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G est達o Financeira


G est達o Financeira


© Copyright 2013 da Laureate. É permitida a reprodução total ou parcial, desde que sejam respeitados os direitos do Autor, conforme determinam a Lei n.º 9.610/98 (Lei do Direito Autoral) e a Constituição Federal, art. 5º, inc. XXVII e XXVIII, "a" e "b". Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Sistema de Bibliotecas da UNIFACS Universidade Salvador - Laureate International Universities)

F383g Ferreira, Renata Gestão financeira. / Renata Ferreira. – Salvador: UNIFACS, 2013. 282 p. ; 18,3 x 23,5cm. ISBN 978-85-87325-76-1 1. Administração financeira. I.Título. CDD: 658.15


Importante: Os links para sites contidos neste livro podem ter expirado após a sua última edição, em novembro de 2013.


S umário Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro, 11

(1)

Cálculo Financeiro em Contexto Inflacionário, 47

(2 )

( 3 ) Análise das Demonstrações Financeiras,

75

( 4 ) Ponto de Equilíbrio e Alavancagem, 115

Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa, 141 (5 )


Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades, 179

(6 )

Administração das Contas a Receber e dos Estoques, 211 (7)

( 8 )

251

Administração do Passivo Circulante,


(1)

I ntrodução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro


“A Gestão Financeira é a arte e a ciência de administrar os recursos financeiros da empresa para maximizar a riqueza dos acionistas” LEMES JR., et al, 2010


Renata Ferreira

I ntrodução Bem-vindo ao curso de Gestão Financeira! O objetivo deste curso é fornecer as ferramentas para a administração dos recursos financeiros de uma empresa. Com a era das economias interligadas e a velocidade da informação, a administração financeira adquiriu uma importância estratégica no processo de tomada de decisões, afinal, ninguém quer perder dinheiro. O cenário de volatilidade e incerteza, comum ao mercado financeiro, exige do administrador financeiro o conhecimento de técnicas e o reconhecimento das variáveis que mais afetam a sua atividade empresarial. Administrar é decidir e a qualidade das decisões é que garante a continuidade e o sucesso de um negócio, por isso o conhecimento das ferramentas de gestão financeira é imprescindível para o processo decisório.


Cabe ao administrador financeiro tomar decisões que propiciem a manutenção da saúde econômico-financeira da empresa e que resultem na criação de valor para a empresa, maximizando a riqueza dos acionistas. Deste conceito surge nossa primeira questão: Maximizar riqueza? Não seria lucro? Sempre ouvimos maximizar o lucro, é verdade. Mas a maximização do lucro é um objetivo de curto prazo e maximizar riqueza é um objetivo de longo prazo e, portanto, mais importante. Decisões sobre o lucro são consideráveis de curto prazo, porque lucros elevados podem ser obtidos através de um aumento na receita e/ou do corte de gastos. Por exemplo, a empresa pode demitir gerentes e diretores, já que possuem salários elevados, provocando uma redução nos gastos e aumentando por consequência o lucro. Porém, esta decisão pode enfraquecer a posição competitiva da empresa, já que passa um cenário de incerteza para o investidor, reduzindo o valor das ações desta empresa no mercado. Assim, uma tentativa de maximizar o lucro “pode se mostrar inconsistente com o objetivo de maximizar a receita, o que requer que se atenha ao maior retorno esperado possível com o menor nível de risco” (GROPPELLI; NIKBAKHT, 2010), ou seja, o conceito de maximização da riqueza é mais preciso, porque envolve a ideia de lucro atual e futuro, incorpora os conceitos de risco e retorno. Gestão financeira

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Esta unidade apresenta as decisões e atividades da gestão financeira, além dos conceitos e aplicações da Matemática Financeira, visto que o cálculo financeiro é uma ferramenta essencial no processo decisório e na gestão financeira das empresas e das pessoas. Além disso, como a maximização da riqueza está relacionada com perspectivas de longo prazo, é imprescindível considerar o valor do dinheiro no tempo.


Decisões da Gestão Financeira De forma simplificada, podemos identificar três atividades da gestão financeira: Análise e Planejamento Financeiro Procura evidenciar as necessidades de expansão (ou redução) da empresa, assim como determinar a necessidade de aumento (ou redução) dos financiamentos. Este planejamento inicia-se com o levantamento e análise dos dados econômico-financeiros, atividade esta fortemente apoiada sobre os demonstrativos contábeis. Segundo Assaf Neto (2010), é por meio do planejamento financeiro que é possível “selecionar, com maior margem de segurança, os ativos mais rentáveis e condizentes com o negócio da empresa, de forma a estabelecer mais satisfatória rentabilidade sobre os investimentos”. Depois de definir as metas da empresa e projetar o resultado previsto, funções do planejamento financeiro, o gestor financeiro precisa dedicar-se ao controle, ou seja, ao acompanhamento e avaliação de todo o desempenho financeiro da empresa, identificando os desvios que venham a ocorrer entre o previsto e o realizado, propondo medidas corretivas, caso necessário. Balanço patrimonial

Ativos circulantes

Passivos circulantes

Decisões de investimentos

Decisões de financiamento

Ativos permanentes

Recursos permanentes

Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

15


Decisões de Investimento Decisões que envolvem a análise, seleção e escolha, considerando o risco e o retorno dos investimentos empresariais, além do gerenciamento eficiente de seus valores. Ou seja, referem-se à administração da estrutura do ativo da empresa (relação entre ativo circulante e ativo permanente) e à implementação de novos projetos (decisão sobre novos ativos). Segundo Assaf Neto (2010), a gestão dos ativos acompanha também as defasagens que podem ocorrer entre as entradas e saídas de dinheiro, o que é geralmente associado à gestão do capital de giro. Decisões de Financiamento Decisões que visam montar a estrutura financeira mais adequada para a empresa, levando-se em consideração as operações normais e os novos projetos a serem implantados. Representa a análise da aquisição dos fundos e o gerenciamento de sua composição, ou seja, refere-se à definição dos financiamentos de curto e longo prazos (passivos circulantes e recursos permanentes), além da decisão da melhor relação entre capital próprio e de terceiros, buscando a estrutura de capital mais adequada em termos de liquidez, redução dos custos e risco financeiro.

Fundamentos do Cálculo Financeiro As decisões financeiras, sejam elas de investimento ou de

Gestão financeira

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financiamento, envolvem cálculos de taxas de juros, para, por exemplo, escolher a aplicação financeira ou o empréstimo mais adequado. As decisões sobre a compra de um ativo fixo requerem avaliações de fluxos de pagamentos e recebimentos projetados. Essas e outras decisões devem considerar o valor do dinheiro no tempo e para tanto são necessários cálculos adequados a cada situação e o estudo desses cálculos é o objeto de estudo da Matemática Financeira.


Primeiramente, é preciso conhecer os conceitos básicos da Matemática Financeira: Capital (C) ou Valor Presente (VP) [ou Present Value (PV)] É o recurso financeiro transacionado no período inicial (na data focal zero) em uma determinada operação financeira. Também chamado de Principal ou Investimento Inicial. Juros (J) Com o desenvolvimento das sociedades surgiram a especialização e a troca de mercadorias para solucionar o problema de satisfação das necessidades e minimizar a questão da escassez. Com isso, a moeda passou a ser um intermediário das trocas e as pessoas perceberam que ela era um meio de acumular valor e constituir riqueza (o estoque de bens poderia ser usado para gerar novos bens e riquezas). A maioria das pessoas prefere consumir seus bens no presente e não no futuro. As pessoas que acumulam riqueza querem, portanto, uma recompensa pela abstinência de não consumir hoje, deixando para o futuro. Este prêmio é chamado de juro. Dessa forma, “são os juros que efetivamente induzem o adiamento do consumo, permitindo a formação de poupanças e de novos investimentos na economia” (ASSAF NETO, 2008). Assim, podemos classificar o juro como a remuneração do capital empregado. Para o investidor ou emprestador, os (operacionais, de formalização do empréstimo, taxas etc.) e o risco da operação, além de proporcionar certo lucro. Do ponto de vista do tomador do empréstimo, o juro pode ser considerado como o custo do capital. Se o tomador pretende utilizar o capital emprestado em um negócio qualquer, os juros pagos pelo empréstimo devem ser menores do que a receita prevista com o negócio.

17 Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

juros recebidos devem ser suficientes para cobrir as despesas


Atenção! As taxas de juros, geralmente, são expressas em percentual que sempre se referem a uma unidade de tempo. Exemplos: 12% ao ano = 12% a.a. 6% ao semestre = 6% a.s. 5% ao trimestre = 5% a.t. 10% ao mês = 10% a.m.

Taxa de juros (i) A taxa de juros é o parâmetro de cálculo dos juros, representa o coeficiente obtido da relação dos juros recebidos (ou pagos) (J) e o capital inicialmente aplicado (PV). É indicada por i (interest = juros).

i = J PV Exemplo: Um investimento em CDB de R$ 5.000 proporcionou após 90 dias juros de R$ 625. Qual a rentabilidade do período? i = J/PV i = 625,00/5.000,00 Gestão financeira

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i = 0,1250 = 12,50% para 90 dias = 12,50% ao trimestre Os juros podem ser obtidos através da multiplicação da taxa de juros pelo valor aplicado.

J = PV . i


Exemplo: Um capital de R$ 3.000 aplicado a uma taxa de juros de 18,65% ao ano no final de um ano proporciona qual rendimento?

J = 3.000,00 x 0,1865 J = R$ 167,50

Repare que o cálculo é feito com a taxa unitária (em decimal), que é obtida pela divisão da taxa percentual por 100.

18,65% = 18,65 = 0,1865

100

Lembrete Nas fórmulas de Matemática Financeira, todos os cálculos são feitos com a taxa unitária (em decimal), porém as respostas finais de taxas de juros são apresentadas na forma percentual. Montante (M) ou Valor Futuro (VF) [ou Future Value (FV)] É a quantidade monetária acumulada resultante de uma operação financeira após um determinado período de tempo, ou seja, é a soma dos juros com o capital inicial.

FV = J + PV Prazo ou período (n) É o tempo em que certo capital (PV) aplicado a uma taxa (i) necessita para produzir um montante (FV), ou em outras palavras, é o período em que os recursos ficaram aplicados ou o tempo de duração de um empréstimo.

19 Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

M =J+C


Algumas regras são fundamentais para as questões que envolvem Matemática Financeira. Destacamos uma: As periodicidades da taxa de juros e do prazo da operação devem estar na mesma unidade de tempo. Por exemplo, se uma situação apresentar taxa de juros anual e o período da operação for em meses, a periodicidade não está coincidente e temos que transformar a taxa de juros em mensal. Somente após esta adequação entre o prazo e a taxa de juros (na mesma unidade de tempo) é que podemos aplicar as fórmulas da Matemática financeira.

Regimes de Capitalização Os critérios de transformação da taxa e do prazo dependerão do regime de capitalização da operação. Mas o que é Regime de Capitalização? Regime de capitalização é a forma como os juros são incorporados ao capital. Existem dois regimes de capitalização: o simples e o composto. Vamos conhecê-los. Regime de Capitalização Simples Conceito e fórmulas No regime de capitalização simples (ou juros simples),

Gestão financeira

20

os juros de cada período são sempre calculados em função do capital inicial (principal) aplicado. Os juros não são somados ao principal para cálculo de novos juros nos períodos seguintes (os juros não são capitalizados e por isso não rendem juros). Exemplo: Um investidor aplicou R$ 1.500 pelo prazo de cinco anos, com uma taxa de juros de 8% ao ano, no regime de juros simples. Determine o valor do saldo a ser resgatado no final de cada um dos cinco períodos.


Ano

Saldo inicial

Juros

Saldo final

0

-

-

1.500

1

1.500

1.500 x 0,08 = 120

1.620

2

1.620

120

1.740

3

1.740

120

1.860

4

1.860

120

1.980

5

1.980

120

2.100

Os juros de cada período são obtidos pela multiplicação da taxa de juros pelo principal.

J = PV.i J = 1.500 x 0,08 J = 120 Como no regime de capitalização simples, os juros incidem apenas sobre o valor inicial, os juros de n períodos são resultados da multiplicação do juro de um período pelo número de períodos considerado.

J = PV . i . n

J = 1.500 x 0,08 x 5 J = 120 x 5 --> J = 600 O total da operação será: FV = PV + J FV = 1.500 + 600 FV = 2.150

21 Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

No nosso exemplo, os juros do 5º período:


Podemos encontrar uma fórmula para o Montante ou valor futuro: FV = Principal + Juros = FV = PV + PV.i.n Tirando o PV em evidência, temos: FV = PV (1 + i.n) Exemplo: Qual o valor de resgate de uma aplicação no valor de R$ 84.975,59, por três meses a uma taxa de juros simples de 1,45% ao mês? J = PV.i.n

OU

FV = PV( 1+ i.n)

J = 84.975,59 x 0,0145 x 3

FV = 84.975,59 (1 + 0,0145x3)

J = 3.696,44

FV = 84.975,59 (1 + 0,0435)

FV = PV + J

FV = 84.975,59 (1,0435)

FV = 84.975,59 + 3.696,44

FV = 88.672,03

FV = 88.672,03 Obs.: na fórmula, usar a taxa de juros (i) sempre em decimal. Os juros simples têm aplicações bastante restritas. São raras as operações financeiras e comerciais que utilizam este regime de capitalização. A utilização mais comum para os juros simples refere-se ao cálculo dos juros por atraso de pagamentos (boletos em atraso).

Gestão financeira

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Períodos não inteiros (taxas proporcionais) Podem ocorrer situações em que o prazo de aplicação não é um número inteiro de períodos a que se refere à taxa dada. Também podemos encontrar situações em que a periodicidade da taxa e do período não estão na mesma unidade de tempo. Nestes casos, é necessário calcular a taxa proporcional. Taxa proporcional é típica do regime de capitalização simples.


Duas ou mais taxas são proporcionais se, quando aplicadas sobre o mesmo principal durante o mesmo período, produzem o mesmo montante. Por exemplo, 2% ao mês são proporcionais a 24% ao ano. Exemplo: Um investidor aplicou R$ 1.000 a uma taxa de juros simples de 12% ao semestre, qual valor a ser resgatado no final de 5 anos e 9 meses? n = 5 anos e 9 meses = 69 meses taxa de juros = 12% ao semestre A periodicidade da taxa (semestre) não é coincidente com a periodicidade do prazo (meses), precisamos encontrar a taxa proporcional em meses. 12% ao semestre = 12% = 2% ao mês Após o ajuste, podemos calcular os juros pela fórmula: J = PV. i. n J = 1.000,00 x 0,02 x 69 J = 1.380,00 FV = 1.000,00 + 1.380,00 FV = 2.380,00 Exemplo de taxas proporcionais: a) 5% ao mês = 30% ao semestre = 60% ao ano b) 18% ao ano = 9% ao semestre = 6% ao quadrimestre = 1,5% ao mês Para ajustar a taxa podemos nos basear na seguinte De

Para

Fórmula

mês (a.m.)

ano (a.a.)

ia = (im) x 12

dia (a.d.)

mês (a.m.)

im = (id) x30

dia (a.d.)

ano (a.a.)

ia = (id) x 360

ano (a.a.)

mês (a.m.)

im = (ia) / 12

mês (a.m.)

dia (a.d.)

id = (im) / 30

ano (a.a.)

dia (a.d.)

id = (ia) / 360

23 Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

tabela:


Assim, se tivermos uma taxa de 2% ao mês e quisermos passá-la para ano (em juros simples), devemos aplicar a fórmula: De

Para

Fórmula

mês (a.m.)

ano (a.a.)

ia = (im) x 12

Taxa anual = taxa mensal x 12 = 2% x 12 = 24% ao ano Regime de Capitalização Composta Conceitos e fórmulas No regime de juros compostos, os juros de cada período são incorporados ao principal para o cálculo dos juros do período seguinte, dizemos então que os juros são capitalizados. O regime de juros compostos é o mais comum no sistema financeiro e no cálculo econômico e, portanto, o mais útil para cálculos de problemas do cotidiano. A tabela a seguir mostra a diferença de cálculo entre os dois regimes, para um empréstimo de R$ 1.000 por um perí-

Ano

odo de quatro anos à taxa de juros de 20% ao ano.

Gestão financeira

24

Juros simples

Juros compostos

Capital

Juros

Montante

Capital

Juros

Montante

1

1000

1000 x 0,20 = 200

1200

1000

1000 x 0,20 = 200

1200

2

1000

1000 x 0,20 = 200

1400

1200

1200 x 0,20 = 240

1400

3

1000

1000 x 0,20 = 200

1600

1440

1440 x 0,20 = 288

1600

4

1000

1000 x 0,20 = 200

1800

1728

1728 x 0,20 = 345,60

1800

Podemos observar que no regime de juros simples, o valor dos juros é constante, enquanto que no regime de juros compostos, o valor dos juros cresce em função do tempo. Isto faz com que o dinheiro cresça mais rapidamente a juros compostos do que a juros simples. No juros compostos, o dinheiro cresce exponencialmente (em progressão geométrica) e no juros simples, ele


cresce linearmente (em progressão aritmética). Assim, matematicamente, o cálculo dos juros compostos é conhecido por cálculo exponencial de juros. Considere a seguinte nomenclatura genérica: PV = Capital inicial ou principal ou Valor presente FV = Montante ou Valor futuro i = taxa de juros de cada período n = número de períodos J = Juros A fórmula para cálculos em juros compostos é:

FV = PV(1 + i) n Exemplo: Se você investir R$ 1.500 em uma aplicação que pague juros compostos de 3% ao mês durante seis meses, quanto acumulará? PV = 1.500

FV = 1.500 (1+0,03)6

i = 3% a.m. = 0,03

FV = 1.500 (1,1941)

n = 6 meses

FV = 1.791,08

Podemos utilizar as calculadoras financeiras para realizar os cálculos de juros compostos. O modelo mais tradicional é a HP 12C:

Saiba Mais Você encontra na internet vários emuladores da HP 12C para instalar em seu computador. Uma sugestão de site que contém este e outros modelos de calculadoras científicas e financeiras para download grátis é: http://www. livrariamaconica.com.br/calculadoras/calculadoras.htm Também é possível baixar o aplicativo da calculadora no seu IPOD ou IPHONE.

Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

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As funções financeiras encontram-se na primeira linha da calculadora:

Retomando o nosso exemplo, agora na Calculadora HP 12C:

Também podemos efetuar estes cálculos utilizando o Excel. Considerando a versão 2007: Clicar na barra de ferramentas em Fórmulas depois clicar no ítem Financeira

Gestão financeira

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Procurar na lista de fórmulas a que trate do valor futuro (VF):


Aparecerá a seguinte caixa:

Você pode preencher os campos com os valores ou indicar as células que contém os respectivos valores. No nosso exemplo:

Depois clique em ok. O resultado será R$ 1.791,08.

Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

27


Taxas equivalentes Em juros compostos, quando a periodicidade da taxa não coincide com a periodicidade do prazo, precisamos encontrar a taxa equivalente. Taxa equivalente é típica do regime de capitalização composta. Duas ou mais taxas são equivalentes quando aplicadas a um mesmo capital, por um período de tempo equivalente, geram o mesmo rendimento. Por exemplo, 2% ao mês são equivalentes a 26,82% ao ano. Pelo critério de juros compostos utilizamos a relação: q t

iq = (1+it) - 1 iq = taxa que eu quero it = taxa que eu tenho (taxa conhecida) q = período que eu quero t = período que eu tenho (período da taxa conhecida) Exemplos: 1 ) Qual é a taxa mensal equivalente à taxa de 12% ao ano? it = taxa que eu tenho = 12% = 0,12 q = período que eu quero = 1 mês t = período que eu tenho = 1 ano = 12 meses Gestão financeira

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im = (1+0,12)1/12 – 1 im = (1,12)0,0833333 - 1 im = 0,009489 = 0,949% ao mês 2 ) Os cartões de crédito cobram em média uma taxa mensal de 13% ao mês para refinanciamento (para quem não paga a fatura por completo), quanto isso representa em termos anuais?


it = taxa que eu tenho = 13% = 0,13 q = período que eu quero = 1 ano = 12 meses t = período que eu tenho = 1 mês ia = (1 + 0,13)12/1 - 1 ia = 4,3345 – 1 ia = 3,3345 = 333,45% ao ano.

Operações Financeiras com datas Juro exato e juro comercial Juro exato é aquele obtido quando o período leva em consideração os dias do calendário, ou seja, é adotada a convenção do ano civil (365 dias ou 366 dias para os anos bissextos). Para cálculos mensais devemos considerar a quantidade exata de dias existentes em cada mês (31 dias para janeiro, 28 ou 29 para fevereiro, 30 para abril, e assim por diante). Já o juro comercial é calculado, quando se adota o ano comercial, ou seja, 360 dias. Um mês comercial tem 30 dias. O juro comercial é o mais utilizado nas aplicações financeiras. Exemplo: Calcule o rendimento de R$ 12.000 aplicados durante 243 dias à taxa de juros simples de 40% ao ano. Efetuar os cálculos considerando o ano comercial e o ano exato. Fórmula dos juros simples: J = PV. i. n Juro Exato

J = 12.000,00 x 0,40 x 243/360

J = 12.000,00 x 0,40 x 243/365

J = 3.240,00

J = 3.195,62

Contagem de dias Muitas operações financeiras exigem o tempo exato de dias entre duas datas. Para determinarmos o prazo exato em dias e a data de vencimento de uma operação, podemos fazer a contagem direta em um calendário, usar uma tabela de contagem, usar a calculadora financeira ou o Excel.

29 Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

Juro Comercial


Fev

Mar

Abr

Mai

Jun

Jul

Ago

Set

Out

Nov

Dez

Gest達o financeira

30

Jan

Tabela de contagem de dias (para anos n達o bissextos):

1

32

60

91

121

152

182

213

244

274

305

335

2

33

61

92

122

153

183

214

245

275

306

336

3

34

62

93

123

154

184

215

246

276

307

337

4

35

63

94

124

155

185

216

247

277

308

338

5

36

64

95

125

156

186

217

248

278

309

339

6

37

65

96

126

157

187

218

249

279

310

340

7

38

66

97

127

158

188

219

250

280

311

341

8

39

67

98

128

159

189

220

251

281

312

342

9

40

68

99

129

160

190

221

252

282

313

343

10

41

69

100

130

161

191

222

253

283

314

344

11

42

70

101

131

162

192

223

254

284

315

345

12

43

71

102

132

163

193

224

255

285

316

346

13

44

72

103

133

164

194

225

256

286

317

347

14

45

73

104

134

165

195

226

257

287

318

348

15

46

74

105

135

166

196

227

258

288

319

349

16

47

75

106

136

167

197

228

259

289

320

350

17

48

76

107

137

168

198

229

260

290

321

351

18

49

77

108

138

169

199

230

261

291

322

352

19

50

78

109

139

170

200

231

262

292

323

353

20

51

79

110

140

171

201

232

263

293

324

354

21

52

80

111

141

172

202

233

264

294

325

355

22

53

81

112

142

173

203

234

265

295

326

356

23

54

82

113

143

174

204

235

266

296

327

357

24

55

83

114

144

175

205

236

267

297

328

358

25

56

84

115

145

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Como usar a tabela: a) Quantos dias decorreram entre 02 de mar. e 15 de abril?


02 de março = na tabela dia 61 15 de abril = na tabela dia 105 Total de dias = 105 - 61 = 44 dias b) Fechei um contrato no dia 05 de maio para vencimento em 52 dias. Em que dia vencerá o contrato? 05 de maio = na tabela dia 125 125 + 52 = 177 na tabela o dia nº 177 é o dia 26 de junho Contagem de dias no Excel Utilizando os mesmos exemplos da contagem de dias pela tabela: Determinar um prazo: Para saber o número exato de dias entre as duas datas, basta entrar com a data 1, digitar a data 2 e calcular a diferença entre elas.

Contagem de dias na HP 12C O primeiro passo é ajustarmos a calculadora para o mos apertar as teclas:

Obs.: Se o ajuste não for feito, a calculadora estará programada para o método americano (Mês. Dia. Ano – M.DY).

31 Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

modo de calendário brasileiro (dia.mês.ano). Para isso deve-


Usando os exemplos da demonstração da tabela anterior, temos: a) Quantos dias decorreram entre 02 de março e 15 de abril?

b) Fechei um contrato no dia 05 de maio para vencimento em 52 dias. Em que dia vencerá o contrato?

Séries Uniformes Uma Série, também chamada de Renda, é uma sequência de pagamentos ou recebimentos efetuados a determinado

Gestão financeira

32

intervalo de tempo. Os vencimentos dos termos de uma Série podem ocorrer no final de cada período (vencidos ou postecipados) ou no início (antecipados). Pode ocorrer, também, da Série contar com um período de carência (diferidos). As Séries podem ser uniformes (quando os pagamentos ou recebimentos são iguais) ou variáveis (quando os pagamentos ou recebimentos são crescentes, decrescentes ou até desproporcionais).


Vamos tratar das séries uniformes. Nas calculadoras financeiras o pagamento periódico é identificado pela função

Séries postecipadas São aquelas em que o primeiro pagamento (ou recebimento) ocorre no final do primeiro período, ou seja, quando o primeiro pagamento (ou recebimento) ocorre no momento 1 (um), como por exemplo, empréstimos bancários e vendas a prazo sem entrada - do tipo (0+n). Antes de fazer a conta na calculadora financeira, é preciso ajustar o plano para postecipado, modo END, apertando as teclas:

Situações de compras ou empréstimos são casos em que temos uma relação entre o valor presente (valor da compra ou valor do empréstimo) e as prestações. Nestes casos a fórmula usada é:

PV = PMT . (1 + i)n -1 (1 + i)n . i

Lembrete Não se esqueça que a periodicidade da taxa deve ser igual à periodicidade das parcelas. No nosso exemplo, tanto a taxa de juros como as parcelas são mensais. Caso não sejam iguais, antes de calcular as prestações é preciso encontrar a taxa de juros equivalente (na mesma periodicidade das prestações).

Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

33


Exemplo: Um computador é vendido à vista por R$ 3.000 ou financiado em 24 parcelas mensais iguais, sem entrada. Sabendo que a loja cobra taxa de juros de 2,99% ao mês, calcule o valor de cada parcela.

PV = 3000

3000 = PMT . (1,0299)24 - 1

n = 24

(1,0299)24 . 0,0299

i = 2,99%

3000 = PMT . 1,028063

PMT = ?

0,060639 3000 = PMT . 16,9538 PMT = 3000/16,9538 PMT = 176,95

Na calculadora HP 12C:

Gestão financeira

34

No Excel: • Clicar na barra de ferramentas em Fórmulas • Depois clicar em Financeira


• Procurar na lista de fórmulas a que trate das prestações (PGTO) • Abrirá a caixa para preenchimento dos valores ou das células que contenham os valores.

Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

35


IMPORTANTE Uma observação importante é que o ajuste do plano de pagamento é feito aqui. Para pagamentos no final do período (postecipados) o tipo deve ser 0 (zero) ou ficar em branco e, para pagamentos antecipados (no início do período) o tipo deve ser 1 (um). Já quando nos deparamos com situações em que são realizados pagamentos para acumular um valor no futuro, geralmente em situações de poupança, temos uma relação entre o valor futuro (FV) e as prestações (PMT) e usamos a seguinte fórmula:

FV = PMT . (1 + i)n -1 i Exemplo: João está programando suas férias e resolveu juntar dinheiro. Para tanto, aplicará R$ 200 por mês durante seis meses consecutivos a uma taxa de 5% ao mês. Quanto resgaGestão financeira

36

tou no final do período?

PMT = 200,00 n=6

FV = 200 . (1,05)6 - 1 0,05

i = 5%

FV = 200 (6,8019)

FV = ?

FV = 1.360,38


Séries antecipadas São aquelas em que o primeiro pagamento (ou recebimento) ocorre no início do primeiro período, ou simplesmente, quando o primeiro pagamento (ou recebimento) ocorre na data zero. Exemplo: compras a prazo do tipo (1+n), cuja primeira parcela é no ato da compra Na calculadora HP 12C é preciso ajustar o plano de pagamentos, apertando as teclas:

Aparecerá a palavra BEGIN no visor da calculadora.

Após o ajuste do plano de pagamentos, o procedimento para a realização do cálculo é o mesmo do plano postecipado. No Excel, o procedimento também é idêntico ao realizado no plano postecipado, apenas atenção ao preenchimento do Tipo, é preciso colocar o número 1 (um) que equivale ao plano antecipado. Matematicamente, quando nos depararmos com situao Valor Presente) com pagamentos antecipados, usamos a seguinte fórmula:

PV = PMT . (1 + i)n - 1 (1 + i) (1 + i)n . i

37 Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

ções de compra ou de empréstimos (situações em que temos


Exemplo: Um empréstimo de R$ 30.000 é concedido por uma instituição financeira para ser liquidado em 12 parcelas iguais, mensais e consecutivas. Sabendo que a primeira parcela deverá ser paga no ato e que a taxa de juros é de 4% ao mês, calcular o valor das prestações.

PMT = 200,00 n=6 i = 5%

FV = 200 . (1,05)6 - 1 0,05 FV = 200 (6,8019)

Saiba Mais Na série de pagamentos/recebimentos iguais com termos postecipados é comum a ocorrência de um valor a título de entrada, valor este diferente do valor das prestações. Quando isto acontece, deve-se deduzir o valor desta entrada do Valor Presente, ou seja, neste caso o PV é igual ao valor total menos o valor da entrada. Isto significa, obviamente, que o valor da entrada não será onerado com juros. Apenas o restante do Valor Presente, que será efetivamente financiado, será encarecido com juros. Ex. Financiamento de R$ 3.000 sem entrada: PV= 3.000,00 Financiamento de R$ 3.000 com entrada de R$ 500:

Gestão financeira

38

PV = 3.000 - 500 PV = 2.500,00 Na série antecipada, o valor presente é integralmente financiado. A parcela dada como “entrada” possui valor idêntico ao das demais parcelas. Neste caso, o PV é igual ao valor total. Ex. Financiamento de R$ 3.000 com vencimento antecipado das parcelas o PV será os R$ 3.000.


Séries Diferidas São aquelas em que existe um período de carência entre a concessão do financiamento e o início dos pagamentos, ou seja, o primeiro pagamento ocorre em datas superiores a um período. Este tipo de plano é muito comum no comércio, em que as promoções usam o jargão “compre hoje e só comece a pagar em...” Exemplo: Silva contraiu um empréstimo de R$ 4.200 a uma taxa de 2,5% a.m. O pagamento será efetuado em 4 prestações mensais e terá uma carência de três meses para o primeiro pagamento. Determinar o valor das prestações. Ao invés de usarmos uma fórmula específica para séries com carência, podemos calcular as prestações usando os conceitos já aprendidos. Temos duas formas de calcular este tipo de prestação. MODO 1 – usando o plano postecipado 1º passo: Ajustar a carência A pessoa ficará três meses sem efetuar pagamentos, porém isso não significa que o valor não sofra correções, na verdade os juros correm normalmente neste período. Como não há pagamentos, não há PMT, o ajuste da carência é feito usando a fórmula de juros compostos. 2º passo: Calcular as prestações prestações. Como ajustamos apenas o período extra dado como carência (consideramos que 1 período, neste caso 30 dias, é normal), utilizamos para o cálculo do PMT a fórmula para planos postecipados.

39 Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

O Valor atualizado é usado para o cálculo das


PV = 4200 i = 2,5% ao mês Carência = 3 meses n = 2 meses Como um mês de prazo para começar a pagar é normal, consideraremos apenas o prazo extra (o que excede 30 dias). Neste caso o ajuste é de 2 meses FV = 4.412,63 FV = 4200 (1,025)2 ________________________________________ PV = 4.412,63 i = 2,5% a.m n = 4 prestações 4.412,63 = PMT . (1,025)4 - 1 (1,025)4 . 0,025 4.412,63 = PMT (3,7620) PMT = 1.172,96

MODO 2 – usando plano antecipado 1º passo: Ajustar a carência Ajustar o prazo inteiro de carência

Gestão financeira

40

2º passo: calcular as prestações O Valor atualizado é usado para o cálculo das prestações usando a fórmula para planos antecipados.


PV = 4.200 i = 2,5% ao mês Carência = n = 3 meses n = 2 meses FV = 4200 (1,025)3 FV = 4.522,94 ________________________________________ PV = 4522,94 i = 2,5% a.m n = 4 prestações 4.522,94 = PMT . (1,025)4 - 1 (1,025) (1,025)4 . 0,025 4.522,94 = PMT (3,761974) (1,025) 4.522,94 = PMT (3,856024) PMT = 1.172,96 É HORA DE FIXAR: Em 15 de março, a empresa “Mega X Ltda.” contraiu um empréstimo no valor de R$ 55.000 para pagamento em dezoito parcelas mensais, sendo que o pagamento da primeira parcela ocorreu 15 de julho do mesmo ano, à taxa de juros de 34,489% ao ano. Considere que estamos no dia 15 de novembro (dia do pagamento da quinta parcela), porém mento daqui a 13 dias. Sabendo que o banco cobra uma taxa de juros simples de 30% ao ano pelo atraso de pagamentos, quanto a empresa deverá desembolsar para quitar a parcela? Resposta: R$ 4.662,93.

41 Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

a empresa “Mega X Ltda.” só terá os recursos para o paga-


RESOLUÇÃO: Este exercício envolve várias fórmulas aprendidas nesta unidade. O primeiro passo é encontrar o valor das prestações para depois calcular os juros pelo atraso do pagamento. Vamos identificar as variáveis fornecidas pelo enunciado: Valor do empréstimo = PV = R$ 55.000 Número de parcelas = n = 18 (mensais) Taxa de juros = 34,489% ao ano PV =? Obs.: pagamento da primeira parcela em julho, portanto, carência de 4 meses – DIFERIDO Atraso = 13 dias a 30% ao ano (juros simples) 1 | Antes de encontrar o valor da prestação precisamos ajustar a taxa de juros que está anual e as parcelas são mensais. Passando a taxa de juros para mensal, temos: it = taxa que eu tenho = 34,489% ano ano = 0,34489 q = período que eu quero = 1 mês t = período que eu tenho = 1 ano = 12 meses im = (1+i)q/t – 1 im = (1+0,34489)1/12 – 1 im = (1,34489)0,0833333 - 1 im = 1,025 – 1 im = 0,025 = 2,5% ao mês

Gestão financeira

42

2 | Agora podemos calcular as prestações, lembrando que é um plano diferido (com carência) a) Ajuste da carência

b) Calcular a prestação

PV = 55.000

PV = 59.228,98

i = 2,5% ao mês

i = 2,5% a.m.

n = 3 meses (postecipado)

n = 18 prestações

FV = PV (1 + i)

PV = PMT (1+i)n -1

n

FV = 55.000 (1,025)3

(1+i)n .i


FV = 59.228,98

59.228,98 = PMT . (1,025)18 - 1

(1,025)18. 0,025

59.228,98 = PMT (14,35336)

PMT = 4.126,49

3 | Calculando o atraso do pagamento da parcela: PV = 4.126,49

J = PV.i.n

n = 13 dias

J = 4.126,49 . 0,30 . 13/30

i = 30% ao ano

J = 536,44

J=? TOTAL A PAGAR = 4.126,49 + 536,44 TOTAL A PAGAR = 4.662,93

R e f e r ênci a s ASSAF NETO, A. Finanças Corporativas e Valor. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010. ASSAF NETO, A. Matemática Financeira e suas aplicações. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2008. GITMAN, L. Princípios de Administração Financeira. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley Brasil, 2010.

ceira. Série Essencial. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2010. LEMES JR., A. B. et al. Administração Financeira: princípios, fundamentos e práticas brasileiras. 3. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2010. MATHIAS, W. F.; GOMES, J. M. Matemática Financeira. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2009.

43 Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

GROPPELLI, A. A.; NIKBAKHT, E. Administração Finan-


PUCCINI, A. L. Matemática Financeira objetiva e aplicada. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. SAMANEZ, C.P. Matemática Financeira: aplicação à análise de investimentos. 4. ed. São Paulo: Pearson - Prentice Hall, 2007. VIEIRA SOBRINHO, J. D. Matemática Financeira. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2000.

Gestão financeira

44


Introdução à Gestão Financeira e Fundamentos do Cálculo Financeiro

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(2)

C รกlculo financeiro em contexto inflacionรกrio


Renata Ferreira

Em Administração Financeira é importante considerar as variáveis econômicas para a tomada de decisão. Não é apenas uma questão de selecionar variáveis para traçar cenários, mas de considerar efetivamente o impacto destas variáveis nos resultados da empresa. Uma das variáveis incorporadas às decisões financeiras é a inflação. Inflação pode ser conceituada como um aumento contínuo e generalizado no nível de preços Assim, movimentos inflacionários representam elevações em todos os bens produzidos pela economia e não o aumento de um preço específico, gerando uma perda no poder aquisitivo da moeda (o valor da moeda é depreciado).


Contrariamente, quando ocorre uma baixa generalizada no nível de preços, tem-se o fenômeno da deflação. Em economias em que a taxa de depreciação monetária assume presença regular, é fundamental determinar os ganhos (ou os custos) reais das operações, extraindo o efeito da inflação sobre as taxas de juros declaradas. Isso é uma prática comum da economia brasileira, pois mesmo não vivenciando mais um cenário de elevadas taxas de inflação, a consideração desta variável está presente nas decisões financeiras das empresas, já que afeta a competitividade dos ativos negociados no mercado, especialmente se incluirmos na análise as possibilidades de investimento e financiamento internacionais. O objetivo desta unidade é abordar a inflação dentro do cálculo financeiro, fornecendo o instrumental básico para um processo decisório mais depurado em relação às questões financeiras empresariais.

Principais Indicadores de Inflação no Brasil No Brasil, as empresas se deparam com diversos indicadores de inflação que procuram refletir a evolução dos preços de diferentes cestas de bens e serviços. Estes indicadores são resultantes de procedimentos estatísticos e elaborados

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por diversos institutos de pesquisa, que consideram critérios e amostragens diferentes. Por exemplo, alguns indicadores medem o comportamento dos preços no atacado, outros medem a evolução dos preços no nível do consumidor. Além disso, o período de coleta, a região de cobertura e o universo de pesquisa (renda familiar) também variam. Apesar da variedade, os índices calculados no país se classificam em três grupos principais: os índices de preços ao consumidor de cobertura nacional, apurados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); os índices gerais de preços apurados pelo Instituto Brasileiro de Economia da


Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o índice de preços ao consumidor de São Paulo, apurado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas. Mas qual indicador usar? Para seleção adequada de um indicador é importante primeiramente conhecer seus critérios de cálculo e finalidades de uso. Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor (SNIPC - IBGE) A partir de 1978, o IBGE assumiu, por determinação oficial, a responsabilidade de elaboração dos Índices de Preços ao Consumidor do Ministério do Trabalho (IPC-MTB), que serviu de balizador da indexação dos salários entre os anos de 1948 e 1979. Assim, ao ser criado, o SNIPC foi incumbido de elaborar dois indicadores de preços ao consumidor para o Brasil: o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).

Saiba Mais

Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) O INPC é calculado com base em índices elaborados para nove regiões metropolitanas (São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Belém, Curitiba, Fortaleza, Salvador, Recife) mais os municípios de Brasília e Goiânia. Refere-se às famílias cuja fonte de renda é o trabalho assalariado e cujo rendimento familiar esteja entre 1 e 8 salários mínimos.

