Gamboa de Baixo: Memórias, sonhos e reflexões para o futuro

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G AMB OA DE BA IXO

DANIELA VICENTE ALVES DA SILVA

G AMB OA DE BA IXO

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA - UFBA FACULDADE DE ARQUITETURA ARQUITETURA E URBANISMO 2021.1

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

GAMBOA DE BAIXO: MEMÓRIAS, SONHOS E REFLEXÕES PARA O FUTURO

DANIELA VICENTE ALVES DA SILVA

ORIENTADOR: DANIEL MAROSTEGAN E CARNEIRO

DADOS DA PUBLICAÇÃO

Ilustrações: Daniela Vicente

Cores: Daniela Vicente e Rafael Passos

Zanoli, Ícaro Macedo, Jiangtianyi Ma e Lucia Riba Hernandez, acessadas pela página da Associação de Moradores Amigos de Gegê da Gamboa de Baixo no Facebook

AGRADECIMENTOS

Deixo aqui os meus agradecimentos a todas as pessoas que tornaram este projeto possível. À minha família, pelo apoio e ajuda nos momentos di�ceis. Ao meu orientador Daniel, pela troca de ideias, fontes e pela paciência durante a execução deste trabalho. À banca examinadora, também pelas referências e pela conversa franca. À Associação Amigos de Gegê da Gamboa de Baixo, e aos moradores da Gamboa, parte central deste trabalho, pelas entrevistas concedidas. Finalmente, aos meus amigos, pelo companheirismo e por sempre me ajudar a ir além.

INTRODUÇÃO

O processo projetual arquitetônico se inicia, tradicionalmente, pelo estudo do entorno, do terreno e da implantação, de fatores ambientais como luz solar, ventos e ruídos, e idealmente, das necessidades dos considerados “usuários finais” do projeto. Mas como determinar defini�vamente quem são essas pessoas? É possível garan�r que o projeto arquitetônico, uma vez construído, será u�lizado da maneira como foi pensado? Sendo assim, torna-se indispensável planejar e fazer projeções estando consciente do caráter vivo e mutável das ocupações urbanas, considerando que naquele local histórias foram construídas, e o projeto arquitetônico e urbanís�co será palco para novas histórias individuais e cole�vas.

O pensamento urbano vigente em Salvador, que deveria desenvolver polí�cas públicas que contribuíssem para a diminuição da desigualdade social, garan�ndo serviços básicos a toda a população e fornecendo espaços públicos de qualidade, mantendo suas áreas verdes preservadas, entre outros, serve aos interesses do mercado imobiliário, que visa ampliar seus lucros. Os resultados disso são o reforço da segregação existente e consequentemente, diminuição do acesso da população de menor renda à serviços básicos como saúde e transporte, condições dignas de moradia, obtenção de trabalho, e a maior exposição dessa população à violência, enquanto a população residente em áreas nobres de Salvador possui acesso a infraestrutura de qualidade, proximidade a serviços e fácil acesso a lazer e educação. O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) de Salvador flexibiliza e altera normas e gabaritos, ao invés de os regulamentar, e assim vemos cada vez mais edi�cios de luxo e ver�calização dos considerados "bairros nobres" dentro da cidade, pressionando as ocupações populares de baixa renda que historicamente ocupam essas mesmas áreas.

A Gamboa de Baixo é uma dessas comunidades que está sob a pressão do mercado imobiliário. Localizada ao lado dos edi�cios da Vitória – bairro que possui um dos m² mais caros da cidade –, e de frente para a Baía de Todos os Santos, a comunidade tradicional pesqueira ocupa aquele espaço há mais de um século. Além das ameaças de remoção ao longo dos anos, há ainda o descaso e a falta de diálogo das autoridades e do poder público frente às dificuldades enfrentadas, como infraestrutura precária, falta de saneamento, necessidade de moradia digna, entre outras. Nos u�lizando da narra�va no pensamento arquitetônico e urbanís�co, podemos imaginar os vários desdobramentos para o futuro da Gamboa. A par�r de interações com os moradores, nos colocamos como observadores; através dos seus medos e receios, dos seus desejos e esperanças, caminhamos por entre esses possíveis futuros em uma narra�va utópica e, por vezes, distópica, buscando nos aproximar do desejo por cidadania, pertencimento, espaços públicos que es�mulem o contato e a troca de experiências, valorização enquanto patrimônio cultural imaterial, entre outros direitos que permi�riam aos gamboeiros a vivência plena da cidade. Esse Trabalho Final de Graduação surge, portanto, do experimento da narra�va enquanto processo projetual arquitetônico, e tem como instrumento a linguagem dos quadrinhos.

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Ao contar a história da Gamboa em seu passado, presente e possíveis futuros, busca-se alcançar um cenário utópico a par�r das falas dos moradores, mas principalmente em um exercício de imaginação próprio da autora. Os "sonhos e medos" dos moradores, através deste exercício, se transformam em possibilidades diversas para o futuro da Gamboa, e a par�r dessa narra�va, pretende-se gerar um debate acerca do poder do pensamento arquitetônico e urbanís�co na conformação das ocupações humanas, especialmente das comunidades mais vulneráveis, que sofrem com a falta de ação de seus governantes e que têm de lutar contra as ameaças de remoção a todo momento.

JUSTIFICATIVA

A autora teve um primeiro contato com a Gamboa em 2017, através da Universidade Federal da Bahia, e a par�r da discussão de alterna�vas, desejos, lutas e reinvidicações com os moradores, traz a proposta da narra�va enquanto pensamento arquitetônico como uma reflexão sobre o potencial transformador do arquiteto urbanista e da comunidade na construção do espaço público. Ao lidarmos com "sonhos" de um futuro, lembramos que existe um fator humano na composição do tecido urbano, e que carrega consigo memórias, experiências e relações com a sua comunidade e também com a cidade como um todo.

O fazer arquitetônico e urbanís�co tem como elementos importantes a imaginação de possibilidades e de quais histórias foram vividas no local de estudo, e quais serão vividas a par�r das intervenções arquitetônicas futuras. Deste modo, a narra�va e o pensamento utópico atuam como ferramentas para o arquiteto e urbanista analisar a realidade de maneira crí�ca, aproximando suas escolhas e decisões projetuais ao que realmente se deseja alcançar.

“Pode-se dizer que, enquanto a arquitetura é capaz de contar histórias sobre o passado e o presente, o projeto arquitetônico, por definição, está contando uma história sobre o futuro e a sua construção.”

– Cris�na Ampatzidou em Building Stories - the architectural design process as narrative, 2014

“A narrativa é um processo que estabelece e desenvolve conexões entre as experiências passadas de uma pessoa com as experiências de outras.”

– Marco Frascari em An architectural good-life can be built, explained and taught only through storytelling, 2012

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OBJETIVOS

01 A GAMBOA DE BAIXO

GAMBOA: S. F. PEQUENO ESTEIRO QUE SE ENCHE COM O FLUXO DA MARÉ; CERCADO DE VARAS FINAS (OU DE PEDRAS) ENTERRADAS E AMARRADAS, À ENTRADA DE ESTEIROS, PARA PEGAR PEIXES. (FONTE: CHIARADIA, CLÓVIS. DICIONÁRIO DE PALAVRAS BRASILEIRAS DE ORIGEM INDÍGENA)

Os mares brilhantes da Gamboa de Baixo...

A QUEM OBSERVA DAS CASAS, DAS JANELAS, DA PRAIA, A SENSAÇÃO DE ACORDAR NOS BRAÇOS DE UMA MÃE.

A VIDA ACONTECE NA BEIRA DO MAR. O ENCONTRO DE AMIGOS, AS CRIANÇAS BRINCANDO E TOMANDO BANHO NA BICAA ÁGUA QUE JORRA CONTINUAMENTE DIRETO DA NASCENTE.

HOMENS E MULHERES PESCAM, LIMPAM, VENDEM E COMEM O PEIXE, TODOS OS DIAS, NA GAMBOA.

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A GAMBOA DE BAIXO É UMA COMUNIDADE QUE FAZ PARTE DO CENTRO ANTIGO DE SALVADOR, NUMA REGIÃO DE ALTA ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA; SITUADA ENTRE OS EDIFÍCIOS DE LUXO DA VITÓRIA E O MAM - MUSEU DE ARTE MODERNA. JUNTAMENTE COM A COMUNIDADE DO UNHÃO, OCUPA A ENCOSTA AO MAR HÁ MAIS DE UM SÉCULO.

DOIS DE JULHO

COMUNIDADE DO UNHÃO

AV. CONTORNO

FORTE DE SÃO PAULO

A COMUNIDADE, COM RUAS QUE DESCEM POR LADEIRAS E LANCES DE ESCADA, NÃO POSSUI CIRCULAÇÃO DE AUTOMÓVEIS. O ACESSO PRINCIPAL, POR UMA PRACINHA ADJACENTE À AV. CONTORNO, É UMA ESCADARIA GASTA E MAL-ILUMINADA, ESCONDIDA NA PENUMBRA. A PASSAGEM É BAIXA E DE DIFÍCIL ACESSO.

