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ConVida Roma & Alvalade / 2007-2008 (nº 2)

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roma & alvalade in loco

Prazeres do Campo Texto/text andreia félix coelho · fotografia/photography evelyn kahn

As mulheres aqui são robustas, com rugas desenhadas pela luta diária. Acordam quando ainda todos dormem para terem prontas as suas bancas de fruta, legumes ou peixe logo cedo pela manhã. E assim se conta também a história de Rosa Gomes, uma das mais antigas vendedoras do Mercado de Alvalade Norte, que é dos mais apreciados pelos lisboetas. Mulher do Norte, Rosa arriscou aos 23 anos o negócio da «fruta e hortaliça». Tempos idos em que pouca gente havia em Alvalade. «A vida era dura. Fazia três viagens a pé com a fruta na cabeça porque não havia transportes», recorda. No mesmo ano nascia o filho que não poucas vezes se viu sozinho em casa por causa dos atípicos horários do trabalho da mãe. Mais tarde e com alguns tostões amealhados, Rosa passou a viajar de mota. O pequeno Vítor começava a vir no meio da hortaliça para o mercado. Já lá vão 33 anos. O pequeno cresceu, estudou contabilidade e gestão, mas não virou costas ao negócio. Ainda hoje, trabalham os dois no mercado. Os seus maiores inimigos são as grandes superfícies. São poucos os mais novos que procuram peixe, fruta e legumes frescos logo pela manhã. «O negócio agora está mau. Só cá vêm velhotes e os jovens nem sopa sabem fazer!», desabafa Vítor. Porém, quem visitar o Mercado de Alvalade Norte logo pela manhã depara-se com grande agitação. Este é dos maiores e mais importantes mercados da cidade. «Considerado um modelo europeu», garante Rosa com o orgulho estampado no rosto. Os tectos altos e a área ampla fazem ecoar os pregões e o regatear entre vendedores e clientes. É no mínimo um deleite para os olhos a mescla de co-

res das bancas de fruta e legumes alinhados. E os odores misturam-se numa harmonia que convida a levar para casa os produtos frescos que só ali se encontram. A simpatia dos vendedores não se conquista em qualquer supermercado. Com paciência, explicam aos mais urbanos e leigos de que legume se trata e para que serve. A ausência de rótulos bonitos, com todas as informações de cultivo, calorias e afins assim obriga. À moda antiga, ainda se oferecem molhos de salsa e coentros na compra de outros legumes. Mas não só de produtos frescos se conta o dia-adia deste espaço. Todo o mercado é ladeado por pequenas lojas que vendem de tudo um pouco. Muitas delas pertencem a imigrantes que ali viram uma oportunidade para ganhar a vida. Roupa, malas, carrinhos de compras, flores e até roupa de cama, vende-se de tudo um pouco. Há quinquilharia sem fim nestes pequenos quadrados onde tudo parece caber, apesar do reduzido espaço. Sem glamour, sem estética, sem a mão da arquitectura de interiores, este consegue ser dos espaços mais agradáveis e bonitos da cidade. Porque é genuíno, verdadeiro. Porque transporta o mais citadino dos citadinos para a espontaneidade do mundo rural.•

roma & alvalade con vida · 7


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