roma & alvalade in loco
DA ALAMEDA AO JÚLIO DE MATOS Texto/text António Sérgio Rosa de Carvalho
C
resci na Av. Guerra Junqueiro. No imaginário da
paradigmas ideológicos de cada modelo, o Estado Novo
minha infância, o meu bairro cingia-se à minha
desenvolve um eclectismo depurador e pragmático, e
rua, e nas minhas deambulações e excursões
ao utilizar apenas aquilo que considera útil em cada
aos estabelecimentos comerciais, os limites estavam
modelo, formula uma “receita” própria. Iremos ver isto
bem definidos: a Alameda e a Praça de Londres. Não
no Bairro de Alvalade.
tinha portanto consciência de que a “minha rua” estava inserida num vasto e notável conjunto urbano, nomeadamente o mais importante e coerente exemplo do Urbanismo do séc. XX na cidade de Lisboa! A concepção urbanística do “Bairro de Alvalade” foi definida num documento aprovado em 1945 e denominado “Plano de Urbanização da Zona a Sul da Av. Alfredo Malheiro” da autoria do Arq.º Faria da Costa (actual Av. do Brasil). Este Plano, cuja área de intervenção era definida tendo como limites a norte a Av. do
No presente, estas avenidas com o seu comércio de qualidade e prestígio, associado a uma forte vocação residencial e intensa actividade social, constituem a confirmação do sucesso e da qualidade do Plano Urbanístico original.
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Brasil, a poente o Campo Grande e a Av. da República, a sul a linha ferroviária e a nascente a Av. do Aeroporto,
O Bairro de Alvalade
começou a ser executado já em 1946 através da infra-
Apesar do desaparecimento de Duarte Pacheco em
estruturação da sua área.
1943 num acidente, as “bases” conceituais do Projecto
O Contexto
já estavam estabelecidas, assim como a garantia da
Em 1933 o Estado Novo, já consolidado, cria o Secre-
possibilidade da sua execução através de uma radical
tariado de Propaganda Nacional, cuja direcção entrega
e extensa política de expropriações, que deixou alguma
ao dinâmico António Ferro, vindo das vanguardas Fu-
polémica. Já Le Corbusier utilizava Luís XIV, para de-
turistas. Este vai desenvolver a “Política do Espírito”,
fender retoricamente que não existe grande Urbanis-
ou seja, a Estratégia Cultural e Artística, capaz de
mo sem Autoritarismo.
iluminar e prestigiar as Obras do Regime. Mas além
Tal como referido anteriormente, o conceito urbanís-
deste Programa de Conteúdos, o Regime precisava de
tico de Alvalade insere diferentes influências interna-
um Executor. O escolhido será o Engº Duarte Pacheco,
cionais, não utiliza os modelos de forma absoluta, mas
nomeado em 1938 Presidente da CML, que acumulará
apenas aquilo que considera útil, sendo portanto cria-
estas funções com as de Ministro das Obras Públicas.
dor e inovador nesta síntese.
O ponto culminante do prestígio do Regime e ilustração
A construção iniciou-se em 1947 na área entre a Av.
do sucesso desta equipe é alcançado primeiramente
de Roma e o Campo Grande e à volta da Av. da Igreja.
em 1940, com a Exposição do Mundo Português. Nela é
O modelo desenvolvido apresentava forte influência da
formulada a síntese entre Tradicionalismo e Modernis-
“Cidade Jardim”, tal como os anteriores bairros sociais
mo, entre Nacionalismo Monumental e Estética e Fun-
do Estado Novo, mas aqui aplicado com maior desen-
cionalidade Moderna, que irá acompanhar o Regime na
volvimento de escala, sofisticamento de infra-estru-
sua evolução e obra. Não se deixando “paralisar” pelos
turas e de Zonamento. Estes edifícios seguiam o
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