Page 1

Ano 3, Volume 1, Janeiro-Março, 2012 ISSN 2177-0719

O ANATOMISTA Medicina Evolutiva Genética Políticas de Expansão Universitária no Ensino da Anatomia Nervo Facial Técnica de Injeção de Tinta da China em Corações de Bovinos e Ovinos

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ANATOMIA


O ANATOMISTA REVISTA DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ANATOMIA

Expediente Editores: Nadir Eunice Valverde Barbato de Prates Richard Halti Cabral

Conselho Editorial:

Arani Nanci Bomfim Mariana José Aderval Aragão Marcelo Cavenaghi Pereira da Silva Jõao Carlos de Souza Cortes Mirna Duarte Barros Telma Sumie Masuko

Capa:

“O Elefante Composto” – Pintura persa, datada do final do século XIV. Figura extraída do artigo KOENTGES, G. Evolution of anatomy and gene control. Nature, v. 451, p. 658-663, 2008 (doi: 10.1038/451658a). A responsabilidade do conteúdo dos artigos deve ser atribuída, exclusivamente, aos seus respectivos autores. As opiniões manifestadas nos artigos não refletem, necessariamente, a opinião da Sociedade. Sociedade Brasileira de Anatomia Av. Prof. Lineu Prestes, 2415 - Prédio Biomédicas III Cid. Universitária. Cep: 05508-900 São Paulo / SP E-mail: sba@icb.usp.br / Website: http://www.sbanatomia.org.br Tel.: (11) 3091-7978 / Tel./Fax: (11) 3813-8587

2


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Sumário Artigos Originais Medicina evolutiva e uma nova visão do porquê ficamos doentes ........................................... 03 GENÉTICA: o pão nosso de cada dia ....................... 09 A Influência das políticas brasileiras de expansão universitária no ensino de Anatomia Humana ........... 16

Artigo de Revisão Nervo facial: uma revisão focada em sua divisão parassimpática ................................................................. 20

Como eu faço... Técnica de injeção de tinta da China para demonstração da rede de purkinje em corações de bovinos e ovinos ....................................................... 29

3


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original

MEDICINA EVOLUTIVA E UMA NOVA VISÃO DO PORQUE FICAMOS DOENTES Ana Lúcia dos Anjos Duarte1, Daniella Franco Curcio2, Mirna Duarte Barros2 1Docente 2Docente

do Curso de Medicina, Universidade São Camilo do Departamento de Morfologia, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

A Medicina Evolutiva ou Darwiniana tem sido considerada uma nova subdisciplina e vem se desenvolvendo desde 1991, com a publicação do trabalho de Williams & Nesse. Ela pode ser definida como o estudo das consequências do processo dinâmico de seleção natural, tanto sobre a espécie humana, quanto sobre patógenos a ela relacionados (Spotorno, 2005;

Stearns, 2002). A Medicina Evolutiva estuda os princípios biológicos evolutivos pertinentes para a compreensão dos processos de saúde e doença de modo mais amplo e, assim, propõe novas linhas e abordagens de tratamentos que possam ser mais eficientes (Hirsch et al. 2002 apud Naugler, 2008). Os objetivos da Medicina Evolutiva devem ser a investigação das causas evolutivas para as diversas patologias, disfunções e alterações morfológicas das estruturas orgânicas no ser humano, visando prolongar o estado de saúde e estimular novas pesquisas com a mesma

finalidade. Segundo este prisma, os mecanismos desencadeadores dos processos patológicos podem ser classificados em dois grupos, distintos por nível de causalidade: os processos patológicos advindos de causas diretas (proximate causes) e os relacionados a causas evolutivas. Os primeiros corresponderiam a alterações morfológicas, funcionais ou morfofuncionais ligadas a fatores imediatos, os quais resultam em doenças ou desvios da normalidade. Os processos patológicos de causa evolutiva, por sua vez, teriam relação com eventos ocorridos ao longo da história evolutiva da espécie humana. Este paradigma de análise dos mecanismos de saúde e

doença confere uma perspectiva histórica à determinação da causalidade de doenças ou de desvios morfofuncionais dos padrões de normalidade (Harris & Malyango, 2005). Dentro do conceito evolucionista, alguns questionamentos ganham nova dimensão, por exemplo: 1. Por que a seleção natural não eliminou determinada doença?; 4


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original: MEDICINA EVOLUTIVA E UMA NOVA VISÃO DO PORQUE FICAMOS DOENTES

2. Por que o corpo humano apresenta características que o torna suscetível a determinadas patologias e por que algumas delas causam complicações orgânicas irreversíveis? Ou ainda;

3. Poderia uma determinada doença ser o resultado de uma incompatibilidade entre a herança biológica e o estilo de vida de determinados grupos? Raciocínios guiados exclusivamente pela somatória de causas diretas, base teórica da Medicina Atual, parecem insuficientes para responder de modo decisivo a estas perguntas. Assim, a medicina evolutiva busca detectar um amplo espectro de causas ou fatores que acabam por culminar em uma enfermidade. Spotorno (2005) cita exemplos: alguns sintomas clínicos como febre, tosse, vômito,

diarreia, dor, irritação, ansiedade, normalmente são considerados como parte do problema na visão tradicional; já sob a análise evolucionista, estes sintomas são funcionais, ou seja, são aspectos incorporados pela pressão da seleção natural e devem ser considerados como uma das respostas/defesas do organismo a uma infecção ou trauma. Weiner (1998) alerta para a resistência dos cientistas à biologia evolutiva, o que seria justificado por questões de maior complexidade, como por exemplo: Por que a doença não ocorre em todos os indivíduos? ou Por que a seleção natural não leva à perfeição, através da eliminação de falhas morfológicas e funcionais que predispõem humanos a infecções, degenerações relacionadas à idade, e suscetibilidade a diversas patologias, como alergias, câncer, hipertensão, diabetes mellitus, doenças mentais e outras. A ideia de que a evolução é progressiva e tende à perfeição em organismos biológicos imunes a doenças é um resíduo do pensamento dos séculos XVIII e XIX (Ruse, 1996), que pode ser abordado e reavaliado nas salas de aulas dos cursos médicos modernos, oferecendo novas possibilidades de pensamentos a respeito dos processos patológicos. Os paradigmas clássicos da medicina, que consideram os conceitos de saúde e doença como inseridos em categorias opostas, seriam inevitavelmente remodelados, em função de princípios básicos da biologia evolutiva. Do mesmo modo que ocorrem variações biológicas intra e interespécies, variam também a suscetibilidade individual às diversas patologias, seus sinais e sintomas e, em última análise, o estado geral de saúde e doença. 5


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original: MEDICINA EVOLUTIVA E UMA NOVA VISÃO DO PORQUE FICAMOS DOENTES

Assim, nos paradigmas modernos, os conceitos médicos de saúde e doença só poderiam ser compreendidos através da análise evolutiva (Weiner, 1998). A biologia evolutiva apresenta dois ramos que contribuem para a ciência médica: o primeiro deles representa a perspectiva adaptacionista, embasado nas consequências da seleção natural, nas adaptações de humanos e de seus patógenos, e na resposta rápida e dinâmica das intervenções humanas. O segundo diz respeito à perspectiva histórica, a qual considera as transformações evolutivas e suas consequências na determinação do estado de saúde ou doença; inclui-se aqui, por exemplo, o processo evolutivo de rebaixamento da laringe em primatas ancestrais da espécie humana que, apesar de ser considerado como um dos fatores para a viabilização da fala, resultou antes no cruzamento das vias dos sistemas respiratório e digestório e no aumento do risco de morte por asfixia (Stearns & Ebert, 2001). O diâmetro estreito do canal de nascimento, a existência do terceiro molar e a persistência de genes que causam doença bipolar e senescência, são condições cujas origens estão fincadas na história evolutiva humana (Nesse & Williams, 1994). Naugler (2008) comenta que uma hipótese evolutiva para a origem das doenças humanas consiste em más combinações (mismatches) entre genes e ambiente. Esta teoria está embasada no fato de que vários genes humanos condicionaram adaptações a um ambiente ancestral em particular (tal como a savana africana). Mudanças ambientais e de condição de vida ao longo da história evolutiva humana ocorreram mais rápido do que a ação da seleção natural sobre as frequências alélicas e genotípicas, resultando em doenças dos tempos modernos. Ainda que a inclusão da medicina evolutiva no currículo das escolas médicas seja uma ideia que vem sendo defendida há mais de uma década (Williams & Nesse, 1991; Charlton, 1997; Nesse & Schiffman, 2003; Shanks & Pyles, 2007; Abbot & Abboud, 2006), a maioria das escolas ainda desconsidera este aspecto da teoria para a compreensão dos processos de saúde e doença. Este fato reflete que a relevância dos conceitos da biologia evolutiva ainda é subestimada na área médica (Nesse & Schiffman, 2003). 6


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original: MEDICINA EVOLUTIVA E UMA NOVA VISÃO DO PORQUE FICAMOS DOENTES

Um raciocínio mais amplo é estabelecido com a perspectiva evolucionista, uma vez que todo o processo biológico é considerado como parte da doença, incluindo-se os fatores evolutivos a ela relacionados – como as modificações, alterações ou adaptações genéticas,

morfológicas e funcionais, no estudo da própria patologia. Iniciativas educacionais e de pesquisa nesta área são promissoras e podem contribuir de modo único para o desenvolvimento de soluções criativas em termos de prevenção e tratamento dos diversos tipos de patologias. Referências Bibliográficas ABBOT, A. & ABBOUD, G. Evolutionary medicine: a model for medical school introduction. Medical Education, 40(5): 471 – 472. 2006. CHARLTON, BG. The inequity of inequality. J Health Psychol 2 (3): 413-425. 1997. HARRIS, E.E & MALYANGO, A.A. Evolutionary explanations in medical and health profession courses: are you answering your students “why” questions? BMC Medical Education (5): 1 – 7. 2005. NAUGLER, C.T. Evolutionary medicine. Update on the relevance to family practice. Can Fam Physician 54; 1265-9. 2008. NESSE, R.M. & SCHIFFMAN, J.D. Evolutionary biology in the medical school curriculum. BioScience 53(6): 585-587. 2003. NESSE, R.M. & WILLIAMS, G.C., Why we get sick: the new science of darwinian medicine. Vintage Books, New York, 1994. RUSE, M. Monad to Man. The concept of progress in evolutionary biology. Cambridge, MA, Harvard University Press, 1996. SHANKS, N. & PYLES, R.A. Evolution and medicine: the long reach of “Dr. Darwin”. Philosophy, Ethics, and Humanities in Medicine 2:4 (1 – 14) 2007.

7


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original: MEDICINA EVOLUTIVA E UMA NOVA VISÃO DO PORQUE FICAMOS DOENTES

SPOTORNO, A.E. Medicina evolucionaria: una ciencia básica emergente. Rev Med Chile 133: 231-240. 2005

STEARNS, S. Darwinian Medicine. In: Pagel, M. ed. Encyclopedia of Evolution. Vol. 1. New York, NY: Oxford University Press, 67 – 76. 2002.

