CO
O C O
Esta revista tem o intuito de documentar o processo criativo durante o projeto desenvolvido pela escola sem sítio e Ñzanza (1º semestre de 2021). Coletivo formado pelo grupo de artistas: a Andrógina (Lana Moares), Davi Pereira e Mônica Coster.
Rio de Janeiro e São Paulo 2021
Desde o primeiro encontro nosso trabalho já tinha alguma conexão (o coletivo inclusive foi sugerido pelos curadores), pois nossas pesquisas investigavam aquilo que leva para um lugar de passagem ou o que procura um sentido sobre alguma estrutura por meio da arquitetura da linha. Arquitetura que poderia se projetar por um cano, um túnel, mas de algum modo estava conectada a uma linha ou à ideia aprofundada do que é a linha além de um corte ou de uma simples divisão. Além de uma passagem, se encontrava tal espaço entre, legítimo e tão importante quanto o que ele leva, se alimenta ou se torna digno.
Se respirar, digerir e linha foram três palavras que escolhemos, elas não significavam pontos de partida ou mesmo objetivos para um trabalho comum. A ideia não era sintetizar nossas múltiplas vontades e pensamentos em um único objeto mas, pelo contrário, multiplicar em várias experiências, o lugar onde a nossa vontade era a mesma.
Por isso, respirar, digerir e linha tateiam, juntas, um lugar-vivo que se desdobra nas várias imagens que trazemos aqui. Talvez, seja possível pensar nas imagens que apresentamos aqui como tentativas de construir um corpo topográfico que respira e digere. Mas, também podemos olhá-las como lugares onde a linha, o respirar e o digerir vêem-se livres do corpo anatômico, vivendo (por assim dizer) como entidades fluidas e mutáveis, a contagiar objetos comuns por aí afora...
a ANDRÓGINA é uma artista que explora a relação entre o reconhecimento da topografia e a leitura do corpo queer. Com influências tão diversas quanto Robert Smithson e Judith Butler, novas camadas são moldadas a partir de relacionamentos implícitos e sexistas que constroem paisagens que nos permitem perceber que há mais para descobrir, mesmo na linha que não divide, mas em si mesma, traz um espaço entre.
https://androgina.wixsite.com/androgina
Davi Pereira, vive e trabalha no Rio de Janeiro; É Artista visual, performer
e
pesquisador;
Doutorando
pelo
Programa
de
Pós-graduação em Artes da UERJ, Mestre com estágio Docente em Ciência da Arte pela UFF, Bacharel em Artes Plásticas pela UERJ; É Editor Executivo da Revista Concinnitas, do Instituto de Artes da UERJ, integra o Grupo de Pesquisa "A arte
contemporânea e o
estádio do espelho", certificado pelo CNPQ. Desde 2002 participou de diversas
exposições coletivas e individuais, no Brasil e no
exterior. Integrou o Festival Performance Arte Brasil, em 2011 no MAM RJ, com curadoria de Daniela Labra. De 2006 a 2009 foi bolsista de 3º grau como Artista visitante da UERJ. Tem especial interesse nas investigações acerca do corpo do artista, de onde se ramificam suas produções nas mais diversas mídias. Pesquisa as possibilidades da arte nos movimentos cotidianos e nas frestas da vida, em refluxo à biopolítica contemporânea.
https://davipereira.vsble.me/
Mônica Coster: Sou artista e pesquisadora do campo da arte contemporânea, fiz graduação em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ e atualmente curso mestrado em Estudos Contemporâneos das Artes na Universidade Federal Fluminense (UFF). Investigo os processos de digestão: o meu interior digestivo como um sistema aberto a outros seres e objetos ligados à comida. Prático a digestão escultórica e a escultura alimentar, proponho a confusão entre o ateliê e o estômago.
https://cargocollective.com/costerponte
obras
a ANDRÓGINA. "Cartografx dx Corpx" (cartografi di corpi). Videoperformance, pastel oleoso sobre corpx.3 min e 32 seg. 2020.
A "Cartografia de Corpx" é um processo de reconhecimento dx corpx que parte da minha pesquisa de estudos de gêneros, utilizando ferramentas do meio da cartografia e do estudo topográfico, cruzando
com
questões
sobre
identidade e dignidade. Um exercício que se propõe a romper com o campo que delimita a forma e que, a partir do corpo que a toma, produz a consciência de sua existência. A forma só é quebrada,
rompida
e
reconstruída
quando compreendida.
link: https://www.youtube.com/watch?v= KcnvrEer2CU
do mundo pela arte, mas, por meio
de
fruição,
sua dar
produção
visibilidade
e ao
surgimento de alguma lucidez e da retirada de nutrientes a partir
da
deglutição
atrocidades.
