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ConVida Liberdade / 2007-2008 (nº 7)

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os cinemas da avenida (...) Por uma simpática ironia da história da cidade, as únicas salas onde ainda se projecta cinema na Avenida são aquelas dedicadas à história do cinema e aquelas onde podemos ver os filmes que mais reavivam as nossas memórias dos tempos em que ir ao cinema em Lisboa, era ir aos cinemas da Avenida. veitado para melhoramentos nas salas, que reabriam em Outubro por vezes com uma decoração completamente renovada, com um novo balcão, um novo bar ou com cadeiras mais confortáveis. Para lá da constante melhoria das condições dos edifícios e da escolha criteriosa dos filmes exibidos, então muito diferentes de sala para sala, os cinemas também procuravam distinguir-se entre si pela qualidade da pequena orquestra privativa que, até ao início dos anos trinta, acompanhava ao vivo os filmes mudos. Uma das salas mais míticas deste tempo foi o Central, instalado desde 1908 na antiga capela do Palácio do Marquês da Foz, um notável edifício do final do século XIX que ainda hoje domina toda a Praça dos Restauradores. Caído em desgraça no início do século XX, o proprietário do palácio foi então obrigado a alugar vários espaços do edifício tendo-se instalado ali, para lá de vários estabelecimentos comerciais e do cinema Central, um dos mais populares clubes nocturnos da Lisboa dos anos vinte, o lendário Maxim’s. A vizinhança do clube e a decoração interior do palácio deram 10 · liberdade con vida

ao Central um glamour que mais nenhum cinema lisboeta pôde reivindicar, pelos menos até à inauguração do Tivoli em 1925 ou, muito mais tarde, do São Jorge em 1950. Nos anos cinquenta, a concorrência da televisão e o início da retirada dos lisboetas para os subúrbios obrigou não só as antigas, mas também o punhado de novas salas então construídas a adaptarem-se aos novos tempos. Nesta altura, o São Jorge e o novo edifício do Condes impressionavam os lisboetas não apenas pela modernidade da sua arquitectura, mas sobretudo pelos grandes écrans adaptados aos novos formatos panorâmicos. A década de cinquenta foi o período de ouro destes formatos que por vezes mais que duplicavam o tamanho da imagem projectada nas telas e que, juntamente com os novos sistemas de som envolvente dos anos sessenta e setenta – os sucessivos dolbys e o famoso Sensurround –, revolucionaram a experiência de ver um filme numa sala de cinema. Nos anos setenta, os “filmes catástrofe” povoaram as telas do Tivoli, do Condes e do Éden, aproveitando ao máximo aquelas novidades técnicas e fazendo os espectadores literalmente vibrarem nas suas cadeiras. Cá fora, as fachadas eram decoradas por gigantescos cartazes pintados à mão. Quem não se lembra das enormes imagens que cobriam por completo a fachada do Condes e do São Jorge ou mesmo aquelas que anunciavam, no Éden, os mais duvidosos filmes de acção americanos de série B dos anos setenta e oitenta? Hoje, sem contar com a Cinemateca, na zona da Avenida apenas se pode ver cinema no São Jorge (e só esporadicamente, durante os vários festivais de cinema ali organizados) e no antigo Central, entretanto rebaptizado Salão Foz e onde está agora instalada a Cinemateca Júnior. Por uma simpática ironia da história da cidade, as únicas salas onde ainda se projecta cinema na Avenida são, assim, aquelas dedicadas à história do cinema e aquelas onde podemos ver os filmes que mais reavivam as nossas memórias dos tempos em que ir ao cinema em Lisboa, era ir aos cinemas da Avenida. •


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