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ALÉM DE HABITAÇÃO E DOS TRABALHOS RELACIONADOS À PESCA, NA GAMBOA HÁ TAMBÉM COMÉRCIOS, BARES E MERCADINHOS, VENDA DE PEIXE, SALÃO DE BELEZA, CABELEIREIROS...

VITÓRIA

PÍER DO ED. MORADA DOS CARDEAIS

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CAMPO GRANDE GAMBOA PRAIA DA GAMBOA ALI EXISTEM ATLETAS, ARTISTAS, FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS, COMERCIANTES... O COTIDIANO DA GAMBOA DE BAIXO É VIVO E DIVERSO.

GAMBOA

VITÓRIA

GRAÇA

BARRA

SUBÚRBIO FERROVIÁRIO

VALÉRIA

SIMÕES FILHO

CAJAZEIRAS

PAU DA LIMA

SÃO CAETANO

ITAPAGIPE

TANCREDO NEVES

LIBERDADE

CENTRO

BROTAS

ONDINA

CAMAÇARI

LAURO DE FREITAS

STELLA MARIS

ITAPUÃ PIATÃ

PATAMARES

BOCA DO RIO

COSTA AZUL

PITUBA

RIO VERMELHO

A GAMBOA DE BAIXO NA CIDADE DO SALVADOR

AFASTANDO O OLHAR, VEMOS QUE A GAMBOA FICA DE FRENTE PARA A BAÍA DE TODOS OS SANTOS, EM UMA DAS REGIÕES MAIS NOBRES E COBIÇADAS DE SALVADOR, DEVIDO AO POTENCIAL TURÍSTICO DO LOCAL.

APESAR DE ESTAR NO LOCAL HÁ MAIS DE UM SÉCULO, A INVISIBILIZAÇÃO DA GAMBOA É CONSTANTE: A GAMBOA SÓ PASSA A APARECER NO CENSO DEMOGRÁFICO DO IBGE EM 2010, APÓS SER INCLUÍDA COMO ZEIS (ZONA ESPECIAL DE INTERESSE SOCIAL) NO PLANO DIRETOR DE DESENVOLVIMENTO URBANO DE 2008. ANTES DISSO, A REGIÃO INTEIRA ERA DENOMINADA COMO “BARRA”, ENGLOBANDO TAMBÉM BAIRROS COMO A GRAÇA E A VITÓRIA.

A DIFERENÇA SOCIAL É CONTRASTANTE; AO MESMO TEMPO EM QUE ALI RESIDE PARTE DA POPULAÇÃO COM MAIOR ACESSO A SERVIÇOS E EDUCAÇÃO DE QUALIDADE, OS MORADORES DA GAMBOA E DO CENTRO ANTIGO SOFREM COM A FALTA DE INFRAESTRUTURA DAS SUAS MORADIAS, DOS ACESSOS, E COM AS INÚMERAS AMEAÇAS DE EXPULSÃO.

+ SALVADOR: UM BREVE HISTÓRICO

DESDE OS SEUS PRIMÓRDIOS ENQUANTO CIDADE, SALVADOR APRESENTA UMA MARCADA SEGMENTAÇÃO DO TECIDO URBANO. NO FINAL DO SÉCULO 19, BAIRROS PRÓXIMOS AO CENTRO DA CIDADE COMO CAMPO GRANDE, VITÓRIA E GRAÇA ERAM OCUPADOS POR RICOS, E A REGIÃO CENTRO-NORTE, EM DIREÇÃO À LINHA FÉRREA RECÉM IMPLANTADA, POR FAMÍLIAS POBRES. A PARTIR DOS ANOS 60, ESSA SEGREGAÇÃO SE INTENSIFICA COM A OCUPAÇÃO DA ORLA POR PESSOAS DE ALTA E MÉDIA RENDA, SE CONFIGURANDO COMO “ÁREA NOBRE” DA CIDADE. JÁ O MIOLO E O SUBÚRBIO FERROVIÁRIO PASSAM A SEDIAR LOTEAMENTOS POPULARES SEM CONTROLE URBANÍSTICO, E OCUPAÇÕES INFORMAIS EM SUAS ÁREAS LIVRES (CARVALHO E PEREIRA, 2015).

É NA EXPANSÃO MODERNA DE SALVADOR QUE SE DÁ A CONSTRUÇÃO DA AV. LAFAYETE COUTINHO, A AVENIDA CONTORNO, QUE EM 1952 CORTOU A GAMBOA, A DIVIDINDO ENTRE GAMBOA DE BAIXO E GAMBOA DE CIMA, COM TOTAL DESCONSIDERAÇÃO AOS MORADORES ABAIXO DA AVENIDA. A GAMBOA DE BAIXO FOI SEPARADA DO RESTO DA CIDADE, TENDO QUE CONSTRUIR SEUS PRÓPRIOS ACESSOS ATÉ SEREM ASSISTIDOS PELA CONDER-URBIS EM 1998, APÓS UMA SÉRIE DE PROTESTOS.

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DE BAIXO

NOS MAPAS AO LADO, DE 2010, A GAMBOA APARECE DE MANEIRA CONTRASTANTE COM O SEU ENTORNO. NO MAPA 01, MENOS DE 20% DOS MORADORES SE AUTODECLARAM COMO BRANCOS, DADO CONDIZENTE COM O COLETADO JUNTO À COMUNIDADE EM 2017, ONDE MENOS DE 5% DOS MORADORES SE AUTODECLARARAM BRANCOS (P. 12).

NO MAPA 02, “PERCENTUAL DE DOMICÍLIOS

COM RENDA PER CAPITA INFERIOR A 1 SM”, A GAMBOA E A COMUNIDADE DO UNHÃO APARECEM COM PERCENTUAL ACIMA DE 70%, REFLETINDO A SITUAÇÃO HABITACIONAL PRECÁRIA DAS COMUNIDADES, ALÉM DA FALTA DE ACESSIBILIDADE DENTRO DA COMUNIDADE, DIFÍCIL ACESSO A SERVIÇOS BÁSICOS, DEFICIÊNCIA DE INFRAESTRUTURA E INVISIBILIZAÇÃO PERANTE A CIDADE DE SALVADOR, DEVIDO À SEGREGAÇÃO FÍSICA DO ESPAÇO APÓS A CONSTRUÇÃO DA AV. CONTORNO, E AO ESTIGMA ASSOCIADO À DISCRIMINAÇÃO POR PARTE DA POPULAÇÃO EXTERNA À GAMBOA, E PELO SENSO COMUM DE QUE LÁ SERIA UM LOCAL VIOLENTO E TOMADO PELO TRÁFICO.

R.Hamilton Sapucaia

R.BarbosaLeal

MAPA 01 - PERCENTUAL DE MORADORES QUE SE AUTODECLARARAM COMO BRANCOS. SALVADOR, 2010

COR BRANCA

ABAIXO DE 20%

20 - 30%

30 - 50%

ACIMA DE 50% 0 2,5 5KM

FONTE: IBGE, CENSO DEMOGRÁFICO DE 2010. ELABORAÇÃO: CARVALHO E PEREIRA, 2015.

MAPA 02 - PERCENTUAL DE DOMICÍLIOS COM RENDA PER CAPITA INFERIOR A 1 SM. SALVADOR, 2010

dosR.BancoInglêses

A GAMBOA ANTES DE SER CORTADA PELA AVENIDA CONTORNO, 1946. FONTE: FUNDAÇÃO GREGÓRIO DE MATTOS / GEABLARQUIVOS EPUCS. DEMARCAÇÃO POR ZANOLI, 2017.

RENDA MENOR QUE 1 SM

ABAIXO DE 30%

30 - 60%

60 - 75%

ACIMA DE 75% 0 2,5 5KM

FONTE: IBGE, CENSO DEMOGRÁFICO DE 2010. ELABORAÇÃO: CARVALHO E PEREIRA, 2015.

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GAMBOA GAMBOA

EM UMA PESQUISA DE CAMPO REALIZADA EM 2017 POR PESQUISADORES DO LUGAR COMUM/UFBA E DA BARLETT SCHOOL/UNIVERSIDADE DE LONDRES, SE OBTEVE VÁRIOS DADOS RELATIVOS À ORIGEM DOS MORADORES, FAIXA DE RENDA, IDENTIDADE E TAMBÉM ÀS ATIVIDADES COTIDIANAS E QUAIS SÃO AS NECESSIDADES MAIS URGENTES DA GAMBOA, SEGUNDO OS PRÓPRIOS MORADORES.

!OS DADOS DESTA PÁGINA (FIG. 1, 2 E 3) FORAM COLETADOS COM UMA AMOSTRAGEM DE 208 PESSOAS. OS DADOS DA PÁGINA SEGUINTE (FIG. 4 E 5) TIVERAM AMOSTRAGEM DE 43 PESSOAS. A DIFERENÇA É DEVIDO AO FATO DE TERMOS ACRESCENTADO PERGUNTAS DE ORDEM QUALITATIVA À PESQUISA INICIAL, PARA DESTACAR A RELAÇÃO DOS GAMBOEIROS COM O MAR E COM A TERRA ONDE ESTÁ A GAMBOA. ESSA PESQUISA MODIFICADA FOI OFERECIDA A 43 DAS 208 PESSOAS ENTREVISTADAS (21%).

