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associação brasileira de internet

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ano V . edição 18 . outubro / novembro . 2016

Negócios olímpicos Empresas de Internet aproveitaram os Jogos Olímpicos e Paralímpicos para oferecer serviços e expandir infraestrutura

Entregue o que prometeu. Esta é a primeira lição Em meio a mercados altamente competitivos, fidelizar os clientes é diretriz que se impõe ao negócio

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editorial Eduardo Parajo Presidente da Abranet

No mercado, promessa é dívida Na economia digital, o consumidor tem voz ativa. E um dos desafios do nosso negócio é não só conquistar como manter o cliente, numa jornada longa que requer atenção permanente. Nós, que somos do ramo, sabemos que há uma regra fundamental que deve estar na base de qualquer estratégia: cumprir o que se prometeu na venda. Se esse acordo tácito for quebrado, a relação se deteriora e provoca instabilidade no modelo de negócio. Este é o tema de uma matéria especial nesta edição da Revista Abranet: saber como agir para fidelizar o cliente. Ao ouvir especialistas sobre o tema, chegamos a uma outra reportagem deste número: ainda que soem como algo distante e até mesmo difícil, melhores práticas de governança corporativa podem ser implementadas em empresas de todos os portes. Isto porque a governança é um modo de pensar e construir o alicerce do negócio. Em entrevista exclusiva, Robert Juenemann, conselheiro de administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), explica os conceitos fundamentais que norteiam a governança, bem como os benefícios decorrentes de sua adoção. Os temas regulatórios não poderiam estar fora desta edição, que circula no Futurecom 2016. Um dos maiores especialistas em Internet no Brasil, o diretor do ITS-Rio, Carlos Affonso Souza, discorre sobre o Marco Civil da Internet e suas implicações no dia a dia dos provedores de Internet e também sobre a necessidade de o País ter uma Lei de Proteção de Dados Pessoais. Ele é categórico ao afirmar

que, sem uma proteção à privacidade dos dados, o Brasil perde oportunidades. Também apontamos que, segundo o último estudo TIC Domicílios, divulgado pelo NIC.br, a desigualdade no acesso à Internet segue em alta no Brasil e se faz necessário abrir mais frentes de negócio nas regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte. Fazer acontecer tem sido uma marca do segmento de Internet, e a matéria de capa destaca o quanto somos talentosos para agarrar as chances e mostrar capacidade de produção. As empresas de Internet, TI e Telecomunicações encararam o desafio de enfrentar os holofotes globais e foram medalhistas, com louvor. Boa parte do sucesso dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos estava centrada na alta capacidade de transmissão de dados. Era sabido que os dois megaeventos bateriam todos os recordes possíveis. E assim foi. A Olimpíada 2016 teve 10 vezes mais consumo de rede do que a de Londres, em 2012. Mostramos que quem investiu começou a colher os frutos. Este é o caminho. Boa leitura! abranet.org.br outubro / novembro . 2016

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ÍndiCe consElHo Editorial Eduardo Parajo

06 | GestÃo

parajo@abranet.org.br

José Janone Junior

Entregue o que prometeu. Esta é a primeira lição. Em meio a mercados altamente competitivos, fidelizar os clientes é diretriz que se impõe ao negócio.

janone.jr@abranet.org.br

Eduardo Neger

neger@abranet.org.br

gErÊncia EXEcutiVa Roseli Ruiz Vazquez

10 | entreVista

gerente@abranet.org.br

Governança ao alcance de todos. Robert Juenemann, conselheiro de administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), explica os conceitos fundamentais que norteiam a governança, bem como os benefícios decorrentes de sua adoção. proJEto, produção E Edição

Editora Convergência Digital

14 | Capa

Negócios olímpicos

editora@convergenciadigital.com.br Tel: 011-3045-3481

Empresas de Internet aproveitaram os Jogos Olímpicos e Paralímpicos para oferecer serviços e expandir infraestrutura

analobo@convergenciadigital.com.br

dirEção Editorial

Ana Paula Lobo Luiz Queiroz

queiroz@convergenciadigital.com.br Editora-cHEfE

Ana Paula Lobo

analobo@convergenciadigital.com.br Edição

Bia Alvim

bia.alvim@pebcomunicacao.com rEportagEm / rEdação

20 | polÍtiCa Marco Civil precisa se afirmar como uma lei no Brasil. Para o diretor do Centro de Estudos ITS-Rio, Carlos Affonso Souza, há pontos relevantes na legislação da Internet no que se refere ao dia a dia dos provedores de Internet, como a guarda da porta lógica.

Roberta Prescott

prescottroberta@gmail.com Edição dE artE E diagramação

Pedro Costa

pedro@convergenciadigital.com.br imprEssão

22 | teCnoloGia

Gráfica Pigma

Mais qualidade e custo menor. CDNs e pontos de troca de tráfego aproximam o conteúdo do usuário final, diminuindo a latência e onerando menos os provedores de Internet.

26 | ConeXÃo Desigualdade no acesso à Internet ainda é alta, segundo a pesquisa TIC Domicílios 2015 do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Ecos do “Encontros SEINESP – Ideias & Fatos”.

30 | opiniÃo . WasHinGton taVares, Cto da taCira Use de forma certa as informações. A inteligência da cidade acontece quando as informações geradas pela tecnologia e pelos usuários são vistas de forma integrada.

Rua da Quitanda, 96 / Cj.31 - Centro - São Paulo / SP CEP: 01012-010 Fone: (11) 3078-3866 www.abranet.org.br facebook.com/abranetoficial Linkedin.com/abranet @abranet_brasil Youtube.com/AbranetBrasil

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Volume de ataque de negação de serviço é recorde mundial em Olimpíada do Rio. E ninguém nota Operadoras precisam estar preparadas. A questão não é saber se vão ser atacadas, mas quando Há vinte anos, em setembro de 1996, o primeiro ataque de negação de serviço de que se tem notícia deixou desconectados, por alguns dias, os clientes da primeira empresa provedora de serviços de Internet da cidade de Nova Iorque, a Panix – ou Public Access Networks Company. E os especialistas ouvidos pelo New York Times disseram que aparentemente o problema não tinha solução. Em setembro de 2016, durante as Olimpíadas do Rio, uma operadora brasileira é alvo do maior ataque DDoS (Distributed Denial of Service) já verificado em todo o mundo até hoje. Foram ataques sustentados por meses (iniciaram-se meses antes dos Jogos) atingindo o pico de 540 Gbps em tráfego de ataque – contra o recorde anterior de 500 Gbps.

Felizmente, ninguém notou. Em casos como esse, a grande medida do sucesso – a medalha de ouro – consiste em resolver de modo rápido e eficiente, antes que alguém sofra consequências, problemas capazes de interromper o fornecimento de serviços essenciais à população e aos negócios, como energia elétrica, água, ou conexões digitais. O ataque ocorrido durante as Olimpíadas, que visava na realidade derrubar os sites de instituições e empresas relacionadas aos Jogos, foi contido ainda na rede da provedora das conexões utilizadas por essas organizações. E o volume recorde de tráfego de ataque se originava de redes zumbi montadas a partir de dispositivos IoT (primordialmente câmeras de vigilância) localizados, em sua maioria, na

Fonte: 11º Relatório de Segurança de Infraestrutura Mundial anual da Arbor

Ásia. Parece surpreendente, não é? O insucesso desses ataques, significativos em tamanho e originalidade, não se deveu a soluções improvisadas. As equipes da Arbor Networks, encarregadas da proteção anti-DDoS do evento foram as que haviam identificado, poucos meses antes, as botnets IoT. Contavam, ainda, com a experiência acumulada da Arbor na defesa das Olimpíadas anteriores e proteção das grandes redes internacionais, em mais de 100 países. “Hoje nenhuma operadora está imune aos ataques de negação de serviço”, observa Geraldo Guazzelli, diretor-geral da Arbor no Brasil, citando a última pesquisa anual da empresa, com dados de 2015, que mostra o crescimento de diversos tipos de ataques a operadoras. Ele lembra que, pequenas ou grandes, as operadoras precisam se preparar para garantir serviços sempre disponíveis, em benefício de seus clientes e, também, de seus próprios negócios. Por isso, a Arbor desenvolveu um pacote voltado especialmente para o mercado brasileiro, com condições especiais de pagamento, visando a proteção de operadoras regionais contra ataques DDoS.

