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O ANATOMISTA

Ano 3, Volume 3, Julho-Setembro, 2012

Ano 3, Volume 3, Julho-Setembro, 2012 ISSN 2177-0719

O A N A T O MI S T A OCORRÊNCIA DE VARIAÇÕES ANATÔMICAS NA LOBULAÇÃO E NA PRESENÇA DE FISSURAS EM PULMÕES HUMANOS ISOLADOS

BRACHIAL ARTERY VARIATION:BRACHIORADIAL ARTERY

PERSISTÊNCIA DO TIMO EM CÃES

O CONHECIMENTO SOBRE CONCEITOS E ESTRUTURAS ANATÔMICAS DE ALUNOS DO ENSINO MÉDIO

A IMPORTÂNCIA DA SINERGIA ENTRE LITERATURA E ILUSTRAÇÃO NO ENSINO DA ANATOMIA ANIMAL

SÍNDROMES MEDULARES 1


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O ANATOMISTA REVISTA DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ANATOMIA

Expediente Editores: Nadir Eunice Valverde Barbato de Prates Richard Halti Cabral Conselho Editorial: Arani Nanci Bomfim Mariana José Aderval Aragão Marcelo Cavenaghi Pereira da Silva Jõao Carlos de Souza Cortes Mirna Duarte Barros Telma Sumie Masuko Capa: Tábua Anatômica denominada “ Skeleton, Brain, Nerves” de John Banister. Esta obra foi exposta durante a exibição “Brains: The Mind as Matter”, em Londres, no primeiro semestre de 2012. Esta imagem foi obtida da página oficial do BBC History Magazine (www.historyextra.com/brains). A responsabilidade do conteúdo dos artigos deve ser atribuída, exclusivamente, aos seus respectivos autores. As opiniões manifestadas nos artigos não refletem, necessariamente, a opinião da Sociedade. Sociedade Brasileira de Anatomia Av. Prof. Lineu Prestes, 2415 - Prédio Biomédicas III Cid. Universitária. Cep: 05508-900 São Paulo / SP E-mail: sba@icb.usp.br / Website: http://www.sbanatomia.org.br Tel.: (11) 3091-7978 / Tel./Fax: (11) 3813-8587 2


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Sumário Artigos Originais Ocorrência de variações anatômicas na lobulação e na presença de fissuras em pulmões humanos isolados

04

Persistência do timo em cães

23

O conhecimento sobre conceitos e estruturas anatômicas de alunos do ensino médio

29

Relato de Caso Brachial artery variation: brachioradial artery

16

Resenha Literária A importância da sinergia entre literatura e ilustração no ensino da anatomia animal

45

Você Sabia... Síndromes medulares

52

3


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Artigo Original OCORRÊNCIA DE VARIAÇÕES ANATÔMICAS NA LOBULAÇÃO E NA PRESENÇA DE FISSURAS EM PULMÕES HUMANOS ISOLADOS SURAH DE OLIVEIRA HERRERA 1, SAMANTA CORDEIRO SILVA 2, SHAISTA POPE 3, JOÃO VICTOR FORNARI 4, ANDERSON SENA BARNABÉ 5, RENATO RIBEIRO NOGUEIRA FERRAZ 6 1 Bióloga, graduanda em Enfermagem pela Universidade Nove de Julho (UNINOVE) – SP. 2 Graduada em Enfermagem pela UNINOVE. 3 Graduada em Farmácia pela Uninove. 4 Enfermeiro e Nutricionista, Mestre em Farmacologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) – SP. Professor do Departamento de Saúde da UNINOVE. 5 Biólogo, Mestre e Doutor em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP) - SP. Professor do Departamento de Saúde da UNINOVE. 6 Biólogo, Mestre e Doutor em Ciências pela UNIFESP. Professor do Departamento de Saúde da UNINOVE. Integrante do Grupo de Pesquisas em Morfologia Humana da UNINOVE. RESUMO Introdução: Mesmo que as frequentes variações anatômicas nos pulmões não pareçam intervir quanto ao seu funcionamento, ainda sim, devem ser consideradas no que diz respeito às condutas diagnósticas e cirúrgicas. Ainda são controversos os valores percentuais de variações anatômicas tanto na lobulação pulmonar, quanto na presença de fissuras. Objetivo: Quantificar a ocorrência de variações anatômicas no número de lobos e na presença de fissuras em pulmões humanos isolados. Método: Avaliação observacional de pulmões disponíveis no laboratório de Anatomia Humana de uma universidade particular localizada na cidade de São Paulo - SP, classificando-os como esquerdos ou direitos, e quantificando seus lobos e fissuras. Resultados: Dos 65 pulmões avaliados, 39 pulmões (60% do total) foram identificados como esquerdos e 23 (35% da amostra) foram identificados como direitos. Cerca de 20% dos espécimes estudados apresentaram variações anatômicas, especialmente referindo-se à presença de lobos e fissuras extranumerárias. Conclusão: A prevalência de variações anatômicas na amostra estudada mostrou-se bastante elevada. O treinamento de indivíduos para identificação de variações anatômicas pulmonares deve se iniciar ainda no período de graduação, contribuindo assim para o ensino aplicado da Anatomia Humana, e gerando conhecimentos que podem ser diretamente aplicados às condutas médicas associadas ao diagnóstico, tratamento e prognóstico de doenças condições clínicas que acometem os pulmões. Palavras-chave: Anatomia; Variações; Pulmões; Lobos; Fissuras. 4


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ABSTRACT Introduction: Even though the frequent anatomical variations in the lungs are not prejudicial to their function, it should be considered with regard to diagnosis and surgery. Still controversial the percent of anatomical variations in both the lung lobulation, and in the presence of fissures. Objective: To quantify the occurrence of anatomical variations in the number of lobes and in the presence of fissures in isolated human lungs. Method: Observational assessment of lungs available in a laboratory of Anatomy of a private university located in the city of Sao Paulo – SP Brazil, classifying them as left or right, and quantifying its lobes and fissures. Results: Of the 65 evaluated lungs, 39 (60% of the total) were identified as left and 23 (35% sample) were identified as right. About 20% of specimens showed anatomic variations, especially referring to the presence of extranumerary lobes and fissures. Conclusion: The prevalence of anatomical variations in the sample studied was very high. The training of individuals to identify anatomic lung variations should begin even during graduation, thus contributing to the teaching of applied Anatomy, and generating knowledge that can be directly applied to the medical procedures associated with the diagnosis, treatment and prognosis of clinics conditions that affect the lungs. Key words: Anatomy; Variations; Lungs; Lobes; Fissures.

INTRODUÇÃO

Dentre os processos vitais que os organismos exibem, imensa relevância deve ser dispensada às formas de obtenção de energia. A respiração celular é tida como a mais amplamente utilizada entre os seres vivos 9. A função de trocas gasosas é primordial para a manutenção da respiração celular e, consequentemente, da vida celular. Este é um dos principais papéis do sistema respiratório. Além de basicamente garantir as trocas gasosas com o meio ambiente, o aparelho respiratório possui também função endócrino-metabólica, fornecendo ao indivíduo um meio de repor o oxigênio (O2) e remover o dióxido de carbono (CO2) do sangue. Também ajuda a regular a temperatura corpórea e o pH sanguíneo 9,17,22. A ventilação pulmonar é controlada pelo bulbo, componente do encéfalo 11. O bulbo, por sua vez, é sensível às variações de pH sanguíneo e regula o aumento ou redução da frequência respiratória diante de uma menor ou maior concentração de 5


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íons bicarbonato (HCO3) no sangue 9, ou baseando-se nas variações de O2 na corrente sanguínea, situações estas mediadas pelas vias aferentes viscerais 1,5,11,18. As células endoteliais presentes nos vasos dos pulmões 10,16,24 têm importante papel na síntese e degradação de diversas substâncias presentes no sangue, como a angiotensina e a bradicinina 9, possuindo receptores que captam os impulsos provenientes dos prolongamentos periféricos de células ganglionares sensitivas dos gânglios nodoso e espinais torácicos 5,18, funcionando em conjunto com o centro autônomo de controle da respiração 1,9,11. O endotélio pulmonar participa também da conversão da angiotensina I em angiotensina II, realizada pela enzima conversora de angiotensina (ECA). Ao mesmo tempo em que produz um fator vasoconstritor (angiotensina II), a ECA endotelial pulmonar inativa um potente peptídeo vasodilatador, a bradicinina. Aproximadamente 80% desses peptídeos são degradados em uma única passagem pelo pulmão, não alcançando o leito arterial sistêmico. O endotélio pulmonar também é capaz de remover e metabolizar certas aminas endógenas, como serotonina e noradrenalina 9,24. É notável, portanto, o fundamental papel da homeostasia do organismo que o sistema respiratório desempenha 9,22, inter-relacionado, principalmente, aos sistemas cardiovascular e nervoso. O conhecimento da anatomia e fisiologia destes sistemas é importante não somente para a compreensão de processos internos, mas também para a correção de possíveis distúrbios funcionais 1,3,5,12,13. Nos vertebrados terrestres, o sistema respiratório é constituído fundamentalmente por dois pulmões. Nos seres humanos o aparelho respiratório é analisado de acordo com sua funcionalidade e de acordo com sua estrutura, sendo dividido em porção condutora e porção respiratória 9. Na porção condutora observam-se estruturas tais como a cavidade nasal, faringe, laringe, traquéia, brônquios e alguns bronquíolos 2,4,8. Na respiratória, encontram-se os bronquíolos respiratórios, os ductos alveolares e os sacos alveolares, que atuam como comunicadores entre meio externo e interno, possibilitando o processo de hematose 9,10,19-21,23 . Levando-se em conta suas estruturas, o aparelho respiratório humano, dividido em vias aéreas superiores 2,4,9,10 (consistindo em nariz, faringe e estruturas associadas) e vias aéreas inferiores (englobando a laringe, traquéia, brônquios, bronquíolos e pulmões), exibe ampla complexidade anatômico-funcional 11,14,21. De forma similar 6


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ao coração, a traquéia, os brônquios e os pulmões encontram-se inervados por terminações simpáticas (responsáveis pela broncodilatação) e parassimpáticas (responsáveis pela broncoconstrição) 4,9,23. Como órgãos fundamentais do sistema respiratório, os pulmões localizam-se ocupando por completo as cavidades pleurais, lateralmente ao mediastino 4,8,19,20,23. São órgãos de consistência esponjosa – devido presença de inúmeros alvéolos e sacos alveolares – de formato cônico-piramidal 10,20. Cada pulmão conta com uma base apoiada sobre o diafragma (face diafragmática), enquanto sua extremidade superior, o ápice, tem uma forma arredondada. A face medial – que inclui a face costal e a face mediastinal – está direcionada para o espaço que ocupa o centro da cavidade torácica, o mediastino. A face costal, convexa, encontra-se por baixo das costelas 5. Os pulmões também são estruturados pelas regiões das bordas, a anterior (mais delgada), a inferior e a borda posterior (mais espessa) e ainda pelas margens (anterior e inferior) 8,20,22. O conhecimento de toda organização anatômica de ambos os pulmões torna-se útil em uma ampla gama de aspectos médicos 7,11,13,14,17. Através do ligamento pulmonar, os pulmões estão fixados à traquéia e ao coração, e os brônquios principais e as artérias pulmonares entram de cada lado do pulmão por uma fenda, o hilo, constituindo a raiz ou pedículo do pulmão 5,20. Percorridos por cisuras (fissuras) que os dividem em lobos, os pulmões são caracteristicamente distintos entre si, onde o direito, na maior parte dos casos, conta com duas fissuras (horizontal e oblíqua) 4,19,23 que o divide em três lobos – inferior, médio e superior. Por outro lado, o esquerdo, ligeiramente menor e mais leve, normalmente apresenta uma única fissura (oblíqua) e apenas dois lobos (inferior e superior) e a língula, localizada na região inferior do lobo superior 3,8,20. Cada lobo pulmonar conta com vários segmentos, ventilados por brônquios específicos – dez no pulmão direito e dez no esquerdo. Por conseguinte, cada segmento é formado por inúmeros pequenos lóbulos secundários, albergando cada um destes entre três a cinco ácinos – que correspondem a uma reduzida parcela de tecido, ventilada por um bronquíolo terminal 20. São notáveis as diferenças anatômicas entre os pulmões direito e esquerdo. Em sua face medial há o hilo do pulmão esquerdo (artéria, brônquio e veia) e do pulmão direito (brônquio, artéria e veia) juntamente com nervos e vasos linfáticos, dentre outras divergências anteriormente mencionadas 4,8,12,14,20,22,23. 7


