Catálogo da Exposição «Os Judeus e Cristãos-Novos de Bragança»

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Os Judeus e Cristãos-Novos de Bragança Medo e Esperança na Roda Multicultural Transmontana

‫ פחד ותקווה‬- ‫היהודים והנוצרים החדשים של ברגנסה‬ ‫תרבותי בטרש אוש מונטש‬-‫במרחב הרב‬


02 Os Judeus e Cristรฃos-Novos de Braganรงa




Os Judeus e Cristãos-Novos de Bragança Medo e Esperança na Roda Multicultural Transmontana

‫ פחד ותקווה‬- ‫היהודים והנוצרים החדשים של ברגנסה‬ ‫תרבותי בטרש אוש מונטש‬-‫במרחב הרב‬


CATÁLOGO TÍTULO Os Judeus e Cristãos-Novos de Bragança - Medo e Esperança na Roda

Multicultural Transmontana EDIÇÃO DRCN - Direção Regional de Cultura do Norte COORDENAÇÃO Marina Pignatelli; Amândio Felício AUTORES Amândio Felício; Marina Pignatelli; Asher Salah FOTOGRAFIA Margarida Gil Pires CAPA Margarida Gil Pires DESIGN GRÁFICO Margarida Gil Pires ISBN 978-989-54450-3-5 1ªEdição 2019

EXPOSIÇÃO TÍTULO Os Judeus e Cristãos-Novos de Bragança - Medo e Esperança na Roda

Multicultural Transmontana CURADORIA Marina Pignatelli (CRIA/ ISCSP-UL) CONSULTORES Jorge Martins (Doutor em História, FLUL); Luísa Penalva (Curadora, Museu Nacional de Arte Antiga) CURADORES CONVIDADOS Asher Salah (Bezalel Academy of Arts & Design e Universidade Hebraica de Jerusalém); Paulo Lopes (Museu Marrano de Carção) COORDENAÇÃO GERAL Amândio Felício COORDENAÇÃO EXECUTIVA Eugénia Vilela APOIO À COORDENAÇÃO David Marcos Rodríguez DESIGN GRÁFICO E COMUCICAÇÃO Nuno Fernandes SERVIÇO EDUCATIVO Ana Pereira SECRETARIADO Nicola Afonso MONTAGEM Amável Antão; Matilde Celas; Margarida Leal; Sílvia Ferreira

AGRADECIMENTOS Comunidade Judaica do Porto; Câmara Municipal de Bragança; Arquivo Municipal de Bragança; Biblioteca do Instituto Politécnico de Bragança; Museu Marrano de Carção; Biblioteca do Museu Nacional de Arqueologia; Direção Regional de Agricultura do Norte; Vinhos Quevedo; Família de Luís Mina; Adérito Branco; Claude Stuczynski; Mário Carvão; Filipe Pinheiro de Campos; Inês Nogueiro e todos os judeus e seus descendentes brigantinos que colaboraram na

exposição.


Índice Nota de Abertura Mapa de Trás-os-Montes Ver o outro: judeus e Cristãos-Novos no nordeste transmontano

1000 Anos dos Judeus e Cristãos-novos em Bragança

09 12 15 25

35

A Reliogiosidade Judaica Criptojudaica

53

As Especificidades do Quotidiano

65

As Atividades Profissionais

83

Isto não é um filme

97

Bibliografia



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NOTA DE ABERTURA Amândio Felício Diretor do Museu do Abade de Baçal Quando em junho de 2018 a Prof. Marina Pignatelli, já desafiada pelo Museu do Abade de Baçal, nos visitou tendo em vista a possibilidade de concretização de uma exposição dedicada à Comunidade Sefardita da região de Bragança, longe nos encontrávamos ainda de perceber qual o resultado final de um trabalho de investigação que nos levou à localização de um conjunto de materialidades, que poucos julgaram ser possível reunir numa única exposição. A importância deste trabalho e a sua inclusão no âmbito mais alargado do Congresso Internacional Terra(s) de Sefarad – Encontro de Culturas Judaico-Sefarditas, que decorreu em Bragança entre 19 e 23 de junho de 2019, é indiscutível, e o Museu do Abade de Baçal orgulha-se de ser a casa de acolhimento e produção de um trabalho que sintetiza séculos de uma história, que em muitos casos se encontra oculta, da região de Bragança. Envolvendo a atual comunidade judaico-sefardita e seus descendentes, foi possível reunir um conjunto de objetos e documentação que ilustram não apenas a história dos judeus em Bragança, mas também os aspetos fundamentais relacionados com as suas vivências religiosas, com o seu quotidiano tantas vezes marcado por Muros da Casa do Abade de Baçal com nomes de visitas de amigos e refugiados judeus da II Grande Guerra. (Fotos: Clara Machaqueiro André, Marina Pignatelli e Arquivo do Centro Português de Fotografia)


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ritualidades apenas visíveis no âmbito doméstico e pelas principais profissões que exerceram e ajudaram a tornar importantes no conjunto da economia regional. Um trabalho que cruza a história e a etnografia, promovendo um resultado final de cariz fortemente pedagógico e memorial, apenas possível pelo interessado envolvimento da comunidade, que permitiu, pela primeira vez em muitos casos, a apresentação pública de objetos do foro privado de cada um envolvidos. Esperamos assim contribuir para um novo e mais alargado entendimento da história de Bragança, promovendo a difusão pública do conhecimento científico e envolvendo, tanto quanto possível, a comunidade que servimos neste objetivo que sempre temos em mente de fazer do Museu do Abade de Baçal um espaço onde todos têm lugar.