Conheça a oferta que a Arbor preparou para que operadoras regionais e provedores brasileiros de Internet assegurem visibilidade de tráfego e disponibilidade de suas redes, assim como a lucratividade de seus negócios.

http://arbor.link/provedores

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brasil@arbor.net

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+55 11 4380-8035

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GestÃo

Roberta Prescott

entreGUe o QUe ProMeteU. esta É a PriMeira lição Em meio a mercados altamente competitivos, fidelizar os clientes é diretriz que se impõe ao negócio NÃO HÁ EMPRESA que não almeje reter os clientes atuais, enquanto conquista novos. A fidelização, além de ser uma longa jornada, requer atenção constante. Há uma regra fundamental que deve estar na base de qualquer estratégia: cumprir o que prometeu na venda. Na visão dos especialistas entrevistados para esta reportagem, a fidelização ganha ainda mais relevância diante do competitivo mercado de telecomunicações, TI e Internet, uma vez que praticamente não existe produto ou serviço que não possa ser copiado ou melhorado. Investir em fidelização passa por desenhar uma estratégia, criar processos e revisá-los constantemente. Além disto, as empresas precisam ficar antenadas no que está acontecendo no mercado e inovar sempre. “Isto significa não se acomodar com processos, mesmo com aqueles que estão dando certo. É preciso procurar constantemente uma forma de fazer melhor, de apresentar novidades, de garantir novas perspectivas para atender aos clientes e buscar novos clientes”, diz o coordenador do curso de Administração e do curso de Gestão de Tecnologia da Informação da FIAP, Cláudio Carvajal. Contudo, nenhuma estratégia, por melhor que seja, resiste a maus produtos ou serviços. É fundamental contar com equipe qualificada e estabelecer procedimentos eficientes para prestar bons serviços. “Isto deve ocorrer de maneira que, quando o cliente entra em contato com a empresa, ele tem seu

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problema resolvido”, relata Carvajal, ressaltando que é de extrema importância não apenas solucionar o problema como também pedir uma avaliação do que ele achou ao término do atendimento. Sem isto fica praticamente impossível fidelizar o cliente. As estratégias para evitar que o cliente deixe de consumir com a sua empresa são diversas, porém, um dos pontos mais importantes é fazer com que ele se sinta especial. “O cliente precisa se sentir VIP; e para isto a empresa deve oferecer ações que sejam focadas nele. Por exemplo, fez um ano como cliente, ganha algum desconto, um cupom para assistir a uma peça de teatro etc.”, destaca Carvajal. Encantar o cliente passa por saber o que lhe agrada e descobrir o que ele gostaria de receber. Assim fica mais fácil desenvolver programa de fidelidade. Para os benefícios, os provedores podem firmar parcerias com empresas locais em um modelo ganha-ganha. Fazer pesquisas com os clientes para avaliar a satisfação também é um item indispensável. Uma pesquisa simples, feita por telemarketing ativo, pode gerar dados extremamente relevantes para a criação de ações de retenção. Antes de ir a campo, contudo, a empresa precisa definir quais objetivos espera obter, saber como vai mensurar os resultados e o que fará com os dados coletados. Ou seja, planejar bem antes de executar. Para o professor da pós-graduação da ESPM Alexandre Marquesi, levar a cabo uma pesquisa de satisfação para fazer um diagnóstico com os clientes, levantando quais pontos positivos e negativos eles apontam sobre a empresa, é o primeiro trabalho no planejamento da estratégia de fidelização. “Devese olhar para dentro de casa e analisar se está sendo cumprido o que foi prometido”, destaca Marquesi. A pesquisa serve para identificar a imagem da empresa perante seus consumidores. “Pode-se perguntar, por exemplo, se a empresa está trabalhando bem e o que poderia fazer melhor.” O objetivo final de todas as ações combinadas é construir relaciona-

“O cliente precisa se sentir VIP; e para isto a empresa deve oferecer ações que sejam focadas nele. Por exemplo, fez um ano como cliente, ganha algum desconto.”

“A grande vantagem é que a Internet equalizou a grande companhia a uma pequena empresa local na questão de atendimento ao cliente.”

cláudio carVaJal Fiap

alEXandrE marquEsi espM

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mento com o cliente de maneira que ele crie vínculo com a marca e não troque a empresa mesmo com a chegada de outra.

Entrada de grande competidor

“Não existe receita de bolo, mas há coisas que tradicionalmente são importantes. Entregar a promessa (como disponibilidade e desempenho) é a mais importante.”

Não raro, provedores de serviços de Internet André Miceli FGV que exploravam sozinhos alguns mercados veemse ameaçados com a entrada de um grande competidor. Ainda que eles contem com a vantagem inicial em conta o atendimento e serviços recebidos. de não ter as grandes empresas presentes ao estabelecer “Não existe receita de bolo, mas há coisas que tradicioa clientela, a concorrência de um player consolidado e nalmente são importantes. Entregar a promessa (como disconhecido faz qualquer um repensar as estratégias. Mas, ponibilidade e desempenho) é a mais importante, pois, se o antes de estabelecer os planos de ação, a empresa preci- cliente estiver satisfeito, ele somente irá buscar alternativa sa checar se, ao longo dos anos, fez o básico: ou seja, se se o preço ficar muito alto e não puder pagar”, aponta, lemconstruiu a sua própria identidade. brando que sustentar vantagem competitiva baseando-se “O provedor não pode ser um fornecedor de pequeno apenas na competição por preço não é recomendável. porte de serviços de Internet que existe enquanto a grande Uma das reclamações de usuários de serviços de teleempresa não chega. Ele deve criar uma imagem que trans- comunicações é que para atrair novos clientes as compamita confiança e simpatia para o usuário e oferecer serviços nhias fazem ofertas muito melhores para os novos e os ande qualidade. Sem isto, perde para ele mesmo, nem precisa tigos, mesmo com décadas de casa, não recebem o mesmo chegar concorrente”, ressalta Cláudio Carvajal, da FIAP. tratamento. Ainda que seja compreensível dar prioridade Atuar em mercados antes inexplorados ou emergentes à expansão, por meio de atração de novos consumidores, tem suas vantagens, conforme coloca André Miceli, profes- a retenção não pode ser deixada de lado. São ações paralesor dos MBAs e coordenador do MBA em Marketing Digital las; e o correto é colocar o mesmo peso estratégico para as da FGV. “Estar na frente é um diferencial competitivo, mas duas áreas, tanto expansão quanto retenção. tem de saber que vai nadar de braçada e ter esta vantagem Marquesi, da ESPM, recomenda algumas ações simples durante um tempo limitado, até chegar o competidor”, diz. que podem gerar bons resultados aos provedores, como elenMiceli orienta os provedores a elaborar estratégias car os clientes que mais gastam e dar a eles algum benefício, diferentes para o público empresarial e residencial, pois como aumentar a banda ou a velocidade de Internet. “Não é o impacto da chegada de um novo competidor se dá de para todos, apenas para os exclusivos, somente aqueles para maneira diferente. No mercado corporativo, as empresas quem se fatura mais. Isto pode aumentar o faturamento em clientes normalmente avaliam o custo de troca, levando até 15%”, enfatiza. “Primeiro tem de estabelecer uma linha de corte. Por exemplo, de mil clientes, conceder o benefício para 50. Quando os outros ficarem sabendo até podese estruturar outra oferta, mas sem as mesmas vantagens.”

Para ir mais a fundo

Gostou do tema? Aproveite as dicas de livros para entender um pouco mais

• Revolução nos Serviços, de Karl Albrecht • Business Model Generation, de Alex Osterwalder e Yves Pigneur • CRM at the Speed of Light, de Paul Greenberg • One to One B2B, de Don Peppers e Martha Rogers • Estratégia do Oceano Azul, de Renée Mauborgne e W. Chan Kim 08

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Não precisa de ferramenta cara Antes de sair cotando todas as ferramentas de gerenciamento do relacionamento com clientes (CRM, na sigla em inglês) e análise de dados, as empresas precisam estabelecer


processos e ter estratégias bem definidas. Há no mercado diversos softwares de CRM que ajudam as empresas a fazerem o monitoramento das ações que promovem para relacionarem-se com os clientes. A escolha da melhor solução depende de vários fatores, como a verba disponível e o escopo almejado. “O CRM é ferramenta para gerenciar relacionamento com os clientes. Se não tem como comprar um software caro, a empresa pode procurar um mais em conta ou criar as suas próprias ferramentas. O importante é implantar o conceito”, diz Cláudio Carvajal, da FIAP. É por meio deste monitoramento que se consegue entender melhor o comportamento dos clientes e criar estratégias para fidelizá-los. André Miceli, da FGV, assinala que o leque de opções é vasto, existindo ferramentas baseadas na nuvem bastante atraentes financeiramente. Ademais, ele destaca que até planilhas bem feitas podem ser a solução ideal para gerenciar minimamente a vida do cliente.

Como sugestão, o professor da pós-graduação da ESPM Alexandre Marquesi recomenda que a área de fidelização fique dentro do departamento de marketing, liderada por profissional focado em produtos. Ele lembra que toda ação deve começar pequena e ir ganhando corpo conforme apresente resultados. “Não existe um plano digital ou de CRM que comece ‘bombando’; tudo é um processo. A grande vantagem é que a Internet equalizou a grande companhia a uma pequena empresa local na questão de atendimento ao cliente”, completa. Ou seja, ao usar adequadamente as redes sociais, as empresas de pequeno e médio portes podem se comunicar de forma barata com seus clientes, monitorar a percepção da marca e até gerar retenção. Marquesi adverte que é preciso se preparar bastante antes de ingressar nas redes sociais. “É um canal em que se fala o que quer e pode-se ouvir o que não quer também. Tem de se preparar e se conhecer antes de ingressar para valer nesse mundo”.

