cabelos, quase apagando o cigarro e me dando calafrios mesmo soprando quente e umas últimas aves gritavam ao longe, quase abafadas pelas ondas quebrando ao fundo, me senti cada vez mais sozinho no ambiente. E me sentindo cada vez mais sozinho no ambiente, me senti cada vez mais em paz com a minha solidão interior e com as minhas verdades. Talvez eu devesse escrever. Talvez eu devesse falar a verdade. A verdade de que aquele oceano escuro na noite, só me lembrava o olhar dela. De que, assim como Bentinho se perdeu nos olhos de cigana oblíqua e dissimulada de Capitu, eu também me perdi nos olhos dela. De que nada que eu faça me tira ela da cabeça, de que ninguém enxergou através de mim daquele jeito e de que nenhuma boca, nenhum toque, nenhuma pele, chega aos pés da boca, do toque e da pele dela. A verdade de que tudo que eu queria era beijá-la até as pernas dela escorrerem, de que tudo que eu queria era uma briga e uma reconciliação, de que eu queria odiá-la em alguns dias e amá-la pela eternidade. A verdade de que eu não tive tempo nem de enxergar dentro daquele oceano negro, de descobrir as maravilhas e horrores que ali habitavam. A curiosidade continua me matando, não pude nem mesmo mergulhar e sair correndo assustado. Não pude sentir o sal daquele mar. Se eu fosse escrever, escreveria um final feliz. Eu, mais que todos, adoro um final feliz. O garoto conhece a garota, se apaixona, a garota mostra um mundo totalmente novo pro garoto, o garoto faz merda mas se redime, conseguindo o perdão da garota e se transformando em um homem, sendo salvo. Felizes para sempre. O problema é que finais felizes assim raramente são verdadeiros. Fáceis de serem escritos, difíceis de serem vividos. E eu cansei de escrever. Cansei de escrever verdades que eu gostaria que fossem faladas, que fossem vividas. Cansei de me esconder atrás de palavras, de histórias e rimas, de rasgar meu peito e mostrar minha alma na tentativa de mostrar minhas verdades e ninguém ver. Ela não ver. Garrafas jogadas em oceanos flutuando à espera de que alguém as descubra, sinais de fumaça soltos no vento na esperança de que alguém veja. De que ela veja. Mas eu já nem sei mais quem ela é. Não sei mais quem eu sou. Mostrar minhas verdades em palavras talvez não valha muito sem o leitor certo. Talvez eu deva guardá-las para serem faladas e não escritas. E se elas não quiserem sair pela voz, que morram dentro de mim. 69


Àquela altura, ali sentado, eu já nem enxergava mais o mar, nem a lua, nem sentia o vento e nem ouvia as ondas quebrando. Estava anestesiado e os cigarros perderam o sabor. Resolvi ir para casa. Levantei, respirei fundo, voltei a prestar atenção aos sons, cheiros e sensações, olhei mais vez para aquele oceano escuro e indecifrável e pensei pela última vez se deveria escrever sobre ele. Sobre ela. Sobre aquelas verdades. Mas desisti, sem mais histórias e rimas sobre sentimentos e verdades. E se eu não puder escrever sobre verdades, prefiro calar minhas palavras. Que saiam pela voz ou morram dentro de mim. Desci lentamente a ladeira em direção ao meu apartamento, pensando que demoraria muito para voltar ali, para voltar àquelas verdades. Mas, sabendo agora o que é preciso para realmente escrever algo real, você poderia me culpar?

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Helder Júnior: O autor nasceu em Fortaleza. Formou-se em LetrasPortuguês pela UFC e se especializou em Ensino de língua portuguesa pela UECE. Escreve poemas, crônicas e contos. Teve vários textos selecionados para antologias de concursos literários, como: Arte do Terror, III Concurso Big Time Editora 2015, Antologia baseado na Estrada – 50 anos do movimento hippie (Costela Felinas), IV Festival de Haicais de Petrópolis, Prêmio Vip de Literatura 2016, Concurso Contemporânea de Literatura 2016, 1° no concurso literário do núcleo interdisciplinar em Direito e Literatura, 1° Desafio Literário Olaria das Letras, Antologia Escritor Marcelo de Oliveira – celeiro de escritores, com o poema “Silêncio”. Publicou o livro de poesia Batons, Eucaliptos e Aspirinas – Drago Editorial e de Insultos Poéticos e Outros Cactos (no prelo) – Autografia Editora. Email: juniorrusso.felix@gmail.com

Veranum Tempus (ou o Eterno Verão) Helder Júnior No entardecer, Ardo. A brisa rara passa. Imóveis, as árvores nada me dizem. Trêmulo o horizonte [Saudade morna Da madeira morta nasce os sons das violas. Nos rios e lagos e mares Minhas lágrimas longamente se evaporam. Escorrem rápidas. Esquálidas. Solitárias. Longos os dias Curtas as noites E neste alinhamento lírico e poroso O enquanto se faz bastante. No céu, Listas coloridas, Voo das aves Com as asas e bicos abertos. Meu peito quente igualmente aberto 71


[Chora. Meu corpo sua. A noite acena. E as estrelas cintilam Cosmicamente brilham E desenham A solidão, A mulher amada E a ausência que transita Neste verão quente No meu coração.

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Hudson Henrique, 06 de outubro de 94. Poeta, escritor e compositor brasileiro. Site oficial: https://hudsonoficial.com/

A garrafa de rótulo vermelho. Hudson Henrique. Era amargo. Como toda noite que começava, assim como acabava. E como se não tivesse mais amanhã, eu girava, girava em qualquer sentido do relógio, em qualquer porta de banheiro torta. Era doce te salvar do chão, ter que carregar você direito pra cama. Era frio, era muito frio. Tanto que de certa forma, meu corpo se acostumou com tamanha adversidade aplicada. Agora, de volta à estaca zero, aonde me pertenço e ninguém me pertence. De volta aonde tantas coisas aconteceram. O primeiro contato entre meus lábios e de forma vertiginosa, os seus. Emplacado em tudo que me fez, alguém que nunca fui, só pra parecer importante de se olhar. O primeiro café, de certa forma, foi mais vulgar que uma bebida forte. Era amargo. A saliva penetrando em minha boca, ouvindo uma piada qualquer de bêbado. E, eu. Bom, eu aceitava qualquer situação constrangedora se fosse do teu lado.

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Uma sensação de conforto, logo se tornaria passageira, pra agonia incontrolável de quem nunca soube se controlar diante situações adversas.

Garotas suficientemente boas, olhavam vitrines escandalosas e pertinentes. Enquanto de relance, acho que vi alguém do meu passado no presente. Tenho certo medo de olhar, não sei que posso falar, que explicação vou dar por ter seguido em frente sem você. Músicas repetidas, as mesmas dos outros dias. Só que tudo diferente, minha indecência sumiu depois dessas garrafas de rótulo avermelhado. Um bebê aprendendo a andar, um adulto começando a fumar. Crianças no sinaleiro. Passam e passam no corredor, tantas faces, sonhos e desgostos. Algumas só cortando caminho pelo meio. Tanta indignação dentro do peito. Chego em casa e me deito. Não acabou. Nunca acaba. Garotas correm apressadas pelo seu ônibus. Presentes de fim de ano nas mãos pra alguém querido. Não acabou. Nunca acaba. 74


Isabela Müller, Arquiteta Urbanista por profissão, cozinheira e poetisa por amor: amadora, mas sonhadora. Por isso, não me perguntam se acho / Eu acredito / Até que o contrário me provem / Eu tento / Até que me canse / Eu fantasio / Até que eu acorde! https://www.facebook.com/isabela.menezes.904/

Amo esses dias claros em que o mar fica empoeirado a brilhar um pó dourado que dá até vontade de ali mergulhar de ficar molhado a observar sentir o gosto salgado da maresia no ar que prazer me dá o simples fato disso tudo AMAR!

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Isathai Coelho: Mãe, professora e mulher (nem sei em que ordem). Uma mente inquieta, um coração sensível. Questiono o que está posto, mas me rendo a bons argumentos. Escrevo sobre o que penso e sinto. Coloco amor em tudo o que faço. Facebook: Isa Coelho Instagram: @tiaisathai E-mail: isathaicoelho@gmail.com Poemas e canções

Quero um poema pra mim Com um homem correndo num dia de verão Enquanto uma mulher olha calmamente o mar Um poema em que um pássaro branco voe Livre, com suas asas leves E sua leveza também faça voar. Quero uma canção pra mim Uma canção sem palavras, Que nada acrescentam às obras de arte Em que o poeta preencha o silêncio com melodias E me faça enxergar o amor e a poesia em toda parte. Quero um poema, uma canção Uma carta lançada ao mar Ou uma mensagem levada por um pássaro Em que uma alma musical se reconheça nos sons E os façam ecoar. Isathai Coelho

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Ítalo Rafael Lima Dourado De Sobral-Ce. É acadêmico de Filosofia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú, tem 23 anos e é um apaixonado por Baudelaire.

Do Amor que tem o Mar O mar não se iguala ao amor com medo do se arrepender. Amor, invade o mar, mas ele recua, pois não realiza o conter. Assim, o amor brinca, pois, que, até as camas o alcançam, em seguida as paredes, o quarto. Logo, o mar, sentindo-se pequeno diz "marejo cheiros pelas janelas, levando-os ao mais doce que se pode encontrar nas boas manhãs, e ninguém sai ferido" "Ora, eu sou o frequente sinal dado que mantém a faísca que não termina, quando eles cruzam o outro lado da vida" Replicou, o Amor. "Quer dizer então que se assume como a clareza desfocada que perseguem irremediavelmente?" Inquiriu, insistente o Mar. "Sem nós, nada pode se abrir meu amigo, sejamos correspondentes, uma vez que a gota dos olhos precisa cruzar-te para que evapore subindo aos céus (re)tornando-se o bem que sou eu"

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Jacqueline Lombardi Valadão: Nasceu em São Paulo no ano de 1986, sempre gostou de ler e escrever versos sobre os mais variados assuntos, após concluir o magistério trabalhou como professora de educação infantil desde 2006 e posteriormente trabalhou como professora de ciências devido sua formação em ciências biológicas, atualmente estudo Pedagogia e trabalha como professora de educação fundamental em São Bernardo do Campo, cidade onde reside com seus dois filhos e suas três gatas. Ainda ama escrever seus versos sobre tudo que lhe cativa ou inquieta. Contatos: jacvaladao@gmail.com Facebook: Jacqueline Valadão

A MAR O MAR – Jacqueline Valadão Quando olho pela janela Mais perto estou de ti Cada quilômetro Me aproxima mais e mais O mar me recebe e você também. O som do mar vem me despertar Mais um dia vem me tocar E com seu manto de vitalidade me banhar Sua companhia aquece meu dia. Sem ela não sei como navegar Nesse mar da vida que velejo Noite e dia, com você em meus pensamentos Vivo a vagar. O encontro é parte do dia Mas mais que isso sua companhia É tudo que quero para me acalentar. Seus sussurros de bom dia Me aquecem como o sol E não quero mais retornar. Para meu lar, volto ao final do dia Sem esquecer de você e do mar. 78


Jeane B. é jornalista e poeta. Publicou em 2014 o livro Brado Carmesim. Segue publicando seus poemas na página facebook.com/voos.e.palavras. Também faz parte do coletivo Nós, as poetas ( https://www.facebook.com/nosaspoetas/ ) e assina uma coluna no site Seguinte: ( http://www.seguinte.inf.br/noticias/colunas_1126/ ).

FILHA DAS ÁGUAS Ê, minha mãe… Meu amar é feito tua onda: abraço tão grande que assombra tanto quanto aconchega e nem sempre avisa quando chega. Meu amar é feito tua onda: engole quem se distrai com a paisagem ou entra certo de levar vantagem. Ê minha mãe… Nosso amar é pra quem se entrega à dança e entende tudo que cabe na palavra confiança. Nosso amar, Odoyá, é pra quem tem coragem. (Jeane B.)

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Jéssica Iancoski nasceu em Curitiba em 1996. Começou a escrever poesia com 7 anos de idade. Aos 15, teve o poema “Rotina Decadente” reconhecido pela Academia Paranaense de Letras. Tem diversos livros publicados, contribuiu com algumas Antologias e possui um podcast de declamação de poesias “Toma Aí Um Poema”, com mais de 6 mil ouvintes diferentes. Contato: www.jessicaiancoski.com | @Euiancoski

O Mar resolve a Saudade - Jéssica Iancoski ~~~~~~ ~~~ ~~~~ Afogo os meus pés no raso do mar, ~~ ~~~~ enquanto caminho. Piso na areia ~~~~ ~~~ estriada e úmida, sob o céu desbotado. ~~ ~~~~ ~~~~~~ ~~~~ ~~~~~ ~~~~~ ~~~~~~ ~~~~ Praia adentro,~ ~~~~ Percorro a maré tentada a te perder: ~~ ~~~As ondas vem ~~~ e quebram, ~~ ~~~ Elas se vão e te levam. ~~ ~~~~~~ ~~~~ ~~~~ ~~~~ ~~~~ O mar dissolve a saudade, ~~ ~~~ O mar resolve a saudade. ~~~ ~~~~ ~~~~

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Joel Denilson Adão Barceleiro, nascido aos 22 de abril de 1998. Natural da Província de Luanda, Município do Rangel. Frequentou o ensino médio na escola nº 5112 no Município de Viana, bairro Capanga no curso de Ciências físicas e biológicas no ano de 2014-2016. Atualmente é bacharel no curso de Economia, especialidade Contabilidade e Auditória pela Universidade Kimpa Vita. jdeni4289@gmail.com www.facebook.com/joeldenilson.adaobarceleiro

AMOR Joel Denilson Adão Barceleiro O amor liberta A alma. E os nossos Maus todos os dias espanta E só espera colher quem planta. Amar é dar sem pensar Em receber. Pegar um copo Com veneno e sem usar o Raciocínio chagar a beber Aprender a perdoar sempre que Puder. Acima de tudo aprender A descer do trono, e pela mulher Amada abandonar o poder Às vezes não só perdoar, mas Saber os problemas esquecer. Haverá momentos que ficarás Deprimidos. E para se livrar da dor Beberás álcool ou tomarás comprimidos E dirás quem dera que fossemos Só amigos. Quem sabe nada disso Teria acontecido comigo. Dizem que o “Amor” é tudo Além de partir o coração Há momentos que chega a levar tudo 81


Hoje afogando as magoas no copo Recriando na minha imaginação Cada curva do seu lindo corpo. Uma história replicada E por pessoas desconhecidas, sendo Mal contada. Matando dois coelhos Com uma única cachetada. Amar é complicado Podes ser bem ou maltratado Ainda ouço que o amor é bandido Mas também concerta corações partidos.

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JORGE EDUARDO MAGALHÃES nasceu no Rio de Janeiro, Brasil. Mestre em Literatura Portuguesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Doutor em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Membro da Academia Luso-Brasileira de Letras, Cadeira 03, Patronímica de António Correia de Oliveira. Professor, romancista, contista, poeta e autor teatral.

CARTA HUM Por: Jorge Eduardo Magalhães Meu querido, Não te conheço pessoalmente, mas você vive em meu coração. Li nos jornais como você assassinou aquelas mulheres, todas da mesma forma, estrangulando-as, mas que poético! Imagino os pescoços arroxeados daquelas privilegiadas que a imprensa cruel denominou de “suas vítimas”. A imprensa também inventou-lhe a perífrase de “O maníaco dos pescoços alvos”, devido ao fato de você ter predileção por mulheres bem claras e de cabelos negros. Que injustiça! Você proporcionou a todas aquelas mulheres e infelizes a maior prova de amor que um homem pode nos dar: um desfecho tão idílico. Sei que conheceu todas elas na praia, em pleno verão carioca. Duas delas no Leme, outra, perto do Forte de Copacabana. Uma mais novinha, que trabalhava em uma boate, na Rua Prado Júnior, foi agraciada por teu amor em seu pequeno apartamento, perto de seu local de trabalho. Ah, sim! Houve uma outra capixaba...acho que se conheceram quando ela caminhava no Aterro do Flamengo, trinta e dois anos, contadora, teve a tua prova de amor em seu pequeno conjugado na Rua Taylor. Todas elas tiveram a felicidade de conhecê-lo em um bucólico cenário romântico: mar, areia, céu azul, calor. Quanta inveja dessas mulheres de terem conhecido um homem maravilhoso como você! Tenho a sensibilidade para perceber que, durante tão bela ação foi, na verdade, um ato de amor, um ato de um homem apaixonado. O que muitos psiquiatras e outros especialistas chamam de um sentimento mórbido, interpreto como a iniciativa mais linda que você pôde ter feito. O que chamam de “suas vítimas”, para mim, foram “suas contempladas”, que tiveram o privilégio de fazer suas passagens, através de suas mãos lindas e fortes.

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Meu tipo físico é o mesmo de suas “contempladas”: tenho todos os recortes de jornais sobre você, meu “maníaco dos pescoços alvos”. Enquanto a polícia estava à sua procura, imaginava como você era e suspirava só em pensar como seria o nosso encontro e imaginava-me contemplada pelo seu tórrido ato de amor. Quando você foi pego, meu coração bateu forte ao ver a sua foto no jornal. Que homem lindo! Você foi descoberto antes de cumprir sua missão final, dar-me a sua prova de amor. A polícia o prendeu antes do nosso encontro, nossa primeira e última vez, a qual você me proporcionaria o maior êxtase da minha vida, ou melhor, do meu processo de passagem. Agora está em uma imunda cela, isolado de todos e de tudo, escrevolhe esta carta, que espero chegue as suas mãos. Quero encontrar uma forma de poder visitá-lo. Quem sabe ajudá-lo em uma fuga? Fico imaginando, no próximo verão, nós dois caminhando de mãos dadas pela praia e, depois de um passeio romântico quando estivermos a sós neste quarto fétido e abafado, você apertará o meu pescoço, meus olhos se revirarão, meus membros se debaterão, até eu ficar totalmente inerte, com os olhos esbugalhados, a boca escancarada e o pescoço com hematomas arroxeados. Enquanto isso não acontece, vou escrevendo-lhe. Esta é a primeira de várias cartas que irei enviar. Ps: Te amo!

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Nascido na cidade de Orós - CE, o poeta, sociólogo e artista plástico Josafá de Orós tem publicado contos, poesias, crônicas em coletâneas em todo Brasil. Suas ações no campo da literatura de cordel e da xilogravura se destacam e evidenciam o nome da região. Com o poema intitulado Pensar a pedra, o autor obteve o primeiro lugar no concurso Cactos de Poesia, realizado durante a primeira Feira Literária de Boqueirão no ano de 2010. Com A palavra, lavra obteve o troféu Barriguda no 51º Festival de Música e Poesia de Paranavaí – PR em 2016. Com o poema A outra carta a Ilse Blumenthal-Weiss obteve o segundo lugar no Concurso Nacional Novos Poetas 2016 com 2.703 inscritos. Com o poema Breve corografia do escuro obteve o 2º lugar no Concurso Roberto Tonellotti de poesia, 2016, 1º colocado no Concurso de Poesia do SESC/Piedade/2017 – Recife – PE, 1º colocado no 1º Concurso de Contos da Feira Literária de Boqueirão/2017. Recebeu o título de Embaixador da Palavra, conferida pelo Museo de La Palabra e pela Fundación Cesar Egido Serrano de Madrid – Espanha/2017 Tem sido selecionado em vários certames literários e assim tendo participado de antologias por todo Brasil.

Menina de nuvem Josafá de Orós E outra vez Deitou a menina sobre o rastro e Concentrando olhos e olhar Desenhou por horas a fio As mil imagens das nuvens, esvoaçantes nuvens No final da tarde de ouro. Cegos como Borges no leito Tomando leituras infindáveis Construíam mundos! Espelhos, caleidoscópios, fragmentos de rostos, litogravuras, sanguíneas Estradas, corredores, jardins, fios de Ariadne (Calvino) Labirintos com várias camadas de vozes Eco, livros, estantes (a hora de encontrar Umberto) As bibliotecas inteiras. 85


Camões, velho caolho, noutro tempo Tem sargaços no cabelo Alga verde/lodo transparente Vislumbra o mar que tem sede E sedento, como diante da cria, Lambe o Tejo. Na areia Gaivota de olho de vidro Cisca e descobre a carta mais antiga. No sobrado Nem tão longe dali Mas, num tempo distante Um espólio que a mão não alcança É o sobretudo escuro Vestindo heterônimos do poeta (mestre rosa cruz). A oeste, outra nuvem A figura de mármore vai crescendo A cabeleira grisalha, os riscos graves no rosto O cavanhaque de Pound, os pelos de prata A pose no trono rústico, cadeira artesanal, com cravos a vista. As mãos senis que já tremem Posam sobre os braços de madeira E são mãos gigantes e lisas. Com poros apagados! Os raros pelos, tateiam a morte Como quem mergulha no escuro Antes do ocaso. No Castelo de Brunnemburg, A escritura é montanha íngreme É alva névoa iluminando árvores É pasta como sonho no olho Conformando entre vales Tirolo di Merano Calçamentos medievos, ruelas, sacadas, telhados Um poeta inventivo que não ensaia (inventa) O silêncio de uma árvore perdida.