STEARNS, S.C. & EBERT, D. Evolution in Health and Disease: Work in Progress. Q Rev Biol, 76 (4), 2001.

WEINER, H. Notes on an Evoltionary Medicine. Psychosomatic Medicine, 60: 510-520. 1998.

WILLIAMS, GC & NESSE, RM. The dawn of Darwinian medicine. Q Rev Biol, 66: 1- 22. 1991.

Profa. Dra. Ana Lúcia dos Anjos Duarte Bióloga Docente do Curso de Medicina da Universidade São Camilo Sócia da Sociedade Brasileira de Anatomia

8


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original

GENÉTICA: o pão nosso de cada dia Mirna Duarte Barros & Daniella Franco Curcio Departamento de Morfologia, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo “Sou membro de uma espécie frágil, ainda nova na Terra, as criaturas mais novas em qualquer escala, presentes aqui há apenas alguns momentos na perspectiva evolucionária de tempo, uma espécie juvenil, a criança das espécies[...] Este é um lugar muito grande e eu não sei como ele funciona.” Lewis Thomas (1913-1993), médico e autor do livro The Fragile Species

Em vertiginosa velocidade de expansão a Genética tem se estabelecido como uma fonte inesgotável de novos conhecimentos cuja aplicação permeia silenciosamente nosso cotidiano e se estende às mais avançadas áreas da biologia, medicina, agricultura, pecuária, zootecnia, ecologia, e assim por diante, atendendo a antigas necessidades e criando novas demandas, incessantemente. Calças jeans são confeccionadas com fibras de algodão que em muito diferem do seu ancestral natural; linhagens geneticamente selecionadas de milho e de trigo constituem a massa básica do alimento universal, o pão; diversas doenças e síndromes humanas têm suas causas descobertas e ganham perspectivas de tratamentos tão inovadores, quanto promissores. A sociedade moderna está impregnada pelo estudo e pelos produtos do conhecimento da Genética. O conhecimento científico reflete o interesse e a filosofia da sociedade que o produz e gera consequências na vida dos indivíduos que a compõem. A Genética e todas as áreas científicas relacionadas têm determinado um marcante impacto no estabelecimento de novos conceitos na sociedade moderna. Este artigo pretende traçar um breve panorama histórico desta ciência instigante que inspira o trabalho de muitos, traz alento e esperança a tantos e promove o desenvolvimento, nos mais diferentes aspectos da vida que conhecemos.

HEREDITARIEDADE Enquanto a transmissão de conceitos intelectuais, títulos de nobreza e bens materiais ocorre de acordo com os costumes e leis vigentes na sociedade, muitas características físicas, fisiológicas e comportamentais são recombinadas e transmitidas por meio dos gametas, o único elo de transmissão entre as gerações contíguas. 9


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012 Artigo Original: GENÉTICA: o pão nosso de cada dia

A hereditariedade é a transferência de características individuais dos ancestrais para seus descendentes. Classicamente, os genes são definidos como as unidades padrão de transmissão de caracteres hereditários. Os genes correspondem a um segmento de uma molécula de DNA, cuja sequência de bases nitrogenadas contém informação codificadora de proteínas. Assim, são os genes que coordenam a produção das proteínas. Entretanto, muito antes do conhecimento da existência da célula, dos genes ou do DNA, os princípios da hereditariedade foram reconhecidos e aplicados pela humanidade. Por volta de 8.000 a.C., em Çatal Hüyük, a primeira cidade a se formar no mundo antigo, na atual Turquia, cultivava-se uva para a fabricação de vinho, havendo indícios da possibilidade do uso de princípios básicos de melhoramento vegetal. Achados arqueológicos de pedigrees de cavalos, datados de 6.000 a.C., na Caldéia, hoje Iraque, sugerem a transmissão de certas características da crina através de gerações selecionadas. No Livro do Gênesis, versículos 30-46, consta que Jacó e Labão separavam as ovelhas de seu rebanho levando considerando a cor da sua pelagem, se branca ou salpicada, o que indica a distinção de duas variedades da mesma característica. Filósofos gregos propuseram algumas idéias sobre hereditariedade. Teophrastus (371-286 B.C.) postulava a hipótese de que as flores masculinas causavam a maturação das flores femininas. Aristóteles e Hipócrates especulavam que “sementes” seriam produzidas por várias

partes do corpo e transmitidas aos descendentes no momento da concepção, tendo sido conduzidas na corrente sanguínea até as gônadas. Essa teoria, denominada de “Teoria da Pangenesis”, foi considerada como verdadeira até o século XIX, por cientistas como Charles Darwin, tendo sido experimentalmente descartada por Francis Galton, em 1870. A primeira observação dos espermatozoides é datada de 1677, e foi realizada por Antoine van Leeuwenhoek, microscopista holandês, que os descreveu como animalcules, que habitavam o esperma humano e de outros animais. Nicolas Hartsoeker, que fora seu aluno e disputaria a primazia desta descoberta com Leeuwenhoek, postulou em 1694 a existência de um pequeno ser humano completamente formado, o homúnculos, no interior de cada espermatozoide, conceito fundamentou o início a Teoria Espermista. Por esta teoria, a contribuição feminina para a nova geração resumia-se ao ambiente uterino e a manutenção de todas as condições para o crescimento do homúnculo. 10


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012 Artigo Original: GENÉTICA: o pão nosso de cada dia

Em contraposição, a Teoria Ovista reuniu cientistas que acreditavam que eram as mulheres que carregavam ovos contendo ínfimos meninos ou meninas, já formados, e a presença do espermatozoide seria necessária apenas para estimular seu crescimento. Ambos, espermistas ou ovistas, partilhavam a teoria da hereditariedade préformista, onde os processos de desenvolvimento limitavam-se ao crescimento do indivíduo, cujo sexo e características já estariam determinados antes da concepção. Diante destes conceitos, doenças genéticas e malformações eram interpretadas como manifestações da ira divina, provocadas pelo excesso ou pela falta de sementes fornecidas pelo genitor, ou devidas às contrariedades que a mãe teria sofrido durante o período gestacional. Em função disto, Napoleão Bonaparte chegou a sancionar uma lei que permitia que mulheres grávidas se apropriassem de bens alheios, sem que se caracterizasse furto, para que estas não passassem por nenhum constrangimento ao procurarem saciar seus desejos enquanto nesta condição. Com o desenvolvimento das técnicas de microscopia, a teoria pré-formista foi descartada. A visão predominante à época de Darwin era a da Herança da Mistura, onde do cruzamento de indivíduos com expressão extrema de uma característica dariam origem a uma prole com característica em ponto intermediário, ou seja: do cruzamento de um indivíduo grande e um pequeno, a descendência seria de tamanho médio. Entretanto, se fatores hereditários se apresentassem sempre de forma intermediária quando combinados, haveria perda de variabilidade, numa proporção de metade a cada geração, levando à uniformização das características, o que não ocorre nas populações naturais. Expressões como “parente de sangue”, “puro-sangue” e “mistura de sangue” usadas ainda hoje, são reflexos das premissas da Teoria da Mistura e da Teoria da Pangenesis. A teoria da herança de caracteres adquiridos, proposta por Jean-Baptiste Lamarck, predominava no cenário científico à época de Darwin. Por esta teoria, mudanças adquiridas ao longo da vida, em relação à forma ou à função de partes de um organismo, seriam transmitidas à sua descendência. 11


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012 Artigo Original: GENÉTICA: o pão nosso de cada dia

Após realizar experimentos com o intuito de testar a hipótese da pangênese, na década de 1870, Galton publicou uma série de trabalhos onde apresentou os resultados de seus estudos com as genealogias. Então Darwin admitiu que a teoria da Pangenesis não podia ser comprovada experimentalmente e que, do mesmo modo, não podia adotar a Teoria da Mistura, porque sua teoria da evolução das espécies baseava-se justamente nas observações que ele fazia sobre a variabilidade intra e interespecífica. Sendo assim, Darwin acabou por admitir, em parte, a teoria dos caracteres adquiridos. Foi o experimento de August Weismann, em 1880, cujo método baseava-se na amputação de caudas de ratos por várias gerações, que demonstrou, pelo fato deste procedimento não ter resultado no nascimento de ratos sem cauda, que a Teoria dos Caracteres Adquiridos não se sustentava. Ainda assim, o embasamento para a Genética como ramo estabelecido da ciência foi constituído inicialmente pelos estudos de Gregor Mendel, um monge austríaco, que pesquisou características transmitidas através das gerações da ervilha de jardim. Mendel, contemporâneo de Darwin, teve acesso a uma versão em alemão do seu livro “Origem das Espécies”, e Darwin, por sua vez teve um livro de Focke que fazia referência aos trabalhos de Mendel. Apesar disso, somente a partir de 1930 estabeleceu-se a Teoria Sintética da Evolução, com a contribuição dos conhecimentos dos genes e das Leis de Mendel sobre hereditariedade para a Teoria Evolucionista, por conta do estabelecimento dos princípios

da genética de populações. Pelo fato de Darwin considerar a hereditariedade como um problema a ser resolvido por meio de estudos sobre embriologia, o contato com os resultados dos trabalhos de Mendel não foram considerados significativos para complementar a Teoria Evolucionista na época. Do mesmo modo, como Mendel considerou seus resultados como um caso particular, não pode relacioná-los com a variabilidade intra e interespecífica que Darwin observou nas populações naturais. Somente após a identificação do DNA como o material responsável pela hereditariedade, na década de quarenta, a proposta do modelo da estrutura molecular do DNA, em 1953, e o esclarecimento do seu mecanismo de duplicação e transmissão através das gerações a partir de 1958, a hereditariedade passou a ser compreendida como a reprodução bem sucedida de unidades replicadoras através das gerações, sendo que a unidade replicadora é o DNA. A cada manhã, quando o forno da padaria faz crescer, assar e tostar nosso pão, juntamente com o fermento e as farinhas, na massa estão presentes os genes que se estabeleceram pela seleção natural e pela ação seletiva do homem. 12


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012 Artigo Original: GENÉTICA: o pão nosso de cada dia

Referências Bibliográficas

Bowler, P. J., 1989.The Mendelian Revolution: The Emergence of Hereditarian Concepts in

Modern Science and Society. Baltimore: Johns Hopkins University Press.

Downes, S. M., 2007. Heredity and Heritability,.The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2007 Edition), Edward N. Zalta (ed.)

http://plato.stanford.edu/archives/fall2007/entries/heredity/

Hill K.A. Hartsoeker's homonculus: a corrective note. J Hist Behav Sci 1985 Apr;21(2):178-9

http://www.mendelweb.org/MWNotes.html#about

Johannsen W. 1911. The genotype conception of heredity. American Naturalist 45, 129-159.

Johnson, H. 1999. A história do vinho. Companhia das Letras, São Paulo. Capítulo 2, pp. 546.

Lewin, B. 1994. Genes V. Oxford University Press, N. York, pp. 59-60.