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Distinções morfológicas podem se apresentar externamente ou em qualquer dos sistemas do organismo, sem que isto traga prejuízo funcional para o indivíduo. Essas variações anatômicas são usualmente encontradas na morfologia dos pulmões 19 . Sendo os pulmões os principais órgãos do sistema respiratório, torna-se imprescindível o conhecimento morfológico de sua lobação para as práticas clínica e cirúrgica, especialmente. Há casos descritos de pulmões de tamanho normal, porém com diversas alterações presentes 2,3. Sobretudo às fissuras, de modo habitual ocorrem nos pulmões apresentando modificações, ora na forma de fissura incompleta, ora inteiramente ausente. Em contrapartida, quando ocorre uma variação anatômica que se faz exibir em um número excessivo de fissuras pulmonares, estas, por sua vez, acabam por dividir o pulmão e originar lobos extranumerários 2,3,5,23. De acordo com a literatura, mesmo que as frequentes variações anatômicas nos pulmões não pareçam intervir quanto ao seu funcionamento, ainda sim, estas variações devem ser consideradas no que diz respeito às condutas diagnósticas e cirúrgicas 12. Há ocorrência de variações nos lobos pulmonares em cerca de 1% dos indivíduos, onde uma fissura a mais acaba por dividir um pulmão. Casos em que aparecem três lobos no pulmão esquerdo têm sido observados, bem como quanto à configuração anatômica do pulmão direito, que pode sofrer vários desvios, tais como a ausência da divisão lobar, ou ainda a presença de apenas dois lobos na condição da não-formação de uma de suas fissuras 7. Ocorrências contingentes mostram fissuras extra subdividindo os pulmões em lobos a mais, muitas vezes designados por lobos ázigo. Frequentemente, alterações morfológicas atuam como importantes vestígios diagnósticos 12-14. Outro fator relevante se dá, visto que os pulmões são afetados secundariamente em quase todas as formas de enfermidades terminais, de modo que praticamente em todos os pacientes que falecem, existe certo grau de edema pulmonar, dentre outras complicações 13. Pela ausência na literatura de trabalhos que quantifiquem com clareza a prevalência de variações anatômicas na contagem de fissuras e de lobos pulmonares, e com o intuito de melhor conhecer alguns aspectos morfológicos do sistema respiratório analisando as principais características anatômicas encontradas, julgamos importante realizar a quantificação dessas ocorrências, fornecendo importantes informações que podem servir de base para condutas médico-cirúrgicas. 8


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OBJETIVO Quantificar a ocorrência de variações anatômicas no número de lobos e na presença de fissuras em pulmões humanos isolados.

MÉTODO Trata-se de um estudo descritivo e de abordagem quantitativa, realizado no laboratórios de Anatomia Humana de uma Universidade particular localizada na cidade de São Paulo - SP. O período de coleta de dados para a realização desse estudo ocorreu entre julho e outubro de 2011. Os objetos de interesse desta pesquisa foram todos os pulmões humanos isolados disponíveis no laboratório da instituição mencionada. Inicialmente foram identificados os pulmões direitos e esquerdos, baseando-se na posição da borda delgada (anterior) e espessa (posterior), além da posição da face mediastinal (medial) e diafragmática (inferior). Após essa separação, os pulmões foram avaliados individualmente quanto ao número de lobos e de fissuras. A presença das variações anatômicas descritas foi apresentada pelos seus valores absolutos e percentuais relativos ao tamanho total da amostra, não havendo a necessidade de aplicação de testes estatísticos específicos. Nenhum registro de imagem das peças analisadas, seja ele fotográfico ou por vídeo, foi realizado. Ainda, não foi divulgada nenhuma informação que pudesse identificar os pulmões avaliados ou mesmo a instituição na qual o trabalho foi realizado. Esta pesquisa foi registrada no Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) sob o no. 412881 – 2011 e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da instituição onde foi realizado por obedecer aos preceitos éticos estabelecidos pela resolução 196/96 do CONEP. RESULTADOS Ao todo, foram analisados 65 pulmões humanos isolados. Desses, 39 pulmões (60% do total) foram identificados como esquerdos, 23 (35% da amostra) foram identificados como direitos e 3 (5%) não possibilitaram identificação em decorrência do mal estado de conservação da peça . 9


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Foram observados 14 pulmões direitos (60% do total de pulmões direitos) com ao menos uma variação anatômica. Destes, 2 espécimes (15% do total de pulmões direitos) não exibiam lobo médio, 3 peças (21% da mesma amostra) apresentavam fissura oblíqua incompleta e 9 exemplares (64% dos pulmões direitos avaliados) apresentavam fissura horizontal incompleta (Figura 1). Nove pulmões direitos (40% dos exemplares) não possuíam nenhuma variação anatômica, ou seja, apresentavam três lobos distintos separados por duas fissuras completas. Com relação aos pulmões esquerdos, 10 deles (26 % dos pulmões esquerdos avaliados) apresentavam alguma variação anatômica. Destes, 2 exemplares (20% dos pulmões esquerdos) apresentavam lobo médio, 3 espécimes (30% da mesma amostra) não apresentavam língula pulmonar, 2 pulmões (20% das peças esquerdas observadas) exibiam fissura horizontal completa (originando os dois lobos médios direitos já citados) e 3 peças (também 30% do total de pulmões esquerdos verificados) apresentaram fissura obliqua incompleta (Figura 1). Dos pulmões esquerdos observados, 29 peças (74% da amostra) não apresentaram nenhuma variação anatômica notável, possuindo lobo superior direito, lobo médio e lobo inferior direito, além de apresentar completas as fissuras horizontal e obliqua.

Figura 1: Frequência relativa das variações anatômicas observadas nos pulmões avaliados

A Tabela 1 traz uma análise quantitativa das variações anatômicas encontradas nos pulmões avaliados.

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Tabela 1. Variações anatômicas observadas dos pulmões avaliados, onde “A” representa ausente, “I” incompleta, “P” presente e “C” completa. Características

Pulmões

Pulmões

Observadas

Direitos

Esquerdos

Fissura Horizontal A

0

0

Fissura Horizontal C

12

2

Fissura Horizontal I

9

37

Fissura Oblíqua I

3

3

Fissura Oblíqua A

0

0

Fissura Oblíqua C

18

36

Lobo Médio P

19

2

Lobo Médio A

2

37

Língula A

21

3

Língula P

0

36

Lobo Superior P

21

39

Lobo Superior A

0

0

Lobo Inferior P

21

39

Lobo Inferior A

0

0

Variação Anatômica P

14

10

Variação Anatômica A

9

33

DISCUSSÃO A literatura anatômica mostra-se bastante escassa com relação a trabalhos que quantifiquem, ao menos que pontualmente, as inúmeras variações anatômicas facilmente identificáveis no corpo humano, em especial aquelas presentes nos pulmões. Dentre as principais variações macroscópicas e externas comumente encontradas nesses órgãos respiratórios, destaque pode ser dado ao número de 11


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fissuras, se as mesmas apresentam-se completas como normalmente deveriam ser, assim como ao número de lobos pulmonares, que podem variar de acordo com a ausência de uma sutura ou com a presença de uma sutura extranumerária 2-5,19,23. Portanto, a realização de trabalhos com o objetivo de caracterizar tais variações permitiria o conhecimento mais aprofundado de alguns aspectos morfológicos do sistema respiratório e forneceria importantes informações que poderão servir de base para o aprimoramento de condutas médico-cirúrgicas. Dângelo e Fattini (2002) 2 e Didio (1974) 3 ressaltam a importância de se conhecer adequadamente as variações anatômicas pulmonares, principalmente no que diz respeito à sua lobulação. Tais autores ainda relatam que, mesmo aparentemente não implicando em alterações na funcionalidade pulmonar, variações anatômicas devem obrigatoriamente ser levadas em consideração quando se realiza uma avaliação clínica. No presente trabalho, mais de metade dos pulmões estudados foram categorizados como pulmões direitos. Normalmente, como os pulmões são retirados em bloco dos cadáveres, seria esperado encontrar maior equidade com relação ao número de peças avaliadas, provenientes de cada um dos lados da cavidade torácica. A explicação para tal resultado baseia-se no fato que, sendo as peças bastante antigas (a grande maioria disponíveis na instituição há 5-10 anos), alguns espécimes inadequados para estudo prático em decorrência de deterioração gerada pela própria utilização ao longo dos anos foram direcionados ao sepultamento. Com relação às variações anatômicas associadas à ausência / formação incompleta de estruturas, o presente trabalho observou considerável prevalência de pulmões direitos sem lobo médio. Ainda, um importante percentual de peças avaliadas apresentava fissuras incompletas, em especial com relação à fissura horizontal, incompleta em mais de metade da amostra. Tal resultado corrobora com os ensinamentos de Erhardt (1974) 5 e Willians (1995) 23, sobretudo no que diz respeito às fissuras, que ora ocorrem na forma de fissura incompleta, ora inteiramente ausente. Já com relação às variações anatômicas ligadas à presença de estruturas extranumerárias, este estudo identificou também considerado percentual de pulmões esquerdos com fissura horizontal completa, o que per se origina um lobo médio esquerdo, dados estes que se encontram de acordo com informações disponibilizadas por Dângelo e Fattini (2002) 2, Didio (1974) 3, Erhardt (1974) 5 e Willians (1995) 23, que associam a formação de lobos extranumerários à presença de fissuras que, normalmente, não são observadas na maior parte dos pulmões humanos. 12


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Folger (1976) 7 já afirmava que variações no número de lobos pulmonares ocorrem em cerca de 1% dos indivíduos, onde uma fissura a mais acaba por dividir um pulmão, informações estas que vão de encontro aos resultados apresentados em nossa breve avaliação. Embora os trabalhos do referido autor tenham sido publicados há quase quatro décadas, não podemos justificar tal diferença percentual levando em consideração apenas a ação dos mecanismos de seleção natural. Neste caso, a explicação para a elevada prevalência de variações em nosso estudo ainda permanece bastante obscura. Todavia, é fato que características hereditárias que contribuem para a sobrevivência e reprodução se tornam mais comuns numa população, enquanto características prejudiciais tornam-se mais raras. Essa premissa evolutiva cabe aqui como fator relevante a ser levado em consideração nas ocorrências observadas, visto que os sistemas, sendo essencialmente dinâmicos, não podem ser estudados isoladamente, devendo-se levar em conta suas interações e a questão da interdependência coexistente. Um indivíduo seria mais favorecido evolutivamente possuindo um pulmão com lobos extranumerários, por exemplo, diante patologias relacionadas ao acometimento de um lobo pulmonar ou mais e um lobo como, por exemplo, uma pneumonia. Reconhecemos que o presente estudo foi realizado com um número pequeno de peças anatômicas, além de ter avaliado apenas pulmões humanos isolados. Nesse ínterim, sugerimos a realização de estudos com cadáveres preservados, ou mesmo com a utilização de exames de imagem em indivíduos vivos, visando confirmar ou não a elevada prevalência de variações anatômicas pulmonares identificadas no presente levantamento. CONCLUSÃO Verificou-se elevada prevalência de variações anatômicas nos pulmões estudados, em especial quanto à presença de suturas e lobos extranumerários. Tal dado pode ser levado em consideração não apenas por cirurgiões, mas também pelos estudantes de graduação, já que algumas dessas variações podem interferir na identificação dos pulmões durante o ensino prático na disciplina de Anatomia Humana, presente em todos os cursos de graduação na área da saúde no país. Faz-se necessária a realização de novos estudos sobre o tema apresentado visando obter melhor e mais ampla compreensão com relação à ocorrência das variações anatômicas na lobulação e nas fissuras pulmonares, suas implicações em diversos aspectos e áreas, não somente na área médica, mas também com relação aos aspectos pedagógicos ligados ao ensino da Anatomia Humana, além de relevantes aspectos 13


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biológico-evolutivos associados a uma possível interferência dos mecanismos de seleção natural na ocorrência dos fenômenos aqui observados.