51 Cálculo Financeiro em Contexto Inflacionário

Para mais informações sobre a metodologia de cálculo desses índices, visite a página do IBGE: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/precos/inpc_ipca/defaultinpc.shtm


O índice nacional é calculado a partir da agregação dos índices regionais. Em julho de 2006, o INPC passou a ser calculado tendo por base as ponderações obtidas a partir dos resultados da Pesquisa de Orçamentos Familiares – POF. A pesquisa de preços do IBGE está subdividida nos seguintes grupos principais: alimentação e bebidas, habitação, artigos de residência, vestuário, transportes, saúde e cuidados pessoais, despesas pessoais, educação e comunicação. “O peso relativo de cada grupo é reestimado mensalmente, considerando-se a cesta de consumo na data-base e a variação relativa dos preços dos bens e serviços do grupo” (BACEN, 2010). A coleta de preços é realizada em concessionárias de serviços públicos, estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços, domicílios (para apuração do valor de aluguéis e despesas de condomínio). O preço coletado é o valor de venda à vista. A periodicidade da coleta é mensal. Em decorrência do seu universo da pesquisa, o INPC é um índice muito utilizado em dissídios salariais. Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) O IPCA tem a mesma abrangência geográfica, o mesmo

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sistema de coleta e utiliza a mesma fórmula do INPC. Difere, no entanto, quanto à estrutura de ponderações (das regiões e dos grupos de gastos) e à classe social de referência, visto que é calculado com base em uma cesta de bens e serviços representativos do consumo de famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos, sem distinção quanto à fonte de renda. A princípio, o objetivo deste indicador era o de constituir-se como o índice de referência do mercado financeiro. Atualmente, o IPCA é o índice mais relevante do ponto de vista da política monetária, já que foi escolhido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) como referência para o sistema


de metas de inflação implantado em junho de 1999. Além do IPCA, o IBGE também apura o IPCA-15. Este índice é calculado da mesma forma que o IPCA, mas com o período de coleta adiantado em 15 dias (isto é, computando-se do 16º dia do mês anterior até o 15º dia do mês corrente) e sua divulgação ocorre por volta do dia 25 de cada mês (BACEN, 2010). Instituto de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE - FGV) O cálculo do Índice Geral de Preços (IGP) da Fundação Getúlio Vargas teve sua primeira divulgação no número inaugural da revista Conjuntura Econômica, em novembro de 1947, quando foi publicada uma série retroativa a 1944 (CARMO, 2005). Este indicador era obtido pela média dos índices de preço do atacado e do varejo e tinha como objetivo ser o deflator do índice do movimento dos negócios. A partir de 1950 foi incorporado ao cálculo um índice de preços para a indústria da construção civil. Assim, o IGP é a média ponderada de três índices: IGP = 0,6 IPA + 0,3 IPC + 0,1 INCC IPA = Índice de Preços no Atacado IPC = Índice de Preços ao Consumidor

A definição dos pesos, estabelecida quando da implantação do cálculo do índice, foi justificada com base no objetivo de reproduzir aproximadamente o valor adicionado de cada setor (atacado, varejo e construção civil) no PIB, àquela época (BACEN, 2010). Assim, tem- se que: • Os 60% representados pelo IPA equivalem ao valor adicionado pela produção, transporte e comercialização de bens de consumo e de capital nas transações de atacado;

53 Cálculo Financeiro em Contexto Inflacionário

INCC = Índice Nacional dos Custos da Construção


• Os 30% representados pelo IPC representam o valor adicionado pelo setor varejista e pelos serviços de consumo; • Os 10% do INCC equivalem ao valor adicionado da indústria da construção civil. (CARMO, 2005). Em 1951, foi criado o Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), atual responsável pelo levantamento dos dados que servem de base para o cálculo dos IGPs (IGP-DI, IGP-M e IGP10). A diferença entre os três índices se resume às datas de coleta de preços e divulgação dos resultados apurados. Índice de Preços no Atacado (IPA) Desde sua criação em 1947, o IPA, inicialmente batizado de Índice de Preços por Atacado e, a partir de abril de 2010, denominado Índice de Preços ao Produtor Amplo, registra variações de preços de produtos agropecuários e industriais nas transações interempresariais, isto é, nos estágios de comercialização anteriores ao consumo final (FGV, 2010). É um indicador de preços de abrangência nacional, já que envolve a seguinte abrangência geográfica: Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Gestão financeira

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Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. A amostra de produtos do IPA é composta por 481 mercadorias que compõem um universo de produtos regularmente comercializados no atacado (matérias-primas agrícolas e industriais, produtos semielaborados e produtos finais). O peso das mercadorias no índice corresponde à sua parcela no valor adicionado total. Esses pesos também obedecem a um critério de ponderação regional, em que os valores de ponderação correspondem à razão entre o valor da produção regional e o valor da produção nacional (CARMO, 2005).


O IPA está disponível nas mesmas versões do IGP (IPA10, IPA-M e IPA-DI), que têm em comum a amostra de produtos e o cálculo, diferindo apenas no período de coleta de preços. As estimativas do IPA-DI derivam de variações de preços pesquisados sistematicamente durante o mês calendário (1 a 30 do mês de referência). Já as estimativas do IPA-M derivam de variações de preços pesquisados durante o período compreendido entre o dia 21 de um mês ao dia 20 do mês subsequente. O IPA-10 reflete as variações de preços pesquisados durante o período compreendido entre o dia 11 de um mês e o dia 10 do mês seguinte. O IPA destaca-se pela sua participação como componente fundamental do IGP-DI e como indexador nas atualizações contratuais. Índice de Preços ao Consumidor (IPC) O IPC é calculado mensalmente e mede a variação dos preços no varejo nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro dentre as famílias que possuem renda de 1 a 33 salários mínimos. É medido entre os dias 01 e 30 de cada mês, sendo divulgado, em média, 20 dias após. Este indicador deu continuidade ao indicador de preuma série de revisões metodológicas a partir de 1947, com destaque para a atualização implantada em janeiro de 2001, na qual o indicador passou a ser calculado para 11 municípios de capitais mais o Distrito Federal (ou seja, um a mais que o IPCA do IBGE), ganhando a nomenclatura de IPC-BR (Índice de Preços ao Consumidor para o Brasil). (CARMO, 2005) Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) O INCC aufere a evolução mensal de custos de construções habitacionais a partir da média dos índices das

55 Cálculo Financeiro em Contexto Inflacionário

ços calculado pela Receita Federal desde 1912, passou por


seguintes capitais de estados do país: Aracaju, Belém, Belo Horizonte, Brasília, Campo Grande, Curitiba, Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, João Pessoa, Maceió, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Vitória. De 1950 a 1985 este índice era calculado apenas para a cidade do Rio de Janeiro e, a partir de então, tornou-se um indicador com abrangência nacional. A lista de itens componentes do INCC é feita com base em orçamentos de edificações previstas pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) e é composta por 67 itens, sendo 51 itens abrangendo as categorias de materiais, equipamentos e serviços e 16 itens para a categoria de mão de obra (BACEN, 2010). Os índices de custos da construção estão subdivididos em residenciais e obras públicas de engenharia civil ou infraestrutura. Como nos demais componentes do IGP, também é apresentada a versão do INCC para mercado (INCC-M), que é calculado entre os dias 21 do mês anterior ao dia 20 do mês de referência (O INCC é calculado entre o primeiro e o último dia do mês civil). Índice Geral de Preços (IGP)

Gestão financeira

56

Como já mencionado, o Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) é o responsável pelo levantamento dos dados que servem de base para o cálculo dos IGPs (IGP-DI, IGP-M e IGP- 10). • O Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI): é a consideração das variações de preços que afetam diretamente as atividades econômicas localizadas no território brasileiro. Não se considera as variações de preços dos produtos exportados que é considerado somente no caso da variação no aspecto de Oferta Global. As variações de preços consideradas


pelo IGP-DI referem-se ao período do dia um ao dia trinta do mês em referência. A divulgação ocorre sempre na segunda quinzena do mês seguinte É um índice bastante tradicional, já que é calculado desde 1944 e representou durante décadas a medida de inflação oficial do país, tendo sido amplamente usado inclusive como índice de correção monetária. Atualmente, é utilizado contratualmente para a correção de determinados preços administrados. Até 2005, por exemplo, esse índice servia como referência para o reajuste das tarifas de telefonia fixa, que em janeiro de 2006 passaram a ser corrigidas pelo IST (Índice de Serviços de Telecomunicação), composto por uma combinação de outros índices, dentre eles: IPCA, INPC, IGP-DI e IGP-M (BACEN, 2010). Devido sua composição, o IGP-DI é um dos indicadores da taxa de inflação mais usados no país, por ser o índice que mais se aproxima da inflação verificada nas empresas. • O Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M): é calculado desde maio de 1989 e foi concebido para atender à comunidade financeira, visto que é o indicador usado para balizar as correções de alguns títulos emitidos dos acima de um ano. Também é usado na correção de alguns preços administrados, como, por exemplo, energia elétrica e na correção de contratos de aluguel. As variações de preços consideradas pelo IGP-M referem ao período do dia vinte e um do mês anterior ao dia vinte do mês de referência e são publicadas até o dia 30 do mês de referência. Além disso, são feitas duas apurações prévias dos resultados do IGP-M, divulgadas até os dias 10 e 20 do mesmo mês.

57 Cálculo Financeiro em Contexto Inflacionário

pelo Tesouro Nacional e Depósitos Bancários pós-fixa-


• Já o chamado IGP-10 mede a variação entre os dias 11 de um mês ao dia 10 (inclusive) do mês subsequente. Não é válido como índice mensal por englobar cálculos de dois meses. É mais utilizado para estudos econômicos e outras atividades correlatas.

Saiba Mais Para mais informações sobre a metodologia de cálculo e evolução desses índices, visite dentro do site da Fundação Getúlio Vargas os Indicadores de Preços do IBRE: http://portalibre.fgv.br/main.jsp?lumChannelId =402880811D8E34B9011D92AF56810C57

Saiba Mais Para mais informações sobre a metodologia de cálculo e evolução desse indicador, visite dentro do site da FIPE-USP: http://www.fipe.org.br/web/index.asp

Fundação

Instituto

de

Pesquisas

Econômicas

(FIPE-USP) A FIPE foi criada em 1973 em substituição ao Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo Gestão financeira

58

(IPE) e é responsável pelo cálculo do Índice de Preços do Consumidor (IPC) do município de São Paulo. Este indicador mede a evolução do custo de vida das famílias paulistanas desde 1939, na época apurado pela Prefeitura Municipal de São Paulo. Em 1968, seu cálculo foi transferido para o IPE. O IPC/FIPE mede a variação de preços para o consumidor na cidade de São Paulo com base nos gastos de quem ganha de um a vinte salários mínimos. Os grupos de despesas estão compostos de acordo com o POF (Pesquisas de Orçamentos Familiares) em constante atualização. Apesar de


se restringir ao município de São Paulo, corresponde cerca de 35% dos IPCs nacionais, devido à grande representatividade de São Paulo na economia nacional (BACEN, 2010). A FIPE apura dados semanais, que são agrupados por quadrissemanas. Assim, são divulgadas as variações de preços das últimas quatro semanas imediatamente anteriores. O IPC mensal corresponde sempre ao resultado apurado para a 4ª quadrissemana do mês- calendário de referência. A publicação dos índices ocorre normalmente até o dia dez do mês subsequente. Outros indexadores

Saiba Mais Para mais informações sobre a metodologia de cálculo e evolução desse indicador, visite dentro do site do DIEESE: http://www.dieese.org.br/rel/icv/icv.xml

• Extrato 1: Famílias com menor renda, 1 a 3 salários mínimos (1/3);

59 Cálculo Financeiro em Contexto Inflacionário

Índice de Custo de Vida (ICV) Existem outros índices de preços além dos mencionados, geralmente vinculados a cidades/ regiões específicas do país ou a atividades setoriais. Merece destaque o Índice de Custo de Vida (ICV), apurado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), que abrange todo o território nacional (BACEN, 2010). O DIEESE também apura o ICV-São Paulo, indicador que existe desde outubro de 1958 com o objetivo de medir a variação do custo de vida das famílias com renda de 1 a 30 salários mínimos do município de São Paulo. O índice é calculado em três extratos distintos:


• Extrato 2: Famílias com renda intermediária, 1 a 5 salários mínimos (1/3); e • Extrato 3: Famílias de maior poder aquisitivo, 1 a 30 salários mínimos (1/3). O índice geral envolve os três extratos de renda e a periodicidade dos dados é mensal. Cesta Básica – Fundação PROCON Em dezembro de 1989, o então Centro de Estudos e Pesquisas da Secretaria de Defesa do Consumidor do Estado de São Paulo, em parceria com o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) iniciou o Projeto Cesta Básica Procon-DIEESE com o objetivo de oferecer ao consumidor paulistano um instrumento auxiliar para a análise de preços. A metodologia adotada é a coleta diária de preços e marcas dos produtos de uma cesta básica elaborada com base no consumo de uma família paulistana padrão (família com renda média de 10,3 salários mínimos e composta de 4 pessoas que compram em supermercados alimentos, material de limpeza doméstica e higiene pessoal). (PROCONSP, 2010)

Gestão financeira

60

Saiba Mais Para mais informações sobre a metodologia de cálculo e evolução desse indicador, visite dentro do site do PROCONSP: http://www.procon.sp.gov.br Atualmente, a pesquisa é realizada em 70 supermercados do município com o correspondente índice sendo composto por 31 produtos (22 de alimentação, 4 de limpeza doméstica e 5 de higiene pessoal). Atualmente, os valores divulgados pela Cesta Básica têm servido de referência às autoridades governamentais


incumbidas de estabelecer a política salarial, também é usada como parâmetro preventivo de infrações contra a Ordem Econômica fornecendo dados sobre as práticas de mercado quanto à política de preços do setor supermercadista. (PROCONSP, 2010) Taxa Referencial (TR) Entre 1964 e 1986, o indexador oficial era a ORTN (Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional), um título público federal emitido pelo Tesouro Nacional com a característica básica de pagar remuneração corrigida pelos índices inflacionários. O valor unitário do título foi usado como indexador no mercado financeiro e para atualização de ativos e passivos nos balanços patrimoniais das empresas. Em 1986, a ORTN foi substituída pela OTN (Obrigações do Tesouro Nacional) e em 1989 foi substituída pelo BTN (Bônus do Tesouro Nacional). A TR (Taxa Referencial) foi criada no Plano Collor II em 1991 para substituir o BTN com o objetivo de ser o principal índice brasileiro – uma taxa básica referencial dos juros a serem praticados no mês vigente e que não refletissem a inflação do mês anterior. dos CDBs (Certificados de Depósito Bancários) prefixado das trinta maiores instituições financeiras do país, descontada a estimativa de juros reais que compõem estas taxas. Como a taxa desses CDBs incorpora o juro real mais a inflação projetada para o período pelo mercado, teríamos, quando retirada a taxa de juros real, a inflação projetada. Assim cumpria-se o objetivo de quebrar o esquema de cálculo que incorporava a inflação futura na inflação passada. Atualmente, a TR é utilizada no cálculo do rendimento de alguns títulos públicos na correção dos saldos mensais

61 Cálculo Financeiro em Contexto Inflacionário

O cálculo da TR é baseado na média das taxas de juros


da caderneta de poupança, em alguns empréstimos do SFH (Sistema Financeiro da Habitação), em pagamentos a prazo e seguros em geral.

Determinação da Taxa de Inflação A partir de índices de preços Um índice de preços é uma estatística que visa medir a variação relativa de preços de um agregado de bens e serviços em uma sequência de períodos de tempo (CARMO, 2005). Os números-índices servem para facilitar a comparação entre os elementos de uma série de dados (toma-se um valor como base, no qual é atribuído o valor 100, e as comparações são feitas por diversos métodos, sendo o mais comum o aritmético, calculando-se o valor correspondente dos outros dados da série com relação ao valor-base 100). Quando não temos a taxa de inflação em percentual, mas sim a sua evolução em número-índice, podemos medir a inflação da seguinte forma:

I=

Pn

- 1

Pn -1

Gestão financeira

62

I = Taxa de inflação P = índice de preços utilizado para o cálculo da taxa de inflação n = data de determinação da taxa de inflação n-t = período anterior considerado n-1 = índice do mês anterior n-12 = índice do mesmo mês no ano anterior Exemplo: Considere a evolução do IPC do primeiro semestre de 2010. Mês

Jan 2010

Fev 2010

Mar 2010

Abr 2010

Mai 2010

Jun 2010

IPC

722,8287

728,176

730,6534

733,5030

735,1167

735,4107


A inflação verificada no mês de maio é:

I = 735,1167 -1 = 0,0022 = 0,22%

733,5030 A inflação do segundo trimestre do ano (abril-junho) é:

I = 735,1167 -1 = 0,006511 = 0,6511% 733,5030 • Atualização Monetária Usando a taxa de inflação para corrigir valores monetários Considere um bem que custava R$ 4.000 no início de abril. Quanto deve valer ao final do trimestre se for corrigido pelo IPC? Vamos utilizar a taxa de inflação do trimestre, já calculada no exemplo anterior.

Valor corrigido = Valor do bem (1 + taxa de inflação) Valor corrigido do bem = 4.000,00 . (1 + 0,006511) = Valor corrigido do bem = R$ 4.026,04 • Desindexação Representa a retirada da inflação de um valor monetário Considere um bem que custava R$ 6.000 no início de abril. Deflacione o valor das vendas para dois meses antes (base = fevereiro) considerando o IPC.

63 Cálculo Financeiro em Contexto Inflacionário

Valor corrigido do bem = 4.000,00 . (1,006511) =


Taxa de inflação entre fevereiro e abril: I = 733,5030 / 728,1776- 1 = 0,00731 = 0,731%

Valor desindexado

=

Valor do bem (1 + taxa de inflação)

Valor desindexado do bem = 6.000,00 / (1 + 0,00731) = Valor desindexado do bem = 6.000,00 / (1,00731) = Valor desindexado do bem = R$ 5.956,46 Inflação acumulada A inflação tem comportamento exponencial, ou seja, o aumento do preço registrado em um período já incorpora acréscimos apurados nos períodos anteriores. “Da mesma forma que o regime de juros compostos, a formação da taxa de inflação assemelha-se a uma progressão geométrica, verificando-se juros sobre juros” (ASSAF NETO, 2008). A Taxa acumulada pode ser representada pela seguinte fórmula:

Taxa acumulada = [(1+i1).(1+i2).(1+i3)....(1+in)] -1 Sendo: i1 = taxa do período 1, i2 a taxa do período 2 e

Gestão financeira

64

assim por diante. Exemplo: Considere o IGPM dos primeiros meses de 2010: Mês

Jan 2010

Fev 2010

Mar 2010

Abr 2010

Mai 2010

Jun 2010

IGPM

0,63%

1,18%

0,94%

0,77%

1,19%

0,85%

Fonte: FGV

A taxa de inflação do semestre é: Taxa acumulada = [(1+i1).(1+i2).(1+i3)....(1+in)] -1 Tx = [(1+0,0063).(1+0,0118).(1+0,0094).(1+0,0077).(1+0,0119).(1+0,0085)]-1


Tx = (1,0063 . 1,0118 . 1,0094 . 1,0077 . 1,0119 . 1,0085)-1 Tx = (1,0569) – 1 Taxa acumulada = 0,0569 = 5,69% no semestre Inflação Média (Taxa Média) Através do conceito de taxa equivalente podemos encontrar a taxa média de um conjunto de taxas (ou de uma taxa acumulada). Assim: q t

Im = (1+iacum) - 1 Im = Inflação média iacum = inflação acumulada q = período que eu quero t = período que eu tenho (período da taxa acumulada) Calculando a média mensal do IGPM, a partir da taxa semestral encontrada no exemplo anterior, temos: iacum = 5,69% = 0,0569 q = período que eu quero = 1 mês t = período que eu tenho = 1 semestre = 6 meses im = (1+0,0569)1/6 – 1 im = 0,00926 = 0,926% ao mês Taxa de Desvalorização da Moeda (TDM) Quando dizemos que a inflação de um período é 100%, significa que o nível de preços de uma economia dobrou ou que a capacidade de compra das pessoas caiu pela metade. Assim, enquanto a inflação reflete o aumento no nível de preços, a taxa de desvalorização da moeda mede a queda no poder de compra da moeda causado por este aumento no nível de preços (ASSAF NETO, 2010).

65 Cálculo Financeiro em Contexto Inflacionário

im = 1,00926 – 1


TDM

=

INF 1 + INF

TDM = Taxa de desvalorização da Moeda INF = Taxa de Inflação do período Se a taxa de inflação de um período atingiu 25% significa que este percentual representa uma queda na capacidade de compra geral de 20% (TDM = 0,25/1,25). Isso é o mesmo que dizer que no final do período somente podem ser consumidos 80% dos bens e serviços originais. Para que o poder de compra se mantenha e as pessoas possam consumir 100% dos bens e serviços, é preciso que a renda das pessoas seja corrigida em 25%. Uma aplicação prática deste conceito é o cálculo do poder de compra do dinheiro nas operações de venda a prazo. Por exemplo, uma loja vendeu uma mercadoria por R$ 50.000 para recebimento em 90 dias. Se a inflação do período for de 25%, então a perda inflacionária assumida pela empresa na operação atinge os 20% (cálculo da TDM). Esta perda em valores monetários representa R$ 10.000 (R$ 50.000 x 0,20). Este valor pode ser interpretado como o desconto máximo

Gestão financeira

66

que a empresa poderia conceder para pagamento no ato, de modo a tornar equivalente vender à vista ou a prazo.

Taxa de Juros e Inflação Taxa de juros nominal e taxa de juros real A taxa de juros nominal, também chamada de taxa de juro aparente, é aquela que vigora nas operações correntes. A taxa de juros real é a taxa após “descontada” a inflação, ou seja, é o rendimento ou custo de uma operação, calculado depois de expurgados os efeitos inflacionários. A taxa real pode ser determinada pela fórmula:


ir =

(1 + i)

-1

(1 + INF) sendo: ir = taxa de juros real i = taxa de juros aparente INF = taxa de inflação Exemplo: Qual o custo real de um empréstimo contratado a uma taxa de juros de 20% ao ano, considerando que a inflação acumulada nos últimos 12 meses pelo IGPM foi de 7,7702% (setembro/2010)?

ir =

(1 + 0,20)

- 1

(1 + 0,077702) ir = 1,11348 -1 ir = 0,11348 = 11,348% A taxa de juros real pode até ser negativa, se a taxa aparente for inferior à taxa de inflação, o que ocorreu na econode 2000, enquanto a taxa de juros média do CDB foi de 1,16%, a inflação medida pelo IGPM foi de 1,24%, resultando em um rendimento real de - 0,079% [ir = (1,0116/1,0124)-1 = 0,99921- 1 = -0,00079]. Taxa efetiva em moeda nacional para operações em moeda estrangeira Quando efetuamos aplicações ou captação de recursos em moeda estrangeira, a rentabilidade ou custo da operação depende da taxa de juros contratada e da desvalorização (ou valorização) da moeda nacional em relação à moeda

67 Cálculo Financeiro em Contexto Inflacionário

mia brasileira em vários períodos. Por exemplo, em janeiro


estrangeira. Levando-se em consideração estas variáveis, o cálculo da taxa efetiva em moeda nacional de um depósito em moeda estrangeira é dado pela fórmula:

imn = [(1+ime)x(1+itd)] -1 sendo: imn = = taxa efetiva em moeda nacional ime = taxa efetiva em moeda estrangeira itd = taxa de desvalorização da moeda nacional Exemplo: Calcule, em moeda nacional, a rentabilidade efetiva de uma aplicação em dólares contratada à taxa de 1,5% ao mês, considerando uma desvalorização da moeda nacional de 2% ao mês.

imn = [(1+0,015) x (1+0,02)] - 1 imn = [(1,015) x (1,02)] -1 imn = 1,0353 -1 imn = 0,0353 = 3,53% ao mês Operações com taxa de juros pós-fixada Uma das modalidades financeiras mais conhecidas é a chamada renda fixa. Ilude-se quem afirma que a renda fixa tem

Gestão financeira

68

esse nome, porque seu rendimento é completamente conhecido. Isso é parcialmente correto, visto que dentro das operações de renda fixa temos a remuneração pré ou pós-fixada. A diferença básica entre ambas se concentra na forma de compor a taxa: enquanto na modalidade pré-fixada já se sabe antecipadamente qual o rendimento total, na modalidade pós-fixada o rendimento está vinculado ao desempenho de algum índice/ indexador, e com isso, o rendimento total só é conhecido na data do vencimento. Um exemplo de operação pós-fixada é a tradicional caderneta de poupança que rende 6% ao ano mais a atualização monetária pela TR (Taxa Referencial).


Exemplo: Uma empresa efetuou uma aplicação no valor de R$ 49.000,00 em títulos de renda fixa com rentabilidade de 0,6% ao mês mais IGPM iniciada em 01.julho.2010. Como o resgate foi efetuado após 90 dias, calcule o valor resgatado e a taxa mensal média da operação. Mês

Jul 2010

Ago 2010

Set 2010

IGPM

0,15%

0,77%

1,15%

Fonte: FGV

Com os conceitos que aprendemos nesta unidade, podemos resolver este exemplo de várias formas. Uma opção é calcular a taxa acumulada, depois utilizar esta taxa para calcular o rendimento e a taxa média. Passo 1 – Taxa acumulada

Taxa acumulada = [(1+i1).(1+i2).(1+i3)....(1+in)] -1 Taxa acumulada = [(1+0,006)3.(1+0,0015).(1+0,0770).(1+0,0115)]-1 Taxa de inflação dos três períodos

Taxa acumulada = [1,01811.1,0015.1,0077.1,0115]-1 Taxa acumulada = 1,03930 -1 Taxa acumulada = 0,03930 = 3,93% para 90 dias

Passo 2 – Calcular o rendimento

Rendimento = aplicação x taxa acumulada Rendimento = 49.000,00 x 3,93% Rendimento = R$ 1.925,70 Valor resgatado (sem considerar os impostos) = 49.000 + 1.925,70 Valor resgatado = R$ 50.925,70

69 Cálculo Financeiro em Contexto Inflacionário

Taxa da aplicação dos três meses de operação (a juros compostos)


Passo 3 – Taxa mensal média iacum = 3,93% = 0,0393 q = período que eu quero = 1 mês t = período que eu tenho = 90 dias = 3 meses im = (1+0,0393)1,3 - 1 im = 1,01293 - 1 im = 0,01293 = 1,293% ao mês

É HORA DE FIXAR A empresa “Mega Star Ltda” apresentou nos últimos quatro anos os seguintes lucros: (em mil de reais) Mês

2006

2007

2008

2009

Lucro

900

1250

1540

1980

Considerando a inflação do período apurada pelo IGP-DI (em número-índice), calcule: a) o lucro real da empresa a cada ano; b) a taxa de crescimento real do lucro acumulada; Mês

2005

2006

2007

2008

2009

IGP-DI

874,0013

907,1895

978,8430

1.067,9892

1.052,6486

Fonte: FGV

RESOLUÇÃO: Este exercício envolve várias fórmu-

Gestão financeira

70

las aprendidas nesta unidade. O primeiro passo é encontrar a taxa de inflação de cada ano, encontrar o lucro real da empresa a cada ano, calcular a taxa de crescimento deste lucro por período, calcular a taxa acumulada e, por fim, apurar a taxa média de crescimento do lucro real. 1 | Calculando a taxa de inflação número-índice: Ano

Número-índice

Taxa de inflação

2005

874,0013

-

2006

907,1895

(907,1895/874,0013)-1 = 0,037973 = 3,7973%

2007

978,8430

(978,8430/907,1895) -1 = 0,078984 = 7,8984%

2008

1.067,9892

(1.067,9892/978,8430)-1 = 0,091073 = 9,1073%

2009

1.052,6486

(1.052,6486/1.06798,92)-1 = 0,985636 – 1 = - 0,014364 = - 1,4364% (deflação)


2 | Apurando o lucro real Ano

Lucro

Taxa de Inflação

Lucro Real

2006

900

3,7973%

900/(1+0,037973) = 867,07

2007

1250

7,8984%

1.250/(1+0,078984) = 1.158,49

2008

1540

9,1073%

1.540/(1+0,091073) = 1..411,45

2009

1980

-1,4364%

1.980/(1-0,014364) = 2..008,86

3 | Calculando a taxa de crescimento do lucro real: Ano

Lucro

Tx crescimento anual

Tx de crescimento acumulada

2006

867,07

-

2007

1.158,49

(1.158,49/867,07)-1=33,61%

33,61%

2008

1.411,45

(1 411,45/1158,49)-

(1411,45/867,07)-1 = 62,78%

1=21,83% 2009

2.008,86

(2008,86/1411,45)-1=42,33%

(2008,86/867,07)-1 = 131,68%

Obs.: A taxa acumulada também poderia ser calculada pela fórmula: i = [(1+0,3361).(1+0,2183).(1+0,4233)] - 1 i = 2,3168 – 1 = 1,3168 = 131,68%

i = (1+i)q/t – 1 i = (1+1,3168)1/3 – 1 = 1,3232– 1 i = 0,3232

i = 32,32% ao ano

71 Cálculo Financeiro em Contexto Inflacionário

4 | Calculando a taxa média:


R e f e r ênci a s ASSAF NETO, A. Finanças Corporativas e Valor. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010. ASSAF NETO, A. Matemática Financeira e suas aplicações. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2008. BACEN, Banco Central do Brasil. Índices de Preços no Brasil. Série: Perguntas mais frequentes. Brasília, fevereiro 2010. Disponível em: http://www4.bcb.gov.br/pec/ gci/port/ focus/ FAQ02-%C3%8Dndices%20de%20Pre%C3%A7os.pdf. Acesso em 10.out., 2010. CARMO, H. C. E. Como medir a inflação: os números-índices de preços. In: PINHO, D. B.; VASCONCELLOS, M. A. S. Manual de Economia. Equipe de Professores da USP. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 2005. DIEESE, Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. Índice do Custo de Vida do Município de São Paulo. Disponível em: http://www.dieese.org.br/rel/icv/ icv.xml. Acesso em out.2010. IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Sistema Gestão financeira

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Nacional de Preços ao Consumidor. Disponível em: http:// www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/precos/ inpc_ ipca/defaultinpc.shtm. Acesso em out.2010. FIPE, Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas. Índice de Preços ao Consumidor do Município de São Paulo. Disponível em: http://www.fipe.org.br/web/index.asp Acesso em out.2010.


FGV, Fundação Getúlio Vargas. Indicadores de Preços. Disponível em: http://portalibre.fgv.br/main.jsp?lumChannelId=4 02880811D8E34B9011D92AF56810C57. Acesso em out.2010. PROCONSP, Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor de São Paulo. Pesquisas Cesta Básica. Disponível em: http://www.procon.sp.gov.br/categoria.asp?id=111. Acesso em out.2010. SAMANEZ, C. P. Matemática Financeira: aplicação à análise de investimentos. 4. ed. São Paulo: Pearson - Prentice Hall, 2007.

Cálculo Financeiro em Contexto Inflacionário

73


(3)

A nálise das Demonstrações Financeiras


Renata Ferreira

Um gestor financeiro deve orientar suas decisões visando maximizar a riqueza dos acionistas e, para tanto, precisa de informações precisas e atualizadas. Essas informações podem ser internas ou externas. As internas são obtidas nas demonstrações financeiras, que fornecem, por exemplo, informações sobre volume de vendas, contas a receber, contas a pagar, tributos a recolher, outras receitas possíveis, dívidas contraídas, possibilidades de captação e aplicações de recursos. Já as informações externas abrangem os dados sobre o mercado (nacional e internacional), ações da empresa e da concorrência, política econômica, entre outras. Os demonstrativos financeiros são produzidos pela Contabilidade, “ela é o placar das empresas”, pois traduz as


atividades da empresa em “números objetivos que fornecem informações sobre o desempenho, problemas e as perspectivas futuras” (HIGGINS, 2007). Cabe à administração financeira interpretar estes valores contábeis para avaliar o desempenho e planejar ações futuras. A análise das demonstrações financeiras é importante para o diagnóstico empresarial, cuja finalidade é determinar os pontos fortes e pontos críticos da empresa, permitindo a apresentação de um esboço das prioridades para a solução dos problemas. Além disso, através da análise das demonstrações financeiras podemos conhecer os objetivos da empresa e identificar sua política financeira, ou seja, permite uma visão da estratégia e dos planos traçados pela empresa. O objetivo desta unidade é apresentar as ferramentas de análise dos principais demonstrativos financeiros e sua importância para a gestão financeira de uma empresa.

Usuários da Análise das Demonstrações Financeiras Dada sua importância, a análise das demonstrações financeiras interessa a diversos agentes, que interpretarão as informações com objetivos distintos. Os principais agentes são:

Gestão financeira

78

Gestores da empresa

Empregados

Governo

Acionistas

Demosntrações financeiras Concorrentes

Fornecedores e clientes

Credores


• A análise das demonstrações financeiras para os administradores da empresa é vista como um instrumento complementar à tomada de decisão, já que é usada como auxiliar na formulação das estratégias da empresa e no suporte para o controle gerencial. Através desta análise, os gestores identificam os fatores que afetaram a evolução do patrimônio da empresa, avaliam o efeito das decisões anteriores, comparam o desempenho com os concorrentes, confrontam resultados atuais com as metas projetadas, detectam pontos fortes e críticos, estabelecem o que deve ser corrigido, explorado e investido, entre outros. • Para os acionistas, a análise das demonstrações financeiras associada à avaliação do comportamento das ações no mercado de capitais possibilita a avaliação do retorno do investimento (determinado pela valorização das ações nas bolsas e pela distribuição dos dividendos) e a decisão pela compra de venda de ações. Também serve para avaliar a atuação dos ges• Os credores podem ser fornecedores, instituições financeiras, debenturistas etc. Estão preocupados com a situação atual da empresa e procuram obter alguma informação sobre a situação futura, para avaliar a capacidade de pagamento na concessão de crédito. O foco, geralmente, é o grau de endividamento e a liquidez da empresa. Bancos comerciais, que trabalham mais com créditos de curto prazo, dão maior peso para a situação atual. Já os bancos de investimento concedem financiamentos de longo prazo e a concessão destes valores depende da situação futura da empresa tomadora. Nestas operações de crédito, o risco precisa ser

79 Análise das Demonstrações Financeiras

tores que integram o quadro de diretores da empresa.


avaliado de forma rigorosa e os principais instrumentos de informação para tais avaliações são os demonstrativos financeiros. • Os fornecedores utilizam a análise das demonstrações financeiras associadas às perspectivas de seu ramo de negócios para avaliar a capacidade de produção e venda de seu cliente como subsídio para o fornecimento de seus produtos (ou serviços). Também analisam a situação financeira da empresa para a concessão de prazo para pagamento destes produtos (ou serviços). • Já os clientes não utilizam a análise das demonstrações financeiras de forma rigorosa, mas em alguns casos analisam a situação de seus principais fornecedores como garantia para a manutenção do suprimento de matérias-primas. • A análise das demonstrações financeiras dos principais concorrentes permite extrair informações sobre faturamento, margem de rentabilidade das vendas, prazo médio concedido aos clientes, prazo médio Gestão financeira

80

obtido pelos fornecedores, giro de estoques, investimentos, endividamento, liquidez etc. Além de poder analisar a sua situação em relação aos concorrentes, é possível identificar as potencialidades e limitações dos concorrentes, o que é de extrema importância para definir as estratégias de uma empresa. • Os órgãos governamentais utilizam a análise das demonstrações financeiras em diversas situações: na fiscalização fazendária das empresas, no controle de preços, no julgamento das qualificações das empresas participantes de concorrências públicas, no acompanhamento do desempenho de empresas concessionárias de serviços públicos, no acompanhamento


de setores estratégicos da economia (como por exemplo, o setor financeiro e o de seguros) etc. • Os empregados de uma empresa podem usar a análise das demonstrações financeiras para verificar a capacidade de crescimento da empresa, visando a estabilidade no emprego, possíveis promoções e aumentos de salários. Também é interessante conhecer a situação financeira de uma empresa em que se está ingressando ou candidatando-se a uma vaga. • Além dos empregados, os sindicatos e associações de classe se interessam pela análise de demonstrativos financeiros. Os sindicatos, em especial, utilizam esta análise para negociar novos benefícios, aumentos de salários para a categoria etc. As associações de classe, geralmente, utilizam tais análises para elaborar estudos específicos e estabelecimento de padrões e relatórios para as próprias empresas.

Estrutura das Demonstrações Financeiras as práticas contábeis do regime de competência, ou seja, as receitas e gastos são contabilizados quando ocorre o fato gerador e não quando há a efetiva entrada ou saída de caixa. São relatórios anuais obrigatórios, porém sua publicação é obrigatória somente às empresas S/As, o que não impede que toda e qualquer empresa apresente seus relatórios quando necessário. As publicações destes demonstrativos para as empresas S/As são no mínimo anuais, porém as empresas de capital aberto também divulgam trimestralmente. Os resultados apresentados nestes demonstrativos, geralmente, afetam a cotação das ações da empresa na bolsa de valores.

81 Análise das Demonstrações Financeiras

As demonstrações financeiras são elaboradas seguindo


Os principais demonstrativos financeiros são: O Relatório da Administração “É a mensagem descritiva que apresenta a companhia” (LEMES JR et al, 2010). Através deste relatório, a diretoria presta conta aos acionistas sobre o desempenho da empresa, sendo que em alguns casos apresenta as estratégias de crescimento para a empresa, a política de recursos humanos, os investimentos destinados à pesquisa e desenvolvimento, investimentos para expansão, política financeira, planos, previsões etc. O relatório da administração é um direito do acionista, pois lhe possibilita conhecer o desempenho da companhia por meio das informações detalhadas e fidedignas e, assim, avaliar a relação com os objetivos da empresa. Balanço Patrimonial É uma demonstração financeira estática e sintética destinada a evidenciar, qualitativa e quantitativamente, em uma determinada data, a posição patrimonial e financeira da empresa. Conforme a Lei nº 6.404/76, que regulamenta a Sociedade por Ações, o Balanço Patrimonial é constituído

Gestão financeira

82

pelo Ativo, pelo Passivo e pelo Patrimônio Líquido. O Ativo é a parte positiva do balanço e representa o conjunto de bens e direitos do patrimônio e permite analisar como os recursos estão aplicados na empresa, a parte negativa do balanço, denominada Passivo, é representada pelas obrigações que a empresa tem junto a terceiros. O diferencial entre a parte positiva e a negativa é designada de Patrimônio Líquido, o qual representa os recursos próprios da empresa. Quando o valor do Passivo for maior que o valor do Ativo, o resultado é denominado Passivo a Descoberto. Portanto, a expressão Patrimônio Líquido deve ser substituída por Passivo a Descoberto. Com o Decreto-Lei nº 1598/77, as normas para elaboração do Balanço foram estendidas para as demais pessoas


jurídicas, padronizando a classificação e distribuição dos dados e facilitando as análises. Em 2007, foi promulgada a Lei nº 11.638 que representa um importante avanço na atualização da Lei das Sociedades por Ações e harmonização da lei societária em vigor com os princípios fundamentais e melhores práticas contábeis internacionais, visando a inserção do Brasil no atual contexto de globalização econômica. O total das contas registradas no lado esquerdo do balanço patrimonial é equivalente ao total das contas registradas no lado direito do balanço, ou seja:

Equação de equivalência ATIVO

=

PASSIVO

+

PATRIMÔNIO LÍQUIDO

Segundo a Lei 11.638/2007, a estrutura sintética do balanço patrimonial é apresentada no quadro a seguir: Passivo

Ativo Circulante

Passivo Circulante

Ativo Não Circulante

Passivo Não Circulante

Ativo Realizável a Longo Prazo

Patrimômio Líquido

Investimentos Imobilizado Intangível

• Ativo Circulante: Também denominado de capital de giro ou capital circulante; constitui-se no grupo de maior liquidez que se apresenta no ativo da empresa, possuindo duas características: curta duração e rápida conversão de seus elementos. O ativo circulante abrange valores realizáveis no exercício social subsequente, ou seja, é composto pelos bens e direitos que

83 Análise das Demonstrações Financeiras

Ativo


podem ser utilizados a qualquer momento (caixa, bancos, aplicações de liquidez imediata etc.) ou que podem ser realizados no curto prazo (prazo inferior a 360 dias – duplicatas/títulos a receber, duplicatas/títulos descontadas, estoques etc.). • Ativo Não Circulante: São incluídos neste grupo todos os bens de permanência duradoura, destinados ao funcionamento normal da sociedade e do seu empreendimento, assim como os direitos exercidos com essa finalidade. O Ativo Não Circulante é composto pelos seguintes subgrupos: 1. Ativo realizável a longo prazo: Inclui as contas representadas pelos bens e direitos realizáveis após o término do exercício seguinte (prazo superior a 360 dias). Incluem-se também nesta categoria os direitos não derivados de vendas, as operações realizadas com coligadas, controladas, proprietários, sócios, acionistas e diretores. 2. Investimentos: participações em outras socie-

Gestão financeira

84

dades (aquisição de ações e outros títulos de participação societária) com a intenção de mantê-las em caráter permanente, seja para se obter o controle societário, seja por interesses econômicos, entre eles, como fonte permanente de renda. 3. Imobilizado: bens destinados à manutenção da atividade da empresa, caracterizados por apresentar-se na forma tangível (como imóveis, veículos, maquinários e equipamentos, instalações, entre outros). O imobilizado abrange, também, os custos das benfeitorias realizadas em bens locados ou arrendados.


