Page 1

nº14

da comunidade www.damayaespacocultural.art.br

BAGÉ-RS Brasil Sexta-Feira 23/8/2013

C

Informe Comercial

O T EMPO E O V ENTO

da preservação

om a solidez de sua história e energizada pela força do vento Minuano, Bagé abriga as locações do filme O Tempo e o Vento, no ano passado. Agora, dia 27 de setembro, estreia em circuito nacional e projeta uma cidade que preserva a identidade e guarda muitas memórias.


2

PATRIMÔNIO DA COMUNIDADE Bagé, Sexta-Feira, 23 de agosto de 2013

Informe Comercial

Editorial /

Palavras em tempos de vento

Por ironia do destino ou a favor dele, a cidade de Bagé acabou sendo escolhida para abrigar a maior parte das locações do filme O Tempo e o Vento, baseado na obra do escritor gaúcho Érico Veríssimo. Diante de inúmeros quadros/por segundo que, a partir de 27 de setembro entram em circuito nacional, a preservação do patrimônio histórico de Bagé vai ser projetada para todo o Brasil e, também, para o exterior. Portanto, é oportuno questionar se os “modernos edifícios”- que substituíram as “antigas construções” - abrigariam mais do que obras como “O Cortiço”. Será? Com todo o respeito ao escritor Aluísio de Azevedo, mas a literatura e a arquitetura revelam os bons costumes de um lugar. O resto é ficção. Ou, a dura realidade dos vazios existenciais.

Igor Simões*

As linhas que se seguem pretendem ser uma conversa sobre o que faz um espaço cultural e porque nestes lugares a presença de ações educativas se faz tão importante! As palavras mais repetidas aqui serão espaço e cultura. Talvez isto incomode, mas creio que facilitará a compreensão do que tenho para contar. Para iniciarmos esta “prosa” penso que podemos achar um primeiro ponto. Escolho então o seguinte: Para que serve um espaço cultural? Não existe uma única resposta. As tentativas de acercar-se dela podem fazer surgir uma miríade de lugares possíveis para se pensar. Como espaço cultural podemos inferir , desde já, que seja um terreno de circulação de diferentes fazeres da cultura .Mas “espaços culturais” não seriam todos os lugares onde se dão as diferentes construções e compreensões do mundo que se fazem a partir da cultura? Bom, a cultura constrói. Constrói nossos olhares, nossas crenças, nossos corpos, nossos hábitos, nossos mundos. Talvez, estejamos chegando perto de entender este, como um lugar de construção.

Expediente

Mas não há uma única definição de cultura e nem uma única construção. Precisamos chegar a pontos mais específicos. O “Da Maya” é um espaço cultural. Sua especificidade: A Arte.Como atua na construção de indivíduos? Através da crença de que a arte quando associada ao ensino pode ser uma possibilidade de construir homens e mulheres que tenham olhares sensíveis para si e para o outro. Que saibam relativizar suas práticas, que aprendam sobre como o processo pode ser mais fértil que o produto, posto que deixa marcas e registros que viram lentes para olhar para as coisas do estar vivo. Estas práticas estão impregnadas da crença de que o conhecimento só faz sentido quando fala à mente, ao corpo e ao espírito. A partir deste marco é que se assenta uma outra característica deste espaço cultural: Algo chamado “curadoria educativa” ou “projeto educativo” ou setor pedagógico” ou... Enfim, todos eles, em lugares como o Da Maya, tem como função construir corredores. Explico: Um artista, educador, professor e curador nascido na Alemanha, criado no Uruguai e que vive em Nova York chamado, Luis Camntzeri (2011), diz que as obras de arte Funcionam como um corredor pelo qual circula a informação, e a informação se

Jornalista Responsável Angelina Quintana - Reg. Prof. 5305 Capa Nilton Santolin Projeto Gráfico Ana Remonti Rossi Impressão Gráfica do jornal Zero Hora Tiragem 5000 exemplares

sustenta e amplifica com subentendidos compartilhados por ambos, artista e público. A curadoria educativa cria corredores. Cria maneiras de acesso à arte em diferentes dimensões. Cria um túnel de trocas entre o conjunto de conhecimentos que cada trabalho artístico representa e a infinidade de novos saberes que se produzem a partir do olhar vivo e ativo do público. Há de se chamar atenção que aqui,no Da Maya Espaço Cultural, o principal foco deste trabalho está sobre a parceria entre escolas, professores e alunos.Na “casa da Osório” são realizadas visitas guiadas, mediação para escolas, encontros de professores entre outras ações que visam construir o nosso tão importante corredor. Em tempo, antes de concluir nossa conversa, não estranhe se um som de instrumento rasgar o seu cotidiano e invadir a sua, talvez, automática passagem pelas imediações do da Maya. É que agora mesmo, enquanto escrevo, um jovem maestro que acredita nas mesmas coisas, empreende uma orquestra filarmônica que pretende ensinar música e vida para alunos de escolas da cidade. i

Camnitzer, Luis. “O Artista e o Cientista e o Mágico”. Revista Humboldt, publicada pelo Instituto Goethe. Dezembro de 2011.