Nahum, L A. 2001. Evolução dos genomas. In: Matioli, S R. (ed.) Biologia Molecular e Evolução. Holos Editora, Ribeirão Preto.. pp. 82-96.

Otto, PA; Mingroni-Netto RC & Vianna-Morgante, AM. 2006. Princípios de Genética Humana e Médica. in Tratado de Clínica Médica v.I, Lopes AC (editor), Editora Roca, São Paulo.

Polizello, A. O desenvolvimento das ideias de herança de Francis Galton: 1865 - 1897. Filosofia e História da Biologia, v. 6, n. 1, p. 1-17, 2011

13


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012 Artigo Original: GENÉTICA: o pão nosso de cada dia

Portin P. 2002. Historical development of the concept of the gene. J Med Philos 27(3):257-86.

Vries, H. De. 1910. Intracellular Pangenesis. The Open Court Publishing Co., Chicago.

Translated from the German by C. Stuart Gager. On-line Facsimile Edition: Electronic Scholarly Publishing. Prepared by Robert Robbins.

Watson, JD & Crick, FHC. Molecular Structure of Nucleic Acids. Nature, 25: 737-738, 1953.

Profa. Dra. Mirna Duarte Barros Bióloga Chefe do Departamento de Morfologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo Sócia da Sociedade Brasileira de Anatomia

14


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original A INFLUÊNCIA DAS POLÍTICAS BRASILEIRAS DE EXPANSÃO

UNIVERSITÁRIA NO ENSINO DE ANATOMIA HUMANA Josemberg da Silva Baptista1, Anderson Scardua2, Givanilson Brito de Oliveira3, Renner de Souza Leite3, Carlos Eduardo Seyfert4, Patrícia Marega4 1Departamento

de Morfologia, Universidade Federal do Espírito Santo; 2Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Federal de Campina Grande; 3Centro de Educação e Saúde, Universidade Federal de Campina Grande; 4Centro de Formação de Professores, Universidade Federal de Campina Grande

RESUMO

Este artigo descreve a experiência dos processos públicos para construção do laboratório de anatomia humana, e do ensino da referida disciplina para cursos de graduação da área biomédica campus de expansão universitária subsidiado pelo Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais no Brasil – REUNI. Foi dada especial atenção a todo

histórico da instituição com vistas nesta disciplina, a aquisição de recursos humanos, de infraestrutura e materiais para o funcionamento das aulas. Também são discutidos quais são os impactos sobre o processo de ensino-aprendizagem nesta situação, métodos para contornar as dificuldades pedagógicas encontradas, e sugestões para solução de problemas neste âmbito, já que o programa REUNI ainda está em vigor até 2014.

Palavras-chave: Políticas públicas, expansão universitária, ensino de anatomia, construção de laboratório.

15


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original: A INFLUÊNCIA DAS POLÍTICAS BRASILEIRAS DE EXPANSÃO UNIVERSITÁRIA NO ENSINO DE ANATOMIA HUMANA

INTRODUÇÃO

Na última década as Instituições Federais de Ensino Superior no Brasil (IFES) elaboraram planos de expansão universitária subsidiados pelo Programa de Expansão do Ensino Superior do Ministério da Educação e, principalmente, através do programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), o qual foi instituído através do decreto no 6.096, de 24 de abril de 2007. Este programa tem como meta geral ampliar o acesso e a permanência em cursos de graduação, aumentando a taxa de conclusão de cursos da graduação numa média de 90%. Além disso, todo o subsídio financeiro requisitado pelas IFES, seja ele para suprir demanda de infraestrutura, de bens e serviços, ou de pessoal, será providenciado pelo governo federal após a aprovação do plano de reestruturação ou expansão apresentado pela IFES ao Ministério da Educação e Cultura (MEC). Contempla-se assim que haja um aumento no número de vagas nos cursos de graduação, sobretudo no período noturno, que ocorram inovações pedagógicas, e que o ensino seja interiorizado para dar acesso democrático à educação superior. Desta maneira, muitos municípios no interior do país foram contemplados por tais medidas, o que aumentou a oferta de cursos superiores, além da contratação efetiva de novos docentes e técnicos por meio de concurso público nestas regiões. No caso da criação de cursos biomédicos, o currículo básico exige a disciplina de anatomia humana por se tratar de uma disciplina normativa e de relevância notória (MEC/SESu, 2010). O processo de ensino-aprendizagem da disciplina em questão mostra-se complexo, uma vez que é grande a quantidade de conceitos e estruturas a serem assimiladas pelos estudantes. Para tanto, a predominância de aulas práticas em laboratório aproxima e familiariza o estudante com as estruturas a serem estudadas, e dá a ele subsídio de leitura e interpretação das denominações auxiliando na construção do raciocínio e na consolidação do aprendizado (Aversi-Ferreira et al., 2009). 16


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original: A INFLUÊNCIA DAS POLÍTICAS BRASILEIRAS DE EXPANSÃO UNIVERSITÁRIA NO ENSINO DE ANATOMIA HUMANA

Esta expansão do ensino superior no atual momento histórico do Brasil tem apresentado vários problemas que são conhecidos e comentados por diversos docentes do

ensino superior. Contudo, este debate costuma ser restrito às conversas nos ambientes de trabalho e em alguns casos como ponto de pauta de reivindicação de melhores condições de trabalho, no sentido amplo, de categorias funcionais organizadas. Neste sentido, um dos objetivos deste trabalho é chamar a atenção desta problemática enquanto uma questão acadêmica que afeta as diversas atuações da universidade (Extensão, Ensino e Pesquisa). Assim, buscamos fomentar uma discussão que engloba os posicionamentos frente às necessidade e soluções didáticas enfrentadas pelos docentes no atual contexto de expansão do ensino superior

brasileiro. Portanto, partindo-se das premissas do programa REUNI, e das peculiaridades impelidas às IFES pelo Governo Federal, pretende-se aqui relatar situações e adaptações ocorridas para com a disciplina de Anatomia Humana no Centro de Educação e Saúde (CES) da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), e também discutir e propor outras soluções com relação ao processo de implantação de laboratórios de ensino baseando-se principalmente em documentos públicos oficiais e na experiência de docentes e técnicos de

laboratório.

DESCRIÇÃO

Atualmente os Anatomistas discutem nas sociedades da classe, encontros, simpósios, congressos, e trabalhos científicos publicados em periódicos específicos da área as metodologias aplicadas em aulas teóricas, nas aulas práticas, seja com ou sem manipulação de peças cadavéricas, e na utilização da infraestrutura mais adequada e eficaz aos laboratórios de Anatomia Humana (Goldman, 2010; Sguissardi, 2008; Nunes, 2007). Sendo assim, é evidente que existem algumas peculiaridades na execução de aulas práticas em laboratórios de anatomia humana. 17


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original: A INFLUÊNCIA DAS POLÍTICAS BRASILEIRAS DE EXPANSÃO UNIVERSITÁRIA NO ENSINO DE ANATOMIA HUMANA

Mundialmente conhecida é a diminuição progressiva da oferta de cadáveres humanos não reclamados, o que ainda é a principal fonte de aquisição de peças anatômicas no Brasil, oficialmente legislada pela Lei Federal 8.501 de 1992. Nesse sentido, as políticas de expansão universitária geraram aumento na demanda de material anatômico em decorrência do surgimento de novas instituições de ensino superior. Fatores emocionais, religiosos, culturais, e informativos acerca do tema influenciam diretamente na doação voluntária de corpos, ou mesmo de cadáveres não reclamados pelos Serviços de Verificação de Óbito. Vários países desenvolvidos já lidam com esta questão também. Sendo assim, estes lançam campanhas e programas de doação voluntária do corpo, seja em vida ou após falecimento (sendo tomada decisão pelos familiares), em direção às instituições de educação superior e de pesquisa. Para citar exemplos de pioneirismo no Brasil temos a Universidade Federal de Minas Gerais

(UFMG) e a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) que possuem programas de doação de cadáveres que já geraram aquisição de material anatômico para estas instituições, baseando-se principalmente na conscientização e instrução sobre a importância do ato. Neste ínterim, a sugestão de se criar uma diretriz nacional de divulgação sobre o processo de doação de cadáveres, assim como é feita sobre a doação de órgãos em caso de morte cerebral, poderia ser interessante para alavancar esta prática. O esclarecimento e debate sobre o uso de cadáveres para fins acadêmicos junto à sociedade civil e jurídica de cada país são fundamentais. Esta prática certamente ajudará a aumentar o número de doadores e

fomentar projetos melhor arquitetados para tal prática. Isto se justifica pois a maior parte dos professores de anatomia humana do Brasil sustenta a ideia de que as aulas práticas com peças cadavéricas sejam extremamente necessárias para o êxito na aprendizagem dos alunos, e o uso desse conhecimento em seu cotidiano profissional. Ainda sim soma-se a esta problemática o indevido planejamento e infraestrutura para aulas e acondicionamento de material nas IFES expandidas, além de recursos humanos necessários para desempenhar tal trabalho. Neste ponto existe um entrave burocrático oriundo da política de licitações para aquisição e fiscalização de materiais e construção dos prédios que

demandam tempo, e corriqueiramente geram atrasos (Nunes, 2007), influenciando negativamente na formação dos estudantes. Estes aspectos se tornam mais alarmantes quando se observa que um dos principais objetivos do programa REUNI é a de subsidiar a maior parte da expansão universitária para cidades pequenas localizadas no interior do país, o que verdadeiramente sofrem com menos oferta de serviços, de recursos econômicos, de transporte e de infraestrutura pública em geral. 18


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original: A INFLUÊNCIA DAS POLÍTICAS BRASILEIRAS DE EXPANSÃO UNIVERSITÁRIA NO ENSINO DE ANATOMIA HUMANA

No caso do CES/UFCG, as aulas de anatomia humana datam de 2006, coincidindo com o início do funcionamento do curso de Licenciatura em Biologia no turno diurno, e posteriormente também no turno noturno. Nesta ocasião o centro não dispunha de laboratórios apropriados, modelos anatômicos, ou peças cadavéricas para realização de aulas práticas. Até o segundo semestre de 2008 as aulas eram ministradas por professores substitutos, contratados temporariamente, sem titulação na área, e que realizavam suas atividades fundamentalmente de forma teórica. Em 2007 foram implantados os cursos de enfermagem e farmácia no período diurno (integral), tornando necessário em caráter de urgência a fundação do edifício destinado ao laboratório de Anatomia Humana (somente iniciada em 2008), bem como aquisição de material anatômico e finalmente a contratação de corpo docente efetivo e qualificado. No segundo semestre de 2008, o CES, por meio de concurso público, contrata o primeiro professor e técnico efetivo da referida disciplina. No primeiro semestre de 2009 foi implantado o curso de nutrição no período noturno, o que também faz parte da política da expansão universitária no Brasil, já que os cursos superiores neste período do dia têm específica função de inclusão social daqueles que possuem vínculo empregatício diurno. Em virtude de a obra permanecer inacabada, e a demanda de aulas práticas aumentarem com a inclusão dos novos cursos, são utilizados desde a fundação do centro os laboratórios de anatomia do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS, Campina Grande-PB) campus central da UFCG, localizado aproximadamente a 120 km do CES. Excursões esporádicas e extremamente cansativas utilizando o transporte institucional são realizadas com os 160 alunos regulares que cursam a disciplina de Anatomia Humana, de acordo com a disponibilidade do CCBS, para apreciação da aula durante todo dia em detrimento das outras disciplinas. No período noturno o CCBS não se encontra em expediente, o que condiciona os alunos deste turno a assistirem as aulas práticas de anatomia no período diurno. Isso configura um grande problema, visto que uma das metas do Reuni é a de ampliar a

oferta de cursos de graduação no período noturnos para ocorrer o aproveitamento da infraestrutura, e para contemplar aqueles que exercem atividades empregatícias durante o dia. No entanto as edificações destinadas ao laboratório de Anatomia foram inauguradas em novembro de 2009, porém, não concluídas. Este tipo de ação aparenta ser um reflexo da promoção política de determinados segmentos da universidade, e indiretamente do governo, pois geram números para o plano de expansão universitária. 19


