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Comentário Bíblico Broadman Volume 8 Artigos Gerais Mateus-Marcos TRADUÇÃO DE ADIEL ALMEIDA DE OLIVEIRA 3.® Edição


Todos os direitos reservados. Copyright @ 1969 da Broadman Press. Copyright (^1 9 8 7 da JUERP.para a língua portuguesa, com permissão da Broadman Press. O texto bíblico, nesta publicação, é da Versão da Imprensa Bíblica Brasileira, baseada na tradução em português de João Ferreira de Almeida, de acordo com os melhores textos em hebraico e grego.

220.7 All-Com

Allen, Clifton., ed. ger. Comentário Bíblico Broadman: Novo Testam ento. E ditor geral: Clifton J. Allen. T radução de Adiei Almeida de Oliveira. 3 .“ edição. Rio de Janeiro, Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1986. Vol. 8 Título original: The Broadman Bible Commentary 1. Bíblia — Novo Testam ento — Comentários. 2. Novo Testam ento — Comentários. I. Título.

3.000/1988 Código para Pedido: 21.636 Junta de Educação Religiosa e Publicações da Convenção Batista Brasileira Caixa Postal 320 — CEP: 20001 Rua Silva Vale, 781 — CEP: 21370 Rio de Janeiro, RJ, Brasil Impresso em gráficas próprias


COMENTÁRIO BlBLICO BROADMAN Volume 8 lunta Editorial EDITOR GERAL Clifton J. Allen, Ex-Secretário Editorial da Junta de Escolas Dominicais da Convenção Batista do Sul, Nashville, Tennessee, Estados Unidos. Editores Consultores do Velho Testamento John I. Durham, Professor Associado de Interpretação do Velho Testatnento e Administrador Adjunto do Presidente do Seminário Batista do Sudoes­ te, Wake Forest, North Carolina, Estados Unidos. Roy L. Honeycutt Jr., Professor de Velho Testamento e Hebraico, Seminá­ rio Batista do Centro-Oeste, Kansas City, Missouri, Estados Unidos. Editores Consultores do Novo Testamento J. W. MacGorman, Professor de Novo Testamento, Seminário Batista do Sudoeste, Forth Worth, Texas, Estados Unidos. Frank Stagg, Professor de Novo Testamento da James Buchanan Harrison, Seminário Batista do Sul, Louisville, Kentucky, Estados Unidos. CONSULTORES EDITORIAIS Howard P. Colson, Secretário Editorial, Junta de Escolas Dominicais da Convenção Batista do Sul, Nashville, Tennessee, Estados Unidos. William J. Fallis, Editor Chefe de I^ublicações Gerais da Broadman Press, Nashville, Tennessee, Estados Unidos. Joseph F. Green, Editor de Livros de Estudo Bíblico da Broadman Press, Nashville, Tennessee, Estados Unidos.


APRESENTAÇÃO O COMENTÁRIO BÍBLICO BROADMAN tem a missão de “ajudar os homens a conhecer a verdade de Deus da forma como ela é revelada na sua Palavra, para que possam sentir o âmago da sua mensagem nas suas vidas, no mundo moderno” . Com este objetivo sempre em mente, o Comentário foi escrito, compilado e editado com todas as preocupações e convicções que podem ser esperadas para caracterizar a maior aventura editorial na história da Broadman Press. Ele é baseado na convicção de que a Bíblia é uma revelação incomumente inspirada de Deus, para guiar a fé e a prática cristãs. Usufruindo dos recursos da pesquisa histórica e contemporânea e da erudição bíblica, ele é marcado por uma forte ênfase na mensagem redentora das Escrituras e na relevância do ensino bíblico em relação aos assuntos e problemas do mundo atual. Ao imprimir o texto todo da Imprensa Bíblica Brasileira, ele esboça cada livro da Bíblia, e um a interpretação e exposição, parágrafo por parágrafo, do texto, é desenvolvida dentro desse arcabouço. Há também material introdutório para cada livro da Bíblia, tratando de questões pertinentes ao objetivo, data, autoria e localização do livro. Os artigos gerais, no Volume 8, resumem material interpreta­ tivo acerca do Novo Testamento e de seus temas principais. Um equilíbrio proposital é mantido entre a exegese e a exposição, obtido pela percepção disciplinada dos escritores e editores, e pelo seu hábil manuseio de material. Evitando intencionalmente extremos teológicos, o Comentário caracteriza-se por uma fé centralizada em Cristo, e pela realidade da redenção pessoal, tanto quanto pela exigência de uma autêntica expressão de fé em termos de uma vida cristocêntrica. Os volumes, encadernados em belas e resistentes capas, oferecem muitos anos de uso e utilidade. A Junta de Conselheiros Editoriais foi organizada com base na liderança da Igreja Batista do Sul dos Estados Unidos, nos campos teológico, denominacional e pastoraU Os escritores desta obra foram selecionados, tendo como base a sua maturidade na fé e as suas qualificações quanto à erudição. Todos são homens reconhecidos como eruditos bíblicos e lideres de confiança na comunidade cristã. Dirigindo a Junta Editorial como Editor Chefe, está Clifton J. Allen, que se aposentou do cargo que exerceu por muito tempo como Secretário Editorial da Junta de Escolas Dominicais da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, para dedicar tempo integral a este projeto desafiador. Ele é escritor experiente de exposições bíblicas e líder internacionalmente conhecido nos círculos de educação cristã.


L. D. Johnson, Capelão da Universidade Furman

Junta de Consultores Oifton J. Allen, Ex-Secretário Editorial da Junta de Escolas Dominicais Batis­ tas J. P. Allen, Pastor da Igreja Batista Broadway, Fort Worth John E. Bames, Jr., Pastor da Igreja Ba­ tista da Main Street, Hattiesburg OllnT. Binkley, Presidente do Seminário Teológico Batista do Sudeste WlUiam J. Brown, Gerente do Departa­ mento Leste de Livrarias Batistas da Junta Batista de Escolas Dominicais John R. Claypool, Pastor da Igreja Batista de Crescent Hill, Louisville Howard P. Colson, Secretário Editorial da Junta Batista de Escolas Domini­ cais Chauncey R. Daley, Jr., Editor do Wes­ tern Recorder, Middletown, Kentucky Joseph R. Estes, Secretário do Departa­ mento da Obra Relacionada com os Não Evangélicos da Junta Batista de Missões Nacionais WiUiam J. Fallis, Editor-Chefe de Pu­ blicações Gerais da Broadman Press Allen W. Graves, Deão da Escola de Educação Religiosa do Seminário Teo­ lógico Batista do Sul Joseph F. Green, Editor de Livros de Estudo Bíblico da Broadman Press Ralph A. Herring, Ex-Diretor do Depar­ tamento de Extensão Teológica da Convenção Batista do Sul Herschel H. Hobbs, Pastor da Primeira Igreja Batista, Oldahoma City Warren C. Hultgren, Pastor da Primeira Igreja Batista em Tulsa Lamar Jackson, Pastor da Igreja Batista Southside, Birmingham

J. Hardee Kennedy, Professor de Velho Testamento e Hebraico no Seminário Teológico Batista de New Orleans Herman L. King, Diretor da Divisão de Publicações da Junta Batista de Esco­ las Dominicais William W. Lancaster, Pastor da Primei­ ra Igreja Batista, Decatur, Georgia Randall Lolley, Pastor da Primeira Igreja Batista, Winston-Salem C. DeWitt Mattews, Professor de Prega­ ção, Seminário Teológico Batista do Centro-Oeste John P. Newport, Professor de Filosofia da Religião do Seminário Teológico Batista do Sudoeste Lucius M. Polhill, Ex-Secretário Executi­ vo da Associação Geral Batista da Virgínia Porter Routh, Secretário-Tesoureiro Exe­ cutivo do Comitê Executivo da Con­ venção Batista do Sul John L. Slaughter, Ex-Pastor da Primei­ ra Igreja Batista, Spartanburg R. Houston Smith, Pastor da Primeira Igreja Batista, Pineville, Louisiana lames L. Sullivan, Secretário Executivo da Junta Batista de Escolas Domini­ cais Ray Summers, Diretor do Departamento de Religião da Universidade Baylor Charles A. Trentham, Pastor da Primei­ ra Igreja Batista, Knoxville Keith von Hagen, Diretor da Divisão de Livrarias da Junta Batista de Escolas Dominicais J. R. White, Pastor da Primeira Igreja Batista, Montgomery Conrad Willard, Pastor da Igreja Batista Central, Miami Kyle M. Yates, Jr., Professor de Reli­ gião na Universidade Estadual de Oklahoma


Colaboradores

Oiffton J. Allen, Junta Batista de Esco­ las Dominicais (aposentado): Artigo Geral Morris Ashcraft, Seminário Teológico Batista do Centro-Oeste: Apocalipse G.R. Beasley-Murray, Universidade Spurgeon, Londres: 7/Connííos Robert G. Bratcher, Sociedade Bíblica Americana: Gera/ ames A. Brooks, Seminário Teológico Batista de New Orleans: Artigo Geral Raymond Bryan Brown, Seminário Teo­ lógico Batista do Sudeste: ICoríntios Joseph A. Callaway, Seminário Teológico Batista do Sul, Artigo Geral E. Luther Copeland, Seminário Teológi­ co Batista do Sudeste: Artigo Geral William L. Hendricks, Seminário Teoló­ gico Batista do Sudoeste: Artigo Geral E. Glenn Hinson, Seminário Teológico Batista do Sul: I e II Timóteo; Tito; Artigo Geral Hershel H. Hobbs, Primeira Igreja Batis­ ta, Oklahoma City: I e I I Tessaloni­ censes William E. Hull, Seminário- Teológico Batista do Sul: João John William MacGorman, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Gálatas Edward A. McDowell, Seminário Teoló­ gico Batista do Sudeste (aposentado): I, II e III João Ralph P. Martin, Seminário Teológico Fuller: Efésios

Dale Moody, Seminário Teológico Batis­ ta do Sul: Romanos John P. Newport, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Artigo Geral William M. Pinson, Jr., Seminário Teo­ lógico Batista do Sudoeste: Artigo Ge­ ral Ray F. Robbins, Seminário Teológico Batista de New Orleans: Filemom Eric C. Rust, Seminário Teológico Ba­ tista do Sul: Artigo Geral Burlan A. Sizemore, Jr., Seminário Teo­ lógico Batista do Centro-Oeste: Artigo Geral T. C. Smith, Universidade Furman: Atos: Artigo Geral Harold S. Songer, Seminário Teológico Batista do Sul: Tiago Frank Stagg, Seminário Teológico Batis­ ta do Sul: Mateus Ray Summers, Universidade Baylor: I e II Pedro; Judas; Artigo Geral Malcolm O. Tolbert, Seminário Teológi­ co Batista de New Orleans: Lucas Charles A. Trentham, Primeira Igreja Batista de Knoxville: Hebreus; Artigo Geral Henry E. Turlington, Igreja Batista da Universidade, Chapei Hill, Carolina do Norte: Marcos W. Curtis Vaughan, Seminário Teológi­ co Batista do Sudoeste: Filipenses R. E. O. White, Universidade Teológica Batista, Glasgow: Colossenses


Prefácio o COMENTÁRIO BÍBLICO BROADMAN apresenta um estudo bíblico atualizado, dentro do contexto de uma fé robusta na autoridade, adequação e confiabilidade da Bíblia como a Palavra de Deus. Ele procura oferecer ajuda e orientação para o crente que está disposto a empreender o estudo da Bíblia como um alvo sério e compensador. Desta forma, os seus editores definiram o escopo e propósito do COMENTÁRIO, para produzir uma obra adequada às necessidades do estudo bíblico tanto de ministros como de leigos. As descobertas da erudição bíblica são apresentadas de forma que os leitores sem instrução teológica formal possam usá-las em seu estudo da Bíblia. As notas de rodapé e palavras são limitadas às informações essenciais. Os escritores foram cuidadosamente selecionados, tomando-se em consideração sua reverente fé cristã e seu conhecimento da verdade bíblica. Tendo em mente as necessidades de leitores em geral, os escritores apresentam informações especiais acerca da linguagem e da história onde elas possam ajudar a esclarecer o significado do texto. Eles enfrentam os problemas bíblicos — não apenas quanto à linguagem, mas quanto à doutrina e à ética — porém evitam sutilezas que tenham pouco a ver com o que devemos entender e aplicar da Bíblia. Eles expressam os seus pontos de vista e convicções pessoais. Ao mesmo tempo, apresentam opiniões alternativas, quando estas sâo esposadas por outros sérios e bem-informados estudantes da Bíblia. Os pontos de vista apresentados, contudo, não podem ser considerados como a posição oficial do editor. O COMENTÁRIO é resultado de muitos anos de planejamento e preparação. A Broadman Press começou em 1958 a explorar as necessidades e possibilidades deste trabalho. Naquele ano, e de novo em 1959, líderes cristãos — especialmente pastores e professores de seminários — se reuniram, para considerar se um novo comentário era necessário e que forma deveria ter. Como resultado dessas deliberações, em 1961, a junta de consultores que dirige a Editora autorizou a publicação de um comentário em vários volumes. Maiores planejamentos levaram, em 1966, à escolha de um editor geral e de uma Junta Consultiva. Esta junta de pastores, professores e líderes denominacionais reuniu-se em setembro de 1966, revendo os planos preliminares e fazendo definidas recomendações, que foram cumpridas à medida que o COMENTÁRIO se foi desenvolvendo. ~No começo de 1967, quatro editores consultores foram escolhidos, dois para o Velho Testamento e dois para o Novo Testamento. Sob a direção do editor geral, esses homens trabalharam com a Broadman Press e seu pessoal, a fim de planejar o COMENTÁRIO detalhadamente. Participaram plenamente na escolha dos


escritores e na avaliação dos manuscritos. Deram generosamente do seu tempo e esforços, fazendo por merecer a mais alta estima e gratidão da parte dos funcionários da Editora que trabalharam com eles. A escolha da Versão da Imprensa Bíblica Brasileira “ de acordo com os melhores textos em hebraico e grego” como a Bíblia-texto para o COMENTÁRIO foi feita obviamente. Surgiu da consideração cuidadosa de possíveis alternativas, que foram plenamente discutidas pelos responsáveis pelo Departamento de Publica­ ções Gerais da Junta de Educação Religiosa e Publicações. Dada a fidelidade do texto aos originais bem assim à tradução de Almeida, amplamente difundida e amada entre os evangélicos, a escolha justifica-se plenamente. Quando a clareza assim o exigiu, foram mantidas as traduções alternativas sugeridas pelos próprios autores dos comentários. Através de todo o COMENTÁRIO, o tratamento do texto bíblico procura estabelecer uma combinação equilibrada de exegese e exposição, reconhecendo abertamente que a natureza dos vários livros e o espaço destinado a cada um deles modificará adequadamente a aplicação desta abordagem. Os artigos gerais que aparecem neste Volume, têm o objetivo de prover material subsidiário, para enriquecer o entendimento do leitor acerca da natureza da Bíblia. Focalizam-se nas implicações do ensino bíblico com as áreas de adoração, dever ético e missões mundiais da igreja. O COMENTÁRIO evita padrões teológicos contemporâneos e teorias mutáveis. Preocupa-se com as profundas realidades dos atos de Deus na vida dos ho­ mens, a sua revelação em Cristo, o seu evangelho eterno e o seu propósito para a redenção do mundo. Procura relacionar a palavra de Deus na Escritura e na Palavra viva com as profundas necessidades de pessoas ^e da humanidade, no mundo de Deus. Mediante fiel interpretação da mensagem de Deus nas Escrituras, portanto, o COMENTÁRIO procura refletir a inseparável relação da verdade com a vida, do significado com a experiência. O seu objetivo é respirar a atmosfera de relação com a vida. Procura expressar a relação dinâmica entre a verdade redentora e pessoas vivas. Possa ele servir como forma pela qual os filhos de Deus ouvirão com maior clareza o que Deus Pai está-lhes dizendo.


Sumário Artigos Gerais Os Antecedentes Religiosos e Culturais do Novo Testamento

T. C. S m ith ....................

17

Texto e Cânon do Novo Testamento

James A. Brooks............

33

História da Cristandade Primitiva

E. Glenn Hinson............

42

A Teologia do Novo Testamento

WiUiam L. Hendricks . .

54

Abordagens Contemporâneas no Estudo do Novo Testamento

Ray Su m m ers................

73

Introdução.........................................................................................................

89

Comentário Sobre o T e x to ..............................................................................

111

Mateus

Marcos

Frank Stagg

Henry E. Turlington

Introdução........................................................................................................

313

Comentário Sobre o T e x to ............................................................................ .. 326


Artigos Gerais


Os Antecedentes Religiosos e Culturais do Novo Testamento ^

Ê impossível entender a origem e cres­ cimento do movimento cristão fora do contexto cultural e religioso do Novo Testamento. Quer a pessoa creia que Deus preparou os eventos da história ou criou a necessidade favorável à dissemi­ nação do evangelho, não podemos enca­ rar o cristianismo isolado do contato com esse meio ambiente. Ê com esta verdade em mente que exploraremos os elementos políticos, religiosos e culturais dos mun­ dos judaico e greco-romano, a fim de mostrar como ambos influenciaram o cristianismo primitivo.