REFERÊNCIAS 1. Cosenza MR. Fundamentos de Neuroanatomia. 2.ed. Ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998. 2. Dângelo JG, Fattini CA. Anatomia Humana sistêmica e segmentar para o estudante de medicina. 2.ed. São Paulo: Atheneu, 2002. 3. Didio LJ. Sinopse de Anatomia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1974. 4. Drake RL, Vogl W, Mitchell AW. Grays’s. Anatomia para estudantes. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. 5. Erhardt EA. Neuranatomia. 5.ed. São Paulo: Atheneu, 1974. 6. Franklin BA, Seymour G, Timmis GC. Exercise prescription for hypertensive patients. Ann Med. 1991; 23:279-287. 7. Folger GM. The scimitar syndrome: anatomic, physiologic, developmental and therapeutic considerations. Angiology. 1976; 27:373-407. 8. Gardner E, Gray DJ, O’rahilly R. Anatomia. Estudo regional do corpo humano. 4.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,1978. 9. Guyton AC, Hall JE. Tratado de Fisiologia Médica. 11.ed. Elsevier, 2006. 10. Junqueira LC, Carneiro J. Histologia básica. 11.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. 11.Machado A. Neuroanatomia funcional. 2.ed. São Paulo: Atheneu, 2008. 12.Michalany J. Anatomia patológica geral na prática médico-cirúrgica. 2.ed. São Paulo: Artes Médicas, 2000. 13.Mitchell RN, Kumar V, Abbas AK, Fausto N. Robbins & Cotran. Patologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. 14


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14.Moore K, Dalley A. Anatomia voltada para a clínica. 5.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007. 15.Monkhouse Stanley. Anatomia clínica – um texto essencial com auto-avaliação. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. 16.Ovalle WK, Nahirney PC. Netter. Bases da Histologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008. 17.Powers SW, Howley ET. Fisiologia do exercício – teoria e aplicações ao condicionamento e ao desempenho. 3.ed. São Paulo: Manole, 2000. 18.Rubin M, Safdieh JE. Netter. Neuroanatomia essencial. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008. 19.Sobotta J. Atlas de Anatomia Humana. 21.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000. 20.Schunke M, Schulte E, Schumacher U. Prometheus. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007. 21.Testut L, Jacob O. Anatomía topografica. Barcelona: Salvat, 1952. 22.Tortora GJ. Princípios de Anatomia Humana. 10.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007. 23.Willians LP, Warwick R, Dyson M, Lawrence H. Gray. Anatomia. 37.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1995. 24. Zanesco A, Antunes E. Células Endoteliais. In: Células: uma abordagem multidisciplinar. São Paulo: Manole, 2005.

Autor para correspondência: Renato Ribeiro Nogueira Ferraz Av. Pedro Mendes, 872 – Parque Selecta SBCampo – SP – CEP 09791-530 e-mail: renatoferraz@uninove.br 15


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Relato de Caso CASE REPORT – BRACHIAL ARTERY VARIATION:BRACHIORADIAL ARTERY SOARES, T. R. S* ; BERTOGLIO, I. M.1; VILLAS-BÔAS, G. L.1 State University of Maringá (UEM), Paraná, Brazil. ABSTRACT During a routine dissection of a male cadaver a variation in the irrigation of the right upper limb was found in which the distal portion of the axillary artery originated a brachioradial artery (our nomenclature). No vascular variation was found in the contralateral upper limb of the referred body. Conventionally, the axillary artery is described as being continuous in the arm as brachial artery which in the cubital fossa bifurcates into radial and ulnar arteries that run down the forearm. The axillary artery in this body, however, originated a brachioradial artery from its distal third and as a direct continuation the brachial artery. The brachioradial artery ran almost its entire path superficially in the arm and in the cubital fossa it ran as a radial artery taking then its typical route. The brachial artery, conversely, ran deep in the arm originating all its various branches and at the elbow joint it ran as a ulnar artery in the forearm. Thorough understanding of vascular variations and their implications in neurovascular relationships is vital in cases such as surgeries, trauma, diagnosis, and interpretation of exams, preventing, thus, medical errors and complications for the patients. Keywords: brachioradial artery; variation of the brachial artery; irrigation of upper limbs.

INTRODUCTION Variations in the arterial supply of the upper limb are relatively common with reported frequency of occurrence ranging from 11 to 24.4%1. During a routine dissection of a male cadaver such variation in the irrigation of the right upper limb was found, but the distal portion of the axillary artery originated a brachioradial artery (our designation). In this article we describe our findings and propose a new nomenclature for this type of anatomical variation. We conclude by highlighting the importance of understanding vascular variations in the medical practice.

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CASE DESCRIPTION The right upper limb of a brazilian male cadaver preserved by the formaldehyde method was dissected at the Department of Morphological Sciences (DCM) by medical students from the State University of Maringรก (UEM). The path of this variation, as well as the structures with which it relates, was followed from the axillary fossa up to the palmar region. The superficial and deep palmar arches could not be disclosed. The brachioradial artery originates from the distal portion (3rd part) of the axillary artery and follows medially to the brachial artery in the proximal portion of the arm, which is in a medial position to the biceps brachii muscle, going down toward the elbow. When the medial border of the biceps brachii muscle bends laterally and the muscle belly narrows down to form the tendon, the brachioradial artery gradually curves in the same direction becoming superficial to the brachial artery in the distal portion of the arm where it anteriorly crosses this artery. In the cubital fossa region the artery crosses over the biceps brachii muscle tendon toward the forearm (Figure 1).

Figure 1. MN = Median nerve; BrA = Brachioradial artery; BBM = Biceps brachii muscle 17


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At its origin, the brachioradial artery passes between the lateral and medial roots of median nerve anteriorly following this nerve along the arm. At the cubital fossa region, the median nerve continues medially toward the forearm away from the brachioradial artery which continues laterally in relation to it. At the forearm, the brachioradial artery continuous as radial artery and is medial to the medial border of brachioradialis muscle along almost the entire length of the muscle. In the distal portion of the tendon of the brachioradialis muscle, the artery emits the superficial palmar branch and goes to the dorsal region of the hand penetrating into a deep plane to the dorsal interossei muscle I (Figure 2).

Figure 2. MN = Median nerve; BrA= Brachioradial artery; MrMN = Medial root of median nerve; LrMN = Lateral root of median nerve; BA = Brachial artery; NMC = Musculocutaneous nerve; AA = Axillary nerve.

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As to the ulnar artery, it originated as a direct continuation of the brachial artery which, in turn, stems several branches along its path in the arm. At the region of the cubital fossa, the brachial artery which followed the brachioradial artery medially, turns toward the proximal epiphysis of the ulna, becoming the ulnar artery in the forearm. It then inferiorly follows the pronator teres muscle, taking position at the medial half of the forearm flexor region close to the ulna. Then, the ulnar artery deeply passes to the superficial flexor muscle of fingers, inferiorly following the flexor carpi ulnaris assuming its position near the ulnar nerve. Finally, the ulnar artery goes toward the palm (Figure 3).

Figure 3. UA = Ulnar artery; RA = Radial artery.

DISCUSSION According to the classic pattern of irrigation of the upper limb as described by Gray (1977), the brachial artery begins at the distal margin of the tendon of the teres major muscle and ends about 1 cm above the elbow fold where it splits into radial and ulnar arteries. Laterally, it is in a proximal relationship with the median and

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musculocutaneous nerves; distally it is in a relationship with the brachial biceps muscle, which overlies the artery to a considerable extent; medially, its proximal half is in relation with the medial cutaneous nerves of the forearm and ulnar nerve, and its distal half with the median nerve. Due to its direction, the radial artery often seems to be a continuation of the brachial artery, but it has a smaller caliber when compared to the ulnar artery. It originates at the bifurcation of the brachial artery just below the elbow fold and runs along the radial border of the forearm to the wrist. Finally, it passes between the two portions of the first dorsal interosseous to the palm of hand in order to form the deep palmar arch. At the forearm, its proximal portion is covered by the brachioradialis muscle belly and the rest of the artery is superficial. The brachioradial artery is defined by some authors as a radial artery with high origin, a synonym often used for this variant 1, 3. We agree with this nomenclature, although we do not find the synonym to be appropriate since the variant found here arose from the axillary artery which contradicts the classical description of the origin of the radial artery from the brachial artery. According to M. Konarik et al (2009), due to the distance between the axillary and the cubital fossa, the radial artery with high origin can be classified in four groups according to its origin (Table 1).

Table 1. Classification of brachioradial artery according to its origin3.

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The artery described here falls within the fourth group. However, despite being described as an anatomical variation, it has been suggested that this variant does not result from an anomalous growth of vessels, but from the differentiation of the embryonic development of these vessels3.

Thorough understanding of vascular variations and their implications in neurovascular relationships is crucial in cases such as surgeries, trauma, diagnosis, and interpretation of exams. In this particular instance, due to the fact that both the brachioradial and radial arteries are very superficial throughout their entire extension, they are more susceptible to injuries by external agents. For example, in cases of accidental intra-arterial injections, bleeding, thromboses, and even the loss of an upper limb may take place.1 Furthermore, in the case of brachial plexus block the presence of a brachioradial artery can offer risk for the procedure due to its intimate relationship with the nerves of this plexus.

CONCLUSION

Thorough understanding of normal anatomy and of the variations of upper limbs is essential for many healthcare professionals in order to avoid possible errors in diagnosis and treatment. As a result, we propose the recognition of the existence of the brachioradial artery and support this nomenclature as the most suitable for this variation.

REFERENCES 1. Dong Zhan, Yi Zhao, Jun Sun, Eng-Ang Ling, and George W. Yip, “High Origin of Radial Arteries: A Report of Two Rare Cases,” The Scientific World JOURNAL, vol. 10, pp. 1999-2002, 2010. doi:10.1100/tsw.2010.187. Avaiable from: <http://www.tswj.com/2010/873017/abs/>. Access in: 10 Aug 2011. 2. GOSS, Charles Mayo; GRAY, Henry; Anatomia, 29° Ed., Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1977.

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3. M. Konarik, J. Knize, V. Baca, D. Kachlik, “Superficial brachioradial artery (radial artery originating from the axillary artery): a case report and embryological background”, Folia Morphol (Warsz). 2009 Aug;68(3):174-8. Available from: <www.fm.viamedica.pl/zamow_art_pdf.phtml?id=49&indeks_art=811>. Access in: 10 Aug 2011. 4. M. Rodríguez-Niedenführ, T. Vázquez, L. Nearn, B. Ferreira, I. Parkin, J. R. Sañudo, “Variations of the arterial pattern in the upper limb revisited: a morphological and statistical study, with a review of the literature”. J Anat. 2001 November; 199(Pt 5): 547– 566. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1468366/. Access in: 17 Aug 2011.

Autor para correspondência: Gabriel Lima Villas-Bôas Universidade Estadual de Maringá e-mail: gabriel23uem@gmail.com

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Artigo Original PERSISTÊNCIA DO TIMO EM CÃES (CANIS FAMILIARIS LINNAEUS, 1758) ADULTOS NO MUNICÍPIO DE PETROLINA, PERNAMBUCO, BRASIL MARCELO DOMINGUES DE FARIA¹, ALINE DA COSTA CONSTANTINO², ÍTALO BARBOSA LEMOS LOPES², RODRIGO SANTOS SILVA², AMANDA RAFAELA ALVES MAIA², VANESSA TAYANNE DE OLIVEIRA FREIRE² ¹Professor Adjunto 3 da Disciplina de Anatomia Veterinária da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). ²Discentes do Curso de graduação em Medicina Veterinária da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf).

RESUMO Observando a alta incidência do timo persistente em cadáveres de cães adultos utilizados em aulas práticas da disciplina Anatomia Topográfica Veterinária, resolveu-se estabelecer sua prevalência entre os mesmos. Os animais abordados foram aqueles dissecados entre agosto de 2007 e maio de 2009, totalizando 28 cães sem raça definida, sendo 19 fêmeas e 09 machos, com idade variando entre 03 e 16 anos, provenientes do Centro de Controle de Zoonoses do Município de Petrolina (PE), onde 64,28% apresentavam o lobo tímico esquerdo presente sobre a superfície dorsal do esterno, compreendido entre o manúbrio esternal e a face cranial do saco pericárdico, ocupando o espaço mediastínico cranial, entre os lobos pulmonares craniais. Já, o lobo tímico direito era substituído por tecido adiposo. Palavras-chave: timo; persistência; cães. Abstract During practical lessons in veterinary topographical anatomy discipline, it was noticed a high incidence of persistent thymus in adult dogs cadavers. Then, we decided to establish its prevalence among them. The animals covered were those dissected between August 2007 and May 2009, a total of 28 mongrel dogs, which, 19 females and 09 males, aged between 03 and 16 years, from the Center for Zoonosis Control in the city of Petrolina (PE). Among them, 64.28% had a thymus left lobe present on the dorsal surface of the sternum, between the sternal notch and the cranial face of the pericardial sac, occupying the cranial mediastinal space between the cranial lung lobes. On the other hand, the thymus right lobe was replaced by adipose tissue. Key-words: thymus; persistence; dogs.