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Sobre a escrivaninha Nove desenhos infantis (os mesmos) São rabiscos de Paul Klee E sobre um lenço translúcido As manchas vivas de Miró. No céu, qual novelos a desfazerem-se Animais gigantes com olhos pelo corpo Parecem monstros inocentes Ruminando mitologias, outros bichos Argamassando poéticas. Reis nus meio sisudos, são sujeitos contentes Inventam traços e invocam memórias de lapsos (lembranças de ingênuos velhotes) No pastoreio de seus rebanhos que migram Em metamorfoses menos urgentes. Lufadas de vento Mãos de nuvens, como sopros Sutilmente esculpem mundos Desfazem-se, recompõem-se Como deuses. A menina dos sonhos Com tranças enlaçadas de alfazema (olor e imagem campestres) E belo vestido de bolinhas com pássaros quase brancos Era também incorpórea, de nuvens. 18/09/2017

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José Airton Mellega: Nasceu a 17/02/1956, Piracicaba Sp. Publicou poesias em 24 Coletâneas e Antologias entre 2010 e 2020. Ocupa a cadeira nº 22 do Conselho Acadêmico do Clube dos Escritores de Piracicaba. Premiado no concurso Brasil de Reis, de Angra do Reis, RJ, em 2015 e 2017. Selecionado no Concurso Literário de Barra Mansa, RJ, em 2017 Publicou livros "Sem medo, nem receios", 2012, Editora Livro novo; "Folhas ao vento" 2014, Site Perse e Preces e Orações, em 2017, Edição independente. Email jamellega@hotmail.com

O AMOR FICOU NO SONHO Autor – José Airton Mellega

Me inspirei nas ondas do mar, na areia branca da praia, no sol quente a nos bronzear, nos respingos de água no teu corpo, depois de um banho no mar, para te declarar, o meu amor. Pensei, em teu rosto angelical, nas belezas de tuas curvas, nos teus olhos castanhos, nos teus cabelos esvoaçantes, no teu jeito de falar, para te declarar, o meu amor, Treinei, em frente do espelho, um olhar de sedução, com palavras do fundo do coração, com versos de profunda paixão, com a voz cheia de emoção, para te declarar, o meu amor.

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Pensei tanto, tanto, que tudo ficou no sonho. Nossas fĂŠrias terminaram e mais um ano, terminei sozinho, sem os teus carinhos. Findou o verĂŁo, o mar, continua lindo, mas eu, sem declarar a ti, o meu amor.

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José Neto, 31 anos. Bibliotecário de formação, músico, compositor e amante da literatura latino americana. Criado no Rio, nascido em Santa Catarina. Tenho como inspirações, a vivência no subúrbio do Rio de Janeiro em diálogo com as andanças pela ilha de Florianópolis. Esboço meus poemas em formato de canções desde 2013. neto.biblio@gmail.com

Entre o mar o e a felicidade Vou me jogar até o fim Parece meio incerto, Não estou no meu melhor momento pra ser sincero e me afogar. Até não sentir mais nada e o barulho na cabeça que parece incendiar o mar, Mas eu vou até o final, mesmo sem saber se ainda estou vivo Só sei faz sentido. Principalmente quando me vejo entre seus cílios, É pra tentar, é pra viver, é pra amar. Toda aquela luz verde, que ilumina os meus caminhos de volta, nem sabia o que ia encontrar. Foram sensações, os pés na areia, um caminho sem volta. Sem planos, nem me lembro, só o coração ao mar. O brilho nos olhos, respirar. O nosso cheiro, que ficou.

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Juliana Karol de Oliveira Falcão nasceu em João Pessoa, “onde o sol nasce primeiro e tão desinibido”, e reside em Soledade, na “sentinela do cariri”. Paraibana, Graduada em História, Graduanda em Letras (Espanhol), Pós-Graduada em História Local e Mestranda em Literatura e Interculturalidade (UEPB). Teve alguns poemas e contos selecionados para publicação em concursos literários realizados pela Editora Trevo, Editora Jogo de Palavras, Editora Cartola, Revista Inversos, entre outros. E-mail: julianakarol-16@hotmail.com.

SOL Juliana Karol de Oliveira Falcão Eu sou só o sol, Solidão à beira-mar. Eu sou só o sol E uma pitada de mar. Vejo-te deitada nas bordas, Nas margens do (a)mar. No céu sou apenas Solidão exemplar. Há mais grãos de areia Do que eu posso contar. Há mais gotículas de água Do que eu posso secar. Em meio ao pleno verão Eu posso, à distância, te amar. Sendo o sol na altura do céu, Vendo-te na lonjura do mar.

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Karine Dias Oliveira : Professora há 23 anos das séries iniciais do Ensino Fundamental. Pós-graduada em: Gestão Escolar, Supervisão Escolar e Orientação Educacional; Psicopedagogia Institucional; Educação Ambiental. Experiência em Gestão Escolar e Coordenação. Amante da leitura e escrita, tenho por hábito escrever histórias infantis (ilustrando-as), além de outros gêneros. Um sonho... publicar as minhas produções e atingir essa diversidade que nos rodeia! E-mail: kadioliveira@yahoo.com.br

O VERÃO: O AMOR E O MAR Primavera adormece... escolha difícil das flores. Recolhem-se e o sol resplandece, corações aquecem os amores. Vem verão... nasce ardente entre as montanhas. Reflete e ilumina as águas em um tom confidente, entrelaçando os corpos em artimanhas. Céu azul brisa gostosa, mar e amor... mistura e sedução! Parceria majestosa: rei sol em alta resolução. Aposta em sorrisos, olhos fixos no horizonte. Estação dos corpos “narcisos” e das emoções jorrando alegrias, como uma fonte. Que ninguém me escute... mas, que estação linda! Combinação, gosto que não se discute, enquanto uma adormece, esta é a mais bem-vinda!

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Gigante por natureza, bônus do verão é o amor! Banha-nos o mar com a sua nobreza, nasce uma pintura de esplêndido primor. Encantada em meus desejos, vivo feliz a sonhar! Época que envolve os gracejos... transformar em realidade... nesse sol quero me embrenhar! Karine Dias Oliveira

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Meu nome é Dandara Luiza Lopes, mas utilizo o pseudônimo de Katherine MCbride, sou mineira porém atualmente moro no Rio de Janeiro onde curso Direito na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Tenho 19 anos e escrevo desde pequena. Meu e-mail é: kathemcbride@outlook.com, meu facebook: Dandara Luiza e meu instagram literário @_katherinemcbride. Elisa Seus cabelos negros esvoaçam sobre a blusa florida Elisa sorria e dançava a beira do mar A paz nos encontrou naquele mero instante e ali eu soube o que era amar Meu coração palpitava depressa ao observa-la Eu sabia que mesmo se eu rodasse cada canto do mundo Jamais encontraria alguém como Elisa, Elisa era a definição de “profundo” O amor, o cuidado, a alma, é tão fácil de ama-la Seus cabelos negros se molharam na onda que a acertou Corri até ela embaixo daquele sol escaldante Sorrindo eu disse “Lis, você é completamente radiante” “Ora, Vic, sou assim desde que você me achou” Katherine Mcbride

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Keila Camila da Silva - nasceu em Jaú, interior de São Paulo / Brasil, no dia 20 de março de 1991. Filha de Eli e Adenir. Em 2009 ingressou no estudo do meio ambiente tendo completado duas graduações, uma especialização e um mestrado na área, ao mesmo tempo em que teve a oportunidade de conhecer e conviver em diversas localidades. Desde criança escreve poesias e contos em várias temáticas relacionadas à natureza, à simplicidade e à existência. Acredita que a poesia está presente nos pequenos detalhes e é o mais complexo conjunto de universos. e-mail: keila_ambiental@hotmail.com

Despertar Refez o coração Com flores de algodão Ora como pedaços de imensidão Tais quais sementes jogadas ao chão Levadas ao vento como uma canção Causando alvoraçada e inquieta atração Decerto o infinito era inspiração Calmo como a respiração Deu espaço a imaginação Quiçá sua melhor oração.

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Lara Machado é estudante de engenharia da computacao pela UNILAB de Redencao.Teve um poema premiado em 2019 na cidade de Pacatuba (CE). Moça da praia O verão mansamente chega A praia é o meu destino escolhido Sempre me admiro com o mar Imensidão azul cheia de mistérios Esse passeio foi o mais profundo Mergulho nas profundezas do mar Ao chegar na areia mergulho novamente Dessa vez nas profundezas do amor Quem é ela? Qual seu nome? Moça da praia é tudo o que sei Sou capturado pelo amor a primeira vista Me deixo levar nesse doce enlevo O verão trouxe amor e me libertou Sou liberto da solidão do meu destino Independente de ser correspondido O amor sempre me fará companhia Viverei sabendo que amo a moça da praia

Lara Machado de Oliveira Santos

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Larissa Lourenço Ratto Em conflito com a identidade e mente, a imaginação é a única fuga que compensa. Ana Cláudia da Silva Arena Ana Arena é uma jovem escritora que está atualmente cursando o terceiro ano do Ensino Médio. Sempre foi apaixonada por literatura e filmes que exploram suspense psicológico e o comportamento humano, temas que desenvolve em suas obras.

Yasmin Francieli Maciel Sou aluna do ensino médio na ETEC Paulino Botelho de São Carlos. Gatos são uma paixão, as obras de Hilda Hilst são grandes inspirações e o horror no cinema e na literatura preenchem os meus momentos de entretenimento e desocupação. Todos esse fragmentos influenciam diretamente no meu processo criativo e cotidiano.

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Um conto escrito por Ana Arena. Os sapatinhos encaravam Mai de tal forma que, se tornara impossível para ela encara-los de volta. Foi por isso que pedira à Kim Ly para embrulhalos na caixa de entrega. - Você tem certeza que quer fazer isso? - A amiga perguntou. - Eu não quero, mas é necessário. Se nada correr bem hoje, não aguentarei mais viver. O que me consola é que esses sapatinhos talvez irão encontrar alguém para lutar pela minha causa... - Mai respondeu. Desde que aquilo aconteceu, Mai nunca mais sentira-se feliz de novo. Uma moça outrora tão radiante e alegre, agora se tornara uma senhora cheia de angústias. Não passava uma semana, um dia, uma hora e provavelmente um segundo, sem pensar no passado e em como sua felicidade fora arrancada dela com tanta crueldade e insensibilidade, em nome da ganância e poder. - Existe a chance de você ganhar... Se isso acontecer, não precisará fazer isso - Kim Ly disse depois de um tempo em silêncio. - Não vai acontecer. Uma senhora asiática, sem dinheiro, influência ou beleza disponível para a fetichização nojenta desses homens, nunca terá 99


alguma oportunidade. Nesse país, construído com os ossos do nosso povo e pintado com o sangue de inocentes, a voz é dada às minorias apenas para serem tiradas depois. Eu tenho uma voz, até o momento que for propício a eles. Elas ficaram em silêncio por um tempo. Kim Ly não conhecia palavras que pudessem confortar Mai, provavelmente elas nem existiam. A jovem viera muito cedo para os Estados Unidos e, apesar de ter alguma noção a respeito de sua história, não tinha ideia do quão sujo e mascarado era o passado do país. Quando conhecera Mai, em um parque no centro da cidade, ela se comovera com a história da senhora que, mesmo indiretamente, também era sua história. Desde aquele dia não parou de estudar sobre o ocorrido, para que pudesse apoiar a senhora na luta judiciária e também em seu plano B. - Vamos fazer você ser ouvida - Kim Ly falou decidida, como se estivesse convencendo a si mesma de que daria certo - A venda foi finalizada, podemos mandar os sapatinhos a qualquer momento. - Tudo conforme o esperado - Mai fez uma pausa, procurando as chaves da porta- Precisamos ir agora. Exceto por uma ou duas frases que trocaram enquanto colocavam a embalagem cuidadosamente no banco de trás do carro, o percurso foi feito em silêncio. Mai estava calma, tudo que tinha a perder já fora perdido e desde então criou a ideia de que, se era assim que as coisas eram, se as pessoas iam embora sem se despedir, levadas por um sistema criado para extinguir pessoas que não eram consideradas importantes por homens brancos de farda, então não queria amar mais ninguém, e assim o fez. Entretanto, tinha certa preocupação por Kim Ly, a jovem tinha um futuro pela frente e Mai não queria colocar um fim nisso e nem contagiar a garota com sua desesperança, por isso, planejara o ato com muita delicadeza e atenção para garantir que a moça não fosse relacionada a ele. A senhora também evitava ao máximo transparecer sua melancolia quando estava perto dela, escondendo seu vício em antidepressivos e as longas crises de catatonia que a assolavam frequentemente. Chegando ao tribunal local, Kim Ly surpreendeu-se. Mesmo após passar horas no telefone com a imprensa, ninguém havia aparecido. Ela lembrou-se de um policial que a alertou que aquilo seria perda de tempo, pois a manchete não venderia. A moça então sentiu o medo e desespero. Se ninguém se interessou pelo caso, ninguém iria fazer pressão à justiça, ninguém lutaria ao lado delas perante a lei. Mesmo que Mai tenha avisado 100


desde o início que isso aconteceria, ela ainda tinha esperanças. “Que idiota você é”, pensou ao enxugar as lágrimas que se formavam no canto do olho. Ao adentrar o espaço, ambas foram conduzidas pela advogada medíocre ao assento perante o juiz. Após as burocracias inúteis, foi dada a ordem para que Mai contasse mais uma vez seu relato, e ela o fez: “Nasci no Vietnã, Vossa Excelência, no distrito de Cu Chi, na cidade de Ho Chi Minh, antigamente chamada de Saigon. A vida lá não era fácil, mas era perfeita para mim... Lembro-me de minha mãe, correndo comigo entre os arrozais enquanto ríamos sem parar. Ela fingia que estava brava comigo e, quando me alcançava, me enchia de beijos e carinho... Nessa época tudo era bom. Quando eu tinha 15 anos, ela engravidou e eu nunca a vi tão feliz e radiante, com certeza aqueles foram os meses mais felizes de nossas vidas. 64 dias após o nascimento do meu irmão, Chien, a guerra começou. Meu pai, que era militar, logo foi chamado para alguns combates e morreu em um deles. A tristeza então invadiu nosso lar como nunca antes. Minha mãe entrou em uma angústia extrema e eu cuidei de meu irmão como se fosse meu filho. Cresci muito rápido, amadureci da noite pro dia, lutei contra minhas próprias vontades e sonhos, abri mão dos meus planos para que pudesse ajudar minha mãe, mas não importava o quanto eu tentava: nunca foi o suficiente para que ela melhorasse. A morte de meu pai também nos levou a pobreza, já que a única fonte de renda passou a vir de meu trabalho artesanal. Oito anos depois da morte do meu pai, algo aconteceu. Em uma das minhas idas ao centro conheci um soldado que servia ali perto, nós nos apaixonamos e não demorou muito para que eu engravidasse. Quando descobri já era tarde, o soldado tinha partido e eu estava completamente sozinha. Não podia contar a ninguém e não teria condições para cuidar de mais uma pessoa então o pânico e a pressão tomaram conta de mim e conforme minha barriga crescia, esses sentimentos também. Entretanto, havia um sinal de esperança: Chien, meu irmão, era o raio de Sol na minha vida. Éramos inseparáveis: ele me ajudava no artesanato, fazia caretas e coisas bobas só para arrancar uma risada quando estava triste, até dormia agarrado comigo todas noites porque tinha medo do escuro... As brincadeiras nos arrozais que minha mãe fazia comigo, eu passei a fazer com ele. Tudo nele me trazia felicidade, por isso Chien foi o primeiro a saber sobre a gravidez, e ele ficou tão feliz! Essa foi a primeira vez que tive esperança e comecei a ver a gestação como algo bom. 101


Quando completei seis meses de gravidez, deixei que Chien fosse ao mercado comigo, pois seu aniversário estava chegando e eu havia guardado um dinheiro a mais para comprar algumas frutas Gac para ele. Uma vez ele as comeu na casa de uma família rica e mesmo depois de anos continuava falando sobre o quão boas elas eram. Chegando lá, logo percebi que as coisas estavam diferentes: Haviam muito mais aviões do que de costume no céu e as pessoas estavam agitadas. Perguntei o que estava acontecendo ao vendedor das frutas Gac e ele me disse que os Estados Unidos estavam enviando tropas para o Vietnã, mas que não devia me preocupar porque eles estavam lutando pela nossa liberdade. Minha mãe sempre me orientou a não me envolver com nada relacionado a guerra, então apenas concordei. Quando ia pagar pelas três frutas, Chien veio correndo me dizer que não as queria mais, pois havia encontrado algo muito melhor. Ele me arrastou para uma barraca ali perto e apontou os dedos magros para um par de sapatinhos de bebê feitos com uma linda lã tingida de vermelho, então disse: “quero levar esse para o meu aniversário, para dar de presente pro seu bebezinho”. O tom inocente e genuíno na fala dele me encantou e me fez sorrir com todo o meu coração, mas não podia deixar que fizesse isso, então tentei convencê-lo do contrário. Após ver que o menino não ia ceder depois de todo o tempo que gastamos debatendo, a vendedora deu um desconto e conseguimos levar os sapatinhos e uma fruta Gac com o dinheiro que tinha. Depois de terminarmos as compras, permiti que brincasse um pouco com alguns animais que estavam à venda, era lindo ver o quanto ele gostava. A paz e a felicidade foram arruinadas quando alguém gritou. No primeiro grito, não consegui entender o que a pessoa estava dizendo, mas após o quinto grito de aviso, entendi que algo estava vindo em direção ao comércio. Agarrei no braço de Chien e o peguei no colo para que pudéssemos correr em direção aos arrozais, onde ficava nossa casa, mas um barulho nos alcançou: os aviões que antes sobrevoavam o comércio agora estavam sobrevoando os arrozais da região, soltando algum tipo de fumaça que não demorou para se espalhar por toda a área. Lembro dos gritos de socorro do meu irmão, lembro da sensação da pele e dos olhos queimando, lembro de não conseguir respirar e também lembro de correr em qualquer direção só para sair daquele lugar... Foi o momento de maior dor física da minha vida inteira. Quando chegamos em casa, vimos as consequências daquela coisa: nossas peles queimavam como se estivéssemos na lareira do inferno, tossíamos tanto que chegamos a vomitar e algumas partes de nossos 102