* Curador Educativo Da Maya Espaço Cultural. Professor Assistente de História, Teoria e Crítica da Arte e Metodologia e Prática do Ensino da Arte - UERGS

{

{

Sobre Espaços Culturais, Corredores e o Da Maya

Patrimônio da Comunidade é uma publicação especial produzida pelo Da Maya Espaço Cultural em apoio ao Movimento de Resistência à Destruição do Patrimônio Histórico de Bagé. Endereço Rua General Osório, 572 / Anexo Bagé RS Brasil CEP 96400.100 Telefone (53) 3311.1874

www.damayaespacocultural.art.br


PATRIMÔNIO DA COMUNIDADE Bagé, Sexta-Feira, 23 de agosto de 2013

3 Informe Comercial

A lição de areia

ona Zuleika

E o nosso patrimônio urbano, como anda? - Perdão, está esquecido ou não conseguiu ser apreendido pelos tolos e ausentes? - É só uma questão de boa vontade de participar, acordar para questões adormecidas.

Estou aberta ao dialogo com quem quiser e ajudar. Só não posso atender aos pedidos diários como se eu fosse a salvadora da cidade. Longe disso, são vocês que vivem aqui que têm este compromisso.

Não quero afugentar meus queridos amigos empreendedores locais, muito ao contrário, quero convidá-los para nos juntarmos. Gostaria que prestassem atenção e tentassem entender o que há muito já se fez em lugares mais adiantados. Porque não copiar o que já foi feito, algumas vezes, até no próprio estado?

Senhores e Senhoras que foram ao Colégio, vamos levar a sério nosso Conselho de Cultura inserindo alguns tecnocratas especializados como fez nossa cidade irmã próxima e deu certo. Temos que dar crédito aos habitantes de Bagé e confiar no amor e orgulho que eles têm à sua cidade.

Propus certa vez cuidar da aparência da Osório, comecei em frente ao Espaço Cultural a cuidar do anteiro e calçada (senhores da bicicleta, deixem em paz a calçada porque além de perigoso, o piso está imundo, é muito difícil de se limpar). Não custou muito dinheiro, só um pouco de boa vontade. É preciso começar, adotar a ideia e aos poucos ela vai acontecendo.

Finalmente elogios, estou muito orgulhosa da melhora das fachadas da cidade. Até amigos meus de fora têm comentado, a maioria das casas está pintada com cores corretas. Deu um novo viço e prazer às pessoas que chegam e trafegam pelas ruas da cidade, parabéns! Continuem. É o melhor presente que posso receber, semente só cresce em solo fértil, em terra produtiva... TENHO DITO.

Vamos agora falar da saúde: Cúrcuma ou Açafrão-da-terra, rizoma ou caule subterrâneo de uma planta asiática da família do gengibre, a substância bioativa é a Curcumina usada na medicina chinesa e indiana e na ocidental como corante de alimentos, tecido ou tinta. É digestiva, anti séptica, analgésica, diurética e possui poderosa ação anti oxidante, neutralizando os radicais livres. Age como uma espécie de auxiliar na ação das vitaminas E e C no organismo. Pimenta do Reino, origem na Índia, possui três variedades: branca, verde e preta. Seu componente fitoquímico piperina é a substância que lhe confere o sabor picante. É analgésica, anti inflamatória, anti séptica, diurética e funciona como laxante natural. Possui poderosa ação antioxidante que neutraliza os radicais livres e é uma espécie de auxiliar na ação das vitaminas E e C no organismo.

