CASA DO CONTO Artur Rebelo de Sousa. R2. Design. Obra de arte versus artefacto de design: os limites da relação entre bidimensionalidade e tridimensionalidade.
Enquadramento. Situada em pleno centro do Porto, na Rua da Boavista, a Casa do Conto é uma Arts & Residence que ocupa uma antiga casa burguesa construída no século XIX. Em 2009 fomos contactados pelo atelier de arquitetura e engenharia Pedra Líquida com vista à realização de uma instalação efémera para a inauguração da Casa do Conto, projeto a cargo de duas sócias — a engenheira Alexandra Grande e a arquiteta Joana Couceiro, esta última simultaneamente proprietária da Pedra Líquida e responsável pela construção da obra. A aproximadamente 15 dias da inauguração um incêndio destruiu quase a totalidade do edifício, poupando apenas as paredes exteriores. Apesar do fatídico desfecho, as sócias do projeto mantinham o desejo de reconstruir o espaço. Em 2011 iniciou-se o peocesso de reconstrução, sendo que o novo projeto de arquitetura previa a recuperação do espaço. Tendo em conta a velocidade a que o edifico ardeu (devido à grande quantidade de madeira presente) foram construídas lajes em betão. Fomos então novamente contactados para intervir no edifício, desta feita de forma mais permanente. Foi-nos solicitado que reinterpretássemos os motivos decorativos dos tetos trabalhados, de forma a serem produzidos em betão. Abordagem gráfica. Já tínhamos procedido a um levantamento inicial para a primeira instalação, tendo no nosso arquivo fotografias dos tetos em estuque existentes antes do incêndio. Por ocasião da primeira intervenção analisámos também as diferentes divisões, sendo que a cada uma delas estava associado um motivo, mais ou menos trabalhado: desde cupidos, a flores, passando por alusões à música (violino, trompa e harpa) e à cartografia (globo, mapas e compasso). Apesar de o cliente nos ter fornecido uma direção concreta, que consistia na reinterpretação dos desenhos anteriores, optámos por desenvolver uma proposta que evocasse o passado deste edifício em vez de reproduzir as
mesmas figuras num outro material — a memória do espaço não era apenas marcada pelas figuras dos tetos mas por todo o projeto que se tinha perdido, pelas emoções, pelos amigos que tinham acompanhado o nascimento do projeto e depois a sua destruição pelas chamas. Neste sentido, propusemos que fossem produzidos textos por diferentes autores, críticos e arquitetos que tivessem conhecido o edifício e o projeto, aproveitando o facto de a casa de hóspedes se chamar Casa do Conto. Era um recomeçar que se distanciava do original mas que trazia uma importante componente emocional, ligada à produção de novos conteúdos textuais, reflexões diversas sobre este espaço, interpretações que enriqueciam os diferentes tetos da Casa do Conto. Os seis textos resultantes foram encomendados a autores que, de alguma forma, tinham alguma ligação com o local. Propusemos que fosse escrito um texto para cada quarto. Ao nível do conceito cada teto funcionava como a página de um livro, um conto de uma página. Georges Perec surge como uma referência neste projeto pela forma como explora a própria página de texto e reflete sobre os vários espaços (Espèces d’espaces, 1974). Uma abordagem tipográfica através da qual se evocassem memórias fazia especial sentido, já que todo projeto estava marcado por uma profunda carga emocional. Conscientes que a proposta poderia não ser aceite, para a maquete apresentámos um texto simulado. Houve um entusiasmo muito grande relativamente a este projeto por parte dos comanditários. A lista final de autores foi responsabilidade da Casa do Conto e era constituída pelos arquitetos Filipa Leal, Álvaro Domingues, Jorge Figueira, André Tavares, Pedro Bandeira e Nuno Grande. Sendo que o teor de cada texto diferia, estes foram tipograficamente tratados de forma também distinta. Tivemos por base não apenas o texto mas também o próprio quarto, atendendo a diversos aspetos como a inclinação dos tetos e a localização da casa de banho (existiam aberturas entre o teto destas e o do quarto 49). Cada um dos tetos funcionou como uma ‘folha em branco’ sobre a qual compusemos os textos de cada autor, inspirados pelas produções literárias de cada um. A cada texto foi atribuído um tipo de letra diferente, dependendo do tom e conteúdo veiculado. Recorremos a vários tipos de letra (não serifadas, serifadas, mecanas e geométricas): a Ordinaire, de David Poulard; Jannon, de Frederick Storm; Dada, dos deValence; Neutraface Slab, desenhada por Susana Carvalho e Kai Bernau; e a Futura, de Paul Renner. Em termos de composição dos textos, no que diz respeito ao texto de Nuno Grande, dado que este autor se apropriou de uma frase de