GRANDE PARTE DOS MORADORES DA GAMBOA NASCEU LÁ E VEM DE FAMÍLIA DE PESCADORES, OCUPANDO AQUELE TERRITÓRIO POR GERAÇÕES. MESMO ENTRE OS MORADORES QUE NÃO NASCERAM NA GAMBOA, A MAIORIA DESTES JÁ MORA NA COMUNIDADE HÁ MAIS DE 10 ANOS, CITANDO LAÇOS FAMILIARES COMO MOTIVO PARA A MUDANÇA (FIG. 1).

NASCERAM NA GAMBOA

NÃO NASCERAM NA GAMBOA

SE MUDARAM HÁ MAIS DE 10 ANOS

SE MUDARAM HÁ MENOS DE 10 ANOS

É UM LOCAL DE BELEZA EXUBERANTE, POVO CALOROSO, MAS DE GRANDE POBREZA. QUASE 70% DAS FAMÍLIAS AFIRMAM TER RENDA MENOR OU IGUAL A UM SALÁRIO MÍNIMO (FIG. 2). A POPULAÇÃO DA COMUNIDADE É COMPOSTA MAJORITARIAMENTE POR PESSOAS QUE SE AUTO-IDENTIFICAM COMO NEGRAS, SEGUIDAS POR PARDAS E MORENAS (FIG. 3).

MENOR QUE MEIO SALÁRIO MÍNIMO (SM)

MEIO A 1 SM

1 A 3 SM

MAIOR QUE 3 SM NÃO INFORMADA

NEGRA PARDA

MORENA OUTRAS

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FIG. 2 - FAIXA DE RENDA
21% 48% 24% 6% 1% 60% 25% 10% 5%
FIG. 3 - IDENTIDADE ETNORRACIAL
57% 43% 34% 9%
FIG. 1 - ORIGEM DOS MORADORES DA GAMBOA

O MAR FAZ PARTE DAS ATIVIDADES COTIDIANAS DE BOA PARTE DOS GAMBOEIROS, SENDO MENCIONADO TANTO COMO TRABALHO QUANTO COMO LAZER E DESCANSO (FIG. 4). CERCA DE 70% DA COMUNIDADE PRECISA DA PESCA PARA A SUBSISTÊNCIA, SEGUNDO ANA CAMINHA, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES.

MAR TRABALHO

LAZER

DESCANSO FAMÍLIA/AMIGOS

ESPORTES

CULTURA

NA GAMBOA, OS MORADORES DIZEM QUE FALTA ACESSO A NECESSIDADES BÁSICAS, COMO ÁREAS DE LAZER, ESCOLAS E CRECHES, COLETA DE LIXO, REFORMA DOS ACESSOS E INFRAESTRUTURA, ENTRE OUTRAS (FIG. 5).

- NECESSIDADES DA GAMBOA (SEGUNDO OS MORADORES)

ÁREAS DE LAZER COLETA DE LIXO ESCOLAS/ CRECHES INFRAESTRUTURA

POSTOS DE SAÚDE

PODE-SE VER, ENTÃO, QUE A GAMBOA É UMA COMUNIDADE DE RESISTÊNCIA, MAJORITARIAMENTE NEGRA, E QUE TEM UMA RELAÇÃO DE EXISTÊNCIA DIRETAMENTE LIGADA AO MAR E AO LOCAL ONDE ESTÃO HOJE.

...MAS O QUE SE SABE SOBRE O SURGIMENTO DA COMUNIDADE DA GAMBOA? HÁ QUANTO TEMPO A COMUNIDADE OCUPA AQUELE ESPAÇO?

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FIG. 4 - ATIVIDADES COTIDIANAS
48,5% 6,2% 6,2% 13,4% 10,3% 8,2% 7,2%
FIG. 5

HISTÓRIA E OFÍCIOS

NÃO SE SABE AO CERTO COMO SURGIU A GAMBOA, MAS UM RELATO COMUM ENTRE OS MORADORES É DE QUE MUITAS FAMÍLIAS DALI SÃO DESCENDENTES DE ÍNDIOS. ALGUNS TAMBÉM DIZEM QUE A GAMBOA FOI PONTO DE FUGA DE ESCRAVOS E ATÉ REFÚGIO DE FAMÍLIAS ORIUNDAS DE CANUDOS (ZANOLI, 2017).

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EXISTEM OS REGISTROS PICTÓRICOS DE VIDAL E OUSELEY, DE 1835, ONDE É POSSÍVEL VER, ALÉM DO FORTE, ALGUNS CASARIOS E BARCOS, JÁ INDICANDO A OCUPAÇÃO DO LOCAL.

AQUARELA DE EMERIC ESSEX VIDAL, 1835

JÁ OS PRIMEIROS REGISTROS ESCRITOS DE QUE SE TEM NOTÍCIA SÃO CARTAS ENVIADAS ENTRE 1878 E 1883, ENTRE O PESCADOR JOAQUIM BARBOSA E ÓRGÃOS DA MARINHA. UMA DAS CARTAS, DE 1882, FOI UM ABAIXOASSINADO DE MAIS DE 50 PESCADORES:

ILUSTRAÇÃO DE WILLIAM GORE OUSELEY, 1835

O FORTE, OU BATERIA DE SÃO PAULO DA GAMBOA FOI ELABORADO ENTRE 1714 E 1716. ATUANDO EM CONJUNTO COM O FORTE DE SÃO PEDRO, E CRUZANDO FOGOS COM O FORTE DE SÃO MARCELO POR MAR, FOI PARTE IMPORTANTE DA DEFESA DE SALVADOR, ENTÃO CAPITAL DO PAÍS.

“Nós abaixo assinados pescadores de redes e linhas dos portos das Pedreiras Gamboa e Barra viemos respeitosamente reclamar a vossa senhoria contra os pescadores de redes de Itapagipe que tendo em seus portos imensas coroas* onde pescam inverno e verão de propósito vem se apoderarem de uma única coroa denominada Baía da Gamboa que temos em nossas portas preterindo assim que a nossa rede possa pescar [...]”

(PORTELA, 2012, P. 101)

PORÉM, COM A MUDANÇA DA CAPITAL PARA O RIO DE JANEIRO

EM 1763, ELE PERDE SUA FUNÇÃO. FOI TOMBADO PELO IPHAN EM 1938, MAS UM DOCUMENTO DE 1935 JÁ APONTAVA A OCUPAÇÃO COMO MORADIA (ZANOLI, 2017). MESMO CONSIDERADO DEGRADADO, FORAM OS OCUPANTES QUE MANTIVERAM SUAS ESTRUTURAS ESTÁVEIS, REALIZANDO MANUTENÇÕES QUE NÃO ERAM FEITAS PELO PODER PÚBLICO.

SÃO BANCOS DE AREIA, MUITO UTILIZADOS NA PESCA

ARMADILHAS OU

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*COROAS
PARA COLOCAR
DEITAR REDES. (PORTELA, 2012)

MARISQUEIRAS TRABALHAVAM NAS PEDRAS ONDE HOJE SE ENCONTRAM OS PÍERS DOS EDIFÍCIOS DO CORREDOR DA VITÓRIA.

FORTE (BATERIA) DE SÃO PAULO DA GAMBOA

GAMBOA DE BAIXO (PORTO DA GAMBOA)

O PORTO DA GAMBOA E O PORTO DAS VACAS, ATUALMENTE GAMBOA DE BAIXO E UNHÃO, SÃO COMUNIDADES PESQUEIRAS SECULARES, E QUE VÊM TENDO SUAS PRÁTICAS E O SEU DIA-A-DIA AFETADO PELAS MUDANÇAS NO SEU ENTORNO. EXPANSÃO VIÁRIA DA CIDADE, ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA E A LÓGICA DO MERCADO ATUANDO NAS DECISÕES SOBRE A OCUPAÇÃO DA REGIÃO.

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MUSEU

PARQUE DAS ESCULTURAS (ADJACENTE AO MAM)

COMUNIDADE DO UNHÃO (PORTO DAS VACAS)

A CONSTRUÇÃO DA BAHIA MARINA PODE TER SIDO RESPONSÁVEL, SEGUNDO OS PESCADORES, POR MUDANÇAS NA CORRENTE MARÍTIMA DA REGIÃO, AFASTANDO OS CARDUMES DE PEIXES E DIFICULTANDO O TRABALHO DOS PESCADORES.

TEATRO VILA VELHA

PASSEIO PÚBLICO

QUARTEL DO COMANDO DA POLÍCIA MILITAR - BA

PRAÇA DA ACLAMAÇÃO

OS MORADORES PRETOS E POBRES DO CENTRO ANTIGO TÊM SOFRIDO REPETIDAS AMEAÇAS DE REMOÇÃO, E NÃO É DIFERENTE COM A GAMBOA DE BAIXO OU A COMUNIDADE DO UNHÃO. EM 1996, A COMUNIDADE DA ÁGUA-SUJA FOI REMOVIDA DO LOCAL QUE OCUPAVA, AO LADO DO MAM, PARA DAR LUGAR AO PARQUE DAS ESCULTURAS. CERCA DE 90 FAMÍLIAS FORAM EXPULSAS DE SUAS CASAS E JOGADAS EM ZONAS PERIFÉRICAS, LONGE DE FAMÍLIA E AMIGOS, E LONGE DO MAR (SCALDAFERRI, 2009).