Raúl Teixeira (Juiz de Direito), Francisco Manuel Alves (Abade de Baçal) e José Furtado Montanha (Diretor do Banco de Portugal-Agência de Bragança e Presidente da CIB) Três amigos e ilustres entusiastas do Museu do Abade de Baçal e do judaísmo brigantino (Arquivo do Museu do Abade de Baçal)


em branco ou imagem


12 Os Judeus e Cristãos-Novos de Bragança

Mapa de Trás-os-Montes

Mirandela

Legenda Localidades de onde são provenientes as peças

Vila F


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Vinhais

Donai

Sacoias

Bragança Rebordelo

Flor

Argozelo Carção

Pinelo

Vimioso

Macedo de Cavaleiros Miranda do Douro

Alfândega da Fé

Mogadouro



Ver o Outro: Judeus e Cristãos-Novos no Nordeste Transmontano Marina Pignatelli

Edifício da Sinagoga Shaaré Pydeon, o “25” Rua dos Combatentes da Grande Guerra, antiga Rua Direita, Bragança (Foto: Marina Pignatelli)


16 Os Judeus e Cristãos-Novos de Bragança

Os catálogos de exposições são possibilidades reais de prolongar o tempo de visitação de uma coleção. Muitas vezes, ao serem folheados à distância, por via eletrónica, permitem visitar uma exposição que, de outra forma, seria inalcançável ou oferecem uma nova perspetiva de visita. Esta é, assim, uma forma expandida de pensar um trabalho museográfico, uma investida curatorial de âmbito portátil, “de bolso” mesmo, e uma publicação que distende a noção de es-

paço expositivo, como mais uma possibilidade de explorar outros mundos, tornando-os acessíveis, tantas vezes quanto as que forem necessárias e desejáveis. Este catálogo digital versa pois sobre os judeus, criptojudeus e cristãos-novos que viveram, que ficaram e que ainda vivem em Bragança e pretende ser uma obra que acompanha a exposição que lhes é dedicada: “Medo e Esperança na Roda Multicultural Transmontana”, apresentando os seus conteúdos mas

Localização da Sinagoga medieval, da qual atualmente só resta um poço. (Rua da Cidadela, Bragança) (Foto: coleção privada de Mário Artur Fernandes, 1927)


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também interpretando os seus significados, orientando o leitor através dos labirínticos paradoxos relativos à ausência e à presença judaica nas Terras Frias. O projeto de estudo sobre os judeus em Trás-os-Montes iniciou-se em 2016, enquadrado numa pesquisa mais vasta que visa o levantamento etnográfico da cultura judaica no triângulo que abrange todo o Nordeste português. Depois de lançado o repto pela direção do Museu do Abade de Baçal, no início de 2018, para se realizar uma exposição temporária sobre o tema, iniciaram-se os contactos com interlocutores brigantinos que estavam envolvidos na etnografia, a nível local. O objetivo era agora, não só conhecer o que ficou e persiste efetivamente de judaísmo no distrito de Bragança, mas saber se as pessoas que estavam a colaborar na pesquisa, estariam na disposição de

mostrar ao público os objetos e as imaterialidades criptojudaicas que guardaram por gerações, em segredo. Com efeito, quase todo o património que foi sendo registado e depois coletado para a exposição temporária no Museu do Abade de Baçal, pertence a coleções privadas, guardadas no seio de várias famílias brigantinas com grande zelo. Executado o projeto etnográfico, foi iniciada a negociação com os proprietários das peças para que estas integrassem o acervo da mostra, que seria inaugurada em junho de 2019, que ficaria visitável por cerca de seis meses. O cuidado e descrição com que as pessoas guardaram todos os objetos judaicos (vulgo Judaica) ou associados a um judaísmo proibido e encoberto, durante séculos, tornavam as expectativas quanto à sua cedência para a exposição, bastante baixas. A maioria dos que colaboraram na


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pesquisa, no entanto, aceitaram surpreendentemente o desafio, solicitando apenas que fosse preservado o anonimato. Por esta razão, grande parte das peças expostas apresentam uma tabela com a indicação de pertença a “coleção privada”. Alguns objetos vieram de algumas entidades que gentilmente apoiaram também esta exposição, nomeadamente, documentação e fotografias do espólio do próprio Museu do Abade de Baçal, da Câmara Municipal de Bragança, da Biblioteca do Instituto Politécnico de Bragança e do arquivo do Centro Português de Fotografia; da Comunidade Israelita do Porto que guarda algum do acervo que pertenceu à Comunidade Israelita de Bragança, nas décadas de 1920 a 1950, da RTP que cedeu imagens para o vídeo-loop; do Museu Nacional de Arqueologia, com correspondência de brigantinos com o et-

nógrafo Leite de Vasconcelos; e peças únicas do Museu Marrano de Carção, cedidas pelo seu mentor Paulo Lopes. Os tempos de perseguições, confiscos de bens e massacres inquisitoriais e a sua sombra, que se arrastou pelo séc. XX adentro, quase destruiu por completo todos os vestígios de presença judaica no nosso país. O medo e a esperança, no entanto, entrelaçaram-se e, se muito do legado da cultura judaica se perdeu nas areias do tempo, algumas marcas desta presença foram preservadas na clandestinidade, em Trás-os-Montes, ao longo dos séculos... até hoje. Os 1000 anos de presença judaica na região ficaram, porém, ofuscados pelos 285 anos inquisitoriais, levando a crer que a história apagou o rastro de um grupo de pessoas que, tido por herege, existiu, foi significativo, mas foi aniquilado naqueles quase três


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séculos. Ficou uma perceção negativa dos terrores daqueles tempos em Portugal, uma memória que foi transportada pela diáspora e mais recentemente, dado o antissemitismo, vincou uma memória de que os judeus se habituaram a um convívio hostil com as sociedades que os rodeiam. Laicos ou religiosos, mais ou menos integrados, praticantes, assimilados ou seculares, os judeus em geral valorizam sobretudo o legado espiritual dos seus antepassados e as conexões com uma - a sua - cultura e terra de origem. Nesta exposição é apresentado um conjunto de mais de duzentas peças que representam traços inéditos da vida judaica brigantina que continuaram a existir até à contemporaneidade. Trata-se de uma amostra restrita, recolhida dentro dos meios disponíveis e seguindo as adequadas metodologias cientí-

ficas 1, mas culturalmente muito significativa, já que é pouco conhecido o património criptojudaico que remanesce em terras transmontanas. Não se conhecendo a extensão das perdas, destruição e extravios, quando foi iniciado o levantamento etnográfico, não faltaram, porém, diversas surpresas gratificantes, dignas de registo, inventariação e exposição. Procurou-se interpretá-los de um modo que fosse informativo, acessível e ao mesmo tempo capaz de suscitar a reflexão. Tenta-se colocar os objetos e imagens no seu contexto, clarificando o seu significado e explicando as ideias que tais artefactos expressam. Trata-se de um tema complexo, sendo esta exposição apenas uma das abordagens possíveis. A compreensão desta complexidade só seria possível com um levantamento exaustivo destes vestígios judaicos que cobrisse

Sendo o conceito de Património Cultural hoje alargado ao conjunto de bens móveis e imoveis com interesse artístico, arquitetónico, paisagístico, histórico, arqueológico, etnológico, etnográfico, científico, bibliográfico e arquivístico, é de destacar o modo como uma visão pluridisciplinar reforça a sua proteção e ajuda a estruturar o planeamento e gestão das atividades locais, a partir do conhecimento cientifico. 1


