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DIGESTO ECONÔMICO - JULHO/AGOSTO 2012 - ANO LXVII - Nº 469

JULHO/AGOSTO 2012 ANO LXVII – Nº 469 – R$ 4,50

O PODER DA PALAVRA Olavo de Carvalho


Olavo de Carvalho uma visão do mundo Masao Goto Filho/e-SIM

A

revista Digesto Econômico, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), reúne neste número 46 artigos publicados por Olavo de Carvalho no Diário do Comércio, jornal da entidade. A simples observação da diversidade dos temas abordados revela a amplitude dos conhecimentos do autor, que trata de assuntos de natureza tão diversa, mas sempre lastreado em uma linha coerente de argumentação, baseada não apenas em vasta cultura, como, principalmente, em sua escala de valores. Olavo de Carvalho transita da filosofia para o jornalismo com a mesma naturalidade com que ora é o professor didático e ora um polemista dos mais temíveis. Uma das contribuições mais importantes do jornalista Olavo foi a divulgação da criação e os objetivos do FORO DE SÃO PAULO por Lula e Fidel Castro em 1990, que reunia toda esquerda latino-americana, inclusive grupos guerrilheiros, com o objetivo de realizar ações comuns com vistas à conquista do poder no continente e à implantação do socialismo. Durante muitos anos a imprensa em geral ignorou a existência dessa organização, ou minimizou sua importância, sendo o autor da denúncia considerado como "paranoico", por vislumbrar o alcance pretendido pelo FORO e seus reais objetivos. Hoje, com diversos países da América Latina com governos de esquerda, e com políticas claramente voltadas para o controle do poder total, parece difícil que se continue a ignorar não apenas a existência, como a atuação do FORO. A leitura dos artigos de Olavo de Carvalho que o Digesto está publicando propiciará ao leitor uma visão bastante abrangente de um cenário mundial em profundas transformações, muitas das quais ainda despercebidas, e também da realidade brasileira em seus múltiplos aspectos. Pode-se concordar com todas ou com algumas das opiniões de Olavo Carvalho, como também se pode discordar integralmente de suas posições, mas, seguramente, a leitura de seus textos nos levará a refletir sobre os temas abordados, muitos dos quais escaparam até o momento de nossa atenção. Boa leitura.

Rogério Amato Presidente da Associação Comercial de São Paulo e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo.

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ÍNDICE Política Nacional 10 O Foro de São Paulo, versão anestésica Rua Boa Vista, 51 - PABX: 3180-3737 CEP 01014-911 - São Paulo - SP home page: http://www.acsp.com.br e-mail: acsp@acsp.com.br Presidente Rogério Amato Superintendente Institucional Marcel Domingos Solimeo

13 O mistério da KGB mental brasileira 17 A direita a serviço da esquerda 20 Top-Top e Fuc-Fuc 22 Fraqueza suicida 24 Maquiavel e os bobos 25 PT, o partido dos ricos 28 O nacionalismo contra a nação

ISSN 0101-4218 Diretor-Responsável João de Scantimburgo Diretor de Redação Moisés Rabinovici Editor-Chefe José Guilherme Rodrigues Ferreira Editores Carlos Ossamu e Domingos Zamagna Chefia de Reportagem José Maria dos Santos Editor de Fotografia Alex Ribeiro Pesquisa de Imagem Mirian Pimentel Editor de Arte José Coelho Projeto Gráfico Evana Clicia Lisbôa Sutilo Diagramação Evana Clicia Lisbôa Sutilo

29 Aritmética do engodo

Aborto 31 Debatendo com o crime

Movimento Gay 32 Consequências mais que previsíveis 36 Estupro psicológico estatal

Forças Armadas 37 Diagnóstico da situação 38 Incomparáveis

Artes Max e Zilberman Gerente Executiva de Publicidade Sonia Oliveira (soliveira@acsp.com.br) 3180-3029 Gerente de Operações Valter Pereira de Souza Impressão Log & Print Gráfica e Logística S.A. REDAÇÃO, ADMINISTRAÇÃO E PUBLICIDADE Rua Boa Vista, 51, 6º andar CEP 01014-911 PABX (011) 3180-3737 REDAÇÃO (011) 3180-3055 FAX (011) 3180-3046 www.dcomercio.com.br

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CAPA Arte: MAX A nuvem de palavras da capa destaca os termos que aparecem com maior frequência no texto de apresentação de Olavo de Carvalho, que está nas páginas 6 a 9.


Liberalismo e Conservadorismo

Filosofia e Cultura

40 O patinho feio da política nacional

66 A autoridade religiosa do mal

45 Fugindo à luta

70 A fórmula para enlouquecer o mundo

47 Como debater com esquerdistas

74 Afinal, lutamos contra quem?

Política Internacional

77 URSS, a mãe do nazismo

48 Pato sentado

Comunismo e Marxismo

49 Demonstração de autoridade

80 Excesso de delicadeza

50 Obama, o enigma

82 O orvalho vem caindo

52 A próxima crise americana

85 Na lista negra da História

54 Breve lição de sociologia

87 A escória do mundo

55 O candidato do medo 57 Segredos e mentiras sem fim 59 O surrealismo no poder

Globalismo 60 Contradições do laicismo 61 A mão invisível do globalismo

Mídia com Máscara 88 O diário do passado 90 Burrice e Vigarice

Meditações Filosóficas 92 Quando a alma é pequena 95 A evolução da evolução

Islamização do Ocidente

97 O cume do progresso humano

63 O segredo da invasão islâmica

99 A consciência da consciência 101 Errando e aprendendo 104 Um capítulo de memórias 106 Pecadores, com a graça de Deus 109 A elite que virou massa

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A palavra do autor

É

pela segunda vez que a Associação Comercial de São Paulo, uma das instituições mais nobres do Brasil, me honra com uma edição especial do Digesto Econômico consagrada aos artigos que publiquei no Diário do Comércio. A utilidade desta coletânea, no entanto, vai muito além do que ela possa significar para mim pessoalmente como reconhecimento de um trabalho que não reivindica outro mérito além do esforço e da sinceridade: ela fornece aos leitores a oportunidade de sondar a unidade de pensamento por trás de opiniões que, espalhadas em fatias, à base de duas por semana, talvez não pareçam senão a expressão escrita de impressões de momento, como o são em geral os artigos de jornal. Para aqueles que seguem regularmente as minhas aulas e conferências, essa unidade é autoevidente: nada escrevo na mídia que não seja para ilustrar com fatos da atualidade os princípios que expus na minha apostila Questões de Método nas Ciências Humanas e em vários cursos de filosofia política, como aquele que proferi para os alunos de pós-graduação em Administração Pública na PUC do Paraná em 2004 e depois para um grupo privado em Colonial Heights, Virginia, em abril de 2008 e abril de 2009. Para o público em geral, ela não é coisa tão facilmente visível por trás da variedade de temas e de ângulos de enfoque que aparecem nos meus artigos. Para resumi-la, digo o seguinte: trata-se, em última instância, de compreender a política como expressão do poder de ação concedido aos homens pela natureza das coisas. Em que consiste esse poder e como ele se manifesta na sociedade? O poder pode ser definido, no sentido mais geral e abstrato, como a capacidade de ação consciente destinada a modificar um estado de coisas (subentendendo-se que a tentativa de evitar modificações é já uma modificação, como por exemplo quando se impede a disseminação de uma epidemia ou se aborta uma revolução). A ação humana tem como objeto, seja os materiais fornecidos pela natureza, seja os próprios seres humanos tomados individual ou coletivamente. Esta distinção já traz à mostra três realidades fundamentais, que os teóricos da política teimam em negligenciar: Primeira. O poder de ação dos homens sobre a natureza é incomparavelmente menor que o poder de ação de uns homens sobre outros homens. A conduta animal, as mudanças do clima, os terremotos e furacões, assim como uma infinidade de doenças, ainda resistem mais eficazmente ao controle humano do que a sociedade – qualquer sociedade – resiste às investidas de um grupo empenhado em sobmetê-la a domínio totalitário. A medicina tem menos poder de controle sobre o vírus da Aids

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ou sobre as doenças cardíacas do que Stálin teve sobre a população soviética ou Mao Dzedong sobre a chinesa. Segunda. Um dos mitos fundadores da nossa civilização é a crença de que os progressos da ciência e da tecnologia "aumentam o nosso poder sobre a natureza". Eles o fazem, sim, porém aumentam incomparavelmente mais o poder de uns homens sobre outros homens. Em primeiro lugar, porque só a parte menor e mais inofensiva dos avanços tecnológicos é posta à disposição direta das massas; os equipamentos mais nobres, sofisticados e perigosos ficam para uma minoria ínfima a serviço dos governos ou de grupos bilionários. Em segundo lugar, porque a própria tecnologia cria meios cada vez mais eficientes de controle social, dos quais a massa, na maioria dos casos, nem chega a tomar conhecimento. Terceira. Independentemente da variação dos meios de controle, a diferença de poder entre os indivíduos é uma das poucas constantes históricas jamais desmentidas pelos fatos. Ela é mesmo um traço diferencial da espécie h u m a n a . N en h u m t igre teve jamais o poder de trucidar milhões de tigres com a simples assinatura de uma ordem de serviço. O mais poderoso dos leões controla uma tribo de quarenta ou cinquenta membros, e mesmo assim seu poder de comando é diariamente contestado por desafiantes. Para ver quanto sua liderança é precária, não é preciso compará-la com a de um imperador romano ou de um tirano moderno: o cacique e o pajé são autoridades estáveis, vitalícias, com poder de vida e morte sobre qualquer membro da tribo. Não há fenômeno comparável em todo o reino animal. Com base nessas três observações, que tão logo enunciadas revelam sua obviedade, pode-se investigar o mais importante fenômeno da história política, que é a variação das diferenças de poder entre as elites dominantes e a multidão dos dominados. Essa variação resulta de diversos fatores, mas um deles está sempre presente: a posse dos meios materiais de controle sobre a multidão. No seu tratado clássico, Tragedy and Hope, o historiador americano Carroll Quigley analisa um desses meios, que é a posse das armas: "Quando as armas são baratas de comprar e tão fáceis de usar que qualquer um pode usá-las após um curto período de treinamento, os exércitos geralmente se compõem de massas de soldados amadores. A Era de Péricles na Grécia clássica e o século XIX na Civilização Ocidental foram épocas de 'armas de amador' e de cidadãos-soldados. Mas o século XIX foi precedido de uma época em que as armas eram caras e requeriam longo período de treinamento. Períodos de 'armas de especialista' são geral-


mente períodos de exércitos pequenos de soldados profissionais (usualmente mercenários). Num período de 'armas de especialista", a minoria que possui essas armas pode geralmente forçar à obediência a maioria que não as tem; portanto um período de 'armas de especialista' tende a dar surgimento a um período de domínio pelas minorias e de governo autoritário. Mas um período de 'armas de amador' é um período no qual todos os homens são mais ou menos iguais em poder militar, uma maioria pode forçar a minoria a se submeter, e então tende a surgir um governo de maioria ou mesmo democrático. O período medieval, no qual a melhor arma era geralmente um cavaleiro montado (claramente uma arma de especialista), foi um período de domínio da minoria e governo autoritário. Mesmo quando o cavaleiro medieval foi tornado obsoleto pela invenção da pólvora e pelo aparecimento das armas de fogo, estas novas armas eram tão caras e tão difíceis de usar (até 1800), que o domínio da minoria e o governo autoritário continuaram a existir... Mas, depois de 1800, as armas se tornaram

mais baratas e fáceis de manejar. Por volta de 1940 um Colt custava 27 dólares, um mosquete Springfield não mais que isso, e estas Divulgação eram armas tão boas quanto qualquer outra que se podia adquirir naquele tempo. Assim, exércitos de massa de cidadãos, equipados com essas armas baratas e fáceis de usar, começaram a substituir os exércitos profissionais, a partir de 1800 na Europa e mesmo antes disso na América. Ao mesmo tempo, o governo democrático começou a substituir os governos autoritários." Isso é de uma exatidão assustadora, mas as armas, com toda a evidência, não são os únicos instrumentos requeridos para o controle da sociedade. Elas só entram em linha de conta nos momentos de crise e violência. No restante do tempo, funcionam apenas como ameaças virtuais, que operam mais pelo seu valor simbólico que pela sua ação material. Mais decisivos são os meios de comunicação. É muito fácil repetir como um papagaio o lugar-comum de que "na Idade Média o Papa mandava na Europa". Mas, oito ou sete séculos atrás, um decreto papal levava meses ou anos para chegar a todos os membros do clero, tinha de ser enviado a cada cidade ou paróquia por um portador individual, numa época em que viajar pelas estradas, a pé, a cavalo ou de carruagem, era quase uma promessa de morte certa, ou pelo menos de assalto. Na verdade, o Papa não controlava nem mesmo a própria Igreja. Não tinha sequer o poder de nomear os

bispos, que eram escolhidos pelos governantes locais, em geral na base do mais descarado nepotismo. Foi só com a invenção da imprensa e o progresso dos correios (graças ao crescimento das burocracias estatais nacionais, que por outro lado eram focos de resistência à autoridade da Igreja) que o Papa conseguiu, sobretudo após o Concílio de Trento, nomear os bispos, impor ao clero alguma coerência doutrinal e transformar a Igreja na moderna estrutura centralizada que conhecemos (e que desde o Concílio Vaticano II está se desmantelando a olhos vistos). Isso é só um exemplo de quanto a visão popular da História é quase sempre um tecido de fantasias sem nenhuma conexão com a realidade. Mas às vezes a tendência à elucubração fantástica afeta os melhores cérebros, quando iludidos por ideias gerais que se sobrepõem à análise dos fatos concretos. De modo geral, todos os amantes da democracia padecem dessa enfermidade, quando acreditam que o processo histórico vai na direção da maior liberdade e de garantias cada vez mais efetivas para os direitos do cidadão. Sem contar o fato de que os benefícios da democracia ainda não se estenderam a dois terços da humanidade, o fato é que o movimento da História no Ocidente moder-

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no só vai no sentido da maior liberdade se o enxergamos exclusivamente desde o ponto de vista institucional e jurídico. Aí sim a maioria desarmada parece melhor defendida contra a prepotência dos poderosos do que o esteve em outras épocas. Mas, se examinamos o progresso dos meios materiais de ação e sobretudo de algumas ciências humanas como a psicologia das massas e a engenharia social, notamos duas realidades inegáveis, que geralmente escapam à observação popular: Primeira. O progresso da técnica colocou à disposição das elites dominantes novos meios de ação capazes de ampliar o seu poder até níveis que o mais ambicioso tirano da Antiguidade, da Idade Média ou de qualquer outra época anterior à nossa jamais teria ousado sonhar. Só para lhes dar um exemplo brutal, a totalidade da "grande mídia" americana pertence hoje a apenas seis grupos bilionários, de modo que o controle do fluxo de informações que chega ao público se tornou uma brincadeira de criança. O horizonte de visão da massa popular é hoje um produto industrial planejado e calculado – e isso não está acontecendo numa ditadura comunista, mas no país que se vê como o defensor e disseminador por excelência das liberdades democráticas. O poder que isso confere à elite é praticamente ilimitado. Uma das regras mais básicas do método historiográfico ensina que a difusão dos fatos é causa de novos fatos. Controlar o horizonte de visão é controlar a conduta política das massas. Um episódio recente pode

ilustrar este fenômeno com clareza máxima. Quando a campanha de Barack Hussein Obama acusou o candidato Mitt Romney de não ter apresentado ao público sua última declaração do imposto de renda, o fato foi alardeado em todos os grandes jornais e canais de TV, dissuadindo milhões de pessoas de votar no candidato republicano. Seu oponente, no entanto, mantém lacrados e secretos praticamente todos os seus documentos – certidão de nascimento, registros médicos, passaportes, histórico escolar, identidade previdenciária, etc, etc. O atual presidente, o homem mais famoso dos Estados Unidos, continua um perfeito desconhecido. Sua vida é um mistério. Sua biografia oficial é uma lenda, no sentido técnico que esta palavra tem nos serviços de inteligência: a construção de um personagem fictício para fins de desinformação geral. No entanto, como nenhuma palavra contra essa lenda se lê em toda a grande mídia, metade da nação continua aceitando a lenda como se fosse uma verdade de evangelho, e mostra sincera indignação quando alguém ousa perguntar sobre os documentos escondidos. Num recente programa de TV, um repórter, sem disfarçar uma ponta de irritação, perguntou a Donald Trump: "Afinal, por que o histórico escolar de Obama é tão importante que tenha de ser

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publicado?" A pergunta adequada seria exatamente o inverso: "Por que é tão importante que tenha de ser escondido?" Afinal, todos os antecessores de Obama nunca recusaram mostrar seus documentos ao público. Ele é o primeiro que os esconde. A anormalidade dessa conduta foi tão bem camuflada pela grande mídia, que, ao contrário, o desejo de saber de Obama aquilo que sempre se soube de todos os outros presidentes é que começou a parecer anormal, doentio, paranoico. É evidente que o controle de informações não tem de ser completo e abrangente, como o é nas ditaduras totalitárias em que os meios de comunicação são propriedade do Estado. Basta, para os fins imediatos da política, um controle por média estatística, soberanamente indiferente aos vazamentos das informações indesejadas por meios de comunicação minoritários e politicamente inócuos. Desse modo, a persistência das instituições democráticas formais torna-se perfeitamente compatível com a supressão dos meios de exercer um direito democrático fundamental, que é o de votar sabendo em quem se vota. Segunda. A clássica expressão de Alain, le citoyen contre les pouvoirs, que resume o ideal das lutas democráticas, é usualmente interpretada no sentido da rebelião libertária contra o poder estatal. Um liberal de quatro costados como José Ortega y Gasset proclamava, nos anos 30: "El mayor enemigo, el Estado". Acontece que, nas condições da moderna sociedade, os centros decisivos do poder nem sempre coincidem com o Estado. Às vezes transcendem as fronteiras nacionais e usam os Estados como seu instrumento e camufla-

gem. Um exemplo trágico é a história do anticomunismo americano. Seguindo meio às tontas a doutrina Morgenthau, de que os agentes essenciais do cenário politico mundial são os Estados, aquele movimento só combatia a ação comunista quando enxergava nela uma vinculação direta entre o agente e o governo soviético ou chinês. Todo o restante da "esquerda" parecia-lhe expressão inocente de um "progressismo" espontâneo, livre de contaminação comunista. Isso estaria certo se, desde os anos 50, o governo soviético já não estivesse preparando a grande transmutação do movimento comunista mundial que viria a marcar, em todo o planeta, a história das décadas seguintes. Refiro-me à dissolução da rígida estrutura hierárquica nos partidos comunistas e sua substituição pela organização mais flexível em "redes", mais unificadas pela hegemonia cultural do que por uma linha formal de comando. Essa mutação permitiu que o movimento comunista, agora sob múltiplas identidades, não só sobrevivesse à queda da URSS, mas crescesse formidavelmente em todo o mundo, contra todas as previsões de liberais, conservadores e


anticomunistas em geral. Na verdade, o movimento comunista nunca foi apenas um "braço da URSS": ele antecedeu a URSS, ele a criou, ele a desfez e ele a está refazendo. Mas o "movimento comunista" não é, em si, um poder estatal. Também não o são os grandes grupos globalistas bilionários que desde o início do século XX lutam pelo estabelecimento mundial de um tipo de socialismo brando, de inspiração fabiana, a ser implantado por via burocrática e não revolucionária. Apóstolos do socialismo fabiano ocupam hoje posições de comando em todos os governos e partidos políticos do Ocidente, inclusive os mais "conservadores". Também não é um poder estatal a religião islâmica, que hoje se afirma como um dos fatores mais influentes e decisivos. O analista político treinado para pensar em termos de

Estados, governos, leis, instituições, partidos, etc., não pode enxergar nunca, ao menos com clareza, essas novas estruturas de poder que estão moldando a história do mundo ante os olhos cegos da multidão. É também certo que, nessa ordem de investigações, é vital ter sempre em mente a distinção, que Georg Jellinek considerava a mais importante no estudo da política, entre os processos histórico-sociais que expressam um plano deliberado e os que resultam da combinação fortuita de ações separadas e inconexas. É natural que planos de longuíssimo prazo, como os do socialismo fabiano e os da islamização global, surjam à superfície da sociedade sob a forma de fatos inconexos e espontâneos, que o observador vulgar tenderá a explicar por generalizações pseudo-sociológicas em vez de buscar-lhes a unidade profunda e as concepções estratégicas originárias. É também compreensível que investigadores ousados, mas sem o devido preparo científico, se sintam assustados quando per-

cebem algo dessa unidade e entrem em especulações fantasiosas sobre "poderes secretos", que em geral não são secretos de maneira alguma, apenas demasiado highbrow para a média da compreensão jornalística. Isso inclui os próprios serviços secretos dos diversos governos, cujos segredos acabam quase sempre sendo relevados, porém tarde demais para que o observador vulgar junte as pontas e apreenda a unidade estratégica por trás de acontecimentos que lhe parecem não ter conexão alguma. Em todo esse universo de fatos e investigações, o analista precisa de alguma habilidade para equilibrar-se na corda bamba entre os dois extremos da estupidez jornalística imperante: a "teoria da conspiração", que só acredita em agentes invisíveis onipotentes, e a "teoria da pura coincidência", que só acredita em ações sem agente nenhum. Um dos objetivos constantes da minha colaboração no Diário do Comércio tem sido, justamente, o de chamar a atenção dos leitores para esses aspectos que, por trás da "política" em sentido banal, são os decisivos para a compreensão do atual processo histórico. Sem nenhuma presunção, acredito que o sucesso dos meus artigos se deva ao fato de que os leitores sentem neles algum sabor de realidade. Ao conceder-me a honra desta coletânea, a Associação Comercial de São Paulo mostra que seus membros têm amor à investigação dos fatos e ao esforço de compreensão, mais do que ao culto usual das miudezas "políticas" de que se ocupa a mídia popular. É para mim um grande prazer poder escrever para um público inteligente, que deseja conhe-

cimento e não diversões anestésicas. Agradeço, nesta oportunidade, a Rogério Amato, a Guilherme Afif Domingos, a Moisés Rabinovici, a Marcel Solimeo, a Carlos Ossamu, a Vilma Pavani e a todos os que, no Diário e no Digesto, têm sabido compreender a boa intenção dos meus esforços e perdoar alguma falha nos resultados. P. S. - Não posso encerrar este prefácio sem um depoimento pessoal. Já faz sete anos que escrevo semanalmente para o Diário do Comércio e de vez em quando para o Digesto Econômico. Ao longo de todo esse tempo, jamais me veio de algum diretor do jornal, da revista ou da Associação Comercial de São Paulo qualquer insinuação, por mínima e sutil que fosse, quanto ao que eu deveria dizer ou calar. Numa época em que tantos comentaristas de mídia se tornaram porta-vozes de interesses partidários, de grupos de pressão ou mesmo de agências políticas internacionais, poder expressar meus próprios pontos de vista sem interferências é um raro privilégio. Olavo de Carvalho

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POLÍTICA NACIONAL

O Foro de São Paulo, versão anestésica

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epois de esconder por dezesseis anos a existência da gado. E não vem por via de nenhum jornaleco de partido, de mais poderosa entidade política latino-americana, nenhum panfleto petista. Vem pela Folha de São Paulo, pelo a mídia chique deste País, vencida pela irrefreável Globo, pelo Estadão, pelo jornal Valor – os órgãos da burguesia divulgação dos fatos na internet, trata agora de disreacionária, segundo o site oficial do PT. farçar, como pode, o mais torpe e criminoso vexame jornalísQue é que posso concluir disso, objetivamente, senão que a tico de todos os tempos. O expediente que usa para isso é ainda esquerda radical conseguiu impor à grande mídia a sua escala mais depravado: caluniar, difamar, sujar a reputação daqueles de mensuração ideológica e o correspondente vocabulário, poucos que honraram os deveres do jornalismo enquanto ela agora aceitos como opinião centrista, equilibrada, mainsnão se ocupava senão de prostituir-se, vendendo silêncio em tream, enquanto as opiniões que eram da própria grande mítroca de verbas estatais de propaganda. dia ontem ou anteontem já não podem ser exibidas ante o púEnvergonhada de si mesma, ela não tem nem a dignidade de blico, porque se tornaram politicamente incorretas? citar nominalmente essas honrosas exceções. Será extremismo de direita concluir que o eiDesigna-as impessoalmente, fingindo supexo, o centro, se deslocou vertiginosamente para rioridade, mediante pejorativos genéricos. O a esquerda, criminalizando tudo o que esteja à mais comum é "radicais de direita". Encontro-o direita dele próprio? Será extremismo de direita de novo no artigo "Os limites de uma onda esconcluir que a única direita admitida como dequerdista", assinado por César Felício no jornal cente na mídia chique é o tucanismo – abortista, Valor no último dia 12. gayzista, quotista racial, desarmamentista, poO autor é uma nulidade absoluta, e eu jamais liticamente corretíssimo, padrinho do MST e fiComo é possível que comentaria uma só linha da sua fabricação se as liado à internacional socialista, além de bettista encontros esquerdistas nulidades não se tivessem tornado, num jornae boffista, quando não abertamente anticristão? anuais repetidos ao lismo de ocultação, os profissionais mais necesSerá extremismo direitista notar que o traço longo de uma década e sários e bem cotados. Por favor, não me acusem mais saliente dessa direita bem comportadinha meia, com centenas de de caçar mosquitos. Compreendam o meu draé a abstinência radical de qualquer veleidade ma: nas presentes circunstâncias, a recusa de faanticomunista? Será extremismo de direita enparticipantes, entre os lar de nulidades me deixaria totalmente desprotender que esse fenômeno é a manifestação litequais vários chefes de vido de material nacional para esta coluna. ral e exata da hegemonia, tal como definida por Estado, não chamem A primeira coisa que tenho a dizer a esse moAntonio Gramsci? Será extremismo de direita atenção, exceto de leque é bem simples: Radical de direita é a vó. concluir que o establishment midiático deste radicais de direita? Antigamente, chamava-se por esse qualificatiPaís é, no seu conjunto, um órgão da esquerda vo o sujeito que advogasse a matança sistemámilitante mesmo nos seus momentos de supertica de comunistas, como os comunistas advoficial irritação antipetista, quando jamais profegam e praticam a matança sistemática de populações inteiras. riu contra o partido dominante uma só crítica que não viesse de Hoje em dia, para ser carimbado como tal, basta você ser contra dentro da esquerda mesma e que não fosse previamente expuro aborto ou o casamento gay. Basta você achar que o Foro de São gada de qualquer vestígio de conteúdo ideológico direitista? Paulo existe e é perigoso. Basta você fazer as contas e notar que Qualquer pessoa intelectualmente honesta sabe que um juícentenas de prisioneiros morreram de tortura na Guantanamo zo de fato não pode ser derrubado mediante rotulação infacubana e nenhum na americana. Basta você apelar à matemámante. Tem de ser impugnado pelo desmentido dos fatos. Se tica elementar e concluir que a guerra do Iraque matou muito quiser rotulá-lo, faça-o depois de provar que é falso. Não antes. menos gente do que o regime de Saddam Hussein sob os olhos Não em substituição ao desmentido. Ora, o tal Felício, em vez complacentes da ONU. Se você incorre em qualquer desses pede desmentido, fornece uma brutal confirmação. Vejam só: cados mortais, lá vem o rótulo infamante grudar-se na sua pes"O grupo que se reúne a partir de hoje em San Salvador... atensoa indelevelmente, como marca de escravo fujão ou ferrete de de pelo nome de 'Foro de São Paulo' e nasceu sob o patrocínio do

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Corbis

PT, em 1990. Os encontros anuais não costumam chamar muita atenção, a não ser de certos radicais de direita no Brasil." Ora, como é possível que encontros esquerdistas anuais repetidos ao longo de uma década e meia, com centenas de participantes, entre os quais vários chefes de Estado, não chamem atenção, exceto de radicais de direita? Ninguém na esquerda prestou atenção ao Foro de São Paulo? O sr. Lula fez um discurso presidencial inteiro a respeito sem prestar a mínima atenção à entidade da qual falava? Antes disso, quando presidia pessoalmente as sessões da entidade até 2002, não lhes prestou nenhuma atenção? Entrava em transe hipnótico e balbuciava mensagens do além, sem se lembrar de nada ao despertar? Os jornalistas de esquerda que, às dezenas, compareceram aos debates, foram lá por pura desatenção, dormiram durante as assembleias e voltaram para casa sem coisa nenhuma para contar? O sr. Bernardo Kucinsky, um dos fundadores da entidade, que emocionado assistiu ao nascimento dela num encontro entre Fidel Castro e Lula, não prestou a mínima atenção àquele momento supremo da sua vida de militante esquerdista? Pago com dinheiro público para relatar aos eleitores os atos presidenciais, calou-se por mera distração, e também por mera distração guardou os fatos para contá-los depois no seu livro de memórias, onde só os colocou porque não tinham a mínima importância? Ora, menino bobo, você não sabe a diferença entre a desatenção e a atenção extrema acompanhada de um propósito deliberado de ocultar? Que você seja desprovido do senso da verdade, vá lá. Sem isso não se sobe no jornalismo brasileiro. Mas será que você precisa também desprover-se do senso do ridículo ao ponto de tentar minimizar a importância do Foro e logo em seguida,

citando documento oficial da entidade, alardear que "na primeira reunião do grupo, em 1990, os integrantes estavam no governo em um único país: Cuba. Hoje desfrutam o poder na Venezuela, Brasil, Bolívia, Nicarágua, Argentina, Chile, Uruguai e Equador"? Você acha mesmo que a organização que planejou e dirigiu a mais espetacular e avassaladora expansão esquerdista já observada no continente é um nada, um nadinha, no qual só radicais de direita ou teóricos da conspiração poderiam enxergar alguma coisa? Na verdade, o próprio Felício enxerga ali alguma coisa. Ele cita o documento oficial: "Passamos a controlar uma cota de poder, mas as outras cotas continuam sob controle das classes dominantes. Os chamados mercados, as grandes empresas de comunicação, os setores da alta burocracia do Estado, os comandos centrais das Forças Armadas, os poderes Legislativo e Judiciário, além da influência dos governos estrangeiros, competem com o poder que possuímos." Ou seja: a entidade que já domina os governos de nove países não admite, não suporta, não tolera que parcela alguma de poder, por mais mínima que seja, esteja fora de suas mãos. Nem mesmo as empresas de comunicação e o Judiciário, sem cuja liberdade a democracia não sobrevive um só minuto. Com a maior naturalidade, como se fosse uma herança divina inerente à sua essência, o Foro de São Paulo, com a aprovação risonha do nosso partido governante, reivindica o poder ditatorial sobre todo o continente. Felício lê esse documento assim: "Os limites a um poder absoluto parecem incomodar os participantes do encontro." Parecem, apenas parecem. Quem ficaria alarmado com aparências, senão radicais de direita? Afinal, eles vivem enxergando

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comunistas embaixo da cama, não é mesmo? Para tranquilizar a população, Felício trata de lhe mostrar que no Foro não há socialismo nenhum, apenas o bom e velho populismo nacionalista, tão difamado pelos agentes do imperialismo. "Um mesmo discurso estava presente na oposição a Perón e a Getúlio nos anos 40 e 50. Reapareceu, quase igual, no tipo de ataque recebido ano passado por Lopez Obrador no México e Evo Morales na Bolívia." A circunstância de que, ludibriados por milhares de Felícios, até membros da oposição temam dar nome aos bois, preferindo falar de "populismo" em vez de comunismo, é usada como prova de que o Foro não é uma organização comunista. O fato é que as ideias e as pessoas dos velhos populistas jamais aparecem citadas nos documentos do Foro como exemplos a ser imitados. Ao contráSegundo pesquisa rio, os apelos à tradição revoluda Folha de São cionária comunista ressurgem a cada linha, com todos os seus Paulo, a opinião heróis e símbolos, com todos os majoritária dos cacoetes linguísticos medobrasileiros é nhos do jargão marxista-leniacentuadamente nista mais típico e obstinado, conservadora. acompanhados da declaração explícita, infindavelmente repetida, de que a meta é o socialismo. Mas, decerto, todos os participantes do Foro, todos aqueles tarimbados militantes revolucionários treinados em Cuba, na China e na antiga URSS, estão equivocados quanto à sua própria ideologia e metas. Eles apenas pensam que são comunistas, socialistas, marxistas. Felício é quem, penetrando com seus olhos de raios-x no fundo das almas deles, sabe que não são nada disso. São getulistas que se ignoram. A prova? Ele não se recusa a fornecê-la. É esta: "Antes de ser uma verdadeira marcha ao socialismo, a ofensiva de Chávez... sugere a coroação de um processo de concentração de poder ". Entenderam a lógica profunda? Se é concentração de poder, não é socialismo. Pena que ninguém avisou disso Marx, Lênin, Stálin, Mao, Fidel e Che Guevara. Todos eles sempre entenderam, ao contrário, que a concentração de poder é a única via para o socialismo, é a essência mesma do processo revolucionário. Mas talvez estivessem enganados, tanto quanto a turminha do Foro. Quem entende do negócio é César Felício. No tempo em que havia jornalismo no Brasil, um sujeito como esse não seria designado para cobrir nem partida de futebol de botão. Hoje ele é uma espécie de modelo, reproduzido às centenas em todas as redações. O resultado é óbvio. Faça um teste. Segundo pesquisa da Folha de São Paulo, a opinião majoritária dos brasileiros é acentuadamente conservadora. É contra o casamento gay, contra o aborto, contra as quotas raciais, contra o desarmamento civil. É contra tudo o que os Felícios amam. É até a favor da pena de morte para crimes hediondos. E confia infinitamente mais nas Forças Armadas do que na classe jornalística que as difama sem cessar. Quantos jornalistas, nas redações das empresas jornalísticas de

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grande porte, se alinham com essa opinião majoritária? Não fiz nenhuma enquete, mas, por experiência pessoal, afirmo: poucos ou nenhum. A leitura diária dos jornais confirma isso da maneira mais patente. A opinião pública brasileira não é refletida nem representada pela grande mídia. Não tem direito a voz, a não ser por exceção raríssima concedida a algum colaborador ocasional só para depois ser exibida como exemplo de aberração extremista, felizmente compensada pela pletora de articulistas serenos, normais e equilibrados, que igualam George W. Bush a Hitler e Abu-Ghraib a Auschwitz. A ideia mesma de que uma mídia só pode ser equilibrada quando reflete proporcionalmente a divisão das correntes de opinião no País já desapareceu por completo da memória nacional. O simples ato de enunciá-la tornou-se prova de direitismo radical. Resultado: a elite microscópica de tagarelas esquerdistas que domina as redações (não mais de duas mil pessoas) se permite tomar a sua própria opinião como medida da normalidade humana, condenando como patológicas e virtualmente criminosas as preferências gerais da nação. Quem se coloca em tais alturas está automaticamente liberado de prestar quaisquer satisfações à realidade. Não quer conhecê-la, quer transformá-la. Para transformá-la, não é preciso mostrar os fatos às pessoas: é preciso alimentá-las de crenças imbecis que as induzam a se comportar da maneira mais adequada para favorecer a transformação. Da classe empresarial que lê o jornal Valor, que é que se espera? Que permaneça idiotizada e passiva, embriagada de falsa segurança, incapaz de mobilizar-se em tempo para se opor à onda revolucionária que vai submergindo o continente. Foi para isso que os Felícios lhe negaram por dezesseis anos o conhecimento do Foro de São Paulo. É para isso que, hoje, não podendo mais levar adiante a operação-sumiço, apelam à operação-anestesia, chamando-a, cinicamente, de jornalismo. E são pagos para fazer isso pelos próprios empresários de mídia, aqueles mesmos cujas empresas o Foro de São Paulo promete calar ou expropriar junto com todos os demais instrumentos de exercício da liberdade, num futuro mais breve do que todos imaginam. P. S. - Mal saiu o artigo da semana passada, começaram a chover na minha caixa postal mensagens de amigos protestantes que reclamavam de eu haver incluído John Wycliff entre os pioneiros das ideologias revolucionárias. Eu não me lembrava de ter escrito nada de John Wycliff, mas, quando fui ver, notei, horrorizado, que o nome dele estava mesmo lá, em lugar do de John Knox, este sim um revolucionário. Peço desculpas a todos por essa distração lamentável.

Diário do Comércio, 15 de janeiro de 2007


O mistério da KGB mental brasileira

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rinta anos atrás, nenhum intelectual, político ou líder empresarial brasileiro seria cretino o bastante para aceitar a mídia popular como sua principal fonte de informações. A base da nossa dieta de fatos eram os livros, as revistas especializadas, as investigações diretas em arquivos e documentos. Os jornais eram apenas artigo de consumo, material secundário de valor relativo ou duvidoso. Rádio só servia para a previsão do tempo. Televisão era para empregadinhas domésticas. No mínimo, havia sempre a diferença entre informação genuína e sua versão pasteurizada para o gosto do povão. Hoje, fico besta de ver a confiança total, a credulidade beócia com que homens letrados de primeiro escalão tomam os jornais e a TV como base de sua visão do mundo, chegando a pôr em dúvida qualquer dado de fonte primária que não tenha sido referendado pela Folha ou pelo Jornal Nacional. Uma vez, discutindo com um militar de alta patente que, para cúmulo, tinha sido oficial de informações, lhe perguntei se tinha lido tais ou quais livros, básicos para o assunto que estávamos debatendo. Não, ele não lera nenhum. "Então de onde o senhor tira suas informações?", perguntei. E ele, com a cara mais bisonha: "Eu leio jornal, uai." Uai digo eu. Sou mesmo o remanescente de uma raça extinta. Não é à toa que o meu nome, de origem norueguesa, quer dizer "sobrevivente". Com frequência sinto que já morri, que minha alma atravessou os mundos, que voltei do além e estou tentando conversar com indiozinhos recém-nascidos, ainda perdidos no seu acanhado ambiente terrestre, persuadidos de que a floresta é o cosmos. Quando você abre a seção de opiniões de um jornal, ou mesmo a parte cultural, não encontra nada ali que não seja a tradução, em ideias – ou arremedos de ideias –, do universo de fatos que consta das páginas noticio-

sas do mesmo jornal; e, quando lê as notícias, elas confirmam essas mesmas opiniões. Nas universidades, nas entrevistas de TV, nos debates do Parlamento, nada se ouve que não seja a ampliação, ou melhor, o inchaço vegetativo desse material. É tudo uma redundância perfeita, circular, fechada, repetitiva e eternamente autofágica. Qualquer novidade autêntica, qualquer elemento de fora que ali se introduza é expelido por um batalhão de anticorpos que o devolvem às trevas da inexistência. Ninguém sabe de nada que os outros já não saibam. Ninguém diz nada que os outros já não tenham dito ou estejam ansiosos para dizer. Curiosamente, para quem vive dentro dessa atmosfera, a rarefação mesma do seu conteúdo é fonte de uma tremenda sensação de segurança. A ignorância geral confirma as ignorâncias individuais, que por sua vez a confirmam de volta, produzindo uma impressão de generalizada onissapiência. Daí esse fenômeno impressionante, tipicamente brasileiro, do qual não se encontra similar no mundo: o intelectual acadêmico radicalmente apedeuta, semianalfabeto, ignorante até do idioma, que é consultado sobre mil e um assuntos, faz discípulos e se torna uma referência indispensável, um maître à penser, um guru. É claro que as coisas se passam de modo diverso nos EUA. Aqui as revistas de opinião e análise são tantas que até os comentaristas de TV têm de se manter mais ou menos no nível delas ou ser desmoralizados pelo primeiro entrevistado. E mesmo os políticos que têm interesse em reforçar o prestígio da grande mídia para ser em troca reforçados por ela sabem que é tudo um teatro. Uma coisa é gostar de aparecer no New York Times, outra coisa é tomar decisões com base no que ele publica. E a fiscalização em cima da grande mídia é tão cerrada, que ninguém acima do nível médio da população vai acre-

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ditar no que sai num jornal ou noticiário de TV sem primeiro conferir a palavra dele com a de seus respectivos sites de media watch. O decréscimo irrefreável na tiragem dos grandes jornais, paralelo ao crescimento do jornalismo eletrônico, não reflete só uma mudança tecnológica, mas a preferência inevitável dada ao meio que permite a mais rápida comparação de uma variedade de fontes e suas respectivas análises. Na tela do computador você pode ler uma notícia em quinze versões diferentes em questão de minutos. Nem mesmo a televisão permite isso: os noticiários televisivos não são sincronizados, e quando o são você não pode assistir a vários deles ao mesmo tempo sem perder nada. No computador você vai e volta entre dez, vinte, trinta páginas de notícias, captando rapidamente a pluralidade das versões e dos enfoques. Daí a tendência da mídia impressa de apostar cada vez mais nos artigos longos, de análise, cuja leitura é mais fácil no papel do que na tela (o que não impede que sejam também reproduzidos simultaneamente na internet), ou então nas colunas diárias, ou semidiárias, onde o leitor se acostuma à voz e ao tom dos seus articulistas preferidos (digo voz porque muitas colunas são lidas também no rádio). E esses colunistas são em geral ótimos, dominadores perfeitos da língua inglesa, escritores na acepção plena do termo, sempre trazendo alguma novidade que pelo menos infunde vida na discussão geral. No Brasil, ao contrário, estes artigos de página inteira do Diário do Comércio são exceções notáveis. No geral predomina cada vez mais o jornalismo em pílulas, fragmentos minimalistas comprimidos nas dimensões apropriadas a um público para o qual a leitura é um suplício (e do qual o modelo supremo, declarado e confesso, é o próprio presidente da República). Nesse recinto exíguo, não há espaço para você provar nada – o máximo que se pode é resumir uma opinião solta, isolada, desprovida da menor justificação: acho isto, acho aquilo, gosto de tal coisa, odeio tal

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outra. E ponto final. A ideia de demonstração, de investigação, de prova e contraprova, já desapareceu da cabeça do público ao ponto de qualquer tentativa de argumento mais longo parecer embromação ou pedantismo. Quando se contesta alguma coisa, são apenas preferências, um "adoro" oposto a um "abomino" ou vice-versa, ou então pontos de detalhe, sem relevância para a discussão central. Aliás, não há nenhuma discussão central. O que há é apenas troca de afeições e desafeições na periferia do mundo. O pior é que, quando tento explicar isso aos americanos, eles não entendem. Eles só concebem duas coisas: ou uma mídia amputada, manietada e uniformizada pela censura oficial, ou a profusão variada de pontos-de-vista que se vê numa democracia normal. Não atinam que num país possa haver tantos jornais, tantas revistas, tantos canais de TV, tantas universidades, tantos sites de jornalismo eletrônico, e nenhuma discussão efetiva. Quando digo que no Brasil não só a opinião divergente é marginalizada, mas as provas que fundamentam a divergência são expulsas da discussão, eles me perguntam se há uma KGB controlando tudo. Quando informo que não, eles já não sabem mais do que estou falando. O puro poder da burrice, a ditadura espontânea da ignorância autossatisfeita, está aquém da sua imaginação. A KGB mental brasileira não pode existir no mundo conhecido: só no planeta Brasil. É um mistério cósmico incompreensível. A Folha de S. Paulo é um gordo panfleto pró-comunista, mentiroso até à alucinação. Só leio essa porcaria para avaliar diariamente os progressos da mendacidade nacional, o crescimento canceroso da sem-vergonhice intelectual brasileira. Quando esse jornal choraminga que seus direitos foram violados por agentes do governo, ele se esquece de todos os serviços que ele próprio vem prestando à instalação de uma ditadura comunista no País, mediante a difamação incessante de todo anticomunismo e a omissão sistemática de notícias que possam levar o leitor a perceber as coisas com suas devidas proporções. O sr. Otávio Frias Filho parece querer o comunismo para todo mundo e o capitalismo só para ele. Talvez ache possível tornar comunista o Brasil inteiro e con-


Na lista dos esquerdistas, não faz a distinção entre os que morreram em tiroteios, em acidentes ou assassinados nas prisões, dando portanto a impressão de que todos foram objetos inermes da violência estatal.

servar uma ilha de liberdade de mercado na Alameda Barão de Limeira. Várias vezes por semana, seu jornal feito por e para meninos pó-de-arroz vem com algum novo escândalo antimilitar ou antiamericano. Sempre e invariavelmente é mentira. Ou é mentira substantiva, alteração material dos fatos, ou é mentira qualitativa, isto é, modificação das proporções e perspectivas. Neste último caso está a notícia alardeada naquele tom de indignação que já se tornou no Brasil a carteirinha oficial do sindicato dos virtuosos: "Documentos secretos da diplomacia americana só agora revelados mostram que o governo Richard Nixon (1969-74) sabia da tortura no Brasil em 1973-74. O embaixador dos EUA em Brasília, John Crimmins, sugeriu que Nixon não cortasse créditos ao Brasil como retaliação aos abusos. Isso poderia atrapalhar a estratégia de 'influenciar a política brasileira' e a venda de armas ao País. O embaixador... recomendou que o governo Nixon não usasse contra o governo brasileiro o art. 32 da Lei de Assistência ao Estrangeiro, embora o próprio relatório reconhecesse que isso era legalmente possível. Por essa regra, os EUA poderiam cortar créditos financeiros ao Brasil em retaliação a supostos abusos contra direitos humanos... A pressão americana contrária aos abusos só passou a ocorrer na administração de Jimmy Carter (1977-1981)." [Cf. http://www1.folha.uol. com.br/fsp/brasil/fc1401200706.htm .] Quer dizer: o malvado governo americano poderia amarrar as mãos dos torturadores brasileiros, mas se recusou a fazê-lo porque estava mais interessado em ganhar dinheiro vendendo armas para eles. Para começar, a Folha assume como verdade objetiva os números fornecidos pelas entidades prócomunistas (376 mortos), mas atribui aos "críticos dos grupos de esquerda" a contagem das vítimas do terrorismo. E fornece o número total dos comunistas mortos ao longo de todo o tempo da ditadura, mas para a contagem de suas vítimas em 1974, ob-

tendo 119 cadáveres. Na lista dos esquerdistas, não faz a distinção entre os que morreram em tiroteios, em acidentes ou assassinados nas prisões, dando portanto a impressão de que todos foram objetos inermes da violência estatal. Ao falar das vítimas dos comunistas, nem de longe menciona casos como o do tenente Alberto Mendes Júnior e dos militantes condenados como 'traidores', que morreram amarrados. A impressão que fica é que jovens idealistas de esquerda lutavam nas ruas, de peito aberto, enquanto o governo covarde, escondido em porões sinistros, se ocupava sobretudo de maltratar gente desarmada. Isso não é jornalismo: é novela da Globo, é construção ficcional, é mito. Como invariavelmente acontece, as instituições fornecedoras de dados sobre os mortos da ditadura são apresentadas como entidades religiosas, culturais ou de direitos humanos, sem qualquer alusão à sua identidade ideológica, mesmo quando são abertamente partidárias e militantes, ao passo que as fontes de informações sobre vítimas do terrorismo são mostradas pela cor ideológica, mesmo quando não têm nenhuma atividade política. O leitor sai acreditando que tudo o que se diz contra a ditadura vem de fontes neutras, imparciais e idôneas, ao passo que toda acusação aos comunistas vem com a marca do viés ideológico. É a exata inversão da realidade. A avaliação quantitativa também é sempre errada. À luz do senso das proporções, 376 baixas ao longo de vinte anos de combates com um governo militar num país de extensões continentais são um número incrivelmente modesto, não só em comparação com qualquer guerrilha do mundo, mas em comparação com a repressão cubana à população desarmada. Fidel Castro matava essa quantidade de pessoas a cada dois meses, aliás com a ajuda dos terroristas brasileiros, que nunca viram nisso nada de mau. Não convém esquecer que a ditadura nacional não fez mais de dois mil prisioneiros políticos ao longo de duas décadas, enquanto Cuba, com uma população muito menor que a do Brasil, chegou a ter cem mil simultaneamente. Antes de fingir escândalo ante os números da repressão no Brasil, a Folha deveria considerar a alternativa que os terroristas ofereciam. A alternativa democrática inexistia. A luta era entre a ditadura mais sanguinária do continente, que financiava e coordenava as guerrilhas desde Havana, e um governo autoritário improvisado para deter, com a menor violência possível, a ascensão comunista decidida a matar um número ilimitado de pessoas "hasta la victoria siempre". A matéria também não fornece os pontos de comparação necessários para dar aos fatos a sua significação devida. Os EUA jamais cortaram créditos para a URSS ou a China, onde os prisioneiros desarmados que sofriam tortura e homicídio estatal se contavam aos milhões. Por que deveria fazê-lo no

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caso de um país onde as supostas vígrande valor comercial para os EUA, ao ponto de detimas não passavam de algumas determinar decisões diplomáticas por mero desejo de dizenas, sendo a quase totalidade deles nheiro. Esse comércio era importante porque, àquela terroristas surpreendidos em plena altura, era o último ponto de contato onde o governo ação homicida? americano e os militares brasiA perspectiva histórica dos fatos leiros tinham interesses cotambém é totalmente falsificada. A muns, sendo absolutamenimpressão transmitida ao leitor é te necessário preservá-lo coque o governo de Washington, conmo base para uma possível trolador onipotente da ditadura brareconstrução das boas relasileira, não fez o que podia para reções entre os dois países. frear a violência de seus paus manQualquer embaixador com QI Por iniciativa do dados locais, prontos a ceder à prisuperior a 12 recomendaria a seu chanceler Azeredo meira ameaça de sanções comerciais. governo o que Crimmins recomendou a Na verdade, o prestígio americano Nixon. Tentar enxergar aí motivos de da Silveira, um ante o governo de Brasília estava cobiça é malícia pueril, o equivalente esquerdista histórico, num dos pontos mais baixos da sua folhístico da inteligência. os altos postos do história. Por iniciativa do chanceler E Jimmy Carter não pressionou as Itamaraty foram Azeredo da Silveira, um esquerdista autoridades brasileira por estar sincetodos preenchidos histórico, os altos postos do Itamararamente preocupado com os direitos ty foram todos preenchidos por simhumanos. Ele sempre foi um protetor por simpatizantes patizantes comunistas – logo apelide ditadores comunistas sanguinários. comunistas. dados significativamente de "barbuO que ele quis impedir foi a total derdinhos" pelos seus colegas, numa rota da guerrilha latino-americana, alusão direta à pletora de barbas por que, graças a ele, sobreviveu ao períofazer na elite revolucionária cubana. O presidente do de repressão e floresceu ilimitadamente nas décaGeisel, ansioso por marcar uma diferença, tendia nidas seguintes, acabando por criar a maior força militar tidamente a uma politica terceiromundista e antiamelatino-americana e elevar-se à condição de dominadoricana, aproximando-se da China, dando preferência ra monopolística do tráfico de drogas no continente à Alemanha como fornecedora de materiais para a com a ajuda do Plano Colômbia de Bill Clinton. construção da malfadada usina nuclear de Angra dos Reis e, para cúmulo, fornecendo armas e dinheiro para ajudar Cuba a invadir Angola – a decisão mais hostil aos EUA já tomada por um presidente brasileiro antes ou depois disso, perto da qual as bravatas "nacionalistas" de Jânio Quadros e João Goulart se reduzem a meros puns diplomáticos. Sanções comerciais, àquela altura, soariam como provocações intoleráveis. Longe de refrear a violência estatal, só criariam ainda mais hostilidade para com os EUA. Nenhum governo do mundo correria esse risco para defender algumas dúzias de indivíduos, aliás seus inimigos. A impressão de escândalo moral que a Folha quer criar em torno das mensagens do embaixador Crimmins é inteiramente forçada e artificiosa. Quanto à venda de armas para o Brasil, que a Folha apresenta como o motivo interesseiro por trás da decisão americana de não interferir na situação local, é Diário do Comércio, preciso ser muito idiota para acreditar que ela tivesse 22 de janeiro de 2007

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A direita a serviço da esquerda

entre as muitas coisas verdadeiras ditas pelo sr. Fernando Henrique Cardoso entre uma mentira e outra, esta merece a maior atenção: "Não existe direita no Brasil, no sentido clássico do conceito... O pensamento conservador filia-se a uma tradição ocidental que estabelece como pilares da ordem a família, a propriedade, os costumes. O nosso conservadorismo não é nada disso. Tem a ver com clientelismo, patrimonialismo, uso indevido dos recursos do Estado. Ele não é composto de um ideário, e sim de aproveitadores. Por que a 'direita', no Brasil, apoia todos os governos, não importa qual? Na história recente, ela apoiou os militares, apoiou o Sarney, apoiou o Collor, apoiou a mim, apoia o Lula. Porque seus integrantes não são de direita. Essa gente toda só quer estar perto do Estado, tirar vantagens dele." Só faltou ele acrescentar – e por isso acrescento eu – que esse é o mais grave problema do Brasil. Desde logo, só a economia capitalista pode gerar prosperidade, mas o sucesso dessa economia depende diretamente da conduta da classe capitalista. Ora, é precisamente a essa classe que o ex-presidente se refere. Se ela própria insiste em se tornar dependente do Estado, por interesses imediatistas e pela relutância covarde em se expor plenamente aos riscos da livre concorrência, ela condena o capitalismo brasileiro à atrofia perpétua. Não tem sentido um sujeito prosternar-se ante a autoridade governamental e depois reclamar que ela o oprime com sobrecarga de impostos e de exigências burocráticas. Se você quer independência, tem de agir com independência. No Brasil, os ricos gritam "Enxuguem o Estado!", mas querem continuar nadando na piscina das verbas oficiais. Assim não dá. Mas os efeitos da subserviência capitalista ao Estado vão muito além da esfera econômica. O exemplo da classe rica se propaga por toda a população e a corrompe, fazendo de cada cidadão um virtual pedinte de dinheiro público. O brasileiro não sonha em enriquecer com trabalho, poupança e investimento, mas em chegar o mais rápido possível à aposentadoria. E ele não pensa assim por ser preguiçoso, mas porque sua poupança é comida pelos impostos e a única forma de investimento que resta ao seu alcance são as contribuições previdenciárias. O Brasil não é uma potência capitalista porque preferiu ser antes um imenso Instituto de Previdência. Os efeitos psico-

lógicos dessa situação são devastadores: se o objetivo da vida é a aposentadoria, o trabalho não é o caminho da prosperidade e da autorrealização, mas uma incomodidade temporária que deve ser removida o mais rápido possível. Então, o desleixo e a incompetência tornam-se não apenas direitos, mas até deveres: como o trabalho não tem nenhuma outra finalidade senão ser abolido o quanto antes, o trabalhador esforçado é visto como um vaidoso pedante ou como um puxa-saco do patrão. Estragando a população em geral pelo mau exemplo, a acomodação capitalista no seio da burocracia corrompe ainda mais os políticos. Corrompe-os por três lados ao mesmo tempo: 1) Os que são seus amigos tornam-se ipso facto agentes de negócios, captadores de recursos estatais para financiar – ou salvar – empresas privadas. 2) Os inimigos, temporariamente excluídos da mamata, sentemse investidos do direito de multiplicá-la em proveito próprio tão logo cheguem ao poder e imaginam-se, por essa mesma razão, as pessoas mais honestas do mundo. Quando, na CPI dos Anões do Orçamento em 1993, os petistas vociferavam contra "o Estado dentro do Estado", referindo-se hiperbolicamente a vulgares negociatas entre empreiteiros e parlamentares, ao mesmo tempo que já iam preparando o futuro Mensalão – este sim um verdadeiro Estado dentro do Estado –, não tenho a menor dúvida de que ao menos inconscientemente identificavam a justiça social com a distribuição igualitária do direito de roubar. Por isso mesmo não sentem hoje a menor dor na consciência por tudo aquilo que têm feito desde que se tornaram os novos donos do poder. Vigarice por vigarice, acham mais lícita aquela que não favorece só as velhas elites, mas reparte o botim entre os pobres e oprimidos – isto é, eles próprios. Caso contrário, não teria razão de ser a afetação de coitadice com que um Lula ou uma Benedita, alçados à mais alta hierarquia do Estado, continuam se vendo como membros da classe desamparada. 3) Uns e outros, amigos e inimigos, acabam tendo seus interesses vitais diretamente ligados à burocracia estatal – e tudo farão para que ela continue crescendo, a despeito até de suas convicções pessoais. Do ponto de vista ideológico, então, os efeitos da simbiose entre Estado e elite empresarial raiam o monstruoso.