corpos estavam corroídas, a carne viva estava exposta e delas jorrava sangue. Aquela foi a primeira vez que minha mãe sentira algo intenso em todos aqueles anos: ela sentiu desespero. Então chorou, chorou como nunca antes enquanto tentava colocar curativos que não adiantaram nada. A noite foi longa, preenchida por choros, gemidos, gritos de dor e febre, mas não tínhamos pra onde ir, não haviam hospitais disponíveis. Após horas que pareciam dias, a madrugada passou e, na manhã seguinte, meu irmão estava morto. A minha esperança estava morta. Minha mãe teve uma crise de pânico e desmaiou. Esse processo se repetia toda vez que ela acordava e lembrava dele nos dois primeiros dias e foi com isso que me ocupei, enquanto cuidava dela não me restava tempo para processar o que aconteceu, mas quando as coisas se acalmaram, só restava eu e a tristeza, e ela me engoliu de vez. Não demorou muito para que minha mãe desenvolvesse um câncer. Não sabíamos na época o porquê, mas entendi anos depois do final da guerra, quando descobri sobre as substâncias cancerígenas presentes nos agentes. Até hoje não sei qual era o agente que nos atingiu, só sei que cada um tem o nome de uma cor, como se fosse um arco-íris da morte. Sei também que a verdadeira ação deles até hoje não foi divulgada pelo governo americano, pois eu estava lá, eu vi o que aquilo faz: aquilo corrói, aquilo mata. No dia do meu parto, minha mãe estava lá por mim. Ainda bem, pois não conseguiria passar por aquilo sozinha. Meu filho, um menino, nasceu com malformações extremas no rosto: ele não tinha nariz, a cabeça era alongada e os olhos saltados. Quando olhei para os pés, vi que eram finos e não tinham a maioria dos dedos, ele jamais conseguiria usar o sapatinho vermelho, mas não precisei nem tentar encaixar: ele morreu horas depois do parto. O enterro foi em nosso quintal mesmo, ao lado de onde enterramos meu irmão. Meses depois minha mãe se juntou a eles... Sabe o que é pior, Vossa Excelência? O pior é que essa foi a realidade de todas as pessoas que eu conhecia. Se sobrevivi, mesmo com as doenças neurológicas que desenvolvi em razão desses agentes, foi para estar aqui, para contar minha história e lutar por justiça, pois até hoje meu país é afetado por essas substâncias” Ao terminar, o rosto de Mai estava enxercado por lágrimas e esta não conseguia respirar normalmente. O juiz pediu um tempo, e quando voltou, deu a sentença. -Infelizmente, não existem provas ou estudos suficientes que provem a veracidade dos fatos, não existem laudos médicos que revelem que sua família, de fato, sofreu o que está dizendo ou que foi em razão dos agentes. Os estudos apresentados por sua advogada são inconclusivos e não condizem com os fatos históricos. Não há nada que possa ser feito. Procure por novas 103


provas e tente novamente, mas adianto que será muito difícil conseguir algo. Sinto muito. Kim Ly ficou indignada e estava pronta para protestar, mas Mai a conteve, pois já sabia que esse seria o resultado. As duas se levantaram e foram embora, em direção ao correio. - O que está escrito mesmo na carta que vai junto com os sapatinhos? – Kim Ly perguntou, aparentemente insegura. - A minha história e um pedido de ajuda - Mai mentiu. Ao entrar no correio com sua identidade falsa, Kim Ly enviou os sapatinhos para a Primeira-dama dos Estados Unidos. Ela via a esposa do Presidente como um símbolo de amor, por isso, quando a mulher anunciou a gravidez, Kim Ly se dispôs a usar suas habilidades em informática para encher a rede da Primeira-dama com anúncios dos sapatinhos que Chein escolhera para o sobrinho. Coincidentemente, a mulher gostava de coisas antigas e decidiu comprá-los, provavelmente pela quantidade de anúncios atrativos. A ideia era a seguinte: Mai mandaria uma carta contando sua história e pedindo a ajuda da mulher. Kim Ly estava certa que ela ajudaria. Passaram-se alguns dias, e elas não tiveram mais contato. Exatos dez dias depois, a entrega foi feita. Não apenas a caixa para a Primeira-dama, mas também as outras milhares de caixas com réplicas dos sapatinhos que Kim Ly não fazia ideia da existência. O mais interessante sobre a história de Mai, é que, como ela disse, ela não foi a única a passar por isso. Existiam mais duas pessoas. Espera, duas? Não, não, eram mais.... Talvez cem? Também não, eram um pouquinho mais, eram milhares, provavelmente milhões. Ninguém sabia o número exato, mas sabiam que existia um propósito e um sentimento comum capaz de unir todos eles. Kim Ly chegou em casa após um longo dia no trabalho, e enquanto preparava seu banho, decidiu ligar o noticiário. Foi na hora exata, pois estava entrando um plantão urgente com uma notícia inédita: explosões em centenas de lugares e eventos frequentados pela elite estadunidense acabavam de ocorrer, sem um número certo de vítimas ainda, mas as estimativas passavam de 30 mil mortes. Foi então que apareceu um pronunciamento oficial da Casa Branca, mas este era atípico, pois ao lado do Presidente estava a Primeiradama mostrando os sapatinhos recebidos e, logo em seguida, lendo a carta ao vivo, que dizia: “O sangue inocente que corre nos esgotos desse país será substituído pelo de vocês”.

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O TREM DO DESTINO Nunca antes havia feito tão inóspito frio. A neve se autodeclarou rainha, tomando todas as ruas para si, fazendo com que muitas pessoas se permitissem ficar em casa. Era difícil acreditar que algo tão sensível pudesse matar, porém, o jornal em minhas mãos anunciava que os pequenos e inofensivos flocos já causaram a morte de exatos sete mendigos na cidade de Liverpool. Neste momento, pode parecer um tanto sádico o que irei dizer, mas não posso negar que esta congelante estação em tudo me cativa, é a mais elegante de todas. Não me julgue, sei que no fundo você concorda comigo. A passagem do trem 725 com destino à Manchester estava em minhas mãos. Analisava os pequenos detalhes que a envolviam, as pequenas letras pareciam ter sido escritas à mão, tamanho o capricho. O meu nome havia sido escrito à caneta num pequeno espaço destinado ao ato. A tinta escura revelava: Thomas Brooke Quando o trem se aproximou da plataforma de embarque, algumas pessoas reclamaram do atraso (inaceitável apenas para ingleses) de dois minutos e meio. O trem chegou como uma verdadeira tempestade, o vento que o mesmo levantou foi tanto que por um triz uma mulher ao meu lado não ficou sem o seu caro chapéu. Ele bagunçou meus cabelos e dançou em minha frente, convidou-me para o embarque, e eu aceitei. Talvez seja essa a forma que o destino escolheu me acolher nesta viagem. Talvez nunca mais volte para conversar comigo sobre as incertezas do amanhã. Apenas o senhor do tempo podia me contar o que me aguardava, mas ele sempre preferiu o silêncio. Não nego, faria o mesmo. A janela de minha cabine ilustrava uma imagem ampla, digna de uma pintura, da estação Lime Street. Porém, entre tantas coisas o que fisgou o meu olhar foi uma mulher, que olhava diretamente em minha direção, segurando em uma de suas mãos uma placa feita de papelão com os seguintes escritos: ‘’Vende-se: sapatinhos de bebê nunca usados’’. Quando estava prestes a desenvolver um pensamento sobre a mulher, o trem pôs-se em movimento. Observei meu relógio e descobri que já se passava da meia-noite. Sem sono, me deixei observar os detalhes daquela noite. As estrelas eram pouco visíveis, consequência do tempo nublado; a neve continuava a cair incessantemente e as planícies, totalmente brancas, eram iluminadas pala vaga luz lunar.

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O trem desenvolvia bem a sua função, sua corrida era quase que inaudível o que me permitiu relaxar. Com essa sorrateira velocidade, foi quase que inevitável permitir que os meus olhos se fechassem, me entreguei aos braços de Morfeu e não tão cedo gostaria de voltar ao ‘’Mundo Real’’. O sono só não se prolongou mais porque senti um forte baque. Logo em seguida, o trem foi bruscamente parado. A paisagem exterior já não era visível, a neve era tanta que tampava as janelas. Preso, completamente preso na neve. Tudo indicava que o resgate tardaria em chegar, por este motivo sai a caminhar pelos vagões comunitários. Aparentemente todos tiveram a mesma ideia que eu, mas não passava de dez as pessoas presentes ali. Três homens não se demoram em começar a jogar cartas e gritar alto, uma mulher de meia idade segurava um minúsculo cachorro em seus braços, enquanto reclamava com a pobre funcionária sobre a demora. Já outra se contentava em ler, ou ao menos tentar. Outro homem se presenteava com uma garrafa de vinho, sua provável companheira da noite. Amargurado com a medíocre cena, não tive outra escolha se não voltar à minha cabine. O Senhor do Destino definitivamente não gosta de mim, pensei. Com tantos roteiros possíveis ele me limita a esse trem. Sei que soa mesquinho de minha parte, mas para mim, o Destino não passa de um velhinho que não tem o que fazer e fica criando mirabolantes histórias para infernizar a vida das pessoas. Sim, sei que todos desejam uma grandiosa história (inclusive eu mesmo), mas esse velho prefere algo mais... Simples e monótono. Minha revolta era tanta que quase não notei a presença de mais uma pessoa dentro de minha cabine. O susto foi tanto que saltei sobre o meu assento, meu pobre coração quase que me deixa na mão, mas nele eu posso confiar. Fiz uma rápida nota mental de tomar mais vinho tinto, depois desse susto precisava garantir algum mimo para o meu amigo órgão. Era ela, a mulher da estação de trem, a mesma que segurava aquela estranha placa. Ela me encarava com um sorriso debochado no rosto, como se estivesse realmente se divertindo com o meu desespero. O silêncio se estendeu por mais tempo que o necessário, criando uma sensação extremamente incômoda. Neguei-me a iniciar qualquer assunto, não basta invadir minha cabine teimava em roubar-me as palavras! Notando minha negação, ela começou a falar: – Você sabe quem eu sou? – perguntou de forma simples e direta. – 106


- Sinceramente... Não. Sei apenas que é uma mulher estranha que vende sapatinhos de bebê e nas horas vagas invade as cabines alheias – meu tom era desconfiado, ela o notou. Após minha fala, pude notar que ela continha um sorriso. Não intimidada com a minha relutância, ela prosseguiu com sua fala: - Muitos são os nomes a que me referem... Coincidência, Probabilidade, Acaso, Destino ou como você mesmo disse ‘’ velhinho que não tem o que fazer e fica criando mirabolantes histórias para infernizar a vida das pessoas’’- Neste momento ela não se conteu e soltou uma extravagante gargalhada. Eu estava em choque, nunca antes havia pronunciado aquelas palavras em voz alta, era apenas um entretenimento da minha mente. O Destino era uma MULHER? ! Esse pensamento me fez arregalar os olhos, a dúvida era tão latente que tive que verbalizá-la: - A senhora deve estar delirando, o Destino não pode se personificar em uma mulher. Todos sabem que o Destino, é um homem – depois deste meu comentário, ela gargalhou de maneira mais intensa que a anterior. - Como você pode afirmar que o Destino é um homem se nunca o viu? E na nossa atual condição, acredito que quem esta delirando é você – disse ela, apontando o seu dedo indicador em minha direção. Ela invade minha cabine, ri descaradamente da minha cara e não bastasse, debocha de mim! Ela prosseguiu com sua fala: - Em sã consciência, você deixaria o Destino nas mãos de um homem? Só de imaginar me sinto em pânico, seria o verdadeiro caos – neste ponto, tive que concordar com ela. Mas ainda era muito para a minha mente processar, em uma hora eu estou, em minha mente, ofendendo o Destino e em um estalar de dedos eu estou conversando com o... A Destino (?). - Desculpe a minha ignorância, mas como eu devo te chamar? – perguntei incerto, passando a mão sobre os meus cabelos. - Majestade já está de bom tamanho – ela me encarou com um semblante sério, que logo se desfez revelando um sorriso. - Como? - Me chame de Anastácia. - Anastácia (?), porque exatamente você está aqui? Imagino que seja uma pessoa muito ocupada. - Você contrariou o seu destino, eu apenas vim consertá-lo – Disse sucinta, como se sua presença ali fosse algo óbvio. 107


- Se você se sentiu ofendida pelo o que eu pensei a algumas horas atrás, peço que perdoe – estava realmente com medo de algo tão superior a mim pudesse me odiar. Se normalmente o destino já não favorece, imagine se me odiasse? -Na verdade, os sapatinhos nunca usados são seus – Isso está ficando mais estranho, o que é muito estranho. - Minha senhora, sinto em te desapontar, mas os sapatinhos não são meus. Sem contar que eles nunca foram usados, ou seja, não são de ninguém. - Meu caro, eu sou o Destino e eu nunca erro. Os sapatinhos são destinados a você, ninguém mais no Mundo os pode possuir. Sua mãe devia os ter comprado quando você nasceu, mas ela preferiu comprar uma galinha – Me lembro da galinha, se chamava Dorotéia, era minha melhor amiga na infância. - Mas... O que você estava fazendo na estação? - Tentava fazer você comprar os sapatos, mas você adora ir contra as regras. Então achei que devia ser um pouco mais... Direta. - Sei bem, mas precisava atrasar o trem? As pessoas ali fora serão prejudicadas. - Como eu disse, eu sou o Destino e nunca erro. Os homens que ali jogam cartas, são traficantes de animais, precisavam chegar um pouco mais tarde na próxima estação para encontrarem com a polícia. A senhora com o cachorro, é uma completa rabugenta; a prendi aqui por capricho. A jovem que estava a ler, iria se matar na próxima parada, porém, precisava de tempo o suficiente para ler a última página de seu livro e então desistir dessa ideia. Já o homem bêbado, desfruta de sua última garrafa. -Ele irá morrer? – a olhei incrédulo. -Todos vocês vão, mas ele irá morrer amanhã. - Isso é deprimente. -Não, é apenas o destino trabalhando em perfeita sincronia com o mundo. - Deve ser... Mas o que eu faço agora? Minha cabeça esta uma bagunça. - Apenas viva conforme o seu destino foi traçado. E tudo que sobrou foi o silêncio, mas diferente do que muitos pensam não era algo ruim ou desconfortável. Muitas pessoas pensam que há a necessidade de preencher o vazio com o som. Eu não acreditava nisso, acho que Anastácia concordava comigo neste ponto. Convenhamos que é no silêncio da noite que o coração se esconde dos gritos da razão. O adeus foi natural, tão natural como as folhas no outono caem das árvores ou como o relâmpago precedia o trovão. Era no sentido mais puro da palavra, inevitável. E foi com esse sentimento, que eu lhe sussurrei um: 108


-Adeus. E ela se foi. Claro que ela não prolongaria sua ida, era Anastácia (vulgo o destino) e apenas ela sabia se isso iria se repetir ou não. Apenas me lembro de apagar completamente sobre o meu assento. Mas com um leve sentimento de felicidade. ‘’O destino quebrou o seu silêncio’’ pensei. Mas agora, sobrou para eu pensar que tudo era friamente calculado. Os passos que andei, as pessoas que conheci, tudo o que eu senti. Sentia-me como uma mera marionete, mas não sou só eu que estou sujeito às artimanhas do destino. Isso me confortava. Mas na mais pura verdade, eu acho que enlouqueci de vez. Acho que tenho passado tempo demais na companhia de meus próprios pensamentos. Mas se essa era a loucura proposta pela minha mente, eu estava feliz em ser louco. Acordei com o trem voltando a se movimentar, o Sol já começava a aparecer, mas nada muito intenso. A neve havia derretido o suficiente para o trem voltar a traçar o seu caminho. Estava completamente só, acreditando que tudo não passou de um delírio de minha mente, mas logo pude sentir em minhas mãos os macios, e nunca antes usados, sapatinhos de bebê. Isabella Costa Wolff

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IN MEMORIAM DE DONA PRETA Em um lugar afastado de toda cidade, tem uma casa, velha, acabada, deformada, escura e desmontada, porém também não era formosa quando construída, pequenininha, sem recursos. Um homem caminha por perto, carrega câmera, gravador, os moradores dizem que ele faz perguntas e perguntas. A entrevista de hoje era a última e bem naquela casinha, a pior de todas. Bate na porta uma vez, suficiente para a pessoa que ali mora atender. Uma senhora da pele negra bonita atende tão rápido que até desconfio se ela já não o esperava. Nos pés, chinelos, uma fita cheia de flores na cabeça, as raízes brancas denunciavam a velhice e o suor excessivo, consequência de uma provável diabetes. - Bom dia, sou jornalista e caso me permita, gostaria de fazer uma entrevista com a senhora sobre a vizinhança e a maneira como a senhora vive. - Ora meu bem, entre e sinta-se em casa – Respondeu animada. - Obrigado. - Eu poderia oferecer um copo de água, mas faz dias que não está limpa, pelo menos, se der tempo, dá pra comer o pão. Mulher de humor, apesar das circunstâncias, jeitinho do miserável levar a vida, resignado, sem suporte, mas isso eu e o jornalista sabíamos bem e nos fascinava. - Faz tempo que mora na região? - Ele pergunta se sentando num banquinho. Ela à mesa, amassando massa caseira, responde: - Desde menina, pai e mãe invadiram esse espacinho de terra e construíram o barraco. Pelo menos tenho o jardinzinho, o lugar não fica tão feio. - O lixão sempre esteve aqui? - Acha homi! Isso é por causa de um malandro de outras bandas que meteu-se a jogar lixo aqui. Outros vieram, a coisa foi aumentando até virar isso daí. - Não tem quem faça alguma coisa? - Os morador daqui, meu filho, até sobra gente, também já recolhi material reciclável. Graças a Deus agora trabalho de empregada. - É mesmo? - Casa de bacana, bairro chique. - A senhora não devia mais trabalhar, deveria receber aposentadoria. 110


- E quem disse que gente como eu consegue, meu filho? Vou morrer assim, trabalhando com água e sabão. Os dois escutam o barulhinho de um choro, choro de quem não quer incomodar, mas quer ser notado. A mulher pega o pão já moldado na assadeira, deposita no fogão e sai. Logo, volta com um pacotinho enrolado - uma criança, pequena de tudo. - Sua filha? - Neta, a mãe deixou comigo pra visitar o namorado traste, morreram por dívida, traficante, coisa terrível. - Vocês não tem mais ninguém? - Eu tenho ela, ela tem eu, somos uma dupla perfeita, né coisinha? - Qual o nome? - Maria, homenagem à minha mãe. E você, meu filho, tem nome não? - Fábio. - Fábio é nome de doutô, não de jornalista. O jornalista sorri. Nesse momento, o cheiro de pão invade a casinha e a criança se aquieta. É servido o pão ainda quente. São feitas mais perguntas, não importantes para nós, pois temos pressa, mas para a relação entre Fábio e a senhora, um velho sentimento. Ao terminar, se despede e vai para casa. O sentimento que lhe falei mais cedo incentivou Fábio a visitar a senhora e Maria constantemente e initerruptamente. Sabe, Fábio não teve família, teve uma mãe, teve um pai, alguns irmãos e isso só. Conhecer esta senhora lembra mãe como deve ser, carinhosa, amorosa, forte, boazinha... - Preciso contar à senhora, a matéria que escrevi sobre este lugar foi extremamente impactante, estão pensando num documentário, imagina se não vira filme. Imagine só a senhora aparecendo nas telas de cinema. A fama lhe fará mal – Riu-se. - Ora garoto, me fará mal nada, seria famosa como essas branquelas magérrimas de TV! E trate de me chamar de Dona Preta, não gosto de senhora, jeito mais frio de tratamento, Dona Preta é mais quentinho, é brasileiro, é como todos me chamam. - E de mãe? Poderia eu chamá-la de mãe?