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todas as aldeias do Distrito, uma a uma, ao longo de 1000 anos. Não caberiam. Assim, encontra-se nela reunida uma coleção de recolhas feitas em contexto de três anos de trabalho de campo etnográfico em Bragança e alguns apontamentos deste legado respeitantes a outras localidades transmontanas. As áreas temáticas abrangidas por estas manifestações judaicas regionais são múltiplas, fornecendo dados indicativos do modo como se constroem e se traduzem as culturas, as normas sociais e os sistemas de valores, sobre a vida social, a história local, a mobilidade das pessoas, as formas de expressão artística, rituais, práticas e crenças religiosas, e ainda sobre as tecnologias e atividades económicas, que fazem parte estruturante da própria matriz transmontana. A exposição está dividida numa roda de quatro eixos ou dimen-

Planta da Cidadela de Bragança, 1897 (Fonte: Lopo, Albino Pereira (1983) Bragança e Benquerença. Lisboa: Imprensa Nacional)

sões da vivência criptojudaica na região. Começa por uma síntese de enquadramento histórico, seguida dos vestígios da religiosidade criptojudaica, a que se sucede o conjunto de especificidades do quotidiano e terminando nalgumas das atividades profissionais associadas como específicas dos judeus da região. Dado o papel poderoso da cultura material no moldar das identidades, foram coletados e pensados em conjunto, tanto re-


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cursos multimédia como Judaica de uso comum ou com o atributo de excecionalidade e de valor simbólico intrínseco, ou objetos desativados, que tenham caído em desuso, uns produzidos localmente, outros importados e que assim se pretende resgatar do anonimato, do abandono e do desconhecimento. Reuniram-se bens e artefactos originais ou reproduzidos que sinalizam os vários campos sociais, económicos, do poder e do sagrado, e que permitem aos seus donos e ao visitante, com ajuda curatorial mínima, explorar, refletir e construir narrativas modelares em torno de personagens, tempos e lugares ligados ao judaísmo Brigantino. Estas recolhas ajudam a traçar uma cultura que está em constante transformação, entalada entre a cristalização, o revivalismo, a reprodução criativa e o esquecimento.

Os objetos e imagens mostram as coisas como se fossem realidades fixas, estáveis. Não mostram as incertezas, as inconsistências ou mudanças nas memórias que as pessoas têm do passado e muito seguramente, não mostram o que não está lá – os silêncios, as lacunas, o sentido de ausência em geral, que é para os sobreviventes, algo óbvio. Os textos e legendas procuram preencher algumas dessas lacunas e ausências. O rastro deixado pelo desaparecimento é, em última análise, muito mais relevante do que parece. E é, precisamente, sobre estes testemunhos presentes, depois de supostamente desaparecidos, na identidade e na memória criptojudaica brigantina, em que (e através dos quais) o passado é tornado presente e significativo, que se pode dar a conhecer um legado cultural, que é constitutivo da sociedade


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Brigantina e contribui para torná-la multicultural. O intuito é que cada visitante faça a sua interpretação da coleção de testemunhos, objetos e memórias expostas. Uns olham para a região como um vasto cemitério dessa presença judaica que fez parte de uma hibridez ibérica medieval, imaginada como uma convivência cosmopolita de cristãos, mouros e judeus, mas que hoje é parte de uma Sefarad sem judeus, que partiram para a diáspora com a Inquisição, para uma Sefarad II, segundo Weinreich (1980). Outros buscam por todos os cantos esses vestígios no intuído entusiasmado e romântico de demonstrar que a sua vitalidade persiste, não atendendo no entanto às influências mútuas entre as diferentes culturas durante séculos em coexistência. E outros ainda, procuram memorializar o passado e revitalizar

esse legado perdido da cultura judaica em Portugal, reconstruindo-o com intuito revivalista, de saldar uma dívida de desinformação relativa aos judeus ou no sentido de um memoryland (Macdonald, 2011). Hoje é forçoso que se integrem memórias e registos de tradições, presenças e visões do “outro”, tanto as positivas como as negativas, evitando memorializações instrumentalistas hegemónicas e incluindo as memórias alternativas, detidas pelos sujeitos das manifestações culturais que se querem mostrar. No processo de patrimonialização da cultura judaica que atualmente é exuberante em todo o país, muito pouco ou nada existe sobre a relação real entre o objeto recordado e os próprios judeus e seus descendentes que vivem em Portugal no presente. São diferentes camadas de abordagens subjetivas que se


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conjugam e coexistem hoje, inspirando diferentes emoções, afetos e desafetos, e não uma só perspetiva estereotipada. O contacto com estes objetos e imagens pode suscitar tristeza pela perda de uma cultura do passado, orgulho pela sua resiliência e sobrevivência, alegria pela sua reabilitação, lembrança ou associação de informações que cada um tem sobre o assunto e a noção de que hoje, judeus e não judeus podem refletir e falar sobre o assunto abertamente e sem constrangimentos.

Placa dedicada a Oróbio de Castro “Bragança. Por iniciativa do Presidente desta incipiente Comunidade, o Sr. José Furtado Montanha, foi dirigido à Câmara Municipal de Bragança um pedido, assinado por judeus, criptojudeus e outras pessoas, para que fosse dado à Rua dos Quartéis o nome de Rua Dr. Oróbio de Castro, distinto escritor e médico judaico, natural de Bragança, e que tendo emigrado de Portugal fugindo à Inquisição, foi médico do Rei de França, professor da Universidade de Toulouse e acabou os seus dias em Amsterdam, onde está enterrado no cemitério da Comunidade Portuguesa. A Câmara Municipal de Bragança aprovou e satisfez o pedido.” (Ha-Lapid, nº 8, 1928:8). Bragança (Foto: Coleção de Marina Pignatelli, 2017)



1000 Anos de Judeus e Cristãos-Novos em Bragança Marina Pignatelli

‫אלפי שנים של היסטוריה‬

Alunos na Escola Israelita do Porto Arquivo da Comunidade Israelita do Porto, década de 1920