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Maurizio Brambatti-Pool/Reuters

Primeiro: por falta de advogados, a Não conheço, por exemplo, entre os defesa dos "pilares da ordem, a família, a "direitistas" brasileiros, um só que não propriedade, os costumes" , como os reenxergue a economia, em última inssumiu Fernando Henrique, é excluída tância, exatamente nos termos em que do linguajar político decente e jogada a descreveu Karl Marx. Por menos que para o limbo da "extrema direita". Cogostem disso, seu cérebro está programo, por outro lado, ela expressa os mado para enxergar o capitalismo coideais majoritários da população brasimo luta de classes e exploração da leira, o resultado é que o Brasil se torna mais-valia. Quanto mais dizem tomar o uma nação de excluídos políticos, onde partido da sua própria classe, mais se a maioria não tem representantes nem tornam prisioneiros da jaula marxista. porta-vozes. Privado dos canais norTambém não conheço um só capimais de atuação, o conservadorismo talista que não acredite na lenda esbrasileiro recua para o inconsciente coquerdista de que Karl Marx foi "um letivo e tem de se expressar por vias simgrande pensador". Podem proclamar bólicas, indiretas, analógicas. Muitos até que "o marxismo está superado", dos eleitores de Lula votaram nele pelo mais quanto mais o depreciam da bosimples fato de que ele parecia um tipo ca para fora, mais lhe rendem homemais antigo, mais arraigado nas tradinagem em pensamento. ções populares, do que seus concorrenOra, Karl Marx não foi nenhum gêtes moderninhos, com ares de tecnonio, nenhum grande pensador, necratas. O motivo da escolha não foi ponhum cientista social notável. Foi uma Se você é católico, não se sinta obrigado lítico nem ideológico: foi puramente esbesta quadrada, incapaz de dominar a dizer amém à declaração do Papa de tético. Não encontrando quem falasse os problemas filosóficos mais eleque Karl Marx "forneceu uma imagem em seu nome, o povo votou em quem mentares e de se orientar no meio da clara do homem vitimado por bandidos". se parecia com ele fisicamente, sem ter a mixórdia verbal que ele próprio criou. menor ideia de que elegia o candidato Seu único talento foi o do vigarista indo aborto, do desarmamento civil, do telectual capaz de angariar prestígio casamento gay – de tudo o que podia haver de mais artificial e anpor meio do blefe, do boicote e da intimidação. Estudem a atuação tipopular. Aí a política eleitoral se torna pura fantasia alucinatória. dele na I Internacional e verão do que estou falando. Segundo: dentre os defensores da economia privada, muitos Mas, antes disso, examinemos um ponto essencial. Embora a tratêm menos horror ao esquerdismo do que à perspectiva de ser todição marxista condene com veemência o "abstratismo burguês", mados por "extremistas de direita". Então, apressam-se em isolar que supostamente raciocina a partir de meros conceitos sem ter em economia e cultura, articulando a apologia do capitalismo com a vista a praxis histórica, toda a análise que Marx faz da economia cado programa cultural revolucionário, incluindo abortismo, eutapitalista é abstratismo da espécie mais primária. Ele define o capinásia, liberação das drogas e anticristianismo professo ou implítalismo como exploração da mais-valia e sai tirando conclusões descito. Tornam-se assim forças auxiliares da revolução gramsciana, e sa definição sem prestar a mínima atenção às condições históricotoda a sua gritaria em favor da liberdade de mercado já não faz a sociais que já em sua época possibilitavam a existência do capitamenor diferença, pois ninguém na esquerda está lutando pela solismo. Em sua definição, este se resume a uma determinada relação cialização dos meios de produção; todas as tropas foram concenentre capitalistas e operários, exploradores e explorados. Nesse estradas no campo de batalha cultural. quema, não há nenhum lugar para a massa dos consumidores, a Terceiro: se uma parte da direita não tem ideologia nenhuma e vasta classe média da qual depende a existência de capitalistas e a outra tem uma ideologia que favorece a revolução cultural, o reoperários. Uma máquina econômica constituída apenas de explosultado é que a esquerda fica com o monopólio da propaganda radores e explorados não poderia durar um só dia. Afinal, quem paideológica. Até os que a odeiam são obrigados a falar na linguaga a brincadeira? Partindo da sua definição de capitalismo, Marx gem dela, o que significa que tudo o que dizem funciona, no fim acreditava que o número de consumidores iria diminuir cada vez das contas, como propaganda esquerdista. mais, até que a máquina de exploração já não tivesse condições de Quarto: não é possível que a própria "direita" que criou essa sifuncionar. Mas o único argumento que ele oferece em favor dessa tuação permaneça psicologicamente imune a seus efeitos por previsão é que ela é uma decorrência lógica da sua definição de camuito tempo. Ela própria acaba introjetando a cosmovisão e os pitalismo – uma definição que, a priori, já omitia a existência dos valores da esquerda, e no fim das contas já não tem nada a alegar consumidores. Na verdade, estes é que deveriam ser o centro da deem favor do capitalismo senão o fato de que ele é do seu interesse. finição: o capitalismo pode até incluir exploradores e explorados, E é exatamente assim que estamos hoje em dia: entre os opinamas ele não consiste nem em explorar nem em ser explorado – ele dores de plantão, não há mais quem não veja a política como a luta consiste em comprar e vender. Até mesmo a relação entre patrão e entre "interesses" privados e "valores" coletivos. Em suma: no Braempregado é apenas um caso especial de compra e venda – algo sil, entre as classes falantes, todo mundo é de esquerda – uns porque qualquer principiante habilitado a distinguir gênero e espécie que gostam, outros porque não sabem ser outra coisa. tem a obrigação de perceber. Em vez de definir o capitalismo pelo

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Reprodução

perfil real da sua existência histórica, ce de sobrevivência reside em fazer Karl Marx preferiu reduzi-lo a uma "esconcessões cada vez maiores à milisência" abstrata que pudesse ser destância socialista detentora do monocrita mediante uma só relação simples, pólio dos valores morais e das espea relação entre salário e "valor". Depois, ranças de futuro. vendo que a existência real do capitaOu você acredita que o capitalismo lismo não confirmava a essência, conencarna valores morais inegociáveis e cluiu que esta acabaria por predominar que ele é a única esperança de dias sobre a existência. Maior "abstratismo melhores para a humanidade, ou é burguês" não poderia haver: uma esmais lógico você desistir logo dele e arsência abstrata que pode mais do que a rumar uma carteirinha do PSTU. realidade histórica é uma espécie de platonismo radical, o primado absolu*** to das ideias (com o agravante de que as ideias platônicas eram pensadas por P. S. – Se você é católico, não se sinta Deus, e a definição marxista de capitaobrigado a dizer amém à declaração lismo é pensada apenas por Karl Marx). do Papa de que Karl Marx "forneceu Na realidade objetiva, a existência e a uma imagem clara do homem vitimaprosperidade do capitalismo dependo por bandidos". Não é uma sentença dem inteiramente do mercado, isto é, doutrinal ex cathedra, é apenas uma dos consumidores, e isto é assim já na opinião individual que todo católico Não conheço, por exemplo, entre os base, na "essência" mesma do procestem o direito e até o dever de contes"direitistas" brasileiros, um só que so. Se o capitalismo foi economicatar. Não adianta nada o meu caro Reinão enxergue a economia, em última mente viável por um só dia, nesse dia já naldo Azevedo tentar atenuar o sentiinstância, exatamente nos termos em ele aumentou o número de consumido da frase, dizendo que ela não é prodores, pois alguém então comprou o priamente um elogio a Karl Marx. A deque a descreveu Karl Marx. que não havia comprado antes. Dessa claração não impressiona pelo que condição real, o que seria preciso deduinsinua a favor de Karl Marx, mas pelo zir é que o capitalismo consiste na ampliação do mercado, na mulque diz claramente contra os capitalistas: são bandidos. Assim os tiplicação do número de consumidores. Se cabe descrever os prodescreveu Karl Marx, e o Papa considera essa descrição uma "imacessos históricos como "essências", essa é a essência do capitalismo gem clara". E o mais bonito é que a ela o ex-cardeal Ratzinger não – e o que se deveria deduzir dela é que, se essa essência viesse a tem a objetar senão que Karl Marx, limitando-se à esfera material, existir historicamente, o resultado seria a ampliação progressiva da não foi ao fundo espiritual do problema. Portanto, na perspectiva classe média até à dissolução do "proletariado" como classe idenpapal, não basta denunciar o mal econômico da exploração da tificável. Isto foi exatamente o que aconteceu, e é exatamente o conmais valia: é preciso sondar as dimensões espirituais dessa abotrário do que Marx previa. Para fazer a previsão certa, ele precisaria minação. Que eu saiba, esse é o programa da Teologia da Liberser um filósofo de verdade, isto é, saber pelo menos aquilo que todo tação: adornar a estupidez marxista com pretextos espirituais codiscípulo de Sócrates já havia aprendido dois milênios antes: dislhidos da religião cristã. Cabe retinguir entre o que o cérebro inventa e o que a experiência ensina. A cordar que, no trato disciplinar experiência pode ser confusa e o pensamento introduz nela algucom os Boffs e Gutierres, Ratzinma ordem e clareza. O que não vale é, em prol da clareza, substituir ger sempre se limitou às repria experiência por meros pensamentos. Mas Karl Marx foi um pouco mendas paternais sem o mínimo além: ele acreditou piamente que seus pensamentos acabariam efeito prático, ao mesmo tempo por demonstrar a irrealidade da experiência. que, para os católicos tradicioNão é compreensível que alguém tenha sequer algum respeito nais, reservava a mais grave das por um idiota capaz de embarcar num erro tão básico. A fama de punições: a excomunhão. Não Karl Marx deve-se apenas ao fato de que a idiotice é contagiosa e espanta que um Pedro Casaldáo número dos contaminados acaba valendo como uma espécie de liga não lhe tenha respeito neautoridade intelectual. Ao contrário do que pensava Descartes, é a nhum e lhe passe pitos em públiidiotice, e não a sensatez, que é distribuída por igual entre todas as co. A ninguém os comunistas classes: a proporção de idiotas não é maior entre aqueles a quem desprezam mais do que a seus o marxismo promete um paraíso do que entre aqueles que ele colaboradores discretos no seio ameaça jogar na lata de lixo da História. Os primeiros são idiotida "direita". Nossos direitistas zados pela ambição, os segundos por aquele medo extremo que deveriam aprender com o exemacaba se tornando fascínio e subserviência. plo: quanto mais você se faz de Diário do Comércio, Não adianta nada você gostar do capitalismo se acredita que bonzinho, mais a esquerda lhe 09 de abril de 2007 ele é baseado na exploração da mais-valia e que sua única chancospe em cima.

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Bruno Miranda/Folha Imagem

Marco Aurélio Garcia: mímica foi transmitida pela TV em rede nacional.

Top-Top e Fuc-Fuc

T

odo mundo no Brasil viu os gestos do sr. Marco Aurélio Garcia e de seu ajudante Bruno Gaspar transmitidos pela TV, cujas equivalências onomatopaicas, salvo melhor juízo, são respectivamente "top-top" e "fuc-fuc". Não se ouve som nenhum na gravação, mas, pelo contexto, o sentido vernáculo da mímica ministerial foi aproximadamente: "Agora eles tomaram no..." - sapientíssima observação ante a qual o criativo assessor, recordando a máxima célebre do candidato interiorano, poderou, também sem palavras: "Se nóis não ó neles, ó eles em nóis". O Diário do Comércio pede minha opinião sobre esse interessante número de mímica, mas antes de emiti-la devo recordar alguns aspectos do governo Lula, sem cuja perspectiva o sentido daquele diálogo silencioso arriscaria tornar-se demasiado esotérico. Em outubro de 2002, o sr. Lula disse ao jornal Le Monde que a eleição que o tornaria presidente era apenas uma farsa destinada a legitimar a tomada do poder pelas organizações de esquerda. Confirmando as palavras do líder, o sr. Garcia informou ao jornal La Nacion , em Buenos Aires , que o PT continuava firme na esquerda revolucionária: "A impressão de que o PT foi para o centro surge do fato de que tivemos de assumir compromissos que estão nesse terreno. Isso implica que teremos de aceitar inicialmente algumas práticas. Mas isso não é para sempre." Como toda a campanha petista se baseava exatamente na hipótese oposta, isto é, de que o candidato e seu partido tinham

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abjurado de toda ambição revolucionária e aderido ao culto da ordem burguesa, essas declarações já bastavam para demonstrar, acima de qualquer dúvida, que nenhum dos dois declarantes era confiável. Ou estavam mentindo para seus antigos correligionários, ou para seus novos eleitores. Dando a primeira hipótese por certa e inquestionável sem necessidade de exame, a mídia nacional inteira e os próprios adversários eleitorais de Lula decidiram abafar as entrevistas comprometedoras, que teriam bastado para destruir a candidatura petista. Logo depois, interrogado polidissimamente pelo entrevistador Boris Casoy quanto ao risco de uma aliança Lula-Castro-Chávez, o candidato assegurou que era tudo invencionice de "um picareta de Miami" (referia-se ao escritor cubano Armando Valladares). Na ocasião, a aliança já estava combinada nas reuniões do Foro de São Paulo e nos meses que se seguiram foi consolidada sobretudo por intermédio do sr. Garcia, que, desde a renúncia de Lula à presidência do Foro, se tornou o agente de ligação entre o governo brasileiro e aquela entidade. Pouco antes, o sr. Lula havia assinado, ainda como presidente do Foro, um compromisso de defender incondicionalmente as Farc, a narcoguerrilha colombiana, acusando de "terrorismo de Estado" qualquer coisa que se fizesse contra ela. Se o eleitor brasileiro soubesse disso, jamais votaria nessa criatura. Mas novamente a grande mídia e os supostos opositores de Lula ajudaram a varrer a poeira para baixo do tapete, escondendo não só o acordo abjeto mas a própria existência do Foro de São


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Paulo. Até hoje a organização política mais vasta e poderosa da América Latina é, para o público nacional, um mysterium ignotum protegido sob um véu de chumbo. O acordo pró-Farc, obtendo facilmente e sem discussões o apoio unânime das organizações participantes do Foro, só pode ter sido tramado com muita antecedência. Nem é preciso perguntar quem o preparou. Segundo informações do site www.militaresdemocraticos.com , o futuro ministro Top-Top teve vários encontros com o comandante da narcoguerrilha, Manuel Marulanda Gomez, em Havana, sempre na presença de Fidel Castro. Que o compromisso estava destinado a não ficar só no papel é algo que o tempo comprovou abundantemente. Os líderes das Farc continuaram a transitar livremente pelo território nacional, mesmo depois de comprovado que eram os maiores fornecedores de cocaína ao traficante Fernandinho Beira-Mar; e seus agentes em ação no Brasil jamais foram incomodados pelas nossas autoridades, mesmo depois de denunciado que davam adestramento em guerrilha urbana para os bandidos do PCC e do Comando Vermelho, contribuindo maciçamente para que a quota de brasileiros assassinados alcançasse a cifra de cinqüenta mil cadáveres anuais. Também não é preciso dizer que qualquer membro das Farc ou de outras organizações ligadas ao Foro, se acidentalmente preso por policiais ingênuos, conta imediatamente com a máquina do partido governante para protegê-lo de perguntas incômodas, libertá-lo o mais rápido possível e mesmo brindá-lo com o estatuto de asilado político, se não com o de cidadão brasileiro. Se o leitor percebe a dose de cinismo necessária para um governo colaborar tão assídua e fielmente com o massacre da população nacional, deve entender sem dificuldade por que esse governo não se sente nem um pouco culpado pela morte de mais algumas centenas de brasileiros, no desastre da TAM. Cada um de nós deve recordar-se de quando o então candidato Lula, perante seu opositor Geraldo Alckmin, se vangloriava da folha de realizações de seu primeiro mandato, entre as quais a reforma do aeroporto de Congonhas. Mas a idéia de que quem leva os méritos da obra deve também arcar com as culpas dos seus erros é algo que requer um mínimo de sensibilidade moral, e nada, absolutamente nada sugere que esse mínimo tenha jamais entrado nas almas coriáceas dos srs. Lula e Garcia. Não digo que eles sejam amorais. Ao contrário, têm moral até demais: têm duas, como todos os revolucionários: uma para os "companheiros", outra para o comum dos mortais. Naquela, eles são sempre inocentes; nesta, os outros são sempre culpados. Por isso não creio ser tão difícil interpretar a cena filmada indiscretamente pela janela do ministro. O diálogo silencioso Diário do Comércio, não dá uma indicação precisa 23 de julho de 2007 de quem são os tais "eles", su-

Top-Top, Fuc-Fuc: gestos de Marco Aurélio Garcia tiveram grande repercussão.

bentendidos nos gestos de de Top-Top e Fuc-Fuc. Uns dizem que é a TAM, outros que é a mídia em geral, outros que são os partidos de oposição. Mas a suspeita que não me sai do pensamento é que somos todos nós - os brasileiros em geral, os profanos, os pecadores, os não iniciados no sacerdócio petista. Surpreendido em flagrante, o ministro Top-Top não se deu por achado: tratou de fazer-se ele próprio de escandalizado, improvisando ex post facto uma bela embromação para tentar dar um sentido de alta moralidade à sua performance . Nada mais lógico, no governo chefiado por um homem isento de pecados. Mas parece que nem todos na administração petista chegaram tão alto nos mistérios da impecância eterna. Em contraste com a cara-de-pau ministerial, Fuc-Fuc, por sua vez, nada disse nem lhe foi perguntado. Recolheu-se a uma discrição tumular. Suponho que ainda esteja trancado no banheiro, hostil a qualquer contato humano. Pela primeira vez na história da mídia universal um assessor de imprensa, cujo serviço é falar, transcendeu duplamente a comunicação verbal: primeiro mostrou que podia ser eloquente com gestos sem palavras, e depois mais eloquente ainda sem palavras nem gestos.

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Fraqueza suicida Carlos Lezama/AFP

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fraqueza atrai a agressão", dizia Donald Rumsfeld, cujo malogro político não deve fazer esquecer que foi o arquiteto da mais espetacular vitória militar dos tempos recentes, a ocupação em quinze dias de um país inimigo poderoso e bem armado, cujo sucesso contra as tropas invasoras era anunciado como líquido e certo por toda a mídia esquerdista do mundo. A sentença do ex-secretário da Defesa norte-americano deveria servir de alerta aos antipetistas brasileiros, dos quais muitos se empenham menos em combater o adversário do que em esquivar-se pudicamente da rotulação de conservadores e direitistas, que se fossem homens de coragem ostentariam com orgulho.

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Quarenta anos de hegemonia cultural gramsciana fixaram tão bem na mente popular o dogma do monopólio esquerdista das virtudes, que preservá-lo contra a mera suspeita de que possa haver algo de bom na direita se tornou prioridade máxima para os próprios direitistas. Tão longe levam eles a obediência a esse mandamento que, mesmo quando querem denunciar os crimes mais escabrosos da esquerda, se apressam em advertir que o fazem sem o menor intuito político, o que equivale a reconhecer que só a esquerda tem o direito de fazer política. Do mesmo modo, quando veem os prodígios de manipulação esquerdista do noticiário, não ousam cobrar da mídia um espaço justo e digno para as vozes conservadoras, muito menos a publicação de

Aqueles que forçam a Igreja a escolher entre ser de esquerda e abster-se da política querem a primeira alternativa.


tais ou quais notícias omitidas – o permanente genocídio anticristão no mundo ou as relações amigáveis PT-Farc, por exemplo –, preferindo antes solicitar genérica e abstratamente que ela seja "imparcial", o que além de ser uma impossibilidade prática, resulta em elevar a classe jornalística à condição de juiz em vez de mera divulgadora de dados e opiniões dos quais o único juiz abalizado é o público em geral. Quando se sentem chocados ante a pregação comunista nas escolas, gemem implorando uma utópica educação "apolítica", em vez de exigir virilmente o confronto aberto entre as ideias da esquerda e da direita, mesmo sabendo que aí estas levariam vantagem arrasadora sobre as suas concorrentes. Similarmente, quando querem protestar contra a ocupação comunista dos púlpitos, dizem que a Igreja deveria ficar fora da política, em vez de exigir, como deveriam, que ela cumpra a missão política que lhe cabe, que sempre lhe coube e que ao longo dos séculos ela sempre cumpriu, que é a de educar e mobilizar os fiéis para a defesa permanente e incondicional dos princípios e valores que justificam a sua própria existência como instituição, princípios e valores esses que são o que há de mais oposto e hostil a toda mentalidade revolucionária, seja ela socialista, nazista, fascista, anarquista, o diabo. Como depositária da mais imutável e supra-histórica das mensagens, a Igreja não pode jamais ser apolítica, no mínimo porque foi ela mesma que, inspirada nessa mensagem, criou as bases de todas as noções essenciais da política no Ocidente, a começar pelas de liberdade civil e direitos humanos. Principalmente não poderia sê-lo numa época em que a tendência dominante se inspira na ambição revolucionária de historicizar o Evangelho, trazendo o Juízo Final para dentro do acontecer temporal e usurpando para um partido político o papel de juiz da humanidade, que incumbe exclusivamente a Nosso Senhor Jesus Cristo. Aqueles que forçam a Igreja a escolher entre ser de esquerda e abster-se de fazer política a obrigam, na prática, a optar pela primeira alternativa, que tem ao menos o mérito de ser possível. Todas essas precauções, toda essa pusilanimidade, todas essas concessões ao adversário não impedem, antes estimulam que este os carimbe não só como direitistas, mas como extremistas de direita e golpistas e mobilize contra eles todas as armas do ridículo

e da intimidação. A sucessão de humilhações que assim atraem sobre si mesmos culmina na decisão do arcebispo Odilo Scherer de proibir a missa do movimento "Cansei" na Catedral da Sé, espaço reservado, como se sabe, aos dignos e cristianíssimos membros do PCC, do MST, da CUT, etc, etc. Que essa decisão seja tomada sob a desculpa cínica de ser a Igreja uma instituição apolítica deveria advertir aos prejudicados que eles fizeram muito mal em fornecer a pessoas indignas de confiança o pretexto retórico que agora estas voltam contra eles. Só falta agora a direita nacional, numa apoteose de bom-mocismo, continuar se dirigindo a esses manipuladores astutos como se fossem porta-vozes autorizados do próprio Jesus Cristo sobre a Terra. Recusar-se a enxergar que a Igreja Católica no Brasil é revolucionária e cismática é o cúmulo da covardia intelectual. Pela sua colaboração pertinaz e maliciosa com a revolução comunista no continente, muitos dos nossos bispos e arcebispos já estão, segundo a letra e o espírito do Código do Direito Canônico, excomungados há muito tempo. O "Decretum Contra Communismum" assinado por Pio XII e confirmado por João XXIII não deixa a menor margem de dúvida quanto a isso. Não há nada a solicitar a esses prelados traidores. O que há a fazer, o que os conservadores brasileiros fariam se tivessem um pouquinho de fibra, é juntar as provas e solicitar ao Vaticano que a excomunhão já vigente de fato seja subscrita oficialmente. Dirigir-se àqueles servos do comunismo com a filial solicitude devida a autênticos Príncipes da Igreja é uma baixeza inominável. Não contem comigo para isso.

Diário do Comércio, 20 de agosto de 2007

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Maquiavel e os bobos

"N

ão digo jamais aquilo em que creio, nem creio naquilo que digo – e, se descubro algum pedacinho da verdade, trato logo de escondê-lo sob tantas mentiras que se torna impossível encontrá-lo." Não, não neutralizem esta confissão feita por Nicolau Maquiavel a um amigo, aplicando a ela o "paradoxo do mentiroso". Ele aqui é perfeitamente sincero, pois escreve em privado sobre sua obra pública. A técnica das mentiras superpostas, entrecruzadas e mescladas é realmente o segredo dessa obra, tão obscura que Benedetto Croce a declarava impenetrável, mas que se abre de par em par tão logo descobrimos essa chave, fornecida pelo próprio autor num momento de franqueza, ou talvez fraqueza. Maquiavel não é o imoralista vulgar que nele viram seus primeiros críticos, nem o realista científico que seus admiradores modernos fizeram dele, nem o límpido patriota que tantos intérpretes italianos celebram. É o criador do plano revolucionário de destruir o cristianismo desde dentro e subjugá-lo a um Estado economicamente igualitário e politicamente totalitário, que hoje diríamos um Estado socialista. É também o inventor da estratégia incumbida de realizar esse fim: desorientar e dominar a sociedade por meio de um bombardeio alucinante de mentiras e fingimentos histriônicos, propositadamente contraditórios entre si para que suas vítimas não percebam a unidade do objetivo político por trás de tudo. Quem melhor compreendeu Maquiavel foi Antonio Gramsci, mas não o compreendeu perfeitamente. Seu próprio amoralismo sociopático de revolucionário o tornou cego para o caráter satânico do empreendimento maquiavélico e o fez enxergar nele, ao contrário, todas as belezas ilusórias que ali tinham sido postas justamente para seduzir intelectuais meia-bomba. O que Gramsci viu claramente foi que o Príncipe não era um indivíduo, mas uma elite revolucionária capaz de controlar a sutil engenharia do engodo e conquistar, ante o olhar sonso de adversários impotentes, "o poder onipresente e invisível de Diário do Comércio, um imperativo categórico, de 26 de setembro de 2007 um mandamento divino".

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Se querem um exemplo imediato de como a coisa funciona, observem o "Movimento dos Sem-Mídia". Notem bem. Durante quase duas décadas os jornais e canais de TV deste País não apenas glorificaram os ídolos da revolução comunista, demonizando seus adversários, e não apenas estenderam sobre o Foro de São Paulo o manto de silêncio protetor que lhe permitiu crescer sem ser notado, mas também se abstiveram sistematicamente de noticiar as atrocidades genocidas praticadas pelos regimes comunistas e seus aliados nesse período e forneceram integral apoio a todas as iniciativas da "revolução cultural" politicamente correta: abortismo, gayzismo, cotas raciais, liberação das drogas, etc. etc. Mais esquerdismo que isso, nem no Pravda. Durante anos tentei convencer os liberais e conservadores de que deviam organizar um movimento de protesto contra essa dominação hegemônica que os marginalizava ao ponto de só permitir sua sobrevivência como súcubos ideológicos da corrente dominante. Como não o fizeram em tempo, a própria esquerda o faz agora em lugar deles, fingindo-se de vítima oprimida quando é na verdade a única autora e beneficiária do crime. É um blefe tão monstruoso, tão cínico, que ilude os observadores mais espertos e acaba passando por empreendimento de boa-fé. É um exemplo corriqueiro. A técnica da contradição estupefaciente está em tudo o que a esquerda faz. Enquanto seus adversários não atinarem com isso, continuarão sendo feitos de bobos a cada semana.


PT, o partido dos ricos

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O

PT não é um partido ladrão porque abandonou seus altos ideais e se corrompeu ao contato com a maldita direita. Para que a direita o corrompesse seria preciso que ela fosse mais corrupta do que ele, e é só comparar a lista de escândalos dos governos respectivos para ver que o próprio P. C. Farias teria muito a aprender com os Dirceus e Berzoinis. O PT é um partido ladrão porque é um partido revolucionário, filiado a uma tradição de amoralismo maquiavélico, que pelo menos desde a Revolução Francesa, com intensidade crescente desde a Primeira Internacional de 1864 e mais ainda desde a fundação do Partido Socialdemocrata de Lênin, sempre achou que era de seu direito, e até da sua obrigação, financiar a si próprio por meio de assaltos, de sequestros, de extorsões, de desvio de dinheiro público, bem como de uma infinidade de negócios capitalistas legais e ilegais, cujo volume total faria inveja a seus mais reacionários inimigos burgueses. Estudem a vida de Lênin e confirmarão o que estou dizendo. O volume do capital que o financiava, sem contar a ajuda de governos estrangeiros, era tal que, se aplicado em atividades produtivas, teria feito dele uma espécie de J. P. Morgan – com o detalhe significativo de que as contribuições de J. P. Morgan engrossavam aquele capital junto com o dinheiro dos assaltos comandados por Stálin. Revoluções custam caro. O revolucionário Parvus, que enriqueceu com mil e um negócios na Turquia, já ensinava em 1914: "A melhor maneira de derrubar o capitalismo é nós mesmos nos tornarmos capitalistas." Não foi o Lulinha quem descobriu essa fórmula. Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht riram dela e acabaram derrotados. Lênin, o vitorioso, ouviu-a com reverência e gratidão da boca de seu gerente financeiro na Suíça, Jacob Hanecki, a quem depois da Revolução premiaria com o cargo de Comissário do Povo para as Finanças. Leiam Lenin in Zurich , de Alexander Solzhenitsyn (London, Farrar, Straus & Giroux, 1975). A revolução socialista consiste na simples transfiguração de uma elite ativista proprietária de boa parte do capital em senhora absoluta de todo o capital. Sempre foi assim, e com a esquerda nacional não é diferente. O mensalão não foi um pecado temporão cometido por almas santas no último minuto antes da ascensão aos céus. Foi a execução lenta e metódica de planos traçados desde o começo da década de 90 – contemporâneos à criação do Foro de São Paulo –, já denunciados en-

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O mensalão não foi um pecado temporão cometido por almas santas no último minuto antes da ascensão aos céus. Foi a execução lenta e metódica de planos traçados desde o começo da década de 90 – contemporâneos à criação do Foro de São Paulo –, já denunciados então por César Benjamin

tão por César Benjamin, algo como uma versão "los macaquitos" de Karl Liebknecht, à qual, como a este último, a História e o distinto público deixaram falando sozinha. Tomem, por exemplo, a forma mais simples e bruta do capital – a posse da terra – e façam a conta de tudo o que a militância organizada, com o auxílio deste governo e dos anteriores, vem amealhando ao longo dos últimos anos. Somem a extensão das propriedades do MST com as reservas indígenas, com os quilombos (ou ditos tais) em vias de desapropriação, com os imóveis estatais e privados já transferidos a ONGs ativistas, com as áreas sob domínio das Farc diretamente ou através de seus prepostos locais – e verão que nunca houve, neste País, um patrimônio imobiliário comparável. Nem incluo aí o patrimônio financeiro – as verbas estatais que jorram sobre as organizações esquerdistas, as participações acionárias em mil e uma empresas, as contribuições internacionais impossíveis de calcular e, last not least, os lucros do narcotráfico. Os ricos não serão destruídos pelos pobres. Serão destruídos pelos mais ricos. No fundo, o cinismo lulista é até mais respeitável do que o moralismo posado de seus críticos de esquerda, postiço até o desespero, macaqueação tardia do mesmo discurso enganoso que levou o PT às supremas glórias eleitorais. O que o antilulismo de esquerda nos promete, na hipótese viabilíssima de sua ascensão ao poder, são prodígios de ladroagem que farão Dirceu e Berzoini parecerem São Cosme e São Damião. No ato mesmo em que explicam a corrupção petista como traição aos ideais revolucionários, os santarrões do PSOL e do PSTU se desmascaram a si próprios com uma eloquência quase sublime: Quem pode acreditar em patifes que prometem fazer a revolução marxista sem descumprir em nada os ditames da moral burguesa? Ademais, por que alardeiam suas denúncias na Rede Globo, na Folha , no Estadão – naquela mesma mídia a que chamam reacionária e imperialista – antes de haver sequer tentado discuti-las discretamente no Foro de São Paulo, a instância máxima do esquerdismo continental? Roupa suja se lava em casa, e quando alguém o faz em público antes de haver nem mesmo tocado no assunto em família, é porque está tramando alguma. Imaginem um soi disant dissidente soviético que, nos anos 60, saísse berrando contra o comunismo na Voz da América ou Rádio Europa Livre, ao mesmo tempo que conservasse seu cargo e suas boas relações no Politburo ou na KGB. É exatamente


a mesma coisa. Se a esquerda está dividida entre os corruptos e os honestos, a divisão deveria aparecer primeiro nos seus debates internos – só depois ante os inimigos, se chegasse a tanto. O inverso é prova clara de que se trata de pura encenação, de que por trás a família continua unida e coesa, tramando para ludibriar uma vez mais a multidão dos trouxas. Não há cisão na esquerda: há apenas uma natural divisão de trabalho – uns amealham dinheiro e poder à custa de enfeiar a imagem do esquerdismo, outros embelezam a imagem consentindo devotadamente em adiar o recebimento da sua quota de dinheiro e poder. Sempre foi assim. O movimento revolucionário limpa-se na sua própria sujeira, engorda alimentando-se do seu próprio cocô. O hábito de salvar o prestígio do esquerdismo no ato mesmo de denunciar os seus crimes já está tão arraigado nas rotinas mentais da classe falante, que aparece até mesmo nos lugares que se julgariam, à primeira vista, os mais inusitados. Falando dos reféns em poder da narcoguerrilha colombiana, escreve a Veja desta semana – sim, Veja, nominalmente o spalla da orquestra antipetista: "A organização que mantém cerca de oitocentas pessoas em seu poder, conhecida pela sigla Farc, não é formada por guerrilheiros marxistas, como repete a denominação usual (grifo meu). Nem Marx endossaria as barbáries cometidas pelas Farc, que se originaram numa guerra civil ocorrida na Colômbia e depois tiveram inspiração esquerdista, mas há muito tempo degeneraram em uma espécie de seita de fanáticos que vive à custa do tráfico de cocaína." Desde logo, é falso que Marx não endossaria essas violências e outras piores, de vez que contemplava como exigência normal e desejável do processo revolucionário a extinção sumária de povos inteiros. Em segundo lugar, o narcotráfico das Farc é mixaria perto do que foi feito na China por Mao Dzedong, a quem ninguém jamais acusou de ser infiel às tradições marxistas. Em terceiro lugar, o comércio latino-americano de drogas foi na sua parte mais substantiva uma criação da KGB, que se empenhou nisso desde os anos 50 (v. o depoimento do general tcheco Jan Sejna – um participante direto da operação – em Christopher Story , Red Cocaine. The Drugging of America and the West , London, Edward Harle, 2nd. Ed., 1999). Devemos crer que o governo soviético, Mao Dzedong e o próprio Marx não representam o autêntico espírito do marxismo, cujo único porta-voz autorizado é o redator de

É falso que Marx não endossaria essas violências e outras piores, de vez que contemplava como exigência normal e desejável do processo revolucionário a extinção sumária de povos inteiros.

Diário do Comércio, 21 de janeiro de 2008

Veja? Este, aliás, se trai miseravelmente ao dizer que, de esquerdistas genuínos, os militantes das Farc se transformaram numa "seita de fanáticos". Se dissesse que se transformaram em aproveitadores sem fé nenhuma, talvez enganasse melhor. Mas "fanáticos"? Fanáticos do quê? Do espiritismo? Do vegetarianismo? Da Seicho-No-Iê? Fanáticos jogadores de futebol de botão? Fanáticos admiradores da Ana Paula Arósio? Fanáticos, por definição, acreditam em alguma coisa, e em que acreditam os homens das Farc, senão no bom e velho marxismo de sempre? Fanáticos marxistas, sim, é o que são, ontem como hoje. Se não o fossem, não seriam aceitos e celebrados como representantes fidedignos do marxismo no templo mesmo da revolução comunista, o Foro de São Paulo. Ou será que Veja tem mais autoridade do que o Foro de São Paulo para julgar a ortodoxia comunista dos outros? Mais abusadamente ainda, Marcelo Otávio Dantas, no artigo "Messianismo e o credo petista" (Folha de S. Paulo), querendo contrastar o PT corrupto de hoje com o PT puríssimo de outrora, diz que a mentalidade do partido "converteu-se, assim, em um neosabbatianismo radical, alimentado por uma intelectualidade delirante, especializada em justificar o injustificável". Como se os traços da heresia de Sabbatai Zevi já não estivessem no próprio sangue do movimento revolucionário desde sempre e como se a marca distintiva do PT não tivesse sido, desde a origem, o culto do pecado redentor assumido até mais explicitamente que o dos outros partidos de esquerda então existentes. Nascido de uma aliança entre os comunistas e a esquerda católica, o PT veio imbuído do projeto gramsciano de subverter a Igreja por dentro, esvaziando-a de seu conteúdo espiritual e fazendo dela o instrumento dócil do que pode haver de mais anticristão no mundo, a revolução comunista. Se isso não é uma forma extrema de heresia messiânica, não sei em que outra classificação possa caber. O discurso untuosamente moralista do PT nunca teve nada de sincero, foi sempre, entre os líderes, uma parasitagem maquiavélica do prestígio da Igreja para fins de propaganda e, na arraia miúda dos militantes, uma forma patológica de autoengano lisonjeiro. Perto disso, o Mensalão é apenas um pecadinho de fim de semana. A corrupção financeira do PT não é senão a exteriorização tardia – e mais vistosa, para a mentalidade dinheirista – da podridão interior sem fim que inspirou a criação do partido-seita.

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O nacionalismo contra a nação

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A "revolução cultural" gramsciana que se apossou do sistema nacional de ensino há quase três décadas consiste na síntese de ódio antiamericano, chavismo militante e multiculturalismo dissolvente.

Reprodução

m 1990, pronunciei na Casa do Estudante do Brasil, Rio de Janeiro, uma conferência sob o título de "O fim do ciclo nacionalista". A tese central era que a cultura brasileira, tendo como foco a busca e afirmação da identidade pátria, não sobreviveria ao advento de uma nova situação mundial marcada pela dissolução das soberanias nacionais e por aquilo que viria a ser chamado de "multiculturalismo". O Brasil havia chegado tarde demais ao palco da História e, excetuada a inverossímil hipótese de um upgrade intelectual formidável, suas elites seriam engolfadas por transformações mundiais que ultrapassariam de longe a sua capacidade de compreensão. O Brasil como unidade política autônoma estava em perigo de dissolver-se, sem que suas lideranças fossem capazes sequer de perceber o que se passava. Decorridos dezoito anos, a apropriação de parcelas imensas do território pela narcoguerrilha colombiana, pelas gangues locais intimamente associadas a traficantes estrangeiros, por "nações indígenas" criadas em proveta nos laboratórios da ONU, pelos chamados "movimentos sociais" a serviço do Foro de São Paulo – tudo isso mostra que só tenho uma coisa a alterar no meu diagnóstico de 1990: os verbos devem ser transpostos do tempo futuro para o tempo presente. Sem dúvida, um dos principais fatores que contribuíram para transmutar as minhas previsões em realidade foi a total apropriação do nacionalismo brasileiro pelos movimentos de esquerda. O nacionalismo de esquerda é uma criatura esquiva e bifronte, que finge defender a soberania nacional só para mais facilmente subjugar o País aos interesses de um movimento que é internacionalista na origem e nos objetivos, e que aliás é sustentado pelas mesmas forças globalistas que, da boca para fora, professa combater. Toda e qualquer identidade nacional que signifique alguma coisa na realidade, que não seja só um mito oficial, funda-se na consciência

histórica transmitida e reforçada de geração em geração, bem como nos valores tradicionais que essa História incorpora e simboliza. A "revolução cultural" gramsciana que se apossou do sistema nacional de ensino há quase três décadas apagou totalmente essas referências básicas, substituindo-as por um novo conceito de "nacionalismo", que consiste na síntese de ódio antiamericano, chavismo militante e multiculturalismo dissolvente. Esse nacionalismo só serve para subjugar o Brasil aos interesses do esquerdismo internacional, empenhado em "reconquistar na América Latina o que foi perdido no Leste Europeu" e em integrar as nações do continente numa unidade regional onde terão tanta autonomia quanto a Ucrânia ou a Polônia tinham sob o jugo da URSS.

Diário do Comércio, 03 de abril de 2008


ARITMÉTICA DO

Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem

ENGODO

D

esde que o assassinato da menina Isabella apareceu na mídia, o comentário esquerdista do episódio tem sido invariavelmente o mesmo: é imoral fazer alarde em torno de uma só criança assassinada, num País onde os menores de idade vítimas de homicídio se contam aos milhares. A nuance ideológica aí subentendida é que o individualismo burguês reserva sua compaixão para o caso singular para não ter de enxergar o problema social por trás dele. Jamais ocorre a esses sapientíssimos denunciadores da alienação capitalista a hipótese de que o caso singular desperte a violenta emoção coletiva justamente por ser um símbolo condensado do problema social, a gritaria em torno dele expressando portanto um estado de consciência alerta e não de alienação. Intelectuais de esquerda jamais hesitam em torcer a realidade como se fosse roupa no tanque, para extrair dela um pouco de água suja que possam mostrar ao mundo como prova da maldade burguesa e, en passant , da sua própria superioridade moral. Por isso mesmo não me surpreendi nem um pouco ao ler, na Folha Online, que, segundo Jean Pierre Langellier, articulista de Le Monde, os brasileiros, um povo malvado que "bate os recordes de violência com 50 mil homicídios por ano", derramam lágrimas de cro-

codilo por uma criança enquanto a cada dez minutos um menor de 14 anos é assassinado neste País. Fazendo as contas – seis crianças por hora, 144 por dia, 52.560 por ano – tínhamos aí um fenômeno aritmético assombroso: anualmente, morriam assassinados 50.000 brasileiros, dos quais 52.560 eram crianças. Diante disso, pensei seriamente em voltar atrás nas críticas que um dia fizera à teoria do matemático alemão Georg Cantor, segundo a qual existem infinitos maiores e menores. Pelo menos no Brasil, segundo a Folha Online , um subconjunto podia ser maior do que o conjunto que o abrange. Com o detalhe especialmente notável de que adultos, velhos e adolescentes maiores de 14 anos jamais eram assassinados nesta parte do universo. Todos escapavam ilesos à violência geral, e as criancinhas ainda tinham um superavit de 2.560 cadáveres. Horas depois, veio o desmentido: a Folha confessava o erro, admitindo que o pobre Langellier não dissera "a cada dez minutos", mas "a cada dez horas". O número de crianças assassinadas por ano baixava drasticamente de 52.560 para 876. Isso era certamente um alívio para o leitor, mas não melhorava em nada a situação do articulista do Monde nem da Folha Online. O sentido geral do artigo seguia a linha oficial do argumento esquerdista: enfatizar a

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"violência doméstica", minimizando o papel dos quadrilheiros armados na produção nacional de cadáveres. Esse mote foi posto em circulação pela campanha do desarmamento civil, mas, falhado o seu objetivo originário, tem servido para uma infinidade de objetivos suplementares, entre os quais abortar preventivamente a possibilidade de uma revolta popular contra o banditismo e os agentes do Foro de São Paulo que o acobertam. Lançando as culpas da violência na "elite branca racista" e na maldita instituição da família, esse discurso prepara o terreno para a implantação de leis raciais e do casamento gay, sugerindo implicitamente – e às vezes explicitamente – que entre outros inumeráveis benefícios essas medidas trarão a paz a um país atormentado pela violência e pelo crime. Tão natural esse modo de pensar pareceu ao redator da Folha Online, que um automatismo inconsciente o levou a multiplicar por sessenta o número de crianças assassinadas, enfatizando o caráter eminentemente homicida da instituição familiar, mesmo ao preço de estourar as leis da aritmética. Mas, embora realizada com uma aritmética menos louca, a mesma intenção já estava no artigo original de Langellier. Ao confrontar o número de crianças assassinadas com o total dos homicídios brasileiros, ele enfatizava que a maior parte da primeira cifra era produzida pela "violência doméstica", sugerindo que esta desempenhava um papel essencial, dramático, no quadro da criminalidade brasileira. Mas façam as contas. Dos 50 mil brasileiros assassinados anualmente, 876 são crianças. Segundo o Censo Diário do Comércio, de 2000 (v. www.ibge.gov.br), 26 de maio de 2008 os menores até 14 anos no Brasil são 50.266.123: um terço da população nacional. Ora, se o grupo etário que constitui um terço da população nacional fornece a quinquagésima sétima parte do total de vítimas de homicídios, está claro que esse grupo não é, de maneira alguma, um alvo preferencial de violência no conjunto da criminalidade nacional, não é nem mesmo um alvo estatisticamente significativo. Mesmo se aquelas 876 vítimas tivessem sido todas assassinadas por seus pais – o que está longe de ser o caso –, seria ainda monstruosamente desproporcional atribuir à brutalidade da família contra as crianças um papel relevante no quadro da violência nacional. Ainda que o assassinato de uma só criança seja em si mais revoltante do que quaisquer crimes cometidos contra adultos – e o escândalo em torno do caso Isabella é expressão natural dessa revolta –, isso só torna ainda mais injusto e insultuoso retratar a família brasileira como um ambiente de terror assassino, como se o perigo maior viesse dela e não de bandidos treinados e armados pelas Farc. Esse mesmo intuito de desviar para "a sociedade" as cul-

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pas que pertencem ao banditismo organizado e ao esquema revolucionário latino-americano que o protege apareceu, da maneira mais visível, onde, em condições normais, menos se esperaria encontrá-lo: no ato público promovido pela ONG "Comunidade Cidadã" no dia 16, nominalmente para homenagear as vítimas da onda de terror espalhada pelo PCC nas ruas de São Paulo em maio de 2006 (v. Carta aberta à sociedade paulistana). Após um velório realizado ante 493 caixões de defunto, o ponto culminante do evento foi a entrega de um Manifesto da entidade aos representantes do poder público. Ao longo desse documento, altamente significativo da mentalidade ativista em nossos dias, não aparece nem uma única vez a expressão "PCC", nem se faz qualquer menção aos autores do crime. Em compensação, fala-se muito da "exclusão", da "exploração dos negros pelos brancos" e da malvada sociedade adulta que "tem medo dos jovens" e se dedica a extingui-los, sobretudo, é claro, quando são de raça negra. Em seguida, pede-se a punição "dos culpados", sem distinguir nem de longe entre os culpados daquele crime em especial e os de tudo o mais que a "Comunidade Cidadã" detesta. A conclusão, implícita mas altamente eloquente, é que não houve nenhum massacre de brasileiros pelos bandidos do PCC: houve, sim, a matança de negros pelos brancos, de pobres pelos ricos e privilegiados, de jovens progressistas por adultos conservadores e reacionários. Quando uma facção política tem a hegemonia cultural e ao mesmo tempo o domínio do Estado, isto é, o controle simultâneo da circulação de ideias e dos meios de ação política, ela pode fazer milagres, agindo unificadamente sobre toda a sociedade por meio de uma rede de conexões tão sólida quanto invisível, de modo que todas as correntes de causas, indo para qualquer lado que seja, levem sempre a água ao mesmo moinho, façam rodar sempre a mesma engrenagem, fortaleçam sempre quem já é o mais forte: um grupo de organizações esquerdistas promove a solidariedade continental às Farc, as Farc armam o PCC, o PCC mata 493 pessoas inocentes e, fechando o círculo, outras organizações esquerdistas íntimamente associadas às primeiras tiram proveito publicitário do massacre, debitando as culpas das ações da esquerda na conta de um bode expiatório atônito, que por medo e por humanitarismo sonso ainda consente em colaborar paternalmente com o empreendimento, como um Judas de sábado de aleluia que, para se fazer de simpático, se malhasse a si próprio. A articulação da violência com a sua exploração ideológica em favor dos seus próprios mentores e controladores é prática usual no movimento revolucionário pelo menos desde o século XVIII. Sempre que a operação se repete, o fator decisivo para o seu sucesso é a credulidade sonsa de uma sociedade que se deixa passivamente inculpar pelo mal que o próprio acusador lhe faz. Até quando os líderes políticos e empresariais nominalmente não esquerdistas ou até anti-esquerdistas consentirão em participar dessa farsa masoquista? Quando perceberão que estão sendo manipulados por indivíduos amorais, maquiavélicos, sem princípios nem o mais mínimo sentimento de honra?