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INTRODUÇÃO

O timo é um órgão linfático primário, com atividade em animais jovens, cuja função é promover a diferenciação das células imaturas T (timócitos) em linfócitos T, sendo essencial para o estabelecimento inicial de um repertório funcional destas células, fornecendo o ambiente adequado para a diferenciação, seleção e maturação de linfócitos T a partir de células tronco progenitoras migrantes da medula óssea 1,2. Consiste em dois lobos separados na linha mediana ventral do assoalho da cavidade torácica já na vida embrionária, mas que mais tarde se tornam intimamente ligados por tecido conjuntivo, sendo cada lobo tímico recoberto por uma fina cápsula de tecido conjuntivo frouxo e subdividido por septos primários de tecido conjuntivo, os quais levam vasos sanguíneos para um grupo de lóbulos parenquimatosos, que aparecem com forma poliédrica e possuem 0,5 a 2 mm de diâmetro. Os principais constituintes celulares do timo são os linfócitos (timócitos), as células reticulares e um pequeno número de macrófagos 3. O suprimento sanguíneo envolve as veias e artérias torácicas internas, além de ramos das artérias pericárdicofrênicos, subclávia esquerda e pelos troncos braquiocefálico costocervical direito e esquerdo, e o suprimento nervoso provém de ramos do tronco vagossimpático 4,5. Quanto à sua topografia, o timo de cães é restrito à cavidade torácica, consistindo de lobos direito e esquerdo; é róseo quando fresco e distintamente lobulado, sua localização é medial aos lobos pulmonares e cranial ao saco pericárdico 6, sendo o lobo direito do timo maior que o esquerdo, porém regride o primeiro e permanece o último nos casos persistentes 1. O maior desenvolvimento ocorre entre seis e oito semanas de idade e sua regressão começa ao redor do 4º mês, mas nunca se completa. Mesmo quando persiste um vestígio relativamente grande, verificar-se-á, que este consiste basicamente de tecido adiposo e elementos fibrosos, com supressão do tecido tímico. Mas, resquícios do timo torácico, podem persistir em muitos animais até a idade avançada. Além desta relação idade versus involução, o timo também sofre rápida atrofia em resposta ao estresse, assim, o timo de animais que morrem após doença prolongada pode ser anormalmente pequeno 7,8.

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O timo é um órgão único, grande e ativo no recém-nascido. Atinge o ápice da sua atividade na puberdade e regride lentamente, sendo que sérias doenças, tais como tumores, podem acelerar esta involução, atrofiando este órgão precocemente. Assim como existem casos de persistência do timo em indivíduos adultos, devendo-se atentar para potenciais infecções crônicas no organismo 9,10. Diante disto, o conhecimento de sua estrutura, das interferências que ocorrem no desenvolvimento e na involução do timo, bem como os reflexos que tais eventos determinam sobre a marcação imunológica dos animais pode esclarecer diversas entidades ainda não caracterizadas adequadamente como doenças auto-imunes, tumores tímicos, persistência tímica e outras ligadas ao comprometimento imunitário, auxiliando assim, na clínica veterinária 11. Destarte, o presente estudo teve como objetivo avaliar a presença ou não de tecido tímico em cães adultos durante as aulas práticas da disciplina Anatomia Veterinária III da Universidade Federal do Vale do São Francisco, situada no Município de Petrolina, Estado de Pernambuco, Brasil.

MATERIAL E MÉTODO Durante as aulas práticas da disciplina Anatomia Veterinária III, também denominada Anatomia Topográfica, realizadas no período compreendido entre agosto de 2007 e maio de 2009 no Laboratório de Anatomia dos Animais Domésticos e Silvestres (LAADS) da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), foram utilizados 28 cadáveres de animais da espécie canina (Canis familiaris LINNAEUS, 1758), adultos, sem raça definida, com idade variando de 03 a 16 anos, sendo 19 fêmeas e 09 machos, provenientes do Centro de Controle de Zoonoses do Município de Petrolina (PE), os quais foram encaminhados ao Laboratório em estado de óbito. Inicialmente, foi realizada uma incisão, com auxílio de bisturi, na linha mediana ventral partindo da região mentoniana até a altura do manúbrio esternal. Seguidamente, a cútis foi rebatida juntamente com o músculo cutâneo, evidenciando, desta forma, os constituintes anatômicos cervico-torácicos. Posteriormente, foi promovida a divulsão dos planos musculares da região peitoral e axilar. Finalizado este procedimento, promoveu-se a costotomia unilateral esquerda, na altura da junção costocondral com auxílio de um costótomo, rebatendo o esterno à direita para evidenciar a cavidade torácica, o que permitiu avaliar a persistência ou não do timo, bem como sua topografia e sintopia.

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RESULTADOS E DISCUSSÃO Após toracotomia dos cães utilizados nas aulas práticas da disciplina Anatomia Veterinária III, os grupos responsáveis pela dissecação eram abordados para averiguação dos órgãos visualizados e, assim, pôde-se notar a presença do lobo esquerdo do timo persistente na maioria dos animais, disposto na superfície dorsal do esterno, entre o manúbrio esternal e a face cranial do saco pericárdico, ocupando o espaço mediastínico cranial, entre os lobos pulmonares craniais (FIGURA 1), corroborando com os relatos de Getty 6 (1986). Já, o lobo tímico direito era substituído por tecido adiposo, reforçando os achados de König e Liebich 1 (2004). Os timos persistentes apresentavam coloração rósea, localizados no espaço mediastinal cranial, entre os pulmões e acima da base do coração. Na porção cranial, apresentavam discreta divisão entre o lobo esquerdo e direito, sendo unidos por um tecido de conexão, denominado istmo. Em sua porção caudal, os lobos direito e esquerdo são totalmente separados, sendo o direito maior que o esquerdo. Estes achados também foram observados e descritos por Agreste, Bombonato e Hernandez-Blazquez 11 (2007).

* 2 1

Figura 1 – Evidência da persistência do timo (setas) em cães em decúbito dorsal, demonstrando a sintopia do órgão com as demais estruturas da cavidade torácica, como o pulmão (número 1 na fotografia A), o coração envolto pelo saco pericárdico (número 2 na fotografia B) e o esterno (*) - Petrolina, 2011.

Dos 28 animais adultos dissecados, 18 apresentavam timo persistente (13 fêmeas e 05 machos), ou seja, 64,28% da totalidade, contrariando autores, que descrevem o timo como um órgão vestigial durante a idade adulta 7,8,9. Assim como Gety 6 (1986), que considera que o timo tem seus aspectos funcionais modificados de acordo com o

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desenvolvimento do animal, sofrendo acentuada involução após a maturidade sexual, com substituição do tecido glandular ativo por tecido adiposo ou conjuntivo, discordando dos resultados obtidos no presente estudo.

CONCLUSÃO

A persistência do timo em cães, observada durante as aulas práticas da disciplina Anatomia Veterinária III, demonstra a importância de estudos epidemiológicos no Município de Petrolina (PE) e adjacências, pois são fatores que podem ser determinantes na elucidação da persistência do timo em cães adultos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. KÖNIG, Horst Erich; LIEBICH, Hans-Georg. Anatomia dos animais domésticos: texto e atlas colorido. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 60, 309, 504, 505. 2. LIMA, F. A.; CARNEIRO-SAMPAIO, M. O papel do timo no desenvolvimento do sistema imune. Pediatria, v. 29, n. 1, p. 33-42, 2007. 3. FAUSTO, C. S. V. et al. Timo: caracterização ultrassonográfica. Radiologia Brasileira, v. 37, n. 3, p. 207-210, 2004. 4. LIMA, E. M. M. et al. Suprimento arterial dos lobos torácicos do timo em cães da raça Dogue Alemão. Biotemas, v. 20, n. 3, p. 97-102, 2007. 5. ROCHA, J.; JULIANI, G. Bases anatômicas do timo de cão. In: I Jornada Acadêmica de Anatomia Veterinária Humana Aplicada, Belo Horizonte, 2008. Anais. Belo Horizonte: FEAD, 2008. p. 14. 6. GETTY, R. SISSON/GROSSMAN – Anatomia dos Animais Domésticos. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1986, v. 1, p. 1.568. 7. DYCE, K. M.; SACK, W. O.; WENSING, C. J. G. Tratado de Anatomia Veterinária. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, 2. ed. p. 255, 403.

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8. TIZARD I. Introdução à imunologia veterinária. São Paulo: Roca, 1985, 2. ed. p. 54-56. 9. DUKES, H. H. Fisiologia dos animais domésticos. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996, 11. ed. p. 602. 10. KEER, B. Atrofia do timo em animais com tumores malignos. Mem. Inst.Oswaldo Cruz, v. 70, n. 2, 1972. 11. AGRESTE, F. R.; BOMBONATO, P. P.; HERNANDEZ-BLAZQUEZ, F. J. Características morfométricas do desenvolvimento do timo em cães. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 27, n. 6, p. 236-240, 2007.

Autor para correspondência: Marcelo Domingues de Faria ¹E-mail: marcelo.faria@univasf.edu.br Laboratórios de Anatomia dos Animais Domésticos e Silvestres (LAADS - Univasf) Rod. BR 407, Km 12 - Lote 543 - Projeto de Irrigação Senador Nilo Coelho, s/nº - C1 CEP 56.300-990 - Petrolina/PE

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Artigo Original O CONHECIMENTO SOBRE CONCEITOS E ESTRUTURAS ANATÔMICAS DE ALUNOS DO ENSINO MÉDIO

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VIVIANNE IZABELLE DE ARAÚJO BAPTISTA; 1JÉSSICA DE MEDEIROS LIMA;1LARISSA MARIA DE ALMEIDA MEDEIROS; 2ANDERSON SCARDUA; 3 JOSEMBERG DA SILVA BAPTISTA

*Graduandas do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Campina Grande. **Professor Adjunto da Universidade Federal de Campina Grande, Co-orientador. ***Professor Assistente da Universidade Federal do Espírito Santo, Orientador.

RESUMO A inserção de alunos no ensino superior com baixo rendimento e pequena informação acerca de assuntos biológicos e anatômicos levou ao desenvolvimento desse estudo. Tivemos como objetivo investigar o conhecimento de anatomia humana que os alunos do terceiro ano do ensino médio das escolas públicas (Pu) e particular (Pa) do município de Cuité-PB possuem, visto que são os aspirantes a uma vaga no ensino superior da UFCG. Foi utilizado um questionário com questões de desenho de órgãos, descrição das suas funções e denominação de regiões do corpo, sendo as respostas submetidas à análise descritivo-exploratória e estatística descritiva. O coração foi o órgão mais desenhado em ambas as escolas, seguido dos pulmões e o cérebro, embora tenha se observado que os alunos frequentemente erraram suas formas. Quanto à localização e funções desempenhadas pelo órgão, o fígado foi o mais citado erroneamente. Na questão referente à identificação das regiões anatômicas ocorreram muitos equívocos e/ou utilização de terminologias populares. Esses resultados demonstram a insuficiência destes conceitos no ensino médio, e diagnosticam um quadro que necessita de intervenções nesta fase educacional. Sendo a expansão universitária uma política de governo, os professores universitários, em especial, da área da saúde, devem ficar atentos a estas fragilidades na formação básica do indivíduo.

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ABSTRACT The participation of students in higher education with low performance and little information on biological and anatomical matters led to the development of this study. Our aim was to investigate the knowledge of human anatomy of third-year students from public (Pu) and private (Pa) high schools of the city of Cuité-PB, considering that they are the aspirants for a place at the UFCG’s undergraduate courses. A questionnaire was applied including questions to draw organs, to describe their functions and to name regions of the body. The responses were submitted to exploratory-descriptive analysis and to descriptive statistics analysis. The heart was the organ most drawn in both schools followed by the lungs and the brain, although it has been observed that students often drew their forms incorrectly. Concerning the location and functions performed by the organs, the liver was the most cited incorrectly. In relation to the question of the identification of anatomical regions, there were many mistakes and/or the use of popular terminology. These results demonstrate the inadequacy of these concepts in high school, and diagnose a situation that requires intervention at this level of education. Being the university expansion a federal government policy, the professors of the health sciences should be aware of these weaknesses in the basic training of the students.

INTRODUÇÃO

A inserção de alunos no ensino superior tem aumentado nas últimas décadas e se intensificado após o programa de expansão universitária realizada pelo Governo Federal, REUNI (Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), após a publicação do decreto n.o 6096 (BRASIL, 2007). É visível uma maior procura dos estudantes do ensino médio por essa opção diante do afunilamento do mercado de trabalho com preferências por profissionais cada vez mais qualificados (SPARTA & GOMES, 2005). Dessa forma, espera-se mais da formação básica dos alunos visando um desempenho satisfatório no âmbito universitário.