I. História Política do Mundo Greco-Romano A história política do mundo greco-romano começa com Filipe II, rei da Macedônia e pai de Alexandre, o Grande. Ele fundou a Grécia, famosa por sua arte, literatura e arquitetura, atingida por lutas e dissensões entre as cidadesestado. Através de suborno, assumindo o papel de árbitro e defensor do deus da cidade de Delfos, tornou-se senhor da Grécia em 338 a.C. e formou a Liga Helênica. Filipe sonhava com uma Gré­ cia unida, que pudesse dominar o mun­ do. Embora a Liga estivesse pouco dis­ posta a aceitá-lo, ele foi escolhido como comandante das forças gregas unidas para atacar a Pérsia. Antes que pudesse realizar o seu sonho, Filipe foi assassina­ do em 336. O seu filho Alexandre, com dezenove anos, tornou-se o herdeiro da sua ambição. Alexandre levou dois anos para provar aos gregos a sua capacidade de líder mi­ litar. Depois que a Liga Helênica o esco-

T. c.

Smith

lheu como comandante, em 334 a.C., ele cruzou o Helesponto, para travar batalha com os persas. Alexandre arrasou a es­ quadra persa em Granico e Isso, e avan­ çou para o sul, em direção ap Egito, onde foi aclamado como libertador dos egíp­ cios. Em 331 ele avançou para leste, e selou a queda de Dario III e dos persas, na batalha de Gaugamela. As suas proe­ zas não terminaram com uma vitória decisiva sobre os persas, mas levaram-no mais longe, em direção ao leste, até o rio Indo. Quando morreu, de febre, em 323, o seu reino se estendia da Grécia ao norte da Índia. Esse fantástico estrategista mi­ litar conseguiu tudo isto em apenas 13 anos. A história não dá a medida da gran­ deza de Alexandre em termos da vastidão de território que ele conquistou. A sua maior conquista foi reunir o Leste e o Oeste, através da propagação da cultura grega. O espírito helênico de liberdade individual, emancipação da tirania do costume e da tradição, o exercício livre da pesquisa científica e da crítica, o amor ao belo, na arte e na literatura, e o desenvolvimento da mente e do corpo, estenderam-se por todas as partes do mundo, com a sua política de helenização. Da babel dos dialetos gregos, surgiu um idioma grego inteligível para todos os gregos e utilizável para todos os povos conquistados. Alexandre derrubou barreiras raciais e nacionais, encorajando os seus soldados a se casarem com mulheres asiáticas. O seu objetivo era estabelecer um poderoso império, que desprezasse a diferença en­ tre gregos e bárbaros, libertando o ho­ mem para as relações internacionais. A 17


medida que o seu exército avançava, ele estabelecia colônias gregas, que se torna­ ram centros de cultura helênica. A mis­ tura de raças iniciou um espírito cosmo­ polita, um sincretismo de religiões e um interesse no indivíduo. 1. Dominação Helênica, 323-167 a.C. Por ocasião da morte de Alexandre, o vasto Império foi dividido entre os seus generais. Ptolomeu lançou mão do Egito, e mais tarde reclamou a posse da Pales­ tina. O fato de ele ter lançado mão deste território suscitou a ira de Seleuco, outro general de Alexandre, que se tornou go­ vernador da Síria depois da Batalha de Ipso, em 301 a.C. Por mais de um século os selêucidas, da Síria, e os ptolomeus, do Egito, lutaram pela posse da Palesti­ na. Os judeus que habitavam essa terra desta forma foram lançados no meio do conflito. Com a divisão do Império de Alexan­ dre, a própria Grécia deixou de manter a sua velha posição de liderança; mas a sua cultura espalhou-se e desenvolveu-se pe­ las cidades dos novos reinos. Embora os helenistas tenham influenciado os povos conquistados com a sua cultura, foram, por seu tumo, em-iquecidos por culturas estrangeiras, inclusive pelo judaísmo. Sob o governo dos Ptolomeus, algo de tremenda importância ocorreu, que ar­ rastou os judeus para o centro da corren­ teza do progresso humano. Durante o reinado de Ptolomeu Filadelfo (285-247 a.C.), o Velho Testamento foi traduzido, pelo menos em parte, para a língua grega. Duvida-se que uma tradução de todos os escritos veterotestanientários te­ nha sido feita nessa ocasião. Possivel­ mente, nada mais do que a tradução do Pentateuco foi tentada nessa ocasião. De qualquer forma, através desse feito, os escritos religiosos dos judeus agora esta­ vam à disposição do mundo não-judaico, em uma língua que todo o mundo conhe­ cido podia entender. As crenças religio­ sas do judaísmo, que anteriormente ha­ 18

viam sido, em grande parte, confinadas aos limites da comunidade judaica, ago­ ra se abriam, para merecer a considera­ ção do mundo todo. Antíoco, o Grande, rei selêucida, de­ pois de três tentativas para tomar posse da Palestina, subtraindo-a dos ptolo­ meus, derrotou o exército egípcio na ba­ talha de Panium, em 198 a.C., e arran­ cou a terra das mãos de Ptolomeu V. O reinado de Antíoco foi significativo para a história judaica, não apenas por­ que a Palestina cessou de estar sob a dominação dos ptolomeus, mas também porque o seu reinado testemunhou a entrada dos romanos na política asiáticai Por causa da oposição armada fracas­ sada de Antíoco à extensão da domina­ ção romana, Roma impôs pesadas inde­ nizações de guerra a Antíoco e seu terri­ tório político. Em adição aos tributos, os romanos compeliram-no a fornecer re­ féns como pagamento das indenizações. A atitude dos judeus para com Antío­ co, o Grande, a princípio foi favorável. Os judeus ficaram contentes de poder mudar a sua lealdade dos ptolomeus para os selêucidas. Antíoco favoreceu os judeus da Palestina, aliviando o peso dos impostos que os oprimia. Ele foi além: chegou a isentar os funcionários do Templo do pagamento de impostos. To­ davia, quando o rei selêucida se defron­ tou com a necessidade de pagar as in­ denizações de guerra, fez pesadas exigên­ cias monetárias, e os judeus acharam que haviam sido traídos. Antíoco, o Grande, foi morto na Ba­ talha de Elam, em 187, e o seu filho, Seleuco IV (187-175) ascendeu ao trono. Como rei, ele seguiu uma política desaconselhável quanto ao tratamento que dispensou aos judeus. Seleuco enviou o seu general Heliodoro a Jerusalém, para tomar posse do tesouro do Templo. Um relato completo deste incidente ocorre no livro apócrifo de II Macabeus. Helio­ doro não teve sucesso no seu empreendi-


mento. Em 175 a.C. Seleuco IV foi mor­ to. Antíoco, filho de Antíoco, o Grande, e irmão de Seleuco IV, usurpou o trono de Demétrio, filho de Seleuco IV e seu sucessor natural, e reinou de 175 a 163. Antíoco concebeu a idéia de fazer reviver os deuses do Olimpo, da Grécia, e usouos como instrumentos de unidade para o Império. Para manter a unificação do Império, era essencial que houvesse ape­ nas uma religião. Desta forma, ele deci­ diu tornar Zeus supremo outra vez. Na verdade, as estátuas de Zeus que ele erigiu têm uma semelhança marcante com Antíoco. Ele se tornou conhecido como Theos Epiphanes (Deus Manifes­ to), e exigiu que fosse contado entre os deuses. Halos encontrados em suas moe­ das confirmam essa exigência de deificação. Desde o tempo de Alexandre, o Gran­ de, até a ascenção de Antíoco Epifânio, as influências helenistas haviam penetra­ do gradualmente na Palestina. A exis­ tência de adoração helênica e festivais gregos de atletismo, moedas ostentando inscrições em grego, e emblemas de di­ vindades gregas, e mais a evidência de cidades com nomes gregos, tudo testifica desse fato. Se Antíoco IV não tivesse recorrido a métodos violentos para a helenização dos judeus palestinos, é bem provável que eles gradualmente se sub­ metessem ao helenismo de maneira pací­ fica, até os limites da possibilidade de sua aceitação. O rei sírio era um homem de impulsos violentos. Quando encontrava oposição, podia tornar-se violento e cruel. Os seus sonhos de vencer os romanos e libertar os sírios das enormes indenizações de guer­ ra herdadas do seu pai, tornaram-se-Ihe obsessão. Ele cria que a única ação que lhe cabia era forçar o povo, em todo o território sob seu domínio, a aceitar a cultura grega. Sob a direção de Jáson, que, através da influência de Epifânio, conseguiu que o seu irmão Onias III

fosse declarado sumo sacerdote, os ju ­ deus mais influentes, a princípio, enca­ raram com razoável simpatia a heleniza­ ção. A alegre aceitação de Antíoco, pelos li­ berais, começou a se desvanecer quando Jáson foi deposto e Menelau o substituiu. Durante uma expedição de Antíoco Epi­ fânio contra o Egito, Jáson liderou um ataque contra Menelau, e capturou a cidade de Jerusalém. Tendo já sido im­ pedido pelos romanos, na sua tentativa de invadir o Egito, e irado pelo em­ baraço de precisar submeter-se á autori­ dade romana, Antíoco voltou, para ter ^ sua raiva aumentada pela revolta de Já­ son. Antíoco não estava em condições psíquicas de tolerar qualquer dissenção em seu Império. Se ele tivesse alguma esperança de derrotar os romanos, preci­ sava ter absoluta unidade. Ele via que o verdadeiro problema dos judeus eram as suas crenças religiosas. Portanto, con­ cluiu que precisava engajar-se em uma política forçada de helenização, que seria completa em todos os detalhes. Antíoco decretou que os sacrifícios diá­ rios no templo deveriam cessar. Um altar a Zeus Olimpo foi erigido sobre o altar usado pelos judeus para as ofertas quei­ madas. Suínos foram oferecidos como sacrifícios no Templo, e cópias da Lei foram destruídas. A pena por possuir uma cópia da Lei ou por praticar o rito da circuncisão era a morte. Antíoco também declarou que a observância do sábado era ilegal. A maioria desses de­ cretos foi emitida no mês de Kislev (de­ zembro), de 168 a.C. A princípio houve apenas resistência passiva da parte dos judeus que se recusaram a submeter-se. Depois que a perseguição de Epifânio se tomou mais severa e muitos judeus fo­ ram condenados à morte, uma resistên­ cia ativa tornou-se inevitável. 2. A Revolta Hasmoneana, 167-142 a.C. A liderança da organização de résistência ativa surgiu na cidade de Modim, 19


perto de Lida. Ali, um idoso sacerdote, chamado Matatias, que era da linhagem de um certo Hasmom, recusou-se a rea­ lizar sacrifícios aos deuses pagãos. M ata­ tias matou um judeu apóstata e o comis­ sário do rei. Ele percebeu que era hora de agir, e convocou todos os judeus que eram zelosos pela Lei para segui-lo e aos seus cinco filhos, em uma guerrilha con­ tra os sírios. Esta revolta ocorreu em 167 a.C.. Quando Matatias morreu, a lide­ rança do movimento coube ao seu filho Judas. Depois de várias escaramuças contra as forças sírias, obtendo sucesso, Judas tomou posse de Jerusalém, com a exceção de uma guarnição chamada Akra. No vi­ gésimo quinto dia de dezembro (Kislev) de 165 ou 164, ele entrou no Templo e destruiu o altar que havia sido dedicado a Zeus. Também renovou os sacrifícios a Yahweh. Desde então, esse dia foi obser­ vado como festival anual, e continua a ser observado nos dias de hoje, pelos judeus, como o Festival de Hanukkah (Dia da Purificação). Restaurada mais uma vez a liberdade religiosa em Jerusalém, muitos dos hasi­ dim, piedosos seguidores de Judas M a­ cabeu, decidiram que aquela vitória era suficiente. Contudo, Judas não estava disposto a se acomodar com algo menos do que a independência política. E ficou ainda mais convencido disto quando os judeus de Gileade e da Galiléia apelaram a ele, pedindo ajuda. Os seus irmãos, Simão e Jônatas, responderam ao apelo desses seus compatriotas judeus, e leva­ ram-nos de volta à Judéia. Com essa adição às suas forças. Judas começou a sonhar com o poderio político. Os seus seguidores piedosos, os hasidim, opuse­ ram-se aos ambiciosos planos de Judas, e o abandonaram. A fim de manter uma força guerreira. Judas teve que recorrer à contratação de mercenários. Continuou as suas escaramuças contra o governo central, até que, finalmente, em 160, restando apenas oitocentos homens em 20

seu exército, a sua carreira chegou ao fim, na Batalha de Elasa. Jônatas, irmão de Judas, tomou-se lí­ der dos judeus depois da morte de Judas. Este foi um período em que vários rivais contenderam pelo trono selêucida, e Jô­ natas ganhou alguma vantagem política para os judeus, durante a confusão con­ seqüente. 3. Reinado dos Hasmoneanos, 142-63 a.C. Depois da morte de Jônatas, Simão, seu irmão, tornou-se o líder reconhecido dos judeus. Simão conseguiu o que era equivalente à independência política por apoiar Demétrio II, em suas pretensões ao trono selêucida. Do ano 142 ao 63, quando Roma invadiu a Palestina, a Jüdéia permaneceu como estado inde­ pendente. Depois de sete anos de rela­ tiva paz na Judéia, enquanto servia como sumo sacerdote, Simão foi assassinado, e o seu filho, João Hircano, o sucedeu. Embora Josefo, o historiador judeu, afirme que Aristóbulo, filho de João Hir­ cano, foi o primeiro rei dos judeus na linhagem hasmoneana, é claro que João se considerava como o detentor desse titulo, ao lado do ofício de sumo sacer­ dote. Durante o reinado de João Hirca­ no, um período de, aproximadamente, trinta anos (135-105), o exército judeu venceu os samaritanos e destruiu o seu templo no Monte Gerezim, em 127 a.C. Hircano forçou os idumeus a se subme­ terem à circuncisão e se tomarem judeus. Pelas suas conquistas, parece que João Hircano pretendia estender os limites da Judéia ao ponto de incluir o território ou­ trora conquistado por Davi e Salomão. Ele teve tanto sucesso, em suas campa­ nhas, que muitos dos judeus tinham a esperança de que fosse o ansiado Mes­ sias. A primeira vez que ouvimos falar de fariseus e saduceus é na época de João Hircano. Eles aparecem como partidos religiosos plenamente desenvolvidos, com opiniões conflitantes. João Hircano


apoiou os fariseus até eles expressarem oposição ao fato de ele ocupar o ofício de sumo sacerdote, e ao mesmo tempo absorver-se com a política mundana. Ele mostrou o seu ressentimento para com a autoridade deles, abolindo certos regula­ mentos religiosos que os fariseus haviam impôsto ao povo. Este foi apenas o início das hostilidades e da amargura entre os hasmoneanos e os fariseus. O clímax dessa divisão aconteceu durante o gover­ no de Alexandre Janeu. O sucessor de João Hircano foi Aris­ tóbulo, que foi rei e sumo sacerdote durante pouco mais de um ano. A sua única realização foi derrotar os galileus, a quem ele forçou a se submeterem à circuncisão e à Lei judaica. Quando ele morreu, Salomé, sua esposa, libertou os irmãos de Aristóbulo da prisão, e casouse com o mais velho, Jônatas. Este assu­ miu o nome grego de Alexandre, e foi conhecido como Alexandre Janeu. Ele foi um governante ambicioso e guerreiro, que se determinou a possuir a Palestina, de Dã até Berseba. Os fariseus se opuseram a Alexandre deste o início, porque se casara com Ale­ xandra Salomé, esposa de seu irmão. De acordo com o levirato judaico, era legal um homem casar-se com a esposa de seu irmão falecido, mas essa lei não se apli­ cava aos sacerdotes. Requeria-se que eles se casassem com virgens. Os judeus de­ monstraram abertamente a sua hostili­ dade contra Alexandre, atirando-lhe ci­ dras, enquanto ele estava oficiando, por ocasião da Festa dos Tabernáculos. Num ímpeto de ira, ele ordenou que os seus soldados atacassem o povo, e seis mil foram massacrados. Ele aumentou os seus crimes contra os judeus, crucifican­ do oitocentos fariseus, ao estes levanta­ rem uma rebelião contra ele. O único conselho sábio que Alexandre deu em sua vida, foi à sua esposa, pouco antes de morrer: aconselhou-a a fazer amizade com os fariseus. Quando Alexandra Salomé tornou-se rainha dos judeus, indicou Hircano H,

seu filho mais velho, para a posição de sumo sacerdote. Aristóbulo II, o filho mais moço, apoiou a causa dos saduceus, e esperou o tempo oportuno para lançar mão do ofício sacerdotal e do trono. Depois da morte de sua mãe, ele voltouse contra Hircano II, que voluntariamen­ te se submeteu, visto que não tinha dis­ posição favorável para o reino nem para o sacerdócio. Antípater, governador da Iduméia e conselheiro de Hircano II, não queria que ele desistisse tão facilmente, e solicitou a ajuda de Aretas II, rei dos nabateus, para empreender guerra con­ tra Aristóbulo II. A solução desse caso, coisa que eles lamentaram muito, mais tarde, aconteceu mediante a intervenção dos romanos. Desde os dias de Antíoco, o Grande, o poderio de Roma era respeitado em todo o Oriente, embora não houvesse tentati­ vas para consolidar a vitória conseguida em Magnésia, mediante conquistas. A política romana mudou no primeiro sé­ culo a.C., quando Mitridates, rei de Pon­ to, empreendeu três guerras contra Ro­ ma. Na terceira guerra, Pompeu, que previamente havia grangeado reputação, ao destruir os piratas do Mediterrâneo e ao fazer da Cilícia uma província ro­ mana, comandou as forças romanas e in­ vadiu Ponto. Completamente vitorioso, Pompeu avançou contra a Síria e, sem dificuldades, anexou-a como província romana. Quando chegou a Damasco, ele ouviu falar da luta entre Hircano e Aris­ tóbulo. Em 63 a.C. Pompeu entrou em Jerusalém e resolveu a disputa a favor de Hircano, porque ele cria que Hircano era mais fraco, e poderia ser usado para os seus objetivos. A incapacidade dos judeus de resolve­ rem as suas disputas custou caro. A inde­ pendência que eles haviam gozado desde o tempo de Siinão acabou-se com a do­ minação romana. Todos os territórios, além da Judéia, que haviam sido ga­ nhos por conquista pelos hasmoneanos, com excessão da Iduméia, foram-lhes tirados. 21