ABORTO

Debatendo com o crime

A

s alegações em favor da liberação do aborto são tão escandalosamente mentirosas, que o simples fato de aceitar debatê-las já é conceder-lhes uma honra indevida. Não é a mesma coisa discutir com a pessoa honesta que tem uma ideia errada na cabeça e com vigaristas dispostos a impor suas decisões por meio de quantas fraudes e engodos lhes pareçam necessários para isso. Os abortistas, sob esse aspecto, já superaram a quota de mendacidade rotineira de qualquer movimento social ou político, se tornando um perigo público que deve ser denunciado como tal. Mesmo porque a impunidade de que vêm desfrutando só os encoraja a usar a própria justiça como instrumento da fraude, perseguindo e acossando os discordantes por meio de trapaças jurídicas como aquela, já aqui denunciada, de tentar criminalizar o uso da palavra abortistas para designá-los, como se existisse termo melhor. À desonestidade permanente e sistemática da sua propaganda acrescenta-se ainda a brutalidade incomum de uma retórica baseada na intimidação e na chantagem psicológica, que inventa males sociais puramente imaginários para em seguida imputar sua culpa aos adversários do aborto, fazendo da fé religiosa um crime e assim legitimando implicitamente a matança de cristãos e as legislações repressoras que configuram de maneira cada vez mais nítida um deliberado e crescente genocídio cultural. Só a título de amostra, vejam alguns dos feitos notáveis do movimento abortista, e digam, com toda a franqueza, se essa gente merece um debate educado ou uma resposta judicial à altura: 1) As Católicas pelo Direito de Decidir são uma organização pró-abortista fraudulenta, que se finge de católica para ludibriar a população religiosa, mas na verdade é explicitamente satanista. Se isso não é propaganda enganosa e estelionato, a lei mudou sem que eu fosse avisado. Já acusei a organização em público por esses crimes, e a presidente da entidade, após uns rosnados de puro blefe, se recolheu a um silêncio altamente significativo. 2) O processo judicial Roe versus Wade , que produziu a legalização do aborto nos EUA, foi uma fraude completa. A própria autora da petição inicial, que solicitava permissão Diário do Comércio, para abortar sob a alegação de 10 de maio de 2007 estupro, já confessou que não

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sofreu estupro nenhum, que foi tudo uma invencionice tramada entre ela e os líderes do movimento abortista. 3) As estatísticas que procuravam impressionar o público americano com a alegação de milhões de abortos clandestinos realizados anualmente foram forjadas pelo líder abortista Bernard Natanson, que já confessou tudo. Natanson foi proprietário da maior clínica de abortos dos EUA, mas se arrependeu dos seus crimes, voltou à fé judaica da sua infância e hoje é um dos mais corajosos denunciadores do genocídio abortista. Ainda hoje essas estatísticas monstruosamente aumentadas são brandidas pela grande mídia nacional como argumentos sérios. 4) O financiamento bilionário da campanha abortista vem dos mesmos grupos multinacionais que há meio século tentam impor ao mundo o controle populacional por todos os meios lícitos e ilícitos. A desculpa da campanha era eliminar a miséria no Terceiro Mundo. Hoje está provado que o seu único resultado foi, ao contrário, diminuir a natalidade nos países ricos, desencadeando a onda de imigração ilegal que hoje ameaça destruir a sociedade europeia e americana. Em vez de admitir o erro, os iluminados autores da ideia decidiram redobrar a aposta, adquirindo a peso de ouro o apoio dos partidos de esquerda por toda parte e investindo no controle indireto por meio do incentivo ao aborto e ao homossexualismo. Resultado: aqueles partidos, que na década de 60 denunciavam a campanha de controle populacional como intervenção imperialista, se tornaram os maiores defensores e apóstolos daquilo que condenavam. Se isso não é comércio de consciências, não sei o que é. 5) O comércio de fetos para a indústria de cosméticos é o beneficiário mais direto e óbvio da legalização do aborto, mas nem uma palavra sobre isso se admite nos "debates" montados pela grande mídia, toda ela comprometida com a causa abortista.

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MOVIMENTO GAY

Consequências mais que previsíveis

C

omo não cabe ao analista político dizer às pessoas o que devem ou não devem fazer nas suas vidas privadas, nunca escrevi uma linha a favor ou contra as práticas homossexuais ou qualquer outra conduta erótica existente ou por inventar. Escrevi, sim, contra o movimento gay como fórmula ideológica e projeto de poder. Isso bastou para que eu fosse rotulado de "homofóbico" vezes sem conta. Conclusão: se estivesse em vigor a lei maldita que o nosso Parlamento quer aprovar, eu iria para a cadeia por conta de opiniões políticas. Na verdade a lista de atitudes humanas puníveis como "homofóbicas" é bem variada. Ela abrange: 1) Citações da Bíblia ou de livros sagrados de qualquer religião que façam objeções morais ao homossexualismo; 2) Opiniões médicas, psiquiátricas e psicoterapêuticas, que ponham em dúvida, de maneira mais ou menos explícita, a sanidade da conduta homossexual. Isso inclui obras clássicas de Freud, Adler, Szondi, Frankl e Jung, entre outros; 3) Manifestações pessoais de repulsa física ante o homossexualismo, emoção tão espontânea e irreprimível quanto o próprio desejo homossexual. (Inversa e complementarmente, a repulsa do homossexual pela sexualidade hetero, ou até por variantes homossexuais que não coincidam com a sua, como por exemplo a repulsa dos gays machões pelos travestis e transexuais, não apenas será considerada lícita, mas estará sob a proteção da lei, condenando-se como "homofóbica" toda objeção que se lhe apresente ou, mais ainda, toda tentativa de reprimi-la. Ou seja: o direito à repulsa sexual será monopólio exclusivo da comunidade gay); 4) Expressões verbais populares, de uso espontâneo e irreprimível, consideradas depreciativas e anti-homossexuais; 5) Piadas e gracejos que mostrem a conduta homossexual sob um ângulo risível; 6) Opiniões políticas contrárias aos interesses do movimento gay, que já são e serão cada vez mais ne-

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cessariamente interpretadas como adversas aos direitos da comunidade homossexual; 7) Análises sociológicas, históricas ou estatísticas que ponham em evidência qualquer conduta negativa da comunidade gay. Essas análises já estão praticamente excluídas do universo cultural decente. A lei vai proibi-las por completo; 8) Qualquer resistência que um pai ou mãe de família oponha à doutrinação homossexual de seus filhos nas escolas ou à participação deles em grupos e entidades homossexuais; 9) Qualquer tentativa de impedir ou reprimir, por atos ou palavras, as expressões públicas de erotismo gay, discretas ou ostensivas, moderadas ou extremas, mesmo diante de crianças ou em lugares consagrados ao culto religioso; 10) Qualquer observação casual, feita no escritório, na rua ou mesmo em casa (se houver testemunhas) que possa ser considerada desairosa aos homossexuais ou ao movimento gay. Isso inclui a simples expressão de satisfação que um cidadão possa ter por ser heterossexual. A lei, enfim, criminaliza e pune com pena de prisão inumeráveis condutas consideradas normais, legítimas, aceitáveis e até meritórias pela quase totalidade da população brasileira. E não pensem que ficará no papel. Neste momento já estão sendo organizados grupos de olheiros – espalhados primeiro nas escolas, depois em toda parte – para vigiar, delatar e punir os dez tipos de conduta acima assinalados. As consequências mais que previsíveis da aprovação dessa lei são tão portentosas e ilimitadas que a maioria dos cidadãos tem dificuldade de concebêlas, limitando-se a apreender por alto suas aparências mais superficiais e patentes, se não a tratar o assunto com leviana indiferença. Mas essas consequências podem ser resumidas da seguinte maneira: Com um só golpe de caneta, um grupo militante organizadíssimo, fartamente subsidiado do exterior, associado aos partidos de esquerda e agindo em consonância com a estratégia geral que os orienta, terá conquistado uma quantidade de poder policial


discricionário tão vasta e ameaçadora quanto se poderia obter mediante um golpe de Estado ou uma revolução. Dotado do aparato jurídico necessário para aterrorizar toda oposição, reduzi-la a um silêncio humilhante, marginalizá-la e torná-la socialmente inoperante, esse grupo terá se tornado, nas mãos da aliança esquerdista que nos governa, mais um poderoso instrumento de controle social e político, somando-se à polícia fiscal, à ocupação do território pelos "movimentos sociais", ao domínio hegemônico sobre as instituições de cultura e ensino, às campanhas policiais soi disant moralizantes que só atingem sempre os desafetos da esquerda ou bandos criminosos menores, politicamente inócuos, jamais os agentes das Farc, os verdadeiros grão-senhores do crime no continente, cada vez mais ostensivamente protegidos pelo establishment petista. Na verdade, o movimento gay não precisou esperar pela aprovação da lei para fazer sentir o peso das suas ambições policialescas sobre os que ousaram contestar sua pretensa autoridade. O assédio judicial a D. Eugênio de Araújo S a l e s ( v. h t t p : / / w w w. o l a v o d e c a r v alho.org/semana/040724globo.htm ), os esfor-

Paulo Pampolin/Digna Imagem

Se estivesse em vigor a lei maldita que o nosso Parlamento quer aprovar, qualquer resistência que um pai ou mãe de família oponha à doutrinação homossexual de seus filhos nas escolas ou à participação deles em grupos e entidades homossexuais será considerado crime.

ços de "gayzistas" e simpatizantes para destruir a carreira, a família e até a alma do escritor Júlio Severo, a repetição do mesmo procedimento contra o pastor catarinense Ademir Kreuzfeld (v. http://www.juliosevero.blogspot.com/ ), mostram que não faltam armas à elite gay para perseguir, amedrontar e marginalizar seus adversários, quanto mais para defender-se dos perigos imaginários que a ameaçam. A nova lei é material bélico excedente, só utilizável em eventuais demonstrações de força perfeitamente supérfluas. Que tão avassaladora ascensão do autoritarismo seja necessária para proteger os pobrezinhos homossexuais contra piadas, gracejos e citações da Bíblia é um argumento tão risível,

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Jorge Silva/Reuters

que somente um idiota completo ou um mentiroso desavergonhado poderia fazer uso dele num debate sério. Pior ainda é a alegação de violência contra os homossexuais. Já expliquei o que o simples uso do termo "homofóbico" contra os adversários do movimento gay tem de maquiavélico, de perverso, de criminoso ( http://www.olavodecarvalho.org/semana/070523dce.html ). Mas ao delito semântico acrescenta-se ainda a perversão aritmética. Entre os cinquenta mil brasileiros assassinados anualmente, o movimento gay não tem conseguido apontar mais de dez ou doze indivíduos que o teriam sido – se é que o foram – por motivos "homofóbicos". Pretender que a fúria anti-homossexual seja um fato social alarmante e epidêmico, necessitado de legislação especial e drástica, é nada mais que uma farsa cínica, um estelionato parlamentar que, houvesse na política brasileira um pingo de racionalidade e decência, custaria a seus autores a perda do mandato por falta de decoro, por uso indevido do Congresso como instrumento para servir a ambições grupais injustificáveis. Muito maior que o número de vítimas fatais da "homofobia" é o de homossexuais as-

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A lei, enfim, criminaliza e pune com pena de prisão inumeráveis condutas consideradas normais, legítimas, aceitáveis e até meritórias pela quase totalidade da população brasileira.

sassinos, um fato óbvio que a mídia esconde sistematicamente, reforçando o engodo legislativo com a fraude jornalística. E digo que é óbvio por um motivo ainda mais óbvio. Não sendo racionalmente aceitável que a porcentagem de homossexuais seja muito diferente entre os criminosos e a população honesta, a alegação usual do movimento gay de que esta última quota é de cinco a dez por cento nos levaria necessariamente a alguns milhares de homossexuais assassinos, sem contar os homossexuais ladrões, os homossexuais traficantes e, evidentemente, os homossexuais chantagistas parlamentares. Mas nem esse cálculo seria preciso para desmascarar a fachada protetiva com que a lei se apresenta. Um dos traços mais salientes do movimento gay é seu esforço de combater a discriminação onde ela não existe e de ignorá-la por completo onde existe. No Irã, o homossexualismo é punido com a pena de morte. Vocês já viram a liderança gay organizar um protesto internacional contra isso? Ao contrário, ela se alia às demais forças de esquerda para defender a ditadura dos aiatolás contra o "imperialismo ianque". Em Cuba, os homossexuais e travestis são considerados casos de polícia, e quando pegam Aids são isolados para sempre da sociedade. A elite "gayzista" não apenas se abstém de protestar contra esse tratamento desumano, mas também não quer que ninguém proteste. Recentemente, um documentário sobre a condição humilhante dos homossexuais em Cuba foi excluído de um festival em Nova York – por exigência da militância gay . Em compensação, nos EUA e na Europa ocidental, onde os gays têm um lugar privilegiado na sociedade e a prática do homossexualismo é uma tradição elegante entre o beautiful people pelo menos desde a década de 20 do século passado, o clamor por legislações que criminalizem toda crítica à conduta homossexual vem num tom de quem advogasse medidas de emergência para salvar a comunidade gay de um genocídio iminente. No Brasil – uma das sociedades mais permissivas do planeta, onde homossexuais declarados ocupam cadeiras no Parlamento sob aplausos gerais, onde as vovós assistem a shows de travestis na TV junto com seus netinhos e onde um espetáculo público de carícias lésbicas entre a esposa de um governador e a de um ministro não suscita o menor escândalo na mídia –, a gritaria "anti-homofóbica" dá a impressão de que os homossexuais estão sendo abatidos a tiros, nas ruas, por um exército de talibãs cristãos.


Ao longo das últimas décadas, à medida que toda resistência moralista à conduta homossexual cedia lugar à compreensão generosa e à aceitação incondicional, as reivindicações do movimento gay no Ocidente vieram num crescendo, exigindo primeiro a equiparação moral de suas práticas com o casamento heterossexual, depois o ensino do homossexualismo nas escolas infantis, por fim as penas da lei para padres, pastores e rabinos que citem os versículos da Bíblia contrários ao homossexualismo. O contraste entre discurso e realidade é patente: o movimento gay cresce em arrogância, virulência e pretensões ditatoriais à medida que a sociedade se torna mais tolerante, simpática e subserviente às exigências da comunidade homossexual. Quem diria que a inversão sexual, com tanta frequência, viesse junto com a inversão mental? Basta observar esse fenômeno para perceber imediatamente que a alegação característica do discurso gay, de proteger uma comunidade oprimida, é apenas uma camuflagem, um véu ideológico estendido por cima de objetivos bem diferentes, incomparavelmente mais ambiciosos. Uma pista para a compreensão efetiva do fenômeno são os grupos de intelectuais, políticos e artistas homossexuais, tremendamente poderosos e influentes, que marcaram a história política e cultural do século XX com o culto da supremacia gay. Três deles são particularmente importantes: o círculo de Stefan George na Alemanha, o de André Gide na França e, na Inglaterra, a confraria dos "Apóstolos" de Cambridge. Em cada um dos três casos, a militância pública – sempre do lado errado, nazista ou comunista – encobria uma dimensão mais profunda e mais sinistra, de seita gnóstica empenhada em subjugar a humanidade comum a uma elite homossexual imbuída de um senso de superioridade quase divina. Voltarei ao assunto quando possível. Por enquanto, basta dizer o seguinte: o atual movimento gay é a materialização possante e assustadora de um projeto de revolução civilizacional que, a pretexto de proteger oprimidos, não hesita em entregá-los às feras quando isso convém à sua grande estratégia. Que esse projeto seja apenas um desenvolvimento específico dentro do quadro maior do movimento revolucionário mundial é algo tão óbvio que não necessita ser enfatizado. Mas, por absoluta incompreensão desse ponto, os adversários do movimento gay, quase sem exceção, têm cometido dois erros monstruosos. Primeiro: combatem, junto com o movimen-

to, a homossexualidade em si. Politicamente , isso é loucura. O movimento gay existe há algumas décadas e só em alguns lugares do planeta; o homossexualismo existe por toda parte desde que o mundo é mundo. O primeiro pode ser derrotado; o segundo não pode ser eliminado. Condicionar a vitória sobre o movimento gay à erradicação do homossexualismo é adiar essa vitória para o Juízo Final. Segundo: procurando atenuar a má impressão de autoritarismo dogmático que essa atitude inevitavelmente suscita, apressam-se a declarar que respeitam os direitos dos gays e que desejam apenas preservar, lado a lado com eles, os direitos da consciência religiosa. Com isso, igualam o inigualável, negociam o inegociável, nivelam a liberdade de consciência a uma "opção sexual", à preferência por determinado tipo de prazer erótico. Será preciso lembrar a esses cavalheiros que, privado de satisfação erótica, o ser humano sofre alguma incomodidade, mas, desprovido da liberdade de consciência, perde o último resquício de dignidade, o sentido da vida e a razão de existir? Em suma: são intransigentes onde deveriam ceder, cedem onde deveriam ser intransigentes, inflexíveis e até intolerantes. Não há nada de mais em aceitar o homossexualismo como uma realidade social que não pode ser erradicada e que, se deve ser combatida, é com todos os cuidados necessários para não ferir e humilhar pessoas. Em contrapartida, tratar como igualmente nobres e respeitáveis o mais elevado princípio da moralidade e o simples direito legal de fazer determinadas coisas na cama é uma inversão hedionda da hierarquia lógica e moral, é uma desobediência acintosa ao Primeiro Mandamento, cuja implicação mais óbvia é o dever incondicional de colocar as primeiras coisas primeiro. Se os adversários do movimento gay querem a proteção de Deus na sua luta, deveriam começar por não ofendê-Lo dessa maneira. Da minha parte, afirmo que defenderia por todos os meios ao meu alcance o direito que os homossexuais têm de que sua preferência sexual não lhes custe humilhações ou constrangimentos. Mas, tão logo uma dessas criaturas pretendesse igualar ou sobrepor esse direito à liberdade de consciência, da qual ele próprio não é senão uma decorrência lógica aliás bem remota e secundária, eu lhe responderia, na mais polida das hipóteses, com as seguintes palavras: – Cale a boca, burro. Não me peça para respeitar um direito que você mesmo, embora talvez sem se dar conta, está pisoteando com quatro patas.

O contraste entre discurso e realidade é patente: o movimento gay cresce em arrogância, virulência e pretensões ditatoriais à medida que a sociedade se torna mais tolerante e simpática às exigências da comunidade homossexual.

Diário do Comércio, 04 de junho 2007

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Estupro psicológicoestatal

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ão existe qualquer epidemia de violência contra os homossexuais neste País, mas, mesmo que houvesse, nenhuma lei contra opiniões religiosas poderia fazer nada para detê-la, pela simples razão de que, fora dos países islâmicos, casos de violência anti-homossexual por motivo de crença religiosa são a raridade das raridades, e no Brasil até agora não se comprovou nenhum. Rigorosamente nenhum. Em compensação, a lei tornaria automaticamente criminosos e sujeitaria à pena de prisão milhões de brasileiros honestos, cujo único delito é acreditar na Bíblia. Eles poderiam ser presos não só por ler em voz alta versículos tidos como "homofóbicos", mas por protestar contra qualquer casal gay que, por mera provocação ou genuína falta de autocontrole, se afagasse com a maior impudência dentro de uma igreja, quanto mais numa praça pública. Os gays, indefesos como todo o restante da população num país que tem cinquenta mil homicídios por ano, continuariam tão sujeitos quanto agora à truculência de assassinos e estupradores – estes últimos necessariamente homossexuais eles próprios, no caso –, mas estariam protegidíssimos contra o apelo suave do Evangelho, que os convoca a mudar de vida. Alegar que essa lei se destina à proteção da comunidade gay é cinismo; ela se destina, isto sim, à destruição da comunidade cristã, sem nada oferecer aos homossexuais em troca, apenas dando à parcela politizada e antirreligiosa deles a satisfação sadística de alegrar-se com a desgraça alheia. Desgraça tanto mais satisfatória, a seus olhos, quanto mais injusta, arbitrária e sem motivo.

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Se algum dia houve no Brasil uma proposta de lei desprovida de qualquer razão de ser além do puro ódio, é essa. Mas não é somente sobre os cristãos que ela despeja esse ódio. É sobre toda a concepção do Estado democrático, do governo do povo pelo povo. Não há um entre os proponentes dessa lei que o ignore, nem um só que não se regozije com isso. No Estado democrático, o governo é a expressão da vontade popular e, portanto, da cultura reinante. Ele pode elevá-la e aperfeiçoá-la, mas o próprio fundamento da sua existência consiste em respeitá-la e protegêla. Na nova concepção imposta pela elite globalista iluminada, o Estado é o "agente de transformação social", a vanguarda da "revolução cultural" incumbida de fazer o povo gostar do que não gosta, aprovar o que não aprova, cultuar o que despreza e desprezar o que cultuava. É o órgão do estup ro p s i c o l ó g i c o permanente, empenhado em chocar, escandalizar e contrariar a alma popular até que esta se renda, vencida pelo cansaço, e passe a aceitar como decreto da Providência, como fatalidade natural inevitável, o que quer que veDiário do Comércio, nha da burocracia 28 de julho de 2008 dominante.


FORÇAS ARMADAS

o c i t s ó n g a o Di ã ç a u t i s a d

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Diário do Comércio, 22 de fevereiro de 2007

s militares ditos "nacionalistas", que aliás não são muitos, acusam-me de tachá-los de comunistas e de não compreender suas elevadas intenções patrióticas. Ao contrário. Sei que não são comunistas. São anticomunistas, entusiastas do capitalismo de Estado, antiamericanos por cálculo e não por ideologia. E compreendo perfeitamente bem suas intenções. Discuti-as muitas vezes com o remoto, mas influente mentor do grupo, o falecido general Carlos de Meira Mattos, meu amigo, inteligência brilhante, e lhe expus francamente minha discordância, então ainda nebulosa e mal fundamentada. O que sonham é aproveitar-se da onda esquerdista, ajudando-a a precipitar uma situação virtual de guerra contra os EUA, que elevaria às nuvens o poder das Forças Armadas, facilitando a derrubada dos esquerdistas e a instauração de um governo nasserista de salvação nacional. O plano não é comunista: é apenas louco. Trata-se de matar o País para disputar a posse do cadáver. Uma situação de guerra ou mesmo de pré-guerra na América Latina é tudo o que os globalistas precisam para colocar a área sob intervenção da ONU. A soberania nacional desapareceria em segundos, a Amazônia seria internacionalizada por automatismo. Os militares nacionalistas iriam para a cadeia e os comunistas voltariam ao poder como heróis da democracia, sob os aplausos da comunidade internacional e da mídia chique. O plano é furado porque sua base teórica é a metodologia errada da Escola Superior de Guerra, cujo conceito fundamental de "poder

nacional" só reconhece como sujeitos agentes da História os Estados e os governos. Estados e governos não são sujeitos da ação histórica: são seus instrumentos. Sujeitos históricos são entidades mais permanentes e estáveis, cuja ação se estende para além da duração dos Estados e governos. Sujeitos da História são as castas religiosas, as dinastias monárquicas e oligárquicas e as seitas gnósticas transfiguradas em movimentos ideológicos de massa. Sua ação atravessa os séculos, passando por cima do prazo de vida dos Estados e do horizonte de visão de seus governantes. O atual espetáculo do mundo é a disputa entre quatro sujeitos da História: as religiões cristã e judaica, com suas concepções tradicionais da civilização, o movimento revolucionário mundial, a oligarquia globalista e o expansionismo islâmico. Estes três têm relações ambíguas entre si; ora são aliados, ora concorrentes. Os cristãos e judeus estão sozinhos contra todos, mal articulados em movimentos conservadores que só têm expressão nos EUA. Mas neles repousa a única esperança de preservar a civilização e impedir a dissolução das soberanias nacionais. A mera contraposição de nacionalismo e globalismo é estreita e provinciana demais para dar conta do quadro. Ela falseia a realidade e eleva a planos de ação insensatos, condenados ao fracasso. O obstáculo que separa de mim aqueles militares não é ideológico: é a ciumeira de intelectos atrofiados contra o estudioso que enxerga mais que eles. Se pusessem a pátria acima de seus egos, estariam me ouvindo em vez de me jogar pedras.

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INCOMPARÁVEIS

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rinta anos atrás, em 12 de outubro de 1977, uma grave crise no meio militar levou à demissão do ministro do Exército, general Sylvio Frota, pelo presidente Ernesto Geisel. As causas foram muitas, e o próprio Frota as descreve com abundância de detalhes em seu livro de memórias, Ideais Traídos (Rio, Zahar, 2006), mas no fundo de tudo havia uma divergência ideológica insanável. Frota permanecia rigidamente fiel ao objetivo do movimento de 31 de março de 1964, que era livrar o País do comunismo. Geisel abriu o caminho para que os comunistas tomassem o País de volta, deu dinheiro dos nossos impostos para ajudar Cuba a matar uns dez mil angolanos e instalar uma ditadura socialista na antiga colônia portuguesa, inchou a burocracia estatal o quanto pôde e diluiu a velha aliança entre o Brasil e os EUA, mesmo ao preço de assinar um desastroso acordo de energia nuclear com a Alemanha. Dizem que fez tudo isso inspirado pelo grão-estrategista do regime, general Golbery do Couto e Silva. Não sei. O que sei é que, das duas uma: ou ambos eram, em segredo, cúmplices da esquerda, ou eram totalmente cegos para os resultados previsíveis de suas ações. Qualquer que fosse o caso, quem examinasse objetivamente a política de Geisel naquela época, com um pouco de compreensão do processo histórico, poderia prever que seu desenlace a médio ou longo prazo seria precisamente o que foi: os comunistas no poder, a obra do movimento de 1964 destruída, as Forças Armadas sucateadas e humilhadas, o triunfo geral da desordem e do crime em estreita parceria com a revolução continental. Pelo pecado de ter compreendido a realidade, o geneArquivo/AE

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O general Sylvio Frota tinha razão: a abertura do general Geisel abriu as portas do inferno. Frota conta tudo com abundância de detalhes em seu livro de memórias, Ideais Traídos (Rio, Zahar, 2006).

ral Sylvio Frota perdeu o cargo e ainda foi carimbado como um linha-dura grosseirão, incapaz de ombrear-se ao superior tirocínio dos iluminados Geisel e Golbery. Não, não estou lamentando o fim da ditadura. Não gostei do regime militar enquanto durou, nem lhe perdoo agora seus inumeráveis pecados, a começar pela ruptura da promessa de eleições livres em seis meses, pela destruição da maior liderança civil anticomunista que este País já teve – Carlos Lacerda –, e pela fuga ao dever do combate cultural, que, se empreendido em tempo, não só teria frustrado de antemão as ambições belicosas mais imediatas da esquerda, livrando as Forças Armadas de comprometer-se na subsequente "guerra suja", mas teria também estrangulado no nascedouro o projeto gramscista que, protegido sob a atenção exclusiva dada pelo governo militar às ações da esquerda armada, teve tempo de crescer em silêncio e transformar-se no que é hoje. O que quero dizer é simplesmente que não há comparação possível entre os males da ditadura nacional e o caos ignóbil e sangrento que a esquerda prometia ao País. Prometia e, decorridas quatro décadas, está realizando. Cinquenta mil homicídios por ano, a corrupção endêmica e incontrolável, a juventude intoxicada e imbecilizada pelas drogas enquanto o governo afaga a c a b e ç a d a s F a rc , o E s t a d o transformado em apêndice do PT e agência de empregos para militantes, a educação nacional reduzida à pregação comunista m a i s e s t u p e f aciente, a Amazônia desnacionalizada desde dentro pela subversão descarada das " n a ç õ e s i n d í g enas" e de fora pelo


intervencionismo galopante das ONGs e da ONU – é preciso ser muito sonso para imaginar que tudo isso é mero acúmulo casual de incompetências e não a realização metódica de uma gigantesca engenharia da destruição. Também não há comparação possível, na esfera moral, entre os oficiais militares brasileiros – a última categoria de pessoas nas quais o povo ainda deposita alguma confiança – e os comunistas que hoje se fazem de seus juízes, preparandose velozmente para tornar-se seus carrascos. Basta examinar um só aspecto da psicologia comparada, entre os dois grupos, para notar a diferença medonha. Ninguém, nas nossas Forças Armadas, enaltece os excessos e brutalidades cometidos em nome do movimento de 1964. Seja entre os remanescentes da época, seja entre os oficiais mais jovens, todos entendem que uma coisa é combater guerrilheiros em campo aberto, outra completamente diversa é torturar, estrangular ou matar à míngua prisioneiros desarmados. Mas quem, na esquerda, admite que esses crimes não são piores do que matar inocentes com atentados a bomba, sequestrar e matar representantes de outros países, assaltar bancos e, last not least, esmigalhar a coronhadas a cabeça de um prisioneiro amarrado? Quem, na esquerda, admite que, se estes delitos foram anistiados, aqueles também o foram de uma vez para sempre? Quem, na esquerda, entende que não há crimes bons e crimes ruins, que tudo o que é feito contra a lei e contra a moral é mau em proporções iguais? Não, não há nada que os apóstolos da igualdade abominem mais do que a igualdade de valor entre as vidas humanas. As deles valem o infinito. As dos outros, nada. Eles cobram tão caro os seus trezentos militantes mortos pela ditadura brasileira, e ao mesmo tempo barateiam de tal modo os cem milhões de vítimas civis do comunismo internacional, que nenhum observador em seu juízo perfeito, vendo tão patente e brutal desproporção, pode deixar de saber que está diante de sociopatas perigosos, desprovidos dos mais elementares sentimentos humanos de equidade e justiça. Não é admissível que uma pessoa adulta, supostamente razoável, pese vidas humanas numa balança tão obviamente viciada, conce-

Ninguém nas nossas Forças Armadas enaltece os excessos e brutalidades cometidos em nome do movimento de 1964.

Diário do Comércio, 15 de outubro de 2007

dendo a umas a dignidade intocável do sagrado e atirando distraídamente as outras ao lixo como detritos ocasionais do processo histórico (isso quando não lança sobre elas mesmas a culpa do acontecido, por sua obstinação pecaminosa de rejeitar a oferta do paraíso comunista), e depois ainda queira posar de bem intencionada, generosa e carregadinha de virtudes evangélicas. O comunismo, como o nazismo ou qualquer outra ideologia revolucionária, é uma hedionda tara moral, e nenhum indivíduo que tenha sua mente deformada por ela, no grau mais modesto que seja, deve ser considerado um interlocutor confiável nem mesmo em puros debates de idéias, quanto mais na politica prática, com todas as consequências que desencadeia sobre a vida das multidões. Nenhum conservador, por mais que odeie o comunismo, aceitará jamais a proposta de erradicá-lo do mundo mediante a liquidação de cem milhões de comunistas. Ser conservador é precisamente recusar, com todas as forças, a idéia insana de que alguém tenha o direito à prática da violência generalizada em nome da promessa de um futuro vago e hipotético, a ser cumprida em data incerta e por um preço incalculável. Para os comunistas, ao contrário, essa ideia não só é natural como obrigatória, pois é ela que os transforma naquilo que Che Guevara chamava de "o escalão mais alto da espécie humana". A expressão está aliás reproduzida na breve coletânea de frases memoráveis do ex-ministro cubano da Economia, que o dr. Emir Sader reuniu e fez preceder de considerações apologéticas tão enfáticas que raiam a hagiografia pura e simples. Leiam e verão: é difícil saber quem é mais psicótico, o culto do Che ou o próprio Che. Aquela mistura de ódio sanguinário, autoadmiração desmedida e sentimentalismo kitsch é por si um mostruário de psicopatologia, e o fato de que nem o antologista nem seus leitores percebam o grotesto da coisa é mais sintomático ainda. Exemplo: "Nosso sacrifício é consciente. É a cota que temos de pagar pela liberdade que construímos." O sujeitinho mata milhares de civis desarmados, e diz que quem faz o sacrifício é ele. Quem pode esperar resolver suas divergências com um celerado desses mediante a convivência democrática, tapinhas nas costas e argumentos racionais? Sylvio Frota tinha razão: a "abertura" do general Geisel abriu mesmo foi as portas do inferno.

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LIBERALISMO E CONSERVADORISMO

O patinho feio da política nacional

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m artigo que publiquei no Rio de Janeiro, mas que o seu significado e transformando-a num pretexto jurídico-forleitor do Diário do Comércio pode encontrar em mal para banir da vida pública toda expressão da fé, instituinh t t p : / / w w w. o l a v o d e c a r v a l h o . o rg / s e m ado a perseguição antirreligiosa generalizada que, a esta altura, na/070308jb.html, acabou suscitando mais polêmijá se traduz numa profusão de leis repressivas. cas do que eu esperava. Nele eu esboçava as preliminares de O que no Brasil incitou a direita a autodenominar-se "liberal" uma crítica ao hábito da direita brasileira de denominar-se "lifoi o fato de que o debate político nacional se limita quase que beral" em vez de "conservadora", hábito que resulta numa depor inteiro a uma questão econômica, a disputa entre intervensastrada inversão das suas intenções e propósitos, já que o libecionismo estatal e livre mercado. Nesse quadro, a simples opção ralismo é uma etapa do movimento revolucionário mundial e pelo "liberalismo clássico" em economia acabou servindo para não se pode frear um movimento fazendo-o dar, como dizia Lêdefinir toda uma corrente política como "liberal" (ou, segundo nin, um passo atrás para dar dois para a frente. seus adversários, "neoliberal", um termo que já A terminologia política americana é muito comentei aqui; v. http://www.olavodecarvamais sã e realista do que a brasileira. Direita e eslho.org/semana/050725dc.htm). Os inconvequerda, nos EUA, são chamadas respectivanientes disto são múltiplos. mente "conservatism" e "liberalism", mostranDesde logo, o fato de uma corrente política do que o pivô da luta política é a escolha entre aceitar definir-se exclusivamente pela sua opconservar os valores e princípios dos Founding ção econômica serve para legitimar um debate Fathers, ou, ao contrário, liberar-se deles. O fato político atrofiado, expressão cultural de uma Como no Brasil de que esses valores e princípios absorvam em sociedade doente obcecada por dinheiro – ou não há outras si o legado do liberalismo econômico clássico antes, como dizia o Millôr Fernandes, pela falta correntes direitistas (de Adam Smith a Ludwig von Mises) poderia de dinheiro. além da "liberal", gerar algum equívoco, mas nunca vi um ameEm segundo lugar, o liberalismo político é a ela acorrem ricano com mais de oito anos de idade confundesde suas raízes um movimento revolucionário dir "classic liberalism", que é uma teoria econôe antirreligioso. A origem do termo é espanhola, em busca de abrigo mica, com o liberalismo político de Ted Kenneopondo "liberales" a "serviles", abrangendo imos conservadores dy, Nancy Pelosi e George Soros, que tende a plicitamente neste último termo a totalidade dos católicos, uma economia estatizante e socialista. É que a fiéis católicos. Foi o liberalismo que, na França, protestantes e divergência em economia é somente um eleinstituiu a "constituição civil do clero", virtualjudeus. mento de detalhe numa disputa que se desenmente banindo a Igreja do território nacional. Na rola em torno de diferenças muito mais abranlinguagem das encíclicas papais, "liberalismo" é gentes e profundas. Em última instância, o que a denominação das correntes heréticas, que diestá em jogo é saber se os princípios da Constituição continuarão luíram o dogma tradicional, preparando o advento da apostasia valendo em sentido material, substantivo, com todas as suas imgeral e da "teologia da libertação". Entre os protestantes, "liberaplicações culturais e morais para o guiamento da vida americalismo religioso" é o nome da traição organizada. "O liberalismo – na, ou se, ao contrário, serão interpretados num sentido meracomo resumiu um pregador evangélico americano – substituiumente jurídico-formal, que permita usá-los em favor de valores se à perseguição. A perseguição matava homens, mas fazia prosopostos aos que inspiraram a redação do documento. perar a causa; o liberalismo mata a causa bajulando os homens A diferença é exemplificada pelo debate atual em torno do para induzi-los a compromissos. A verdade perseguida sobrevifamoso "muro de separação" que Thomas Jeffenson pretendia veu em todas as eras, mas a verdade comprometida nunca sobreerguer entre o Estado e as religiões. A ideia original era impedir vive à tragédia fatal em que a voz de Deus é igualada à voz das que o Estado se tornasse instrumento de perseguição religiosa. tradições humanas" (Judson Taylor, em http://gosOs "liberals" apegam-se hoje à fórmula, mas esvaziando-a do pelweb.net/OldTimersWorks/judsontaylor.htm).

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Corbis

Como no Brasil não há outras correntes direitistas além da "liberal", a ela acorrem em busca de abrigo os conservadores católicos, protestantes e judeus. Mas aí, em nome da liberdade de mercado, são obrigados a camuflar as divergências que têm com os demais liberais em pontos muito mais decisivos de ordem moral e cultural. O "liberalismo" brasileiro, unificado exclusivamente por um programa econômico, é um saco de gatos no qual têm de conviver em harmonia abortistas e antiabortistas, adeptos e ini-

migos da liberação das drogas e da eutanásia, fiéis religiosos ao lado de discípulos de Voltaire e Richard Dawkins empenhados em banir a religião da vida pública. Durante algum tempo, essas divergências podem parecer desprezíveis em face da luta mais imediata contra a economia estatista. Mas isso é uma ilusão mortal. Há tempos a esquerda internacional e local já decidiu que a estatização da economia pode ser adiada indefinidamente, se não sacrificada de vez em favor da fórmula mista chinesa – e que mui-

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to antes dela vem o combate no campo cultural, a luta contra a Quem sabe que os sistemas de ideias têm uma estrutura prócivilização judaico-cristã. Nessa luta, bandeiras como a liberação pria, independente e diversa das intenções subjetivas de seus das drogas, a proibição da "homofobia" ou a legalização da euseguidores, entende claramente que a distinção entre liberalistanásia são prioritárias. Como se pode combater o esquerdismo mo e conservadorismo é exatamente aquela que expus. Se alconcentrando o ataque num objetivo hipotético de longo prazo e guém não o entende é porque, levado por hábito pessoal ou cedendo ao inimigo todo o campo de batalha real e imediato onde grupal, anexa ao liberalismo valores externos, – morais ou reele já conquistou a hegemonia e tem quase o controle completo da ligiosos – que não são logicamente integráveis na sua estrutusituação? Essa é exatamente a "fórmula estratégica" do liberalisra. Muitos dos que caem nesse erro são apenas conservadores mo brasileiro, que no seu enfrentamento com os esquerdistas tem que se afeiçoaram, por motivos de pura oportunidade local, ao de se limitar à argumentação econômica para não pôr à mostra rótulo de liberais. suas profundas e insanáveis divergências internas, enquanto o Quando o liberal enfezado exclama: "Nós temos princípios, discurso da esquerda está livre para abranger todos os temas e não somos aqueles amoralistas que você descreveu", ele mostodas as dimensões da vida social, seguro de poder contar, em tra, desde logo, sua incapacidade de distinguir entre o arranjo muitas áreas, com o apoio de uma parcela dos "liberais". terminológico local e a ideologia liberal em si. Mostra ainda Foi para limpar o terreno e possibilitar uma discussão séria sua confusão entre "princípios" e meras regras operacionais. desse problema que escrevi o artigo "Por que não sou liberal". Um princípio é assim chamado porque vem, ora bolas, no O artigo exibia as palavras "liberal" e "conprincípio! Não na continuação de alguma servador" entre enfáticas aspas, para indicar coisa. É um preceito fundante e não fundado, que significavam "tipos ideais", não assimilácondicionante e não condicionado. Justaveis a qualquer grupo político concretamente mente porque não depende de mais nada, existente nos arredores. Não obstante, muita porque vale por si mesmo, é que um princígente o leu como se fosse um ataque desferido pio tem de poder ser aplicado universalmencontra um desses grupos. Houve até quem viste, sem modificações nem atenuantes, a toHá tempos a esquerda se nele o manifesto de um alguma confraria podos os casos abrangidos no seu enunciado, lítica mais ou menos clandestina, que por fim sem que isso leve a nenhuma contradição lójá decidiu que a saísse do armário esbofeteando as vizinhas pagica e muito menos a absurdidades reais. estatização da ra poder mais facilmente se autodefinir por Sem essa propriedade, nenhum enunciado é economia pode ser oposição a elas. um princípio. "Não matarás", por exemplo, é adiada em favor da No Brasil de hoje, é isso o que se chama de um princípio. Um indivíduo decidido a cumfórmula mista chinesa – e "ler". Primeiro, atribuir intenções ao autor e dispri-lo até às últimas consequências, abstencutir com elas, não com ele. Segundo, transpor o do-se de tirar a vida alheia mesmo quando os que muito antes dela texto para o modo imperativo, interpretando-o outros o julgassem moralmente obrigado a vem o combate no como se fosse a expressão de um desejo ou orfazê-lo, nem por isso teria se tornado um ascampo cultural, a luta dem, uma tentativa de interferir na realidade e sassino. Um omisso ou um covarde, talvez; contra a civilização não de compreendê-la. Já expliquei anos atrás não um assassino. A extensão indefinida das judaico-cristã. que, das famosas três funções da linguagem aplicações não modifica o sentido do princíclassificadas por Karl Bühler, os brasileiros só pio, que é princípio justamente por isso: por sabiam de duas: a expressiva (manifestar estaestar na extremidade inicial de uma série ilidos interiores) e a apelativa (influenciar as pessoas). A função mitada de consequências sobre as quais ele impera com audenominativa (descrever e analisar a realidade) era totalmente toridade inabalável, absoluta. desconhecida nesta parte do mundo, e quem quer que cometesJá as regras operacionais não instituem o seu próprio campo de se a imprudência de falar ou escrever alguma coisa nessa clave aplicação: ele é demarcado por um número ilimitado de outras seria automaticamente traduzido para as outras duas. regras operacionais, algumas delas tácitas ou só descobertas ex Por trás da linguagem informal, meu artigo era um estudo espost facto, bem como por um número também ilimitado de contritamente científico de duas fórmulas ideológicas consideradas veniências de ordem prática que podem intervir em cada caso. na sua pura lógica interna, independentemente de acréscimos e Toda regra operacional é por isso intrinsecamente deficiente e não modificações que pudessem sofrer de fatores sociológicos ou psipode ser aplicada senão com muitos atenuantes e modificações. cológicos intervenientes. Para tirar dele consequências políticas Um princípio vale por si, independentemente da variedaaplicáveis à situação concreta seria preciso antes compreendê-lo de das situações. As regras operacionais, ao contrário, semno próprio nível teórico em que se colocava. Saltando essa etapa, pre se dispõem em sistemas e hierarquias compostos essenalguns preferiram aplicá-lo diretamente a si próprios e achar que cialmente de limitações mútuas (culminando, idealmente, eu estava falando mal deles, ficando naturalmente indignados num princípio que as limita a todas sem ser limitado por com a injustiça que eu lhes fazia (é a terceira regra de leitura vielas). Uma regra operacional que, desconhecendo seus limigente neste País: substituir a compreensão inteligente por alguma tes internos e externos, busque estender indefinidamente afetação de sentimentos morais elevados; a quarta é interpretar seu campo de aplicação, acabará se chocando não só contra tudo como mensagem cifrada de um grupo e não como esforço outras regras e contra as conveniências externas, mas contra cognitivo de um cérebro individual). si própria. "Agir no interesse próprio", por exemplo, é uma

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regra operacional. Ela funciona em certas circunstâncias da vida, mas, se passar de um certo limite, jogando os interesses do indivíduo contra os de todos os demais, ele se tornará presa de uma situação de isolamento ou de hostilidade que não é do seu interesse de maneira alguma. A regra, para funcionar, tem de ser freada por um sem-número de outras considerações. Na verdade ela já vem com freio, porque os interesses de uma criatura limitada são eles próprios necessariamente limitados, no mínimo pela duração limitada da sua vida. Uma regra operacional erigida indevidamente em princípio leva necessariamente à sua própria negação. Ora, quais são os "princípios" do liberalismo? Quais são os critérios máximos e comuns a que os liberais, ao tentar dirimir suas divergências internas, apelam como a princípios supremos incumbidos de fundamentar julgamentos unânimes e restaurar a unidade do conjunto? São dois: a liberdade e a propriedade privada. Mas esses não são princípios de maneira alguma. São regras operacionais. Quando um liberal diz que "a liberdade de um termina onde começa a do outro", ele está reconhecendo exatamente isso. E o mesmo aplicase à propriedade: o terreno do Zé-Mané termina onde começa o do Mané-Zé. Nem a lei da propriedade nem a da liberdade podem ser estendidas ilimitadamente sem negar-se a si próprias. A liberdade absoluta equivaleria à completa ausência de constrangimentos externos, isto é, ao poder absoluto e à completa extinção da liberdade. Do mesmo modo, a propriedade absoluta corresponderia à posse integral e perfeita: seria propriedade em sentido lógico e não jurídico, como a propriedade de respirar, que você não pode vender e portanto não é propriedade em sentido jurídico de maneira alguma. O "não matarás" não tem limites internos de qualquer natureza. Ele exclui somente aqueles casos que, a priori, já estão fora do seu enunciado, como por exemplo a defesa própria: defender-se não é "matar", é tentar sair da encrenca por algum meio que, independentemente da sua intenção, resulte na morte do atacante. Se quem se defende em tais circunstâncias não é assassino, muito menos o é quem se recuse a fazê-lo, estendendo a aplicação literal do princípio até à aceitação passiva do dano próprio. Já a liberdade e a propriedade têm o dom inato de liquidar-se a si mesmas quando se erigem em princípios. Se o liberalismo desemboca com tanta frequência no socialismo – como Verkhovenski pai gera Verkhovenski filho em Os Demônios de Dostoiévski –, é precisamente porque se constitui de regras operacionais que não têm, por definição, a abrangência necessária de princípios capazes de dar conta de suas próprias consequências.

