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artes plรกsticas

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ARTEVERSA

arteversa JUL/ago/SET 2018


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mĂşsica

arteversa JUL/ago/SET 2018


editorial

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arteversa

O

objetivo da revista Arteversa é a divulgação e o incentivo ao interesse à arte em várias de suas formas. A missão que adotamos para nossa revista é divulgar artes diversas para pessoas diversas: seja por meio do teatro, da música, do cinema, da literatura ou da dança. O compromisso que a Arteversa tem com seus leitores é promover a cultura para aqueles que a apreciam e aqueles que virão a apreciar. Nesta

edição de estréia queremos propor um debate por meio do tema Arte e Resistência. Como uma plataforma de expressão e criação, a arte se mostra como instigadora de movimentos que contam histórias. Histórias de luta, repressão e coragem de grupos que continuam a resistir e buscar seus lugares de direito no meio artístico e social. A Arteversa apoia e divulga esses movimentos na revista desse trimestre.

quem somos nós? alynka joyce, 22 DESIGN GRÁFICO|4ª FASE

Debora FISCHER, 21 DESIGN GRÁFICO|3ª FASe

francielle louise, 24 DESIGN de produto|8ª FASE

luiza nogueira, 19 DESIGN GRÁFICO|3ª FASE

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Representatividade negra no cinema nacional : um panorama

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LGBTQs na música: ecos dos anos 1970

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teatro

artes Plásticas

Nise da Silveira e seus artistas: arte e psiquiatria

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música

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cinema

dança

Entrevista: Kátia Barros: coreógrafa e dançaria

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Musical Popular Brasileiro: crítica e comédia


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coluna

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passatempo Os Incríveis 2: o retorno da família superpoderosa

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literatura Obras de autoras incríveis: leituras imperdíveis

Esta publicação trimestral tem como realizadora a Fundação Cultural BADESC: Rua Visconde de Ouro Preto, 216. Centro, Florianópolis - SC. fundacaocultural@badesc.gov.br Sua distribuição é gratuita e feita nos principais centros de cultura da Grande Florianópolis. Miolo impresso em papel couchê 90g, capa em couchê 300g. Equipe: Alynka Joyce (páginas 6-16 e 53-55) Debora Fischer (páginas 4-5, 17-24, 49-50 e capa) Francielle Louise (páginas 25-37 e 52) Luiza Nogueira (páginas 2-3, 38-48 e 51) Esta revista foi desenvolvida como parte de um projeto acadêmico da disciplina de Projeto Editorial (P5), do curso de Design da Universidade Federal de Santa Catarina. 2018. Emydgio de Barros (Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, 1895 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1986). Foi interno do Hospital Psiquiátrico D. Pedro II e um dos pacientes de Nise da Silveira, sobre a qual é o foco da matéria de capa desta edição de estréia. Uma das obras do pintor estampa a capa desta Arteversa.


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entrevista

Cenógrafo premiado fala sobre a arte de criação de ambientes para peças teatrais Fernando Marés, 58 anos produziu o cenário de mais 50 peças tearais e recentemente ganhou o prêmio Shell por um dos trabalhos. É Mestre formado em Teatro pela Universidade Estadual de Santa Catarina. Você tem uma trajetória de mais de 30 anos de carreira. Como foi despertado seu interesse pela cenografia? Formei-me em um curso de teatro no início dos anos 80 no Teatro Guaíra, em Curitiba. Durante o curso eu já me destacava pelo olhar diferenciado, pela questão de visibilidade que tinha do palco, porque organizava os figurinos e objetos. A partir daí procurei fazer oficinas e trabalhar como assistente de alguns cenógrafos. Há nove anos comecei junto com a Companhia Brasileira de Teatro, e já temos uma parceria bem consolidada. Depois de atuar 25 anos no mercado, decidi voltar e fiz graduação no curso de Teatro da Udesc (Universidade Estadual de Santa Catarina), me formando no mestrado. Como é realizada a construção de um cenário de peças teatrais? O que é necessário para ser um bom cenógrafo? É um processo criativo intenso, em que você tem mergulhar na peça. Geralmente meu processo envolve muita conversa com os atores, diretores, iluminadores e também leio o texto

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da peça sozinho e com a equipe, construir um cenário é sempre algo incômodo e provocante. Cômodo seria ler o texto e já apresentar uma maquete pronta. O cenógrafo contemporâneo não atua mais desta forma. Para ser um bom cenógrafo é necessário observar: ver, escutar, ler, para então depois propor. É um contradiscurso, porque você não constrói algo, mas sim desconstrói. Claro que também é fundamental ir muito a espetáculos e estudar a história do teatro, para se formar uma visão crítica do que está sendo criado. Gostar de desenhar também é um requisito importante, porque o desenho dá uma noção espacial aos cenógrafos. O cenógrafo é tão importante quanto o ator? Não. O cenógrafo não tem uma importância fundamental como o ator. Você pode fazer peças sem cenários. Já fui convidado para trabalhos que disse que não era necessário criar um cenário, no máximo uma cadeira ou algum objeto. Algumas vezes não é preciso construir paredes e montar objetos e móveis para se contar uma história. Na dança existe muito isso, o palco limpo. Mas quando há cenário, é de extrema importância que haja alguém responsável por ele. O cenário é uma construção, é o espaço que o ator ocupa. Ela tem que estar sempre muito atento ao ator, ao personagem com atenção. Qual é o papel da cenografia no teatro? Tem vários papéis, aí que mora a grande riqueza. O cenário serve para despertar sentidos no público e a cenografia não representa de fato um espaço, mas apresenta um lugar, e é neste lugar


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Foto: Divulgação

artes plásticas

Cena da peça Essa Criança - Premiada por Fernando Marés no Prêmio Shel.

onde se passará a história, o cenário é uma sugestão, uma indicação, na minha dissertação de mestrado realizei uma leitura do cenário como instrumento alegórico: as pessoas estão acostumadas com o palco clássico, estilo palco italiano. Quando algo diferente é apresentado, há uma ruptura. Por exemplo, na peça “Essa Criança”, em que ganhei o prêmio Shell no ano passado, construí um palco estendido, que avança para plateia, isso deu um espaço maior para que houvesse uma divisão cenográfica. Normalmente faço cenários que precisam de muitos ajustes técnicos. Estou trabalhando em uma peça que estreia no próximo mês, chamada “Nômades”, em que as paredes literalmente caem no decorrer do espetáculo. É necessário sair da zona de conforto, do óbvio. Esse é o papel da cenografia, acrescentar carga dramática em toda a história da peça.

e não criando de fato, porém, um bom cenógrafo se diferencia quando realmente mergulha na obra durante o processo de concepção dos trabalhos, para que não seja visto somente a superfície das coisas.

O trabalho do cenógrafo é valorizado no mercado de trabalho? Há espaço para atuação? Sim. O mercado de trabalho para cenografia está aberto como nunca esteve, e o cenógrafo é cada vez mais valorizado. É claro que para os iniciantes é necessário esforço e ainda há muito a melhorar. O teatro ainda é marginal se comparado às outras artes e mídias. Ser artista é ser marginal, e é necessário perceber essa marginalidade como condição para ser artista. A ascensão do mercado de cinema no nosso país também tem contribuído positivamente para a atuação dos cenógrafos, pois há uma transitoriedade do profissional, já que o cenógrafo pode ser um diretor de arte, você pode ganhar muito dinheiro reproduzindo cenários

Qual a diferença entre um cenotécnico e um cenógrafo? O cenógrafo é o profissional que idealiza, que desenha, que projeta e que resolve plasticamente o espaço. O cenotécnico é aquele que coloca as coisas em pé, que efetivamente constrói o projeto concebido pelo cenógrafo. O cenotécnico trabalha na área operacional construtiva. Ele tem que tem entender da mecânica, estrutura e dos materiais. Não que o cenógrafo não saiba disso, porque já se tem no projeto o tipo de material que será utilizado e as demais informações, mas o cenotécnico vai aprimorar esse trabalho. Diferentemente do cenógrafo, que trabalho na área artística, o cenotécnico trabalha na área operacional construtiva.

Você afirmou que é necessário criar múltiplas possibilidades e sair do comum quando se concebe um cenário. Como buscar essa diversificação? Todo e qualquer ambiente pode ser um palco. Existem peças contemporâneas que são apresentadas em lugares inusitados, como apartamentos ou bares. Essa diversidade espacial de possibilidades é extremamente válida para atuação da cenografia. A cenografia que exercito busca a reflexão, que mesmo implícita na sua forma, tem uma relação ao lugar escolhido para se fazer o teatro, a apresentação.

Por Marciano Diogo

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Foto: Cleiton de Paula/ArteView

mpb

‘‘Musical Popular Brasileiro’’ revive o irônico humor do teatro de revista


teatro

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Embalado pela MPB, espetáculo satiriza política e sociedade brasileira

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arnaval, bom gingado, praias, futebol (….) por mais que nosso país seja muito mais do que tais estereótipos que tanto nos caracteriza, não há como pensar neles sem associá-los ao Brasil, mesmo que automaticamente. A própria música popular brasileira expressa muitas dessas características de uma forma poética, inspiradora e reflexiva, quando suas letras também chamam a nossa atenção para os problemas sociais do país e a necessidade de mudanças. Os tempos passam, mas o contexto político, econômico e social marcado por desigualdades, corrupção e crises continua a reinar por aqui. Mudam-se os atores, e permanecem os cenários que ainda assolam nossa nação. Nessa mescla de exaltação das qualidades e críticas aos problemas sociais, o espetáculo MPB Musical Popular Brasileiro busca retratar o nosso Brasil. Com direção de Jarbas Homem de Mello, a peça é apresentada ao estilo de teatro de revista. Homem de Mello vem se destacando muito no ramo dos musicais, principalmente como ator, em razão do seu talento artístico. Gênero teatral popular que começou no Brasil ao final do século XIX, o teatro de revista destacou-se à época como um retrato sociológico nacional, usando o duplo sentido para expressar suas críticas sociais, mesclando dança, teatro e música, num estilo de humor irônico. Geralmente suas apresentações se constituem em esquetes, que além da música e da dança, fazem apelo à sensualidade intercalada com as sátiras sociais e políticas. É justamente essa miscigenação de gêneros e estilos cênicos que estão presentes no Musical Popular Brasileiro.