Pensei ter terminado o texto mas eis que um amigo enviou-me, nos últimos dias, uma série de fotos de uma pequena cidade do interior da Paraíba. Areia foi o berço dos meus antepassados. Nosso sobrenome mudou de Mariz para Maracajá devido ao acidente geográfico onde estava situada sua fazenda. Pasmem, meus Senhores e Senhoras, imaginem que há muito tempo o Patrimônio Histórico já chegou lá. A cidade é linda, preservada, uma verdadeira explosão de cores. É preciso perder-se a arrogância e respeitar o Nordeste com sua cultura, porque a Cultura

Fotos Zeca Brito

D

icas de

Folclórica Portuguesa chegou ao Sul pelo caminho do Nordeste. É o que nos ensina o Mestre Augusto Meyer, o primeiro intelectual brasileiro a ensinar Teoria da Literatura. Quis o destino que eu fosse o instrumento usado para que isso acontecesse, coisas da vida!!! É também preciso que o Gaúcho valorize e reverencie este Poeta e Escritor, que por viver parte da sua vida no Rio de Janeiro, tem sidomuito esquecido pelos seus conterrâneos. Até breve!


4

PATRIMÔNIO DA COMUNIDADE Bagé, Sexta-Feira, 23 de agosto de 2013

Informe Comercial

A cidade e a Sociedade

Eduardo Hahn*

Acervo Museu Dom Diogo

A cidade é o espelho de uma sociedade. Sua organização, seus espaços, e suas manifestações arquitetônicas são o reflexo da atividade humana no decorrer de um determinado espaço de tempo. Observando as diversas formas de expressão urbana, podemos compreender a atividade humana ao longo de sua história, seus gostos, seus ritos, sua forma de pensar e de agir. A cidade contemporânea pode ser considerada um livro de histórias contadas por centenas de milhares de pessoas que durante a sua existência manifestaram ativamente a sua forma de pensar, construindo edificações ou espaços que representavam o seu momento de ser. Uma cidade não deve ser apenas observada, ela deve ser lida nos seus pequenos detalhes, pois está repleta de capítulos de uma história que é, na realidade, a história do homem que a construiu. A variedade de estilos arquitetônicos, de materiais e técnicas construtivas e de formas e volumes demonstram os diferentes valores referentes à vida social de um núcleo urbano através dos tempos. As cidades brasileiras são o espelho desse fenômeno. Bagé não fica atrás. Caminhando pelo centro da cidade, nos deparamos com um universo de informações esculpidas e moldadas nas centenas de fachadas de suas edificações. Se observarmos com cuidado, poderemos compreendê-lo. A simplicidade do colonial luso-brasileiro representa os primeiros tempos de ocupação do nosso território. Tempos difíceis de reconhecimento e luta e da busca de uma representação física de união entre a colônia e a metrópole portuguesa.

O equilíbrio da arquitetura do velho Mercado Público não resistiu ao processo modernizante de Bagé

A harmonia do neoclássico e o esplendor do ecletismo refletem a riqueza de uma sociedade em processo de enriquecimento econômico decorrente da industrialização e a miscigenação cultural de povos de origem europeia, que sempre buscaram em seus países de origem um padrão estético a ser seguido.

“...um adolescente que nega suas origens...” A desenvoltura do art nouveau caracteriza a alegria de uma sociedade em plena Belle Époque, enquanto no art déco percebe-se a busca da modernidade pela ornamentação geométrica. A racionalidade do modernismo, rompendo as amarras com o passado e expressando, em sua simplicidade de linhas e quase ausência de ornamentos, a luta por uma sociedade mais homogênea e justa. Por fim, o pós-modernismo contem-

porâneo, na sua diversidade de formas e vertentes, exibe o retrato de uma sociedade globalizada e perdida pelo valor do capital. Em cada um desses momentos históricos, a sociedade se afirmava negando e destruindo grande parte das representações dos períodos anteriores. Quase como um adolescente que nega suas origens para se transformar em adulto. O resultado desse processo são os conflitos urbanos que podem ser visualizados em quase todas as cidades brasileiras. Feridas que foram criadas em momentos de transformação social e que, até hoje, em muitos casos, ainda estão abertas, nos causando sensações de desagrado e mal-estar. Hoje, quando observamos determinados espaços e os comparamos com fotografias antigas nos damos conta do quanto se perdeu em qualidade de vida por meio de intervenções irreversíveis e consideradas inovadoras em um determinado período.