O liberalismo é assim em razão da profunda influência que recebeu de Kant. Todo o esforço do filósofo de Koenigsberg foi para esvaziar a moral (e sua filha primogênita, a filosofia política) de todo conteúdo substantivo, reduzindo-a a um punhado de exigências formais, como por exemplo, "age de maneira que a regra que inspira tua ação possa ser adotada em todos os casos idênticos". Kant não nos diz que regra deve ser essa, e não o diz justamente porque a moral, para ele, não pode ter nenhum fundamento objetivo. Ela repousa inteiramente na "fé", compreendida como crença subjetiva, e nos "imperativos categóricos", isto é, em exigências que ninguém pode justificar, mas que todos se sentiriam aviltados se não as cumprissem. Para Kant, só existe conhecimento substantivo dos "fenômenos", aparências naturais estudadas pela ciência física. Tudo o mais são formas lógicas, "imperativos categóricos" ou matéria de crença pessoal. Como nenhuma dessas três coisas é um princípio, no sentido substantivo do termo, isso equivale a dizer que a moral kantiana e a política liberal que nela se inspira são totalmente desprovidas de princípios, exceto lógico-formais e operacionais. Guido de Ruggiero notou, em sua clássica "História do Liberalismo Europeu", que o liberalismo não era uma filosofia política no sentido substantivo, mas um "método", um conjunto de preceitos e regras que podiam ser adaptados às mais diferentes situações mediante um número ilimitado de ajustes e atenuações, conforme as exigências dos casos concretos. Qualquer afirmação de um princípio substantivo é, na perspectiva kantiana, uma invasão do território reservado às ciências. O kantismo é, nesse sentido, o pai do positivismo, que os liberais de hoje tanto abominam porque têm contra ele aquele ódio extremo dos irmãos inimigos. Na verdade, odeiam nele tão somente a sua política centralizante e intervencionista, mas continuam subscrevendo a proibição kantiano-positivista de levar o conhecimento humano para além dos "fenômenos" e, portanto, de conhecer qualquer princípio moral universal no sentido que esses princípios tinham em Platão ou no cristianismo. A própria sacralidade da vida humana não cabe de maneira alguma na perspectiva liberal. Para não ser abandonada de todo, ela acaba tendo de ser justificada com base nos dois pseudo-princípios da liberdade e da propriedade. Raciocina-se, por exemplo, da seguinte maneira: o corpo e sua vida são propriedades privadas do seu portador, o qual tem a liberdade exclusiva de decidir o que fazer com eles; logo, matá-lo contra a vontade dele é violar sua propriedade e sua liberdade. Tendo proclamado isso, o liberal acredita ser um sujeito boníssimo, porque defende a integridade da vida humana sem ser com-

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pelido a isto por nenhuma obrigação religiosa ou princípio universal, mas somente pelo livre exercício da sua razão individual. Mas não há nisso racionalidade nenhuma, há apenas uma confusão dos diabos. Desde logo, produzir um argumento em favor de alguma coisa não é o mesmo que fundamentála. A liberdade e a propriedade podem ser alegadas em favor da proibição de matar, mas não a fundamentam de maneira alguma, porque não são princípios. É impossível, por exemplo, decidir só com base nessas regras se o aborto deve ser permitido ou não: a aplicação dos "princípios" a esse caso só leva a perplexidades insolúveis, como por exemplo, a de saber se o feto é propriedade da mãe ou é dono de sua própria vida, discussão imbecil e postiça que já mostra a deficiência intrínseca do conceito de propriedade, quanto mais a inviabilidade de estender sua aplicação ao ponto de fazer dele o fundamento de alguma coisa mais básica como o direito à vida. Para qualquer pessoa não intoxicada do preconceito kantiano, o direito à vida é que é fundamento da liberdade e da propriedade. Reconhecem-no implicitamente todos os códigos penais do mundo (exceto o velho código penal soviético) ao prescrever penas mais graves para o homicídio do que para a mera subtração da propriedade ou da liberdade. Fundamentar o direito à vida com base na liberdade e na propriedade é torná-lo tão ambíguo quanto elas. E aí a única solução possível é transformar o "Não matarás" num "imperativo categórico", isto é, em algo que é assim só porque o fulano sente que deve ser assim. Um liberal pode ter princípios, sim, e a maioria dos que conheço os têm, mas os têm enquanto indivíduos concretos e não enquanto "liberais". A incongruência da situação reside em que o método liberal, posto a serviço de princípios e valores substantivos tradicionais, constitui precisamente aquilo que nos EUA se chama "conservatism". Nesse sentido, nem Friedrich Hayek nem Ludwig von Mises jamais foram liberais: e nos EUA não há quem não os considere anjos tutelares do movimento conservador. Porém o mesmo método, separado da moldura tradicional e erigido ele mesmo em princípio, se torna uma arma terrível nas mãos do movimento revolucionário, que através dele põe a serviço da mutação cultural gramsciana milhões de idiotas úteis liberais dispostos a ceder em tudo o que não lhes pareça limitar diretamente a liberdade e a propriedade (ou, pior ainda, em tudo que pareça fomentálas mersmo à custa de dessensibilizar moralmente a população). Muitos desses, na verdade, não são propriamente idiotas: são liberais no sentido estrito e espanhol do termo, empenhados em destruir a civilização judaico-cristã e em implantar universalmente o império do niilismo por meio Diário do Comércio, da radicalização da economia 19 de março de 2007 de mercado transfigurada em

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molde e princípio para a conduta humana em todas as áreas da vida. Não é sem razão que alguns deles se gabam de ser mais revolucionários que os socialistas. A economia de mercado, como o liberalismo em si, é um esquema formal, um sistema de regras operacionais que pode ser posto a serviço de princípios e valores ou, usurpando o lugar deles, corroê-los e dissolvê-los. Hoje em dia, no Brasil, chamam-se igualmente "liberais" os adeptos de ambas essas coisas. Mas é uma unidade meramente verbal encobrindo divergências ainda mais profundas e insanáveis do que a oposição de economia de mercado e economia dirigida. A ideia de unificar sob a bandeira de uma simples predileção econômica pessoas e correntes separadas por concepções morais e civilizacionais opostas e incompatíveis entre si é tão desastrada, que a autodissolução do "liberalismo" nacional já começou. O Instituto Liberal de Porto Alegre mudou seu nome para Instituto Liberdade, e o Partido da Frente Liberal para Partido Democrata. É a carapaça verbal que se rompe, deixando à mostra a confusão interna. O "liberalismo" brasileiro nunca passou de um arranjo oportunista, incapaz de impor respeito a seus adversários ou até a si próprio. A maior parte dos liberais que conheço não são liberais. São conservadores com nome trocado. Confundem o liberalismo econômico clássico, que é parte integrante da tradição conservadora, com a ideologia liberal que é uma camada histórica do movimento revolucionário. Como acreditam no primeiro, ostentam na lapela o emblema da segunda. Imaginam que assim parecem mais "progressistas", podendo usurpar o prestígio da esquerda e chamá-la de "atrasada". Mas essa aparente astúcia retórica, além de obrigá-los a reprimir seu conservadorismo e a restringir a luta ao terreno econômico, tem um segundo preço maior ainda: fazendo da sucessão temporal um critério de superioridade, eles acabam endossando uma metafísica predestinacionista da História que é a essência mesma da ideologia revolucionária (v. meu artigo de 26 de fevereiro, http://www.olavodecarvalho.org/semana/070226dc.htm), e com isso ajudam a precipitar as transformações culturais que produzem inevitavelmente a ascensão da esquerda. É por nunca ter examinado seriamente essas contradições que o liberalismo brasileiro, ao longo dos últimos vinte anos, veio caminhando de derrota em derrota, de humilhação em humilhação. Quanto tempo falta para que aqueles "liberais" que acreditam em princípios substantivos – religiosos ou não – descubram que nunca foram liberais e sim conservadores? Com isso, decerto, perderão muitos falsos amigos. Mas, afinal, o patinho feio também teve de abdicar de falsas afinidades para descobrir que era algo de melhor que um pato. Tenho a certeza de que qualquer candidato a qualquer cargo que seja, se tiver a coragem de se apresentar em público com um programa ostensivamente conservador, sem o breque mental constitutivo que trava os movimentos dos liberais, alcançará um sucesso eleitoral estrondoso. O conservadorismo é um sistema de valores, e esses valores são os do povo brasileiro, os da gente humilde e sem instrução que não entende nada de economia mas entende imediatamente a linguagem da moral, da religião, das tradições. São dezenas de milhões de pessoas à espera de alguém que as represente na política. Só o conservadorismo pode atendêlas, mas antes tem de consentir em deixar de ser pato.


Fugindo à luta

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om raras, honrosas e inevitáveis exceções, a única reação que os liberais e conservadores neste País têm oferecido à ascensão irrefreável da esquerda consiste em apologias da economia de mercado, eruditamente explicada como superior à política estatista ou socialista. Por santas que sejam as suas intenções, e por mais acertados os argumentos que emprega, essa forma de luta é absolutamente inócua. Os esquerdistas riem dela. Riem mais ainda quando ela usa como embalagem uma retórica "progressista", calcada no slogan idiota de que o socialismo é coisa do passado. Coisa do passado é imaginar que a estatização da economia constitui o objetivo primordial do esquerdismo e que combatêla é a coisa mais urgente a fazer em defesa da democracia capitalista. Essa concepção do socialismo correspondia à realidade dos anos 30 e 40, quando nações inteiras foram repentinamente submetidas ao sistema de economia centralizada, não somente por iniciativa dos comunistas mas também dos fascistas e nazistas. Tudo o que era preciso dizer contra essa tendência foi então

dito por Friedrich von Hayek e Ludwig von Mises. Repetir os argumentos desses dois grandes economistas em 2008 é combater um inimigo que não existe mais, fechando os olhos para o avanço daquele que existe. Quando um liberal chama os comunistas de "dinossauros", ou proclama, como a última edição de "Veja", que eles ainda vivem no tempo dos tílburis, ele está projetando sobre eles o anacronismo da sua própria visão do comunismo. Karl Marx ensinava que a estatização da economia deveria ser um processo lento e gradual, prolongando-se por décadas ou séculos e realizando-se por etapas anestésicas e não traumáticas, como o imposto de renda escalar e a supressão progressiva do direito de herança por meio da taxação crescente. Acreditando que o socialismo surgiria de dentro do próprio capitalismo tão logo este fosse levado às suas últimas possibilidades de desenvolvimento, ele entendia, logicamente, que a supressão forçada e repentina do livre mercado traria a paralisação geral da economia e a extinção do próprio socialismo.

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Diário do Comércio, 21 de agosto de 2008

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Essa lição foi esquecida tanto na URSS quanto na China, daí resultando que, mesmo antes do fracasso desses dois regimes, muitas críticas à economia de um e de outro já circulavam dentro do próprio campo socialista, não raro associadas à condenação dos aspectos mais brutais do totalitarismo, que, segundo esses críticos, uma política ortodoxamente marxista teria podido evitar (ilusão, é claro: Marx nunca ocultou que mesmo sua ideia da socialização progressiva só poderia ser implantada mediante a liquidação sistemática "de povos inteiros"). A autodissolução da URSS e a abertura da China ao capital estrangeiro, longe de constituirem uma vitória pura e simples das democracias capitalistas, resultaram de um upgrade autocrítico do movimento comunista, que, na boa tradição de Lênin, deu mais uma vez "um passo para trás para dar dois para a frente", só que agora um passo gigantesco, de dimensões mundiais. Longe de se desmantelar como previam os triunfalistas liberais, o movimento comunista se reorganizou rapidamente, trocando a velha hierarquia de tipo militar por uma estrutura flexível na forma de "redes" e em poucos anos redobrou sua força, dominando praticamente toda a grande mídia ocidental e fazendo dela um instrumento dócil da guerra cultural e do antiamericanismo militante. Vendo-se acossado por um inimigo que ele próprio declarava morto, o governo de Washington respondeu com um subterfúgio verbal tão estúpido quanto ineficaz, declarando que o único inimigo era agora o "radicalismo islâmico" e recusando-se a enxergar a ação russa e chinesa por trás da agitação frenética das multidões de fanáticos muçulmanos. O resultado foi que os EUA perderam sua mais próxima área de influência no

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mundo, a América Latina, hoje dominada por partidos frontalmente anti-americanos e em vias de transformar-se numa gigantesca versão cucaracha da velha URSS. Na mesma onda de mudanças estratégicas, o movimento comunista abdicou do estatismo radical, reconhecendo que uma quota aliás bem grande de livre mercado é indispensável à sobrevivência dos regimes socialistas, mesmo os mais autoritários. A essa altura, a pura defesa da economia de mercado, sobretudo se acompanhada de desprezo economicista pela guerra cultural e pela formação de uma militância conservadora adestrada no estudo da estratégia marxista, é um anacronismo completo, uma forma de alienação que só pode levar às mais devastadoras consequências. Na verdade, se tantos políticos e intelectuais liberais se apegam a essa atitude autocastradora, é não só porque sua mentalidade empresarial se sente mais à vontade no front econômico do que no político ou cultural, mas porque sabem instintivamente que a luta aí desenvolvida suscita respostas menos ferozes da esquerda do que ataques desferidos em pontos mais vitais do esquerdismo. Não por coincidência, essa opção pela fuga sistemática ao combate – que Lênin diagnosticava como sinal de morte iminente - vem junto com um esforço de manter, nos debates com a esquerda, uma polidez medrosa, ilusoriamente sedutora, que os esquerdistas, por seu lado, desprezam em troca de uma retórica cada vez mais truculenta e ameaçadora. Em vão o Hino Nacional proclama: "Verás que um filho teu não foge à luta." Tornou-se praticamente impossível mostrar aos liberais brasileiros que a covardia não é uma modalidade superior de realismo.


Como debater com esquerdistas

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s liberais e conservadores deste é o destino não só dos desertores, mas de meros País nunca hão de tirar o pé da civis que tentem abandonar o território. Você lama enquanto continuarem acha que denunciando essa monstruosa contraacreditando que nada mais os dição acertou um golpe mortal nas convicções separa dos esquerdistas senão uma divergênO revolucionário do revolucionário. Mas, por dentro, ele sabe que cia de ideias, apta a ser objeto de polidas disa contradição, quanto menos explicada e mais sente-se membro cussões entre pessoas igualmente honestas, escandalosa, mais serve para habituar o público de uma igualmente respeitáveis. A diferença específià crença implícita de que os revolucionários não supra-humanidade ca do movimento revolucionário mundial é podem ser julgados pela moral comum. A derungida, portadora que ele infunde em seus adeptos, servidores e rota no campo dos argumentos lógicos é uma vimesmo simpatizantes uma substância moral e tória psicológica incomparavelmente mais vade direitos especiais psicológica radicalmente diversa daquela que liosa. Serve para colocar a causa revolucionária negados ao circula nos corações e mentes da humanidade acima do alcance da lógica. homem comum normal. O revolucionário sente-se membro de Você não pode derrotar o revolucionário e até mesmo uma supra-humanidade ungida, portadora de mediante simples "argumentos". A eles é preinacessíveis à sua direitos especiais negados ao homem comum e ciso acrescentar o desmascaramento psicolóaté mesmo inacessíveis à sua imaginação. gico integral de uma tática que não visa a venimaginação. Quando você discute com um esquerdista, ele cer debates, mas a usar como um instrumento se apoia amplamente nesses direitos, que você de poder até mesmo a própria inferioridade de ignora por completo. A regra comum do debaargumentos. Em cada situação de debate é prete, que você segue à risca esperando que ele faça o mesmo, é ciso transcender a esfera do confronto lógico e pôr à mostra o para ele apenas uma cláusula parcial num código mais vasto e esquema de ação em que o revolucionário insere a troca de arcomplexo, que confere a ele meios de ação incomparavelmente gumentos e qual o proveito psicológico e político que pretende mais flexíveis que os do adversário. Para você, uma prova de tirar dela para muito além do seu resultado aparente. incoerência é um golpe mortal desferido a um argumento. PaMas isso quer dizer que o único debate eficiente com esquerra ele, a incoerência pode ser um instrumento precioso para indistas é aquele que não consenduzir o adversário à perplexidade e subjugá-lo psicologicate em ficar preso nas regras formente. Para você, a contradição entre atos e palavras é uma mais num confronto de arguprova de desonestidade. Para ele, é uma questão de método. A mentos, mas se aprofunda própria visão do confronto polêmico como uma disputa de num desmascaramento psicoideias é algo que só vale para você. Para o revolucionário, as lógico completo e impiedoso. ideias são partes integrantes do processo dialético da luta pelo Provar que um esquerdista espoder; elas nada valem por si; podem ser trocadas como meias tá errado não significa nada. ou cuecas. Todo revolucionário está disposto a defender "x" ou Você tem é de mostrar como ele o contrário de "x" conforme as conveniências táticas do moé mau, perverso, falso, delibemento. Se você o vence na disputa de "ideias", ele tratará de inrado e maquiavélico por trás de tegrar a ideia vencedora num jogo estratégico que a faça funsuas aparências de debatedor cionar, na prática, em sentido contrário ao do seu enunciado sincero, polido e civilizado. Faverbal. Você ganha, mas não leva. A disputa com o revolucioça isso e você fará essa gente nário é sempre regida por dois códigos simultâneos, dos quais chorar de desespero, porque você só conhece um. Quando você menos espera, ele apela ao no fundo ela se conhece e sabe código secreto e lhe dá uma rasteira. que não presta. Não lhe dê o Você pode se escandalizar de que um desertor das tropas naconsolo de uma camuflagem Diário do Comércio, cionais seja promovido a general post mortem enquanto no recivilizada tecida com a pele do 20 de junho de 2007 gime que ele desejava implantar no país o fuzilamento sumário adversário ingênuo.

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POLÍTICA INTERNACIONAL

Pato sentado

Win McNamee/AFP

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ocês conhecem a expressão americana Sitting Duck? É o pato sentado, o alvo mais fácil até mesmo para o atirador inepto. As escolas da Virginia estão repletas de patos sentados, porque uma lei demagógica, maliciosa e, a rigor, criminosa, proíbe o porte de arma aos professores e funcionários em serviço nessas entidades e até aos pais de alunos que por ali transitem. Vicent Kline/AFP Qualquer maluco que deseje iniciar uma carnificina sabe qual é o lugar mais seguro onde montar o espetáculo. Se apontasse uma arma para um caixa do WalMart, para um garçom de restaurante ou para um vendedor de cachorro quente numa praça de Richmond, levaria chumbo de dez fregueses ao mesmo tempo. Mas para que o sujeito há de correr esse risco, se logo na esquina há uma multidão de trouxas desarmados, entregues à sanha dos assassinos por legisladores iluminados? O massacre de anteontem foi na Virginia Tech, mas podia ter sido em qualquer outra instituição de ensino do "Old Dominion". Mais ou menos um ano atrás, a Assembleia Geral da Virginia vetou uma emenda legal que, voltando atrás no desarmamentismo insano, devolvia aos professores, funcionários e alunos devidamente qualificados o seu antigo direito de portar armas no local de trabalho e estudo. Na ocasião, o representante da Virginia Tech , Larry Hinckler, disse em entrevista ao jornal Roanoke Times (tão fanaticamente desarmamentista quanto a Folha e o Globo) que estava muito feliz com a derrota da emenda: "Tenho a certeza de que a comunidade universitária está agradecida à Assembleia, porque sua decisão ajudará os pais, estudantes, professores e visitante a sentir-se seguros no nosso campus." O resultado aí está. As escolas têm sido há décadas um dos instrumentos principais de que se servem os agentes do globalismo para dissolver o tradicional espírito americano de altiva independência e implantar uma nova cultura em que o cidadão se torna cada vez mais indefeso, mais boboca, mais dependente da proteção estatal. Até os anos 60, os EUA tinham as melhores escolas do mundo, e nenhum ministério da Educação. Desde a criação do ministério e da adoção dos "parâmetros curriculares" politicamente corretos ditados pela ONU, não só a qualidade da edu-

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cação caiu formidavelmente, mas a delinquência infanto-juvenil cresceu na mesma proporção. Leiam, a respeito, The Deliberate Dumbing Down of America, de Charlotte Thomson Iserbit (Ravenna, Ohio, Conscience Press , 2001). As provas que a autora aí apresenta são tantas, que a conclusão se segue inevitavelmente: crimes como os do jovem sul-coreano Cho Seung-Hui são o produto acabado de um longo e meticuloso esforço de engenharia social. Muita gente por aqui reclama que os burocratas esquerdistas que dominam o sistema oficial de ensino estão empenhados numa guerra cultural contra os EUA, destruindo a educação e a moral para em seguida atribuir os resultados medonhos de suas próprias ações à "lógica do sistema". Na mídia de todos os países do mundo há sempre uma multidão de papagaios prontos para repetir esse chavão de propaganda. Na infalível Rede Globo, incumbiu-se disso uma psicóloga da PUC, Sandra Dias, segundo a qual o morticínio foi "um ato heroico" por voltar-se contra "o consumismo americano". Também não faltaram na mídia brasileira as ponderações de sempre sobre a "cultura americana da violência" - as quais, vindas de um país do Hemisfério Sul que é recordista mundial de assassinatos, equivalem Diário do Comércio, moralmente e geograficamente a 18 de abril de 2007 cuspir para cima.


Demonstração de autoridade

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sta notícia passou quase despercebida, mas é uma das mais importantes dos últimos tempos: segundo o Daily Mail de 2 de abril, as autoridades britânicas, pressionadas pela comunidade muçulmana, retiraram os livros homossexuais do currículo de duas escolas da cidade de Bristol. Até hoje, nenhum protesto cristão obteve resultado tão espetacular, seja em escolas da Europa ou dos EUA. Ao contrário, o ensino do homossexualismo expande-se formidavelmente até mesmo para crianças pequenas que não têm ainda sequer uma ideia clara do que são relações heterossexuais. Na mesma medida, aumenta a pressão do establishment contra as pregações religiosas, multiplicando-se por toda parte as ameaças, boicotes e punições voltados exclusivamente contra as organizações cristãs (v. http://www.silencingchristians.com/ ), jamais contra as muçulmanas. A atenção especial que estas últimas recebem do governo britânico correspondem, nos EUA, inúmeros e crescentes sinais de uma política midiática e empresarial calculada para dar à comunidade islâmica um estatuto privilegiado. O Walmart, a maior rede de supermercados da América, que em nome da "não-discriminação" chegou a trocar os votos de "Feliz Natal" por "Boas Festas" e a proibir a presença dos músicos do Exército da Salvação até mesmo no pátio dos seus estabelecimentos, acaba de abrir uma loja especial para muçulmanos, com funcionários obrigados a falar árabe e a receber seus clientes com cumprimentos religiosos islâmicos. O significado da medida torna-se mais que nítido quando se sabe que muitos lojistas têm sido punidos pela justiça por insistir em usar somente o inglês nos seus estabelecimentos. Quando a classe

O Walmart acaba de abrir uma loja especial para muçulmanos, com funcionários obrigados a falar árabe e a receber seus clientes com cumprimentos religiosos islâmicos.

Diário do Comércio, 10 de abril de 2008

empresarial, o governo e a justiça boicotam o uso do idioma nacional e impõem o de uma língua estrangeira, a guerra cultural já alcançou aquele ponto em que a defesa da cultura local se torna crime, e a promoção da cultura estrangeira uma obrigação legal. Nos EUA, o desprezo da mídia aos sentimentos religiosos dos cristãos contrasta com suas manifestações de deferência quase psicótica ante as suscetibilidades islâmicas, ao ponto de que a simples menção ao sobrenome do meio do pré-candidato democrata Barack Hussein Obama é condenada como sinal de discriminação e "hate crime". No episódio de Bristol, a proteção governamental ao movimento gay , que jamais aceitaria recuar ante a indignação das comunidades cristãs, admitiu tranquilamente fazê-lo por exigência de uma minoria numericamente insignificante, mas acobertada, como já destaquei aqui, pelas simpatias cúmplices de membros da própria Casa Real (v. a nota "Absurdo sensato" em Para compreender a revolução mundial). No caso, o reconhecimento oficial da autoridade religiosa como princípio demarcador dos limites últimos entre a decência e a indecência foi ostentivamente transferido das entidades cristãs e judaicas para as islâmicas, que se revelaram mais poderosas até do que as organizações "gayzistas" mais ruidosas e arrogantes. Após expulsar do espaço público a autoridade religiosa tradicional, a cultura do "humanismo secularista" se mostra impotente e servil ante as pretensões de uma nova autoridade, mais prepotente, vinda de fora. O secularismo não entrou na História para fundar uma nova civilização, mas para servir de tampão provisório entre duas civilizações religiosas.

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Mark Hirsch/AFP

Obama, o enigma

Obama não é o candidato preferido do eleitor americano, mas é o candidato preferido da espécie humana.

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esmo na hipótese altamente improvável de que Barack Hussein Obama venha a tirar da cartola uma certidão de nascimento autêntica e demonstrar enfim sua condição legal de cidadão americano, restará sempre o fato líquido e certo de que uma certidão falsa foi apresentada ao público, oficialmente, pela sua campanha eleitoral (v. a análise irrespondível de um perito forense em http://atlasshrugs2000.typepad.com/atlas_shrugs/2008/ 07/atlas-exclusive.html). Crime é crime, e não deixa de sê-lo pelo simples fato de a conduta do acusado vir eventualmente a sugerir, ex post facto, que foi um crime desnecessário e prejudicial a ele mesmo. Se Obama for eleito, será, segundo parece, o primeiro presidente americano a ser empossado trazendo nas costas uma condenação crimi-

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nal. Embora abafado até o extremo limite do possível pela grande mídia e nem de longe mencionado durante a Convenção que sacramentou entusiasticamente o candidato democrata, o processo já está correndo (v. www.obamacrimes.com). Foi movido num tribunal federal da Filadélfia pelo advogado Philip Berg, um militante clintoniano cuja única intenção, segundo ele diz, foi a de poupar ao seu partido o dano incomparavelmente maior de eleger um inelegível, ou mesmo um elegível que já no dia da posse estará carimbado oficialmente como criminoso. A pergunta que não me sai da cabeça é: por que os líderes do Partido Democrata estão aceitando, aparentemente sem grande preocupação, o risco desse vexame colossal? É impossível que não saibam da certidão forjada, é impossível não perceberem que estão arris-


cando a sorte do seu partido no blefe mais autofrustrante de todos os tempos. É impossível, sobretudo, que o próprio Obama não saiba dessas coisas. Uma hipótese plausível é a de que tudo seja um cálculo maquiavélico para dar a presidência não ao inexperiente Obama e sim ao tarimbado Joe Biden. O Partido Democrata terá colocado no cargo algo que pelo menos leva jeito de presidente e não um Messias de programa de auditório, com a vantagem adicional de entrar para a História como a agremiação heroica que elegeu o primeiro presidente negro dos EUA, infelizmente retirado do poder – oh, mundo cruel! – por uma vasta conspiração direitista de advogados e juízes. Obama será jogado fora como um preservativo usado, mas levando como prêmio de seus esforços a recordação dos quinze minutos de fama e um cronograma garantido de conferências acadêmicas milionárias pelos próximos dez ou vinte anos. A trêfega adesão dos Clintons a uma candidatura que até a véspera não aceitavam de maneira alguma fala em favor dessa hipótese. Biden é amigo do casal há décadas, e na campanha pelas eleições primárias ele cortejou Hillary o tempo todo, na óbvia expectativa de um cargo ministerial. Biden na presidência seria o retorno póstumo da Era Clinton em forma de resíduo fantasmal, como numa sessão espírita. Há no entanto uma outra hipótese, mais sinistra, que não nega a primeira, mas a complementa espetacularmente. Para enxergá-la com clareza, é preciso ter em conta os seguintes fatores: 1) Obama não é o candidato preferido do eleitor americano, mas é o candidato preferido da espécie humana. Na Europa ocidental e oriental, na Ásia, na África e na América Latina, uma campanha de endeusamento como jamais se viu no mundo deu ao medíocre senador de Illinois as proporções de um salvador mítico do universo e não somente dos EUA. Essa campanha não é um aglomerado de curiosas coincidências, ela tem unidade e coerência notáveis, não só no estilo retórico demencial, que toma símbolos publicitários como realidades palpáveis, e não só na orientação política subjacente, uniformemente antiamericana, mas também nas fontes que a subsidiam e orientam, entre as quais se destacam os recursos bilionários dos potentados árabes, das organizações esquerdistas e terroristas, de George Soros e do lobby globalista em geral. Na forma como no conteúdo, na identidade dos seus porta-vozes como no seu teor ideológico indisfarçável, a campanha obamista internacional é apenas a condensação eleitoral da onda de ódio anti-

Na Europa ocidental e oriental, na Ásia, na África e na América Latina, uma campanha de endeusamento como jamais se viu no mundo deu ao medíocre senador de Illinois as proporções de um salvador mítico do universo e não somente dos EUA.

Diário do Comércio, 1º de setembro de 2008

americano que veio crescendo, sem descontinuar, desde o fracasso do "socialismo real", e que hoje é o único polo aglutinador do movimento revolucionário no mundo. 2) Nessa campanha, que não é só publicitária mas visa a uma "mudança" real, Obama não entra só como um símbolo – embora nesse papel tenha um brilho incomum – e sim também como um efetivo executor. Seu programa de governo, em todos os pontos substantivos (excluídas portanto somente algumas concessões verbais ao patriotismo americano), consiste sumariamente em demolir a economia americana por meio de impostos e legislações restritivas, em substituir a cultura americana tradicional pelo lixo "multiculturalista", em transferir a organismos internacionais parcelas essenciais da soberania americana e em colocar os EUA de joelhos ante as "reivindicações legítimas" (palavras dele, porca miséria!) dos terroristas antiamericanos. Se todos os inimigos dos EUA apoiam esse sujeito, é por um motivo inteiramente óbvio: ele é um traidor feito sob medida, um agente local a serviço de poderes extranacionais, um Quisling em toda a linha. Embora nem todos o declarem em voz alta, praticamente todo mundo nos EUA enxerga isso. A diferença é que uns gostam, outros não. Ambos fingem que não veem: estes, porque reconhecer esses fatos abertamente seria confessar um estado de pânico, de calamidade pública, pior do que mil furacões da Louisiana; aqueles, porque a camuflagem é a essência da traição. 3) É claro que, para desempenhar sua parte no plano, Obama nem precisa chegar à presidência. Que quase metade do eleitorado seja imbecilizada ao ponto de endeusar um candidato tão somente pela força de seus slogans de campanha, sem examinar nem mesmo seu programa de governo e aceitando ignorar por completo sua biografia – a mais comprometedora que já se viu em tão alto escalão –, já é um dano irreparável. Os valores da democracia americana já foram corroídos pelo antiamericanismo externo e interno ao ponto de milhões de eleitores desejarem conscientemente – embora não confessadamente – um traidor na presidência. Esse mal já está feito e, sob esse aspecto, a campanha de Obama, mesmo que perca as eleições, como parece mesmo que vai perder, já saiu vencedora. O resto do serviço, no caso improvável de uma vitória dos democratas, Joe Biden poderia fazer até melhor que Obama: afinal, é o sujeito que quer reprimir a exploração de novos poços de petróleo nos EUA depois de ter apoiado a cessão de belas reservas petrolíferas do Alasca... à Rússia.

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Emmanuel Dunand/AFP

A próxima crise americana

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amais se vasculhou o passado de alguém com tanta ânsia de encontrar crimes e vergonhas como a grande mídia tem vasculhado a vida de John McCain e Sarah Palin. Até o momento, tudo o que se encontrou foi uma garota que transou com o namorado, um policial demitido em circunstâncias um tanto deprimentes e um assessor de campanha que teria sido bem remunerado por Fannie Mae e Freddie Mac. E, destas três miseráveis picuinhas, nada se provou de ilegal, quanto à segunda e a terceira se revelou absolutamente falsa: o sujeito já havia se demitido da sua firma de advocacia quando ela começou a trabalhar para os gigantes falidos. Em compensação das atenções universais voltadas obsessivamente para essas antinotícias, nada ou quase nada se vê no New York Times ou na CNN – muito menos na mídia brasileira – sobre os fatos simplesmente escabrosos da biografia de Barack Hussein Obama – biografia tão repleta de lances comprometedores que simplesmente não é possível contá-la, mesmo


no estilo mais frio e comedido, sem dar a impressão de campanha difamatória. Outro dia contei que há um processo contra o candidato democrata, movido por um fulano que diz ter cheirado cocaína e mantido relações homossexuais com ele, sofrendo, em seguida perseguições da campanha obamista. Fui imediatamente acusado de querer difamar o candidato como pederasta. Com toda a evidência, não sei se Obama é gay ou cocainômano, mas a existência do processo é um fato, e não foi Obama quem o moveu: foi o declarante que o moveu contra Obama. Se está mentindo, então é completamente louco e arrisca desgraçar sua vida apostando tudo numa mentira fútil. Nada desse calibre existe contra Sarah Palin ou John McCain. Nenhum dos que falam contra eles pôs a cabeça em risco transformando as acusações em processo judicial. E olhem que as imputações do alegado companheiro de farras são o que há de mais brando e insignificante no currículo negativo de Obama. Infinitamente mais sério é o processo por falsidade ideológica que corre contra ele num tribunal da Pensilvânia. Não foi movido por nenhum republicano fanático, mas por um conhecido militante democrata e antibushista, o advogado Phillip Berg. A petição inicial do processo vem anexada de várias peritagens que demonstram ser falsa a certidão de nascimento divulgada pela campanha de Barack Obama para provar sua cidadania americana. O que está em jogo não é somente a possível inelegibilidade do candidato, mas, independentemente disso, a sua condenação como falsificador de documento público. Berg solicitou que o tribunal apressasse a intimação do réu, por um motivo muito simples: se esta questão não for resolvida logo, e Obama vier a ser eleito presidente antes da conclusão do processo, os EUA estarão metidos, de repente, na maior crise constitucional da sua história. O presidente legalmente eleito não só terá de ser declarado inempossável, mas irá direto da glória para a cadeia, culpado de ter ludibriado a nação inteira com o blefe político mais boboca de todos os tempos. O eleitorado de Obama, após o monstruoso investimento emocional que fez num candidato cuja biografia desconhece quase por completo, ficará naturalmente enfurecido e acusará a justiça americana de "golpe". O país terá de escolher entre a Constituição e a paixão obâmica. Se escolher a primeira, estará dividido por uma fronteira de

O eleitorado de Obama, após o monstruoso investimento emocional que fez num candidato cuja biografia desconhece quase por completo, ficará naturalmente enfurecido e acusará a justiça americana de "golpe".

Diário do Comércio, 29 de setembro de 2008

ódio insanável. Se escolher a segunda, terá, de um só lance, abdicado de toda a sua história, de todos os seus valores e de toda a sua dignidade no altar de um capricho de seus inimigos. Como a carreira e a projeção de Barack Obama são obviamente uma criação de forças antiamericanas conjugadas – coisa que pode ser demonstrada facilmente pelas fontes do seu financiamento –, creio que aí se pode encontrar uma explicação bastante razoável para o desinteresse aparente com que o Partido Democrata tem tratado essa bomba-relógio destinada a explodir dentro de algumas semanas. Para fins de destruição dos EUA, colocar Obama na presidência é um grande avanço, mas a crise constitucional que pode se seguir à declaração da sua inelegibilidade retroativa é melhor ainda. Não tenho a menor dúvida de que os criadores do personagem Barack Obama estão perfeitamente conscientes do processo e da absoluta impossibilidade de contorná-lo. Eles sabem que a bomba vai explodir e não são idiotas ao ponto de achar que fechando os olhos podem suprimi-la da existência. As atitudes independentes e até insolentes tomadas nos últimos dias pelo candidato vicepresidencial Joe Biden são um sinal, discreto mas revelador, de que talvez os engenheiros do fenômeno Obama não contem tanto com usálo como presidente dos EUA, mas apenas como vírus para gerar a crise e dividir a nação americana por um conflito que, no momento, ela não pode suportar. A coisa é tão grave que a própria campanha McCain-Palin prefere encobri-la, continuando a fingir que não há nada de errado com a candidatura Obama. Nunca houve, na história americana, um silêncio tão explosivo. Muito provavelmente McCain sabe da destruição iminente do seu adversário e não quer posar como diretor de cena do vexame espetacular que se prepara. Mesmo na hipótese de que alguém intimide Philip Berg e o obrigue a retirar o processo, nada impede que milhares de outros processos similares sejam abertos até a véspera das eleições ou – pior ainda – mesmo depois delas. Obrigar o país a escolher entre sua Constituição e um ídolo pop – com o risco de uma guerra civil no primeiro caso e da completa desmoralização no segundo – parece mesmo uma piada demoníaca. Se os dois partidos fazem de conta que não sabem de nada é porque estão conscientes do inevitável. Sua ignorância é fingida, mas a da mídia nacional é autêntica. Às vezes me pergunto quanto a Folha ou o Globo pagam a seus chefes de redação e colunistas políticos para que se esmerem tanto em não saber nada.

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Breve lição de sociologia

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mile Durkheim, o fundador da sociodo fizeram para evitá-lo, ilustra bem a descilogia, ensinava que há um limite para da do nível de exigência moral que veio junto a quota de anormalidade que a mente com a queda do padrão de exigência para os coletiva é capaz de perceber. Pode-se tomadores de empréstimos. compreender isso em dois sentidos, simultâPorém o mais interessante não é a aplicação As próprias vítimas neos ou alternados: do princípio para fins explicativos, e sim a sua I - Quando os padrões descem abaixo do liutilização prática como arma política. Há mais do engodo reagem mite, a sociedade automaticamente ajusta o de um século todos os movimentos interessacom veemência a seu foco de percepção para achar normal o que dos em impor modificações socioculturais qualquer tentativa antes lhe parecia anormal, para aceitar como contra as preferências da maioria evitam bater de denunciá-lo, banal, corriqueiro e até desejável o que antes a de frente com a opinião pública: tentam ludipois sentem que assustava como inusitado e escandaloso. briá-la por meio do uso astuto da "constante de II - Quando a anormalidade é excessiva, Durkheim", que todo ativista revolucionário admitir a realidade transcendendo os limites da quota admissível, de certo gabarito conhece de cor e salteado. da coisa seria ela tende a passar despercebida ou a ser simNo sentido I, o princípio é aplicado por uma humilhante plesmente negada: o intolerável transfigura-se meio da pressão suave e contínua, rebaixanconfissão em inexistente. do cuidadosamente, lentamente, progresside idiotice. Embora dificilmente corresponda a quantivamente os níveis de exigência, primeiro no dades mensuráveis, a "constante de imaginário popular, por meio das artes e esDurkheim", como veio a ser chamada, reveloupetáculos, depois na esfera das ideias e dos se um instrumento analítico eficiente, sobretudo nos momenvalores educacionais, em seguida no campo do ativismo tos de aceleração histórica, em que várias mudanças de padrão aberto que proclama as novidades mais aberrantes como dise sucedem e se encavalam no prazo de uma só geração, poreitos sagrados e por fim na esfera das leis, criminalizando dendo ser observadas, digamos assim, com os olhos da cara. os adversos e recalcitrantes, se ainda restarem alguns. Com Daniel Patrick Moynihan, Robert Bork e Charles Krauuma constância quase infalível, nota-se que os autoproclathammer empregaram-na inteligentemente para a explicamados conservadores se amoldam passivamente – às vezes ção das vertiginosas transformações da moralidade americonfortavelmente – à mudança, sem perceber que sua nova cana desde os anos 60. Bork escrevia em 1996: "É altamente identidade foi vestida neles desde fora como uma camisaimprovável que uma economia vigorosa possa ser sustende-força por aqueles que mais os odeiam. tada por um ambiente de culNa acepção II, a "constante de Durkheim" é usada para vitura enfraquecida, hedonístirar a sociedade de cabeça para baixo, da noite para o dia, sem ca, particularmente quando encontrar qualquer resistência, por meio de mentiras e blefes essa cultura distorce os incentão colossais que a população instintivamente se recuse a tivos, rejeitando as realizaacreditar que há algo de real por trás deles. As próprias vítições pessoais como critério mas do engodo reagem com veemência a qualquer tentativa para a distribuição de recomde denunciá-lo, pois sentem que admitir a realidade da coisa pensas". Doze anos depois, a seria uma humilhante confissão de idiotice. Para não sentir ideia de que os empréstimos que foi feito de idiota, um povo aceita ser feito de idiota sem bancários não são um negócio sentir, confirmando o velho ditado judeu: "O idiota não senentre partes responsáveis e te". Foi assim que se montou na América Latina a maior orsim um direito universal inganização revolucionária da história continental, o Foro de discriminado, garantido pelo São Paulo, num ambiente em que todas as denúncias a resgoverno e pela pressão das peito, por mais respaldadas em documentos e provas, eram ONGs ativistas, deu no que ridicularizadas como sinais de loucura. E é assim que agora se deu. O fato de que os criadores está impingindo aos EUA um presidente sem nacionalidade do problema não se sintam comprovada, financiado por ladrões e associado por mil nem um pouco responsáveis compromissos a grupos de terroristas e genocidas, enquanto Diário do Comércio, por ele, mas prefiram lançar a seu próprio adversário maior o proclama "um homem decen15 de outubro de 2008 culpa justamente nos que tute, do qual não há nada a temer".

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Emmanuel Dunand/AFP

O candidato do medo

C

hamado de "Messias" pelo líder radical muçulmano Louis Farrakhan e de "Meu Jesus" pela editorachefe de um jornal universitário, Barack Hussein Obama informa: "Contrariamente ao que diz a opinião popular, não nasci numa manjedoura." Já pensaram se ele não avisasse? Qualquer que seja o caso, pelo menos um milagre confirmado ele já fez: é o primeiro candidato presidencial que obtém o aplauso de todos os inimigos dos EUA sem que isto desperte contra ele a menor desconfiança do establishment americano. Entre seus entusiastas, contam-se o Hamas, o presidente iraniano Ahmadinejad, Muammar Khadafi, Fidel Castro, Hugo Chávez e o canal de TV Al-Jazeera. Imagino o que aconteceria à candidatura de Franklin D. Roosevelt em 1932 se ele recebesse o apoio ostensivo de Josef Stalin, Adolf Hitler e Benito Mussolini. É verdade que Obama promete desmantelar o sistema de defesa espacial dos EUA, desacelerar unilateralmente o programa americano de pesquisas nucleares, transformar em derrota a vitória no Iraque, vetar a abertura de poços de petróleo e oferecer carteiras de motorista e assistência médica gratuita aos imigrantes ilegais, aquele povinho patriota que quer transformar o Texas e a Califórnia em Estados mexicanos. Mas, se você insinua

que qualquer dessas coisas é um bom motivo para os comunistas e radicais islâmicos gostarem dele, a mídia em peso diz que você "passou dos limites" e é virtualmente culpado de "crime de ódio". Ahmadinejad declarou que a vitória do candidato democrata nas eleições dará o sinal verde para a islamização do mundo; Khadafi proclamou que Obama é um muçulmano fiel apoiado por milionários islamitas; e Louis Farrakhan, aproveitando a onda de entusiasmo obamista, anunciou que a "Nation of Islam", a sociedade secreta de radicais islâmicos que ele preside, há décadas funcionando em marcha lenta, está tendo "um novo começo" e logo estará operando de novo com força total. O sentido desses fatos é claro, mas notar isso é imoral: todo cidadão de respeito tem de jurar que o apoio vindo dos inimigos da América é apenas um equívoco da parte deles, já que Obama não lhes deu – oh, não! – o menor pretexto para que simpatizassem com ele. Insinuar qualquer convergência de interesses é imputar a Obama "culpa por associação" – uma perfídia carregada, evidentemente, de "subtons racistas". Qualquer palavra mais dura contra o candidato negro é aliás apontada como prova de racismo, e a mínima sugestão de que haja nisso alguma chantagem racial é prova dupla. O próprio John McCain faz questão de manter o debate na esfera

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"das ideias", frisando que o oponente é "um homem decente, do qual não há nada a temer." Essa declaração é involuntariamente irônica. A coisa que todo americano mais teme, hoje em dia, é alguém suspeitar que ele pensa mal de Barack Hussein Obama. Seguindo o exemplo do líder, a militância republicana capricha nas exibições de respeito e veneração à pessoa do adversário. Um funcionário do escritório da campanha de McCain em Pompano Beach, CA, que colocou atrás de sua mesa um cartaz associando Obama a Marx e Hitler foi instantaneamente demitido. Um cidadão do Estado de Ohio, que fez umas perguntas mais duras ao candidato democrata sobre seu projeto de reforma fiscal, pagou caro pelo atrevimento. Teve sua vida particular vasculhada pelos repórteres e foi severamente criticado pelos crimes hediondos de trabalhar como encanador sem licença e de não ter pago uma multa de trânsito que recebeu no Arizona oito anos atrás. Isso dá uma ideia do zelo exasperado com que a grande mídia protege a imagem de Barack Obama. Samuel Wurzelbacher, ou "Joe Encanador" – o apelido pelo qual veio a ser nacionalmente conhecido –, tira da sua experiência a conclusão incontornável: "Quando você já não pode mais fazer perguntas a seus líderes, é uma coisa temível." O temor não é somente psicológico. Vários militantes republicanos já foram surrados por obamistas, escritórios da campanha McCain em vários Estados foram invadidos e destruídos, e só a ação da polícia impediu, a tempo, que centenas de agitadores obamistas bem treinados, armados de coquetéis Molotov, queimassem os ônibus que se dirigiam à Convenção Republicana em St. Paul (mesmo assim os remanescentes conseguiram fazer um belo estrago). Quando um candidato usa de métodos terroristas e ao mesmo tempo o establishment decreta que chamá-lo de terrorista é o suprassumo da demência, está claro que esse candidato tem direitos ilimitados. Ele pode receber 63 milhões de dólares em contribuições ilegais do exterior, e nada de mau lhe acontecerá por isso. Uma ONG que o apadrinha pode fazer uma derrama de títulos de eleitor falsos em treze Estados, e ai de quem sugira que ele tem alguma culpa no caso. Em compensação, McCain foi acusado de violência verbal criminosa pelo simples fato de mencionar a ligação arquicomprovada de Obama com William Ayers. Uma passeata em favor de McCain-Palin, em Nova York, foi recebida com toda sorte de xingamentos e ameaças. Como, em contrapartida, nenhuma violência se observasse contra os militantes obamistas, foi preciso inventar que, num comício de Sarah Palin, alguém gritou "Kill him!" ao ouvir o nome de Obama. A polícia examinou cuidadosamente as gravações do encontro e concluiu que ninguém gritou nada disso. Outro fator intimidante é a superioridade econômica. A campanha de Obama recolheu nada menos de 605 milhões de dólares em contribuições. Para cada anúncio de McCain, saem quatro de Obama. Mais avassaladora ainda é a propaganda gratuita fornecida ao candidato democrata pela grande mídia. Até o momento, o único jornal de certa importância que noticiou o processo movido pelo advogado democrata Philip Berg contra Obama foi o Washington Times – nominalmente republicano –, que no entanto classifica as dúvidas quanto à nacionalidade de Obama como meros "rumores da internet" e, aludindo ao processo só nas linhas finais, como se fosse apenas um rumor a mais, se omite de informar que Obama, em vez de apresentar sua

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certidão de nascimento como solicitado pelo queixoso, preferiu lançar mão de uma complexa argumentação jurídica para se esquivar de fazê-lo. O segundo processo no mesmo sentido, aberto no Estado de Washington, não é nem mencionado. As maiores empresas de jornais e canais de TV protegem o candidato democrata não somente contra seus adversários, mas contra ele próprio. Atos ou declarações dele que possam mostrá-lo a uma luz desfavorável são cuidadosamente omitidos. Em toda a grande mídia americana não se encontrará uma só palavra sobre a longa carreira de Obama como militante abortista, muito menos sobre a única atividade importante desenvolvida por ele no plano internacional: a campanha montada, com dinheiro público, para elevar ao poder no Quênia o agitador antiamericano e pró-terrorista Raila Odinga, culpado de ordenar o assassinato de mais de mil de seus opositores políticos e de conspirar com líderes muçulmanos para impingir a religião islâmica a uma nação de maioria cristã. Obama não somente ajudou Odinga com dinheiro dos contribuintes americanos e abriu contatos para ele no Senado, mas fez comícios em favor dele no Quênia. Se algo mostra a verdadeira natureza dos compromissos internacionais do candidato democrata, é esse episódio – mas até a FoxNews se omite de tocar no assunto. Por aqui, todo mundo diz que a vitória de Obama é certa. A mim me parece que, mesmo se perdesse as eleições, Obama seria um vencedor. O partido de seus adversários já estava de joelhos no momento em que, em vez de um conservador autêntico, escolheu como candidato um típico "liberal republican", promessa garantida, caso eleito, de um governo fraco, subserviente aos críticos, exatamente como o foi o de George W. Bush. A esse primeiro desatino seguiu-se outro pior: a partir do instante em que os republicanos, em vez de abrir mil processos como o de Philip Berg, aceitaram como adversário eleitoral legítimo e decente um candidato sem nacionalidade comprovada, com uma biografia nebulosa e repleta de mentiras flagrantes, ajudado e subsidiado pelos mais odientos inimigos do país, ficou claro que haviam abdicado de todo sentimento de honra e consentido em legitimar uma farsa. Se perderem as eleições, eles merecerão tantas lágrimas quanto aqueles que preferiram antes deixar Lula conquistar a presidência do Brasil do que contar o que sabiam sobre o Foro de São Paulo. Quanto à campanha de Obama, seu perfil é claro. O amálgama de promessas utópicas, propaganda avassaladora, beatificação psicótica do líder, apelo racial, controle da mídia e intimidação sistemática do eleitorado é idêntico nos mínimos detalhes à estratégia eleitoral de Hitler em 1933, mas para dizer isso em público – ou mesmo conscientizá-lo em voz baixa – é preciso mais coragem do que se Diário do Comércio, pode esperar do eleitor médio 24 de outubro de 2008 hoje em dia.