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Segundo Lima et al. (2009), a rede de conhecimentos estabelecida entre aluno e professor na prática da educação se constitui em um importante contribuinte na formação de conceitos. Tomando como base o autor supracitado, as interações existentes na prática disciplinar, assim como a forma de abordagem de um conteúdo, podem implicar na facilitação e incorporação de novos conhecimentos. Portanto, o conhecimento do ensino médio servirá como base para as diferentes disciplinas que compreendem as diversas áreas do ensino superior, incluindo, no caso da área biomédica a anatomia humana, que é uma ciência que compreende a morfologia humana (FERREIRA & MAMEDE, 2003). Uma melhor interação no processo de aprendizagem das disciplinas passadas no ambiente escolar gera um maior conhecimento sobre os assuntos, despertando interesse e vocação dos alunos por áreas no ensino superior (LIMA et al., 2009). Assim, quando essa interação não é positiva o estudante pode não sentir-se familiarizado com determinadas áreas ou mesmo não ter idéia sólida sobre quais os tipos de conhecimento a área têm a oferecer, tomando uma decisão incerta sobre sua carreira universitária e profissional posterior. Desse modo, o ensino da anatomia humana pode ser usado como uma ferramenta que desperte o interesse por estudar temáticas relacionadas ao corpo humano, incentivando a formação de futuros profissionais na área biomédica (DEPARTAMENTO DE ANATOMIA/UFRJ, 2008). Partindo das considerações apresentadas, percebemos que a anatomia humana forma uma base importante de ensino, compreendendo conteúdos de aplicabilidade que influenciam na aquisição de competências práticas específicas do círculo de atuação de qualquer profissional da área da saúde (Silva & Rezende, 2008). Entretanto, existe uma escassez de informação científica sobre o ensino da anatomia humana e a formação básica dos alunos, muito embora se tenha relatado em diversos eventos acadêmicos universitários a dificuldade que os alunos do ensino superior sentem no seu aprendizado. Isto se agrava quando as universidades, dentro dos programas de expansão do governo, oferecem condições pouco apropriadas para o ensino de anatomia, tanto em termos materiais, quanto de recursos humanos (BAPTISTA et al., 2012). Sendo assim, este trabalho se justifica no seguinte questionamento: Será esta dificuldade originada da carência de conteúdo proveniente do ensino médio? Dessa forma, este estudo investigou o conhecimento sobre anatomia humana que os alunos do terceiro ano do ensino médio das escolas pública e privada do município de Cuité-PB possuem, visto que são os aspirantes a um curso no Centro de Educação e Saúde da Universidade Federal de Campina Grande (campus Cuité/PB).

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MATERIAIS E MÉTODOS A pesquisa foi realizada na cidade de Cuité, no interior do agreste paraibano, na microrregião do Curimataú Ocidental, e contou com a participação de 95 estudantes do terceiro ano do ensino médio, oriundos de escolas públicas (n=71), e da única escola particular do município na época do estudo (n=24). Estes discentes foram orientados e esclarecidos previamente sobre a pesquisa, e aqueles que concordaram em participar assinaram voluntariamente o termo de consentimento livre e esclarecido.

O instrumento utilizado para a coleta de dados foi um questionário que continha várias questões sobre conhecimentos anatômicos e sobre anatomia e sua aplicabilidade. O trabalho foca nos resultados de três questões específicas sobre conhecimentos de anatomia. Uma das questões (Cite e desenhe na figura abaixo 5 órgãos de seu conhecimento em suas localizações) era de desenho, onde os participantes podiam desenhar a sua maneira em um modelo corporal já previamente disposto no questionários (Figura 1). Em seguida, havia uma questão discursiva para citar as funções específicas de cada órgão desenhado (Descreva a função dos órgãos que você desenhou na questão anterior). Por fim, os participantes foram solicitados a mencionar os nomes de partes dos corpos apontados em um desenho (Figura 2) apresentado no questionário (Descreva os nomes das REGIÕES numeradas na figura). Além disso, o questionário continha questões para captar informações referentes à escola ao qual o aluno pertencia (pública ou privada), pretensão de área profissional e levantamento sócio-demográfico.

Figura 1 – Modelo corporal usado para os alunos desenharem órgãos de seu conhecimento.

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Figura 2 – Modelo utilizado no questionário para que os alunos respondessem os nomes das regiões apontadas:

De acordo com a indicação e concordância das diretorias das escolas, três aplicações foram realizadas em dias alternados nas escolas. Os professores disponibilizaram horários que não fossem interferir nas atividades da turma e o questionário foi aplicado, sem tempo limite, na mesma sala de aula e horário que os alunos frequentavam. Para análise dos dados primeiramente foi feita uma divisão dos questionários em escola pública (Pu) e escola particular (Pa), para posteriormente dentro de cada grupo se categorizar a pretensão de escolha profissional em: Área da saúde e biológica (AS), outras áreas acadêmicas (OA), e não pretendem fazer vestibular/em branco. Esta última classificação obteve número irrelevante, devido ao pequeno número de alunos que a assinalaram, sendo estes participantes excluídos das análises posteriores envolvendo este parâmetro. Para sistematizar a análise dos dados, o questionário foi avaliado com base em três vertentes do ponto de vista anatômico: Enfoque sobre questões de desenho de órgãos; Descrição das suas respectivas funções e; Denominação de regiões do corpo. A análise destas vertentes da pesquisa foi de caráter descritivo-exploratório, onde foram empregadas avaliações estatísticas descritivas (frequência e porcentagem).

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RESULTADOS

Dentre o alunado do terceiro ano do ensino médio da cidade de Cuité-PB, aproximadamente 65% do total participaram da pesquisa no ano letivo de 2010. A aplicação dos questionários ocorreu de maneira objetiva e com tempo livre; no entanto obteve-se duração média de quinze minutos. Os alunos demonstraram boa colaboração e, em sua maioria, cumpriram com o quesito de individualidade de expressão nas respostas apesar da situação coletiva. Houve um diminuto quantitativo de dúvidas relacionadas à interpretação dos enunciados das questões.

A primeira questão requisitava: “Cite e desenhe na figura abaixo 5 órgãos de seu conhecimento em suas localizações”. Os alunos só contavam com duas imagens do contorno corporal, ou seja, o contorno da superfície do corpo, numa visão anterior e posterior. O resultado foi a contabilização de 38 diferentes órgãos ou partes deles, sendo que a escola Pu apresentou uma diversidade de 19 órgãos citados e desenhados a mais que a escola Pa.

Como os alunos foram orientados a desenhar e citar o nome do órgão, a análise da questão ocorreu com base no desenho e nas citações, pois foi por meio das citações que se fez possível a identificação do que o aluno considerava ser o seu desenho. No caso específico dos órgãos sexuais, estes foram divididos em dois grupos, uma categoria intitulada de órgãos genitais a qual englobou respostas que mencionaram órgão genital, órgão genital masculino e órgão genital feminino em si sem especificar qual o órgão desse sistema, como testículos, pênis, útero e ovário, e outro de respostas que especificaram o órgão, em que a categoria ganhou o nome do mesmo, como por exemplo, a categoria pênis que faz referência especificamente às menções feitas a este órgão.

O coração foi o órgão mais citado em ambas as escolas, com uma porcentagem de 27% de menções na escola Pu e 24% na Pa. Em seguida foram mais citados os pulmões e o cérebro. Os intestinos, fígado e rins obtiveram equivalência em citação, e o estômago, órgão genital (sem distinção de sexo), e pênis foram os menos citados (Tabela 1).

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Tabela 1 - Órgãos mais citados e desenhados*. PÚBLICA ÓRGÃOS F % 41 27 Coração 24 16 Pulmões 24 16 Cérebro 12 8 Intestino 11 7 Rins 15 10 Fígado 13 9 Estômago 8 5 Órgão genital 4 3 Pênis TOTAL CITAÇÃO152 100

PARTICULAR F % 21 24 19 22 15 17 8 9 8 9 3 3 4 5 7 8 3 3 88 100

TOTAL ESCOLAS T % 62 26 43 18 39 16 20 8 19 8 18 8 17 7 15 6 7 3 240 100

*LEGENDA: Valores descritos em porcentagem (%), freqüência de citação pelos alunos (F), e total de citação em ambas as escolas (T).

O percentual de outros órgãos pouco citados, somados de ambas as escolas, foi equivalente a 18% do percentual total, sendo estes: bexiga, pele, esôfago, coluna vertebral, ovário, útero, testículos, faringe, pâncreas, ânus, olhos, nariz, boca, laringe, traquéia, cerebelo, baço, diafragma, glândulas salivares, brônquios, veia, e língua. Contudo, também foi detectada discrepância conceitual do que é uma região corporal, um órgão, ou parte de algum deste neste percentual de órgãos poucos citados.

Os órgãos citados e desenhados foram avaliados quanto à forma do órgão, de acordo com o desenho do aluno, e a localização aonde este aluno o desenhou, para que assim se possam estabelecer parâmetros de exatidão anatômica. Dentro de cada quesito ocorreu uma categorização de respostas em: corretas, aproximadas e erradas, evidentemente respeitando apenas os principais preceitos anatômicos, e de acordo com o nível de conhecimento que se deve haver no ensino médio. Para definir em que categoria os desenhos seriam enquadrados, cada resposta foi avaliada por três avaliadores e, nos casos de dúvidas e discrepâncias entre os mesmos, o dado era discutido até se chegar a um consenso.

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Considerando-se o quesito forma dos órgãos desenhados, as estruturas anatômicas desenhadas pelos participantes da escola Pu de maneira mais errada foram o estômago, os rins, o órgão genital, o coração, o cérebro, o pênis e os pulmões; a desenhada de forma mais aproximada foi o fígado. O intestino foi o órgão que obteve seu desenho de forma mais correta (Tabela 2).

Tabela 2 - Formas dos órgãos citados e desenhados na escola pública e particular*

ÓRGÃOS Coração Pulmões Cérebro Intestino Fígado Estômago Rins Órgão genital Pênis

ESCOLA PÚBLICA Tf T%C T%A 41 10 32 24 29 29 24 17 29 12 67 8 15 27 40 13 23 8 11 18 18 8 13 25 4 25 25

T%E 59 42 54 25 33 69 64 63 50

ESCOLA PARTICULAR Tf T%C T%A 21 5 14 19 11 53 15 20 20 8 13 88 3 0 33 4 0 25 8 38 50 7 29 43 3 0 33

T%E 81 37 60 0 67 75 13 29 67

*LEGENDA: Tf = total de frequências; T%C= total de porcentagens corretas; T%A= total de porcentagens aproximadas; T%E= total de porcentagens erradas.

Entre os discentes da escola Pa, as estruturas anatômicas que apresentaram formas mais erradas foram o coração, o estômago, o fígado, o cérebro e o pênis. As estruturas que apresentaram formas mais aproximadas foram o intestino, os pulmões, os rins e o órgão genital. Nenhum órgão obteve como maior percentual as formas corretas (Tabela 2). No quesito localização ambas as instituições manifestaram maior quantitativo de localizações corretas. Na instituição Pu (Tabela 3), o órgão que apresentou localização mais errada foi o fígado (60%). O coração (39%) apresentou maior percentual de localizações aproximadas e os órgãos que apresentaram localizações mais corretas foram o cérebro (100%), o pênis (100%), o órgão genital (88%), o intestino (67%), os rins (64%), os pulmões (46%) e o estômago (38%).

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Tabela 3 - Localização dos órgãos citados e desenhados na escola pública e privada

ÓRGÃOS Coração Pulmões Cérebro Fígado Intestino Estômago Rins Órgão genital Pênis

ESCOLA PÚBLICA Tf T%C T%A 41 37 39 24 46 21 24 100 0 15 27 13 12 67 8 13 38 31 11 64 9 8 88 13 4 100 0

T%E 24 33 0 60 25 31 27 0 0

ESCOLA PARTICULAR Tf T%C T%A 21 24 67 19 47 26 15 93 7 3 0 33 8 88 13 4 25 25 8 54 38 7 14 71 3 100 0

T%E 10 26 0 67 0 50 13 14 0

LEGENDA: Tf = total de frequências; T%C= total de porcentagens corretas; T%A= total de porcentagens aproximadas; T%E= total de porcentagens erradas.

Na instituição Pa, os órgãos que apresentaram localizações mais erradas foram o fígado (67%) e o estômago (50%). Com relação à localizações mais aproximadas o órgão genital (71%) e o coração (67%) se destacaram. Já o cérebro (93%), o pênis (100%), o intestino (88%), os rins (54%) e os pulmões (47%) foram os mais corretamente localizados (Ver Tabela 3).