FORTE SÃO PEDRO

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DE ARTE MODERNA - MAM

AS MULHERES DA GAMBOA SÃO PROTAGONISTAS NOS PROCESSOS DE LUTA E RESISTÊNCIA DA COMUNIDADE.

RECORTE DO MAPA DAS ZEIS

GAMBOEIROS - EM SUA MAIORIA MULHERES E CRIANÇAS - PROTESTAM EM FRENTE À EMBASA PARA REINVIDICAR FORNECIMENTO DE ÁGUA NA COMUNIDADE (2004).

EM 1992, HOUVE UM SURTO DE CÓLERA NA GAMBOA DE BAIXO. TRÊS MORADORES FALECERAM, ENTRE ELES SEU GERALDO, O GEGÊ, O QUE LEVOU À CRIAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO AMIGOS DE GEGÊ DOS MORADORES DA GAMBOA DE BAIXO, COM A FILHA DE GEGÊ COMO PRIMEIRA PRESIDENTE.

DESDE ENTÃO, A COMUNIDADE PASSA POR DIVERSOS MOMENTOS DE LUTA, RESISTÊNCIA E REINVIDICAÇÕES. UMA DAS MAIS IMPORTANTES PARA GARANTIR A PERMANÊNCIA FOI A CLASSIFICAÇÃO COMO ZEIS (ZONA ESPECIAL DE INTERESSE SOCIAL) 5, QUE ENGLOBA COMUNIDADES TRADICIONAIS PESQUEIRAS E QUILOMBOS, NO PDDU (PLANO DIRETOR DE DESENVOLVIMENTO URBANO) DE SALVADOR, TANTO EM 2008 QUANTO NA REVISÃO DO PLANO DIRETOR EM 2016. ATRAVÉS DA REGULAMENTAÇÃO DO PDDU, A LEI DE ORDENAMENTO, USO E OCUPAÇÃO DO SOLO DEVE INDICAR PARÂMETROS ESPECÍFICOS PARA ESTE TIPO DE ZONA, COM AÇÕES QUE FORTALEÇAM A COMUNIDADE TRADICIONAL E IMPEÇAM A REMOÇÃO DOS MORADORES PELA ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA.

MODIFICADO PELA AUTORA.

AINDA ASSIM, A AMEAÇA DE REMOÇÃO SE FAZ PRESENTE, E DISCUTIR AS QUESTÕES DE REGULAMENTAÇÃO X REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA, PATRIMÔNIO MATERIAL x IMATERIAL, SÃO DE EXTREMA IMPORTÂNCIA NESSE ÂMBITO. QUANTO À REGULAMENTAÇÃO, GARANTIR QUE OS INTERESSES DO MERCADO IMOBILIÁRIO NÃO SE SOBREPONHAM À MANUTENÇÃO DA CULTURA PESQUEIRA, ORIGINÁRIA DE NEGROS E ÍNDIOS; E QUE OS MORADORES DA GAMBOA SEJAM RECONHECIDOS COMO COMPONENTES DA HISTÓRIA DAQUELE TERRITÓRIO E DA CIDADE DE SALVADOR, SENDO PARTE DO PATRIMÔNIO IMATERIAL A SER PRESERVADO, E NÃO APENAS O FORTE, O EDIFÍCIO HISTÓRICO ENQUANTO PATRIMÔNIO MATERIAL.

FONTE: ANEXO 03 DA LEI Nº 9.069/2016, SUCOM - SECRETARIA MUNICIPAL DE URBANISMO.

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x

A ATUAL PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES, ANA CAMINHA, VEM DE FAMÍLIA DE PESCADORES.

GLEIDE DOS

E ADRIANO SAPUCAIA, INTEGRANTE DA ASSOCIAÇÃO E NETO DE HAMILTON SAPUCAIA, CUJO NOME FOI DADO A UMA DAS TRÊS RUAS PRINCIPAIS DA GAMBOA.

LOGO SE VÊ QUE MUITOS DOS MORADORES E SUAS FAMÍLIAS TÊM ESTADO POR GERAÇÕES NO TERRITÓRIO DA GAMBOA.

A ASSOCIAÇÃO AMIGOS DE GEGÊ DOS MORADORES DA GAMBOA DE BAIXO PARTICIPA DAS LUTAS E REINVIDICAÇÕES DA GAMBOA HÁ MAIS DE 25 ANOS, ALÉM DE ARTICULAÇÕES E RODAS DE CONVERSA COM OUTRAS COMUNIDADES DO CENTRO ANTIGO E COM UNIVERSIDADES.

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SANTOS, TAMBÉM INTEGRANTE DA ASSOCIAÇÃO...

INTERAÇÕES COMUNITÁRIAS

CONHECI A GAMBOA EM 2017, ATRAVÉS DA DISCIPLINA COMPLEMENTAR “POLÍTICA, DEMOCRACIA E DIREITO À CIDADE”, OFERTADA PELO LUGAR COMUM/UFBA. A DISCIPLINA ESTAVA EM SUA SEGUNDA EDIÇÃO, E TRATAVA DE VÁRIAS LOCALIDADES EM SALVADOR QUE RESISTEM PARA PERMANECER NOS TERRITÓRIOS QUE OCUPAM. DIVIDIDOS EM GRUPOS COM OS ESTUDANTES DE LONDRES, PASSAMOS DUAS SEMANAS EM CONTATO COM OS MORADORES, REALIZANDO OFICINAS E ENTREVISTAS PARA ENTENDER MELHOR A REALIDADE DA GAMBOA, E QUAIS QUESTÕES PERMEAVAM A LUTA PELO DIREITO À CIDADE.

03

ATRAVÉS DA ASSOCIAÇÃO, FORAM PROMOVIDOS DIVERSOS DIÁLOGOS DENTRO E FORA DA COMUNIDADE, ENTRE OS PRÓPRIOS MORADORES E TAMBÉM COM ARQUITETOS, URBANISTAS, ÓRGÃOS PÚBLICOS E UNIVERSIDADES.

OFICINAS E EXERCÍCIOS DE REFLEXÃO COM OS MORADORES GERARAM, AO LONGO DOS ANOS, OPORTUNIDADES DE DISCUTIR O QUE OS GAMBOEIROS CONSIDERAVAM POTENCIAIS E PROBLEMAS DENTRO DA COMUNIDADE.

AQUI É O PARAÍSO!

RELEMBRAR OS MOMENTOS MARCANTES E O COMPARTILHAMENTO DE EXPERIÊNCIAS TAMBÉM PODE FORTALECER A RELAÇÃO DOS MORADORES COM O TERRITÓRIO EM QUE HABITAM E COM AS LUTAS POR VIR.

BOLO NA CASA DE DONA ROSA! JOGAR BOLA NO FORTE!

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PRECISA DE MELHORIAS HABITACIONAIS!

A PARTIR DE INTERAÇÕES COM OS MORADORES, EU E MEUS COLEGAS OUVIMOS A OPINIÃO DELES SOBRE O QUE PODERIA SER MELHOR NA GAMBOA, E QUAIS ERAM SEUS DESEJOS PARA O FUTURO.

QUERO SEGURANÇA! LAZER PARA AS CRIANÇAS!

PRECISA CONSERTAR AS ESCADAS, AS RUAS...

LÁ NO FORTE TINHA NATUREZA, PLANTIO! AGORA PRECISA DE UMA LIMPEZA!

CHEGA DE BOMBA! PESCA TRADICIONAL VIVA!

A ÁREA DE LAZER QUE A GENTE TEM É O FORTE E A PRAIA!

PRECISA DE UM APOIO PARA OS PESCADORES...

A GENTE PRECISA FORTALECER A IDENTIDADE COLETIVA DE COMUNIDADE TRADICIONAL PESQUEIRA!

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JÁ A VISÃO EXTERNA ERA DE UMA GAMBOA PERIGOSA, QUE NÃO DEVERIA EXISTIR EM UMA REGIÃO NOBRE COMO AQUELA, E A MÍDIA MUITAS VEZES APOIOU A REMOÇÃO OU OCULTAÇÃO DA COMUNIDADE EM PROL DA PARCELA MAIS RICA DA POPULAÇÃO, QUE PASSARIA A USUFRUIR DO LOCAL.

O JORNAL BAHIA HOJE CRITICAVA A REMOÇÃO DAS FAMÍLIAS QUE ALI RESIDIAM PELO PROJETO DO BAHIA MARINA, MAS A ALTERNATIVA QUE ELE SUGERE É A CONSTRUÇÃO DE UM MURO DE FERRO, SEPARANDO OS MORADORES DO MAR, FONTE DE TRABALHO E LAZER PARA MUITOS GAMBOEIROS, E FORTALECENDO A EXCLUSÃO. NA FOTOMONTAGEM HÁ UM PÍER, COM VELEIROS E IATES DE LUXO - O MAR SERIA EXCLUSIVO PARA A ELITE.

