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O Mistério da Encarnação: vida, ensinamentos e obras de Jesus Cristo


1. O QUE PENSAMOS SOBRE DEUS? “Eu sou aquele que sou” (Ex 3,14)

Pe. Miguel Sopoćko

Na linguagem humana, em todos os idiomas, a palavra que mais se repete é Deus. As pesquisas dos estudiosos dizem que a palavra Deus está entre as mais antigas e universais expressões que os homens costumavam usar para definir alguma realidade. Ou seja, há alguma realidade em nossos pensamentos que corresponde ao termo Deus, e que responde à pergunta: o que pensamos sobre Deus? Os pensamentos humanos sobre Deus são muito nebulosos e imprecisos, pois “ninguém jamais viu a Deus” (Jo 1,18). Aqui na terra, por nós mesmos, não podemos elaborar um conceito exato a Seu respeito, como diz o Apóstolo: “Agora nós vemos num espelho, confusamente; mas, então, veremos face a face. Agora, conheço apenas em parte, mas, então, conhecerei completamente, como sou conhecido” (1Cor 13,12) – ou seja, aqui na terra conhecemos a Deus apenas pelo reflexo da Sua perfeição no espelho das coisas criadas. E, como essas coisas são infinitamente inferiores a Deus, não é possível conhecê-Lo como Ele Se conhece em Si mesmo. Se nunca tivéssemos visto o sol e apenas o julgássemos a partir da luz que existe num dia nublado, não seríamos capazes de ter um conceito exato ou preciso do sol como a fonte da luz do dia. Ou se nunca tivéssemos visto a luz branca, mas a conhecêssemos através das sete cores do arco-íris, não poderíamos conhecer o que é a brancura. Da mesma forma, nós mesmos não podemos elaborar um conceito preciso do Ser Divino, mas apenas podemos conhecer as Suas perfeições, que as criaturas nos apresentam em estado de multiplicidade e divisão, enquanto que em Deus todas essas perfeições constituem uma unidade absolutamente simples. Deus – como ser perfeitíssimo – é um espírito puríssimo e simplicíssimo, ou seja, não contém em Si nenhum tipo de partes 58


componentes. Na natureza do homem distinguimos o corpo e a alma. Na alma distinguimos as suas potências, que são a razão e a vontade. A dimensão corporal se compõe, por sua vez, dos sentidos e das paixões. Mas Deus é a unidade mais perfeita, sem quaisquer componentes em Sua natureza. Nós temos dificuldade para compreender essa perfeitíssima unidade em Deus e é por isso que, à nossa maneira humana, Lhe atribuímos as perfeições que percebemos nas criaturas.

Fazemos essa distinção entre as perfeições em consequência da limitação da nossa mente, que não é capaz de traduzir em um único conceito toda a perfeição de Deus; por isso, a partir dos atributos das criaturas, chegamos com grande dificuldade ao conhecimento do Criador. Mas, na realidade, em Deus tudo constitui a mais perfeita unidade, na qual as perfeições não se distinguem objetivamente nem da natureza de Deus nem entre elas próprias. No entanto, essas perfeições não são apenas nomes diferentes da única e mesma realidade suprema, como sustentavam os nominalistas, porque, então, a Deus não se poderia conhecer. Todas elas, na realidade, se encontram em Deus, porém Nele não se distinguem objetivamente, mas apenas nas coisas existentes fora de Deus – nas criaturas. Todas elas identificam-se com a natureza de Deus, mas mutuamente não se destroem. Podemos enumerá-las 59

O que pensamos sobre Deus?

Assim, observamos no homem certas habilidades, por exemplo, em alguns, uma grande sensibilidade e perspicácia, que lhes permite traçar um amplo horizonte de pensamentos e distinguir rapidamente umas coisas das outras. Chamamos isso de sabedoria, que no ser humano ocorre em diversos graus. E visto que a sabedoria humana provém de Deus, concluímos que Deus a possui em um grau supremo. Então falamos da infinita sabedoria de Deus como uma de Suas perfeições. O mesmo ocorre com a justiça, a santidade, a providência, a paciência, o amor, a misericórdia e com todas as outras perfeições.


uma após outra, como faz a Sagrada Escritura, porém acrescentando que elas se identificam com a simplicidade que alcança o seu ápice na unidade suprema da Divindade.

