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ConVida Bairro Alto & Príncipe Real / 2008 (nº 9)

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bairro alto & príncipe real in loco

Público, São Pedro de Alcântara ganha estatuto e entra definitivamente na moda da alta roda. Erguese um coreto com curiosos capitéis em forma de lira para dar música aos janotas lisboetas. Alugamse cadeirinhas de ferro para ver números diversos de actores e “divettes”. No piso superior, instala-se um líndissimo e romântico quiosque, com esplanada abrigada sob um largo toldo hexagonal em ferro forjado, servindo os refrescos lisboetas – groselhas, capilés, orchatas e carapinhadas. E, no tabuleiro inferior, inaugura-se até um “Eden Concerto”, abrilhantado com atrações teatrais e musicais. Em 1884, todo o jardim se enche de curiosos e empolgados lisboetas a ver para crer o acrobata francês Henry Beudet que larga do Castelo de São Jorge num balão de ar quente pelos ceús da cidade. Há gravuras, fotografias e postais inúmeros que testemunham esta época gloriosa e sim, em todas, garantimos que se distinguem as árvores, muitas e frondosas. Já no séc. XX, o tabuleiro de baixo viria a conhecer novos e mais pequenos ocupantes. Em 1933, Fernanda de Castro, escritora casada com António Ferro, inaugura aqui o primeiro de muitos “Parques Infantis”. Pedindo dinheiro a Ricardo Espírito Santo e pedinchando um projecto ao amigo arquitecto Jorge Segurado para uma construção de madeira, chama o artista Tom para conceber os móveis miniatura e a pintora Sarah Affonso para decorar a sala principal. Esta começara então a namorar com o genial Almada Negreiros e juntos, ilustram as paredes com desenhos inspirados nos contos infantis. No exterior, há agora “baloiços, um escorregadio, um pequeno carroussel e alguns triciclos” para uma centena de crianças da zona. Com o tempo, tudo se transforma e muito se vai - coretos, quiosques ou jardins infantis artísticos. Mas, neste lugar que tem nome de poeta, estátua de jornalista e alcunha de santo (António Nobre é o seu nome oficial como jardim; a estátua colocada

em 1904 homenageia Eduardo Coelho, o fundador do Diário de Notícias; e a alcunha, pela qual todos o conhecem, foi pedida emprestada ao convento fronteiro), há algo que nunca muda. No seu inesquecível Guia de Portugal, os escritores Raúl Brandão e Raúl Proença registaram-no: “Mas é ao entardecer que este panorama (…) atinge o deslumbramento. Há ali uma janelinha que de súbito arde em luz doirada, como se a iluminassem de repente. Acendese outra e outra ainda; e dentro em pouco, na nossa frente, todas as vidraças se incendeiam. Lisboa inteira refulge em labareda, e a cor transmuda-se, e as janelas na pompa ensanguentada do poente, são já de fogo e púrpura… Depois, uma após outra, as vidraças apagam-se, como se um sopro as fosse percorrendo. Mas ainda lá em cima uma janelinha persiste em arder solitária, como faúlha no rescaldo do fogo chamejante que por momentos consumiu Lisboa, fazendo dela um quadro de apoteose.” Esta vista, sim, está exactamente igual. E o extâse continua garantido, fazendo do Jardim de São Pedro de Alcântara um dos locais mais extraordinários de toda a cidade, mais ou menos verde seja ele.

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