A peça se inicia narrando a cena de uma visita de investidores estrangeiros a uma filial brasileira de uma empresa multinacional, a qual, para impressioná-los, decide montar um grande musical com repertório da Música Popular Brasileira. Para isso, ela convida um antigo diretor de musicais (Marcelo Góes), que não demora a aceitar a proposta de conduzir o espetáculo. Mas assim que os trabalhos de preparação começa, o nervoso diretor passa por vários estresses, que culminam num ataque do coração e o leva literalmente às portas do Céu, onde ele encontra dois anjos caídos, fugidos do inferno, com o Jura (Érico Brás) e Gero (Reiner Tenente). Desesperado para voltar à Terra e dirigir seu musical, ele terá que montar um musical em tempo recorde com as estrelas da MPB já falecidas, como condição dada pelos anjos para retornar ao mundo dos vivos. Uma das grandes responsáveis pelo humor irônico certamente é a dupla de anjos que arranca risadas ao longo da peça. Com trejeitos desengonçados e hilários, os atores Érico Brás e Reiner Tenente estão muito bem em seus papéis, os quais fazem críticas aos problemas do país, sem deixar o humor de lado. A atriz Adriana Lessa também participa do espetáculo, interpretando uma grande estrela de musicais. Vinte canções compõem o repertório do espetáculo, incluindo sucessos de Cazuza, Chico Buarque, Vinícius de Morais, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gonzaguinha, Belchior entre outros. A peça está no Teatro das Artes Shopping Eldorado, em São Paulo, todas as quinta, sexta, sábado e domingo. Conheça, cante e divirta-se com os maiores sucessos da MPB. Por Mariana Mascarenhas

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arte e liberdade Zula Cia de Teatro monta peça a partir de experiência em presídio

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eza uma lenda japonesa que aquele que fizer mil tsurus de origami terá um desejo realizado. Ao cabo de séculos essa tradição viajou entre ocidente e oriente. Do lado de cá do oceano, mulheres que cumprem pena no pavilhão externo do Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto dobraram exatos mil tsurus. Tão vermelhos quanto seus uniformes. Os passarinhos foram confeccionados em uma semana e dependurados no hall de entrada do presídio. Em resumo, era como se voassem para fora do cárcere. Assim, as mil dobraduras de papel carregavam os pedidos das mulheres e voavam rumo a um mesmo destino: a liberdade. A mostra é parte de um projeto da companhia que atravessou os anos de 2016 e 2017. Foi responsável por oferecer aulas de teatro para mulheres privadas de liberdade. Entre envio de projetos e conversas com as diretorias do presídio, a sócia-fundadora da Zula e líder do projeto, Talita Braga, levou quase um ano para adentrar os portões do complexo. Com um trabalho focado na mulher em situações marginais (“As Rosas no Jardim de Zula”) e em histórias de conflito relacionadas à maternidade (“Mamá”), o desejo de trabalhar com mulheres em cárcere, para a atriz e a própria companhia, era antigo. Era toda terça-feira, durante o banho de sol. Algum tempo depois, as atrizes Kelly Crifer e Mariana Maioline se uniram ao projeto. Assim, o sucesso das aulas foi tamanho que o projeto teve continuidade até setembro do ano seguinte. As meninas amaram e os resultados foram muito melhores que a gente esperava. A direção e as nossas alunas pediram para continuarmos”.

Foto: André Veloso/Divulgação

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Exposição dos Origamis feito pela alunas de teatro

A ferramenta teatral foi certeira na conexão buscada com as alunas. O intuito era que o teatro, mais que fornecer um alívio na monotonia e na humilhação dos dias, fosse capaz de ajudar no processo de ressocialização. “Nós queríamos retomar quem era aquela mulher antes do crime que ela cometeu. Aos bocados, no decorrer do ano de trabalho, os efeitos das aulas de teatro foram percebidos pelas arte-educadoras. Notava diferença no corpo da aluna que acabava de chegar

"O material de trabalho no teatro são as nossas subjetividades, é como a gente se vê e se coloca no mundo” ao projeto daquela que já estava ali. “Isso tem muito a ver com a palavra ‘liberdade’. As meninas que já estavam lá faziam contato visual, conseguiam soltar os braços, trocar afeto com as outras em exercícios simples do teatro”. Para além das mudanças físicas e facilmente perceptíveis no decorrer das aulas, a relação entre as alunas, melhorou consideravelmente segundo relatos. As atrizes da Zula trabalhavam com meninas muito medicadas. “Eu me lembro de uma delas falando que respirava melhor depois das aulas. E que quando ficava ansiosa, em vez de tomar remédio, respirava. Tudo isso tem a ver como o teatro vai trabalhando as relações a ponto de curar. Curou e a aluna reconheceu que poderia ficar sem o remédio”, conta Glaucia. Por Lara Alves

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Funk, A

partir dos anos 70, os tradicionais bailes blacks chegaram ao Brasil, em especial no Rio de Janeiro, como uma das culturas mais difundidas pelos artistas norte americanos, embalados pela “soul music” e influenciados pelas experiências de organização de espaços, em que negros e negras se reuniam, colocavam em dia seus assuntos, vivências e perspectivas de vida. Passamos a enxergar então que tais bailes, mas no caso do Rio de Janeiro com uma roupagem diferente: o ambiente geográfico. Com a abolição da escravatura e, posteriormente, a derrubada dos cortiços no centro da cidade, o Rio de Janeiro sofreu grandes transformações urbanas, que culminaram nos processos de remoção, periferização e favelização da população negra. A falha na prestação dos serviços que deveriam garantir condições mínimas de qualidade de vida e preservar a dignidade da pessoa humana, por parte do Estado, deixaram um vácuo o que deu ao Funk espaço para se consolidar não apenas como uma música, mas como instrumento de expressão e uma “válvula de escape” do cotidiano dos morros cariocas. “Mas o Funk promove opressões também” Sim, claro que promove. Promove porque as pessoas que cantam o Funk, também, compõem uma sociedade capitalista que em sua estrutura é fincada no patriarcado como referência inicial e matriz da construção das relações.

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Foto: Osmose filmes

música

RacisMo, No entanto, reduzir o Funk apenas em estilo musical machista e opressor é desconsiderar todas as possibilidades de ascensão social, criações coletivas, construção de uma identidade, amor pelas comunidades que vivem, demonstrações de afeto pela “rainha do baile”, pela morte do amigo ou pela denúncia das mazelas sociais, a roteirização de um espaço esquecido, abandonados e fadados a autodestruição. Assim como, reduzir o protagonismo tão importante das cantoras e Mc’s como: Tati Quebra Barraco, Deyse da Injeção, Mc Marcelly, Sabrina e Valesca Popozuda que por meio do Funk conseguem dialogar com grande parte das mulheres negras que vivem em periferia, fazendo dessas mulheres protagonistas de suas histórias e mostrando a forma como lidam com a dor de ser mulher em uma sociedade machista e patriarcal. “Mas o Funk enaltece a figura do traficante e as organizações criminosas” Já se perguntou porque a estrutura da facção criminosa é mais deslumbrada que os cargos de primeiro escalão de um governo? Sim, ao fazer parte do narcotráfico os


música 13

" O Funk dá voz à periferia, a qual sempre é deixada à margem do espaços de debate e construção da sociedade"

fazendo silenciar toda a sua história, mantendo a margem da sociedade. O Funk não reproduzirá a opressão, a partir do momento em que tivermos uma hegemonia social que estabeleça novas relações entre os individuos que compõem nossa sociedade. O Funk é uma expressão cultural de protagonismo da juventude negra e da representação do seu cotidiano. E que faz questão de mostrar sua força, seja “Na Praça da Play-Boy ou em Niterói, Na Fazenda Chumbada ou No Coez, Quitungo, Guaporé, nos

e Foto: Divulgação

indivíduos passam a ter voz, poder, chance de intervenção direta na construção de algo em que acreditam. Isso é bom? Não! Mas, será que estamos problematizando e reinvertendo bem a lógica da pirâmide? E é claro que a figura do traficante será enaltecida nas periferias, é ele quem castiga sendo ele, também, quem distribui o remédio da vizinha que não foi fornecido pelo Estado e com o qual ela não tinha condições de arcar. É o herói e o anti-herói que caminham lado a lado, faces da mesma moeda. Esse fato só acontece pela ausência do Estado, durante todo processo de estrutução das relações sociais dentro de cada comunidade, favela. Quando pensamos em resignificar o Funk, dizendo àqueles e aquelas que produzem essa expressão cultural em suas várias frentes, MCs, DJs, dançarinxs, como forma de resistência e “válvula de escape” para suas mazelas cotidianas, não servem para a construção dessa nova sociedade, para o asfalto. Resignificar o Funk para utilizá-lo como instrumento de luta de um grupo oprimido, é apropriar-se desta cultura

perife ria

locais do Jacaré, Taquara, Furna e Faz-quem que. Barata, Cidade de Deus, Borel e a Gambá, Marechal, Urucânia, Irajá, Cosmorana, Guadalupe, Sangue-areia e Pombal, Vigário Geral, Rocinha e Vidigal. Coronel, Mutuapira, Itaguai e Sacy Andaraí, Iriri, Salgueiro, Cariri, Engenho Novo Gramacho, Méier, Inhaúna, Arará, Vila Aliança, Mineira, Magueira e a Vintém. Na Posse e Madureira, Nilópolis, Xerém Ou em qualquer lugar(…)” e de cantar nosso sonho e de viver em uma sociedade livre de opressões. Por Coletivo Enegrecer