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Fábio dedica-se para achar a casa perfeita e então morar junto de Dona Preta e Maria. Foram dias, 356 sites e 42 telefonemas se ainda conservo

bem minha memória. Conquista em 8 de Outubro um casarão confortável, porta azul com paredes amarelas, janelas grandes de cortinas brancas. “Seremos mais felizes, mãe, e mal posso esperar para lhe contar” De manhã, ansioso, pulsante, jovem cheio de esperança e felicidade, até anima minha alma de velho desgostoso com a vida... Uma pena que choveu demais ontem, ele poderia, ele deveria ter ido antes... Não tem mais casebre, jardinzinho, pão cheiroso, nada tem ali, logo ali nada tem, exceção de uma quantidade anormal de pessoas, todas tristes, todas chorosas. Ansiedade tornou-se preocupação: “Onde?” Alguns reconhecem o jornalista, a tristeza fica nítida, perceptível, indisfarçável, dolorosa, gritante. Um deles, com um passo a frente, diz: - Desabamento, se a lama não as matou, o lixo o fez. O jornalista anda arrastado, as calças encontram o fresco marrom de terra bem ali onde antes estavam anõezinhos horríveis de jardim, agora dão lugar a duas lápides de madeira barata. A maior: Aqui jaz Dona Preta, Mulher amável e trabalhadora A menor: Aqui jaz Maria, A criança que não chegou a sorrir

Na vitrine de uma loja, igual a várias outras, carrega os sapatinhos que certo jornalista trazia em seu bolso, pertences de um bebê. Nunca poderá viver o futuro brilhante que lhe esperava. Larissa Lourenço Ratto

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Com todo o meu amor, para Monny Wilkes. 1. Um caminho coberto por flores matizadas da primavera. Uma suave brisa de encontro com o seu rosto. Híbrida pensava sobre os cruéis questionamentos em uma conversa casual sobre a vida íntima de alguém, eram: Você irá se casar?, Você tem o necessário para ser uma esposa agradável? e Quantos filhos você deseja? Eu estou bem sozinha, respondia ela. Está tudo bem. Ela nascera em Biddeford, no Maine, mas se mudou para Darcely Anville – Darcely remetia a um dos nomes estrambólicos que pais embriagados procuravam em um recém-comprado livro de nomes de bebês, dos quais os filhos abominariam para os restos de suas vidas. Estudou na escola Mattess, mas dedicou a passar longos anos aprendendo sobre marketing digital. Detinha uma beleza comum, que progredia após uma sessão de maquiagem para frequentar um pequeno pub da cidade nas noites de sábado com uma bela dose de uísque do Tennessee, ouvindo Bruce Springsteen. 2. Em 1998, Monny Wilkes a fez uma proposta amedrontadora, comprar pequenos sapatos azuis de bebê, que ainda não foram usados, por um preço justo. Sapatos azuis, preço justo. Soava bem, mas a palavra “bebê” era o que deixava Híbrida com uma estranha vontade de correr o mais longe possível. Para a sua surpresa, o seu foco se direcionou totalmente ao fato dos sapatinhos não terem tido a oportunidade de serem gastos e a sua curiosidade acabou por vencer. Desejava descobrir a história por de trás deles e não teve medo de indagar. O fato é que Monny Wilkes não era uma mulher com o desejo de ser mãe. Ela acreditava que a vida era um caleidoscópio de emoções e que somos programados para tocar e partir. Mas ela era uma mulher arguta o suficiente para vender as pequenas indiretas dos seus amigos, que acreditavam firmemente que ela já ultrapassou a idade maternal. – Ah, puxa vida. Sinto muito. – Obrigada. A verdade é que eu não sei bem qual é o sentido de ter filhos ou o de pressionar alguém para tê-los. Eu estou satisfeita com a minha vida pessoal e profissional. Logo, deu de ombros. Naquele instante, Híbrida ficou espantada em ver como era fácil para Monny dizer aquelas coisas para alguém. Havia uma compaixão simples em sua voz, nem desmoderada, nem ausente. Ela estava certa, não havia sentido, mas não sabia expressar-se daquela forma quando atordoada. 113


Completava-se treze dias que Híbrida havia conversado sobre a excêntrica representação dos sapatinhos azuis com Monny Wilkes embaixo de uma loja qualquer de conveniência, e faltava um dia para o promissor encontro com o Dr. Helsen para exames de rotina. Estariam conversando, não em seu consultório, mas em uma pequena sala de consulta do hospital de Darcely. O médico tentara encorajar a inseminação artificial, dizendo a Híbrida que nunca é tarde para ter os resultados de uma vida plenamente feliz. 3. Sexta à noite; crepúsculo de um dia de primavera. O sol poente lançava raios em carmim puro e oníricos sobre a pequena casa perfeitamente persuasiva. Mesmo após tantos meses, àquela conversa ainda passava claramente por sua mente e um pequeno desejo de vingança contra a intromissão de seu médico tomava conta. Estava cansada de respostas simples de Está tudo bem. Realmente estava, mas não se fazia necessário tantos questionamentos de algo que já estava óbvio. Perguntas vazias de mentes vazias. Imposições alheias no pretexto de serem compassivos. O sapatinho azul nunca usado representava toda a crueldade e pressão. Ela o comprou. Monny se fez amável com a situação mesmo com a visita inesperada já tarde. Híbrida colocou-os em uma atraente caixinha enfeitada com pequenos desenhos de criança e com um espalhafatoso laço violáceo que preenchia todo o espaço no topo. Desejava que fosse um presente especial para alguém com o tanto de interesse. Ao lado, um pequeno bilhete para o Doutor: “Vendem-se: sapatos de bebê nunca usados. Com todo o meu amor, para Monny Wilkes.” Yasmin Francieli Maciel

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Larissa S. Souza Sou uma mera graduanda do curso de História pela UENP atriz e escrevo textos que refletem meu dia a dia, além de minhas memórias. Alguns textos público na página do Instagram: @sentimentallista Tudo lá é reflexo de algo ligado aos meus sentimentos. O texto amor de carnaval, é uma história verídica conheci até então o rapaz pelo Tinder entre piadas e um convite para comer eu aceite, sai do hotel meio que clandestinamente sem que meus pais soubessem e fui até o encontro. Não me arrependo de nada, faria tudo novamente, com toque, olhar e deixar o coração pular e instintivamente se jogar. É difícil se descrever, porque tudo varia mas eu sou uma mulher negra, latino americana sem dinheiro no banco porém com um coração cheio de esperança. Pisando firme sob uma terra vermelha de sangue, dos meus e de nossos irmãos.

Amor de carnaval Larissa S. Souza Visualizei de sua janela uma selva de pedras, a imensidão do mar tão longe e ao mesmo tempo tão perto Perto eu estou do amar, Amar a sensação de estar com alguém, cujo sorriso não advém apenas de dentes, mas sim de olhos vibrantes. Mãos úmidas e um corpo quente, Duas combinações, dois dias... Noites em claro, noites de um intenso estar, Estar e me abrigar. Abrigo este que meus queridos botões fazem morada, morada está há 465km. Quilômetros, Distância, Paisagens e um amor, sim amor de carnaval Amor de agua salgada Amor de verão Tua carne junto a minha, sua mão segurando um copo de cerveja e eu do lado aguardando que você me conte a história de Bartolomeu.

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Os bares próximos do mar, e de lá os dois sentamos esperando os pés de alguém descansarem, e aquele momento sim, eu o eternizo em palavras, pois o sentir os teus lábios colados ao meu e o calor do seu corpo ao me tocar e logo me incendiar, agora só cabe a minha imaginação, imaginar, sonhar e sonhar.. Sonhar que tu, estás próximo e 465 quilômetros é na verdade 5 minutos a pé... Pulei de estado e não de carnaval, a intenção era conhecer o mar Pisar sobre a areia e namorar o céu Namorei teu sorriso Viajei em suas palavras E fiz de minha carne a tua Minha carne de carnaval faria e ficaria os restos de verão de minha vida junto a sua. Sim, um amor de carnaval Balneário Camboriú, 2020

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Laura Cristina Souza é estudante de graduação em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Participa de projetos de pesquisa acadêmica, através dos quais já publicou artigos em eventos internacionais e revistas da área. Pesquisa a respeito do conceito de paisagem na Arte e também escreve poesias. luacristina@gmail.com Dez passos para o fim: Gritei vitória tão rápido Desenhei vazios Seus medos tão fáceis Eu rio Rio Nada me parece tão sólido agora Nada foi são Um dia Criança correndo no mar, Seus olhos, seus Sonhos Nada mais me parece Tão real.

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Leila da Silva Pimenta Dombroski, natural de Itaituba-Pará, residente em Juína-MT. Deleita à poesia por viver arte em seus mais profundos desejos. e-mail: leiladombroski@gmail.com

O ENCONTRO DOS RAIOS DO SOL O azul mais azul com o reflexo solar. A areia clara admira o amor Visto sua imensidão entre o céu e o mar. O calor do dia com teu corpo quente, Incendeia o intimo reluzente. Os raios fortes penetram com intensidade Olhares trocam-se é libertinagem! Verão é fogo, é luz, é amor! Mares revoltos ao teu corpo nu. O balanço das ondas garante o ritmo Da dança profana do clima do sol. Verão! Estação que colore a penúria dos desejos. Acrescenta a sede de viver, Transpirada ao suor do teu encontro amor. Clima quente, mar, suor, areia, céu limpo todo azul. Tudo claro! Tudo vivo! Água! Muita água! Eu, você, o calor, o suor, os enlaces entre o mar e o vai e vem das ondas. Ah, o verão amor... Amor e mar... Sol é só AMAR!

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Luciene Farias: Nasci na cidade de Montes Claros MG e atualmente moro a seis anos na cidade de Limeira SP. Conclui até o sexto período de Jornalismo, minha paixão é toda voltada para artes. Tenho um livro que está na Editora Becalete, “Por Toda Minha Vida, estará pronto no mês de agosto 2020, o que seria minha primeira obra, tenho poemas e contos que escrevo ao longo da vida, será um prazer fazer parte do mundo maravilhoso da literatura, Poder ver meus poemas publicados será fascinante. Agradeço a oportunidade.

Eu queria Luciene Farias Hoje acordei com as lembranças na minha memória, Como eu queria ouvir o canto dos pássaros O Barulho das ondas do mar As árvores Queria ver as crianças brincando na praça. Queria ter o prazer de sair ao lar livre e olhar mais uma vez, O meu amado ainda não declarado. Sinto sua falta, seu cheiro, seu sorriso, me vejo em uma profunda solidão, Quero te encontrar novamente em meu caminho e deixar fluir este amor, como uma flor. Sou obra deste amor, que agora me sufoca, não posso vê-lo, Não posso tocá-lo; isso me consome. É apenas um vazio em mim. Agora estamos com nossas vidas, interrompidas, Por algo invisível. Estamos presos como um pássaro na gaiola, olhando o momento certo de voar. Isso me machuca tanto, minha mente vaga lentamente Para que tudo isso acaba, tenho urgência nisso. Pois, estou- me desfalecendo. Quanto tempo mais tem que esperar? Queria ter asas, pra poder voar neste mundo a fora 119


Como um viajante a procura de um tempo que está sendo perdido E recuperar cada um deles. Hoje podemos dar valor, ao sol, a chuva, a lua... O orvalho da noite, o perfume das flores, A falta de um abraço, de um bate papo, Falta de ouvir a voz e o encanto dos nossos filhos, da nossa mãe, aquelas vozes que nos acalma em qualquer tempestade. Ah! Como queria pintar a vida novamente, com os meus sonhos Mais profundos. Acalmar minha alma e meu coração. E acordar mais um dia E me deparara com uma esperança E com um novo recomeço.

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Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967. Filho de Lisboeta e Alentejana. É membro do grupo de Teatro Passagem de Nível, onde representa e escreve. Iniciou-se na escrita, em 1987, com alguns poema publicados no Diário de Notícias e Correio da Manhã. Publicou ainda alguns poemas no Jornal de Letras e na Revista “Sol”. Em 1995, publica, em conjunto com mais nove poetas a coletânea de poesia “Dez”. Em 1996, vence o VII Concurso de Poesia Santo António da Charneca. Atualmente é professor do ensino secundário numa escola de artes.

“Os mergulhadores”

A praia era sol e sal. Ali se entretinham os rapazes com os seus corpos franzinos, esguios e de uma cor amulatada. Ao longe, um casal de italianos que chegou há pouco à ilha, instalou-se no areal. A rapaziada lançou-lhes um olhar curioso. Havia na imaginação de muitos uma vontade de partir com os estrangeiros que embarcavam para a Europa ou América, no Porto do Mindelo - um porto histórico da cidade. Partir seduzia-os. Fugir para sempre daquela pobre prisão cercada de água e tubarões.

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Para além do Morro do Biau, uma formação rochosa invadia o mar. Era ali que o grupo se divertia durante as tardes. Reunidos em triângulo, onde o vértice mais próximo do mar era também o próximo miúdo a mergulhar, testavam a sua agilidade, perfurando as águas na vertical. A cinco, seis metros da superfície encontravam um enorme lajedo horizontal que marcava o fim da viagem submarina. Com um pau coroado por um gancho de ferro, lançavam um movimento semicircular por debaixo da pedra, tentando enganchar às cegas algum peixe que se cruzasse com o tosco anzol. Assim que sentiam prender algo com músculo, subiam à superfície, céleres e já com pouco ar nos pulmões. Logo que o rosto se virava para os demais, sorriam meio aflitos, meio contentes, mostrando aquela dentadura perfeita e branca tão comum aos africanos, e exibiam o peixe que estrebuchava na ponta do pau. Se o animal fosse pequeno, os outros riam e chingavam. Mas se fosse grande e gordo, corriam para ele com um velho saco de serapilheira, juntando mais um animal à sua caçada. Naquela tarde, ao verem a azáfama meio piscatória, meio recreativa, o casal de italianos aproximou-se dos jovens, o que lhes causou um certo constrangimento. Continuaram a caçada, mas agora de uma forma menos natural e mais representada. Até que o italiano, perguntou numa linguagem simples e silabada, onde estivera todo aquele peixe apanhado. Elias, o mais descontraído do grupo, descreveu o processo com gestos largos e usando uma miríade de línguas. As palavras saíam-lhe como ordens de comando para uma máquina e quase sempre os verbos eram citados no infinitivo: “mergulhar”, “pescar”, “respirar”. 122


O italiano propôs comprar-lhes peixe. O Elias e o seu irmão Abel gostaram logo da ideia e, abrindo o saco, começaram a mostrar um a um os peixes aos estrangeiros. Estes riam e ensaiavam um ar de espanto mais teatral do que real. Escolheram três peixes médios. No momento de pagar, Licá, o mais alto e forte do grupo, levantou-se da pedra onde estava sentado a observar e, entre gestos e monossílabos, informou os compradores que não precisavam de pagar o pescado. Elias, surpreendido, reagiu mal à ideia. De uma forma agressiva, usando um crioulo rápido e letal, vindo das profundezas da ilha, mostrou a sua indignação pela intenção de Licá. Este manteve-se calmo, sorridente e, sem se arrepender da oferta, conduziu-os ao caminho de regresso para que o assunto ficasse por ali. Hesitantes, os turistas lá foram excitados com os peixes pela mão até às suas toalhas de cor aguerrida. Elias não se conformava com os factos e advogava com esforço a injustiça da pobreza deles e a riqueza dos europeus que visitavam a ilha. Assim nunca deixariam para trás aquele destino escasso a que o clima e a paisagem esquálidos os remetia geração após geração. Abel acolitava as ideias, repetindo as últimas palavras de cada frase do irmão. Licá respondia que era preciso paciência acima de tudo, semear para colher mais tarde talvez muito mais tarde. Afinal aqueles peixes não valiam mais do que meia dúzia de escudos. Elias espumava pela boca e as palavras já lhe saíam aos solavancos durante a discussão. Licá tentou lembrar-se e concluiu que nunca vira o amigo daquela maneira, desconhecia-lhe aquele traço de personalidade. Aquele não era mais o Elias das pescarias, das partidas aos adultos da aldeia, dos jogos da bola por detrás da Igreja Velha. Mantinha-se

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contudo calmo e sorridente, tentando demonstrar ao outro que havia um tremendo exagero nas suas intenções e sobretudo nos seus protestos.

Vendo que não conseguia convencer ninguém para além do irmão - que o seguia mais por fidelidade do que por empatia - Elias agarrou à pressa o saco de serapilheira cheio de peixes e, rodando-o no ar, atirou-o para o mar, para o mais longe possível. Licá ficou impávido, olhando primeiro o saco a abrir-se na água e depois a cara vingativa de Elias. Aquele descontrole e ato mesquinho eram inconciliáveis com a sua essência generosa. A expressão condescendente do rosto mudou de repente. Os olhos semicerram-se e a cabeça inclinou-se para a frente como se se preparasse para marrar na testa do outro. Mas foi com as palmas das mãos que o empurrou, fazendo-o cair sobre o rochedo espinhoso. Elias, assustado, olhou para ele com os olhos muito abertos e brancos por cima daquela tez morena, estacando de súbito a verborreia. O saco boiava ainda ao sabor das ondas que, entretanto, cresceram com a mudança de maré. As gaivotas, numa luta frenética, disputavam os peixes mortos que iam deslizando pela boca do saco. Quando uma vaga maior soergueu os peixes mortos, todos viram a silhueta de um tubarão azul, na transparência da onda, mordendo com a sua bocarra desmedida o maior deles todos. Partiu a seguir num ápice como um fantasma azul e branco à chegada da aurora. “Viste? Era enorme, mano.” - deixou escapar Abel quando olhou, já esquecido da contenda, para Licá. “Nem agradeceu.” - completou Esdras que tinha estado calado. “Mas os estranjas agradeceram, não foi?” - afirmou Licá num jeito retórico - “É por isso que eu me quero ir embora daqui. Aqui todos acham que o que é de Deus é deles também, e esquecem-se de agradecer.”. “Agradecer, para quê, mano? Achas que Deus vai-te ouvir?” - retorquiu Elias, ainda sem compreender porque tinha sido derrubado. 7 124


“A natureza, mano, te fez um favor. Tens de respeitar o dono das coisas. Nós somos como esse tubarão aí: abocanhamos tudo. Os peixes não eram nossos, mano” - responde Licá, acabando num jeito compreensivo. “Então eram de quem?” - pergunta Elias confuso.

“Eram disto tudo, da natureza, de Deus. Foi-te dado e tu já querias vender. Vender para quê, não tem mais lá em baixo?” - pergunta Licá, certo da resposta. “Tu’tás maluco, mano!” - acusa Elias. “Maluco? Tu só vês cá de baixo. Tens de olhar lá de cima, mano.” - conclui Licá, como se também só compreendesse agora. Ainda não tinha acabado a frase e já se encaminhava para casa com a toalha russa por cima do ombro. Chegado a casa, a mãe Júlia tinha para lhe dar a jantar os restos da cachupa rica que sobraram do dia anterior. Aqueceu-os e serviu Licá, com aquele jeito doce das gentes de Santo Antão de onde era oriunda. “Como correu a pescaria, Li?” - perguntou ela. “Deu porrada no fim.” - respondeu Licá sem olhar para ela. “Então tu ganhaste?” - disse ela, gracejando, com algum grau de certeza. “Achas? Na porrada entre amigos ninguém ganha.” - respondeu meio amuado. “Tens razão, Li. Agora come. A cachupa fica mais gostosa de um dia para o outro. Quero ver esse prato limpo.” - ordenou a mãe Júlia, sabendo de antemão que apenas iam sobrar as espinhas e os ossos. Durante o jantar, Licá refletia em silêncio sobre as confusões daquele dia. Estava triste por ter empurrado o Elias daquele modo. Podia pedir-lhe 125


desculpa, mas sabia que acabava de abrir uma nova fase na relação com o colega e que aqueles episódios deveriam repetir-se dali para a frente. Não eram os homens revoltados que criavam problemas, os problemas é que criavam a revolta nos homens. Enquanto comia a cachupa, tentava discernir a origem do mal que o inquietava: Era a ilha? Gostava dela, como se gosta de uma mãe. Mas pode um homem viver para sempre em casa da mãe? Claro que não fazia sentido. O avô não o fizera. O pai também não.

Naquela noite, deitou-se na espreguiçadeira do quintal e ficou a olhar o céu estrelado. Quantas daquelas estrelas teriam, em torno de si, planetas habitados por gente? E como seria essa gente distante? Afinal, cada estrela é uma ilha de prata ou ouro - sem razão aparente separada das outras como São Vicente, Santo Antão ou Santiago. Estariam elas todas ligadas por um fio enorme e transparente? E a magicar com os mistérios dos astros adormeceu ao relento.

Texto: Luís Palma Gomes Ilustrações: Claidir Rendall

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Marcela Caroline Albuquerque Horta é carioca, residente em Minas Gerais. É formada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atua como professora de Língua Portuguesa pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. e-mail: mcas.albuquerque@gmail.com

SEREIA MULHER Por Marcela Caroline Albuquerque Horta Ali, sozinho, sentado na areia a admirar o vai e vem do mar. No respirar fundo e no deixar a cada raiar do calor do sol, o meu coração tocar. Assim, sem pretensão nem intenção, vi sair do mar a sereia a me encantar. Dotada de curvas de viola Pele cor de mel, olhar estático e perfume salgado. Sereia mulher, que me fez experimentar o dulcíssimo sabor de por você me apaixonar. Encantado e sem chão, ali na areia, Totalmente vidrado a admirar, a cada palpitar do coração o poder de te amar. Sereia mulher, 127


vem em meu colo deitar. Permita-se comigo no verão se encantar. Vamos juntos, sereia mulher nesses ares de mar, o mundo desvendar e pincelar com nosso amor todo esse ar.

Dance comigo, conforme o balanço do mar. Deite comigo, sob o céu desse luar. Aqueça-me com teus belos cabelos no emaranhar de afagos e desejos, no afogar de seus beijos. Vem, sereia mulher, comigo viver esse encanto. Vem, sereia mulher, comigo amar. Vem, sereia mulher, invejar a todos de desejo e prazer, a cada passo na areia, no nosso caminhar em direção ao mar.

