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A Animação e as Actividades de Tempos Livres como Processo Educativo

José Rodrigo de Melo e Castro

Urbanização Sto António do Alto, Lote 18, R/C Esq 8000-536 Faro

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A Animação e as Actividades de Tempos Livres como Processo Educativo José Rodrigo de Melo e Castro

O nosso século tem sido objecto de transformações e mudanças contínuas que afectaram de maneira considerável o desenvolvimento do ser humano. Todo este “processo de modernização das sociedades” (Ucar, 1992), que comportou consigo a industrialização tem produzido profundas mudanças na sociedade.

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Com a industrialização, a produção em série tomou uma importância relevante sendo para tal implementado o trabalho mecanicista e repetitivo, visando a especialização do gesto. O trabalho deixou de ter como aspecto importante a criatividade humana. À medida que as sociedades crescem “as populações perdem as suas estruturas locais, desestruturando-se enquanto populações para passarem a aglomerados sociais” (Ibañez, 1986), resultando em situações de desenraizamento, inadaptação e perda de identidade cultural.A cultura mediatiza-se mediante os meios de comunicação social, convertendo-se num bem de consumo, onde a escola e a família perdem o protagonismo cultural. A Animação surge assim, como uma metodologia para interferir num contexto onde imperam a inadaptação social, a falta de comunicação e a solidão, a falta de solidariedade e de participação social e o individualismo. Mas, o desenvolvimento da tecnologia não teve apenas consequências negativas pois com a industrialização, com a regularização dos horários de trabalho e com a criação de estatutos laborais dos trabalhadores surge o tempo livre, começando a criar-se condições para as pessoas poderem ocupar estes períodos de tempo com actividades que possibilitassem compensar o “stress” quotidiano.



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Assim, cada indivíduo passou a dispor de outro tempo para além daquele em que se lava, dorme e alimenta, possibilitando-o de assegurar o seu desenvolvimento pessoal e dar livre curso a outras necessidades. Só depois de se ter libertado das suas obrigações sociais, profissionais e familiares é que o indivíduo tem a possibilidade de assegurar o seu desenvolvimento pessoal, e dar livre curso às suas necessidades de uma forma desinteressada e voluntária - Tempo Livre.

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Este Tempo Livre pode tornar-se Tempo de Lazer se for entendido, “como o conjunto de ocupações às quais o indivíduo se pode dedicar com total satisfação, no sentido quer de se repousar, quer de se divertir, quer para se formar ou informar de forma desinteressada, quer para, de forma voluntária, participar socialmente, quer ainda para dar livre curso à sua capacidade criadora depois de se ter libertado das suas obrigações profissionais, familiares e sociais” (Dumazedier, 1967). Kaplan (1975) acrescenta que para ser entendido como Tempo de Lazer, o Tempo Livre deverá ser psicologicamente agradável e vivido intensamente na sua totalidade, contendo normas e limites próprios e proporcionando oportunidades para a recreação, desenvolvimento pessoal e interajuda a terceiros. A Animação ao actuar de forma voluntária e desinteressada, procura compensar as necessidades não correspondidas pelas instituições existentes, nomeadamente a escola, assumindo um papel preponderante durante estes tempos de lazer (Labourie, 1978). O lazer vem a ser directamente integrado e complementado pelo processo de animação. Esta actua primordialmente no âmbito do tempo de lazer com uma finalidade social e cultural. A Animação é a expressão inicialmente utilizada na Europa a partir de meados dos anos 60 para designar as “acções dirigidas a gerar processos de participação das pessoas tendentes à dinamização do corpo sociocultural” (Ander-Egg). Após a clarificação do contexto em que surge a animação, importa agora acercarmo-nos do seu conceito. Uma forma de aceder à definição de animação será através da origem etimológica do termo. 

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Podemos assim, atribuir dois sentidos à animação: animação como “anima”, com um sentido de alma, de vida, e animação como “animus”, com um sentido de movimento, de dinamismo, de incitação à acção (Ucar, 1992). Antes de tudo, a animação é uma maneira de actuar, tendo por objectivo o desenvolvimento da qualidade de vida seio de uma comunidade. “São acções dirigidas pelas mesmas pessoas que actuam conjuntamente e que determinam por si mesmas o conteúdo dessa acção em função dos seus objectivos culturais e sociais” (Labourié, 1978), “procurando fazer participar os jovens e os adultos no seu próprio desenvolvimento” (Labourié, 1978). Apesar de considerarmos a animação como uma estratégia importante no desenvolvimento da criança e do jovem, não podemos cair no erro de admitir que a animação e a educação sejam conceitos idênticos.