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entreVista Robert Juenemann conselheiro de administração do instituto Brasileiro de Governança corporativa Roberta Prescott

GoverNaNÇa ao aLcaNce de Todos Ainda que soem como algo distante e até mesmo difícil, melhores práticas de governança corporativa podem ser implementadas em empresas de todos os portes. Em entrevista à Revista Abranet, Robert Juenemann, conselheiro de administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), explica os conceitos fundamentais que norteiam a governança, bem como os benefícios decorrentes de sua adoção. ABRANET: O que é governança corporativa? ROBERT JUENEMANN: É um sistema pelo qual as empre-

sas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, abrangendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas. As boas práticas de governança corporativa convertem princípios básicos em recomendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor econômico de longo prazo da organização. A governança corporativa está alicerçada em quatro princípios, que, posteriormente, se materializam no dia a dia das empresas por meio de melhores práticas. Quais são estes princípios? O primeiro é a transparência. Ou seja, ter uma postura transparente em relação aos colaboradores e à comunidade na qual a empresa se insere. O segundo é a equidade, que é dar um tratamento justo e equidistante a todos os sócios e demais partes interessadas (stakeholders), levando em consideração seus direitos, deveres, necessidades e expectativas. O terceiro princípio é a prestação de contas, ou accountability, em inglês. Todos os agentes da governança, que recebem tarefas e têm competências específicas, precisam prestar contas de tudo que fazem e assumir as responsabilidades. O quarto é a responsabilidade corporativa. Muitos acham que isto se confunde com sustentabilidade ambien-

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tal, quando, na verdade, leva em conta a sustentabilidade do próprio negócio e também como a empresa se posiciona e age considerando o meio ambiente e como conduz os negócios de forma ética. Bastante disseminada entre as grandes companhias, a governança corporativa pode ser acessível às empresas de pequeno e médio portes? A governança pode parecer distante de empresas de menor porte. Escutamos com frequência “só vou tratar de governança quando atingir tal tamanho”, mas quem fizer isso vai se lamentar depois. A governança corporativa pode ser aplicada a todos os negócios e todos os tipos societários, porque é um modo de pensar, tendo por base os quatro princípios mencionados. Falar em governança, em maior ou menor grau, é falar em controle... É inserir controles dentro de um sistema que indique os caminhos para onde se quer ir. A prática demonstra que, quanto mais organizados estivermos e mais regrados formos, mais chances temos de sobreviver a momentos difíceis. Por exemplo, eu e um sócio fundamos um negócio, que se expande. Ambos temos filhos que estudam na área de atuação da empresa, e eu resolvo colocar meu filho para estagiar, mas não falo com o meu sócio, que fica chateado porque isto não foi combinado. A partir daí, começam


“A governança corporativa pode ser aplicada a todos os negócios e todos os tipos societários, porque é um modo de pensar.” empresas familiares, é importante separar os chapéus. Estamos decidindo como família ou como sócios e gestores da empresa? O patrimônio da empresa é da empresa, e o da família é da família. Não se pode confundir.

Como as empresas de menor porte podem começar a adotar os princípios da governança corporativa? O mais importante é as empresas entenderem o conceito de governança e seus princípios e que os sócios estejam de acordo com a forma de agir. As empresas têm de buscar conhecimento sobre o assunto. O IBGC tem colaborado, por meio de cursos e veiculação de uma série de informações em seu site, com possibilidade de download de documentos. É preciso que haja um nível de conhecimento comum entre os sócios. Depois de conhecer, tem de agir com serenidade e rigor, mas com velocidade para não cair no esquecimento. A adoção da governança corporativa é fácil e é recomendável fazê-lo o quanto antes, baseando-se em um sistema para tratar melhor uma série de questões.

Quais melhores práticas de governança corporativa o senhor recomenda para as PMEs? Ter um acordo entre os sócios, como mencionei; fazer reuniões específicas para lidar com temas ligados às estratégias e às condutas éticas; criar um sistema de conformidade. Em inglês o termo é compliance, que é a união entre a legislação pública vigente e o grupo de regramentos que os sócios acordam privadamente para a empresa, estabelecendo quais são os valores, a conduta que se espera dos colaboradores e as sanções para quem não se portar dentro da maneira desejada. Deve-se criar regramentos, níveis de alçadas e níveis de competências para cada cargo. Também se deve buscar discutir processos de sucessão e identificar o grau de dependência da família no negócio, identificar quanto a empresa tem capacidade de produzir em termos de recursos, estabelecendo limites para a distribuição de lucros, porque em alguns negócios deve-se ter mais dinheiro em caixa do que em outros. Em muitos casos, à medida que se sucedem as gerações, as necessidades das famílias crescem muito mais do que a capacidade de o negócio prover recursos. Portanto, é preciso estabelecer parâmetros, limites e políticas, porque se está discutido e combinado é mais difícil que aconteçam disputas posteriores.

Que sistema? Como isto funciona? Um sistema que integre os controles da empresa com os princípios da governança corporativa, buscando práticas que deem mais segurança à gestão. Por exemplo, em

Há questões óbvias do que é ético e do que não é, mas existem algumas zonas cinzentas... Um bom caminho para quando há dúvidas do que é, ou não, ético está ligado aos valores de cada um. Uma

discussões ou cria-se rancor. Com a governança, poderíamos ter uma série de regramentos preestabelecidos sobre o processo de admissão e demissão de familiares. Também é importante focar na relação dos sócios com os funcionários, registrando no acordo de acionistas, por exemplo, que o jardineiro da empresa não pode fazer trabalhos na casa de algum deles.

divulgação

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boa alternativa é olhar o que outros estão fazendo e como tratam determinado assunto para ver qual é o senso comum. É legal, é ético fazer um trabalho sem emissão de nota fiscal? É ético não pagar tributo? É ético pagar a alguém para obter vantagem indevida? Embora para a maioria isto seja ilegal e antiético, para alguns pode não ser. É preciso que haja uma dinâmica para validar ou não o que se acha a respeito dos assuntos. E vale olhar para o lado e ver quais são os princípios que as demais empresas validaram como sendo as suas regras de negócios. Quais benefícios as empresas obtêm ao adotar práticas de governança corporativa? Elas ficam mais estáveis em função de terem um sistema identificando as situações no dia a dia e fazendo o monitoramento da gestão. Se têm políticas de níveis de alçada que mostram até onde alguém pode agir sozinho, sabem que além deste patamar está tendo desvio, por exemplo. A empresa fica mais justa e tem menos chance de se ver em dificuldades em períodos turbulentos. Com regras estabelecidas, há menor chance que situações surpreendam a empresa, porque ela faz o monitoramento da gestão, da parte legal e financeira e busca elementos para dar robustez à gestão. Enfim, ela fica mais forte e mais preparada para desafios internos e externos. Além disto, existe um ganho muito importante que é o da reputação. Passa-se uma vida inteira construindo uma reputação, quer seja de uma marca ou empresa, e isto facilmente pode ser perdido se algo de ilegal ou inadequado acontecer. E, também, uma empresa organizada significa acesso ao capital com custo menor, porque existe uma avaliação por parte das instituições financeiras.

“Quanto mais organizados estivermos e mais regrados formos, mais chances temos de sobreviver a momentos difíceis.” 12

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“É evidente que uma empresa que entenda governança como sendo algo importante não pode conviver com corrupção.” Pequenas empresas têm aderido à governança corporativa? As empresas têm cada vez mais se preocupado com o assunto. É preciso quebrar o mito de que este é um assunto só para as grandes. Temos de fazer uma governança de acordo com o porte do negócio para que ela consiga gerar os benefícios esperados. Pode-se exigir das PMEs o nível de amadurecimento de adoção da governança corporativa das maiores? Não digo de amadurecimento. Existem práticas de governança que não se aplicam a determinados negócios, por exemplo, há diferenças para quem está listado na Bolsa e quem não está. É preciso ter governança ajustada ao porte do negócio, aos anos de atuação e aos níveis de regras a que ele está submetido. A partir daí, trabalha-se para montar a governança corporativa. Qual a relação entre governança corporativa e redução de práticas ilícitas como sonegação e corrupção? Na medida em que temos controle e políticas definidas, os limites do que é legal, do que é ético e do que as empresas entendem que é o jeito de elas fazerem negócio ficam mais claros. É evidente que uma empresa que entenda governança como sendo algo importante não pode conviver com corrupção, que é uma atividade ilegal, e nem com situações que estejam abaixo ou que não cumpram com regramentos estipulados previamente por ela própria. Deve-se, por exemplo, ter políticas quanto a dar e receber presentes. A conduta de algo que leve a eventual corrupção precisa ser banida do ambiente empresarial. Fala-se muito de corrupção no setor público, mas sabemos que há uma série de desgovernos do setor privado, o que deve ser um ponto de atenção aos empresários para não deixar que isto interfira no negócio.


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Capa

Roberta Prescott

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HISTÓRIAS DE SUPERAÇÃO, recordes mundiais quebrados, vitórias emocionantes e derrotas impensáveis. Os Jogos Olímpicos, de 5 a 21 de agosto, e Paralímpicos, de 7 a 18 de setembro, voltaram os holofotes mundiais para a cidade do Rio de Janeiro. Tão importante quanto as arenas de competição foi a infraestrutura de tecnologia da informação e telecomunicações. Afinal, grande parte do sucesso dos Jogos dependia da alta capacidade de transmissão de dados. Para se ter uma ideia da grandiosidade do megaevento, a Cisco, apoiadora oficial na categoria equipamentos de rede e servidores corporativos da Rio 2016, registrou um total de 1,4 petabyte de tráfego entre os dias 5 e 21 de agosto e 147.972 dispositivos únicos conectados à rede utilizada pela imprensa credenciada, agências de mídia, emissoras detentoras de direitos, atletas, força de trabalho dos Jogos e Família Olímpica, formada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), comitês olímpicos nacionais e federações esportivas. Somente nos 17 dias de Olimpíada, o Rio recebeu 1,17 milhão de turistas, sendo 410 mil estrangeiros. Foram 11.303 atletas de 206 países (além da delegação de refugiados), disputando 42 modalidades olímpicas em 32 arenas. As competições foram transmitidas para cerca de 5 bilhões de espectadores no mundo e a cobertura jornalística foi realizada por 26 mil jornalistas credenciados. Nos Jogos Paralímpicos, destaque para as instalações lotadas, com mais de dois milhões de ingressos vendidos.

roberta prescott

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O número é o segundo maior da história do megaevento, perdendo apenas para os Jogos de Londres (2,8 milhões).