4. Governo Romano, 63 a.C. — 70 A.D. Hircano II permaneceu como o gover­ nante eclesiástico dos judeus, mas os negócios políticos do país passaram a ser dirigidos por Antípater.Foi bom, para os judeus, que tivessem um homem como Antípater para guiá-los durante os atri­ bulados anos das guerras civis romanas. Eles odiavam-no, a despeito do fato de que ele lhes havia assegurado muitos privilégios, pelo fato de agir com cautela em política, e sempre sair-se do lado dos vencedores. Desprezavam-no porque ele representava um poder estrangeiro em sua política administrativa, e também porque era idumeu. Através das guerras civis, que começaram com Júlio César e Pompeu, e terminaram com a guerra entre Otaviano e Antônio, na Batalha de Accio, em 31 a.C., Antípater e, depois da sua morte, o seu filho Herodes, foram sempre leais ao general romano que do­ minasse o Oriente. Em 42 a.C., depois da Batalha de Fi­ lipos, Herodes, que sucedeu, o seu pai como governador da Judéia, encontrouse em uma posição assaz embaraçosa. Ele havia apoiado Cássio, e — agora que Cássio e Bruto haviam sofrido derrota em batalha — precisava conseguir o apoio de Antônio e Otaviano. Isto ele foi capaz de fazer. Em 40 a.C., Herodes foi a Roma para encontrar-se com Otaviano, e obter ve o reinado da Palestina, mas não conse­ guiu estabelecer-se no trono senão no ano 37. Reinou sobre a Palestina até a sua morte, em 4 a.C.. Foi durante o seu reinado que Jesus nasceu em Belém. Herodes, o Grande, era por natureza ambicioso, explosivo, sensual e cruel; todavia, a despeito destas falhas, ele foi um rei enérgico e capaz, embora inescrupuloso. Os judeus não gostavam dele, parcialmente porque ele era idumeu, e parcialmente por causa dos impostos ex­ cessivos. Ele ficara devendo a Roma de­ vido à sua posição como soberano, e não estava disposto a permitir que os sadu­ ceus gozassem poderio secular, ao lado 22

do seu poder eclesiástico. Ocasionalmen­ te, Herodes favorecia os fariseus, porque estes eram mais inclinados a se restrin­ girem aos negócios religiosos e deixar a política para outrem. Os judeus, sob a liderança dos fariseus, desagradaram-se quando Herodes construiu um teatro em Jerusalém e encorajou adoração pagã no seu reino. No seu programa de constru­ ções, que foi extenso, ele tomou provi­ dências para a reconstrução do Templo. Os judeus receberam isto como um ato nobre. Se eles estivessem dispostos a aceitá-lo como seu rei, Herodes teria sido menos violento em suas irrupções de temperamento contra eles. Em seguida à morte de Herodes, o Grande, o seu território foi dividido entre três de seus filhos. Arquelau recebeu a Judéia, Samária e Iduméia, e ostentou o título de etnarca. Em 6 A.D. ele foi deposto. Desde esse tempo, com a exces­ são de um período de quase quatro anos (41-44), quando Herodes Agripa I foi rei, essa área da Palestina foi governada por procuradores romanos. Herodes Antipas tomou-se o tetrarca da Galiléia e Peréia. Foi responsável pela morte de João Batis­ ta, e foi durante o seu reinado que Jesus começou e continuou o seu ministério na Galiléia. Quando o imperador romano Caio Calígula indicou Agripa I, o irmão da esposa de Antipas, Herodias, como sucessor de Herodes Filipe, ele lhe deu o título de rei. A promoção levou Herodias a persuadir Antipas a- buscar a mesma honra para si próprio. Agripa não gosta­ va de Antipas, e acusou-o de negociações traiçoeiras com os partos. Calígula depôs Antipas e baniu-o para a Gália em 39 A.D. O imperador então deu como prê­ mio a região da Peréia e da Galiléia a Agripa I. A parte de Filipe, no testa­ mento de Herodes, o Grande, incluiu a Ituréia, Traconites, Gaulanites, Auranites e Panias. Ele governou sobre essas regiões até a sua morte, em 34 A.D. Quando Jesus se retirou da Galiléia e se aproximou da Cesaréia de Filipe, estava na tetrarquia de Herodes Filipe.


De 6 a 66 d.C. nada menos do que 44 procuradores foram enviados pelos impe­ radores romanos para governar a provin­ d a da Judéia. A maioria desses homens exerceu uma administração de baixa qualidade, e foi, muitas vezes, cruel no desempenho de suas funções. Admite-se que o oficio de procurador não era para se invejar, por causa da, lealdade dos ju­ deus à sua fé religiosa e à sua resistência teimosa a qualquer controle estrangeiro. Alguns dos procuradores que se nos apre­ sentam em o Novo Testamento são Pôn­ cio Pilatos (26-36), diante de quem Jesus foi julgado; Félix (51-60), que julgou a causa de Paulo; e Pórcio Festo (60-62), procurador diante de quem Paulo fez apelo a Roma. Os grupos reacionários cresceram em número a tal ponto, e os procuradores se tomaram tão mdes em sua politica, que revolta aberta contra Roma irrompeu em 66 A.D. Este levante resultou na destmição de Jemsalém e do Templo, em 70 A.D., sob o comando do general romano Tito.

II. Desenvolvimento Religioso na Palestina Durante a Era He­ lénica Sob a influência da cultura grega, e do subseqüente poderio político romano, o judaísmo, na Palestina, aos poucos, de­ senvolveu novos ensinamentos, institui­ ções e partidos religiosos. Essas novas formas de fé traziam em si a marca do contato com persas, gregos e romanos. A crença judaica em demônios e anjos, a doutrina da ressurreição dos mortos, a elaboração de escatologia apocalíptica e a adaptação da Lei à vida diária, resul­ tando em rabinismo, emergiram durante este período da história judaica. O ex­ clusivismo dos judeus não os impediu de tomarem emprestado dos gentios tudo o que podia enriquecer as suas crenças religiosas e a sua vida intelectual. Em­ bora possa ter assimilado muito das cul­ turas vizinhas, o judaísmo possuía uma

vitalidade e força que o ajudou a manter a sua essência, o seu núcleo, e o impediu de sacrificar a sua identidade. 1. Doutrinas ReUgiosas Um dos desenvolvimentos doutrinários mais importantes, no judaísmo dessa época, foi a crença na ressurreição dos mortos. Anteriormente a esse tempo, a religião de Israel fazia provisões para uma existência que continuava depois da morte, de alguma forma, mas que era uma sobrevivência que não tinha atrati­ vos para os judeus. Quando uma pessoa morria, ia para o Sheol, uma habitação subterrânea semelhante ao Hades entre os gregos. Ali ela permanecia confinada, e o seu retorno à terra era impossível. A estrada para o Sheol era uma via de mão única, um lugar de silêncio, terra de onde não se voltava. Das calorosas reali­ dades da vida aqui na terra, o homem se mudava para algo parecido com um frio e fantasmagórico tipo de existência no mundo dos mortos. Visto que esta espe­ rança de vida pós-morte carecia de vita­ lidade, a religião de Israel enfatizava a doutrina da sobrevivência através da fa­ mília. O homem continuava vivendo em seus filhos, mesmo depois de morto; por­ tanto, em verdade, a vida deles era a sua própria vida. Por isso é que era tão essencial para o judeu ter muitos filhos. Quando os judeus começaram a reco­ nhecer a importância do indivíduo fora do seu relacionamento coletivo com Is­ rael, e quando observaram que a sua justiça retribuitiva não se manifestava nesta vida, a sua fé dinâmica em um Deus justo levou-os a crer na ressurreição dos mortos. Há apenas duas afirmações explícitas deste ensino em o Velho Testa­ mento. Uma ocorre em Isaías 26:19, entranhada na última seção — de acordo com a opinião de muitos emditos — do livro de Isaías que contém os capítulos 24 a 27, mencionados como o Apocalipse de Isaías.A data desta seção de Isaías é em cerca do terceiro século a.C. A outra referência é Daniel 12:2 — que, acredita23


se, ser obra de um homem de fé na revolta dos Macabeus. Alguns eruditos dekam de lado a pas­ sagem de Isaías, porque dizem que ela fala de restauração nacional, e não de ressurreição individual. Se aceitarmos esta interpretação e desprezarmos este versículo como referência à ressurreição do indivíduo, a única passagem clara e não questionada no Velho Testamento é Daniel 12:2. O autor de Daniel enfrentou os sofrimentos dos judeus debabco da mão perseguidora de Antíoco Epifânio, e cria que aqueles que eram leais a Deus viveriam de novo. Aqueles que haviam sofrido martírio se levantariam de novo, para uma vida de felicidade na terra, enquanto os judeus e sírios apóstatas que os haviam assassinado ressuscitariam pa­ ra receber punição. Quando a doutrina da ressurreição emergiu no judaísmo, os apocalípticos foram os seus originadores, elaboradores e propagadores. Mais tarde considerare­ mos a literatura apocalíptica, mas é sufi­ ciente dizer que o livro de Daniel repre­ senta este tipo de pensamento no Velho Testamento. Especulações acerca do tipo de corpo que ressuscitaria (se físico ou espiritual), divisões da habitação tem­ porária no Sheol, e a morada final dos retos e dos ímpios, ocupou o interesse dos apocalípticos desde o período dos Maca^ beus até o segundo século d.C. A res-, surreição dos mortos se tornou um dog­ ma central dos fariseus, mas os seus ad­ versários, os saduceus, recusavam-se a aceitar a doutrina e promoveram o ceti­ cismo demonstrado em Eclesiastes. Outro ensinamento que entrou no ju ­ daísmo pela instrumentalidade dos apo­ calípticos, durante esse período, foi o papel ativo dos anjos e demônios nos negócios dos homens. Os hebreus tinham conhecimento dos anjos muito antes do Exílio, mas só quando voltaram do cati­ veiro babilónico foi que os anjos se tor­ naram realidades significativamente in­ fluentes em sua vida religiosa diária. A concepção da transcendência divina e da 24

distância em que Deus se conservava do mundo e da vida humana, notavelmente no período persa, desenvolveu-se ao pon­ to de se tornar um problema para os judeus na era helênica. Eles foram força­ dos a fazer uso dos anjos para construir uma ponte sobre o abismo criado entre eles e Deus. Os anjos, que nos dias pré-exílio eram nada mais do que mani­ festações da majestade de Deus, torna­ ram-se os canais pelos quais Deus se comunicava com o seu povo. A nova ênfase na atividade angélica na religião de Israel deve ter surgido por influência persa. Os anjos ministravam ao povo de várias maneiras. Eram guar­ diães de indivíduos e de nações, inter­ cessores em favor de homens, diante de Deus, comunicadores da mensagem de Deus a indivíduos, e participantes essen­ ciais no grande drama escatològico. Da literatura apocalíptica aprendemos que arcanjos como Uriel, Rafael, Raguel, Miguel, Gabriel, Remiel e Saraquel fun­ cionavam com atribuições específicas. Dois destes, Miguel e Gabriel, são men­ cionados em o Novo Testamento. Comparado com o Velho Testamento, a característica marcante do Novo Testa­ mento é o aparecimento de demônios e de pessoas possessas de demônios. Que valor damos aos demônios? Quando é que eles se tomaram realidades com as quais o homem precisa lutar? Encontra­ mos resposta na literatura apócrifa do período intertestamentário, especialmen­ te nas obras que são por natureza mais apocalípticas. Antes do exílio, os judeus críam que Deus era responsável por tudo o que acontecia, fosse bom ou mau. Não pensa­ vam em termos de segundas causas. Só quando aceitavam uma teoría dualista, eles entendiam que o mundo estàva nas garras do demônio. Isto lhes dava grande alívio à mente. Já não esposavam a opi­ nião de que toda opressão provinha de um Deus vingativo. O domínio temporá­ rio do mal, devido ao governo dos pode­ res demoníacos, trazia a grande maioria


dos sofrimentos e infortúnios ao povo de Deus, mas o mal nâo podia prevalecèr diante do poder de Deus. Um mito, baseado em Gênesis 6:1-4, foi usado em I Enoque e em Jubileus para explicar a origem dos demônios. Os espíritos celestiais desceram à terra e cederam à sedução das mulheres. Dessa relação antinatural, veio à existência uma raça de gigantes. Esses gigantes deram à luz espíritos malignos. A maio­ ria dos maus espíritos foi amarrada pelos anjos de Deus, mas o resto, sob o co­ mando de Mastema (Satanás) desviava os homens e Ds levava a cometer toda sorte de pecados e mal. Por fim os demô­ nios e Satanás, seu líder, serâô condena­ dos no juízo final; mas nesse ínterim é-Uies permitido continuar com as suas atividades contra os homens. Até aqui temos considerado os ensina­ mentos que foram introduzidos no ju ­ daísmo nessa época, mas agora nos vol­ taremos para uma doutrina que já estava estabelecida. É a doutrina do Messias. Com a divisão do Reino Unido, durante o governo de Roboão, pareceu que a obra de Davi e Salomão havia sido em vão. Todavia, desde aquela época, os profe­ tas do Reino do Norte e do Reino do Sul previram uma reunificação da monar­ quia, sob o comando de um descendente de Davi. Dessa esperança levantou-se um ensino a respeito do Messias. Messias significa “ungido” . A palavra havia sido usada na história de Israel para indicar a autoridade e relação ínti­ ma do profeta, do sacerdote e do rei a Yahweh. Na segunda metade do primeiro século a.C., Messias havia-se tomado um termo técnico, relacionado com um des­ cendente de Davi. Na época helênica, alguns dos judeus centralizaram as suas esperanças em um Messias davídico, enquanto outros se preocupavam mais com uma Idade de Ouro no futuro, e nâo enfatizavam a importância de um líder para realizar esses ideais. Eles ansiavam por um pe-

riodo de independência e poder, paz e prosperidade, retidão e piedade, justiça e amor fratemal entre os homens. Muitos dos apocalípticos que criam que Yahweh interviria na história e aliviaria o povo da opressão nâo estavam interessados em um messias, de forma alguma. Alguns poucos dos apocalípticos esperavam uina espécie de figura super-humana, que tra­ ria julgamento sobre o mundo, junta­ mente com Deus, como é evidenciado por IV Esdras, I Enoque e II Bamque. Os judeus que esperavam um messias nâo tinham nenhuma idéia de que o Messias iria sofrer. Ninguém que não fosse um homem de extraordinário po­ derio militar poderia cumprir as suas esperanças e aspirações de restauração nacional. Além do mais, nâo há evidên­ cia de que eles esperassem nada nem ninguém mais do que um homem, como messias. É bem verdade que havia idéias vagas de uma figura super-humana, como já notamos, mas as esperanças ju ­ daicas comuns se focalizavam em um ho­ mem. Nâo é preciso dizer-se que Jesus não preenchia as suas noções preconcebi­ das do Messias, visto que o padrão de avaliação que possuíam era errado. Os escritos apocalípticos continham e enfatizavam os ensinos que examinamos até agora. O pensamento expresso pelos autores dessas obras formava um ele­ mento definido no judaísmo, contudo, não é claro o quanto a sua influência era disseminada. Algumas das idéias religio­ sas eram aceitas pelos fariseus, e imiscuíram-se na literatura rabínica. Talvez os escritos eram mais populares entre o povo da terra do que entre os líderes religiosos. A literatura apocalíptica sur­ giu de uma preocupação pelas profecias que restavam sem cumprimento, do Ve­ lho Testamento. Fez-se uma tentativa para racionalizar e sistematizar o lado preditivo da profecia. Por outro lado, os escribas e seus sucessores, os rabis, en­ fatizaram a importância dos mandamen­ tos de Deus encontrados na Lei e nos Profetas. 25