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Livro analisa questão de gênero na música brasileira Autor Renato Gonçalves analisa letras de Chico Buarque, Roberto e Erasmo e Rita Lee no livro ‘Nós duas: As representações LGBT na canção brasileira’

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enato Gonçalves, mestre em filosofia e graduado em comunicação social pela Universidade de São Paulo, explora no livro Nós duas - As representações LGBT na canção brasileira. Ele faz uso da música como produto de consumo para refletir sobre o comportamento em torno dela. “Partindo das canções, procurei, como venho fazendo nas outras atividades acadêmicas, discutir assuntos históricos e sociais que estão na canção, mas não se limitam a ela. É como se fosse um retrato da trajetória da questão do Brasil”, afirma o autor. O livro não é um glossário de composições sobre o tema, nem se

Foto de Chico Buarque

presta a alimentar a mídia sensacionalista, tão ávida por “entregar” quem não segue a linha heteronormativa (expressão bastante usada pelo autor). Gonçalves se concentra em 30 canções pontuais – entre elas, Mesmo que seja eu (Erasmo Carlos/Roberto Carlos), Rubens (Mario Manga), De pés no chão (Rita Lee), Homem(Caetano Veloso) e Geni e o Zepelim (Chico Buarque) para compor um panorama histórico, dividido em blocos temáticos como a canção e a representação dela, a censura e a linguagem, a fantasia

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e a realidade, o público e o privado no show biz. As músicas destrinchadas apontam, em síntese, a gênese e o fortalecimento do movimento LGBT na MPB. Lançam luz, mais precisamente, sobre os anos 1970: “Cada época teve volume produtivo relevante, e falo de qualidade e relevância, não só de quantidade. Mas a década de 1970 merece destaque, não só pelo pioneirismo, mas pela resistência frente a um aparelho de repressão e censura institucionalizada”, avalia Gonçalves. Naquela década, Elis Regina, Chico Buarque, Ney Matogrosso, Rita Lee e Milton Nascimento estavam entre os encarregados de cantar alternativas ao binarismo de gênero (masculino ou feminino). Esse resgate é primordial para entender as resistências políticas da época, "a aceitação por parte do público, além de outras dimensões estéticas e culturais que contextualizam o fortalecimento das representações LGBT na música com o passar do tempo", analisa o pesquisador, assistente social e mestre em psicologia Luiz Braúna, integrante do Núcleo de Pesquisas em Gênero e Masculinidades da Universidade Federal de Pernambuco. Nos faz refletir sobre quantas expressões LGBT surgiram na canção brasileira e quantas, no curso da história, foram ou são esquecidas, relegadas e até mesmo silenciadas”, pontua o autor do livro. O título Nós duas foi inspirado nas letras de duas canções, Bárbara (Chico Buarque/Ruy Guerra), que foi censurada em 1973, e em Lizete (Kiko Dinucci/Jonathan Silva), gravada por Ná Ozzetti em 2013. A música sempre foi, na história do Brasil, especialmente desde os tempos de Tropicalismo, um movimento muito aguerrido de desafios, uma das primeiras referências é


Por Larissa Lins

Menino

eu sou É home !

Foto de Ney Matogrosso - Música: Homem com H

Ney Matogrosso, que desafiou tudo e todos através de sua forma de se expressar, do seu visual andrógino. O movimento LGBT vem ganhando forças desde então. E a música tem papel fundamental nisso. A reboque, cresce também a cidadania LGBT, a conquista de direitos, o respeito da sociedade. Há uma força em atuação, e, na música, ela é ainda mais poderosa. Quando um artista fala, ele fala para milhões. Um músico que leva a representatividade LGBT aos palcos alcança milhões de fãs, provoca a reflexão. É como um beijo gay na novela das oito. As pessoas acham que é bobagem, perguntam por que comemoramos tanto quando isso ocorre. Nós comemoramos porque isso serve para naturalizar as coisas. É fundamental ter artistas cantando sobre o amor gay, se assumindo gays. Na música, nomes como Liniker, Johnny Hooker, além das drags queens cantoras, fortalecem a causa. Ao mesmo tempo que observamos crescimentos, conquistas, há retrocessos. No próximo ano, teremos prefeituras ocupadas por prefeitos ligados a instituições religiosas. Tememos, com isso, o travamento de várias politicas conquistadas em prol dos LGBTs. A Parada da Diversidade, por exemplo, é uma forma artística de levar a fala LGBT à sociedade em geral. Não sabemos qual será o destino dessa manifestação. Por outro lado, precisamos reconhecer que há artistas que persistem nessa missão [da representatividade LGBT] e a cada dia ganham mais público. É notável que quando você é gay, tem que mostrar uma arte realmente muito boa, porque você é mais cobrado, tem que ser excelentes. E isso é muito injusto.


Foto de Naiara Azevedo

16 música

Afinal,

do que fala o Feminejo? É

complicado precisar quando surge a palavra “feminejo” para designar o sertanejo universitário cantado e, muitas vezes, escrito por mulheres. Se é difícil situar o termo, localizar as origens do fenômeno musical em si não é tarefa mais fácil. As Irmãs Galvão, Inezita Barroso, Roberta Miranda e Paula Fernandes (de minha parte, também incluiria Sandy), por exemplo, são nomes obrigatórios em qualquer retrospectiva do sertanejo brasileiro e podem ser vistas como predecessoras de Marília Mendonça, Maiara e Maraisa, Simone e Simaria, Day e Lara, Naiara Azevedo, Paula Mattos e outras. Na minha lista pessoal, a primeira condição que incluí foi o sucesso do sertanejo universitário, já que não é com qualquer sertanejo que as protagonistas do feminejo dialogam. Suas músicas não têm qualquer relação com o sertanejo tradicional do Rio Grande do Sul, tampouco estão próximas das modas de Chitãozinho e Xororó, Zezé di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, foram algumas das duplas que monopolizaram as rádios que eu ouvia na minha infância. Essa relação com o sertanejo universitário tem um efeito maior que a localização em um cenário musical específico, indica o tempo em que o feminejo desponta: o século XXI e toda a sua fluidez, diversidade e consumismo. Outra condição que não poderia passar em branco tem a ver com a reconfiguração e generalização do

feminismo no Brasil, pois em um contexto em que temáticas feministas passam a fazer parte do cotidiano, o surgimento de um termo como “feminejo” não causa tanto estranhamento. A adoção de um nome que separa radicalmente o sertanejo cantado por mulheres do cantado por homens pela primeira vez ganha um tom positivo, até mesmo elogioso. Mas na verdade, talvez a chave para a compreensão de uma diferença notável entre Roberta Miranda, Paula Fernandes e as cantoras sertanejas que começaram a fazer sucesso nos últimos dois ou três anos também esteja aí. O feminino, é claro, não está confinado ao espaço doméstico, mas é a partir da casa, esse lugar que ainda ocupamos mais livremente que outros, que as artistas iluminam a experiência das mulheres. “É curioso que os romancistas nos façam acreditar que os almoços são invariavelmente memoráveis por algum dito espirituoso ou algum feito muito sábio. Mas eles mal dizem uma palavra sobre o que se comeu”, nota Virginia Woolf. Lendo isso, começo a esboçar uma resposta final sobre o que fala o feminejo. Não fala apenas sobre ser traída, rejeitada ou amada por um homem, fala de quem “tá doida pra por o seu moletom”, de quem “chora no colo da patroa”. Fala sobre o que era invisível, o que não tinha registro, mas que não pode mais ser visto como insignificante: a intimidade das mulheres. Por Seane Melo

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18 cinema

O

tenso

O

enegrecimento do cinema brasilero

cinema brasileiro vive um novo momento de mutação. A profunda diversidade que caracterizou nossa cinematografia nos últimos 30 anos, depois de superar a política de terra arrasada do governo ultra-neoliberal Collor, nos anos noventa, começou, finalmente, a incorporar a participação e olhar de realizadores e realizadoras negras, mas com grandes resistências. E o último Festival de Cinema de Brasília, que comemorou 50 anos de existência em 2017, foi o palco que deu enorme visibilidade para esta nova fase da história do cinema brasileiro e para as tensões que vivemos. O debate sobre o filme Vazante, da experiente realizadora Daniela Thomas, uma história que tem como cenário e contexto as relações familiares e sociais na primeira metade do escravocrata século XIX, foi o estopim de uma espécie de bomba de efeito retardado que polarizou opiniões sobre a representação de negros e negras na história do cinema brasileiro. E neste festival, atrizes, atores, cineastas e um crítico de cinema que se posicionaram orgu-

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Foto: Daniel Ferreira /Metrópoles

lhosamente a partir de sua ascendência negra, em um país marcado pela força da ideologia do branqueamento, fizeram questão de demarcar também a existência de uma leitura específica do seu grupo racial sobre a história e o mundo social e cultural brasileiro. Mas, para uma parcela do mundo do cinema já estabelecido, a opinião dos negros e negras foi considerada como equivocada, ressentida e militante, portanto distante do que seria justo. Um grande cineasta que se projetou internacionalmente nos anos sessenta, demonstrando um envelhecimento e enrijecimento dos paradigmas de sua geração, chegou a classificar como uma bobagem de universitários o conceito “lugar de fala”, muito empregado criticamente pelos negros e negras no debate de Vazante. E reutilizou, fora de contexto, o termo pejorativo “patrulhamento ideológico” que criou nos anos setenta para criticar uma certa miopia da esquerda na análise dos filmes de então, tentando agora com o mesmo termo deslegitimar e ridicularizar a opinião e reivindicação dos negros.