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Marcela Beatriz Bomfim Cruz (@bomfimmartin) Reside em Belém do Pará, formanda em Secretariado Executivo Trilíngue pela UEPA. Artista e escritora, é autora do blog “Nota Sem Titulo” (https://notasemtitulo.blogspot.com/). Selecionada em diversos concursos, já publicou poemas em antologias como “ Porque somos mulheres”, “ tempo para o amor” e na coletânea “Amor que Não se Mede”. Email: marcelabiatriz@gmail.com

Mar – Marcela Bomfim Tua alma reside em um deserto De solidão Desconhecido Silêncio. … Há uma onda pequena, Distante Que se aproxima Devagar… Cada vez maior. … Então você navega em um Sublime azul, Sem fluxo Que inunda tua alma Onde agora, tua pele tem o gosto salgado de água do Mar. E eu te levo.

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Márcia Letícia Gomes é uma leitora de fisionomias, geografias, sons e acredita que as palavras têm o poder de materializar todas as coisas. Sons de sóis As veias das suas mãos Contam histórias Eu, tão pequena E aquele assovio de mar Que leva os cabelos E ajeita as ideias As marcas na tua pele Têm memória Eu, sempre tão segura Não percebi Que aquele assovio de mar Era a última canção Que você compôs pra mim O vermelho nos nossos rostos Conta do sol Eu, amorenada Cheia de sonhos, de sons Nas ondas Caibo no teu abraço E não quero sair Balança Balança Seu braço é âncora Mas não me prende Seu cheiro é salgado E acende Seu amor é casa Moro 130


Márcio Paz Martins : Escrevo poemas a pouco tempo, tenho dois publicados em livros, e fui classificado em mais seis. Pseud: Márcio Martins Email: martins141266@gmail.com

NÃO QUERO DESPERTAR Adormeço na praia no calor do verão Um sonho se revela em minha mente Agora estou te amando inconsciente O mar de encontro às aminha pernas A me castigar e eu sentindo emoção E eu ali, lhe querendo sem medidas... A onda me castiga com seus açoites Meus pés ardendo como em brasas Durmo e só me vem a tua imagem Nada sinto a não ser tua presença No teu calor e de nossas lembranças... E dos nossos momentos de deleite Desse jeito não pretendo mais acordar Que o verão me castigue junto ao mar Mesmo que eu tenha uma insolação Até se minha alma não suportar a dor Eu não quero sofrer uma desilusão De despertar e não ter mais o teu amor!

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Marcos Andrade Alves dos Santos Poeta, Contista e Pesquisador. Mestrando em Sociologia (PPGS/UECE). Especialista em Gênero e Diversidade (UFC). Participei dos projetos editoriais da Porto de Lenha Editora, tendo publicado textos em diversas Antologias. Tenho publicado poesias e contos na Revista LiteraLivre. Moro em Canaan, interior do Ceará, um lugar brejado pela poesia. https://www.instagram.com/marcosencante/

Os Encantados Maria Moura dos Santos Sou uma mulher negra, mãe e avó. Fui uma retirante, agricultora, pescadora, empregada doméstica. Moro em Canaan, interior do Ceará. Publiquei com meu neto muitas de minhas estórias em Antologias da Porto de Lenha Editora.

Os caminhos que desabrocham do mar são caminhos de encantamento. As memórias trafegam por eles desde o passado para renascerem nas experiências das pessoas que são médiuns e se multiplicarem por cima do mundo. São notas, inocências desencontradas, poesias, estórias que se refazem na passagem por sobre as terras ventiladas. Arrisco dizer que esses encantamentos são as coisas que ventilam as flores das terras com o sal das ondas. As coisas que se deslocam pelos caminhos do mar são os Encantados. Eles vêm desde as ondas do oceano e se chegam às coroas dos médiuns. Fazem o bem, regeneram as pontes, habitam os corpos de estórias. Os Encantados moram em muitas partes e certamente trafegam por muitas estradas dentro da terra. Porém quando estive no Terreiro do Mestre Antônio de Mel, conheci com mais profundidade aqueles que são das ondas. Conheci um local de encantamento, conheci a pisada de um Cavaleiro do Mar no trabalho, conheci o mistério do pôr do sol. E nunca pude me esquecer destas coisas. Ao caminhar por dentro das veredas que levavam a Raposa não senti mais as forças do sal nem os pássaros que nascem nas ondas. Senti um abandono tão grande! Achei que até mesmo Deus tivesse se esquecido de 132


mim e daqueles que estavam ali comigo. Aqueles caminhos ainda não tinham sido trilhados por gente como nós e fazê-los pela primeira vez tornava-se um desafio solitário. Quem não teria medo? Onde estavam os Encantados? Certo dia estava sentada na praia da Cana Brava, nas terras do finado Nilo Paixão, quando um homem chegou por trás de mim e tocou em meu ombro. O sol estava muito forte que ao me voltar para trás a fim de conhecer sua face, nada vi além da sombra. Não tive medo. Então ele me falou: – Seu pensamento me chamou minha filha. E antes disso Oxalá tinha marcado nosso encontro nesta praia esverdeada. Vim para te dizer umas coisas sobre o teu passado de andanças. Quer saber por que não pudemos está contigo nem te aparar na noite em que caiu no caminho para a Raposa? – Me diga meu pai. Agradeço que tenha vindo ao meu encontro, pois sinto tristeza. – Não sinta tristeza minha filha. Veja o Mar lhe sorrir com a brancura das ondas. Ele quer te chamar para dançar e eu sou um navegante que dança nas ondas. Sou também aquele que se levanta do fundo do Mar para os outros Encantados passarem e percorrerem a terra na qual você lhes abriu os caminhos. Há quem pense que nós fazemos tudo sozinhos, que não precisamos da ajuda dos médiuns... quando você é o descomeço do antigamente. Somente gente que não te conhece é que poderia mesmo arriscar dizer diferente. Não pudemos te acompanhar naquela viagem porque Deus não permitiu e só podemos fazer o que Oxalá ordena. Os caminhos sobre a terra estavam fechados e não tínhamos alcançado distâncias maiores que aquelas que nos levaram os outros médiuns. Ainda não tínhamos nascido naquelas terras ensolaradas, distantes da imensidão azulada. Lá existiam outras coisas e somente suas pernas poderiam abrir os caminhos para que nós também habitássemos aquelas distâncias, como prometera nosso grande Pai. Então você e seu marido foram lá e abriram passagens maravilhosas e pudemos alcançar aquelas partes e curar os que precisavam... você cumpriu a promessa de seu destino, a mesma que lhe foi anunciada na casa da Raimunda e tornada real no Terreiro do Mestre Antônio de Mel. Assim, minha filha, respondo a dúvida do seu coração. Não pudemos caminhar com você porque não estávamos ali. Foi seu esforço 133


que nos levou. E quando chegamos lá andando pelos mesmos caminhos que você tinha aberto, então fizemos morada em vocês. Uma última coisa que quero lhe falar: Acaba de ir embora uma pessoa muito importante para o antigamente. É por isso que você sente essa tristeza que não sabe como explicar. Mas ele está alegre por ter concluído sua missão na terra e poder continuar sua jornada no alémmundo. Olha ali nas ondas... Virei minha face quente, molhada pelas lágrimas da descoberta. Fitei aquele rosto que me encarava com afeto. Senti uma dor no coração, como se uma faca me penetrasse até a alma. Tentei gritar arriscando que ele pudesse me ouvir. Porém, o grito ficou entalado na minha goela. O Mestre Antônio de Mel ainda me sorriu antes que seus dentes se transformassem em sal...

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Maria Eduarda (ou Dadá, como prefere) nasceu em Votuporanga, interior paulista, em outubro de 2003. Atualmente, reside em São José do Rio Preto. Estudante por vocação, é uma adolescente ávida por descobrir e que sempre esteve agarrada às palavras e aos livros. Em 2018, foi premiada com o primeiro lugar na categoria “conto fantástico” do concurso Arte e Cultura Poliedro, dentre 2 mil participantes. Foi esse o estopim para que passasse a levar aquilo que considera o seu talento a sério. No ano de 2020, foi selecionada pelo concurso Cidade Poética para ter seu poema “E. F. Araraquara” publicado numa antologia, ao lado de outros 69 autores. A publicação está prevista para o segundo semestre. Enfim, acredita que a educação é a chave para garantir maior equidade e tem trabalhado para levá-la ao maior número possível de brasileiros por meio do projeto Eureka.Study – uma reunião de jovens que publica conteúdo voltado para o ENEM no Instagram e Youtube. Você pode encontrar a Dadá pelo email dudaamadeu2@gmail.com ou pelo blog https://dudaamadeu2.wixsite.com/dadaamadeu .

Rondó de amor praiano Vosso retrato no horizonte É maresia, molha a fronte. Rara figura de ternura Ampla, e salina pele escura. Olho-te daqui, hesitante. Valsando n'água, elegante. Valente e submerso amante. Veja: Provoca a tal borbulha. Vosso retrato... Imóvel, é estonteante. Meu marítimo farsante, Causador dessa minha usura. Astuto tritão que me atura. Rio não! Ele é mar ambulante. Vosso retrato. Maria Eduarda Moraes Amadeu 135


Nome do autor: Maria Silvana Prado Pseudônimo: SIL. Categoria: Adulto Data de nascimento: 17/02/1969 Título do poema: OCEANO Endereço: Imbituva/PR Telefone: 42 – 9992-3719 E-mail: silvanapradoimb@hotmail.com Mariasilvanaprado17@gmail.com Currículo de até 5 (cinco) linhas: Membro da ALACS (Academia de Letras e Artes da região Centro-Sul do Paraná). Professora de Ensino Fundamental, formada em LETRAS, pela Unicentro. Poetisa nascida em Imbituva/PR. A Literatura e a Poesia são minha essência. OCEANO Maria Silvana Prado Lancei-me no oceano Enrolada num pedaço de pano... A água era fria Minhas mãos estavam vazias... Lancei-me no azul profundo do amor Despi a alma em uma nudez insensata Na vasta dor de querer ser grata... Meus cabelos ao vento Dançavam de contentamento Livre... livre...louve...louve Como brisa Como sons... Amei sem diretrizes O oceano uma marquise O homem atitudes e deslizes.

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Mariana Bortoletti : Marketeira durante o dia, escritora durante a noite e influenciadora literária aos finais de semana. Escreveu o primeiro romance não publicado aos 14, foi fanfiqueira dos 18 aos 22, publicou seu primeiro conto aos 23 e desde os 24 mantém o Poeira Literária. Hoje, aos 30, resolveu retomar os manuscritos esquecidos nas gavetas e publicar para o mundo ver.

Mar, areia e um casamento Mariana Bortoletti Parada no lobby do hotel naquela manhã, Marina desejou que o casamento de sua irmã fosse no domingo seguinte. Não porque não estivesse feliz por Vanessa, mas porque o clima estava tão gostoso que seria uma pena passar o dia dentro de um salão de festas. O céu estava claro, limpo, e lá no fundo, atrás do estacionamento e de algumas dunas, ela conseguia ver as ondas quebrando na praia. Marina conhecia muito pouco do litoral, aquela era a terceira vez que ela via o mar, porém havia algo na mistura perfeita entre calmaria e agitação que a hipnotizava. Naquela manhã, ela queria poder caminhar pela praia, tocar a areia e sentir a água do mar nos pés. Porém, ela, o pai e a irmã mais velha precisavam chegar à casa de festas para receber os convidados. Marina e Elisa já estavam usando os vestidos azuis claros de madrinhas e tinham os cabelos em coques elegantes. A mãe delas e Vanessa já estavam no salão. Enquanto a noiva se arrumava e tentava ficar calma, Alba garantia que os últimos detalhes estivessem certos. “Marcos me garantiu que o amigo dele não é estranho”, Elisa disse no lobby, acordando Marina de seus devaneios. Válter, o pai das duas, tinha ido buscar o carro no estacionamento e a mais velha aproveitou para puxar o assunto.

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Marina era a única madrinha que não tinha um par, então Elisa tratou de fazer o noivo de Vanessa, Marcos, encontrar alguém. E ele tinha elegido

Caíque, um amigo de longa data, que Marina descobriu ser bonito e reservado. Foram as únicas informações que ela conseguiu ao stalkear as redes sociais dele. Apenas uma foto de perfil de alguns anos atrás e todas as postagens fechadas. Caíque devia ser um deleite. “Eu espero”, ela desejou sinceramente. Então, Válter parou com o carro na porta do lobby e as duas marcharam em seus saltos até o carro. Elisa se adiantou até o banco do carona, mas Marina ouviu algo que a fez hesitar. Eram as ondas quebrando e as gaivotas cantando. Quando as portas do lobby se abriram, ela sentiu a brisa salgada grudar em seu rosto e deixou os ombros caírem. Não havia nada agora que a fizesse entrar naquele carro. “Eu vou caminhando”, Marina anunciou e sem esperar resposta, disparou para o portão do hotel contornando o carro. Ao longe, ela pode ouvir uma objeção de Elisa, mas o barulho de seus saltos nos paralelepipedos abafou o protesto. Segurando a barra do vestido de musselina para não sujá-lo, Marina correu em direção à praia, atravessando a rua na frente do hotel sem olhar para os dois lados, e apenas parando quando sentiu a areia entrar nas sandálias. Quando o carro do pai alcançou a rua, ele buzinou e chamou por ela, mas era tarde demais. Marina já tinha tirado as sandálias e corria em direção à água que ia e vinha, sentindo o sol ameno tocar suas costas. Quando mergulhou os dedos dos pés na água, ela sorriu como uma criança, um sorriso completo e satisfeito, um sorriso de plena alegria. Chutou a água, riu sozinha e quando percebeu, havia gotas de mar em todo o vestido.

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Ela precisava tomar cuidado para não arruinar aquela roupa, mas já podia sentir o sal destruir o penteado e a maquiagem. Elisa ia ficar tão decepcionada. Apesar disso, Marina se sentia bem. E leve. Tinha valido a pena escapar do pai e da irmã para curtir aqueles minutos na praia. Porém, ela precisava caminhar até a casa de festas ou teria problemas. Vanessa entraria às onze horas em ponto e não podia fazer isso com uma madrinha a menos.

Então, Marina buscou o celular dentro da bolsinha e calculou sua rota até a casa de festas pela beira do mar, vendo que tinha vinte minutos de caminhada até chegar a uma rua estreita que a levaria até a entrada do lugar. Ela caminhou com calma, observando o movimento das ondas e memorizando o barulho que a água fazia ao bater nas pedras. Marina avistou o salão antes de encontrar a entrada. Era uma casa antiga no alto de um morro, com amplos jardins e uma visão privilegiada do mar. Ao ver que estava chegando, fez uma lista mental do que precisava fazer: limpar a areia das sandálias, arrumar os cabelos, se esconder do pai e de Elisa e conhecer o tal Caíque. A verdade era que ela não estava animada com nenhum dos itens dessa lista. Decidiu tomar a entrada dos funcionários, contornando a construção até que enxergou a porta da frente e o jardim. Escondida entre os arbustos, ela conseguiu ver seu pai em pé na porta do salão recebendo os convidados e, mais afastado, em pé na grama com as mãos nos bolsos, estava Caíque. Os dois não estavam conversando. Seu pai olhava o relógio torcendo os bigodes quando não estava cumprimentando os convidados e Caíque olhava para o céu, como se não houvesse nada melhor para fazer. Ele era bonito mesmo. E ainda parecia bastante reservado. Porém, ela não tinha tempo de pensar nisso agora. Marina tentou tirar a areia dos pés, percebendo um rastro deixado atrás de si, e colocou as sandálias. 139


Ela não queria ser vista pelo pai, então, ali escondida entre os arbustos e cheia de areia da praia ao seu redor, pensou num plano. Podia contornar o chafariz, se esconder atrás da estátua de grama e, quando seu pai não estivesse olhando, entrar correndo pela porta. Era um plano ridículo, ela sabia, nunca ia funcionar. E quando ela se deu por conta disso, percebeu o olhar de Caíque sobre ela. Ele a olhava com curiosidade, como se estivesse apenas esperando para ver o que aquela garota faria em seguida.

Mal tinha saído dos arbustos, Marina foi vista. Seu pai automaticamente cerrou os dentes e estreitou as sobrancelhas, praticamente obrigando com o olhar que a filha caminhasse até ele. “Onde você estava?”, Válter disse entre dentes. “Eu vim caminhando pela praia”, ela respondeu. “A sua irmã estava desesperada!”, ele continuou falando entre dentes, provavelmente tentando evitar que alguém ouvisse sobre aquilo. “Você precisa arrumar essa bagunça e ir lá para dentro com os outros”, continuou ele. E como se buscasse por alguma coisa, Válter olhou ao redor. Seu olhar parou em Caíque. Assim que viu o olhar do pai de Marina em si, ele caminhou até eles sem um sorriso no rosto, as mãos nas costas como um militar. “Esse aqui é o Caíque, o amigo do Marcos que vai entrar com você”, o pai de Marina apresentou os dois e, só então, Caíque sorriu um sorriso muito aberto. “Agora via lá para dentro e tira esse sal da sua cara!” Sem dizer mais nada, Válter se voltou para a entrada do jardim. Marina e Caíque se olharam sem saber o que dizer, apenas caminhando lado a lado para dentro do salão com um certo constrangimento no ar.

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“O que aconteceu ali?”, ele perguntou quando os dois estavam dentro do salão e Marina ouviu uma voz séria e grave, soando quase como uma norma. Porém, seu rosto estava sorridente agora. “Eles queriam que eu viesse de carro, mas eu quis vir pela praia”, ela esclareceu. “Fazia muito tempo que eu não via a praia e vou confessar que se não fosse a Vanessa casando, eu teria ficado lá.” “Eu sei como é”, ele respondeu, animado. “Eu sou aspirante a oficial da marinha, não poderia me imaginar tanto tempo longe da água.” Marina achou aquilo impressionante e entendeu de onde vinha o tom sério na voz dele e sua postura. Ela quis ouvir mais, saber por quais lugares ele já tinha passado e como era trabalhar tão perto do mar, mas não conseguiu porque Elisa chegou e a puxou com força para o banheiro, interrompendo qualquer pergunta que Marina pudesse fazer.

Certamente, ela iria refazer seu penteado, arrumar a maquiagem e brigar com ela por causa da areia nas sandálias, mas não importava. Marina estava ansiosa pela cerimônia e pela festa para conseguir conhecer melhor o seu par para aquele casamento.

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Neusa Canabarro : Poeta, nascida em 1982, reside em Silveira Martíns RS, Brasil. É Autora do livro "Quitutes para a Alma". Tem participações em quatro coletâneas,"Inspiração","Malabarista do Tempo" e "Coletânea Internacional Gaya"e "Brisas do Outono". É Acadêmica da ALPAS 21 cadeira 24. Uma pessoa especial, carregada de histórias e movida por desafios. Eterniza seus dias em poesia.

O Barco a Rede e o Mar O barco a rede e o mar Me trazem doces lembranças De um tempo de bonança Do vigor da juventude O barco levou consigo E a rede entrelaçou Minha sublime memória Mas foi no encontro com o mar Que escrevi minha história E mesmo que aqui distante Meu coração vai estar No barco a rede e o mar. Neusa Canabarro

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Pabloh é aluno de Ciências Biológicas na UFMG e cursa Cinema e Audiovisual no Centro universitário UNA. Tem amor pela ciência, pela educação e pelas artes, especialmente pela poesia. No meio acadêmico, atua como bolsista de iniciação científica no departamento de Parasitologia da UFMG, pesquisando sobre a relação parasito-hospedeiro. No meio artístico, em 2019, publicou seu primeiro poema, “Incertezas”, em livro físico, na antologia “Poesia Livre 2019 – Concurso nacional, novos poetas”. No Cinema, seu trabalho de maior destaque, até o momento, foi o curta “Da Janela” (2019), exibido na Mostra CineBH 2019. Por fim, atualmente, Pabloh prepara seu primeiro livro de poemas. - pabloh email: pablopaixao16@gmail.com falta de mar e cia mar... se mar é o que a gente tem saudade então, eu o personifico o litoral torna-se seu sorriso agora, com tudo acabado, lembro do seu toque como sinto o sol lembro do seus olhos como o azul profundo de toda a cena apego-me as lembranças de ti de nossos momentos a sós, é tudo o que me resta te sentir na falta guardo suas mensagens como conchas ainda escuto sua voz nas ondas se mar é o que a gente tem saudade, hoje entendo porque amar termina dessa forma 143


Patricia de Campos Occhiucci: Escritora desde os 14 anos, com poemas publicados no jornal da cidade onde reside, ganhadora de alguns concursos, mas com a principal intenção de levar mensagens instigantes aos seus leitores. Professora do ensino fundamental na disciplina de Ciências Físicas e Biológicas, e Psicóloga. Nas horas vagas ama brincar com seu cachorro Jolly e também balançar na rede, lendo um bom livro. Contato: patyarez@gmail.com

Tema: O verão: o mar e o amor Título: Amor perdido Cheguei à orla em ventania Correndo, fugindo dele Que me persegue e enfrenta Tomando meu coração para si. O amor não me dá sossego Igual as ondas que quebram nas pedras Adentra meus sonhos Como o cheiro do mar Abarrota minha mente Quase me afoga Inflando o peito. Eu o tenho E não o tenho... O sentimento vívido Mas a sua razão de existir Fugidio... Nesse verão, sem sol Ele se escondeu Atrás das nuvens da chuva Foi com outra mulher... A precipitação, numa pancada Mistura-se às águas no azul. Observo, embevecida E as gotas descem Lembrando o amor Pela tez rosada Queimada pelo calor 144


Da suntuosa estação. O mar está pacífico Do nada se agita Como meu coração Batendo em desabalo Ao pensar em você.