A literatura apocalíptica era tão varia­ da, que é impossível apresentar carac­ terísticas que se apliquem a todos os escritos. Os eruditos que são especialistas nesta área têm estabelecido algumas ca­ racterísticas, que consideraremos. A maioria dessas obras era pseudônima. Os autores assumiram o nome de um perso­ nagem importante do passado, para dar autenticidade à sua mensagem. A ati­ vidade profética cessou quando os escri­ bas reivindicaram sucessão profética através da interpretação da Lei. Portan­ to, se um homem dotado de percepção espiritual sentisse o chamado para pro­ clamar uma mensagem, da parte de Deus, ele era restringido pela autoridade dos escribas. Tornou-se necessário, para os apocalípticos, nessas circunstâncias, apresentar o que haviam escrito como sendo da lavra de Moisés, Esdras, Eno­ que, ou outros. Além de serem pseudônimas, essas obras apresentavam uma visão determi­ nada, dualista e pessimista da história. O verdadeiro conflito entre o bem e o mal teve como palco os céus, nas alturas. As forças de Deus enfrentavam as forças de Satanás, em batalha. Deus era vitorioso nos céus, e isso determinava o resultado da luta entre o homem e as forças demo­ níacas, na terra. O mundo presente era tão mau que não tinha emenda. O ho­ mem, mesmo tendo o poder de Deus do seu lado, era incapaz de efetuar quais­ quer mudanças para melhor na socieda­ de de que fazia parte. Toda vida estava podre, e se tornaria progressivamente pior. Todavia, com esse pessimismo, os apocalípticos tinham um otimismo. Criam que Deus por fim intçrviria nos negócios dos homens e limparia o mun­ do. Um elemento ulterior dos antecedentes religiosos, embora não seja estritamente uma doutrina, merece consideração. A lei oral, que se desenvolveu desde a época de Esdras até a sua codificação, sob o comando de Judas ha-Nasi, no fim do segundo século d.C., teve um papel im­ 26

portante no judaísmo. Esdras e uma classe de copistas profissionais e mestres da lei que o seguiram eram responsáveis por este corpo de tradições. A princípio esses escribas eram sacerdotes, porém mais tarde levantou-se um grupo leigo que estudava a lei e se tornou seu intér­ prete oficial. Eles transformaram a Lei de um documento escrito que estava per­ dendo a influência, em uma revelação contínua, que acertava o passo com as mudanças da sociedade. Esses escribas se impuseram a tarefa de expor a Lei, a fim de descobrir a vontade de Deus. A princípio, esta classe de expositores deduzia, da exegese das Escrituras, as regras que se aplicavam aos casos para os quais nenhuma provisão doutrinária ha­ via sido feita. Posteriormente, as regras e regulamentos foram feitos sem nenhuma base escriturística. Se o povo se tornava obediente à Lei precisava saber a ma­ neira exata de cumpri-la. Os escribas procuravam essa maneira exata. A lei oral estava em constante estado de de­ senvolvimento. Ela era adaptada, modi­ ficada e expandida de época em época, para satisfazer as necessidades práticas do povo. A tradição não escrita passou à forma escrita e foi conhecida como Mish’ nah. O Mishnah, por sua vez, era inter­ pretado e resultou nos Talmudes palesti­ no e Babilónico. Repetidamente, nos Evangelhos, notamos que Jesus entrou em choque com a “tradição dos an­ ciãos.” Isto significa que ele se opôs à autoridade dada à lei oràl pelos fariseus. 2. Instituições Religiosas Antes de os selêucidas começarem a reinar sobre a Palestina, não há indica­ ção clara de que os judeus tivessem algu­ ma instituição religiosa além do Templo. Depois dessa época, duas instituições vie­ ram à existência, e ambas fizeram contri­ buições significativas para o estabeleci­ mento do judaísmo rabínico. Uma dessas instituições foi a sinagoga. De acordo com Josefo e Philo, a sinagoga originou-se com Moisés. Não há nenhu­


ma autoridade verdadeira para determi­ nar a antiguidade da sinagoga. Os argu­ mentos para a sua origem variam do tempo de Josias ao primeiro século a.C. Existiam sinagogas, no tempo do Novo Testamento, por toda a Palestina, e onde quer que houvesse comunidades judai­ cas. Desta forma, estamog certos de que elas surgiram antes da era cristã. Parece que um início mais provável seria pouco antes da revolta hasmoneana. A sinagoga era um lugar de adoração e estudo. Tomou-se um elo vital entre os fariseus e o povo. Ali os expositores da Lei podiam instrair o povo nos regula­ mentos que governavam a sua conduta em todas as facetas da vida. Para fazêlo, eles não apenas expunham a Lei es­ crita, mas também transmitiam regras (halakoth) da lei oral. Alguns peritos e estudiosos crêem que os fariseus usavam a sinagoga como veículo para desacostu­ mar os judeus de adorar no Templo. Isto é bem possível, visto que o judaísmo, sob a direção farisaica, continuou a florir sem o templo, depois de 70 A.D. A gerência da sinagoga era exercida por um corpo de anciãos. Um governante era indicado, e a sua função era manter a disciplina. Ele também escolhia o orador para o culto do sábado. Um atendente (hazzan) encarregava-se de cuidar do edifício e das cópias das Escrituras. Pa­ rece que, além disso, ele tinha a respon­ sabilidade de ensinar na sinagoga. Uma segunda instituição que conside­ raremos era o Sinédrio. Embora fosse um sistema judiciário dos judeus, era uma organização religiosa. Os judeus não dis­ tinguiam entre vida civil e religiosa. T oda a vida era religiosa. Muita dúvida ainda resta quanto à origem, método de seleção de membros, número de membros e fun­ ções do Sinédrio. Os rabis costumavam jactar-se da sua antiguidade, e diziam que ele foi uma continuação do conselho dos 70, em Números 16:16. Provavel­ mente, surgiu no período de Antíoco, o Grande, e era conhecido naquela época como gerousia.

Os relatos rabínicos não concordam com Josefo e com o Novo Testamento em relação aos membros que compunham essa corporação. De Josefo e do Novo Testamento recebemos a noção de que os principais dos sacerdotes, escribas e an­ ciãos eram os administradores da justiça, e o sumo sacerdote era quem convocava as sessões. No Mishnah descobrimos que os cabeças da Grande Corte (Beth Din ha-Gadúl) eram fariseus, e que todos os membros pertenciam àquele partido. Se­ rá que os relatos rabínicos refletem o Beth Din em Jabne depois de 70 A.D., ou será que eles dão um relato exato da composição dessa corporação judicial nos dias anteriores à destmição do Tem­ plo? A decisão é difícil de fazer. Havia cinco tipos diferentes de cortes, no sistema do Sinédrio. A tradição sus­ tenta que a Corte Suprema se assentava no Pátio da Pedra Lavrada, no Templo. Essa corte tinha jurisdição sobre os negó­ cios tribais, os falsos profetas, e sacer­ dotes. Tinha autoridade de sentenciar à morte, com um quorum de 23 membros. E também, da tradição rabínica, parece que essa corporação tinha o poder de legislar acerca de regras de conduta para todos os judeus. 3. Partidos Religiosos De acordo com Josefo, havia quatro seitas no judaísmo do primeiro século d.C. Havia os saduceus, fariseus, essê­ nios e zelotes. Todos estes, com a exces­ são dós essênios, são mencionados no Novo Testamento. Os saduceus ganha­ vam em número, mas os fariseus tinham a maior influência sobre o povo. A ori­ gem desses partidos permanece na obs­ curidade. Contudo, já observamos que os fariseus e saduceus eram partidos religiopolíticos poderosos e fortemente estabe­ lecidos iw tempo de João Hircano. Os ^tariseu^ eram, provavelmente, os sucessorès dos hasidim, judeus da revolta hasmoneana que preferiram morrer a violar a Lei e a tradição dos anciãos. A 27


palavra “fariseus” em hebraico e aramai­ co significa “ separados” . Todavia, a questão que enfrentamos é: de que ou de quem eram eles separados? Várias opi­ niões têm sido expressas quanto a este assunto. A melhor sugestão é que o nome lhes fora dado pelos seus inimigos, os saduceus, porque eles se separavam do controle sacerdotal, e procuravam obter o seu próprio poderio. Isto parece prová­ vel, visto qire há bem poucas referências aos fariseus na literatura tanaitica. Os fariseus se consideravam sucessores dos profetas. A sua luta com os saduceus era a antiga luta entre profeta e sacer­ dote. Na aparência religiosa, eles eram mais liberais e mais progressistas do que os seus rivais. Os fariseus tentaram as­ sumir o controle do culto e remover dele todas as abjetas superstições que se ha­ viam acumulado durante os séculos. Sen­ tiam que eram responsáveis, como lí­ deres leigos, por transmitir a tradição oral, iniciada pelos escribas, e por fim tornaram esse corpo de tradições equi­ valentes em valor à Lei escrita. Quanto às crenças, esse partido se apegava à ressur­ reição dos mortos, à existência de anjos e espíritos, à divina Providência nos negó­ cios dos homens e do mundo, e à ex­ tensão da autoridade escrita para incluir os Profetas, Escritos e a tradição oral, em adição ao Pentateuco. Os saduceus se ocupavam com a busca do poderio político, a administração do Templo e a preservação do ritual. Con­ corda-se, geralmente, que o seu nome derivou de Zadoque, que fora sumo sa­ cerdote durante o reinado de Salomão. Os saduceus davam pouca importância a qualquer outra parte do Velho Testa­ mento, a não ser a Lei. Desta forma, não tinham disposição para compartilhar das expectativas messiânicas encontradas nos Profetas e nos Escritos, bem como da ressurreição dos mortos, baseada no livro de Daniel. Além do mais, em oposição aos fariseus, não criam na existência de anjos e espíritos. Como os saduceus con­ ciliavam tal descrença com as repetidas 28

alusões a anjos no Pentateuco? Pode ser que eles contrapusessem uma elevada­ mente desenvolvida angeologia e demonologia. Contrariamente aos fariseus, este partido advogava o livre arbítrio, ao invés da Providência. Um terceiro grupo sectário no judaís­ mo do primeiro século d.C. disseminouse na Galiléia, de um pugilo de revolu­ cionários. Eram conhecidos como os ze­ lotes. O fundador do movimento. Judas Galileu, era filho de Ezequias, a quem Herodes executara em 47 a.C. Judas comandou uma rebeUâo contra Roma, quando Quirino, legado da Síria, tentou fazer um recenseamento da Palestina em 6 a.C. Mais tarde, os zelotes se tornaram seguidores de João de Giscala. João foi um dos líderes da revolta contra Roma em 66 d.C., que terminou na destruição de Jerusalém. O intenso espírito nacionalista dos partidários dessa seita não lhes permitia o reconhecimento de qualquer governan­ te sobre eles, a não ser Deus e o seu Messias. Os zelotes lutavam por um rei­ no puramente judeu, com o Messias co­ mo o cabeça da nação. Esses chamados patriotas advogavam guerra até o último alento contra qualquer poderio estran­ geiro sobre a terra da Palestina. É in­ teressante notar que Simão, o zelote, foi um dos discípulos de Jesus. A última seita do judaísmo — conhe­ cida dos escritos de Josefo, Filo e Plínio, o Velho, e mais recentemente dos rolos do Mar Morto e das escavações da co­ munidade de Qumram — algumas vezes tem sido chamada “ os hasidim segre­ gados” . Este partido sectário era o dos essênios. Eles viviam em irmandades co­ munais disciplinadas e requeriam que os seus membros passassem por períodos de preparação durante três anos, antes de serem finalmente admitidos às refeições comunais. Os essênios não participavam dos rituais sacrificiais do Templo, mas observavam escrupulosamente o sábado. Tinham elevada estima pela Lei, e, se­ gundo Josefo e as descobertas perto de


Qumram, sabemos que eles aceitavam os livros do Velho Testamento, menos o Pentateuco, além de escritos apócrifos. O seu ensino da imortalidade da alma indica uma afinidade com o pensamento grego. Um grupo da seita se opunha ao casamento, enquanto outro o favorecia, ã fim de ter filhos como recrutas para a comunidade. Um dos líderes da comunidade era conhecido como o Mestre da Justiça. Ele sofreu às mãos de um sacerdote e go­ vernante ímpio. O título de sacerdote e governante ímpio pode referir-se a Ale­ xandre Janeus. Dos rolos do M ar Morto depreende-se què a comunidade esperava um messias que representaria a dinastia sacerdotal e real em um contexto escatológico.

III. Os Judeus da Diáspora A grande maioria dos judeus vivia fora da terra da Palestina. De, aproximada­ mente, cinco milhões de judeus que ha­ bitavam o mundo no primeiro século d.C., quatro milhões deles eram conheci­ dos como a Diáspora. Antes do período helênico, os judeus viviam na Babilônia, Pérsia e Egito. Representavam os des­ cendentes daqueles que não desejaram voltar para a Palestina quando se lhes foi dada oportunidade. Depois da conquista de Alexandre, o Grande, ju ­ deus emigraram para todas as partes do mundo civilizado. A maioria deles se mu­ dou para o Ocidente e se estabeleceu em centros de civilização grega, principal­ mente por causa da maior liberdade que lhes foi outorgada. Alexandria, no Egito, se tornou o cen­ tro mais importante do judaísmo helenis­ ta. Quando Alexandre fundou a cidade, permitiu que os judeus tivessem direitos iguais aos dos gregos, mas é improvável que, em qualquer período, eles tenham gozado plenos direitos como cidadãos. Alexandria era dividida em cinco distri­ tos, e dois desses distritos eram conhe­ cidos como bairros judaicos, visto que os seus habitantes eram principalmente ju ­

deus. As Escrituras Hebraicas foram tra duzidas para o grego nesta cidade, du rante o governo de Ptolomeu Filadelfo Essa tradução foi valiosa para os judeus visto que a sua língua agora era o grego mas tornou-se mais importante como meio de comunicar a fé de Israel aos seus vizinhos pagãos. De acordo com Filo, havia sinagogas em todas as partes da cidade. Filo, contemporâneo de Jesus, viveu em Alexandria, e a sua influência na cidade era tremenda. Através das suas obras apologéticas e sua interpretação alegórica das Escrituras, ele foi capaz de apresentar o judaísmo de forma que não era tão sujeito a objeções para o mundo pagão. Os judeus helenistas permaneceram leais a Jerusalém. Pagavam o seu impos­ to do Templo, e, quando possível, iam às festas. A sinagoga era a base da sua religião. Continuavam a adorar no sába­ do, e praticavam o ritual da circuncisão. A maioria deles observava fielmente os requisitos da Lei e os costumes de sua religião. Visto que os judeus helenistas estavam separados da vida religiosa da Palestina, não contavam com a vantagem da interpretação jurística da Lei, para mostrar-lhes como adaptar a Lei às con­ dições transitórias da vida. Era-lhes es­ sencial entrar em contato com o mundo pagão. Adotaram a língua gentia, assis­ tiam aos seus festivais públicos, freqüen­ tavam seus locais de diversões, uniam-se aos seus sindicatos, participavam de ne­ gócios com eles, e aprenderam algo da filosofia grega e da lei romana. Quando os judeus helenistas iam à terra natal, os seus compatriotas judeus da Palestina questionavam a sua pureza. O contato com o mundo gentio significava, para estes, uma transigência quanto à sua fé religiosa. A religião dos judeus tinha fortes atra­ tivos para os pagãos, que se sentiam atraídos para o judaísmo por causa do seu estrito monoteísmo, sua antiquíssima literatura, a salvação mediante a obser­ vância da Lei, a adoração democrática, o 29


universalismo, a adoração no sábado, e ideais éticos elevados. O zelo missionário dos judeus, em vários países, agregou muitos gentios ao aprisco do judaísmo. Para tornar-se judeu, o gentio precisava submeter-se a um banho purificador do prosélito, ser circuncidado e fazer um sa­ crifício no Templo. Mais tarde, quando o apóstolo Paulo fez as suas viagens às cidades do Império Romano e pregou aos gentios, foi capaz de edificar sobre o fun­ damento que já havia sido lançado pelos judeus helenistas.