4. Intangível: Os ativos intangíveis compreendem os bens incorpóreos destinados à manutenção da companhia ou exercidos com essa finalidade, inclusive o fundo de comércio adquirido. Como exemplos de intangíveis, os direitos de exploração de serviços públicos mediante concessão ou permissão do Poder Público, marcas e patentes, softwares e o fundo de comércio adquirido (ASSAF NETO, 2010). • Passivo Circulante: Composto de todas as obrigações vencíveis no exercício social seguinte (prazo inferior a 360 dias), como empréstimos, encargos financeiros a pagar, fornecedores, impostos a recolher, entre outros. Também é denominado de capital de terceiros de curto prazo. • Passivo Não Circulante: Obrigações com vencimento após o término do exercício social seguinte, ou seja, com prazo superior a 360 dias. Também denomi• Patrimônio Líquido: É a diferença entre o valor dos ativos e dos passivos. Representa os recursos próprios da empresa, é dividido em: Capital Social, Reservas de Capital, Ajustes de Avaliação Patrimonial, Reservas de Lucros, Ações em Tesouraria e Prejuízos Acumulados. Demonstração do Resultado de Exercício (DRE) A demonstração de resultado do exercício apresenta o desempenho da empresa no período, possibilitando avaliar se houve lucro ou prejuízo. O lucro (ou prejuízo) apurado na DRE é transferido para a conta “Lucros ou Prejuízos Acumulados”, pertencente ao Patrimônio Líquido, com isso,

85 Análise das Demonstrações Financeiras

nado de capital de terceiros de longo prazo.


a DRE é um demonstrativo importante, porque reflete os aumentos e reduções causados no Patrimônio Líquido pelas operações da empresa. A DRE acumula as receitas, os custos e as despesas relativas a um período de tempo a fim de apresentar o resultado líquido. Como os lançamentos seguem o regime de competência, esse demonstrativo retrata apenas o fluxo econômico e não o fluxo monetário (entrada ou saída efetiva do dinheiro), razão pela qual é importante confrontar a DRE com o demonstrativo do fluxo de caixa (DFC). Enquanto o primeiro aponta a capacidade de realização de receita, o segundo permite avaliar a capacidade do caixa em honrar os compromissos (entradas - saídas). A Estrutura da Demonstração do Resultado do Exercício segundo Lei 6404/76, atualizada pela Lei 11.638/07 e Lei 11.941/09 é a seguinte: Demonstração do Resultado do Exercício

Gestão financeira

86

Receita bruta de vendas e serviços (-) Dedução, descontos concedidos, devoluções (-) Impostos sobre vendas = Receita Líquida (-) Custos dos produtos vendidos e dos serviços prestados = Resultado bruto (-) Despesas de vendas (-) Despesas gerais e administrativas (-) Despesas financeiras líquidas (-) Outras receitas operacionais = Resultado operacional (-) Outras despesas (+) Outras receitas = Resultado do exercício antes dos impostos, contribuições e participações (-) Contribuição social (-) Provisão para imposto de renda (-) Participações (-) Contribuições = Lucro líquido do exercício = Lucro por ação


Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL) A legislação das Sociedades Anônimas não exige a publicação desse demonstrativo, porém ele é um importante instrumento de análise que demonstra a movimentação de todas as contas do Patrimônio Líquido ocorridas entre dois balanços independente da origem da variação, seja ela proveniente de aumento de capital, de reavaliações do ativo, de lucros, de correção monetária, ou de simples transferência de contas dentro do próprio Patrimônio Líquido (MATARAZZO, 2010). Sua elaboração é simples e seu conteúdo é mais abrangente que a Demonstração dos Lucros e Prejuízos Acumulados (DLPA), mas como seu objetivo é apenas mostrar a variação nas contas do Patrimônio Líquido, serve muito mais como um instrumento complementar, o que justifica a sua não obrigatoriedade de publicação. Demonstração de Lucros ou Prejuízos Acumulados (DLPA) da conta de lucros ou prejuízos acumulados, no Patrimônio Líquido, integrando o Balanço Patrimonial e a Demonstração de Resultado. Esse demonstrativo deve discriminar: o saldo do início do período e os ajustes de exercícios anteriores; as reversões de reservas e o lucro líquido do exercício; e as transferências para reservas, os dividendos, a parcela dos lucros incorporada ao capital e o saldo ao fim do período. Segundo legislação do Imposto de Renda (art. 274 do RIR/99), a demonstração dos lucros ou prejuízos acumulados é obrigatória para as limitadas e outras sociedades. Já para as companhias abertas, a CVM estabelece a obrigatoriedade da demonstração das mutações do patrimônio líquido (IUDÍCIBUS, 2010). A DMPL pode substituir

87 Análise das Demonstrações Financeiras

A DLPA evidencia as alterações ocorridas no saldo


a DLPA, pois, além de demonstrar a movimentação ocorrida com os lucros ou prejuízos acumulados, apresenta a movimentação das demais contas que integram o patrimônio líquido. Demonstração das Origens e Aplicações de Recursos (DOAR) A demonstração das origens e aplicações de recursos mostra de onde vieram os recursos financeiros utilizados na empresa e onde foram aplicados (qual o seu destino). Este demonstrativo permite avaliar se a empresa fez novos financiamentos, se houve aporte de capital dos sócios ou se gerou recursos próprios, ou seja, a DOAR tem a finalidade de apresentar a posição financeira da empresa no curto prazo, pois demonstra a variação do Capital Circulante Líquido (CCL) em determinado período (IUDÍCIBUS, 2010). O Capital Circulante Líquido é a diferença entre o ativo circulante (disponível, contas a receber, estoques e despesas pagas antecipadamente) e o passivo circulante (fornecedores,

Gestão financeira

88

contas a pagar e outras exigibilidades do exercício seguinte) em determinada data. As informações para elaboração do DOAR são extraídas do balanço patrimonial e da demonstração do resultado do exercício, porém a DMPL também é de grande utilidade, pois as mutações do patrimônio líquido afetam as origens e aplicações de recursos. Até 31.12.2007, a Demonstração das Origens e Aplicações de Recursos (DOAR) era obrigatória para as companhias abertas e para as companhias fechadas com patrimônio líquido superior a R$ 1.000.000 (limite este atualizado pela Lei nº 9.457/97). A partir de 01.01.2008, a DOAR deixou de ser obrigatória com a edição da Lei n° 11.638, de 28 de dezembro de 2007.


Demonstração de Fluxo de Caixa (DFC) A Demonstração de Fluxo de Caixa (DFC), por força da Lei 11.638/2007, passou a ser um relatório obrigatório pela contabilidade para todas as sociedades de capital aberto ou com patrimônio líquido superior a R$ 2.000.000 (dois milhões de reais), substituindo a DOAR. A DFC expõe as informações sobre recebimentos e pagamentos da empresa, em dinheiro, em um dado período de tempo. A DFC compreende principalmente as disponibilidades da empresa, representadas por caixa, bancos e aplicações financeiras de curto prazo (IUDÍCIBUS, 2010). Assim como a Demonstração de Resultados de Exercícios, a DFC é uma demonstração dinâmica e também está contida no balanço patrimonial. Segundo o Portal de Contabilidade (2010), basicamente, o relatório de fluxo de caixa deve ser segmentado em três grandes áreas: 1. Atividades Operacionais (são explicadas pelas receitas e gastos decorrentes da industrializaempresa. Estas atividades têm ligação com o capital circulante líquido da empresa); 2. Atividades de Investimento (são os gastos efetuados no Realizável a Longo Prazo ou no Ativo Permanente, bem como as entradas por venda de ativos imobilizados); 3. Atividades de Financiamento (são os recursos obtidos do Exigível a Longo Prazo e do Patrimônio Líquido. Devem ser incluídos aqui os empréstimos e financiamentos de curto prazo. As saídas correspondem à amortização destas dívidas e os valores pagos aos acionistas a título de dividendos, distribuição de lucros).

89 Análise das Demonstrações Financeiras

ção, comercialização ou prestação de serviços da


Demonstração do Valor Adicionado (DVA) Com a alteração apresentada pela Lei n° 11.638, foi implementada a Demonstração do Valor Adicionado (DVA) como complemento à Demonstração do Resultado do Exercício. Essa nova demonstração tem o objetivo de demonstrar a riqueza gerada pelas entidades e sua distribuição entre funcionários, governo, acionistas e credores. A riqueza gerada pela empresa, medida no conceito de valor adicionado é calculada a partir da diferença entre o valor de sua produção e o dos bens e serviços produzidos por terceiros utilizados no processo de produção da empresa. Segundo Zanluca (2010), a utilização do DVA como ferramenta gerencial pode ser resumida da seguinte forma: i) como índice de avaliação do desempenho na geração da riqueza, ao medir a eficiência da empresa na utilização dos fatores de produção, comparando o valor das saídas com o valor das entradas, e ii) como índice de avaliação do desempenho social à medida que demonstra, na distribuição da riqueza gerada, a participação dos empregados, do Governo,

Gestão financeira

90

dos Agentes Financiadores e dos Acionistas. Notas Explicativas São dados e informações que complementam as demonstrações financeiras para esclarecimento da situação patrimonial e dos resultados do exercício, ou seja, fornecem informações sobre determinada conta, saldo ou transação, ou de valores relativos aos resultados do exercício, ou para menção de fatos que podem alterar futuramente tal situação patrimonial (IUDÍCIBUS, 2010). Segundo Lemes Jr. et al (2010) e Assaf Neto (2010), as notas devem indicar: 1. os principais critérios de avaliação dos elementos patrimoniais, especialmente estoques, dos cálculos


de depreciação, amortização e exaustão, de constituição de provisões para encargos ou riscos, e dos ajustes para atender a perdas prováveis na realização de elementos do ativo; 2. detalhamento dos investimentos relevantes em outras empresas; 3. o aumento de valor de elementos do ativo resultante de novas avaliações; 4. os ônus reais constituídos sobre elementos do ativo, as garantias prestadas a terceiros e outras responsabilidades eventuais ou contingentes; 5. a taxa de juros, as datas de vencimento e as garantias das obrigações a longo prazo; 6. o número, espécies e classes das ações do capital social; 7. os ajustes de exercícios anteriores; 8. detalhamento de contas agrupadas no balanço, tais como despesas financeiras líquidas, ativo imobilizado etc.; dendo mínimo obrigatório; e 10. os eventos subsequentes à data de encerramento do exercício que tenham, ou possam vir a ter, efeito relevante sobre a situação financeira e os resultados futuros da companhia. Parecer dos Auditores Independentes Todas as empresas de capital aberto são obrigadas a publicar, com suas demonstrações financeiras, o parecer dos auditores independentes. Os Auditores independentes são contadores que, sem vínculo empregatício, são contratados para emitir opiniões sobre a correção e veracidade das demonstrações financeiras

91 Análise das Demonstrações Financeiras

9. cálculo do lucro e do dividendo por ação, e do divi-


(MATARAZZO, 2010). Assim, os auditores verificam os controles interno da empresa, conferem lançamentos e conciliações contábeis e financeiras, de modo a atestar se as demonstrações estão dentro dos princípios contábeis em utilização no país e se esses princípios foram aplicados de forma consistente em relação ao período anterior.

Análise de Desempenho Empresarial A análise das demonstrações financeiras, ou “análise de Balanços”, visa o estudo do desempenho econômico-financeiro de uma empresa em determinado momento e é desenvolvida mediante a aplicação de técnicas simples e bastante difundidas, como:

Índices Econômico-financeiros

92

Os principais demonstrativos utilizados na aná-

Gestão financeira

Análise das demonstrações financeiras

Análise vertical e horizontal

lise econômico-financeira de uma empresa são o Balanço Patrimonial e a Demonstração do Resultado do Exercício. Análise Vertical e Horizontal “É uma das técnicas mais simples de aplicação e, ao mesmo tempo, mais importante no que se refere à riqueza das informações geradas para a avaliação do desempenho empresarial refere-se à análise horizontal e vertical” (ASSAF NETO, 2010). Análise Vertical • Baseia-se em valores percentuais das demonstrações financeiras;


• Calcula-se o percentual de cada conta em relação a um valor-base; • No Balanço: 1. Calcula-se o percentual de cada conta em relação ao total do Ativo; 2. Fornece indicadores que facilitam a avaliação da estrutura do ativo e das suas fontes de financiamento. 3. No Ativo permite analisar a política da empresa em relação a estoques, duplicatas a receber, imobilizado e no Passivo permite visualizar a política financeira de obtenção dos recursos. 4. Mostra qual o percentual dos recursos totais foi destinado ao Ativo Circulante e quanto ao Ativo Permanente, permitindo comparar a empresa com seus concorrentes e identificar se a alocação dos recursos é típica do setor ou ramos de atividade. Exemplo: No comércio é que em Imobilizado, se uma empresa comercial apresentar situação inversa é preciso investigar as causas desta situação. • No Demonstrativo de Resultados: 1. Calcula-se o percentual de cada conta em relação às vendas (receita operacional líquida). 2. Possibilita avaliar a participação de cada elemento na formação do lucro ou prejuízo da empresa. 3. Cada item pode ser controlado em função do seu percentual em relação às vendas. Como

93 Análise das Demonstrações Financeiras

maior o investimento em Ativo Circulante do


o percentual do lucro líquido em relação às vendas é pequeno, o controle das despesas é de grande relevância, pois qualquer alteração afeta o lucro gerado (qualquer aumento percentual nas despesas é indesejável). Por isso, muitas empresas controlam rigorosamente estes percentuais através do estabelecimento de metas. Análise Horizontal • Mostra a evolução no tempo de cada elemento específico. É realizada a partir de um conjunto de balanços e demonstrações de resultados consecutivos. • Análise Horizontal Encadeada: 1. Calculada em relação a uma demonstração financeira básica (geralmente a mais antiga da série - técnica dos números-índices. Neste caso, todas as contas do ano-base são iguais a 100 e através da regra de três calcula-se os

Gestão financeira

94

valores para os anos seguintes. • Análise Horizontal Anual: 1. Calculada em relação à demonstração anterior. Não substitui o processo encadeado, apenas pode ser usada como complementação. • No Balanço mostra em quais itens do Ativo a empresa vem dando ênfase na alocação de seus recursos e, comparativamente, de quais recursos adicionais se vem valendo, já que permite identificar o crescimento de cada componente do Ativo e do Passivo. • Sob condições inflacionárias, os dados da análise horizontal estarão distorcidos e deverão ser ajustados


com a utilização de um indexador que reflita adequadamente as variações de preço para a empresa. A homogeneização pode ser realizada para que ocorra uma deflação dos valores para a data-base. ATENÇÃO! Isoladamente estas duas técnicas poderão induzir a erros de avaliação ou encobrir fatos importantes. Conjuntamente, essas técnicas se completam e permitem identificar os elementos merecedores de uma investigação mais profunda. Por exemplo, uma conta pode ter apresentado uma variação de 200% pela análise horizontal e continuar sendo um item irrelevante dentro da demonstração financeira, já que na análise vertical representa apenas 1% do total do seu grupo. Ao contrário, um aumento de 20% em uma conta que representa 80% do seu grupo é um fato relevante. As duas análises em questão permitem localizar pontos específicos de falhas, problemas e características da itens das demonstrações financeiras é sinal de estabilidade e segurança. A excessiva flutuação representa elevação no risco empresarial e a análise vertical/horizontal pode detectar isso. Exemplo: Considere o Balanço Patrimonial e o Demonstrativo de Resultado da Empresa “Primeiros Passos S/A” para os exercícios de 2009 e 2010. Análise Vertical - Dividir todas as contas pelo total do Ativo. Exemplo: Disponibilidades = 50.000/1.500.00 = 0,0333 = 3,33%

95 Análise das Demonstrações Financeiras

empresa. A regularidade de comportamento de diversos


Empresa Primeiros Passos S/A (Reais Mil) Ativo

2010

AV

AH

2009

AV

AH

Disponibilidades

50.000

3,33%

125,00

40.000

3,33%

100

Créditos/contas a receber

500.000

33,33%

131,58

380.000

31,67%

100

Estoques

220.000

14,67%

122,22

180.000

15,00%

100

Outros ativos

20.000

1,33%

133,33

15.000

1,25%

100

790.000

52,67%

128,46

615.000

51,25%

100

110.000

7,33%

129,41

85.000

7,08%

100

Investimentos

150.000

10,00%

125,00

120.000

10,00%

100

Imobilização

350.000

23,33%

126,00

280.000

23,33%

100

Intangível

100.000

6,67%

100,00

100.000

8,33%

100

Subtotal

710.000

47,33%

121,37

585.000

48,75%

100

Ativo Total

1500000

100,00%

125,00

1200000

100,00%

100

Ativo circulante

Subtotal

Ativo Não circulante Realizável a longo prazo Contas a receber

Gestão financeira

96


Análise Horizontal - Dividir cada conta de 2010 pela sua correspondente de 2009 (ano-base) Exemplo: Fornecedores = 300.000/250.000 = 1,20 = 120 2009 = 100 - 2010 = 120 - Indica um crescimento de 20% na conta fornecedor no período. Empresa Primeiros Passos S/A 2009

AV

AH

222,22

45.000

3,75%

100

20,00%

120,00

250.000

20,83%

100

220.000

14,67%

110,00

200.000

16,67%

100

1200.00

8,00%

114,00

105.000

8,75%

100

740.000

49,33%

123,33

600.000

50,00%

100

200000

13,33%

160,00

125000

10,42%

100

97

200.000

13,33%

160,00

125000

10,42%

100

Capital social realizado

300.000

20,00%

100,00

300.000

25,00%

100

Reservas de capital e de lucros

100.000

6,67%

133,33

75.000

6,26%

100

Lucros e Prejuízos acumulados

160.000

10,67%

160,00

100.000

8,33%

100

Análise das Demonstrações Financeiras

(Reais Mil) Passivo

2010

AV

AH

Empréstimos e financiamentos

100.000

6,67%

Fornecedores

300.000

Contas apagar Impostos, taxas e contribuições

560.000

37,33%

117,89

475.000

39,58%

100

1500000

100,00%

125,00

12000000

100,00%

100

Ativo circulante

Subtotal

Passivo Não circulante Empréstimos e Financiamentos Subtotal Patrimônio Líquido

Passivo total


Análise Vertical - Dividir todas as contas pela receita líquida. Exemplo: Custos = -300.000/600.000 = -0,5 = -50% O Custo do produto vendido ou do serviço prestado consumiu 50% da receita líquida da empresa em 2010. Empresa Primeiros Passos S/A (Reais Mil)

Gestão financeira

98

Demonstrativo de resultado

2010

AV

AH

2009

AV

AH

Receita bruta de vendas e serviços

800.000

133,33%

123,08

650.000

131,58%

100

(-) Impostos sobre vendas

(200000)

-33,33%

128,21

(156000)

-31,58%

(100)

(=) Receita líquida

600.000

100,00

121,46

494.000

100,00%

100

(-) Custos de bens e serviços

(300000)

-50,00%

115,38

(260000)

-52,63%

(100)

(=) Resultado bruto

300.000

50,00

128,21

234.000

47,37%

(100)

(-) Despesas/receitas operacionais

(220000)

-36,67%

129,41

(170000)

-34,41%

(100)

Com vendas

(60.000)

-10,00%

120,00

(50.000)

-10,12%

(100)

(50000)

-8,33%

125,00

(40.000)

-8,10%

(100)

80.000

-13,33%

133,33

(60.000)

-12,15%

(100)

(30.000)

-5,00%

150,00

(20.000)

-4,05%

(100)

(=) Resultado operacional

80.000

13,33%

125,00

64.000

12,15%

100

(+) Resultado não operacional

20.000

3,33%

200,00

10.000

2,02%

100

(-) Resultado antes tributação

100.000

16,67%

135,14

74.000

14,98%

100

(-) Provisão para IR e contribuição

(15.000)

-2,50%

135,14

(11.100)

-2,25%

(100)

Lucro/prejuízo do exercício

85.000

14,17%

135,135

62.900

12,73%

100

Gerais e adm. Finaceiras Outras despesas Operacionais


Análise Horizontal - dividir cada conta de 2010 pela sua correspondente de 2009 (ano-base) Exemplo: Lucro Líquido = 85.000/62.900 = 1,35135 = 135,135 2009 = 100 - 2010 = 135,135 Indica um crescimento do lucro da empresa de 35,135% Índices Econômico-Financeiros “Índice é a relação entre contas ou grupos de contas das Demonstrações Financeiras, que visa evidenciar determinado aspecto da situação econômica ou financeira de uma empresa” (MATARAZZO, 2010). Os índices constituem a técnica de análise mais empregada em ‘Análise das Demonstrações Financeiras’. Podemos dividir a análise através dos índices em grupos: Liquidez Situação financeira

Endividamento

Situação econômica

Rentabilidade

Gestão de caixa ou ativos

Atividade

99

Índices de Liquidez Estes índices permitem avaliar a capacidade da empresa de honrar os seus compromissos, ou seja, em constituir fundos que sejam capazes de amortizar as despesas no curto e longo prazo. Os índices de liquidez não são extraídos do fluxo de caixa que comparam entradas e saídas de dinheiro; são índices que, a partir do confronto de ativos com dívidas, procuram medir quão sólida é a base financeira da empresa.

Análise das Demonstrações Financeiras

Índices


Uma empresa com bons índices de liquidez tem capacidade de pagar suas dívidas, mas não estará, obrigatoriamente, pagando suas dívidas em dia em função de outras variáveis como prazo, renovação de dívidas etc. (MATARAZZO, 2010). Os principais indicadores são: Liquidez Geral

LG

=

Ativo circulante + Realizável a longo prazo Passivo circulante + Passivo não circulante

Retrata a saúde financeira a longo prazo da empresa. Um índice de liquidez geral superior a 1 indica que a empresa consegue pagar todas as suas dívidas (de curto e de longo prazos) e ainda dispõe de uma “folga” de recursos, entretanto, um índice inferior a 1 revela que a empresa não conseguiria pagar, naquela data, a totalidade de suas dívidas; para quitar suas dívidas terá que utilizar recursos investidos em outras contas do Ativo, como, por exemplo, em Imobilizado. Isto não significa que a empresa esteja em insolvência, já que as dívidas de longo prazo não vencem de imediato e

Gestão financeira

100

que até o seu vencimento a empresa poderá gerar recursos. Liquidez Corrente

LS

=

Ativo circulante - Estoques Passivo circulante

Verifica a capacidade da empresa em honrar seus compromissos de curto prazo por meio de suas disponibilidades financeiras, de contas a receber e dos estoques. Um índice de liquidez corrente superior a 1 indica que a empresa consegue pagar todas as suas dívidas de curto com os investimentos de curto prazo, ou seja, indica a existência de um capital circulante (capital de giro). Um indicador inferior a 1 revela que a empresa não possui investimentos


de curto prazo suficientes para quitar seus compromissos de curto prazo, ou seja, indica a existência de um capital de giro líquido negativo. Liquidez Seca

LS

=

Ativo circulante - Estoques Passivo circulante

Os estoques não apresentam, normalmente, liquidez compatível com os demais itens do grupo circulante, afinal, nem sempre é tão rápido vender os estoques. Visando extrair a baixa liquidez dos estoques (item de maior risco no ativo circulante), criou-se o indicador de liquidez seca. O risco dos estoques deriva da possibilidade de roubo, obsolescência, deterioração e de não serem vendidos e, portanto, de não serem convertidos em dinheiro, não servindo para o pagamento das dívidas. É um risco que depende da empresa, do mercado e da conjuntura econômica. Assim, a liquidez seca mede o volume de dívidas de culantes de alta liquidez. Liquidez Imediata

LI

=

Disponibilidade Passivo circulante

Também chamado de índice de caixa, reflete o volume de dívidas de curto prazo que pode ser saldado imediatamente pela empresa, utilizando suas disponibilidades de caixa. É o menos importante dos indicadores de liquidez.

101 Análise das Demonstrações Financeiras

curto prazo que pode ser pago mediante o uso de ativos cir-


Exemplo: Calculando os indicadores de liquidez para a empresa “Primeiros Passos S/A”. Índices de Liquidez

Fórmula

2010

2009

Variação

Liquidez geral

(AC+RLP)/(PC+PNC)

0,957

0,966

-0,84%

Liquidez corrente

AC/PC

1,068

1,025

4,15%

Liquidez Seca

(AC-estoque)/PC

0,770

0,725

6,24%

Liquidez imediata

Disponibilidades/PC

0,068

0,067

1,35%

Índices de Endividamento Os índices deste grupo mostram as grandes linhas de decisões financeiras em termos de obtenção de recursos. Os principais indicadores são: Endividamento Geral

EG

=

Capital de terceiros x 100 Ativo total

Capital de terceiros = Passivo circulante + Passivo não circulante Mostra o percentual de dependência de recursos de

Gestão financeira

102

terceiros para financiar o ativo. É um bom indicador de risco para a empresa. Elevadas proporções neste índice revelam que a empresa se encontra excessivamente endividada. Podemos desmembrar este indicador em dois: • Endividamento de Curto Prazo: Mostra a porcentagem dos recursos totais da empresa que é financiada por recursos de terceiros de curto prazo.

EGcp =

Capital de terceiros x 100 Ativo total

• Endividamento de Longo Prazo: Mostra o percentual do patrimônio da empresa que é financiada por recursos de terceiros de longo prazo.


Capital não circulante x 100 Ativo total

EGlp =

Participação de Capitais de Terceiros

PCT =

Passivo circulante + Passivo não circulante x 100 Patrimônio líquido

Indica quanto a empresa possui de dívidas em relação aos recursos próprios pertencentes aos acionistas. Em geral, um índice superior a 100% evidencia desequilíbrio entre as duas fontes de financiamento do Ativo, mostrando o risco ou a dependência a terceiros, ou seja, do ponto de vista financeiro quanto maior este índice, maior a dependência do capital de terceiros. Composição do Endividamento

CE

=

Passivo circulante x 100 Passivo circulante + Passivo não circulante

Representa o volume de dívidas que deve ser pago no ticipação das dívidas de longo prazo. Por exemplo, se o índice for de 40%, indica que 40% das exigibilidades deverão ser pagas no próximo exercício e 60% são dívidas de longo prazo. Exemplo: Calculando os indicadores de endividamento para a empresa “Primeiros Passos S/A” Índices de endividamento

Fórmula

2010

2009

Variação

Endividamento geral

(PC+PNC)/AT

62,67%

60,42%

3,72%

Endiv. de curto prazo

PC/AT

49,33%

50,00%

-1,33%

Endiv. de longo prazo

PNC/AT

13,33%

10,42%

28,00%

Participação de cap. de terc.

(PC+PNC)/PL

167,86%

152,63%

9,98%

Composição do endiv.

PC/(PC+PNC)

78,72%

82,76%

-4,88%

103 Análise das Demonstrações Financeiras

curto prazo. Subtraindo esse índice de 100% encontra-se a par-


Índices de Rentabilidade Os índices deste grupo mostram qual a rentabilidade dos capitais investidos, ou seja, visam medir o quão eficientemente a empresa usa seus ativos e administra suas operações. Segundo Assaf Neto (2010), “uma análise baseada exclusivamente no valor absoluto do lucro líquido traz normalmente sério viés de interpretação ao não se refletir se o resultado gerado no exercício é condizente ou não com o potencial econômico da empresa”, daí a importância de se trabalhar com os indicadores de rentabilidade. Índice de Lucratividade Também

chamado

de

Margem

de

Lucro

ou

Rentabilidade das Vendas. Mede a eficiência da empresa em produzir lucro por meio de suas vendas. Pode ser apurado em termos de lucratividade, bruta, operacional e líquida. • Índice de lucratividade bruta: Permite avaliar, percentualmente, o lucro bruto em relação à receita líquida da empresa, ou seja, qual o percentual de sobra após descontados os custos dos produtos ou serviços

Gestão financeira

104

vendidos.

ILb

=

Lucro bruto Receita líquida

x 100

• Índice de lucratividade operacional: mede o percentual do lucro operacional em relação à receita operacional da empresa, permitindo conhecer a lucratividade antes da incidência do imposto de renda e da contribuição social.

Lop

=

Lucro operacional Receita líquida

x 100


• Índice de lucratividade líquida: é o indicador mais usado da eficiência global da empresa. Indica quanto a empresa obtém de lucro para cada R$ 100 vendidos, ou seja, quanto realmente restou para a empresa depois de descontados todos os gastos e tributos.

IL

=

Lucro líquido Receita líquida

x 100

Rentabilidade do Ativo (ou Retorno sobre o Investimento Total) Também conhecido como ROA, do inglês Return on total assets. Este índice mostra quanto a empresa obteve de lucro líquido em relação ao Ativo. É uma medida do potencial de geração do lucro da parte da empresa, ou seja, mede a capacidade que os ativos apresentam de gerar lucros.

ROA =

Lucro líquido Ativo total

x 100

Rentabilidade do Patrimônio Líquido Equity. Mede a relação do lucro líquido em relação ao patrimônio líquido (capital próprio investido). O papel deste indicador é mostrar qual a taxa de rendimento do capital próprio, e por isso é de grande importância para o acionista da empresa, já que pode ser comparado com a taxa de outros rendimentos alternativos no mercado, como Caderneta de Poupança, CDBs, Ações, Aluguéis etc. Pode-se avaliar se a empresa oferece rentabilidade superior ou inferior a essas opções.

ROE =

Lucro líquido x 100 Patrimônio líquido

105 Análise das Demonstrações Financeiras

Também conhecido como ROE, do inglês Return on


Exemplo: Calculando os índices de Rentabilidade para a empresa “Primeiros Passos S/A” Índices de rentabilidade

Fórmula

2010

2009

Variação

Lucratividade bruta

LB/LR

50,00%

47,37%

5,56%

Lucratividade operacional

LO/LR

13,33%

12,96%

2,92%

Lucratividade líquida

LL/LR

14,47%

12,73%

11,26%

Retorno sobre ativo (ROA)

LL/AT

5,67%

5,24%

8,11%

Retorno sobre patrimônio

LL/PL

15,18%

13,24%

14,62%

Índices de Atividade Os indicadores de atividade visam “a mensuração das diversas durações de um ciclo operacional, o qual envolve todas as fases operacionais típicas de uma empresa, que vão desde a aquisição de insumos básicos ou mercadorias até o recebimento das vendas realizadas” (ASSAF NETO, 2010). Compra

Prazo médio estoque

Gestão financeira

106

Vende

Recebe

Prazo médio contas a receber

Dias

Ciclo operacional Paga

Prazo médio fornecedor

Ciclo financeiro

Ciclo Operacional = Prazo Médio dos Estoques + Prazo Médio Contas a Receber Ciclo Financeiro = Ciclo Operacional - Prazo Médio Fornecedor Prazo Médio de Estoque (PME)


Mensura o período médio necessário para a completa renovação dos estoques, ou seja, mede o tempo médio em que os estoques se transformam em vendas.

Lucro líquido Ativo total

ROA =

x 360

Obs.: Estoque médio = (estoque final ano 1 + estoque final ano anterior)/2 Um prazo maior de estocagem acarreta na necessidade de maiores investimentos no ativo, o que representa um fator redutor de seu retorno. Prazo Médio de Recebimento (PMR) Destaca a administração das contas a receber de uma empresa, visto que revela o tempo médio que a empresa despende em receber suas vendas a prazo.

Contas a receber x 360 Receita bruta de vendas

É um prazo bastante importante, na medida em que enquanto uma empresa vende e não recebe, está gerando um crédito ao cliente, e esse crédito é, na ótica da empresa, algo que tem que ser financiado. Assim, quanto mais baixo o prazo médio de recebimento, maior a eficiência da empresa na sua cobrança. Prazo Médio de Pagamento (PMP) Mensura o período médio de pagamento das dívidas (compras a prazo) de fornecedores.

PMP =

Fornecedores Compras

x 360

Compras = Custo das Mercadorias Vendidas - Estoque Inicial + Estoque Final

107 Análise das Demonstrações Financeiras

PMR =


Assim, quanto mais elevado o prazo médio de pagamento, maior a fatia da atividade da empresa que é financiadas pelos fornecedores. Exemplo: Calculando os indicadores de atividade para a empresa “Primeiros Passos S/A”: Obs.: considere o estoque final de 2008 de $ 150.000 Índices de atividade

Fórmula

2010

2009

Variação

Prazo médio de estoque

(estoque médio/CPV) x360

240

228

5,05%

Prazo médio de contas a receber

(contas rec/ RB)x360

225

210

6,91%

Prazo médio de fornecedores

(fornecedor/ compras)x360

318

310

2,35%

OBS: estoque médio = (est. inicial + est. final)/2

200.000

165.000

compras = custo produto vendido - est. inicial + est. final

340.000

290.000

Matarazzo (2010) destaca que a análise através de índices financeiros é genérica, relaciona grandes itens das

Gestão financeira

108

demonstrações financeiras e permite dar uma avaliação à empresa. A análise vertical e horizontal dá um detalhamento que permite localizar pontos específicos de falhas, problemas, características da empresa e explicar os motivos de a empresa estar em determinada situação. Daí a importância de se trabalhar com todas essas técnicas em conjunto. Aviso Importante Como nosso objetivo é analisar os demonstrativos financeiros como um todo, nosso relatório será descritivo e por ser o primeiro, detalhado. Procuraremos descrever as principais contas.


Em vermelho colocaremos algumas observações que não pertecem a um relatório comum, mas que estão apontadas no exercício para facilitar a localização das informações para estudo. É HORA DE FIXAR Considere a análise vertical, análise horizontal e os índices econômico-financeiros da empresa nos anos de 2010 e 2009 calculados ao longo desta unidade para a empresa “Primeiros Passos S/A”. Produza um relatório destacando os principais pontos observados na análise dos demonstrativos desta empresa. Obs.: Não existe um modelo padrão de relatório. Cada analista o confecciona conforme seus objetivos (conceder crédito, por exemplo). Alguns fazem na forma de texto, outros na forma de tópicos, podem considerar todos os índices ou apenas os índices mais relevantes para o objetivo da análise. RESOLUÇÃO: Sugestão de relatório Houve um crescimento de 25% no Ativo Total da 2010). O Ativo circulante cresceu 28,46% (passando de 615.000 para 790.000), elevando sua participação no total do patrimônio da empresa (antes correspondia a 51,25% e em 2010 passou para 52,67%). Os créditos/contas a receber são a conta mais significativa do Ativo circulante, visto que correspondem a 33,33% do total do patrimônio. Os estoques, apesar do crescimento de 22,22% (antes eram 180.000 e passaram para 220.000) tiveram uma pequena queda na representatividade dentro patrimônio da empresa, passando de 15% em 2009 para 14,67% em 2010. O Ativo Não Circulante também contribuiu para o aumento no patrimônio, visto que sofreu uma elevação de 21,37% (em 2009 era 585.000 e em 2010 passou para 710.000).

109 Análise das Demonstrações Financeiras

Empresa (passando de 1.200.000 em 2009 para 1.500.000 em


Apesar deste crescimento, a representatividade dentro do ativo total sofreu uma ligeira redução, passando de 48,75% para 47,33%. Esta redução ocorreu pela queda da participação do Intangível (mesmo com a manutenção do seu valor monetário em 100.000, a participação passou de 8,33% em 2009 para 6,67% em 2010). O Passivo Circulante sofreu queda, passando de 50% para 49,33% do total do Passivo, em decorrência da redução na participação das contas a pagar. O nível de endividamento geral da empresa aumentou em virtude da elevação nos empréstimos de curto e de longo prazos (ver indicadores de endividamento). O endividamento geral da empresa mostra que 62,67% dos recursos foram obtidos de terceiros, enquanto o capital próprio financia apenas 37,33% do ativo total (mostrado pelo Patrimônio Líquido que em 2009 era 39,58% e em 2010 passou para 37,33%). Além disso, cabe ressaltar que a empresa possui um Capital Circulante Líquido (Ativo Circulante - Passivo Circulante) positivo, o que mostra que a empresa é capaz de

Gestão financeira

110

saldar suas dívidas de curto prazo com seus recursos disponíveis também no curto prazo (perceptível pelos indicadores de liquidez, especialmente a liquidez corrente). As vendas brutas cresceram 23,08% no período e ocorreu uma pequena e importante redução nos custos dos produtos vendidos, os quais passaram de 52,63% para 50% de absorção das vendas, fatos que levaram a um aumento no lucro bruto (índice de lucratividade bruta – em 2009 era 47,37% e em 2010 passou para 50%). As despesas operacionais, por sua vez, sofreram um aumento de 29,41%, passando a consumir 36,67% das vendas líquidas. Mesmo com o aumento nas despesas, a lucratividade operacional sofreu elevação (índice de lucratividade operacional: 2009 = 12,96%; 2010 = 13,33%, o


que mostra que as operações da empresa trouxeram aumento na rentabilidade). O aumento na rentabilidade operacional, associado à ampliação das receitas não operacionais, resultou .em um aumento na margem líquida de lucro, que passou de 12,73% em 2009 para 14,17% em 2010. Merece destaque o aumento na rentabilidade do ativo e dos acionistas (ver ROA e ROE).

R e f e r ênci a s ASSAF NETO, A. Finanças Corporativas e Valor. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010. GITMAN, L. Princípios de Administração Financeira. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley Brasil, 2010. HIGGINS, R.C. Análise para Administração Financeira. 8. ed. Rio de Janeiro: Mc Graw Hill, 2007.

2009. LEMES JR., A. B. et al. Administração Financeira: princípios, fundamentos e práticas brasileiras. 3. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2010. MATARAZZO, D. C. Análise Financeira de Balanços – abordagem básica e gerencial. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2010. PORTAL DE CONTABILIDADE. A DFC – Demonstração dos Fluxos de Caixa. Disponível em: http://www.portaldecon-

111 Análise das Demonstrações Financeiras

IUDÍCIBUS, S. Análise de Balanços. 10. ed. São Paulo: Atlas,


tabilidade.com.br/tematicas/ademonstracaodosfluxos.htm. Acesso em out.2010. ZANLUCA, J. C. Demonstração do Valor Adicionado. Disponível em: http://www.portaldecontabilidade.com.br/tematicas/demonstracaodovalor.htm. Acesso em out.2010.

Gestão financeira

112


Análise das Demonstrações Financeiras

113


(4)

Ponto de EquilĂ­brio e Alavancagem


Renata Ferreira

Uma variação na receita das empresas pode trazer mudanças significativas nos lucros, afinal um dos passos para ter mais lucros é vender mais. Porém, quando uma empresa aumenta suas vendas, o lucro não necessariamente acompanha este crescimento. O lucro pode crescer em proporção maior ou menor ao crescimento das vendas (como pode até cair), dependendo do comportamento de outras variáveis como custos e despesas. O comportamento dos custos fixos funciona como uma alavanca: o aumento da receita em proporção superior ao crescimento dos custos fixos impulsiona o lucro, já que se consegue “uma força de deslocamento superior àquela aplicada na outra extremidade da alavanca” (BRAGA, 1995). Este efeito é chamado em finanças de Alavancagem. Alavancagem é produto do uso de ativos ou fundos a custo fixo para multiplicar retornos para os proprietários da empresa (GITMAN, 2010).


Geralmente, quanto maior o efeito da alavancagem, maior o retorno e o risco. O grau de alavancagem tem relação direta com o retorno dos acionistas, já que a estrutura de capital da empresa (combinação entre capital próprio e capital de terceiros) interfere na composição das despesas, especialmente das despesas financeiras, o que produz alavancagem, o que pode afetar significativamente o valor da empresa. O objetivo desta unidade é apresentar os tipos de alavancagem e seus efeitos sobre os resultados da empresa. Inicialmente percorreremos o conceito e a análise do ponto de equilíbrio, que auxiliam no estabelecimento das bases para os conceitos de alavancagem, pois ambos os conceitos utilizam as relações entre custo, volume de vendas e lucro.

Ponto de Equilíbrio Conceitos e Aplicações A análise do ponto de equilíbrio permite verificar como

Gestão financeira

118

o lucro é afetado pelas variações nos elementos que compõem a receita de vendas, custo e despesas. O ponto de equilíbrio (ou break even point) pode ser definido como o ponto no qual a receita de vendas cobre todos os custos, ou seja, a empresa não tem lucro nem prejuízo. Este ponto indica o mínimo de receita gerada para que a empresa não sofra prejuízo.