O
das
caminho
é,
portanto, individual, mas que irá se refletir no coletivo, e se dá na construção e observação do indivíduo sobre si mesmo; suas angústias, suas dores, seus medos, paixões, alegrias. Essa repetição [do respiro] me vincula, assim como a Sísifo, inevitavelmente, ao momento presente; a hora onde tudo ocorre olhos,
diante a
hora
dos em
nossos que
é
possível a realização de algo, mesmo
que
seja
da
inevitabilidade do fracasso e dos meus [nossos] erros. São Série Sísifo, Exopulmão 1; Cano pvc, silver tape, plástico
esses instantes que nos trazem
transparente e ar, 350 x 40 cm, 2021.
a oportunidade do testemunho.
Link: https://davipereira.vsble.me/53bc/22230987
E é por isso que, em algumas vezes se erige a perspectiva da
Esse momento de consciência de si e de nossa própria
quietude e, por outro lado, às
respiração, esse momento de alívio, quando Sísifo desce a
vezes me falta o ar. Procuro ir
montanha sem a pedra nas mãos, sem o esforço inevitável a
ao encontro de algum repouso
que foi submetido eternamente é o ponto de origem de um
imaginável,
possível refluxo frente à condenação do mundo que decai
garrote momentâneo em meu
sobre mim, você e Sísifo. Esses instantes nos fazem crer que
[nosso] pescoço.
é, sim, legítimo criar alternativas em arte de desafogo ao ocaso humano. Não pretendo insinuar algum tipo de salvação
já
admitindo
o
Como atravessar uma montanha 2016. Vídeo digital, 01:50 min. De dentro de um veículo em movimento, filmo a mim mesma atravessando o túnel Santa Bárbara, no Rio de Janeiro, sem respirar. O vídeo tem início com a tomada de fôlego, na entrada do túnel e acompanha a minha apneia até a minha expiração, ao final da travessia. Link: https://vimeo.com/223365699
Mônica Coster, frame do vídeo Como atravessar uma montanha, 2016.
a conversa
Foto-registro de uma das primeiras reuniões do coletivo (via Zoom)
Desconhecemos a presença física dos nossos corpos juntos. Não sabemos como é estar corpo a corpo porque só nos conhecemos pela imagem traduzida do vídeo e pelo som traduzido da voz. Também nos conhecemos pelas palavras que trocamos no whatsapp, pelas autoimagens que produzimos para nos apresentar. A distância entre nós se impõe. Respiramos sob as decisões de um estado fascista. Deixando um vírus mortal circular entre nós, que se desloca através de nossas respirações, o estado usa a necessidade de estar junto, a vontade de coexistir, para nos matar. Aqui e agora, respirar junto é correr risco. Nesse contexto, nos pareceu vazio produzir uma Obra para essa exposição. Um objeto de arte circunscrito, determinado, uno: uma ideia fálica. Por isso, escolhemos o furo, ao relevo. Optamos por apresentar experiências, um caos conjunto das nossas vontades não cerceadas pela necessidade de criar um produto. Nossos encontros virtuais foram mais parecidos com escavações arqueológicas do espaço que se ausenta entre nós 3.
Como coexistir? Escolhemos dois objetos onde pudéssemos nos reunir. Objetos que são lugares. Objetos-domos. Podemos nos encontrar neles e dentro deles. Podemos compartilhar as nuances desse lugar comum.
O artista Davi com o primeiro filtro de carro conseguimos coletar em um posto de gasolina, esses materiais geralmente são após usados deixados para descarte, o que também foi algo que chamou a nossa atenção, justamente por esse paralelo de um corpo que se esvai depois que filtra ou digere, que passa por este.
Nas primeiras conversas, tocamos em vários
Entre
o
primeiro
assuntos mas sempre voltando para a
colocamos algumas referências do que nos
questão das nossas pesquisas individuais e
interessava e chegamos ao filtro de ar de
como elas acabavam conversando com
carro (segue imagem) como objeto de
ideias que tínhamos em grupo.
encontro, porque justamente ele consegue
Foi um fluxo muito grande de trocas, de
trazer
conexões sobre os nossos trabalhos que
respiração e também da desconstrução
conseguiram a cada encontro, não só se
dessa
aproximar, mas alinhar outras possibilidades
Conversamos por muito tempo e levamos
verbais, como buscar outras potências e
isso para outros encontros que fizemos e
formas de executar um processo/obra que
conseguimos
atendesse o coletivo. Estávamos sempre
possibilidades, não só com materiais, mas
pensando em atender a pesquisa de cada
outros lugares que reafirmavam as nossas
um, traçando uma linha para que ela
trocas.
as
e
capacidades
linha
como
localizar
segundo
de
digestão
algo
uma
encontro,
da
fechado.
série
de
alimentasse também o coletivo.
Intervenção em filtro de carro com arame feita pela artista Mônica, a partir das nossas discussões sobre da linha e as possibilidades de organização da mesma. Sem título, Filtro de ar e arame, 30x15x13 cm. 2021.