PATRIMÔNIO DA COMUNIDADE Bagé, Sexta-Feira, 23 de agosto de 2013

5 Informe Comercial

Esses locais, hoje bastante degradados, pouco ocupados ou muitas vezes abandonados, necessitam, para sua recuperação, de novos projetos com soluções e alternativas integradoras, visando à sua qualificação e retomada pela sociedade. A cidade de Bagé, ao contrário de tantos outros núcleos urbanos de nosso Estado, ainda apresenta uma forte integridade urbana e harmonia entre as suas construções. Este fato, aliado à sua importância histórica, levou ao seu reconhecimento pelo Estado do Rio Grande do Sul, através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado, como Patrimônio Estadual, através do Tombamento de seu centro histórico. Esta ação representa o início de um processo de gestão diferenciada, que tem por objetivo a valorização dos elementos pré-existentes de valor histórico, artístico ou cultural, através de intervenções de restauração e requalificação, assim como de construção de elementos novos que estejam em harmonia com a pré-existência. Tal atividade só é possível a partir de projetos elaborados por profissionais capacitados que tenham a sensibilidade e humildade para desenvolver propostas que visem à valorização de todo um conjunto, sem, muitas vezes, se sobrepor de forma agressiva às estruturas existentes. A partir de um bom projeto, um local anteriormente degradado pode torna-se rico em informações e cheio de simbologias. As nossas grandes cidades estão repletas de grandes viadutos que, pintados, predominantemente de cinza, com algumas exceções, transformaram-se, assim como o seu entorno imediato, em locais sem atrativos visuais, brutalizados pelo peso e massa do concreto armado, e naturalmente destinados às atividades marginais.

“...transformará nossas cidades em locais sem identidade, brutalizados e sem diferenciação.”

Da mesma forma, a poluição visual relativa á instalação indiscriminada de propagandas de excessivas dimensões e formatos inadequados nas fachadas de nossas edificações está escondendo os nossos centros históricos, tornando-os agressivos ao próprio homem, em uma tentativa desesperada de chamar-lhe a atenção para indução ao consumo. Este é um caminho que, em poucos anos, transformará nossas cidades em locais sem identidade, brutalizados e sem diferenciação.

Por este motivo, O IPHAE está atualmente trabalhando junto com o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico de Bagé - Compreb, no sentido de desenvolver diretrizes específicas para a realidade do centro histórico. Este processo, que está atualmente em andamento, é de fundamental importância para a valorização de um patrimônio de reconhecida relevância Estadual, e com valores inclusive que podem levar ao seu reconhecimento nacional.

* Arquiteto, diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE)

A nova proposta de desenvolvimento

O verdadeiro retrato do abandono que aguarda alternativas integradoras Fotos Joba Migliorin


6

PATRIMÔNIO DA COMUNIDADE Bagé, Sexta-Feira, 23 de agosto de 2013

Informe Comercial

“Existem dois tipos de viajantes: Foi com o olhar de viajantes que diretores, produtores e o elenco do filme O tempo e o vento transformaram Bagé num grande set de filmagem e também surgiu a cidade cenográfica de Santa Fé. O diretor Jayme Monjardim explica que os campos nativos, as estâncias e muitos prédios preservados no centro foram decisivos para essa escolha. No entanto, ainda existem muitas histórias para contar... Albert Moreira

Uma cidade como Bagé em que encontramos construções antigas em bom estado, é sempre uma alegria, independentemente da gravação do filme, a conservação é importante para preservar a história da arquitetura nacional que é tão desprezada. Quando chegamos em uma cidade e encontramos lugares como vimos em Bagé é uma alegria enorme, pois conseguimos resgatar um pouco da nossa história, podemos admirá-la e usá-la com muita alegria em um filme épico. Como cenógrafa, fico mais feliz em poder gravar em uma locação que tenha história do que ter que reproduzí-la em estúdio, porque por mais que nos esmeramos em trazer a história do ambiente para a construção, nunca conseguimos contar com perfeição o que cada parede traz em sua história.” Ana Paula Lopes Arquiteta e cenógrafa / Coordenadora de cenografia do filme O tempo e o vento e também da minissérie A casa das sete mulheres

Quando aceitei vir para Bagé coordenar a arte e cenografia do filme O Tempo e o Vento, senti que tinha uma coisa muito especial na minha vida. Não era apenas um projeto qualquer, vi um grande desafio na minha vida profissional pois tratava-se de uma obra épica do maravilhoso Érico Veríssimo. Para as gravações, construímos uma cidade cenográfica de Santa Fé, com a arquitetura do século XVlll, materializando essa obra que retrata a cultura e história do Rio Grande do Sul. Fizemos uma produção impecável, com um elenco de ponta da TV Globo, direção, fotografia e diversos profissionais escolhidos a dedo. Atualmente, considerada a maior Produção Cinematográfica no Brasil e com imagens maravilhosas. O que pude fazer e, na medida do possível, espero estar contribuindo para o grande desenvolvimento da cultura e da história de Bagé. Mas, mesmo sendo carioca, já posso dizer que tenho um grande amor e visto a camisa por Bagé.” Mauro Almeida Moreira Produtor de Arte e cenografia / Vermut Produção e Eventos

Fotos Edison Larronda

Mayana Moura e Igor Rickli no Palacete Pedro Osório (Secretaria de Cultura de Bagé)