“Preparando-se para receber, em dezembro, a primeira etapa do Bahia Marina, a Contorno será valorizada com as modificações, deixando de ser conhecida por uma antiga invasão existente na área e pelo risco de assalto que costuma oferecer.”

TEXTO DA MATÉRIA DO JORNAL A TARDE, JANEIRO/1996.

“Utilizando recursos de computação, o BAHIA HOJE mostra nesta foto uma alternativa para a intervenção urbana pretendida pela Conder para a Gamboa de Baixo. A idéia mantém a povoação ali existente desde o Século XIX. Os moradores querem ficar no local.”

ARQUIVO: ASSOCIAÇÃO AMIGOS DE GEGÊ DOS MORADORES DA GAMBOA DE BAIXO FONTE: SCALDAFERRI, 2009

06:17 AM 7 ABRIL 2009 #1

Cerrado

“Empreendimento inovador que respeita, preserva e recupera o patrimônio histórico em frente à Baía de Todos os Santos. [...]”

07:36 AM 8 ABRIL 2009

RicardoSSA

“Com a finalização desse projeto, Fasano, Hilton e Kirimurê, a Av. Contorno vai se transformar num dos endereços mais nobres, exóticos e charmosos do Brasil...”

TEXTO DA MATÉRIA DO JORNAL BAHIA HOJE, NOVEMBRO/1996.

OS SEGUINTES COMENTÁRIOS FORAM ENCONTRADOS EM UMA PÁGINA DA INTERNET, COM OPINIÕES SOBRE O ENTÃO PROJETO DO CLOC MARINA RESIDENCE (HOJE CONSTRUÍDO):

02:26 PM 7 ABRIL 2009

rodrigorc

“Salvador, a Mônaco brasileira... [...] esse é o primeiro de muitos imóveis de luxo que virão para substituir os casarões (e barracões) antigos.”

06:40 PM 12 ABRIL 2009

LFP Madruga

“Perfeito adorei, parece que a Gamboa e a avenida do contorno aos poucos vão se tornar a continuação do corredor da Vitória [...]”

08:59 PM 7 ABRIL 2009

Soteros

“Excelente projeto! [...] trará junto com os demais empreendimentos da área um público morador de mais alto poder aquisitivo, o que fará aquela região ressuscitar de vez.”

07:08 PM 12 ABRIL 2009

“Acho que teremos nessa região da Contorno o Puerto Madero do Brasil!” craudio

INSPIRADOS PELOS DESEJOS DOS MORADORES PARA A COMUNIDADE, E TAMBÉM PELOS SEUS MEDOS, MERGULHAMOS EM CENÁRIOS DE SONHOS E PESADELOS PARA IMAGINAR FUTUROS POSSÍVEIS PARA A GAMBOA.

A GAMBOA ONÍRICA

A PARTIR DAS CONVERSAS E DAS VIVÊNCIAS QUE TIVE ALI, COMEÇO A PENSAR NAS POSSIBILIDADES PARA A GAMBOA. AS FALAS DOS MORADORES SE TRANSFORMAM EM SONHOS NA MINHA MENTE...

04

DANIELA, QUE VIVIA SOB UM DOS ARCOS, DORMIA COM SEUS DOIS FILHOS.

MORADORA DA GAMBOA HAVIA POUCO TEMPO, ELA AINDA ESTAVA SE ACOSTUMANDO À UMIDADE E AO BARULHO DOS CARROS QUE PASSAVAM NA AV. CONTORNO.

NA MINHA IMAGINAÇÃO, ELA

SONHAVA COM SEUS FILHOS BRINCANDO EM UM ESPAÇO SEGURO NA GAMBOA, MAS LOGO ESSE SONHO MUDAVA... ... PARA UM CENÁRIO MAIS SOMBRIO.

NESTE CENÁRIO, SEUS FILHOS, MAIS VELHOS, HAVIAM SE ENVOLVIDO COM O TRÁFICO DE DROGAS.

25 A MARGEM PRETA INDICA QUE ESTAMOS ENTRANDO EM UM SONHO

RETRATO DE UM

CENTRO ANTIGO ABANDONADO, PRECISANDO DE AÇÕES DE SAÚDE PÚBLICA, EMPREGO, RENDA, EDUCAÇÃO...

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Ó OS CARA VINDO!
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O MURO HAVIA SIDO CONSTRUÍDO COMO PROPOSTO POR UM JORNAL NA DÉCADA DE 90, PARA EVITAR QUE

A GAMBOA PUDESSE SER VISTA DO MAR, RESERVADO AO LAZER DOS RICOS E AO TURISMO.

A “PESCA” COM BOMBA, JÁ PRESENTE NOS DIAS DE HOJE, SE FORTALECEU FRENTE AO DESESPERO DE NÃO SE TER FÁCIL ACESSO AO MAR. SABIA-SE QUE ERA UMA ATIVIDADE EXTREMAMENTE DANOSA AO MEIO-AMBIENTE E ÀS COMUNIDADES QUE ALI VIVIAM, MAS NESSE FUTURO, NINGUÉM MAIS SE

IMPORTAVA COM ISSO

A PRÁTICA CONTINUAVA SENDO CRIME, PORÉM, PELO DISTÚRBIO QUE CAUSAVA AOS EDIFÍCIOS DE LUXO NO ENTORNO. O POLICIAMENTO NOS MUROS DA GAMBOA ERA ALTO, POIS AS EMBARCAÇÕES DE PESCA JÁ NÃO ERAM PERMITIDAS ALI. POR ISSO, A MAIORIA DAS AÇÕES ERA REALIZADA À NOITE.

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29
O CENÁRIO DE UMA GAMBOA CERCEADA, CONTROLADA, VIGIADA, VIOLENTADA... TOMADA DE SEU LUGAR, ARRANCADA DOS BRAÇOS DE YEMANJÁ.
30 JÁ NO SONHO DOS MENINOS...
HAVIAM CONSTRUÍDO UM PARQUINHO EM UM DOS ARCOS!

SUA MÃE ESTAVA COM ELES. ELA ESTAVA TÃO FELIZ E TRANQUILA!

E POR FALAR NA CRECHE... ESTAVA FUNCIONANDO! ERA ENORME, E LINDA! PROFESSORES E ESTUDANTES REALIZAVAM ATIVIDADES DIVERSAS PELA GAMBOA, CAPOEIRA, PLANTIO NO FORTE!

HAVIAM OUTRAS CRIANÇAS TAMBÉM. ERA NORMAL PASSAR NO PARQUINHO NA SAÍDA DA CRECHE!

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E A MÃE DELES VOLTAVA A DORMIR TRANQUILA...

UMA DAS PREOCUPAÇÕES DE DONA HELENA ERAM OS ACESSOS PRECÁRIOS DA GAMBOA. IMAGINO QUE ISSO SE MANIFESTASSE NOS SEUS SONHOS, OU MELHOR, PESADELOS.

E SE ELA PRECISASSE DE ATENDIMENTO MÉDICO URGENTE? O SOCORRO TERIA CONDIÇÕES DE CHEGAR A TEMPO? ELA TERIA DE SER CARREGADA?

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TALVEZ SONHASSE COM RUAS MAIS LIMPAS E EM BOM ESTADO...

...E, PRINCIPALMENTE, COM A FACILIDADE DE SE DESLOCAR DA GAMBOA PARA SERVIÇOS EM OUTROS BAIRROS.

AQUI, A PARTIR DOS ANSEIOS DE DONA HELENA, SE PROPÕE UM ACESSO PRINCIPAL REFORMADO E ACESSÍVEL, MAIS CONFORTÁVEL PARA QUEM CHEGA OU SAI DA GAMBOA.

...COM A BEIRA-MAR REFORMADA, ACESSÍVEL PARA TODOS...

PLATAFORMA DE ACESSIBILIDADE

ESPAÇO EDUCATIVO E ARTÍSTICO

SE PROPÕE TAMBÉM UM ESPAÇO EDUCATIVO E ARTÍSTICO PARA USO POR TODA A COMUNIDADE, COMO ÁREA DE LAZER, EXTENSÃO DA ESCOLINHA, ENTRE OUTROS.

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NO TOPO DA ESCADA, OUTRO PERIGO: A TRAVESSIA DA AVENIDA CONTORNO.

PARA A SEGURANÇA DOS MORADORES, O IDEAL SERIA QUE A AVENIDA FOSSE MODIFICADA, VELOCIDADE MÁXIMA REDUZIDA, ENFIM, PRIORIZAR AS PESSOAS EM RELAÇÃO AO AUTOMÓVEL...

CRIANÇAS E ADULTOS CORRENDO PARA CRUZAR UMA AVENIDA SEM SEMÁFOROS OU FAIXAS.

A VALORIZAÇÃO DA ENTRADA PRINCIPAL DA GAMBOA, COM O NOME DA COMUNIDADE E A PLATAFORMA DE ACESSIBILIDADE NA ESCADARIA, MOSTRARIA A TODOS QUE PASSASSEM QUE AQUELAS PESSOAS MORAVAM ALI, E PORQUE NÃO, CONVIDARIA A DESFRUTAR DA VISTA!