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Paulo Roberto de Oliveira Caruso é carioca nascido a 19 de julho de 1975. Servidor público do Estado do Rio de Janeiro, formado pela Universidade Federal Fluminense em Administração e Direito, estudante de Letras na mesma UFF. Especializado em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho. Atual Presidente da Academia Brasileira de Trova e membro de outras Casas no Brasil e no exterior. Lançou seu primeiro livro solo em 2019: Sonetos Diversos. Facebook: Oliveira Caruso

O mar e a areia (Santo Julinho)

Tenho a visão dum belo namoro que fazem gigantes de una beleza. Assim é a vida na mãe natureza, mantendo em carinho todo o decoro. Vejo as águas passando sua mão pelas areias da praia, que as amam carícia das ondas que vão e que voltam – é cafuné e conforto à exaustão. Grande é a magia do ofício discreto, pois fica a areia em transe, deitada e tão à vontade, como se em casa a mesma estivesse, a manter o seu rito de todos os dias, matando os anseios. Dispensa por certo qualquer alimento, pois este é o amor que recebe em alento, como se o mar deitasse-lhe o seio.

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Deitada imponente segue esta areia e, sem se virar, dia após dia, logo sua pele então se arrepia e, como se fosse tão bela sereia, às águas do mar envia seu canto; sob feitiço, este ao charme responde. Jamais o lar netuniano se esconde, pois nunca resiste a tal vil encanto. Tenta voltar e livrar-se da sina... Retorna em seguida, por força dos ventos. Eternos e puros são tais movimentos, como contigo eu faço, menina.

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Pedro Ferreira Dantas (São Paulo, 5 de abril de 1995) é escritor, poeta e professor de inglês, além de lecionar outras línguas estrangeiras, como o russo, e sua língua nativa: português. Formado em Letras pela Universidade de São Paulo, com especialização em língua russa, literatura, teatro e cultura. Além de escrever e ensinar, Pedro é um viciado em filmes clássicos, além de um colecionador ávido de DVDs, antiguidades, livros de cinema, biografias, memorabilia geral de filmes e autógrafos. Ele pretende se tornar um cineasta um dia. Pedro atualmente mora na região de Lisboa, Portugal

PROFUNDO COMO O MAR Autor: Pedro Dantas Danúbio azul profundo Profundo como o mar Amor maior que o mundo Faz-me livre para voar! Mar sagrado templo Esplendoroso e régio É a esfinge que contemplo Cheia de sortilégio... Maremoto em mim goteja Diamante - lantejoulas a brilhar Rachadura na gruta lateja Corações - solitários a cintilar Eu queria com as mãos tocar O fundo do mundo O mais profundo e vivo que há Profundo como o mar Mundo afora, aqui e agora: Decifra-me ou me afoga! Assim na Terra como no Céu, Assim no Mar como no Ar. 148


À deriva, em mar aberto Ferida a céu aberto, fico alerta: Nas profundezas do mar sem fim Há infinita descoberta... Esvaziada a clepsidra Não morro, mas me afogo de amar Com a paixão dos suicidas, Que se matam no mar Entregue à própria sorte Mais forte que a morte Sobre mim certeza escorre: De amor também se morre. Desvario de Ismália, Meu coração flambava, voo de Ícaro Eu chorava... Meu par de asas se retalha Tal destino pícaro Amo tanto que nem sei Me afoguei Deus sabe o quanto amei Naufraguei. As ondas quebram na praia E no calor da enseada Boia o corpo de uma raia Que foi um dia ensolarada Do mar eu sempre teria Apenas uma nesga Meu coração se contorcia Numa água viva de tristezas O mar me bebeu E junto um descobrimento: O mar será meu túmulo Mas não é o fim – é um renascimento.

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Corsário, coração tropical Partirá esse gelo – e irá ! Profundo como o mar Profundo como o mar Pássaro místico azul, Infinito como o mar, És meu diamante bruto Que pra sempre há de brilhar No fundo do mar.

Contato do autor: Email dantas.pedrodantas@gmail.com

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Pedro Guerra Demingos gosta de gatos e de café. Sua formação é na área de exatas, mas ele dedica uma fração insalubre do seu tempo à escrita criativa, principalmente à fantasia. Tem diversos contos selecionados para antologias de diferentes editoras, bem como alguns poemas classificados em concursos literários. Mais informações sobre suas publicações podem ser encontradas em seu instagram: @pgdemingos Canção da Noite Saiu nua do mar, Dançou na rua deserta, Fez a dor ‘mentar Na alma dos poetas. Nasceu no pôr do céu, No peito pôs a seta, Dentro o mar mexeu E fez lhe amar completa. E ela não sabe que brilha Na cor da beleza Dos olhos de alguém. E quando acaba o que fica É bem mais que a certeza Que sofre e não tem. 151


Pedro Panhoca é doutorando inscrito no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). É autor do livro Traumas e Tabus, editor e colaborador da revista Legendary Art Magazine, colaborador mensal da revista Alarums & Excursions e escreve textos literários que às vezes são publicados em antologias.

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Tato Ricci nasceu na cidade de Espírito Santo do Pinhal/SP. São 10 anos de escritas e poemas que sempre compartilhou digitalmente, é formado em gastronomia e atua nessa mesma área. A escrita antigamente era um hobby ao qual deixava sua criatividade rolar quando não a utilizava nas cozinhas e bares. Hoje ele assume a alcunha de escritor e tendo como seu alter ego o chefe de cozinha. Seu primeiro livro publicado foi no ano de 2019, intitulado “Os poemas que descartei”. Atualmente trabalha na produção do livro infantil “A lebre & o caju”.

Que seja perfeito na nossa loucura... Que não venha querendo mudar, que não venha querendo usar, que não venha se for para sua sanidade, minha loucura roubar. Venha para multiplicar, pois já sou completo, não há nada a somar. Venha para estar, pois não existo somente quando a carência gritar. Venha dançar sem música, me beijar na chuva, venha me dar um amasso escondido ou em público para causar. Apenas venha se puder na minha vibe fritar. Não de desculpas quando não quiser me ver, não peça desculpas por ser você, não invente histórias, a sinceridade que traz a moral para todo final. Venha para ficar, mesmo podendo fugir para a longe. Venha para valorizar tudo aquilo que outras pessoas somente souberam criticar. Venha para “foder” da melhor maneira possível. Se for fria e nem um pouco sentimental ou se não souber seus sentimentos demonstrar, seja assim, gostando do seu jeito, meio sem se importar, mas apenas me valorize, pois é contigo que decidi estar. Apenas venha querendo ficar

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Se ficar Que venha se for, Sem jogos ou rodeios, Com receios ou medos. Se for para ficar, Que seja por inteiro, Relacionamento verdadeiro NĂŁo existe parcelamento. Vivemos o momento Sem arrependimento, Prazo de validade.

- Pedro Ricardo Ricci @escritor_tatoricci13

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Poeta Antonio Ferreira, tem 38 anos, é poeta e escritor de mais três livros de poesias (“Crônicas e Poemas Reflexivos”, “Poesias Reflexivas” e Poesia na Alma”) e como tal é membro da ACAPP (Academia Piauiense de Poesia). É também contista (Malubu, o sábio carcará), romancista (“Yasmin e Casim _ um romance regado a poesia” e “Entre Dois Mundos”) e já participou de duas antologias poéticas pela Editora Vivara. Ele também é professor e compositor solo e em parceria. Sua poesia gira em torno do existencialismo (o encontro consigo mesmo) e do romantismo. Por isso, busca retratar o amor e a vida de forma lúdica e temperada com realismo, mas também, com cortesia. Já tem vários contatos com pessoas famosas com possibilidades de mais reconhecimentos em breve. Instagram: poetaantonioferreriaoficial

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Pseudônimo: Priya Nilah. Já fui estudante de Direito e Arquitetura, mas formei em Fisioterapia no final de 2019 e em 2020 formei-me instrutora de Yoga. Também realizei cursos de cozinheira básica, Thetahealer, Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita e doulagem. A escrita acompanha-me desde a infância. É meu encontro. Mas apenas durante a pandemia eu senti que poderia praticá-la mais intensa e corajosamente priya.nilah@gmail.com Construção de amor Construímos juntos À beira desse mar Uma linda fortaleza, Abrigo para se amar. Teu corpo sob o sol É reflexo do desejo. Sensação de plenitude Mergulhada no teu beijo. Cada grão de areia Procura seu lugar. Unidos pela atração Permitimo-nos sonhar. Sonho de romance Dos contos de fada. Fizemos nosso castelo, Tememos quase nada. As ondas bem o sabem Desse forte sentimento. Apreciam contemplativas, Aguardam o momento. 157


A história de amor Não foge à dura regra. Viver é impermanência, Em vão a gente se apega. Para sempre enganados Não vivemos o presente. Condicionados pelo futuro Choramos o corpo ausente. A maré vem recordar: Nunca cessa o movimento. Opor-se à sua força É causa de sofrimento. Varre castelos de areia, Destrói nossa ilusão. Culpa minha acreditar Que tudo seria verão.

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Rafaella Rímoli : Poeta, autora dos livros de poesia 'O haver flor' (2013, Editora Coruja) e 'Contínuo Instante' (2019, Editora Patuá). Se interessa por mover em vão tudo aquilo que não é possível de ser dito. Começou pelo corpo da palavra e a denúncia de seus abismos. Em seu recente livro, assina uma carta de rendição às transformações e passagens, com uma poesia que “diz menos para que serve e mais para que ama”. Trabalha com gesto, pintura, ilustração, dança e mediação cultural, promovendo encontros para acessar o saber sensível. Formou-se em Letras pela UNAERP (Universidade de Ribeirão Preto), já trabalhou com mediação de leitura, oficina de poesia e pintura para crianças, canto e educação em exposições de arte contemporânea. Premiações: Prêmio Literário Paulo Freire pela Feira do Livro de Ribeirão Preto; Prêmio ‘Escritores in Progress’ pelo Sesc São Paulo em Parceria com a Bienal do Livro de São Paulo; Prêmio Literário Darcy Ribeiro pela Feira do Livro de Ribeirão Preto; Prêmio 'Cataratas de Contos e Poesias' pela Feira do Livro de Foz do Iguaçu; Prêmio Cidadão de Poesia de Limeira pela FLLIM Feira Literária Limeirense. Outras publicações: Poemas nas revistas eletrônicas Philos, Pantaguelista e Brasil Nikkei Bungaku; poemas nas Antologias de Poesia Brasileira Contemporânea ‘Além da Terra Além do Céu’, ‘Do Mostro à Palavra’ da Chiado Editora e na Antologia do Prêmio Cataratas de Contos e Poesias.

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Autor: Rafaella Rímoli Título: Oceano Preciso Embutem-nos esses olhos para nos fazer chorar. O que nenhum cientista sabe é que atrás da pupila tem um oceano. A íris é um recipiente preciso, não expande nem diminui, o oceano é que às vezes se excita. Nenhum recipiente aguenta, transbordam águas salgadas. Embutem-nos estes recipientes pequenos para não acumular muito mar. Pois dizem que onda é preciso. Embutem-nos este oceano imenso para ensinar outras medidas. Para aprendermos a nadar com os olhos. Para aprendermos a mergulhar só de ver.

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Raquel Leme, mas escrevo com o pseudônimo de Raquelita Turrileme. Tenha 34 anos e pro ma cidade de Araraquara, interior de São Paulo. Uma cidade pequena porém cheia de lendas das quais eu me inspiro bastante. Gosto de escrever sobre meus sentimentos e meus poetas favoritas são fa fase ultra romântica e simbolista brasileira. Não escrevo profissionalmente nem tenho meus poemas publicados ainda. Deixo acontecer para mim o importante é escrever!

Vênus Vênus vestiu sua veste brilhante Azul transparente e foi passear Pela beira do mar cintilante Estrelas cadentes mostravam o caminho, e homens valentes montavam cavalos marinhos. Vozes vorazes e convites quentes cruzavam à sua frente Deusa da inteligência, ela prefere caminhar sozinha Vênus vem em saliências a surgirem soltas pela transparência Èbria e maravilhosa, a maviosa moça das marés da Grécia . Raquelita

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Renata Brito (Renata Brito de Oliveira): Baiana, 25 anos, estudante de Engenharia Civil na Universidade Federal da Bahia; porém, uma amante assumida das palavras e produção textual nos seus mais diversos gêneros e tipologias. A quarentena tem servido para sua participação em concursos literários. Desta forma, o período de pandemia favoreceu como revelador de novos horizontes e possibilidades. Endereço de e-mail: Rbritoengenharia@outlook.com Endereço Facebook: facebook.com/renatinhabrito

Mergulhar no amar Renata Brito Maravilhoso mar, Martírio nas ondas, Ora, andas, ainda, com a frequência Senoidal e curvas perfeitas Prontas para mergulhar? Ao querer visualizar o escondido, O submarino migra às profundezas E mesmo assim não descobre todos Os segredos de quem está amando. Os desejos virão pela maresia, Mas, será que nesse forte verão, o sol reflete sorte? Ele bate no meu corpo quase despido, Mas, na verdade, estou só E tal sentimento requer Reciprocidade. O amor suplica, pleiteia sintonia: Como a água salgada na areia E o sol que invade o mar E o mar que bate na pedra 162


E a pedra que bate no vidro E estilhaça meu frágil coração. Que decepção! Pobre órgão tão debilitado. Coração: sem coragem, sem ação; Apenas nas batidas involuntárias e sincrônicas, Que caiu na tentação de querer mergulhar No amar. Novamente, exclama: Que dia , será, que a maré estará mais calma? Para haver um encontro de almas ? Pois não sei nadar, E se for para me afogar Quero morrer de amor e matar a solidão.

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Rodrigo Pedrosa Lyra é brasileiro, são-paulino e acadêmico, não necessariamente nessa ordem. Em 2019, teve um conto de sua autoria selecionado, em concurso, para a edição de 2019 da revista literária da Universidade de São Paulo (USP) “Originais Reprovados”, com o título “Sobre o insustentável tempo”. Desde 2018, mantém um blog, onde escreve micro-contos. Blog: https://tecontoumacoisa.wordpress.com/ E-mail: rodrigo.lyra@usp.br

Título: La Cucaracha Autor: Rodrigo Pedrosa Lyra Fazia uma noite calma e chuvosa em Búzios. Eram as águas de março fechando o verão e havia promessa de vida no coração de Rosalia. Rosalia não escutava Tom Jobim, mas era fã da banda Red Hot Chili Peppers, por isso todos a chamavam de Flea, nome do baixista. Flea havia chegado pela primeira vez a Búzios na noite anterior, após mais de vinte horas de ônibus desde Caracas. Chegou sem prazo para voltar a Venezuela e nem para sair do Brasil. A vida iria dizer. Veio para ficar em uma casa, perto de Manguinhos, onde moravam cinco argentinos, entre eles, Daniel. Naquela noite, Flea queria tomar um ar e conhecer a famosa Rua das Pedras, principal destino noturno da cidade que escolheu para viver. Infelizmente, não foi um passeio feliz. Muitos argentinos vêm morar em Búzios. Não se sabe ao certo como essa imigração começou, mas o perfil se mantém ao longo dos anos: jovens entre vinte e trinta anos que vêm para trabalhar em restaurantes, bares e boates, por tempo indeterminado. Naquela noite, Daniel convidou todos os argentinos da casa para sair e mostrar a cidade para a venezuelana. Atravessaram a Ribeiro Dantas e pegaram uma van em direção ao centro. Não demorou muito para chegar a primeira. Dentro do veículo, estava outro grupo de argentinos conversando. Em um momento da conversa, alguém comentou que um deles era brasileiro. Flea virou para trás. Era um garoto da sua idade, que parecia entender bem o castelhano, apesar de não falar muito. Em alguns minutos, os dois grupos de argentinos se tornaram um. Flea havia achado o brasileiro interessante e, quando teve oportunidade, ao descerem próximo à Rua das Pedras, aproximou-se dele e caminharam juntos pela Orla Bardot. A conversa rendeu e o interesse foi mútuo. O brasileiro achava interessante aquela venezuelana aventureira, misteriosa. Perguntou a ela o que pretendia 164


fazer aqui e quais eram seus planos, ao que ela apenas respondeu cantarolando uma música do Calle 13: “No tengo todo calculado, ni mi vida resuelta, sólo tengo una sonrisa y espero una de vuelta”. E sorriu sem receber um sorriso de volta do brasileiro, talvez por culpa da música eletrônica das boates, que atrapalhavam a conversa, talvez. A orla estava lotada de turistas e havia pouco espaço para caminhar. Daniel, que agia como um anjo cupido, estava se esforçando para deixá-los a sos conversando e cuidava para que o resto do grupo se mantivesse a uma certa distância dos dois. De repente, Flea virou-se para trás rindo muito, procurando por Daniel, de certo para comentar algo que o brasileiro havia dito a ela. Como seu movimento foi repentino e o calçadão estava cheio, acabou esbarrando em uma criança, que seguia seus passos e que caiu em seguida. A criança, agora sentada no chão, se assustou menos com a queda do que com sua mãe, que, como uma leoa na caça, correu na direção de Flea rugindo: “Tinha que ser uma cucaracha! Povinho. Búzios está infestada…” Dito isso, deu as costas e saiu. Flea se sentiu sem chão e subitamente sóbria, apesar da bebedeira. Perdeu o sorriso no rosto e a vontade de continuar a caminhada. Ou de continuar no Brasil. No final daquela noite, Flea recusou o convite de voltar com o brasileiro para sua casa. Despediram-se. O brasileiro insistiu, sabia que havia interesse dela, só não entendia o motivo da rejeição. Para ele, o incidente não era para causar tanta reação, era apenas uma mãe nervosa. Naquela época, ele ainda não sabia que quem não é alvo de preconceitos não tem o direito de fazer pouco caso. Flea não respondeu e continuou caminhando. Decidiu ir pela praia. A chuva havia dado uma trégua e o céu estava estrelado. Flea andou em silêncio, pensando no Brasil de sua imaginação e no Brasil de seu presente. Não tinha sentido. E não tinha mais casa para voltar na Venezuela. Estava sozinha. Naquela altura da noite, quando o brasileiro percebeu que Flea havia ido embora definitivamente pela praia, desaparecendo sozinha pela escuridão, não sabia se deveria também ir ou se ficava com o grupo de argentinos. Pensou em ir atrás dela, mas lembrou de uma letra da Rita Lee, que dizia: “não adianta chamar, quando alguém está perdido, procurando se encontrar”. Não sabia o motivo de lembrar de Rita Lee naquele contexto. Talvez por admirar muito a cantora e estar gostando muito daquela estranha venezuelana. De todo modo, estava preso em um dilema: já era tarde demais para fazer outro programa de sábado à noite, mas muito cedo para ir para casa. Foi quando Daniel apareceu ao meu lado. Comentou que não ainda não conhecia tanto Flea, mas que iria lhe contar o que sabia. 165


Disse que Flea havia saído de Caracas para reconstruir sua vida. O Brasil era o primeiro país que conhecia e estava encantada. Aqui, poderia ser feliz em um lugar acolhedor. Na Venezuela, seus pais eram altos funcionários da petrolífera venezuelana PDVSA, até que os recentes acontecimentos políticos no país os fizeram perder tudo. Ambos foram presos, acusados de conspirar contra o governo. Os bens foram confiscados e estavam sob poder do Estado. Flea não viu outra alternativa a não ser pegar poucas coisas e sair do país. No natal de 2015, sua mãe, talvez prevendo o futuro, disse-lhe: “Quando não tiver ninguém por perto, não se desespere, siga seu coração”. Meses depois, sua mãe foi presa de surpresa, no meio da madrugada. Nunca foi julgada. No dia seguinte de manhã, Flea juntou suas coisas e saiu em direção ao Brasil. Havia escutado falar bem da Búzios. Nessa parte da história, Daniel fez uma pausa, alcançou uma concha na areia e a jogou ao mar. “Não foi uma fuga de Flea” disse ele, após certa reflexão. Pelo contrário. Daniel achava que era seu caminho de libertação, de autoconhecimento e de liberdade de se tornar a mulher que foi criada para ser: autônoma, forte e com personalidade. Ao final daquela sua primeira noite no Brasil, já com os olhos cheios de lágrimas, que desciam vagarosamente pelo seu rosto, enquanto a maré aos poucos descia na praia, Flea repetiu em voz alta, saindo da areia da praia em direção à rua, “quando não tiver ninguém por perto, não se desespere, siga seu coração”. Quando iria imaginar que um país conhecido por ser acolhedor seria xenófobo com ela logo em sua primeira noite? Seria tudo mentira o que havia escutado sobre o Brasil? Lembrou-se da época da escola, quando foi muito rebelde, insubordinada, talvez reflexo de ser filha única, uma rebelde sem causa. Independentemente da motivação de suas suspensões no colégio, sua mãe sempre a defendia: “Meninas se defendem, meninas não choram”. Quando, na adolescência, riam de Flea, por gostar de rock e se vestir de punk, sua mãe dizia: “Eles se incomodam porque você é diferente. Ignore-os e siga adiante”. E Flea não chorou, apenas por ser diferente. Flea seguiu adiante. Alguns dias foram melhores do que outros. Após dois anos do ocorrido, Daniel contoume que Flea tornou-se a mulher forte que sua mãe sempre quis que fosse. Ela comentou a Daniel, certa vez, que o Brasil é um país de ódio seletivo, de preconceito concentrado. Europeus e americanos são bem-vindos, integramse facilmente em festas, no trabalho, rapidamente são chamados para confraternizações dentro das casas de seus colegas – e agora amigos – brasileiros. Tudo o que não costuma ser recíproco ou pelo menos tão automático para brasileiros, quando moram no exterior. Agora, sendo o 166


estrangeiro latino ou negro, venezuelano ou haitiano, boliviano ou nigeriano, a recepção não é tão carnavalesca. Flea não sabia, mas seria mais fácil encontrar empatia na Califórnia de Red Hot Chilli Peppers do que no Rio de Tom Jobim. Em outros países, ao menos, admite-se o problema. Naquele verão, Flea não tinha tudo calculado, muito menos sua vida estava resolvida. Ela tinha apenas um sorriso e esperava outro de volta. Naquele verão, de certa forma, tudo mudou.