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original: A INFLUÊNCIA DAS POLÍTICAS BRASILEIRAS DE EXPANSÃO UNIVERSITÁRIA NO ENSINO DE ANATOMIA HUMANA

O resultado disto é a falta de condições para acondicionamento e manipulação de peças anatômicas, e ausência de materiais básicos para estudo em laboratório. No Brasil, as obras públicas são realizadas através de processos de licitação, onde uma empresa é contratada por apresentar o menor orçamento para o empreendimento o que, evidentemente, sem auxílio técnico específico, extremo planejamento, e fiscalização pela instituição, permite que estas mesmas empresas busquem “oportunidades” dentro dos projetos lançados, com um intuito de obterem rentabilidade máxima. Em consequência dessa prática, os laboratórios são concluídos com falhas na execução, uso de materiais de baixa qualidade e inadequados, o que acarreta atraso e impossibilita a utilização dos mesmos. Prova disso está na falha para com a vedação das cubas para os cadáveres. Exatamente todas as cubas obtiveram vazamento e alguma infiltração nas paredes do laboratório. O paradoxo que existe nessas práticas é que a primeira turma de biologia foi titulada em agosto de 2010 sem ao menos ter frequentado aulas práticas de anatomia no próprio centro no qual lhe concedeu o grau. Perante este aspecto, a expansão universitária que está ocorrendo no Brasil é deficitária, mediante ao mau planejamento, pois ampliou-se a oferta de curso superior sem a devida aquisição de estrutura. Desta forma, gera-se um contrassenso, onde há uma política que busca incluir mais indivíduos no ensino superior no Brasil, mas que terão uma formação defasada, produzindo profissionais menos capacitados para se inserirem no mercado de trabalho, o que pode inclusive deixá-los marginalizados deste, mesmo sendo diplomados, o que corrobora com as ideias de Sguissardi (2008) e de Scardua e Xavier Neto (2011). Por outro lado, este pode ser apenas o reflexo de uma política social utilizando-se do ensino superior e, consequentemente, elevando índices de instrução de 3º grau no país. Apesar disso, outras disciplinas dos demais cursos da instituição e várias outras IFES que expandiram para o interior dos estados sofrem com esta política apontando que estes aspectos não são singulares ou de visões unilaterais. 20


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original: A INFLUÊNCIA DAS POLÍTICAS BRASILEIRAS DE EXPANSÃO UNIVERSITÁRIA NO ENSINO DE ANATOMIA HUMANA

Para superar as dificuldades supracitadas, medidas didáticas têm sido tomadas no intuito de ampliar o conhecimento prático em anatomia humana. Sendo assim, a maioria destas aulas é ministrada utilizando modelos anatômicos (sintéticos), dentro da sala de aula teórica. Apesar destes modelos auxiliarem o processo pedagógico, eles ainda não substituem a observação e manuseio das peças anatômicas cadavéricas, sobretudo para o curso de enfermagem, em especial no CES (Aversi-Ferreira, 2009). Além disso, algumas práticas são realizadas com auxílio dos próprios estudantes, baseado em métodos de estudo da anatomia de superfície, método palpatório de estruturas ósseas, musculatura superficial e exame das articulações, técnicas semiológicas e entre outras, o que têm em geral uma ótima aceitação pelos alunos. Além disso, a manufatura de maquetes contendo estratos musculares, do tegumento, do olho, e pôsteres contendo inervação e vascularização dos órgãos e regiões corporais também são utilizados com boa aceitação. No entanto estas atividades tomam grande parte do tempo extraclasse dos discentes, que também precisam se dedicar a outras disciplinas e atividades acadêmicas, além de comprometer, no caso de alguns alunos, o desempenho das atividades empregatícias fora do horário acadêmico. Como esta problemática é ponto comum para diversas IFES que possuem cursos de graduação na área da saúde, pode-se sugerir como complemento ao aprendizado do aluno a utilização de meios eletrônicos para estudo sistematizado e orientado pelo professor, como atlas de anatomia interativos que possam ser aplicados a computadores portáteis, telefones móveis ou os novos tablets. É importante ratificar aqui que o interesse do aluno em utilizar estes dispositivos é grande e, por vezes, esta medida pode se apresentar agradável à limitação existente de materiais e estrutura do laboratório de anatomia. Ainda como complemento pode-se sugerir o estudo domiciliar através da plataforma moodle de ensino, onde também sobre direcionamento e orientação do professor o aluno pode estudar, discutir, e interagir com outros colegas na formação do conhecimento anatômico sob um meio cibernético e não laboratorial.

21


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original: A INFLUÊNCIA DAS POLÍTICAS BRASILEIRAS DE EXPANSÃO UNIVERSITÁRIA NO ENSINO DE ANATOMIA HUMANA

Muito embora existam adaptações frente a este quadro acadêmico, sugestões a serem colocadas nas pautas destas instituições em expansão devem ser discutidas. Observando a política de expansão universitária, somada à disseminação de campus universitário para crescimento e desenvolvimento econômico e intelectual de cidades de menor expressão populacional, propõem-se aqui que o processo de licitação deve ser em nível estadual. Explicase esta proposta tendo em vista a facilidade para lidar com as licitações num âmbito estadual, principalmente do ponto de vista da fiscalização e autuação, a geração de receita para o estado e município, o abreviamento do pregão eletrônico de materiais e serviços, além de que a entrega pode ser agilizada. Mesmo no estado mais humilde do Brasil e, mesmo havendo a necessidade dos comerciantes regionais buscarem certos materiais específicos fora do estado aumentando o seu custo, está prática fatalmente levará a um todo crescimento econômico, logístico e profissional da região; criam-se vários postos de trabalho, e em nichos interessantes para estas regiões em crescimento. Isto se torna importante porque a maior parte das licitações é conquistada por grandes empresas da região sudeste, por oferecerem menor custo de execução da tarefa, onde necessariamente vai gerar todos os benefícios supracitados na região de sua localização, mas, com verba oriunda de IFES localizadas em outras regiões. A proposta para planejamento, adequação, e aplicação de um projeto estrutural para um laboratório ou curso universitário deve ser realizada por consultoria de docentes da área oriundos de outras IFES onde exista estrutura similar já concluída. Esta prática de consultoria já existe, a caráter de exemplo, quando um grupo de docentes é escalado para avaliar e pontuar os cursos que pedem autorização do MEC para iniciar atividades de graduação. Por outro lado, outra interessante proposta seria de contratar docentes através de concurso público, e das diversas áreas do curso de graduação, para atenderem a demanda de planejamento, projeto e execução. Sendo assim, a implantação de qualquer curso de graduação, seja numa IFES ou numa instituição privada deverá se iniciar com um mínimo de recursos humanos, materiais didáticos e permanentes bem próximo do ideal para capacitação final de um profissional de terceiro grau. 22


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original: A INFLUÊNCIA DAS POLÍTICAS BRASILEIRAS DE EXPANSÃO UNIVERSITÁRIA NO ENSINO DE ANATOMIA HUMANA

Contudo, retornando ao nosso caso específico, somente em março de 2012 é que houve material cadavérico apropriado para se começar a diminuir as excursões ao CCBS/UFCG, o que já havia se tornando com o passar do tempo uma prática insustentável e onerosa para a instituição e alunos, além de ampliar enormemente a carga horária dos professores da disciplina. A propósito isso subtraiu, por bastante tempo, a dedicação destes profissionais para com os projetos de extensão e de pesquisa, o que faz parte da filosofia acadêmica das instituições de ensino superior brasileira (ensino-pesquisa-extensão).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As Universidades Federais brasileiras historicamente formam profissionais de excelência, pois observa-se boa qualidade docente, discente e uma infraestrutura que propicia e estimula estes resultados. Com o advento da expansão universitária ampliam-se as oportunidades de acesso, porém, atualmente, com dúvidas sobre a qualidade que a precede. Sendo assim, é importante estimular a comunidade acadêmica da área biomédica no sentido de suscitar discussões e ações sobre temas como:

Planejamento e criação de instituições públicas de ensino;

O impacto da expansão universitária sobre o ensino da anatomia humana, e de outras ciências que são predominantemente práticas;

Os processos de licitação e execução de obras públicas destinadas ao ensino;

A abordagem didática dos professores em instituições que vivenciam um processo de implantação de novos cursos superiores, ou que padecem de materiais apropriados para o ensino de anatomia humana;

Formação de profissionais em falta de condições de ensino-aprendizagem não apenas adequadas, mas necessárias para a formação de um profissional apto a corresponder e atuar de acordo com as exigências de sua profissão e as necessidades da sociedade e;

A postura adequada para enfrentar essa situação.

23


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original: A INFLUÊNCIA DAS POLÍTICAS BRASILEIRAS DE EXPANSÃO UNIVERSITÁRIA NO ENSINO DE ANATOMIA HUMANA

Referências Bibliográficas BRASIL. Decreto n 6.096, de 24 de abril de 2007. Institui o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais – REUNI. BRASIL. Referências Curriculares Nacionais dos Cursos de Bacharelado e Licenciatura. Ministério da Educação Secretaria de Educação Superior. Brasília, MEC/SESu, 2010. Michelotto, R.M.; Coelho, R.H.; Zainko, M.A.S. A política de expansão da educação superior e a proposta de reforma universitária do governo Lula. Educ. Rev. (28): 179-198, 2006. Neves, C.E.B.; Raizer, L.; Fachinetto, R.F. Acesso, expansão e equidade na educação superior: novos desafios para política educacional brasileira. Sociologias (17): 124-157, 2007. Pinto, J.M.R. O acesso à educação superior no Brasil. Educ. Soc. v.25, n.88, 727-756, 2004. Nunes, E. Desafio estratégico da política pública: o ensino superior brasileiro. Rev. Adm. Pública, v.41, 103-147, 2007.