Steve Marcus/Reuters

Segredos e mentiras sem fim

O

juiz federal Richard Barclay Surrick rejeitou o pedido do advogado democrata Philip J. Berg para que intimasse Barack Hussein Obama a apresentar sua certidão de nascimento original. A sentença baseou-se em dois argumentos: 1) Pela lei americana, nada autoriza o simples eleitor a questionar a elegibilidade de um candidato presidencial; 2) Berg peticionou como simples eleitor, não como vítima, já que não comprovou qualquer dano pessoal sofrido em razão da candidatura Obama. A Constituição americana determina que só cidadãos americanos natos têm o direito de concorrer à presidência, mas esse permanece um direito sem garantia nenhuma: por incrível que pareça, não há nenhuma instituição incumbida de exigir prova de nacionalidade dos candidatos. Se ao simples eleitor é também negado esse direito, aquele artigo da Constituição está virtualmente revogado. Berg anunciou que vai recorrer à Suprema Corte: "O que está em questão é saber quem tem legitimidade para impor a obediência à Constituição. Se eu não tenho, se você não tem, se o seu vizinho não tem legitimidade para questionar a elegibilidade de um indivíduo à presidência dos EUA, então quem tem? Assim qualquer um pode simplesmente se afirmar elegível para o Congresso ou para a presidência sem que ninguém possa questionar o seu estatuto legal, a sua idade ou a sua cidadania." Enquanto isso, todos os canais possíveis para se averiguar a nacionalidade de Obama estão meticulosamente bloqueados. A governadora do Havaí, Linda Lingle, colocou a certidão de

nascimento dele sob guarda do Estado, para que ninguém tivesse acesso ao documento sem autorização do próprio Obama ou de seus familiares. O mesmo fez o governo do Quênia com todo e qualquer documento referente a Obama, logo após expulsar do território queniano o repórter Jerome Corsi que estava ali investigando as atividades do candidato em prol do genocida Raila Odinga. Obama pessoalmente proibiu que todas as entidades detentoras de seus documentos os divulgassem sob qualquer maneira que fosse. Eis a lista dos papéis que permanecem secretos (v. NewsMax.com): 1) Registros médicos. 2) Correspondência enviada e recebida pelo seu gabinete no Senado. 3) Agenda dos encontros e demais compromissos atendidos por ele no Senado. 4) Lista dos clientes do seu escritório de advocacia e recibos dos respectivos pagamentos. 5) Histórico escolar do Occidental College, onde ele estudou por dois anos. 6) Histórico de seus estudos na Columbia University. 7) Histórico de seus estudos na Faculdade de Direito de Harvard. 8) Sua tese de doutoramento em Columbia. 9) Seu comprovante de registro na Ordem dos Advogados de Illinois. 10) Lista dos clientes que ele representou como advogado na firma Davis, Miner, Barnhill & Gallard (solicitado a apre-

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sentá-la, Obama forneceu em vez disso a lista de todos os que o agitador racista Khalid al-Mansour pagou os estudos de clientes da firma, tornando impossível saber quais ele repreObama em Harvard? Como pode Obama afirmar que não foi sentava pessoalmente). educado numa família muçulmana, se os documentos mostram 11) Lista das contribuições de menos de duzentos dólares que até numa escola católica, na Indonésia, ele se registrou como oferecidas à sua campanha (essas contribuições somam mais muçulmano? Por que, ao saber que alguém abrira um processo no de 63 milhões de dólares e, segundo repórteres que puderam Havaí solicitando a divulgação da sua certidão de nascimento, espiar por instantes algumas páginas da lista no escritório de Obama repentinamente se lembrou de que sua avó estava doente Obama, incluem doadores como Fred Simpson, Mickey Mouem Honolulu – uma semana depois de ela ter saído do hospital – se e Family Guy). e, correndo para visitá-la sob a alegação de que talvez fosse sua 12) Certidão de nascimento original ou cópia autenticada. última oportunidade de encontrá-la com vida, não levou junto a Não é preciso dizer que nenhum outro candidato presidenmulher e os filhos mas uma equipe de advogados? cial jamais negou ao público os documentos equivalentes. O Para completar, há uma quantidade estonteante de pequenas bloqueio torna-se ainda mais suspeito porque vários pontos esmentiras, todas proferidas com aquela desenvoltura que, nos misenciais da biografia de Obama estão cheios de contradições. tômanos, substitui a sinceridade, às vezes com vantagem: a his1) Sua avó paterna assegura que estava presente na sala de tória do tio que libertou os prisioneiros de Auschwitz (as tropas parto quando ele nasceu num hospital em Mombasa, Quêamericanas nunca entraram lá), o pai pastor de cabras (só se as nia. Ele assegura que nasceu em Honolulu, Havaí, mas ele e criou no escritório onde trabalhava), a balela de que jamais aceisua irmã dão os nomes de dois hospitais diferentes onde isso tou contribuições de companhias de petróleo (esqueceu a Exxon e teria acontecido. a Shell), a conversa mole de que foi membro do Comitê de Bancos 2) Ele viajou para o Paquistão quando a entrada de amedo Senado (jamais esteve lá), etc. etc. A coisa não tem mais fim. É ricanos era proibida nesse país. Usou portanto um passaalucinante (v. http://theobamafile.com/ObamaLies.htm). porte estrangeiro, quase certamente o da Indonésia, onde São só alguns exemplos, colhidos a esmo entre centenas. Neele viveu e estudou numa época em que, estando o país em nhum desses fatos foi jamais eficazmente contestado, nem as perguerra, só crianças de nacionalidade indonésia eram aceitas guntas daí decorrentes respondidas por quem quer que fosse. No nas escolas. Mais ainda, a lei indonésia não aceitava dupla entanto, qualquer dúvida quanto à nacionalidade de Obama ou à nacionalidade, de modo que para Obama tornar-se cidadão autenticidade da sua biografia de campanha é instantaneamente indonésio ele teve de renunciar (por meio de seu pai) à narotulada de "teoria da conspiração" e impugnada como absurda cionalidade americana, só podendo portanto voltar aos pela grande mídia em peso, como se esta mesma não ignorasse as EUA como imigrante. respostas tanto quanto as ignora o resto da população. 3) Obama afirmou várias vezes que jamais pertencera a um Jamais, na história americana, um candidato presidencial partido socialista. Os documentos do New Party provam que com uma conduta tão nebulosa, extravagante e suspeita teve seele mentiu (v. AmericanThinker.com). gredos tão bem guardados quanto os de Barack Obama, nem 4) Obama disse que não tinha qualquer ligação com a Acorn, tanta gente importante empenhada em resguardar seu direito ONG responsável pela maior derrama de títulos de eleitor falde guardá-los. A privacidade de Obama – a privacidade de um sos já ocorrida nos EUA. Documentos e vídeos da Acorn prohomem público – está acima da própria Constituição americavam que ele mentiu (v. NationalReview.com, www.youtuna. Acreditar em Obama sem provas tornou-se obrigação inconbe.com/watch?v=8vJcVgJhNaU e www.youtube.com/wattornável, e questionar essa obrigação é sinal de racismo. ch?v=7NmaZIdz6Vo). Tal como no Brasil uma gigantesca opera5) Obama disse que não tivera nenhuma coção-sumiço elegeu e reelegeu Lula impedindo nexão política com o terrorista William Ayers. que a população soubesse de suas atividades Documentos liberados pela Universidade de no Foro de São Paulo, um esquema de ocultaIllinois provam que ambos trabalharam juntos ção mais vasto ainda foi montado para eleger em projetos destinados a subsidiar organizaBarack Obama. Com notável hipocrisia os esções esquerdistas (v. MichelleMalkin.com). querdistas de ambos os países clamam contra a 6) Ele disse que jamais soubera das ideias "crescente concentração da mídia", na verdade políticas do pastor Jeremiah Wright, mas como uma bênção para eles, sem qual jamais teriam é possível ouvir todas as semanas durante vinpodido bloquear o acesso às notícias que vão te anos as pregações de um pastor que praticacontra o seu interesse. mente só fala de política, sem ficar sabendo do No caso de Obama, o quadro da mais notáque ele pensa a respeito? vel fraude eleitoral de todos os tempos é comAlém das mentiras patentes, há os fatos nebupletado pela chantagem racial, pela distribuilosos e mal explicados. Como Obama conseguiu ção maciça de títulos de eleitor falsos e pelo uso viajar para o Paquistão quando a entrada de generalizado da intimidação e da agressão moamericanos era proibida no país? Por que ele jaral e física que transforma esta eleição americaDiário do Comércio, mais contou que é primo de Raila Odinga nem na numa palhaçada de Terceiro Mundo (vejam: 4 de novembro de 2008 admite divulgar os documentos das atividades TimesOnline, Breitbart.tv, HeraldOnline.com, que desempenhou em favor desse assassino? Por InYork e WorldNetDaily.com).

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O surrealismo no poder

Q

ue Obama exibe por toda parte uma imagem de pura propaganda enquanto move céus e terras para ocultar os documentos essenciais sobre sua vida e sua carreira, é um fato que nem os adeptos mais fanáticos do presidente eleito conseguem negar. Também é certo que nenhum candidato ou presidente antes dele, nos EUA ou em qualquer outro país, se furtou tão obstinadamente ao dever de provar sua identidade. Mesmo os tiranos mais solidamente protegidos entre muralhas de segredos jamais se rebaixaram ao ponto de bloquear ao exame público documentos banais como um histórico escolar, uma ficha médica, uma tese de doutoramento, um certificado de alistamento militar. E note-se que Obama não se limita a escondê-los pessoalmente: montou para isso uma vasta operação-sumiço, mobilizando governadores e secretários de Estado, deputados, senadores, o presidente e o primeiro ministro de uma nação estrangeira, centenas de jornalistas e toda uma equipe de advogados caríssimos, tudo para impedir que os americanos saibam em quem votaram. Centenas de pedidos de abertura fundados no Freedom of Information Act, do qual nem segredos de guerra costumam escapar, foram solenemente ignorados. Ninguém se esforça tanto para se esconder se não tem nada a esconder. Pavoneando-se como um pop star e ao mesmo tempo ocultando-se como um foragido da justiça, Obama tornou-se o personagem mais anormal, mais esquisito e mais suspeito que já ousou aproximar-se do Salão Oval, não digo para ocupá-lo, mas mesmo para visitá-lo: nenhum visitante entra lá sem mostrar os documentos na porta. A situação torna-se ainda mais absurda e grotesca, porque nunca a checagem dos candidatos a cargos no funcionalismo público foi tão rigorosa quanto depois do advento de Obama: cada um, agora, tem de informar até se possui arma em casa – pergunta que os governos anteriores considerariam indecorosa. O contraste entre a conduta de Barack Obama e a de todos os seus antecessores na presidência ou nas eleições é tão extremo e tão chocante, que continuar enfatizando a cor da sua pele é desviar as atenções para um detalhe menor. Um negro na presidência dos EUA, mais cedo ou mais tarde, era uma probabilidade bem maior, pelo menos, do que um na presidência de Cuba. Enquanto personagem moral, Obama é muito mais diferente de qualquer político normal do que um Zulu é diferente de um Viking. Porém mais extravagante ainda é o esforço unânime da grande mídia e da cúpula democrata (duas entidades cada vez mais indiscerníveis) para fingir que tudo isso é normal e para estigmatizar como um abuso intolerável, uma prova de racismo ou um sintoma de paranoia toda veleidade de investigar a vida do presidente eleito. Numa comparação objetiva, essa campanha inti-

midatória é o mais vasto empreendimento de subversão psicológica já observado na história humana: é o establishment bilionário inteiro que se empenha com todas as suas forças em destruir rapidamente, na população, o discernimento moral mais elementar, o senso das proporções e a noção mesma de obrigações e direitos. Na verdade a subversão não é somente psicológica: a partir do instante em que se tenta consagrar a mera vitória nas urnas como um salvo-conduto para o presidente eleito ignorar a constituição, as leis e os mais mínimos requisitos de transparência, a democracia representativa está ameaçada de extinção, instaurando-se em seu lugar, da noite para o dia, a "democracia plebiscitária" de Jean-Jacques Rousseau. Nada mais lógico do que o regime inventado por um mentiroso compulsivo tornar-se realidade em benefício de outro mentiroso compulsivo. Falando nisso, até agora a única tentativa bem sucedida de desencavar documentos de Obama por meio do Freedom of Information Act revelou ao público – depois das eleições, é claro – o alistamento militar do referido. Nos EUA não há serviço militar obrigatório, mas todo cidadão tem de se inscrever no "Selective Service", à espera de uma possível convocação, entre os 18 e 26 anos. Obama, nascido em 1961, tinha prazo até 1987. Seu certificado de alistamento parece regular, pois está datado de 30 de julho de 1980. Só há dois detalhes: 1) A data de impressão do formulário é 2008. 2) O carimbo postal vem com a sigla USPO, "United States Post Office", mas o nome da repartição foi mudado em 1970 para "United States Postal Service", USPS, e todos os carimbos anteriores foram automaticamente invalidados. Todo mundo sabe que Obama multiplica os pães e caminha sobre as águas. Agora revela-se que ele pode não só preencher formulários dezoito anos antes de que sejam impressos, mas também carimbá-los dez anos antes de preenchê-los. Se não é milagre, é pelo menos crime federal. Confiram aqui. http://www.debbieschlussel.com/4428/exclusive-didnext-commander-in-chief-falsify-selective-service-registrati on -ne ve r-a ct ual ly- re gis te rDiário do Comércio, obamas-draft-registration-rai24 de novembro de 2008 ses-serious-questions/

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GLOBALISMO

Contra dições

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moral laica do mundo burguês reconhece e até proclama com orgulho "científico" sua própria relatividade, em teoria. Mas nenhuma ordem social pode contentar-se com uma obediência relativa, que desembocaria fatalmente no conflito geral e no caos. Daí a distinção prática, tipicamente moderna e burguesa, entre moral privada e ordem pública. A primeira pode multiplicar-se em variações infinitas, desde que não perturbe a segunda. É a informalidade da escolha moral, limitada pela formalidade estrita da ordenação jurídica. Esse arranjo de ocasião disseminou-se tão universalmente que adquiriu foros de sabedoria eterna e imagem por excelência da "normalidade", ao ponto de que já ninguém percebe o que ele tem de instável e problemático; e, não o percebendo, tem de improvisar hipóteses rebuscadas para explicar por uma sucessão imaginária de acidentes as crises e percalços que um exame sério deveria ter revelado à primeira vista como desenvolvimentos lógicos e inevitáveis de contradições iniciais não conscientizadas em tempo. De um lado, aquela distinção constitutiva do Estado laico foi estabelecida como ato de uma minoria revolucionária contra um consenso anterior fundado na homogeneidade moral da sociedade cristã. Uma vez vitorioso, o Estado laico passa a corroer necessariamente o que possa restar dessa homogeneidade, que para ele representa a origem mesma de toda obstinação "reacionária" erguida contra sua obra modernizante. Dissolvida pouco a pouco a unidade moral do povo, a única maneira de evitar a autodestruição da sociedade pelo caos é transferir para a esfera jurídica os mecanismos reguladores antes operados pelo simples automatismo das tradições arraigadas no senso comum. O que era obediência espontânea torna-se assim controle estatal forçado. Na proporção mesma do sucesso obtido pelo Estado leigo em seu esforço de "modernização", o número, a complexidade e a abrangência dos controles jurídico-burocrático-policiais vão crescendo, avançando para dentro de todos os campos da existência social e invadindo por fim a vida privada e até a intimidade dos pensamentos, regulando a linguagem, a educação doméstica, etc. Tão logo deixa de ser uma promessa e se torna uma realidade, aquilo que surgiu sob o pretexto de resguardar a liberdade individual revela ser um mecanismo opressivo incomparavelmente mais exigente do

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do laicismo que a velha autoridade religiosa jamais teria sonhado ser. A essa primeira contradição soma-se outra pior. Não é possível controlar a sociedade sem regulamentar a economia. À medida que os controles morais embutidos na cultura do velho regime cedem sua autoridade ao aparato judicial, burocrático e policial, amplia-se na mesma medida a intervenção do Estado na economia. O estatismo econômico indefinidamente expansionista é inerente, portanto, à dialética do Estado leigo. Mas este não se impôs justamente mediante a promessa de resguardar a liberdade econômica? Sim. O que não se deve é confundir as intenções declaradas do discurso ideológico com a fórmula política substantiva cuja implantação elas legitimam. A contradição pode escapar até mesmo aos mais sinceros propugnadores da nova política, mas, que ela existe, existe. O moderno Estado leigo pode, com a maior sinceridade do mundo, prometer a liberdade econômica – o que ele não pode é realizá-la, a não ser de maneira capenga, permanentemente ameaçada pelo avanço da mentalidade socialista, que a expansão mesma do laicismo oficial fomenta. Não é coincidência que o país que defendeu com mais eficácia a liberdade econômica tenha sido justamente aquele que só adotou o laicismo como mecanismo secundário de autocontrole do próprio Estado, sem a ambição de fazer dele um princípio regente de toda a vida social e política, antes conservando vivo e embutindo em suas instituições o máximo que podia das antigas tradições religiosas. Muito menos é coincidência que, hoje em dia, aqueles que desejam radicalizar o princípio laicista, expelindo a religião da vida pública, não sejam de maneira alguma amigos da liberdade econômica, mas todos, em mais ou em menos, adeptos do intervencionismo Diário do Comércio, estatal - socialistas confessos 17 de junho de 2008 ou enrustidos.


A mão invisível

SXC

O

plano de transição para o governo mundial, que Arnold Toynbee expôs mais de meio século atrás e que mencionei brevemente nesta coluna, já está em avançadíssima fase de implantação, ao ponto de que não há nenhum exagero em dizer que a Nova Ordem globalista-socialista é um fato consumado, irreversível. Que a maioria dos seres humanos ignore isso por completo e ainda tenha a ilusão de poder interferir de algum modo no curso das coisas por meio do "voto", eis aí a prova de que Toynbee tinha toda a razão ao dizer que a nova estrutura de poder não seria democrática, nem democrática a transição para ela. Não há estado de sujeição mais completo do que ignorar a estrutura de poder sob a qual se vive. É verdade que a mera complexidade crescente da administração estatal moderna já era, por si, conflitiva com as pretensões democráticas de transparência, informação acessível, "voto consciente", enfim, com as presunções da "cidadania". Mas o que vem acontecendo no último meio século é o aproveitamento deliberado e sistemático da complexidade burocrática para criar, acima do governo representativo, uma nova estrutura de poder que o domina, o estrangula e acaba por eliminá-lo. A maior parte das nações já vive sob o controle dessa nova estrutura global sem ter disso a menor consciência e acreditando que continua a desfrutar das garantias e meios de ação assegurados ao eleitor pelo antigo sistema de governo representativo, hoje reduzido a um véu de aparências tecido em torno do poder mais centralizado, abrangente e incontrolável que já existiu ao longo de toda a história humana. Não só essa transição já aconteceu, mas ela foi realizada sob a proteção de um conjunto de pretextos retóricos altamente enganosos, criados para dar à população a ideia de que a mudança ia no sentido da maior liberdade para os cidadãos, da maior participação de todos no governo e de mais sólidas garantias para a empresa privada. Todos os termos-chave dessa retórica – "governo reinventado", "parcerias público-privadas", "terceira via", "descentralização" – significam precisamente o contrário do que parecem indicar à primeira vista. Os dois diagramas que acompanham este artigo tornarão isso bastante claro. As flechas aí indicam a origem do poder e o objeto sobre o qual se exerce. No antigo sistema representati-

do globalismo vo, o eleitorado escolhia o governo segundo os programas que lhe pareciam os mais convenientes, e o governo eleito – executivo e parlamento – repassava esses planos aos órgãos da administração pública, para que os executassem. No novo sistema de "parcerias públicoprivadas", a administração pública é só uma parcela do órgão executor. A outra parcela é escolhida por entidades sobre as quais o eleitorado não tem o menor controle e das quais não

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chega às vezes a ter sequer conhecimento. Tal como apresentado na sua formulação publicitária, o novo sistema é mais democrático, porque reparte a autoridade do governo com "a sociedade". Mas "a sociedade" aí não corresponde ao eleitorado e sim a ONG's criadas sob a orientação de organismos internacionais não-eletivos – ONU, UE, OMS, OMC, etc – e subsidiadas por bilionárias corporações multinacionais cuja diretoria não é mesmo conhecida do público em geral. A orientação geral dessas ONG's reflete um conjunto de novas concepções socioculturais e políticas que jamais foram postas sequer em discussão, e que por meio delas são implantadas do dia para a noite, sem que o eleitorado chegue a saber nem mesmo de onde vieram. A própria velocidade das transformações é tamanha, que serve para reduzir as populações ao estado de passividade atônita necessário para tornar inviável não só qualquer reação organizada, mas até uma clara tomada de consciência quanto ao que está acontecendo. Paralelamente, muito do poder de decisão do parlamento é transferido aos órgãos burocráticos, que, agindo já não como braços do eleitorado, mas como agentes a serviço de parcerias controladas pelo triunvirato de ONG's, corporações e organismos internacionais, passa então a introduzir na sociedade mutações radicais que, no sistema de governo representativo, jamais seriam aprovadas nem pela população, nem pelo parlamento. Ao desfazer-se de uma parte das suas prerrogativas, sob as desculpas de "privatização", "democratização", "descentralização", "desburocratização" etc., o governo não as transfere ao povo, mas a um esquema de poder global que escapa infinitamente à possibilidade de qualquer controle pelo eleitorado. As ambiguidades decorrentes, que desorientam o público, são então aproveitadas como instrumentos para gerar artificialmente novas "pressões populares", que não são populares de maneira alguma, mas que refletem apenas a vontade da chamada "sociedade civil organizada", isto é, da rede de ONGs criadas pelo próprio esquema de poder global. Subsidiadas pelas grandes corporações e fundações, essas ONGs, prevalecendo-se da "parceria" que têm com órgãos do governo, passam então à parasitagem voraz de verbas públicas, somando aos recursos que as alimentam desde fora o sangue extraído do próprio eleitorado que as ignora e que elas falsamente representam. Essa nova estrutura de poder não é um plano, não é um objetivo a ser alcançado: ela já é o sistema de poder sob o qual vivemos, construído sobre os escombros do antigo governo representativo, que hoje em dia só subsiste como aparência legitimadora da transformação que o matou. Uma ambiguidade especialmente irônica e por isto mesmo Diário do Comércio, proveitosa da situação é que 04 de julho de 2008 um dos instrumentos princi-

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O camponês antigo, o servo da gleba e até mesmo o escravo romano gemiam sob o tacão de um poder incontrastável, mas pelo menos tinham uma ideia clara de quem mandava neles e compreendiam perfeitamente o funcionamento do sistema que os governava. pais para a implantação do novo esquema reside na rede mundial de ONG's e movimentos esquerdistas, desde os mais radicais até os mais brandos e inofensivos em aparência. Ao mesmo tempo, como a violência e rapidez das mutações gera toda sorte de desequilíbrios, temores e insatisfações, essa rede de organizações esquerdistas é usada por outro lado como megafone para lançar a culpa de todos esses males no velho capitalismo liberal, apontado como beneficiário maior das mesmas transmutações que o esmagam. Os sintomas colaterais mórbidos da transformação servem eles próprios como pretextos para acelerá-la e aprofundá-la, canalizando em favor dela as dores que ela gerou. Numa obra memorável, "Du Pouvoir. Histoire Naturelle de Sa Croissance", Bertrand de Jouvenel mostrou que a história da modernidade não é a história da liberdade crescente, como pretendia Benedetto Croce, mas a história do poder crescente do Estado avassalador. Esse livro é de 1945. Desde então, o curso da História tomou um rumo que o confirma na medida mesma em que aparenta desmenti-lo. A "descentralização" dos governos nacionais, simulando em escala local uma vitória do liberal-capitalismo sobre as tendências centralizadoras e socialistas, foi posta a serviço da construção do Leviatã supranacional que, inacessível e quase invisível, controla dezenas de Estados reduzidos à condição de entrepostos da administração global. Não só o eleitorado foi submetido a essa gigantesca mutação sem a menor possibilidade de interferir nela ou de compreendê-la, porém até mesmo alguns dos mais intelectualizados porta-vozes do liberal-capitalismo, enxergando apenas o fator econômico e recusando-se a investigar a nova estrutura de poder político por trás da globalização comercial, colaboraram ativamente para que o processo de centralização mundial se implantasse pacificamente, sob a bandeira paradoxal da liberdade de mercado. O camponês antigo, o servo da gleba e até mesmo o escravo romano gemiam sob o tacão de um poder incontrastável, mas pelo menos tinham uma ideia clara de quem mandava neles e compreendiam perfeitamente o funcionamento do sistema que os governava. O cidadão da "democracia de massas" está cada vez mais submetido a decisões que não sabe de onde vieram, implantadas por um sistema de governo que ele nem conhece nem compreende. O globalismo é a apoteose do processo de centralização do poder, centralizando até o direito de conhecer o processo.


ISLAMIZAÇÃO DO OCIDENTE

O segredo da invasão islâmica

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ntre as perguntas a que respondi no meu último programa True Outspeak (www.blogtalkradio.com/olavo , às 20h00 de segunda-feira), veio uma especialmente interessante do meu amigo Nahum Sirotsky, correspondente da Zero Hora em Israel. A resposta que dei resumia alguns estudos que estou fazendo para o meu livro "A Mente Revolucionária", motivo pelo qual meu aluno Sílvio Grimaldo houve por bem transcrevê-la. Reproduzo-a aqui sem alterações, apenas levemente corrigida: "Muito bem. A dúvida do Nahum é a seguinte: Como é possível um movimento de envergadura mundial sem um centro de comando, como se fosse uma coisa espontânea se espalhando pelo mundo pela simples força do automatismo? De fato isso parece um enigma. E esse é um enigma que os comentaristas políticos e os analistas estratégicos do Ocidente não vão entender jamais. Eles não têm a menor condição de entender como é o processo profundo da guerra de civilizações, porque para isso seria preciso estudar o Islam até às últimas fontes da espiritualidade islâmica, que estão bem remotas da política diária. Então esse pessoal de formação mais ou menos materialista – e mesmo o pessoal religioso – não têm, no Ocidente, uma visão dessa profundidade, não conseguem conceber como é que funciona realmente o Islam. Eles veem que existem mesquitas, que existe o culto popular, que existem ali alguns funcionários das mesquitas, que são as lideranças religiosas aparentes, e que existe, por outro lado, a estrutura dos Estados, mas, procurando em tudo isso, eles não enxergam o centro. Para achar esse centro você precisa cavar além da superfície. Não se pode esquecer que o Islam está povoado de taricas. Taricas são organizações esotéricas estruturadas mais ou menos como ordens religiosas, que se dedicam a exercícios espirituais em acréscimo às praticas rituais obrigatórias do Islam. São práticas ditas suprarrogatórias, não são obrigatórias pela lei religiosa, são uma devoção especial que o indivíduo faz se quiser. As taricas remontam ao próprio tempo de Maomé. Havia um grupo que se reunia para fazer recitações dos nomes de Deus. Alguém perguntou a Maomé o que ele achava disso e ele disse que eram excelentes pessoas, mas que estavam fazendo algo que não era obrigatório, que eles mesmos tinham oferecido aquilo a Deus. Daí se originou uma multidão de organizações esotéricas que se ramificam por todo o Islam.

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Georges Gurdjieff, líder espiritual armênio

Quando Gurdjieff chega ao Ocidente, no começo do século, ele se apossa de inumeráreis líderes intelectuais e simplesmente os destrói espiritualmente, os deixa completamente desorientados, abrindo um rombo na carapaça da cultura ocidental moderna, cientificista e materialista.

Se você entra numa mesquita e ali há mil pessoas, você pode ter certeza que pelo menos metade delas pertence a alguma tarica. As taricas não se dedicam à atividade política, mas elas são a fonte profunda da unidade espiritual e, portanto, cultural do Islam. E evidentemente é lá que tudo começa." "No Ocidente as pessoas só percebem a guerra cultural quando ela se traduz em manifestações públicas, quando se traduz numa expressão politicamente visível, mas na verdade essa guerra começa muito antes, vindo de dentro das taricas. As taricas são chefiadas por mestres espirituais chamados Sheikhs. Sheikh é um título honorífico, que quer dizer apenas uma pessoa mais velha, mas na verdade os sheikhs das taricas são como um cargo hereditário que é passado não necessariamente para um filho, mas por uma herança espiritual, cada sheikh nomeia o seu sucessor..." "A força que essas organizações representam no Islam não tem nada de comparável no Ocidente. Mesmo se você for investigar as sociedades esotéricas e secretas aqui, elas existem, é claro, mas não têm essa profundidade, não têm, sobre a totalidade da população, a autoridade espiritual tremenda que as taricas têm. (No Islam shiita, a coisa é mais complicada ainda porque há outras redes de organizações esotéricas, independentes das taricas, com uma filosofia messiânica própria.) Então é dessas taricas (e similares) que vem o comando, mas não de uma maneira direta. Não há um comando estratégico que diz 'faça isso' ou 'faça


aquilo', mas é dali que surgem as ideias e as tendências e, no plano das guerras espirituais e culturais, evidentemente a ação provem das taricas. Por exemplo, eu estou seguro de que não é possível explicar a história do século XX, em absolutamente nada, sem levar em conta a ação de enviados de organizações islâmicas que agem no Ocidente há mais de um século exercendo uma influência muito sutil sobretudo na elite intelectual. Antes de vir esse ataque por baixo, que é a imigração [como arma de guerra cultural], essa agitação toda e o próprio terrorismo, muito antes disso havia uma ação por cima, através da dissolução da elite intelectual ocidental, (seguida pela) sua reorganização em termos islâmicos." "Muita gente pode ter ouvido falar do famoso Georges Gurdjieff, aquele líder espiritual armênio. A função do Gurdjieff no Ocidente foi simplesmente bagunçar a elite intelectual. Quando Gurdjieff chega ao Ocidente, no começo do século, ele se apossa de inumeráreis líderes intelectuais e simplesmente os destrói espiritualmente, os deixa completamente desorientados, abrindo um rombo na carapaça da cultura ocidental moderna, cientificista e materialista, abrindo as portas para a entrada da influência oriental, que depois mais tarde se tornaria popular com o movimento da Nova Era nos anos 60. A Nova Era jamais teria sido possível se Gurdjieff não tivesse aberto essa brecha meio século antes. Um continuador dessa obra de destruição foi um indivíduo chamado Idries Shah, um inglês de origem indiana, que prosseguiu o trabalho de decomposição da elite intelectual ocidental num nível de profundidade que não chama a atenção dos analistas políticos. Por que um analista político vai se interessar por assuntos esotéricos, ocultistas, etc.? Há gente que se faz de superior a isso justamente porque não entende - não entende a profundidade do efeito dessas armas na guerra cultural." "Ao mesmo tempo em que as taricas mandavam esses agentes para fazer o serviço destrutivo, mandavam outros para reconstruir, recolocar em ordem a cabeça dos intelectuais, (mas agora) já em termos islâmicos. E nisso se destacaram duas pessoas, René Guénon e Frithjof Schuon. Guénon é o sujeito que propõe já em substituição à cultura europeia uma construção integral baseada em doutrinas orientais (as doutrinas oficiais da sua tarica). Quando Guénon começou a falar dessas coisas por volta de 1920, ninguém prestou a mais mínima atenção. Ele fez até uma conferência na Sorbonne com o

título de A Metafísica Oriental, havia umas dez pessoas lá. Passados quarenta anos, o pensamento do Guénon era o dono, o proprietário absoluto do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade de Paris, proliferando a sua influência numa escala que, no começo, seria inimaginável." "Aí é que está a guerra cultural profunda, mas eu nunca vi algum analista ocidental, mesmo entre os melhores – um Bernard Lewis, por exemplo – dar um tratamento a isso com a profundidade que deve." "Por exemplo, o Gurdjieff. Você tem vários movimentos artísticos no modernismo que dão a impressão de ser criações puramente ocidentais, mas que não foram nada disso: era o dedo do Gurdjieff que estava lá. Aqui nos EUA, por exemplo, o arquiteto mais influente, que foi o Frank Lloyd Wright, o sujeito que revolucionou a arquitetura americana, era um discípulo do Gurdjieff, obedecia a instruções diretas dele. Gurdjieff conseguia criar estilos artísticos como quem preenche um cheque, ele criava um atrás do outro. É um tipo de capacidade que as pessoas normalmente não imaginam. Isso não quer dizer que eu goste muito desse Gurdjieff não, mas tenho de reconhecer a sua força tremenda." "Então é nesse nível, da unidade espiritual da tradição islâmica, que se tem que encontrar a tal da autoridade humana pela qual pergunta com muita razão o Nahum Sirotsky." "Mas, quanto mais o tempo passa, mais vejo que a incapacidade de fazer as perguntas corretas é a grande falha da classe falante: falam, falam, mas às vezes o problema está na frente deles e eles nem percebem que existe o problema, não percebem a questão. E, não fazendo a pergunta, evidentemente não têm as respostas. Então, o mistério desse movimento tremendo, avassalador, aparentemente sem cabeça, sem comando, que vai tomando conta do mundo, até hoje não suscitou a pergunta correta porque as pessoas procuram (uma resposta) no nível do comando político ou, no máximo, religioso no sentido mais externo da coisa, e não no sentido do comando espiritual que unifica uma civilização." Ainda voltarei a este assunto tremendamente complicado. Reproduzi a resposta só para dar ao leitor uma primeira ideia de como as coisas que ele lê na mídia a respeito da invasão islâmica são superficiais e incapazes de explicar os fatos. Mas, por enquanto, deixemos essas alturas e vejamos o que se passa na terra de Macunaíma.

Não se pode esquecer que o Islam está povoado de taricas. Taricas são organizações esotéricas estruturadas mais ou menos como ordens religiosas, que se dedicam a exercícios espirituais em acréscimo às praticas rituais obrigatórias do Islam.

Diário do Comércio, 12 de março de 2007

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FILOSOFIA E CULTURA

A autoridade religiosa do mal

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este momento, a diretoria da PETA - People for the Educado nos princípios do relativismo, que entrou na moda Ethical Treatment of Animals, empombadíssima quando eu era adolescente (embora os adolescentes de hoje ONG que em nome dos direitos dos animais diz acreditem ser os primeiros a tomar conhecimento dele), demohorrores das pessoas que comem carne, usam carei muito para descobrir por experiência – e tive enorme dificulsacos de pele ou vão ao circo – está sendo processada pela madade de admitir – que no mundo há pessoas muito boas e pestança de milhares de gatos e cachorros. Funcionários da organisoas muito más, separadas por um abismo irredutível. Hoje em zação recolheram os bichos em depósitos públicos, dizendo que dia, quem quer que proclame em voz alta a existência dessa diiam arranjar famílias para adotá-los. O pessoal dos depósitos nem ferença que salta aos olhos na vida diária é imediatamente acupensou em duvidar dos agentes de uma instituição famosa e posado de "maniqueísmo". Mas isso não é senão uma inversão a liticamente correta. Dias depois os homens da PETA foram surmais, pois o maniqueísmo, historicamente, consiste em equalipreendidos jogando os cadáveres de 14.400 animais num terreno zar o bem e o mal como princípios, neutralizando a diferença de baldio, em sacos de lixo. Leia a história completa valor que os separa. E eu não sou covarde o basem www.petakillsanimals.com. tante para me abster de dizer as coisas como as Também neste momento os remanescentes do vejo, só por medo de uma rotulação pejorativa Khmer Vermelho, a organização genocida lidecuja falsidade já se revela na própria semântica rada pelo famigerado Pol-Pot, estão sendo julgado termo. dos por um tribunal em Phnom Penh, Camboja, Mais doloroso ainda, porém, foi descobrir depois de tudo o que a bondosa ONU fez para que todos os mestres-pensadores e líderes polílivrá-los de tão desumano constrangimento. Esticos que encarnavam os ideais pomposamente E eu não sou covarde o ses terroristas chegaram ao poder com a ajuda de alardeados pela militância intelectual esquerbastante para me abster milhões de jovens militantes americanos e eurodista – todos, sem exceção – pertenciam inequide dizer as coisas como peus que, manipulados por uma rede de organivocamente à segunda categoria. Quem quer as vejo, só por medo de zações esquerdistas e um exército de pop stars que estude as vidas de cada um deles descobrirá uma rotulação pejorativa das artes e letras, marcharam "pela paz" nos anos que Voltaire, Diderot, Jean-Jacques Rousseau, 60 sob lindos pretextos idealistas e humanitários, Sade, Karl Marx, Tolstoy, Bertolt Brecht, Lênin, cuja falsidade já se forçando os EUA a desistir de uma guerra vitoStálin, Fidel Castro, Che Guevara, Mao Dzerevela na própria riosa, sair do Vietnã do Sul e deixar o caminho lidong, Bertrand Russel, Jean-Paul Sartre, Max semântica do termo. vre para que os comunistas armados pela China Horkheimer, Theodor Adorno, Georg Lukács, invadissem esse país e o vizinho Camboja. ResulAntonio Gramsci, Lillian Hellman, Michel Foutado final do massacre: três milhões de civis morcault, Louis Althuser, Norman Mailer, Noam tos, mais de três vezes o total das vítimas da guerra. Leia a história Chomsky e tutti quanti foram indivíduos sádicos, obsessivacompleta em Mark Moyar, Triumph Forsaken. The Vietnam War, mente mentirosos, aproveitadores cínicos, vaidosos até à de1954-1965 (Cambridge University Press, 2006). mência, desprovidos de qualquer sentimento moral superior e O paralelo entre a matança de animais e a de seres humanos de qualquer boa intenção por mais mínima que fosse, exceto, talnão é fortuito: em ambos os casos um discurso atraente, condenvez, no sentido de usar as palavras mais nobres para nomear os sado em slogans de grande impacto repetidos ad nauseam pela atos mais torpes. Muitos cometeram assassinatos pessoalmenmídia, recobriu com o manto do prestígio moral uma gangue de te, sem jamais demonstrar remorso. Outros foram estupradores sociopatas assassinos, criminalizando os que se opunham a seus ou exploradores de mulheres, opressores vis de seus empregaplanos macabros e transformando cidadãos inocentes em cúmdos, agressores de suas esposas e filhos. Outros, orgulhosamenplices daquilo que existe de pior no mundo. O fundo ideológico, te pedófilos. Em suma, o panteão dos ídolos do esquerdismo nas duas ocasiões, é o mesmo: a inversão revolucionária dos senuniversal era uma galeria de deformidades morais de fazer intimentos morais, a imposição do mal em nome do bem. veja à lista de vilões da literatura universal. De fato, não se en-

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Pôsteres da era Gorbachev/Flickr

contrará entre os personagens de Shakespeare, Balzac, Dostoiévsti e demais clássicos nenhum que se compare, em malícia e crueldade, a um Stálin, a um Hitler ou a um Mao Dzedong. Um dos motivos da crise permanente do gênero "romance" no século XX foi, precisamente, o fato de que a maldade real ultrapassou a imaginação dos ficcionistas. Em contrapartida, os representantes das correntes opostas, conservadoras ou reacionárias, conforme fui descobrindo com ainda maior surpresa, eram quase invariavelmente seres humanos de alta qualidade moral, atestada não só na idoneidade do seu trabalho intelectual, onde nada se encontrará das fraudes monstruosas perpetradas por um Voltaire, um Diderot ou um Karl Marx, mas também nas circunstâncias do cotidiano e nos testes mais rigorosos da existência. Dificilmente se encontrará algum capítulo vergonhoso na biografia de Pascal, de Leibniz, de Bossuet, de Donoso Cortés, de Joseph de Maistre, de John Henry Newman, de Edmund Burke, de Vladimir Soloviev, de Nikolai Berdiaev, de Alexis de Tocqueville, de Edmund Husserl, de Ludwig von Mises, de Benjamin Disraeli, de Russel Kirk, de Xavier Zubiri, de Louis Lavelle, de Garrigou-Lagrange, de Joseph Maréchal, de Victor Frankl, de Marcel De Corte e de tantos outros. Ao contrário, essas vidas transbordavam de exemplos de grandeza, generosidade, coragem e humildade. E mesmo aqueles que reconhecidamente pecaram, como Dostoiévski, Winston Churchill, Charles de Gaule, Ronald Reagan ou Maurice Barrès, jamais ostentaram orgulho disso como um Rousseau ou um Brecht, nem muito menos trataram de encobrir suas vergonhas com uma engenhosa teia de mentiras autolisonjeiras como o fizeram Voltaire e Diderot. Para levar a comparação até suas últimas consequências, até os mais notórios ditadores reacionários, Franco, Salazar e Pinochet, com todos os crimes políticos que cometeram, mantiveram em suas vidas pessoais um padrão de moralidade incomparavelmente mais elevado que o dos tiranos revolucionários. Pelo menos não mandavam matar seus mais próximos amigos e companheiros de luta, como Stalin, Hitler e Fidel Castro, nem estupravam garotas menores de idade como o fazia Mao Dzedong.

Por favor, não me entendam mal. Há, é claro, um bom número de patifes entre os escritores e sobretudo os políticos de direita, e os descobriremos facilmente se alargarmos o espectro em exame para abranger os de médio e pequeno porte. Mas, numa comparação entre os personagens maximamente influentes dos dois campos, não é possível deixar de notar a superioridade moral dos direitistas e a ausência completa de um só tipo moralmente bom entre os esquerdistas: são todos maus, sem exceção. À medida que fui acumulando leituras e o conhecimento das biografias dos autores lidos, não tive mais como escapar da conclusão: era impossível que o estofo moral desses dois grupos não se refletisse de algum modo nas suas ideias. Ideias, afinal, não são formas platônicas pairando em abstrato na eternidade. São atos da inteligência humana, são reações de pessoas de carne e osso a situações concretas e são também expressões de seus desejos, temores e ambições. Havia, por outro lado, o teste evangélico: os frutos. As ideias dos grandes gurus revolucionários não tinham produzido por toda parte senão devastação e morte em proporções jamais vistas ao longo de toda a História anterior e nem de longe comparáveis a qualquer malefício que pudesse algum dia ter resultado das ideias conservadoras. Só a Revolução Francesa matou em um ano dez vezes mais gente do que a Inquisição Espanhola em quatro séculos. Feitas as contas – e, ad argumentandum, até mesmo excluindo o nazismo da tradição revolucionária a que ele inequivocamente pertence –, os regimes inspirados nas ideias desses gurus superaram, em número absoluto de vítimas, não só o total dos morticínios anteriormente ocorridos em todas as civilizações conhecidas, mas também as taxas de óbitos registradas em todas as epidemias, terremotos e furacões do século XX. Mesmo considerado só do ponto de vista quantitativo, o "ideal revolucionário", enfim, foi o maior flagelo que já se abateu sobre a espécie humana. Mesmo que olhássemos os pensadores reacionários só pelo mal que possam ter provocado voluntária ou involuntariamente, seus feitos, no conjunto, não poderiam jamais competir, nem de longe, com essa ple-

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tora cósmica do sangrento e do macabro que é o curriculum vialém da história material: o nexo unificador da História estava na tae dos mestres da revolução. Meta-História. Por baixo da narrativa espiritual, porém, desenSe ideias nascidas de almas disformes proliferaram em conrolava-se a história social, política e econômica da humanidade. sequências nefastas, seria absolutamente imbecil teimar em Essa história adquiria algum sentido na medida em que se artiver nisso um mero acúmulo de coincidências, que teria de ser culava, ainda que de maneira ambígua e problemática, com a hisele próprio a coincidência das coincidências, o mais inexplicátória da redenção. Mas, considerada em si mesma e isoladamenvel mistério da História humana. te, não tinha forma, unidade nem sentido: era a sucessão caótica É claro que não tem sentido refutar ideias alegando a má quados impérios e das castas, dos esforços e derrotas, dos sofrimentos lidade humana de seus autores. Elas têm de ser examinadas em e desvarios da humanidade na sua luta interminável pelo pão, si mesmas e submetidas ao teste da realidade, não da moral. Mas pelo abrigo, pela segurança e, sobretudo, pelo poder. também não tem sentido confundir o exame crítico da consisEssa ausência de unidade é um fato empiricamente comprotência e veracidade fática das ideias com a compreensão do seu vável: civilizações inteiras nasceram, cresceram e morreram sem significado histórico, do papel que exercem no desenrolar dos ter qualquer contato entre si, deixando vestígios que só vieram a acontecimentos. Neste último caso, a simples afirmação em si ser desenterrados depois de milênios, saltando sobre muitas cimesma óbvia de que as más intenções de homens perversos provilizações e culturas intermediárias. Ademais, a continuidade duzem geralmente efeitos malignos é amplamente confirmada histórica não acompanha automaticamente a sucessão biológica pelos exemplos citados, e essa confirmação pouco ou nada tem a das gerações. Depende da transmissão cultural, que é tênue em si ver, logicamente, com o problema de se essas intenções se reamesma e frequentemente interrompida pelas guerras, pelas inlizaram por meio de erros filosófico-científicos vasões, pelas catástrofes naturais e pelo simples ou de verdades colocadas a serviço do mal. Dito esquecimento. O fio da história puramente hude outro modo, a condenação radical que as mana não é contínuo: é escandido pela morte. obras desses homens merecem desde o ponto de Daí que, até hoje, todas as tentativas de "filosofia vista moral é independente da crítica lógica da da história", ambicionando reunir numa visão veracidade ou falsidade parcial ou total das suas unificada e num sentido de totalidade o conjunto teorias, e esta é independente daquela. Estou da experiência humana na Terra, tenham falhado De tudo o que estudei a avisando isto porque sei que infalivelmente miseravelmente. Chega a ser tragicômico que o respeito, a conclusão é aparecerão os espertinhos de sempre, alegando reconhecimento desse fracasso, na segunda meinevitável: Agostinho que estou refutando teorias por meio de argutade do século XX, tenha provocado tanto estumentos ad hominem – alegação que passa longe por e desespero. Agostinho, no século V, já havia tinha uma visão muito do assunto que estou discutindo aqui. demonstrado que toda visão totalizante da Hismais realista do processo Mas, por outro lado, tudo isso não quer ditória material está condenada de antemão, no histórico do que Vico, zer que, fora de qualquer intenção de julgamínimo porque a História ainda não acabou e Hegel, Karl Marx, mento moral, aquelas ideias já não tenham sininguém, de dentro dela, pode enxergá-la como Comte e tutti quanti. do bastante examinadas desde o ponto de vista um todo ou fechá-la num esquema lógico acabalógico-crítico, nem que tenham se saído muito do. Cada novo "fim da História", anunciado orbem no exame. Teorias como o "contrato sogulhosamente pelos filósofos, é só mais um capícial" de Rousseau, a "mais-valia" de Marx, a "consciência postulo da História que prossegue e o desmente. De tudo o que essível" de Lukács, a "personalidade autoritária" de Max tudei a respeito, a conclusão é inevitável: Agostinho tinha uma Horkheimer, etc., já viraram poeira atômica no laboratório crívisão muito mais realista do processo histórico do que Vico, Hetico e hoje só sobrevivem como capítulos exemplares na hisgel, Karl Marx, Comte e tutti quanti. Se descontarmos algumas tória da pseudociência universal. Não é preciso nenhum arguobras mais recentes que beberam abundantemente em Agostimento ad hominem para dar cabo do que já está morto. nho (por exemplo as de Christopher Dawson e Eric Voegelin), A O que é quase inevitável é que a visão de tamanha miséria inCidade de Deus ainda é o melhor livro de filosofia da História. telectual somada à baixeza moral das intenções e à natureza caAconteceu que, entre os séculos XIV e XVII, o surgimento dos tastrófica dos efeitos acabe por suscitar a pergunta: Como foi posimpérios nacionais rompeu o equilíbrio medieval e espalhou por sível que ideias tão inconsistentes, tão maldosas e tão desastradas toda parte a ambição dos ganhos fáceis, a corrupção, a imoralitenham adquirido a autoridade moral de que ainda desfrutam dade, as guerras, o banditismo e a desordem. Desesperados, e imnos setores nominalmente mais cultos da população? buídos do que lhes parecia a melhor das intenções, vários monA resposta é longa e só posso aqui fornecê-la em abreviatura. ges, pregadores e teólogos acharam que estava na hora de acabar A origem do fenômeno remonta à mutação do senso histórico com a bagunça e implantar, à força, o reino de Deus na Terra. Nosobrevinda por ocasião das revoluções messiânicas das quais fatem que a própria Igreja nunca tivera ambição tão alta, limitandolei no artigo anterior. Até então a estrutura do tempo histórico era se a cultivar os jardins da Cidade de Deus no meio da confusão e geralmente compreendida, no Ocidente, segundo a distinção sofrimento da Cidade dos Homens, dando a Deus o que era de agostiniana das "duas cidades". Para Agostinho, só a história esDeus e no máximo fornecendo alguma ajudinha espiritual a Cépiritual da humanidade – a história da criação, da queda e da resar para que cuidasse do que era de César. A separação dos podenção – tinha verdadeira unidade e sentido. Esse sentido, poderes entre Igreja e Império foi a base mesma do consenso merém, se realizava no Juízo Final, num supratempo localizado para dieval, que se esboroou no instante em que cada pequeno césar

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quis ter seu próprio império e até sua própria igreja. Em resposta ao desmoronamento da ordem cristã, a ambição de muitos líderes e pensadores religiosos subiu ainda mais alto que a dos césares: acima do emaranhado de novos reinos devia erguer-se, no prazo mais breve possível, o reino mundial de Cristo, a Nova Ordem Mundial, Novus Ordo Seclorum, expressão que remonta a um desses reformadores radicais, o pedagogo João Amos Comenius (1592-1670). Entre eles havia sábios e loucos, santos e criminosos, organizadores geniais e desorganizadores furibundos. No conjunto, sua ação consistiu em tomar nas próprias mãos o chicote da Justiça divina e tentar apressar o Juízo Final. E tão longe estava o mundo da perfeição a que aspiravam, que não viram outro meio de alcançar o seu ideal num prazo aceitável senão pela violência e por uma anarquia ainda mais completa do que aquela contra a qual reagiam. A Reforma luterana, sobrevindo no rastro dessa avalanche, foi no fim das contas o contra-movimento que deteve a revolução e permitiu que o cristianismo sobrevivesse em algumas das áreas onde ele ameçava reduzir-se, com quatro séculos de antecedência, a uma espécie de teologia da libertação, com padres enfurecidos pregando a revolução permanente e a matança geral dos ricos. Mas, por toda parte em torno, as sementes da revolta continuaram germinando, condensando-se em novas formulações ideológicas e espoucando aqui e ali em morticínios ocasionais, até que viesse a explosão maior de 1789 na França. Toda essa formidável sucessão de efeitos político-sociais, no entanto, foi nada em comparação com a marca indelével que o advento do messianismo deixou na imaginação e na cultura dos povos europeus. Num relance, o eixo vertical da História tinha virado de cabeça para baixo. A transfiguração geral do mundo, o advento do reino de Justiça que a Bíblia e Agostinho situavam num supratempo espiritual para além da História, tinha sido puxado para dentro da História, tornando-se, na imaginação dos revolucionários, o capítulo seguinte na sucessão dos tempos, a ser produzido à força pela ação social e política. Mas o fim dos tempos, reduzindo-se a uma fração do tempo destinada a passar e desaparecer como qualquer outra, conservava, pelo conteúdo ideal que a esperança revolucionária nele projetava, o prestígio da eternidade. Era como se aquele fragmento especial do tempo estivesse destinado a congelar-se, a ser arrebatado para além do mundo da geração e corrupção, como um quadro que fixasse para sempre a imagem do instante. A eternidade enquanto tal, presença simultânea de todos os momentos, como a definia Boécio, a eternidade que abarcava o tempo e da qual, segundo Agostinho, o tempo constituía a imagem móvel, desparecera da imaginação ocidental, substituída pela aspiração impossível do instante perpétuo, cristalizado no ar. Essa mudança foi uma ruptura total e radical da cultura européia com a estrutura do tempo, o que vale dizer: com a estrutura da realidade. Precisamente na época em que o progresso das ciências naturais começava a fornecer observações e medições mais precisas dos dados materiais em torno, a inteligência se tornava incapaz de articulá-los com a ordem do real. Daí o contraste patético entre a qualidade crescente da investigação científica e a proliferação de filosofias pueris, montadas em cima de contradições e impossibilidades patentes, e tão pretensiosas nas suas ambições quanto ingênuas e desprovidas do menor senso crítico ao lançar os alicerces de barro de suas construções supostamente eternas. O mito do instante perpétuo está por bai-

xo da "paz eterna" de Kant, do "fim da História" de Hegel, da "democracia plebiscitária" de Rousseau, da "lei dos três Estados" de Comte, da ideologia cientificista-materialista do "progresso" e, é claro, da teoria marxista da história como luta de classes destinada a desembocar no esplendor do milênio proletário. Mas estar por baixo significa estar invisível. Nenhuma dessas concepções filosóficas examina criticamente o instante perpétuo. Se o examinasse, veria que era uma bobagem sem par. Ele não é um "conteúdo" dessas filosofias: é a premissa inquestionada, intocável, em cima da qual se erguem, inconscientes da sua presença, como castelos construídos sobre um buraco sem fundo. Assim, toda a vivência moderna do tempo histórico foi determinada pela autoridade onipresente e invisível de um ilogismo cretino. Protegido ao mesmo tempo pelo manto sacral da sua origem religiosa, o mito do apocalipse intratemporal ganhava ainda mais força por se tornar, através das ideologias do progresso e da revolução, o instrumento por excelência para destruir a religião estabelecida. Substituída a eternidade pela imagem hipnótica do instante perpétuo, na mesma medida Deus e o Juízo Final já não podiam ser concebidos senão através da expectativa messiânica da "justiça social" a ser implantada no mundo por meio do genocídio sistemático. Foi assim que a ideologia dos mais descarados e brutais se elevou às alturas, não digo de uma religião, mas da própria autoridade divina. Essa mudança afetou tão profundamente a imaginação ocidental, que nem a própria religião escapou da sua influência. A confusão entre eternidade e instante perpétuo, paramentada como "teologia da História", perpassa todo o pensamento católico que levou ao Concílio Vaticano II e, através dele, agindo desde dentro em parceria com os inimigos de fora, destruiu o que pôde da autoridade da Igreja. Hoje em dia, bilhões de pessoas no mundo, independentemente de suas crenças e ideologias, já não podem conceber o Bem senão sob a forma de uma sociedade futura, o pecado senão como oposição ao advento dessa sociedade, a eternidade senão como algum tipo de "justiça social" (as concepções variam) a ser alcançada no instante perpétuo do século seguinte, do milênio seguinte ou sabe-se lá quando. Como, porém, os instantes passam e o futuro jamais chega porque continua futuro por definição, ninguém pode olhar para trás e confessar os pecados e crimes hediondos que cometeu para alcançá-lo. O culto invisível do instante perpétuo não apenas absolve por decreto tácito as matanças, os genocídios, o horror e a desumanidade dos regimes revolucionários, mas dá a todos os ativistas do mundo a licença para continuar oprimindo e matando indefinidamente, sempre em nome das lindezas hipotéticas de um futuro impossível. Essa é a força, intrinsecamente anti-humana e diabólica, que Diário do Comércio, faz as multidões servirem ao mal 29 de janeiro de 2007 em nome do bem.