Na verdade, tudo começou bem antes de O tempo e o vento. Conheci grande parte da equipe de cenógrafos e o próprio Thiago Lacerda quando eles vieram filmar o Lua de outubro em Uruguaiana. Eles chegaram lá e não encontraram nada que pudessem usar nas filmagens e uma amiga me indicou. Chegaram aqui e saíram com um caminhão cheio. Quando começaram as locações, vieram direto me procurar. Eu emprestei, por exemplo, o “banco de um tronco só” que fica na entrada da casa da Bibiana, o quarto do casal, o berço de bronze, mesas, cadeiras, o genoflexório (banquinhos de rezar), talheres, espadas e santos. A casa do cara mais rico de Santa Fé, Ricardo Amaral, foi toda montada com peças fornecidas pelo antiquário. Além disso, acabei vendendo o berço de bronze para o Jayme Monjardim.” Martha Corrêa Proprietária de antiquário há 33 anos e uma das principais fornecedoras do material cenográfico para o filme


PATRIMÔNIO DA COMUNIDADE

7

Bagé, Sexta-Feira, 23 de agosto de 2013

Informe Comercial

os que viajam para fugir e os que viajam para buscar” Joba Migliorin

Calvin Furtado

As cenas de batalha também foram valorizadas pela geografia do pampa

Na montagem da cidade cenográfica de Santa Fé podemos observar um estudo e projeto detalhado do período colonial brasileiro, onde verificamos exemplares arquitetônicos fiéis a sua época. As construções coloniais brasileiras utilizavam técnicas primitivas, erguidas com paredes de pau-a-pique, taipa de pilão ou adobe e cobertas com telhas cerâmicas tipo capa e canal em duas águas. Vimos também, nas obras refinadas pedras e barro, tijolos e cal. As fachadas e os partidos das casas coloniais se caracterizavam por linhas simples com ritmo e simetria que formavam sua composição com portas e janelas de madeira coloridas e paredes caiadas de branco. No período colonial brasileiro uma preocupação formal era manter o aspecto português nas vilas brasileiras.” Maria de Fátima Barbosa Professora da disciplina de História da Arquitetura V/Curso de Arquitetura e Urbanismo (Urcamp/Bagé)

Érico Veríssimo

A preservação do patrimônio histórico é fundamental não apenas para produzir um filme como O tempo e o vento, mas para manter viva a identidade e a memória de um povo. Se perdermos isso, também estamos desperdiçando a chance de fazer os outros entenderem quem somos. Quando vamos a outros lugares, é visível como a arquitetura fala pela alma das cidades e, consequentemente, das pessoas. Por ela, podemos entender quem são, como vivem, como interagem. Bagé tem uma história que deve ser preservada para que futuras gerações tenham suas referências vivas.” Paula Karam Osório Arquiteta bageense, especialista em espaços expositivos, assistente de cenografia do filme O Tempo e o Vento

É o Pampa iluminado Com a simplicidade dos sábios e a tranquilidade de quem tem estrada, o fotógrafo e diretor de cinema uruguaio César Charlone diz-se encantado com a preservação do patrimônio histórico de Bagé quando participou da 4ª edição do Festival de Cinema da Fronteira. _Eu acho maravilhosa essa arquitetura que vocês tem aqui. É a convivência do estilo espanhol com o português. Essa simbiose mistura muita cor e arte. A diferença de nossas culturas é maravilhosa. É muito lindo, analisa o cineasta. O diretor de fotografia do filme Ensaio sobre a cegueira baseado na obra de José Saramago, observa que a arquitetura de Bagé lembra a Colônia de Sacramento, que hoje é um atrativo turístico e cultural do interior da Argentina. _E a preservação mexe com as nossas memórias e com a história. E foi, também, pela preservação do centro de Montevidéu que o Fernando Meirelles levou o Ensaio sobre a cegueira para ser gravado na capital uruguaia. As pessoas precisam tirar a venda dos olhos para constatar que a preservação resulta em turismo, cultura e movimentação econômica. E, como se não bastasse, o roteirista e diretor do filme O Banheiro do Papa ainda ressalta: _E para deixar tudo muito mais bonito, vocês tem esse Pampa e essa luminosidade fantástica.