Pe. Miguel Sopoćko

Embora não possamos aqui na terra conhecer a essência de Deus, como ela é em si mesma, podemos, no entanto, conhecer as perfeições de Deus e somente através delas, de maneira imperfeita, conhecer e definir aquilo que a constitui formalmente. Surge, então, a pergunta: entre as perfeições que atribuímos a Deus, existe uma que seja a principal, ou a fonte de todas as outras, e que ao mesmo tempo distinga Deus de todos os seres existentes fora de Deus? Será que não existe, por exemplo, uma perfeição que seja em Deus aquilo que no homem se caracteriza por racionalidade? Descartes16 e com ele muitos outros afirmaram que em Deus essa perfeição é a liberdade, que constitui formalmente a essência de Deus. Segundo eles, Deus é, sobretudo, o livre-arbítrio – se Ele quisesse, criaria rodas quadradas, efeitos sem causa, montanhas sem vales, etc. Porém não é possível compreender a vontade sem a razão, porque ela estaria, então, desprovida de qualquer regra. Tal suposição seria a profanação do Ser Supremo. O fato de ir conhecendo essa verdade precede o fato de amá-la. Por isso, não podemos concordar com essa afirmação. Será que, diante disso, devemos aceitar como essência de Deus a razão? Muitos filósofos assim acreditavam, compreendendo a Deus como uma mente pura, que existe desde a eternidade e que encerra uma verdade infinita. Sem dúvida, a razão precede a vontade, mas será que em Deus é ela a perfeição primeira? Tal maneira de compreender a essência de Deus é verdadeiramente sublime, porém não a mais sublime, pois não está inteiramente de acordo com o que o próprio Deus disse de Si mesmo. [16]. Descartes, René (1596 – 1650): filósofo, físico e matemático francês. (N. do T.) 60


Na Sagrada Escritura lemos que Deus se revelou a Moisés na sarça ardente e ordenou a ele que retirasse os filhos de Israel da escravidão do Egito: “Moisés disse a Deus: ‘Mas, se eu for aos israelitas e lhes disser: O Deus de vossos pais enviou-me a vós, e eles me perguntarem: Qual é o seu nome?, que devo responder?’ Deus disse a Moisés: ‘Eu sou aquele que sou’. E acrescentou: ‘Assim responderás aos israelitas: Eu Sou envia-me a vós’” (Ex 3,13-14). “Eu Sou Aquele que Sou” – “Este é o meu nome para sempre, e assim serei lembrado de geração em geração” (Ex 3,15). O mesmo encontramos no Novo Testamento: “Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, ‘Aquele que é, que era e que vem, o Todo-Poderoso’” (Ap 1,8).

Há uma única essência de Deus que é a própria existência, e só esta existe por necessidade. Nenhuma criatura existe por si mesma, ou seja, por sua própria essência. Nenhuma criatura pode dizer de si mesma: “EU SOU AQUELE QUE SOU”; mas apenas: “Eu sou aquele que não sou, visto que houve um tempo em que eu não existia, e também agora não existe em mim um motivo suficiente para a minha existência e, por isso, também posso deixar de existir”. A autoexistência é a primeira causa movente, o primeiro fator do Ser Absoluto, que constitui a ordem do universo que está acima de todas as coisas. Desse ápice supremo podem ser deduzidas todas as outras perfeições de Deus, da mesma forma que, no homem, da inteligência decorrem todos os demais atributos. O próprio Ser de Deus, que 61

O que pensamos sobre Deus?

Portanto, Deus não é apenas um espírito puro, como os anjos, mas um Ser que existe por Si mesmo, o Ser Supremo, ou seja, um Ser que possui a razão da sua existência em Si mesmo. Ele não se limita somente a um certo tipo de ser, como ocorre com as criaturas, mas é o próprio Ser, que possui em Si tudo o que faz parte da essência do Ser. Este existir por Si mesmo é, portanto, uma perfeição que constitui a essência de Deus, pela qual Deus se distingue de todos os demais seres – de todas as criaturas espirituais e materiais.


Pe. Miguel Sopoćko

por Sua Essência existe em Si mesmo, deve ser absolutamente uno e simples, deve ser a própria Verdade, sempre conhecida como o Bem, que sempre ama e é amado. Em razão da Sua imaterialidade Ele deve ser o próprio pensamento eternamente em Si existente, a própria Sabedoria, Vontade e Amor. Daí resulta que, de todos os nomes de Deus, o mais apropriado é: “Aquele que Sou” (São Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 13, a. 11). No entanto, Deus em Si mesmo permanece para nós como um profundo mistério, que os místicos chamam de “escuridão repleta de luz”, e a Sagrada Escritura – “luz inacessível” (1Tm 6,16). Apenas de forma imperfeita, com a ajuda da revelação, nós conhecemos o ápice do Ser que existe por Si mesmo, que é a autoexistência de Deus, para desse ápice deduzirmos as outras perfeições divinas que se desprendem e que se identificam com a vida interior de Deus. Somente no céu conheceremos de que forma essas perfeições se unem e se complementam, sem destruir-se mutuamente. *** Ainda que não possamos conhecer plenamente a Deus tal como é em Sua essência, no entanto, através da graça santificante nos é concedido poder participar em Sua vida. Essa graça nos capacita a, um dia, contemplarmos a Deus tal como Ele Se contempla a Si mesmo, e a amá-Lo como Ele ama a Si mesmo. Como é grande o valor da graça santificante, que nos permite, já agora, participar da vida de Deus! “O mínimo grau de graça santificante, que se encontra na criança batizada, possui um valor maior que todo o universo, que todos os seres espirituais e materiais criados no seu conjunto” (S. T. 1-2, q. 113, a. 9). Recebemos essa graça gratuitamente, unicamente por misericórdia de Deus, que nos permite refletir sobre a Essência divina.

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