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A fórmula p a r a enlouquece r o mundo

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dam Smit h observa que em to de coexiste da socieda m dois sist emas mora me vem d gidamente emonstra is: um, riconservad ndo E. Mic memoráv or, para o outro, flex hael Jones e s l de estud p ív o bres; el e permis numa séri elegantes. os (Degen dernity as sivo, para e A história erate Mod o R s co a ri ti cos e nfirma ab o generaliza n erns: Moa li z e d Sexual Francisco undantem ção, mas a Misbehav , Ignatius ente essa inda pode ta substân ior , San Press, 199 mos extra quentes), cia que nã 3, e volum ir d é e a o la í e m x m is e u th. O que a sm tia no temp e is o subseq u d e o sucesso se deve pro conteceu fo o de Adam das ideolo i que o adv curar a ca Smimocracia g ia usa e A n s to rticulando modificou totalitária da modern s no século bastante a o seu diag a dedois códig XX. convivênci nóstico co Himmelfa os. Primeir a entre os m o de Ge rb em One o, elevou a o moralism rtrude Nation , T té à classe ching Exa o dos pob w o d o C m m ultures: A in inante res: na Am ation of A vemos surg Searérica do sé termath o merican S ir pela prim ociety in th f Our Cult culo XIX eira vez na de govern ural Revo e AfVintage B História u antes que lution (N ooks, 199 ma casta admitem se mas regra ew York, 9), podem r julgados conclusõe s vigentes os chegar p s e la b e e s n m m tr a alguma eselucidativ século seg e o resto d s uinte, as p as. O poeta Ste a populaçã roporções phen Spen o. No sividade n se invertem der, após ro tido Comu ão só se in : a permisnista, já ha mper com stala de no que, mas d via admitid o Parvo entre a os intelect aí desce e o que o qu classe chiuais ociden contamina e conduzia que não o tais à paixã o povão. É trárias à p faz por co o por ideo rópria liber verdade mpleto: m logias con ricana ain dade de q etade da n sentimento da se com u e desfruta a çã d o e p culpa e o d reende e se amepreceitos vam era o esejo de liv preço. A o julga segu da Bíblia. rigem dessa rar-se dele Mas os efe ndo os xual" fora a baixo culpa resid itos da "re plas faixas m profund e v o n d lu o fato de q a çã o cl s, o a espalhand ss sepermissiv e m u éd e amia zeres e pra passaram o por toda ismo e o de zeres prati a desfrutar parte o boche para sexual. O e ca d e lam m a ente ilimit uito além d rcar com a pisódio Cli ados, sem s responsa a esfera nton, perd to após ter te b r il o re id de a d ligiosas co ades políti o pelo Parl usado o Sa m que a an cas, milita amenlão Oval d quarto de tiga aristocr res e a Casa Bra moral dos motel, mo acia pagav nca como seus desm stra que, p cela da op a o preço andos sex ara uma g tempo em inião públi u a ra is e etílico q n u d e a França ca, até as a e pardade se to s. Num era o país parências ropa, Luís rnaram dis mais cristã de morali XIV tinha pensáveis estatística o n da Eua . Um breve da menos sua rotina s de gravid de 28 ama exame das de trabalh ez infanto drogas m n te o s, mas er a mais pes -juvenil e quer execu ostra que ada que a do uso de tivo de mu idêntica tr nos países d e lt qualin a n a brilhantem sformação cional, sem da Europ ente enfati contar o fa ocorreu a ocidenta dos costum z to a , tão d l, É o o missaire , por René G nde a disso es já vinha Paris, Gra irard ( Le B lução desde o fim dial (v. Mo ss et o , tr uc 1 a d 9 dris Ekste zia consigo a I Guerra 82), de qu ins, Rites o e a função Muna obrigaçã As conseq f re o S p d al p a e ri ra se ng ). os males n rvir de bod uências d acionais: q e expiatóri essa transf pliam para rolou em p uando a ca o ormação muito além agamento beça de Lu se amdo domín das dívida ís XVI avô, isso n io "moral" s de seu p ão foi uma . Conforai e de seu inovação re simples cu volucioná mprimento ria, mas o de um aco rdo tácito v igente no

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cerne mesmo do sistema monárquico. Já na Idade Média, os encargos da defesa territorial incumbiam inteiramente à classe aristocrática: ninguém podia obrigar um camponês ou comerciante a ir para a guerra, mas o nobre que fugisse aos seus deveres bélicos seria instantaneamente executado pelos seus pares. Noblesse oblige: a classe aristocrática era liberada de parte dos rigores morais cristãos na mesma medida em que pagava pela sua liberdade com a permanente oferta da própria vida em sacrifício pelo bem de todos. A democratização da permissividade espalha os direitos da aristocracia por uma multidão de recém-chegados que de repente se veem liberados da pressão religiosa sem ter de assumir por isso nenhum encargo extra, por mínimo que seja, capaz de restaurar o equilíbrio entre direitos e deveres. Ao contrário, junto com a liberdade vem o acesso a bens inumeráveis e a um padrão de vida que chega mesmo a ser superior ao da velha aristocracia – tudo isso a leite de pato. Ortega y Gasset notou, no seu clássico de 1928, La Rebelión de las Masas , que o típico representante da moderna classe média, o "homem massa", era realmente um filhinho-de-papai, um señorito satisfecho que se julgava herdeiro legítimo de todos os benefícios da civilização moderna para os quais não havia contribuído em absolutamente nada, pelos quais não tinha de pagar coisa nenhuma e dos quais, geralmente, ignorava tudo quanto aos sacrifícios que os produziram. Por toda parte, nas civilizações anteriores, um certo equilíbrio entre custo e benefício, entre direitos e deveres, entre prazeres e sacrifícios, era reconhecido como o princípio central da sanidade humana. A liberação de massas imensas de população para o desfrute de prazeres e requintes gratuitos é uma das situações psicológicas mais ameaçadoras já vividas pela humanidade desde o tempo das cavernas. Para cada indivíduo engolfado nesse processo, o efeito mais direto e incontornável da experiência é um sentimento de culpa tanto mais profundo e avassalador quanto menos conscientizado. Mas como poderia ele ser conscientizado, se na mesma medida em que se abrem as portas do prazer se fecham as da consciência religiosa? O señorito satisfecho é corroído por um profundo ódio a si mesmo, mas está proibido, pela cultura vigente, de perceber a verdadeira natureza de suas culpas, e mais ainda de aliviá-las mediante a confissão religiosa e o

cumprimento de deveres penitenciais. A culpa mal conscientizada, conforme a psicanálise demonstrou vezes sem conta, acaba sempre se exteriorizando como fantasia persecutória e acusatória projetada sobre os outros, sobre "o mundo" sobre "o sistema". O homem medianamente instruído do nosso tempo joga suas culpas sobre "o sistema", fingindo para si mesmo que está revoltado pelo que ele nega aos pobres, quando na realidade o odeia por aquilo que esse sistema lhe dá sem exigir nada em troca. Não que o sistema seja isento de culpas; mas a mesma prosperidade geral que espalha os benefícios da civilização entre massas crescentes que jamais poderiam sonhar com isso nos séculos anteriores mostra que essas culpas não são de ordem econômica, mas cultural: o capitalismo não cria miséria e sim riqueza; mas junto com ela espalha o laicismo e o permissivismo, rompendo o equilíbrio entre o prazer e o sacrifício, necessidade básica da psique humana. Daí o aparente paradoA liberação de massas xo de que o ódio ao sistema se dissemine imensas de população principalmente – ou exclusivamente – entre as classes que dele mais se beneficiam mapara o desfrute de terialmente (lembre-se do que eu disse soprazeres e requintes bre o movimento gay no artigo da semana gratuitos é uma das passada). A tentação socialista aparece aí situações psicológicas como o canal mais fácil por onde as culpas mais ameaçadoras já do filhinho-de-papai são jogadas precisamente sobre as fontes do seu bem-estar e da vividas pela sua liberdade. Vejam essa meninada da humanidade desde o USP, gente de classe média e alta, depredantempo das cavernas. do uma universidade gratuita, e compreenderão do que estou falando: o que esses garotos precisam não é de mais benefícios; é de uma cobrança moral que restaure a sua sanidade. Mas, como os representantes do Estado são eles próprios señoritos satisfechos que também não compreendem a origem das suas próprias culpas, sua tendência é fazer dos jovens enragés um símbolo da sua própria consciência moral faltante; daí que lhes cedam tudo, num arremedo de penitência, corrompendo-os e corrompendo-se cada vez mais e precipitando uma acumulação de culpas que só pode culminar na suprema culpa da sangueira revolucionária. "Vivemos num mundo demente, e sabemos perfeitamente disso", dizia Jan Huizinga na década de 30, pouco antes que o

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desequilíbrio da alma européia desaguasse no morticínio geral. Transcorridas quase oito décadas, a humanidade ocidental nada aprendeu com a experiência e está pronta a repeti-la. Hipnotizada pela lógica do desejo, que não enxerga cura para os males senão na busca de mais satisfações e mais liberdade, como poderia ela descobrir que seu problema não é falta de bens ou prazeres, mas falta de deveres e sacrifícios que restaurem o sentido da vida e a integridade da alma? Não é preciso dizer que a adesão ao Ersatz revolucionário e socialista, sendo na base uma farsa neurótica, não alivia as culpas de maneira alguma, mas as recalca ainda mais fundo no inconsciente, onde se tornam tanto mais explosivas e letais quanto mais encobertas por um discurso de autobeatificação ideológica (Marilena Chauí sonhava em "viver sem culpas"; o sr. Luís Inácio Lula da Silva admite modestamente ter realizado esse ideal). O ódio ao sistema – com sua expressão mais típica hoje em dia, o anti-americanismo – cresce na medida mesma em que a ilusão autolisonjeira da pureza de intenções induz cada um a sujar-se cada vez mais na cumplicidade com a corrupção e os crimes do partido revolucionário. Os capitalistas, os representantes do "sistema", por sua vez, aceitam passivamente ser objeto de ódio e até se regozijam nele, na vã esperança de assim purgar suas próprias culpas; mas, como estas não residem onde as aponta o discurso revolucionário, cada nova concessão ao clamor esquerdista os torna ainda mais culpados e vulneráveis. Antecipando as análises de Jones e de Himmelfarb, Igor Caruso ( Psychanalyse pour la Personne , Paris, Le Seuil, 1962) localizava a origem das neuroses não na repressão do desejo sexual, mas na rejeição dos apelos da consciência moral. O abandono da consciência de culpa não pode trazer outro resultado senão a proliferação de culpas inconscientes. E as culpas inconscientes necessitam de novos e novos bodes expiatórios, cujo sacrifício só as torna ainda mais angustiantes e intoleráveis. Figuras de linguagem Toda figura de linguagem expressa compactamente uma impressão sem indicar com clareza o fenômeno objetivo que a suscitou. Decomposta ana-

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liticamente, ela se revela portadora de muitos significados possíveis, alguns contraditórios entre si, que podem corresponder à experiência em graus variados. No Brasil de hoje, todos os "formadores de opinião" mais salientes, sem exceção visível – comentaristas de mídia, acadêmicos, políticos, figuras do show business – pensam por figuras de linguagem, sem a mínima preocupação (ou capacidade) de distinguir entre a fórmula verbal e os dados da experiência. Impõem seus estados subjetivos ao leitor ou ouvinte de maneira direta, sem uma realidade mediadora que possa servir de critério de arbitragem entre emissor e receptor da mensagem. A discussão racional fica assim inviabilizada na base, sendo substituída pelo mero confronto entre modos de sentir, uma demonstração mútua de força psíquica bruta que dá a vitória, quase que necessariamente, ao lado mais barulhento, histriônico, fanático e intolerante. Como as pessoas presSe a definição de sentem de algum modo que essa situauma conduta ção ameaça descambar para a pura e simples troca de insultos, se não de tadelituosa é vaga e pas ou de tiros, o remédio que improviimprecisa, a sam por mero automatismo é apegar-se tipificação do crime às regras de polidez como símbolo concorrespondente se vencional e sucedâneo da racionalidade torna pura matéria de faltante, como se um sujeito declarar calma e educadamente que os gatos são preferência subjetiva vegetais fosse mais racional do que berdo juiz ou de pressão rar indignado que são animais. O resulpolítica por parte de tado é que a linguagem dos debates púgrupos interessados. blicos se torna ainda mais artificiosa e pedante, facilitando o trabalho dos demagogos e manipuladores. É um ambiente de alucinação e farsa, no qual só o pior e mais vil pode prevalecer. O cúmulo da devassidão mental se alcança quando as leis penais passam a ser redigidas dessa maneira. Se a definição de uma conduta delituosa é vaga e imprecisa, a tipificação do crime correspondente se torna pura matéria de preferência subjetiva do juiz ou de pressão política por parte de grupos interessados. Assim, por exemplo, o agitador que pregue abertamente a inferioridade da raça negra e o engraçadinho que faça uma piada ocasional sobre negros podem


ser conde nados à m esma pen mo". Dua a por deli s conduta to de "raci s qualitativ veis são n samente in linguiana iveladas p comparáda "doença or baixo: n entre delito espiã o r it u a l" c la há mais d e aparênci iferença s s if ic a v a a de delito às avessas: m . É id as a eologias re mulher de não é preci volucioná César so ser crim lo. Basta ca ri in c as o o m so, basta p ber numa o p a to lo g arecêdefinição ia s m e n ta tica que in ilimitadam em sentid is clui desde o estrito, a ente eláso uso imp lavras até chei que ensado de e x a a doutrina g e ravam. Ho certas pação genoci je sei que e "Racismo" da explíci tavam cert sé uma figu ta os. e fe ra roz. de linguag ceito rigoro em, não u As figura so corresp m cons de lingu ondente a das. Uma condutas d agem são instru lei que o cr eterminamentos in iminalize qual a just d is p é ensáv u eis não só n m jogo de iça e a inju stiça são d azar no a comunic juízes que istribuída a çã m o coo têm a consc na aquisiç s a esmo, p iência tran ão de con a serviço d or quila de est mento. Q h ecia liberdad uando nã ar agindo e e da dem dia. Quem o sabemo ocracia. É d e c se der o tr la s ra r e x a ta uma comé abalho de m e n te o q mente os v distinguir uma coisa ue é ários senti , a d n iz d a Diário do Comércio, li o e ticamos a imp s com que é usada em que ela no a palavra "r ressão diversos co s ca a ci 11 de junho de 2007 u sm n sa textos veri respondem . Todo con o" mento com ficará que hecia conduta e e le ça s s a m co ss quais algu uito difere rim. Bened Croce defi mas podem ntes entre etto nia a poesi si, das ser crimin de ser obje a como "e o p sa re to de lei, n s. Estas é q ss ã xo d e impressõe ue têm ão o saco d "racismo". s". Toda in e gatos de mana num E "homofo cursão da n o d minado omínio no bia", então ge desde o mente huvo e inexp ? Seu senti tido "poéti impulso h lorado é, n d ca o o ". abranmicida até Começam desde a dis esse sendevoções os dizendo imaginam cussão cie religiosas, os. É do co o que senti ntífica de sológica a n mos e fronto de uma class versas, in té a repuls muitas fan ificação no congruen a espontân rícias – tud ta te si s a e e s dia por certo opostas q coisa, do o o isso crim tipo de caue a realid bjeto, um inalizado redige ess a d d ia p e o da chega a se dos nosso r igual. Qu as leis são s olhos, cl desenhar em cria e obviamen mo senso d ara e disti diante te pessoas nada num e responsa n ta se , co m o mínia malha d mo que ap bilidade p lescentes e fios ima risioor seus ato dimension embriagad ginários – s: são adoalidade do os de um como a trimentes dis e delírio de sp tr a a ço ça formes e a que emerg das numa poder; são ntissociais superfície e das linh gosos. Só e , são socio ras e meto as plana. Sup leitores to p n a ta ím rimir as m ta s periias, as ana lmente lud elevado ess etáfologias e as universalm ibriados p es indivíd hipérbole odem ter ente uma uos à cond dando rea s, impor linguagem ição de leg definida, lidade à fa in "c is teiramente la ie n d n ta o tí sia macab res, fi buse" de F ca ", exata, co mo chega os filósofo ra do "Dou ritz Lang: ram a am s da escola tor Maa revoluçã no hospício b ic a ionar o n d a ci lítica, seria os loucos, dade hum para subju tramada ana de inv sufocar a gar a hum demência ca e st paa ta ig n r a própria idade sã e como regra ar e conjetu impor a inventivid . E não pen rar. Seria m esteja eu m a se d d am e e dar à ciênci científica so que ao diz esmo ape lando a u er isso a plenos p b a desculp gem, hipe ma figura o "p d a e rbolizand ré re -científica s sobre as m de lingua o os fatos s" de conh odalidade sobre eles. para cham e ci s m A incapaci M e a nto. s, inversa ar a atençã dade de dis mente, en literal e fig o tinguir en numa tra carcerar a urado, a p tr m e mente hu se a e rd in n tido a da funçã deslindáv linguagem mana gem rebe o denomin el de figu , a redução ld a e ras de lin ti s v d a a a to ção e sedu da fala a um d a a g u an pressões álise, imp jogo de in ção sem sa emotivas or o jogo timidatisfações a são sintom c d o e m imp ra o restar à re substituto cional, faz as psiquiá alidade, er de simb da discuss tricos cara tomei con o ct li d ão sm e e rísticos. Q hecimento cisões prá os nebulo uando ticas que a dos diagn sos a base ciais elabo fetarão m ósticos po d é um crim e rados pelo ilhões de lítico-soe ainda m s psiquiatr le H. Ross pessoas, a is as Joseph g h ra u iter, Jr., qu m v e contra a ana; é escra Gabel e Ly e indo além inteligênci vizar toda da concep rias – à co a uma socie ção schelnfusão in dade – ou te ri or de um v tas megalô á grupo de manos. psicopa-

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Afinal, lutamos

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á quase oitenta anos o movimento revolucionário conseguiu definir o objetivo unificado dos seus esforços, o que desde então lhe permite obter sucesso crescente em ações estratégicas de escala mundial, passando por cima de suas inumeráveis divergências internas e até utilizando-as proveitosamente como instrumentos de camuflagem ou de adaptação à variedade das circunstâncias. Esse objetivo – destruir a civilização do Ocidente – foi delineado de maneira simultânea por três fontes independentes: o filósofo marxista húngaro Georg Lukacs, o líder comunista italiano Antonio Gramsci e os cientistas sociais da Escola de Frankfurt. À medida que essas vozes se afirmavam como as mais influentes sobre a intelectualidade esquerdista, a consciência do objetivo se disseminava por todos os ramos do movimento revolucionário, preparando as grandes guerras culturais de agressão que eclodiriam a partir da década de 60 e que, indiferentes à queda da URSS, prosseguem até hoje com intensidade crescente, alcançando vitórias cada vez mais devastadoras, entre as quais a conquista de praticamente todo o establishment cultural, midiático e universitário norte-americano, a imposição de normas "politicamente corretas" ao vocabulário dos debates

nessa direção e o que quer que esteja por perto será atingido pelo disparo. Símbolos existem precisamente para unificar os contrários: se você quer destruir a civilização ocidental, pode confortavelmente acusá-la de materialismo cientificista ou de teocratismo cristão, de expansionismo imperialista ou de autodissolução decadentista, de libertinismo obsceno ou de moralismo repressor. No mundo dos símbolos, como já notava o lobo da fábula, a água do rio corre nas duas direções. Longe de mim a intenção de sugerir que o movimento revolucionário esteja investindo contra moinhos de vento. Ao contrário, quando se trata de dirigir movimentos de massa e coordenar uma multiplicidade de forças em combate, o símbolo é um guia mais eficiente para a ação do que os mais elaborados conceitos científicos. Estes, por sua própria natureza, só podem apreender frações abstrativas da experiência, não a realidade concreta. O símbolo, justamente por sintetizar aspectos contraditórios, dirige o olhar no rumo certo, identificando o alvo real mesmo quando não se tem dele uma compreensão conceitual clara, o que é precisamente o caso: a intelligentzia revolucionária não é capaz de dizer nada de coerente ou valioso quanto à civilização ocidental (ao contrário,

públicos em toda parte e a destruição das defesas culturais de quase todas as nações europeias, colocandoas de joelhos ante a prepotência do inimigo. Em todos esses casos, o símbolo unificante por trás das forças prodigiosamente variadas utilizadas no ataque é sempre o mesmo: o ódio comum à civilização do Ocidente permite que os mais empedernidos machistas islâmicos marchem, nas ruas de Nova York e Paris, de mãos dadas com militantes "gayzistas", feministas e abortistas que nos seus próprios países eles condenariam sumariamente à morte. O fato de que a civilização odiada não seja um bloco homogêneo, mas um amálgama desnorteantemente confuso de correntes incompatíveis entre si, não perturba em nada os seus detratores nem torna menos certeira a sua pontaria. "Civilização ocidental", tal como eles a entendem, não é um conceito racionalmente definível, é um símbolo: basta mirar

os escritos esquerdistas borbulham de idiotices a esse respeito), mas consegue perfeitamente enxergar onde ela está e quais os pontos vulneráveis onde pode atingi-la com seus ataques. A entidade contra a qual se voltam é opaca e intelectualmente inapreensível, mas é real e presente o bastante para sentir a dureza dos golpes que a atingem. Tão abrangente é a força unificadora do símbolo por trás da multiplicidade dos alvos, que até mesmo as culpas do próprio movimento revolucionário podem ser imputadas à sua vítima, permitindo descarregar sobre ela todo o ódio e o desprezo inconscientes que ele foi acumulando contra si mesmo ao longo de sua história de crimes e horrores. Não há um só esquerdista no mundo que se admita moralmente culpado pelo genocídio soviético, chinês ou cambojano. Quanto mais horror essas realidades lhe inspiram, mais monstruoso lhe parece o capitalismo ocidental.

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contra quem? A imunidade à culpa é um dos traços definidores da mentalidade revolucionária, mas até o século XX esse traço só aparece de maneira localizada, limitado a grupos militantes bem definidos. Foi só a partir dos anos 60 que ela se disseminou entre massas inteiras da população, quando a imagem simbólica da vítima expiatória se tornou universalmente visível: das cavernas da Al-Qaeda até os campi universitários da Califórnia, do alto comando dos organismos internacionais até os bas-fonds dos clubes de sadomasoquismo, odiar o Ocidente é o salvo-conduto que garante a liberdade ilimitada de pecar e delinquir sem culpas. Canalizando contra esse alvo simbólico todas as culpas e ressentimentos da humanidade, o movimento revolucionário superou as limitações de um discurso ideológico que só apelava a parcelas específicas da população. Erigiu-se em administração global do ódio psicótico organizado. Foi um tremendo "salto qualitativo", como diria Mao Dzedong. Acompanhado da substituição da antiga estrutura partidária hierárquica pela nova organização flexível em "redes", ele aumentou a força de agressão psicológica do movimento ao ponto de torná-lo imune à revelação de seus crimes e de seus mais escandalosos fracassos no campo econômico-social.

Não deixa de ser interessante observar que esse feito foi obra póstuma de pensadores que, em vida, pareciam deslocados das correntes dominantes do comunismo internacional. Em Moscou e Pequim, Lukacs, Gramsci e os frankfurtianos permaneceram longamente ignorados. Foram seus seguidores em Nova York e Paris que renovaram de alto a baixo o movimento revolucionário a partir dos anos 60, integrando na nova perspectiva até mesmo certas correntes de ressentimento que a velha ortodoxia comunista teria desprezado como anárquicas e pequeno-burguesas, como por exemplo o gayzismo ou o movimento pela liberação das drogas. Nessa perspectiva, a queda da URSS, longe de poder ser considerada uma derrota, foi mesmo um sacrifício necessário para o revigoramento geral do organismo revolucionário. A revolução na revolução, como a chamou Régis Débray, realizou-se por meios que o

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Mandel Ngan/AFP

próprio Débray, na ocasião, não podia imaginar. Mas o que é mais importante observar, nessa ordem de estudos, é que, se a unificação do alvo simbólico foi o princípio do upgrade revolucionário, nada de semelhante se observa no campo oposto. Por toda parte, a reação conservadora (no Brasil às vezes chamada de "liberal") continua dispersa e fragmentária, voltando-se contra alvos parciais e contraditórios por trás dos quais não se vislumbra o menor sinal de uma identidade, muito menos a imagem radiante de um símbolo unificador. Ao contrário, parece mesmo haver da parte dos conservadores uma recusa ou temor de perceber a face unitária do inimigo sob suas manifestações variadas. Na recente "guerra contra o terrorismo", por exemplo, as autoridades norte-americanas insistem em apontar o radicalismo islâmico como um fenômeno singular e sui generis, não só amputado de suas mais patentes raízes históricas no movimento comunista que o preparou e gerou ponto por ponto, mas separado até mesmo das suas conexões atuais com a esquerda mundial e com os governos da China e da Rússia sem cujo apoio ele não seria nada. Quando falam da América Latina, os políticos de Washington se referem a Hugo Chávez e Evo Morales como se fossem casos excepcionais e isolados, e não peças integrantes da grande máquina revolucionária do Foro de São Paulo. Chegam ao cúmulo de imaginar que Lula – o próprio idealizador e fundador do Foro – seja a melhor "alternativa democrática" contra os planos de dominação continental do ditador venezuelano. E, fazendo-se propositadamente cegos ante a perfeita continuidade entre comunismo e chavismo, mil vezes reafirmada pelas próprias assembleias do Foro de São Paulo, apelam ao

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rótulo de "populismo" para evitar menções ao bom e velho marxismo-leninismo, ao qual assim garantem uma confortável reencarnação sob o manto do anonimato. Alguns fazem isso por ilusão triunfalista, porque gostam de imaginar que venceram a Guerra Fria e não podem admitir que travaram no máximo uma batalha, que a guerra continua em escala maior Outros, como o e mais complexa. Outros, como o próprio George W. próprio George Bush, caíram nessa porque foram treinados na escoW. Bush, la "realista" de Hans Morgenthau e, raciocinando acreditaram ser apenas em termos de poderes estatais, sem avaliar possível unificar corretamente as linhas de força ideológicas que se superpõem às fronteiras nacionais, acreditaram ser a esquerda possível unificar a esquerda e a direita americanas e a direita num combate patriótico contra um inimigo externo. num combate Tornaram-se assim indefesos ante o inimigo interno contra um que só se fingiu de seu aliado nas primeiras semanas inimigo externo. depois do 11 de setembro para poder mais facilmente esfaqueá-los pelas costas nos anos que se seguiram (v. Kenneth Timmerman, Shadow Warriors. The Untold Story of Traitors, Saboteurs, and The Party of Surrender, New York, Crown Forum, 2007, assim como meu artigo sobre as eleições americanas no Digesto Econômico deste mês). Qualquer que seja o caso, o resultado é enfraquecimento e derrota. Nem menciono, é claro, os antagonismos explícitos que corroem a direita por dentro, fazendo de algumas de suas facções instrumentos inconscientemente dóceis de uma estratégia adversária que transcende seu horizonte de visão. A cruzada de Pat Buchanan contra o livre comércio ou as investidas antirreligiosas do neoateísmo liberal são exemplos claríssimos de contradições internas que, na ausência de uma imagem unificada do inimigo a combater, não podem ser absorvidas numa estratégia geral e acabam servindo somente para debilitar o front conservador. Ao longo de muitos artigos e conferências, tenho insistido na necessidade urgente de dar à reação conservadora um alvo unificado, uma imagem clara do inimigo a combater. Só isso permitirá absorver numa estratégia abrangente e funcional as múltiplas forças díspares que se agitam no seio da "direita". Acredito que a noção do "movimento revolucionário", no sentido em que a tenho elaborado em persistentes investigações e ilustrado inclusive em artigos publicados nesse jornal, fornece esse alvo unificado e tem ainda a vantagem de não ser somente – como a "civilização ocidental" dos revolucionários – o símbolo nebuloso de uma realidade opaca, mas uma estrutura perfeitamente identificável em termos intelectualmente rigorosos. Só temo que meus esforços nesse sentido venham a ser tão bem aproveitados quanto o foDiário do Comércio, ram, no Brasil, as advertências que publiquei 11 de fevereiro de 2008 quanto ao Foro de São Paulo.


URSS, a mãe do nazismo

S

Se você acha que comunistas, socialistas e marxistas acadêmicos são pessoas normais e respeitáveis, com as quais é possível um "diálogo democrático", por favor vá ao site http://www.sovietstory.com/about-the-film, ou diretamente a http://www.youtube.com/wat-

ch?v=xqGkj-6iF2I&feature=PlayList&p= 26731056B15AF3E1&index=0&playnext=1 e veja o filme The Soviet Story, que o cientista político Edvins Snore escreveu e dirigiu baseado em documentos recém-desencavados dos arquivos soviéticos. Eis algumas coisinhas que você pode aprender com ele:

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1) Toda a tecnologia genocida dos campos de concentração foi inventada pelos soviéticos. Os nazistas enviaram comissões a Moscou para estudá-la e copiar o modelo. 2) O governo da URSS assinou com os nazistas um tratado para o extermínio dos judeus e cumpriu sua parte no acordo, entre outras coisas enviando de volta à Gestapo os judeus que, iludidos pelas promessas do paraíso comunista, buscavam asilo no território soviético. 3) A ajuda soviética à máquina de guerra nazista foi muito maior do que se imaginava até agora. O nazismo jamais teria crescido às proporções de uma ameaça internacional sem as armas, a assistência técnica, os alimentos e o dinheiro que a URSS enviou a Hitler desde muito antes do Pacto RibbentropMolotov de 1939. 4) Altos funcionários do governo soviético defendiam – e os remanescentes defendem ainda – a tese de que fortalecer o nazismo foi uma medida justa e necessária adotada por Stálin para combater o "fascismo judeu" (sic). 5) Nada disso foi um desvio acidental de ideias inocentes, mas a aplicação exata e rigorosa das doutrinas de Marx e Lenin que advogavam o genocídio como prática indispensável à vitória do socialismo. Todo militante ou simpatizante comunista é cúmplice moral de genocídio, tem as mãos tão sujas quanto as de qualquer nazista, deve ser denunciado em público e excluído da convivência com pessoas decentes. A alegação de ignorância, com que ainda podem tentar se eximir de culpas, é tão aceitável da parte deles quanto o foi da parte dos réus de Nuremberg. É uma vergonha para a humanidade inteira que crimes desse porte não tenham jamais sido julgados, que seus perpetradores continuem posando no cenário internacional como honrados defensores dos direitos humanos, que partidos comunistas continuem atuando livremente, que as ideias marxistas continuem sendo ensinadas como tesouros do pensamento mundial e não como as aberrações psicóticas que indiscutivelmente são. É uma vergonha que intelectuais, empresários e políticos liberais, conservadores, protestantes, católicos e judeus vivam aos afagos com essa gente, às vezes até rebaixando-se ao ponto de fazer contribuições em dinheiro para suas organizações. Seguem abaixo algumas considerações sobre esse fenômeno deprimente. A convenção vigente nas nações democráticas trata os porta-vozes das várias posições políticas como se fossem pes-

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A mentalidade revolucionária não é um conjunto de crenças, é um sistema de incapacidades adquiridas, que começam com um escotoma intelectual e culminam numa insensibilidade moral criminosa.

soas igualmente dignas e capacitadas, separadas tão-somente pelo conteúdo das suas respectivas convicções e propostas. Confiantes nessa norma de polidez e aceitando-a como tradução da realidade, os conservadores, liberais clássicos, social-democratas e similares caem no erro medonho de tentar um confronto com os revolucionários no campo do diálogo racional. Todos os seus esforços persuasivos dirigem-se, então, no sentido de tentar modificar o "conteúdo" das crenças do interlocutor, mostrando-lhe, por exemplo, que o capitalismo é mais eficiente do que o socialismo, que a economia de mercado é indispensável à manutenção das liberdades individuais, ou mesmo entrando com eles em discussões morais e teológicas mais complexas. Tudo isso não apenas é uma formidável perda de tempo, mas é mesmo um empreendimento perigoso, que coloca o defensor da democracia numa posição extremamente fragilizada e vulnerável. A discussão democrática racional não somente é inviável com indivíduos afetados de mentalidade revolucionária, mas expõe o democrata a uma luta desigual, desonesta, impossível de vencer. O debate com a mentalidade revolucionária é o equivalente retórico da guerra assimétrica. Trinta anos de estudos sobre a mentalidade revolucionária me convenceram de que ela não é a adesão a este ou àquele corpo de convicções e propostas concretas, mas a aquisição de certos cacoetes lógico-formais incapacitantes que acabam por tornar impossível, para o indivíduo deles afetado, a percepção de certos setores básicos da experiência humana. A mentalidade revolucionária não é um conjunto de crenças, é um sistema de incapacidades adquiridas, que começam com um escotoma intelectual e culminam numa insensibilidade moral criminosa. É uma doença mental no sentido mais estrito e clínico do termo, correspondente àquilo que o psiquiatra Paul Sérieux descrevia como delírio de interpretação. Numa discussão com o homem normal, o revolucionário está protegido pela sua própria incapacidade de compreendê-lo. Os antigos retóricos consideravam que o gênero mais difícil de discurso, chamado por isso mesmo genus admirabile, é aquele que se dirige ao interlocutor incapaz. Os melhores argumentos só podem funcionar ante a plateia que os compreenda; eles não têm o dom mágico de infundir capacidade no auditório, nem de curá-lo de um handicap adquirido.


Os sintomas mais graves e constantes da mentalidade revolucionária são, como já expliquei, a inversão do sentido do tempo (o futuro hipotético tomado como garantia da realidade presente), a inversão de sujeito e objeto (camuflar o agente, atribuindo a ação a quem a padece) e a inversão da responsabilidade moral (vivenciar os crimes e crueldades do movimento revolucionário como expressões máximas da virtude e da santidade). Esses traços permanecem constantes na mentalidade revolucionária ao longo de todas as mutações do conteúdo político do seu discurso, e é claro que qualquer alma humana na qual eles tenham se instalado como condutas cognitivas permanentes está gravemente enferma. Tratá-la como se estivesse normal, admitindo a legitimidade da sua atitude e rejeitando tão somente este ou aquele conteúdo das suas ideias, é conformar-se em representar um papel numa farsa psicótica da qual os dados da realidade estão excluídos a priori, já não constituindo uma autoridade a que se possa apelar no curso do debate. Revolucionários são doentes mentais. Os exemplos de sua incapacidade para lidar com a realidade como pessoas maduras e normais são tantos e tão gigantescos que seu mostruário não tem mais fim. Cito um dentre milhares. O sentimento de estar constantemente exposto à violência e à perseguição por parte da "direita" é um dos elementos mais fortes que compõem a autoimagem e o senso de unidade da militância esquerdista. No entanto, se somarmos todos os ataques sofridos pelos esquerdistas desde a "direita", eles são em número irrisório comparados aos que os esquerdistas sofreram dos regimes e governos que eles próprios criaram. Ninguém no mundo perseguiu, prendeu, torturou e matou tantos comunistas quanto Lenin, Stálin, Mao Tsé Tung, Pol Pot e Fidel Castro. A militância esquerdista sente-se permanentemente cercada de perigos, e nunca, nunca percebe que eles vêm dela própria e não de seus supostos "inimigos de classe". Esse traço é tão evidentemente paranóico que só ele, isolado, já bastaria para mostrar a inviabilidade do debate racional com essas pessoas. O que separa o democrata do revolucionário não são crenças políticas. É um abismo intransponível, como aquele que isola num mundo à parte o psicótico clinicamente diagnosticado. O que pode nos manter na ilusão de que essas pessoas são normais é aquilo que assinalava o Dr. Paul Serieux: ao contrário dos demais quadros psicóticos, o delírio de interpretação não inclui distúrbios sensoriais. O revolucionário

não vê coisas. Ao contrário, sua imaginação é empobrecida e amputada da realidade por um conjunto de esquemas ideais defensivos. A mentalidade revolucionária é uma incapacidade adquirida, é uma privação de autoconsciência e de percepção. Por isso mesmo, é inútil discutir o "conteúdo" das ideias revolucionárias. Elas estão erradas na própria base perceptiva que as origina. Discutir com esse tipo de doente é reforçar a ilusão psicótica de que ele é normal. Uma doença mental não pode ser curada por um "ataque lógico" aos delírios que a manifestam. Se o debate político nas democracias sempre acaba mais cedo ou mais tarde favorecendo as correntes revolucionárias é porque estas estão imunizadas por uma incapacidade estrutural de perceber a realidade e entram no ringue com a força inexorável de uma paixão cega. E não se pode confundir nem mesmo este fenômeno com o do simples fanatismo. Fanatismo é apenas apego exagerado a ideias que em si mesmas podem ser bastante razoáveis. Em geral, mesmo o mais louco dos revolucionários não é um fanático. É um sujeito que expressa com total serenidade os sintomas da sua deformidade, dando a impressão de normalidade e equilíbrio justamente quando está mais possuído pelo delírio psicótico. Na peça de Pirandello, Henrique IV, um milionário louco se convence de que é o rei Henrique IV e força todos os seus empregados a vestir-se como membros da corte. No fim eles já não têm mais certeza de que são eles mesmos ou membros da corte de Henrique IV. É este o perigo a que os democratas se expõem quando aceitam discutir respeitosamente as ideias do revolucionário, em vez de denunciar a farsa estrutural da própria situação de debate. A loucura espalha-se como um vírus de computador. A maioria dos democratas que conheço é inteiramente indefesa em face da prepotência psicológica do discurso revolucionário. Daí a hesitação, a pusilanimidade, a debilidade crônica de suas respostas ao desafio revolucionário. Uma doença mental não pode ser "respeitada", aliás nem "desrespeitada". O respeito ou o desrespeito supõem um fundo de convivência normal, que justamente o delírio revolucionário torna impossível. P. S. Sheila Figlarz, editora do jornal Visão Judaica, avisa que finalmente a devotada estudiosa Sonia Bloomfield terminou seu trabalho de traduzir para o português a página do Memorial do Holocausto. A versão já está no ar em http://www.ushmm.org/museum/ exhibit/focus/portuguese/.

A maioria dos democratas que conheço é inteiramente indefesa em face da prepotência psicológica do discurso revolucionário. Daí a hesitação, a pusilanimidade, a debilidade crônica de suas respostas ao desafio revolucionário.

Diário do Comércio, 12 de dezembro de 2008

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COMUNISMO E MARXISMO

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Orlando Kissner/AFP

Excesso de delicadeza inda há quem seja acha que a conduta do PT otário o bastante prova uma mudança da para, observando mentalidade comunista, é a fidelidade conporque imagina que os cojugal que no fim das contas munistas de antigamente reina entre o governo petista eram diferentes, eram puros e os banqueiros internacioidealistas revolucionários nais, concluir que os comuque jamais se rebaixariam a nistas mudaram, se aburjogar o jogo do grande capiguesaram, só pensam em dital financeiro. Então me diga: nheiro e não querem mais saQuem eram os contatos de ber de revoluções. Trotski nos EUA quando de Não contesto o direito à sua primeira viagem à Améignorância, mesmo radical e rica? Quem financiou a conscompleta. Mas por que raios trução de toda a indústria pecada um que me aparece sada soviética, prolongando com essa ideia cretina tem de por décadas a sobrevida de expressá-la com ar de sabeum regime impossível que já doria paternal, como se estinascera moribundo? Quem vesse desvelando a realidaalimenta de dinheiro toda a de do mundo ante a minha esquerda americana e uma inexperiência juvenil? infinidadade de movimenAos sessenta anos, boa tos antiamericanos no munparte dos quais dedicados do inteiro? Quem salvou da ao estudo das ideologias redebacle o Partido Comunisvolucionárias, não tenho ta chinês, fomentando do exmais a obrigação de ouvir terior a recuperação de uma polidamente essa patacoaeconomia que até então só da arrogante. Respondê-la crescia em número de morcom palavrões já é delicadetes por desnutrição? Luís Inácio Lula da Silva: homenageado za excessiva da minha parSe os comunistas deixassimultaneamente em Davos e no Foro de São Paulo. te. O certo mesmo seriam sem de ser comunistas cada pontapés no traseiro. vez que vão para um motel Quem quer que tenha estrocar afagos com banqueitudado a história do moviros, Lênin teria entrado para mento revolucionário sabe que comunistas e banqueiros vivem a História como comandante do Exército da Salvação. em simbiose, comprovadamente, desde há pelo menos um séO caso de amor entre esses dois tipos de criaturas aparenteculo. Como no Brasil ninguém estuda nada, cada um se crê no mente incompatíveis tornou-se ainda mais intenso desde que, direito de anunciar como novidades explosivas as obviedades na década de 20, os teóricos marxistas mais avisados – Georg Lucentenárias que acabam de lhe chegar aos ouvidos. kacs, os frankfurtianos e Antonio Gramsci – saíram gritando O problema é que, quando você não sabe a data das notícias que o inimigo primordial a ser destruído não era a economia caque alardeia, não pode compreender o sentido delas. Se você pitalista, mas "a civilização judaico-cristã". O programa traçado

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por eles, que na época parecia distante das preocupações imega que a perseguição antirreligiosa é a realização de um velho pladiatas do militante comunista vulgar (e até agora não chegou ao no comunista será tido por louco. Perdão: isso não acontecerá conhecimento dos idiotas acima referidos), está hoje sendo aplidentro de alguns anos. Já está acontecendo agora. cado em escala planetária, e sua implementação acelerada refleDo ponto de vista econômico, a unidade do processo revolute a colaboração estreita entre o grande capital financeiro e a rede cionário em curso pode ser resumida da seguinte maneira. Pelo global de organizações comunistas – os dois braços da revolumenos desde Stálin nenhum economista marxista acredita em esção mundial. Abortismo, desarmamento civil, sex-lib , feministatização total da economia. Todos sabem que um vasto resíduo mo, gayzismo, criminalização da moral religiosa, controle estade economia de mercado é impossível de eliminar. O máximo que tal da vida privada e tópicos similares são hoje infinitamente se pode fazer, para perseverar na linha de controle estatal concemais importantes para a estratégia revolucionária do que as dibida por Marx, é concentrar ao máximo o capital e ao mesmo temvergências estereotipadas entre políticas econômicas "populispo atrelar seus interesses aos de uma elite governante que por sua tas" e "elitistas" (ou "progressistas" e "neoliberais"). Onde essas vez concentre o máximo de poder político. Ora, quem pode estar divergências monopolizam o espaço das discussões públicas, mais interessado em concentração do capital do que os concencomo acontece no Brasil, é precisamente porque tradores de capital por antonomásia, isto é, os servem para camuflar o essencial, para expulsar banqueiros internacionais? E quem pode desejar da vida pública o conservadorismo genuíno mais concentração de poder político do que os fundado em valores morais e religiosos e para concentradores compulsivos de poder político, dividir todo o espaço político e cultural entre a isto é, os partidos comunistas? A via da colaboesquerda e uma "direita" postiça, criada esperação entre comunistas e monopolistas foi porDentro de poucos anos, cialmente para isso, uma articulada à outra de tanto aberta pelo próprio curso natural das coio sujeito ser preso por tal modo que, seja pela via "populista" ou "elisas, e por esse canal vem fluindo a história do ler em voz alta certos tista", indiferentemente, a mutação revoluciomundo desde há muitas décadas, ante os olhos nária do mundo continue avançando. cegos da multidão – incluídos nela quase todos versículos da Bíblia A pessoa mesma do sr. Luís Inácio Lula da Silos "formadores de opinião", consultores empreserá considerado va, homenageada simultaneamente em Davos sariais, analistas estratégicos e demais pessoas a coisa mais natural por sua conversão à economia de mercado e no iluminadas cujos pareceres custam em geral uns do mundo. Foro de São Paulo por sua fidelidade inalterável dez mil dólares por hora. ao comunismo, é o símbolo vivo desse acordo esA fusão tornou-se ainda mais acelerada dessencial, mas os tagarelas que falam dela o dia inde que o movimento comunista, graças ao narteiro, para louvá-la ou para maldizê-la, parece que não enxergam cotráfico, à exploração genial dos fundos de pensão, ao apoio de maneira alguma a identidade do personagem. Também não dos países árabes, à rede de ONGs ativistas que sugam verbas enxergam, por isso mesmo, a natureza traiçoeira e cúmplice de de todos os governos do mundo e às quantias mastodônticas uma "oposição" que só combate o petismo no campo das discusde dinheiro injetadas discretamente na economia ocidental pesões econômicas e das cobranças moralistas, abstendo-se de toda la KGB desde os tempos de Gorbachov, se tornou ele próprio crítica ideológica e de toda menção à estratégia comunista maior tão rico quanto a elite bancária, negociando com ela de igual por trás de tudo; oposição que, uma vez no poder, faz avançar a para igual e tendo com ela uma vasta e nebulosa área de intemutação social e cultural revolucionária em velocidade ainda resses comuns onde se tornam praticamente indiscerníveis. maior do que poderiam fazê-lo os próprios petistas. As vítimas do processo são a Não por coincidência, mas por um cálculo psicológico muito economia liberal genuína, os preciso, cada nova regra "politicamente correta" que se incorpora valores civilizacionais milenaaos hábitos sociais perde imediatamente sua aparência comunisres, a liberdade individual e a ta originária, de modo que os milhões de trouxas submetidos à consciência religiosa, estrangusua jurisdição se sentem cada vez mais distantes do perigo comuladas sob controles estatais cada nista quanto mais se adaptam ao tipo de cultura revolucionária vez mais abrangentes e opressiconcebido por Lukacs e Gramsci. É precisamente o que este úlvos, sempre sob as desculpas timo chamava de "autoridade invisível e onipresente" do Partido edificantes da modernização, Príncipe. Nunca a palavra "subversão" descreveu tão adequadado interesse público, da protemente uma estratégia. É a inversão desde baixo, ou, como a chação ambiental, da eficiência admava Walther Rathenau, a "invasão vertical dos bárbaros". Enministrativa e – é claro, porca quanto o poder do grande capital permanece intacto, ou até se formiséria – dos direitos civis. Mas talece, a "revolução cultural" vai invertendo um a um todos os cria maior vítima de todas é a intetérios da razão, da moral, do direito, criando em torno de nós uma ligência humana, que de tanto infinidade de controles sociais opressivos e absurdos que pareser desviada, ludibriada, anescem inventados pessoalmente pela Rainha de Copas. E tudo reatesiada, vai perdendo vigor a lizado de maneira indolor, insensível. Dentro de poucos anos, o cada dia e se adaptando a um esDiário do Comércio, sujeito ser preso por ler em voz alta certos versículos da Bíblia será tado crepuscular de obnubila17 de setembro de 2007 considerado a coisa mais natural do mundo, e quem quer que dição e semiconsciência.