Goldman, E. Building a low-cost gross anatomy laboratory: A big step for a small university. Anat Sci Educ. v.3, 195-201, 2010. Scardua, A.; Xavier Neto, L.P. A inclusão excludente: reflexões sobre a expansão universitária através das concepções dos professores de um campus da UFCG (PP.175-193). In Xavier Neto, L.P. (Org.), Saiba mais sobre educação 3. Rio de Janeiro: Âmbito Cultural, 2011. Sguissardi, V. Modelo de expansão da educação superior no Brasil: predomínio privado/mercantil e desafios para a regulação e a formação universitária. Educ. Soc. v.29 (115), 2008. Aversi-Ferreira, T.A.; Lopes, D.B.; Reis, S.M.M.; Abreu, T.; Aversi-Ferreira, R.A.G.M.F.; Vera, I.; Lucchese, R. Practice of dissection as teaching methodology in anatomy for nursing education. Braz. J. Morphol. Sci., v.26, 151-157, 2009.

24


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo Original: A INFLUÊNCIA DAS POLÍTICAS BRASILEIRAS DE EXPANSÃO UNIVERSITÁRIA NO ENSINO DE ANATOMIA HUMANA

Prof. Me. Josemberg da Silva Baptista Fisioterapêuta Sócio da Sociedade Brasileira de Anatomia Professor Assistente de Anatomia Humana Departamento de Morfologia Centro de Ciências da Saúde - CCS Universidade Federal do Espírito Santo-UFES Av. Maruípe, 1468, 29.043-900, Vitória/ES Fonefax: 27 3335-7358 Email: josemberg.baptista@ufes.br

25


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo de Revisão Nervo facial: uma revisão focada em sua divisão parassimpática Ignatz Rohrbacher Faculdade de Medicina da Universidade Positivo

Resumo Objetivo: O objetivo deste trabalho foi revisar livros e artigos científicos referentes principalmente à anatomia do nervo facial e sua divisão parassimpática. Métodos: Foram analisados artigos na língua inglesa indexados ao PubMed e PICO PubMed desde dezembro de 1968 até maio de 2009 e livros de anatomia e neuroanatomia. Buscou-se comparar os resultados obtidos e construir um resumo com as principais partes e particularidades do nervo e seus ramos. Resultados: O nervo facial é complexo e possui uma trajetória igualmente complexa. Seus ramos parassimpáticos e sensitivos percorrem um grande percurso e atravessam diversas estruturas para atingir seu destino. Sua função vai muito além de inervar os músculos da face, uma vez que os componentes sensitivo e parassimpático atuam na gustação, sensibilidade do meato acústico externo, inervação das mucosas nasais, faríngeas, palato e atua diretamente na produção de saliva e lágrimas inervando os gânglios pterigopalatino e submandibular. Conclusão: Os dados obtidos foram suficientes para se obter uma ideia dos ramos e percursos do nervo facial e seus ramos sensitivos e parassimpáticos. As informações anatômicas obtidas nos artigos científicos mostraram sempre um diferencial em relação aos livros, sendo mais precisas e objetivas.

Palavras-chave: Nervo facial, gânglio geniculado, nervo intermédio, nervo petroso maior, nervo petroso profundo, nervo do canal pterigóideo, canal pterigóideo.

26


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo de Revisão: NERVO FACIAL: UMA REVISÃO FOCADA EM SUA DIVISÃO PARASSIMPÁTICA

Nervo facial

O nervo facial, formado pela raiz motora somática e nervo intermédio, é composto por fibras aferentes somáticas, aferentes viscerais, aferentes viscerais especiais, fibras eferentes viscerais gerais e eferentes viscerais especiais.1,2 A maior raiz é a raiz motora, e a menor, que está entre a motoras e o nervo acústico, é o nervo intermédio (nervo de Wrisberg). A origem superficial de ambas as raízes situa-se na borda inferior da ponte, no sulco bulbopontino, estando a raiz motora medial, o nervo vestibulococlear lateral e o nervo intermédio situando-se entre eles.1,2,3

Núcleos

São diversos núcleos relacionados ao nervo facial e seus ramos. As fibras aferentes somáticas tem sua terminação no núcleo espinal do trigêmio. As fibras aferentes viscerais tem sua terminação no núcleo salivatório superior do bulbo. As fibras aferentes viscerais especiais tem seu núcleo na parte gustatória do núcleo do trato solitário do bulbo. As fibras eferentes viscerais gerais, que são as fibras autônomas, originam-se do núcleo salivatório superior. 2,3,4 O núcleo do nervo facial é o maior núcleo dentre os núcleos motores e está situado no tegmento da ponte5 . Nele originam-se fibras que se estendem póstero-medialmente e, em seguida, estendem-se superiormente no tegmento para formar um feixe compacto próximo ao núcleo do nervo abducente no assoalho do quarto ventrículo, chamado de colículo

facial5,6. Apenas as fibras eferentes viscerais especiais se curvam lateralmente para formar este joelho interno e depois estenderem-se ântero-lateralmente para e emergir na margem lateral da ponte2. As demais fibras formam uma raíz lateral separada do nervo facial, o nervo intemédio2 . O núcleo do nervo facial é dividido em subnúcleos, que estão relacionados a músculos faciais específicos. 27


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo de Revisão: NERVO FACIAL: UMA REVISÃO FOCADA EM SUA DIVISÃO PARASSIMPÁTICA

São eles os subnúcleos medial, posterior, intermédio e lateral. Os neurônios superiores que inervam os músculos superiores da face localizam-se na parte posterior do

núcleo, os que inervam os músculos inferiores da face situam-se principamente na parte lateral do núcleo, e os que inervam o platisma e o músculo auricular posterior estão na parte medial do núcleo.1,2

Emergência do Tronco

De sua origem superficial no sulco bulbopontino as duas raízes passam em direção lateral junto do nervo vestibulococlear, cruzam o espaço subaracnoideo e penetram no meato acústico interno. No fundo do meato o nervo intermédio separa-se do vestibulococlear, mas continua junto do facial. Eles penetram na substância da porção petrosa do osso temporal e percorre um trajeto tortuoso de um canal próprio, o canal facial.1,2,7 Eles continuam, no início, em direção lateral na região entre a cóclea e os canais semicirculares. Quando estão próximo da cavidade timpânica apenas o nervo facial faz uma curva abrupta posteriormente, corre na parede medial da cavidade logo acima da janela oval, onde está coberto na maioria das vezes por fina lâmina de osso que faz ligeira proeminência na parede, e depois aprofunda-se em direção às células aéreas mastóideas para alcançar o forame estilomastóideo.1,10 Essa mudança abrupta de trajeto forma uma estrutura chamada de joelho e, próximo a esse ponto, as duas raíses se fundem e formam uma estrutura chamada de gânglio geniculado. O nervo intermedio fica aderido ao nervo vestibulococlear por uma distância variável até chegar ao gânglio geniculado.8,9 Assim que emerge do forame estilomastoideo, o nervo facial corre anteriormente na substância da glândula parótida, cruza a artéria carótida externa e divide-se na borda posterior do ramo da mandíbula em dois ramos primários: um superior, o temporofacial, e um inferior, o cervicofacial. A partir do cervicofacial distribuem-se muitos pequenos ramos, em uma disposição plexiforme chamada de plexo parotídeo, que se dirigem para o crânio, face e porção superior do pescoço, suprindo os músculos superficiais destas regiões.1,2,3 28


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo de Revisão: NERVO FACIAL: UMA REVISÃO FOCADA EM SUA DIVISÃO PARASSIMPÁTICA

Fibras Nervosas As fibras aferentes somáticas, fibras exteroceptivas ou fibras dolorosas, são processos periféricos de neurônios que têm origem nas células do gânglio geniculado, são

poucas e depois de partirem do gânglio unem-se ao ramo auricular do nervo vago para suprir uma pequena parte pele do meato acústivo externo, mastóide e face externa da membrana timpânica. Este nervo possivelmente suplementa o nervo mandibular com a sensibilidade da parede do meato acústico externo e superfície externa da membrana timpânica.7 Sua terminação central é o núcleo espinal do nervo trigêmio, seguindo provavelmente no trato espinal do nervo trigêmio.1,2,7,8,9 As fibras aferentes viscerais suprem a membrana mucosa da faringe, nariz e palato através do nervo petroso maior. Elas se originam de células do gânglio geniculado e unem-se ao trato solitário no bulbo.1 As fibras aferentes viscerais especiais, fibras gustatórias, também presentes no nervo petroso maior, são responsaveis pela gustação na borda lateral dos dois terços posteriores da língua, do palato duro e mole.7 Elas têm origem em células do gânglio geniculado e os processos periféricos desses neurônios chegam aos calículos gustatórios situados nos dois terços anteriores da língua e palato. Os processos centrais adentram o tronco encefálico com o nervo intermédio e projetam-se para os neurônios situados na parte gustatória do núcleo

do trato solitário, juntamente com fibras dos nervos glossofaríngeo e vago. Existem conexões com o núcleo salivatório, o núcleo ambíguo, o núcleo do hipoglosso, o núcleo dorsal do vago e com a medula espinhal através do tracto reticuloespinhal.1,2,4,11 O gosto é diferenciado como uma modalidade especial por ser mediado por orgãos receptores cranianos especializados, os botões gustatórios, e não diretamente pelas terminações nervosas.11 As fibras eferentes viscerais gerais, fibras autônomas, originam-se do núcleo salivatório superior. Os axônios destas fibras parassimpáticas pré-ganglionares reúnem-se no nervo intermédio, que as distribui para os gânglio submandibular e pterigopalatino. O gânglio submandibular é inervado pelo nervo corda do tímpano e então envia fibras para as glândulas submandibular e sublingual. O gânglio pterigopalatino é inervado pelo nervo petroso maior, agora chamado de nervo vidiano, e então envia fibras para as glândulas lacrimais e glândulas da mucosa nasal e palatina.1,2,3,8 29


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo de Revisão: NERVO FACIAL: UMA REVISÃO FOCADA EM SUA DIVISÃO PARASSIMPÁTICA

As fibras eferentes viscerais especiais suprem os músculos estriados da expressão facial. O núcleo motor do nervo facial, situado na formação reticular da ponte, é serialmente

homólogo ao núcleo ambíguo e à porção lateral do corno ventral da medula espinhal. As células multipolares motoras que inervam a porção inferior da face recebem conexões do sistema piramidal aberrante que é inteiramente cruzado. Aquelas para a porção superior da face são tanto cruzadas como não cruzadas. Conexões reflexas são formadas com o núcleo do tracto espinhal do trigêmio, com os núcleos cocleares e com numerosos outros núcleos e mecanismos na formação reticular da medula oblonga e ponte, algumas delas relacionadas com a expressão emocional.1,2