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A ACESSIBILIDADE NOS PÍERES DA GAMBOA TAMBÉM É IMPORTANTE, POIS HÁ ENTRE OS PESCADORES PESSOAS MAIS VELHAS E IDOSOS - ALÉM DE GARANTIR O ACESSO SEGURO A TODOS OS MORADORES E POTENCIAIS VISITANTES.

A QUALIDADE E ACESSIBILIDADE DA BEIRA-MAR SIGNIFICA O ESTREITAMENTO DA RELAÇÃO ENTRE A GAMBOA E O MAR.

ENSINO DE TÉCNICAS

O ENVOLVIMENTO DOS MAIS JOVENS NO DIA A DIA DA COMUNIDADE, NAS PRÁTICAS TRADICIONAIS, E NA APRENDIZAGEM DA PESCA ATRAVÉS DA ORALIDADE E DAS TROCAS ENTRE DIFERENTES GERAÇÕES, É PONTO-CHAVE NA PRESERVAÇÃO DO LEGADO CULTURAL NA GAMBOA.

FAZENDO A REDE DE PESCA

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A MARGEM BEGE INDICA QUE ESTAMOS ENTRANDO EM UMA MEMÓRIA

Vim pra Gamboa porque tinha espaço pra plantar.

Sinto falta das minhas plantas, das galinhas... Lá tinha fruta do pé, tinha peixe...

DONA ROSA (IN MEMORIAM) SEMPRE SE LEMBRAVA DE COMO ERA A VIDA QUANDO ELA COMEÇOU A MORAR NA GAMBOA, EM SUA CASA NO FORTE DE SÃO PAULO...

‘brigado!

Ó a bola pra não cair no mar, menino!

Tá bem!

Comer bolo na casa de Dona Rosa, galera!

ELA, UMA DAS MORADORAS MAIS ANTIGAS DA GAMBOA E DO FORTE, TEVE QUE SAIR DE SUA CASA APÓS O DESABAMENTO DO TELHADO EM 2016. FOI PARA A CASA DO FILHO, TAMBÉM NA GAMBOA, MAS NUNCA PÔDE VOLTAR A MORAR NO FORTE, QUE ERA A SUA VONTADE.

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Bora ganhar esse baba!

DE 2016 PARA OS DIAS ATUAIS, A SITUAÇÃO DO FORTE SÓ PIOROU. O TELHADO DESABOU EM MAIS SEÇÕES E O VIGAMENTO DE MADEIRA ESTÁ EXPOSTO. ALÉM DISSO, HÁ PLANTAS CRESCENDO EM FRESTAS NAS PAREDES E NA COBERTURA.

EM JULHO DE 2019, APÓS UM PERÍODO DE FORTES CHUVAS, UM MURO DESABOU POR CIMA DA CASA DE GLEIDE, QUE FICAVA NA ENCOSTA ACIMA DO TERRAPLENO DO FORTE. FELIZMENTE, ELA NÃO ESTAVA EM CASA NO MOMENTO. O ACESSO DOS MORADORES DO FORTE PARA O ALTO DA GAMBOA TAMBÉM FOI PERDIDO NESSE EVENTO.

DOIS DIAS DEPOIS DO DESABAMENTO, UMA CRATERA SE ABRIU EM FRENTE AO FORTE, AUMENTANDO A PREOCUPAÇÃO QUANTO À CONSERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO.

MESMO APÓS OS DESABAMENTOS, AS FAMÍLIAS CONTINUARAM MORANDO NO FORTE E NO TERRAPLENO.

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MAS ESSAS TAMBÉM SÃO AS FAMÍLIAS SOB MAIOR RISCO DE REMOÇÃO, POIS O PODER PÚBLICO ENTENDE QUE O FORTE É PROPRIEDADE DO ESTADO.

UMA DAS PROPOSTAS DO IPHAN ERA A DE RESTAURÁ-LO E TRANSFORMÁ-LO NUMA ESCOLA DE ESCOTEIROS DO MAR. A PROPOSTA ISOLA O FORTE DA COMUNIDADE, E NÃO FOI DISCUTIDA COM OS MORADORES EM NENHUM MOMENTO.

SE A REMOÇÃO FOR INEVITÁVEL, PARA ONDE IRIAM TODAS AS FAMÍLIAS QUE OCUPAM E MANTÊM O FORTE DE SÃO PAULO DA GAMBOA?

APRESENTAÇÃO DE PROPOSTA DE HABITAÇÃO SOCIAL PARA ÓRGÃOS DA PREFEITURA.*

MUITAS PESSOAS SE DEBRUÇARAM SOBRE A QUESTÃO. UMA DAS PROPOSTAS FOI UMA HABITAÇÃO SOCIAL NA PRÓPRIA GAMBOA, DEFINIDA A PARTIR DE DIÁLOGOS DENTRO E FORA DA COMUNIDADE, COM PARTICIPAÇÃO ATIVA DOS MORADORES, O PROJETO ESTÁ LOCALIZADO NA BEIRA-MAR, MANTENDO A PROXIMIDADE QUE OS MORADORES TINHAM COM O MAR EM SUAS HABITAÇÕES NO FORTE - RELAÇÃO IMPORTANTE ESPECIALMENTE PARA OS QUE VIVEM DA PESCA.

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*ELABORAÇÃO: ZANOLI E IVO, 2015 BAÍADETODOSOSSANTOS PLANTA-TIPO - APARTAMENTOS LOCALIZAÇÃO DOS TERRENOS DA PROPOSTA DE HABITAÇÃO SOCIAL FORTE (GAMBOA)“BOCAINA”
TERRENOS PROPOSTOS

IMAGINANDO, AINDA, QUE O FORTE CONTINUASSE A FAZER PARTE DA COMUNIDADE, OS MORADORES DA GAMBOA DESENVOLVERAM, COM A COLABORAÇÃO DE ARQUITETOS E URBANISTAS, UM PLANO DE USO E GESTÃO* PARA O FORTE DE SÃO PAULO DA GAMBOA.

NESSE PLANO, IMAGINAM-SE DIVERSOS USOS PARA O FORTE E SEU ENTORNO, NA CONSTRUÇÃO CENTRAL, SERIA INSTALADO O MUSEU COMUNITÁRIO. ABAIXO, DESENHO UMA IDEIA DE COMO PODERIAM SER AS DIVISÕES INTERNAS DO MUSEU E QUAIS ESPAÇOS ELE PODERIA CONTER:

MUSEU COMUNITÁRIO DA GAMBOA (ANTIGA CASA DE APOIO)

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*ELABORAÇÃO: MORADORES DA GAMBOA E RAU+E/FAUFBA
SALA DA PESCA E DO MAR RECEPÇÃO SALA DE FOTOGRAFIAS EXIBIÇÃO
DE PEIXES ORNAMENTAIS E VIDA MARINHA
PLANTA BAIXA DO MUSEU RECEPÇÃO EXIBIÇÃO 1 EXIBIÇÃO 2 EXIBIÇÃO 3 DEPÓSITO

JÁ O CASARÃO PRINCIPAL DO FORTE SERIA DIVIDIDO ENTRE SERVIÇOS, NO TÉRREO, E HABITAÇÃO NO PRIMEIRO ANDAR, COM ACESSO PELA ESCADARIA LATERAL EXISTENTE.

HABITAÇÃO E SERVIÇOS (ANTIGA DEPENDÊNCIA DO CAPITÃO)

DEPÓSITODEPÓSITO

LAVANDERIA

TÉRREO - SERVIÇOS

HABITAÇÃO

LAVANDERIA

DEPÓSITO

MURO DE PEDRA

LOJA

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COMÉRCIO *ELABORAÇÃO DO PROJETO HABITACIONAL: ALBUQUERQUE E MAROSTEGAN
1º ANDAR - HABITAÇÃO*

ACESSO À COMUNIDADE DO UNHÃO E AO MAM*

HABITAÇÃO

ACESSO À RUA HAMILTON SAPUCAIA

HORTA

COMÉRCIO/SERVIÇOS

MUSEU

TERRAPLENO

O TERRAPLENO SERIA PALCO DE ATIVIDADES DIVERSAS, COMO PLANTIO, RECREAÇÃO, PONTO DE ENCONTRO, REUNIÕES E CELEBRAÇÕES, COMÉRCIO, OFICINAS DE PRÁTICAS RELACIONADAS À PESCA, E O QUE MAIS FOR PERTINENTE E PROPÍCIO - ENFIM, UM ESPAÇO MUTÁVEL A SER COMPARTILHADO ENTRE MORADORES E VISITANTES; UM ESPAÇO DE TROCAS CULTURAIS.

“CINEMA AO AR LIVRE”: PROPOSTA DE ATIVIDADE NOTURNA NA PAREDE EXTERNA DO MUSEU

HABITAÇÃO

COMÉRCIO E SERVIÇOS

HABIT. PÍER

CELEBRAÇÕES

PLANTIO

HISTÓRIA E CULTURA

PÍER DE DESCANSO E ACESSO AO FORTE E À COMUNIDADE

DIVERSÃO

PASSAGEM

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*COMO PROPOSTO POR IVAN SMARCEVSCKI.