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Na Era Medieval já havia sinagogas dentro e fora das muralhas do castelo de Bragança. A região tornar-se-ia numa das principais portas de entrada de milhares de judeus, desde que começaram as perseguições em Espanha, no séc. XV. Em Portugal, porém, acabariam igualmente por ser convertidos à força, tornados cristãos-novos e condenados às fogueiras inquisitoriais (1536-1821), quando acusados de judaizar. Muitos fugiram para onde puderam, outros assimilaram-se definitivamente e outros mantiveram as suas práticas em segredo, Artur das Neves (o “Mirandela”) Arquivo privado da família de Artur Mirandela vivendo ao lado dos cristãos, praticando atividades úteis, especialmente nas zonas raianas do Nordeste, onde as visitações dos inquisidores eram menos assíduas. Essa resiliência fez perdurar uma cultura sincrética, extensiva a muitas famílias brigantinas. Tal levou Barros Basto, um capitão do exército e marrano residente no Porto, que se convertera e casara com uma judia de Lisboa, já em contexto republicano, a iniciar a sua Obra do Resgate de criptojudeus ou marranos, precisamente em Bragança. A esperança foi vencendo os medos herdados e a congregação foi-se organizando, obtendo uma


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sinagoga maior, oficializando-se, redigindo estatutos, criando uma Escola Israelita para instruir os rudimentos judaicos aos criptojudeus da cidade. Mas o crescente antissemitismo na Europa, o declínio de Barros Basto, a crise financeira interna, os boicotes à ajuda local e internacional levaram a Comunidade Israelita de Bragança (CIB) à retração. Nos anos 1940-50, membros da CIB acolhem refugiados judeus da Shoah, enquanto Miguel Nunes, “o Padre Judeu” continuava a batizar os judeus locais, para se manterem as aparências. O culto clandestino em casas privadas foi persistindo, nas décadas subsequentes, tal como transmitido por gerações... até hoje. Integram este primeiro núcleo expositivo 20 peças organizadas cronologicamente desde que há testemunho da existência de judeus em Bragança, no séc. XII (Keyserling, 1971: 18). São, sobretudo, documentos escritos e fotográficos, acompanhados de um mapa de localização de referência. Mais do que expor o maior número de peças dentro de cada tipologia, a preocupação foi a de que estas fossem capazes de demonstrar a evolução da vida judaica em Trás-os-Montes, com os seus avanços e recuos, ao longo dos tempos.

Abade Baçal com Raquel Montanha às cavalitas, 1944 (Foto: Coleção privada de Leonor Alves Doutel)


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Notícia da “Visita Pastoral a Bragança”, (Ha-Lapid, nº 36, p. 1, 1931, Arquivo da Comunidade Israelita do Porto)

Poema “À Bragance” (Lily Jean-Javal), 1931 (Ha-Lapid, nº40, p. 1, 1931, Arquivo da comunidade Israelita do Porto)


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Primeira versão do prólogo da obra “Os Judeus do Distrito de Bragança”, Memórias Arqueologico-Históricas do Distrito de Bragança ALVES, Francisco Manuel (Abade de Baçal), [1925] (Arquivo do Museu Abade de Baçal)

Notícias da reconstituição da CIB, 1927 (Ha-Lapid, nº 6, Arquivo da Comunidade Israelita do Porto)


30 Os Judeus e Cristรฃos-Novos de Braganรงa

Livros de atas e contas CIB, 1927-1947 (Arquivo privado)


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Medalha de homenagem a Artur das Neves (“Mirandela”), Câmara Municipal de Bragança, 1996 (Coleção privada, Bragança)


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Livro de sócios/ pagamento de cotas (Arquivo da Comunidade Israelita do Porto)

Aviso de faltas à Escola Israelita da CIB, 1932 (Foto: Coleção de Clara Machaqueiro André, CMB)



A Religiosidade Judaica e Criptojudaica Marina Pignatelli

‫יהודית‬-‫דתיות יהודית וקריפטו‬

Moisés (Coleção privada, Bragança)


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De uma época em que se espalhavam inúmeras judiarias ou comunas judaicas pelo país com relativa autonomia e abertura à possibilidade de práticas judaicas, passou-se, com os séculos inquisitoriais, a uma total intolerância para com os seguidores da Lei de Moisés. Após algumas gerações pós-exílicas, todos os sinais exteriores materiais de fé mosaica (Judaica) ou intangíveis foram interditos, caíram gradualmente em desuso ou foram destruídos. Os livros eram proibidos, assim como as paramentas e objetos pessoais e sinagogais usados nos ritos individuais ou familiares privados e nos serviços religiosos coletivos. A posse de testemunhos de afetos religiosos não católicos significava a fuga para a diáspora, o cárcere ou a fogueira. A organização da CIB e inauguração da sinagoga oficial, em Bragança, na primeira metade do séc. XX, vem trazer um novo ânimo à expressividade de práticas de religiosidade judaicas na região, dinamizando-se a (re)produção e importação de objetos de culto. Com a CIB e a sinagoga a encerrarem portas, os tempos que se sucedem são de novo fechamento. Os filhos e os netos dos que frequentaram aquelas Balcão da Igreja de Donai Foto: Museu do Abade de Baçal


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instituições judaicas, ou dos que se mantiveram no anonimato a praticar o criptojudaísmo em segredo, contudo, preservam ainda vários objetos devocionais materiais e imateriais, relíquias cuidadosamente escondidas ou dissimuladas pelos seus ascendentes, dada a ameaça que representava o facto de as manter e mostrar... até hoje. Integram este núcleo expositivo 39 peças, apresentadas segundo a sua relação com a Varanda da Sinagoga respetiva funcionalidade e simbolismo, fosBragança, 1984 (coleção privada da família de Mário sem livros de orações, fossem objetos de Artur Fernandes) culto no foro doméstico ou público, ou objetos relativos aos rituais cíclicos festivos do calendário litúrgico, do ciclo vital ou do dia-a-dia. Trata-se de conjuntos de objetos documentais, imagéticos e materiais, uns já sem serventia, intercalados com outros de uso frequente. Feitos de materiais nobres ou de outros mais rudimentares, uns são produzidos localmente, enquanto outros foram enviados ou trazidos de outras paragens.