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Apesar de vinculada ao conceito de educação, a animação distancia-se desta, pois enquanto a educação faz referência à educação escolar, a animação situa-se no âmbito da educação não formal, centrando-se nas necessidades dos destinatários e utilizando metodologias activas e participativas, sem apresentar qualquer tipo de limitações quanto ao tempo e aos espaços da sua realização (Osorio, 1992). A animação surge, assim, como uma prática dirigida a superar as lacunas da educação formal. Numa sociedade como a de hoje, constantemente em mudança, a noção de educação não pode ter lugar num espaço e tempo determinado. Cada vez mais cada indivíduo terá de aprender ao longo de toda a sua vida e também através de diversos espaços para além da escola. Antigamente a escola tinha como principal função instruir. Hoje, devido às constantes transformações de uma sociedade em que a família ocupa cada vez menos um lugar na vida de uma criança, a escola tem como função formar. Temos de encarar a educação não só como um instrumento para a aquisição dos conhecimentos necessários para que cada ser humano possa exercer uma profissão, como muitos parecem pensar, mas fundamentalmente como uma forma de aquisição das valências e características que nos permitem viver em sociedade, comunicar ideias e valores e intervir nesta sociedade. 

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A escola que hoje temos tem ainda um longo caminho a percorrer para poder dar resposta às exigências de uma sociedade que custa a encontrar respostas às necessidades e motivações do indivíduo.

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Se queremos responder a estas transformações contínuas, nos graves e numerosos problemas do nosso tempo, e fazer frente aos novos desafios, se queremos construir uma vida melhor para toda a humanidade, para as gerações que nos seguem é necessário por a funcionar a nossa criatividade e a nossa imaginação e rever a nossa forma de entender o mundo e de viver nele. Mas temos de assumir que apenas poderemos encontrar as respostas no esforço solitário e na acção colectiva (Maria Peralta da Silva, 1997). Assim, outras instituições e outros espaços têm um papel importante a desempenhar, ao longo de todo o processo educativo. É na Animação que se pode propiciar o acto educativo por excelência pois, sem uma imposição programática rígida, pode-se criar um espaço propicio ao desenvolvimento das potencialidades da criança, por forma a que ela adquira conhecimentos para interpretar o meio que a determina e condição para que se possa afirmar como agente transformador. As Actividades de Tempos Livres baseiam em dinâmicas de animação; sejam elas sociais, culturais ou desportivas, que de uma forma lúdica e desinteressada procuram formar, fomentar e estimular a participação social e activa das crianças e jovens, contribuindo desta forma para o seu desenvolvimento (Martins, 1977). Pretende-se com estas actividades proporcionar aos participantes uma ocupação saudável, em determinados períodos dos seus tempos livres, possibilitando-lhes uma “vivência em grupo, a troca de experiências, o reconhecimento e exploração do meio físico, social e cultural diferente do seu meio habitual” (Martins, 1977). As Actividades de Tempos Livres e de Animação deverão recorrer a uma pedagogia inclusiva, procurando proporcionar aos indivíduos melhorar a sua auto-estima e autonomia, por forma a facilitar a inserção do jovem no seu próprio ambiente e numa vida em sociedade.



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Recorre-se a uma metodologia de “educação activa, procura-se estimular o participante para uma autonomia relativa, descoberta das capacidades para uma valorização pessoal e melhoria da auto-estima, bem como, da vida dos participantes em grupo e em sociedade” (Proença de Jesus, 1977). Ao dinamizar uma actividade de animação deve-se ter em consideração que se pretende, de uma forma lúdica, educativa e inovadora, desenvolver em cada actividade um “plano educativo, tendo em consideração um determinado Programa Pedagógico” (Brito Soares, 1992), em que se encontram presentes os ingredientes do prazer, aventura, descoberta de capacidades, criatividade, enriquecimento de conhecimentos e novas experiências.

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José Rodrigo de Melo e Castro rodrigo.castro@ecos.pt



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