Na questão “Descreva a função dos órgãos que você desenhou na questão anterior” foi possível observar que todas as funções mencionadas do cérebro (100%) e do pênis (100%) foram corretas. Fora esses dois órgãos, o rim, o órgão genital, o pulmão, o coração e o estômago também obtiveram predominante porcentagem de funções conceituadas corretamente. Já o fígado (88%) foi a estrutura anatômica com maior porcentagem de funções denominadas erroneamente. O intestino apresentou a mesma porcentagem de funções certas e erradas (Tabela 4).

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Tabela 4: Total de funções mencionadas nas escolas pública e particular. ÓRGÃOS Coração Pulmão Cérebro Rim Intestino Estômago Órgão genital Fígado Pênis TOTAL

Tf 52 39 25 10 12 11 8 8 6 209

T%C 83 85 100 90 50 55 88 13 100 -

T%E 17 15 10 50 45 13 88 -

LEGENDA: Tf= total de freqüências; T%C= total de porcentagens corretas; T%E= total de porcentagens erradas. Na questão “Descreva os nomes das REGIÕES numeradas na figura:” que avalia o conhecimento das regiões anatômicas, dezenove quesitos deveriam ser preenchidos com os nomes das respectivas regiões indicadas na figura do corpo humano, como por exemplo, dorso, coxa, pescoço, tórax, abdome, etc. Nessa perspectiva, a escola Pa desempenhou um melhor papel frente à escola Pu. Os alunos da escola Pu que desejam seguir a AS obtiveram uma melhor desenvoltura para identificar as regiões, já em contrapartida, os alunos da escola Pa que obtiveram maior facilidade em denominar as regiões anatômicas foram os que desejam seguir OA. Devido ao extenso número de quesitos e repostas, optou-se por apresentar neste artigo a análise da questão de forma mais qualitativa do que quantitativa, enfocando mais as denominações utilizadas para descrever as regiões. Os alunos de ambas as instituições de ensino denominaram com um maior número de acertos sete regiões do corpo humano que se referiam à cabeça, ao pescoço, aos ombros, às mãos, às coxas, aos joelhos e aos pés. Nos demais quesitos, ocorreram equívocos quanto às regiões e/ou utilização de terminologias populares para identificá-las, por exemplo: No abdome, as maiores menções foram de umbigo e barriga, ambos obtiveram porcentagens consideráveis nas duas escolas. A região pélvica ou púbica foi mais denominada como órgão genital, ventre, quadril e bexiga, sendo o órgão genital a indicação de maior expressão. A região do cotovelo também foi equivocadamente mais classificada como antebraço e braço em ambas as instituições. O punho foi erroneamente confundido com o pulso. Neste quesito apareceram também outras denominações como braço e munheca. Com relação à perna, os alunos utilizaram mais as classificações de panturrilha e canela.

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Não ocorreu nenhuma menção correta à região dorsal ou do dorso. As costas e a coluna foram as designações que mais foram usadas. Na escola Pa a região lombar também foi esquecida, aparecendo apenas na escola Pu, e de maneira extremamente discreta. Os nomes mais empregados como respostas foram coluna, quadril, bacia, cintura e cervical. Já a região glútea foi classificada com uma grande variedade de nomes, dentre eles bunda, bumbum e nádegas, aparecendo também denominação como bacia. O tornozelo não foi mencionado em nenhuma das respostas, geralmente sendo empregados a ele os termos de calcanhar e pés. DISCUSSÃO Os resultados desse estudo mostraram deficiências, em linhas gerais, no conhecimento anatômico dos alunos que cursam o ensino médio no município de CuitéPB, os quais são aspirantes a uma vaga universitária no campus local da UFCG. Situação essa preocupante vista a grande importância que os estudantes do ensino médio atribuem ao ingresso no ensino superior, o que já havia sido apontado por Sparta e Gomes (2005), e a deficiência que a ausência desse conhecimento provoca na progressão dos cursos biológicos e da saúde. A escola Pu teve uma diversidade de órgãos citados e desenhados maior que a escola Pa, porém deve-se levar em consideração o menor quantitativo de alunos da escola Pa (24) em relação à escola Pu (71). A mesma possuía aproximadamente o triplo de alunos que a escola Pa. No entanto, quando se analisa o número de citações sobre os principais órgãos contabilizados na pesquisa (Tabela 1), cada aluno da escola Pa citou em média 3,66 órgãos, enquanto cada aluno da escola Pu citou apenas 2,14 órgãos. Sendo assim, existe a percepção que a média de citações dos principais órgãos foi predominantemente dos alunos da escola Pa, o que relativamente demonstra melhor preparo, já que a questão no questionário requisitava a citação de 5 órgãos para resposta. Nos demais quesitos, apesar de não ter sido feita comparações estatísticas específicas, a escola Pu foi ligeiramente melhor que a Pa. Vale à pena citar que o corpo docente das instituições Pu e Pa é constituído, no geral, pelos mesmos professores do município, o que sugere que as informações transmitidas em ambas às instituições de ensino são idênticas. No entanto, o material didático é diferente, o que supostamente deveria se tornar diferencial neste ponto. Portanto, a diferença no desempenho dos alunos na pesquisa pode ser justificada pelo maior interesse dos alunos da instituição Pu.

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Na análise dos dados, foi visível um maior número de desenhos e menções aos órgãos genitais masculinos que aos femininos, inclusive uma maior ênfase a essa categoria pelas próprias mulheres. Não apareceram órgãos genitais femininos externos, somente os internos, compreendendo estes ovários e útero. Estes quando lembrados apresentaram formas e localizações corretas e aproximadas, entretanto, essa informação não julga um conhecimento satisfatório dos alunos diante da pequena porcentagem de respostas em relação ao total de alunos. Esse fato pode ter ocorrido devido o modelo anatômico empregado nos questionários para coleta de dados não possuir cabelos longos e mamas, o que pode ter induzido a intenção das respostas dos alunos pela imagem masculina, já que segundo Ferreira e Mamede (2003), a mama é símbolo da imagem corporal de sexualidade feminina e maternidade. O estudo de Carvacho, Silva e Mello (2008), discute a ausência do conhecimento sobre anatomia humana reprodutora como uma das causas da gravidez precoce, enfatizando a sua ocorrência como problema de saúde pública que acomete o Brasil nas últimas décadas, gerando repercussões sociais, biológicas e psicológicas na vida das adolescentes nesta faixa etária. Tanto nesse estudo quanto no nosso, as adolescentes com média de 17 anos apresentaram um conhecimento insatisfatório sobre o próprio corpo, em especial sobre o aparelho genital feminino. Curiosamente, o cérebro e o pênis, apesar da maioria das formas terem sido erradas, apresentaram 100% de localizações e funções corretas. Observou-se que o fígado é um dos órgãos que os alunos menos conhecem sua forma, sua localização e suas funções. O mesmo aconteceu com o estômago, com a diferença que a maioria dos alunos soube qual a sua função. Esta descrição se torna preocupante quando se pondera que o conhecimento do próprio corpo auxilia o auto-cuidado e a percepção para identificar, localizar e associar sinais e sintomas em situações patológicas, facilitando a prevenção e o diagnóstico de uma possível doença. Em 2009 Weinman et al. publicaram um trabalho onde foi avaliado o conhecimento de anatomia de pacientes com vários tipos de patologias, e em vários órgãos, na população de Londres, Reino Unido. Os mesmos pesquisadores observaram, através de análises estatísticas, que pacientes que sofrem com alguma patologia em um órgão específico não sabem localizá-lo no corpo na maioria das vezes. Eles utilizaram um questionário com desenhos assim como foi utilizado em nossa pesquisa, contudo na versão deles as questões eram de múltipla escolha.

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O intestino também foi muito bem lembrado nas menções dos alunos. Na maioria das formas como apareceu estava desenhado de maneira correta e aproximada, enquanto a localização geralmente estava correta. Ocorreu um percentual de 50% de funções erradas e corretas, o que define um conhecimento mediano sobre o mesmo. Os alunos sabem aproximadamente qual a forma dos pulmões, mas a maioria de ambas as escolas definiram sua localização e funções corretamente. O coração geralmente teve uma forma errada, o que poderia inferir dúvidas no âmbito de reconhecimento de suas funções. No entanto, no geral, estas foram denominadas corretamente. Ainda sobre este órgão, na escola Pu a maioria das localizações foi correta, enquanto na Pa a maioria foi aproximada. Com base no exposto é possível perceber que os alunos possuem mais deficiência em denominar a forma dos órgãos. Essa deficiência vem da cultura de sempre enfatizar a funcionalidade e a localização dos órgãos como saberes anatômicos de maior relevância do que o conhecimento da forma. Entretanto, o desconhecimento da forma dos órgãos exerce implicações na vida dos indivíduos e nas atividades práticas dos universitários da saúde, pois a forma é na maior parte das vezes reflexo de sua função. Em casos de doenças, por exemplo, muitas que acometem o fígado e o baço provocando em geral o seu aumento, o que confere um achado diagnóstico que apenas pode ser percebido quando se têm um conhecimento sobre a forma e localização anatômica da estrutura. Com relação aos rins, órgãos que foram um dos mais mencionados em ambas as instituições de ensino avaliadas nesta pesquisa, houve variáveis na forma, localização e função, sendo maior número de respostas corretas, o que demonstrou um bom entendimento sobre esse órgão. No entanto, alguns alunos quando se referiam ao mesmo, mencionavam-no em apenas uma unidade, levantando dúvidas sobre a compreensão de que este é um órgão par, o que poderia trazer implicações para as possibilidades e concepções sobre doação para transplantes. A doação de órgãos é um tópico da saúde de bastante relevância, pois milhares de brasileiros esperam em filas de transplantes por doações. No parágrafo acima, foi possível constatar o desconhecimento por parte dos alunos da duplicidade de importantes órgãos, sendo este um forte indicador que as pessoas não possuem um conhecimento satisfatório sobre esse tema, o que implica em um desconhecimento sobre a possibilidade de ser doador e em um menor número de doações. O ensino da anatomia humana poderia provocar o conhecimento adequado sobre esses órgãos, e dessa forma aproximar as pessoas dessa realidade, impulsionado-as a participarem dessa causa.

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Em seu estudo, Delavy et al. (2007) avaliaram o conhecimento anatômico de crianças de quatro a seis anos de idade, antes e após uma intervenção sobre esse tema. Antes da intervenção os órgãos que as crianças mais citaram foram coração, osso, sangue, cérebro e pulmão. Após a intervenção os órgãos citados anteriormente, menos o sangue, tiveram seus valores percentuais aumentados, aparecendo também menções ao estômago, esôfago, traqueia e costelas. Apesar desse estudo ter sido realizado com crianças, o mesmo possui similaridade com o nosso, pois os órgãos que as crianças mais citaram antes da intervenção como cérebro, coração e pulmão, foram alguns dos órgãos mais mencionados pelos estudantes do terceiro ano do ensino médio de Cuité. Isto supõe que esse conhecimento tenha mais a ver com o senso comum do que com o conteúdo passado nas escolas e que intervenções em anatomia humana causam impactos positivos, aumentando o conhecimento sobre o corpo humano. Na questão que descrevia as regiões anatômicas - muito embora os alunos da Pu que pretendem seguir AS foram melhores, e os alunos da Pa que pretendem seguir OA foram os que acertaram mais na denominação das regiões - em ambas as escolas apareceram muitas respostas fazendo menções a termos populares (Ex: munheca=punho, bumbum=glúteos, barriga=abdome) e/ou com equívocos sobre as regiões anatômicas como ocorreu nas regiões dorsal ou do dorso e do tornozelo. Na região lombar apareceram menções corretas de maneira extremamente discreta. Em um desses equívocos, o punho foi denominado erroneamente de pulso, mostrando que os alunos não sabem que o pulso é um sinal vital, que identifica situações de normalidade e/ou alterações fisiológicas no ser humano. Este estudo demonstrou a deficiência do conhecimento em anatomia humana que os estudantes do terceiro ano do ensino médio de Cuité-PB possuem. Isso se mostra importante pela relevância desse conhecimento e a essencialidade da anatomia humana para a progressão dos cursos da área da saúde e biologia. Assim, esses resultados podem contribuir para reflexões sobre a trajetória dessa área no ensino médio e básico, fazendo com que esta seja mais disseminada por meio de ações educativas que interliguem educação e saúde, esclarecendo dúvidas sobre educação sexual, alimentação saudável e medidas para um bom aproveitamento do corpo, promovendo autocuidado e contribuindo para a diminuição de incidência de problemas de saúde pública. Além disso, os resultados desse estudo advertem os professores das Instituições Federais de Ensino Superior nos quais passaram por, ou ainda estão em expansão universitária pelo programa REUNI até 2014 para estas peculiaridades, pois esta medida amplia o número de vagas e,