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O orvalho vem caindo

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Aiatolá Ali Khamenei, supremo líder iraniano: encontro com o presidente Vladimir Putin.

egundo o Asia Times do dia 26, "o ponto alto da visita do presidente russo Vladimir Putin a Teerã na semana passada foi o encontro com o supremo líder iraniano, aiatolá Ali Khamenei. Uma alta fonte diplomática em Teerã informou que no essencial, Putin e Khamenei concordaram num plano destinado a esvaziar o incan-

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sável impulso da administração George Bush para um ataque preventivo, talvez mesmo tático-nuclear, contra o Irã. Um ataque ao Irã será visto por Moscou como um ataque à Rússia ". Provavelmente o jornal tem razão. A ligação da Rússia com os radicais islâmicos é muito mais antiga e sólida do que a amizade fingida com os americanos. No mínimo, as principais lideranças revolucionárias muçulmanas não nasceram de nenhum espontaneísmo "fundamentalista", mas de um longo esforço de preparação conduzido pela KGB através dos serviços de inteligência dos países satélites da União Soviética. A KGB, hoje FSB, que desde o tempo de Lênin já mudou de nome uma dúzia de vezes, mas jamais parou de crescer, é a maior, mais rica e mais poderosa organização de qualquer tipo que já existiu no mundo, e está capacitada para criar e implementar planos de longo prazo que ultrapassam o horizonte de visão da maioria dos analistas ocidentais, pelo menos os que escrevem na grande mídia. Estes tendem a explicar tudo em função de causas histórico-sociais anônimas, ignorando muitas vezes a ação de grupos e indivíduos de carne e osso por trás de tudo. A profusão desses diagnósticos pseudo-eruditos no que diz respeito ao terrorismo islâmico tem obscurecido por completo o único fator agente que tem importância efetiva: os planos de longo prazo da KGB para atacar os EUA com mão islâmica e ao mesmo tempo destruir a odiada "civilização ocidental" através de uma guerra cultural empreendida habilissimamente, na qual o próprio horror causado pelas iniciativas bárbaras dos terroristas islâmicos treinados pela KGB é usado como pretexto para um ataque brutal às tradições religiosas em geral, sobretudo aquelas mesmas que são as maiores vítimas da violência "islâmica", isto é, o cristianismo e o judaísmo. Entre os maiores ex-oficiais de inteligência soviéticos que


AFP

desertaram para o Ocidente, é unânime a afirmação de que todo o radicalismo islâmico nada tem de islâmico e é, de alto a baixo, uma criação da KGB. Um desses oficiais, Ion Mihai Pacepa ( Red Horizons. Chronicles of a Communist Spy Chief , Washington, Regnery, 1987), relata ter sido um dos orientadores de Yasser Arafat, formado pela KGB para servir de testa-de-ferro num ataque indireto a Israel e EUA. O general Jan Sejna, membro do Comitê Central do Partido Comunista da Tchecoslováquia, testemunhou a articulação de terrorismo e narcotráfico que, preparada pelos soviéticos desde os anos 50, veio a criar todo o cenário de caos e terror em que o mundo vive hoje (v. seu depoimento em Joseph D. Douglas, Red Cocaine. The Drugging of America and the West , London, Harle, 2nd. ed., 1999). Anatoliy Golitsyn, ex-chefe da contra-espionagem antiamericana da KGB, antecipou, com base em informações de primeira mão, todos os passos estratégicos da Rússia nas últimas duas décadas, acertando, segundo afe-

Vladimir Putin, ao visitar a Inglaterra em 2000, advertiu que o Ocidente dificilmente escaparia de uma guerra com o Islam.

rições recentes, em 96 por cento de suas previsões, que incluíam o desmantelamento aparente do Estado soviético e ao mesmo tempo a expansão ilimitada das ações da KGB no mundo através do terrorismo islâmico, do narcotráfico, da ocupação de espaços nos organismos internacionais e da penetração maciça na mídia europeia de modo a torná-la um poderoso instrumento para campanhas anti-americanas (v. New Lies for Old , New York, Dodd, Mead & Co, 1980). Suas análises são convergentes com algumas de Ladislav Bittman, ex-chefe do Departamento de Desinformação do serviço de inteligência tcheco (com missões inclusive no Brasil, onde foi um dos criadores da lenda da participação americana no planejamento do golpe de 1964: v. The KGB and Soviet Disinformation , Washington, Pergamon-Brassey's, 1985), e também são coerentes com os fatos colhidos por Vassili Mitrokhin, alto funcionário que durante dez anos copiou em segredo arquivos da KGB e depois os transportou ao Ocidente, onde foram divulgados com a ajuda do historiador britânico Christopher Andrew em dois livros monumentais ( The Sword and the Shield. The Mitrokhin Archive and the Secret History of the KGB , New York, Basic Books, 1999, e sobretudo The World Was Going Our Way. The KGB and the Battle for the Third World , id., ibid., 2005). No mesmo sentido vêm os depoimentos e análises do coronel Stanislav Lunev, ex-membro do Diretório de Inteligência do Estado-Maior russo: "Não tenho dúvidas de que a Rússia esteve por trás de muitos desses grupos terroristas, financiando-os e equipando-os" (v. Through the Eyes of the Enemy: The Autobiography of Stanislav Lunev , Washington, Regnery, 1998). Que a Rússia, em tudo isso, opera em estreita colaboração com a China, é algo de que não se pode duvidar desde as análises do prof. Alexandr Nemets, ex-membro da Academia de Ciências da URSS (v. "Chinese-Russian Alliance") e sobretudo desde o projeto russo de uma nova estrutura de poder militar mundial a ter como centro de comando a Organização de Cooperação de Shangai, que reúne Rússia, China, Cazaquistão, Quirziguistão, Tajiquistão e Uzbequistão (v."Sugestão aos bempensantes"). Outro refugiado russo, o filósofo Lev Navrozov, decerto uma das mentes mais brilhantes do universo, vem advertindo repetidamente quanto à acumulação chinesa de armas nanotecnológicas, instrumentos por excelência da guerra pós-nuclear, capazes de destruir em poucas horas as principais cidades americanas sem qualquer estado de guerra ex-

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Caren Firouz/Reuters

plícito (v. The Education of Lev Navrozov , New York, Harper's, 1975, assim como a infinidade de artigos publicados em http://www.newsmax.com/Navrozov e em www.levnavrozov.com). Mas talvez o documento mais eloquente de todos seja o livro em que dois oficiais chineses, com antecedência de dois anos, traçam planos meticulosos para a destruição do World Trade Center por meio do choque de dois aviões e ainda sugerem, como executor preferencial do plano, o nome de Osama Bin Laden (v. Qiao Liang and Wang Xiangsui, Unrestricted Warfare , Beijing, PLA Literature and Arts Publishing House, 1999). É absolutamente impossível que os tagarelas pomposos da mídia ocidental, com suas especulações sobre "fanatismo religioso", "populismo" e outras desconversas, entendam melhor o fenômeno do terrorismo internacional do que essas testemunhas diretas que o viram nascer na própria fonte. Infelizmente, no Brasil, como já tenho assinalado repetidas vezes, a mídia popular tornou-se a fornecedora predominante ou única de informações para as classes cultas, ditas "dominantes", que outrora tinham pelo menos a sabedoria de rir da opinião dos jornais (com exceção talvez dos consistentes editoriais do velho Estadão, que tinha a seu serviço estudiosos do porte de um Nicolas Boer) e buscar alimento em fontes mais sérias. Graças a esse fenômeno deprimente, a simples sugestão de que os bons e velhos comunistas soviéticos e chineses estão por trás do terrorismo islâmico soará naturalmente como pura fantasia direitista, talvez até "macartista". Na mente nacional, mesmo "de direita", chavões esquerdistas idiotas, incorporados à linguagem usual da mídia, são mais convincentes do que qualquer quantidade de conhecimentos e provas. Comparando a total ignorância aí vigente com a pletora de material bibliográfico existente nos EUA sobre o assunto deste artigo, torna-se claro que o Brasil, de uma vez por todas, desistiu de entender o mundo real e consentiu em deixar-se guiar por um grupo de revolucionários cegos e loucos, nos quais confia como se fossem enviados do Senhor ou no mínimo idealistas inofensivos. O fato é que Putin, ao visitar a Inglaterra em 2000, advertiu que o Ocidente dificilmente escaparia de uma guerra com o Islam. Só não informou de que lado a Rússia estaria nesta guerra. Todo mundo, então, entendeu suas palavras como se viessem da boca de um aliado dos EUA. Mas o sentido invertido da declaração torna-se retroativamente patente quando lembramos que, na mesma entrevista, o ditador

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A ligação da Rússia com os radicais islâmicos é muito mais antiga e sólida do que a amizade fingida com os americanos. Na foto, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad.

Diário do Comércio, 05 de novembro 2007

então em germe associou a tragédia do 11 de setembro aos atentados chechenos em Moscou, como se dissesse: "O terrorismo ameaça a todos nós." Hoje sabemos, acima de qualquer possibilidade de dúvida, que os atentados em Moscou foram uma operação da própria KGB, destinada a aumentar formidavelmente o poder do governo central russo, que enquanto isso fornecia todo tipo de armas aos terroristas islâmicos contra os quais ele mesmo advertia. Com uma mesma frase, Putin diz uma coisa para a plateia, outra para os iniciados. É típico da linguagem comunista. Para quem estuda o assunto, não há mais como duvidar de que o terrorismo internacional, com seu irmão siamês, o narcotráfico, não é senão a realização tardia da opção feita em 1967 pela KGB, quando um dos seus comandantes, o general Aleksandr Sakharovski, definiu o novo rumo a ser seguido pelo comunismo internacional: "No mundo de hoje, quando as armas nucleares tornaram obsoleta a força militar, a nossa principal arma deve ser o terrorismo." Se há indícios eloquentes de que os EUA já estão preparando o bombardeio do Irã (v. "Bush Budget Plans for Iran Attack") , há provas ainda mais abundantes e convincentes de que algo de muito maior e mais letal vem sendo preparado contra os EUA pela Rússia e pela China. Se os americanos continuam tratando essas duas ditaduras como se fossem suas aliadas confiáveis, isso só se explica pela tirada inesquecível do falecido Nikita Kruschev: "Nós cuspimos na cara deles, e eles acham que é orvalho caindo."


SXC

A T S I L NA A D A R G E N A I R Ó HIST

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a mídia nacional inteira, assim como no meio universitário e, de modo geral, entre as camadas ditas cultas neste País, reina a certeza inabalável de que o senador americano Joseph McCarthy foi uma das piores criaturas já nascidas neste planeta, um mentiroso compulsivo, um caluniador desavergonhado e um perseguidor de inocentes. Crença idêntica vigora nos EUA, mas só entre pessoas que aprenderam História com filmes de Hollywood. Entre as demais sempre restou pelo menos a vaga suspeita de que as coisas não eram bem assim, de que havia realmente uma perigosa infiltração de agentes soviéticos no governo americano, de que talvez muitos deles fossem mesmo aqueles que constavam das execradas listas de "security risks" alardeadas pelo senador. Durante cinquenta anos a aposta numa dessas duas hipóteses foi uma questão de

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preferência política. Agora não é mais. A publicação dos códigos Venona finalmente decifrados pelo FBI (comunicações secretas entre o Kremlin e a embaixada soviética em Washington) e a abertura temporária dos arquivos do Comitê Central do PCUS eliminaram definitivamente a dúvida. Os primeiros historiadores que tiveram acesso a esse material ficaram atônitos. Alguns deles só deram o braço a torcer após longa hesitação e com indisfarçada má vontade. Hoje sabemos quem mentiu e quem disse a verdade. E quem mentiu não foi Joseph McCarthy. Foi o establishment político, midiático e universitário praticamente inteiro, empenhado em proteger seus comunistas de estimação. Logo após a publicação de "Venona. Decoding Soviet Espionage in America" por John Earl Haynes e Harvey Klehr em 1999 (Yale University Press), um primeiro esboço das conclusões incontornáveis (que até Haynes e Klehr hesitavam em tirar) apareceu na biografia do senador por Arthur Herman ("Joseph McCarthy. Examining the Life and Legacy of America's Most Hated Senator", New York, Free Press, 2000). A reação dos bem pensantes foi se apegar aos subterfúgios mais frágeis e rebuscados para poder continuar negando o óbvio. Um sumário dessas reações quase psicóticas foi apresentado por Haynes e Klehr em "In Denial. Historians, Communism and Espionage" (San Francisco, Encounter Books, 2003). Agora, com a estreia do livro ansiosamente aguardado de M. Stanton Evans, "Blacklisted by History. The Untold Story of Senator Joseph McCarthy and His Fight Against America's Enemies" ( New York , Crown-Random, 2007), a fase substantiva do debate pode se considerar encerrada. Doravante, qualquer insistência na lenda macabra que fazia de McCarthy "um troglodita no esgoto" deve ser condenada como sintoma de desonestidade visceral ou estupidez obstinada. Os fatos revelados por Evans, com esmagadora abundância de provas, são os seguintes: 1) Os documentos principais que atestavam a infiltração comunista no governo americano simplesmente desapareceram dos arquivos oficiais. São milhares de páginas arrancadas, numa operação criminosa destinada a forjar as aparências de credibilidade que serviram de base à demonização do senador Joe McCarthy. Por ironia, os dados faltantes acabaram sendo supridos, em grande parte, pela documentação soviética.

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2) Não só havia agentes soviéticos infiltrados nos altos postos do governo de Washington desde os anos 30, mas eles eram em número muito maior do que o próprio McCarthy suspeitava. A influência que exerceram foi tão vasta e profunda que chegou a determinar os rumos da política exterior americana, mediante bem urdidas operações de desinformação, em episódios tão fundamentais como a Revolução Chinesa e a tomada do poder pelos comunistas na Iugoslávia. Nos dois casos, uma enxurrada multilateral de informações falsas induziu o governo americano a trair seus aliados e a ajudar seus inimigos, semeando as tempestades que viriam a desabar sobre ele próprio no período da Guerra Fria. 3) Entre os suspeitos apontados por McCarthy, invariavelmente apresentados pela mídia e consagrados pela ficção histórica como vítimas de perseguição injusta, não apenas não havia inocentes, mas nenhum deles era sequer um puro militante ideológico: não se tratava de meros "comunistas", mas de agentes pagos da KGB e do serviço secreto militar soviético, o GRU. Bem sei que a revelação desses fatos não mudará em nada a atitude ou o vocabulário das Elianes Catanhedes, Emires Sáderes, Mauros Santayanas e Folhas de S. Paulo da vida. Mesmo que algum editor brasileiro tenha a coragem de publicar os livros acima mencionados, coisa improvável, nada pode obrigar os tagarelas iluminados a lê-los e a confrontá-los com suas crenças mais queridinhas. E é preciso levar sempre em conta aquilo que dizia Goethe: "Muitas pessoas não abdicam do erro porque devem a ele a sua subsistência." Ao confiar seu destino às virtudes salvadoras da elite esquerdista, o Brasil disse um adeus definitivo ao desejo de conhecer. Se não queremos saber nem de onde surgiu a balela da participação americana no golpe de 1964 (v. http://www.olavodecarvalho. org/semana/sugestao.htm), por que haveremos de corrigir nossa visão fantasiosa da própria história americana? Diante dos fatos medonhos que atestam a mendacidade ilimitada daqueles que escolhemos como nossos professores de moral, reagimos com o horror do poeta espanhol ante a "sangre derramada" de seu amigo toureiro: "No, yo no quiero verla." Progredimos da burrice endêmica à ignorância irreversível. A sombra que lançamos sobre o passado já começou a encobrir o nosso futuro. Logo será tarde demais para tentar removê-la.


A escória do mundo V

Cuanto más alto sube, baja al suelo." Frei Luís de León

ou resumir aqui umas verdades óbvias e bem provameteram não justificam nenhuma barbaridade que se tenha das, que uma desprezível convenção politicamente feito contra eles na cadeia. Mas justifica que estivessem na cacorreta proíbe como indecentes. deia, embora tenham ficado lá menos tempo do que mereciam. Todo comunista, sem exceção, é cúmplice de genocídio, é E justifica que, surpreendidos em flagrante delito e responum criminoso, um celerado, tanto mais desprovido de consdendo à bala, fossem abatidos à bala. ciência moral quanto mais imbuído da ilusão satânica da sua Mas eles não acham isso. Acham que foi um crime intoleprópria santidade. rável o Estado ter armado uma tocaia para matar o chefe deles, Nenhum comunista merece consideração, nenhum comuCarlos Marighela, confessadamente responsável por atentanista é pessoa decente, nenhum comunista é digno de crédito. dos que já tinham feito várias dezenas de vítimas inocentes; São todos, junto com os nazistas e os terroristas islâmicos, a mas que, ao contrário, foi um ato de elevadíssima justiça a toescória da espécie humana. Devemos respeitar seu direito à vida caia que montaram para assassinar diante da mulher e do filho e à liberdade, como respeitamos o dos cães e das lagartixas, mas pequeno um oficial americano a quem acusavam, sem a míninão devemos lhes conceder nada mais que isso. E seu direito à ma prova até hoje, de "dar aulas de tortura". vida cessa no instante em que atentam contra a vida alheia. Durante a ditadura, muitos direitistas e conservadores arNos anos 60 e 70, a guerrilha brasileira não foi nenhuma eporiscaram vida, bens e reputação para defender comunistas, papeia libertária, foi uma extensão local da ditadura cubana que, ra abrigá-los em suas casas, para enviá-los ao exterior antes àquela altura, já tinha fuzilado pelo menos dezessete mil pesque a polícia os pegasse. Não há, em toda a história do último soas e mantinha nos cárceres cem mil prisioneiros políticos siséculo, no Brasil ou no mundo, exemplo de comunista que almultaneamente, número cinquenta vezes maior que o dos tergum dia fizesse o mesmo por um direitista. roristas que passaram pela cadeia durante o nosso regime miSim, os comunistas são diferentes da humanidade normal. litar, distribuidos ao longo de duas décadas, nenhum por mais São diferentes porque se acham diferentes. São inferiores porde dois anos – e isto num país de população quinze vezes maior que se acham superiores. São a escória porque se acham, como que a de Cuba. Nossos terroristas recebiam dinheiro, armas e dizia Che Guevara, "o primeiro escalão da espécie humana". orientação do regime mais repressivo e assassino que já houve Eles têm, no seu próprio entender, o monopólio do direito de na América Latina, e ainda tinham o cinismo de apregoar que matar. Quando espalham bombas em lugares onde elas inevilutavam pela liberdade. tavelmente atingirão pessoas inocentes, acham que cumprem Agora que estão no poder, enchem-se de um dever sagrado. Quando você atira no coverbas públicas e justificam a comedeira alemunista armado antes que ele o mate, você é gando que o Estado lhes deve reparações. O dium monstro fascista. nheiro do Estado é do povo brasileiro e o povo Por isso é que acham muito natural receber brasileiro não lhes deve nada. Eles é que devem indenizações em vez de pagá-las às vítimas de aos filhos e netos daqueles que suas bombas seus crimes. aleijaram e seus tiros mataram. Quem pode esperar um debate político raPerguntem aos cidadãos nas ruas: "O senhor, zoável com pessoas de mentalidade tão defora senhora, acham que têm uma dívida a pagar mada, tão manifestamente sociopática? aos terroristas, pelo simples fato de que a violênUm comunista honesto, um comunista honcia deles foi vencida pela violência policial? O rado, um comunista bom, um comunista que senhor, a senhora, acham justo que o Estado lhes por princípio diga a verdade contra o Partido, arranque impostos para enriquecer aqueles que um comunista que sobreponha aos interesses da se acham vítimas injustiçadas porque o governo sua maldita revolução o direito de seus adversámatou trezentos deles enquanto eles só conserios à vida e à liberdade, um comunista sem ódio guiram, coitadinhos, matar a metade disso?" insano no coração e ambições megalômanas na Façam uma consulta, façam um plebiscito. cabeça, é uma roda triangular, um elefante com A nação inteira responderá com o mais eloasas, uma pedra que fala, um leão que pia em vez Diário do Comércio, quente NÃO já ouvido no território nacional. de rugir e só come alface. Não existiu jamais, não 20 de maio de 2008 É claro que os crimes que esses bandidos coexiste hoje, não existirá nunca.

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MÍDIA COM MÁSCARA

O diário do passado

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DIGESTO ECONÔMICO JULHO/AGOSTO 2012

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raticamente toda a linguagem do jornalismo político em circulação hoje em dia foi criada para descrever um mundo que não existe mais – o mundo do pós-guerra. As notícias já não podem refletir os fatos porque são pensadas e escritas segundo esquemas descritivos estreitos demais para a situação atual. As mudanças ocorridas ao longo das últimas cinco décadas no quadro internacional são tão gigantescas que escapam ao horizonte de visão do jornalismo – daí que os fatos mais importantes fiquem fora do noticiário ou recebam cobertura irrisória, enquanto aparências fúteis merecem atenção desproporcional. As consequências disso para a alma popular são devastadoras, principalmente porque aí se introduz um segundo fator complicante: como já não existe propriamente "cultura popular", a velocidade de produção da "indústria cultural" atropelando a criatividade espontânea do povo, o resultado é que a mídia se torna a fornecedora única dos símbolos e valores com que o cidadão comum se explica a si mesmo e enquadra, como pode, a sua experiência pessoal num esboço de visão geral do mundo. A força com que a mídia influencia a própria estruturação das personalidades individuais e das relações pessoais é hoje imensurável. Isso quer dizer que, se essa mídia se aliena da realidade, todos se alienam com ela. Cada um sente na sua própria vida diária os efeitos diretos de profundas transformações globais, mas, como estas não aparecem no debate público, ou aparecem deformadas por estereótipos, a equação psicológica que se estabelece é a seguinte: por mais que o cidadão tente amoldar sua visão da realidade ao recorte deformante, buscando uma falsa sensação de segurança no ajustamento à pseudo realidade legitimada pelo consenso midiático, setores inteiros da sua experiência pessoal, familiar e grupal permanecem encobertos e inexpressáveis, latejando no escuro como infecções não diagnosticadas. O sentimento de desajuste externo e insegurança interna, que até umas décadas atrás era próprio da adolescência, espalha-se por todas as faixas etárias: não há mais pessoas maduras, todos são "teenagers" vacilantes, incapazes de uma decisão firme, de um raciocínio conclusivo. Mas a análise dessas consequências pode ficar para um outro artigo. Volto aqui às causas da alienação da mídia. Dois documentos, a meu ver, ilustram bem o esquema interpretativo que partir do fim da II Guerra foi adotado mais ou menos uniformemente por toda a mídia do Ocidente para a descrição da política mundial: o livro de Hans J. Morgenthau, "Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace", publicado em 1948 pela Alfred A. Knopf, e a Carta da ONU, assinada em São Francisco em 25 de junho de 1945. O primeiro tornou-se a bíblia do Departamento de Estado americano e, por isso mesmo, o código geral com que os políticos e os formadores de opinião nos outros países interpre-

tavam as ações e palavras do governo de Washington, automaticamente expressando nos termos desse mesmo código as suas posições – e as de seus respectivos governos - com relação à política americana e, no fim das contas, a tudo o mais. A doutrina Morgenthau, como veio a ser chamada, é complexa, mas duas de suas características interessam de maneira mais direta ao que estou tentando dizer aqui: 1º. Ela explicava as ações desenroladas no cenário internacional em função de interesses objetivos (materiais ou ideais), racionalmente formulados e identificáveis. 2º. Embora reconhecendo que os Estados nacionais poderiam no futuro dissolver-se em unidades políticas maiores, ela os tratava como agentes principais do processo político mundial (daí o título do livro). As consequências imediatas desse enfoque eram duas: 1ª. A noção de "interesse nacional" tornava-se o conceito descritivo fundamental: a política mundial era, em suma, uma trama de interesses nacionais em concorrência, em conflito, em colaboração etc. 2ª. Os agentes supranacionais sem natureza estatal, como os movimentos revolucionários, as religiões, as mega-empresas


transnacionais, as dinastias nobiliárquicas ou oligárquicas, etc. desapareciam do cenário: suas ações tornavam-se invisíveis ou tinham de ser explicadas, bastante artificialmente, como expressões camufladas de interesses nacionais. Na orientação da política americana, externa e interna, as limitações que daí decorreram foram – e continuam sendo – catastróficas: 1ª. No combate ao comunismo, todos os esforços do governo americano limitaram-se à busca de agentes diretamente controlados pelo governo soviético, sem nada poder fazer contra o movimento comunista em si e muito menos contra as suas encarnações mais diversificadas e camufladas a partir dos anos 60. A "New Left", sem ligações formais com o Partido Comunista da URSS mas sob certos aspectos mais virulenta do que qualquer agente soviético, não só saiu vitoriosa da guerra do Vietnã, mas impôs a quase toda a população americana os novos padrões de cultura "politicamente corretos" que hoje bloqueiam qualquer iniciativa séria contra os inimigos internos e externos do país. 2ª. Até hoje o governo americano está travado por uma autocensura que o impede de reconhecer em voz alta a realidade da "guerra de civilizações", tendo de explicar suas ações defensivas mediante o subterfúgio metonímico da "guerra contra o terrorismo" ao mesmo tempo que fortalece o inimigo islâmico interno no campo da guerra cultural e vai podando, uma a uma, as raízes cristãs de onde a sociedade americana extrai toda a sua força de resistência. 3ª. A luta de vida e morte entre o interesse nacional americano e os grupos globalistas que tentam subjugar a nação aos organismos internacionais é assunto proibido em debates eleitorais, de modo que se torna fácil para aqueles grupos camuflar suas ações por trás do mesmo interesse nacional contra o qual agem incessantemente, lançando portanto sobre o país a culpa do mal que lhe fazem (v. o parágrafo final do artigo "Uma nova fachada do Foro de São Paulo", DC, 9 de junho de 2008). Entre nós, a adoção do conceito de "interesse nacional" como um fetiche explicativo pela Escola Superior de Guerra faz com que até hoje muitos analistas militares brasileiros sejam incapazes de entender o esquema de dominação globalista senão como instrumento das "grandes nações" – o que quer dizer, em última análise, dos EUA. Esses erros de perspectiva são retroalimentados pela mídia mundial, que desde os anos 40 adotou informalmente a doutrina do Departamento de Estado como chave descritiva da política internacional. Não é preciso examinar uma infinidade de jornais e noticiários de rádio e TV para perceber que, embora tagarelem obsessivamente sobre "globalização", os jornalistas em geral só enxergam a distribuição de poder no mundo através da sua manifestação visível na forma de Estados nacionais. A religião, por exemplo, continua sendo a seus olhos uma força cultural extrapolítica, que só resvala na política por acidente ou por

submissão perversa de seus altos fins originários aos propósitos de algum Estado nacional ou organização terrorista. Eles não podem, por isso, entender o Islam, que é por essência e origem um projeto de Estado mundial, mas que a seus olhos é apenas uma "religião", capaz de amoldar-se pacificamente à ordem política dos Estados não islâmicos. Muito menos podem compreender o fenômeno do metacapitalismo (v. http://www.olavodecarvalho.org/semana/040617jt.htm e http://www.olavodecarvalho.org/textos/debate_usp_4.htm). O segundo documento a que me referi, a Carta da ONU, criou o código de valores que dá substância moral ao retrato do mundo estampado na mídia. Se a mecânica desse mundo é descrita como um jogo de interesses nacionais, seu drama humano é equacionado em termos de "paz", "direitos humanos", "tolerância", "progresso econômico e social", "segurança internacional", "cooperação humanitária", etc., dando vivacidade, movimento e verossimilhança ao quadro da competição entre nações e camuflando automaticamente os esquemas de poder supranacionais, dos quais a própria ONU é hoje um dos instrumentos mais úteis e contundentes. Se, como foi dito acima, as pessoas sentem na sua vida diária os efeitos das transformações globais sem poder sequer expressar em palavras a ligação entre sua experiência imediata e o cenário maior da história, isso se deve sobretudo ao fato de que os agentes que originaram esses processos permanecem desconhecidos da multidão: as mudanças de valores, de leis, de critérios, que afetam profundamente o destino e até a psicologia íntima de milhões de criaturas desabam sobre a população como se tivessem vindo do céu ou resultassem de fatalidades históricas impessoais. Não podendo ser rastreadas até nenhum agente nacional-estatal, tornam-se ações sem sujeito, misteriosas como decretos da Providência. No entanto, a harmonia simultânea com que se lançam em todo o planeta campanhas destinadas a mudar radicalmente os hábitos e valores da população, forçando-a a respeitar o que abomina e a abominar o que respeitava até à véspera, basta para mostrar, mesmo a quem nada saiba da origem concreta desses empreendimentos, que essa origem existe e que ela não reside em nenhum mistério celeste ou lei histórica, mas em agentes humanos de carne e osso, apenas enormemente poderosos, organizados e perseverantes. Esses agentes não são secretos, são apenas discretos, embora muitos deles, bastante famosos até, alardeiem seus motivos e suas ações em livros e conferências. É ao passar pela malha seletiva da mídia que suas ações se tornam secretas, no mais das vezes não por ocultação premeditada, mas pelo simples fato de que não se enDiário do Comércio, quadram nas categorias des08 de agosto de 2008 critivas aí reconhecidas.

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BURRICE e VIGARICE

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uando comecei meus estudos, uns quarenta e cinco anos atrás, uma de minhas primeiras preocupações foi rastrear a bibliografia das várias disciplinas que me interessavam – especialmente a crítica literária, a filosofia, a história, a sociologia e a ciência das religiões – de modo a obter uma visão clara do desenvolvimento histórico de cada uma delas e a mapear assim o meu roteiro de leituras pelos dois séculos seguintes, que era o tempo que eu planejava viver. Só por uma curiosidade, averiguava de tempos em tempos o currículo de várias universidades nesses campos, para comparar o avanço dos meus estudos solitários com aquilo que poderia obter numa dessas venerandas instituições. Não demorei a perceber que em nenhuma universidade brasileira eu poderia ter aquela visão global do status quaestionis em cada uma das disciplinas, bem como das suas disputas de território, visão que, constituindo a condição indispensável para o domínio de qualquer uma delas em especial, é, no fundo, o único objetivo dos estudos universitários. Não digo apenas que houvesse lacunas no que se transmitia dessas disciplinas aos estudantes brasileiros. O que havia, no mais das vezes, era a ignorância total dos problemas essenciais e do tratamento que haviam recebido ao longo da história. Mesmo a mera consciência da necessidade de conhecer a evolução temporal das discussões era em geral ausente, tanto nas fábricas de diplomas (autorizadas pelo Ministério da Educação como quem legalizasse o banditismo), quanto nas instituições de maior reputação nacional, como a USP, as PUCs de São Paulo e do Rio e a Unicamp. Isso era visível não só pelos seus programas de ensino, onde o que se entendia por história das disciplinas era apenas uma introdução sinóptica mais adequada a revistas de cultura popular do que ao ensino universitário, mas também e sobretudo pelos trabalhos publicados pelos mais badalados professores, onde a ignorância detalhada dos problemas em discussão constituia a base indispensável para o cultivo de seus mitos ideológicos provincianos mais queridos.

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Misto de vigarice, ignorância pétrea, fingimento histriônico e delírio psicótico puro e simples, o arremedo de vida intelectual no Brasil de hoje é um fenômeno grotesco do qual não encontro paralelo em nenhuma outra época ou nação.

Diário do Comércio, 03 de outubro de 2008

Quando comecei a dar cursos e conferências, tive ao meu alcance um terceiro meio de averiguação do estado de coisas no ambiente universitário: o nível médio de conhecimentos com que chegavam às minhas aulas os diplomados e diplomandos das faculdades de letras, filosofia, etc. Aí aquilo que de início me parecera um estado alarmante de miséria mental tomou as feições de uma catástrofe cultural sem precedentes na história do mundo. Não havia uma única disciplina cuja história eles dominassem, não havia um único problema que soubessem equacionar como estudiosos profissionais dignos do nome, não havia entre eles, em suma, um único universitário no sentido real do termo. Outros materiais para a avaliação do ensino superior brasileiro vinham-me da imprensa dita cultural, especialmente os suplementos do Globo e do Jornal do Brasil, bem como o caderno Mais! da Folha de São Paulo, que era a vitrine oficial da USP. Parte daquilo que observei nessa documentação está no meu livro O Imbecil Coletivo (1996), cujo título resume as minhas conclusões a respeito. Desde a publicação desta obra, no entanto, as coisas pioraram demais, com a ascensão de uma nova geração de tagarelas ainda mais ignorantes e presunçosos do que seus antecessores, fortalecidos na sua autoconfiança demencial pelo sucesso político dos partidos de esquerda e pela deliciosa sensação de poder daí decorrente, a seus olhos uma prova cabal das suas altíssimas qualificações intelectuais. Hoje em dia a cultura superior está completamente extinta no Brasil, substituída por um falatório subginasiano sufocantemente uniforme, que, sob o pretexto irônico de "pensamento crítico" e "libertação", se impõe a um amedrontado corpo discente com a autoridade irretorquível do magister dixit. Misto de vigarice, ignorância pétrea, fingimento histriônico e delírio psicótico puro e simples, o arremedo de vida intelectual no Brasil de hoje é um fenômeno grotesco do qual não encontro paralelo em nenhuma outra época ou nação. E a maior prova da sua gravidade é o fato de que, mesmo entre aqueles que o enxergam, a tendência geral é minimizá-lo como se


fosse apenas a deterioração de um adorno supérfluo, sem maiores consequências para a vida real. O homem inteligente é sensível ao menor sinal de decréscimo do seu QI; o imbecil sente-se tanto mais tranquilo e confiante quanto mais imbecil se torna. Como os intelectuais são os olhos e ouvidos da sociedade, não espanta que esta última, sob a influência das hordas de miúdos vigaristas que hoje exercem essa função, tenha se tornado incapaz não somente de acompanhar razoavelmente o que se passa no mundo (comparar o que observo nos EUA com o que a respeito sai nos jornais brasileiros é ter diariamente a visão de um abismo

sem fundo), mas até de compreender, mesmo por alto, aquilo que se passa no território nacional. Políticos, empresários, líderes militares e religiosos tomam suas decisões, dia após dia, com base na ignorância radical dos fatos mais decisivos. O Brasil tornou-se uma procissão de cegos guiados por loucos. É um fenômeno tão estranho e incomparável, que desafia qualquer descrição. A capacidade humana de expressar em palavras a experiência coletiva depende de que esta tenha um mínimo de luminosidade e transparência. A opacidade completa só pode ser descrita pela indiferença e pelo esquecimento. O Brasil tornou-se uma imensa falta de assunto.

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MEDITAÇÕES FILOSÓFICAS

Quando a alma é pequena

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odos os males do Brasil, excetuados os de causas naturais, nascem da ausência, na nossa cultura, de um elemento essencial à vida humana: a busca da verdade. Aí ninguém sabe o que é isso, nem muito menos tenta saber, porque ninguém sente falta daquilo cuja existência ignora. Pior: todo mundo conhece as expressões verbais correspondentes à coisa faltante e as usa para designar uma infinidade de outras coisas, de modo que a falta se torna ainda mais invisível e às vezes parece até uma superabundância. Ausente a busca da verdade, parece que sobram as verdades conhecidas e floresce por toda parte o amor à verdade, com seu complemento inverso, o ódio ao erro e à mentira. As atitudes humanas ante a verdade traduzem-se imediatamente nos modos de argumentação empregados nas discussões públicas. Argumentar é sempre apelar a uma instância superior que tem o prestígio da verdade e da autoridade. Em todos os debates culturais e políticos no Brasil, sem exceção visível, os modos de argumentação usados são os seguintes: 1) Apologia incondicional de crenças cegas adquiridas na juventude, jamais postas à prova e sempre carregadas de um valor emocional absoluto, que deve ser defendido contra todo ataque do exterior. Para isso o sujeito pode mobilizar uma dose formidável de pensamento racional e até de conhecimentos, mas tudo isso permanece exterior, é usado como mera arma defensiva ou ofensiva e jamais como instrumento de análise crítica das crenças mesmas. Qualquer contato com as ideias adversas deve ser breve e superficial o bastante para evitar o contágio. De preferência elas não devem ser conhecidas diretamente, mas reduzidas logo a algum modelo prévio bastante repugnante. 2) Afetação de modéstia racional mediante o apego à "ciência", aos "argumentos lógicos", aos "números" e aos "fatos", tudo isso acompanhado de desprezo olímpico pelo "fanatismo", pelo "fundamentalismo", etc. Parece o oposto da atitude anterior mas é uma variante dela, apenas trocado o conteúdo da paixão ideológica ostensiva para a ilusão iluminista de um mundo transparente, uniformemente acessível aos métodos da ciência experimental. 3) Irracionalismo histriônico e afetação de misteriosa sabedoria instintiva, expressa mediante afirmações paradoxais, compactamente obscuras, às vezes impossíveis de analisar por absoluta falta de sentido, mas suficientemente enigmáticas ou chocantes para hipnotizar o auditório. Se acompanhado de

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prestígio artístico, o método é geralmente bem sucedido. Exemplo, a lição do sr. ministro da Cultura: "A metáfora da música brasileira na globalização efetiva dos carentes objetos da sinergia fizeram a pluralização chegar aos ouvidos eternos da geografia assimétrica da melodia." Praticantes assíduos foram Oswald de Andrade e Glauber Rocha, no passado. Hoje em dia, José Celso Martinez Corrêa. 4) Simulação de equilíbrio e maturidade mediante uma linguagem polidamente inconclusiva que tenta pairar "au dessus de la mêlée", só para dar maior credibilidade, implícita ou explícita, a uma opção prévia não justificada que acaba se revelando em algum ponto do argumento. É em geral a linguagem dos editoriais de jornal. 5) Sedução da plateia mediante afetação de bom-mocismo e sentimentos humanitários, patrióticos ou pseudo-religiosos expressos em linguagem melosa ou grandiloqüente, entremeada ou não de rosnados ameaçadores ao partido adverso que revelam sutilmente o ódio psicótico latente sob as efusões do puro amor. Leiam Frei Betto. 6) Diluição das percepções mais óbvias mediante apelo a estereótipos relativistas, desconstrucionistas, pragmatistas, ceticistas, etc., quase sempre para justificar alguma opinião idiota que assim fica dispensada de apresentar suas razões. 7) Talvez não devessem sequer ser colocadas em linha de exame as argumentações fundadas no puro e grosso interesse grupal, quando não no desejo de prazer. Quando o sr. Luiz Mott diz que Jesus era gay, o que ele quer dizer é apenas que aprecia tanto as práticas homossexuais que desejaria fazer delas uma revelação divina. "Ma non è uma cosa seria". Há também instrumentos pseudo-retóricos de uma torpeza sem par que são de uso comum e endêmico em todos esses casos. Um deles é a definição arbitrária dos termos, forjada para levar automaticamente a uma conclusão previamente escolhida. Por exemplo, o sujeito argumenta que as religiões são a maior causa de violência assassina, e quando objetamos que as ideologias materialistas e científicas mataram muito mais gente, responde que as inclui na definição de "religiões". Outro é o argumentum ad ignorantiam: apelar à própria ignorância da existência de alguma coisa como prova de que a coisa efetivamente inexiste. A lista seria longa e fastidiosa. Não diferiria, em substância, daquela apresentada por Schopenhauer na sua Dialética Erística, apenas com o acréscimo peculiarmente brasileiro de que os próprios nomes


latinos dos estratagemas erísticos, depois da edição que fiz desse livro, viraram instrumentos usuais e adornos eruditos dos modos de argumentação acima mencionados. A expressão argumentum ad hominem , usada de maneiras barbaramente impróprias, tornou-se presença infalível nessas conversações. Esses estilos esgotam o repertório dos modos de argumentação em uso nos debates públicos neste País. O que há de comum entre todos eles é a total leviandade com que evitam o exame efetivo das questões que abordam. Desde Aristóteles, sabe-se que toda busca da verdade em questões controversas parte do exame das opiniões existentes. Cada uma destas deve ser conhecida em profundidade e sem julgamento prévio, até que o laborioso acúmulo de muitas perspectivas contraditórias faça o objeto em questão aparecer tal como é em si mesmo, acima das diferenças de pontos de vi st a.

tempo com Eugênio Kusnet. O método Stanislavski ensinanos a técnica da identificação psicológica profunda com os vários personagens, de modo que o conflito dramático da peça seja interiorizado como conflito psicológico na alma do próprio ator. Uso isso até hoje para entender as ideias mais absurdas e perceber nelas, senão um fundo de razão, ao menos um princípio de verossimilhança. Isso tornou-se para mim tão rotineiro e natural que não me atrevo a contestar uma ideia se antes não a tornei minha ao menos por alguns minutos, de modo que falo sempre com a autoridade segura de quem está discutindo consigo mesmo. Por isso é que me parece tão espantosa e deplorável a atitude espontânea e obstinada de incompreensão defensiva que em geral é a atitude dos nossos debatedores públicos. Todo mundo tem direito a ter opiniões, mas é melhor têlas depois de um mergulho a r i st o t élico-

E s s e método não é infalível, mas é o único que existe. Todos os estilos de argumentação que apontei acima tratam de evitá-lo como à peste. Não apenas fogem à contradição e às dificuldades, mas cada um deles consiste materialmente numa simples casamata de palavras erigida em torno de algum desejo ou preferência, de algum preconceito no sentido mais estrito do termo. No fundo, todos são apenas instrumentos de autodefesa psicológica ante as contradições e perplexidades da vida. Todas as opiniões, com efeito, nascem de alguma reação à experiência vivida, mas muitas delas são uma reação de fuga, o fechamento neurótico numa redoma de palavras. São expressões de almas frágeis e vacilantes, que se apegam a opiniões como se fossem amuletos, para escapar ao terror da incerteza, ao thambos aristotélico, portanto à possibilidade mesma de acesso à verdade. Como algumas opiniões socialmente relevantes não têm uma estrutura lógica interna suficiente para que possam ser apreendidas racionalmente, elas requerem uma espécie de penetração psicológica da parte do intérprete. Descobri a solução para isso logo na juventude, quando estudei teatro por algum

sta nislavskiano no mar das contradições. Quem quer que tenha amor à verdade anseia por esse mergulho, mesmo quando não tem a certeza de encontrar alguma verdade no fundo. A fuga generalizada ante esse desafio é o traço mais geral e constante dos "formadores de opinião" no Brasil. Em última análise, esse fenômeno expressa o medo de viver, o desejo de fugir logo para um mundinho imaginário imune a riscos intelectuais. Esse medo, por sua vez, revela-se da maneira mais inconfundível na literatura de ficção nacional. Repassando mentalmente as produções maiores da nossa criação romanesca – índice seguro da imaginação das classes letradas –, o que me chama a atenção em primeiro lugar é a falta absoluta de problemas, de enigmas, de perplexidades. O romancista brasileiro limita-se a retratar situações vistas segundo a ótica de uma filosofia ou ideologia preexistente, de modo que tudo no fim parece óbvio e explicado. Não estou falando de escritores ruins, mas justamente dos melhores. Tomem o excelente Graciliano Ramos no mais bem sucedido dos seu livros, São Bernardo, no mais popular, Vidas Secas , ou no mais ambicioso, Angústia. O que se vê nos dois primeiros são

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equações de sociologia desenvolvidas com a lógica de uma demonstração matemática, a condição de classe dos personagens determinando suas escolhas e produzindo inevitavelmente o destino correspondente: o senhor de terras age como um senhor de terras, a professorinha como uma professorinha, o camponês diante da autoridade como um camponês diante da autoridade. É tudo muito bem observado, muito bem construído, mas não suscita um único "por que?". No terceiro romance a fórmula parece complicar-se um pouco mediante a introdução de elementos de psicopatologia, mas no cômputo final estes se somam aos dados sociológicos e explicam tudo. Ninguém nega que esses livros sejam obras-primas à sua maneira, mas, se eles nos ensinam algo sobre a vida brasileira e algo sobre como se escreve um romance, não abrem nossa inteligência para nenhuma questão que ali já não esteja de algum modo respondida. Não têm a força fecundante da grande arte literária. O mesmo pode-se dizer de quase toda a produção de Raul Pompéia, José Lins do Rego, Jorge Amado, Lima Barreto, Guimarães Rosa, José J. Veiga, Antônio Callado, Herberto Sales, Josué Montello e outros tantos. Você não pode ler o teatro grego, Shakespeare ou Dostoiévski sem perceber que ali se encontra algo de perfeitamente real e ao mesmo tempo inexplicável, lógico e ao mesmo tempo absurdo. Os ensaios de interpretação podem se multiplicar ao longo dos séculos sem jamais dar conta do mistério. A grande literatura de ficção mostra-nos como é a vida humana, mas não pode nos explicar o porquê. Para fazê-lo, teria de subir um grau na escala de abstração, tornando-se análise e teoria, abandonando portanto a contemplação da vida concreta, que é o seu terreno específico. Mesmo os romances mais complexos do século XX, que incorporam elementos de análise filosófica, como A Montanha Mágica de Thomas Mann, Os Sonâmbulos de Hermann Broch, O Homem Sem Qualidades de Robert Musil ou a trilogia de Jacob Wassermann ( O Processo Maurizius, Etzel Andesgast e A Terceira Existência de Joseph Kerkhoven ) não têm por resultado uma teoria explicativa mas a expressão formal concreta de um aglomerado de tensões sem solução. Daí o fascínio mágico que continuam exercendo sobre o leitor por mais que este, eventualmente filósofo ele próprio, se esmere em transformar o egnima em equação. A equação resolvida é sempre genérica, não esgota nunca a infinidade de sugestões embutidas na trama particular e concreta. Nada disso se observa em geral na ficção brasileira, uma literatura de segunda mão que nasce do recorte da experiência pelo molde de explicações previamente dadas. A análise das obras esgota rapidamente a problematicidade da sua cosmovisão, não sobrando outro enigma senão, é claro, o do taDiário do Comércio, lento individual que encontrou 16 de julho de 2007 soluções tão boas para a trans-

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posição estética de uma vivência espiritual tão pobre. Praticamente só em Machado de Assis o que sobra no fim da leitura é uma pergunta sem resposta. Jamais entenderemos por que seus personagens são como são, fazem o que fazem, terminam como terminam. O que há de problemático neles não é uma questão de psicologia individual ou de construção literária. É a própria visão estética que o autor tem da realidade da vida que é um sistema de conflitos e tensões permanentes, uma equação insolúvel. Digo "visão estética" porque, fora e acima da sua criação romanesca, o escritor permanece um ser humano dotado de capacidade de abstração e tão habilitado quanto qualquer outro a sondar explicações genéricas. O que ele não pode é injetar essas explicações no próprio romance, que perderia toda a sua razão de ser enquanto expressão imaginativa de situações reais, trocando a verdade concreta da ficção por um esquema filosófico ou científico abstrato. Contornando essa dificuldade, o romancista brasileiro transforma a ficção na construção de exemplos verossímeis de alguma explicação conhecida. Daí esse fenômeno de uma literatura sem autêntico problema existencial, uma literatura em que a mera alegoria se substitui ao símbolo. Toda a habilidade do ficcionista, aí, consiste em camuflar a explicação por baixo da verossimilhança do exemplo. É precisamente isso o que Machado de Assis não faz. Sua própria filosofia schopenhaueriana nem de longe basta para explicar seus personagens, decerto muito mais incongruentes e patéticos do que o filósofo do Mundo Como Vontade e Representação jamais poderia conceber. E usei acima o termo "praticamente" porque o mesmo sucesso de Machado de Assis na criação de situações concretas inexplicáveis é alcançado ocasionalmente por outros escritores, em momentos de inspiração excepcional que se destacam do restante das suas produções. Penso especialmente no Quincas Berro d'Água, de Jorge Amado, no finado tio Marcelino, de Herberto Sales, ou na arrancada heroica final de Augusto Matraga na novela de Guimarães Rosa. Eles têm uma verdade própria que nenhuma explicação suplanta. Mas são exceções na obra de seus autores, e mais ainda na ficção brasileira em geral. A verdade desses personagens não é a verdade de uma teoria: é a verdade do símbolo romanesco. Susanne K. Langer definia o símbolo como "matriz de intelecções". O símbolo não existe para ser explicado, mas para inspirar e fortalecer nossa capacidade de buscar explicações. Jamais explicaremos Hamlet ou Os Demônios , mas volta e meia eles nos sugerem explicações para o que vemos na vida real. A função eminente da literatura de ficção é a transfiguração da experiência em símbolo. O universo simbólico da ficção nasce da experiência; as opiniões não vêm diretamente da experiência, mas do universo simbólico transmitido na cultura, especialmente na literatura de ficção. Quando a própria ficção se furta à complexidade da experiência, preferindo ater-se à imagem verossímil de uma existência previamente explicada, não é de espantar que as opiniões sejam ainda mais superficiais e levianas. A doença política do Brasil é a condensação de um handicap cultural crônico, a pequenez da alma e o estreitamento do imaginário ante a complexidade da existência. Os brasileiros vivem citando Fernando Pessoa, mas não tiram de um de seus versos a conclusão mais necessária e urgente: Nada vale a pena quando a alma é pequena.


A evolução da EVOLUÇÃO

N

ão sei se a evolução biológica aconteceu ou não. Ninguém sabe. O que sei com absoluta certeza é que como construção intelectual o evolucionismo é um dos produtos mais toscos e confusos que já emergiram de uma cabeça humana – ou animal. Estranha natureza, a dos evolucionistas, que, galgando etapas progressivas das amebas até os antropóides, chega a criar um ente compulsivamente inclinado a inventar o sobrenatural, e a inventá-lo mais ou menos igual por toda parte, sem contatos ou transmissões culturais – isto é, evolutivas – que tornem inteligível a unidade dessa concepção. Pois se há um fenômeno universal entre as culturas mais díspares no espaço e no tempo, é esse, não restando então aos evolucionistas senão justificá-lo; primeiro como necessidade inerente à evolução cultural em geral e em seguida jogá-lo fora como desnecessário e lesivo a essa mesma evolução. Tudo pela causa. Não entendo por que os herdeiros intelectuais de Darwin odeiam tanto a ideia do design inteligente, já que foi o próprio Darwin quem a inventou, explícita e completa, nos parágrafos finais de A Origem das Espécies. Tentando aplacar o escândalo, se veem obrigados a explicar esse trecho como mera concessão da boca para fora à mentalidade re-

ligiosa da época (como se a Inglaterra vitoriana fosse tão cristã quanto o século XIII), ao mesmo tempo que, para enfatizar a idoneidade intelectual de Darwin e sua ausência de motivações antirreligiosas, afirmam a sinceridade da sua devoção cristã. Não há arranjo de pretextos, por mais rebuscado, incoerente e esdrúxulo, que não se possa improvisar na salvaguarda de uma fé periclitante. Nada no mundo evolui tão rápido quanto a Teoria da Evolução. Em pouco mais de um século, de Darwin a Dawkins, passou da necessidade férrea ao acaso mais gratuito e incontrolável, sem perder a pose nem a impressão de unidade. Uma teoria capaz de alegar em sua defesa motivos opostos e incompatíveis e continuar sendo ela mesma tem, evidentemente, a plasticidade semântica de um símbolo poético, de um mito. Historicamente, o evolucionismo nasce como um mito ocultista, com Erasmus Darwin, depois transmuta-se numa ideologia políticosocial, com Herbert Spencer, e por fim numa hipótese biológica, com o neto de Erasmus, Charles. Que este não tenha sido influenciado nem pelas ideias do avô nem pela leitura dos First Principles, o best seller spenceriano que já continha em germe a sua teoria, é uma impossibilidade histórica manifesta.

Não entendo por que os herdeiros intelectuais de Darwin odeiam tanto a ideia do design inteligente, já que foi o próprio Darwin quem a inventou, explícita e completa, nos parágrafos finais de A Origem das Espécies.