Gânglio Geniculado O nervo facial e o intermédio saem juntos do tronco encefálico, atravessam o meato acústico interno e penetram no canal facial na parte petrosa do osso temporal até o gânglio geniculado. O gânglio geniculado é uma pequena saliência fusiforme do joelho, onde o nervo facial se volta abruptamente para trás, no hiato do canal facial.1,2,7 É o gânglio sensitivo do nervo facial. Os prolongamentos centrais de suas células ganglionares pseudo-unipolares alcançam o tronco cerebral através do nervo intermédio. A maioria dos prolongamentos periféricos dirige-se aos calículos gustatórios dos dois terços anteriores da língua através do nervo corda do tímpano e nervo lingual. Um número considerável de prolongamentos periféricos passa através do nervo petroso maior para o palato mole e um número menor junta-se ao ramo auricular do vago para suprir a pele do meato acústico externo e processo mastóide.1,2,3,5,8 O gânglio é suprido predominantemente pela artéria perióstea, que surge da artéria meningea média e corre com o nervo petroso maior para suprir o gânglio geniculado e nervo facial. Ele está localizado posterolateral, diretamente posterior ou diretamente lateral ao genu da artéria carótida petrosa. O gânglio geniculado está geralmente separado do piso da fossa media por uma camada de osso.10 30


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo de Revisão: NERVO FACIAL: UMA REVISÃO FOCADA EM SUA DIVISÃO PARASSIMPÁTICA

Nervo Intermédio O nervo intermédio (nervo de Wrisberg), que é a parte intermédia do nervo facial contém as fibras aferentes somátivas, aferentes viscerais, aferentes viscerais especiais e

eferentes viscerais gerais.1,8 A distribuição periférica dessas fibras, cujas células de origem formam o gânglio geniculado, ainda não é compreendida por completo, mas além das fibras distribuidas com os ramos motores e aquelas distribuidas para as papilas gustativas, há um pequeno componente cutâneo que inclui fibras da dor.8 O nervo intermédio, também chamado de nervo glossopalatino, é geralmente descrito como um componente do nervo facial que separa-se da raiz motora no meato acústico interno para correr para o tronco cerebral entre o nervo facial e o vestibulococlear.1,9 Ele pode estar intimamente aderido ao oitavo nervo por uma distância variada antes de entrar no tronco cerebral. Estudos em autópsias indicam que a aderência do nervo intermédio com o nervo vestibular adjacente ao tronco cerebral é a regra e não a exceção e que neste tajeto o nervo pode ligar-se de forma integral ou gradual ao oitavo nervo por meio de raizes.9 As raízes podem surgir ao longo de toda a face anterior do oitavo nervo, porém, elas costumam convergir imediatamente de maneira proximal à junção com a raíz motora do facial para formar um único feixe que corre anterior ao nervo vestibular superior. Multiplas raízes podem ser identificadas

mais facilmente quando elas juntam-se à raíz motora do facial, onde ele corre anteriormente ao nervo vestibular superior.9 A porção do nervo entre o tronco cerebral e o meato acústico interno é divisível em três partes: um segmento proximal que adere-se intimamente como oitavo nervo, um segmento intermediáro que fica livre entre o oitavo nervo e a raiz motora do sétimo, e um segmento distal que une-se à raíz motora do sétimo para formar o nervo facial.9 Nervo Petroso Maior O nervo petroso maior é um nervo misto que contém fibras aferentes viscerais, provenientes na mucosa do palato e que seguem rumo ao núcleo salivatório superior, fibras aferentes viscerais especiais, responsáveis pela gustação dos dois terços anteriores da língua, que seguem rumo ao núcleo ao núcleo e trato solitário no tronco cerebral e estão unidas ao nervo intermédio, e fibras eferentes viscerais gerais, que fazem sinápse com o gânglio pterigopalatino e partem do núcleo salivatório superior.4,6 31


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo de Revisão: NERVO FACIAL: UMA REVISÃO FOCADA EM SUA DIVISÃO PARASSIMPÁTICA

A massa do nervo consiste de fibras sensitivas que são os prolongamentos periféricos de células do gânglio geniculado e distribuem-se ao palato mole através dos nervos

palatinos menores.1,4 A parte proximal do nervo petroso maior está geralmente coberta por osso. O comprimento médio do nervo petroso maior coberto por osso antes de sair no hiato é de 3,7mm.10 O nervo petroso maior geralmente corre acima do segmento horizontal da carótida petrosa e abaixo do gânglio trigeminal rumo ao canal pterigóideo. Como ele procede medialmente, ele vira para baixo ao longo da parte anterior do canal carotídeo para unir-se ao nervo petroso profundo. O comprimento do nervo petroso maior do gânglio geniculado até a abertura posterior do canal pterigóideo é em média 28,8mm4.

.

Ele separa-se do nervo intermédio, agora parte do nervo facial, no gânglio

geniculado, sai através do osso no hiato do canal facial na fossa média e corre em direção rostral sob a dura-máter em uma direção anteromedial rumo ao gânglio trigeminal, passa superiormente à cartilagem da tuba auditiva que preenche o forame lacerado, cruza a face lateral da artéria carótida interna, e une-se ao o nervo petroso profundo para formar o nervo vidiano1,4,12. As fibras do nervo petroso maior inervam a glândula lacrima, mucosa nasal, palatina e da faringe. As fibras destinadas à glândula lacrimal deixam o nervo intermédio e

estendem-se pelo nervo petroso maior e nervo do canal pterigóideo antes de fazer sinapse no gânglio pterigopalatino, a partir do qual fibras pós-ganglionares estendem-se pelos nervo maxilar, zigomático, zigomaticotemporal e lacrimal para chegar à glândula lacrimal2,12. Além disso, essas fibras também se dirigem para as glândulas mucosas da cavidade nasal, oral, palatina, uvular e labial superior3. Nervo Petroso Profundo O nervo petroso profundo é comumente chamado de raiz simpática do gânglio pterigopalatino, embora seja apenas uma comunicação entre o gânglio e o sistema simpático1 . O nervo petroso profundo origina-se do plexo simpático carotídeo. As fibras do nervo carotídeo, ramo do gânglio cervical superior, viajam para baixo no nervus plexus pela artéria carótida interna e ramifica-se em duas partes: um tronco maior anterossuperior e um menor posteroinferior. 32


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo de Revisão: NERVO FACIAL: UMA REVISÃO FOCADA EM SUA DIVISÃO PARASSIMPÁTICA

O ramo posterior envia raízes que acompanham as artérias cerebrais e os nervos troclear e trigêmio. O ramo anterior dá origem ao nervo petroso profundo4,10. O nervo petroso profundo corre ao longo do aspecto anterior da parte petrosa da a. carótida interna

por uma pequena distância antes de penetrar no periósteo do canal carotídeo e unir-se ao nervo petroso maior para formar o nervo do canal pterigóideo (vidiano)4. Ele passa através do gânglio pterigopalatino sem fazer sinapses e acompanha os ramos dos nervos pterigopalatinos para o seu destino na membrana mucosa nasal e palato1. Nervo do Canal Pterigóideo O nervo do canal pterigóideo, também conhecido por n. vidiano, é formado pela união do nervo petroso maior e nervo petroso profundo no canal carotídeo, que então sai pela parte lateral da extremidade anterior do canal carotídeo, faz um curto percurso em baixo da dura e através da fossa média, passa ao longo da parte superior da borda anterolateral do forame lacerado, passa então através do tecido cartilaginoso na parte superior da margem anterolateral do forame lacerado, atravessa o canal pterigóideo e termina no gânglio pterigopalatino posicionado em frente da abertura anterior do canal e na parte posterior da fossa pterigopalatina1,2,4. Devido a união dos nervos petroso maior e profundo, o nervo do canal pterigóideo é composto por fibras aferentes viscerais, aferentes

viscerais especiais, eferentes viscerais gerais, e simpáticas. As fibras eferentes viscerais gerais fazem sinapses no gânglio pterigopalatino, enquanto as fibras aferentes viscerais, aferentes viscerais especiais e simpáticas passam através do gânglio sem fazer sinapse. As fibras que saem do gânglio unem-se aos nervos na órbita para suprir a glândula lacrimal e unir-se aos nervos nasal, nasopalatino e palatino para levar impulsos secretores para as conchas nasais e mucosas nasais e palatinas1,4. As fibras secretórias para a glândula lacrimal passam do gânglio pterigopalatino através do nervo maxilar e seu ramo zigomático para entrar na órbita através

da fissura orbital inferior e alcançar a glândula através de uma comunicação com o ramo lacrimal do nervo oftálmico4,12. Canal Pterigóideo O canal pterigóideo, também conhecido por canal vidiano, está localizado na linha de fusão entre o processo pterigóide e corpo do osso esfenoidal. 33


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo de Revisão: NERVO FACIAL: UMA REVISÃO FOCADA EM SUA DIVISÃO PARASSIMPÁTICA

Dentro dele há tecido adiposo e através desse tecido passam o nervo e vasos do canal pterigóideo (vidianos). A artéria do canal pterigóideo geralmente surge da artéria maxilar

interna na fossa pterigopalatina e é direcionada posteriormente dentro do canal4. Ela também pode surgir do segmento horizontal da carótida e entrar no canal pterigóideo com o nervo pterigóideo10. As artérias do canal pterigóideo cursam medialmente em torno de 7mm ao longo da parede anterior do canal antes de sair através da cartilagem do forame lacerado e continuar para o canal pterigóideo. O diâmetro desses ramos gira em torno de 0,5mm10. O canal pterigóideo conecta a fossa pterigopalatina e o forame lacerado. Ele é uma via em linha reta ligeiramente curvada direcionada posterolateralmente em relação a sua abertura anterior e seu comprimento ao longo de sua parede medial é em média 13,7mm. A extremidade anterior do canal, que abre-se na parte medial da parede posterior da fossa pterigopalatina, tem formato de funil. A abertura anterior do canal pterigóideo está localizada inferomedialmente ao forame redondo na parte medial superior da superfície anterior do processo pterigóide do osso esfenóide. A abertura posterior do canal pterigóideo está localizada acima da margem posterior da lâmina medial do processo pterigóide. Ela abre-se posteriormente dentro da parte superior da margem anterolateral do forame lacerado. Esta

abertura posterior está preenchida com tecido cartilaginoso que mistura-se em cartilagem posicionada mais medialmente que preenche o fome lacerado1,4. A extremidade posterior do canal pterigóideo está localizada inferolateralmente à extremidade anterior do canal carotídeo e anterior à parte petrosa da a. carótida interna, na margem anterolateral da parte superior do preenchimento cartilaginoso do forame lacerado, e inferolateralmente à eminência óssea sobrejacente à parte petrosa da a. carótida interna na parede lateral do seio esfenoidal. A abertura posterior do canal pterigóideo está situada medialmente ao forame oval e

superiormente à tuba auditiva. A distância entre a abertura posterior do canal pterigóideo e a margem medial do forme oval é, em média, 6,9mm. A extremidade superior da margem posterior da lâmina medial do processo pterigóide está localizada abaixo da abertura posterior do canal pterigóideo.