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provavelmente, de alunos que possam demonstrar deficiências como estas na sua formação. Por fim, projetos de extensão poderiam ser criados, trazendo propostas para a consolidação do conhecimento em anatomia humana e estabelecimento de uma aproximação entre a universidade e as escolas, despertando o interesse dos alunos pelo ingresso na área biomédica. Da mesma forma, esperamos também poder contribuir e chamar atenção para importância de haver estudos sobre conhecimentos e ensino de anatomia no ensino básico e sua relação com o início da graduação, já que isto tem sido uma lacuna da área de educação em anatomia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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DEPARTAMENTO DE ANATOMIA – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Projeto um mergulho no corpo: Programa de formação continuada para professores do ensino fundamental e médio – 2008. FERREIRA, M. L. S. M.; MAMEDE, M. V. Representação do corpo na relação consigo mesma após mastectomia. Rev Latino-am Enfermagem, 11(3): 299-304, 2003. LIMA, A. B.; LUCENA, J. D.; FREITAS, F. O. R.; SILVA, Z. Z. L; OLIVEIRA, J. R. M. S.; FREITAS, Y. M. R. Anatomia humana para as escolas de ensino fundamental e médio do município de Patos - PB: um estudo preliminar. Revista Coopex Fip, v1, 2009. SILVA, R. M. F. L.; REZENDE, N. A. O ensino de Semiologia médica sob a visão dos alunos: implicações para a reforma curricular. Revista Brasileira de Educação Médica, 32(1): 32-38, 2008. SPARTA, M.; GOMES, W. B.; A importância atribuída ao ingresso na educação superior por alunos do ensino médio. Revista Brasileira de Orientação Profissional, 6(2): 45-53, 2005. WEINMAN, J.; YUSUF, G.; BERKS, R.; RAYNER, S.; PETRIE, K. How accurate is patients' anatomical knowledge: a cross-sectional, questionnaire study of six patient groups and a general public sample. BMC Family Practice, 10:43, 2009.

Autor para correspondência: Prof. Me. Josemberg da Silva Baptista Sócio da Sociedade Brasileira de Anatomia Professor Assistente de Anatomia Humana Departamento de Morfologia Centro de Ciências da Saúde - CCS Universidade Federal do Espírito Santo-UFES Av. Maruípe, 1468, 29.043-900, Vitória/ES Fonefax: 27 3335-7358 Email: josemberg.baptista@ufes.br

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Resenha Literária

A IMPORTÂNCIA DA SINERGIA ENTRE LITERATURA E ILUSTRAÇÃO NO ENSINO DA ANATOMIA ANIMAL: RESENHA SOBRE A OBRA DE KÖNIG E LIEBICH Marcelo Domingues de Faria & Carolina Angélica Libório Machado Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) RESUMO Para que o ensino da anatomia animal seja profícuo, torna-se indispensável uma boa literatura associada a ilustrações que permitam a visualização das diversas estruturas do organismo animal. O livro Anatomia dos animais domésticos – texto e atlas colorido, de autoria de Horst Erich König e Hans-Georg Liebich com a colaboração de outros nove autores, publicado originalmente no idioma alemão, em 1999, tornou-se um marco na literatura do gênero, pois, apesar do texto simplista, é uma ótima fonte de estudo para estudantes de graduação dos cursos de medicina veterinária, zootecnia e áreas afins, bem como para profissionais das devidas áreas, uma vez que elucida com clareza, sem qualquer complexidade, os diferentes segmentos anatômicos dos animais domesticados. Devido à extensão dos assuntos abordados, a obra foi dividida em dois volumes, publicados em momentos distintos, com intervalo de um ano e meio, sendo que o primeiro descreve a anatomia do aparelho locomotor e, o segundo, o estudo dos órgãos e sistemas. RESENHA Diante da demanda por parte de estudantes e profissionais que atuam na clínica e na cirurgia veterinária, Horst Erich König e Hans-Georg Liebich reuniram informações com caráter didático em um livro texto e atlas repleto de informações concernentes à anatomia dos animais domésticos, intitulado Anatomia dos animais domésticos – texto e atlas colorido, cuja primeira edição, em alemão, é datada de 1999, contendo 18 capítulos numa obra única. Entretanto, em sua primeira versão brasileira, foi dividida em dois volumes, onde o primeiro aborda aspectos anatômicos do aparelho locomotor; e o segundo, estudos acerca dos diferentes órgãos e sistemas. A obra não traz textos prolixos, complexos, mas procura desmitificar o estudo da anatomia animal, facilitando o seu aprendizado. Os principais autores e organizadores da obra, König e Liebich, são médicos veterinários, professores e pesquisadores com vasta experiência na área de anatomia macro e microscópica. O primeiro é docente do Instituto de Anatomia da

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Universidade de Viena, na Áustria. Já, o segundo, é vinculado ao Instituto de Anatomia Animal da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Munique, na Alemanha. Na disciplina de anatomia, o docente preocupa-se, a todo instante, com a nomenclatura anatômica oficial (NOMINA ANATOMICA VETERINARIA NAV) ministrada aos estudantes, a qual é estabelecida pela World Association of Veterinary Anatomists (W.A.V.A), no intuito de padronizar, em nível mundial, a denominação das diferentes estruturas anatômicas, homogeneizando a linguagem médica empregada e suas respectivas abreviaturas. Tal preocupação também foi suprida na obra, em virtude da redação original e de suas traduções terem seguido em consonância com a NAV. Na elaboração da presente resenha, optou-se por analisar capítulo a capítulo de cada volume, no intuito de permitir que o leitor tenha a concepção de maneira generalizada, porém, integralizada acerca da obra. Além disso, com a finalidade de emitir um parecer conclusivo, incluindo a perspectiva do discente, fora convidada uma estudante do Curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) para participar na análise da obra e, consequentemente, desta descrição. VOLUME 01 O volume número 01 do livro intitulado “Anatomia dos animais domésticos – texto e atlas colorido” foi traduzido pelo Prof. Dr. Althen Teixeira Filho e publicado no ano de 2004 pela editora Artmed, relatando estudos acerca do aparelho locomotor, composto por 291 páginas, 139 esquemas anatômicos, 15 fotomicrografias, 236 fotografias de peças anatômicas devidamente preparadas e 39 quadros. No capítulo intitulado “Introdução”, há abordagens referentes aos conceitos básicos da anatomia, como é o caso das designações sobre planos de delimitação e eixos de construção do organismo animal e questões sobre a esfera embriológica. Ainda neste capítulo, há relatos básicos inerentes à estruturação e classificação dos diferentes ossos, músculos e articulações, evidenciadas sob o ponto de vista macro e microscópico e esquemático, servindo como referencial teórico até mesmo aos estudantes e pesquisadores da área médica humana. Os capítulos 01, 02, 03 e 04 tratam, respectivamente, das estruturas componentes do esqueleto axial; das fáscias e músculos da cabeça e do tronco; do membro torácico; e do membro pélvico. Nestes capítulos descrevem-se detalhadamente as estruturas presentes no aparelho locomotor, suas denominações,

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bem como a holotopia, a sintopia, a idiotopia e, até mesmo, a histiotopia. A riqueza dos detalhes nestes capítulos deve-se às técnicas anatômicas realizadas para evidenciar determinadas estruturas, além de técnicas imagológicas, como a radiografia, a ultrassonografia e a tomografia computadorizada, simples e contrastadas. Como não poderia deixar de faltar, o capítulo 05 do volume 01 trata sobre estática e dinâmica - os princípios de construção do organismo animal, a atuação das leis e forças da física sobre o esqueleto axial e sobre o esqueleto apendicular, desenvolvendo uma articulação redacional acerca das estruturas que desempenham funções para que o animal saia de seu estado de repouso e inicie um movimento e vice-versa. A última seção do primeiro volume traz verbetes relacionados com a etimologia das diferentes palavras empregadas no transcorrer da obra, uma vez que são descritas em sua forma original (latina ou grega), o que facilita a compreensão do conteúdo.

VOLUME 02 O volume 02 da obra intitulada “Anatomia dos animais domésticos – texto e atlas colorido”, também traduzido pelo Prof. Dr. Althen Teixeira Filho, foi lançado um ano e meio após a publicação do primeiro volume, em 2006, composto por 399 páginas, 178 esquemas anatômicos, 77 fotomicrografias, 338 fotografias de peças anatômicas devidamente preparadas para estudo e 15 quadros. Trata-se de uma obra cujo conteúdo abrange a anatomia dos órgãos internos e sistemas, estabelecendo correlações com seus respectivos suprimentos vásculo-nervosos, além das associações com a prática da medicina veterinária aplicada. Diversos profissionais da área da educação consideram a forma de abordagem e de avaliação da disciplina de anatomia extremamente arcaica e antipedagógica. Desta forma, assim como no primeiro volume, este exemplar é extremamente ilustrado com esquemas e fotografias de técnicas anatômicas e moldes, oferecidos sob uma brilhante sensibilidade estética, os quais facilitam a compreensão, tornando o estudo mais prazeroso. Para descrever os diferentes órgãos, sistemas e aparelhos do organismo, torna-se imprescindível a abordagem sobre as cavidades corpóreas, elucidando suas peculiaridades e suas características conceituais típicas e já consagradas – e assim o

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foi feito no capítulo 06 da obra, com descrições a respeito das cavidades torácica, abdominal e pélvica. O aparelho digestório, abordado no capítulo 07, segue a descrição de um raciocínio lógico, tratando o segmento como o tubo que estende-se longitudinalmente, da boca ao ânus, o qual recebe o aporte de secreções das glândulas ditas anexas, que colaboram com a digestão dos alimentos. Nesta seção, os autores dividem as porções do trato digestório de maneira didática denominando-as de intestino cefálico (boca e faringe), intestino cranial (esôfago e ventrículo gástrico), intestino médio (duodeno, jejuno e íleo), intestino caudal (ceco e cólons) e canal anal com ânus, com suas devidas características e diferenças interespecíficas. No capítulo 08 são explanadas as características inerentes ao aparelho respiratório, também obedecendo um raciocínio lógico, conforme a sequência dos segmentos dispostos crânio-caudalmente, ou seja, a partir do nariz, percorrendo as cavidades nasais, a faringe, a laringe, a traquéia, os diferentes brônquios, até atingir os bronquíolos, distinguindo, funcional e didaticamente, os órgãos respiratórios condutores de ar e os órgãos respiratórios de troca gasosa, permitindo o discernimento das características comuns e divergentes entre as espécies. O aparelho urogenital, tanto masculino quanto feminino, é detalhadamente descritos nos capítulos 09, 10 e 11, sendo, respectivamente, órgãos urinários, órgãos genitais masculinos e órgãos genitais femininos. Como nos demais capítulos, nestes há descrição dos caracteres comuns nas diversas espécies domesticadas e, posteriormente, das divergências inter-específicas. O capitulo 12, intitulado “Órgão do sistema cardiovascular” trata exatamente de todos os órgãos que compõem este sistema, iniciando com uma resumida descrição do trajeto percorrido pelo sangue e pela linfa, além de suas funções dentro do organismo. Após explicar brevemente o que seriam a pequena e grande circulação, o autor descreve separadamente o coração e os vasos. O texto, de fácil compreensão, engloba todas as divisões anatômicas que compõem o coração, desde a sua posição, estratigrafia, cavidades (átrios e ventrículos), vascularização e inervação do mesmo, sempre ilustrando com imagens coloridas e explicativas para auxiliar ao estudo, evidenciando, inclusive, as diferenças inter-específicas por intermédio de figuras esquemáticas. Cada tópico é destrinchado citando as funções e os tecidos que formam as estruturas. O Capitulo 13 (Mecanismo de defesa e órgãos linfáticos) inicia sua dissertação explicando superficialmente algumas funções de células e tecidos responsáveis pela defesa dos organismos, utilizando conceitos de imunologia, como