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Antigo Testamento (Coleção privada, Bragança)

Livro de Orações “L’Arme de la Parole” Paris, 1857 (Coleção privada, Bragança)


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Cadernos de Orações Criptojudaicas 1925 (Coleção privada, Bragança)


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Tallit Xaile de oração judaica usado pelos homens (Coleção privada, Paulo Lopes, Carção)


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Mezuzah Recipiente contendo rolo de pergaminho colocado nos umbrais direitos das portas das casas e instituições judaicas, com a transcrição deste mandamento Bíblico, o Shema - a profissão de fé judaica; e a Vehaiá - ou a garantia divina de que a observância dos preceitos da Torah será recompensada (Det. 6:4-9 e 11:13-21) (Coleção privada, Paulo Lopes, Carção)

Shofar Instrumento tradicional judaico que lembra o carneiro sacrificado por Abraão na narrativa Bíblica lida no segundo dia do Rosh Hashaná (Ano Novo Judaico) (Coleção privada, Paulo Lopes, Carção)


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Cálices Judaicos Dois cálices em metal com estrela de David, e um cálice com alto relevo com prato para a benção do vinho (Coleção privada, Bragança)


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Kippot Solideus usados pelos homens judeus em sinal de respeito e reverência divinas (Coleção privada, Bragança)


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Relicário de Israel Relicário em metal e vidro com tecido de flores e pedras no interior e contendo terra e plantas que segundo a tradição familiar, vêm de Israel. Séc. XVIII (Coleção privada, Bragança)

Medalhão Biface com Agnus Dei e Menorah Agnus Dei é uma expressão do latim que significa “Cordeiro de Deus”. Este sacramento é moldado com uma cera benta e é representado numa face por um cordeiro ao lado da cruz e na outra face com o símbolo judaico da Menorah (Coleção do Museu Marrano de Carção)


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Menorah Candelabro sagrado judaico de sete braços, eletrificado, para celebração do Shabat Década de 1970 (Coleção Marina Pignatelli)


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Menorah Candelabro sagrado judaico de sete braços, em cartão, para celebração do Shabat (Coleção privada, Bragança)

Pano de Pão de Shabat Pano em linho com estrela de David para servir o pão (Chalah) benzido para o Shabat (Coleção privada, Bragança)


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Candeias de Shabat (Coleção privada, Bragança)


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Pote de barro com candeia escondida de Shabat (Coleção privada, Bragança)


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Vela usada para Shabat Castiçal em terracota policromada, Bordalo Pinheiro, com estrela de David (Coleção privada, Bragança)

Candeia de Shabat (Coleção privada, Bragança)


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Pagar a Calaça O costume de confeccionar um pão em forma de trança para as ocasiões festivas, como o Shabat ou as principais celebrações judaicas, e do qual, ritualmente, se retira uma porção para oferenda. O termo poderá vir do hebraico “challah” ou “a caridade”, que corresponde a donativos em dinheiro ou em pão que eram feitos nas festas. Em Bragança, há a tradição de oferecer dinheiro ou pão à porta do cemitério. “As mulheres ao cozer o pão primeiro tiravam um bocado do pão e chamavam a isso a calaça, é o pagar a calaça”. (Coleção privada, Bragança)


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Cesto “Lá vai o Messias” Cesto com tronco de madeira, deitado ao Rio Sabor por altura do S. João. Na noite de 23 de junho, iam as famílias judias de Bragança para junto do Rio Sabor, para um lugar que chamavam de “Corre Água”, onde toda a noite até de madrugada festejavam, dançavam e cantavam uma ladainha em que esperavam o regresso do Messias. Comiam galo à meia-noite e após o banquete, um deles subia pela margem do rio e largava um boneco de palha ou um tronco e gritava para o grupo: “Lá vai o Messias!” (Coleção privada, Bragança)



As Especificidades do Quotidiano Marina Pignatelli

‫הפרטים של חיי היומיום‬

Lia e José Montanha com lobo e cordeiro 1927 (Coleção privada de Leonor Alves Doutel)


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Apesar das proibições inquisitoriais e antissemitas e do medo que destruiu e quase extinguiu todos os rastos judaicos em Portugal, guardam-se ainda alguns artefactos, certas práticas culturais ou mantêm-se bem vivas Lage epigrafada com cruciforme na memória diversas especificidades Pedra de granito em cruz em baixo relevo, do quotidiano, associadas à identida- encontrada no chão da porta de entrada de casa para ser propositadamente pisada. Faz parte do de criptojudaica transmontana. Her- acervo do Museu Marrano de Carção dados no seio familiar ou encontra- (Foto: Coleção Paulo Lopes, Carção dos noutras fontes externas judaicas (publicações, internet, pelo contacto com visitantes judeus vindos de fora, etc.), à medida das necessidades e possibilidades de cada um destes criptojudeus, tais legados são igualmente preservados e transmitidos às gerações seguintes, como traços estruturantes identitários distintivos. De modo consciente ou não, como sinais de afirmação, resistência identitária ou afetividade materializada ou sentida para com os antepassados, subsistem e usam-se ainda algumas manifestações (orais, mnemónicas ou objetificadas) culturais de matriz judaica, nos diversos âmbitos da vida de casa ou do exterior. São emblemáticas das tradições judaicas que povoam no dia a dia de Bragança...até hoje. Integram este núcleo 22 peças expostas por forma a mostrar ao visitante, igualmente através de ima-


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gens, objetos ou fontes documentais, alguns aspetos da cultura judaica laica, sejam na decoração doméstica ou no adorno do corpo, sejam nos jogos lúdicos infantis, nos costumes culinários, agrícolas ou funerários, ou sejam nas representações partilhadas no imaginário coletivo, nas expressões linguísticas, ou nas narrativas produzidas pela história oral.

Lage de portão epigrafada com Estrela de David e coração Coluna em pedra de granito com estrela de David sulcada, à porta de casa privada “Bairro de baixo”, Rebordelo 1927 (?) (Foto: Museu do Abade de Baçal)


56 Os Judeus e Cristãos-Novos de Bragança

Confeção de “Tabafeias” (Alheiras) Embora não exista documentação que ateste esta associação com segurança, a tradição oral atribui a confeção das alheiras, conhecidas em Bragança como “tabafeias”, os criptojudeus ou cristãos-novos, como forma de dissimular o consumo de carne de porco, na forma de enchidos de fumeiro. (Coleções privadas)


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Forma para filhós em forma de Estrela de David (Coleção privada)


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Cadeira com cruz Cadeira de uso doméstico em madeira com cruz pintada no assento (Coleção privada Rebordelo, primeiro quartel do séc. XX)


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Planta capada Persiste em Trás-os-Montes o costume (judaico) de “capar” ou “circuncidar” as plantas e árvores


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Fio de cabedal com Estrela de David Década de 1970 (Coleção privada, Bragança)

Bolsas de rapariga solteira e casada Carção, séc. XIX (Coleção privada da Família Mina)


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Fio com Estrela de David e Crucifixo Metal (Coleção privada, Bragança, 2018)

Anel em prata, encimado com sinagoga (Coleção privada, Bragança)