Nas
conversas
virtuais,
às
vezes
parece fazer pouca diferença em que lugar do mundo as pessoas estão. Mas, pra gente, isso era relevante. Pensar
que
estávamos
separades
entre o Rio de Janeiro e São Paulo e entre a Zona Sul e a Zona Norte do Rio, era parte da arqueologia dos nossos corpos-lugares de encontro. Talvez, a distância geográfica entre as nossas
casas
(425
km)
fosse
equivalente ao tamanho dos espaços que estávamos encontrando com as nossas
experimentações.
De
certa
forma, transpomos a distância física quando nos encontramos nos meios virtuais. Se ficamos cansades com os esforços de trabalhar através do vídeo ou
quando
perdemos
partes
importantes das conversas em grupo, talvez seja porque a dificuldade dos quilômetros também pode ser traduzida na interface online das chamadas.
Estudos de trajetos entre nossos endereços trazendo paralelo com a investigação da linha, do trajeto e desse espaço de passagem.
Estudo da linha no universo dos símbolos matemáticos como potência iconográfica, em que a linha se desvia do corte ou limite e se torna palavra, forma e imagem pelo coletivo. 2021
projetos
Mônica Coster, experimentação com pimenta verde dentro do filtro de ar. Observação das “rugas” surgindo da pimenta, em diálogo com as linhas do papel do filtro. O filtro acompanha a deformação da pimenta, à medida que o alimento murcha. Respiração/ digestão conjunta. Filtro de ar e pimenta verde, 21x13x2,5 cm.
Mônica Coster. Registro após duas semanas: a pimenta murcha e ganha coloração vermelha.
Mônica Coster. Experimentação com batata sobre papel utilizado em filtro de ar. 15x6x4 cm. 2021.
Filtro de ar sem ar; Filtro de ar de automóvel embalado a vácuo, 11 x 12 x 8 cm. Davi Pereira, 2021 Link para vídeo: https://vimeo.com/manage/videos/56508 2093
a ANDRÓGINA. "TOPOGRAFXS FILTRADAS" (topografis filtradas). 29 x 19 x 3 cm .Filtro de carro. 2021
"aqui e em todos os lugares_ 2". 8 x 14 x 3 cm. gesso e pigmento vermelho em molde de argila. pela artista a ANDRÓGINA. 2021
Desenhos de tubos e canos em software 3D, feitos pela artista Mônica, sendo uma delas baseada na obra apresentada pela a ANDRÓGINA para o coletivo. 2021
Vídeo do objeto 3D executado pela artista Mônica. 2021 link : https://drive.google.com/file/d/1wWEVzLECGJm4kzS5PVVViPlO40Bk9_ps/view?usp=sharing
Material encontrado em loja de construção a partir das discussões e exercícios do coletivo (conexão de calha) pela artista. 2021
a ANDRÓGINA. "ONDE ME CALHA" . Fotoperformance . arquivo digital. 2021
a ANDRÓGINA. "CADERNX TOPOGRAFX: A LINHA DO MAPA" . Intervenção com filtro de carro 4 x 33 x 16 cm. 2021
a ANDRÓGINA. "mordida" . Intervenção com filtro de carro 8 x 16,5 x 16 cm. 2021
a ANDRÓGINA "arco-histeriCU" Intervenção com filtro de carro 11 x 11 x 18 cm. 2021
a ANDRÓGINA. "TUNEX" . Intervenção com filtro de carro 11 X 11 cm. 2021
a ANDRÓGINA "CARTOGRAFX FIBONACCI" Intervenção com filtro de carro 14 x 20 x 18 cm. 2021
a ANDRÓGINA. "TUNEX" Intervenção com filtro de carro 14 x 19 x 18 cm. 2021
Exopulmão 3; Fotografia digital com filtro de ar, 2021.
O processo se formas e moldes é uma estratégia
as partes de um vazio
muito sedutora para investigar os corpos físicos. Ela nos mostra principalmente que os corpos são feitos de vazios e os vazios têm formas. Sobre o meu próprio corpo humano, me pergunto: se o meu sistema digestório fosse uma fôrma, qual seria o formato do seu “negativo” se eu pudesse preenchê-lo
com
gesso?
E
do
sistema
respiratório?
molde em gesso de um filtro de ar de automóvel.
Sem título, gesso, 12x09x03 cm. 2021.
Mônica Coster. Sufoco, terracota, 15x06x3.5cm. 2021.
expo
OCO O que os objetos do mundo falam sobre o nosso corpo? Como tatear o lado de dentro do corpo através do que existe fora dele? No contato dos objetos com a pele, com as linhas, as curvas e as mucosas dos nossos corpos, formulamos nossas possibilidades anatômicas: contra-anatomias e contra-fisiologias… próteses que incorporamos às nossas respirações, digestões, circulações e sinapses. Podemos quebrar nossos corpos e continuaremos vivas.
uma linha de encontro
CO