A PARTIR DO SONHO DE DONA ROSA, DE VOLTAR A TER O FORTE BEM CUIDADO, COM MORADIA DIGNA, ÁRVORES FRUTÍFERAS... PORQUE NÃO ESTENDER ISSO PARA A GAMBOA INTEIRA? DAÍ SURGE A GAMBOA UTÓPICA.

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QUEM SABE, NO FUTURO, A GAMBOA NÃO SERIA ASSIM? PESCA VIVA, PLANTIO, TETOS VERDES, MAIOR SUSTENTABILIDADE, COLETA DE LIXO, COMPOSTAGEM, RUAS MAIS LIMPAS...

CAIXA DE

DRENAGEMADUBO LÍQUIDO

O ESTÍMULO DO CONSUMO DE PRODUTOS CULTIVADOS NA GAMBOA, E A DIMINUIÇÃO DO CONSUMO DE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS, ALIADOS AO REAPROVEITAMENTO DE RESÍDUOS EM COMPOSTAGEM REDUZIRIAM DRASTICAMENTE O LIXO NA GAMBOA.

MANTENDO A PESCA TRADICIONAL VIVA, SE ABANDONARIA A PRÁTICA DA “PESCA” COM BOMBA, PREJUDICIAL AO MEIO-AMBIENTE E À VIDA DOS GAMBOEIROS.

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COMPOSTAGEM
ESSE CENÁRIO REPRESENTAVA UMA OUTRA ROTINA DE VIDA. A GAMBOA, MESMO DENTRO DA METRÓPOLE, VIVENDO EM SEU PRÓPRIO RITMO, EM SEU PRÓPRIO TEMPO.

ANA NASCEU E CRESCEU NA GAMBOA. VINDA DE FAMÍLIA DE PESCADORES, NA JUVENTUDE VIA OS TIOS PESCANDO; HOJE, VÊ OS PRIMOS. SENTAR NAS PEDRAS HISTÓRICAS QUE COBREM A COSTA DA GAMBOA É UMA DAS LEMBRANÇAS QUE ELA GUARDA DE SUA JUVENTUDE.

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MAS NESSA GAMBOA HAVIA ALGO DE DIFERENTE... TOMADA PELA GENTRIFICAÇÃO, PASSA A SER OCUPADA POR HOTÉIS DE LUXO, LOJAS DE GRIFE, E AOS POUCOS OS MORADORES VÃO MUDANDO...

TALVEZ ANA IMAGINASSE O QUE ACONTECERIA À GAMBOA CASO ELA SUCUMBISSE À PRESSÃO DO MERCADO IMOBILIÁRIO E TURÍSTICO... E ASSIM, A IDENTIDADE DA GAMBOA DE BAIXO SE PERDE.

A VISÃO DA COMUNIDADE NA ENCOSTA CERTAMENTE TINHA O APELO TURÍSTICO DE UMA VILA BUCÓLICA, RÚSTICA... “ALGO DE MEDITERRÂNEO”, SEGUNDO ALGUMAS PESSOAS DE SALVADOR.

JÁ NÃO SE VÊEM MAIS TANTOS ROSTOS CONHECIDOS. OS TRABALHOS COMEÇAM A GIRAR EM TORNO DO TURISMO, E SERVINDO A EMPRESÁRIOS E AFINS QUE, EM SUA MAIORIA, NÃO TÊM NENHUMA RELAÇÃO COM A GAMBOA TRADICIONAL.

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EM OUTRO CENÁRIO, E NA PIOR DAS HIPÓTESES, ACONTECERIA O DESAPARECIMENTO COMPLETO DA GAMBOA, ABRINDO ESPAÇO PARA UMA CONTINUAÇÃO DO CORREDOR DA VITÓRIA ATÉ O BAIRRO DO COMÉRCIO.

ONDE ANTES HAVIA A PESCA TRADICIONAL, A OCUPAÇÃO SECULAR DO TERRITÓRIO POR NEGROS, ÍNDIOS E SEUS DESCENDENTES...

...ERA AGORA OCUPADO POR EDIFÍCIOS DE LUXO, E POR AQUELES QUE PODIAM PAGAR PARA TER ACESSO EXCLUSIVO À BELÍSSIMA VISTA DA BAÍA DE TODOS OS SANTOS.

E PARA ONDE IRIAM OS GAMBOEIROS? BAIRROS AFASTADOS DO CENTRO HISTÓRICO E DO MAR, ASSIM COMO ACONTECEU COM OS MORADORES DA ÁGUA-SUJA? FAMÍLIAS E AMIGOS SENDO SEPARADOS DO SEU CONVÍVIO E DO TERRITÓRIO TRADICIONALMENTE OCUPADO PELA COMUNIDADE...

47
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GAMBOA DE BAIXO MAPA DE SALVADOR X

...MAS ANA TAMBÉM TINHA SONHOS, E MUITOS, PARA A GAMBOA.

UM FUTURO DE JOVENS ESTUDANDO, SE FORMANDO... QUE AS PRÓXIMAS GERAÇÕES CHEGASSEM AINDA MAIS LONGE DO QUE A DELA.

JOVENS ENGAJADOS NAS LUTAS DA COMUNIDADE, NAS TRADIÇÕES E PRÁTICAS DA GAMBOA, CARREGANDO O LEGADO CULTURAL E HISTÓRICO DA GAMBOA DE BAIXO...

A TRANSMISSÃO DESSE LEGADO, DAS ATIVIDADES COTIDIANAS, DA PESCA, DAS RELAÇÕES PRESENTES ALI, FORTALECEM O RECONHECIMENTO ENQUANTO COMUNIDADE TRADICIONAL PESQUEIRA, PARTE INTEGRANTE E ESSENCIAL DA CIDADE DE SALVADOR.

48

ANA ACORDOU AINDA DE MADRUGADA. DA SUA JANELA, PODIA VER OS BARCOS FLUTUANDO NA SUPERFÍCIE DO MAR, E OS MOVIMENTOS DOS PESCADORES NA BEIRA-MAR.

ERA 2 DE FEVEREIRO, DIA DE YEMANJÁ. ERA DIA DE CELEBRAÇÃO NA GAMBOA!

DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES, A PROCISSÃO DESCIA CARREGANDO BALAIOS DE FLORES E OFERENDAS PARA YEMANJÁ.

AO FIM DA TARDE, COM O SOL JÁ BAIXANDO, MORADORES EMBARCAVAM NA PRAIA E DIVERSAS EMBARCAÇÕES SEGUIAM PARA LONGE DA COSTA. ERA DIA DE PEDIR POR FARTURA, DE CANTAR, DIA DE CONTEMPLAR A BELEZA DO REINO DE YEMANJÁ.

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50 ODOYÁ!!
FIM.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

SOBRE O PROJETO / AUTORA

é um Trabalho Final de Graduação (TFG) para a Faculdade de Arquitetura da UFBA, desenvolvido pela graduanda Daniela Vicente Alves da Silva e orientado pelo Prof. Me. Daniel Marostegan e Carneiro, inicialmente pensado para ser apresentado no segundo semestre de 2019 em Salvador - BA. Devido a vários acontecimentos em minha vida pessoal, como minha gravidez, e com a chegada da pandemia da Covid-19 em 2020, o trabalho só vem a público em Maio de 2021.

A preparação para o que este trabalho veio a ser, em sua forma nal, se iniciou em torno do meu terceiro ano de faculdade, quando comecei a me questionar sobre o que era realmente ser uma arquiteta/urbanista. Vi que as possibilidades eram várias: trabalhar com projetos urbanísticos, arquitetônicos e de interiores, paisagismo, cenogra a, assessoria, pesquisa, ensino, dentre outras; decidi que para o meu trabalho nal, gostaria de tensionar uma das maneiras possíveis de pensar a arquitetura - a partir de uma narrativa, da história de um lugar e das pessoas que ali vivem, da história que se deseja contar, e também da história do próprio arquiteto e urbanista, que traz consigo sua bagagem pessoal. A partir dos conhecimentos adquiridos na faculdade, mas também de experiências fora dela, esse projeto é uma forma de pensar a cidade, as aglomerações humanas, a cultura, e como aplicar esse conhecimento como ferramenta transformadora.

Quando conheci a comunidade pesqueira da Gamboa de Baixo, me senti profundamente tocada pela relação que os moradores nutrem com o território, com o mar e a prática pesqueira, e também a relação interpessoal, de gerações de famílias e amigos. Escolhi trabalhar com a Gamboa de forma não a oferecer mais um projeto arquitetônico/urbanístico, mas a contar sua história a partir de uma ótica pessoal, baseada em observações e no que foi dito em diálogos com os moradores, e a partir da história já existente, tensionar futuros possíveis, que afastariam ou trariam a comunidade para mais perto de um ideal, ou de vários ideais, a depender das ações que forem tomadas no presente. Nesse processo, buscou-se também trazer a valorização e a visibilidade da Gamboa enquanto patrimônio cultural imaterial, pois sua relevância para a cidade de Salvador vai além da existência secular, puramente falando, pois se dá também pelo conhecimento passado entre gerações, pelas práticas e ofícios ali realizados, pela origem de seu povo e pela relação histórica e afetiva dos moradores com o terrítório. Para uma linguagem clara, atraente, e de fácil entendimento, escolhi a linguagem da arte sequenciada, os quadrinhos, como forma de apresentar este trabalho.