oportunidadE dE nEgÓcio O megaevento também representou oportunidade de negócio para empresas ligadas à Internet. A prestadora de serviços de comunicação Telecall vislumbrou este potencial em 2014 e começou a passar fibra ótica com foco na Barra da Tijuca, zona onde se concentrou a maior parte dos jogos. Foram 190 quilômetros de fibra ótica implantada na cidade do Rio de Janeiro, sendo 80 km subterrâneos, disse Bruno Ajuz, diretor-comercial da Telecall, explicando que parte da fibra foi implantada em consórcio com operadoras de telefonia. “Visando à Olimpíada também aumentamos em dez vezes a capacidade do nosso backbone”, ressaltou Ajuz. Os investimentos mostraram-se certeiros. Com a aproximação dos Jogos Olímpicos, a empresa foi procurada para prestar serviços, principalmente, de links de conexão

banda larga. “Várias empresas nos procuraram e estávamos prontos para atender. Ganhamos clientes como o McDonalds, Comitê Olímpico da Austrália, Strauss Media Strategies, Globo.com, entre outros”, contou Bruno Ajuz. O McDonalds, por exemplo, precisou, em cima da hora, de link para realizar um evento de mídia ao vivo, e para a Globo.com a Telcall viabilizou a conexão do PIX ao PTT-RIO em um prazo bastante curto. “O ponto de presença deles não estava ligado ao ponto de troca de tráfego do Rio de Janeiro e o gerente-geral de TI nos solicitou ligação ponto a ponto em fibra do PTT-Rio até o PIX da Globo.com; fizemos isto em duas semanas”, relatou. Para o comitê australiano, segundo Ajuz, foram fornecidos serviços de ligações a cobrar “0800” para a Família Olímpica entrar em contato com o comitê e salas de audioconferência para as reuniões remotas, além de link de Internet dedicado e pontos de Wi-Fi no Clube de Regatas, onde estava montado seu quartel-general para os Jogos.

congElamEnto prEVEntiVo

“Congelamos pelo simples fato de existir uma pequena possibilidade de problema.” milton KasHiWaKura diretor de proJetos espeCiais e de desenVolViMento do niC.Br

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Assim como procedeu por ocasião da realização da Copa do Mundo da Fifa no Brasil, em 2014, o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) levou a cabo o congelamento operacional dos Internet Exchanges (IX) de São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ) entre 25 de julho e 18 de setembro. Nos demais pontos de troca de tráfego, a operação ficou normal. O objetivo foi minimizar a chance de problemas e manter a estabilidade do IX.br durante os Jogos Olímpicos. “Se não congelássemos, a inserção de novo participante poderia causar problema. Congelamos pelo simples fato de existir uma pequena possibilidade de problema”, explicou Milton Kashiwakura, diretor de projetos especiais e de desenvolvimento do NIC.br. Durante o período de congelamento, a equipe do IX.br executou apenas atividades relacionadas ao suporte e à operação dos serviços já ativos, tais como monitoramento contínuo, suporte a problemas de infraestrutura como rompimento de fibras ópticas, falhas nos pontos de interconexões (PIX) ou falhas em equipamentos, suporte a problemas na conexão dos participantes como a substituição de roteador ou interface de rede e saturação de tráfego.

divulgação


“Foi um investimento de longo prazo. Os empreendimentos na área estão com 8%, 10% de ocupação, mas passamos a fibra na porta deles.” Bruno aJuZ diretor-CoMerCial da teleCall

Passados os Jogos, a Telcall vai utilizar a fibra para ofertar serviços corporativos. A área onde a rede foi passada vai abrigar uma série de novos empreendimentos corporativos, além de hotéis. “Sabemos que foi um investimento de longo prazo. Os empreendimentos na área estão com 8%, 10% de ocupação, mas passamos a fibra na porta deles, temos a caixa de passagem em frente a eles”, explicou Ajuz. Outra que apostou nos Jogos foi a ISAT, empresa voltada para a área de educação a distância e comunicação digital, que forneceu tecnologia de streaming e broadcasting para o estúdio que recebeu TVs de todo o mundo durante a Rio 2016, conforme relatou seu presidente, Dorian L Guimarães. Batizado de Broadcast Glass Studio e criado pela 4 TV Studios, o estúdio foi montado em cima de um prédio com localização privilegiada, em frente ao Parque Olímpico, na Barra da Tijuca. O espaço foi usado por emissoras de TV e equipes de jornalismo que atuaram de forma independente para gravarem e transmitirem seus boletins, entrevistas e informativos durante a Rio 2016. A ISAT ficou responsável por toda a infraestrutura de comunicação broadcast, Internet e serviços de apoio do projeto. O estúdio atendeu às necessidades de streaming de vídeo e Internet sob demanda das emissoras estrangeiras. Guimarães explicou que a ISAT, além da infraestrutura tecnológica de transmissão online, também ajudou na concepção e integração do projeto. A preparação e a implantação levaram três meses, sendo preciso construir a infraestrutura de cabeamento em cima do prédio. Para Guimarães, a experiência de fazer centenas de eventos online por ano ajudou na hora de conceber mais este projeto. “As tecnologias vão evoluir e mudar, mas o know-how se adquire de um evento para outro, o que gera novas oportunidades”, disse.

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paralElas Nacional de Acessibilidade • OnaPrêmio Web, Todos@Web, realizou atividades extras durante a Paralimpíada. A programação incluiu palestras sobre acessibilidade na Web com depoimentos de atletas paralímpicos, reforçando a importância de fomentar e investir em acessibilidade na Internet. Savis e Harris fizeram uma • Trópico, prova de conceito em Brasília da instalação de uma rede de banda larga móvel 4G/LTE para uso exclusivo do Exército Brasileiro. O sistema, baseado na Banda 28 (700 MHz) e usando tecnologia totalmente nacional, tinha como objetivo garantir disponibilidade adicional de informações para o Exército Brasileiro durante a Olimpíada. da Linktel no Aeroporto • OdoWi-Fi Galeão, no Rio de Janeiro, teve aumento de 171% durante os Jogos Olímpicos. Contando todos os 1.500 pontos de Internet sem fio espalhados pela cidade, foram 84.783 acessos em toda a rede, um aumento de 30% em comparação ao mês de julho. Para garantir acesso com qualidade, a operadora investiu na modernização de sua rede, com a migração para as tecnologias NGH2.0 passpoint e 3G/4G offload. Também fez acordos de roaming com operadoras internacionais, como Boingo, iPass, Trustive, Cablesivion (Argentina) e Wigo (Peru).

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Alta capacidade de tráfego Durante a Olimpíada, o tráfego de Internet que passou pelos pontos de troca de tráfego (IX, na sigla em inglês) foi menor que a média nacional, de acordo com Milton Kashiwakura, diretor de projetos especiais e de desenvolvimento do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). “A impressão que nos deu é que muita gente preferiu assistir à Olimpíada pela televisão, tirando tráfego da própria Internet”, disse em entrevista à Abranet, ao fazer uma avaliação dos resultados preliminares do comportamento do tráfego da Internet brasileira. Kashiwakura destacou que, enquanto o tráfego vindo da Globo.com subiu, o volume trocado no IX foi menor. O cenário é diferente do que ocorreu na Copa do Mundo, quando o pico e o consumo maior de tráfego se deram nos horários de expediente. Em nota, a Cisco divulgou que o 1,4 petabyte de tráfego registrado entre os dias 5 e 21 de agosto foi cinco vezes maior que o total trafegado nas redes das operadoras móveis nos locais de competição durante os Jogos (255

“As tecnologias vão evoluir e mudar, mas o know-how se adquire de um evento para outro, o que gera novas oportunidades.” Dorian L Guimarães presidente da ISAT

TB). Do total de dispositivos únicos autenticados pela plataforma de controle de acesso à rede, 92% (136.034) se conectaram por meio dos 3.536 pontos de acesso Wi-Fi fornecidos pela Cisco para os Jogos, com os 8% restantes de dispositivos usando uma conexão cabeada. Dos dispositivos conectados na rede Wi-Fi, 10% pertenciam à Família Olímpica e atletas, 35% eram da mídia credenciada e 55% da força de trabalho da Rio 2016. O tráfego de Internet na rede dos Jogos foi de 492 terabytes

Nas redes sociais A Olimpíada Rio 2016 foi o evento olímpico mais social da história, com 285 milhões de pessoas (59% delas com menos de 35 anos) consumindo no Facebook vídeos de atletas, times nacionais, TVs com direito de transmissão e principais comitês organizadores, como COI e Rio 2016. Ao todo, foram 139 milhões de visualizações em vídeos ao vivo pelo Facebook Live sobre os Jogos do Rio. Durante os dias 5 e 21 de agosto, 277 milhões de pessoas geraram 1,5 bilhão de interações (curtidas, compartilhamentos e comentários) sobre os Jogos Olímpicos e o Brasil foi o país que mais participou desta conversa. A transmissão ao vivo de Michael Phelps no Facebook, antes de sua última prova e quando confirmou que iria se aposentar, foi o vídeo live de um atleta olímpico mais visto. No Twitter, o engajamento dos usuários em torno da Olimpíada resultou, mundialmente, em 75 bilhões de impressões (número de vezes em que os tweets relacionados ao assunto foram visualizados na plataforma), a partir da publicação de 187 milhões de Tweets. O nadador norte-americano Michael Phelps (@MichaelPhelps), o corredor jamaicano Usain Bolt (@ usainbolt) e o jogador de futebol brasileiro Neymar (@neymarjr) foram os atletas mais comentados no Twitter no mundo no período olímpico. No Instagram, 131 milhões de pessoas foram responsáveis por 916 milhões de interações na plataforma durante os Jogos Olímpicos. O Brasil se destacou como o país com maior engajamento. A homenagem que o jogador de futebol Neymar (@neymarjr) e o corredor Usain Bolt (@usainbolt) prestaram um ao outro foi o momento de maior destaque no Instagram.