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Jogo do Rapa (Dreidel) Pião de crianças jogado em Trás-os-Montes, no Natal, semelhante ao Dreidel judaico (Coleção privada, Bragança, década de 1920)

“Bola de meias” Os rapazes judeus jogavam à bola de trapos feitas de meias roubadas dos estendais, na Rua Direita (atual Rua dos Combatentes da Grande Guerra)


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Herbário de Jerusalém Encadernação em madeira embutida com “Jerusalém” inscrito em hebraico e cursivo. No interior estão ilustrações em aguarela de diferentes paisagens da cidade, com flores secas a adornar cada contra-página (Coleção privada, Bragança, década de 1930)



As Atividades Profissionais Marina Pignatelli

‫פעילויות מקצועיות‬

Ofício de sapateiro Bragança, 1930 (Coleção privada)


66 Os Judeus e Cristãos-Novos de Bragança

Todo este contingente humano de cristãos-novos ou criptojudeus foi determinante na formação e desenvolvimento de novas atividades profissionais e novos grupos sociais. Tal propiciou a necessidade de um maior espírito de abertura e de integração de diferentes mundividências, a nível sociorreligioso e económico, localmente e na diáspora. Fossem de estratos sociais e de meios de sustento mais modestos, burgueses destacados ou fidalgos, os que ficaram nas Terras Frias contribuíram para o incremento da cultura e da economia regional, sobretudo pelas ligações no trato entre comerciantes e artesãos locais e transnacionais que mantiveram (nomeadamente com parentela e correligionários). E continuaram a conservar os seus costumes como podiam, ao mesmo tempo que se dedicavam ao cultivo de competências no âmbito de processos e técnicas tradicionais associadas aos ofícios úteis à sociedade envolvente, sobretudo os que não implicassem grande apego à propriedade imóvel, pois em qualquer altura teriam de partir. Muitos se empregaram na frutífera indústria da seda, amoreiras e tecelagem, bem como na mineração, fundição, cerâmica (dada a abundância Rebuçadeiras


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de argila na região), no comércio ambulante (especialmente com Espanha) ou como artesãos das mais diversas atividades. Guardaram-se os ofícios eminentemente urbanos com os seus “sótos” (casas de comércio), no centro da cidade, ou as ferramentas usadas... até hoje. O desejo de continuidade deste legado abre uma janela ao futuro, o que, nos termos de um brigantino, se reflete no desejo de que: “Isto há de ficar para o meu neto”.

Peliqueiro José Granjo Louçano Argozelo (Foto: Coleção privada)

O último núcleo expositivo inclui um conjunto de 63 peças, instrumentos, maquinaria e imagens que representam algumas das principais profissões tradicionalmente exercidas pelos judeus, como sejam os sapateiros, as rebuçadeiras, as tecedeiras de seda, os carpinteiros, os tendeiros de longo curso ou almocreves, os peliqueiros e os coleiros.

Almocreve Almocreve é a pessoa que conduz uma besta de carga para a comercializar (Foto: coleção particular de Paulo Lopes)


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Rebuçadeiras (Objetos pertencentes a coleção privada)

As Rebuçadeiras Bacia de cobre onde a amêndoa torrada é misturada com calda de açúcar e aguardente pelas “cobrideiras” Bragança, séc. XIX/XX


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Ofício de Coleiro (Objetos pertencentes à coleção privada de Luís Mina, Carção)

Coleiro, fabrico de cola de pele As peles que não serviam para couros são aproveitadas para fazer cola. Ricas em proteínas e colagénio, que é derretido e transformado em pasta de cola deitada numa base de vime, onde era desidratada ao sol e depois cortada em pedaços para ser comercializada


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Ofício de Peliqueiro (Objetos pertencentes a coleções privadas)

Tronco de surrar as peles (Coleção privada de Francisco Lourenço, Argozelo)

Tábua de esticar e surrar peles Tábua de puxar, esticar e surrar (tirar gorduras) às peles. Era usada farinha e sulfato de cobre (Coleção privada de Francisco Lourenço, Argozelo)


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Alisador ou Esticador Utensílio para Alisar/esticar peles de cobra, nomeadamente das vindas de Angola e Moçambique, que chegavam a atingir 7 metros. Usavam gema de ovo para lhes dar brilho. (Coleção privada de Francisco Lourenço, Argozelo)

Ferramentas de peliqueiro Dois cutelos de surrar e esticar as peles (pissaras ou estiras) e um cutelo de surrar (Coleções privadas de Francisco Lourenço, Argozelo e de Luís Mina, Carção) Avental de peliqueiro Pele de porco (Coleção privada Francisco Lourenço, Argozelo)


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Ofício de Carpinteiro (Objetos pertencentes à coleção privada de Marcelo Carvalho, Bragança)

Mesa de carpintaria


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1

4

2 5

3 6

1- Formão 2- Goiva 3- Arco de pua com broca 4- Plaina 5- Plaina 6- Maço de madeira 7- Barrilet

7


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Ofício de Sapateiro (Objetos pertencentes a coleções privadas, Bragança)

Carimbo

Pesos de balança

Pedra de sapateiro Seixo de bater (amaciar) a sola


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Dedal

Carimbo

Mola e carimbo (Eugénio Carvalho)


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Martelo

Pregos

Cravador de ilhรณs


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Grosa

Meia costas

Ferro de burnir


78 Os Judeus e Cristรฃos-Novos de Braganรงa

Roseta

Sovela

Buchete


Os Judeus e Cristรฃos-Novos de Braganรงa 79

Alicate

Alicate vazador

Alicate de cravar ilhรณs


80 Os Judeus e Cristรฃos-Novos de Braganรงa

Mรกquina de costura Braganรงa


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Ofício de Almocreve (Objetos pertencentes ao Museu Marrano de Carção)

Boto de Almocreve Recipiente de pele de animais para transporte de azeite ou vinho vendido pelos Almocreves e que era carregado pelos burros Primeiro quartel do séc. XX



Isto Não é um Filme

Testemunhos do criptojudaísmo em Trás-os-Montes e nas Beiras no cinema documentário (1973-2010)

Asher Salah ‫עדויות בקולנוע התעודי על חיי האנוסים בטרש אוש‬ (1973-2010) ‫ובבאיראש‬ ‫מונטש‬