No ponto de equilíbrio > Lucro = 0 assim: Receita Total = Custo Total Receita total = custos fixos + custos variáveis Receita representa o volume total de vendas (ou faturamento da empresa). É dada pela quantidade vendida multiplicada pelo preço unitário cobrado. Receita Total: RT = p.Q Custos fixos são aqueles que permanecem constantes em certo período de tempo independente do volume de produção e vendas. Custos variáveis são aqueles que aumentam ou diminuem proporcionalmente com as flutuações no volume de vendas. Custo Total: CT = CF + CV = CF + CVu.Q CVu = custo variável unitário No ponto de equilíbrio: RT = CT dependem de Q: p.Q - CVu.Q = CF > tirando o Q em evidência: Q (p-CVu) = CF > isolando o Q:

Q = CF (p-CVu)

Fórmula do ponto de equilíbrio (determinação do vol. de vendas em quantidade)

Em muitas situações é importante calcular o ponto de equilíbrio monetário. A fórmula neste caso é:

Fórmula do ponto de equilíbrio PEn = CF monetário (determinação do vol. de 1-(CV/RT) vendas em dinheiro)

119 Ponto de Equilíbrio e Alavancagem

p.Q = CF + CVu.Q > agrupando os elementos que


Exemplo: Considere o Demonstrativo de Resultado da empresa “GF S/A”: Vendas líquidas

(20000 unidades)

(-) custo do produto vendido

R$ 400000,00 (R$ 240.000)

(=) Lucro bruto

R$ 160.000

(-) Despesas operacionais Despesas de vendas

R$ 60.000

Despesas administrativas

R$ 40.000

(R$ 100.000)

(=) Lucro líquido

R$ 60000

Os custos e as despesas foram analisados e assim classificados: Descrição

Custo fixo (R$)

Custo variável (R$)

Custo total (R$)

Custo do produto vendido

Gestão financeira

120

Materiais

0

100.000,00

100.000,00

Mão de obra

0

90.000,00

90.000,00

Custos indiretos

10.000,00

40.000,00

50.000,00

Despesas de vendas

15.000,00

45.000,00

60.000,00

Despesas administrativas

35.000,00

5.000,00

40.000,00

Total

60.000,00

28.0000,00

340.000,00

O ponto de equilíbrio monetário será: PEs =

CF = 60.000 = 60.000 = R$ 200.000 1-(CV/RT) 1- (280.000/400.000) 1-,07 Isso significa que a empresa tem que obter um fatura-

mento de R$ 200.000 para que seu lucro seja zero. Qualquer venda inferior a este valor resultará em prejuízo. Em termos de volume de vendas (em unidades) o ponto de equilíbrio será: No DRE é possível calcular: Preço unitário = 400.000/20.000 unidades = R$ 20 Custo Variável unitário = 280.000/20.000 unidades = R$ 14


Q=

CF = 60.000 (p - CVu) (20-14)

= 60.000 = 100.000 unidades 6

Ou ainda: Q = Ponto de equilíbrio monetário/preço de venda Q = 200.000,00/20,00 = 10.000 unidades Construindo o gráfico:

Você Sabia? Você sabia que (p-CVu) é chamado de Margem de Contribuição? A margem de contribuição tem a faculdade de tornar mais visível a potencialidade de cada produto, mostrando como cada um contribui para o resultado operacional, ou seja, para, primeiramente, amortizar os gastos fixos e, depois, formar o lucro propriamente dito. É um importante conceito na gestão financeira, porque os custos indiretos fixos são distribuídos por produto através de rateio e, conforme a base escolhida para fazer tal divisão, um produto pode receber uma “carga de custo fixo” maior, comprometendo seu lucro unitário. Veja nas reportagens a seguir duas situações que retratam o break-even point: Agronegócio: Perspectivas de boas margens em 2010/11 reanimam o campo

Ponto de Equilíbrio e Alavancagem

121


A quebra das safras do norte da Europa pela seca aliada a custos menores e subsídios do governo federal serão a “ponte” para atravessar um ano que se desenhava negativo em termos de preços e rentabilidade. O faturamento bruto do setor deve subir 1%, chegando próximo do recorde de 2008. E as exportações em 12 meses superaram a marca histórica de US$ 72 bilhões. “O cenário é positivo, mas depende de análises individuais”, diz o diretor de Agronegócio do Banco do Brasil, José Carlos Vaz. “No Centro-Oeste, os mais capitalizados vão investir e os mais endividados vão pagar. No Sul, quem não for afetado pela seca fará o mesmo. Se perder até 15% ou 20%, o preço vai compensar eventual quebra”. (...) Agora, o “mercado de clima” da América do Sul influencia a bolsa de Chicago, o que serve em parte como um “seguro” para o produtor brasileiro. Na soja, já houve ganhos even” (ponto de equilíbrio) à rentabilidade. “O Cerrado agora

Gestão financeira

de R$ 4 a R$ 7,50 no campo, o que levou produtores do “break 122

está em um momento único, em particular Mato Grosso. Os projetos de logística em andamento dão nova perspectiva. E a agroindústria vai propagar projetos por todo o Estado, buscando matéria-prima na origem e escoamento mais barato”, avalia o economista Fernando Pimentel, da AgroSecurity (...) As boas margens projetadas para a nova safra nacional de grãos, fibras e cereais devem elevar a renda dos produtores, aumentar os investimentos no setor rural e reduzir o endividamento no campo. ABAV 2010 – Costa do Sauípe quer ser rentável em dois anos Após o reposicionamento da marca, o Costa do Sauípe, complexo hoteleiro baiano, quer atingir seu ponto de equilíbrio em 2012. “O maior desafio é macroeconômico e está


relacionado ao valor atual do dólar – que deixa o país caro para o estrangeiro e facilita a viagem de brasileiros para o exterior”, conta Eduardo Giestas, diretor presidente. “Por outro lado, a inserção de novos consumidores com potencial de mercado e o crescimento do setor corporativo e de eventos devem nos ajudar a recuperar a rentabilidade a médio prazo”, ressalta. Giestas lembra ainda que os grandes eventos esportivos que o país irá receber serão extremamente benéficos para a promoção do Brasil no mundo. O executivo está otimista também por conta do comportamento dos agentes. Somos muito gratos à receptividade do trade, que tem muita simpatia pelo nosso produto e comprou essa nova ideia que implantamos”, agradece (...) Você sabia que existem três tipos de ponto de equilíbrio? O conceito de ponto de equilíbrio que apresentamos até aqui é eminentemente contábil, visto que trata as receitas, rarmos apenas os custos e despesas efetivos, descontando as

123

despesas não desembolsáveis (como a depreciação, que não

Ponto de Equilíbrio e Alavancagem

custos e despesas pelo regime de competência. Ao conside-

representa saída de caixa), encontramos o Ponto de Equilíbrio Financeiro. Já o Ponto de Equilíbrio Econômico considera além dos custos fixos, o custo de oportunidade dos recursos, exigindo um lucro mínimo que remunere adequadamente o capital dos acionistas. Assim: Ponto de equilíbrio contábil Ponto de equilíbrio financeiro Ponto de equilíbrio econômico

Q=

CF (p - CVu) Q = CF - depreciação p - CVu Q = CF + retor mínimo do pl p - CVu

Ponto de Equilíbrio com dois ou mais produtos A fórmula básica do ponto de equilíbrio contempla apenas um produto. Porém, no mundo atual uma empresa não


produz e vende um único produto (ou serviço), sua receita é fruto de uma variedade de produtos e os gestores precisam elaborar estratégias que considerem a pauta dos produtos vendidos. Quando se tem mais de um produto, pode-se trabalhar com o ponto de equilíbrio monetário, descobrindo qual o faturamento mínimo que é necessário para que os custos sejam cobertos e distribuir este volume monetário por produto. É uma forma mais simples de trabalhar com o conceito de break-even. Há também a forma mais detalhada que trabalha as quantidades de cada produto, neste caso, é preciso utilizar o conceito de margem de contribuição. Considere como exemplo o caso da empresa “ABC S/A”, que produz e vende três produtos distintos, cujos preços e custos são: • Produto A: preço de venda = R$ 60 Custo variável = R$ 40

Gestão financeira

124

• Produto B: preço de venda = R$ 75 Custo variável = R$ 35 • Produto C: preço de venda = R$ 95 Custo variável = R$ 45 A empresa pretende distribuir sua produção da seguinte forma: 40% produto A, 30% para o produto B e 30% para o produto C. Os custos fixos totalizam R$ 175.000. Para calcular o ponto de equilíbrio precisamos encontrar a Margem de Contribuição de cada produto e depois a Margem de Contribuição Média. Preço (p)

Custo variável (Cvu)

Margem de contribuição (MC = p - Cvu)

%

MC . %

Produto A

60,00

40,00

20,00

40%

8,00

Produto B

75,00

35,00

40,00

30%

12,00

Produto C

95,00

45,00

50,00

30%

15,00

Margem de contribuição média

35,00


Calculando o ponto de equilíbrio: Q=

CF = (p - CVu)

{

50 unidades

175.000 35

= 5.000 unidades

40% produto A = 2.000 unidades 30% produto B = 1.500 unidades 30% produto C = 1.500 unidades

Elaborando o Demonstrativo de Resultado para a empresa ABC S/A: Receita

Produto A = 2000 x 60 = 120.000 Produto B = 1500 x 75 = 11.2500,00 Produto C = 1500 x 95 = 14.2500,00

(-) custo variável

375.000,00

Produto A = 2000 x 40 = 80.000,00 Produto B = 1500 x 35 = 52.500,00

(=) margem de contribuição (-) Custo fixo (=) Lucro

(200000,00) 175.000,00 (175000,00) 0

Análise do Ponto de Equilíbrio para decisões gerenciais A análise do Ponto de Equilíbrio pode ser usada para ajudar a gestão a selecionar uma ação quando várias alternativas existirem. É possível testar propostas que afetam o volume de vendas, os custos variáveis, o custo fixo, ou até uma combinação desses elementos, usando a equação básica para o ponto de equilíbrio para calcular os resultados (VANDERBECK; NAGY, 2001). Assim, a análise do ponto de equilíbrio pode ser usada para se determinar o lucro zero e para elaborar estratégias que envolvam lucro. Considerando a possibilidade de lucro, o volume de vendas (em dinheiro e em quantidade) pode ser calculado pelas fórmulas:

125 Ponto de Equilíbrio e Alavancagem

Produto C = 1500 x 45 = 67.500,00


Lucro em dinheiro:

Q

=

Custo fixo (preço - custo variável)

Lucro em %:

Vendas

=

Custo fixo

(

(

1 - custo variável total + lucro receita total Exemplo:

A Empresa “Maria Fumaça S/A” é especializada em trens em miniatura. O preço de venda de cada trem é R$ 500, os custos variáveis totalizam R$ 350 por unidade e os custos fixos totalizam R$ 500.000 mensais. Gestão financeira

126

a) Qual a quantidade de vendas para resultar em um lucro de R$ 100.000 mensais? Q

=

Custo fixo + lucro (preço - custo variável)

=

600.000

= 4.000 unidades

(500 + 350)

Demonstrativo: Receita (-) Custo variável

4000 unidades x 500,00 4000 unidades x 350

(=) Margem de contribuição (-) Custo fixo) (=) Lucro

2.000.000,00 (1.400.00,00) 600.000,00 (500.000,00) 100.000,00

b) Qual a quantidade de vendas para resultar em um lucro de 10% sobre as vendas?


Vendas =

(

1-

Custo fixo

=

500.000

( (

custo variável total + lucro receita total

1-

(

=

R$ 2.500.000,00

350 + 0,10 500

Como o preço unitário é R$ 500, podemos descobrir a quantidade: RT = P.Q assim Q = 2.500.000,00/500,00 = Q = 5.000 unidades Demonstração: Receita

5000 unidades x 500,00

(-) Custo variável

5.000 unidades x 350

(=) Margem de contribuição

2.500.000,00 (1.750.00,00) 750.000,00

(-) Custo fixo)

(500.000,00) 250.000,00

Margem de lucro = lucro/receita = 250.000/2.500.000 = 0,10 = 10%

Tipos de Alavancagem A alavancagem é um instrumento de gestão financeira que pode trazer efeitos positivos ou negativos. Isso decorre da existência de custos/despesas fixas. Para compreender tais efeitos é importante conhecer os três tipos de alavancagem: operacional, financeira e a combinada (ou total). Demonstrativo de resultado Alavancagem operacional Alavancagem total ou combinada Alavancagem financeira

(-) Custo do produto vendido (=) Lucro bruto (-) Despesas operacionais (=) Lucro antes dos juros e IR (LAJIR) (-) Despesas financeiras (=) Lucro antes do IR (LAIR) (-) Imposto de Renda (IR) (=) Lucro líquido

127 Ponto de Equilíbrio e Alavancagem

(=) Lucro


Alavancagem Operacional A alavancagem operacional resulta da existência de custos operacionais fixos na estrutura de resultados da empresa. Quando a empresa aumenta suas vendas, haverá menor carga de custos e despesas fixas sobre cada unidade vendida, provocando um acréscimo em maiores proporções no Lucro Antes dos Juros e Imposto de Renda (LAJIR). Exemplo: A empresa “New Age S/A” vende seu produto por R$ 25 a unidade. Os custos variáveis unitários totalizam R$ 10 e os custos e despesas fixas totalizam R$ 12.000. Atualmente, a empresa tem um volume de vendas anual de 2.000 unidades e está projetando um crescimento de 25% para o próximo ano. Qual o efeito sobre o LAJIR? DRE Receita (-) Custo variável

Gestão financeira

128

Para 2000 unid. 50.000,00

Para 2500 unid. + 25%

62.500,00

(20.000,00)

(25.000,00

(=) Lucro bruto

30.000,00

37.500,00

(-) Custos fixos

(12.000,00)

(=) LAJIR

18.000,00

(12.000,00) + 41,67%

25.500,00

Como o LAJIR cresceu em proporção maior que o crescimento das vendas, dizemos que ocorreu Alavancagem Operacional. Inversamente, a queda nas vendas provocará “substancial redução no LAJIR que poderá transformar-se em prejuízo operacional na eventualidade de o volume situar-se abaixo do ponto de equilíbrio” (BRAGA, 1995). O grau de alavancagem operacional é a medida do impacto da alavancagem operacional sobre os lucros operacionais da empresa e pode ser mensurado pela fórmula: No exemplo da empresa “New Age S/A”:

GAO = Lucro bruto LAJIR

ou

% lucro operacional % quantidade vendida


Concluímos que uma variação nas receitas provocará um impacto igual a 1,667 no LAJIR. Por exemplo, se ao invés de um crescimento projetado de 25% a empresa planejasse um crescimento nas vendas de 10%, o impacto sobre o LAJIR será de 16,67% (10% x 1,667). Quando a variação percentual do LAJIR é superior à variação percentual das vendas, temos alavancagem operacional. Isso significa que, toda vez que GAO > 1 há alavancagem operacional. Em algumas situações, a alavancagem operacional é chamada de Risco do Negócio. O risco do negócio está relacionado com as variações do LAJIR, pois isto “implicaria maior risco da margem de contribuição ser insuficiente para cobrir os custos operacionais fixos, prejudicando a rentabilidade e a liquidez da empresa” (BRAGA, 1995). Além disso, o GAO pressupõe que permanecem inaltefixos, o que nem sempre acontece quando ocorrem flutuações na

129

quantidade vendida. Outra situação comum é a dificuldade de

Ponto de Equilíbrio e Alavancagem

rados o preço de venda, o custo variável unitário e os custos

repassar ao preço de venda aumentos nos custos operacionais. Alavancagem Financeira A alavancagem financeira resulta da existência de despesas financeiras. As despesas financeiras não dependem diretamente do volume de vendas e produção, mas sim, do volume de empréstimos e financiamentos e da taxa de juros. Com isso, as despesas financeiras classificam-se como custos/despesas fixos e com tal, podem provocar efeitos de alavancagem. O LAJIR deve ser suficiente para cobrir as despesas financeiras e ainda gerar o lucro antes do imposto de renda (LAIR). Quando a empresa possui despesas financeiras pode se beneficiar de um crescimento mais que proporcional no lucro líquido, dado um crescimento no lucro antes dos juros e do imposto de renda (LAJIR).


Exemplo: Voltando ao caso da empresa “New Age S/A”. Considere que as despesas financeiras totalizam R$ 9.000 e que o Imposto de Renda é de 15%. Qual o efeito do aumento das vendas de 2.000 para 2.500 unidades sobre o lucro líquido? DRE

Para 2000 unid.

Receita (-) Custo variável

50.000,00

Para 2500 unid. + 25%

(20.000,00)

(=) Lucro bruto

30.000,00

(-) Custos fixos

(12.000,00)

62.500,00 (25.000,00) 37.500,00 (12.000,00)

(=) LAJIR

18.000,00

(-) despesas financ.

(9.000,00)

(9.000,00)

9.000,00

16.500,00

(=) LAIR (-) Imposto de renda (=) Lucro líquido

+ 41,67%

(1.350,00) 7.650,00

25.500,00

(2.475,00) +83,33%

14.025,00

Como o Lucro líquido cresceu em proporção maior que o cresO grau de alavancagem financeira mede os efeitos pro-

Gestão financeira

cimento do LAJIR, dizemos que ocorreu Alavancagem Financeira. 130

vocados sobre o lucro líquido pelas variações no LAJIR e pode ser calculado pela fórmula:

GAF = LAJIR LAJIR

ou

% lucro operacional % LAJIR

No exemplo da empresa “New Age S/A”:

GAF = 18.000 = 2 vezes GAF = 83,33% = 2 vezes ou 9.000 41,67% Concluímos que mantendo constante as despesas financeiras, um aumento no LAJIR provocará um impacto 2 vezes maior no Lucro líquido. Assim, toda vez que GAF > 1 há alavancagem financeira.


Um GAF alto indica a existência de elevadas despesas financeiras para o LAJIR considerado, isto implica em maior risco. Assim, risco financeiro está relacionado com a possibilidade de o LAJIR ser insuficiente para cobrir as despesas financeiras, o que afeta diretamente a rentabilidade e a liquidez da empresa. Alavancagem Total ou Combinada A Alavancagem Total é o potencial de custos fixos, operacionais e financeiros, utilizado para aumentar o efeito das variações nas vendas sobre o lucro líquido, ou seja, é o efeito acumulado das alavancagens operacional e financeira sobre o risco da empresa. A mensuração da alavancagem total é dada pela fórmula:

GAT =

% lucro líquido % volume de vendas

Exemplo: Calculando a alavancagem total da empresa “New Age S/A”:

GAT = GAO x GAF = 1,667 x 2 = 3,333 vezes

GAT =

% lucro líquido

% volume de vendas

= 83,33% = 3,333 vezes 25%

Isso significa que se o volume de vendas sofrer variações, o lucro líquido da empresa flutuará 3,33 vezes. Por exemplo, se o crescimento projetado das vendas for de 15%, o lucro líquido crescerá aproximadamente 50% (GAT = 15% x 3,333).

131 Ponto de Equilíbrio e Alavancagem

GAT = GAO x GAF ou


Desempenho Operacional e Alavancagem Financeira Na mensuração dos três tipos de alavancagem são levados em conta vários conceitos de lucro: Lucro Antes dos Juros e Imposto de Renda (LAJIR), correspondente ao inglês Earning Before Interest and Taxes (EBIT); Lucro Antes do Imposto de Renda (LAIR) e o lucro líquido. Sob a ótica da administração financeira, o lucro líquido depende das decisões de investimento (decisões de ativo) e de financiamento (decisões de passivo) e representa o resultado do acionista. Por isso, na análise de rentabilidade, o conceito que tem mais sentido é relacionar o lucro líquido com o capital de propriedade dos acionistas (o Patrimônio Líquido). Já o lucro operacional é formado pelas atividades operacionais da empresa, independente da forma como são financiadas, e por isso deve se relacionar com o os ativos da empresa quando se pretende analisar o retorno sobre o investi-

Gestão financeira

132

mento total (ASSAF NETO, 2010). Vimos que a alavancagem financeira pode ser medida pela relação entre a variação percentual do lucro líquido e a variação percentual no lucro operacional (LAJIR). O lucro líquido se relaciona com a rentabilidade do patrimônio líquido (ROE) e o lucro operacional com a rentabilidade do ativo (ROA). Assim, existe uma relação direta entre a alavancagem financeira e a rentabilidade da empresa.

GAT = GAO x GAF ou

GAT =

% lucro líquido % volume de vendas

Exemplo: A empresa “Pop Star S/A” desenvolverá um projeto cujo investimento inicial é de R$ 500.000. O resultado operacional esperado para este projeto é de 20% ao ano e existem duas opções para financiamento do projeto: a) 100% com capital próprio e,


b) 50% com capital próprio e 50% com capital de terceiros (financiamento bancário com juros de 10% ao ano). Com financiamento

500.000,00

250.000,00

0

250.000,00

A. Investimento total (A+B)

500.000,00

500.000,00

A. Resultado operacional (20% de C)

100.000,00

100.000,00

A. Capital próprio A. Capital de terceiros

A. Juros (10% de B)

0

25.000,00

100.000,00

75.000,00

A. ROA - Rentabilidade do investimento

20%

20%

A. ROE - Rentabilidade do patrimônio (F/A)

20%

30%

1

1,5%

A. Resultado após os juros (D-E)

A. Alavancagem financeira (H/G)

A rentabilidade do capital próprio cresceu de 20% para 30% com a utilização de capital de terceiros, isso gerou o pagamento de despesas financeiras e proporcionou uma alavancagem financeira positiva (GAF>1). Isso ocorre toda vez que a rentabilidade do capital próprio (ROE) for maior que a rentabilidade do investimento (ROA) e quando o custo do capital de terceiros (neste caso 10% - juros) for menor que o resultado operacional (ROA = 20%). Agora considere que o resultado operacional seja de 8%. Sem financiamento

Com financiamento

500.000,00

250.000,00

0

250.000,00

A. Investimento total (A-B)

500.000,00

500.000,00

A. Resultado operacional (8% de C)

40.000,00

40.000,00

0

25.000,00

40.000,00

15.000,00

A. ROA - Rentabilidade do investimento (D/C)

8%

8%

A. ROE - Rentabilidade do patrimônio (F/A)

8%

6%

1

0,75%

Itens A. Capital próprio A. Capital de terceiros

A. Juros (10% de B) A. Resultado após os juros (D-E)

A. Alavancagem financeira (H/G)

133 Ponto de Equilíbrio e Alavancagem

Sem financiamento

Itens


Saiba Mais Você sabe o que é EBITDA? EBITDA (Earning Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization) ou LAJIDA (Lucro Antes dos Juros, Impostos, depreciação e amortização do diferido) – é um indicador financeiro equivalente ao fluxo operacional de caixa, é calculado pela soma do lucro operacional antes do imposto de renda (LAJIR) e as despesas não desembolsáveis (como a depreciação, que é uma despesa contábil, mas não uma saída efetiva de caixa), evidenciando a capacidade financeira da empresa em remunerar os proprietários do capital (credores e acionistas).

A rentabilidade do capital próprio caiu de 8% para 6% com a utilização de capital de terceiros, o que proporcionou uma alavancagem financeira negativa (GAF<1). Isso ocorre toda vez que a rentabilidade do capital próprio (ROE) for menor que a rentabilidade do investimento (ROA) e quando maior que o resultado operacional (ROA = 8%). Neste caso,

Gestão financeira

o custo do capital de terceiros (neste caso 10% - juros) for 134

a empresa paga para cada R$ emprestado mais do que rende seu investimento no negócio, então os acionistas “bancam” esta diferença com sua parte de lucro. Este exemplo permite identificar que o custo da dívida também interfere na alavancagem financeira e que o retorno dos acionistas é o índice mais importante na análise de resultados. O retorno sobre o Ativo e o custo da dívida são informações gerenciais de como a empresa atingiu o retorno sobre o patrimônio líquido, ou seja, são fundamentais para definição de estratégias empresariais. Incorporando o custo da dívida na análise temos a seguinte relação:

ROE = ROA + (ROA -k) x PE/ROA


ROE = Retorno sobre o patrimônio Líquido ROA = Retorno sobre o Investimento k = Custo da dívida = DF/PE (despesas financeiras/ passivo que gerou essa despesa) PE = Passivo gerador de encargos financeiros PL = Patrimônio Líquido Esta fórmula mostra o efeito que a estrutura de capital e os juros pagos produzem sobre os lucros finais, informando se esta estrutura está beneficiando ou não os acionistas, ou seja, se está gerando alavancagem financeira positiva. A rentabilidade do patrimônio líquido (ROE) pode ser totalmente diversa da taxa de retorno do Ativo e, em certos casos, até oposta, dependendo do custo da dívida e de sua proporção em relação ao Patrimônio Líquido. Matarazzo (2010) conclui ao analisar esta situação que, “às vezes vale mais uma boa administração financeira que uma boa atividade operacional”. vancagem financeira é a seguinte:

GAF = ROA + (ROA - k) x PE/PL ROA Voltando ao exemplo da empresa “Pop Star S/A” • Com um resultado operacional de 20%: GAT = 20% + (20% - 10%) x 250.000/250.000 = 20% + 10% = 1,5 20% 20%

Podemos desmembrar a equação: – Os 20% primeiros equivalem à taxa que o próprio patrimônio líquido, com seus recursos, está obtendo de lucro. – Os 10% (20% - 10%) são a diferença entre as duas taxas, de captação e de aplicação, que neste caso representa

135 Ponto de Equilíbrio e Alavancagem

Considerando esta relação, a fórmula completa da ala-


uma sobra que os recursos de terceiros estão deixando para o patrimônio líquido. – O terceiro item, 250.000/250.000, significa que os capitais de terceiros são 1 vez o capital próprio. Esta relação entre passivo originador dos encargos e patrimônio líquido é chamada por alguns autores de Multiplicador da alavancagem financeira. • Com um resultado operacional de 8%: GAT = 8% + (8% - 10%) x 250.000/250.000 = 8% + 10% = 0,75 8% 8%

Estes exemplos mostram que a empresa deve recorrer a capital de terceiros quando a taxa de retorno do ativo é maior do que o custo da dívida. Ao utilizar recursos de terceiros, a empresa paga os encargos desta opção, que representa a substituição aos encargos que teria com os proprietários pela remuneração do capital de risco. “A capacidade que a

Gestão financeira

136

empresa tem de administrar os recursos, próprios e/ou de terceiros, e com isso maximizar os lucros por ação, é a administração da alavancagem financeira” (MATARAZZO, 2010). Assim, o estudo da alavancagem financeira busca a melhor composição entre capital de terceiros e capital próprio e analisa o retorno dos acionistas mediante variações na estrutura de capital.

É HORA DE FIXAR: A Cia. Padrão está desenvolvendo um projeto de expansão de suas atividades. O investimento total previsto é de R$ 1.250.000. Tais recursos serão financiados 40% com capital próprio e o restante com capital de terceiros, através da obtenção de um financiamento bancário com taxa de 20% ao ano. A empresa pretende vender a mercadoria produzida neste projeto por R$ 13/unidade. O custo variável unitário é de R$ 5 e os custos/despesas fixos operacionais (sem


as despesas financeiras) totalizam R$ 350.000. Sabendo que a empresa projeta uma venda de 80.000 unidades, calcule: (obs.: para efeitos de simplificação esta empresa está isenta do pagamento de Imposto de Renda) a) A alavancagem financeira (pelo conceito de retorno do capital). Pela ótica da alavancagem, vale a pena captar este montante de recursos de terceiros? b) O ponto de equilíbrio. RESOLUÇÃO: a) Calcular a alavancagem financeira: Elaborar o DRE: Demonstrativo de resultado Receita

80.000 unid.x13,00

1.040.000,00

(-) Custo variável

80.000 unid.x5,00

(400.000,00)

(=) Margem de contribuição

640.000,00 (350.000,00)

(=) Lucro operacional (LAJIR)

290.000,00

(-) despesas financeiras

750.000x20%

(=) lucro líquido

(150.000,00) 140.000,00

Calcular os retornos e a alavancagem: Itens A. Capital próprio (40%)

500.000,00

B. Capital de terceiros (60%)

750.000,00

C. Investimento total (A+B)

1.250.000,00

D. Resultado operacional (LAJIR)

290.000,00

E. Juros (20% de B)

150.000,00

F. Resultado após os juros (D-E)

140.000,00

G. ROA - Rentabilidade do investimento (D/C)

23,20%

H. ROE - Rentabilidade do patrimônio (F/A)

28,00%

I. Alavancagem financeira (H/G)

1,21

137 Ponto de Equilíbrio e Alavancagem

(-) Custo fixo operacional


O projeto proporciona uma rentabilidade do investimento superior ao custo da dívida pela captação de recursos bancários. Isso gera uma alavancagem que é refletida no retorno sobre o patrimônio líquido, então, sob esta ótica, vale a pena a captação de 60% de capital de terceiros para financiar o projeto. b) Ponto de Equilíbrio: P = 13,00 CVu = 5,00 CF = Custo fixo operacional + despesas financeiras CF = 350.000,00 + 150.000,00 = 500.000,00 Q

=

CF p - Cvu

=

500.000

= 62.500 unidades

13-5

A empresa precisa vender 62.500 unidades para obter unidades (está 28% acima do ponto de equilíbrio), terá um

Gestão financeira

um lucro igual a zero. Como a projeção de venda é de 80.000 138

lucro de R$ 140.000, o que representa uma lucratividade líquida de 13,46% (IL = LL/Vendas = 140.000,00/1.040.000,00 = 0,1346).

R e f e r ênci a s ASSAF NETO, A. Finanças Corporativas e Valor. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010. BRAGA, R. Fundamentos e Técnicas de Administração Financeira. São Paulo: Atlas, 1995. GITMAN, L. Princípios de Administração Financeira. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley Brasil, 2010. HIGGINS, R. C. Análise para Administração Financeira. 8. ed. Rio de Janeiro: Mc Graw Hill, 2007.


LEMES JR., A.B. et al. Administração Financeira: princípios, fundamentos e práticas brasileiras. 3.ed. Rio de Janeiro: Campus, 2010. MATARAZZO, D. C. Análise Financeira de Balanços – abordagem básica e gerencial. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2010. VANDERBECK, E. J.; NAGY, C. F. Contabilidade de Custos. 11. ed. São Paulo: Thomson Learning, 2001. ZANATTA, M. Valor Econômico. Agronegócio. 15. out., 2010. Disponível em: http:// clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2010/10/15/perspectivas-de-boas-margens-em-2010-11-reanimam-o-campo COSTA, A. ABAV 2010 – Feira das Américas – Notícias de mercado. 22. out., 2010. Disponível em: http://www.hoteliernews.com.br/ HotelierNews/Hn.Site.4/Imprimir.aspx? Noticia=61224&Midia=1

Ponto de Equilíbrio e Alavancagem

139


(5)

P lanejamento Financeiro e Orรงamento de Caixa


Renata Ferreira

Com a economia global, o mundo dos negócios busca inovações para a manutenção da competitividade, além de organização para perceber e estar preparado para as oportunidades de mercado. Não existe mais espaço para amadorismos e para improvisações. É preciso ser profissional e atentar-se às variações econômicas, políticas, sociais e culturais que ocorrem em território nacional e global e mais ainda, entender como tais mudanças podem afetar o seu negócio. Henri Fayol (1841-1925), idealizador da Teoria Clássica da Administração, foi o primeiro a definir as cinco funções do Administrador: Planejar, Organizar, Comandar, Coordenar e Controlar (também conhecidas como PO3C): • Prever e planejar (prévoir - visualizar o futuro e traçar o programa de ação);


• Organizar (organiser – ato de compor a estrutura funcional da empresa); • Comandar (commander - dirigir e orientar o pessoal e a organização). É a função que mais sofreu transformações, sendo atualmente chamada de Liderança; • Coordenar (coordonner - unir e harmonizar os atos e esforços da empresa em torno de seu objetivo); • Controlar (contrôler - verificar se as ações estão ocorrendo dentro das normas estabelecidas). O planejamento, que aparece como a primeira função administrativa, é um processo contínuo e dinâmico que consiste em um conjunto de ações intencionais, integradas, coordenadas e orientadas para tornar realidade um objetivo

Gestão financeira

144

futuro, de forma a possibilitar a tomada de decisões antecipadamente. O processo de planejamento ocorre em todas as áreas da empresa, inclusive na financeira. O planejamento financeiro é um subsidiário do planejamento estratégico, responsável por prever as necessidades de recursos monetários da empresa, a fim de atender os planos de produção e vendas, além de adotar as correções necessárias e traçar planos alternativos caso algo planejado não ocorra. Nesta unidade, temos como objetivo: aprofundar os conceitos e a importância do planejamento financeiro, identificar as características do planejamento de curto e longo prazos, estudar o orçamento como instrumento de planejamento e controle financeiro, detalhar o orçamento de caixa, que é a principal ferramenta de planejamento de curto prazo, destacando o método dos recebimentos e pagamentos.

Planejamento e Controle O planejamento empresarial constitui um processo sistemático e contínuo de tomada de decisões no presente para


concretização de objetivos futuros, ou seja, planejar não significa decisões futuras, mas, sim, as implicações futuras de decisões presentes. Planejar é “estabelecer com antecedência as ações a serem executadas, estimar os recursos a serem empregados e definir correspondentes atribuições de responsabilidades em relação a um período futuro determinado, para que sejam alcançados os objetivos traçados para uma empresa” (SANVICENTE; SANTOS, 2000). Assim, planejar significa definir antecipadamente: O que

O que se deseja alcançar, ou seja, os objetivos das ações definidas

Como

Como será feito, ou seja, a forma pela qual as ações serão desenvolvidas

Com que

Com que será feito, ou seja, quais recursos serão utilizados

Quando

Quando será feito, ou seja, os prazos de execução e conclusão de cada etapa

Por quem

Por quem será feito, ou seja, os responsáveis pela execução e controle das etapas do plano

Oliveira (2002) afirma que o processo de planejamento é mais importante do que seu produto final. O produto final do processo de planejamento, normalmente, é o plano, sendo que este deve ser desenvolvido “pela” empresa e não “para” a empresa. Esse aspecto deve ser respeitado para não se desenvolver planos inadequados bem como restrições e resistência à sua implementação. Essa característica permite concluir que o planejamento é um trabalho em equipe que exige esforço criativo, com ideias consistentes e passíveis de realização.


Existem três tipos de planejamento: 1 | Estratégico Destina-se a preparar a empresa para condições conjunturais previstas em um período de tempo mais amplo, é de responsabilidade da alta administração e afeta a empresa como um todo; 2 | Tático Destina-se a otimizar determinada área de resultado e não a empresa em seu conjunto, trabalha, portanto, com o detalhamento dos objetivos definidos no planejamento estratégico e, 3 | Operacional Destina-se à definição de metas específicas a serem cum-

Gestão financeira

146

pridas pelas unidades operacionais da empresa, essas metas devem proporcionar o equilíbrio entre as áreas e contribuir para o atingimento dos objetivos de longo prazo. O planejamento proporciona uma visão geral da empresa e, ao mesmo tempo, permite conhecer detalhadamente cada área que a compõe, ou seja, permite trabalhar o ambiente geral e o ambiente específico, o que possibilita o aperfeiçoamento da utilização dos recursos (físicos, humanos, naturais e monetários). As metas e padrões estabelecidos no planejamento precisam ser acompanhados para que ações corretivas sejam implantadas quando necessário, com o intuito de elimina deficiências e o aprimorar as atividades operacionais da empresa. É aí que entra o Controle. O controle pode ser definido como uma função do processo administrativo que, mediante a comparação com padrões estabelecidos, procura medir e avaliar o desempenho e resultado das ações. Tem a finalidade de “realimentar os tomadores de decisões, de forma que possam corrigir ou


reforçar o desempenho das ações ou interferir em funções do processo administrativo, para assegurar que os resultados satisfaçam às metas e aos objetivos estabelecidos”. (OLIVEIRA, 2002). O controle possui 4 fases: Informação é o estabelecimento de padrões de desempenho e sua transmissão aos envolvidos no plano

Informação

Feedback

Ação é a correção dos parâmetros necessários para que os objetivos sejam atingidos

Controle

Decisão

Ação

Decisão parte da observação do desempenho e monitoramento em relação aos padrões estabelecidos

Planejamento e controle estão interligados. As fases do controle mostram que controlar é essencialmente acompanhar a execução das atividades da maneira mais rápida possível, comparar o resultado efetivo com o planejado, gerar informações para a tomada de decisão de avaliação e eventual correção do desempenho alcançado. O controle, apesar de essencial, não pode ser visto como uma obrigação, deve possuir uma aplicação flexível, sendo visto como um oportunidade favorável de se implantar correções necessárias para alcançar os objetivos.

Planejamento Financeiro Já que o planejamento envolve todas as áreas da empresa, o departamento financeiro participa de forma ativa deste processo, sendo uma parte importante do trabalho de um administrador. O planejamento financeiro estabelece o modo pelo qual os objetivos financeiros podem ser alcançados. Segundo Gitman (2010) o planejamento financeiro é um dos aspectos

147 Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

Feedback é a comparação do desempenho com os padrões, verificando se o retorno das ações foi eficiente de acordo com o planejamento almejado


mais importantes para o funcionamento e sustentação de uma empresa, pois fornece roteiros para dirigir, coordenar e controlar suas ações, buscando as melhores propostas de investimento ligadas às várias atividades operacionais da empresa e as opções de financiamento mais adequadas dentro das disponíveis pelo mercado. Também possibilita desenvolver, analisar e comparar vários cenários, sob diversos ângulos, permitindo que as questões relativas aos investimentos e financiamentos sejam discutidas, prevendo seus impactos sobre os negócios da empresa, de modo a evitar surpresas e desenvolver planos alternativos caso alguma etapa do planejado não aconteça. O planejamento financeiro ajuda a garantir a disponibilidade de fundos suficientes, informa com antecedência as

Gestão financeira

148

necessidades de fundos de maneira que as negociações sejam eficientes e aumentem as possibilidades de rendimento. É desenvolvido fundamentalmente por meio de projeções, iniciando com a elaboração de planos de longo prazo, ou estratégicos, que através de decisões de investimento buscam o aumento do valor da ação e da rentabilidade dos acionistas. São os planos de longo prazo que orientam a formulação de planos de curto prazo, ou operacionais, que, por sua vez, concentram essencialmente as decisões que afetam o ativo e passivo circulantes. Gitman (2010) coloca que processo de planejamento financeiro envolve dois elementos essenciais: Planejamento de caixa

Planejamento de resultados

Envolve a elaboração de um orçamento de caixa, que representa a consolidação dos orçamentos de todas as áreas da empresa. Sem ele não se sabe quando haverá caixa suficiente para sustentar as operações da empresa.

Envolve a projeção dos demonstrativos financeiros, que representa a fusão de inúmeros procedimentos que consideram receitas, custos, despesas, obrigações, ativos e participações societárias.


Assim, o planejamento financeiro de curto prazo tem como produto o orçamento de caixa, que é um importante instrumento de compromisso gerencial, já que é a representação quantitativa das diretrizes originadas do planejamento estratégico, ou de longo prazo, auxiliando na coordenação das várias atividades da empresa e na avaliação do real desempenho dos gestores. Planejamento financeiro de longo prazo Para Gitman (2010), os planos financeiros de longo prazo ou estratégicos estipulam as medidas financeiras planejadas para a empresa e o seu impacto esperado para períodos de dois a dez anos, sendo mais comumente encontrados os planos quinquenais que são revistos periodicamente. marketing, de produção e o financeiro. Este último traz informações sobre os investimentos da empresa (como por exemplo, aquisições de maquinários, ampliação de instalações, atividades de pesquisa e desenvolvimento, programas de desenvolvimento de novos produtos, entre outros) e sobre as fontes básicas de financiamento (como serão captados os recursos necessários para bancar os investimentos traçados, definindo a estrutura de capital da empresa). Geralmente, estas informações são transmitidas por um conjunto de orçamentos e relatórios de resultados anuais. Assim, os planos financeiros de longo prazo são um modo organizado e sistemático de analisar as necessidades de capital ou financiamento para transformar os investimentos almejados pela empresa em realidade. As decisões de investimento são transformadas em objetivos e ordenadas conforme as prioridades da empresa. Ross et al (2008) colocam que, como as empresas possuem tamanhos, produtos e objetivos distintos, os planos

149 Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

O plano estratégico da empresa integra os planos de


financeiros não são idênticos, mas apresentam alguns elementos essenciais: Previsão de vendas: como a exatidão nestas previsões não é possível, visto que as vendas dependem do comportamento do consumidor e da economia, as empresas podem utilizar ferramentas específicas de projeções macroeconômicas e setoriais.

Demonstrações projetadas: o plano finaceiro de longo prazo apresenta projeções do balanço patrimonial e demonstrativo do resultado do exercício para o período.

Necessidades de ativos: o plano apresenta a descrição dos investimentos em ativos necessários para consolidação dos objetivos traçados.

Necessidades de financiamentos: apresenta as formas de captação de recursos, discutindo o endividamento e a política de dividendos.

Gestão financeira

150

Taxas de crescimento: o plano financeiro deve apresentar as taxas de crescimento consideradas para a projeção das vendas, custos, despesas, ativos e passivos da empresa. A combinação destas taxas de crescimento tem que ser compatível com o resultado projetado. Premissas econômicas: o plano deve enunciar o ambiente aconômico considerado. Geralmente, os planos trazem informações sobre o PIB, inflação, câmbio e taxas de juros projetadas e é comum trabalhar com no mínimo dois cenários (otimista e pessimista).

A falta de planejamento de longo prazo é um dos principais motivos da ocorrência de dificuldades financeiras entre as empresas, levando em alguns casos à falência. Planejamento financeiro de curto prazo Os planos financeiros de curto prazo ou operacionais contemplam as ações empresariais para um período de um a dois anos bem como o impacto previsto destas ações. As finanças a curto prazo fazem a empresa adotar uma abordagem mais técnica sobre os aspectos que diz respeito geralmente às decisões de ativo e passivo circulantes, em destaque, decisões que afetem as disponibilidades, estoques, títulos negociáveis, exigências e contas a receber. O ponto de partida para um plano financeiro de curto prazo é a previsão de vendas. A partir daí são criados planos


de produção para atender às vendas projetadas, levando-se em consideração matéria-prima, mão de obra, tempo de fabricação, despesas fabris, estoque médio etc. A previsão de vendas, também permite definir os plano de marketing e consequentemente a projeção das despesas de vendas. Uma vez realizada tais estimativas é possível traçar o demonstrativo projetado de resultado e o orçamento de caixa. O processo de planejamento de curto prazo é apresentado no esquema abaixo:

Você Sabia?