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ataquEs ciBErnéticos

e a utilização atingiu um pico de 5,4 Gbps. Durante os Jogos Olímpicos, a plataforma de segurança fornecida pela Cisco detectou mais de 4,2 milhões de eventos de segurança e bloqueou 731 mil tentativas de ataques de negação de serviços (DoS, siga em inglês para denial of service), sem que houvesse impacto nos Jogos. Na proteção de todos os sites públicos oficiais e aplicativos móveis da Rio 2016, as soluções Cisco e dos demais parceiros de segurança da Rio 2016 detectaram 40 milhões de eventos de segurança e bloquearam 23 milhões de tentativas de ataques. Patrocinadores oficiais de serviços de telecomunicações, as empresas brasileiras do grupo mexicano América Móvil – Claro, Embratel e NET – divulgaram que mais de 100 mil horas de imagens foram transmitidas para 200 países, impactando cerca de 5 bilhões de pessoas. As cerca de cem venues conectadas ao backbone Embratel trafegaram 3.250 terabytes nas redes fixa e móvel no Rio de Janeiro para atendimento ao público e à Família Olímpica; e a rede móvel de celular nas instalações olímpicas conectou 1,7 milhão de dispositivos, gerando 79 milhões de conexões de dados e 22 milhões de chamadas de voz. A rede de roaming foi usada por 86 mil turistas. Para os Jogos, a Embratel implantou um backbone com 370 quilômetros de fibras ópticas, com redundância tripla para garantir alta disponibilidade durante os Jogos. Colocou Wi-Fi em 60 instalações olímpicas, além de Wi-Fi público em várias regiões, como Deodoro, Parque Olímpico, Riocentro e Linha 4 do Metrô. A América Móvil também teve a seu cargo dois datacenters com alta disponibilidade e certificação internacional Tier III e o cabo submarino AMX-1 interligando o Brasil a países da América Latina e Estados Unidos. De acordo com a companhia, a rede olímpica teve velocidade de 40 Gbps, conectando 60 mil pontos de acesso à rede.

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Dados do Mapa de Ameaças Digitais, desenvolvido pela empresa brasileira de segurança móvel PSafe, revelaram que, apenas no mês de agosto, foram bloqueados cerca de 10 milhões de malwares no Brasil, número 150% maior que a média mensal de ataques, que gira em torno de 4 milhões. Os estados mais visados pelos cibercriminosos foram São Paulo e Rio de Janeiro, com mais de 2,7 milhões e 1,2 milhão de tentativas de ataques, respectivamente. Na sequência, aparecem Minas Gerais (882 mil), Bahia (687 mil) e Pernambuco (542 mil). Entre estes cinco estados mais visados, os quatro primeiros foram cenários de jogos e apresentaram um crescimento de cerca de 100% nas tentativas de ataques cibernéticos, em relação aos meses anteriores. Entre as principais classes de malwares registrados, destacaram-se os trojans, com mais de 5 milhões de ataques bloqueados no País. De acordo com a empresa, este tipo de ataque é considerado uma porta de entrada para uma série de outras ameaças mais graves à segurança do usuário de dispositivos conectados. Nesta classe, é possível destacar os “sms.fraud”, que cadastram o usuário em serviços pagos de SMS, e “hacking tools”, que permitem que o hacker envie comandos remotos para o celular do usuário.

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polÍtiCa

Ana Paula Lobo

Marco ciVil precisa se afirmar como uma lei no brasil Em entrevista à Revista Abranet, o especialista em direito e diretor do Centro de Estudos ITS-Rio, Carlos Affonso Souza, comenta pontos relevantes na legislação da Internet no dia a dia dos provedores, como a guarda da porta lógica. Faz ainda uma advertência: a discussão sobre a neutralidade de rede nem começou no País. Sobre dados pessoais, sinaliza que há um custo alto pelo fato de o Brasil não ter uma lei própria. “É um atraso econômico.” A PRESSÃO É IMENSA, mas na opinião do especialista em direito e diretor do Centro de Estudos ITS-Rio [Instituto de Tecnologia & Sociedade do Rio], Carlos Affonso Souza, o Marco Civil da Internet está longe de exigir mudanças imediatas. Na prática, ele precisa se afirmar como uma Lei. De modo firme, diz que as propostas à mesa hoje são casuísticas e, se aprovadas, vão afastar o Brasil de ter um papel relevante na economia digital. Ele admite que há pontos que levantam dúvidas no que se refere aos provedores, entre eles, a questão da responsabilização pelo conteúdo postado pelo usuário. “É preciso deixar claro que o artigo 19 do Marco Civil não impõe a ordem judicial como o único meio de retirada de conteúdo da rede. Diz, sim, que o provedor precisa cumprir uma ordem judicial quando ela é posta. Isso serve para qualquer um. Mas se houver uma comunicação extraoficial e o provedor entender que o conteúdo é nocivo, ele pode fazer a retirada

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sem esperar a decisão da Justiça. Esse ponto precisa ficar muito transparente e hoje há uma confusão enorme”, relata Carlos Affonso. “O provedor não é o guardião da informação. Não é querido, nem desejado que o provedor que dá acesso à rede possa vir a controlar a navegação do usuário”, alerta. Outro ponto bastante complexo para os provedores é a chamada guarda da porta lógica, que permite uma melhor identificação do usuário. Carlos Affonso esclarece que o Marco Civil estabelece tão somente a guarda do IP, da data e da hora. “A natureza do Marco Civil é principiológica. Ela não desce a detalhes. Se o provedor guardar mais dados do usuário, o fará por interesse próprio e não por uma determinação do Marco Civil”, preconiza. Carlos Affonso lamenta o fato de a discussão sobre a Internet no Brasil estar centralizada – e de forma equivocada – nas questões de bloqueio de aplicativos, zero rating

pedro Costa


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lEi dE protEção dE dados pEssoais é imprescindível A decisão do governo Temer de retirar a urgência do projeto sobre uma Lei de Proteção de Dados Pessoais, apresentado no Governo Dilma, é um direito, mas não se pode acreditar que não é necessário ter uma legislação. “Oportunidades estão sendo perdidas”, adverte Carlos Affonso, diretor do ITS-Rio. O Brasil não pode deixar de ter uma Lei de Proteção de Dados Pessoais – e o quanto antes. “Há um custo financeiro efetivo de não se ter uma lei para a proteção da privacidade dos internautas e que traga segurança jurídica para as empresas fazerem negócios”, sinaliza. Segundo o especialista, muitas empresas não estão no Brasil em função dessa indefinição. Para ele, é preciso ter claro o que fazer na coleta, tratamento e transferência de dados para o exterior e em casos de vazamentos. “Hoje não se tem nada. O Marco Civil não avança nessa questão”, diz. E ter uma legislação em tempos de big data, Internet das Coisas e Inteligência Artificial é essencial. “O Marco Civil trata apenas da Internet. Há setores como saúde e governo que vão usar dados e não serão fiscalizados pela Lei.” A criação da agência regulatória se desenha como o melhor caminho, mas exige transparência e muito debate. Há uma preocupação imediata: a obrigação ao compartilhamento de dados entre empresas e governo. “Não encaro essa obrigação como um fato positivo. Quem vai garantir a segurança desses dados?”, indaga Carlos Affonso. A entrevista completa sobre Dados Pessoais está disponível em vídeo no portal da Abranet - http://bit.ly/Caff_dadospessoais

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“O provedor não é o guardião da informação. Não é querido, nem desejado que o provedor que dá acesso à rede possa vir a controlar a navegação do usuário.” (quando as operadoras fecham acordo com empresas) e acesso patrocinado. “Discutir inserção de artigo que impeça bloqueio de aplicativo no Marco Civil é um erro. Hoje estamos falando da mensagem instantânea. Amanhã, certamente vamos falar de outro. A tecnologia avança”, adverte. Além de achar que o Marco Civil não é o lugar para discutir bloqueio de apps, o diretor do Centro de Estudos ITS-Rio reclama da judicialização excessiva. “O poder de cautela não é um cheque em branco na mão de um juiz. Não se pode prejudicar o todo por causa de um.” Se apps estão sob os holofotes, Carlos Affonso sinaliza para a pouca atenção dada – pelo menos até agora – ao debate da neutralidade de rede. Segundo ele, sancionado o Marco Civil, houve poucas ações efetivas quanto ao tema,

considerado crucial para a gestão de redes e para os provedores. “Parece que o assunto – que mobilizou as discussões antes – perdeu intensidade. E ele é vital. Neutralidade e liberdade de expressão estão juntas”, observa. Na regulamentação da Internet no Brasil, aponta ainda Carlos Afonso, o momento é de ir além do mantra multisetorialista. É hora de fazer os acertos e definir um marco regulatório da Internet. “O Comitê Gestor da Internet e a Anatel precisam acertar suas atuações, assim como o CADE [Conselho Administrativo de Defesa Econômica] e o Ministério da Justiça, por meio da Secretaria Nacional do Consumidor. O debate não pode ser diminuído por conta de confusão nas atribuições”, ressalta. “O debate precisa ser aberto, transparente e plural”, pleiteia o especialista do ITS-Rio.