8

PATRIMÔNIO DA COMUNIDADE Bagé, Sexta-Feira, 23 de agosto de 2013

Informe Comercial

Bagé na vanguarda

Fotos Divulgação

Olhares sensíveis A exposição #instabage: mapeia o patrimônio histórico e pretende reconstituir essa condição do gesto de fotografar, na medida em que se trata de uma intervenção urbana com o objetivo de promover a reflexão sobre o patrimônio histórico da cidade de Bagé, Rio Grande do Sul. O fotógrafo Joba Migliorin, que na tentativa de explorar o universo fotográfico na sua forma mais ampla, propõe a descoberta de novas potencialidades promovidas pelas mídias digitais, mais especificamente o aplicativo Instagram, disponível para a telefonia móvel.

O Seminário de Arte-educação: Memórias e perspectivas contemporâneas - realizado de 8 a 9 de agosto, no IFSul - não chegou a Bagé por acaso. Na verdade, foi o reconhecimento ao trabalho de vanguarda de um grupo de professoras bageenses que ousaram lutar pela arte e introduziram essa disciplina dentro das escolas. São elas: Elvira Macedo do Nascimento(Mercinha), Marly Meira e Maria Luísa Teixeira da Luz(Marilú). A coordenadora do evento Sandra Camerini Vieira(IFSUL) observa que foi em Bagé- na década de 60- que começou o movimento em defesa do ensino da arte no Rio Grande do Sul e que resultou na obrigação da disciplina nos currículos escolares a partir da Constituição de 1989. _Fizemos uma homenagem à memória imaterial do ensino da arte. É um patrimônio que graças ao empenho dessas educadoras, tudo começou em Bagé e chegou a todo Brasil. Esse evento trouxe a memória imaterial e a importância de Bagé para a consolidação do ensino da arte no cenário brasileiro, bem

como para a discussão das propostas contemporâneas do ensino da arte. Tendo como palestrantes Adriana Bozzetto (UNIPAMPA, Música /Bagé), Laura Ferrazza (PUC/RS), Marly Meira (UFRGS), Ursula Silva (UFPel), Luciana Loponte (UFRGS), Paola Zordan (UFRGS) e Donald Kerr Junior (IFSul- Pelotas). Foram dois dias de muitos debates, recordações e relatos de experiência de uma trajetória construída com muito afeto. Uma verdadeira costura das diversas manifestações de arte.

Da Maya agrega a música Além de investir em arte, educação e patrimônio, o Da Maya Espaço Cultural passa a abrigar também a música. O maestro Joab Muniz é o responsável pelo novo projeto comunitário. Essa musicalização visa favorecer, principalmente, crianças e adolescentes (de zero a 17 anos) em situação de vulnerabilidade social. Neste primeiro momento, a Da Maya Orquestra Filarmônica será formada por violinos, violoncelos, baixos e violas. Cerca de cinco escolas públicas e uma particular de Bagé devem fazer parte desse novo projeto.

A mobilidade e instantaneidade do aparelho móvel e seus aplicativos suscitam novos conceitos e novos olhares. Nesse sentido, a primeira edição da mostra ocorreu durante o 4º FIMP, de 21 a 26 de julho, no Complexo Cultural do Museu Dom Diogo de Souza. Dentro dos próximos dias, a Casa de Cultura Pedro Wayne vai abrigar essa exposição.


PATRIMÔNIO DA COMUNIDADE Bagé, Sexta-Feira, 23 de agosto de 2013

9 Informe Comercial

No SUS, também o maior patrimônio é a saúde Fotos Joba Migliorin

Desde a entrada em funcionamento do Centro Integrado de Oncologia e Mama(CIOM) no dia 13 de junho até esse mês, já foram realizados mais de 2,3 mil atendimentos e exames às usuárias do Sistema Único de Saúde(SUS). E, como se não bastasse, enquanto o Governo Federal determina que do diagnóstico até o início do atendimento não ultrapasse 30 dias, no CIOM, fica em torno de 15 dias. O coordenador do CIOM, Mario Mena Kalil, informa que além das sofridas e exaustivas viagens terem ficado no passado o ritmo do tratamento é outro. E o atendimento mais humano. _Hoje, a paciente que chega com a mamografia suspeita de câncer de mama faz a biópsia, o exame é encaminhado para a patologia, volta para o ambulatório e estamos operando em torno de uma semana depois. O que equivale a um ritmo igual ao registrado nos grandes centros do país, ilustra o médico. Dentro de 30 dias, com a chegada da bobina de ressonância magnética, os usuários do SUS vão poder contar também com esse serviço. O que é fundamental no pós operatório do câncer de mama dos pacientes de alto risco.