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Roque Aloisio Weschenfelder, natural de Santo Cristo – RS, 71 anos, formado em Letras, professor aposentado, multipremiado em concursos literários, integra duas centenas de antologias, é autor de 16 livros publicados, trabalha atualmente com revisão de livros e textos acadêmicos, sendo diretor da Editora Escrita Criativa para prestação de serviços a autores. Reside em Santa Rosa – RS desde 1978. www.facebook.com/roquealoisio.weschenfelder roquealoisio@yahoo.com.br

QUEIMAR DE AMOR - microconto Deitaram na areia da praia e suspiraram infindas frases de amor, até que veio uma que os encobriu e jogou várias águas-vivas, causando-lhes queimaduras diversas. Mesmo assim, antes de voltar, beijaram-se e juraram amor que queimaria para sempre em seus corações. Era o verão dos sonhos deles.

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Rosa Acassia Luizari nasceu em São Paulo. É membro da Academia de Artes, Ciências e Letras do Brasil (ACILBRAS) ocupando a cadeira 525 e tem como patrono o maestro Armando Caraaüra. É colaboradora de diversas revistas literárias brasileiras e internacionais. Membro atuante de grupos de estudos em literatura brasileira contemporânea. Faz parte do movimento Mulherio das Letras de São Paulo, do Brasil e de Portugal e da Europa. Participa de eventos organizados pela Casa das Rosas (SP) e cursos em literatura promovidos por diversos centros literários brasileiros. https://www.facebook.com/rosaacassia.luizari/ Verão no Mediterrâneo O mar trouxe-me o amor, o amor ensinou-me a amar aquela a quem venero e sonho reencontrar. Naquele verão de outrora encontrei-a vestida em túnica o amor invadiu-me o peito em sensação real e única. De beleza esplendorosa, deveras envolvente; o amor invadiu-me a alma e o corpo severamente. A alma, indivisível; o corpo, dulcificado; encontrei-a serena e doce em solo famigerado. No verão exaltado do denso Mediterrâneo ganhei afinado abraço de um sorriso espontâneo.

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O sorriso foi levado pelas ĂĄguas de prontidĂŁo; ao mar entreguei a alma, imersa em solidĂŁo.

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Rose Rabelo é formada em letras Português/ Inglês pela universidade Federal de Santa Catarina, foi professora por 7 anos no Curso de Idiomas Yázigi, Florianópolis e Coordenadora Pedagógica do curso de inglês na Escola de Idiomas Babel Idiomas em Florianópolis. Foi Professora de Português e Literatura do Centro Brasileiro de Educação Técnica e Profissional em Florianópolis. Atualmente trabalha na área de Educação Permanente da Prefeitura Municipal de São José. Amante da Literatura Brasileira e estudante contínua, mantém projeto em rede social sobre o escritor Machado de Assis: @machadoodeassis. E-mail: roserabelo07@gmail.com O verão e suas lembranças Caminhava sozinha pela avenida das rendeiras, Florianópolis o ano era 2014, o mês janeiro. A lagoa estava calma naquele dia, não ventava e fazia calor, porém sem derretimentos. Encontrei com uma amiga, Janaína, nome bem acertado para quem ama o mar. Janaína é moça de espírito alegre, efervescente, daquelas amigas que te carregam para festas, mesmo sendo você caseiro, se você leitor tímido não tem uma amiga Janaína, encontre uma e saia logo dessa sua vida de pasmaceira! Enfim, fomos juntas conversando, contado piadas até um bar no centrinho da Lagoa. Pedimos algumas cervejas, eis, que em meio a nossa conversa dois jovens surgiram. — Afonso. — Ele se apresentou. Nome de avô, o leitor deve estar a pensar. É, eu também pensei. Mas era moço, ia pelos seus 34 anos calculei eu, mas posso bem ter calculado mal, já que não sou boa de contas. Afonso era o nome dele, tinha olhos inquietos e curiosos, corpo harmônico, falante, muito falante. Não conhecia Kafka e provável que também não se importasse muito com a grandiosidade de Machado, mas tinha bom humor e na vida é necessário quem o tenha! Fomos passear na orla da Conceicão, eu, Afonso, Jana e o amigo de Afonso, que me esqueceu o nome. Ele deslumbrado com a beleza do cenário apontava e guardava imagens em sua máquina fotográfica. Eu, perante aquela infusão de emoções do moço em relação a paisagem, deixei me levar por um segundo de devaneio: Como minha rotina fez-me cegar perante tanta beleza? Não conheces a Lagoa da Conceição, leitor obtuso? Procure no Google antes de continuar a leitura e entenderás do que falo!

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Enfim, das conversas com Afonso passamos aos abraços, e olhares, beijos, suores, sorrisos, pequenas confidências … uma promessa de visita ao Rio, um até logo para um futuro reencontro. Há, os amores de verão! Faz da vida tão mais colorida, dos dias de tédio leves brisas. No mundo, se houvesse mais rompantes de veraneio, mais leve seria o viver, o cotidiano mais bonito e muito mais vistosa seria a pele das moças. Há, a paixão! Duas semanas depois, foi-se Afonso para o Rio de Janeiro, ficou em Florianópolis uma paixão suspirante. Foi-se Afonso para fora do país. A paixão transformou-se em tristeza, a tristeza em lamento, o lamento em lembranças, as lembranças em sorrisos de tempos em tempos. Rose Rabelo

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Sandra Liss é Escritora e Poeta, criadora do seu Blog "Poexistências", onde publica seus textos, vídeos-poemas e resenhas. Também é pesquisadora no doutorado em Literatura e Cultura da UFBA e Professora de Literatura da Rede Estadual de Ensino da Bahia. Faz parte do conselho editorial de revistas universitárias e possui autoria em prefácio, orelha de livro e artigos acadêmicos.

Borboletando-se Me senti o mar Quando distraída Habitei seus olhos Vesti o sol Quando sem cuidado Seu sorriso quente Tocou o meu Virei um poema Quando você me tocou Sem mãos, sem corpo E abraçou o meu dentro Musiquei o amor Quando seu tom Criou harmonia Bailou meu sorriso Me fez flutuar Fui mar e sol Fui poema e amor Mas, o limite de mim Foi quando senti Que deixei de ser eu E virei só você

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Sandra Liss

Sara de Lima é estudante de letras-português, potiguar e apaixonada por poesia. Redes sociais da autora: @sarareb_ (Instagram)

D(entro) de ti Às 2 da manhã, entro pelo os Teus olhos Invadindo teu corpo, Como o calor no verão: tomando tudo. Percorrendo teu peito Descubro ossos e ósculos De incontáveis nomes. Esqueço tudo. Seguindo... Encontro teu ventre de mar Que afunda e sobe Que nem onda. Me afogo toda. Ainda caminhando... Você é infinito E eu termino Sem fim nos teus olhos.

Sara de Lima

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Quem escreve? Sarah John é mulher, antirracista, mãe, professora, poeta do Coletivo Nós, as Poetas. Seus escritos têm compromisso com respeito aos povos originários, práticas antirracistas, amor à liberdade e fé no coletivo.

Contato: meninajohn@gmail.com Ao mar Tudo nela respirava cansaço. Seus olhos vermelhos. Sua postura encurvada. O cabelo preso em um coque bagunçado, feito sem se olhar no espelho. Estava sentada em uma canga velha, com o desenho de fitas coloridas do Senhor do Bonfim, lembrança de uma boa viagem. As pernas aproximadas do corpo, a cabeça repousada sobre os braços. O mar. Quando foi que havia escutado que o mar cura as dores da alma? Não conseguia se lembrar. Quando criança, poucas eram as vezes que o pai a levava na praia. Normalmente eram apenas os dois e a avó, já idosa, e a pequena casa no subúrbio do Rio. Agora, que já havia enterrado seus poucos familiares, ela havia alugado um pequeno apartamento que levava uma parte considerável de seu salário para vir morar perto do mar. Desse mar que cura as dores da alma. Por mais que ela não lembre de onde tivesse tirado esta certeza. Porque era uma certeza. Respirou fundo.

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O cheiro salgado do mar entrou por suas narinas. Aos poucos, num tão pouco nada perceptível, a dor de estar longe de quem se quer perto foi deixando espaço para o vazio. Um vazio preenchido pelo cheiro do mar. Obrigou-se a levantar o rosto. O sol quente na pele preta que cobria sua face a fez lembrar das mãos de Gaia sobre suas bochechas, num gesto sempre tão carinhoso e, ao mesmo tempo, tão instigante. Levantou-se da canga. Esticou o corpo, magro como uma gata de rua, com gestos lentos mas precisos, como da felina com que dividia o apartamento. Caminhou. Parou na areia úmida. Areia recém-banhada. A água veio beijar-lhe os pés cansados. Pediu licença à Rainha do Mar. Entrou na água. Mergulhou. Mergulhou em si mesma. Permitiu que o balanço das águas movimentasse o que havia dentro de si. Que retirasse o que era preciso retirar: Gaia. Que retirasse de seu coração, de sua mente, de sua pele, o toque daquela mulher que era a dona de seu ser. Veio uma levada de água quente, inesperadamente quente. Deixou o calor envolver suas longas pernas, mas quando ia pensar sobre o calor agradável, ele se foi. Dissipou. Deslizou para sair do mar, deixando-se levar pelo movimento das ondas que vão de encontro à areia: sabedoria. Voltou à sua canga colorida com as fitas do Senhor de Bonfim. Ainda de costas, voltou o rosto ao mar mais uma vez. Pôde enfim despedir-se de Gaia, que havia ficado nas águas salgadas que lavara sua alma. Apenas o cansaço não podia ser deixado para trás. Este insistia em se manter sobre os ombros dela, contrariando a altivez que até então era sua companheira cotidiana, antes de seu coração ser partido em mil pedaços.

Sarah John

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Sayonara, tenho 40 anos, sou natural do RJ e resido em Campinas-SP. Sou casada e escrevo poesias desde os 13 anos. Sou formada em Comunicação Social pela faculdade IPEP e atualmente estudo Serviço Social. Participei da coletânea de autores Contemporânea: Antologia de contos & poemas, escrevi livros em formato e-book, sendo que um deles se chama “Para quem gostar de poesias” pelo clube de autores e o outro se intitula: “Véus, máscaras e algumas verdades”, disponível na plataforma Amazon. Participo de lives e saraus de poesia presencialmente e em redes sociais. Escrevo poesias, pensamentos, contos e reflexões com temas variados. Poetisa Sayonara Sales Blog: https://sayonarapoetisa.comunidades.net/ Facebook: https://www.facebook.com/sayonara.sales.96/ E-mail: ssales43@gmail.com

Voltar a Navegar Caminhando lentamente pela praia, se permitiu respirar longamente. Despreocupada e serena, vislumbrou o mar e deixou o passado ser levado. Se permitiu, a cada passo, abandonar Os pensamentos que pesavam na alma, Os sentimentos que apertavam o peito, As cobranças que a circundava. Era verão em seu coração, Era verão em seu renascimento, Era emoção poder se libertar, Era o passado que ficava pra lá. O amor, que nunca a abnegou, Novamente... voltou a ser ouvido, Novamente... voltou a ser sentido, Novamente e finalmente foi priorizado. Um coração pesado dificulta o despertar, 177


Mas a vida sempre encontra um jeito de sincronizar.

Naquele verĂŁo, diante do grandioso mar por testemunha Aceitou que novamente o amor viesse, tal qual uma doce brisa, Curando as feridas, para mais uma vez, voltar a navegar. Poetisa Sayonara Sales

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Sirineu Bezerra De Oliveira um jovem Sobralense Agricultor, estudante de Filosofia que se aventura no mundo da literatura, em busca de construir uma carreira solida no âmbito literário, com uma escrita diversificada que da vida aos sentimentos e os problemas do cotidiano.

Sereia A plenitude do seu sorriso Realça seu olhar! Encanta corações Como a Sereia em alto mar. Seria uma dadiva? Ou um castigo te amar! ]

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Sonia Regina Rocha Rodrigues é escritora e médica especializada em Pediatria e Medicina do Trabalho, idealizou o jornal "Um Dedo de Prosa" e foi co-editora da revista literária "Chapéu-de-Sol", que circulou em Santos/SP de 1996 a 2001, com as escritoras Madô Martins, Neiva Pavesi e Mahelen Madureira. É autora dos livros de contos "Dias de Verão", (1998), É suave a noite (2014), Coisas de médicos, poetas, doidos e afins (2014) e um de programação neurolinguística "O Que Você Diz a Seu Filho? – (1999) Em 1996, participou da fase regional do Mapa Cultural Paulista com o conto "A Auditoria", representando a cidade de Bebedouro. Sua monografia "A Importância da Cultura Para a Formação do Cidadão" foi utilizada pelo prova do Enem em 2011. http://soniareginarocharodrigues.blogspot.com.br/ https://www.facebook.com/soniareginarocharodrigues/?ref=bookmarks

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O meu nome completo é Susana Mendes Vou ser sumária o mais possível na minha pequena biografia. A minha incursão pela poesia é recente motivada por situações adversas que me levaram a uma introspeção imposta e a um vasto conhecimento interior redescobrindo-me como indivíduo pensante. A situação de desemprego alicerçada a motivos de saúde revelaram-se molas propulsoras para me dedicar mais à intelectualidade e ao estudo já que tenho frequência universitária do curso de engenharia geográfica na Faculdade de Ciências de Lisboa. Como universo interior e como personalidade possuo uma certa tendência para à introspeção e capacidade observativa, sempre fui uma pessoa muito julgada e criticada por outros ou por não me valorizarem como pessoa ou por não aceitarem a minha personalidade um pouco reservada e seletiva em termos de amizades. Não possuo qualquer grau académico ou literário no âmbito da poesia mas tenho interesse pela área dedicando principalmente a estudar e ler as obras de Florbela Espanca e António Aleixo num contexto mais popular. Todos os conhecimentos que possuo no âmbito da informática, leitura, conhecimentos de cultura geral são decorrentes de estudo autodidata, nunca ninguém me ofereceu nenhuma oportunidade facilmente, tudo o que consegui foi à custa de muita luta e persistência e desejo de superar-me a mim própria. No contexto familiar sempre fui uma pessoa com pouca autonomia e independência como individuo sendo tratada como eterna criança embora já possua cinquenta anos. A situação financeira catapultou-me para uma situação de dependência dependendo dos meus pais para sobreviver. Possuo uma irmã que tem uma relação negligente comigo desprezando-me como pessoa e até tendo uma certa vergonha da minha situação imiscuindome da sua convivência e dos seus amigos. A poesia surge como uma catarse para exorcizar os meus fantasmas pessoais e humilhações e afrontas que tenho sofrido. Tive alguns empregos que foram esporádicos que me trouxeram mais dissabores do que enriquecimento profissional, embora me dedicasse a cem por cento nunca fui reconhecida pois não me davam oportunidades de crescimento. Tenho gosto pelo exercício físico dedicando à prática deste com regularidade. 181


BRISA DE PALAVRAS

A minha súplica é Uma escolha lúcida Devaneio meu Desta veia translúcida. Apesar de tudo Obrigada por tudo Quando tudo é nada E nada é tudo. A inconsistência do horizonte Assemelha-se à infidelidade Como queres tu Oh! Criatura Ter alguma credibilidade. A vida é para ser Plena em virtude Para que possamos viver Em constante plenitude. A germinação do ego É algo simbólico Que sem sua paz Emerge melancólico. A sensatez não é Ausência de compaixão Mas sim algo benfazejo Em alguém de coração.

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De Ceilândia-DF pro mundo, Társis Farias; poeta e ARTivista insurgente. Cientista Social sem diploma pela UFG-GO, cantora e viajante de mundos. email: tarsis.t@gmail.com facebook.com/tarsis.farias @sisratmariadosventos Além Azul podia ser tarde de sábado ou manhã de domingo podia ser de segunda à sexta dia de trabalho ou feriado final de janeiro ou início de fevereiro você sempre estaria lá a::::mar do alto das falésias a vista da nossa casinha pequenina na ponta da cama, nossos pés embolados apontavam pela janela o prumo do barco paraíso; era nosso lote vazio, com um pé de limão e a promessa da construção do começo de nossas vidas felicidade em parcelas por 35 metros quadrados cafézinho muído, bolo de banana feito na chama do fogão, feijoada na panela de barro, almoço de beijinhos regados a profundos abraços de carinho dorival chorando sua eterna saudade em vinil, e nós, saboreando da nossa eterna chegada, festejando a assertiva escolha de se viver a vida, juntos, transbordávamos amor que horta e jardim floriam, sorríamos, nosso quintal sendo mar para as crianças poderem brincar nossos pés num movimento solo e absurdamente sincronizados os pequenos e profundos recortes em vídeos, inspirados de nossa vida feliz, viraria filme, meu primeiro roteiro de sucesso Pipa, seria nosso grande festival, meu Grande Amor Azul vista pro chapadão, litoral, meu sonho tropical vento sul, vento norte, tudo era sorte com todo céu e imensidão por cima de nossas cabeças 183


éramos realismo imaginado, animado e fabricado

“cada um com seu cinema”, até onde o sonho alcançar vento norte, vento sul quando ele vem, tudo fica azul quando ele vem, tudo vira mar quando ele vai, fico beira mar, até curar, eu fico beira mar até vir a amar.

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Tchello d'Barros publicou 7 livros e seusi contos e poemas já foram publicados em mais de 70 coletâneas, antologias e didáticos. Ministra oficinas literárias e coordena o projeto multimídia de Poesia Visual “Convergências”. :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

dá pra ver no fim da rua o mar o céu e até a lua que nos vê do fim da rua

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vi u o céu o mar até a flor via mas viu que tem quem em seu breu não vê nem a luz do dia

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Thais Andressa é jornalista e fotógrafa.