A entrevista completa está disponível em vídeo no portal da Abranet - http://bit.ly/Caff_entrevista

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teCnoloGia

Roberta Prescott

Mais QUalidade e cUsto Menor CDNs e pontos de troca de tráfego aproximam o conteúdo do usuário final, diminuindo a latência e onerando menos os provedores de Internet COM O OBJETIVO de melhorar a percepção de qualidade pelo usuário final, os pontos de troca de tráfego (IX, na sigla em inglês para Internet Exchange) e as redes de distribuição de conteúdo (CDNs, na sigla em inglês para content delivery network) também contribuem para a racionalização dos custos por parte dos provedores de acesso, uma vez que o tráfego é resolvido direta e localmente e não por meio de redes de terceiros. A ideia de aproximar o conteúdo do usuário final não é recente. Conforme lembra Milton Kashiwakura, diretor de projetos especiais e de desenvolvimento do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), textos antigos mencionavam que, com a invenção da Web, a configuração da Internet mudaria devido ao grande volume de tráfego. “Já se sabia que as redes não iam suportar este aumento. Foram os pesquisadores do MIT [Massachusetts Institute of Technology] que inventaram as CDNs. Hoje, podemos dizer que as CDNs vieram para ficar, porque,

“As CDNs vieram para ficar, porque, sem elas, não é possível ter Internet de qualidade.” milton KasHiWaKura diretor de proJetos espeCiais e de desenVolViMento do niC.Br

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sem elas, não é possível ter Internet de qualidade”, diz. As CDNs foram pensadas para aperfeiçoar o tráfego de dados, fazendo cópias dos conteúdos mais acessados – e que correspondem a uma parcela grande do tráfego de um provedor – em servidores espalhados. O NIC.br estima que o tráfego para Google (incluindo YouTube), Netflix e Facebook juntos é responsável por 40% a 60% da banda de um Internet Service Provider (ISP). “Pontos de troca de tráfego e CDNs têm algumas finalidades comuns, como levar o conteúdo mais próximo do usuário final e diminuir o consumo de tráfego no backbone, além de melhorar a rede como um todo”, ressalta José Eduardo de Freitas, diretor de conectividade, IP e mídia da Level 3. “É impossível imaginar que a Internet sobreviva sem CDNs”, destaca Kashiwakura, lembrando que algumas empresas de CDNs chegam a ter milhares de servidores espalhados pelo mundo. De acordo com Alex Soares, arquiteto-sênior de inovação na Exceda, a empresa tem no Brasil 5 mil servidores Akamai distribuídos em todas as unidades federativas, alcançando cerca de 90 cidades em todos os estados. “Nunca é uma máquina apenas. É um cluster de servidores, dependendo do volume de tráfego”, explica. Mundialmente, a Akamai alcança 1.100 provedores, sendo entre 80 e 90 no Brasil. “Entendemos que para os provedores de Internet é importante conectar-se não apenas ao ponto de troca de tráfego, mas também às CDNs, devido à redução de custo”, destaca.


como adErir a um ponto dE troca dE tráfEgo A participação em um dos IXs.br é aberta a qualquer sistema autônomo (conjunto de redes com a mesma política de roteamento) que desejar trocar tráfego em uma localidade do PTTmetro, o ponto de troca de tráfego que fornece uma infraestrutura de conexão aos seus participantes distribuída em uma área metropolitana. Para tanto, deve-se selecionar o ponto de interconexão (PIX) ao qual se pretende conectar e entrar em contato com o PIX escolhido para negociar como se dará a conexão física. A solicitação de conexão deve ser feita por meio do site https://meu.ix.br/painel. Fonte: http://ix.br/adesao

tipos dE cdns A Exceda trabalha com a Akamai auxiliando-a na colocação das máquinas cache nos servidores dos provedores. Há diferentes maneiras de se trabalhar com CDNs. As empresas (fornecedoras de conteúdo, como Netflix, ou companhias especializadas em CDNs, como Akamai) tanto podem colocar ‘caches’ (nós de suas redes) dentro das redes dos principais provedores de Internet quanto fazer parte de algum ponto de troca de tráfego. Para o provedor receber as CDNs, ele precisa ter um volume mínimo e específico de tráfego, mas a quantidade varia segundo as normas de cada empresa. No caso da Akamai, o tráfego deve girar em torno de 1 Gbps – mas Soares adianta que é possível abrir exceções dependendo da análise feita. No caso de receber as CDNs, os ISPs cedem espaço físico, energia elétrica e banda Internet para atualização

“Pontos de troca de tráfego e CDNs têm algumas finalidades comuns, como levar o conteúdo mais próximo do usuário final e diminuir o consumo de tráfego no backbone.” José Eduardo dE frEitas diretor de ConeCtiVidade, ip e MÍdia da leVel 3

dos caches. Nestas condições, segundo o NIC.br, normalmente, o arranjo é vantajoso para ambas as partes: a CDN hospeda um nó de sua rede a custo praticamente zero, próximo ao usuário, e o ISP economiza banda Internet e aumenta a qualidade percebida por seus clientes. Quando os ISPs não conseguem ter os caches das principais CDNs em suas redes, as alternativas incluem se associar a outros ISPs e convencer a empresa detentora da CDN a instalar um cache para atender a todos em conjunto ou buscar o conteúdo em pontos de troca de tráfego. Alex Soares, da Exceda, explica que faz sentido recorrer a CDNs para melhorar a qualidade do serviço. À medida que cresce a demanda por tráfego de dados em diferentes regiões, há necessidade de aumento da capacidade das redes para suportar o maior número de usuários. “Fazemos o monitorando da rede constanteabranet.org.br outubro / novembro . 2016

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raio X Os pontos de troca de tráfego do De acordo com o NIC.br e mente e, quando detectamos um Brasil estão em 26 localidades: o CGI.br, o IX.br está entre os conteúdo mais acessado, aloca1. Belém maiores pontos de troca de tráfemos servidores para economizar 2. Belo Horizonte go do mundo, com o pico de tráeste tráfego”, diz. 3. Brasília fego total chegando a 1,8 Tbit/s. Entre seus clientes, a Exceda 4. Campina Grande No entanto, ainda há uma discretem desde empresas de mídia, co5. Campinas pância enorme entre os diversos mércio eletrônico e de jogos até 6. Caxias do Sul pontos espalhados pelo Brasil. fornecedoras de soluções, como 7. Cuiabá Isto porque o IX em São Paulo Microsoft e Cisco, e clientes cor8. Curitiba responde por aproximadamente porativos. Eles contratam CDNs 9. Florianópolis 80% de todo o tráfego. para, por exemplo, fazer a distri10. Fortaleza Ainda que a concentração do buição dos conteúdos, atualizações 11. Foz do Iguaçu tráfego seja natural (quanto maior de software e aplicações online. 12. Goiânia o número de participantes, mais Outro modelo foi adotado pela 13. Lajeado atraente é o IX), ela tem levado Level 3. A estratégia da empresa 14. Londrina sistemas autônomos de diversas não é colocar cache nos provedo15. Manaus regiões do País a fazerem peering res, mas ter CDNs em suas pró16. Maringá em São Paulo, obrigando-os a prias redes. Assim, os ISPs que se 17. Natal contratar enlaces de longa distânconectam têm acesso ao conteú18. Porto Alegre cia. Além disto, por serem menodo nacional e internacional. Para 19. Recife res, as outras localidades de IXs José Eduardo de Freitas, diretor 20. Rio de Janeiro não atraem as principais CDNs, da Level 3, um dos diferenciais é 21. Salvador criando um ciclo vicioso, com reacessar conteúdos que estão fora 22. São Carlos (Paulista Central) alimentação negativa. do País como se estivessem muito 23. São José do Rio Preto Para Milton Kashiwakura, do próximos, o que gera economia de 24. São José dos Campos NIC.br, é necessário que os outros consumo de banda. 25. São Paulo pontos de troca de tráfego entrem Freitas diz que faz sentido para 26. Vitória em um círculo virtuoso. “Quanto os provedores de Internet acesmais participantes o IX tiver, mais sarem a rede da Level 3 quando identificarem, por meio dos números IPs, um alto volume atratividade ele tem”, comenta, lembrando que 25 IXs resde usuários buscando conteúdo que está sendo distribuído pondem por apenas 20% do tráfego restante. A expectatipela empresa. “Com base nisto, o provedor deve avaliar se va também é atrair mais sistemas autônomos para os IXs. Atualmente, dos cerca de 4 mil sistemas autônomos regisfaz sentido contratar conexões da Level 3.” trados no Brasil, aproximadamente 1.300 fazem parte de algum ponto de troca de tráfego, a maioria deles em São troca dE tráfEgo Como alternativa, os provedores de acesso à Inter- Paulo. “Falta a entrada de muitos AS.” Uma das iniciativas do NIC.br para fomentar os denet podem buscar os conteúdos que lhes interessam nos pontos de troca de tráfego. Com 26 localidades, o Brasil mais pontos é o projeto OpenCDN, que pretende esInternet Exchange (IX.br), uma iniciativa do NIC.br e do palhar redes de fornecimento de conteúdo em diversas Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), promove localidades do Brasil, descentralizando as CDNs que, e cria a infraestrutura necessária (os pontos de intercâm- atualmente, estão concentradas em São Paulo e no bio de Internet – IXP) para a interconexão direta entre Rio de Janeiro. Assim, acredita-se que empresas como os sistemas autônomos (AS, na sigla para autonomous Google, Netflix, Facebook, Akamai, Globo e Amazon sejam atraídas a colocar os servidores nesta estrutura systems) que compõem a Internet brasileira.