cinema 19

Mas não interessa aqui reproduzir os detalhes do debate provocado pelo filme Vazante, e sim perguntar o que explica e fundamenta o olhar, o imaginário e o discurso daqueles que produzem TV e Cinema no Brasil que justificaria esta enorme dificuldade em reconhecer o protagonismo dos negros e negras em nossa sociedade, e o direito de fazer e de expressar suas narrativas audiovisuais. Algumas obviedades precisam ser ditas para começarmos a questionar a gravidade do episódio acima mencionado. Quem conhece o Brasil, a partir da vivência do seu cotidiano, sabe que estamos longe de ser uma democracia racial. E o segmento audiovisual é aquele na sociedade brasileira em que o racismo estrutural do país trouxe os resultados mais dramáticos. Uma pesquisa do GEMAA sobre a cara do cinema nacional é bastante ilustrativa da ausência de negros e negras no setor audiovisual brasileiro. Buscando avaliar o conteúdo dos filmes mais vistos a cada ano, este núcleo de pesquisa trouxe os seguintes resultados:

Creio que aqui temos um quadro amplo para entender a gravidade da reutilização na polémica sobre Vazante da classificação da opinião dos negros e negras como “equivocada, ressentida e militante”. Chegamos a um ponto de mutação, ou a um limite, em que o mundo do cinema não pode mais ignorar que 90% da produção cinematográfica atual continua sendo feita por brancos e brancas, com preferência por atores e atrizes brancas. Portanto, tratar da escravidão, um período da história do Brasil que marca nossas vidas até hoje, somente com um olhar a partir da Casa Grande, é que continua sendo um verdadeiro equívoco. O lugar de fala, o lugar da construção narrativa do cinema brasileiro, vai continuar sendo cúmplice do nosso racismo cotidiano se expressar apenas o ponto de vista do brasileiro branco gilberto freyriano. E continuaremos nos comportando como vira-latas e colonizados se os negros continuarem sendo tratados como uma minoria, como a ralé indesejada que não sabe o seu lugar e/ou como perturbadores da marcha irreversível do branqueamento. Por Joel Zito Araújo

Nos longa metragens, 80% têm como realizadores homens brancos, 14% mulheres brancas, 2% homens negros e 0% mulheres negras. Quanto à cor das personagens: branca (65%), preta (18%), parda (14%), não identificada (2%), indígena/amarela (1%).

Em Vazante, a escravidão vira mera moldura, plano de fundo, com personagens negros sem voz, sem nome, sem profundidade, sem desenvolvimento, servindo de escadas para os personagens brancos.

Foto: Ricardo Teles/Divulgação

Dos 919 atores e atrizes mapeados na pesquisa 71% eram do gênero masculino, 28% do gênero feminino e 1% trans.


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você já viu um filme que seja...

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A Criada (2016)

Coreia do Sul, anos 1930. Durante a ocupação japonesa, a jovem Sookee é contratada para trabalhar para uma herdeira nipônica, Hideko, que leva uma vida isolada ao lado do tio autoritário. Só que Sookee guarda um segredo: ela e um vigarista planejam desposar a herdeira, roubar sua fortuna e trancafiá-la em um sanatório

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Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010)

O filme tailândes foi escolhido como um dos melhores da década pela emissora britânica BBC. A trama acompanha Boonmee, que está com doença nos rins e deseja passar os últimos dias da vida em uma cidade do interior, ao lado da família. Ele encotnra o espiríto de sua falecida esposa, que retornou em uma forma incomum.

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Leviatã (2015)

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Ida (2013)

Polônia, 1962. Às vésperas de assumir seus votos como freira, Anna descobre revelações impressionantes de seu passado, atado à Polônia nos anos de dominação nazista. O filme foi o vencedor da 87ª edição do Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, além de indicado a melhor fotografia.

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Na África do Sul, um povoado se distingue dos demais por seus habitantes. Marcado pela pobreza, o Distrito 9 é separado por cercas, como em um campo de concentração. Lá, só é possível entrar ou sair com permissão do exército da Multi-National United, a MNU. Mesmo assim a vizinhança não se sente segura em estar próxima a seres como os que moram ali: extraterrestres foragidos.

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Conhecido como “o filme que rachou a Rússia”, Leviatã apresenta um roteiro que aborda temas como a corrupção política, abuso de poder e especulação imobiliária, além da simbiótica relação entre Igreja e Estado. Um homem trava batalha com o prefeito corrupto para não deixar suas terras em benefício do governo. O filme ganhou o Globo de Ouro na categoria Melhor Filme Estrangeiro.

Um Conto Chinês (2011)

Dois em um: os idiomas do filme são espanhol (o filme é argentino) e mandarim. Roberto, homem ranzinza, tem sua rotina abalada quando encontra um chinês que aparece em sua vida de maneira acidental: juntos eles embarcam numa aventura. por Galileu/Monise Berno

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Foto: Jean-Paul Pelissier/Reuter


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Festival tem protesto de 82 mulheres estrelas do cinema a favor de igualdade salarial e de gênero.

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ate Blanchett, Marion Cotillard, Salma Hayek e dezenas de outras mulheres do mundo do cinema exigiram espaço e igualdade salarial no tapete vermelho de Cannes, neste sábado (12), em uma iniciativa histórica no maior festival de cinema do mundo. “Desafiamos nossos governos e os poderes públicos a aplicarem as leis sobre igualdade salarial”, disse a cineasta Agnès Varda em nome de todas, na primeira edição do evento desde os escândalos envolvendo o produtor Harvey Weinstein. O número de mulheres que tomaram parte do protesto foi escolhido propositalmente, em referência a quantos filmes dirigidos por mulheres já foram indicados à premiação ao longo dos 71 anos de história do festival. Em contraste com as 82 cineastas já indicadas, no total Cannes já teve mais de 1.600 películas dirigidas por homens nas listas anuais da seleção. A parada para fotos na escadaria também teve um significado. Simbolizava como “nem todas as etapas da ascensão social e profissional são acessíveis às mulheres”, segundo um comunicado do grupo 50/50 para 2020 e da Fundação Time’s Up, criada para ajudar as vítimas de assédio sexual após o caso Weinstein. Na sequência, a presidente do júri, a australiana Cate Blanchett, leu uma declaração ao lado da cineasta francesa Agnès Varda, uma das raras diretoras da Nouvelle Vague. No júri, a

diretora Ava DuVernay e Cate Blanchett fazem parte da Time’s Up. Durante anos, Weinstein frequentou o Festival de Cannes como um produtor todo poderoso. Até ser desmascarado por uma centena de estrelas e atrizes mais jovens que o acusaram de estupro e assédio sexual. Para mostrar que não ignora essa situação, os organizadores do Festival distribuem este ano um folheto lembrando as penas previstas para delitos e crimes sexuais. O folheto traz um número de telefone útil para denúncias e um slogan: “comportamento correto exigido”. O Festival também enviou um sinal forte ao escolher um júri predominantemente feminino, mas foi mais tímido em questões de assédio ou discriminação, dois tópicos que não foram discutidos na cerimônia de abertura. Hostil a qualquer discriminação positiva, a organização foi criticada por escolher apenas três mulheres em competição. Na noite de sábado, será exibida a primeira produção feminina na disputa pela Palma de Ouro, o filme “As Filhas do Sol” da francesa Eva Husson, sobre um batalhão de combatentes curdas comandado pela Sargento Bahar (Golshifteh Farahani). O segundo filme em competição é “Três Faces”, do iraniano Jafar Panahi, impedido de comparecer na mostra pelo governo de seu país. Este dia “100% feminino” será seguido por uma série de debates e compromissos concretos até segunda-feira. No domingo, a ministra francesa da Cultura, Françoise Nyssen, apresentará, com sua colega sueca, Alice Bah Kuhnke, um projeto para apoiar financeiramente jovens diretoras em todo o mundo. Por France Presse, G1

Foto: Antonin Thuillier/AFP


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que tal sair um pouco da sala de cinema?

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Foto: Jukka Tarkiainen

Festival de Cinema Sol da Meia-Noite (Sodankylä , Finlândia)

Festival de Cinema Negro Americano (Miami , EUA)

Em Sodankyla, logo acima do Círculo Ártico, durante as primeiras semanas de junho o sol nunca se põe. Assim, os filmes são exibidos a toda a hora neste festival. Esse “sonho do cinéfilo”, não é apenas a energia solar, mas também “muita e muita bebida”.

“É obviamente um nicho - alguém no projeto precisa ser negro”, diz um membro do painel. “Mas o comparecimento é muito diversificado.” A ABFF comemorou a marca de duas décadas neste verão com a participação de celebridades como Nate Parker, Gabrielle Union e Common.

Festival de Cinema de Havana (Havana , Cuba)

Festival Internacional de Cinema de Viena (Viena, Austria)

O festival tem como foco principal filmes em língua espanhola, embora também tenha apresentado uma seleção internacional desde sua criação em 1979. Há cineastas vindos de todo o mundo para exibir filmes que são considerados controversos em seus próprios países.

A Viennale é do “tamanho perfeito”, com filmes sendo exibidos em “cinemas de tela única com personalidade distinta”. No entanto, a maior força do festival pode ser a riqueza de seu line-up. No ano passado, notáveis como Kenneth Lonergan, Abel Ferrara, Luc Dardenne, John Carpenter e Patti Smith se apresentaram.

Por MovieMaker

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m terras de sanidade obrigatória e desenfreada, quem permite a loucura é rei. E rainha. Pois imagine que, sãos e fora de manicômios, estejamos saindo no tapa por nossas verdades. Dividindo o mundo entre o Bem e o Mal. Contabilizando relatos selvagens. Justificando nossa falta de utopia com um racionalismo paralisante. Deixando de sonhar e de se arrepender. Nem isso, nem aquilo. Nossa existência se contra bem ali, no meio do isso e do aquilo. No incerto e no incalculável. Entre o olhado e o invisível. Nise da Silveira, psiquiatra alagoana (19051999), enxergou a riqueza de seres humanos que estavam “no meio do caminho”. Esquizofrênicos marginalizados e esquecidos puderam ser autores de obras hoje expostas no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro (RJ). Como essa mulher fez a diferença no mundo, listamos algumas razões pelas quais ela merece ser convocada à nossa memória:

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Ela usou a arte para tratar problema de saúde mental

Nise percebeu que as artes plásticas eram o canal de comunicação com os pacientes esquizofrênicos graves, que até então não se comunicavam verbalmente. As obras produzidas por eles davam “voz” aos conflitos internos que viviam.