Em uma tarde de verão conheci o mar Meus olhos se perderam ao encontro das ondas Enquanto o vento bagunçava meus cabelos E a serenidade acolhia meu corpo A vida efêmera O mar imenso Dias azuis a colorir minhas lembranças.

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Na vida conhecida como Thais, nas redes sociais Thais Sousa. Viajante da vida em desenvolvimento. Devoradora de livros. Escrever, uma paixão. Apreciadora de um bom vinho. No Instagram, TSS é a autora dos escritos. Por lá alguns escritos e declamações para aliviar o coração. @thasssou

Verão: O mar e o amor Amores como brisa Avistei o horizonte De tão belo e sereno Aprofundei-me em águas claras Avistei o horizonte Me banhei de Sol Em pura radiação Deitei-me sobre os minúsculos grãos de areia Ouvi o céu cantarolar Uma música tão calma quanto o mar Do mar para o céu Percebi olhares intensos Do céu para o mar Admirei a linha tênue entre mar e céu O diálogo parecia tão amoroso O beijo dos céus nas límpidas águas do mar Aquela brisa passava pela pele E na mais pura entrega de corpos 188


O amor em pleno verão

Foi o casamento perfeito Dias quentes Mar calmo A brisa do amor se espalhou Através do vento Nesse clima de amor Me beijou O coração logo se acalmou A areia percebeu, E se fez jardim de veraneio Em festa, as estrelas no céu brilharam Adormeceram as estrelas do mar. Thais Sousa

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Thasyel Fall, 31 anos, é carioca, com formação em Cinema, aspirante a escritora, e roteirista.

Lamento Sobre Um Flerte Perdido Em Águas Quentes Thasyel Fall A viagem de carro levara apenas algumas horas, mas para ela parecia uma eternidade, odiava sair, odiava ver o mar, odiava a claridade. Tudo era tão quente e brilhante, que a fazia se coçar. Por que não podia ficar em casa, contemplando seus pensamentos, feitiços e lendo seus livros? Seu pai e irmãos ansiavam por interações, por vida, por ir ao rio ou a praia em dias de sol, suas partes boto sempre os dominando, a envergonhavam a morte, aberrações! A água brilhava, e o vento era quente, aconchegante, Facéia e Gáudio se jogaram nas águas transparentes, seus corpos ficando rosados e com barbatanas, ela só queria morrer. Vendo sua expressão, a mãe que era mais como ela, a chamou de repente __ Me ajude com as coisas, Tristura… enquanto o pai cuidava dos demais. Qualquer coisa lhe parecia mais atraente. Passara todo o dia na pequena casa à beira mar, ajudou com o almoço, fez um pequeno feitiço para escurecer o lugar, para espantar seu azar, mas a noite não conseguia descansar. Colocou seu biquíni negro, e saiu para caminhar pela areia, talvez a lua a ajudasse a relaxar. Conjurou um 190


cachimbo, e rezou ao Trovão que a mãe já tivesse dormido, como seus irmãos que roncavam feito trovoadas. Estava tragando quando sentiu a energia ondular, e a jovem de cabelos negros despontou das águas. Cauda lustrosa e brilhante, com pequenas manchas douradas. O sorriso da jovem mestiça de cuca com boto cresceu, e ela tornou a fumar, caminhando em direção as águas, agora escuras, que costumava odiar. Onda, onda, outra onda, onde… ela está? O sorriso afundou nas águas. Havia sumido. __ Você não deseja uma cauda, deseja? A voz a fez paralisar, mas o sorriso emergiu, enquanto a índia com sardas douradas, e desnuda, saia do mar, e caminhava até ela. __ Isso é algum tipo de piada porque eu sou ruiva? Tristura perguntou. E a índia riu, revelando dentes afiados e brilhantes. __ O que mais uma humana pediria a um demônio das águas? __ Para lhe afogar? Onda, onda, onda… elas dançavam as costas dela sob o luar. __ E o que lhe faz pensar que eu sou humana, para começar? __ Eu posso te afundar se é o que deseja. O cachimbo apagou, a brisa fria começava a lhe provocar. __ Bem que eu queria, mas tenho que voltar. Mãos na cintura, a índia se pôs a encarar. __ A lua ainda está alta, e eu posso fazer a noite perdurar. Que tal um mergulho? Ela não era ingênua, mas quem ela estava querendo enganar, ela queria arriscar. Vendo a dúvida, a jovem coçou os cabelos úmidos. __ Eu prometo não te afundar. __ Hum. Vento, vento, vento… porque seguia a empurrar? __ E eu devo aceitar a palavra de uma Iara? 191


__ Desde que não haja sangue, sim. A mão se estendeu, o convite, rodeado de escuridão e perigo. Ela aceitou. A dança levara horas, mas não havia sido o bastante, desejava a eternidade, odiava admitir, adorara o mar, e a quente sensação. Tudo era tão profundo, tão torturante, que a fazia flutuar. Sua mão rosa e escamosa nunca deixavam a dela, elas giravam, e mergulhavam, enquanto eram rodeadas por cações. Quando a manhã chegou, e eles foram para casa, ela lamentou, não se deixar naufragar.

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Thiago David é poeta e compositor. Lançou os livros “Um caminho para Santiago”, A Poesia da Notícia” e “A Ecologia da Cidade”. Lançou também os albuns “A realidade difusa do cotidiano”, “Um caminho para Santiago”, “ILHA”, “Acalentos de Quarentena” e “Ó o mar”.

Notícias do mar Soube da chuva e do frio e das voltas que dava no seu edredom. Soube da mão no bolso, do pijama grosso, da dificuldade de pisar no chão. Soube da falta da brisa, do sal na pele. Do longe que às vezes o olho pede e que só encontra no horizonte do mar. Soube de tudo, e assim que soube corri para onde termina a terra para te escrever de onde sei que queria estar. Te trago notícias de longe com palavras que parecem secas mas que te garanto que foram encharcadas uma por uma das primeiras às últimas letras. Te trago notícias das ondas notícias soltas cavalas marinhas profanas cardumes sincronizados cantando as saudades daquela Dona. Te trago notícias do mar são segredos o que as ondas me contam. Elas quebram e repetem sem parar: 193


-Por onde anda a pernambucana? E eu respondo para que se acalmem.

Dizendo com alguma certeza. Ela anda nadando nos sonhos, ela anda virando sereia. A flor pĂşrpura

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Thiago Henrique Fernandes Coelho Graduado em Teatro, mestre em Artes Cênicas, doutorando em Estudos Literários na Universidade Federal de Uberlândia. Participa desde 2016 do projeto de extensão Palhaços Visitadores. Em 2014 participou do Ateliê de dramaturgia com o dramaturgo Luís Carlos Leite. Conto Memórias:companheiras de viagem publicado na antologia Nemephile. Contos A Joaninha e os pulgões/ A raposa, o lobo e a menina na revista LiteraLivre. Facebook www.facebook.com/thiagohenriquefernandescoelho Email thiagofcoelho@hotmail.com Julieta sempre foi uma menina muito corajosa, filha única do pescador Hélio, morador da Ilha da Abelha Jataí. A maior parte da população da ilha vivia da pesca, e alguns da criação de cabras, como a tia Helena, uma velha senhora, que saía toda manhã pelas campinas da ilha, levando seu rebanho para pastar, só retornava ao entardecer. Julieta gostava muito da tia, das histórias contadas por ela, dos seus antepassados, os primeiros moradores da ilha, fundadores da Vila do Mel. Uma tarde, o pai de Julieta chegou carregado pelos outros pescadores, não estava nada bem. Foi colocado na cama, e dali não levantou. Julieta ficou preocupada com o estado do pai. Os pescadores que trouxeram seu pai, também ficaram doentes, e a doença foi se espalhando pela ilha. O mal só afetava os homens mais velhos. Tia Helena veio ver o irmão, logo reconheceu que aquela era a Doença do Mar, que sua vó lhe contava que abateu há décadas sobre a ilha. Muitos homens foram mortos, mas graças a uma flor púrpura encontrada na ilha da Neblina, foi capaz de curar esses homens, com seu chá. Julieta quis saber onde era localizada a tal ilha, mas a tia não sabia. Foi uma história contada por sua vó, há muito tempo. Ninguém nunca soube sobre essa ilha, só nas histórias. Vendo a saúde do pai piorar a cada dia, Julieta decide partir na jangada do pai, a procura do tal lugar. Tia Helena fica orgulhosa com a coragem da sobrinha, mas não acredita que ela irá conseguir, permanece cuidando de Hélio, enquanto Julieta busca a flor. A moça convida sua amiga Dora para lhe acompanhar, mas ela não aceita. Estêvão, o namorado de Dora ouve a conversa, e aceita ir com Julieta. Seu 195


irmão pequeno, Zeca, também quer ir, mas o rapaz acha perigoso. Só que não conseguem conversar o garoto, que acaba indo junto.

Os três se preparam para a viagem, e na manhã seguinte, partem da praia, na jangada do pai de Julieta. Estêvão pergunta a jovem como vão encontrar a ilha, ela lhe diz que a tia contou, que é a ilha da Neblina que acha quem a procura por uma causa justa. Navegaram o dia todo, e a tarde, o mar ficou revolto, foram atingidos por uma tempestade. Zeca ficou com muito medo, acabou caindo ao mar e desaparecendo. Estevão chorou a perda do irmão. Só que a noite, após a tempestade, foram surpreendidos por um navio. Eram piratas, comandados pelo Capitão João Barbudo, que capturou Julieta e Estêvão. Reencontraram Zeca, que já era prisioneiro dos piratas. O Capitão disse que agora eles seriam seus escravos. Estêvão e Zeca ficaram encarregados de limpar o navio, e Julieta de ajudar o velho Serafim a fazer a comida. Serafim era outro escravo dos piratas, que planejava fugir há algum tempo. O cozinheiro lhe contou seu plano. O velho conseguiu no último navio que assaltaram, um sonífero. Com a ajuda de Julieta, colocou o sonífero na comida servida aos piratas, que após o almoço, pegaram no sono. Julieta, Zeca, Estêvão e Serafim pegaram a jangada, e fugiram dali. Navegaram, navegaram e navegaram. Julieta contou da sua busca ao cozinheiro, que também procurava essa ilha, pois queria morar nela. Viver em paz seus últimos anos de vida. Veio mais uma noite, uma nova tempestade, que levou a jangada, e lançou todos ao mar. Julieta acordou com o canto de uma gaivota, levantou, olhou ao redor, percebeu que estava em uma ilha. Seria a ilha da Neblina? Procurou os amigos, encontrou Zeca e Estêvão logo a frente. Começaram a explorar a ilha, e viram que possuía um pico, coberto por neblina. Talvez poderia ser o ilha. Encontraram o cozinheiro, que colhia algumas frutas. Comeram com ele. Depois se embrenharam na ilha, procurando a flor púrpura. Se depararam com esqueletos, pelo caminho. Aquilo os deixou preocupados. Viram que muitas pessoas já vieram a ilha, mas não conseguiram sair vivos. Subiram a montanha da ilha, e finalmente, Zeca avistou uma flor púrpura, ao se aproximarem, encontraram muitas, perto de um lago. Quando Julieta colheu a primeira flor, um estrondo estremeceu a todos. Os cascalhos do lago foram se juntando e formando homens de pedras, que partiram em direção ao grupo. Tentaram fugir, mas foram capturados pelos homens de cascalho. De dentro do lago, surgiu uma sereia, brava com Julieta por ter pegado uma de suas flores. A moça lhe contou sobre a doença de seu pai e dos homens 196


da ilha da Abelha Jataí. Por isso, precisava da flor, para curá-los. A sereia, que se chamava Dafne, ficou feliz em encontrar uma moça tão corajosa, e permitiu que ela colhesse as flores púrpuras. Mas não podiam levar nada

mais da ilha, só as flores. Julieta colheu, agradeceu a sereia, e partiram em direção a praia. Dafne lhe deu uma concha, pois se na volta, precisassem de ajuda, era só tocá-la. O cozinheiro pediu a Dafne para ficar na ilha. A sereia pensou um pouco e autorizou, pois, ás vezes, se sentia sozinha. Na praia, ajeitaram a jangada, a colocaram no mar, e partiram para casa. Ao olharem para trás, a ilha da Neblina havia sumido, como se nunca estivesse existido. No retorno para casa, deram de cara com o navio pirata. O capitão João Barbudo estava furioso, a procura deles. Foram capturados, levados para o navio. O Capitão planejava jogá-los aos tubarões. Mas Julieta tocou a concha. Nada aconteceu. O Capitão e os piratas riram e debocharam da moça. Só que alguns minutos depois, um polvo enorme abraçou o navio. De dentro do oceano, surgiu Dafne, e outros seres marinhos. A sereia estava atrás do Capitão João Barbudo há algum tempo, pelas crueldades que andava fazendo nas águas. Os piratas foram devorados pelos tubarões de Dafne. Só que o Capitão João Barbudo, antes de ser lançado ao mar, conseguiu dar um tiro em Zeca, que foi atingido bem no peito, e morreu nos braços do irmão. Dafne se despediu de Julieta, e partiu. Antes ordenou que o Vento Leste, o famoso Lestinho, levasse o navio pirata em segurança até a ilha da Abelha Jataí. Todos que estavam na praia, se assustaram com aquele navio pirata se aproximando, mas ficaram surpresos ao ver que era Julieta que retornava com a flor púrpura. A moça partiu para casa, encontrou seu pai bem ruim. Tia Helena fez o chá, e deu de beber ao irmão. Hélio ao tomar o chá, foi voltando a cor e melhorou. Assim como todos os homens da Vila do Mel. A bravura de Julieta ficou marcada para sempre naquela comunidade.

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Trevo Ribeiro é compositor, poeta, músico, indigenista e antropólogo. Trabalha com poesia e com os povos indígenas do Estado do Acre. Instagram: @trevoribeiro

(A)mor-maço Mormaço no mar vivo de Mosqueiro O Sol parece que esconde atrás da nuvem Porque é mesmo que tu num vem? A espera tem o nome de um maço e um isqueiro Fumaça dispersa como pensamentos O sol se esconde atrás de si mesmo Uma agonia e um pulmão à esmo O instante da espera é um eterno momento Me libertei de mim para ver a contraluz Quem encara o sol, só conhece cegueira O mormaço é a oportunidade sorrateira Da sombra malfeita que teu corpo produz Apertei meus olhos junto com meu peito O sol se inclinava para te ver desfilar na areia O mar se agitou como hábil reconhecedor de sereia Você chegou junto com sol no momento perfeito Meu cigarro se apagou espontaneamente A fumaça se dissipou no vento fugaz O sol não quis saber de se esconder nunca mais Alegria de domingo é ver você na minha frente 198


Ulisses Andrade é gestor administrativo e financeiro, estudante de artes (2021), licenciando em letras – português/espanhol (2020), MBA em gestão empresarial (2019), pós-graduado em sociologia (2017), licenciado em Filosofia (2015) e escritor, nascido em 04/01/1970 em São Paulo, no bairro de Freguesia do Ó. Livros próprios Status Quo - Histórias da vida (2012) Sem Destino - Histórias de um cão (2015)

Frases sobre o mar – Ulisses Andrade 1. Quando o destino é o horizonte, o caminho só pode ser o mar... 2. O mar, na sua infinita grandeza, é feito de gotículas abraçadas 3. No mar cabem peixes, algas, pedras e muito mais, tudo que é destinado amar 4. O mar tem suas raízes fincadas na terra 5. Estrelas são estrelas, sejam elas da terra, do céu ou do mar... 6. Ser mar é ser infinito e pleno 7. O mar esconde segredos, desejos e poesias 8. O mar dos piratas é revolto, mas se torna calmo aos poetas... 9. Mar calmo é sinal de felicidade na alma 10.O mar tende a aumentar a cada lua que tocar... 11.Sereias são do mar como as nuvens são do ar 12.Ele deseja o mar, ela deseja a mar 13.O mar te vê nus 14.A mar é tudo, o mar é todo 15.Sem mar não há de se rimar 16.Oh, mar, vem ser meu par! 17.O mar tempera o corpo, dá leveza a alma e prazer a mente 18.Envolvo-me de mar, mesmo sem saber nadar 19.Se não vejo o mar, me falta o ar 20.O mar foi pescado pela minha rima 21.Nas águas fundas do mar deixo as lágrimas do meu olhar 22.O brilho dos olhos teus reluz o céu, pintado no mar 23.Mesmo quando não olho o mar, o mar me olha 24.Sou feito de areia, me desmancho com o mar 199


25.Tal qual lua cheia, banho de mar me incendeia 26.O mar está dentro de mim como eu posso estar dentro dele 27.As ondas do mar trazem alegrias e euforias, mas só levam tristeza 28.Se o mar pudesse cantar, seria uma imensa sereia, ou um mar delas 29.O mar entra na areia da mesma forma que no meu coração, acrescenta, mas nada leva 30.O mar, apesar da imensidão, não conhece solidão 31.Dia de azar é um dia sem mar 32.O mar desafia os fortes e acalanta os sensíveis 33.Não temas o mar, a menos que o queira afrontar 34.Fale-me sobre o seu mundo e ouça sobre meu mar 35.Junto ao mar estão a terra, o ar e as estrelas 36.Para terra, flor. Pra o céu, estrelas. Para o mar, amor. Para o universo, aquarela.

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VALÉRIA PISAURO, natural de Campinas-SP, professora de literatura e artes visuais. Poeta, contista, roteirista e letrista musical, possui vários trabalhos literários editados e poemas musicados, tendo a felicidade de compor e gravar com renomados compositores de todo o país. Os requintes de suas letras bem elaboradas são fruto de pesquisas, onde a variação de estilos traduz a força e a leveza de um trabalho inovador. Participa de certames culturais, de idôneas antologias poéticas e de reconhecidos festivais de música.

AMOR DE VERÃO AUTORA: VALÉRIA PISAURO Hoje o sol saiu à francesa Me deixou a ver navios, Arrepiou o horizonte E o mar inteiro Desaguou em mim. O sal de sua língua A maré descoloriu, Sede serena, Ondas do céu da boca, Saliva de anil. Mas o sol voltará E haverá o amanhã, Cilada molhada, Nas docas caladas, Amor de verão. Iluminará o pé de amora Que brotou de manhã. Lugar onde o amor Mora e namora, Velas içadas, 201


Aportadas em teu cais.

Valquécia Costa: Graduada em Serviço Social pela UFTM, Do lar, esposa, Mãe e poetisa. Militante no enfrentamento à violência contra as mulheres. Motivadora de um relacionamento saudável. Convicta no amor. AMAR É como mergulhar Na onda do A(MAR) Ou você sabe nadar Ou fica sem AM(AR) Amar é respirar AMAR É surfar na onda do A(MAR) Sinto como o aconchego no sofá O vento gostoso no AM(AR) Parece beijo de proteção na testa Gostoso e sem pressa Amar é respirar AMAR Se você for com o A(MAR) Será como sentir falta de AM(AR) Não vá Volte, fique na areia para eu te AMAR. Amar é respirar. AMAR Já sei você vai ter que viajar Vai embora com o A(MAR) Mas sei que vai voltar Ou também ficará sem AM(AR) E assim não dá... Porque o amor é respirar.

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Zélia Sales é cearense de Itapajé. Graduada em Letras (UECE) e especialista em Investigação Literária (UFC). Teve seus trabalhos publicados em várias coletâneas do Prêmio Ideal Clube de Literatura. Em 2016 recebeu o Prêmio Sesc de Contos – unidade Crato. Tem dois livros publicados no gênero conto: A cadeira de barbeiro (2015) e O desespero do sangue (2018). Em 2019 participou da antologia Relicário dentro do projeto Letras&Livros, organizado pelo jornal O Povo.

Naufrágio Alvoroço na praia a bola parou o jogo acabou o castelo de areia desmoronou. Um rapaz sunga vermelha de paixão não conhecia os segredos do mar os segredos do amor. Avançou o mar grande, poderoso abraçava o rapaz e sua dor. Mas os banhistas os surfistas os bombeiros o resgate E o desespero contido: “Pelo amor de Deus me deixem voltar pro mar!” Zélia Sales 203


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O verão , o amor, e o mar!  

O 2º número da revista Ecos da Palavra!! Parabéns a cada participante

O verão , o amor, e o mar!  

O 2º número da revista Ecos da Palavra!! Parabéns a cada participante

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