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aberta que o NIC.br está montando. O IX.br atende às regiões metropolitanas no País que apresentam grande interesse de troca de tráfego Internet. O metropolitan Internet exchange (MIX) ou, em português, PTTMetro, é um ponto de troca de tráfego que fornece uma infraestrutura de conexão aos seus participantes distribuída em uma área metropolitana. Ou seja, trata-se de uma infraestrutura com mais de um ponto de acesso (PIX), na qual é indiferente qual o ponto escolhido para a conexão por um sistema autônomo participante. O ambiente de interconexão (switch fabric) dos pontos de troca de tráfego deve ser neutro, tanto em sua administração quanto nas políticas adotadas, e tem caráter de utilização público. Cada PIX está abrigado em um datacenter comercial, que fica responsável por sua operação convencional do ponto de vista da administração do espaço, energia, ambiente, ar-condicionado e segurança. Porém, a política de uso e roteamento do ambiente de interconexão

“Para os provedores de Internet, é importante conectar-se não apenas ao ponto de troca de tráfego, mas também às CDNs, devido à redução de custo.” alEX soarEs arQUiteto-sÊnior de inoVaÇÃo na eXCeda

(PTTMetro) é de responsabilidade do Comitê Gestor. Um IX.br é, assim, uma interligação em área metropolitana de pontos de interconexão de redes (PIXes), comerciais e acadêmicos, sob uma gerência centralizada. Para ser bem-sucedido, um ponto de troca de tráfego precisa concentrar um grande número de participantes. Por outro lado, esta concentração faz a complexidade técnica e o custo de operação do IX crescerem.

iniciatiVa PrÓPria Algumas companhias decidiram montar suas redes próprias de distribuição de conteúdo. É o caso da Netflix, que, além de participar do IX.br em São Paulo, criou o programa Netflix Open Connect, que firma parcerias com provedores de Internet para entregar o conteúdo de forma mais eficiente e, assim, melhorar a experiência de seus assinantes. A empresa afirma ter uma política bastante aberta de peering em pontos de interconexão e buscar estabelecer parcerias com centenas de ISPs nos diversos mercados onde atua para localizar o tráfego e, assim, diminuir a latência. A Netflix declinou conceder entrevista à Abranet, mas a política de parcerias que consta em seu site explica que, por meio do Open Connect, a empresa traz volumes consideráveis de tráfego para instâncias locais com appliances Open Connect integrados à rede. De acordo com a Netflix, os Open Connect Appliances (OCAs) incorporados têm o mesmo hardware que ela usa em seus cerca de 60 datacenters globais. As máquinas são fornecidas gratuitamente aos provedores de Internet qualificados e a implantação inclui suporte técnico, monitoramento contínuo, resolução de problemas e suporte a parceiros. Como alternativa aos OCAs, a Netflix oferece a interconexão livre entre redes (SFI), ou seja, uma conexão aos datacenters usando peering com interconexão de rede privada (PNI) ou com SFI baseado em IXP. Para fazer parte deste programa, a exigência é que o provedor de Internet tenha um “volume substancial de tráfego” da Netflix. No site em inglês, consta a informação que o tráfego requerido depende da quantidade de conteúdo Netflix usado, tendo como mínimo 5 Gbps de pico de tráfego. Para níveis menores de tráfego, a empresa indica a interconexão livre entre redes (SFI).

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ConeXÃo

Roberta Prescott

Desigualdade no acesso à Internet ainda é alta A PROPORÇÃO DE DOMICÍLIOS BRASILEIROS com conexão à Internet banda larga permaneceu a mesma em 2015 em comparação com o ano anterior, e a desigualdade no acesso ainda é uma barreira a ser vencida, uma vez que os mais ricos e moradores da zona urbana concentram as conexões. O alto preço do serviço e a falta de infraestrutura em determinadas áreas são os principais obstáculos para a expansão da banda larga no País. Foi isto que revelou a pesquisa TIC Domicílios 2015 do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), realizada anualmente pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). Em 2015, 51% dos lares tinham Internet, ou um total de 34,1 milhões de domicílios. Em 2014, o porcentual foi de 50%, totalizando 32,3 milhões de habitações. A discrepância social segue alta. Na comparação entre ricos e pobres, enquanto 97% dos lares da classe A e 82% da classe B possuíam acesso à Internet, apenas 49% dos lares da classe C e 16% das D/E contavam com o serviço. A diferença fica ainda maior entre domicílios em área urbana

(56% com Internet) e rural (22%). Entre as regiões, a maior concentração de lares com Internet está na região Sudeste (60%), seguida da Sul (53%), Centro-Oeste (48%), Nordeste (40%) e Norte (38%). O porcentual apresenta variações em relação ao registrado em 2014. Houve aumento de penetração de banda larga no Centro-Oeste (44%), Nordeste (37%), Norte (35%) e Sul (51%) – o Sudeste manteve os mesmos 60%. Para o gerente do Cetic.br, Alexandre Barbosa, a variação de 50% para 51% é muito pequena e, por isto, não se pode falar em crescimento. “Fica a mensagem para os gestores públicos quanto à necessidade de rever as políticas de inclusão, porque as desigualdades socioeconômica e regional são persistentes”, disse. Entre os principais fatores que levam a esta desigualdade estão o preço do serviço e a disponibilidade de acesso. Do total de domicílios sem acesso à Internet, 60% alegam que o custo é muito alto. Na área rural, há agravantes além do preço, como a falta de computador no domicílio (55%) e a falta de disponibilidade de Internet na região (53%). “Deveria haver políticas para redução do preço de acesso, que ainda é alto para as pessoas de menor poder aquisitivo”, completou Barbosa.

cElular como principal acEsso Em 2015, 33,2 milhões de domicílios possuíam computador, o que corresponde a 50% dos lares do País. Destes, 64% dos lares tinham computadores portáveis; 51% contavam com computadores de mesa e 38% com tablets.

Proporção de domicílios com acesso à internet - Total, Classe e Área Percentual sobre o total de domicílios

34,1 milhões de domicílios com acesso à Internet Base respondente: Total de domicílios (23465)

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Veja a pesquisa completa em http://www.cetic.br/pesquisa/domicilios/indicadores


Proporção de usuários de internet, por dispositivo utilizado para acesso individual Percentual sobre o total de usuários de Internet

arquivos entre computador e outros equipamentos ou dispositivos (43%). Apenas 7% criaram programa de computador usando linguagem de programação; 26% criaram apresentações de slides e 27% instalaram novos equipamentos, como modem, impressora, câmera ou microfone.

a rElEVÂncia do Wi-fi

Base respondente: Total de usuários de Internet (10320)

As conexões à banda larga fixa por meio de redes sem fio (Wi-Fi) ganharam relevância entre os usuários da rede. Em 2015, 79% dos domicílios com acesso à Internet tinham Wi-Fi, contra 66% em 2014, de acordo com a pesquisa TIC Domicílios 2015. Para Alexandre Barbosa, em muitos casos, isto se deve à política de provedores e operadoras de oferecer roteadores com Wi-Fi a seus clientes. O uso de Wi-Fi também se mostrou essencial para os indivíduos que querem se manter conectados pelos telefones celulares. Individualmente, entre os usuários da rede, que correspondem a 58% da população com 10 anos ou mais, 89% acessaram a Internet pelo telefone celular, enquanto 65% o fizeram por meio de um computador de mesa, portátil ou tablet. Na edição anterior, eram 80% pelo computador e 76% pelo telefone celular. Dos usuários de celular, 87% usaram conexões Wi-Fi e 72%, redes 3G ou 4G. O Wi-Fi tem um peso ainda maior para as classes mais baixas. Conforme explicou o coordenador da pesquisa TIC Domicílios, Winston Oyadomari, ao usar a Internet pelo celular as pessoas estão buscando

No entanto, apesar da presença dos PCs, a massificação dos aparelhos inteligentes fez com que os telefones celulares ultrapassassem os computadores como principal dispositivo para conexão à Internet pelos indivíduos. Em 2015, 89% dos indivíduos usuários de Internet preferiam acessar por meio de aparelhos celulares, contra 65% que optaram pelos computadores. Em 2014, o porcentual foi de 76% para celulares e 80% para computadores. Na zona rural, a diferença foi ainda maior, com o uso de celulares saltando de 64%, em 2014, para 85%, em 2015, e o de computador caindo de 66% para 44% no mesmo período. Barbosa observou que, apesar do fato de os celulares representarem a inclusão do cidadão no mundo online e de os aparelhos terem mais capacidade de processamento, ainda há limitações que inibem o desenvolvimento de habilidades requeridas no trabalho. “É Proporção de domicílios com acesso preocupante porque as classes mais baixas usam o celular para ter acesso à Internet e não desenà internet, por presença de Wi-fi volvem tais habilidades”, destacou. Percentual sobre o total de domicílios com acesso à Internet A questão levantada por Barbosa ganha relevância em um cenário no qual o maior porcentual de habilidades para uso de computador, de acordo com a pesquisa, é copiar ou mover um arquivo ou uma pasta – apontado por 56% dos entrevistados. Na sequência, com 51%, está anexar arquivos em e-mail, seguido de copiar e colar inBase respondente: Total de domicílios com acesso à Internet (10698) formações em um documento (49%) e transferir

Fonte: pesquisa tiC domicílios 2015 - Cetic.br

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estratégias para manterem-se conectadas, uma vez que os planos pós-pagos são minoria no Brasil. “O uso de Wi-Fi prevalece para minimizar os custos”, destacou.