Ela deu voz à loucura

“Na época em que ainda vivíamos os manicômios e o silenciamento da loucura, Nise da Silveira soube transformar o Hospital Engenho de Dentro em uma experiência de reconhecimento do engenho interior que é a loucura”, explica àChristian Ingo Lenz Dunker, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP. Nise era uma defensora da loucura necessária para se viver. “Não se cura além da conta. Gente curada demais é gente chata.”

Ela implementou a terapia ocupacional no manicômio

Em 1944, Nise passou a trabalhar no Hospital Pedro II, antigo Centro Psiquiátrico Nacional, no Rio de Janeiro. Ela se recusou a seguir o tratamento da época, que incluía choque elétrico, cardiazólico e insulínico, camisa de força e isolamento.

Emygdio de Barros pintando no jardim do Hospital

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Fernando Diniz e Nise de Silveira Foto: Carlos Saldanha

Ao dizer “não”, a psiquiatra foi transferida, como “punição”, para o Setor de Terapia Ocupacional do Pedro II. Essa transferência foi fundamental para a revolução que Nise provocaria na psiquiatria: foi nesse setor do hospital que ela implementou, junto com o psiquiatra Fábio Sodré, a Terapia Ocupacional no tratamento psiquiátrico.

Ela expôs as artes feitas pelos pacientes

Além do efeito terapêutico, as artes plásticas possibilitaram que os pacientes (ou clientes, como Nise gostava de chamá-los) se tornassem verdadeiros artistas. A produção do ateliê do Setor de Terapia Ocupacional já tinha despertado a atenção de pesquisadores de saúde mental e médicos, mas críticos de arte também viram naqueles trabalhos obras artísticas dignas de exposição. Foram organizadas duas exposições internacionais e, em 1952, foi inaugurado o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. Em entrevista à revista Cult, Luiz Carlos Mello, diretor do Museu das Imagens do Inconsciente e autor da fotobiografia Nise da Silveira – Caminhos de uma Psiquiatra Rebelde, informa que o acervo pessoal de Nise da Silveira é tombado como Memória do Mundo da Unesco.

Ela foi presa política

Nise ficou presa de 1934 a 1936, durante o Estado Novo, acusada de envolvimento com o comunismo. Ela foi denunciada por uma colega de trabalho, que era enfermeira. No presídio Frei Caneca, ela dividiu a cela com Olga Benário, a militante comunista alemã que na época era casada com Luís Carlos Prestes, lembra a revista Cult.

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Ela foi citada em um livro do Graciliano Ramos Na prisão, Nise também conheceu o escritor alagoano Graciliano Ramos, que a cita em seu livro Memórias do Cárcere: “(...) Lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-se culta e boa. Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se a tomar espaço.”

Ela revelou as emoções dos esquizofrênicos

Elizabeth Maria Freire de Araújo Lima, professora do Curso de Terapia Ocupacional da USP e autora do livro Arte, Clínica e Loucura: Território em Mutação, explica à revista Cult que Nise constatou que o mundo interno do esquizofrênico, considerado inatingível até então, poderia ser acessado, revelando as emoções desses pacientes por meio das artes plásticas. “Nise afirmava que o hospital colaborava com a doença e acreditava que caberia à terapêutica ocupacional parte importante na mudança desse ambiente.”

Ela chamou a atenção de Jung

Nise era uma devoradora de livros e tinha um interesse especial pela obra do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Ela escreveu uma carta para ele, pedindo ajuda para interpretar as mandalas que os pacientes desenhavam. A correspondência é relatada na fotobiografia Nise da Silveira – Caminhos de uma Psiquiatra Rebelde: “A configuração de mandala harmoniosa, dentro de um molde rigoroso, denotará intensa mobilização de forças auto-curativas para com-


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Obra de Raphael Domingues

pensar a desordem interna. Então pedi para que fotografassem algumas mandalas e as enviei com uma carta para C. G. Jung, explicando o que se passava. Foi um dos atos mais ousados da minha vida.” Bernardo Horta, autor da biografia Nise — Arqueóloga dos Mares, diz que Nise “constata o que Jung afirmava: a psicanálise, para o esquizofrênico, segundo Jung, a palavra não dá conta. Para esse paciente, o tratamento deveria ser pela imagem”. Em 1957, Nise é convidada por Jung para passar um ano estudando com ele no Instituto Junguiano, na Suíça, além de expor o acervo do Museu de Imagens do Inconsciente no II Congresso Internacional de Psiquiatria.

Ela questionou os manicômios

Para Nise, a experiência em manicômios mostrou que havia uma confusão entre hospital psiquiátrico com cárcere, com os pacientes tratados como presos. Avessa a essa abordagem desde o começo, e defensora de um olhar humanista, em 1956, Nise fundou a Casa das Palmeiras, a primeira instituição a desenvolver um projeto de desinstitucionalização dos manicômios no Brasil. A Casa é lugar para o convívio afetivo e estímulo à criatividade dos psiquiátricos. A clínica funciona em regime aberto, sem fins lucrativos, à base de doações.

Ela representa uma resistência atemporal

O psicanalista Christian Dunker, no Blog da Boitempo, reforça a atemporalidade dos feitos de Nise: “Não me parece um acaso que, em meio ao momento de maior dissenção social que já vivemos, desde os anos de chumbo da di-

tadura militar, estejamos presenciando o maior retrocesso desde então registrado em matéria de saúde mental. A nomeação de Valencius Wursch Duarte Filho como secretário de saúde mental do Ministério da Saúde, em uma operação indecente de barganha política, é o retorno de tudo o que Nise demorou uma vida para desfazer. Passeatas, manifestações e mesmo a própria ocupação, que persiste há mais de dois meses, de uma das salas do Ministério, parecem não ter voz nem luz contra a volta das piores trevas psiquiátricas.” “Duarte Filho foi diretor técnico do hospital psiquiátrico Casa de Saúde Dr. Eiras, fechado em 2012 depois de constatadas graves violações aos direitos humanos pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados”, escrevem os psicanalistas Antonio Lancetti e Maria Rita Kehl, e o psicólogo Aldo Zaiden. Segundo a Sociedade Brasileira de Psicanálise, entre os profissionais de saúde, a indicação de Duarte Filho para o cargo é vista como um “retrocesso e uma ameaça real aos avanços conseguidos nos últimos anos com a Rede Nacional de Saúde Mental, que promoveu a substituição dos hospitais psiquiátricos pelos Centros de Atenção Psicossociais, organizados para oferecer atendimento intensivo, articulados a emergências psiquiátricas, residências terapêuticas e outras formas efetivas de reabilitação, beneficiando milhares de pessoas antes sujeitas a maus-tratos de toda ordem”. Mais do que atual: Nise é urgente para a sociedade brasileira. Por Itau Cultural

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Foto: Pedro Mirandolla


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A escrita da presença

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m movimento silencioso e transgressor ganha as ruas e os prédios de uma grande metrópole. É o Pixo. É Arte. Falo das marcas no tecido da cidade, da escrita da presença, da voz da periferia, do grito mudo de parte da sociedade que é ocultada e marginalizada pelos poderes instituídos e pela grande mídia ‘careta’ e preconceituosa. Falo do Pixo. Arte viva e revolucionária. Falo do Pixo, da Pixo Arte, o anúncio, a notícia, a ‘letra’ dos excluídos. Pixo Arte, da favela, da quebrada, da aventura, da madrugada. Pixo, genuína Arte, do Cão Fila, do Filhote, do Sem Mundo, Pixo! Arte! A Arte Pixo, frequentemente desqualificada e adjetivada pejorativamente por parte da mídia e dos poderes instituídos, conquista o tecido da grande São Paulo, cidade dos milhões. O grande público pouco sabe a respeito desta manifestação de Arte e de sua potência conceitual. Bombardeada por informações no mínimo equivocadas tem se posto em curso a desqualificação de um movimento de Arte a ‘céu aberto’ que toma a cidade que se converte em um grande livro aberto no qual suas páginas, os muros, becos e prédios, são marcados com a escrita da presença. Pixo é Arte. Gesto de uma periferia ocultada, de artistas de vanguarda, questionadores, subversivos, que ousam romper o silêncio apenas aparente da madrugada e pronunciar sua ‘letra’, sua marca, sua indignação e crítica, sua aventura na paulicéia desvairada. Na cidade de São Paulo a pichação em paredes, muros, pontes, viadutos e etc., surge no período da ditadura, na década de 1960. Naquele período as manifestações tinham caráter prioritariamente político sendo conhecidas expressões de ordem como, por exemplo, ‘Abaixo a Ditadura! ’, ‘Fora Ditadura! ’, ‘Anistia para todos! ’, ‘Punição aos torturadores! ’ ‘Viva a Liberdade! ’, dentre outras. Não havia ainda uma preocupação estética com as letras. Era ainda uma estética de sentido ‘legível’, apropriada para o público alfabetizado. Em seguida surgiram pichações poéticas, que como o próprio nome diz, tratavam-se de pichações de poesias, recados amorosos e etc., ainda formulada com signos do alfabeto, portanto direcionada para o público alfabetizado para que fossem ‘lidas’ e que pudessem ter seu sentido compartilhado. No início da década de 1980 sob influência do movimento punk de conteúdo político e de capas de discos de Heavy Metal, Hardcore e de bandas de Rock, como por exemplo, o Iron Maden, surgiu a pichação de São Paulo como a conhecemos atualmente, provocadora e questionadora com forte presença da individualidade e ‘letra’ do artista pichador.