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Concebida pelo arquiteto Rafael Luís Souza, então graduando, e orientado por Paola Berenstein Jacques, é um Trabalho Final de Graduação no formato de revista em quadrinhos e propõe um estudo urbano sobre a Avenida Paralela, na cidade de Salvador, e seus arredores.

Em seu trabalho, Rafael aponta a Avenida Paralela como vetor de crescimento urbano, onde o mercado imobiliário reforça um ideal de habitação cercado de privilégios, com aglomerados de condomínios fechados, ruas exclusivas e monitoradas, e tendo como meio de transporte principal o automóvel particular, o que visivelmente se re ete na con guração das ruas.

Uma linha do tempo é, então, desenhada, a partir do presente e adentrando 50 anos no futuro, imaginando quais seriam as possibilidades para essa avenida, dentre ns extremos e cenários que buscam se aproximar do ideal, se utilizando do pensamento utópico para nortear essas escolhas, e também para se posicionar diante das perspectivas atuais para a região.

O estudo é feito de maneira dinâmica e instigante, sempre com a linguagem de HQ, inclusive como forma de representação de estudos urbanísticos e arquitetônicos. O trabalho foi, ainda, publicado parcialmente na revista , Ano 3, no. 9, 2012, Laboratório UrbanoPPG-AU/FAUFBA.

“Linha do tempo” mostra o passado, o presente, os caminhos que não foram e a in nitude de caminhos que poderão ser.

53 REFERÊNCIAS

REFERÊNCIAS

Contos dos Orixás, por Hugo Canuto, 2018

O projeto Contos dos Orixás se iniciou a par�r de uma série de ilustrações de orixás no es�lo dos quadrinhos de super heróis, em homenagem ao autor e criador Jack Kirby, da série Avengers, de 1966, e que foram reunidas em um Artbook em 2017. A par�r de então, Hugo Canuto trabalhou também em uma adaptação de narra�vas relacionadas às divindades e heróis do universo tradicional oral da cultura Yorubá e sua descendência no Brasil e na Bahia, que depois viraria história em quadrinhos.

Em 2018, Hugo Canuto lança a HQ Contos dos Orixás, escrita e desenhada por ele. Reúne histórias de uma África mí�ca, de quando seres divinos caminhavam com os homens, transitando entre o céu e a terra. Mostra a riqueza da cultura Yorubá, uma civilização localizada na Nigéria e em partes do Benin e do Togo, e que através da terrível diáspora, difundiu parte dos saberes para o Brasil e Cuba, originando religiões como o Candomblé, a Umbanda e a Santeria.

Joe Sacco é um ar�sta de quadrinhos e jornalista, nascido em Malta em 1960 e atualmente residindo em Portland, Oregon, nos Estados Unidos. É mundialmente reconhecido por combinar suas duas profissões, criando um es�lo caracterís�co de quadrinhos onde os fatos são apresentados através da ó�ca de um jornalista, ele mesmo um parsonagem dentro de suas histórias. Suas obras mais conhecidas são Palestina (1996) e Área de Segurança: Gorazde (2000). Auto-retrato, Joe Sacco.

Em suas entrevistas, ele busca dar a voz àqueles que historicamente são oprimidos e não costumam ter direito de fala nos no�ciários tradicionais. Joe Sacco tem plena consciência da impossibilidade de retratar um fato tal qual ele ocorre - logo, ele se u�liza desses relatos que estão à margem da versão oficial da história - as “notas de rodapé” - como um argumento de que não é possível explicar a dimensão real do todo em uma coluna de jornal ou teleno�ciário.

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Joe Sacco Capa de Contos dos Orixás Cena de batalha entre o exército de Xangô e Ajantala.

PRODUÇÃO DA HISTÓRIA EM QUADRINHOS

A par�r de conversas com o meu orientador, Daniel Marostegan, e também do TFG de Rafael Luis, 2061, iniciei a produção de uma adaptação narra�va em arte sequencial (quadrinhos), seguindo a seguinte ordem:

Conceito: o ponto de par�da da história. Onde se passará? O que se deseja mostrar?

Desde o início, sabia que seria na Gamboa e que eu queria mostrar as várias possibilidades de futuro a par�r de cenários oníricos, utópicos e distópicos, imaginados por mim ao ouvir os relatos dos moradores.

Roteiro: descrevi, em texto, o que viria a ser cada página, com cenas e falas. Conforme fui desenhando, adaptei o roteiro e o texto para um melhor resultado no formato dos quadros.

Esboço: nesta etapa, desenvolvi os desenhos em lápis - primeiro, uma miniatura das páginas, pois algumas funcionariam em conjunto; depois, página a página em tamanho real e desenhos mais detalhados.

Finalização do Traço/Nanquim: u�lizando papel vegetal e nanquim, copiei os esboços para uma versão mais limpa e ní�da, para que pudesse ser escaneada e colorida digitalmente.

Cores e texto: as artes das páginas foram então coloridas digitalmente com o auxílio do programa Photoshop. Depois, adicionei o texto u�lizando o Illustrator.

Revisão: para avaliar se as cores estariam ní�das e a história coerente, sem erros ortográficos ou de con�nuidade, o trabalho foi impresso e analisado algumas vezes, sendo corrigido sempre que necessário.

Assim, a história em quadrinhos estará pronta para a impressão, sendo entregue cópias para a banca, o professor orientador, e também sendo divulgada online e entre a comunidade da Gamboa, até a apresentação.

Sequência da produção da história em quadrinhos: roteiro, esboço em miniatura e em página inteira, nanquim e arte final (cor e texto).

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AAGMGB - Associação Amigos de Gegê dos Moradores da Gamboa de Baixo; Residência AU+E/UFBA. Uso e gestão do forte São Paulo da Gamboa. Car�lha desenvolvida com colaboração do Núcleo de Assistência Técnica. Salvador: Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Arquitetura, 2017.

AMPATZIDOU, Cris�na; MOLENDA, Ania. Building Stories – the architectural design process as narra�ve. Ar�go para a conferência Digital Storytelling in Times of Crisis, Atenas, 2014.

BARROS, Iago Albuquerque; CARNEIRO, Daniel Marostegan e. Plano de Ocupação para o forte São Paulo da Gamboa. Assessoria Técnica para a comunidade da Gamboa de Baixo. Salvador: Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Arquitetura, 2018.

CANUTO, Hugo. Contos dos Orixás. Salvador: selo independente, 2018.

CARVALHO, Inaiá Maria Moreira de; PEREIRA, Gilberto Corso. Segregação Socioespacial e Desigualdades em Salvador. Cadernos do CEAS, Salvador, n. 235, p. 5-22, 2015.

FRASCARI, Marco. An Architectural Good-Life Can be Built, Explained and Taught Only Through Storytelling. Reading Architecture and Culture, pp. 224-233. Abingdon, Oxon e Nova York: Routledge, 2012.

GARRIDO, Carlos Miguez. For�ficações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.

OLIVEIRA, Mário Mendonça de. As Fortalezas e a Defesa de Salvador. Brasília, DF: Iphan/Programa Monumenta, 2008. 228 p. : il. (Roteiros do Patrimônio).

PEDRO II, Imperador do Brasil. Viagens pelo Brasil: Bahia, Sergipe, Alagoas, 1859-1860 (2ª ed.). Rio de Janeiro: Bom Texto; Letras e Expressões, 2003.

PERRY, Keisha-Khan Y. The roots of black resistance: race, gender and the struggle for urban land rights in Salvador, Bahia, Brazil. Social Identities, vol. 10, nº 6, pp. 811-831, 2004.

PORTELA, Rafael Davis. Pescadores na Bahia do Século XIX. Salvador: Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2012.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

SCALDAFERRI, Sante Braga Dias. “NAS VORTA QUE O MUNDO DEU, NAS VORTA QUE O MUNDO DÁ”. Capoeira Angola: Processos de Educação Não-Escolar na comunidade da Gamboa de Baixo. Salvador: Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Educação, 2009.

SEDUR - Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo. PDDU - Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano do Município de Salvador - LEI Nº 9.069/2016. Salvador: Prefeitura Municipal do Salvador - Bahia, 2016.

56

ZANOLI, Fabrício O.; IVO, Any B. Projeto de Habitação de Interesse Social para a Gamboa de Baixo. Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Assistência Técnica. Salvador: Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Arquitetura, 2015.

ZANOLI, Fabrício O. Ação patrimonial, ocupação popular e os conflitos da preservação: o caso da comunidade da Gamboa de Baixo em Salvador - BA. Salvador: Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Arquitetura, 2017.

57
BIBLIOGRÁFICAS (CONT.)
REFERÊNCIAS
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA - 2021

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