O CIOM coloca Bagé como centro de referência para o tratamento de câncer

“Eu sou forte, mas vou me tratar direitinho” Dona Vany Domingues, 72 anos, há mais de 50 anos trabalha num laboratório de análises clínicas, acabara de receber a notícia de que teria de submeter-se a uma cirurgia de câncer de mama e sentiu-se acolhida no CIOM. _Tô tranquila. Vivo entre a saúde e a doença no meu ambiente de trabalho. Tenho conhecimento e sei que existe tratamento. Desde o momento em que desconfiei, cheguei aqui e consultei. Depois, eles fizeram tudo por mim e eu me operei na outra semana. Não chegou a 15 dias. Eu sou

forte, mas vou me tratar direitinho. E vai ser tudo gratuito. E olha que estamos em Bagé, heim?

Dona Vany(B)cercada pelo carinho da filha Morgana(A)e da irmã Marly(C) na acolhida do CIOM

A confusão entre o público e o privado prossegue... As manifestações de que a comunidade bageense encontra-se perdida no limite onde termina o espaço público e começa o privado aumentam. Seja nas praças da cidade, onde o comércio informal recebe até mesmo os principais cartões de crédito ou tomando conta dos passeios públicos. Tudo muito natural. E, à margem, das leis. PRAÇA RIO BRANCO

CALÇADÃO


10

PATRIMÔNIO DA COMUNIDADE Bagé, Sexta-Feira, 23 de agosto de 2013

Informe Comercial

O FIMP compõe linhas d Antes do planejar e fazer, o sonho. O músico bageense Marcos Machado, radicado nos Estados Unidos há 18 anos, ansiava contribuir mais para sua terra, enquanto avançava na formação como professor e solista em contrabaixo. Em férias, mantinha frequência nos palcos de Bagé. Durante os recitais, alargava o olhar para um grande encontro musical de apresentações e aprendizagem. Ao término do doutorado em Illinois, especialização com François Rabbath, em Paris, tornando-se, até agora, o único sulamericano com certificação do Instituto François Rabbath e inúmeros compromissos foram alimentando seu sonho. A direção do Bass Symphosium na University of Southern Mississippi, o contato com virtuosos do mundo musical e a participação em seletos festivais, delinearam os critérios para Bagé. A semente do FIMP começou a tomar forma em 2007. Um ano depois, Machado mostra o projeto à direção do IMBA e ao vice-prefeito Carlos Alberto Fico. Durante um encontro, na Flórida, conversa com o maestro Jean Reis, também gaúcho e que já desenvolvia o Festival Música nas Montanhas(FMM), em parceria com a prefeitura de Poços de Caldas(MG). Em dezembro de 2009, ocorre o primeiro encontro entre Jean Reis e Marcos Machado com o prefeito Dudu Colombo e as tratativas avançam. Visão empreendedora, esforço e parcerias consolidam o Festival Internacional de Música no Pampa(FIMP). A 1ª edição do FIMP aconteceu de 25 a 31 de julho de 2010, no Instituto Municipal de Belas Artes(Imba). Filas enormes aguardavam todas as noites a abertura do Salão No-

bre. Casa lotada nos concertos, mostrando uma realidade oposta àqueles que imaginavam que haveria mais músico no palco do que pessoas assistindo. Dois concertos foram transferidos para o Teatro do Complexo Cultural do Museu Dom Diogo de Souza pensando em solucionar a questão de espaço. Igualmente, lotação esgotada. Desde então, o FIMP vem acontecendo anualmente com o objetivo de trazer uma semana repleta de música para Bagé. Manhãs, tardes e noites preenchidas com música de concerto. A música erudita é desmistificada. Os concertos são gratuitos. O FIMP abraça a comunidade bageense com as melhores harmonias, seja música dos séculos XVII ou XX, seja nos Concertos Noturnos, Especiais ou Acadêmicos. A comunidade bageense abraça o FIMP, acolhe os alunos, recebe os artistas com um carinho singular. Além disso, torna-se referência. Impulsiona a abertura do curso de música na Universidade Federal do Pampa(UNIPAMPA).

Apresenta autoridades musicais que não haviam ainda pisado em chão brasileiro. Coloca Bagé em destaque no cenário artístico-musical nacional. O FIMP já é um projeto aprovado pelo Ministério da Cultura, Lei Rouanet, lei federal n° 8313/91, o que atualmente permite que o investimento das empresas seja 100% dedutível do imposto de renda a pagar. O Festival Internacional de Música no Pampa torna-se uma pausa à rotina da comunidade bageense. Conjuga-se FIMPEAR. FIMP lembra partilhar, participar, pacificar, pluralizar, plantar, possibilitar, popularizar, prestigiar, preparar, permear, perpetuar, personalizar, perseverar, propulsar, projetar, principiar, pulsar, partejar, patrocinar, praticar, precisar, preconizar, pensar, presentear, preservar, propagar, provar. E, com a 5ª edição, o FIMP deve agregar novos verbos. Sempre conjugados no plural.


