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quarteirão. Visitou a St. Mary’s, a igreja cujos sinos me ajudavam a marcar o tempo. À medida que os dias de verão passavam, ele ficava na rua mais e mais tarde, até que começou a chegar muitas horas depois de a Mãe sair. Ficava longe o tempo todo, e a Mãe não se importava. Minha casa era uma prisão. Eu mal suportava o calor, o silêncio e o vazio. Eu tentava de tudo para forçar o Jamie a ficar. Barrava a porta para impedi-lo de ir, mas ele já era mais forte que eu. Implorava e suplicava à Mãe. Ameaçava o Jamie. Então, num dia quente, amarrei as mãos e os pés dele enquanto o meu irmão dormia. Eu ​obrigaria ele a ficar comigo. O Jamie acordou. Não gritou nem fez escândalo. Debateu-se uma vez, depois ficou ali deitado, impotente, olhando pra mim. Lágrimas correram pelo seu rosto. Eu o desamarrei o mais rápido que pude. Senti-me um monstro. Seu pulso ficou com uma marca vermelha, onde eu tinha prendido a corda com muita força. “Não vou mais fazer isso”, falei. “Prometo. Nunca mais faço isso.” Ainda assim as lágrimas corriam. Eu entendi. Durante toda a vida jamais tinha feito mal ao Jamie. Jamais batera nele, nem uma única vez. Agora eu era que nem a Mãe. “Eu fico em casa”, ele sussurrou. “Não”, respondi. “Não. Não precisa. Mas tome um pouco de chá antes de sair.” Dei a ele uma caneca e um pedaço de pão com banha. Naquela manhã, éramos só nós dois, a Mãe tinha saído e eu não sabia para onde. Fiz cafuné na cabeça do Jamie, dei um beijo no cocuruto, cantei uma música pra ele, fiz tudo o que podia pra que sorrisse. “Logo, logo, você vai pra a escola, de qualquer forma”, eu disse, espantada por não ter me dado conta disso antes. “Daí você vai passar o dia todo fora, mas eu vou ficar bem. Vou ajeitar as coisas pra ficar bem.” Usei a minha lábia para convencê-lo a ir brincar e acenei pra ele da janela. Então eu fiz o que deveria ter feito desde o início. Fui aprender a andar.

Se eu conseguisse andar, talvez a Mãe não sentisse tanta vergonha de mim. Talvez pudéssemos disfarçar o meu pé aleijado. Talvez eu pudesse sair de casa e ficar com o meu irmão, ou pelo menos ir onde ele estivesse, caso precisasse de

A Guerra que Salvou a Minha Vida  

Ada tem dez anos (ao menos é o que ela acha). A menina nunca saiu de casa, para não envergonhar a mãe na frente dos outros. Da janela, vê o...

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