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O precursor foi o ‘Cão Fila’ que de fato não era um pichador como é conhecido atualmente. Seus pixos eram na verdade anúncios; ‘Cão Fila Km 26’, era um pixo que visava divulgar a venda de cão da raça fila no km 26, mas que ficou presente nas gerações posteriores de artistas pichadores. em 1982, mais precisamente, com pixos de Junca, Bilão e Pessoinha, inspirados no Cão Fila, o movimento de pichação de contestação amplia-se em direção a todos os cantos, becos e paredes da cidade. Estes artistas começaram por seus bairros e em seguida passaram a pixar em todos os locais chegando ao auge entre 1986-87, aproximadamente, quando a força policial mobilizada pela prefeitura de São Paulo, então sob a administração de Jânio Quadros, passou a caça-los porque estavam pichando toda a cidade. Em fins da década de 1980 e nos primeiros anos da década de 1990, os prédios passaram a virar alvo da pichação. Os precursores da modalidade de “Escalada”, termo que refere-se aos pixo feitos em prédios, são, reconhecidamente por parte da atual geração da Pixo Arte, o chamado ‘Trio de ferro’, Di, Thentho e Xuim. Foram eles os pioneiros da escalda pelos arranha-céus de São Paulo, que fizeram uma disputa saudável e franca, para saber quem pichava mais. Pichavam cada vez mais alto, nos prédios, e em locais desconhecidos, no ‘baixo’, nos becos e lugares obscuros de São Paulo. Dentre os três, “Di”, foi quem deu continuidade a pichação em prédios e é considerado por vários artistas do pixo como o maior artista pichador da história de São Paulo. Além de realizar seu pixo em muitos prédios ele pichou também vários locais da cidade. Foi ‘Di’, quem teve a audácia de pixar o prédio do Conjunto Nacional, que era cobiçado por todos os pichadores e logo após de tê-lo pichado ligou para um jornal passando-se por um morador indignado e a matéria foi veiculada como se ele fosse um morador reclamante, quando de fato, ele mesmo havia acabado de pichar o prédio. Di foi assassinado em 1997, aos 22 anos, de causa não relacionada à sua ação com o pixo, deixando grande número de fãs e admiradores de sua Arte.

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Por Leandro Serpa


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ema web foi explorado como uma das primeiras pesquisas realizadas sobre a Internet como ferramenta de divulgação utilizada pelos artistas plásticos. O estudo foi apresentado num curso de especialização na Escola de Música e Belas Artes no Paraná em Curitiba. A jornalista Mari Weigert constatou que, na época, apenas 10% dos artistas plásticos paranaenses, de 200 nomes pesquisados usavam os recursos tecnológicos da Internet. Numa nova atualização, seis anos após as considerações finais observou que as mudanças foram radicais.

vai para seu atelier criar, delinear traços no papel, depois de feito o desenho, o escaneá e copia para o computador.

Poder Tradicional

Na verdade, o questionamento principal foi saber se a Internet poderá eliminar o poder dos tradicionais salões e museus na projeção de novos artistas nos próximos anos. Uma pergunta que ficou sem resposta imediata, além da possibilidade de ser respondida daqui há 50 anos. A pesquisa inicia comparando o comportamento do pintor Brunon Lechowsk com a condição vivida pelos artistas atuais. Diz a introdução: “Se o pintor Brunon Bronislaw Lechowsk (18871941), nascido em Varsóvia, Polônia, que viveu alguns anos no Paraná, tivesse conhecido a tecnologia virtual teria outra visão em relação aos seus ideais e provavelmente estaria navegando por diversos lugares do mundo com o @.com. Lechowski era um visionário de sua época e quis mostrar ao mundo que era possível se libertar de um processo social engessado definido pelas instituições. Viajou pelo mundo e permaneceu 16 anos no Brasil. Para realizar seu objetivo de angariar fundos para criar a Casa Internacional do Artista precisou construir um equipamento expositivo para percorrer vários países: uma tenda que poderia ser armada em praças, jardins e parques servindo de morada durante a viagem e com espaço para suas exposições. A razão de citar Lechowski neste trabalho sobre o mundo online é de dimensionar as diferenças temporais no comportamento da humanidade. Hoje para o artista plástico o mouse e a tela do computador abrem as portas para um novo espaço.

Redes sociais

Perfis alvos da pesquisa, como Leila Pugnaloni, Tom Lisboa, Claudia Lara entre outros, que usavam apenas e-mails e portfólios virtuais. Agora são presentes e interagem com suas obras e exposições no Facebook , Google+ e Instagram. As comunidades de cada artista variam de 500 até mais de 2000 pessoas em contato mútuo. Com este público diário o resultado é imediato. A artista plástica Leila Pugnaloni acorda e

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Tudo é valido no virtual.

A mentira, a verdade, a guerra de brincadeira e a de fato, a violência, harmonia e a beleza. A pesquisa serviu para documentar um momento na história, pois a World Wide Web é, de fato, um recurso tecnológico eficiente, mas cérebros inquietos e visionários não param e estão buscando novos meios de interação entre homem e a máquina”. Por Mari Weigert


“Floresta de faias” de Gustav Klimt


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ua obra mais conhecida, O beijo, já foi reproduzida milhares, talvez milhões de vezes. E não somente em papel, mas também em xícaras de café, estojos para óculos, gravatas, sacolas e em incontáveis outros objetos cotidianos. Todos celebrando Gustav Klimt, um favorito do público. O artista se tornou representante da Art Nouveau, embora tenha sido alguém que quisesse acabar com a arte do seu tempo, diz Alfred Weidinger, historiador da arte especializado em Klimt e curador do Museu do Palácio Belvedere, em Viena. Nascido em 14 de julho de 1862 em Baumgarten, nas proximidades da capital austríaca, de pais pobres, Klimt conseguiu frequentar a Escola de Artes Aplicadas de Viena graças a uma bolsa de estudos. Junto com o irmão Ernst e o colega Franz Matsch, trabalhou assiduamente e logo se destacou. Além de decorações para tetos e teatros, Klimt se tornou também o retratista preferido da alta burguesia judaica. Ele não apenas pintava, como também cooperava com arquitetos na decoração de casas e mansões, concebidas como obras de arte total. Em 1894 foi incumbido de fazer três pinturas monumentais no teto do auditório principal da Universidade de Viena. As representações alegóricas das três faculdades – Direito, Filosofia e Medicina – provocaram escândalo.

Autêntico demais, nu demais

Klimt mostrou um excesso de carne desnuda para a pudica Viena da época, analisa Weidinger:

“Ele expôs os vienenses a si mesmos como eles de fato eram – esse foi o problema”. Em vez de representar as mulheres nuas como deusas, apresentava a vizinha do lado. “E a apresentava em sua beleza, mas também em sua feiura”. E isso em pinturas gigantescas, no teto de uma universidade conservadora.

“O Beijo” de Gustav Klimt


artes plásticas

Mas não se tratava de uma provocação planejada, ressalva o historiador da arte: “Klimt era muito autêntico. Ele simplesmente queria pintar como lhe dava prazer”. E se ateve a essa postura, apesar de grandes prejuízos financeiros. Mais tarde, com a ajuda de um mecenas, acabou comprando as pinturas de volta da universidade. Naquela época, elas já custavam uma fortuna. Os amantes de arte de hoje só podem apreciar essas obras em fotografias, pois os originais foram destruídos no Palácio Immendorf, na Áustria, incendiado pelos nazistas no fim da Segunda Guerra.

Artesanato pintado

Gustav Klimt e as mulheres é um capítulo à parte na história da arte, e não apenas por ele as ter eternizado em cores e formas. Não se sabe

100 do

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“Cara bonitão”

Por Günther Birkenstock

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Em 1907, Klimt criou uma entre as suas mais famosas obras: o retrato de Adele Bloch-Bauer 1ª, filha de um banqueiro vienense. Vendida em 2006 por 135 milhões de dólares a um empresário norte-americano, foi durante um tempo o quadro mais caro do mundo. Trata-se de um retrato com um rosto extremamente realista, rodeado por vários tons de dourado. Weidinger acredita que Klimt não teria se importado com as críticas ao excesso de dourados, apontado por alguns como kitsch: “Klimt não era um pintor acadêmico”. Há de se lembrar que ele não frequentou uma Academia de Belas Artes, mas a Escola de Artes Aplicadas. “A obra de Klimt não tem nada que ver com a pintura clássica. Ele empregou a diversidade de materiais de que se ocupara durante o estudo. Era artesanato pintado”, diz Weidinger. E são essas “imagens materiais” que fazem a obra de Klimt tão peculiar, um nicho no qual ninguém o seguiu. Segundo o historiador, o aspecto decorativo e o caráter autêntico impediram que se oferecesse a Klimt uma cátedra de professor. “Ele era um artista decorativo”, diz, intencionalmente provocador. Mas Weidinger sempre notou que a forma como Klimt pinta desencadeia nas pessoas um sentimento de devoção.

ao certo quantos filhos ele de fato teve. Após sua morte surgiram 14, todos exigindo seu quinhão na herança: quatro foram reconhecidos. O pintor nunca se casou: ele vivia suas paixões sem restrições, observa Weidinger. Também nesse aspecto Klimt era autêntico, sem afetação. “Do contrário, como explicar que, ainda em maio de 1899, ele mantinha um relacionamento com a cunhada Helene Klimt, ao mesmo tempo que começara a flertar com Alma Mahler-Werfel. Na época Marie Ucicky e Marie Zimmermann estavam grávidas dele, e ele foi se encontrar com Emilie Flöge.” Impossível viver em tal poligamia sem discussões nem estresse. Isso fica visível nas numerosas cartas de amor de Klimt que foram preservadas. “Ele era mesmo um cara bonitão”, diz Weidinger. No dia 6 de fevereiro de 1918, Gustav Klimt morreu aos 55 anos em Viena, de um derrame cerebral.

