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VOZES ESQUECIDAS


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Leia também: Stephen E. Ambrose AZUL SEM FIM SOLDADOS CIDADÃOS BAND OF BROTHERS O DIA D

Hampton Sides SOLDADOS FANTASMAS

Barton, Grossmann & Nolan CRIMES DE GUERRA

Stephen Kinzer TODOS OS HOMENS DO XÁ

Michael B. Oren SEIS DIAS DE GUERRA

Rick Atkinson NA COMPANHIA DE SOLDADOS


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M a x

A r t h u r

VOZES ESQUECIDAS da PRIMEIRA Guerra MUNDIAL EM PARCERIA COM O MUSEU IMPERIAL DE GUERRA

Introdução de Sir Martin Gilbert Tradução Marco Antônio de Carvalho


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P r e f á c i o d o A u to r

Vozes esquecidas da Primeira Guerra Mundial foi inteiramente criado com base na notável coleção de entrevistas gravadas pelo Arquivo de Som do Museu Imperial de Guerra. É um arquivo de profundidade extraordinária, contendo centenas de depoimentos, gravados em fita, de homens e mulheres que participaram de guerras e campanhas militares ou que as testemunharam, conflitos esses que vão da Primeira Guerra Mundial aos entrechoques armados dos dias atuais. Os arquivos sobre a Primeira Guerra Mundial contêm centenas de entrevistas gravadas nos últimos quarenta anos. Aproveitei fartamente essas entrevistas ouvindo muitas horas de fitas e lendo incontáveis transcrições. Embora a Primeira Guerra Mundial tenha envolvido vários países, concentrei-me no front ocidental e na Campanha de Galípoli. Organizei, na medida do possível, os depoimentos em ordem cronológica. Como são relatos pessoais, e não histórias frias, a ordem na qual os coloquei pode parecer, por vezes, imperfeita. De qualquer forma, quando possível, confirmei os dados em busca da precisão histórica. A duração desses depoimentos varia. Alguns exigem muitas páginas, ao passo que outros apresentam apenas os trechos mais emocionantes. No que toca a alguns depoentes, usei vários relatos seus, nos quais descrevem os diferentes combates de que participaram. Para dar a todos os depoimentos um contexto histórico, incluí uma pequena história de cada ano a respeito da guerra. 9


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VOZES ESQUECIDAS DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Minha intenção foi tentar pintar, por meio das palavras de homens e mulheres, um quadro legítimo da vida na Primeira Guerra Mundial: a espera e a preparação de seus participantes, a guerra propriamente e suas consequências. Alguns desses relatos são brutalmente vigorosos e terríveis, ao passo que outros são mais calmos e ponderados. Em todo o livro, sempre que possível, procurei usar o posto ou a função exercida na época. Alguns podem figurar como soldado e mais tarde ter se tornado graduado ou oficial, enquanto outros podem ter mudado de serviço. Nem sempre foi possível identificar os regimentos de todos os soldados. Parece-me perfeitamente compreensível que a tentativa de rememorar experiências quarenta ou cinquenta anos após grandes acontecimentos resulte em lembranças cujos detalhes nem sempre são exatos, mas o que jamais se perde é o sentimento gerado pelas entrevistas com os que participaram deles, e tentei grafar no livro a intensidade e a natureza do depoimento. Foi um privilégio ouvir as vozes desses homens e dessas mulheres, muitos dos quais estão mortos há muito, e tentar dar vida outra vez às suas vigorosas lembranças. As palavras são deles. Meu papel foi o de simples compilador — não fui mais que um catalisador. Max Arthur Julho de 2002

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I n t rod u ç ã o

Lemos este livro com os olhos ardendo em lágrimas. Ele apresenta, como nenhum outro que o antecedeu, a realidade brutal da Primeira Guerra Mundial, sem disfarces, com seus dramas e crueldades, seus momentos de humor — alguns deles bastante negros, certamente —, suas rotinas monótonas e suas emoções. Max Arthur fez uma notável seleção de lembranças: testemunhos orais dos mais pertinentes e reveladores. Todas as recordações lançam luz sobre um aspecto diferente do conflito. Na maioria das vezes, uma luz que não havia sido acesa antes, algo que os mais diligentes historiadores não haviam notado ou que o mais ávido dos leitores do gênero jamais lera. O leitor se emocionará com vários trechos e sentirá vontade de ler muitos deles repetidas vezes. Por sua força e vivacidade, eis os que mais me comoveram: Um recruta que tem senso de retidão: “No Novo Testamento, nem João Batista nem Nosso Senhor reprovam a vida de soldado.” Um jovem de 16 anos que mente sobre a própria idade para poder se alistar. 11