34


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo de Revisão: NERVO FACIAL: UMA REVISÃO FOCADA EM SUA DIVISÃO PARASSIMPÁTICA

Outras estruturas posicionadas abaixo do canal pterigóideo são a fossa escafóide, posicionada no lado lateral da parte superior da lâmina medial do processo pterigóide onde o músculo tensor do véu palatino surge, o tubérculo pterigóide, que é uma pequena projeção

localizada acima da borda posterior da lâmina medial do processo pterigóide, e a parte medial da tuba auditiva, que está anexada acima da superfície do forame lacerado e, anteriormente, aproxima-se à margem posterior da parte superior da lâmina medial do processo pterigóide. O segmento horizontal e a parte petrosa da a. carótida interna encontram-se acima da tuba auditiva4. O canal sempre leva posteriormente para a superfície inferolateral da parte petrosa da a. carótida interna quando exposto através da fossa média ou pela via inferior, através

da cavidade nasal e dos seios paranasais. O ângulo lateral em frente no plano axial no nível do assoalho da fossa média entre o eixo longo do segmento horizontal da parte petrosa da a. carótida interna e do canal pterigóideo, tem em media 133 graus. A margem medial da abertura posterior do canal pterigóideo está localizada a uma distância média de 2,4mm anteriormente à parte petrosa da a. carótida interna e a uma distância média de 3,2mm anteriormente do ápice da parte petrosa do osso temporal1,4 . O canal pterigóideo localiza-se no assoalho do seio esfenoidal e pode se projetar

para o interior deste seio, especialmente para a parte anterior de um seio bem pneumatizado. Uma proeminência óssea sobrepõem-se ao canal pterigóideo no assoalho do seio esfenoidal. O grau em que o canal pterigóideo se projeta para o interior do seio depende do grau de pneumatização deste último. Não haverá marcas acima do canal pterigóideo em osssos esfenoidais do tipo concha ou em tipos pré-selares tendo apenas uma célula de ar localizada anteriormente à sela túrcida4. Isto apenas em esfenóides bem pneumatizados, o tipo selar no qual a célula de ar extende-se abaixo da sela, o tipo mais comum de esfenoide em adultos, que

tem uma protrusão sobrepondo o canal no piso do seio esfenoidal. As partes anterior e posterior do canal vidiano ficam a uma distância média de 2,2mm e 2,8mm abaixo do piso do seio, respectivamente1,4.

35


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo de Revisão: NERVO FACIAL: UMA REVISÃO FOCADA EM SUA DIVISÃO PARASSIMPÁTICA

Nervo Corda do Tímpano As fibras da corda do tímpano são aferentes viscerais especiais para o gosto, que correm para o núcleo salivatório superior, distribuídas com os ramos do nervo lingual aos dois

terços anteriores da língua. Ele também contém fibras eferentes viscerais gerais pré-ganglionares secretomotoras do nervo intermédio, que terminam em sinapses com células do gânglio submandibular1,3. O nervo corda do tímpano origina-se do nervo intermédio no gânglio geniculado e corre na porção inicial do canal do nervo facial e verticalmente para baixo, na parede posterior do tímpano, logo antes de alcançar o forame estilomastoideo1,3. Penetra em seu próprio canal no osso, a cerca de 6mm acima do forame estilomastóide. Ele volta-se em direção cranial, quase paralela ao nervo facial, mas diverge em direção à parede lateral do tímpano. Emerge de uma abertura na parede posterior do tímpano entre a base da pirâmide e a fixação da membrana timpânica. Corre horizontalmente ao longo da parede lateral do tímpano, coberto pela fina membrana mucosa, e colocando-se contra a membrana timpânica cruza o manúbrio do martelo1,2,3. Deixa a cavidade timpânica perto da margem anterior da membrana, atravessa um canal na fissura petrotimpânica e emerge do crânio na face medial da espinha do osso esfenóide. Após cruzar a espinha do osso esfenoidal e ser alcançado por uma pequena comunicação do

gânglio ótico, o n. corda do tímpano une-se ao nervo lingual em ângulo agudo entre as lâminas medial e lateral do processo pterigóideo1,12. Gânglio Peterigopalatino O gânglio pterigopalatino está localizado profundamente na fossa pterigopalatina, logo inferiormente ao nervo maxilar assim que este cruza a fossa junto ao forame pterigopalatino, É triangular e mede cerva de 5mm de comprimento; é encoberto por tecido fibroso entre os ossos vizinhos, e está intimamente preso aos ramos pterigopalatinos da divisão maxilar do nervo trigêmio. É um gânglio parassimpático retransmitindo, principalmente, impulsos secretomotores da divisão intermédia do nervo facial. A raiz parassimpática do gânglio pterigopalatino é o nervo petroso maior, e sua continuação é o nervo do canal pterigopalatino. As fibras são pré-ganglionares parassimpáticas que deixam o tronco cerebral no nervo intermédio1. 36


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo de Revisão: NERVO FACIAL: UMA REVISÃO FOCADA EM SUA DIVISÃO PARASSIMPÁTICA

Gânglio Submandibular O gânglio submandibular é uma pequena massa, de 2 a 5mm de, situada acima da porção profunda da glândula submandibular, no hioglosso, perto da borda posterior do

milohióide, e suspenso da margem inferior do nervo lingual por dois filamentos de aproximadamente 5mm em comprimento. O filamento proximal é a raiz parassimpática que conduz fibras originárias do nervo intermédio e levadas ao lingual pela corda do tímpano. Estas são fibras eferentes viscerais pré-ganglionares secretomotoras cujas fibras pós-ganglionares inervam as glândulas submandibular, sublingual, lingual e glândulas salivares vizinhas1. Os ramos de distribuição são: cinco ou seis filamentos distribuídos à glândula submandibular e seu ducto, às pequenas glândulas no soalho da boca, e o filamento distal que prende o gânglio ao nervo lingual, que conduz as fibras distribuídas à sublingual e glândulas linguais pequenas, com os ramos terminais do nervo lingual. Grupos pequenos de células ganglionares são constantemente encontrados no estroma da glândula submandibular, em geral perto de grandes ramos do ducto; estas células são consideradas, do ponto de vista funcional, uma parte do gânglio submandibular. Uma comunicação com os feixes simpáticos sobre a artéria facial tem sido chamada raiz simpática do gânglio, mas as fibras são pós-ganglionares e não têm sinapses no gânglio1. Fibra aferentes viscerais que passam através da raiz ao lingual e daí à corda do tímpano têm sido chamadas raiz sensitiva, embora elas não tenham sinapses no gânglio e seus corpos celulares estejam no gânglio geniculado1.

Referências Bibliográficas Gray H. Anatomia. 29a ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan; 1988. p. 714-716, 756764, 824-826,

Afifi A. K., Bergman R. A. Neuroanatomia funcional: texto e atlas. 2a ed. São Paulo: Editora Roca S.A.; 2008. p. 121-124. 37


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo de Revisão: NERVO FACIAL: UMA REVISÃO FOCADA EM SUA DIVISÃO PARASSIMPÁTICA

Menesses M. S. Neuroanatomia aplicada. 2a ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan S.A.; 2006. p. 154-158, 168-172, 310-311.

Osawa S., Rhoton Jr. A. L., Seker A., Shimizu S., Fujii K., Kassam A. B. Microsurgical and Endoscopic Anatomy of the Vidian Canal. Neurosurgery 2009; 64 : 385 – 412.

Brodal A. Anatomia neurológica com correlações clínicas. 3a ed. São Paulo: Editora Roca LTDA; 2005. p. 398-404

de Groot. J. Neuroanatomia. 21a ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan S.A.; 1994. p. 66-68.

Wilson-Pauwels L., Akesson E. J., Stewart P. A., Spacey S. D. Cranial nerves in health and disease. 2a ed. London: BC Decker Inc; 2002. p. 116-128.

Rhoton Jr. A. L., Kobayashi S., Hollinshead W. H. Nervus Intermedius. Journal of Neurosurgery 1968; 29: 609-618.

Rhoton Jr. A. L. Microsurgery of the Internal Acoustic Meatus. Surgical Neurology 1974; 2 : 311- 318.

Paullus W. S., Pait T. G., Rhoton Jr. A. L. Microsurgical exposure of the petrous portion of the carotid artery. Journal of Neurosurgery 1997; 47: 713-726.

Martin J. H. Neuroanatomia: texto e atlas. 2a ed. Porto Alegre: Editora Artes Médicas; 1998. p. 224-234.

38


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Artigo de Revisão: NERVO FACIAL: UMA REVISÃO FOCADA EM SUA DIVISÃO PARASSIMPÁTICA

Burt A. M. Neuroanatomia. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan S.A.; 1995. p. 233, 306.

Ignatz Rohrbacher Acadêmico deMedicina Universidade Positivo Curitiba , Paraná

39


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Como eu faço... TÉCNICA DE INJEÇÃO DE TINTA DA CHINA PARA DEMONSTRAÇÃO DA REDE DE PURKINJE EM CORAÇÕES DE BOVINOS E OVINOS Marcos Célio De Almeida*; Pedro Fontes**; Fábio Lopes** *Instituto de biologia - Departamento de genética e morfologia. Universidade de Brasilia. DF ** Alunos do curso de Farmácia da Universidade de Brasília.

INTRODUÇÃO

Tawara1 em 1906, utilizando cortes microscópicos seriados, foi o primeiro a mostrar a rede de Purkinje em várias espécies animais, inclusive a humana. Lhamon2 , ao descobrir uma cápsula fibrosa envolvendo as fibras de Purkinje no coração de ungulados,

desenvolveu a técnica de injeção com tinta da China ou tinta nanquim para demonstrar o sistema de Purkinje nesses animais. Recentemente, desenvolvemos uma melhoria nessa técnica3 para facilitar seu uso. Por outro lado, temos evidenciado que muitos alunos de anatomia humana representam a rede de Purkinje com um padrão morfológico que lembra um leito arterial terminal4. Acreditamos que isso se deve, em parte, à dificuldade em demonstrar a rede em corações humanos. O uso da técnica de injeção de tinta nanquim em corações de bovinos e ovinos, como modelo didático, pode corrigir este aspecto5. É importante salientar que, até onde

pudemos verificar, não há em nossa literatura descrição desse procedimento. O objetivo do presente artigo é descrever a técnica de maneira a disseminar seu uso .

Palavras-chave: Sistema de condução do coração. Rede de Purkinje. Injeção de tinta da China.

OBTENÇÃO E PREPARO DOS CORAÇÕES Corações de bovinos e ovinos, obtidos em abatedouros, são congelados por 12 horas ou assim mantidos até o momento do uso. Para realização da técnica, são descongelados e deixados à temperatura ambiente até estarem flácidos. Corações em rigor mortis ou fixados em formol não permitem a injeção adequada de tinta nanquim ou da China2. Não obtivemos bons resultados com corações de suínos. 40


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Como eu faço ...: TÉCNICA DE INJEÇÃO DE TINTA DA CHINA PARA DEMONSTRAÇÃO DA REDE DE PURKINJE EM CORAÇÕES DE BOVINOS E OVINOS

ABERTURA DAS CAVIDADES CARDÍACAS

Inicialmente eliminam-se as aderências entre os vasos da base, retirando-se o excesso de tecido adiposo e conjuntivo que une essas estruturas. As cavidades cardíacas são abertas seguindo-se o percurso do sangue. Inicia-se com um corte que vai da veia cava superior até a inferior, expondo o interior do átrio direito. A seguir, com a face diafragmática do coração posicionada sobre uma superfície plana, insere-se no átrio direito uma faca longa, pontiaguda e de pequena espessura até o ápice do ventrículo direito. Aqui, deve-se ter o cuidado de inserir o instrumento de corte entre os músculos papilares anterior e posterior, sem lesar o endocárdio.