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entrevista exclusiva Foto: Caio Gallucci

“A Dança é Consciência quando bem direcionada” Katia Barros fala sobre sua trajetória no mundo da dança Fale um pouco sobre você. “Meu nome é Katia Barros e sou artista profissional na área da dança e teatro. Me formei no Teatro Escola Célia Helena e meus mentores da dança são Roseli Rodrigues e Marcio Rongetti.” Como foi sua trajetória para chegar onde está? “Comecei como professora de jazz dance, bailarina em shows de revista com Abelardo Figueiredo e Dinah Perry, entre outros. Ingressei no teatro musical através de uma audição para Aí Vem o Dilúvio, me interessei pelo segmento e precisei abrir meus estudos em canto também. Nos elencos sempre tinha uma posição a mais ou de swing, uma substituta de todo o ensamble, ou como dance captain, a pessoa que faz ensaios de manutenção, ou ainda como cover, uma substituta da protagonista. Isso me fez treinar e enxergar os espetáculos por vários ângulos. Paralelo a isso eu dava aulas do mesmo segmento musical e coreografava as montagens na Escola Ábaco em SBC, onde fiquei por 10 anos e na Casa de Artes Operária, onde permaneci por 12 anos. Em seguida comecei a coreografar infantis e ainda nos palcos eu recebi meu primeiro convite para

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coreografar um grande musical em uma super produção. Então começou minha transição dos palcos para o criativo na vida profissional.” Pode citar alguns de seus trabalhos? “Como atriz e bailarina meus principais trabalhos no mercado foram Chicago, Sweet Charity, A Bela e a Fera, Vitor ou Vitória, Miss Saingon, entre outros. Como coreógrafa estão O Médico e o Monstro, Vingança, A Madrinha Embriagada, O Homem De La Mancha, Cantando na Chuva e Annie.” Como que é seu processo criativo? “Ele acaba partindo da observação de como o ator respira. Não sei bem porque, mas isso sempre me leva a um caminho intuitivo para os primeiros materiais humanos concretos em cada bailarino que somarei ao material de pesquisa que componho antes dos ensaios. Gosto de partir do texto para essas buscas e lá encontrar as referências que preciso. Algumas vezes nesse caminho saltam ideias de ótimos resultados cênicos. Isso me ajuda também na direção de movimento que normalmente o coreógrafo compõe junto ao diretor, além das coreografias em si.”


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O que a dança significa para você? “Liberdade e cura.” Quais as maiores diferenças entre a dança anos atrás e hoje em dia? O público e os dançarinos mudaram com os anos? “A dança ganhou muita atenção na questão de cuidados com lesões em bailarinos, uma formação acadêmica que abriu novas possibilidades de estudos e expressões além da dança clássica. Com os anos, o bailarino encontra informação técnica e teórica mais abrangentes para seus estudos, além de uma preparação física específica para seu fortalecimento nas companhias, assim como no mercado musical ou disponível para seus interesse e necessidades. Além de seus mentores, eles têm acesso a mais consciência teórica e na sua saúde. O público também tem mais informação e mais acesso à arte, com isso mais transformação e cultura. Mais artistas indo em lugares de pouco acesso e de baixa renda mudando a vida de pessoas através da dança.” Você diria que a dança é uma arte mais conservadora ou inovadora? “Eu acredito que a dança é uma Arte. Se é Arte, ela deve ser inovadora, transformadora. Eu acredito na conservação da história pois ela precisa ser sempre um ponto de referência para as criações, e mesmo nela esta nítida a transformação, a inovação que nos ajudou a abrir possibilidades. Sempre que os que mantém a história viva atuam, eles ajudam também a quebrar paradigmas quanto a beleza de cada época, de cada cultura, de cada ser que ali se transformou. É acordada para os que estão chegando poderem saber onde estão e de onde querem partir e que muito se inovou em cada transição e cada passo em cada corpo.” Como que é o mercado para dança no Brasil? “Ele se divide bastante para a área de entretenimento, onde a maioria dos bailarinos vão, musicais, televisão e shows sertanejos, pops e eventos. Temos ainda algumas boas companhias de dança que batalham por bons recursos para fomentar salários legais, entre elas Ballet da Cidade de São Paulo, Grupo Corpo, São Paulo Cia de Dan-

ça, Ballet de Diadema, Quasar Cia de Dança, entre outras pequenas companhias que lutam por leis de incentivo para expressar seus projetos.” Como a dança é vista no meio profissional? Existem dificuldades no reconhecimento da profissão? “A dança é uma arte que requer talento, muita dedicação e investimentos de vida. O meio profissional busca os melhores em todas as áreas, porém em cada uma há suas especificidades para o trabalho e esse bailarino sempre será escolhido nos quesitos importantes para o qual estará se apresentando. Há muitos cujo talento pode se expressar como coreógrafo, ensaiador ou professor, então ele pode ser incentivado a seguir por esse caminho recebendo convites que acabam o separando do palco em si e o colocando mais nessa frente. Há muita dificuldade no reconhecimento da profissão ainda hoje em dia e uma grande luta para que esse bailarino que já nasce com um talento nato e que se dedica a vida inteira ser reconhecido profissionalmente sem ter que fazer um curso superior para isso. O superior pode agregar muito a ele, mas não garante que uma pessoa se torne um bailarino se o seu talento não for esse. Na teoria ele pode saber muito, mas na prática suas frentes serão outras. O talento que no palco exala arte é realmente algo único que um grande mentor lapidará para tal missão e isso não pode a lei embargar.” Qual você diria que é a importância da dança na vida das pessoas? Ela é capaz de mudar a vida de alguém? Se sim, como? “A dança faz parte de uma cultura e, independente de ser algo profissional, ela está dentro do caminho de uma comunidade. A dança também tem processos terapêuticos maravilhosos e está presente no movimento harmonioso natural do Universo, dos pensamentos, das escolhas, de uma transição ou de uma passagem de vida. A Dança ela não só. Ela é a Vida, ela é beleza no estado de harmonização do ser humano, é um caminho de equilíbrio no processo de conscientização do micro e macro cosmo. A Dança é Consciência quando bem direcionada. Citando Nietzsche: Eu não acredito em um Deus que não dance.”


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meninos do balé têm orgulho de seguir o caminho da dança “É preciso ser muito macho para dançar balé no Brasil”, diz a diretora da Escola de Dança de São Paulo, Susana Yamauchi.

C

ena 1: Um adolescente que enfrenta a resistência de sua família e amigos cruza um enorme centro urbano todos os dias para ensaiar e demonstra um incansável esforço para perseguir o seu sonho: tornar-se um grande bailarino. Cena 2: Uma sala espelhada, com barras e cerca de 20 meninas com collants, sapatilhas e meias. Entra um garoto e avisa: “sou João e sou homem”. Cena 3: Na mochila, esconde as sapatilhas gastas e a roupa de malha emprestada do colega. Veste o uniforme do time da cidade e amarra as chuteiras. “Pai, vou ao futebol.” Parece o enredo de Billy Elliot, o filme inglês, mas é a realidade enfrentada não por um, mas três adolescentes paulistanos que frequentam o curso de formação da Escola de Dança de São Paulo, no Theatro Municipal, centro da capital paulista. Eles compartilham da mesma paixão pelo balé. Mas além da paixão, Murilo, Pablo e Pedro também enfrentam juntos outra situação: a discriminação por serem homens e dançarinos. Murilo Miron, 14 anos, tinha só 5 quando estava assistindo ao carnaval na televisão e, inquieto, começou a mexer o corpo ao som dos passos de samba. Olhou para a mãe e disse que queria aprender a dançar daquele jeito. No dia seguinte foi com a irmã em uma escola de dança na zona leste de São Paulo e começou as aulas. Aos 8, prestou o processo seletivo do Theatro Municipal e agora está no 7º ano do curso de formação. “Foi no Municipal que eu descobri a dança. Quando eu pedi para fazer aula, minha mãe me alertou que possivelmente meus amigos iriam me zoar. Mas, ao mesmo tempo, ela me incentivou muito para que eu fosse. No ballet ninguém falava nada, era tudo normal. Mas na escola era um bullying coletivo. Me incomodava muito, mas eu não queria parar. Eu sempre pensava que

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enquanto eu estivesse bem comigo, não tinha problema. Não era porque eu fazia algo que eu gostava que eu era ou deixava de ser alguma coisa para eles. Quando eu entrei no Municipal, eu troquei de escola e agora é tudo normal. Inclusive meus amigos já vieram me assistir. É uma arte, não tem por que ter isso [discriminação]. A sociedade tem que aceitar. Você tem que se orgulhar de você.” Nem sempre houve discriminação contra bailarinos. Quando o balé surgiu, em meados do século 15, apenas homens podiam dançar. Os famosos cortesãos divertiam a nobreza com espetáculos e vestimentas riquíssimas e, muitas vezes, se travestiam para performar papéis femininos. Com o passar do tempo, deu-se a alternância do protagonismo do masculino e do feminino nos palcos, mas por trás das montagens, os homens ainda dominavam como diretores e coreógrafos. Seja pela delicadeza de executar movimentos tão complexos com tanta leveza, ou por se tratar de uma arte em que o corpo sente e fala, o balé passou a ser associado a estereótipos como a “delicadeza feminina”, ao passo que homens que se arriscam a serem bailarinos são muitas vezes tachados de gays. Mas desde quando a sexualidade é passo de uma dança?