151 Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

Você sabia que Orçar é algo tão antigo quanto à humanidade? Os homens das cavernas precisavam planejar a necessidade de comida para o inverno e, para isso, desenvolveram o que podemos chamar de as primeiras práticas orçamentárias. A origem da palavra orçamento deve-se aos romanos, que usavam uma bolsa de tecido chamada “fiscus” para coletar impostos. Mais tarde, a palavra foi usada para as bolsas da tesouraria e para os funcionários que as usavam. Na Idade Média, a tesouraria no Reino Unido era chamada de “fisc”. Na França era conhecido como “bougette” ou “bouge”. Por volta da década de 1450, o termo “bougett” passou a incorporar o vocabulário inglês. As práticas orçamentárias derivam da gestão pública, mais, precisamente, através da Constituição Inglesa de 1689, a qual estabelecia que o rei (e posteriormente o primeiro-ministro) poderia cobrar impostos e gastar os recursos, desde que com a autorização do Parlamento. Para tal, o rei elaborava planos de despesas que eram envoltos em bolsas de couro. A cerimônia de aprovação era chamada de “opening of the budget” (abertura do orçamento). As principais mudanças ocorreram na França durante o governo Napoleão, que com o objetivo de controlar todas as despesas do país, inclusive as do exército, estabeleceu um sistema uniforme para ser aplicado a todos os departamentos e todas as unidades dentro dos departamentos. Anos mais tarde, o sistema foi refinado, criaram o ano fiscal e convenções temporais para prestações de contas, além de um sistema de auditoria. Essas medidas tornaram o orçamento o principal instrumento de política pública.


Na metade do Século XIX, o Reino Unido adotou as práticas francesas como controle das finanças públicas. As técnicas foram se aprimorando e conquistando outros países. No início do Século XX , os Estados Unidos desenvolveram práticas de administração financeira denominadas de “movimento do orçamento público”, que representava um plano detalhado de todas as atividades do governo. Em 1907, Nova Iorque foi o primeiro estado americano a adotar esta prática e em 1921, o Congresso americano aprovou a obrigatoriedade do orçamento público. No âmbito privado, a primeira empresa a utilizar o orçamento foi a Du Pont de Memours, nos Estados Unidos em 1919. No Brasil, o orçamento passou a ser estudado de forma efetiva nos anos 1940, mas somente na década de 1970 é que passou a ser amplamente adotado pelas empresas. (histórico baseado em: ZDANOWICS, 2001 e LUNKES, 2003) Previsão de vendas

Gestão financeira

152

Planos de produção

Plano de investimento e financiamento de longo prazo

Demonstrativo de resultado projetado Balanço patrimonial do período corrente

Orçamento de caixa

Balanço patrimonial projetado Fonte: baseado em Gitman (2010)

Planejamento Orçamentário O Orçamento é um instrumento de planejamento e controle que possibilita à administração visualizar mudanças, adaptar-se a elas e corrigi-las, caso seja necessário, durante sua execução no período definido, comparando o resultado


orçado e o realizado, ou seja, o orçamento é um instrumento direcional, visto que representa a constituição de planos específicos, centrados em datas e unidades monetárias, com o objetivo de subsidiar a administração em suas decisões. O orçamento analisa detalhadamente as várias funções ou atividades da empresa, envolvendo a integração de numerosas abordagens técnicas de administração, tais como previsão de vendas, orçamento de capital, análise das relações custo-volume-lucro (ponto de equilíbrio), estudos de tempos e movimentos, custo padrão, planejamento estratégico, planejamento e controle da produção, controle de estoques, administração por objetivos, planejamento organizacional, gestão dos recursos humanos e controle de custos (WELSCH, 1983). Assim, na maioria dos casos, o orçamento reflete os departamentos e o conjunto da empresa em termos financeiros, fornecendo as bases para se auferir o desempenho da organização. A segmentação do orçamento por departamento, atividade ou unidades da empresa permite a definição de objetivos específicos, metas parciais e a apuração do resultado por área de responsabilidade, assumindo papel de controle no processo de gestão. “O Orçamento está unipresente no ciclo administrativo”. (WELSCH, 1983) O processo orçamentário, que representa a forma como a empresa faz o orçamento, varia de organização para organização, o que dificulta o estabelecimento de modelos. De modo geral, o processo orçamentário deve permitir assegurar o prosseguimento dos planos; mensurar periodicamente em que grau os objetivos estão sendo atingidos; analisar o cenário econômico e seus efeitos sobre a gestão da empresa; analisar o desempenho dos gestores; intervir para correções e adaptações necessárias; reavaliar os objetivos e planos da empresa.

Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

153


Para implantação do processo orçamentário é necessária uma estrutura organizacional definida, um sistema contábil com dados históricos adequados, abertos e informatizados e a fixação de objetivos operacionais e estratégicos. O orçamento está intimamente associado com o controle, que representa o processo de assegurar que os recursos sejam obtidos e aplicados efetiva e eficientemente na realização dos objetivos da empresa. Para que o controle orçamentário seja eficaz, a empresa precisa seguir alguns requisitos básicos, que Goudeket (apud ZDANOWICZ, 2001) classifica de “Dez Mandamentos do Controle Orçamentário”: I. a direção da empresa deve considerar o controle

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154

orçamentário como essencial. II. os gestores devem sentir entusiasmo pelo controle orçamentário. III. o controle orçamentário e, em grande parte, um problema psicológico. Ignorar isso é abrir caminho para o insucesso. IV. antes de implantar o controle orçamentário é essencial realizar uma análise crítica da operação, que deve ser repetida em intervalos regulares de tempo. V. Deve haver um gestor responsável para cada orçamento parcial. VI. cada tarefa determinada no orçamento deve ter uma relação causal com as atividades da empresa. VII. o controle orçamentário deve ser integral, ou seja, deve abranger todas as áreas da empresa. VIII. o controle orçamentário é uma das formas de construir uma base sólida para descentralizar a autoridade


e as responsabilidades, determinando e controlando tarefas e estabelecendo preços. IX. Sozinho, o orçamento é estéril, mas em conjunto com o controle orçamentário sempre alcança o objetivo: uma administração eficiente. X. para completar o controle orçamentário é necessária a observação e o tratamento estatístico. Sanvicente e Santos (2006) descrevem algumas vantagens da utilização de um sistema orçamentário. São elas: Vantagens do sistema orçamentário

Interação: aumenta o grau de interação entre as áreas da empresa, visto que o oçamento global representa a integração de diversos orçamentos (geralmente um para cada área da empresa), o que força os gestores a fazerem planos para suas áreas levando em consideração os planos de outras áreas. Comprometimento: obriga todos os gestores a participarem do processo e reduz o envolvimento da alta administração nas operações diárias, através da delegação de poderes e responsabilidades que se refletem nos orçamentos das diversas áreas. Identifica os pontos de eficiência e ineficiência no desempenho das áreas e unidades da empresa, permitindo o acompanhamento dos objetivos gerais e especifícos. Melhora a utilização dos recursos disponíveis, adequando-os ao atendimento das necessidades prioritárias para o alcance dos objetivos propostos.

Mesmo com todos os benefícios, o sistema orçamentário esbarra em alguns obstáculos, que ocorrem geralmente pela dificuldade inicial de aplicá-lo em toda a empresa.

155 Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

Análise antecipada de políticas básicas: cria o hábito do exame prévio de todos os fatores antes da tomada de decisão, o que possibilita uma atenção maior aos efeitos causados por condições externas.


Os principais obstáculos são: Limitações do sistema orçamentário Estimativas: o sistema orçamentário é realizado com base em estimativas. mesmo que se utilizem técnicas sofisticadas de estimação, não é possível eliminar a margem de erro. Custo do sistema: a implantação e acompanhamento do sistema orçamentário são atividades que envolvem pessoal especializado e nem toda empresa dispõe de recursos para aplicar um sistema com o detalhamento necessário e adequado ao porte do negócio e à complexidade de seus processos. Por isso muitas empresas elaboram apenas alguns orçamentos parciais relevantes.

Gestão financeira

156

Gestão participativa: o sistema orçamentário completo exige e integração de todas as áreas da empresa, funcionando melhor em modelos de gestão participativa, o que não são inteiramente aceitáveis em algumas emrpesas, especialmente pelo tempo que gastaria para reunir, discutir e organizar cada elemento ou tarefa do orçamento.

Orçamento de Caixa O orçamento de caixa é uma ferramenta do planejamento financeiro de curto prazo que leva em conta todas as atividades e setores da empresa. É um demonstrativo dos fluxos de entradas e saídas projetadas de caixa da empresa, usado para estimar as necessidades de caixa da empresa no período considerado, se preparando para obter financiamentos em caso de falta de caixa e planejando os investimentos de curto prazo, no caso de sobra de recursos. Em geral, o orçamento de caixa é elaborado para um ano (doze meses subsequentes), embora possa ser desenvolvido para qualquer período. O período coberto pelo orçamento de caixa é dividido em intervalos de tempo menores, frequentemente mensais e, se necessário, em fluxos diários. Esta divisão depende da natureza do negócio e das sazonalidades enfrentadas. Quanto mais sazonais forem os fluxos de caixa de uma empresa, maior será o número de intervalos.


Nas pequenas empresas, dada a simplicidade de sua estrutura, a principal contribuição do orçamento de caixa é compreender o efeito das decisões tomadas, com relação às disponibilidades da empresa, além de ajudar a perceber e compreender: • A existência de concentração de pagamentos e/ou recebimentos; • A sazonalidade das vendas; • As necessidades e resultados das políticas de marketing e promoções; • A estrutura dos custos; • A necessidade da separação dos controles pessoais e da empresa; • O melhor momento para efetuar reposições de estoques; Além disso, empresas pequenas, geralmente dispõem de escassos recursos de caixa, pelo menos os primeiros anos de operação e, por terem poucos ativos para serem dados como garantia, possuem dificuldades de obtenção de recursos no mercado financeiro a taxas de juros vantajosas. Empresas que apresentam continuamente dificuldades de caixa e que necessitam de empréstimos de última hora poderão perceber como é difícil encontrar um banco que as financie. O orçamento de caixa ajuda na redução desta vulnerabilidade e colabora para a sobrevivência e sucesso de uma pequena empresa. O planejamento de longo prazo fornece as premissas para o desenvolvimento do orçamento anual. Essas premissas decorrem de um acompanhamento, formalizado ou não, “das condições externas mais relevantes às operações da empresa,

157 Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

• O efeito dos tributos;


no sentido de dar viabilidade a algum plano mais específico, bem como os objetivos de longo prazo e anuais estabelecidos como índices desejáveis de desempenho pela empresa como um todo e por seus diversos setores” (SANVICENTE; SANTOS, 2001). Assim, o início do processo de elaboração do orçamento anual de caixa é o resultado da conjugação de uma análise dessas condições (oportunidades, recursos e ameaças) com os objetivos explícitos da administração da empresa. A partir disso, a alta administração deve instruir os gestores dos departamentos da empresa com as linhas gerais dos resultados que consideram desejáveis para o ano. Com estas informações, cada gestor deve iniciar seu próprio planejamento, sempre considerando os reflexos de suas decisões nas demais áreas da empresa e no resultado global da empresa. Objetivos da empresa

Gestão financeira

158

Planejamento de longo prazo Plano de investimento de longo prazo

Previsões macroeconômicas

Orçamento de investimentos (ativos fixos)

Planejamento operacional (curto prazo)

Orçamento de produção (plano de produção, insumo e produto)

Orçamento de insumos

Orçamento de mão de obra

Metas para o período orçamentário Orçamento de vendas Previsão de vendas

Orçamento de custo indireto Despesas de vendas

Orçamento de produto

Despesas administrativas

Plano de financiamento

Despesas e receitas financeiras

Orçamento de caixa Fonte: Baseado em Braga (1995)


O esquema mostra que o orçamento de caixa é um dos principais mecanismos de diagnóstico e estimativa de uma empresa, já que possibilita ao gestor uma visão futura dos recursos financeiros da empresa, integrando o caixa central, as contas correntes em bancos, as aplicações financeiras, receitas de vendas (e outras receitas), custos, despesas e as previsões. É um instrumento que possibilita ao gestor contornar situações e tomar decisões com certa antecedência, com o objetivo de aproveitar as oportunidades de mercado sem prejudicar o capital de giro da empresa. Cabe ressaltar que de nada adianta fazer as projeções de caixa, indicando a falta ou excesso de recursos, se o orçamento não for usado como relatório gerencial, apoiando o administrador na idealização, implantação, estimativa e diagnóstico de resultados.

Elaboração de um Orçamento de Caixa Elabora-se um orçamento de caixa a partir das informações recebidas dos diversos departamentos e unidades da empresa. Com estas informações são agregadas todas as receitas (considerando as datas de recebimento) e despesas (considerando as datas de pagamento). O formato geral de um orçamento de caixa é: Item

Jan.

Fev.

Nov.

Dez.

Prev.

Real

Prev.

Real

Prev.

Real

Prev.

Real

Recebimentos

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

(-) Pagamentos

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

(=) Fluxo de caixa líquido

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

(+) Saldo inicial de caixa

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

(=) Saldo final de caixa

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

(-) Saldo mínimo de caixa

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Financ. total necessário

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Saldo de caixa excedente

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

159


Descrevendo cada item do orçamento de caixa: Item Recebimentos

Total de entradas de caixa previsão para o período

(-) Pagamentos

Total de saídas de caixa previsto para o período

(=) Fluxo de caixa líquido

Diferença entre recebimentos e pagamentos

(+) Saldo inicial de caixa

Saldo da conta caixa e bancos que inicia o período

(=) Saldo final de caixa (-) Saldo mínimo de caixa Financ. total necessário

Gestão financeira

160

Descrição

Saldo de caixa excedente

Soma do fluxo líquido com o saldo inicial de caixa Valor estabelecido para cobrir eventuais desembolsos Quando o saldo final é menor que o saldo mínimo requer financiamento para manter a liquidez Quando o saldo final é superior ao mínimo de caixa - valor disponível para aplicação

O exemplo mostra o orçamento de caixa para o período de um ano. Segundo Zdanowicz (2001) o período mínimo ideal é de três meses. Posteriormente, este fluxo deverá transformar-se em semanal e este em diário. Neste modelo apresentamos duas colunas: a de previsto e a de realizado. Algumas empresas trabalham apenas com as colunas de previsto. Como não existe um modelo único, cada empresa ajustará o modelo conforme suas necessidades de planejamento e controle. Para as projeções de recebimentos e pagamentos é importante considerar os conhecimentos adquiridos em períodos anteriores e as expectativas futuras quanto ao desempenho do mercado para que a empresa possa se preparar para enfrentar as dificuldades antes que elas efetivamente ocorram. Trabalhar com valores previstos e compará-los com o realizado (o que efetivamente ocorreu na data) permite tomar decisões antecipadas sobre as possíveis sobras e faltas de


caixa, já que é possível adequar as variáveis para manter o caixa ao nível desejado, evitando surpresas. Previsão e Projeção dos Recebimentos Planejar as entradas de caixa é uma das tarefas mais difíceis do orçamento. É considerado na previsão de recebimentos todo e qualquer tipo de entrada de caixa que a empresa receba dentro do período de planejamento financeiro. Os mais comuns são: vendas à vista, cobranças das vendas a prazo e outros recebimentos esperados que não sejam fruto das vendas feitas pela empresa (exemplo: aluguéis, dividendos recebidos, venda de equipamentos, entre outros). Assim, a projeção dos recebimentos depende do (a):

O orçamento de vendas constitui um plano das vendas futuras da empresa para determinado período de tempo. É o ponto de partida para o planejamento financeiro, pois é a partir dele que se determinará o nível de atividade futura da empresa. Além disso, todos os outros orçamentos parciais são desenvolvidos a partir do orçamento de vendas. Geralmente é desenvolvido pela área de marketing. Para elaboração do orçamento de vendas são consideradas variáveis como o mercado consumidor, capacidade de produção, mercado fornecedor, equipe disponível e variáveis econômicas. Desta análise surge a previsão de vendas da empresa, que é a definição da quantidade a ser vendida de cada produto e do preço de venda, e um plano de vendas, que representa um conjunto de ações para alcançar a projeção de vendas. Do plano de vendas também são projetadas as despesas de vendas, que comporão parte do plano de pagamentos. A previsão de vendas pode estar baseada em uma análise de dados externos, internos, ou é uma combinação das duas.

161 Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

Orçamento de Vendas


• Previsões externas: baseiam-se nas relações observadas entre as vendas da empresa e alguns indicadores econômicos, como por exemplo, o PIB (Produto Interno Bruto), a renda disponível e novas construções civis. • Previsões internas: baseiam-se no consenso acerca das projeções realizadas pelos canais de vendas da empresa. • Previsões combinadas: baseiam-se na combinação das projeções de dados internos e externos. Os dados internos possibilitam levantar expectativas de vendas e os dados externos permitem o ajuste dessas expectativas na medida em que se consideram os fatores econômicos. Além da previsão de vendas, o orçamento de vendas

Gestão financeira

162

contempla a política de preços, que envolve a linha mestra a ser seguida pela empresa na fixação dos preços de venda de seus produtos. Política de Crédito e Cobrança A Política de Crédito e Cobrança é imprescindível para a gestão das vendas a prazo e pressupõe uma ação coordenada da análise e liberação do crédito, e uma eficiente recuperação de parcelas em atraso. Se, de um lado, a política de concessão de crédito busca minimizar o risco de que um determinado cliente se torne inadimplente, por outro a política de cobrança procura aumentar as chances de o cliente efetuar o pagamento de pelo menos parte da quantia que deve à empresa. O primeiro passo é a elaboração de um cadastro dos clientes. O instrumento usado para levantar os dados é a Ficha Cadastral. Nela são anotadas as informações necessárias para a avaliação dos clientes, ou seja, para formar um conceito a respeito da capacidade e condição dos clientes de


pagarem as prestações geradas pela venda a prazo, auxiliando, inclusive, no gerenciamento do processo de crédito quanto à análise de clientes, limite de crédito, propostas, análise de operações e no gerenciamento da carteira de ativos e clientes da instituição. Todos os dados descritos na Ficha Cadastral devem ser comprovados por documentos. Se o cliente é uma pessoa física os documentos normalmente exigidos são: RG, CPF, Comprovante de Renda e Comprovante de Residência. Já se o cliente é uma pessoa jurídica os documentos são: cartão do CNPJ, Inscrição Estadual, Contrato Social, Última Alteração Contratual e Demonstrativos Financeiros (Balanço Patrimonial e DRE). Os gestores e analistas de crédito também utilizam os para realizar a pesquisa cadastral de seus clientes e, dessa forma, ter maior segurança na hora de conceder crédito. Segundo Rende et al (2007), a política de crédito define: os prazos e plano de financiamento; a taxa de juros a ser praticada; a atribuição de limite de crédito para cada cliente e metodologia para cálculo desse limite; o limite máximo de comprometimento da renda do cliente com as prestações; a liberação de crédito para cliente novo; avaliação das restrições cadastrais; instrumentos de crédito a serem utilizados; e as garantias fornecidas pelo cliente. Ao vender a prazo ou conceder crédito, a empresa está comprometendo uma parcela do seu patrimônio. Desta forma, é através da cobrança dos clientes atrasados que ela garante o retorno de, pelo menos, parte destes recursos. As políticas de cobrança refletem os procedimentos adotados para receber uma duplicata na data do vencimento e as ações a serem adotadas no caso de atraso no pagamento, com definições específicas das medidas a serem tomadas e o tempo

163 Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

serviços de centrais de informação e de proteção ao crédito


necessário à implementação. Os procedimentos de cobrança mais comuns são: sistema de controle das contas a receber; penalidades financeiras (multas e juros); atraso máximo permitido, a partir do qual as ações de cobrança serão iniciadas; critérios e parâmetros para a renegociação da dívida; contatos a serem feitos e seus respectivos prazos; registro do cliente inadimplente nos órgãos de proteção ao crédito; prazo e forma de comunicação ao(s) fiador(es) ou avalista(s); e medidas extrajudiciais e judiciais a serem tomadas. Cabe ressaltar que uma política de cobrança eficiente não reduz a inadimplência entre os clientes de uma empresa, mas pelo menos minimiza as perdas que a empresa poderá ter com estes clientes.

Gestão financeira

164

Modelo de mapa de recebimentos Após a definição da projeção de vendas e da política de crédito da empresa é possível projetar os recebimentos. Um modelo de quadro de recebimentos é: Recebimentos

Jan.

Fev.

Nov.

Dez.

Prev.

Real

Prev.

Real

Prev.

Real

Prev.

Real

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Um mês (30d)

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Dois meses (60d)

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Outros recebimentos

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Total de recebimentos

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

Vendas à vista Vendas a prazo

• Vendas previstas: total de vendas projetadas para o período. É a base de cálculo para os outros itens. • Vendas à vista: são calculadas aplicando-se um percentual sobre as vendas previstas. Este percentual, geralmente, é obtido através do levantamento do histórico das vendas à vista dos períodos anteriores.


• Vendas a prazo: também são percentuais sobre o total de vendas, tendo como base o histórico da empresa. Representam a cobrança de contas a receber resultantes de vendas em meses anteriores. • Outros recebimentos: representados por outros recebimentos esperados, resultantes de outras fontes que não as vendas realizadas pela empresa. • Total de Recebimentos: Soma dos recebimentos indicados para o período.

pagamentos têm data certa de vencimento. Pagamentos mais comuns: • Compras à vista, • Compras a prazo, • Pagamentos de leasing, • Aluguéis, • Despesas com as instalações, • Salários, benefícios e encargos, • Pagamento de impostos, • Despesas de vendas, • Despesas administrativas, • Pagamento de empréstimos e juros, • Dividendos e, • Aquisição de equipamentos, utensílios e mobiliário. Vale destacar que a depreciação e outras despesas contábeis que não envolvem desembolsos monetários não são incluídas no orçamento de caixa.

165 Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

Previsão e Projeção de Pagamentos Representa o fluxo das saídas de caixa da empresa para o mesmo período da projeção das vendas. É mais fácil de ser elaborado do que o plano de recebimentos, visto que todos os


A definição dos pagamentos depende basicamente dos seguintes orçamentos: Orçamento de Produção Após elaborado o orçamento de vendas, é preciso estimar o quanto será gasto para a obtenção destas receitas. Para as empresas industriais, o orçamento de produção é o instrumento que determina tais gastos. O orçamento de produção consiste em um plano de produção para o período considerado, ou seja, determina as quantidades de cada produtoque deve ser fabricadas visando atender às vendas orçadas e os estoques preestabelecidos (SANVICENTE; SANTOS, 2001). Este orçamento tem grande impacto no orçamento de caixa, pois ao definir quanto será fabricado, decide-se o consumo

Gestão financeira

166

de matérias-primas, mão de obra necessária, uso de máquinas e equipamentos e o consumo de outros materiais, definindo-se implicitamente grande parte dos custos da empresa. Além disso, ao definir o estoque, seja de matéria-prima, produtos acabados e produtos em elaboração, consome-se grande parte do investimento da empresa e interfere na composição do ativo. Os estoques também geram despesas de armazenamento e manutenção que devem ser consideradas no planejamento financeiro. Assim, podemos sintetizar as seguintes informações contidas no orçamento de produção e/ou que são definidas com auxílio deste orçamento: • Plano de Produção, em quantidades, por produto, • Insumos (materiais, mão de obra direta, energia etc.) utilizados por unidade de produto, • Consumo, compra e estoques de matérias-primas e outros materiais, • Previsão dos preços de compra,


• Movimentação e saldo (físico e monetário) dos estoques de matéria-prima, produtos acabados e em elaboração, • Quadro de pessoal operacional, por categoria e faixa salarial, • Folha de pagamento e outras despesas com pessoal operacional, • Programação de férias e horas extras dos funcionários operacionais, • Outros custos de fabricação (com consumo de energia, depreciação industrial etc.) e, • Novos investimentos em máquinas, equipamentos e instalações. Orçamento de Despesas de Vendas, Gerais e Administrativas As despesas administrativas incluem todas as despesas necessárias para a gestão das operações de uma empresa e também os itens relativos à pessoal, viagens, telefonemas, material de escritório, depreciação, seguros, taxas, serviços prestados por terceiros. Já as despesas de vendas compreendem todos os gastos efetuados com a venda e a distribuição dos produtos. De modo sintético, o orçamento de despesas de vendas e administrativas define: • Quadro de pessoal e folha de pagamento dos funcionários de todos os departamentos da empresa, exceto o pessoal operacional, • Programação de férias e horas extras, por categoria e faixa salarial de todos os departamentos da empresa, • Comissões de vendas, • Despesas com promoção e divulgação dos produtos e serviços,

Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

167


• Gastos administrativos (materiais, telefone, alugueis etc.), • Despesas financeiras (tarifas bancárias, juros e amortizações), • Aquisição de móveis e utensílios para os departamentos administrativos da empresa e, • Outras despesas de vendas e administrativas. Modelo de mapa de pagamentos Recebimentos

Jan.

Fev.

Nov.

Dez.

Prev.

Real

Prev.

Real

Prev.

Real

Prev.

Real

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Um mês (30d)

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Dois meses (60d)

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Pagamento de aluguéis

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Despesas com instalações

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

Salários, benefícios, encar.

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Impostos

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

Aquisição de equipamen.

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Aquisição de móveis e ut.

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

Despesas de vendas

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Despesas administrativas

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

Pagamento de juros

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Xxx

Amortização de emprést.

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

Pagamento de dividendos

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

xxx

Xxx

Vendas à vista Vendas a prazo

Gestão financeira

168

Total de pagamentos

Orçamento de caixa e incerteza Ao consolidar o total de recebimentos e de pagamentos é possível verificar o saldo esperado de caixa. No caso de


insuficiência de recursos, o gestor financeiro deve solicitar um empréstimo para cobrir o desencaixe apontado e com isso manter a liquidez da empresa. Geralmente o gestor solicitará um empréstimo maior que o indicado no orçamento de caixa, devido à incerteza dos saldos finais de caixa, que se baseiam em previsões. No caso de excesso de recursos, o gestor financeiro deve aplicar o excedente considerando a liquidez necessária para os períodos seguintes e a rentabilidade das opções de aplicação disponíveis no mercado. Para que as informações do orçamento de caixa sejam mais adequadas e colaborem para assegurar o sucesso de uma empresa, é importante o acompanhamento diário do pagamentos e recebimentos, visto que a manutenção apenas de orçamentos mensais pode não direcionar com exatidão o

diário, o gestor tomaria decisões incorretas, visto que primeiro terá que captar recursos de curto prazo para cobrir o deficit. O fluxo diário de caixa permite uma projeção mais clara sobre a vida econômica da empresa e torna o processo decisório mais seguro. Outra forma de lidar com as incertezas é utilizar a análise de sensibilidade. A análise da sensibilidade do saldo de caixa em relação aos seus itens componentes é uma técnica que “envolve o exame dos valores presumidos dos parâmetros de um orçamento ou plano de resultados e permite a determinação do efeito provável de alterações desses valores sobre alguma variável ou índice importante do planejamento”. (SANVICENTE; SANTOS, 2001)

169 Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

dia em que o caixa estará deficitário. Por exemplo, em um mês o saldo de caixa previsto é positivo, permitindo uma aplicação em renda fixa. Porém, ao ampliar a análise para o fluxo diário, a empresa percebe que durante vinte e cinco dias do mês faltarão recursos em caixa, somente no final do período entrará um recebimento que cobrirá o deficit e permitirá a aplicação. Sem o detalhamento


Ou seja, a análise de sensibilidade representa a simulação de diferentes cenários através da alteração de variáveis relevantes como, por exemplo, o preço de venda, o preço de custos, a quantidade vendida. Com estes cenários verifica-se até que ponto a viabilidade de um projeto ou um plano se mantém face às alterações na variável selecionada, permitindo traçar tendências e determinar quais fatores ou variáveis colaboram para o sucesso de um plano financeiro.

Você Sabia?

Gestão financeira

170

Você conhece um budget e um forecast? Budget é a terminologia inglesa para orçamento empresarial anual e muito utilizada entre as empresas transnacionais. Forecast é a avaliação que a empresa faz mensalmente, comparando o budget com a posição real de momento, a fim de encontrar divergências e buscar revisões. O forecast nada mais é do que o budget ajustado. Algumas empresas transnacionais também chamam de forecast a soma dos dados reais mensais já acontecidos no período com os dados restantes do orçamento a cumprir. Orçamento e inflação A elaboração de orçamentos demanda a previsão do comportamento dos preços relativos aos bens e serviços adquiridos e vendidos pela empresa, ou seja, o orçamento deve considerar o efeito inflacionário que, em economias como a brasileira, constitui-se como uma das principais fontes de incerteza no processo de planejamento financeiro. Segundo Braga (1995), a inflação é um fator de incerteza, pois: • implica em reajustes de preços, salários, tarifas públicas etc,


• distorce os mecanismos de mercado, provocando variações reais nos preços independentes daquelas geradas pelos desequilíbrios entre oferta e demanda, • a curto prazo, provoca dispersões nos diversos índices gerais de preços e nos vários indexadores aplicados nas transações realizadas pela empresa, • provoca perdas e ganhos de natureza monetária pela corrosão no poder de compra dos recursos mantidos em disponibilidade e dos valores a receber e a pagar não indexados e, • por problemas de mercado, nem sempre a empresa conseguirá repassar aos seus preços de venda a totalidade dos aumentos inflacionários ocorridos nos seus Geralmente, quando há a ocorrência da inflação, o orçamento corrigido é elaborado de forma sintética, ou seja, com as contas agregadas, pois o detalhamento das contas de receitas, custos e despesas pode se tornar complexa e alguns dados detalhados, transacionados na moeda ‘fraca’ do país, tendem a perder significância nos períodos seguintes. Independentemente, da inflação, as empresas multinacionais preparam orçamentos na moeda de seu país de origem para permitir as análises, comparações e consolidações realizadas na matriz. Para empresas que não têm essa obrigatoriedade, a elaboração de demonstrativos em moeda estrangeira pode ser necessária para permitir a comparação com concorrentes externos, avaliar investimentos etc. Quando realizam orçamentos em moeda estrangeira, a taxa de câmbio torna-se uma variável relevante e pode fazer parte da análise de sensibilidade para traçar cenários. Mesmo que tenham que elaborar orçamento em moeda estrangeira, as empresas que residem no país também elaboram suas projeções

171 Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

custos e despesas.


em moeda corrente aplicando-se a sistemática legal da correção monetária do ativo permanente e do patrimônio líquido. Além disso, não podem desconsiderar que todos os aspectos tributários do país são medidos em moeda corrente e que as receitas e despesas financeiras só podem ser obtidas em moeda corrente.

É HORA DE FIXAR Você deve elaborar o orçamento de caixa para a empresa FOM FOM Ltda., uma revendedora de buzinas para motocicletas para o próximo trimestre. A previsão de vendas é: Mês 1 = 12.000 unidades Mês 2 = 15.000 unidades

Gestão financeira

172

Mês 3 = 18.000 unidades O preço de venda está estimado em R$ 20 a unidade. A empresa decidiu seguir a política de crédito do mercado que tem como histórico 30% das vendas à vista e o restante a prazo, recebidos em duas parcelas iguais sem juros, para 30 dias e 60 dias. O recebimento para o mês 1 resultante das vendas dos meses anteriores totaliza R$ 130.000 e o recebimento para o mês 2 totaliza R$ 75.000. O material para revenda é adquirido pelo preço unitário de R$ 9 e a política de pagamento é 20% no ato, 40% para 30 dias e o restante para 60 dias. A política de estoque da empresa é deixar em estoque 30% da previsão de vendas do mês subsequente (para o mês 4 considere uma previsão de vendas de 20.000 unidades). O estoque inicial do mês 1 é de 3.000 unidades. As parcelas de pagamento de fornecedores resultantes de compras efetuadas nos meses anteriores com vencimento no mês 1 totalizam R$ 70.000 e no mês 2 são de R$ 40.000. A empresa tem 5 funcionários com um salário unitário de R$ 850. Os encargos sociais e benefícios representam 80% do gasto


com salários. Os custos indiretos de fabricação são: Materiais indiretos R$ 3,25 por unidade comprada, mais um custo fixo (aluguel da loja, limpeza etc.) que totaliza R$ 5.400 mensais. As demais despesas administrativas totalizam R$ 15.000. As despesas de vendas (comissões) representam 5% do total vendido. Esta despesa é apurada e paga no mês subsequente. Considere as despesas de vendas com vencimento no mês 1 o total de R$ 10.000. O saldo inicial de caixa no mês 1 é de R$ 12.000 e o saldo mínimo de caixa definido pela empresa para este trimestre é de R$ 45.000. RESOLUÇÃO A) Primeiro passo é elaborar o orçamento de vendas: Orçamento de vendas Prev. de vendas (un.) Preço de venda Receita de venda

Mês 2

Mês 3

12.000

15.000

18.000

R$ 20

R$ 20

R$ 20

R$ 240.000

R$ 300.000

R$ 360.000

B) Com base na receita de vendas e na política de crédito da empresa, elaborar o plano de recebimentos: Programação de recebimentos Mês 1 (R$) à vista (30%)

Mês 2 (R$)

72.000,00

30 dias (35%)

Mês 3 (R$)

90.000,00

108.000,00

84.000,00

105.000,00

60 dias (35%)

130.000,00

75.000,00

84.000,00

Total de recebimentos

202.000,00

249.000,00

297.000,00

Exemplo: Programação de recebimento das vendas do mês 1: Receita de vendas = R$ 240.000 30% = R$ 72.000 são vendas à vista e, portanto, o recebimento ocorrerá dentro do mês 1 35% = R$ 84.000 são

Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

Mês 1

173


vendas para recebimento em 30 dias e, portanto, entram no orçamento do mês 2 35% = R$ 84.000 são vendas para recebimento em 60 dias e serão recebidos no mês 3 (estão em destaque no orçamento na cor vermelha). C) Elaborar o orçamento de produção: O primeiro passo é determinar a quantidade total a ser comprada, levando-se em consideração a política de estoques da empresa e a previsão de vendas. Programação de produção Mês 1

Gestão financeira

174

Mês 2

Mês 3

Prev. de vendas (un.)

12.000

15.000

18.000

(-) estoque inicial

-3.000

-4.500

-5.400

(+) estoque final

4.500

5.400

6.000

13.500

15.900

18.600

R$ 9,00

R$ 9

R$ 9

R$ 121.500

R$ 143.100

R$ 167.400

(=) total a ser comprado preço de compra Total das compras programadas

Exemplo: mês 2: Previsão de vendas = 15.000 unidades. Estoque inicial do mês (as mercadorias em estoque devem ser abatidas, pois não precisam ser compradas, já que estão em estoque – o estoque inicial de um mês é o estoque final do mês anterior) = 4.500 unidades. Estoque final é 30% das vendas do mês seguinte: como as vendas programadas para o mês 3 são de 18.000 unidades, 30% representam 5.400 unidades. O total a ser comprado será 15.000 – 4.500 + 5.400 = 15.900 unidades. D) Elaborar a programação de pagamentos


Levar em consideração todos os gastos da empresa: compras, mão de obra, outros custos operacionais, despesas de vendas, despesas administrativas etc. Programação de pagamentos Compras à vista (20%)

24.300,00

Compras com vcto 30 dias (40%)

Mês 2 (R$)

Mês 3 (R$)

28.620,00

33.480,00

48.600,00

57.240,00

Compras com vcto 60 dias (40%)

70.000,00

40.000,00

48.600,00

Salários (5 func. x R$ 850)

4.250,00

4.250,00

4.250,00

Encargos (80%)

3.400,00

3.400,00

3.400,00

43.875,00

51.675,00

60.450,00

5.400,00

5.400,00

5.400,00

Despesas administrativas

15.000,00

15.000,00

15.000,00

Despesas de vendas (5% da receita vendas)

10.000,00

12.000,00

15.000,00

Total dos pagamentos

176.225,00

208.945,00

242.820,00

Materiais (3,25 x un. compradas) Outros custos operacionais

E) Elaborar o orçamento de caixa: Note que no primeiro mês ocorrerá um deficit orçamentário em virtude da necessidade de um saldo mínimo de caixa de R$ 45.000. O gestor financeiro pode com antecedência buscar as fontes de empréstimo bancário para cobrir esta deficiência de caixa.

175 Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

Mês 1 (R$)


Já nos meses seguintes ocorrerá uma sobra de caixa e o gestor pode analisar as possibilidades de aplicar os recursos excedentes em opções de curto prazo. Programação de pagamentos Mês 1 (R$)

Gestão financeira

176

Mês 2 (R$)

Mês 3 (R$)

Recebimentos

202.000,00

249.000,00

297.000,00

(-) Pagamentos

-176.225,00

-208.945,00

-242.820,00

(=) Fluxo de caixa líquido

25.775,00

40.055,00

54.180,00

(+) Saldo inicial de caixa

12.000,00

37.775,00

77.830,00

(=) Saldo final de caixa

37.775,00

77.830,00

132.010,00

(-) Saldo mínimo de caixa

-45.000,00

-45.000,00

-45.000,00

Financiamento total necessário

-7225,00

0,00

0,00

0,00

32.830,00

87.010,00

Saldo de caixa excedente

R EFE R ÊNCIAS ASSAF NETO, A. Finanças Corporativas e Valor. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010. BRAGA, R. Fundamentos e Técnicas de Administração Financeira. São Paulo: Atlas, 1995. GITMAN, L. Princípios de Administração Financeira. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley Brasil, 2010. LUNKES, R. J. Contribuição à Melhoria do Processo Orçamentário Empresarial. Trabalho de Conclusão de Curso (Pós-Graduação em Engenharia de Produção) – Universidade


Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2003. Disponível em http://www.tede.ufsc.br/teses/PEPS3312.pdf. Acesso em out.2010. NASCIMENTO, A.; REGINATO, L. (org). Controladoria – um enfoque na eficácia organizacional. São Paulo: Atlas, 2009. OLIVEIRA, D. P. R. Planejamento Estratégico. Conceitos, Metodologia e Práticas. Atlas: São Paulo, 2002. RENDE, R. et al. Como elaborar um plano de cadastro, crédito e cobrança. Belo Horizonte: SEBRAE/MG, 2007. ROSS, S. A.; WESTERFIELD, R. W.; JAFFE, J. F. Administra2008. SANVICENTE, A. Z.; SANTOS, C. C. Orçamento na Administração de Empresas: planejamento e controle. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2006. WELSCH, G. Orçamento Empresarial. São Paulo: Atlas, 1983. ZDANOWICZ, J. E. Planejamento Financeiro e Orçamento. 4. ed. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 2001.

177 Planejamento Financeiro e Orçamento de Caixa

ção Financeira – corporate finance. 2. ed. São Paulo: Atlas,


(6)

Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades


Renata Ferreira

A administração financeira de curto prazo é uma das atividades mais intensas do administrador e está voltada essencialmente para os elementos circulantes do balanço patrimonial, ou seja, seu objetivo é gerir cada um dos elementos do ativo circulante (caixa, títulos negociáveis, duplicatas a receber, estoques) e passivo circulante (fornecedores, títulos a pagar, empréstimo de curto prazo) a fim de alcançar um equilíbrio entre lucratividade e risco que contribua positivamente para o valor da empresa. Esses elementos exigem atenção do gestor, pois produzem a capacidade de sustentação e crescimento da empresa, afetando diretamente no resultado futuro. Por exemplo, elevados investimentos em ativos circulantes reduzem a lucratividade da empresa, enquanto um


investimento muito baixo afeta negativamente a liquidez da empresa, aumentando o risco de não poder honrar suas obrigações nos prazos estipulados. Vale destacar que não existe um nível ótimo de ativos e passivos circulantes, o nível depende de cada empresa e do setor em que atua. A administração dos elementos circulantes é chamada também de administração do capital de giro e envolve basicamente as decisões de compra e venda tomadas pela empresa, assim, como suas mais diversas atividades operacionais e financeiras. Segundo Assaf Neto (2010), a gestão do capital de giro deve assegurar a uma empresa uma adequada consecu-

Gestão financeira

182

ção de sua política de estocagem, compra de materiais, produção, venda de produtos e mercadorias e prazo de recebimento. Esta unidade está dividida em duas partes. Na primeira, estudaremos as características básicas da administração do capital de giro, através dos conceitos de capital de giro e capital circulante líquido, sua relação com a liquidez e a rentabilidade da empresa e o gerenciamento do capital circulante. Na segunda, abordaremos a problemática da gestão das disponibilidades e as estratégias que podem ser usadas para seu melhor controle.

Conceitos Importantes É importante, dentro do estudo da administração financeira de curto prazo, distinguir o capital de giro no sentido bruto, do capital de giro líquido. Capital de giro ou Capital Circulante Capital de giro corresponde ao Ativo Circulante de uma empresa, ou seja, representa o valor total dos recursos demandados pela empresa para financiar seu ciclo operacional, desde as necessidades de aquisição de matérias-primas até a venda e o recebimento dos produtos elaborados.