IV. Características Gerais Mundo Greco-romano

do

Gilbert Murray caracterizou esse pe­ ríodo da história como “o fracasso do vigor” . Não obstante, esse fracasso do vigor, que permeou toda a vida, foi o instrumento para produzir uma reação positiva às boas-novas anunciadas pelos cristãos nos dois primeiros séculos da nossa era. Durante esse período, o homem médio foi vencido pelo rápido avanço da his­ tória, Velhos sistemas, tradições e lealdades foram varridos da cena, O povo se rebelou contra a tirania do patriotismo. Os gregos foram libertados da sua lealda­ de à cidade-estado, e os cidadãos das terras do Oriente cortaram a sua conexão com o despotismo. Em Roma, líderes ambiciosos reuniram um grupo de segui­ dores, e começaram a lutar entre si, pelo poder, Isso levou a guerras civis. O Es­ tado, que outrora explorava o indivíduo, agora era objeto de exploração, O patrio­ tismo nacional deu lugar ao cosmopoli­ tismo, Os homens se tornaram cida­ dãos do mundo, O povo perdeu a fé nos seus deuses ancestrais, O individualismo afirmou-se através da arte, da literatura, da política, da sociedade, da morahdade e da religião, Foi uma época de mudança e de sublevação. As mudanças trouxeram consigo um sentimento de insegurança para as massas. Tornou-se cada vez mais difícil, para elas, ajustarem-se a essa nova ordem de vida. 30

A expansão do Império Romano levou ao aumento do número de escravos. Este aumento produziu significativos efeitos econômicos e morais sobre a sociedade. O trabalho forçado, sendo muito mais barato, reduziu a demanda de homens livres, e também baixou o coeficiente de pagamentos. O desemprego cresceu de maneira irrestrita nas cidades, e a con­ seqüente ociosidade ocasionou uma vida de crimes e imoralidade. Os escravos, muitos dos quais no passado haviam go­ zado de liberdade, vingaram-se dos seus senhores, corrompendo a sua moral. As duas escolas de filosofia popular que influenciaram a vida dessa época foram os epicuristas e os estóicos, Estas duas filosofias eram práticas em seus alvos, Para algumas pessoas, elas ofere­ ceram horizontes de esperança, num mundo mergulhado em desordem. Para os epicuristas, o maior bem da vida era o prazer. A sua definição de prazer não era equivalente à noção dos hedonistas em relação à satisfação posi­ tiva, mas, pelo contrário, um prazer pro­ vindo da ausência de dor, de paixões perturbadoras e de temores supersticio­ sos. Visto que o medo era a causa da dor, especialmente o medo dos deuses e o medo de punição depois da morte, eles rejeitaram a imortalidade, e ensinaram que os deuses não se preocupavam com os negócios dos homens. O dever do homem, de acordo com os estóicos, era harmonizar a sua vontade com a vontade universal, chamada razão ou alma do mundo. Pessoa virtuosa era a que compreendia o que a razão requeria dela, e moldava a sua vida de acordo com o padrão. Os estóicos também ensinavam que todos os homens eram iguais, pelo fato de possuírem uma centelha divina, Quando um homem morria, essa cpnteIha divina voltava para a alma do mun­ do. Uma segunda perspectiva de esperan­ ça vinha dos cultos de mistério grecoromanos. Contatos crescentes entre o Oriente e o Ocidente acarretaram um


sincretismo de religiões. Os velhos mis­ térios gregos se misturaram com as seitas orientais, e apresentaram algo novo, que atraiu pessoas de todas as camadas so­ ciais. Essas seitas apresentavam uma mensagem satisfatória acerca do sofri­ mento, respondiam ao anelo pela imorta­ lidade, prometiam comunhão com o deus da seita, ofereciam um caminho de sal­ vação e apresentavam uma religião pes­ soal. Como os anteriores mistérios eleusinianos e orféicos, tinham os seus ritos secretos, doutrinas esotéricas e rituais de iniciação. Da Ãsia Menor veio a adoração da Magna Mater e do deus consorte, Ãtis. Introduzida em Roma já em 204 a.C., esta religião se tornou firmemente esta­ belecida ao tempo de Augusto. A religião dos mistérios de Isis e de Osiris teve origem no Egito. Durante o reinado de Ptolomeu I, a seita foi assimilada com o velho mistério eleusiniano. A estátua de Pluto foi removida de Sinope, em Ponto, e levada para Alexandria, onde recebeu o novo nome de Serápis. Desde esse tempo, a religião foi conhecida como a de ísis e Serápis. Isis, com o seu deus consorte, Serápis, foi introduzida na Itália no se­ gundo século a.C., porém, mais tarde, tanto Augusto como Tibério resistiram a essa forma de adoração. A reUgião de^ mistério que se tornou a maior rival do cristianismo foi o mitraísmo. Ela surgiu na Pérsia e se espalhou em direção ao Ocidente, depois da queda do Império Persa. Plutarco diz que o mitraísmo foi levado à Itália por soldados romanos que haviam sido iniciados nessa religião pelos piratas cilicianos, em 63 a.C. Uma terceira perspectiva de esperança foi encontrada no astralismo. Com a rápida ascenção e queda de governantes e reinos, os homens começaram a engen­ drar a noção de que o acaso ou o destino controlava os seus negócios ou o seu des­ tino. A religião astral tem sido classifi­ cada como uma “ teologia científica do paganismo em decadência” , que se de­ senvolveu como “superstição erudita” .

Os que seguiam essa religião criam que as estrelas determinavam o curso dos eventos humanos. Isto criava uma sensa­ ção de incapacidade, e ninguém podia planejar o seu futuro. Portanto, manei­ ras de aplacar as forças das regiões pla­ netárias eram procuradas. A princípio o astralismo foi aceito apenas pela classe dominante, mas não muito tempo depois tornou-se uma opção livre para as mas­ sas. Idéias astrais imiscuíram-se no estoi­ cismo, no hermeticismo e no gnosti­ cismo. Duas outras religiões que se dissemi­ naram no mundo greco-romano mere­ cem a nossa atenção. Uma foi o gnosti­ cismo, uma religião filosófica eclética, tirada ou derivada do zoroastrismo, da religião babilónica, da filosofia e religião gregas, do cristianismo e da astrologia. Todos os gnósticos não tinham a mesma crença, mas todos declaravam que um dualismo radical governava as relações de Deus com o mundo da matéria. A natureza espiritual do homem derivava de um ser divino. Esta natureza espiri­ tual havia decaído do mundo da luz para as trevas. O espírito humano, aprisiona­ do na matéria, podia ser liberado e res­ taurado ao ser divino tão-somente com a aquiescência voluntária de um ser que era igual ou superior ao homem. A sal­ vação era operada pelo conhecimento, não pela compreensão intelectual, mas por um dom sobrenatural de iluminação da mente humana. Através desse conhe­ cimento, uma pessoa podia encontrar o seu caminho de volta a Deus. A outra religião era a adoração presta­ da ao imperador. Os imperadores roma­ nos, desde a época de Augusto, reinvindicavam a divindade, seguindo o exemplo de Alexandre, o Grande, e Antíoco Epi­ fânio. Caio Calígula foi o primeiro gover­ nante do Império Romano a exigir hon­ ras próprias de divindade, da parte dos seus súditos, mas morreu antes de poder forçar o povo a se submeter. A reinvidicação aberta do fato de ser um deus, e 31


a exigência de adoração à sua pessoa, surgiu com Domiciano. As muitas religiões dessa era refletem algo da inquietação espiritual e da gran­ de confusão das mentes humanas. Eles estavam procurando alguma nova espe­ rança, e uma razão para viver em um mundo vazio de significado e de esperan­ ça. Dentro do pensamento filosófico e religioso da época, havia certas tendên­ cias que estavam preparando o mundo para receber a revelação de Deus em Cristo.

V. Conclusão Deste breve estudo dos antecedentes religiosos e culturais do Novo Testamen­ to, podemos facilmente ver que o povo estava preparado pelas condições da épo­ ca para escutar a proclamação da fé cris­ tã. Numa época quando os homens es­ tavam procurando unidade através de um só império, uma só linguagem, uma só civilização, um só salvador, o cristia­ nismo veio à existência e deu uma espe­ rança que era desesperadamente neces­ sária para todos os homens. O nosso interesse nas religiões dessa época existe não tanto porque eram sin­ tomáticas de emoções espirituais às quais o cristianismo podia apelar. Pelo con­ trário, o nosso interesse são as semelhan­ ças notáveis, tais como o novo nascimen­ to, a união do adorador com a divin­ dade adorada, batismos, e uma comu­ nhão com a divindade. Não obstante, em meio a essas semelhanças entre o cris­ tianismo e as religiões da época, havia uma diferença notável: as religiões de ministério, fundamentadas em figuras nebulosas e místicas, não tinham base histórica. O movimentei cristão estava firmemente alicerçado em uma pessoa

32

histórica, Jesus Cristo, cuja vida e ensi­ nos eram suficientemente bem conheci­ dos através das tradições dignas de con­ fiança transmitidas por testemunhas também dignas de confiança. O cristianismo deu o que o mundo mais necessitava: um Deus que se preo­ cupava com o homem a tal ponto que se dispôs a sofrer por amor a ele; um Deus capaz de vencer o mal e a morte; um Deus que é Pai e Redentor; um Deus que é perfeita verdade e perfeito amor. A afi­ nidade humana com a vida histórica e a morte de Cristo sobrepujou grandemente a afinidade humana com as seitas orien­ tais.

Leitura Suplementar BRANDON, S.G.F. Jesus and the Zea­ lots. Manchester University Press, 1967. BULTMANN, Rudolf. Primitive Christianisty. Traduzido por R. H. FUL­ LER. New York: Meridian Books, 1957. GRANT, FREDERICK C. Roman Hel­ lenism and the New Testament. New York: Charles Scribner’s Sons, 1962. DANA, H.E. O Mundo do Novo Testa­ mento. 3® edição. Rio de Janeiro, JUERP, 1981. HERFORD, R. T. The Pharisees. Lon­ dres: George Allen & Unwin, 1924. PFEIFFER, ROBERT H. History of New Testament Times. New York: Harper & Bros., 1949. ROWLEY, H.H. Relevance of Apoca­ lyptic. Edição nova e revisada. New York: Association Press, 1963.


Texto e Cânon do Novo Testamento James A. Brooks A maioria dos leitores não leva em conta nem o fraseado nem o conteúdo do Novo Testamento. Arraigados profunda­ mente na história cristã, entretanto, es­ tão os problemas críticos de texto e de cânon. Estes problemas foram mais agu­ dos durante os primeiros séculos do que hoje, mas até hoje a certeza de que o texto e o cânon corretos foram determi­ nados precisa preceder o próprio estudo do Novo Testamento. O problema do texto surge porque nenhum dos manuscritos ou autógrafos originais sobreviveu, e por causa da exis­ tência de cópias que diferem umas das outras. Dos mais de cinco mil manuscri­ tos gregos que têm sido estudados, não há dois que sejam exatamente iguais! Portanto, não é coisa simples traduzir do grego para o português ou para qualquer outra língua raoderna. Primeiramente, precisa ser feita uma tentativa de se res­ taurar o texto original do Novo Testa­ mento. A ciência literária que tenta fazer isto é conhecida como crítica textual. O problema do cânon emerge do fato de que os vinte e sete livros que agora constituem o Novo Testamento não fo­ ram os únicos livros de tipo bíblico que foram escritos pelos primitivos cristãos. Durante o segundo, terceiro e quarto séculos, dezenas de evangelhos, atos, qjístolas e apocalipses competiam, bus­ cando reconhecimento. Pelo menos meia dúzia de livros, que por fim acabaram nào fazendo parte do Novo Testamento, foram reconhecidos em uma época ou em outra como canônicos, por alguns cris­ tãos, mesmo em círculos ortodoxos. Da mesma forma, a canonicidade de seme­ lhante número de livros, que agora fazem

parte do Novo Testamento, foi seriamen­ te questionada em dada época, por certos cristãos. Portanto, não era evidente por si mesmo que livros. J[ariam parte do cânon, ou mesmo se iria haver um cânon do Novo Testamento. Mais tarde a igreja foi forçada a escolher que livros ela iria aceitar como tendo autoridade.

O Texto A história do texto começa com a es­ crita de cada livro do Novo Testamento e continua até o tempo presente.

I. Era do Texto Manuscrito (Anterior a 1514) 1. Período da Divergência de Manuscritos (Séculos II e III) A maior parte dos livros do Novo Tes­ tamento começou a ser copiada pouco depois de ter sido escrita. O processo de copiá-los depressa resultou em inúmeras variações do texto. Cada novo manuscri­ to apresentava variações adicionais, de forma que durante esse período os ma­ nuscritos divergiram cada vez mais do original, e um dos outros. É bem reve­ lador que a maior parte das formas va­ riantes conhecidas hoje em dia pareça existir desde o ano de 300 d.C. Vários fatores funcionaram para pro­ duzir variações. Através do periodo, o Novo Testamento geralmente era copia­ do por escribas amadores, ao invés de profissionais, e essas pessoas eram es­ pecialmente susceptíveis a cometer erros. Portanto, muitos erros eram acidentais. Outras leituras variantes foram delibera­ damente introduzidas por escribas que pensavam que estavam corrigindo um 33


erro anterior, ou que pensavam que es­ tavam sendo dirigidos por Deus para expressar a mensagem de outra maneira. Escribas ortodoxos tanto quanto heréti­ cos foram culpados de tais práticas. Ou­ tro fator que produziu variantes foi a perseguição. A destruição de manuscri­ tos, feita por atacado, impediu o estabe­ lecimento de uma tradição textual está­ vel. É também provável que a elaboração de traduções, que começaram por volta do ano 200, e a prática comum dos es­ critores da cristandade primitiva, de ci­ tar livremente de memória, produziram leituras variantes adicionais. Só um pequeno número de manuscri­ tos sobreviveu do período anterior ao ano 300. Comparativamente poucos foram produzidos, e muitos desses foram des­ truídos durante as perseguições. Outro fator é que os manuscritos desse período foram escritos em papiro, material de escrita semelhante ao papel, e altamente perecível, que era manufaturado de uma espécie de junco que cresce no delta do Nilo, no Egito. 2. Período de Convergência de Manus­ critos (Séculos IV e Vni) Durante este período, a tendência an­ terior de divergência foi revertida, e uma quantidade maior de concordância tex­ tual começou a ser atingida. De longe, a razão mais importante para a mudança foi a ausência de perseguição. As novas condições do cristianismo resultaram em aumento do nível econômico, crescimen­ to da cultura e aumento da autoridade eclesiástica. Estas coisas levaram indire­ tamente a uma preocupação maior por um texto exato. A convergência de manuscritos é discernível devido ao surgimento de famílias-textuais, isto é, grandes grupos de manuscritos que tinham muito em co­ mum. A origem das famílias-textuais dede, provavelmente, ter acontecido com os textos locais que começaram a aparecer por volta do ano 200. Era normal que tais manuscritos, circulando em uma dada 34

região, tivessem mais em comum uns com os outros do que com os manus­ critos que circulavam em outras regiões. Quatro famílias-textuais foram identi­ ficadas. A mais antiga é a do texto Oci­ dental, que, a despeito do nome, não se confinava a nenhuma região geográfica em particular. Contudo, mais e mais os críticos textuais contemporâneos ques­ tionam se o que foi chamado de texto Ocidental merece o “status” de famíHatextual. Os seus representantes são com­ parativamente poucos em número e care­ cem de homogeneidade. Parece que o chamado texto Ocidental é realmente o texto popular, descontrolado, dos séculos II e III. Por esta razão, os críticos tex­ tuais contemporâneos não têm muita consideração pelo texto Ocidental, a des­ peito da sua grande antiguidade. Bem diferente é o caso da família-textual representada pelo texto alexandrino. Ele é, aproximadamente, tão antigo quanto o texto Ocidental, e parece ser o resultado de uma tentativa editorial de­ finida, que durou vários séculos, para restaurar o texto original. O texto ale­ xandrino é geralmente considerado a me­ lhor famíHa-textual. Todavia, precisa ser observado que, embora o texto alexan­ drino represente uma tentativa erudita para restaurar o texto original, ele não é o texto original, e não é correto em todos os casos. Por esta razão, os críticos tex­ tuais contemporâneos recusam-se a limi­ tar-se a uma dada família-textual, mas empregam o que é conhecido como mé­ todo eclético. A família-textual representada pelo texto Cesariano tem sido identificada apenas com os Evangelhos. Por esta ra­ zão, e porque os seus representantes, de alguma forma, carecem de homogenei­ dade, é duvidoso se ele pode adequada­ mente ser considerado como uma família-textual. O texto Bizantino é, inquestionavel­ mente, o menos antigo e o pior dos qua­ tro tipos. Ele aparece pela primeira vez na versão gótica (século IV), nos ensinos


de João Crisóstomo (morto em 407) e no Códice Alexandrino (século V). Só o fato de ser menos antigo, entretanto, não prova a sua inferioridade. Prova conclu­ siva de que o texto Bizantino não repre­ senta o original é vista no seu costume de combinar leituras variantes anteriores. Embora o papiro continuasse a ser usado por vários séculps, a maior parte dos manuscritos produzidos durante esse período e o seguinte foi escrita sobre pergaminhos ou velos, material de escrita mais durável, feito de peles de animais. 3. Período do Texto Estandardizado (séculos IX a XVI) Durante a primeira metade do período anterior, o texto Bizantino era nada mais do que uma dentre muitas famílias-textuais. Durante a segunda metade daque­ le período, ele se tornou cada vez mais o texto dominante, e por volta do século IX, havia desalojado completamente os outros textos. Como foi que esse texto menos antigo e inferior prevaleceu sobre os outros? A resposta é simples. Ele ven­ ceu por omissão. O uso da língua grega nos círculos cristãos da parte ocidental do Império Romano já havia começado a dar lugar ao latim, antes dessa região passar a ser possuída pelos bárbaros, no século V. Durante o século VII e os seguintes, exércitos maometanos devas­ taram grande parte do mundo civilizado e destruíram o cristianismo nessas re­ giões. No entanto, Constantinopla foi capaz de sobreviver até 1453. Embora fosse o único centro importante de cultu­ ra grega, durante a maior parte da Idade Média, o que era originalmente o seu texto local tornou-se o tipo dominante de texto. A vasta maioria dos manuscritos sobreviventes é desse tipo. Durante o século IX, uma mudança de grande porte teve lugar na maneira pela qual os manuscritos eram escritos. Antes desse século, só o uso da escrita uncial era considerado próprio em obras literá­ rias. A escrita uncial pode ser comparada à impressão apenas com letras maiús­

culas. Durante o século IX, porém, o tipo cursivo de escrita, que era usado desde tempos antigos, para documentos nãoliterários, foi modificado e começou a ser usado até em obras literárias. Esta forma modificada de escrita cursiva é geral­ mente mencionada como escrita minús­ cula. Todos os manuscritos produzidos depois do século IX empregam a escrita minúscula.