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Isto não é um filme, mas sim uma coleta de raros materiais de arquivo, testemunhos do criptojudaísmo em Trás-os-Montes e nas Beiras, presentes no cinema documentário em filmes rodados entre 1973 e 2010, por equipas da Radio Televisão Portuguesa (RTP) e da televisão de Israel (IBA). O seu objetivo principal é complementar a coleção dos materiais documentais exibidos acerca da cultura judaica ou cristã-nova no distrito de Bragança e na região específica de Belmonte. Trata-se de uma seleção de conteúdos de suporte audiovisual, que totalizam 39:49 minutos de imagens de 9 clips em formato vídeo-loop, que visa oferecer ao visitante uma oportunidade extraordinária de contacto com as narrativas profundas que constituem a saga das vivências dos judeus ou cristãos-novos sefarditas portugueses que ficaram em Portugal, apesar

Clip 1: Em Terras de Vimioso

das perseguições inquisitoriais. O filme que integra a exposição explora alguns detalhes destas perceções discursivas e das suas complexidades e permite-nos seguir a evolução da perceção sobre os judeus e cristãos-novos no cinema documentário, a partir da década de 1970, época dominada por um olhar de registo etnográfico, à procura dos vestígios do país profundo e das suas raízes arcaicas no meio rural do nordeste português, até à transformação contemporânea do criptojudaísmo num objeto de


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curiosidade mediática, acompanhada pelo desejo de preservar uma memória histórica, ameaçada pela pós-modernidade e pelo intuito de reforçar a identidade multicultural da região. Se a descoberta do fenómeno criptojudaico no Portugal contemporâneo é geralmente relacionada com a publicação do livro de Samuel Schwarz, Os Cristãos Novos em Portugal no século XX, em 1925, a rodagem dos primeiros filmes sobre estas comunidades remonta a quase meio século mais tarde e conhece um crescente interesse por parte dos meios audiovisuais, nos últimos vinte anos. Muitas razões podem ser adu-

zidas para explicar esse atraso: da relutância em exibir traços de diferenças religiosas no Portugal católico de Salazar, à dificuldade intrínseca de representar no ecrã algo que, por definição, está oculto, como o criptojudaísmo. Além disso, a presença de judeus em geral no imaginário coletivo português sempre foi consideravelmente menor do que na Espanha e em outros países. A visão luso-tropicalista de Gilberto Freyre, no seu livro O mundo que o português criou (1940) e promovida pelo Estado Novo, após a Segunda Guerra Mundial, com a sua valorização de mestiçagem e da miscigenação do colonialismo português, marginalizava, se não excluía, o contributo judaico num espaço identitário multicultural, colocando-o na condição de ser sustentado e domesticado pelo cristianismo hegemónico. Se as identidades plurais que carac-

Clip 2: Documentário para Rosh Ha-Shana da Televisão de Israel


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terizam a história peninsular, segundo Castro (1948), eram essencialmente de natureza cultural, a suposta aptidão do português para a “mistura” elogiada por Freyre, era sobretudo biológica e sexual, e não tanto religiosa. As raras referências ao judaísmo na literatura portuguesa, no teatro e nas artes visuais, geralmente colocam os judeus em marcos geográficos e temporais distantes, como se fossem marginais ou alheios à identidade nacional. O cinema não é exceção a esta regra. No cinema português, as menções a personagens judeus ou a questões relacionadas com a história do judaísmo podem-se contar pelos dedos de uma mão (Salah, 2017). Somente após a Revolução dos Cravos, é que o cinema português começou a integrar a visão tricultural da história ibérica proposta por Américo Castro,

em 1948. O mundo social é constituído por materialidades, tanto quanto o inverso também é verdadeiro, diria Miller (1998:8). As imagens e os objetos ajudam-nos a identificar mundos e a conhecer o modo como se constroem e se traduzem as culturas, as normas sociais e os sistemas de valores. Neste sentido, também o filme que pode ser visionado nesta exposição é instrumental enquanto item legítimo e igualmente relevante da cultura material, que faculta informação adicional sobre as dimensões experienciais dos diferentes contextos culturais, ao longo do tempo. Algumas dessas imagens encontram-se neste vídeo reproduzidas, ilustrando registos mnemónicos únicos, uma parte da estética das memórias que liga o passado ao presente das vivências dos judeus e criptojudeus brigantinos e beirões.


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Esta lembrança ou pós-memória (Hirsch, 2008), não só promove uma conexão com os tempos idos, como também proporciona a possibilidade de projeção e criação da imaginação coletiva entre gerações, com efeitos no presente e no futuro. A fenomenologia das imagens, materializadas através das tecnologias fotográficas ou de vídeo, são, para Hirsch (2008: 107-108) representações icónicas - porque exibem uma similaridade com o objeto representado - com poder simbólico que permite aceder a acontecimentos pretéritos concretos e à transmissão de factos que, mesmo que fragmentados, seriam, de outro modo, inimaginados. Entra-se no mundo das representações, das questões em torno da legitimidade de quem representa e de quem é representado nestes suportes. O público visitante fica com a possibilidade de se deixar

seduzir e deambular pelos imaginários das personagens retratadas. No loop falam as pessoas, enquanto na exposição falam os objetos, os documentos e os textos. O roteiro em loop é uma das estruturas narrativas mais interessantes e recorrentes na contemporaneidade, inclusive nos meios digitais. Não sabemos quando foi inventado, mas terá vindo com o desenvolvimento das gravações de som e depois de imagem em suportes de plástico (cassetes, bobines), haven-

Clip 8: Presença dos Judeus em Carção (imagem de condenados da Inquisição com Sambenitos)


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Clip 9: Noticiário da RTP de 08/02/2010

do registo de tramas que vão e voltam, desde a década de 1930 (Scoma, 2008). Permitem, sobretudo, a evidência cíclica de uma gravação que sucessivamente se repete, por forma a dar ao visitante a oportunidade de observar o vídeo completo, independentemente do ponto em que inicia o seu visionamento. Através dos olhares cruzados de quem filma, de quem seleciona as imagens e as monta e de quem finalmente as edita, são produzidos vídeo-objetos ou uma espécie de videoarte sem-

pre intersubjetiva e suscetível de múltiplas interpretações. Para esta exposição, a opção foi a de construir um vídeo-objeto de cerca de 40 minutos, conjugando peças escolhidas de um conjunto de 9 documentários, produzidos pela RTP e IBA, a que a equipa de realização teve acesso. Porém, faltam imagens de alguns dos filmes mais conhecidos sobre o fenómeno do criptojudaísmo português, como o trabalho de Fernando Matos Silva, Argozelo, a procura dos restos das comunidades judaicas, que estreou no cinema nacional em 1977 e foi transmitido várias vezes na televisão, ou como Os últimos marranos, de Frederic Brenner e Stan Neuman, de 1990. Duas razões principais nos guiaram nessa omissão: a dificuldade de selecionar alguns minutos de uma obra cinematográfica complexa, sem trair um