Procede-se então a perfuração da ponta e, em movimento único, retrógrado, corta-se a borda direita seguindo entre os músculos papilares até o átrio. Durante esse movimento, deve-se ter o cuidado de manter o coração imóvel, o que se consegue facilmente pressionando a face esternocostal com uma compressa sob uma das mãos do instrumentador. Outra possibilidade de corte é inserir a faca no ápice, rente ao septo interventricular, na porção posterior, e realizar um corte em direção à face diafragmática tanto do ventrículo quanto do átrio. Na próxima etapa, a partir da cavidade ventricular direita, a faca de corte é inserida no cone da artéria pulmonar, acima do

músculo papilar anterior, ultrapassando a valva pulmonar e indo até a artéria. Em movimento único, em direção à face esterno-costal faz-se o corte. O átrio esquerdo é exposto seccionando-se a parede atrial entre as veias pulmonares. Da mesma forma que para o lado direito, o instrumento de corte é inserido até o ápice ventricular, e o corte é feito em movimento único e retrógrado pela borda esquerda. A faca deve ser inserida entre os músculos papilares esquerdo e direito. É fundamental não lesionar as falsas cordas tendíneas. Estando a cavidade ventricular esquerda aberta, coloca-se o

coração de modo a se observar frontalmente o septo interventricular. Com o ápice apontado para o instrumentador, insere-se o instrumento de corte no vestíbulo aórtico, indo até a aorta ascendente. A lâmina do instrumento olha em direção ao instrumentador e na direção da linha média do folheto aórtico da valva mitral. Nesse corte o folheto aórtico da valva mitral fica divido ao meio. 41


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Como eu faço ...: TÉCNICA DE INJEÇÃO DE TINTA DA CHINA PARA DEMONSTRAÇÃO DA REDE DE PURKINJE EM CORAÇÕES DE BOVINOS E OVINOS

O óstio coronário direito ficará, após a secção simultânea do folheto aórtico da mitral e aorta adjacente, em posição frontal ao instrumentador e o óstio esquerdo à esquerda.

Obs: Como a técnica de injeção depende do conhecimento da macroscopia do sistema de condução, faremos uma breve descrição do mesmo. MACROSCOPIA DO SISTEMA DE CONDUÇÃO CAVIDADE VENTRICULAR ESQUERDA Os ramos principais são facilmente observados sob o endocárdio, por transparência, ou como cordas aéreas (Fig1 ). O ramo principal esquerdo, ao perfurar o septo interventricular, se apresenta sob o endocárdio logo abaixo e à direita da lúnula da coronária direita. Na verdade, uma observação mais detalhada, após o uso de tinta da China, mostra que não se trata de um ramo único mas de vários ramos que caminham juntos até o terço médio superior do septo interventricular. A partir daí surgem ramos principais, como falsas cordas tendíneas ou cordas aéreas, um para o músculo papilar direito e outro para o esquerdo e um terceiro ou quarto subendocárdicos em direção à cavidade ventricular. Esses ramos principais originam uma complexa rede de minúsculos ramos interanastomosantes (Fig.2 e 3). Esses ramos se distribuem em toda cavidade ventricular, mas nunca chegam aos óstios valvares respeitando uma faixa de 1-2 cm de espessura.

Fig 1. Ramo principal esquerdo e cordas aéreas. Coração bovino

42


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Como eu faço ...: TÉCNICA DE INJEÇÃO DE TINTA DA CHINA PARA DEMONSTRAÇÃO DA REDE DE PURKINJE EM CORAÇÕES DE BOVINOS E OVINOS

Fig. 2 Ramo principal esquerdo e rede de Purkinje em coração ovino fixado após injeção com nanquim

Fig. 3 Rede de Purkinje na cavidade ventricular esquerda após injeção de tinta da China. Observar a ampla rede sobre o músculo papilar à esquerda. Coração Bovino.

43


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Como eu faço ...: TÉCNICA DE INJEÇÃO DE TINTA DA CHINA PARA DEMONSTRAÇÃO DA REDE DE PURKINJE EM CORAÇÕES DE BOVINOS E OVINOS

CAVIDADE VENTRICULAR DIREITA

A observação direta do sistema de condução é muito menos evidente que no coração esquerdo. O feixe de His, antes de perfurar o septo membranoso interventricular, origina um ramo direito, em geral profundo, no subendocárdio, raramente podendo ser observado por transparência (Fig.4). O ramo direito dirige-se para a trabécula septo-marginal ou feixe moderador correndo no seu interior. Ao atingir a base do músculo papilar anterior, origina ramos para o próprio músculo papilar e para a cavidade direita. (Fig.5).

A rede de

Purkinje é muito mais delgada na cavidade ventricular direita que esquerda e, portanto, de mais difícil observação direta.

Fig. 4 Ramo principal direito e seu percurso na trabécula septo marginal demonstrado com injeção de nanquim. Coração bovino.

44


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Como eu faço ...: TÉCNICA DE INJEÇÃO DE TINTA DA CHINA PARA DEMONSTRAÇÃO DA REDE DE PURKINJE EM CORAÇÕES DE BOVINOS E OVINOS

Fig. 5 Rede de Purkinje na saída do cone da pulmonar. Observe faixa livre de ramos abaixo da inserção da valva pulmonar . Coração bovino.

TÉCNICA DE INJEÇÃO DE TINTA DA CHINA

Utilizamos uma solução de tinta da China Acrilex® em solução 1/ 20 em NACL 0,9% (v/v). Seringas plásticas 1-10ml e agulhas 13x4,5 . Como as estruturas são muito frágeis e finas, a manipulação adequada da seringa é fundamental. Obtivemos melhor resultado segurando o corpo seringa com a palma da mão. O polegar é usado para pressionar o êmbolo. A mão segurando a seringa fica na posição do sinal de “positivo”. A lubrificação prévia do êmbolo com óleo também facilita a injeção. Outros preferem segurar o corpo da seringa com o dedo médio e o polegar, pressionando o êmbolo com o indicador. Embora simples este é um detalhe determinante na qualidade da técnica. O preparado se mantém após fixação em formaldeído ou outro fixador anatômico. 45


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Como eu faço ...: TÉCNICA DE INJEÇÃO DE TINTA DA CHINA PARA DEMONSTRAÇÃO DA REDE DE PURKINJE EM CORAÇÕES DE BOVINOS E OVINOS

PROCEDIMENTO POR CÂMARA CARDÍCA

CÂMARA VENTRICULAR ESQUERDA A injeção é mais facilmente realizada no lado esquerdo do coração. Na nossa experiência isso deve ser feito inicialmente pela punção da falsa corda tendínea (Fig. 1) que se dirige ao músculo papilar esquerdo e depois na que se dirige para o lado direito. A corda é tensionada inserindo-se uma pinça aberta abaixo da mesma e a agulha punciona a corda tangencialmente, sob pressão constante e suave, para não romper a cápsula conjuntiva que envolve as fibras de Purkinje (Fig.6) É um movimento às cegas que pode ter pequenos avanços e recuos. Ao perfurar uma cápsula o liquido preenche a ampla rede que se distribui sobre o músculo papilar. A mesma corda pode ser puncionada no sentido contrário e a solução de tinta da China injetada retrogradamente para demonstrar os feixes do ramo principal. A partir dos ramos distais que foram preenchidos, novas punções e injeções são feitas até se completar a demonstração da rede. Uma manobra que ajuda bastante na demonstração dos menores ramos é a digito-pressão das áreas injetadas, com um movimento no sentido das áreas ainda a serem evidenciadas

Fig.6 Fibra de Purkinje envolta por cápsula conjuntiva marcada com tinta nanquim. Endocárdio sobre o músculo papilar esquerdo . Coração bovino. HE X400

46


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Como eu faço ...: TÉCNICA DE INJEÇÃO DE TINTA DA CHINA PARA DEMONSTRAÇÃO DA REDE DE PURKINJE EM CORAÇÕES DE BOVINOS E OVINOS

CÂMARA VENTRICULAR DIREITA

Aqui uma possível abordagem, quando o ramo principal não pode ser visto por transparência, é dissecá-lo quando atravessa a trabécula septo-marginal, e puncioná-lo. Nesse caso, segue-se injetando os ramos distais na base do músculo papilar. Pode-se também iniciar as injeções a partir de ramos menores, em geral mais fáceis de serem localizados no terço superior do septo interventricular, abaixo do folheto septal da valva tricúspide.

Agradecimentos: Agradecemos a Virgínia Vilhena do Nascimento pelo incentivo e revisão do texto. Ao professor Antônio Seben pela ajuda na fotografia de algumas peças. Aos frigoríficos Supremo e Silvestre pela cessão dos corações bovinos e ovinos respectivamente.

Referências Bibliográficas

Tawara, S. 1906. Das Reizleitungssystem des Saugertierherzens. Gustav Fischer Verlag. (Tradução inglesa: The Conduction System of the Mammalian Heart, Imperial College Press.2000)

Lhamon, R.M. 1912. The sheath of the sino-ventricular bundle. Am. Jour. Anat 13, 55-70. De Almeida, M.C ; Fontes, P. 2010. An improved variation of India Ink procedure for demonstration of Purkinje network in bovine heart. O Anatomista, 4, 735.

De Almeida, M. C, ; Barra, F.R.; Batista, G.M;

Lopes, F .M. 2011. Purkinje network

misrepresentation in modern international textbooks of human anatomy. XXII International symposium on morphological sciences. São Paulo. Brasil. 47


O ANATOMISTA

Ano 3, Vol ume 1, Janeiro-Março, 2012

Como eu faço ...: TÉCNICA DE INJEÇÃO DE TINTA DA CHINA PARA DEMONSTRAÇÃO DA REDE DE PURKINJE EM CORAÇÕES DE BOVINOS E OVINOS

De Almeida, M. C.; Lopes, F. M.; Batista, G.M. 2011. Listening to Aschoff advice, following

Tawara footsteps: the usefulness of Ungulate’s heart model in human anatomy for demonstration of Purkinje network. XXII International symposium on morphological sciences. São Paulo. Brasil.

Marcos Célio De Almeida Professor Adjunto Instituto de Biologia - Departamento de Genética e Morfologia Universidade de Brasilia. DF marcoscelio@unb.br, mcelioalmeida@hotmail.com.br

48

O Anatomista vol1, 2012  

volume 1 de 2012

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you