O Capital de giro apresenta as seguintes características: • Volatilidade: Curta Duração e constante mutação de seus elementos; • Baixa Rentabilidade: Os itens circulantes apresentam baixa rentabilidade se comparados aos demais itens do ativo, exceto para as empresas em que a gestão do capital de giro é a essência do negócio; e • Divisibilidade: Os itens circulantes apresentam maior divisibilidade que os itens permanentes. Isso permite que o aporte de recursos nos itens circulantes ocorra em níveis variados e relativamente baixos. compra de matérias-primas que vão para o estoque. Essas matérias-primas são transformadas através do processo de produção em produtos acabados, alimentando o estoque de mercadorias. Com as vendas, o estoque é diminuído, e através das vendas os recursos são alocados ou nas disponibilidades (caixa e bancos), no caso de recebimento à vista, ou no contas a receber (no caso de recebimento a prazo). Com os recursos disponíveis, a empresa pode investir novamente em estoques e o ciclo recomeça. Assim, são recuperados financeiramente os investimentos nos meios de produção e em outros ativos imobilizados. Capital de Giro Líquido ou Capital Circulante Líquido (CCL) O Capital Circulante Líquido corresponde ao valor das aplicações processadas no ativo circulante deduzidas das dívidas a curto prazo, ou seja, é a diferença entre o Ativo Circulante e o Passivo Circulante.

183 Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades

O capital de giro apresenta um ciclo que inicia com a


Ativo circulante

-

Proporção do investimento total da empresa que circula na conclusão normal das operações da empresa

Passivo circulante

=

Financiamento de curto prazo (dívidas que vem no máximo em um ano)

Capital circulante líquido

Se Ac > PC temos CCL positivo e, Se AC < PC temos CCL negativo

Outra forma de interpretação é a de que o CCL representa a parcela dos recursos permanentes (ou de longo prazo) que financia parte do Ativo Circulante.

Gestão financeira

184

Em outras palavras, representa a parcela do financiamento total de longo prazo (seja por recursos próprios ou de terceiros) que excede as aplicações também de longo prazo (Ativos não circulantes).

Financiamento de longo prazo

menos

Investimento de longo prazo

Capital próprio = Patrimônio líquido

Realizável a longo prazo

Capital de terceiros = Exigível a longo prazo

Ativo permanente

Capital Circulante Líquido CCL = (PL + ELP) - (RLP + AP)


CCL x Liquidez O CCL é um indicativo de liquidez, visto que representa uma medida estática da folga financeira que a empresa apresenta para liquidar seus compromissos de curto prazo. Quanto maior o CCL, maior a diferença entre o Ativo Circulante e o Passivo Circulante, resultando em um menor risco de insolvência da empresa. Porém, é importante acompanhar a composição do ativo circulante, pois se, por exemplo, grande parte dos recursos circulantes estiver alocada em estoques, a folga financeira pode ser ilusória, dada a demora de realização de todo o estoque. mos bancários para efetuar o pagamento das contas a pagar, visto que a empresa não tem os recursos imediatos. Um CCL negativo revela que os recursos passivos permanentes da empresa (financiamento de longo prazo) não são suficientes para cobrir todas as suas necessidades de investimento de longo prazo, devendo, nessa situação, utilizar recursos de curto prazo (passivo circulante). Isso significa um aperto na liquidez e um aumento no risco da empresa. Já um CCL baixo não indica necessariamente problemas de liquidez. Por exemplo, um supermercado compra a prazo de seus fornecedores e como possuem um rápido giro de estoque, vende as mercadorias em um prazo inferior. Os recursos recebidos podem ser aplicados no mercado financeiro, recebendo ainda a rentabilidade da operação, ou ainda, usados para investimentos na expansão dos negócios. Isso diminuiria o ativo circulante, indicando um CCL baixo, mas não representa problemas na saúde financeira da empresa.

185 Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades

Poderia acontecer a necessidade de contrair emprésti-


CCL x Rentabilidade Um CCL elevado prejudica a rentabilidade da empresa. Nesse contexto, a rentabilidade representa a relação entre as receitas e custos gerados pela utilização dos ativos, sejam eles circulantes ou permanentes, em atividades produtivas (GITMAN, 2010). O CCL pode aumentar quando: • Aumenta o Ativo Circulante em relação aos Ativos Totais. Quando isso ocorre, a rentabilidade diminui. Isso, porque os ativos circulantes são menos rentáveis que os ativos permanentes. Sem os ativos permanentes, a empresa não pode fabricar o seu pro-

Gestão financeira

186

duto e por isso, agregam mais valor ao produto do que os ativos circulantes. Assim, um excesso de ativos circulantes pode indicar ineficiência no uso dos recursos financeiros. • Diminui o Passivo Circulante em relação aos Ativos Totais. Quando isso ocorre a rentabilidade diminui. A redução do passivo circulante representa um aumento no financiamento com recursos próprios ou de terceiros de longo prazo, que são fontes de financiamento com custos elevados, ainda mais se considerarmos que uma parte do passivo circulante (fornecedores, contas a pagar etc.) são dívidas pelas quais não se pagam juros. Então seria interessante ter apenas dívidas de curto prazo? Não. É preciso levar em consideração que o endividamento de curto prazo, mesmo que seja menos oneroso do que as demais fontes, se contraído em excesso aumenta o risco de insolvência técnica da empresa, pois como tais dívidas apresentam um vencimento curto, a empresa pode não conseguir recursos a tempo para liquidar esses compromissos.


Além disso, a análise potencial de crédito da empresa, realizada pelos seus fornecedores e por instituições financeiras, constitui um mecanismo delimitador da expansão do Passivo Circulante. É preciso buscar uma estrutura de capital que não prejudique demasiadamente a rentabilidade da empresa. A Administração do capital de giro pode ajudar, visto que seu objetivo é gerir os ativos e passivos circulantes de tal forma que seja mantido um nível adequado de capital circulante líquido. Capital de Giro Próprio (CGP) de recursos próprios que a empresa tem aplicado em seu Ativo Circulante. É obtido pela seguinte equação: CGP = Patrimônio líquido - ativo não circulante CGP = PL - AP - RLP Sendo: PL = Patrimônio Líquido AP = Ativo Permanente RLP = Realizável a Longo Prazo Uma maneira simplificada muito adotada pelo mercado financeiro é calcular o capital de giro próprio pela simples diferença entre o Patrimônio Líquido e o Ativo Permanente, revelando, assim, o volume de recursos próprios que está financiando o ativo circulante e o realizável a longo prazo. Assaf Neto (2010) coloca que “segundo médias divulgadas pelos analistas de mercado, o valor mínimo ideal dessa medida é zero, ou deve atingir, pelo menos 5% das receitas auferidas pela empresa”.

187 Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades

O Capital de Giro Próprio (CGP) representa o volume


Políticas de Gerenciamento do Capital de Giro As políticas de gerenciamento do capital de giro objetivam definir: • O volume de investimentos necessários em capital de giro; • A distribuição desses investimentos em caixa, valores a receber e estoques; e • E como serão financiados esses investimentos.

Necessidade de Investimento em Capital de Giro (NIG)

Gestão financeira

188

A necessidade de investimento em capital de giro reflete o volume de recursos demandado pelo ciclo operacional da empresa, determinado em função de suas políticas de compras, vendas e estocagem.

Vamos Recordar? Ciclo operacional compreende o período de tempo que vai desde o momento em que a empresa recebe em suas instalações os produtos ou matérias-primas, até o momento em que recebe o dinheiro pela venda do produto acabado. O Ciclo operacional é dado pela soma do prazo médio de estocagem e o prazo médio de cobrança. Ciclo Financeiro ou Ciclo de Caixa compreende o período de tempo em que os recursos da empresa foram utilizados para o pagamento dos bens e matérias-primas até o recebimento pela venda do produto acabado resultante. O Ciclo de Caixa é dado pela diferença entre o ciclo operacional e o prazo médio de pagamento dos fornecedores. (LEMES JR. et al, 2010) Segundo Assaf Neto (2010), o investimento em giro a ser mantido deve “equiparar-se, no mínimo, ao montante do ativo circulante caracterizado como permanente (ou chamado de necessidade mínima) e, esses recursos, visando à manutenção do equilíbrio financeiro da empresa, devem ser


lastreados por fundos de longo prazo”. Por que a busca por fundos de longo prazo? Porque se as necessidades mínimas forem financiadas com recursos de curto prazo, a empresa, para manter sua posição de liquidez, assume maior dependência pela renovação dos passivos, elevando seu risco financeiro. E por que os investimentos em giro devem suprir pelo menos as necessidades permanentes (ou mínimas)? Porque os investimentos em capital de giro visam a sustentação da atividade operacional da empresa, não geram diretamente unidades físicas de produto e por isso apresenAlém disso, o capital de giro é constituído, em grande parte, por ativos monetários, que por sua vez, sofrem os efeitos da inflação. Ou seja, os investimentos em disponibilidades e créditos realizáveis em curto prazo produzem, no mínimo, perdas por redução da capacidade de compra à empresa em função do tempo em que os recursos ficam expostos à inflação. A partir daí, o mais rentável para empresa é manter em seus ativos circulantes os valores mínimos ou exatamente iguais às suas necessidades operacionais. Com base nestes conceitos, as políticas mais adequadas visam encurtar o ciclo de caixa. Quanto maior o Ciclo de Caixa, maior a necessidade de recursos para financiamento dos valores aplicados em estoque e valores a receber, ou seja, maior a necessidade de capital de giro. Lemes Jr. et al (2010) ressaltam que políticas que envolvem ciclos de caixa reduzidos tornam mais complexa a gestão financeira e operacional, exigindo trabalho com recursos escassos de caixa e impondo limitações nas políticas de crédito e de estoques, o que pode dificultar a realização das vendas. Assaf Neto (2010) destaca que, manter valores mínimos de capital de giro, apesar de mais rentável, “pode levar

189 Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades

tam uma menor rentabilidade.


Gestão financeira

190

a empresa a um aperto em sua liquidez, no caso de eventuais atrasos nos recebimentos, ou a sacrificar seu processo normal de produção e venda, na eventualidade de falta de estoques”. Brigham e Ehrhardt (2006) colocam que, apesar de mais adequadas, estas políticas são chamadas de agressivas, por resultarem em progressivas reduções nos investimentos circulantes, aumentando o risco da empresa. Inversamente, ou seja, a adoção de uma política de gestão de capital de giro mais flexível leva a empresa a aplicar mais recursos em disponibilidades (como forma de se proteger contra desembolsos imprevistos), em valores a receber (adoção de uma política de crédito e cobrança mais frouxa para estimular as vendas, resultando em maiores prazos de vendas) e, em estoques (para diminuir o risco de atrasos no processo produtivo ou a perda de vendas inesperadas). Essas políticas, denominadas conservadoras, reduzem o risco da empresa, mas em paralelo, proporcionam uma redução na rentabilidade. Cabe destacar que um dos objetivos da administração financeira de curto prazo é orientar o gestor nas decisões sobre o dilema risco-retorno. O exemplo a seguir mostra o efeito destas políticas: Considere uma empresa com R$ 2.000.000 de ativo não circulante. Suas decisões de curto prazo são quanto ao volume de recursos em capital de giro. Trabalharemos três níveis de capital de giro: baixo, médio e alto. Independente do cenário, o passivo circulante financiará 30% do ativo total, o exigível a longo prazo 20% do total e o patrimônio líquido 50%. Para apuração do resultado consideraremos um lucro operacional bruto de R$ 600.000. O custo de crédito de curto prazo é de 25% ao ano e o de longo prazo 15%.


Demonstração do resultado do exercício Baixo Lucro operacional bruto

Médio

Alto

600.000

600.000

600.000

1.050.000 x 25% = 262.500

1.200.000 x 25% = 300.000

1.350.000 x 25% = 337.500

Exigível a longo prazo (15%)

700.000 x 15% = 105.000

800.000 x 15% = 120.000

900.000 x 15% = 135.000

Lucro antes do imposto de Renda (LAIR)

232.500

180.000

127.500

(-) Imposto de Renda (40%)

93.000

72.000

51.000

Lucro líquido

139.500

108.000

76.500

7,97%

5,40%

3,40%

(-) despesas financeiras

Rentabilidade: ROE (lucro líquido/patrimônio líquido)

191

Balanço patrimonial Baixo

Médio

Alto

Ativo circulante

1.500.000,00

2.000.000,00

2.500.000,00

Ativo não circulante

2.000.000,00

2.000.000,00

2.000.000,00

Total do ativo

3.500.000,00

4.000.000,00

4.500.000,00

Passivo circulante (30%)

1.050.000,00

1.200.000,00

1.350.000,00

700.000,00

800.000,00

900.000,00

Patrimônio líquido (50%

1.750.000,00

2.000.000,00

2.250.000,00

Total

3.500.000,00

4.000.000,00

4.500.000,00

Exigível a longo prazo (20%)

Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades

Passivo circulante (25%)


Este exemplo ressalta o dilema risco-retorno. Observe que quanto maior a participação do capital de giro sobre o ativo total, menor é a rentabilidade da empresa. Porém, se a empresa adota uma postura de maior risco, com menores aplicações no capital de giro, consegue auferir maior retorno. Assim, respeitando as características da empresa, do negócio e do setor, a definição do volume adequado de capital de giro deve maximizar seu retorno e minimizar o risco.

Gestão financeira

192

Distribuição dos Investimentos em Capital de Giro Esta política diz respeito à distribuição dos investimentos em caixa, estoques e contas a receber. Leva em conta a definição do volume de investimentos em Capital Circulante, o setor de atividade em que a empresa atua e as condições de mercado em que a empresa opera. Existem setores, como por exemplo, o comércio, em que o investimento em estoques é elevado; já empresas do setor de serviços tendem a concentrar menores investimentos em estoques. No tocante aos investimentos em contas a receber, existem setores que as receitas são obtidas essencialmente por vendas a crédito, gerando elevados investimentos em contas a receber. Cabe ao gestor financeiro encontrar a distribuição ideal para as condições da empresa, respeitando o setor de atividade em que atua. Segundo Lemes Jr. et al (2010) sob a ótica financeira, “a decisão pode tomar como base o custo financeiro de cada uma das fontes de recursos que financia o montante aplicado em caixa, em valores a receber e em estoques”. Já sob a ótica do planejamento estratégico da empresa, “é preciso considerar o volume de vendas pretendido e quais as condições de preço (preço praticado e condições de pagamento) que levam a esse volume de vendas”.


Financiamento do Capital de Giro Se a produção e as vendas ocorressem uniformemente ao longo do ano, a gestão do capital de giro seria fácil, porque haveria fluxos regulares de entradas e saídas de caixa (BRAGA, 1995). Porém, muitas empresas estão sujeitas a fatores sazonais que afetam suas atividades, provocando oscilações no ativo circulante. Por exemplo, as empresas precisam se preparar para as vendas de final de ano aumentando seus estoques. Por outro lado, sempre existirá um nível mínimo de estoques, valores a receber e disponibilidades, independente de fatores sazonais. financiada com recursos próprios e de longo prazo, deixando a parcela flutuante (sazonal) para os recursos de terceiros de curto prazo. Em situações de empréstimo, o custo de crédito de longo prazo é mais caro que o de curto prazo, em decorrência do risco envolvido na duração da operação e do risco que o credor assume em não obter um retorno condizente com os padrões de juros da época (ASSAF NETO, 2010). Como forma de minimizar o risco, é comum que operações de longo prazo tenham taxas pós-fixadas e que as instituições financeiras adotem critérios mais rigorosos de concessão destes créditos. Cabe ressaltar que em algumas economias, (principalmente emergentes) os juros a curto prazo podem assumir níveis superiores do que os juros de longo prazo como reflexo do cenário político-econômico (instabilidade econômica, créditos de longo prazo subsidiados, insuficiência de recursos a longo prazo o que gerou excesso de demanda por recursos de curto prazo, entre outras). As decisões de financiamento do capital de giro também interferem no dilema risco-retorno. Veja o exemplo a seguir:

193 Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades

O ideal é que a parcela fixa dos ativos circulantes seja


Considere uma empresa que possui R$ 400.000 de ativos permanentes. O Ativo Circulante varia mensalmente em virtude das vendas e estoques. A empresa precisa decidir como financiará seus ativos e para tanto, poderá adotar três estratégias: Agressiva, conservadora e intermediária.

Gestão financeira

194

Ativos Circul. (B)

Ativos Totais (C)

Nec. de recursos

Mês

Ativos Perman. (A)

Perm. (D)

Sazonais (E=C-D)

Jan

400.000

100.000

500.000

440.000

60.000

Fev

400.000

90.000

490.000

440.000

50.000

Mar

400.000

50.000

450.000

440.000

10.000

Abr

400.000

40.000

440.000

440.000

0

Mai

400.000

50.000

450.000

440.000

10.000

Jun

400.000

80.000

480.000

440.000

40.000

Jul

400.000

110.000

510.000

440.000

70.000

Ago

400.000

130.000

530.000

440.000

90.000

Set

400.000

140.000

540.000

440.000

100.000

Out

400.000

130.000

530.000

440.000

90.000

Nov

400.000

120.000

520.000

440.000

80.000

Dez

400.000

100.000

500.000

440.000

60.000

Média Mensal

400.000

950.000

495.000

440.000

55.000

A necessidade de recursos permanentes é igual ao ativo permanente mais a parcela fixa dos ativos circulantes correspondente ao menor valor mensal (relativo ao mês de abril). A decisão gira em torno do financiamento dos valores sazonais.


Representando graficamente temos:

A empresa pode adotar as seguintes posições: • Agressiva: Financiar as necessidades sazonais integralmente com passivos circulantes (recursos de curto Capital Circulante Líquido (CCL), o que seria bom para sua rentabilidade, mas seria perigoso para sua liquidez. Necessidades permanentes seriam: R$ 400.000 dos ativos permanentes + R$ 40.000 dos ativos circulantes permanentes. CCL = R$ 40.000. • Conservadora: Financiar a totalidade dos recursos (permanentes e sazonais) com recursos permanentes (próprios e de longo prazo). Isso proporciona uma liquidez elevada, mas prejudicaria a rentabilidade, uma vez que haveria recursos ociosos durante certos meses do ano. A empresa mantém recursos permanentes no valor correspondente ao pico das necessidades totais (R$ 540.000 de setembro). Não são usados recursos temporários (de curto prazo). CCL = R$ 140.000. • Intermediária: média dos recursos da alternativa agressiva e conservadora. Os recursos permanentes serão suficientes para financiar as necessidades permanentes mais uma parte das necessidades sazonais. As necessidades totais oscilam entre R$ 440.000 (de abril) e R$ 540.000 (de setembro). Consideraremos

195 Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades

prazo). Neste caso, a empresa estaria minimizando o


que os recursos permanentes sejam a média dos dois extremos: R$ 490.000. Nesta alternativa teríamos sobra de recursos em alguns meses e deficiência em outros. Essa deficiência média seria de R$ 11.667 (soma das faltas de recursos de cada mês dividido por 12. Março = 40.000, abril = 50.000, maio = 40.000, junho = 10.000, total = 140.000/12 = 11.667). CCL seria R$ 90.000 (R$ 490.000 menos R$ 400.000). Assim,

Gestão financeira

196

Agora que as políticas possíveis estão definidas, vamos calcular os custos financeiros. Considerando as taxas de juros de 25% ao ano para os recursos permanentes e a taxa de 15% para os recursos de curto prazo (ou recursos temporários), temos: Agressiva

Intermediária

Conservadora

F. Recursos permanentes

440.000

490.000

540.000

G. Custo dos recursos permanentes (2%)

110.000

122.500

135.000

55.000 (E)

11.667

0

8.250

1750

0

J. Recurosos totais

495.000

501.667

540.000

K. Custo financeiro total

118.250

124.250

135.000

L. Ativos totais médios (C)

495.000

495.000

495.000

0

6.667

45.000

40.000

90.000

140.000

H. Recurosos temporários I. Custo dos recursos temporários (15%)

M. Sobras (M = J - L) N. CCL


O exemplo nos mostra que: • Quanto maior o CCL (linha N), maior será o custo financeiro (linha K); • As sobras de recursos (linha M) poderiam ser aplicadas no mercado financeiro, porém a taxas inferiores às pagas para captação de recursos, o que implica em um ônus para a empresa. Assim, sob este aspecto, é conveniente operar com a menor sobra de recursos possível (menor CCL); • Na alternativa conservadora, a empresa não utiliza todo o seu potencial de crédito (já que não utiliza dade das operações, visto que os recursos permanentes são mais onerosos; • Na alternativa agressiva, o risco pela natural falta de certeza no conhecimento do comportamento futuro de seus custos, visto que empréstimos de curto prazo absorvem com maior frequência as oscilações nas taxas de juros; além disso, cria uma dependência maior das disponibilidades de crédito no mercado. Eventuais dificuldades de captação destes recursos podem abalar a liquidez e afetar negativamente a relação com os credores; e • No dilema risco-retorno, o mais comum é que as empresas optem por alternativas • intermediárias, equilibrando aspectos de liquidez, risco e rentabilidade.

Administração das Disponibilidades O termo disponibilidades (ou caixa) refere-se aos ativos de liquidez imediata, ou seja, recursos monetários mantidos em tesouraria ou depositados em conta corrente bancária,

197 Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades

recursos de curto prazo), o que prejudica a rentabili-


que em sua maior parte estão livres para serem usados a qualquer momento. Além destes valores, são somados os recursos que estão aplicados no mercado financeiro (em operações de curtíssimo e curto prazos), também denominados de Títulos Negociáveis, pois são considerados como “quase-caixa” pelas suas características de grande liquidez e risco reduzido. A gestão do caixa ou o cash management é a “atividade de tesouraria da empresa que acompanha os reflexos das políticas de investimentos, de vendas, de crédito, de compras e de estoques” (LEMES JR. et al, 2010). Quanto maiores forem

Gestão financeira

198

os saldos de caixa, mais prontamente a empresa poderá honrar seus compromissos, além disso, sobras de caixa podem ser aplicadas no mercado financeiro, rendendo algum juro, ou ainda garantir a obtenção de descontos para aquisição de bens e matérias-primas, por exemplo. Em momentos de escassez de caixa é preciso negociar novos prazos com fornecedores, captar empréstimos de curto prazo ou ainda reduzir os prazos de venda a crédito. A administração dos saldos de caixa é um dos principais objetivos da gestão financeira, visando garantir a liquidez da empresa. Daí a importância do planejamento financeiro, pois é imprescindível conhecer antecipadamente qual será o montante de recursos que irá faltar ou sobrar nos períodos seguintes. Vale recordar que a incerteza na projeção de caixa reside, essencialmente, no comportamento das entradas resultantes das vendas à vista, da cobrança de duplicatas etc. E por que as empresas mantêm certo nível de caixa? (elas poderiam aplicar as sobras) Keynes identificou três motivos que levam as empresas (e as pessoas) a manterem certo nível de caixa. São eles:


• Transação: as empresas precisam manter recursos em caixa para suprir as saídas, ou seja, para efetuar pagamentos oriundos de suas operações normais (como pagamento de fornecedores, funcionários, contas etc.). É a falta de sincronização entre o momento das entradas e das saídas de caixa que determina a demanda por caixa pelas empresas. • Precaução: os recursos de caixa são destinados a atender pagamentos inesperados ou extraordinários, ou seja, não previstos no planejamento. Quanto maior o saldo de caixa, maior será a margem de segurança de • Especulação: os recursos de caixa estão voltados para o aproveitamento de possibilidades de ganho que o mercado venha oferecer, como bons descontos, pagamentos antecipados etc. Uma situação frequente é armazenar caixa para tirar proveito de certas aplicações financeiras cujos rendimentos são atraentes para as empresas. Saldo mínimo de caixa A definição de saldos mínimos de caixa deve ser coerente com a política de aumentar o valor da empresa. Por isso, o objetivo de manter saldos mínimos é o de “permitir que a empresa possa corretamente saldar seus compromissos programados e manter ainda uma reserva de segurança de forma a cobrir suas necessidades de pagamentos imprevistos” (ASSAF NETO, 2010). A determinação de um nível ideal de recursos a ser mantido em caixa é uma tarefa complexa. Existem alguns modelos matemáticos para determinação deste saldo, os mais relevantes são:

199 Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades

atuação da empresa.


Modelo de Baumol ou Modelo do lote econômico Este modelo, desenvolvido por William Baumol em 1952, baseia-se no critério do lote econômico muito utilizado na administração de estoques, servindo de base conceitual para a administração de caixa em condições de certeza (considera que as entradas e saídas de caixa são fixas e previsíveis). Considera os custos de manutenção dos saldos de caixa, ou seja, o custo de oportunidade determinado pelos juros que a empresa deixa de receber ao não aplicar estes recursos em títulos negociáveis, e o custo de obtenção do dinheiro pela 200

Você Sabia?

Gestão financeira

conversão de títulos negociáveis em caixa.

John Maynard Keynes (1883-1946) é considerado o pai da macroeconomia moderna e o economista mais influente do Século XX. Na década de 1930, Keynes iniciou uma revolução no pensamento econômico, se opondo às ideias clássicas que defendiam que os mercados livres ofereceriam automaticamente empregos aos trabalhadores contanto que eles fossem flexíveis em suas demandas salariais. Keynes defendeu uma política econômica intervencionista, através da qual os governos usariam medidas fiscais e monetárias para mitigar os efeitos adversos dos ciclos econômicos (recessão, depressão e prosperidade). Após a Segunda Guerra Mundial, as ideias econômicas de Keynes foram adotadas pela grande maioria dos países capitalistas. Recentemente, a teoria keynesiana foi a base para os planos do presidente americano Barack Obama, do primeiro-ministro britânico Gordon Brown e de outros líderes mundiais para aliviar os efeitos da recessão causados pela crise de 2008. Assim, o nível ótimo de caixa seria aquele que minimiza os custos totais é obtido pela fórmula:

C* =

2xbxT i


Sendo: C* = Valor Econômico de Conversão (VEC). b = custo de conversão = número de conversões x custo por conversão = identificado nas transações de compra ou venda com títulos negociáveis (exemplo: custo de transação, controle, registro, custódia etc.). T = caixa do período = valor total de caixa que se prevê utilizar em determinado período. i = custo de oportunidade = representa o retorno que se deixa de obter pela não manutenção dos recursos aplicados em títulos negociáveis. Exemplo: Considere que a necessidade de caixa de uma empresa, visando o pagamento ao longo do próximo mês, atinja R$ 200.000. O custo por transação é estimado em R$ 30 e a taxa de juros de títulos negociáveis é de 1,2% ao mês. Assim: a) Volume de transações ótimo:

C* =

2xbxT i

√ =

2 x 30 x 200.000 0,012

=

R$ 31.622,78

Conforme o modelo, quando o caixa está zerado, a empresa vende R$ 31.622,78 de aplicações em títulos negociáveis e repõe o caixa. Como é pressuposto que a demanda de caixa é uniforme ao longo dos períodos, essa conversão deve ocorrer 6,32 vezes no mês (200.000/31.622,78). Este modelo apresenta limitações, principalmente ao admitir condições de certeza na administração de caixa. Sabemos que o fluxo de caixa não é totalmente previsível, especialmente pela incerteza nas entradas de caixa, por isso, na prática, um gestor mantém um saldo mínimo de segurança de caixa.

Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades

201


O modelo, apesar de suas premissas e certeza e críticas, “explora importantes princípios teóricos básicos da administração de caixa, servindo mais como um parâmetro útil para a compreensão do comportamento e avaliação do saldo de caixa” (ASSAF NETO, 2010). Modelo de Miller-Orr O Modelo de Miller-Orr, desenvolvido em 1966, é o mais adequado aos ambientes de maior dificuldade de projeção dos fluxos de caixa, dada sua característica probabilística. Para os autores, as variações nos valores de caixa de

Gestão financeira

202

um período para outro são aleatórias, e descrevem, quando as ações são repetidas, uma distribuição normal (ASSAF NETO, 2010). Miller e Orr, ao contrário de Baumol, admitem que o saldo de caixa pode elevar-se ou sofrer reduções em função de transações desconhecidas com antecedência. Com isso, são estabelecidos um limite superior para o saldo de caixa e um Ponto de Retorno que representa o nível de retorno definido para o saldo de caixa, que pode variar entre zero e o limite superior (LEMES JR. et al, 2010). Ou seja, quando o saldo monetário de caixa atingir determinado volume (limite superior), os recursos são transferidos para títulos negociáveis de um valor igual ao limite superior menos o valor do Ponto de Retorno. Quando o saldo de caixa atinge o limite inferior (geralmente este limite é zero, mas pode ser qualquer outro nível desejável), os títulos negociáveis são convertidos em caixa, no montante do Ponto de Retorno. Assim: Conversão de caixa em título negociáveis = limite superior - ponto de retorno Conversão de títulos negociáveis em caixa = ponto de retorno - saldo zero de caixa (ou limite inferior)


O Ponto de Retorno é calculado pela fórmula: O limite superior é igual a três vezes o Ponto de Retorno

PR* =

√ 3

3 x b x Var 4xi

Sendo: PR = Ponto de Retorno b = Custo de conversão = custo fixo das transações em títulos negociáveis Var = Variação dos fluxos líquidos de caixa diários i = Custo de oportunidade = taxa de juros diária de títulos negociáveis Exemplo: Considere que o caixa do mês de uma empresa seja de R$ 500.000, a variação diária de caixa atinja R$ 40.000, o custo de conversão seja R$ 300 e a taxa de juros de títulos negociáveis é de 16% ao ano (ou 0,041% ao dia). Assim: PR* =

√ 3

3 x b x Var = 4xi

√ 3

3 x 300 x 40.000 = R$ 1.299,63 4 x 0,0041

Conforme o modelo, os saldos de caixa da empresa devem variar entre zero e R$ 3.898,89. Quando atingir este valor do limite superior, R$ 2.599,26 devem ser convertidos em títulos negociáveis (R$ 3898,89 – R$ 1.299,63). Quando o saldo de caixa cair a zero, a empresa solicita à sua corretora/ banco a venda de R$ 1.299,63 dos papéis de curto prazo e os transforma em caixa. O modelo parte do pressuposto que as decisões de compra e venda dos títulos negociáveis são tomadas quando o saldo de caixa atinge os limites estabelecidos. Enquanto o saldo se mantiver entre os limites, nenhuma decisão é tomada, o saldo pode oscilar normalmente.

Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades

203


Estes dois modelos de administração de caixa diferenciam-se basicamente pelas expectativas quanto ao saldo de caixa. O modelo de Baumol pressupõe condições de certeza nos fluxos de caixa, sendo mais aplicável quando o planejamento financeiro é de curto prazo, já que a capacidade de previsão do gestor é maior. Já o modelo Miller-Orr pressupõe uma natureza aleatória às transações de caixa, permitindo variações nos saldos, e, portanto, é mais aplicável em situações de incerteza e/ou para planejamento de um horizonte temporal maior.

Gestão financeira

204

Estratégias para reduzir saldos mínimos de caixa Muitas empresas, por trabalharem com Capital de Giro insuficiente, nem se preocupam com a determinação de saldos mínimos de caixa, ou seja, o caixa é todo utilizado nas atividades operacionais da empresa. Porém, na determinação de saldos mínimos, é importante considerar alguns fatores e estratégias, visto que a busca pela redução dos saldos mínimos de caixa deve ocorrer sem isso afete os negócios da empresa. Algumas estratégias que podem ser adotadas são: Acelerar o Recebimento de Duplicatas A concessão de crédito é ferramenta propulsora das vendas. Porém, a venda a crédito exige recursos financeiros para financiá-lo. Para acelerar o recebimento de valores a receber podem ser adotadas ações como, por exemplo, encurtamento dos prazos de pagamento, oferecimento de descontos, normas rígidas de cobrança, parcerias com instituições financeiras para o financiamento do crédito concedido. Além disso, existem ações para minimizar o tempo entre o pagamento efetuado pelo cliente e a efetiva disponibilização dos recursos financeiros para a utilização do gestor de caixa (cobrança via rede bancária, por exemplo).


Retardar o Pagamento de Fornecedores Sem comprometer o conceito creditício que a empresa possui junto aos seus fornecedores, é possível negociar retardar os pagamentos por meio da negociação de prazos. O momento mais propício para se conseguir maiores prazos é no ato da compra, pois há mais interesse por parte do vendedor em abrir concessões na negociação. Cabe ressaltar que, deixar de efetuar os pagamentos em dia, pode ajudar na formação de saldos de caixa, mas prejudica o conceito de crédito da empresa, além de demonstrar incompetência na gestão dos negócios.

Estoques de produtos em fabricação são grandes consumidores de recursos financeiros. Buscar o uso racional dos recursos e o aumento da produtividade e qualidade na produção, além de reduzir o ciclo de produção, colabora para a gestão mais eficiente do caixa. Elevar o Giro dos Estoques É preciso aplicar técnicas de gestão de estoques que evitem trazer prejuízos para a produção (evitar a falta de materiais) ou se traduzam em empecilhos para a venda (falta de mercadorias). É possível aumentar o giro dos estoques de matérias-primas com programas de produção coordenados com previsões confiáveis de vendas. A coordenação entre produção, vendas e gerenciamento de estoques se faz necessária também para reduzir a permanência dos estoques de produtos acabados dentro da empresa, colaborando para a redução do ciclo de caixa. Bom Relacionamento Bancário A manutenção de um bom relacionamento bancário constituiu um aspecto primordial na administração das

205 Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades

Reduzir o Ciclo de Produção


disponibilidades. O acompanhamento da movimentação da conta corrente bancária, online e em tempo real, também possibilita o uso das disponibilidades de forma mais eficaz. O gestor financeiro necessita negociar tarifas de cobrança e prazos de disponibilização dos recursos provenientes dos recebimentos efetuados, além de negociar taxas e prazos para possíveis empréstimos e financiamentos. Muitas empresas ainda recebem e fazem pagamentos em cheques, é preciso planejar o uso destes recursos, dado o período de compensação. Estes valores em trânsito, também conhecidos como float, permitem à empresa liberar novos

Gestão financeira

206

cheques apesar de seus controles indicarem insuficiência de saldo para cobertura dos mesmos. Segundo Braga (1995), é através destes “malabarismos” que o gestor tenta otimizar o uso das disponibilidades. Também é importante manter um número reduzido de contas bancarias (se possível), o que facilita o controle, permite operar intensamente com cada banco, podendo desta forma contar com o imediato apoio financeiro quando houver necessidade.

É HORA DE FIXAR Considere uma empresa com R$ 1.000.000 de ativo não circulante e R$ 500.000 de ativo circulante. Atualmente, o passivo circulante financia 35% do ativo total, o exigível a longo prazo 25% do total e o patrimônio líquido 40%. O lucro operacional bruto é de R$ 300.000. O custo de crédito de curto prazo é de 26% ao ano e o de longo prazo 40% ao ano. a) Calcule o Capital Circulante Líquido (CCL) e a rentabilidade da empresa (ROE). b) Considere que a empresa pretende aumentar o seu capital de giro em 20%, o ativo permanente se mantém.


Para tanto, a empresa conseguiu negociar uma linha de longo prazo no mercado financeiro, alterando a proporção de financiamento para: passivo circulante financia 30% do total, recursos de longo prazo financiam 30% e o patrimônio líquido 40%. Calcule o novo CCL. Qual o impacto sobre a rentabilidade da empresa? Analise o resultado. Obs.: considere um Imposto de Renda + CSLL de 34%. Resolução a) Montando o Balanço Patrimonial e DRE: Ativo 500.00

Passivo circulante

525.000

Ativo não circulante

1.000.000

Exigível longo prazo

375.000

Total

1.500.00

Patrimônio líquido

600.00

Total

1.500.000

Demonstração de Resultado Lucro operacional bruto

400.000

(-) despesas financeiras Passivo circulante

525.000 x 26% = (136.500)

Exigível a longo prazo

375.000 x 40% = (150.000)

Lucro antes do IR

113.500

(-) Imposto de Renda (34%)

(38.590)

Lucro líquido Rentabilidade (ROE) = Lucro/PL

74.910 12.48%

Capital circulante líquido = Ativo Circulante menos Passivo Circulante CCL = 500.000 – 525.000 = (25.000) b) Apurando o novo Balanço Patrimonial e DRE:

207 Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades

Ativo circulante

Passivo


Ativo Ativo circulante Ativo não circulante Total

Passivo 600.00

Passivo circulante

480.000

1.000.000

Exigível longo prazo

480.000

Patrimônio líquido

640.00

Total

1.600.000

1.600.00

Demonstração de Resultado Lucro operacional bruto

400.000

(-) despesas financeiras Passivo circulante

480.000 x 26% = (124.800)

Exigível a longo prazo

480.000 x 40% = (192.000)

Lucro antes do IR

Gestão financeira

208

(-) Imposto de Renda (34%)

83.200 (28.288)

Lucro líquido

54.912

Rentabilidade (ROE) = Lucro/PL

8.58%

Capital Circulante Líquido = Ativo Circulante menos Passivo Circulante CCL = 600.000 – 480.000 = 120.000 A decisão de aumentar o ativo circulante e de aumentar a participação dos recursos de terceiros de longo prazo da empresa geraram os seguintes impactos: • redução do endividamento de curto prazo; • aumento da liquidez da empresa – aumento do CCL e, consequentemente, redução do risco; • aumento das despesas financeiras, visto que neste caso os recursos de longo prazo são mais onerosos; e • redução na rentabilidade em 31,25% (passando de 12,48% para 8,58%).


R EFE R ÊNCIAS ASSAF NETO, A. Finanças Corporativas e Valor. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010. BRAGA, R. Fundamentos e Técnicas de Administração Financeira. São Paulo: Atlas, 1995. BRIGHAM, E. F.; EHRHARDT, M. C. Administração Financeira – Teoria e Prática. 10. ed. São Paulo: Thomson, 2006. GITMAN, L. Princípios de Administração Financeira. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley Brasil, 2010.

fundamentos e práticas brasileiras. 3. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2010. ROSS, S. A.; WESTERFIELD, R. W.; JAFFE, J. F. Administração Financeira – corporate finance. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2008.

209 Administração do Capital de Giro e a Gestão das Disponibilidades

LEMES JR., A. B. et al. Administração Financeira: princípios,


(7)

Administração das Contas a Receber e dos Estoques


Renata Ferreira

Os investimentos em capital de giro estão concentrados basicamente nas disponibilidades, duplicatas a receber e estoques. Os investimentos em duplicatas a receber dependem do comportamento das vendas e da formulação de uma política de crédito para as vendas a prazo. O crédito é fator facilitador das vendas, com ele a empresa pode vender muito mais do que se tivesse apenas a modalidade venda à vista. Porém, conceder crédito é um fator de risco, já que pode haver inadimplência e até perdas com alguns devedores, sem contar que vendas a prazo provocam despesas adicionais com análise de crédito e de cobrança. Daí, a importância de se aplicar técnicas adequadas para a gestão do crédito e das políticas e cobrança, visto que a cobrança é a principal função operacional de contas a receber.


Os estoques também costumam absorver um montante significativo no total dos investimentos das empresas industriais e comerciais. Os estoques provocam custos financeiros e despesas operacionais, o que faz com que as empresas tenham uma política de estoques com rápida rotação como forma de elevar a rentabilidade e contribuir para a manutenção da liquidez, daí a relação entre gestão da produção e administração financeira.

Gestão financeira

214

O objetivo desta unidade é apresentar os elementos que envolvem a gestão dos valores a receber e dos estoques, destacando os elementos da política de crédito, o processo de concessão de crédito, a política de cobrança, os tipos e os custos dos estoques.

Administração de Valores a Receber Na economia moderna, toda transação comercial envolve algum tipo de operação de crédito ou, no mínimo, a concessão de um período de carência para o pagamento. O departamento Contas a Receber tem como finalidade controlar os valores a receber provenientes das vendas a prazo, e deve ser organizado para: fornecer informações sobre o total dos valores a receber de clientes; estimar os valores a receber que entrarão no caixa da empresa, por períodos de vencimento, conhecer o montante das contas já vencidas e os respectivos períodos de atraso, bem como tomar providências para a cobrança e o recebimento dos valores em atrasos; fornecer informações sobre os clientes que pagam em dia; fornecer informações para a elaboração do fluxo de caixa (ROSS et al, 2008). Cria-se uma conta a receber quando há concessão de crédito e a administração destes valores a receber é de responsabilidade do gestor financeiro, especialmente, porque a concessão de crédito deve ser suportada pela existência de recursos para


financiá-la, pois interfere no equilíbrio econômico-financeiro da empresa. Assim, quanto maior o volume de vendas a crédito maior será a necessidade de capital de giro para financiar este ativo e o custo desse financiamento deve ser agregado ao custo dos produtos. (LEMES JR. et al, 2010) Também é importante que haja integração com a área de Marketing, já que a política de crédito compreende diretrizes e procedimentos de seleção de clientes, cobranças e desdos objetivos de venda atuando como instrumento de atração de ‘procura’ para o que a empresa oferece no mercado. Parece lógico, mas a postura do administrador é muito importante para o gerenciamento e o controle das Contas a Receber. Se o devedor estiver ciente de que o credor espera receber e que tomará ações efetivas caso isso não aconteça, mais provavelmente ele o pagará. Tratando as Contas a Receber com seriedade, os clientes farão o mesmo. Todavia, se o credor tratá-las sem a devida importância permitirá que os seus clientes sempre levem vantagem.