II. Era do Texto Impresso (Desde 1514) O primeiro Novo Testamento grego a ser impresso foi o Poliglota Complutensiano, em 1514. No entanto, ele, na verdade, não foi publicado até 1522, e causou pequeno efeito sobre a história posterior do texto. 1. O Textus Receptus (1516-1880) O primeiro Testamento grego a real­ mente ser publicado foi o de Erasmo de Rotterdam, em 1516, que incidental­ mente foi o ano anterior ao começo da Reforma Protestante. O texto de Erasmo era baseado em cerca de meia dúzia de manuscritos que continham várias por­ ções do Novo Testamento. Destes, ele usou nada mais do que uns dois ou três para qualquer parte de sua edição. Para o Apocalipse, ele tinha apenas um manus­ crito, ao qual faltavam os últimos seis versículos do livro. Erasmo resolveu esse problema, traduzindo da Vulgata Latina para o grego. Ao fazer isto, ele produziu leituras variantes, que nenhum exame de manuscritos jamais havia encontrado. Por toda parte Erasmo fez interpolações da Vulgata. Provavelmente, o exemplo mais notó­ rio de interpolação da Vulgata é o da passagem da “ testemunha celestial” , em I João 5:7,8. A passagem não aparecia na primeira ou na segunda edição da obra de Erasmo, por cuja omissão ele foi se­ 35


veramente criticado. Embora duvidando da sua validade, ele mais tarde a inseriu. Apenas três outros manuscritos gregos foram encontrados, e que contém essa passagem, mas nenhum deles é anterior ao Século XII. Erasmo fez pouco mais do que estabi­ lizar em forma impressa o tipo de texto que se encontrava em manuscritos exis­ tentes na época. Estes eram, claro, do tipo bizantino de texto. As várias edições do Novo Testamento que foram publica­ das durante o século que se seguiu a Erasmo, empregaram um texto muito semelhante ao da terceira edição feita por Erasmo. O resultado foi a popula­ rização dessa edição, e desse texto, que veio a ser conhecido como “o Texto Recebido” . Ele se tornou tão firmemente entrincheirado que reinou supremo até o século XIX, a despeito da sua qualidade inferior. 2. Período do Texto Critico (Desde 1881) Durante os séculos XVII e XVIII, mais e mais manuscritos foram descobertos, muitos dos quais, verificou-se, diferiam substancialmente do “Texto Recebido” . Esses manuscritos propiciaram a maté­ ria-prima, da qual um texto crítico pode ser construído. A primeira pessoa a rom­ per completamente com o “Texto Rece­ bido” e a produzir um texto completa­ mente novo, aplicando os princípios da crítica textual, foi Karl Lachmann, em 1831. Contudo, Lachmann não reivmdíca a honra de ter recuperado o texto original do Novo Testamento, mas apenas o que era comum durante o século IV. Durante as quatro décadas seguintes, textos crí­ ticos foram também produzidos por Constantino von Tischendorf e S. P. Tregelles. De longe, o trabalho mais importante, não apenas no século XIX, mas pro­ vavelmente em toda a história da crí­ tica textual, é o de B.F. Westcott e F.J.A. Hort, intitulado The New Testa­ ment in the Original Greek, 1881-1882. 36

O seu texto segue de perto o tipo ale­ xandrino de texto, ao qual eles mesmos se referiram como texto neutro. Westcott e Hort fizeram mais do que editar um texto. Também escreveram um alentado volume, em que explicaram a sua teoria textual. Provaram conclusivamente que o texto Bizantino era um tipo de texto posterior e inferior. Ê nesse ponto que o verdadeiro significado de Westcott e Hort deve ser encontrado: eles expuseram a inadequação do “Texto Recebido” . É verdade que o “Texto Recebido” conti­ nuou a ter uns poucos defensores até o presente, mas o mais significativo é que desde 1881 ele não foi usado em novas edições do Novo Testamento Grego ou como base de novas traduções. A referência a traduções sugere uma forma pela qual a crítica textual é de importância prática para o leitor da Bí­ blia. Por exemplo, em inglês, a popular versão do rei Tiago (King James) é ba­ seada no “Texto Recebido” , e agora sabe-se que ela carece de confiança em muitos pontos. Portanto, praticamente todas as traduções modernas do Novo Testamento, inclusive a Versão Padrão Revisada (Revised Standard Version), são superiores à do rei Tiago, do ponto de vista do texto grego em que são ba­ seadas. Sabe-se, por exemplo, que a ver­ são Almeida antiga, contém interpola­ ções baseadas na Vulgata. Assim, a crí­ tica textual ajuda o leitor da Bíblia a encotitrar o texto mais fiel possível re­ construído a partir de fontes textuais primitivas.

O Cânon Ao procurar as origens da história do cânon, quatro coisas precisam ser distin­ guidas: o mero uso dos escritos apostó­ licos, a coleção de livros correlatos em grupos, a atribuição de autoridade bí­ blica a livros individuais ou a grupos de livros, e o surgimento de um conceito de livros específicos compreendendo um câ­ non do Novo Testamento. A história do cânon pode ser dividida em três periodos.


I. o Período de Coleções Iniciais e do Uso de Livros do Novo Testamento (c. 90-180) Um dos primeiros passos discerníveis, no longo processo da canonização, é a coleção das cartas de Paulo. Este colecionamento parece ter acontecido mesmo antes de os últimos livros do Novo Tes­ tamento terem sido escritos. Provavel­ mente, a primeira referência a uma cole­ ção, pelo menos parcial, encontra-se em II Pedro 3:15,16, que também atribui autoridade escriturística a essas cartas. Evidência maior de que tal colecionamento havia sido feito antes do começo do século II é que os escritores cristãos do fim do século I e começo do século II pareciam estar familiarizados com a maior parte das cartas. A tradição tex­ tual uniforme das cartas também indica que uma coleção havia sido feita em data bem antiga. É mais difícil determinar quando os quatro Evangelhos foram coligidos. Os Evangelhos parecem ter circulado sepa­ radamente, a princípio. Eles não apre­ sentam uma tradição textual uniforme, como nenhum dos escritores cristãos pri­ mitivos revela conhecer ao mesmo tempo <K quatro. Papias (c. 130) descreveu a composição de Mateus e Marcos, mas silenciou a respeito de Lucas e João (Eu­ sébio, História Eclesiástica, 111:39). Jus­ tino M ártir (c. 155) inquestionavelmente conhecia evangelhos escritos, pois se re­ feriu a eles por esse nome, e pelo termo “Memórias dos Apóstolos” (Apologia, 1:66). Todavia, ele não indicou os seus nomes ou número, e, portanto, não pode ser citado como evidência para a existên­ cia de uma coleção definida. E certo que a reunião deles foi feita anteriormente a 170 d.C., quando Tatiano compôs o seu Diatessaron, entretecendo os quatro Evangelhos em um só relato da vida de Jesus. A questão crucial é se o herético Mardão (c. 145), que aceitava apenas o Evangelho de Lucas, reduziu um Evan­

gelho quádruplo a um único Evangelho, ou se o Evangelho quádruplo foi formado em reação ao Evangelho único de M ar­ cião. Embora falte a prova científica definida, a última hipótese parece ser a mais provável. Portanto, a coleção dos quatro Evangelhos provavelmente teve lugar por volta de 150-160. Marcião foi, aparentemente, o primei­ ro a produzir um cânon, uma lista dos livros do Novo Testamento. Ele rejeitava completamente o Velho Testamento, e aceitava versões de Lucas somente se fos­ sem expurgadas, e dez das cartas de Paulo. Quer tenha-se originado com Marcião ou não, o conceito de um cânon de livros cristãos nos círculos ortodoxos foi certamente motivado pela reação ao seu cânon herético. Existem provas de que, durante o pe­ ríodo que estamos considerando, todos os livros do Novo Testamento existiam e foram usados, com a exceção de Atos, Tiago, II Pedro, II e III João e Judas. Não obstante, as citações são comparati­ vamente poucas e inexatas, e raramente apresentadas da forma costumeira usada agora para citar as Escrituras. Durante a primeira metade deste período, há pou­ cas indicações de que os escritos cristãos estavam sendo usados como Escrituras, isto é, como tendo autoridade igual à do Velho Testamento. Já vimos como Marcião exaltou onze escritos cristãos acima do Velho Testa­ mento. Embora os cristãos ortodoxos não estivessem dispostos a seguir Marcião, nessa rejeição do Velho Testamento, pouco depois da sua época, eles come­ çaram a atribuir autoridade escriturística aos escritos apostólicos. Por exemplo, o chamado II Clemente (c. 150) cita espe­ cificamente um texto de Evangelho como Escritura (2:4) e coloca os escritos apos­ tólicos no mesmo nível do Velho Testa­ mento (14:2). Justino indica que os Evan­ gelhos eram lidos e comentados em ado­ ração pública, da mesma forma como o Velho Testamento (Apologia, 1:67). 37


Por volta do ano 180, portanto, a maioria dos livros do Novo Testamento era conhecida e estava sendo usada, cole­ ções separadas dos Evangelhos e das Epístolas de Paulo haviam sido feitas, autoridade escriturística estava come­ çando a ser atribuída a esses livros e o conceito de um cânon estava começando a surgir.

II. Período do Surgimento de um Cânon do Novo Testamento (c. 180-220) Bem no começo deste período, um conceito claro de um cânon do Novo Testamento aparece dentro do contexto do cristianismo ortodoxo. Este conceito é visto no Cânon Muratoriano, lista de livros usados como Escritura pela igreja em Roma, em cerca de 180. O manus­ crito é fragmentário, mas a lista original continha pelo menos o seguinte: os qua­ tro Evangelhos, Atos, treze epístolas de Paulo, pelo menos duas e talvez três epís­ tolas de João, Judas e o Apocalipse. O Cânon Muratoriano deixa entrever os princípios da canonicidade. Um deles é o de autoria apostólica. Outro, é a ortodoxia. As Epístolas aos Laodicenses e aos Alexandrinos foram rejeitadas, por­ que foram foijadas em nome de Paulo, a fim de sustentar a heresia de Marcião. Outro critério é a antiguidade. O Pastor de Hermas podia ser lido particularmen­ te, mas não na adoração pública, por causa da sua origem recente. O conceito de um cânon do Novo Testamento aparece também claramente nos três grandes escritores deste período. O primeiro é Irineu, de Lião, na Gália (morreu c. 190). Ele foi inflexível na afirmação de um Evangelho quádruplo (Against Heresies, 111:11). Cita como Es­ crituras todos os livros do Novo Testa­ mento, exceto Filemom, Tiago, II Pedro, III João e Judas. A omissão de vários destes, entretanto, pode ter sido aciden­ tal, devido à sua brevidade. Irineu tam ­ bém conhecia Hebreus, mas deu-lhe um 38

lugar subcanônico. Hermas, entretanto, foi aceito como Escritura. Clemente de Alexandria (morreu c. 215) distinguia claramente entre os qua­ tro Evangelhos e alguns Evangelhos apó­ crifos (Stromata, 111:93). Ele também citou os outros livros do Novo Testamen­ to, exceto Tiago, II Pedro e III João. Eusébio, todavia, declarou que Clemente escreveu um comentário acerca de todas as Epístolas Gerais (Hist., VI:14). Cle­ mente também considerou como inspira­ dos I Clemente, o Didaquê, a Epístola de Bamabé, Hermas, o Apocalipse de Pedro e a Pregação de Pedro. Tertuliano, de Cartago (morreu c. 220), foi o primeiro dos escritores cristãos a empregar o latim. Ele referiu-se a oa citou todos os livros do Novo Testamen­ to, exceto Tiago, II Pedro e II e III João. Atribuiu Hebreus a Bamabé e, quando muito, tratou-o como semicanónico. Ter­ tuliano foi, aparentemente, o primeiro a usar o termo Novo Testamento no senti­ do de uma coleção de livros (Against Praxeas, XV). A importância do Cânon Muratoriano, de Irineu, Clemente e Tertuliano para a história do cânon nâo pode ser menos­ prezada. O seu testemunho representa a maior parte do mundo cristão dos seus dias. Eles atestam a existência e o uso de todos os livros do Novo Testamento, ex­ ceto Tiago, II Pedro e, provavelmente, III João. Contudo, se a declaração de Eusébio, acerca do comentário de Cle­ mente a respeito de todas as Epístolas Gerais, puder ser aceita na sua verdadei­ ra acepção, até estas três deverão ser atestadas como canónicas. As duas por­ ções mais importantes do cânon, os qua­ tro Evangelhos e as treze epístolas de Paulo, foram firmemente estabelecidas. Atos, I Pedro e I João tinham lygares igualmente assegurados. Embora nessa época o Apocalipse não fosse questiona­ do, mais tarde ele foi alvo de fogo pesado no Oriente. Hebreus, Tiago, II Pedro, II e III João e Judas ainda eram questio­ nados. Outros livros estavam conten­


dendo fortemente por um lugar no Câ­ non. Irineu, Clemente e Tertuliano fre­ qüentemente faziam citações da maioria dos livros do Novo Testamento, de ma­ neira a indicar claramente que conside­ ravam estes livros como Escritura. Por volta do começo do século III, portanto, o conceito de um cânon do Novo Testa­ mento havia surgido claramente. Faltava apenas definir os seus limites exatos.

III. Período de Fixação do Cânon do Novo Testamento (c. 220-400) Orígenes (morreu em 254) viajou mui­ to, e residiu primeiramente em Alexan­ dria e depois em Cesaréia. Foi o primeiro a manifestar consciência do problema dos limites do cânon e a discutir o as­ sunto de maneira científica, classificando livros como aceitos, disputados e rejeita­ dos. Foi também o primeiro a revelar certo conhecimento de todos os livros que agora estão no Novo Testamento, inclu­ sive Tiago, II Pedro e III João. O proprio Orígenes aparentemente aceitava como canônicos todos os vinte e sete, mais o Didaquê, Barnabé e Hermas. Entretanto, sabia que estes escritos pa­ trísticos, Hebreus, Tiago, II Pedro, II e III João, e Judas, eram alvo de dúvidas. Dionísio de Alexandria (morreu em 264) negou que o apóstolo João tivesse escrito o Apocalipse (Eusébio, Hist., VII: 25). Embora o próprio Dionísio não negasse a canonicidade do Apocalipse, o seu ponto de vista a respeito .da autoria do mesmo provocou uma longa discussão acerca de sua aceitação. Eusébio de Cesaréia completou a sua História Eclesiástica em cerca de 325. Nela, ele apresentou um estudo com­ preensivo das opimões que prevaleciam na época a respeito do cânon (111:25). Edificando sobre a terminologia usada pela primeira vez por Orígenes, ele clas­ sificou os escritos cristãos como segue. Na categoria de livros universalmente aceitos, colocou os quatro Evangelhos,

Atos, catorze epístolas de Paulo, (inclu­ sive Hebreus, embora soubesse que a igreja em Roma não aceitava o livro como carta de Paulo), I João, I Pedro, e talvez o Apocalipse. Eusébio dividiu a categoria de livros disputados de Oríge­ nes nos que eram reconhecidos pela maioria, e os que eram espúrios. Na pri­ meira colocou Tiago, II Pedro, II e III João, e Judas; na segunda, o Didaquê, Barnabé, Hermas, o Evangelho Segundo os Hebreus, os Atos de Paulo, o Apoca­ lipse de Pedro, e provavelmente o Apo­ calipse de João. A ambigüidade a res­ peito do Apocalipse de João devia-se ao fato de que o próprio Eusébio teria re­ jeitado o livro, mas a tradição em seu favor era forte demais para permitir-lhe tal tratamento. Eusébio também mencionou uma ter­ ceira categoria, a de livros universalmen­ te rejeitados, na qual colocou várias ou­ tras obras apócrifas. É importante notar que a categoria de livros universalmente aceitos, mais a de livros disputados, e geralmente aceitos, corresponde exata­ mente aos vinte e sete livros do cânon hoje aceito. O problema do cânon es­ tava no limiar de ser definido. Tanto Cirilo de Jerusalém (348) como Gregório de Nazianzo (que morreu em 390) atestaram um cânon de vinte e seis livros, faltando apenas o Apocalipse na lista, e sem incluir qualquer outro livro. O primeiro cânon a corresponder exata­ mente aos vinte e sete livros que agora estão no Novo Testamento foi a lista feita por Atanásio de Alexandria, em sua Car­ ta da Páscoa de 367. O Concilio de Hipona (393), o Concího de Cartago (397), Jerônimo (que morreu em 420) e Agostinho (que morreu em 430) também estabeleceram esse mesmo cânon. Dúvidas continuaram a ser expressas a respeito do Apocalipse durante vários séculos, e vários escritos patrísticos con­ tinuaram a subsistir no limiar do cânon durante um pouco mais de tempo. Tam­ bém é verdade que nenhuma das igrejas sírias aceitou um cânon de vinte e sete 39


livros antes do século VI. De fato, algu­ mas dessas igrejas aceitam apenas vinte e dois livros até o dia de hoje. Além do mais, alguns dos reformadores reviveram a questão de livros em disputa, e uns poucos críticos modernos tem questiona­ do se deveria haver algo chamado cânon. Para a grande maioria dos cristãos, toda­ via, o cânon foi irrevogavelmente fixado desde cerca do ano 400. Conclusão A fé e a prática cristãs baseiam-se grandemente no Novo Testamento. Por­ tanto, é da maior importância procurar determinar se a igreja primitiva tomou as decisões corretas a respeito do conteúdo do cânon, e se os eruditos modernos foram capazes de restaurar o texto origi­ nal dos livros que constituem propria­ mente o cânon. A crítica textual não é uma ciência exata. Certeza matemática não é possí­ vel. Em alguns casos as evidências estão até divididas, e a fraseologia original tem de permanecer em dúvida. É por esta razão que não existem duas edições do Novo Testamento Grego nem duas tra­ duções que concordem sobre a escolha da versão variante em todos os casos. Não obstante, a porção do texto acerca da qual há interrogações sérias é bem pe­ quena, e pode ser confiantemente afir­ mado que, para todos os propósitos prá­ ticos, o texto original foi recuperado. A teoria textual continuará, sem dúvida, a ser refinada, à medida que novas des­ cobertas vierem à luz, e à medida que todas as evidências ulteriores forem ava­ liadas. Contudo, parece improvável que quaisquer mudanças de monta venham a ser efetuadas. Uma medida ainda maior de confiança é possível a respeito do conteúdo do cânon. Tal confiança é criada por duas coisas. Uma é o fato de que o cânon que foi estabelecido no quarto século não apenas sobreviveu, mas raramente foi seriamente desafiado, durante mais de quinze séculos. A outra relaciona-se com 40

a maneira como os livros foram escolhi­ dos, em particular. Ê do maior signifi­ cado que pronunciamentos feitos poi concílios da igreja e por dignitários ecle­ siásticos tiveram um papel secundário no processo de canonização. Tais pronun­ ciamentos não fizeram nada mais do que ratificar as decisões que já haviam sido tomadas de forma algo inconsciente, ba­ seando-se no uso comum e aceitação geral. Os livros que finalmente foram aceitos como canônicos foram os que haviam provado ter valor espiritual na vida da igreja, por um período de vários séculos. A evidência, que é derivada de mais de mil e oitocentos anos de história cristã, é tão forte que a maioria dos cristãos pro­ fessam crer na obra da divina Providên­ cia, não apenas no ato de escrever os livros do Novo Testamento, mas também na sua escolha.