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Da ignorância dogmática dessa impossibilidade depende todo o prestígio do evolucionismo como teoria científica "pura". Esse prestígio vale tanto quanto a crença escolar de que Newton não deduziu a sua física da sua teologia, e sim de "experimentos científicos". Como se os conceitos de "tempo absoluto" e "espaço absoluto", dos quais depende toda a teoria de Newton, pudessem ser objetos de experiência (ai, meu saco! ) em vez de pressupostos lógicos a priori. Não há limites para a burrice, quando é científica. Se o evolucionismo não fosse a tradução biológica de uma ideologia e sim a "pura" teoria científica que seus devotos pretendem, seria no mínimo estranho, para não dizer praticamente inviável, que ele proliferasse em tantas aplicações político-sociais muito antes de que

alguém tentasse sequer cumprir a primeira e mais indispensável condição requerida pelo próprio Darwin para a sua comprovação científica, isto é, um conhecimento melhorzinho dos registros fósseis. A pressa indecente com que uma teoria científica se transfigura em proposta revolucionária nada prova, em princípio, contra a teoria em si mesma, mas é obviamente capcioso reivindicar imediata autoridade científica para propostas políticas supostamente amparadas numa teoria física, biológica ou climatológica e ao mesmo tempo condenar como argumentum ad hominem toda tentativa de questionar a teoria no terreno moral e político. Afinal, se a proposta política decorre da teoria científica de maneira tão linear e inquestionável, é praticamente impossível que não haja algo de político na própria estrutura da teoria. O caminho lógico que vai do diagnóstico da realidade a uma decisão quanto ao que se deve fazer com ela é sempre indireto e problemático: se ele se apresenta como direto e imediato, o mínimo que a prudência recomenda é averiguar se a decisão não antecedeu e determinou o diagnóstico. Neste caso, o exame dos pressupostos ideológicos embutidos na teoria é es-

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sencial não só para a discussão das consequências sociais pretendidas mas para a compreensão da própria teoria em si mesma, a qual, é claro, pode sair do exame bastante arranhada. Uso a expressão "pressa indecente" para indicar que há uma diferença substantiva entre a mera extrapolação ideológica operada a posteriori por discípulos infiéis ou equivocados e a conversão instantânea da teoria científica em ideologia por obra dos próprios criadores da teoria. No primeiro caso, esta permanece distinta das consequências ideológicas que se pretendam tirar dela; no segundo, não se trata de meras consequências, mas, ao contrário, de antecedentes, de pressupostos ideológicos embutidos na estrutura mesma da teoria, que neste caso só pode ser compreendida independentemente desses pressupostos mediante uma separação abstrativa posterior, não raro artificiosa. Não faz o menor sentido exigir uma separação asséptica entre a "pura" teoria biológica e a ideologia que viria a ser chamada de "darwinismo social", pelo simples fato de que esta última, na versão originária de Spencer e sem o nome que viria a caracterizá-la depois, antecedeu aquela e inspirou a obra de Darwin (e o evolucionismo como mito ocultista precedeu e inspirou a ambas). Mais ainda: uma vez criada a biologia darwinista , sua retransmutação imediata em proposta social – agora com novo "fundamento científico" – não veio pelas mãos de discípulos remotos e incapazes, mas por iniciativa do próprio Darwin e de seu colaborador mais imediato, Ernst Haeckel. Aquele foi explícito ao declarar que considerava a liquidação das "raças inferiores" um processo evolutivo normal e desejável. O segundo fundou pessoalmente organizações racistas que contribuíram em muito para a formulação da ideologia nazista. Para completar, o fiasco da proposta nazista não fez com que os darwinistas recuassem de suas ambições ideológicas e se restringissem à pesquisa científica "pura". Ao contrário, a Teoria da Evolução evoluiu mais ainda: ampliou-se em doutrina totalizante da história e da cultura, alimentando hoje a pretensão de substituir-se à filosofia e à religião no guiamento moral da humanidade.

Uso a expressão "pressa indecente" para indicar que há uma diferença substantiva entre a mera extrapolação ideológica operada a posteriori por discípulos infiéis ou equivocados e a conversão instantânea da teoria científica em ideologia por obra dos próprios criadores da teoria.

Diário do Comércio, 24 de dezembro 2007


Reprodução

O cume do progresso humano

Para Freud (dir.), a consciência individual é um joguete de forças inconscientes

F

reud costumava dizer que a história da mente ocidental tinha sido marcada por três derrotas humilhantes impostas sucessivamente às presunções do ego humano: primeiro, Copérnico demonstrara que o planeta que habitamos não é o centro do universo; depois, Darwin ensinara que o homem não é um ente superior, mas apenas um animal entre outros; por fim, o próprio Freud trazia a prova de que a consciência individual não é sequer a dona de si própria, mas o joguete de forças inconscientes. A ideia do progresso do conhecimento como uma troca de ilusões grandiosas por verdades cada vez mais deprimentes impregnou-se tão profundamente na cosmovisão das classes letradas, que outros episódios da história das ideias foram interpretados de acordo com ela, quase que por automatismo. Entre Copérnico e Darwin, Newton e Galileu haviam ensinado que nossas impressões do mundo sensível são subjetivas e enganosas, só as quantidades mensuráveis podendo ser objeto de conhecimento certo, e Kant demonstrara a impossibilidade de saber algo de positivo sobre Deus e a imortalidade da alma. Entre Darwin e Freud, Marx evidenciara que a própria história das ideias não é senão a exteriorização aparente de interesses econômicos camuflados, Comte oficializara a proibição de perguntar sobre aquilo que não podemos conhecer pelos métodos da ciên-

cia newtoniana, e por fim um contemporâneo de Freud, Max Weber, tirara disso a mais letal das consequências: não só o bem e o mal são escolhas arbitrárias, mas o próprio conhecimento científico não é possível sem alguma escolha arbitrária inicial. Nas décadas seguintes, o rebaixamento da espécie humana prosseguiu implacavelmente. O behaviorismo substituiu a noção mesma da "psique" por um conjunto de reflexos condicionados não muito diferentes dos que determinam a conduta de um rato ou, em última instância, de uma ameba. O estruturalismo e o desconstrucionismo aboliram a noção marxista do sentido da História como um resíduo das ilusões humanistas. A genética, a neurofisiologia, os modelos informáticos do cérebro e a psiquiatria de base farmacológica reduziram a nada as pretensões da própria psicologia freudiana. A ecologia mostrou o ser humano como um bicho mal comportado e destrutivo, prejudicial à natureza. Por fim, o filósofo Peter Singer promoveu os frangos e porcos a titulares de direitos humanos, em pé de igualdade até com uma criatura sublime como ele próprio. Assim vieram caindo, uma a uma, as "ilusões narcísicas" – como as chamava Freud – de uma espécie animal que ousara se proclamar imagem e semelhança de Deus. A história das ideias científicas, vista sob esse aspecto, é uma história da humildade intelectual.

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Mas aí há três problemas. O primeiro é que nem todas as teorias incluídas nessa narrativa são igualmente verdadeiras. Galileu fez do Sol o centro do universo, e não só do sistema solar. Marx jurava que o capitalismo iria restringir o mercado, em vez de expandi-lo. O evolucionismo continua em estado de hipótese discutível. E a psicanálise se desmoralizou tanto que Lacan, para tentar salvá-la, teve de descobrir nela uma parte inconsciente e dizer que esta, e não aquela que Freud conhecia, era a genuína psicanálise. Não tem sentido equalizar verdades científicas, erros medonhos e fantasias idiotas como degraus ascendentes de uma escalada cognitiva. Segundo problema: cada um dos degraus dessa pretensa escalada foi galgado à custa de alguma falsificação monstruosa dos dados históricos. O esquema usado foi sempre o mesmo: embutir à força, em alguma doutrina passada, significados totalmente estranhos à época em que foi enunciada e à mentalidade de seu autor. Copérnico nunca imaginou que o heliocentrismo tirasse "o homem" do topo do universo criado. Esta interpretação foi inventada um século depois por Giordano Bruno. E, àqueles que pretendessem tirar daí alguma conclusão materialista, o próprio Bruno advertia: façam isso, e se tornarão estúpidos ao ponto de duvidar da sua própria existência (isto veio a acontecer literalmente quando o desconstrucionismo apregoou a "inexistência do sujeito"). A doutrina darwiniana, ao colocar o ser humano no cume da evolução animal, não podia ao mesmo tempo rebaixá-lo ao nível de um bicho qualquer. A palavra mesma "evolução" exprime uma subida de nível, não uma descida. Isso deveria ser óbvio à primeira vista, mesmo sem a ajuda dos parágrafos finais de A Origem das Espécies , que celebram a ascensão evolutiva como uma obra divina de intelligent design (oh, horror!). A doutrina freudiana, sim, parece rebaixar o ser humano, na medida em que reduz a consciência a um produto de fatores inconscientes. Mas, se a passagem para o nível autoconsciente resultava da destruição das ilusões narcísicas da infância, como poderia a destruição de mais uma ilusão ser um rebaixamento e não uma subida? O próprio Freud jamais desistiu da aposta em que o Ego terminaria por absorver e superar o Id, nisto consistindo, aliás, a promessa central da psicanálise. Ao falar de rebaixamento das pretensões humanas, Freud usou de uma figura de linguagem que enfatizava unilateralmente um só aspecto da sua própria obra, omitindo a compensação dialética da qual estava perfeitamente consciente. E fez o mesmo com os ensinamentos de Copérnico e Darwin para transformar os dois, à força, em precursores dele próprio. Daí por diante, fazer história Diário do Comércio, das ideias mediante analogias 04 de fevereiro de 2008 extemporâneas tornou-se moda

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universal, rebaixando a compreensão pública do passado a uma sucessão de fofocas de cortiço contra a dignidade humana. O resumo enciclopédico dessas Não tem sentido fofocas constitui a visão histórica vigente, como um dogma de equalizar verdades fé, nas cabeças de praticamente científicas, erros todos os nossos contemporâmedonhos e fantasias neos. Ela ressurge diariamente idiotas como degraus em editoriais de jornal, discursos parlamentares e redações de ascendentes de uma escola, com unanimidade gloescalada cognitiva. bal, e serve de argumento para justificar decisões políticas, econômicas e estratégicas, bem como para arbitrar discussões domésticas e dar aparência de coisa importante a teses universitárias sem pé nem cabeça. O terceiro problema é que nenhuma daquelas descobertas alegadamente humilhantes tornou a intelectualidade mais humilde. Ao contrário: cada uma delas foi celebrada como uma vitória da razão e das luzes contra as trevas do passado, daí resultando efusões de orgulho cada vez mais demenciais e reivindicações de poder cada vez mais ilimitadas. Copérnico e Newton serviram de argumento para os revolucionários de 1789 concentrarem mais poder em suas mãos do que qualquer tirano da antiguidade e matarem mais gente em um ano do que a Inquisição matara em três séculos. O positivismo e o cientificismo deram nascimento a inumeráveis ditaduras iluminadas, algumas das quais entendiam a matança de padres, freiras e índios (especialmente cristianizados) como uma expressão superior da racionalidade humana. O marxismo, não preciso nem falar. Quem não conhece o "Livro Negro do Comunismo"? Os feitos bárbaros que ele descreve seriam monumentos à humildade intelectual? O behaviorismo e escolas psicológicas subsequentes desenvolveram nos seus praticantes a ambição de moldar o comportamento alheio como se fosse um produto industrial. A ecologia reforçou essa ambição, criando projetos de controle global que determinam até o que você pode ou não pode comer e obrigam você a preencher uma pilha de formulários para colher um cacho de bananas. Eric Voegelin chamava "historiogênese" a visão simbólica da história como um processo ascendente que, culminando na pessoa do narrador, fazia da sua época a suprema detentora do conhecimento humano. Inicialmente ele pensou que esse esquema fosse uma invenção da modernidade, mas depois descobriu que isso já existia no antigo Egito e na Mesopotâmia. A historiogênese é um cacoete mental deformante que reaparece em todas as épocas, graças à incoercível tendência do ser humano para fazer de si próprio o umbigo do universo. A modernidade só acrescentou a isso o detalhe especialmente ridículo de que ela descreve a ascensão gloriosa que conduz até ela própria como um processo de autolimitação racional e humildade intelectual crescente. Com isso a concepção umbigocêntrica da história tornou-se caricatura de si própria, nisto consistindo a suprema glória intelectual dos tempos modernos.


Paul Hackett/Reuters

A consciência da consciência

E

mbora estes artigos venham repletos de análises de situações políticas concretas, raramente reproduzo neles algo dos fundamentos de filosofia política e filosofia geral que transmito nos meus cursos. O resultado é que as análises ficam boiando no ar como balões sem dono, soltas do fio que as amarra ao solo comum. Vou aqui remediar isso um pouco, explicando um – apenas um – daqueles fundamentos. O fato de que nas ciências ditas humanas o sujeito e o objeto do conhecimento sejam o mesmo foi muitas vezes lamentado como causa de distorções subjetivistas incompatíveis com as pretensões do rigor científico. No esforço de eliminar essas distorções, muitos estudiosos tentaram constituir aquele objeto como entidade do mundo exterior, à maneira dos fatos da natureza, neutralizando o viés subjetivo do observador. Acontece que aquela coincidência de sujeito e objeto é a verdadeira e efetiva situação de conhecimento nas ciências humanas, e não vejo por que fugir a essa situação mediante analogias com

modelos colhidos de outras ciências deva ser mais útil e proveitoso do que tomá-la inteiramente a sério desde o início como um dado incontornável da realidade. Toda tentativa de constituir o objeto "homem" como coisa externa – e, pior ainda, de recortá-lo do seu fundo concreto mediante a seleção de seus aspectos matematizáveis, com exclusão do resto – só pode resultar na produção de uma analogia, de uma figura de linguagem, de um símile poético. Estudos assim orientados podem criar interessantes metáforas, mas não ciência propriamente dita. Pode-se comparar o homem com formigas, com ratos de laboratório, com programas de computador, ou, como o faz o dr. Freud, com um sistema de pressões hidráulicas. Tudo isso é muito sugestivo, mas, como o número de símiles é ilimitado por definição, o conjunto não tem como deixar de ser totalmente inconclusivo, como inconclusiva é a leitura das obras-primas da literatura universal. A coincidência de sujeito e objeto é, ao contrário, uma posição privilegiada que deve ser assumida desde o início

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Hugo de S. Victor explicava que pensar é transitar de uma ideia à outra.

como premissa e norma orientadora em todo o campo das ciências humanas. A técnica para o estudo de um objeto assim definido, aliás, já existe há milênios e é um dos mais aprimorados instrumentos cognitivos ao alcance do ser humano. Ela chama-se "meditação" e não deve ser confundida com nada daquelas esquisitices que as seitas pseudo-orientais colocaram em circulação sob esse nome. Hugo de S. Victor explicava que pensar é transitar de uma ideia à outra (seja vagando pela floresta das analogias, seja subindo ou descendo na escala das proposições, do geral para o particular e viceversa). Meditar, ao contrário é retroceder metodicamente desde um pensamento até seu fundamento ou raiz na experiência que o tornou possível. Modelos clássicos de meditação são as investigações sobre a natureza do "eu" empreendidas nas Confissões de Santo Agostinho, no Vedanta, no livro de Filosofia Primeira de René Descates, na fenomenologia de Husserl, em inumeráveis trechos de Louis Lavelle ou na Anamnesis de Eric Voegelin. Repassar essas descrições célebres já seria matéria para um curso inteiro. Esquematicamente, a pergunta central é: "A quem propriamente você se refere quando usa a palavra 'eu' na vida de todos os dias?" O percurso da resposta vai de uma mera ideia ou convenção verbal até a experiência de uma realidade ao mesmo tempo imediata e profunda que essa palavra encobre e revela simultaneamente. O eu – não o eu filosófico, abstrato, sujeito hipotético das demonstrações metafísicas, mas o eu concreto, real – não é o corpo, não é as sensações, não é as emoções, não é os pensamentos. Também não é a pura memória, mas é a memória da memória, a memória que se lembra de ter lembrado e responde perante os outros e perante si mesma como autora e portadora única de seus próprios conteúdos. "Consciência", definia Maurice Pradines, "é uma memória do passado preparada para os desafios do presente". O "eu" é aquele que responde por aquilo que sabe, e, mais ainda, por aquilo que ele sabe que sabe . O mais elevado autoconhecimento não consiste senão na admissão de um saber prévio assumido responsavelmente. Mas esse eu não existe somente nas alturas da meditação filosófica. É ele que responde pelas cobranças do mundo em torno nas tarefas e lazeres cotidianos. O eu que responde – o eu responsável – é a realidade humana mais direta, universal

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e permanente. Mesmo culturas que não chegaram a ter uma noção clara da individualidade psíquica já sabiam disso, como o prova o fato de que em todas elas quem é chamado a responder por seus atos é o autor deles, não um terceiro. Não há sociedade, por mais primitiva, onde as noções de autoria, culpa e mérito não estejam perfeitamente identificadas entre si. O eu não poderia ser criado por incorporação de papéis sociais se já não estivesse prefigurado, por um lado, na individualidade física e, por outro, na memória da memória – a recordação de estados interiores revividos na pura intimidade do indivíduo consigo mesmo. O eu responsável – a consciência da consciência – não existe como coisa nem como estado: existe apenas como tensão permanente em direção a mais consciência, mais responsabilidade, mais abrangência e maior integração. A consciência cresce na medida em que se reconhece, e não pode reconhecer-se senão abrindo-se permanentemente a conhecimentos que transcendem o seu patrimônio anterior. A abertura para a transcendência – para aquilo que está para além do horizonte atual de experiência – é portanto um dado permanente da estrutura da consciência. Suprimi-la é falsear na base a situação de conhecimento. A consciência responsável é a verdadeira situação do ser humano no mundo. Observa-se isto nas interações mais simples, onde aquele que fala sempre espera que o outro o compreenda: não apenas que apreenda o sentido de uma frase, mas que adivinhe uma intenção e por trás dela capte a presença de um eu consciente semelhante ao seu. O contrário seria falar com as paredes. O eu responsável é um dos fundamentos primários da sociedade humana. Ele é a origem de todas as ideias, criações, instituições, leis, hábitos, estruturas. Tudo o que, na sociedade, não possa ser rastreado até sua origem no eu consciente assume a aparência de coisa externa vinda ao mundo por pura magia espontânea. É o coeficiente de fantasmagoria que resta em toda sociedade por efeito da alienação e da perda de memória. Que muitos estudiosos da sociedade prefiram concentrar nesse resíduo coisificado as suas atenções, eludindo a incomodidade de uma autoconsciência exigente, cujas demandas no entanto podem continuar atendendo enquanto cidadãos comuns fora das horas de expediente, mostra que aquilo que leva o nome honroso de "ciência" é muitas vezes nada mais que uma Diário do Comércio, forma elegante de fuga da 05 de maio de 2008 realidade.


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e N E O D D N N E A R R P R E A

Vicent West/Reuters

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ecebo diariamente dezenas de perguntas de alunos, leitores e ouvintes, e tento responder a quantas posso, mas em geral recuso todo pedido de orientação religiosa, quando mais não seja porque não considero que eu mesmo seja o protótipo do sujeito orientadíssimo nessas questões. Há, no entanto, uma regra de interpretação bíblica – portanto, de moral religiosa também – que decorre da natureza mesma da linguagem e que ninguém em seu juízo perfeito pode negar, embora muitos a neguem na prática sem percebê-lo. Não aprendi essa regra com ninguém, nem decerto fui o primeiro a descobri-la: depois de ter andado por inumeráveis cabeças de crentes ao longo dos milênios, ela acabou por aparecer na minha, espontaneamente, uma certa manhã, depois de eu ter rezado durante meses a Nosso Senhor Jesus Cristo para que tornasse as Suas palavras mais inteligíveis a um jumento como eu. Tenho portanto minhas razões para acreditar que Ele mesmo, sem que eu o notasse, programou o meu cérebro para aceitá-la. Aos santos, profetas e iluminados, Deus fala em voz alta ou em sonhos. Os burros e teimosos da minha espécie só aprendem em estado de sono profundo, quando repousamos totalmente inconscientes e indefesos entre os braços do Senhor, como as criancinhas, e, por momentos, sem qualquer mérito da nossa parte, desfrutamos de um privilégio a elas reservado. Tenho seguido essa regra há anos, e infalivelmente ela me torna as coisas cada vez mais claras, tanto na decifração de trechos da Bíblia como na resolução de perplexidades da vida. No mais, ela é tão natural e óbvia que só não a seguem os que jamais se deram conta dela. Como geralmente acontece com as verdades mais simples, aquilo que é percebido num relance intuitivo e mudo exige algum requinte lógico para se expor em palavras. Para facilitar a explicação, faço aqui uma distinção entre "normas" e "princípios" – longinquamente inspirada na de Kant e Max Scheler entre ética material e formal, mas sem o mínimo compromisso com a filosofia moral de um ou do outro. Todo sistema moral compõe-se das duas coisas. Normas específicas ordenam ou proíbem um determinado tipo de conduta concreta: não mate, não roube, ajude os órfãos e as viúvas,

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Os burros e teimosos da minha espécie só aprendem em estado de sono profundo, quando repousamos totalmente inconscientes e indefesos entre os braços do Senhor, como as criancinhas, e, por momentos, sem qualquer mérito da nossa parte, desfrutamos de um privilégio a elas reservado.

etc. Quando a ordem não se expressa por um imperativo concreto, mas por uma relação abstrata de proporcionalidade, como numa equação do tipo a/b = x/y, então já não se trata de uma conduta em especial, mas de um princípio que deve ser seguido em todas as condutas, em todas as situações da vida. As normas específicas, para ser obedecidas, requerem distinções e ressalvas que, partindo da sua formulação geral tipológica, as adaptem sabiamente à situação particular do momento. "Não matarás", decerto, mas quem se recuse a fazê-lo na guerra ou em defesa do inocente ameaçado pode arcar com a culpa de expor os outros à morte, por omissão. "Não roubarás", é claro, mas quem tem o direito de se recusar a fazê-lo quando o único meio de transportar um ferido ao hospital é o carro que um proprietário desconhecido esqueceu com a chave na ignição? "Não prestarás falso testemunho", mas isto não quer dizer que você esteja obrigado a dizer a verdade quando um assaltante lhe pergunta onde o seu patrão guarda o dinheiro, ou quando um truculento comissário do povo lhe pergunta onde a sua aldeia escondeu a colheita. Tendo validade tipológica absoluta, as normas são de aplicação eminentemente relativa: relativa à situação, às intenções, ao caráter das pessoas envolvidas, à interferência de fatores culturais, psicológicos e psicopatológicos altamente complexos, etc. etc. etc. Permanentes na sua obrigatoriedade geral, requerem uma interpretação particular, diferente em cada caso e circunstância. Muitas vezes, pessoas de bem fazem o mal, não porque desejem conscientemente violar a regra moral, mas porque erram na sua interpretação particular. Por isso mesmo, Deus não nos forneceu só regras de conduta, mas também os princípios gerais que devem nortear a sua interpretação. Esses princípios, por serem formais como equações e não se referirem a nenhuma situação concreta, são de validade absoluta e incondicional em todas as situações e servem de pedra-de-toque para aferir a interpretação que damos às normas concretas. Nos Dez Mandamentos, essa distinção é clara. Quando alguém lhe pergunta qual o mínimo necessário para entrar no céu, Jesus responde: "Amarás o teu Deus acima de todas as coisas e amarás o teu próximo como a ti mesmo." Os Dez


Mandamentos compõem-se portanto de dois princípios e oito regras. Os princípios são as chaves que determinam o sentido das regras em cada caso. Se um sujeito comete adultério, ele infringe uma regra, mas, se você o aponta à execração nas ruas em vez de perdoá-lo e aconselhá-lo em particular como esperaria que fizessem com você caso o pecado fosse seu, você peca muito mais que o adúltero, pois viola um princípio. Deus perdoa os adúlteros, os mentirosos, os ladrões e até os assassinos, mas não perdoa quem não perdoa. Posso estar enganado, mas suspeito que no inferno há menos adúlteros do que cônjuges virtuosos que lhes negaram o perdão. Ao longo da Bíblia encontram-se muitos princípios formais secundários, derivados dos dois primeiros. São autênticos mapas da mina para a alma atormentada que, nas complexidades da existência, quer fazer o certo mas não sabe o que é o certo. Um desses princípios – o mais frequentemente esquecido, pelas minhas contas – foi enunciado por S. Paulo Apóstolo: "Experimentai de tudo e ficai com o que é bom." Não me canso de meditar essa sentença, e as profundidades que nela encontro preencheriam muitos livros, se eu fosse capaz de escrevê-los. Vejam. São Paulo, ao longo de suas cartas, enunciou muitas regras de conduta, mais pormenorizadas do que aquelas contidas nos Dez Mandamentos. Se você lê essas regras, já sabe portanto o que, segundo o ensinamento do Apóstolo, é bom e é mau. Para que, então, a necessidade de "experimentar"? A distinção mesma entre princípios e regras contém implicitamente a resposta. Para que você evite uma conduta má, não basta saber que, tipologicamente, isto é, genericamente, ela está enquadrada na classificação de "má". A conduta humana não se dirige por abstrações, mas pela percepção direta e sensível das situações. É preciso que você "veja" com seus próprios olhos o mal e o bem. Seres humanos não aprendem só por ouvir dizer – mesmo que a Palavra ouvida seja a de Deus: eles aprendem pela experiência, pela demorada, trabalhosa e dolorosa distinção entre o bem e o mal não em definições gerais simples, mas em situações alucinantemente complexas e ambíguas da vida real. O símbolo do pão, na Eucaristia, significa as virtudes morais, práticas, assim como o vinho significa as virtudes espirituais,

de ordem puramente interior. "Comerás o teu pão com o suor do teu rosto" quer dizer exatamente isso: o pouco de bom que possa haver em nós virá misturado ao mal, e terá de ser separado dele aos poucos, através da experiência, da tentativa e do erro, como numa longa decantação alquímica. Deus pode, é claro, preservar você deste ou daquele pecado por um ato da Graça, mas Ele não está obrigado a fazer isso, muito menos a imunizá-lo de antemão contra todos os pecados possíveis. Ademais, que graça maior você pode receber de Deus além da Sua promessa de justificar os erros tão logo, no caminho da experiência, eles sejam francamente admitidos como tais? Se o Apóstolo distingue entre a experiência e sua conclusão seletiva, ele subentende que nem tudo o que for experimentado será bom, mas que tudo deve ser experimentado sempre em vista do aprendizado e do bem, não do vulgar desejo de experimentar por experimentar, nem de uma dúvida forçada, artificiosa. Platão dizia que "verdade conhecida é verdade obedecida". Tão logo você enxergou nitidamente que certa conduta é má, tem de evitá-la por todos os meios. Até lá, tem uma certa margem de erro justificado, como exigência inerente à própria noção de aprendizado, com a condição de confessar o erro tão logo o tenha percebido como tal e de não teimar nele depois disso. Quando você descobriu o que é bom, não o largue por dinheiro nenhum deste mundo. Eu, que sou burro e não presto, e além disso sou relapso e preguiçoso, enxerguei um pedacinho muito pequenininho do bem, que comparado à minha ilustre pessoa é do tamanho do infinito. Enxerguei-o graças ao conselho paulino. Daí advém a parte estável e séria da minha alma, parte miúda mas muito melhor que o conjunto dela, o qual espero ir melhorando aos poucos até o último dia, conforme outros bens vão rebrilhando aqui e ali entre as obscuridades da minha mente. Vou por partes, decerto. Sou paciente e tolerante comigo mesmo enquanto estou na confusão e na dúvida, mas, tão logo vejo as coisas com claridade, não dou mais moleza ao meu mesquinho ser. Passo num instante dos auto-afagos à palmatória. Não conheço outro método, nem recomendo este a quem saiba de outro melhor. Aos demais, digo com o Apóstolo: Experimentem.

Deus perdoa os adúlteros, os mentirosos, os ladrões e até os assassinos, mas não perdoa quem não perdoa. Posso estar enganado, mas suspeito que no inferno há menos adúlteros do que cônjuges virtuosos que lhes negaram o perdão.

Diário do Comércio, 02 de junho de 2008

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Um capítulo de memórias

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Reprodução

ue o leitor me permita começar este artigo por um episódio da minha porca vida, do qual espero tirar algumas conclusões de interesse geral. Tão logo cheguei a este mundo, uma estranha infecção pulmonar adiou meu ingresso oficial nele durante sete anos, reduzindo-me a um estado de inconsciência febril e delirante do qual só emergi no dia de ir para a escola, se bem que meus desafetos digam que não saí dele jamais. Embutido no uniforme, eu me parecia exteriormente com os demais meninos, mas por dentro era um bebê, simplório como um passarinho, por total ignorância não só dos pecados como também de tudo o mais. Sendo a escola uma instituição religiosa, os professores leram-me trechos do Evangelho, que me comoviam até às lágrimas, mas daí, mediante uma lógica que me escapava, deduziam e me atribuíam a incumbência de confessar meus pecados, dos quais o único que me ocorria, na minha desesperadora informação fidedigna quanto à natureza das pobreza de repertório, era o pecado original. porcarias – e mesmo depois de cientificado ainDisfarçando como podia a minha radical inda continuei duvidando que as pessoas fizescompreensão do estado de coisas, entrei na fila sem mesmo aquelas coisas, as quais me paredo confessionário esperando que, quando checiam sumamente despropositadas e tediosas. gasse a minha vez, tudo se esclareceria. Mas foi Tardiamente chegado a um universo repleto Eu não tinha a mais então que veio o pior. De trás de uma cortina de estímulos e desafios, eu não podia conceber mínima ideia do que que o tornava semi-invisível, um padre não que alguém perdesse seu tempo "fazendo poridentificado me perguntou: carias" em vez de se dedicar a alguma atividapodiam ser as tais – Você fez porcarias? de mais substantiva, como jogar bolinha de guporcarias, mas, fossem Eu não tinha a mais mínima ideia do que pode, brincar de Roy Rogers ou ir à matinê ver os lá o que fossem, diam ser as tais porcarias, mas, fossem lá o que desenhos de Tom & Jerry. pareciam ser comuns a fossem, pareciam ser comuns a toda a humaniMais tarde informaram-me que alguns metoda a humanidade, (...) dade, de modo que, por mera precaução, resninos se dedicavam mesmo a um exercício depondi: "Sim." E já ia me sentindo muito alivianominado "troca-troca", mas, como jamais eu do pelo meu sucesso neste teste inicial, quando visse nenhum deles se entregando a essa práo padre voltou à carga: tica, permaneci incrédulo, só fingindo acredi– Com meninos ou com meninas? tar em tudo para não desagradar a ninguém e para não parecer Agora ele me pegou, pensei aterrorizado. Como poderia eu ainda mais esquisito do que aquilo me parecia a mim. As porsupor que aquele delito misterioso e incognoscível se praticacarias, no fundo, se é que existiam mesmo, deviam ser coisa de va com ambos os sexos? Não querendo, porém, dar o braço a gente grande, aquelas pessoas aborrecidas que só falavam de torcer, declarei peremptoriamente: "Com os dois." Feito isso, assuntos chatos – dívidas, doenças, arrumação de casa, polífui liberado para a parte leve do serviço, que consistiu em rezar ticos corruptos, juízes de futebol ladrões – e, para cúmulo, dez Pai-Nossos e dez Ave-Marias, coisa que eu já fazia habiachavam normal comer brócolis em vez de sorvete. Que encantualmente sem ter de passar por aquele vexame preliminar. to pudesse haver nos seus afazeres porcaríferos era algo que Alguns meses se passaram antes que eu recebesse alguma me escapava por completo.

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Quando, finalmente, compreendi do que se tratava, admiti que podia até haver algum interesse na coisa, mas aí um outro fenômeno me chamou a atenção, e este não era nem um pouco divertido: meditando a experiência da minha primeira confissão, descobri o abismo imensurável e sem fundo que pode haver entre a realidade da nossa alma e as imagens padronizadas que somos chamados a personificar na sociedade, imagens pelas quais os outros nos reconhecem, que eles chamam pelo nosso nome e nas quais, pelo efeito da repetição, acabamos por acreditar, sufocando a memória da nossa experiência efetiva e substituindo-a por um arranjo cômodo de aparências, que por sua vez se amoldam tão bem às necessidades da comunicação diária que acabamos por achar que são o verdadeiro "eu". A essa altura, aquela parte que ficou para trás, sem nome, não desaparece de todo, mas, excluída do mundo da linguagem, torna-se o nosso depósito pessoal de fantasmas, de temores inconfessáveis, de vergonhas indizíveis, de sensações informes e incomunicáveis. Durante o meu período de doença, conheci mais dores e sofrimentos do que em geral os meninos da minha idade podiam sequer imaginar. Era todo um universo sombrio, opressivo, fechado. Sobretudo incomunicável: eu bem via o rosto angustiado de minha mãe, de meu pai, de meus tios, tentando puxar a minha dor para si próprios, mas conseguindo apenas olhá-la de fora, atônitos e inermes, e atormentar-se em vão. Todo mundo passa por experiência semelhante algum dia, seja por meio da doença, da pobreza, da loucura, do abandono, da prisão. Minha diferença é que eu conheci esse lado obscuro da vida antes de conhecer qualquer outra coisa. Quando emergi desse inferno, tudo em volta me parecia tão interessante, tão bonito, tão atraente, que a hipótese de alguém poder entediar-se ao ponto de ter de buscar uma fonte extra de deleites me parecia simplesmente inverossímil. Eu não conhecia o sexo e, no meu deslumbramento com tudo o mais, não imaginava que alguém pudesse precisar dele (tudo o que depois li sobre sexualidade infantil me parece uma bobagem descomunal). Mas a estranha conjunção de uma experiência prematura do sofrimento humano com a ignorância radical de fatos elementares da fisiologia fez de mim uma incongruência viva, como Lao-Tseu, que nasceu velho e com o tempo foi se tornando um bebê. Claro, eu não era o único esquisitão do universo. Mais tarde descobri que cada ser humano tem por dentro algo de radicalmente

Em Machado de Assis, o único personagem sincero, o único que fala consigo mesmo e tenta se compreender a si próprio e aos outros, o conselheiro Aires, acaba vivendo num prudente e recatado isolamento.

Diário do Comércio, 23 de junho de 2008

diferente dos outros, um recinto próprio que a linguagem mal consegue penetrar e que, embora constitua a sua existência mais íntima e pessoal, acabará sendo totalmente ignorado pelos que em torno imaginam conhecê-lo. Toda a riqueza e o interesse da convivência humana consiste em usar os esterereótipos como meros bilhetes de ingresso nesse recinto, jogando-os fora tão logo entramos mais fundo na alma alheia. Mas como poderíamos fazer isso, se tudo em volta nos convida a encarnar os estereótipos cada vez mais esforçadamente, com um arremedo de sinceridade cada vez mais perfeito, até acabarmos acreditando que eles são nós? As sociedades humanas podem ser comparadas – e julgadas – pelo seu sucesso ou fracasso em transmutar a linguagem comum em instrumento do encontro genuíno entre os seres humanos. E, de tudo o que vi e vivi depois, concluí que a sociedade brasileira se destaca pelo total desinteresse em fazer isso, pela acomodação complacente a uma convivência feita só de estereótipos. Foi isso o que o conde de Keyserling, aquele observador arguto, notou ao dizer que, enquanto nos outros países as pessoas só imitam aquilo que desejam tornar-se no futuro, os brasileiros se contentam com a imitação enquanto tal, esmerando-se nela ao ponto de esquecer que é possível ser algo na realidade e acabando por acreditar que a única coisa a esperar da vida é o sucesso no fingimento. Não é à toa que a obra do maior dos nossos ficcionistas é uma galeria de fingidos, hipócritas e palhaços como jamais se viu no mundo. Em Machado de Assis, o único personagem sincero, o único que fala consigo mesmo e tenta se compreender a si próprio e aos outros, o conselheiro Aires, acaba vivendo num prudente e recatado isolamento. Isso explica muita coisa da nossa política. No meu caso, justamente a confissão, que deveria ser o encontro mais íntimo da consciência interior com o observador onissapiente, acabou se transformando no desencontro completo entre a rotina de um confessor entediado e a confusão mental de um menino ignorante. O Papa João Paulo II acertou em cheio quando disse que os brasileiros são cristãos no sentimento, mas não na fé. Não existe fé sem vida interior, mas a vida interior começa pelo ingresso naquele recinto fechado, sombrio, e pelo esforço de comunicar o incomunicável. O brasileiro acha isso angustiante demais e, buscando alívio numa familiaridade fácil, acaba por se transformar no seu próprio estereótipo. JULHO/AGOSTO 2012 DIGESTO ECONÔMICO 105


Pecadores, com a graça de Deus

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Dia de Ação de Graças, que se festeja desde o século XVI, mas foi instituído como data oficial por George Washington, é um dos últimos motivos remanescentes para os EUA não se tornarem de vez uma nação de meninos mimados odientos, empenhados em vingar-se de seus benfeitores. Malgrado as tentativas de inocular neles a amargura e a revolta, em geral os americanos continuam gratos de viver num país tão rico e generoso, de modo que em seus corações o sentimento de amor a Deus se mescla indissoluvelmente com o amor à pátria. Nos EUA, é às vezes difícil saber onde termina a religião e onde começa o civismo. Instituindo o Thanksgiving Day em 3 de outubro de 1789, George Washington escreveu: "É dever de

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todas as nações reconhecer a providência de Deus Todo-Poderoso, obedecer à Sua vontade, ser gratas aos Seus benefícios e humildemente implorar Sua proteção e favor." Essas palavras já respondiam antecipadamente àqueles que negam a origem judaico-cristã das instituições políticas americanas. Como alguns amigos americanos me pediram que celebrasse o Thanksgiving com eles escrevendo umas linhas sobre o sentimento de gratidão, decidi tomar como ponto de partida o que pode haver de menos cristão ou judaico: as ideias do filósofo Peter Singer, o professor de Princeton que não vê grande diferença entre matar uma galinha para comê-la e estrangular um bebê para jogá-lo no lixo.


A ética do prof. Singer é baseada num conjunto de argumentos bem simples e razoáveis: 1) Causar sofrimento é indiscutivelmente um mal. 2) Causamos necessariamente sofrimento aos animais quando os matamos e comemos. 3) Não há nenhuma prova de que a sobrevivência de um animal à custa do sofrimento de outro seja um bem. 4) Vivemos, portanto, do mal, sobretudo quando pretendemos ver na nossa própria sobrevivência à custa dos outros um bem. 5) Se somarmos ao sofrimento que causamos ao reino animal o mal que nos infligimos uns aos outros desde a origem dos tempos, veremos que o mal impera no mundo em quantidades tais que não sobra nenhuma razão plausível para supor que um Deus bom tenha criado tudo isso. À primeira vista, não há como refutar esses argumentos. Ao contrário, tudo o que podemos fazer é aceitá-los e prosseguir raciocinando com base neles, em busca de uma ética que não feche os olhos à dura realidade que eles expressam. Desde logo, não há nenhuma prova de que os vegetais não sofram tanto quanto os animais quando os arrancamos do solo, cortamos, assamos e comemos. Desde a publicação de The Secret Life of Plants de Peter Tompkins e Christopher Bird em 1973, até o estudo mais recente de Anthony Trewavas, "Green plants as intelligent organisms" (2005), têm-se acumulado indícios de que as plantas possuem algumas habilidades cognitivas e afetivas. É verdade que nem toda a comunidade científica aceita essas provas, mas o simples fato de que a discussão se arraste sem conclusões unânimes nos impõe por sua vez a conclusão de que seria uma temeridade afirmar, sem mais, que comer vegetais é um ato moralmente inofensivo. Muito menos existem provas de que alimentar-se exclusivamente de vegetais torna os seres humanos melhores ou menos violentos. Adolf Hitler era vegetariano, e a história da mais vegetariana das civilizações, a indiana, é um cortejo de horrores que prossegue no século XX com o massacre de muçulmanos pelos hindus quando da independência da Índia e com a matança sistemática de cristãos hoje em dia. De um ponto de vista singeriano, portanto, nenhum ser vivo – animal ou vegetal – pode

O sentimento de gratidão à infinitude divina não é um ritual religioso, embora possa sê-lo também: ele é, na base, a única atitude sensata dos seres humanos que reconhecem a estrutura da realidade e não se deixam hipnotizar por pesadelos demoníacos, mesmo que venham de Princeton.

moralmente ser trucidado e comido pelas criaturas humanas. Isso equivale a afirmar que comer, no sentido mais geral da palavra, é um pecado e um crime. Mas, se todo mundo houvesse se refreado de cometer esse crime desde o começo da história humana, não haveria história humana nenhuma e não estaríamos aqui discutindo esse adorável assunto. A conclusão inapelável que se segue é que, no sentido mais geral, a vida humana é um pecado e um crime – conclusão que a própria Bíblia subscreve sob o nome de "a Queda". Não há, pois, uma oposição formal entre o cristianismo e as ideias do prof. Singer. O que há é uma diferença de escala, pois o prof. Singer baseia toda a sua ética na observação do que se passa no mundo material submetido a determinações quantitativas, entre as quais a necessidade de alimentos, ao passo que a Bíblia inclui a totalidade desse mundo no quadro imensuravelmente maior da infinitude divina. Não é preciso ser muito inteligente para compreender que tudo aquilo que é quantitativo e finito, ainda que imensamente grande, está contido no infinito como um grão de areia no fundo do oceano. O infinito não tem limitações de espécie alguma e é, ao mesmo tempo, a única coisa que tem de existir necessariamente. Pretender que o universo quantitativo e finito seja a medida última da realidade é autocontraditório, pois uma coisa só termina onde faz fronteira com outra, de modo que a ideia mesma de finitude supõe a existência do infinito para além do finito. O universo finito está submetido à Segunda Lei da Termodinâmica, ou entropia, não tendo como subsistir se não for continuamente realimentado e regenerado pelo infinito. Mais ainda, o infinito não pode nem mesmo ser considerado só do ponto de vista quantitativo, pois a quantidade é em si mesma uma limitação. O infinito transcende todas as determinações quantitativas e só pode ser concebido como uma pletora de qualidades positivas ilimitadas, o Supremo Bem de que falava Platão. Nenhum argumento racionalmente defensável pode ser apresentado contra a existência do Supremo Bem, pois todos resultam em atribuir infinitude àquilo que eles mesmos admitem como finito. O Supremo Bem é, ao mesmo tempo, a Suprema Realidade. Vistos na escala do infinito, todos os males do mundo finito, por imensos que sejam, são anulados no mesmo instante. Não se pode JULHO/AGOSTO 2012 DIGESTO ECONÔMICO 107


conceber uma única privação ou limitação que, na escala do infinito, não esteja compensada automaticamente pela profusão ilimitada das qualidades correspondentes. A Bíblia descreve a Queda, precisamente, como o instante em que os seres humanos perderam de vista a escala da infinitude, passando a considerar o mundo finito como o horizonte último da realidade e, por isso mesmo, as coisas finitas como o objeto exclusivo dos seus desejos. As constantes menções pejorativas do discurso religioso aos "desejos carnais" evocam popularmente a atração entre os sexos, mas essa atração não pode ser boa nem má em si mesma, pois ela tanto pode significar a obsessão pela posse sexual de um corpo determinado, quanto a abertura para o desejo do amor infinito por trás da sua concretização temporária na afeição entre dois seres humanos. Segundo o clássico Dicionário Etimológico de Ernout e Meillet, a palavra "carne", do latim caro, vem de uma raiz osco-úmbria que significa "cortar" ou "fazer em partes", a qual subsiste de maneira mais clara no grego karenai, no irlandês scaraim e no lituano skiriu, todos com o sentido de "cortar" ou "separar", bem como no próprio latim curtus, que originou os termos portugueses "cortar", "curto" e, por fim "castrar". O desejo carnal que a Bíblia condena é a afeição hipnótica pelo bem terreno amputado, cortado, separado da sua raiz na infinitude. É o desejo cego de uma coisa ilusória que só pode resultar, por sua vez, na separação entre a consciência humana e o fundo divino da realidade – um fenômeno que condensa em si as características de alienação, ou afastamento, e de castração ou autocastração espiritual. A castração consiste na perda da capacidade gerativa, portanto também regenerativa. Na escala do infinito, tudo aquilo que é consumido, perdido, extinto ou gasto no domínio da matéria e do tempo é instantaneamente reconquistado e recriado na eternidade. A eternidade é a infinita regeneração de tudo. Tudo aquilo que entrou na existência por um momento, ainda que brevíssimo, não pode nem voltar a existir no tempo nem desaparecer da eternidade: o

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que um dia foi "ser", não pode voltar ao "nada", porque o nada nunca foi. Considerado no entanto em si mesmo, separado do infinito, o mundo finito é o mundo da contínua extinção, o mundo da entropia. A castração espiritual consiste em perder o sentido da regeneração perpétua, por meio do corte entre o finito e o infinito – a prisão no mundo da "carne". Nesse mundo, um simples pé de alface que você coma é uma perda irreparável. Bilhões de galinhas, carneiros, vacas e porcos sacrificados em vão na mesa da espécie humana são provas sangrentas da universalidade do mal e do absurdo. O prof. Singer tem toda a razão no que concerne ao mundo finito. Mas, curiosamente, em vez de voltar-se em seguida com gratidão para o infinito que tudo cura e regenera, ele usa o mal do mundo finito como prova da inexistência do infinito. Isto não faz sentido, já que o finito não pode sequer ser concebido em si mesmo como totalidade sem referência ao infinito. Quer dizer: o prof. Singer condena o mundo finito no instante mesmo em que o glorifica como realidade última, suprimindo o infinito. Mas, como vimos, é essa mesma supressão que torna o mundo finito mau e insuportável, uma imagem do inferno. O prof. Singer tranca-nos no inferno e depois nos acusa de viver no inferno. Seus argumentos contra o mundo finito são verdadeiros, mas, na escala do infinito, tornam-se banais e irrelevantes. Nossa existência só tem sentido e valor quando reconhecemos a limitação do finito e, erguendo os olhos ao infinito, admitimos que essas limitações são também limitadas, passageiras e, em termos absolutos, ilusórias: só a infinitude divina é real de pleno direito – e é ela que torna a nossa vida possível, suportável e cheia de sentido, ao contrário do festival macabro de interdevoração que nos descreve o Prof. Singer. O sentimento de gratidão à infinitude divina não é um ritual religioso, embora possa sê-lo também: ele é, na base, a única atitude sensata dos seres humanos que reconhecem a estrutura da realidade e não se deixam hipnotizar por pesadelos demoníacos, mesmo que venham de Princeton. Dar graças ao Senhor é obrigação de todas as criaturas pensantes e de todas as nações.

Diário do Comércio, 05 de dezembro de 2008


m que a e t s i l s a e A virou

E

m 1939, Eric Voegelin observava que as condições essenciais para a democracia, tal como haviam sido concebidas no século XVIII, já não existiam mais. De um lado, a economia e a administração pública tinham se tornado tão complexas, que o cidadão comum já não preenchia as condições mínimas para formar uma opinião racional a respeito: sua razão refluíra para o círculo estreito das atividades profissionais e familiares, deixando suas escolhas políticas à mercê de apegos emocionais, desejos pueris, sonhos e fantasias

que o tornavam presa fácil da propaganda totalitária. De outro lado, as novas classes surgidas na sociedade moderna – o proletariado urbano, o baixo funcionalismo público, os empregados de escritório – eram bem diferentes dos pequenos proprietários que criaram a democracia iluminista: eram exemplares do "homem massa" de Ortega y Gasset, menos inclinados à busca da independência pessoal do que a confiar-se cegamente à mágica do planejamento estatal e da disciplina coletiva. Tudo, no mundo, convidava ao totalitarismo.

Svilen Milev/SXC

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O exercício da razão, hoje, é um privilégio dividido entre os grandes planejadores estratégicos e engenheiros comportamentais, que por motivos óbvios não pensariam em partilhá-lo com ninguém mais, e os estudiosos independentes que tentam em vão partilhá-lo com quem não o deseja.

Passados setenta anos, a composição da sociedade tornou-se ainda mais vulnerável à manipulação totalitária. O advento de massas imensas de subempregados, dependentes em tudo da proteção estatal, somada à destruição da intelectualidade superior por meio da transformação global das universidades em centros de propaganda revolucionária, reduziu praticamente o eleitorado inteiro à condição de massa de manobra. As consequências disso para a democracia foram devastadoras: 1) A quase totalidade dos eleitores já nem tem ideia do que possa ter sido a independência pessoal, e aqueles que ainda sabem algo a respeito estão cada vez mais dispostos a abdicar dela em troca da proteção governamental, de benefícios previdenciários, etc. 2) A defesa das liberdades públicas e privadas tornou-se irrelevante. A mística do "planejamento" apossou-se de todas as consciências ao ponto de que o que resta de debate público ser hoje nada mais que o confronto entre diferentes – e em geral não muito diferentes – planos mágicos. 3) A possibilidade mesma de iniciativas sociais independentes foi praticamente eliminada, na medida em que a regulamentação das ONGs as transformou em extensões da administração estatal e em instrumentos de manipulação das massas pela elite iluminada e bilionária. 4) A "liberdade de opinião" tornou-se apenas a liberdade de aderir a distintos ou indistintos discursos de propaganda prémoldados. O exame racional da situação tornou-se virtualmente incompreensível, sendo marginalizado ou absorvido, malgré lui, em algum dos discursos de propaganda existentes. 5) A implantação de políticas de controle totalitário – da economia, da cultura, da

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religião, da moral, da vida privada – mostrou-se plenamente compatível com a subsistência do processo eleitoral formal, hoje tido como suficiente para conferir a uma nação o título de "democracia". Com esse nome ou o de "democracia de massas", a ditadura por meios democráticos tornou-se praticamente o regime universal. 6) Restringir o uso da racionalidade às atividades profissionais imediatas, abandonando as escolhas políticas à mercê de sonhos e desejos irracionais, deixou de ser um hábito limitado às classes populares. As próprias "elites", hoje em dia – empresários, militares, jornalistas e formadores de opinião em geral – são tão dependentes de propaganda, slogans e imagens ilusórias, tão incapazes de um exame realista do estado de coisas, quanto os empregadinhos de escritório de que falava Eric Voegelin. Se um analista político lhes dá fatos, razões, diagnósticos fundamentados e previsões acertadas, a "elite" se sente mal. Ela não se ofende quando você lhe sonega a verdade, como ocorreu no caso do Foro de São Paulo ou da biografia de Barack Hussein Obama, mas quando você lhe conta alguma verdade que divirja das pseudocertezas estereotipadas da mídia popular, hoje investida de autoridade pontifícia. A elite, em suma, tornou-se massa – e, como massa, não quer conhecimento, visão, maturidade: quer aquele reconforto, aquele amparo psicológico, aquelas ilusões anestésicas que os manipuladores totalitários jamais deixarão de lhe fornecer. O exercício da razão, hoje, é um privilégio dividido entre os grandes planejadores estratégicos e engenheiros comportamentais, que por motivos óbvios não pensariam em partilhá-lo com ninguém mais, e os estudiosos independentes que tentam em vão partilhá-lo com quem não o deseja.

Diário do Comércio, 1º de dezembro de 2008


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Digesto Econômico nº 469  

O Poder da palavra - Olavo de Carvalho

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