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sentido contextual que aparece só após o de uma visão completa, e o desejo de deixar mais espaço para documentos ainda desconhecidos do largo público. Contudo, procurámos intensificar sensações provocadas pela imagem e som, trazendo documentos filmados com diferentes técnicas, estilos e formatos para a dimensão do ecrã de um dispositivo televisivo de 42 polegadas. Na sala da exposição, a projeção foi instalada para ocupar o centro de uma das paredes de recanto e coincidir com o fim do percurso da visita, de modo a que o espectador se sinta imerso no ambiente. Mas a montagem dos clips não foi contínua. É uma colagem onde há cortes que preveem pequenos desajustes, pausas com dados técnicos e interrupções que propositadamente deixam o observador perceber que são estórias diferentes que se su-

cedem numa linha de continuidade em torno do mesmo tema central. Tomaram forma situações e narrativas que talvez sejam pequenas ficções e não pretendem substituir-se ao documento original, procurando promover o conhecimento, mas também a incerteza, o absurdo ou o paradoxal. A matéria prima dos clips é o tempo, o ritmo necessário a cada pessoa e a cada lugar documentado para que se expresse e se deixe desvendar. Os conteúdos de cada clip partilham a busca de imagens de presença de uma identidade escondida durante séculos até à atualidade, conscientes de que as imagens inevitavelmente contribuem para fazer ecrã entre o espectador e o real.


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Clip 1 Em terras de Vimioso: Argoselo Diretor João Martins. Realização Canal: RTP 1, 16 junho 1973. Duração 3:43 minutos. Trata-se de um documentário sobre a aldeia de Argozelo, provavelmente o primeiro em que as origens judaicas da sua população são mencionadas, apesar de ser principalmente dedicado à descrição da agricultura, do quotidiano dos seus habitantes e do património cultural da região. Clip 2 Documentário para Rosh Ha-Shana da Televisão de Israel Diretor Ron Ben Yishai, Apresentação de Ron Ben Yishai e Inácio Steinhadt, Realização Canal: IBA - Israel Broadcasting Authority, 1975. Duração 12:47 minutos. Ron Ben Yishai (1943-), estrela do jornalismo de guerra, encontrando-se em Portugal para cobrir o período comumente designado por PREC (Processo Revolucionário em Curso), foi encarregado de realizar um programa dedicado aos vestígios do criptojudaísmo em Belmonte, fazendo descobrir, com a consultoria de Inácio Steinhardt (1933-), um fenómeno ainda desconhecido pela maioria do público israelita


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Clip 3 Terra Permitida - Judeus II (Belmonte) Diretor Seruca Salgado. Realização Canal: RTP 1, Nome da série: “Portugal Sem Fim”, Episódio 2, 1987. Duração 1:35 minutos. Este clip é parte da série “Portugal Sem Fim”, um conjunto de 33 documentários à procura das marcas e das memórias lusas ainda vivas através do globo. O episódio “Terra Permitida” trata dos judeus sefarditas de origem portuguesa, em Israel, na Turquia e em Portugal e inclui imagens inéditas da cerimónia do acender das velas do Shabbat em Belmonte, que nunca antes se deixara filmar. Clip 4 Bragança Apresentação José Hermano Saraiva. Realização e Produção António Escudeiro, Canal: RTP 1, Nome da série “Histórias de Cidades”, 11 de Janeiro 1987. Duração 1:36 minutos (18:44-20:26). Este é um documentário sobre Bragança, em que o Professor José Hermano Saraiva (1919-2012) fala sobre as origens históricas da cidade e o seu património, com destaque para o elemento judaico.


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Clip 5 Yerushalaim She-Hayta bi-Sfarad (A Jerusalém que existiu em Sefarad) Diretor Yigal Lossin. Apresentação Yitzhak Navon. Realização Canal: IBA - Israel Broadcasting Authority, 1992. Duração 6:15 minutos. Série de oito episódios que reconstroem a história da diáspora sefardita no mundo, realizada por ocasião do quinto aniversário da expulsão dos judeus da Espanha. O último capítulo é dedicado à visita a Belmonte de Yitzhak Navon (1921-2015), quinto presidente do Estado de Israel. Clip 6 Horizontes da Memória Apresentação José Hermano Saraiva. Realização e Produção Canal: RTP 1, Diogo de Almeida, 1999. Duração 2:15 minutos. A série “Horizontes da Memória” visou a realização por todo o Portugal de programas culturais, revelando aos telespectadores um conjunto de acontecimentos históricos do desconhecimento coletivo, como a chegada dos judeus expulsos de Espanha ao Norte de Portugal, nos finais do séc. XV.


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Clip 7 Francisco Manuel Alves, o Abade de Baçal Apresentação José Hermano Saraiva. Realização Canal: RTP 2, Nome da série: “A Alma e a Gente II”. Realizador António Crespo. Produtor: Diogo de Almeida Costa, 2 junho 2004. Duração 0:24 (2:15-2:39). Programa apresentado pelo Professor José Hermano Saraiva (1919-2012), dedicado à vida e obra do Padre Francisco Manuel Alves, o Abade de Baçal, eminente especialista do criptojudaísmo transmontano. Clip 8 Presença dos Judeus em Carção Realização Canal: RTP 2. Nome da serie “Caminhos”, 2008. Duração 10:36 minutos. Documentário da RTP sobre atividades culturais em Carção, destinadas a manter viva a memória do passado judaico da aldeia.


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Clip 9 Noticiário da RTP de 08/02/2010 Realização Canal: RTP 1. Menções de responsabilidade Jornalista Sílvia Brandão, 2010. Duração 3:41 minutos. Peça do serviço de notícias da RTP sobre Carção, aldeia do concelho de Vimioso, intitulada “a Capital do Marranismo”, onde ainda hoje vivem dezenas de descendentes de antigas famílias judias.


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Créditos do loop Investigação, escolha e curadoria dos documentários Asher Salah (Bezalel Academy of Arts & Design, e Universidade Hebraica de Jerusalém), com o apoio de Marina Pignatelli (CRIA/LEJ-ISCSP-UL). Edição e montagem Filipe Ferraz. Instalação Museu do Abade de Baçal, Bragança.



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Artur das Neves (“O Mirandela”)


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