Leitura Suplementar ALAND, KURT. The Problem of the New Testament Canon. London: A. R. Mowbray & Co. Ltda., 1962. GREENLEE, J. HAROLD. Introduction to the New Testament Textual Cri­ ticism. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Co., 1964. GRANT, ROBERT M. The Formation of the New Testament. New York: Harper & Row, 1965. FILSON, FLOYD V. Which Books Be­ long in the Bible? Philadelphia: West­ minster Press, 1957. KENYON, FREDERIC G. The Text of ' the Greek Bible. 2® ed. London: Ge­ rald Duckworth & Co. Ltd., 1949. METZGER, BRUCE M. The Text of the New Testament: Its Transmission,


Corruption, and Restoration. New York e London: Oxford University Press, 1964.

TAYLOR, VINCENT. The Text of the New Testament: A Short Introduction. London: The Macmillan Co., 1961.

SOUTER, ALEXANDER, The Text and Canon of the New Testament. Rev. C.S.C. Williams. London: Gerald Duckworth & Co. Ltd., 1954.

WESTCOTT, BROOKE FOSS. A Gene足 ral Survey of the Canon of the New Testament. 7速 ed. Cambridge e Lon足 don: The Macmillan Co., 1896.

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História da Cristandade Primitiva E. Glenn Hinson Como o grão de mostarda da parábola de Jesus, o cristianismo brotou no solo da Palestina e tornou-se uma árvore, cujos ramos se estenderam por todo o mundo conhecido e civilizado. Pequeno e pas­ sando quase despercebido em seu início, dentro de um século, ou dois, ele atin­ giu as ilhas britânicas no ocidente até o vale do Tigre e do Eufrates no oriente, e do mar Negro ao norte até o NUo superior ao sul. Considerando os seus inícios discretos, esta história é notável. O cristianismo era filho do judaísmo, nascido em um can­ tinho do vasto Império Romano. O seu fundador foi um obscuro galileu, a quem o governador romano, Pôncio Pilatos, condenou à crucificação, mais com o objetivo de impedir outro tumulto entre os rebeldes judeus, do que por causa das atividades de Jesus o estarem aborrecen­ do. No que concernia a esse oficial, a crucificação de Jesus terminou uma ta­ refa enfadonha, mas necessária. Para muitos judeus, indubitavelmente, Jesus era importante, mas por razões diferentes. Os líderes religiosos, sadu­ ceus e fariseus, viam nele uma ameaça para a ordem estabelecida. O Seu ensino tinha a tendência de minar os alicerces gêmeos do judaísmo do primeiro século: o Templo e a Lei. E o que era ainda mais perigoso, ele falava e agia com um a auto­ ridade que eles ousavam atribuir somen­ te a Deus. Por fim, eles o acusaram de blasfêmia, e o entregaram aos roma­ nos, como um a ameaça à paz da Judéia. Muitos outros, começando com João Ba­ tista, talvez, viram nele a esperança do cumprimento das expectações judaicas do Messias. Ele, algumas vezes, fez o que 42

eles esperavam que o rei ideal vindouro haveria de fazer, mas por fim os desapon­ tou. Ao invés de reunir um exército guer­ reiro, que, com a ajuda de Deus, poderia repelir os romanos e restaurar o reino de Davi, ele acabou em uma cruz. Porém, além da cruz, algo aconteceu. Alguém, naquela heterogênea turba de seguidores, durante a sua carreira terre­ na, percebeu que o seu Mestre, embora crucificado e sepultado, ressuscitara den­ tre os mortos. A sua experiência os trans­ formou em um exército de testemunhas daquele acontecimento dramático. “A esse mesmo Jesus, a quem vós crucificas­ tes” , testificavam eles aos judeus, “Deus o fez Senhor e Cristo” (At. 2:36).

I. A todo O Mundo 1. As Coisas de César Embora nascida do judaísmo, a igreja cresceu nos vastos domínios de Roma. Começando com a conquista final de Cartago, em cerca de 200 a.C.. este colosso havia estendido a sua influência a toda a região que rodeava o Mediterrâ­ neo, antes do nascimento de Jesus. De­ pois de um século de relativa indepen­ dência, sob a influência dos gregos, os judeus caíram sob o domínio romano, em 63 a.C. Como um todo, Roma dominava as suas dependências de modo benigno e eficiente. Os romanos possuíam tino administrativo. Estruturaram o Império de maneira hierárquica, em inúmeras províncias, e ligaram estas_a Roma, atra­ vés dos seus administradores. Construí­ ram um sistema de esplêndidas estradas


de rodagem, que demandavam a capital e propiciavam fácil acesso a todas as partes do Império. Elaboraram um siste­ ma postal rápido, que podia conservar as linhas de comunicação abertas para e de Roma. Jactavam-se de um exército sem par quanto à disciplina, à perícia e ao equipamento. Social e economicamente, Roma mani­ festava enormes contrastes. As classes governantes viviam em grande luxo, ser­ vidos, em seus menores desejos, pelos seus numerosos escravos, que eram os despojos das suas numerosas conquistas. As massas viviam com dificuldades, so­ brevivendo com as mínimas condições de vida. Não thiham escravos para fazer o seu trabalho, e os avanços tecnológicos, que os inventores romanos descobriam, dificilmente se filtravam até eles. Proble­ mas de família, criação de filhos e a segurança do pão de cada dia^ geravam uma sensação de futilidade. Os seus pa­ drões morais se eacontravam em um nível bem haixo. Roubo, adultério, in­ fanticídio, e toda sorte de imoralidade eram comuns. Não obstante, do lado mais brilhante, muitos estavam procurando algo melhor. Os cidadãos de mais cultura encontra­ vam alguma satisfação nas filosofias, co­ mo o platonismo, o estoicismo, o pitagorismo e aristotelismo. Oferecendo sistemas integrados do mundo, do ho­ mem e de Deus, estas filosofias satis­ faziam até os anseios religiosos de al­ gumas pessoas. A ênfase do platonismo na unidade, e a sua promessa de união com a divindade, apelavam especialmen­ te aos que sofriam devido à confusão de um mundo sempre em conflito. Os pa­ drões éticos do estoicismo capturavam a fantasia dos que lamentavam a deterio­ ração moral da sociedade romana. Muitos eram atraídos também p^ra uma espécie de mosdmenlo xeligioso-filor, sófico, hoje conhecido como gnosticismo. O gnosticismo era uma mistura de idéias orientais e greco-romanas. No seu centro estava o dualismo metafísico, uma cren­

ça de que a matéria é má e o espírito é bom. A salvação, no pensamento gnósti­ co, significava ser livre do mundo mate­ rial e visível, e voltar para o mundo do espírito ou da mente. A obtenção dessa liberdade reqúeria gnosis, isto é, conhe­ cimento, palavra da qual deriva o nome do movimento. Essa gnosis era não tanto intelectual como mística, o conhecimento de fórmulas secretas pelas quais uma pessoa podia ultrapassar os poderes de­ moníacos, que, se cria, guardavam as esferas planetárias entre os céus e a terra, e retornar ao mundo do espírito puro. Alguns gnósticos criam que um redentor descia das alturas, para ensinar gnosis. Todo o conjunto de idéias forma­ va parte do mundo de pensamento cris­ tão, e pode ter influenciado a maneira como Paulo e os outros expressaram o evangelho aos gentios. Por volta do sé­ culo II, alguns gnósticos haviam entrado na igreja, e tentavam desenvolver o gnos­ ticismo dentro do cristianismo. As massas deseducadas, contudo, en­ contravam satisfação nas religiões orien­ tais, que a essa altura haviam se esta­ belecido fortemente no Ocidente. As ve­ lhas seitas nacionais existentes só exis­ tiam de nome. O povo ainda executava os rituais como era requerido pela lei anti­ ga, mas isso não impedia os mais devotos de procurar outros remédios para as suas necessidades espirituais. Conquanto eles nâo se recusassem a cumprir os deveres públicos, os oficiais não se importavam. Só os cristãos e os judeus^ devido à sua exclusividade religiosa, causavam algu­ ma ansiedade. O que era atraente em relação às reli­ giões orientais era a sua promessa de salvação, sustentada por um sacramentalismo impressionante. Com a ajuda do batismo, refeições sacramentais, dramas redentores, fórmulas mágicas e vários estímulos físicos, essas religiões garanti­ ram uma participação na vida eterna. O “banho em sangue de touro” (taurobolium) da seita de Mitra dava uma garantia tangível e especial, pois o prin­ 43


cípio da vida do animal, assim pensa­ vam, fluía para o devoto, e, desta forma, o revitalizava. A sua masculinidade fez de M itra um favorito no exército ro­ mano, capacitando-o a competir forte­ mente com o cristianismo na obtenção da lealdade das massas.

A vida dos primitivos cristãos, no mundo, exigia um combate algo seme­ lhante ao de Cristo. Embora Cristo tives­ se dado no Diabo um golpe mortal, não o havia destruído. Satanás e os demônios, admitiam os cristãos, ainda tinham al­ guma influência sobre o mundo. Ne­ nhum deles é büm. Não obstante, ne­ nhum cristão precisa se submeter docil­ 2. Cristo e o Príncipe dos Demônios mente às suas intimidações, como o ro­ Para competir com essas seitas orien­ mano médio cria. Embora vivendo no tais, o cristianismo primitivo precisava mundo, isto é, no reino de Satanás, a encontrar o cidadão romano em seu pró­ pessoa precisa demonstrar a sua lealda­ prio campo. Especificamente, ele preci­ de a Cristo, no seu modo de vida, con­ sava falar e apelar ao seu medo exces­ fiante que o Espírito de Cristo lhe pro­ sivo de poderes demoníacos, que ele cria piciará forças e o conservará em paz. dominavam o mundo. Os demônios, que A crença de que o mundo é o reino de até as pessoas mais sofisticadas aceita­ Satanás, levantou naturalmente alguns vam sem tergiversação, ocasionavam os problemas referentes à cultura pagã e ao acontecimentos tanto bons como maus. Estado. Alguns cristãos chegaram ao Ninguém podia escapar à sua influência ponto de exigir isolamento da sociedade sobre a sua vida. O segredo da felicidade greco-romana. Todavia, em sua grande era saber como aplacar os maus, e como maioria, eles adotaram a atitude paulina colocar os bons do seu lado. Os infor- da discriminação. Cristo, argumentava túmos pessoais, calamidades, desastres Paulo, domina sobre todas as coisas, naturais, doenças — tudo isto era sinal embora não o vejamos. Assim, para o de que alguém havia caído nas mãos cristão, “todas as coisas são lícitas” (cf. erradas. Os antídotos contra essas coisas I Cor. 10:23). Contudo, nem todas as incluíam encantamentos mágicos, fór­ coisas são boas, pois podem não servir a mulas secretas, divindades familiares, e Cristo. Muitas coisas ainda pertencem ao uma multidão de hábitos supersticiosos. reino satânico, e, por isso, os cristãos O cristianismo dava a resposta para os não devem transigir a respeito delas. Não temores típicos dos romanos com uma foi por acidente que, devido a isso, mui­ mensagem do triunfo de Cristo sobre o tas vezes os cristãos pareceram ser “es­ príncipe dos demônios, cabeça de todo o nobes sociais” . reino demoníaco, Satanás. Durante a sua O próprio Império Romano ocupava também uma posição ambígua. Em úl­ vida, diziam os missionários, Jesus havia enfrentado o diabo em combate, e o tima análise, os primeiros cristãos assim havia derrotado. Jesus havia expulsado criam, o governo tem origem divina e demônios e libertado os indefesos das existe para cumprir um propósito divina­ suas garras terríveis. Mas o seu triunfo mente ordenado: preservar a paz e a mais esplendoroso ele regjstxou na cruz. ordem entre os homens. Contribui, com Submetendo-se voluntariamente à mor­ muitas coisas, para a preparação do te, ele pagou o preço requerido para li­ evangelho. Pelo fato de servir aos pro­ bertar os homens da sua escravidão aos pósitos de Deus, ele merece a lealdade e poderes demoníacos é ao pecado (cf. a dedicação de todos os cidadãos. Mas Rom. 5-8). Deus o ressuscitou dentre os quando ele se coloca definidamente con­ tra o propósito divino, serve a Satanás. mortos, sinal triunfante de que o último inimigo do homem, a Morte, havia caídó Por esta razão, João, o vidente, adverte (cf. I Cor. 15:55). contra a ira vindoura de Deus contra a 44


“meretriz” Babilônia. Ela, que havia be­ bido o sangue dos mártires, haveria de cair juntamente com Satanás e suas hos­ tes, quando Deus pronunciasse o seu juízo (Apoc. 14:8). Nos casos em que Roma permanecia dentro da vontade de Deus, os cristãos se submetiam; quando ela se colocava contra a divina vontade, eles resistiam passivamente. 3. O Mundo Subvertido O clamor de certos judeus de Tessalô­ nica, enquanto arrastavam Paulo e seus companheiros para junto dos magistra­ dos, representa com exatidão o que acon­ teceu no primeiro século da vida do cris­ tianismo. Esses missionários primiüvos sonhavam com wn mundo em que^todo joelho iria se dobrar e toda Ungua iria confessar que Jesus Cristo é Senhor. Eles haviam tomado a sua visão em­ prestada das esperanças apocalípticas dos judeus, como as expressadas no rolo do Mar Morto, A Guerra dos Filhos da Luz e dos Filhos das Trevas. Os essênios de Qumran concebiam-se como um exér­ cito santo, sendo equipado e treinado para a última grande batalha, quando o Messias de Deus haveria de coman­ dá-los para derrotar a Satanás e suas hostes de uma vez por todas. Todavia a esperança cristã diferia da dos essênios de maneira essencial. Enquanto os essê­ nios ansiavam por esse dia e esperavam no deserto, expectantemente, os primiti­ vos crentes realmente se empenhavam em uma batalha começada por Jesus. O Messias da esperança judaica já havia vindo e lhes dera uma ordem para m ar­ char. A missão não se processava desimpedidamente. Parece que a comunidade de Jerusalém se dividira em duas facções, em relação à questão da missão que jevia exercer quanto aos gentios. Alguns cris­ tãos, conservadoramente orientados em direção à sua fé ancestral, insistiam que os gentios tinham que se tornar judeus antes de poderem tornar-se cristãos. Ou­ tros, a quem Lucas chama de helenistas,

seguiam a orientação de Estêvão em insistir que os gentios podiam ser cristãos e ainda permanecer gentios, conquanto se dedicassem a Jesus como Messias e Senhor. Visto que a oficialidade judaica estava preocupada em preservar a in­ tegridade do Templo e da Lei, a perse­ guição atingiu os helenistas. Estêvão se tornou o primeiro mártir cristão (At. 7). O apedrejamento de Estêvão, a despei­ to da tragédia que representou, trans­ formou-se na mola propulsora da missão aos gentios. O dirigente desse aconteci­ mento, Saulo de Tarso, mais tarde cha­ mado Paulõ, subseqüentemente tornouse um convertido à igreja e líder da própria missão que tentara fazer abortar. Formando uma equipe com outro judeu helenista, Barnabé, ele plantou a semen­ te do evangelho por toda parte. Sob os auspícios da igreja em Antioquia, eles espalharam a semente nas principais ci­ dades da Asia Menor. O próprio Paulo depois continuou a fazer o mesmo na península grega, com a assistência de jovens convertidos, como Timóteo e Tito. Os velhos críticos da missão aos gen­ tios, contudo, nunca se cansaram. Per­ turbavam Paulo por onde quer que ele fosse. Até o chamado Concílio de Jeru­ salém, em 49 d.C., não resolveu o caso, se o julgarmos pelo livro de Atos e pelas epístolas de Paulo. Embora as “três colu­ nas” (Pedro, João e Tiago, meio-irmão de Jesus) e outros líderes da igreja em Jerusalém se recusassem a impor o regi­ me judaico completo aos convertidos gentios, cristãos judeus conservadores se recusavam a desistir. Eles exigiam a cir­ cuncisão e a observância dos rituais, bem como da lei moral. Quando Paulo e seus colegas missionários não capitularam, eles atacaram o seu apostolado, bem como a missão que ele desempenhava, e continuaram agitando essa desagradável questão. Não obstante, Paulo perseverou. De­ pois de plantar congregações em Antio­ quia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe, e 45