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VOZES ESQUECIDAS DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Um estudante universitário convencido, em agosto de 1914, de que a guerra terminaria a tempo de permiti-lo cursar o semestre seguinte na universidade, em 7 de outubro. Em um restaurante francês: “Omeletes e café com rum por meio penny.” Trincheiras de sacos de areia; a montagem de uma metralhadora Lewis; a vida dentro de um tanque. Soldados de licença, em trajes civis, ridicularizados por mulheres com a pecha de covardes. Um soldado francês, em dias anteriores ao uso do uniforme cáqui, observando homens “mortos com extrema facilidade” porque suas calças eram vermelhas. Um soldado refletindo, em meio ao bombardeio, sobre a boa vida que ele e seu amigo estavam levando, “pois, se nada feriu Johnny, nada me ferirá também”. Um soldado desolado com a morte de sua mula pelo fogo de artilharia enviado de volta ao quartel para recuperar o espírito combativo. Rações de campanha, os momentos antes do ataque, a primeira arremetida contra as trincheiras inimigas, os efeitos do gás. Em Galípoli, comendo o rancho em cima do corpo de um turco muito pesado para ser retirado da trincheira. O soldado que morreu em uma vala de esgoto, pois os dois colegas que o haviam levado para lá estavam fracos demais para que o tirassem da fossa. 12


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INTRODUÇÃO

O soldado preso no fundo de uma cratera de bombardeio com um alemão morto: “Céus, vou ter de passar a noite aqui com você?!” Chuva, lama, “ratos tão grandes quanto gatos”, piolhos — “uma verdadeira ameaça” —, o fedor de corpos de cavalos mortos. A morte dos colegas ao lado, os horríveis aspectos da morte nas trincheiras. A abertura de túneis e a incrível explosão e impacto da detonação de minas: “Este foi o dia do Juízo Final.” O alívio de um ferimento “abençoado”. Mortos e feridos na terra de ninguém; soldados avançando e impossibilitados de parar e ajudar os feridos ou consolar os moribundos; a extrema-unção; a morte de amigos íntimos; tristeza. Cenas nos postos de recolhimento de feridos: a horrível realidade dos ferimentos graves; o solo muito bombardeado agora “envenenado”; a experiência de sofrer uma amputação. O trauma de fazer parte de uma execução por deserção. Armistício: o silêncio e a tristeza ao lado da comemoração. Os conhecidos campos de batalha — entre eles o elevado de Ypres, o Somme e o Passchendaele — estão aqui iluminados por aqueles que os viram, lutaram neles e conviveram com suas lembranças durante o restante de suas vidas —, lembranças retratadas, nestas páginas, com maestria e vivacidade extraordinárias. 13


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VOZES ESQUECIDAS DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

As vozes desta antologia são de homens e mulheres reais, de pessoas que se lembram sem restrição do período de suas vidas em que a morte era companheira inseparável e do qual o medo, o barulho e o perigo jamais se ausentavam, no qual o trabalho diário — que só durava entre o amanhecer e o meio-dia — era o termo comum da vida humana, ameaçada pela perspectiva da morte iminente. Esta antologia é uma evocação da Primeira Guerra Mundial feita pela visão dos que foram chamados para lutar pela pátria. É também uma homenagem aos milhares de outros soldados — conhecidos ou desconhecidos — que figuram nela, que não sobreviveram além daquele meio-dia e cujas histórias são contadas por outros, geralmente pelo amigo mais próximo, eternizadas neste livro por um mestre da crônica. Sir Martin Gilbert Dois de julho de 2002

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Vozes Esquecidas - Prefácio e Introdução