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ConVida Baixa & Chiado / 2007-2008 (nº 9)

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baixa chiado in loco

Quentes e Boas Com o frio chegam as castanhas assadas às ruas da capital. Apreciadas desde a pré-história, são muito benéficas para a saúde. Por detrás da sua venda, escondem-se vidas de trabalho duro. Texto/text andreia félix coelho · fotografia/photography evelyn kahn

A

ntónio tem lugar marcado no centro da Rua Augusta há quinze anos. O seu ganha-pão surge ao sabor do clima. Agora que o frio chegou à capital é tempo de trocar a venda de gelados pelas castanhas assadas. E a vida a apregoar castanhas tem a dureza traduzida nas suas mãos sujas e calejadas pelo assador. São doze horas diárias em pé, ao frio e à chuva. «Ando assim com este aspecto, mas vivo um trabalho honesto», sublinha como que a justificar o desleixo evidente, quebrado apenas pelo azul límpido dos seus grandes olhos. Detalhes que passam despercebidos aos lisboetas já habituados aos cartuxos de meias dúzias e dúzias de castanhas assadas. Para lá e para cá, circulam em passo acelerado na Rua Augusta, concentrados nas últimas modas expostas nas vitrinas. É o odor a Outono, onde a castanha assada é protagonista, que os atrai ao carrinho de António. Aos vendedores de castanhas vale-lhes a atenção dos estrangeiros que, de curiosidade aguçada e tempo de sobra, querem saber mais sobre a iguaria invernal. António recorda ainda os assadores de barro, pesados e mais dados a incidentes. O inox nos assadores é agora imprescindível, mas o sabor de outrora mantém-se inalterado. Já Ary dos Santos eternizava com a sua poesia os vendedores de castanhas. «O homem das castanhas é eterno. Não tem eira nem beira, nem guarida, e apregoa como um desafio». António não nega as palavras do poeta, mas garante que o negócio «vai compensado». Há dias melhores e piores na venda das «quentes e boas», tidas pelos lisboetas como garantidas mal os casacos começam a sair dos armários.•

Semente apreciada desde a pré-História Iguaria que se transformou em tradição de rua, as castanhas assadas não surgem por acaso na alimentação dos portugueses. E não é também casual que o Inverno seja a sua época de eleição. Ricas em vitaminas e minerais, assumiram um papel importante na alimentação a partir do século XVII, principalmente no Norte do país de onde ainda provêm as principais culturas. Mas apreciar esta semente que surge de dentro de um ouriço é um hábito que remonta à pré-História. Os gregos e os romanos já cozinhavam castanhas, misturando-as com mel, e faziam desta semente um alimento fundamental nos banquetes. Delas faziam-se sopas, guisados, cozidos e eram até reduzidas a farinha para fazer biscoitos ou pão, numa época em que os cereais escasseavam. Ao longo dos séculos foram reinventando-se receitas para cozinhar as castanhas. Hoje, surgem nas mais diversas formas. Simplesmente assadas na rua ou em pratos mais elaborados. E são um excelente elemento em qualquer dieta. Ricas em fibras, proteína, cálcio, ferro, potássio, zinco, selénio, vitamina E, ácido fólico, entre outros, têm um impacto muito positivo na prevenção de doenças. A castanha anda também de mão dada com as festas populares. A mais conhecida dos portugueses é o Dia de São Martinho, celebrado a 11 de Novembro um pouco por todo o país. Neste dia é imperativo saborear as tradicionais castanhas assadas, acompanhadas de água-pé. Nos restantes, os vendedores na rua chamam-nos a atenção com os seus pregões às «quentes e boas». • BAIx a chiado con vida · 13


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