Política de Crédito A política de crédito fixa os parâmetros da empresa em termos de vendas a prazo, ou seja, fornece os parâmetros que determinam se deve ser ou não concedido crédito a um cliente e, em caso afirmativo, qual o valor do limite de crédito a ser atribuído. Uma política de crédito define a forma pela qual a empresa vai conduzir as suas operações, se de uma forma conservadora ou agressiva. Por exemplo, se o objetivo da empresa é aumentar o volume de vendas, por exemplo, deverá ela adaptar uma política de crédito mais flexível, porém, esta postura trará um risco maior exigirá um monitoramento mais preciso. Já se a empresa quiser reduzir o

215 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

contos, constituindo importante elemento para a consecução


volume de duplicatas a receber e também de estoques, ela poderá trabalhar com uma política de crédito mais rígida, na qual ela assumirá um nível de risco menor, o que provavelmente resultará em menores despesas com cobrança, mas também em um menor volume de vendas.

=

Política mais flexível

=

Menos riscos e vendas

Gestão financeira

216

Menos duplicatas e estoque

Mais vendas

=

Política mais rígida

=

Mais riscos

Uma política de crédito envolve basicamente o estudo dos seguintes elementos:

Padrões de crédito

Desconto por antecipação

Política de crédito Políticas de cobrança

Prazo de concessão


Padrões de Crédito Os padrões de crédito estabelecem as condições mínimas que o pretendente deve possuir para receber crédito da empresa. Segundo Lemes Jr. et al (2010), os padrões de crédito influenciam as seguintes variáveis: Condições mínimas muito exigentes dificultam a realização das vendas

Valores a receber

Padrões de crédito que facilitam a realização das vendas são indicativos de aumento na necessidade de recursos para financiamento de valores a receber.

Risco

Padrões de crédito menos exigentes aumentam os riscos de perdas pelo não recebimento.

O estabelecimento desses padrões envolve geralmente o agrupamento dos clientes em diversas categorias de risco, as quais visam mensurar o custo das perdas associadas às vendas realizadas a um ou mais clientes de categorias semelhantes. Prazos de concessão de crédito O prazo de concessão de crédito é o período de tempo concedido ao cliente para efetuar o pagamento do compromisso assumido. É um fator relevante tanto para quem pleiteia o crédito, visto que quanto maior o prazo obtido, menor o seu ciclo de caixa, quanto para quem concede o crédito, já que quanto maior o prazo concedido, maior o ciclo de caixa e maior a necessidade de aporte de recursos no Ativo Circulante. Geralmente, os prazos são definidos nas políticas de crédito, no entanto, como prazo é um componente negocial, pode ser analisado de acordo com as necessidades de cada cliente. O estabelecimento de prazos está relacionado com os costumes da sociedade, natureza do produto vendido, nível de atividade econômica, características do mercado comprador, concorrência, condições negociais, capacidade da empresa em sustentar capital de giro adicional, entre outros. Gitmam (2010) coloca

217 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

Vendas


que “os prazos regulares de crédito de uma empresa devem assemelhar-se aos do setor, mas os prazos concedidos a um cliente específico devem refletir o risco do cliente”. O prazo para pagamento influi também na determinação do preço à vista. Há casos em que a empresa não estabelece diferença entre o preço à vista ou a prazo, induzindo o comprador a adquirir o produto a prazo, pois não recebe recompensa pela compra à vista. Vale lembrar que compras

Gestão financeira

218

com cartão de crédito são consideradas vendas a prazo, mas no Brasil, a legislação exige que sejam praticados preços iguais para a modalidade à vista e no cartão de crédito. Descontos por antecipação de pagamento Inadimplência é o não cumprimento, no todo em parte, de uma obrigação, objeto de cláusula contratual, em determinado prazo, ficando o inadimplente, além de permanecer em débito, sujeito ao pagamento de juros de mora, multa contratual e outros encargos. Já a insolvência é a situação de uma pessoa ou uma empresa que, por falta de disponibilidade financeira, não pode fazer face às suas dívidas. O Sebrae (www.sebrae.com.br) aponta que existem vários fatores que contribuem para a inadimplência. Tais como: Comprar além da capacidade (A maioria dos devedores assume compromissos de pagamentos mensais além da sua capacidade financeira e, nesses casos, recebe quem cobrar primeiro e insistir na negociação. Comprar não basta, é preciso adquirir sempre cada vez mais para não correr o risco de ficar por fora! Este é o princípio que prevalece na mente de muitos consumistas, mesmo aqueles que não se consideram, porém exercem as práticas de compra não se dando conta do rombo mensal); Concessão de crédito sem critérios (As próprias empresas contribuem com a elevação da inadimplência, por não adotarem medidas e critérios na hora de vender a prazo); Falta de estabilidade econômica – O desemprego é uma das principais causas que leva a pessoa a não pagar seus débitos e em termos empresariais, a retração da economia e a instabilidade pode afetar as vendas das empresas e, consequentemente, o fluxo de caixa.


Da mesma forma que o prazo de concessão de crédito, o desconto constituiu um instrumento de política de crédito da empresa. O desconto financeiro pode ser definido como um abatimento no preço de venda efetuado quando os pagamentos das compras realizadas forem feitos à vista ou a prazos bem curtos. Normalmente, a inclusão de um desconto tem por objetivo acelerar os recebimentos sem exercer pressão sobre tes pagarem mais depressa. Ao acelerar os recebimentos, o desconto reduz o investimento em contas a receber e, consequentemente, o prazo médio de cobrança, tende a reduzir o risco e as perdas, e também reduz o lucro por unidade vendida, mas pode atrair novos clientes interessados em adquirir o produto a um preço inferior. Cabe ao gestor financeiro analisar os custos e os benefícios de uma política de descontos para a empresa para determinar se essa iniciativa é rentável. Políticas de Cobrança A Cobrança pode ser definida como sendo o ato de recebimento das contas a receber da empresa. A política de cobrança, por sua vez, representa os procedimentos adotados para receber os créditos concedidos aos clientes, na data do vencimento. Ou seja, a política de cobrança existe para que as vendas já efetuadas transformem-se em recebimentos. Esses procedimentos, cuja avaliação é realizada pela observação dos inadimplentes ou incobráveis, normalmente resultam das políticas de crédito adotadas pela empresa (GITMAN, 2010). Lemes Jr. et al (2010) colocam que “cobrar é tão importante quanto vender, pois o ciclo operacional só se completa quando o valor da venda é recebido”. A eficiência da política de cobrança da empresa pode ser avaliada parcialmente, observando-se o nível dos

219 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

os clientes, já que funciona como um incentivo para os clien-


inadimplentes ou incobráveis. Esse nível depende não só da política de cobrança, mas também da política em que se baseou a concessão de crédito. A adoção de medidas mais rígidas de cobrança pode refletir-se sobre a venda, mediante uma retração por parte dos consumidores e, políticas mais dilatadas tendem a gerar um aumento no custo de inadimplência e um agravamento das perdas inflacionárias.

Gestão financeira

220

Modelo de análise e concessão de crédito: os 5 Cs A política de crédito de uma empresa envolve o levantamento de informações sobre o cliente. Em administração financeira estas informações referem-se às diretrizes tradicionais e subjetivas conhecidas como os Cs do crédito.

Caráter

Condições

Colateral

Capacidade

Capital

Caráter O caráter refere-se ao comportamento do cliente no cumprimento das obrigações assumidas por ele. Ross et


al (2008) afirmam que “a experiência do banco ou de uma empresa que esteja concedendo crédito, em termos de conhecimento de seu cliente, bem como informações obtidas junto a outros bancos e/ou fornecedores, se traduz em um eficiente instrumento de conhecimento da pontualidade do devedor no cumprimento de suas obrigações”. Assim, é importante considerar, em qualquer processo de crédito, os dados relativos ao passado de uma pessoa ou tos de um devedor no passado podem revelar o seu caráter no momento presente. Por exemplo, a existência de títulos protestados pode ser evidência de que o cliente passou ou passa por dificuldades financeiras, fato que interfere na concessão do crédito. Capacidade A capacidade está relacionada à habilidade administrativa e à competência empresarial dos dirigentes de uma empresa e potencial de produção ou de comercialização dessa empresa. Ross et al (2008) apontam que a “capacidade de uma pessoa apesar de revestir-se de uma certa subjetividade, tornando difícil medi-la, pode ser conhecida através de uma análise de seu currículo; ao passo que a capacidade física de uma empresa pode ser conhecida através de uma visita às suas instalações, conhecendo seus métodos de trabalho e o grau de tecnologia utilizado”. Lemes Jr. et al (2010) descrevem que o item capacidade deve considerar se os ganhos ou o desempenho operacional e financeiro do cliente permitirão a geração de recursos para efetuar o pagamento do compromisso pretendido. Para as empresas, a análise dos demonstrativos financeiros pode ajudar, visto que permite verificar a liquidez, rentabilidade e endividamento.

221 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

empresa, como subsídios à tomada de decisão, pois os hábi-


Capital O capital se refere à situação econômico-financeira da empresa, no qual diz respeito aos bens e recursos possuídos pela mesma para saldar seus débitos. Preocupa-se com o comprometimento do patrimônio líquido com valores exigíveis da empresa o os respectivos índices de lucratividade. Portanto, o “C” de capital é medido através da análise dos índices financeiros (rentabilidade, atividade, endividamento e liquidez),

Gestão financeira

222

tendo, evidentemente, um significado muito mais amplo que aquele que é dado à conta de capital na contabilidade. Colateral O colateral refere-se à capacidade do cliente em oferecer garantias que se constituem em uma segurança adicional que, na sua falta, pode inviabilizar uma concessão de crédito. Condições Avalia o grau de exposição aos possíveis efeitos de ocorrências externas sobre a capacidade do cliente para pagar suas dívidas como, por exemplo, influências de variação no nível de atividade econômica, agressividade da concorrência, entre outros.

Processo de Concessão de Crédito O processo de concessão de crédito passa por três fases: Cadastro • Ficha cadastral • Documentação • Confirmação das informações • Atualização cadastral


Crédito • Análise das informações • Classificação do crédito • Limite de crédito • Garantias Cobrança • Procedimentos de cobrança • Monitoramento

Dica O SEBRAE fornece algumas dicas sobre a elaboração de uma ficha cadastral: “Evite montar uma Ficha Cadastral muito longa e complicada, que contenha dados que você não vai utilizar na análise do crédito e que tome muito tempo seu e do cliente para preenchê-la”. Mais informações em www.sebrae.com.br Cadastro O processo de concessão de crédito inicia-se com o preenchimento da ficha cadastral, que deve possuir dados completos e atualizados do cliente, seja ele pessoa física ou jurídica. A ficha cadastral deve estar estruturada e conter informações essenciais, de tal forma que permita uma decisão rápida e segura sobre a concessão do crédito. O nível de profundidade das informações a serem utilizadas está relacionado com o limite de crédito pretendido, ou seja, quanto maior o limite de crédito pretendido, maior será a exigência e aprofundamento das informações. Não existe um modelo único de ficha cadastral, cada empresa a sua ficha específica, entretanto, algumas informações são fundamentais.

223 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

• Mecanismos de cobrança


Todos os dados registrados na ficha cadastral devem ser conferidos com base nos documentos apresentados pelo cliente. As informações e/ou documentos mais utilizados e fornecidos pelos clientes são: Pessoas Jurídicas: • Documentação legal da pessoa jurídica como estatuto, ou contrato social, acionistas majoritários, pro-

Gestão financeira

224

prietários, vínculos com outras empresas, eleição de pessoas autorizadas a assinar pela pessoa jurídica, poderes de quem assina, documentação legal de bens, documentação que confirme o registro da empresa (CNPJ, Inscrição Estadual etc.). • Demonstrações Financeiras dos últimos períodos (geralmente três anos). De preferência com parecer de auditor independente, visando à elaboração de análise financeira e, com ela, a definição do limite de crédito. • Referências comerciais e financeiras como a indicação dos principais clientes e fornecedores, além de referências bancárias. Pessoas Físicas: • Documentos pessoais como RG, CPF, Carteira de Trabalho, comprovante de residência, comprovante de renda, comprovante de propriedade de bens e se estão onerados ou não. • Referências comerciais e bancárias. A partir das informações fornecidas, os analistas de crédito da empresa devem verificar sua veracidade, ou seja, inicia-se o processo de Confirmação das informações. Essa etapa é importante, pois o tomador de crédito sempre tende


a demonstrar uma situação melhor do que a real, por isso a checagem das informações tem que ser rigorosa. Esta checagem é feita geralmente através de consultas como (LEMES JR., 2010): • Cadastro próprio, no caso de não ser cliente novo; • Para clientes novos e antigos, estão disponíveis e são utilizadas agências ou empresas especializadas em confirmar informações de pessoas físicas e jurídicas, ceiro. Entre as agências mais conhecidas, destacam-se: – Serviço de Proteção ao Crédito – SPC – das Associações Comerciais. –

SCI/Equifax

(Segurança

ao

Crédito

das

Informações) – www.sci.com.br. – SERASA – www.serasa.com. – Dun & Bradstreet – www.dnb.com. – Câmaras de Dirigentes Lojistas (CDL). – Bancos com os quais a empresa opera. – Outras fontes de informações apresentadas pelo cliente. As restrições cadastrais devem ser bem analisadas, determinando sua relevância dentro do processo de concessão de crédito (análise caso a caso) e confrontadas com as informações positivas do cliente. É importante observar se as restrições são recentes, valores, se há tendência de crescimento etc. Muitas vezes a empresa erra ao não aprovar o crédito para o cliente, cujo cadastro possui dados positivos e pouquíssimas restrições. Em razão de mudanças que ocorrem ao longo do tempo na situação financeira e no patrimônio das pessoas e empresas, não basta fazer o cadastro do cliente uma única vez.

225 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

e também informar sobre seu comportamento finan-


É necessário realizar atualizações periódicas, para manter, aumentar ou reduzir o crédito do cliente. Recomenda-se atualizar o cadastro dos clientes uma vez por ano ou em eventual revisão do limite de crédito. Além disso, a empresa deve manter o cadastro ou o histórico de seus clientes para facilitar seu relacionamento e, ao mesmo tempo, reduzir perdas com vendas a prazo.

Gestão financeira

226

Crédito A partir da confirmação das informações sobre o cliente, a empresa dispõe dos elementos necessários para elaborar a análise das informações, que preferencialmente será realizada com o auxílio de programas de processamento de dados específicos para essa função. Lemes Jr. et al (2010) colocam que a abrangência desta análise deve destacar indicativos que facilitarão a decisão sobre a concessão do crédito pretendido. Esta análise deve ser feita de forma ágil (o cliente deseja ser atendido com rapidez), eficiente (daí o uso de técnicas ou indicadores importantes), de modo a não constranger o cliente. Algumas informações importantes que podem ser colhidas a respeito dos clientes e suas respectivas análises são (LEMES JR. et al, 2010 e RENDE, 2007): Pessoas físicas: • Nível de renda: mostra a capacidade de pagamento; • Outras rendas: mostra a possibilidade de ampliação da capacidade de pagamento; • Bens e imóveis: situação patrimonial; • Nível de comprometimento dos ganhos do cliente quando adicionado o crédito pretendido (exposição ao risco);


• Tempo de serviço: mostra estabilidade profissional; • Referências comerciais e financeiras: conceito no mercado; • Consultas cadastrais: restrições cadastrais; e • Possibilidade de garantidor da operação (fiador) caso o pretendente ao crédito não se enquadre nos níveis de exposição ao risco de crédito estabelecido.

• Comparação entre o período médio de pagamento e o prazo médio de cobrança do cliente, que deve indicar a sincronização entre os fluxos de entrada e de saída de caixa; • Análise temporal e setorial dos índices financeiros da empresa, visando conhecer a evolução favorável (ou desfavorável) dos indicadores de endividamento, liquidez, rentabilidade, entre outros. Também é possível conhecer a posição da empresa perante seu setor de atividade; • O volume e frequência dos negócios para se conhecer o nível de atividade da empresa; • Organização, experiência no ramo. Algumas informações não são obtidas formalmente, mas por meio de contatos estabelecidos com a empresa, seus gerentes, pessoal da área de compras, até mesmo as instalações físicas são um bom indicador sobre a qualidade e organização da empresa como um todo; e • Análise dos dados conseguidos com as agências especializadas.

227 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

Pessoas Jurídicas:


A próxima etapa, chamada de classificação do crédito, é um procedimento que, por meio de pontuação, determina o potencial financeiro de um solicitante de crédito, a partir da média ponderada dos pontos relativos a algumas características financeiras e creditícias de cada cliente. A empresa determina os itens relevantes para analisar a situação do cliente e estabelece a pontuação referente aos itens, aos quais atribui pesos considerando sua importância relativa.

Gestão financeira

228

Definida a estrutura da tabela de classificação de crédito, a empresa estabelece limites mínimos de classificação ou faixas de classificação com condições específicas para cada faixa de crédito, nas quais estabelecerá exigências negociais e de garantias para a concessão de crédito. Esse processo é chamado de Credit scoring (escores de crédito). A seguir temos um exemplo de Tabela de Classificação de Crédito para pessoas físicas: peso fixado (a)

Pontos atribuídos (b)

Pontuação pontuada (c=axb)

Fonte de renda

0,25

80

20

Residência própria

0,10

100

10

Comprometimento do ganho

0,15

70

10,5

Tempo de residência

0,10

70

7

Tempo de emprego

0,10

60

6

Tempo de cliente

0,15

80

12

Informações creditíciais

0,15

90

13,5

Total

1,00

Características

Pontuação 100

Montante de crédito a ser concedido Limite máximo

De 75 a 99

75% do limite máximo

De 50 a 74

50% do limite máximo

De 25 a 49

25% do limite máximo

Menos de 25

Não concede crédito

79


No exemplo, o cliente atingiu pontuação de 79, situação enquadrada como conceder 75% do limite máximo, o que indica que deve ser concedido um limite de crédito e prazos mínimos para início das transações. O cliente deve ser monitorado para revisão de seus padrões. A informação ao cliente sobre o crédito deve ser formal. Na impossibilidade de concessão do crédito nas condições normais, deve ser aberta a possibilidade de reforço de Após a classificação do crédito, é importante estabelecer o limite de crédito. O limite de crédito corresponde ao valor máximo que a empresa está disposta a financiar e a correr risco com o cliente. Qualquer solicitação de compra que ultrapasse esse limite deverá ser recusada ou examinada por instância superior da empresa. Segundo Rende (2007) para calcular o valor do limite de crédito do cliente, pode ser usada uma das alternativas a seguir: • Limite de crédito múltiplo da renda comprovada do cliente. • Limite de crédito baseado na média histórica de compra do cliente. • Limite de crédito calculado com base em percentual da renda do cliente e no prazo máximo de financiamento da empresa (para tanto é preciso determinar o valor máximo das prestações que o cliente pode assumir, com base no percentual máximo de comprometimento de sua renda com o pagamento das prestações - 30%, por exemplo - e o número máximo de prestações do plano de financiamento. O limite de crédito é obtido multiplicando-se o valor máximo da prestação pelo número de prestações possíveis).

229 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

garantias (como a utilização de avalistas, por exemplo).


Garantias O mecanismo utilizado para reduzir o risco nas vendas a crédito é a exigência de garantias. Segundo Lemes Jr. et al (2010), as garantias representam o comprometimento de outras pessoas, físicas e jurídicas, pela dívida assumida ou a definição de bens, que podem ser móveis ou imóveis, que responderão pela dívida caso o devedor não consiga pagá-la. A obtenção de garantias tem como objetivo aumentar a

Gestão financeira

230

segurança da venda a prazo, porém não configura, por si só, a certeza do recebimento. Portanto, o crédito não deve ser concedido com base apenas na garantia oferecida, e sim na capacidade do cliente em liquidar o débito na data estabelecida. Dispensa de garantias se aplica quando não existirem dúvidas de que o cliente pagará as parcelas do crediário no vencimento. Para se chegar a essa conclusão, devem-se considerar os seguintes aspectos, entre outros: • Experiência de crédito com a empresa • Capacidade de pagamento • Situação patrimonial • Tradição do cliente no mercado Caso seja indicada a exigência de garantias para a venda a prazo, o passo seguinte será definir o tipo de garantia a ser solicitada. As garantias estão classificadas em garantias pessoais, também chamadas de fidejussórias, e as denominadas garantias reais. Garantias Pessoais • Aval é a garantia pessoal do pagamento de um título de crédito. É uma obrigação assumida por alguém a fim de garantir o pagamento de uma compra realizada por outro. Por ser uma garantia exclusiva de transação comercial, o aval somente pode ser dado em títulos


de crédito, não sendo válido em contratos. Vencido o título, o credor pode cobrar tanto do devedor como do avalista. Este responde apenas pelo valor expresso no título, não podendo ser cobrado dele os encargos financeiros por atraso no pagamento. O garantidor responde pelo aval com todos os seus bens, exceto os denominados bens de família. O avalista que pagar o título adquire o direito de cobrá-lo do devedor ou dos para fazer valer o seu direito de ressarcimento, por ter arcado sozinho com a quitação da dívida. • Fiança é a outra forma de garantia pessoal comumente utilizada, só que se aplica em dívidas formalizadas em contrato. O fiador, que pode ser pessoa física ou jurídica, presta garantia de cumprimento da obrigação assumida pelo comprador caso ele não o faça. O fiador responde pela dívida principal e pelos encargos financeiros pelo atraso. Para que essa garantia seja efetiva, o fiador precisa ter bens disponíveis, que possam garantir a dívida. Garantias Reais • A alienação fiduciária é o tipo de garantia feita por meio de instrumento público ou particular arquivado no Registro de Títulos e Documentos ou no Cartório de Registro de Imóveis, na qual o devedor detém posse e utilização dos bens móveis oferecidos em garantia, mas a propriedade é do credor. O devedor será o responsável pela preservação e manutenção dos bens alienados e por danos sofridos pelos bens. Pela facilidade de execução, a alienação fiduciária é tida como uma das formas mais seguras de garantia, pois permite a ação de busca e apreensão do bem.

231 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

demais avalistas, podendo utilizar medidas judiciais


• A hipoteca representa o tipo de garantia no qual, por instrumento público, são utilizados bens imóveis, veículos, aeronaves e embarcações para garantir dívida contraída pelo devedor. É preciso considerar que os denominados bens de família não podem ser objetos de hipoteca porque estão protegidos por lei. • O penhor consiste no estabelecimento de quantidade suficiente de mercadorias, máquinas, equipa-

Gestão financeira

232

mentos ou títulos de crédito oferecidos para garantir a divida. Se o que for penhorado ficar na propriedade de devedor, este deve ser designado como fiel depositário do que for penhorado e ficará responsável pela sua guarda. Cobranças A terceira fase é a cobrança. A política de cobrança visa fazer com que os recebimentos ocorram nas datas de vencimento e estejam prontamente à disposição da administração de caixa da empresa. Essa política deve estabelecer desde mecanismos de como o débito será cobrado até os procedimentos nos casos de atrasos e inadimplência. Mesmo tomando todas as precauções, fazendo um cadastro completo dos clientes e adotando uma política de crédito adequada para as vendas a prazo, alguns clientes acabam atrasando o pagamento de suas prestações. Para combater a inadimplência, tão logo ela ocorra, o principal remédio é agir com rapidez. Ou seja, iniciar prontamente o processo de cobrança, para receber os recursos financeiros em atraso, a fim de preservar a saúde financeira da empresa. Diferentes procedimentos de cobrança costumam ser empregados pelas empresas. Se uma conta não for paga na data de vencimento, com a passagem do tempo os esforços


de cobranças tornam-se mais pessoais e rigorosos. Ross et al (2008) descrevem os procedimentos mais utilizados no caso de clientes em atraso: • Avisos de Cobrança: dias após o vencimento de uma duplicata, a empresa normalmente envia uma carta ou e-mail cortês, lembrando o cliente de sua obrigação. Se a dívida permanecer em aberto por mais alguns dias, a empresa envia outra carta ou e-mail, está sendo enviado para o departamento jurídico e/ou que o nome do cliente será incluído na lista de devedores das agências especializadas. • Telefonemas: se as cartas não surtirem efeito, pode-se ligar para o cliente e insistir que o pagamento seja efetuado ou ainda propor uma negociação para o parcelamento da dívida. • Visitas pessoais: essa técnica é mais comum com relação ao crédito ao consumidor; entretanto, pode ser empregada por fornecedores industriais. Enviar um vendedor ou um cobrador ao cliente pode ser um procedimento eficiente de cobrança. O pagamento ou a negociação da dívida pode ocorrer no ato da visita. • Agências de cobrança: uma empresa pode transferir as duplicatas incobráveis a uma agência de cobrança para receber seus créditos. • Protesto judicial: é uma medida mais extrema, uma alternativa ao uso de uma agência de cobrança. As políticas de cobrança também podem definir as taxas de desconto por pagamento antecipado ou no vencimento da obrigação. As multas, taxas de juros, correção monetária, quando permitidas pela legislação, também são componentes importantes da política de cobrança.

233 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

agora com texto mais duro, informando que o título


As consequências das políticas de cobrança traduzem resultados diretos nos valores aplicados em contas a receber, diminuindo-os ou aumentando-os de acordo com maior ou menor pressão de cobrança. Políticas eficazes tendem a reduzir as perdas com devedores incobráveis, pois é sabido que maus pagadores estão mais expostos a cobradores mais exigentes (LEMES JR. et al, 2010). A eficiência da política de cobrança pode ser avaliada

Gestão financeira

234

parcialmente, observando-se o nível de inadimplência ou dos débitos incobráveis. Cabe ressaltar que este nível não depende apenas da política de cobrança, mas da política em que se baseou a concessão do crédito. Os custos de cobrança devem ser analisados em termos de custo-benefício. Algumas empresas vão até o final de uma ação para cobrar uma divida de valor pequeno com o objetivo de mostrar aos clientes sua postura rígida em relação à cobrança. A eficiência e o custo dos diversos procedimentos de cobrança são fatores a serem considerados na decisão sobre os mecanismos de cobrança. Lemes Jr. et al (2010) destacam os mecanismos mais usados: 1 | Via Bancária: é através da rede bancária que ocorre o maior volume de cobranças formais da economia. É preciso escolher o banco e negociar as tarifas e procedimentos para que os serviços prestados ocorram dentro das expectativas da empresa, atingindo a eficiência e o baixo custo operacional. Dentro da cobrança bancária algumas modalidades como: • Cobrança simples: o banco atua como simples prestador de serviços de cobrança. Recebe o borderô, que é um formulário onde constam todas as informações da empresa e dos títulos colocados em cobrança, e lança


o débito pelo serviço de cobrança. Recebido o pagamento, o banco efetua o crédito na conta da empresa. A emissão dos boletos pode ser feita pelo banco ou pela empresa, até o vencimento o boleto pode ser pago em qualquer agência bancária ou pela internet, porém, após o vencimento o pagamento só pode ser feito nas agências do banco que emitiu o boleto. As ações de cobrança, caso o cliente não pague, ficam sob a respon• Caução de títulos: os procedimentos são os mesmos da cobrança simples; a diferença é que os títulos e o produto da cobrança representam garantia para empréstimos obtidos pela empresa emitente junto à instituição bancária. • Desconto dos títulos: a empresa realiza operação de captação de recursos junto ao banco e vincula o recebimento dos títulos “descontados” para liquidação do empréstimo. Embora os títulos atuem como garantidores da operação de captação de recursos, o banco não detém sua propriedade. No vencimento, caso o devedor não pague, o valor do título é debitado na conta da empresa emitente. Neste caso, o banco acaba, de forma indireta, ajudando a empresa na escolha dos títulos a serem descontados, pois só aceita e desconta os títulos que considera que oferecem um menor risco. 2 | Via Carteira: é o mecanismo que tem os menores custos e maior flexibilidade, mas sua eficiência é discutível. Os títulos ficam depositados na área de cobrança da empresa e são acionados nas respectivas datas de vencimento, geralmente por cobradores da empresa. Muitas instituições do poder público somente efetuam pagamentos em carteira.

235 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

sabilidade da empresa emitente do título.


Os controles devem ser muito rígidos, especialmente no registro dos títulos emitidos e seus pagamentos. Algumas atividades comerciais preferem o uso da cobrança em carteira, por emissão de carnês de cobrança; dessa forma procuram fazer com que os clientes retornem à loja para efetuar pagamentos, abrindo oportunidades para a realização de novas vendas. É uma forma de trazer o cliente à empresa. Porém,

Gestão financeira

236

a popularização dos cartões de crédito tende a diminuir essa forma de concessão de crédito e cobrança. 3 | Via Representante: trata-se de uma modalidade via carteira, porém, a cobrança é realizada através de representantes ou empresas especializadas (por exemplo, contact centers). A última questão a ser considerada por uma empresa em sua gestão de contas a receber é o monitoramento de crédito. Segundo Gitman (2010), trata-se de uma revisão contínua das contas a receber para verificar se os clientes estão pagando de acordo com os prazos de crédito estabelecidos. Se não estiverem saldando suas contas em dia, o monitoramento alertará a empresa para a existência do problema. Pagamentos lentos acarretam custos, porque ampliam o prazo médio de recebimento e, com isso, aumentam o investimento em contas a receber. As técnicas mais usadas para monitoramento das contas a receber são: Aging de valores a receber O aging é uma medida de estudo cronológico dos valores a receber (ou a pagar) mantidos por uma empresa. Essa é uma técnica usada para avaliar as políticas de crédito e cobrança, pois indica as proporções de saldos de duplicatas


a receber, relativamente a períodos específicos de tempo. Na media em que esta técnica destaca possíveis irregularidades, os analistas podem determinar as causas de problemas na política de crédito e/ou cobrança. A elaboração de um cronograma de vencimentos exige que as duplicatas sejam subdivididas em grupos, de acordo com a data de vencimento. Por exemplo: Valor

%

200.000 57,1%

Título a vencer de 30 a 60 dias

50.000 14,3%

Total de duplicatas a vencer

250.000 71,4%

Títulos vencido (até 30 dias de atraso)

55.000 15,7%

Títulos vencido (de 31 a 60 dias de atraso)

45.000 12,9%

Total de duplicatas vencidas

100.000 28,6%

Total geral da carteira

350.000 100%

O exemplo mostra que 71,4% das duplicatas emitidas estão na condição a vencer, sendo que 57,1% vencerão no próximo mês (até 30 dias) e 14,3% vencerão daqui a dois meses. Além disso, 26,6% das duplicatas emitidas estão vencidas, sendo que 12,9% estão vencidas há mais de 30 dias. Esses números assumem maior representatividade quando tratados por meio de séries temporais, refletindo a evolução das faixas de vencimentos da empresa e, de modo simplificado, a eficiência da cobrança, ao comparar as faixas de vencidos. Assaf Neto (2010) coloca que para maior representatividade na análise do aging, os diversos valores a receber devem ser apurados em moeda representativa de mesmo poder de compra. Assim, as duplicatas a vencer devem ser deflacionadas para a data atual da análise, a partir de uma taxa de inflação prevista para o período, corrigindo-se, por outro lado, para a mesma data, os valores a receber já vencidos.

237 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

Descrição Título a vencer até 30 dias


Dias de Vendas a Receber (DVR) ou Período médio de cobrança O DVR é uma medida de controle que permite, pela relação entre os valores a receber e as vendas médias diárias, apurar o número médio de dias necessário para realizar financeiramente as vendas a prazo, ou seja: DVR ou prazo médio de cobrança = valores a receber no final de um período vendas médias diárias do período

Gestão financeira

238

Por exemplo, se as vendas anuais de uma empresa atingiram R$ 750.000 e as duplicatas a receber registradas pela contabilidade totalizaram R$ 120.000 no final do mesmo período, temos que: DVR

=

120.000 = 750.000

0,16 ano x 360

=

57,60

58 dias

O resultado índica que, em média, 58 dias das vendas realizadas no último exercício ainda não foram recebidas, ou seja, encontram-se inseridas no contas a receber da empresa 58 dias das vendas anuais da empresa. Segundo Assaf Neto (2010), de forma idêntica ao estudo do aging, é importante que em contexto inflacionários os valores de cálculo do DVR estejam em moeda de mesmo poder de compra. Assim, os valores a receber deverão ser deflacionados (para as contas a vencer) ou corrigidos (para as contas vencidas) para o final do período, e as vendas devem também ser corrigidas para a mesma data. Ou, pelo menos, deve-se comparar o saldo a receber com as vendas corrigidas. O DVR também é usado como medida aproximada para o cálculo do investimento em contas a receber. Por exemplo, considerando os dados do exemplo anterior e se a empresa possui uma relação entre custos e despesas totais/ vendas totais igual a 90% (a margem de lucro neste caso é


de 10%), o montante do investimento necessário em valores a receber, considerando que das vendas totais, 80% são a prazo: Vendas totais no período = 750.000 Vendas a prazo (80%) = 600.000 Vendas a prazo médias por dia = 600.000/360 = 1.666,67

Investimento médio em valores a receber = vendas a prazo médias por dia x DVR Investimento médio em valores Investimento médio em valores a receber = R$ 96.666,86 Vale ressaltar que alterações no DVR influenciam no investimento em contas a receber. Se o DVR cair, o investimento médio em valores a receber também sofre reduções, exercendo menor pressão sobre o fluxo de caixa da empresa. O DVR também permite calcular o giro dos valores a receber: DVR

=

120.000 = 750.000

0,16 ano x 360

=

57,60

58 dias

Conceder crédito representa custos para a empresa. Esses custos relacionam-se ao maior volume de recursos aportados em valores a receber e a possibilidade de aumento nas perdas com devedores duvidosos (PDD). A expansão do crédito em valores e em prazo implica aumento de recursos aplicados

em capital circulante da

empresa. A empresa incorre em custos de oportunidade por não aplicar esses recursos em outro investimento de mesmo nível de risco. Para o cálculo do investimento médio em duplicatas a receber podemos considerar o investimento médio em valores a receber e o custo de oportunidade. Assim: Giro dos valores a receber = Investimento médio x custo de oportunidade em valores a receber

239 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

a receber = 1.666,67 x 58 dias


Vale reforçar que o custo de oportunidade é a taxa de juros que a empresa conseguiria obter em uma aplicação de mesmo nível de risco, utilizando o montante que está aplicado no investimento médio em contas a receber.

Administração de Estoques Dentro do ativo circulante, os estoques apresentam a menor liquidez, visto que são representados por matérias-primas, componentes, insumos, produtos em elaboração e Gestão financeira

240

produtos acabados e se constituem nos bens comercializáveis pelas empresas comerciais e destinados à produção e venda pelas empresas industriais. Nas empresas industriais e comerciais, a gestão dos estoques é relevante visto que o volume a ser estocado é grande. Já nas empresas de serviços a relevância dos estoques é pequena, já que o foco está na prestação de serviços e não na comercialização dos produtos. A administração dos estoques deve procurar estabelecer ações e procedimentos para saber: a) quanto comprar ou produzir; b) em que momento comprar ou produzir; e c) quais itens de estoque merecem maior atenção. Quem é o responsável pela gestão dos estoques em uma empresa? Os estoques não são administrados diretamente pelo administrador financeiro. Em geral, são de responsabilidade das áreas administrativas (compras) e/ou industrial (produção e logística). Isso torna a gestão dos estoques mais complexa, já que podem surgir divergências funcionais na definição e execução das políticas de estocagem. Como a gestão de estoques não cabe diretamente à administração financeira, não trataremos das técnicas de compras


e sistemas de estoques (lote econômico de compra, ponto de pedido, sistema da curva ABC, cálculo dos estoques de segurança, sistema MRP – Materials Requirement Planning, sistema Just in time – JIT – entre outros). Esses são assuntos pertinentes à área da Administração da Produção e Logística.

Tipos de Estoques Segundo Assaf Neto (2010), os estoques podem ser definidos como “os materiais, mercadorias ou produtos maningressarem no ciclo de produção, de seguir seu curso produtivo normal, ou de serem comercializados”. Existem diferentes tipos de estoques, caracterizados pela sua condição ao nível de produção e comercialização. São eles: Matéria-prima São bens que, no seu todo ou parcialmente, farão parte do produto acabado. Estoques de matérias-primas insuficientes causam graves problemas na produção e comercialização e afetam negativamente os resultados financeiros da empresa. Dentre os tipos de estoques, as matérias-primas são os de menor liquidez, pois precisam ser transformados em produtos acabados para serem vendidos e se tornarem caixa. Insumos São bens e produtos utilizados no processo produtivo, mas não fazem parte do produto final. Não possuem a mesma importância relativa das matérias-primas em termos de valor, mas também são imprescindíveis ao processo produtivo. Têm a mesma classificação em termos de liquidez, ou seja, são também poucos líquidos.

241 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

tidos fisicamente disponíveis pela empresa, na expectativa de


Produtos em processo Inclui todas as matérias-primas e demais custos relativos ao estágio de produção em que os produtos se encontram em determinada data (data do balanço). Efetivamente, não apresentam condições físicas de comercialização, pois necessitam ainda passar por algumas etapas de produção. Quando prontos estes itens são transferidos, com toda a carga assumida de custos, para o estoque de produtos acabados.

Gestão financeira

242

Produtos acabados São os produtos que estão prontos para a venda. É nos produtos acabados que se concentram grandes volumes de investimentos da empresa, especialmente as comerciais. É o mais líquido dos estoques, pois sua transformação em caixa depende da venda, do prazo e da cobrança. Materiais de consumo Inclui, entre outros, os itens destinados ao consumo industrial, materiais de consumo dos escritórios, material de limpeza, material de propaganda etc. O montante de estoques é influenciado, principalmente, pelo comportamento e volume previstos da atividade da empresa (produção e vendas) e pelo nível de investimentos exigidos. Se possível, é interessante evitar quantidades excessivas de estoques, as quais, em função de imprimirem maior lentidão ao giro dos ativos, reduzem a rentabilidade da empresa. No entanto, em algumas situações, essa queda de rentabilidade pode ser mais compensada pela introdução de determinados benefícios. Por exemplo, as matérias-primas podem atingir preços atraentes quando adquiridas em grandes quantidades, uma previsão de escassez de um material pode justificar uma antecipação de compra etc.


Em geral, as empresas costumam deixar estocado um volume maior que as suas necessidades normais, chamado de Estoque de Segurança, como forma de atender a certos imprevistos, tais como aumentos inesperados na demanda, surgimento de problemas no processo produtivo etc. Assaf Neto (2010) coloca que, para cada tipo de estoque, podem ser enumerados os seguintes fatores que influenciam o seu volume: Produtos acabados

Produtos em elaboração

Matérias-primas e insumo

Materiais de consumo

Demanda

Extensão do ciclo de produção

Prazo de entrega

Peculiaridades operacionais e administrativas

Perecibilidade e obsolescência do produto

Nível de desenvolvimento tecnológico da produção

Intensidade de uso no processo produtivo

Economia de escala

Perecibilidade

Custos de produção e armazenagem

Problemas com importação

Custo dos estoques As políticas de gestão de estoques devem estar focadas na determinação do nível ideal de estoques de cada produto ou grupo de produto. Segundo Lemes Jr. et al (2010), o nível ideal é “estabelecido em relação à flexibilidade operacional proporcionada pela manutenção dos estoques”. Quanto maior for o volume de estoques maior será a flexibilidade da empresa e vice-versa. As vantagens dessa flexibilidade devem ser comparadas com os custos de manutenção dos estoques. Os custos vinculados aos estoques estão classificados em três diferentes categorias: custo de manter, custo de comprar ou repor e custo de faltar estoque.