PATRIMÔNIO DA COMUNIDADE Bagé, Sexta-Feira, 23 de agosto de 2013

11 Informe Comercial

de uma pauta singular Leko Machado

CONCERTOS COMUNITÁRIOS O Da Maya Espaço Cultural abriga os concertos comunitários desde o 1º FIMP. Luis Mascaro no violino e Beto Vianna, no contrabaixo, encantaram o grupo de crianças de escolas municipais na primeira apresentação.

2011

2010

Fotos Joba Migliorin

Com La comparsita o violinista Alejandro Drago começou a integrar a exposição “Constelações”, de Hilal Sami Hilal, à plateia formada por crianças de Escolas Municipais de Ensino Infantil, jovens da Casa da Menina e um grupo de deficientes visuais de Bagé. Foi um universo único e particular. Envoltos entre Marias e Josés, tecidos nas espirais de Van Gogh, a criançada aconchegouse no mosaico improvisado com pelegos de ovelha crioula.

_Em casa eu toco guitarra, tambor e aquela coisinha de fazer assim ( ilustra sacudindo a mãozinha imitando um chocalho). Agora, eu toco também violino, comentou orgulhoso.

2012

O pequeno João Vítor, quatro anos, da Escola Municipal Frederico Petrucci, foi o primeiro a aceitar o desafio de fazer um dueto com o renomado músico argentino.

2013

O violinista Cármelo de Los Santos e a professora de teatro Beta Salgado apresentaram o conto “Ferdinando”, de Walt Disney, para um grupo de portadores de deficiência visual e crianças que vieram de diferentes pontos da cidade. Uma tarde encantada e inesquecível no Da Maya Espaço Cultural.

Dias de sonho no Da Maya Pousada com as apresentações informais do contrabaixista François Rabath.


12

PATRIMÔNIO DA COMUNIDADE Bagé, Sexta-Feira, 23 de agosto de 2013

Informe Comercial

PARCERIA REVELA , EM BAGÉ, A Medida do Gesto NO Da Maya Espaço Cultural “A Medida do Gesto – Um panorama do acervo do MAC” é um projeto de pesquisa e difusão tendo o acervo do Museu como foco de trabalho. Primeiro no nível universitário, já que estudantes do Laboratório de Museografia do Instituto de Artes (IA/UFRGS) acompanharam todos os passos para ver como se faz uma exposição. Na segun-

A

exposição “A Medida do Gesto – Um panorama do acervo do MAC”, que recentemente recebeu o Prêmio Especial do Júri do 7º Açorianos de Artes Plásticas, inaugura a parceria entre o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul e o Da Maya Espaço Cultural, através da realização do Arte Sesc – Cultura por toda parte. Depois de Pelotas, Bagé recebe a exposição que apresenta um panorama do acervo do MACRS e que foi criada com o objetivo de fundamentar e discutir, em termos teóricos e práticos, a atuação do profissional em artes visuais. A itinerância é resultante da parceria firmada entre a Secretaria Estadual de Cultura e o Sistema Fecomércio-RS/ Sesc.

da etapa, de itinerância, o objetivo é reunir professores de artes das redes de ensino para discutir em centros regionais o que é uma exposição de arte, desde a curadoria, a pesquisa de acervo, convites e divulgação, bem como o primeiro projeto de ação educativa do acervo do Museu para o público.

Vernissage: 5 de setembro, às 19h Visitação: 6 de setembro a 29 de setembro Horário:

Segunda a sexta-feira 14h às 18h30 Sábados das 15h às 19h

Local:

Espaço Cultural DaMaya Rua General Osório, 572

Neneca Saavedra

Patrimônio Na historiografia oficial, sim. O 17 de agosto foi escolhido como o Dia do Patrimônio Histórico,

tem dia?

data de nascimento do historiador e jornalista Rodrigo Mello Franco de Andrade (Belo Horizonte-MG, 1898-1969). Por meio da Lei nº 378, de 1937, o governo Getúlio Vargas criou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), onde o historiador trabalhou até o fim da vida. No entanto, para nós, o Patrimônio Histórico de Bagé é a nossa pauta de todos os dias. O prédio na Avenida Sete de Setembro que esteve encoberto, durante muitas décadas, está sendo restaurado e revela a sensibilidade dos proprietários da Ótica Bagé,

Jornal patrimonio 2013agosto  

Jornal Patrimônio da comunidade nº 14

Advertisement