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por exemplo, as funções e ações conjuntas de macrófagos e linfócitos. O autor cita novamente os vasos linfáticos e as diferenças existentes entre eles e segue descrevendo o percurso pelo sistema linfático, citando os órgãos isoladamente (linfonodos, timo, baço e ductos coletores). O texto discute, ainda, as particularidades anatômicas existentes entre as espécies e menciona as suas respectivas localizações, características macroscópicas e sintopia. Entretanto, o capitulo atém-se demasiadamente aos detalhamentos microscópicos. Talvez, a seção mais completa do segundo volume seja o capitulo 14, relacionado ao sistema nervoso, onde há descrição detalhada do mesmo, evidenciando o princípio de sua constituição conforme suas funções (sensitivas ou motoras), localização (central ou periférica, visceral ou somática), as subdivisões encefálicas e medulares, fotografias de diferentes cortes segmentados do sistema nervoso central, descrições detalhadas dos nervos cranianos e espinhais, bem como os nervos responsáveis pelo suprimento de cada segmento corpóreo, evidenciados por quadros auto-explicativos. Entretanto, as divergências interespecíficas acerca do trajeto dos principais nervos foi um aspecto pouco abordado e não menos importante, pois o estudante deve ter a noção da topografia neural no intuito de evitar intervenções danosas sobre os mesmos. No que se refere a glândulas endócrinas, descritas no capitulo 15, são abordadas todas as glândulas, porém a maior riqueza de detalhes está relacionada à glândula tireóide, enquanto os demais órgãos endócrinos foram descritos de forma sucinta. A hipófise foi descrita utilizando uma visão principalmente histológica, onde o autor não deixa evidentes quais estruturas podem ser visualizadas macroscópica ou microscopicamente. Além destas, outras glândulas que compõem este sistema são, a epífise, as paratireóides, as adrenais e as gônadas, sendo que o livro retrata basicamente a localização, a função e as diferenças existentes entre as espécies, fazendo o uso de imagens ilustrativas. Neste capítulo são evidenciados, também, os paragânglios, pouco abordados em livros de anatomia, os quais são pequenas formações nodulares de células epiteliais que surgiram a partir da crista neural, e as ilhotas pancreáticas, onde são formados os hormônios glucagon e insulina. A seção que trata do órgão da visão (capitulo 16) é bastante completa e procura explicar mecanismos complexos de uma forma mais simplificada, como por exemplo, a formação da imagem através da percepção óptica. O bulbo ocular, sendo o principal órgão da visão é dividido em tópicos e subtópicos, que retratam a sua forma, tamanho, arquitetura, constituição, inervação e anexos, bem como estabelece algumas divergências interespecíficas. A constituição do bulbo é ainda subdividida em túnica fibrosa (esclera e córnea), túnica vascular (coróide, corpo ciliar e íris) e túnica nervosa (retina). A retina é especialmente descrita

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apresentando os seus epitélios, estratos nervosos, e as células responsáveis por captação de luminosidade e cores (cones e bastonetes). A narrativa da constituição do bulbo ocular mescla informações anatômicas e histológicas, sem, no entanto, distinguir as estruturas macro e microscópicas. Em um subtópico denominado “Constituintes internos do olho” são apresentados a lente, a câmara anterior do bulbo ocular, o humor aquoso (líquido responsável pela nutrição da córnea) e o corpo vítreo. A órbita, as fáscias e músculos, as pálpebras, o aparelho lacrimal e a vascularização, seguem descritas como anexos do bulbo ocular, obedecendo às descrições da própria nomenclatura anatômica veterinária oficial. As comparações entre as diferentes espécies são a todo o momento citadas durante a dissertação, inclusive, comparações feitas entre humanos e não humanos. No capítulo 17 são descritos os órgãos do equilíbrio e da audição (órgão vestibulococlear). O autor discorre de forma didática sobre o percurso feito pelo som até alcançar o nervo coclear (ramo do VIII par de nervos cranianos), sob a forma de estímulo mecânico, bem como a localização, diferenças entre espécies e posição de cada estrutura componente do segmento anatômico, salientando suas interações. Tal divisão é estabelecida em orelha externa, orelha média e orelha interna. No que diz respeito ao órgão do equilibro, ou órgão vestibular, que se localiza na orelha interna, o autor não descreve diferenças significativas entre as espécies de animais. Um dos mais extensos capítulos da obra é o décimo oitavo (18º) e último, que trata do tegumento comum de diversas espécies animais, sendo que o texto segue rigidamente a NOMINA ANATOMICA VETERINARIA, estabelecendo, entretanto, correlações com termos zootécnicos. É um tópico extremamente ilustrado com fotografias e esquemas, relatando as particularidades das espécies. Como introdução, o autor faz uma breve observância acerca da importância de uma pele saudável e da capacidade de detectar sua integridade. No que se refere à pele, ele trata de forma dicotomizada em cútis, derme e epiderme, explanando as características de cada estrato, não olvidando-se da vascularização, dos nervos e dos órgãos sensoriais. Seguidamente, são abordados os tipos, a ordenação e a troca de pêlos, enfatizando diferenças anatômicas e histológicas, correlacionando-as com a sua função em cada espécie. As glândulas do tegumento são divididas em cutâneas e mamárias, sendo que estas últimas apresentam descrição mais detalhada, incluindo características fisiológicas inerentes à vascularização, inervação, sistema linfático, arco-reflexo neuro-hormonal, desenvolvimento da glândula mamária e lactação. São elucidadas, também, as diferenciações existentes entre os órgãos digitais dos diferentes animais e considerações importantes a respeito de cornos, bem como as abordagens de diferentes técnicas de preparo anatômico para evidenciação das diversas estruturas cutâneas e seus anexos.

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CONCLUSÃO Após décadas, talvez séculos, de ensino da anatomia animal, valendo-se da utilização de livros e tratados prolixos, que no lugar de facilitar, dificultavam o aprendizado do estudante, foi empreendida a obra em tela, gerando subsídios relevantes para assegurar a adequação dos estudos na referida área, tornando-se ferramenta essencial e de grande utilidade aos processos de ensino e aprendizagem, principalmente aos alunos de cursos de nível superior que contêm em seu currículo o estudo anatômico dos animais domésticos, apresentando textos enxutos, de fácil compreensão e extremamente ilustrados. Referências KÖNIG, H. E.; LIEBICH, H.-G. Anatomia dos animais domésticos – texto e atlas colorido. Porto Alegre: Artmed, 2004. v. 1. KÖNIG, H. E.; LIEBICH, H.-G. Anatomia dos animais domésticos – texto e atlas colorido. Porto Alegre: Artmed, 2006. v. 2.

Prof. Dr. Marcelo Domingues de Faria Professor Adjunto III da Disciplina de anatomia Veterinária Coordenador do Laboratório de Anatomia dos Animais Domésticos e Silvestres Universidade Federal do Vale do São Francisco

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Você sabia ...

SÍNDROMES MEDULARES VALÉRIA PAULA SASSOLI FAZAN Professora Associada do Departamento de Cirurgia e Anatomia, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.

O conjunto de sinais e sintomas decorrentes de lesões da medula espinal se apresenta como uma síndrome medular que estará, sempre, diretamente relacionada ao local e ao tipo de lesão – substância branca ou cinzenta, tumores, compressão, degeneração, secção das fibras, etc. Para o correto entendimento e acurada interpretação das síndromes medulares, se faz necessário um bom conhecimento neuroanatômico da localização medular das informações aferentes e eferentes, bem como dos reflexos que são processados em nível medular. De maneira bastante simplificada, podemos dizer que a substância cinzenta da medula espinal (de localização central) está dividida em uma porção anterior (motora), uma porção posterior (sensitiva) e uma porção lateral (autonômica). Já a substância branca pode apresentar várias funções que “compartilham” a mesma localização. Assim, o funículo anterior, bem como o funículo lateral, apresentam tratos ascendentes (aferentes) e descendentes (eferentes). O funículo posterior é exclusivamente sensitivo, apresentando fibras do sistema das colunas dorsais, responsável pelas informações de tato discriminativo, propriocepção e vibração. No funículo lateral encontramos os tratos descendentes cortico-espinal lateral, rubroespinal e tratos autonômicos; e os tratos ascendentes espino-talâmico lateral e espino-cerebelares dorsal e ventral. No funículo anterior encontramos os tratos descendentes cortico-espinal anterior, retículo-espinal e tetoespinal e o trato ascendente espino-talâmico anterior. Antes de iniciarmos as descrições de síndromes medulares específicas, é interessante lembrar as principais características clínicas de lesões específicas dos neurônios motores. Os sinais e sintomas de uma lesão em neurônios motores superiores (corpo celular localizado no córtex do giro pré-central e axônios que

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formam os tratos cortico-nucleares e córtico-espinais) são paralisia, hipertonia (paralisia espástica), hiperreflexia e normotrofia muscular. Os sinais e sintomas decorrentes de uma lesão dos neurônios motores inferiores (corpos celulares localizados no corno anterior da medula espinal e em núcleos motores do tronco encefálico, e axônios nas raízes anteriores dos nervos espinais e nervos espinais e cranianos) são paralisia (paralisia flácida), arreflexia, atonia (ou hipotonia) e atrofia muscular.

Principais Síndromes medulares e suas características:

1- Transecção completa da medula espinal: *Interrupção dos tratos motores e sensitivos *Completa perda da motricidade voluntária e da sensibilidade consciente abaixo do nível da lesão *Lesão das raízes nervosas no nível da transecção *Síndrome do “choque medular” *Hiperreflexia e paralisia espástica abaixo do nível de lesão

2-

Hemissecção completa da medula espinal (Síndrome de Brown-Séquard) (figura 1):

*Perda da motricidade voluntária ipsilateral *Perda do tato discriminativo, da sensibilidade proprioceptiva e vibratória ispilateral *Perda da sensibilidade termo-algésica contralateral *Lesão das raízes nervosas no nível e ispilateral à lesão

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Síndrome da compressão extrínseca da medula espinal (figura 2):

*Sintomas iniciam nas camadas mais externas dos tratos medulares longos *Lesão cervical: sintomas sensitivos (espino-talâmico) e motores (córtico-espinal) com características “ascendentes” *Compressão lateral severa = Síndrome de Brown-Séquard

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Síndrome da medula espinal central (figura 3)

*Destruição da comissura anterior da medula espinal = cruzamento dos tratos espino-talâmicos *Anestesia bilateral e simétrica no nível da lesão *Sintomas posteriores dependem do local de evolução da lesão *Principais causas: Siringomielia, hematomielia e tumores intramedulares

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Síndrome da cauda eqüina:

*Sintomas de instalação lenta e irregular *Sintomas esparsos de acordo com as raízes envolvidas *Dor é o sintoma proeminente *Distúrbios sensitivos tardios *Todos os tipos de sensibilidade podem estar envolvidos em graus variáveis

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Síndrome do cone medular:

*Paralisia flácida da bexiga *Incontinência anal *Impotência *Anestesia “em sela” *Abolição dos reflexos anais *Ausência de paralisia dos membros inferiores *Preservação do reflexo do tendão calcâneo *Causas: Tumores, metástases, distúrbios da irrigação medular

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Síndrome do corno anterior (figura 4):

*Esclerose lateral amiotrófica: progressão de sintomas de neurônios motores inferiores e superiores (lesão se estende para funículo lateral) *Amiotrofia espinal progressiva: degeneração pura dos neurônios do corno anterior da medula espinal na infância *Poliomielite: sinais clássicos de lesão do neurônio motor inferior *Oclusão da artéria espinal anterior = com envolvimento também dos tratos espinotalâmicos *Características importantes: função das colunas dorsais preservada, paralisia abaixo do nível da lesão, presença de perda da sensibilidade termo-algésica nas lesões do funículo anterior

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Síndrome dos funículos posteriores (figura 5):

*Tabes Dorsalis = complicação tardia da infecção sifilítica *Marcada degeneração dos funículos postriores *Ataxia decorrente da perda sensorial (cinestesia e vibração) *Disfunção intestinal, da bexiga urinária e sexual *Outras causas: tumores, traumas, degeneração sub-aguda combinada da medula espinal (mielopatia ssociada à deficiência de vitamina B12) e Ataxia de Friedreich 9- Síndromes combinadas: *Esclerose lateral amiotrófica: lesão combinada dos cornos anteriores e tratos córtico-espinais *Ataxia de Friedreich: lesão combinada dos funículos posterioes, dos tratos espinocerebelares (funículo lateral) e dos tratos córtico-espinais (funículo lateral).

Leitura recomendada: *Kandel ER, Schwartz JH, Jessell TM. Principals of neural sciences. 3rd edition, Elsevier, New York, 1991. *Duus P. Diagnóstico topográfico em neurologia. 4ª edição, Editora Cultura Médica, Rio de Janeiro, 1989. *Rowland LP. Merrit. Tratado de neurologia. 7ª edição, Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 1986. *Samuels MA, Feske S. Office practice of neurology. 2nd edition, Churchill Livingstone, New York, 1996. *Waxman SG. Correlative neuroanatomy. 23rd edition, Appletown & Lange, New Jersey, 1995. VALÉRIA PAULA SASSOLI FAZAN Professora Associada do Departamento de Cirurgia e Anatomia Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto Universidade de São Paulo. Sócia da Sociedade Brasileira de Anatomia

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O ANATOMISTA REVISTA DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ANATOMIA

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