243 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

Fatores que influenciam mais diretamente o investimento em estoque de:


Custo de manter O custo de manutenção dos estoques, também chamado de custo de carregar e “carrying costs”, engloba os custos variáveis associados às decisões de se manterem determinados itens estocados. São incluídos nestes custos todos os gastos incorridos pela empresa no armazenamento (manutenção) de seus produtos e mercadorias durante certo período de tempo. Como exemplo, podemos considerar os custos

Gestão financeira

244

de armazenagem, despesas com seguros, custos de oportunidade (retorno de uma alternativa não aproveitada pela empresa para investir em estoque), eventuais perdas, deterioração e obsolescência, impostos e taxas etc. O custo de manutenção é calculado pelo prazo em que o item permanece estocado. Por definição, esses custos em termos unitários são fixos (constantes) em relação às unidades estocadas. Exemplo: Considere uma empresa que utiliza 42.000 peças por ano na fabricação do seu principal produto de venda. Faz compras a cada dois meses (seis compras por ano) e cada peça custa R$ 15. Volume comprado por encomenda: Ue = 42.000/6 = 7.000 peças Estoque médio: Uem = 7.000/2 = 3.500 peças Valor do estoque médio: V = 3.500 x 15 = R$ 52.500 Se o custo financeiro de manter o estoque for de 18% ao ano, o encargo de financiamento será de: 52.500,00 x 0,18 = R$ 9.450 Se a empresa tem custos de armazenamento de R$ 1.000, custo de seguro de R$ 500 e custos com perdas por obsolescência de R$ 700, então o custo total para manter o estoque é de:


CM = custo financeiro + custo de armazenamento + custo de seguro + custo com perdas CM = 9.450,00 + 1.000 + 500 + 700 = R$ 11.650 Em termos percentuais: 11.650,00/52.500,00 = 0,221905 = 22,1905% Confirmando: CM = taxa x p x Uem = 0,221905 x 15 x 3500 = R$ 11.650 de pedidos por ano, a quantidade pedida e a quantidade consumida. Custo de comprar O custo de compra representa todos os gastos resultantes da necessidade de adquirir materiais ou de autorizar uma ordem de produção, sendo excluído o valor de compra (ou de produção) efetivo do bem (ASSAF NETO, 2010). Esses custos são importantes, pois muitos deles ocorrem sempre que houver nova compra ou reposição e isso deve influenciar a definição dos níveis de estoques. Segundo Lemes Jr. et al (2010), os principais custos de comprar ou repor estão relacionados com: • Pesquisa de preços. • Comunicações (correio, telefone, FAX, internet etc). • Emissão de ordens de compra. • Negociação com fornecedores de bens e serviços. • Recepção e conferência dos produtos comprados. • Devoluções ocasionais. Esse custo é, normalmente, representado por um valor fixo por pedido, não se alterando diante de variações na quantidade de estoques solicitada. Em consequência, em termos

245 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

O custo de estocagem se aterá de acordo com o número


unitários. O custo de compra diminui conforme se eleva o volume físico de solicitação. O custo de compra é: CC = N x Cce Onde: CC = custo de comprar N = número de encomendas Cce = custo de comprar por encomenda

Gestão financeira

246

Exemplo: Considerando o exemplo anterior, calcule o custo total do estoque sabendo que o custo fixo de comprar é de R$ 180. Temos que: N = número de encomendas = 6 por anos Cce = custo de comprar por encomenda = 180,00 Assim: CC = 6 x 180 = R$ 1.080 O custo total do estoque será a soma do custo de manter e do custo de comprar. Assim: Custo total = 11.650 + 1.080 Custo total = R$ 12.730 Custo de faltar A falta de estoques pode trazer consequências negativas sérias para empresa como: • Atraso na produção e entrega do produto ao cliente, quando todo o pedido do cliente não pode ser atendido. • Custo da compra eventual, fora da programação e com reduzido poder de negociação. • Custos de reemissão de faturamento, embalagem e despacho da mercadoria, quando parte do pedido é atendido e os produtos em falta seguem posteriormente. • Custo da venda perdida, quando o cliente vai comprar com o concorrente.


• Custo do cliente perdido, quando o cliente vai comprar com o concorrente e troca defornecedor.

É HORA DE FIXAR: Considere uma empresa que vende um produto por R$ 10 a unidade. As vendas totais a prazo no último ano foram de 60 mil unidades. O custo variável por unidade é de R$ 6 e os custos fixos totalizam R$ 120.000. A empresa está consideesperando com isso, os seguintes resultados: o aumento de

247

5% nas unidades vendidas, o aumento de perdas com clien-

Administração das Contas a Receber e dos Estoques

rando a possibilidade de flexibilizar seus padrões de crédito,

tes de 1% das vendas (nível atual) para 2%, aumento no prazo médio de recebimento de 30 dias (seu nível atual) para 45 dias. O retorno exigido pela empresa em investimentos com o mesmo risco é de 15%. Calcule o efeito desta política para: • O lucro da empresa. • O investimento em contas a receber. • As perdas com clientes. RESOLUÇÃO: Efeito sobre o lucro: Atual Vendas (Q x 10) (-) CV (Q x 6) (=) Margem de contribuição (-) Custo fixo (=) Lucro

Nova política

600.000

630.000

(360.000)

(378.000)

240.000

252.000

(120.000)

(120.000)

120.000

132.000

A contribuição total das vendas adicionais (3.000 unidades) ao lucro será de R$ 12.000, um incremento de 10%.


O investimento em contas a receber Atual

Gestão financeira

248

Nova política

A. Vendas a prazo

600.000

630.000

B. Vendas a prazo médias por dia (B = A/360)

1.666,67

1.750,00

C. DVR ou prazo médio de cobrança

30 dias

45 dias

D. Investimento médio em valores a receber (D = BxC)

50.000,00

78.750,00

7.500,00

11.812,50

E. Custo do investimento em contas a receber (15%)

A nova proposta gera um aumento nos investimentos em contas a receber em 57,50%, passando de R$ 50.000 para R$ 78.750. Com isso, o custo total aumenta na mesma proporção, passando de R$ 7.500 para R$ 11.812,50. As perdas dos clientes O custo das perdas com clientes é obtido calculando a diferença entre os níveis de perdas antes e depois do relaxamento proposto nos padrões de crédito. Assim: Plano proposto (2% das vendas)

= 630.000 x 0,02

Plano atual (1% das vendas)

= 600.000 x 0,01 = R$ 6.000,00

Custo das perdas marginais

= R$ 12.600,00 = R$ 6.600,00

Ganho no lucro da empresa (132.000 - 120.000)

12.000,00

Custo das contas a receber (11.812,50 - 7.500)

(4.312,50)

Custo das perdas

(6.600,00)

Ganho líquido

R$ 1.087,50

O acréscimo líquido ao lucro total da empresa será de R$ 1.087,50 por ano. Como o resultado é positivo, a empresa pode adotar esta nova política de crédito.


R EFE R ÊNCIAS ASSAF NETO, A. Finanças Corporativas e Valor. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010. BRAGA, R. Fundamentos e Técnicas de Administração Financeira. São Paulo: Atlas, 1995. GITMAN, L. Princípios de Administração Financeira. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley Brasil, 2010.

fundamentos e práticas brasileiras. 3. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2010. RENDE, R. et al. Como elaborar um plano de cadastro, crédito e cobrança. Belo Horizonte: SEBRAE/MG, 2007. ROSS, S. A.; WESTERFIELD, R. W.; JAFFE, J., F. Administração Financeira – corporate finance. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2008.

249 Administração das Contas a Receber e dos Estoques

LEMES JR., A. B. et al. Administração Financeira: princípios,


(8)

Administração do Passivo Circulante


Renata Ferreira

A administração financeira de curto prazo, além de se preocupar com os investimentos em Ativo Circulante, deve analisar as fontes para financiar tais ativos. A estrutura ótima seria que recursos de capital próprio e de capital de terceiros de longo prazo financiem ativos não circulantes e os ativos circulantes permanentes (necessidades permanentes), ficando as fontes de financiamento de curto prazo para financiar os ativos circulantes temporários (ou necessidades sazonais). Na prática, a estrutura ideal nem sempre acontece. A tendência é que as empresas busquem fontes de curto prazo para financiares ativos circulantes, sejam eles permanentes ou sazonais, utilizando os recursos de longo prazo e capitais próprios para financiar ativos não circulantes. Dado o peso


dos recursos de curto prazo como fonte de financiamento, cabe ao gestor financeiro a busca por estas fontes de recursos, objetivando a diversificação da carteira e a redução do custo das operações. O objetivo desta unidade é estudar as diversas fontes de recursos de curto prazo utilizadas no mercado brasileiro, Gestão financeira

254

com destaque para as operações comerciais, diversas formas de crédito bancário e títulos no mercado de capitais.

Passivos Espontâneos Os passivos espontâneos originam-se com o andamento normal das operações da empresa. As principais fontes espontâneas de financiamento de curto prazo são: despesas a pagar e crédito comercial (contas a pagar junto a fornecedores). Geralmente, estas fontes espontâneas não geram despesas financeiras, ou seja, não há a incidência de juros pelo financiamento. São fontes de financiamento diretamente ligadas às vendas. Se as vendas da empresa aumentam, os gastos com fornecedores também aumentam em resposta às compras cada vez maiores, necessárias para produzir em níveis mais altos para atender a expansão das vendas. As despesas a pagar também tendem a aumentar com a expansão das vendas, visto que os salários crescem com as necessidades maiores de mão de obra para produção e vendas; os impostos crescem em virtude do aumento da mão de obra, das vendas e por causa do crescimento dos lucros.

Gestão de Contas a pagar (crédito de fornecedores) O crédito de fornecedores representa a principal fonte de crédito comercial utilizada para financiar o capital de giro. Resulta de transações nas quais ocorrem compras de


mercadorias a prazo. Lemes Jr. et al (2010) enumeram diversas vantagens na utilização do crédito de fornecedores, dentre elas: • Adequação: O valor do crédito comercial é estabelecido de acordo com o nível de atividade da empresa. Maior volume de vendas gera maiores compras e, por fornecedores, adequando os recursos às necessidades da empresa. • Fonte de crédito: A concessão de crédito faz parte das estratégias de vendas, e os fornecedores para vender precisam conceder crédito. Por isso, para a empresa sempre há a possibilidade de se conseguir recursos com esta fonte de financiamento. • Agilidade: As empresas são, em geral, menos burocratizadas e menos rigorosas na concessão de crédito do que as instituições financeiras, daí o crédito com fornnecedores são normalmente mais fáceis. Também são menos rigososos nas penalidades em caso de atrasos de pagamentos e mais flexíveis na necessidade de negociação. • Custos financeiros atrativos: Em termos gerais, o crédito comercial apresenta melhores condições para o tomador do que o crédito bancário. As compras a prazo podem ter custos financeiros explícitos ou não. Quando não está explícito, está inserido no preço da mercadoria. Uma forma de saber este custo é comparar o preço à vista com o preço a prazo. Como não há a incidência explícita de juros, o crédito com fornecedores não gera despesas financeiras. Segundo Gitman (2010), o objetivo da empresa é pagar tão lentamente quanto possível, sem prejudicar seu crédito. Isso significa que as contas devem ser saldadas no último dia

255 Administração do Passivo Circulante

consequência, maiores volumes de crédito junto aos


possível, respeitando os prazos oferecidos pelo fornecedor. Com isso, a empresa está fazendo o uso máximo dos recursos do fornecedor (geralmente sem juros), sem prejudicar o crédito da empresa. Outro aspecto importante é o prazo concedido pelo fornecedor para o pagamento. É com este prazo que a empresa Gestão financeira

256

pode esticar o pagamento de suas compras e planejar o seu fluxo de caixa. Como geralmente no preço de compra já está refletido o custo do fornecedor, a empresa compradora está indiretamente pagando esse benefício. Por isso é importante analisar a relação preço x prazo para pagamento para determinar sua melhor estratégia de crédito comercial. Exemplo: A empresa “Pag Certo S/A” tem como principal fornecedor a empresa ABC. O histórico da “Pag Certo S/A” mostra que as compras mensais são de 3.000 unidades e pagas à vista. O gerente financeiro identificou, ao elaborar o fluxo de caixa, dificuldades de caixa para os próximos três meses. As compras precisam ser realizadas para que as vendas não sejam prejudicadas. Cabe, então, ao departamento financeiro verificar qual alternativa de pagamento é mais vantajosa. O fornecedor ABC apresentou as seguintes possibilidades de pagamento: preço à vista R$ 68, preço para 30 dias R$ 71,40, preço para 60 dias R$ 76,40. A empresa traçou duas alternativas: Alternativa A: Comprar 3.000 unidades com prazo de 30 dias. Alternativa B: Comprar 3.000 unidades com prazo de 60 dias. Calcule o custo financeiro de cada alternativa e decida qual é a melhor alternativa. Resolução: O primeiro passo é calcular o valor final de cada alternativa.


Valor financiado

À vista

30 dias

60 dias

Alternativa A

(204.000)

-

214.200,00

-

Alternativa B

(204.000)

-

-

229.200,00

Calculando o custo de cada alternativa: Alternativa B

FV = 214.200,00

FV = 229.200,00

PV = (204.000,00)

PV = (204.000,00)

n = 1 mês

n = 2 meses

i=?

i=?

i = 5% ao mês

i = 6% ao mês

Para Lembrar Este exercício pode ser resolvido pela fórmula dos juros compostos (FV = PV. (1+i)n, pela calculadora financeira ou pelo Excel.

Assim, a melhor alternativa é o pagamento em 30 dias (Alternativa A), porque apresenta custo menor. Vamos lembrar como se calcula pela calculadora financeira – HP 12C:

257 Administração do Passivo Circulante

Alterantiva A


Gestão de Despesas a pagar A segunda espontânea de financiamento de curto prazo é representada por despesas a pagar, que são passivos gerados pela utilização de serviços cujo pagamento ainda não

258

Crédito de impostos e obrigações sociais

Gestão financeira

foi feita. Os itens mais comuns nesta categoria são:

As empresas possuem prazos para recolher os impostos, contribuições e obrigações sociais devidos ao Governo em decorrência de sua atividade, tais como: Imposto de Renda (IR), Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Contribuição para o Programa de Integração Social (COFINS), Programa de Integração Social (PIS), Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), entre outros. Estes prazos constituem créditos sem custo para a empresa, sendo importante fonte espontânea de cobertura de capital de giro. No caso de problemas de caixa, existe a possibilidade de a empresa solicitar a dilatação dos prazos de pagamento e, nos casos de inadimplência, pode-se obter parcelamentos em condições vantajosas. Claro que os Governos não abrem mão da correção monetária e dos juros, por isso, é preciso analisar cada situação, pois além de um custo, situações deste tipo são arriscadas. Outros créditos operacionais Podemos incluir como fontes de crédito comercial, o pagamento de salários e compras por encomenda, por exemplo. O pagamento de salários segue a legislação trabalhista e os acordos sindicais. A legislação estabelece o pagamento dos salários até o quinto dia útildo mês subsequente, a empresa


tem este período para “usar os recursos”. No caso de compras por encomenda, é comum a venda ou prestação de serviço com recebimento antecipado de parte dos valores.

Crédito Bancário A captação de recursos de curto prazo através de créjunto a bancos comerciais, sociedades de crédito, financiamento e investimentos (as chamadas financeiras) e os bancos de investimento. Por serem empréstimos, não há destinação específica para os recursos captados. O crédito bancário é uma fonte de financiamento negociada e resulta da iniciativa do gestor financeiro (não é uma fonte espontânea). As operações de crédito bancário são formalizadas através de contratos firmados entre o emprestador (a instituição bancária), o tomador do empréstimo (no caso a empresa) e eventuais avalistas. São operações que possuem exigências prévias, como o fornecimento de documentação legal, informações cadastrais e financeiras. É comum as empresas recorreram a empréstimos de curto prazo para cobrirem as necessidades sazonais, devido principalmente à acumulação de estoques e contas a receber. À medida que os estoques e contas a receber são convertidos em caixa, são gerados os fundos necessários para liquidar o empréstimo. Gitman (2010) denomina este tipo de empréstimo de autoliquidáveis, já que “o emprego do dinheiro emprestado cria o mecanismo pelo qual o empréstimo é restituído”. Lemes Jr. et al (2010) descrevem as condições contratuais das operações de crédito bancário. São elas: • Valor: O valor da operação é expresso em moeda nacional, pode ser definido como um teto (limite) que o tomador vai usando conforme suas necessidades, ou ser liberado de uma única vez.

259 Administração do Passivo Circulante

dito bancário é uma operação de empréstimo e pode ser feita


• Custos: Representam os juros, comissões, taxas e demais despesas cobradas pela instituição financeira. Podem ser cobrados antecipadamente ou não. Os juros podem ser fixos ou flutuantes (ou seja, pré ou pós-fixados). tuem um custo da operação e devem ser considerados

Gestão financeira

• Encargos: Os encargos tributários também consti-

260

na análise. • Prazo: Os prazos da operação devem ser adequados às necessidades da empresa, podem ser diluídos em parcelas e em certas ocasiões ser estabelecido um período de carência. • Garantias: Em algumas operações são estabelecidas garantias exigidas pelo emprestador que irão contribuir para reduzir o risco da operação. Estas garantias podem chegar a 50% acima do valor emprestado.

Vamos Recordar? Quando tratamos de parcelas iguais (fixas), os plano podem ser: ‚‚postecipados (quando o primeiro pagamento ocorre no final do primeiro período, ou seja, na data 1); ‚‚antecipados (quando o primeiro pagamento da série de prestações iguais ocorre no ato, ou seja, na data zero); ‚‚diferidos (ou planos com carência – quando o primeiro pagamento ocorre em uma data superior ao primeiro período).

Nos empréstimos comuns, a empresa capta recursos e paga em parcelas que podem ser fixas ou variáveis. As formas de pagamento de empréstimos e financiamentos são chamadas de Sistemas de Amortização. A Amortização é um processo financeiro pelo qual uma dívida


ou obrigação é paga progressivamente por meio de parcelas, de modo que ao término do prazo estipulado o débito seja liquidado. Estas parcelas ou prestações são a soma de duas partes: a amortização ou devolução do principal emprestado e os juros correspondentes aos saldos do empréstimo ainda não amortizados.

O sistema mais utilizado pelas instituições financeiras e pelo comércio em geral é caracterizado por pagamentos de prestações iguais, periódicas e sucessivas. Este sistema é chamado de Sistema de Amortização Francês ou Tabela Price.

Você Sabia? O sistema Price tem esse nome em homenagem ao economista inglês Richard Price, o qual incorporou a teoria dos juros compostos às amortizações de empréstimos no Século XVIII. A parcela dos juros é obtida pela multiplicação da taxa de juros pelo saldo devedor do período anterior e a parcela da amortização pela diferença entre a prestação e os juros. Desse modo, os juros são decrescentes e as amortizações crescentes.

Administração do Passivo Circulante

Prestação = Amortização + Juros

261


Exemplo: Uma empresa fez um empréstimo de curto prazo no valor de R$ 100.000, à taxa de 10% ao mês, para ser liquidado em quatro prestações mensais. 1º Passo Calcular o valor das prestações (pode ser feito pela fórmula, pela calculadora financeira ou pelo Excel). Usando a fórmula de prestações postecipadas:

Gestão financeira

262

Montar a planilha de financiamento: Período

Juros

Amortizações

Prestações

0

Saldo devedor 100.000,00

1

10.000,00

21.547,08

31.547,08

78.452,92

2

7.845,29

23.701,79

31.547,08

54.751,13

3

5.475,11

26.071,97

31.547,08

28.679,16

4

2.867,92

28.679,16

31.547,08

0

• Juros = saldo devedor x taxa de juros / Neste caso: J = 78.452,92 x 0,10 = R$ 7.845,29 • Amortização = prestação - juros / Amortização = 31.547,08 - 7.845,29 = R$ 23.701,79 • Prestação Calculada na Etapa anterior • Saldo Devedor = Saldo Anterior - Amortização / Saldo Devedor = 78.452,92 - 23.701,79 Saldo Devedor =


R$ 54.751,13 Também é possível obter os valores da tabela price pela calculadora HP 12C: O primeiro passo é calcular a prestação na calculadora:

Administração do Passivo Circulante

263

Atenção! Sem apagar os dados do cálculo da prestação podemos calcular o saldo devedor após o pagamento da segunda parcela, por exemplo:

Além dos empréstimos comuns, as principais modalidades de crédito bancário de curto prazo são:


Desconto de títulos A operação de desconto de títulos, atualmente, também chamada de antecipação de recebíveis, envolve basicamente a negociação de um titulo representativo de um crédito de algum momento anterior à sua data de vencimento, ou seja, é a antecipação de recebimento de crédito através da cessão dos Gestão financeira

264

direitos a um banco (ASSAF NETO, 2010). Ao efetuar uma venda a prazo, as empresas emitem títulos (ou duplicatas ou boletos) correspondentes ao valor da venda e cuja função é ser o instrumento de cobrança da venda; se a venda for parcelada, serão emitidas tantas duplicatas quantos forem os vencimentos e com os respectivos valores. As duplicatas tornam-se títulos negociáveis e a operação de crédito de desconto de duplicata é a operação em que estes títulos são vinculados. A duplicata exerce, portanto, o papel de garantia oferecida pela empresa para a operação, pois é endossada ao banco, que passa a ter o privilégio do seu recebimento. Lemes Jr. et al (2010) descrevem que, apesar de apresentarem custos elevados, as operações de desconto são muito utilizadas por empresas em função das seguintes vantagens: • Reduzem ou evitam despesas de cobrança e há maior interesse do banco; • Facilitam e agilizam as operações de obtenção dos recursos, pois duplicatas de bons pagadores são facilmente descontáveis; e • Como faz prévia seleção das duplicatas a serem negociadas, o banco auxilia na avaliação de crédito dos clientes; As operações de desconto praticadas pelos bancos comerciais costumam apresentar os seguintes custos/encargos financeiros:


. Relação entre os juros e o valor nominal do título. . É expressa, geralmente em termos mensais e empregada de forma linar (assim como os juros simples.

Imposto sobre operações financeiras - IOF

. Percentual calculado linearmente sobre o valor nominal do título e cobrado no ato da liberação dos recursos.

Taxa administrativa . Cobradas por muitas instituições visando cobrir certas despesas e abertura, concessão e controle do crédito. . Calculado de uma única vez sobre o valor do título e descontada na liberação dos recursos.

Esses custos/encargos financeiros são referenciados, para o cálculo de seus valores, pelo critério dos juros simples. Já para a apuração do custo efetivo da operação é adotado o regime de juros compostos. A fórmula para apuração do desconto bancário é:

D = N.d.n Sendo: D = valor do desconto N = valor nominal do título d = taxa de desconto n = prazo para o vencimento do título VL = Valor líquido Liberado = N – D Exemplo: Considere um título no valor de R$ 30.000 a ser descontado três meses antes de seu vencimento. A taxa nominal de desconto bancário é 3,5% ao mês e o IOF seja 1,5% ao ano. Calcule o valor liberado e o custo efetivo da operação. Valor nominal do título

R$ 30.000

Desconto D = 30.000 x 0,025 x 3 =

(R$ 3.150)

IOF = 30.000 x 0,015 x 3/2 = Valor líquido liberado

(R$ 112,50) R$ 26.737,50

O custo efetivo da operação pode ser calculado de duas formas:

265 Administração do Passivo Circulante

Taxa de desconto (nominal)


Método 1: Pela fórmula

Gestão financeira

266

Transformando a taxa em mensal pela fórmula da taxa equivalente: Taxa equivalente: i = (1 + i)q/n - 1 Taxa equivalente = (1 + 0,12200)1/3 - 1 = 0,03912 Custo efetivo mensal = 3,91% ao mês Método 2: Pelo conceito de juros compostos FV = 30.000,00 PV = 26.737,50 n = 3 meses i =? Vamos calcular pela calculadora financeira – HP 12C:

Para relembrar Pode ser resolvido pela fórmula de juros compostos FV = PV(1+i)n, pela calculadora financeira ou pelo Excel.


Duplicata

Valor do título

Vencimento

A

R$ 20.000

60 dias

B

R$ 15.000

45 dias

C

R$ 18.000

30 dias

D

R$ 12.000

25 dias

E

R$ 25.000

50 dias

F

R$ 30.000

75 dias

Total

R$ 120.000

A taxa de desconto é de 3,2% ao mês, o IOF é de 1,5% ao ano. Qual o valor liberado e o custo efetivo da operação? O primeiro passo é calcularmos o prazo médio da operação. Para calcular o prazo médio precisamos apurar N x n (valor do título x prazo): Duplicata

Valor do título

Vencimento

A

R$ 20.000

60 dias

R$ 1.200.000

Nxn

B

R$ 15.000

45 dias

R$ 675.000

C

R$ 18.000

30 dias

R$ 540.000

D

R$ 12.000

25 dias

R$ 300.000

E

R$ 25.000

50 dias

R$ 1.250.000

F

R$ 30.000

75 dias

Total

R$ 120.000

Prazo médio = ∑N . n ∑N

R$ 2.250.000 R$ 6.215.000

Prazo médio = 6.215.000 = 51,791 dias 120.000

267 Administração do Passivo Circulante

Desconto de uma carteira de títulos Raramente a empresa envia ao banco apenas uma duplicata. É comum a empresa efetuar o desconto de vários títulos, compondo-se o que se chama “borderô de duplicatas”. A metodologia de cálculo pode ser realizada individualmente, ou seja, calculando-se o desconto de cada título e no final soma-se os valores líquidos, ou podemos apurar o valor pelo conceito de prazo médio. Exemplo: Considere que uma empresa apresente ao banco para desconto o seguinte borderô de duplicatas:


Podemos calcular o prazo médio pela calculadora HP 12C:

Gestão financeira

268

Depois de calcular o prazo médio, basta apurar o desconto considerando: N = total do borderô de duplicatas = 120.000,00 n = prazo médio = 51,791 dias d = 3,2% ao mês IOF = 1,5% ao ano Valor nominal dos títulos Desconto D = 120.000 x 0,032 x 51,791/30 = IOF = 120.000 x 0,015 x 51791/360 = Valor líquido liberado

R$ 120.000 (R$ 6.629,25) (R$ 258,96) R$ 113.111,79


Custo efetivo da operação: FV = 120.000 PV = 113.111,79 n = 51,791/30 i =? Custo efetivo = 3,48% ao mês

Os créditos rotativos são operações simplificadoras da utilização de empréstimos junto aos bancos. Funcionam como uma conta corrente, com limite de crédito e prazo preestabelecido, dentro do qual a empresa pode efetuar saques a descoberto para atender suas necessidades de caixa, sem maiores burocracias (LEMES JR. et al, 2010), ou seja, representa uma conta de saldo devedor, em que o cliente saca a descoberto e os juros são calculados periodicamente sobre o saldo médio utilizado (ASSAF NETO, 2008). Os encargos financeiros são elevados, porém são pagos apenas pelo período durante o qual a conta permanece devedora. A determinação dos encargos financeiros sobre os valores devedores é geralmente processada por capitalização simples por meio do denominado “método hamburguês”. O cálculo dos juros é feito pela fórmula:

J = SD x i x n Sendo: J = juros do período SD = Saldo Devedor i = taxa de juros proporcional diária n = número de dias em que o saldo permanece devedor

269 Administração do Passivo Circulante

Crédito Rotativo ou Conta Garantida


Exemplo: Considere que a empresa que apresenta uma conta garantida com limite de R$ 500.000, os encargos financeiros fixados para a operação são juros nominais de 5,5% ao mês, debitados ao final de cada mês, e uma taxa de abertura de crédito (TAC) no valor de 2% cobrada no ato e incidente sobre o Gestão financeira

270

limite. No período de utilização foram realizadas as seguintes movimentações: Dia 02: saque de R$ 200.000 (data de abertura da conta) Dia 13: saque de R$ 60.000 Dia 20: saque de R$ 120.000 Dia 26: saque de R$ 75.000 Calcule o total de jurosque serão cobrados no dia 30: Saldo de R$ 210.000 permaneceu entre os dias 02 e 13, portanto: dias em utilização = 13 – 2 = 11 dias Dia

Movimentação

Saldo

Dias em utilização

Juros

02

10.000

10.000

TAC

** TAC = 500.000x0,02=10.000

02

200.000

210.000

11

J=210.000x0,055x11/30=4.235,00

13

60.000

270.000

7

J=270.000x0,055x7/30=3.465,00

20

120.000

390.000

6

J=390.000x0,055x6/30=4.290,00

26

75.000

465.000

4

J=465.000x0,055x4/30=3.410,00

30

-

Total de juros = R$ 15.400,00

Operações de Fomento Comercial - Factoring As operações de fomento mercantil ou factoring constituem uma modalidade de assistência financeira de curto prazo, cujos benefícios concentram-se potencialmente nas micro, pequenas e médias empresas, pela dificuldade de obterem acesso à oferta de recursos de giro pelo mercado. Representa a compra de direitos creditórios ou ativos, representativos de vendas mercantis a prazo (valores a


receber) das empresas produtoras. Segundo Assaf Neto (2010) esta atividade procura “reequilibrar o fluxo monetário da empresa carente de liquidez imediata, por meio da canalização dos valores aplicados e contas a receber (realizável) para seu disponível”. Lemes Jr. et al (2010) apresentam a definição legal de Factoring é a “prestação contínua de serviços ou de alavancagem mercadológica, ou de seleção de riscos, conjugada com a aquisição de créditos de empresas resultantes de suas vendas mercantis ou de prestação de serviços a prazo”. São operações em que as empresas realizam a transferência efetiva de créditos emitidos contra clientes (duplicatas a receber) para a Factoring (também chamado de Agente Factor), que assume o risco do não recebimento. Legalmente, não são consideradas operações de crédito, mas sim operações de cessão de direitos. Ou seja, além da transferência dos valores a receber, ocorre a transferência dos riscos inerentes a estes ativos. São três os agentes envolvidos em uma operação de factoring:

Comprador

Cliente

Factoring

. Empresa compradora do bem ou serviço vendido pela empresa (cliente da factoring)

. Cliente da empresa de fomento comercial vendedora do bem ou serviço.

. Empresa de fomento comercial - ou casa Factoring.

As principais modalidades de operações de factoring são:

Administração do Passivo Circulante

271

factoring, adotada pela Lei 8.991, de 20/01/1995:


Operações liquidadas no vencimento A empresa negocia seus valores a receber com a factoring e recebe a importância convencionada somente no vencimento dos referidos títulos, ou seja, não existe nenhuma antecipação de valores à empresa compradora. A empresa de factoring, além da garantia da operação, contribui com seus

Gestão financeira

272

serviços de análise econômico-financeira das contas, análise de riscos e cobranças. As despesas são descontadas quando do pagamento do título. Esta modalidade também é chamada de maturity. É a denominação da modalidade convencional, bastante semelhante à operação de desconto de títulos. Assim como o desconto de duplicatas, empresa factoring antecipa o pagamento dos títulos adquiridos pela empresa-cliente, porém a diferença é que não há o envolvimento de crédito e sim uma antecipação de valores futuros. O agente factor assume todos os direitos e riscos sobre o recebimento dos títulos. Adiantamento de títulos a serem emitidos É uma operação semelhante a um empréstimo de curto prazo para capital de giro. Envolve um adiantamento de recursos por conta de vendas ainda não realizadas. A empresa compromete-se a pagar a operação com duplicatas que serão emitidas no futuro. Factoring contra a entrega de mercadorias Esta modalidade envolve um fornecedor de estoques, um vendedor de produtos (empresa-cliente da factoring) e um comprador. Recebendo a empresa-cliente um pedido de um comprador e não tendo em estoques os produtos para atender ao pedido, ela pode consultar o factor sobre a viabilidade de pagar seu fornecedor e o reembolso à casa de factoring ocorrerá somente após a realização da venda.


Administração do caixa Esta modalidade, também chamada de trustee, ocorre quando a casa de factoring se torna gestora do caixa da empresa. Os custos das operações de factoring tendem a ser maiores do que de uma operação de empréstimo obtido junto assume o risco da inadimplência do devedor e, claro, cobra por isso. Nas operações convencionais, os custos e despesas envolvidos são: • Comissão de Factoring: visa cobrir as despesas operacionais de análise, seleção e cobrança de crédito. Geralmente, o pagamento desta despesa é efetuado mediante uma porcentagem fixa calculada sobre o valor nominal dos títulos negociados. • Juros por antecipações: são pagos antecipadamente e calculados de acordo com o critério de desconto bancário. A taxa de juros da operação depende das taxas de mercado e do risco da operação. • Reserva de caução: consiste na retenção do valor do adiantamento concedido à empresa-cliente e calculado sobre o valor nominal do título. Geralmente, varia entre 5% e 15% do valor nominal dos títulos, esta reserva é liberada quando do recebimento dos títulos e é justificada para garantir a fidelidade dos títulos negociados. Existem diversos benefícios para as empresas que utilizam as operações de factoring:

273 Administração do Passivo Circulante

às instituições financeiras, isso porque a casa de factoring


Vantagens das operações de factoring • Maior flexibilidade de financiamento: como o agente factoring é quem assume o risco da operação, sua preocupação maior é com o devedor e não com a empresa-cliente. Isso torna as operações mais flexíveis, desde que o devedor seja uma empresa de repuGestão financeira

274

tação creditícia. Empresas que não se enquadram neste nível de reputação têm seus títulos recusados pelo agente factor. • Garantia de recebimento e consequente eliminação do risco. • Dispensa a manutenção de saldos médios e outras formas de reciprocidade exigidas pelas instituições bancárias: na relação com os bancos é comum a existência de custos disfarçados, resultantes de exigências facilitadoras das operações de crédito, isso não acontece com as operações de factoring. • As operações de factoring podem gerar uma economia para a empresa em relação aos gastos com a instalação e ao funcionamento de um departamento de cobrança, o qual passa a ser de responsabilidade do agente factor (pelo menos em relação aos títulos negociados). Como os custos da operação são elevados, é preciso que a empresa quantifique todas as vantagens da operação e as compare com os custos, obtendo assim os encargos líquidos do factoring. A decisão final sobre a contratação destes serviços ocorrerá após a comparação destes encargos líquidos com os custos das demais modalidades de crédito oferecidas pelo mercado financeiro.

Mercado de Capitais: Commercial Papers As empresas também podem utilizar o mercado de capitais para obter recursos para financiar suas atividades.


Os títulos de curto prazo são a commercial paper que constituise, na prática, em uma nota promissória de curto prazo emitida por uma Sociedade por Ações (S.A) para financiar seu capital de giro. A garantia do título é o próprio desempenho da empresa, e os títulos podem ser adquiridos pelas instituições financeiras para sua carteira própria ou repasse a seus A principal vantagem do emitente do título é a possibilidade de tomar recursos a um custo muitas vezes inferior às taxas de juros praticadas nos empréstimos bancários. Segundo Assaf Neto (2010), o barateamento das taxas pagas ao commercial paper ocorre, em grande parte, pela eliminação da intermediação bancária no processo de captação e aplicação de recursos. Os principais investidores de commercial paper são as carteiras de bancos, fundos de pensão e seguradoras. São atraídos pela diversificação que o título pode proporcionar em suas carteiras de investimento e a curta maturidade. O prazo mínimo da nota promissória é de 30 dias, e seu prazo máximo é de 180 dias. A rentabilidade da nota promissória não possui cupom de juros. Seu rendimento pode ser pré-fixado (na forma de deságio em relação de face da nota promissória na época de sua negociação), ou pós-fixado (na forma de correção do valor de face) por indexadores como o DI, SELIC, TR e TJLP. As notas promissórias são muito difundidas nos EUA e largamente utilizadas pelas empresas americanas. Instituídas pela primeira vez nos EUA em Nova Iorque e Boston em 1790, porém só foram reconhecidas em 1830, quando suas transações passam a ser publicadas no Financial Register of the United States. As notas promissórias negociadas no mercado de capitais foram instituídas no Brasil em 1990 e não podem ser emitidas por instituições financeiras, sociedades corretoras,

275 Administração do Passivo Circulante

clientes investidores.


distribuidoras de valores mobiliários e sociedades de arrendamento mercantil (empresas de leasing). Os commercial papers negociados em Bolsas de Valores estão previstos na Instrução da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) nº 217, de 2/ago/1994 e não estão sujeitos à tabela de corretagem adotada pelos membros das Bolsas de Gestão financeira

276

Valores. Os custos de emissão desses títulos são, em geral, formados pelos juros pagos aos aplicadores, comissões e despesas diversas (publicações, taxas de registro na CVM etc.). Estes papéis costumam ser negociados com descontos, sendo seu valor de face pago por ocasião do resgate. Os títulos podem ser adquiridos no mercado ou por meio de fundos de investimentos. Exemplo: O departamento financeiro de uma empresa de capital aberto identificou uma necessidade de capital de giro de R$ 3.000.000 para os próximos 60 dias, e decidiu captar tal montante através de uma emissão de commercial paper, nas seguintes condições: • Valor: R$ 3.000.000; • Prazo: 60 dias; • Taxa de registro na CVM: 0,4%; • Despesas diversas com publicações e distribuição: R$ 5.000; • Remuneração oferecida aos aplicadores é uma taxa de desconto de 0,90% ao mês Calcular o valor líquido recebido pela empresa e a taxa real efetiva de emissão deste commercial paper.


• Valor líquido recebido: 3.000.000

Desconto:

D = N x d x n

D = 3.000.000 x 0,0090 x 2 ............

(54.000)

Taxa de registro na CVM = 3.000.000 x 0,004 .......

(12.000)

Despesas diversas .........................................................

(5.000)

Valor líquido .....................................................................

2.929.000

• Custo Efetivo: PV = 2.929.000 FV = 3.000.000 n=2 i=? Podemos calcular pela calculadora financeira, Excel, fórmula dos juros compostos ou ainda:

(

)

i = 3.000.000 2.929.000

- (1,02424)½ - 1 = 0,01205 = 0,0205% ao mês

½

É HORA DE FIXAR: Considere que uma empresa está com problemas de caixa para os próximos três meses e terá que captar recursos no mercado financeiro. O gestor financeiro analisou as oportunidades e decidiu que ao invés de captar os recursos em uma só fonte, criará uma carteira de financiamento de curto prazo, através das seguintes captações: a) Desconto de duplicatas Para o desconto, foram apresentadas as seguintes duplicatas:

277 Administração do Passivo Circulante

Valor Nominal .................................................................


Duplicata

Valor

Vencimento

A

R$ 200.000

40 dias

R$ 8.000.000

B

R$ 75.000

35 dias

R$ 2.625.000

C

R$ 65.000

50 dias

R$ 3.250.000

D

R$ 60.000

60 dias

R$ 3.600.000

Total

R$ 400.000

R$ 17.475.000

Gestão financeira

278

O banco cobra uma taxa de desconto de 3,5% ao mês mais o IOF de 1,5% ao ano. Calcule o valor liberado e o custo da operação. b) Utilização de conta garantida A empresa decidiu utilizar a conta garantida apenas no primeiro mês. A empresa conseguiu um limite de R$ 700.000 e a taxa de juros nominais é de 6,5% ao mês. As movimentações do período foram: Data

Movimentação

01

Saque de R$ 300.000

09

Saque de R$ 100.000

15

Saque de R$ 70.000

24

Saque de R$ 90.000

28

Saque de R$ 40.000

Calcule o total de juros pagos. c) Emissão de commercial papers. Valor emitido: R$ 1.000.000; Prazo: 90 dias; Taxa de registro na CVM: 0,5%; Remuneração oferecida aos aplicadores é uma taxa de 0,80% ao mês. Calcule o valor liberado e o custo efetivo da operação.


RESOLUÇÃO: a) Desconto de Duplicatas: Valor

Vencimento

A

R$ 200.000

40 dias

R$ 8.000.000

B

R$ 75.000

35 dias

R$ 2.625.000

C

R$ 65.000

50 dias

R$ 3.250.000

D

R$ 60.000

60 dias

R$ 3.600.000

Total

R$ 400.000

R$ 17.475.000

Prazo médio = 17.475.000/400.000 = 43,6875 dias Valor Nominal dos Títulos

R$ 400.000

Desconto D = 400.000 x 0,035 x 43,6875/30 =

(R$ 20.387,50)

IOF = 400.000 x 0,015 x 43,6875/360 =

(R$ 728,13)

Valor líquido liberado

R$ 378.884,37

Custo efetivo da operação: FV = 400.000 PV = 378.884,37 n = 43,6875/30 i=? Custo efetivo = 3,794% ao mês b) Conta Garantida: Dia

Movimentação

Saldo

Dias em utilização

Juros

01

300.000

300.000

8

J = 300.000 x 0,065 x 8/30 = 5.200

09

100.000

400.000

6

J = 400.000 x 0,065 x 6/30 = 5.200

15

70.000

470.000

9

J = 470.000 x 0,065 x 9/30 = 9.165

24

90.000

560.000

4

J = 560.000 x 0,065 x 4/30 = 4.853,33

28

40.000

600.000

2

J = 600.000 x 0,065 x 2/30 = 2.600 Total de juros = R$ 27.018,33

279 Administração do Passivo Circulante

Duplicata


c) Commercial Papers Valor nominal

1.000.000,00

Desconto

D = 1.000.000 x 0,008 x 3

Taxa registro CVM

1.000.000 x 0,005 =

Valor liberado

Gestão financeira

280

(24.000,00) (5.000,00) 971.000,00

Custo efetivo:

(

)

i = 1.000.000 971.000

- 1 = (1,02987)⅓ - 1 = 0,00986 = 0,986% ao mês

R EFE R ÊNCIAS ASSAF NETO, A. Finanças Corporativas e Valor. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010. ASSAF NETO, A. Matemática Financeira e suas aplicações. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2008. GITMAN, L. Princípios de Administração Financeira. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley Brasil, 2010. LEMES JR., A. B. et al. Administração Financeira: princípios, fundamentos e práticas brasileiras. 3. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2010. ROSS, S. A.; WESTERFIELD, R. W.; JAFFE, J. F. Administração Financeira – corporate finance. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2008. SAMANEZ, C. P. Matemática Financeira: aplicação à análise de investimentos. 4. ed. São Paulo: Pearson - Prentice Hall, 2007.


Gestão Financeira  
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