Fotos: Ana Beatriz Rosa/HUFFPOST BRASIL


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“Nos primeiros dois anos eu sofri muito para me aceitar. Aceitar que eu estava ali fazendo uma aula de balé e que isso não era comum na nossa cultura. E aí eu fui vendo que eu não era realmente igual aos outros meninos. Eu tinha um professor, o Ademar, que ele sempre falava: quem faz ballet não é normal, é anti anatômico. Até que isso entrou na minha cabeça e eu virei a chavinha. Percebi que eu tenho que ser eu mesmo, lutar pelas coisas que eu gosto e acredito”, argumenta Pablo Silva, 16 anos. Para Pablo, dançar requer identidade. E é na dança que ele se encontra. Morador também da zona leste de São Paulo, o rapaz começou a dançar no projeto social Joaninha, do Ballet Stagium, e foi aprovado no Municipal em uma aula-teste aos 15. Estar no curso de formação é uma oportunidade para Pablo se realizar profissionalmente e financeiramente ao garantir uma vida melhor para a sua mãe - sempre tendo como referência os professores da Escola de Dança. “Além de você ser muito bom em termos de técnica, você tem que ser muito bom em termos de amor. Você tem que amar, senão você não consegue. Tem que ser muito bom para conseguir erguer uma casa, colocar comida na mesa com a dança. E aqui os professores conseguiram. Além de referências, eles são inspirações. Porque mesmo eles já tendo conquistado o espaço deles, eles estão aqui todos os dias, olhando para a nossa cara e compartilhando com a gente. Além de mestres, são nosso ídolos.” Pedro Brito, 16 anos, começou a dançar por acaso. Ele foi apenas acompanhar a irmã, mas acabou sendo aprovado no processo seletivo do

Municipal e está na escola desde então. Ele, assim como os outros garotos, concilia uma rotina pesada. Acorda por volta das 5 da manhã e vai para a escola. Depois, enfrenta deslocamentos de quase 2 horas diárias da periferia até o centro em transporte público e segue com aulas de dança até às 20h. Volta para casa para fazer a lição e no dia seguinte repete tudo. Questionado por que não o Brasil, Pablo respondeu pelo colega: “Aqui falta [tudo].” Se a paixão e a discriminação são presentes na vida dos garotos, a capacidade de fazer muito com pouco e a crença no potencial de cada um fortalecem o desejo de mover - e dançar - dos rapazes. Ao ouvir Murilo, Pablo e Pedro compartilhando suas experiências tão recentes, mas com tantas memórias, Luís Ribeiro, professor e coreógrafo da Escola de Dança, não esconde o orgulho de ver a nova geração. “Eu comecei a dançar aos 16 e lavava meu collant durante a madrugada escondido em casa. Se hoje eles ainda enfrentam dificuldades, é bonito de se ver que alguma coisa melhorou, nem que seja no detalhe. O que importa é que aqui a gente tem essa relação. Eles têm que olhar nos nossos olhos, prestar atenção na resposta. Porque não tem muito jeito de aprender dança, é um corpo se abrindo para outro corpo. E hoje em dia isso é muito raro... Você se preocupar em sentir o outro e aprender com ele. Então, não é pouca coisa ver esses meninos tão jovens com essa maturidade para falar de relação, de respeito, de aprendizado e também de dança. Ser referência para eles é uma responsabilidade enorme.” Por Ana Beatriz Rosa,

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arteversa recomenda Novos livros lançados em Julho-Agosto de 2018 que recomendamos.

Nova edição bilíngue italiano-português de “A Divina Comédia”, obra prima de Dante Alighieri, traduzida para o português por José Pedro Xavier Pinheiro. Com o intuito de facilitar a leitura desta obra em dispositivos móveis, a tradução de cada terceto é apresentada logo abaixo do terceto original em italiano. Para melhorar a visualização, o texto em português é apresentado com um recuo e com uma fonte em itálico ligeiramente menor. Considerado por muitos críticos e estudiosos como a maior realização do romance ocidental, ‘Madame Bovary’ trata da desesperança e do desespero de uma mulher que, sonhadora, se vê presa em um casamento insípido, com um marido de personalidade fraca, em uma cidade do interior. A história é sobre a esposa de um médico, Emma Bovary. Ela tem relações adúlteras. Ela vive além de seus meios, a fim de escapar das banalidades e vazio da vida provincial. A História da Arte busca introduzir o leitor ao mundo da arte, apresentando desde as pinturas rupestres da pré-história até a arte experimental contemporânea. O desenvolvimento da pintura e da escultura é tratado tendo como pano de fundo os sucessivos estilos de arquitectura. Usa a sua percepção da psicologia das artes visuais a fim de fazer o leitor ver a história da arte como uma tela contínua e uma mudança de tradições, em que cada obra reflecte o passado e aponta para o futuro.

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obras de autoras incríveis Yvone Vera escreve ficção sobre mulheres do Zimbábue em uma sociedade regida pelo patriarcalismo das famílias africanas e pelos valores de um governo opressor. Em “The stone virgins”, sem edição em português, a escritora ambienta o romance nos anos 80, numa África do Sul marcada por forte agitação civil e lutas por independência. O momento histórico do país é contado sob o ponto de vista de duas irmãs que, em meio a inúmeras violências, tentam encontrar maneiras de sobreviver e de buscar dignidade. A jornalista bielorrussa Svetlana Alexijevich conseguiu publicar uma edição em português do seu livro “A guerra não tem rosto de mulher”. A obra reúne depoimentos em primeira pessoa de mulheres do Leste europeu que lutaram pela Rússia na Segunda Guerra Mundial. Hoje, idosas, as mulheres contam histórias que foram forçadas a viver ainda na adolescência, servindo como enfermeiras, cozinheiras, francoatiradoras, pilotas, paraquedistas e diversas outras posições, inclusive no front, combatendo os nazistas. A escritora de origem egípcia Nawal el-Saadawi entrou para a história como a primeira mulher árabe a ter escrito sobre sexo, em 1958. Em seu livro “Memoirs of a woman doctor”, a escritora sonta sobre a luta de uma jovem egípcia para estudar medicina. Quase que se rebelando, além de enfrentar o machismo da família tradicional em que foi criada, a personagem também tem que lidar com a situação de ser a única mulher de sua turma. O livro não tem tradução para o português. Madeline Miller possui mestrado e bacharelado em Clássico, é professora de Latim, Grego Antigo e Shakespeare. Também estudou no Comitê de Pensamento Social da Universidade de Chicago e em Yale School of Drama. Seu primeiro livro, “A Canção de Aquiles” é uma reconstituição da épica Guerra de Troia. Ele conta a história de Pátroclo, o melhor amigo e companheiro do herói da Ilíada, Aquiles. Sua narrativa recebe vários elogios: é a simplicidade das palavras que torna sua combinação um trunfo tão grande.

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o menino que carregava água na peneira No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo. O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E começou a fazer peraltagens. Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira. A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água O mesmo que criar peixes no bolso. O menino era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos. A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos. Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito porque gostava de carregar água na peneira Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira.

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Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase. Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O menino fazia prodígios. Até fez uma pedra dar flor! A mãe reparava o menino com ternura. A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta. Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos. Poema por Manoel de Barros


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“A Noite Estrelada” Vincent Van Gogh


50 música “Abaporu” Tarsila do Amaral

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Piangers: “Gente Grande tem todos esses sentimentos escondidos”

Marcos Piangers é autor do best seller O Papai é Pop, com mais de 150 mil cópias vendidas e lançado em Portugal, Espanha, Inglaterra e EUA. É especialista em novas tecnologias, criatividade, inovação e uma das maiores referências sobre paternidade do país. Já deu aulas e palestras para os maiores eventos e empresas nacionais, além de ser três vezes palestrante do TEDx. Seus vídeos já ultrapassaram a marca de 200 milhões de views no Facebook.

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u estava sentado ao lado da minha filha de 11 anos na sala do cinema pra assistir a estréia de Divertida Mente, aquele filme da Pixar que se passa dentro de uma menina de 11 anos, morena de olhos grandes, igualzinha a minha filha. No filme, a menina passa pelo furacão que é a pré adolescência: tristeza por ter mudado de cidade, raiva dos pais, medo do ridículo, nojo da casa nova. Minha filha gostou do filme, mas posso garantir que teria gostado muito mais se não tivesse que passar a sessão inteira me pedindo para parar de chorar. “Pai, porque você está chorando tanto com esse filme?”, ela me perguntava. “Não sei!”, eu respondia. Mas é claro que eu sabia. Eu estava chorando porque eu estava vendo na tela minha filha com tristezas diversas, raivas secretas, medo do mundo. Eu estava vendo minha filha como um ser humano, não mais aquela menininha que a gente cuidou até então. A gente cuida do nosso filho por um tempo e por um tempo ele é uma mistura do pai e da mãe, alguma coisa de avó. Mas chega uma hora que vai aparecendo outra coisa. Vai aparecendo ele mesmo. Aquele ali é nosso filho virando gente. Nosso filho virando gente grande. E dá medo porque eu conheço um monte de crianças legais, mas gente grande legal conheço só uma dúzia. Porque gente grande tem todos esses sentimentos escondidos. A gente aprendeu a ser fingido: guardar raiva, nojo, tristeza e medo. Expressar alegria apenas de vez em quando. Que senão descobrem que a gente tá feliz demais. E isso pode ser usado contra a gente. E ser vulnerável é ser fraco. Eu sou forte. Eu não sinto nada. Como a gente quer que nossos filhos se expressem com clareza se a gente mesmo não se expressar? Se a gente mesmo não sabe o que sente? Ao longo da vida somos levados a esconder os nossos sentimentos, e de tanto esconder vamos esquecendo o que sentimos. Acho que é por isso que eu chorava no escuro do cinema. Porque via minha filha crescendo, aquela menininha que expressa todos os sentimentos, meio sem filtro, logo vai estar guardando as emoções, misturando os sentimentos, confundindo tudo. Como o pai, vai precisar de muita terapia. E de alguns filmes da Pixar, pra chorar escondida no cinema.

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Arteversa #1 edição  

Uma revista sobre artes diversas para pessoas diversas.

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