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ConVida Bairro Alto & Príncipe Real / 2008 (nº 9)

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bairro alto & príncipe real in loco

a mais bela varanda da cidade T e x to / T e xt CATA ri n a p orta s · fotografia / photography evelyn kahn

É a mais bela varanda de Lisboa. Daí a vista sobrevoa a Avenida com liberdade, alcança o Castelo e desce até à Baixa, mergulhando finalmente no rio. O jardim de são pedro de alcântara, um dos mais belos miradouros da capital, foi devolvido à cidade em Fevereiro, após anos demorados de obras e tapumes. Está lindo, como sempre foi, e mais limpo. Demasiado limpo, aliás, criticam alguns que o lembram verde e lamentam os cachos de glícinias, o grande muro de buganvílias escarlates, as árvores frondosas de outros tempos, os peixes vermelhos entre as avencas da cascata ou até o pequeno pavilhão de madeira – todos desaparecidos numa nova concepção de espaço verde, decididamente mais urbano. Os defensores asseguram que lhe respeitaram a traça original oitecentista. Eis um excelente pretexto para daqui, recostados nos seus bancos preguiçosos, investigarmos a sua história.

A

ntes do terramoto de 1755, fizeram-se planos de uma grandiosa Mãe d’Água para este local, um enorme depósito que, prolongando o aqueduto, deveria abastecer o lado oriental da cidade. Porém, a terra tremeu, a ideia desfez-se e, sobre as muralhas, nada mais do que uma feira com arraial por lá se ergueu. Em 1830, a Guarda Real da Polícia tomou conta da ocorrência e do terreno e, construindo perto as suas cavalariças, aproveitou para plantar o terreno, conhecido então como a “Horta do Corpo da Polícia”. Logo em 1835, a Câmara tomou a horta para a transformar em jardim e deu-lhe o aspecto que ainda hoje conhecemos, acrescentando um patamar inferior, acessível por duas escadas de ferro, de desenho ordenado e povoado por um curioso conjunto de bustos confundindo heróis mitológicos 12 · bairro alto & príncipe real con vida

e navegadores portugueses, onde convivem Vénus e Ulisses com Vasco da Gama e Camões. Encerrava ao final da tarde, quando os candeeiros de gás se alumiavam no terraço cimeiro, reflectindo-se no lago, vindo dos jardins da Quinta da Bemposta, quando aí se construiu o Paço da Rainha. Rapidamente, o jardim se tornou um passeio nocturno concorrido dos liboetas, merecendo até a visita da Rainha D. Maria Pia que perante o panorama se revelou, também ela, “maravilhada”. Porém, à medida que a noite ia avançando, decaía a frequentação: as costureirinhas e operários que ali paravam davam o seu poiso aos saloios e estes aos vadios. Pior, o lugar tornou-se ponto trágico, favorito de desconsolados suicidas, um hábito a que novas grades vieram obstar. Só em 1882, com as obras da Av. da Liberdade e a destruição do favorito Passeio


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