Espaço a ocupar A expansão da banda larga no Brasil ainda é um tema urgente, principalmente, para conectar os mais pobres. De acordo com a pesquisa TIC Domicílios 2015, existem no País 32,8 milhões de domicílios desconectados, a maioria deles (aproximadamente 30 milhões) das classes C e D/E. Apesar de o Sudeste ter a mais alta penetração de banda larga, a grande parte de domicílios desconectados (11,7 milhões) está na região, devido à alta densidade demográfica. Para Barbosa, gerente do Cetic.br, além dos preços, considerados altos, em muitas áreas, principalmente, do Norte e Nordeste a disponibilidade de acesso é restrita e faltam empresas para ofertar o serviço. “Precisamos ter políticas públicas que reduzam o preço de acesso à Internet para classes mais baixas”, destacou. Olhando pelo lado de indivíduos conectados, a pesquisa mostrou que a quantidade de brasileiros usuários de Internet chegou a 102 milhões em 2015 (58% da população com mais de dez anos), acima dos 94,2 milhões de 2014 (55% da população). Contudo, as desigualdades socioeconômicas imperam. Entre os mais ricos, 95% da população da classe A e 82% da classe B eram usuários, bem acima dos 28% da

Proporção de usuários de internet, por local de acesso individual Percentual sobre o total de usuários de Internet

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o papel dos isPs Em seus comentários sobre a pesquisa TIC Domicílios 2015, o gerente do Cetic.br, Alexandre Barbosa, ressaltou que, apesar de existirem mais de 2 mil ISPs ativos, perto de 85% das conexões estão nas mãos das maiores empresas, dos grandes grupos. Em seu último balanço, em julho, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) apontou que havia 26,3 milhões de acessos de banda larga fixa no Brasil, concentrados em três grandes operadoras: América Móvil (Net, Claro e Embratel) com 31,66% do mercado, Telefonica com 28,33% e Oi com 24,33%. “Os ISPs cumprem papel importante, pois muitas vezes são a única forma de acesso. Mas são necessárias políticas que fomentem a sustentabilidade dos ISPs no longo prazo para mudar a concentração de mercado”, afirmou. Ele destacou também a urgência de se discutir a regulação do mercado e as questões tributárias.

classe D/E e 57% da classe C. No entanto, apesar da diferença, o porcentual dos usuários mais pobres vem crescendo. Em 2013, eles representavam 17% da classe D/E e 49% da C. Com relação às zonas, 63% da população da área urbana é usuária de Internet, quase o dobro dos 34% da área rural. A Cetic.br considera usuário de Internet aqueles que acessaram a rede alguma vez nos três meses anteriores ao questionário. A casa de outra pessoa (como amigo, vizinho ou familiar) passou o trabalho como local de acesso individual à Internet. Em 2015, 56% afirmaram usar a Internet em casa de outrem, acima dos 30% de 2014 e à frente dos 38% do trabalho, que obteve porcentual de 33% no ano anterior. A moradia permanece com a preferência de 90% dos usuários. A pesquisa TIC Domicílios tem por objetivo geral medir o acesso e os usos da população em relação às tecnologias de informação e comunicação. Com abrangência nacional, a pesquisa fez, entre novembro de 2015 e junho de 2016, 23.465 entrevistas em 350 municípios brasileiros. As entrevistas domiciliares foram realizadas presencialmente usando questionário estruturado, aplicado por meio de tablets.

Fonte: pesquisa tiC domicílios 2015 - Cetic.br


Ecos do “Encontros SEINESP – Ideias & Fatos” O BRASIL TEM 149.716 empresas ativas na área de Internet, que geram 400 mil empregos e cujo faturamento alcançou R$ 150 bilhões em 2015, de acordo com informações do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). No Estado de São Paulo, são 71.382 empresas, sendo que 32.466 surgiram entre 2010 e 2016. Destas, 22.571 são optantes pelo Simples Nacional. Os dados foram apresentados pelo diretor do IBPT, Cristiano Yazbek, durante a primeira edição do “Encontros SEINESP – Ideias & Fatos”, realizada em setembro, em São Paulo, com a organização do Sindicato das Empresas de Internet do Estado de São Paulo (SEINESP). Para o especialista, o principal problema para as empresas é a questão tributária. A inadimplência nessa área superou a arrecadação no País. Em 31 de dezembro do ano passado, a arrecadação foi de R$ 2,01 trilhões e o estoque da dívida, de R$ 2,21 trilhões. Deste montante, apontou o IBPT, 3,48% eram do setor de Internet. Para Yazbek, uma carga tributária de 28% em relação ao PIB seria o limite possível. Ele também alertou sobre a unificação das contribuições do PIS e Cofins, que poderia vir a ser um novo tributo em vez de diminuir a arrecadação. “Isso traz à tona a preocupação sobre o esgotamento da capacidade contributiva: será que ultrapassamos a nossa capacidade de pagar tributos? Quando a inadimplência supera a contribuição, podemos entender que uma mudança que vise a aumentar a arrecadação pode aumentar ainda mais a inadimplência”, advertiu o diretor do IBPT.

rumos da economia Convidado especial do evento do SEINESP, Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central do governo Fernando Henrique Cardoso, mostrou-se otimista com um cenário de recuperação no curto prazo. Segundo ele, é hora de atrair investimentos para a infraestrutura. Só assim, sinalizou, será possível recuperar o ‘bom humor’ dos investidores e dos empresários. Loyola também se mostrou otimista quanto a uma retomada moderada do crescimento do Produto Interno Bruto em 2017 e 2018. Em 2016, o índice deve ficar negativo em 3,1%. Já para 2017, projeta-se um cenário positivo de 1,5% e, para 2018, de 2,7%. A má notícia, ressaltou o economista, é que a taxa de desemprego deve seguir crescendo e pode ser ainda maior em 2017, ao mesmo tempo que os salários reais devem continuar em queda. Em contrapartida, há uma boa perspectiva da queda da inflação. A projeção, segundo Loyola, é que a inflação baixe para 7,4% neste ano e caia progressivamente nos próximos anos para a casa dos 5%. A meta de 4,5% deverá ser atingida em 2018. A inflação sob controle, disse, permitirá a diminuição da taxa de juros, o que ajudará a retomada do crédito e, consequentemente, a recuperação da economia. Sobre o governo Temer, Loyola foi taxativo: não haverá tempo para as reformas mais complexas. “É um governo que não foi eleito diretamente pelas urnas. A legitimidade dele é relativamente baixa, tem baixo grau de aprovação da sociedade. Não há uma liderança forte, necessária quando se trata de reformas mais complexas. Mas o mais urgente será feito”, completou o ex-presidente do Banco Central do governo FHC.

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opiniÃo Washington Tavares cTo da Tacira, empresa brasileira especializada em soluções para cidades inteligentes

Use de Forma cerTa as iNFormaÇÕes A inteligência da cidade acontece quando as informações geradas pela tecnologia e pelos usuários são vistas de forma integrada. TORNAR UMA CIDADE mais inteligente, eficiente e sustentável não é tão complexo quanto se imagina. Deve-se optar por projetos com capacidade de melhorar a vida do cidadão, partindo da premissa “pense grande, mas comece pequeno”. Há uma teoria de que primeiro uma cidade precisa ser digital, depois conectada, ‘sensorizada’, para então tornar-se inteligente. Em alguns casos isso é verdade, mas não é uma regra. É possível trazer inteligência para uma cidade sem nenhum tipo de conectividade. Hoje em dia, grande parte da população está conectada de uma forma ou de outra. Mesmo não tendo banda larga, é possível disponibilizar um serviço agregado, como o aplicativo Waze. Para outras tecnologias e conceitos, é necessário o caminho de nascer digital para só depois partir para a inteligência. Uma iniciativa de cidade inteligente deve ser construída em etapas, começando pelo pressuposto de que não se trata apenas de tecnologia; ela deve ser vista como um meio. As métricas são fundamentais. Como se faz isso? O segredo está em começar com o levantamento de um dado, transformá-lo em informação e fazer algo com ela. Mas, como essa informação é utilizada na prática? O que é possível fazer a partir de sensores de estacionamento em uma praça, por exemplo? Em uma cidade, foi detectado que o tempo médio de utilização das vagas era de cerca de oito horas. O estacionamento estava sendo bem utilizado? Não, pois

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trata-se de uma área comercial e não havia rotatividade. Descobriu-se que os donos dos estabelecimentos utilizavam as vagas. O dado, portanto, tornou-se informação, que foi discutida em uma reunião da associação comercial. Resultado: os comerciantes liberaram as vagas para os clientes e o tempo médio do estacionamento foi reduzido para 45 minutos. Atualmente, grande parte dos projetos ditos de inteligência são iniciativas top-down. O que seria isso? O prefeito define a instalação, por exemplo, de 300 câmeras de alta definição em toda a cidade. A região passa a estar monitorada, correto? Errado. Quem está olhando aquelas câmeras? São inúmeras horas de vídeo armazenadas em um HD, que serão utilizadas, na melhor das hipóteses, em investigações policiais ou demandas jurídicas. A inteligência para esse tipo de caso está na capacidade de detectar um evento, disparar um alarme e acionar uma viatura para averiguação de um incidente. Ou agregar isso a uma ferramenta de colaboração do cidadão, como um aplicativo, para a informação ser útil aos órgãos de segurança e controle de tráfego. A contrapartida é o projeto bottom-up, no qual o cidadão demanda um certo valor que acaba sendo incorporado pela gestão pública. O Waze, mais uma vez, é um exemplo. Os gestores estão começando a enxergar que este tipo de app pode ser uma ferramenta para melhorar a mobilidade. As duas maneiras são válidas, desde que fique claro o que cada iniciativa está gerando de valor para o cidadão. A construção desses projetos nasce na identificação desse valor. O primeiro passo é descobrir quais são os principais problemas e necessidades de uma comunidade. Depois é preciso criar um catálogo de serviços, com parceiros e fornecedores provendo diferentes soluções. A próxima etapa é trabalhar essas soluções em uma plataforma na qual os dados possam ser consolidados, e, por fim, definir objetivos e conquistar resultados por meio de indicadores. A inteligência da cidade, portanto, começa a acontecer quando as informações geradas pela tecnologia e pelos usuários são vistas de forma integrada para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos.

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