nismo teve um impacto de certa profun­ te a noite. i Naquele breve reinado de didade sobre os seus convertidos. Ele não terror, de acordo com uma primitiva tolerava a adesãjQ_ a_ Cristo como um tradição cristã, (pjdi^^foi crucificado e dentre muitos deuses. Exigia costumes rP á u loJ decapitado! Centenas de outros diferentes. Os cristãos viviam segregados tnorreram com eles. dos seus vizinhos. Eles nem podiam acei­ No período de perseguição que se detar convites para visitar os lares de vizi­ sencadeou duráníg^ última parte do rei­ nhos pagãos, sem escrúpulos de cons’ nado delDoinícianoi t . 91 d.C., as crí­ ciencia, quando esses vizinhos insistiam ticas atingirãnr; ã ^ ^ n lé ^ e n te . mais ~em prestar homenagem às divindades fortemente os cristãos da Ásia Meiiõn familiares. Eles tinham um Rei e uma lei "Õnde â semente lançada por Pauío havia que transcendiam os dos romanos. O seu brotado e produzido uma sadia seara de Rei os havia enviado para guerrear con­ devotos cristãos. Os iudeus ou iudaizantra os principados e potestades que es­ tes. conta-nos o Hclêr aojaiudaram , tavam por detrás dos fetiches e rituais 'de novo, a instigar a perseguição. O impagãos. peraaor e seus oficiais provavelmente in­ terferiram bem pouco no seu direciona­ 4. Prova de Fogo mento. Entre os mártires proeminentes A perseguição dos primeiros converti­ contam-sê Õ^rimo~g5 Impjerado^l^viÕ' dos partiu dos judeus e dos judaizantes.. Clemenfe^suá“esposaT^omitila. p um exEles (e o seu relacionamento é algo mis- * consul, clmm^ ^ A cíüoCjlátinQjpessoas terioso) causaram dano especialmente < cuja morte atesta alnfluéncia do cristia­ por suscitar o ódio dos romanos, de< nismo na classe-alta. nessa épocaT FalanC acordo com fontes cristãs primitivas. Istc dò genericamente, todavia, os cristãos ‘ pode ter algo a ver com os breves ata­ sofreram mais com os tumultos populaques empreendidos por Nero em Roma e res, que destruíram propriedades, feri­ Domiciano na Ásia Menor, contra os ram pessoas e algumas vezes as ma­ cristãos. taram. A perseguição empreendida por Nero Uma terceira onda de perseguiç parece ter sido principalaconteceu durante o reinado deQ"rajano, mèni:e uma capa para os caprichos do imperador d q 9 8 a ^ lX,^j£.^ novamente miperador semidemente. O rumor foi, de^ na Asia M e n o ^ e o ^ r a ^ a na forma^He acoráõ com historiadores romanos con­ ressentimento popular, principalmente. temporâneos, que tomado por um delí­ Os oficiais provinciais tomaram alguma rio, o próprio Nero pôs fogo na velha ci^ iniciativa. Mas o imperador os instruiu a dade, e grandes partes dela foram des­ não receberem acusações anônimas elpatruídas pelas chamas. A fim de frustrar o ^^m yrem j^nas aquêl5rque‘prOTÍ3arumor acerca de si próprio, ele colocou oS piente fQSsey~criIta ó F gfjg:ia|[oi^ cristãos como bodes expiatórios. A impoquer pessoa que rejelTasse^^a^Ma 14,'elê pulárldade generahzaaa quê eles so­ OTdénou que fõ ss^ ÍÍl|e fS 3 ^ ”A ^am osa friam, tanto por parte dos judeus como carta dê Plínio, governador da Bitínia, dos pagãos, permitiu-lhe fazer deles o escrita a Trajano, em cerca de 112 d.C., que quis. Ele os usou especialmente para reflete a genuína confusão de conscientes saciar a bestialidade das m assas/tá c ito oficiais públicos acerca da nova religião. Tilatou que alguns cristãos foranicÕsHrr Deviam os cristãos ser_punidos apenas rados na pele de animais selváticos, para por ostentarem e s s e jio m e f ^ perguntaserem rasgados até a morte por cães. ^ra^leT'Oir^penSslieYido a um crime Outros crucificados, e ainda outros co­ ^cometido sob_esse_nome? ElêTíãF"con^ bertos de piche e usados como tochas humanas, para iluminar a arena, duran1 Anais, XV:44. 47


razão, apartando-se dos costumes ances­ seguia encontrar nada nas suas práticas trais. que merecesse a primeira hipótese. O Estando a religião relacionada tão in- ^ que o ofendia mais era a Q timamente com a saúde e o bem-estar do S deles. A carta de Plínio fornece um indício ^ corpo político, não é de se admirar que se S valioso do ressentimento generalizado do Ç ouvissem acusações de t r a i ç ã o ( ^ t ^ ^ ^ y preparou o caminho para tais acusações, povo romano. Os pagãos faziam toda fazendo com que o senado atribuísse hon­ sorte_de_ acusaçfes^contra ^ü~cn^aõs: ras divinas a Júlio César, e ele mesmo foi Incesto e cánTbaiismo, “ôdíô^^pelã raça elevado à condição divina nas províncias, humana, esnobismo social e ateísmo, se não em Roma. Calígula, Nero e outros eram as mais freqüentes. A acusação de incesto e canibalismo, sem dúvida, sur­ cultivaram essa adulação ainda mais, em uma tentativa para aumentar o seu po­ gia um mal-entendido acerca de derio. Embora o imperador oficialmente " _ ‘ autras _ três _ observâncias cristãs. não recebesse o título de Dominus (Se­ brota m de im a s £ ^ jó n te ^ o ^ _ e ^ ^ nhor) até o reinado de Diocleciano (303- > ^^^^^a^mo’cnstâoTTîérâlfiÎénïë'orTùd^ 311 d.C.,) para todos os intentos e pro­ Vmm-conS^mSo escapar à ira de seus pósitos, já no primeiro século, ele havia vizinhos, em virtude de uma posição começado a encabeçar o panteão roma- ^ legal privilegiada, embora os judeus ale­ no. Isto fez_dg-juramento de lealdade aos xandrinos houvessem sofrido uma perse­ deuses um juramento " ^ ^IfãtdadeinSs guição popular durante o breve reinado EMado. e~vicS^vêrsaV E. quando os cris- , de Calígula (37-41 d.C.). Mas os cristãos tãos se recusaram ã dizer: “ César é Segozavam dessa proteção legal somente se nr_ traldores do ‘péfníaneces^sem identificados_,çom^^U: Império. daísmo. Quando eles tornaram bem claAs perseguições regionais espasmódi­ ro que Cristo os libertara, nada pôde, cas e a importunação do primeiro século i^ e d i r ^ anti^átiiTpes^soal. e começo do segundo não conseguiram A acusação de ateísmo possuía espeparar a missão cristã. A crueldade de ciálTmporfancia,;““P'êra sintom ïficâ'^io’ Nero simplesmente evocõü"sinípãtrá'’p ? “ ínãior mõHvo dê queixa dos romanos. pulãrT ^1i^"T ãm iraçaorT ^ão obstante Os cristãos se i^ u sa ra m a adorar œ 'unf^ãdÇlpipimèhtò de suás fileiras por ‘^ eù sêsi:|üë liaviam tornjBo ^ m a ^ g r a n - , morte ou defecção^ igreja cresceu. Em / ^ cE ^'âîT sêm p re'q u e^^rÎâm cerca de 197 d.C .rT ertuhanõjde Carta­ ^ d e s'— derrota em batalha, terremoto,^ go, chegou a se já c tã rn f^ s a n g u é ' inundação, foine^ fo^g - levantava-se o mártires e ã semente d^Igreja.” clamor.-^^s cristãos aos leoes!” jD evido II. Um Reino de Sácerdotes e a sua recusa d e ^ ^ o ra r ás divindades ancestrais, raciocinavam os romanos, os uma Nação Santa cristãos haviam enfurecido os deuses, e A igreja primitiva tinha uma resposta acarretaram a sua ira sobre todo o Im­ p ã ^ a sériã ácúsa^o de novidldK Com pério. Para com os judeus essa acusaçãí o íempõTSãTSsênvolveu uma extensiva não era tão séria. Eles, pelo menos, ^j^gdogéfca para a sua antiguidade^Qs^ permaneciam fiéis à sua divindade an­ ' cristãos insistiam que de form a Alguma cestral. Mas os cristãos, ex-romanos e ex- ^ iia v £ m ^ ^ '|p â x t0 o ^ ? a ^ a n t i g a Ç e l o ^ judeus, haviam traído todos os deuses, contrário, póssuíanLá fé iííaiX"anfíga em benefício desse chamado Jesus. Para tó3ásT a^ dê^bráão é Mojsés. Eram, a mente romana, eles desafiavam toda tato, o povo a quem Deus havia eleito desde o princípio, para cumprir a Sua 2 Tertuliano, Apol., 40. missão no mundo e ao mundo. 48


indicou fc.H. D o d ^ em The Apostolic No sentido mais estrito, os prirneiros Preaching and Its Develooments. _ps pricristãos se v i a m ^ m o ^ ^ j r e ^ a ^ f r ^ l ^ mitiv-OS arautos do evangelho proclama■^iSÍj^^rêpudÍandScom vigor as ópiniões contrárias, como a de Marcião. Junta- _^jamJ A era dõ*^uhiprimento nasceu”\ através do ministério, morte e ressurrei­ mente com os judeus do primeiro sécuTõ, 'que se~èncontrayam po rlõ d a parte, elê~s ção de Jesus. Em virtude da sua ressur­ compartilhavam uma crença em um_ reição, ele foi éxaltado à direita de Deus, como o cabeça messiânico do novo Israel. DêiS~queTiavia feito uma aliança com O Espírito Santo, na Igreja, é um sinal Israel, em suas exigências de santidade e da sua glória e poder atuais. Bem logo ele retidão, e na vinda de um Messias-Rei, voltará, e consumará a era messiânica. de acordo com as antigas promessas. Diferiam deles p r i n c i p a l m e n t e n a s u a Arrependei-vos e crede nas boas-novas, e recebereis a salvação pela participação forte conviccão acerca da esperança mes­ na comunidade messiânica.” siânica. Neste assunto, eles ficavam mais perto de João Batista e dos essênios, que procuravam preparar o caminho para a quer pessoa que não tivesse experimenta­ do uma longa associação com o judaísmo, vinda do Messias. Mas enquanto até João taLmensagem soava um tanto estranha, e os-^ess-ênios olhavam para o tuturo',"*^ ^ m s s io n á ri^ ris fâ portanto, precisac r i s e s criam que essa esperança havia começado a vir à exis^îïcia ërtîTêsusïr VcT, e m ^ rín e í^ íu g à íi eiisínar-lhe acerca do ú n i^ L)eus"e cíe coma_jeüS£_D.eus Eles próprios eratp a ^havia-se revelado em acontecimentos histoncos, que culminaram em Jesus. Para Esta autocompreensão estabelecia o ele, “c o n v e rs ^ ’ significava uma mu­ padrão para o impulso dinâmico da cris­ dança rãSical em sua maneira de pensar tandade primitiva no mundo civilizado e agir. Acarretava uma mudança com -’ da época. Como Israel, sob a direção de pleta de lealdade — de muitos senhores e'^ Moisés e Josué, eles haviam fugido da obrigação de servir a demônios e ídolos« ^deuses para um só Senhor e Deus — que, mudos, e haviam marchado triunfante- .mais freqüentemente do que raramente,' I mente, entrando na terra prometida. 'trazia ridículo e embaraço, mesmo no^; Eles estavam-se treinando em santidade, - 'seio da própria famíHa. A fim de assistir a conversão dos pa­ )para cumprir essa missão. Eles eram, gãos, a igreja depressa desenvolveu um para empregar a frase do Novo Testa­ sistema apologético e educacional como o mento, “o sacerdócio real, a nacão san­ empregado pelos judeus. Já nos dias de ta” (I Ped'l^iT^y.'Ennâiïïtos aspectos, isto Paulo, um grupo especial de mestres se "íêz deles uigal^ígíÇeira^rag^, como os concentrava na instrução dos novos con­ apelidaram" algun^^íagãos do segundo vertidos e interessados, provavelmente século, à guisa d ef c E i I ^ pois eles pos­ antes do batismo. Por volta de 200 d.C., suíam uma forma de vida diferente e os­ a experiência havia ensinado a igreja a tentavam com^ o rã ilho o nome de çrisestender esse periodo a três anos. Alguns tãos. Certamente, em sua fidelidade ao convertidos obviamente precisavam de "unico Deus, revelado em Jesus Cristo, muita nutrição, antes de estarem prepa­ eles se colocavam à parte tanto de gre­ rados para romper com Satanás e se tor­ gos como de bárbaros. narem completamente submissos a Cris­ 1. Chamados das Trevas to. De fato, para Ubertá-los completa­ Contra esse pano de fundo, a “conver­ mente das garras dos poderes demonía­ são” do judaísmo era considerad^om o cos, algo mais do que instrução era ne­ umTeeSíméciméiii:o do messianismo e do cessário; requeria-se exorcismo. Da mes­ senhorIôTë” Hsïïs7“Nëssa liiíhar como ma forma como Jesus havia expulsado 49


demônios, a igreja o fez. Pelo menos no segundo século, a conversão ao cristianis­ mo acarretava certos rituais especiais, mediante os quais o domínio demoníaco sobre a pessoa podia ser quebrado. A pessoa que recebesse o Espírito Santo não poderia ser cheia de espíritos malig­ nos que se opunham a Deus. 2. Revestindo-se de Toda a Armadura de Deus O clímax da conversão do paganismo para o cristianismo era a iniciação à comunidade messiânica. Quando um convertido dava esse passo, entregava-se irrevogavelmente a Cristo, e se colocava em oposição aos seus senhores anterio­ res. Como membro do exército de Cristo, ele precisava'estar preparado para um ataque daqueles senhores anteriores. A sua única proteção suficiente era o arma­ mento divino, única coisa que o capaci­ taria a suportar as intrigas do Diabo (cf. Ef. 6:10-20). O armamento do cristão era a obra do Espírito Santo. O Espírito, de acordo com Atos, tinha uma conexão especial com o batismo, porque naquele momen­ to o homem declara que coloca de lado o seu velho “eu” , e se reveste do novo, ato simbolizado pelo despir uma roupa velha e vestir uma nova. O velho “eu” morre com Cristo, por assim dizer, e ressuscita de forma revivificada, para viver de ma­ neira nova. A força tirânica do pecado foi quebrada, disse Paulo. Ninguém mais precisa desculpar-se por agir imoralmen­ te, pois, participando da morte de Cristo, nós nos tornamos livres (Rom. 6:1-8). Em termos práticos, o compromisso expresso no batismo tinha tremenda im­ portância para o novo convertido. Ante­ riormente, ele costumava culpar os de­ mônios ou o destino pelo seu mau pro­ cedimento. O batismo minava essa des­ culpa. “Cristo vos libertou” , lembrava Paulo aos cristãos que resvalavam de novo para os velhos caminhos. “Não usem mal a sua liberdade. Vocês fizeram 50

um compromisso com Cristo, através do batismo; de agora em diante, precisam conduzir as suas vidas de acordo com o Espírito, para que não se tomem de novo escravos de Satanás!” (cf. Gál. 5). 3. Levantando Mãos Santas Tendo começado a fazer parte da co­ munidade cristã mediante o batismo o novo crente precisava dar atenção cons­ tante e fiel ao seu desenvolvimento es­ piritual. Ajudavam-no nisso a adoração particular e pública. Em particular, os cristãos seguiam um programa de orações algo semelhante ao dos judeus. Três vezes por dia — às 9h, 12h e 15h — eles recitavam a Oração Dominical (em lugar do Shema judaico). Também oravam antes de se levantarem, pela manhã, e antes de irem para a cama, à noite. De acordo com a Dida­ quê, provavelmente composta já em 100 d.C., os cristãos sírios jejuavam nas quartas e sextas-feiras (ao invés de fazêlo nos dias de jejum dos judeus, nas terças e quintas-feiras). As igrejas, no que tange aos edifícios existentes, fica­ vam abertas para devoções diárias. As festas de “agape” eram realizadas regularmente. Contudo, mais tarde, o abuso desse costume evidentemente le­ vou à separação deles da refeição da Ceia do Senhor (cf. I Cor. 11; II Ped. 2:13; Jud. 12). A Ceia propiciava, aos cristãos mais bem aquinhoados com bens mate­ riais, uma oportunidade, para ajudar os mais pobres. Os cristãos geralmente se reuniam à noite, para que os escravos e trabalhadores que pertenciam à igreja pudessem assistir às reuniões. A principal ocasião de adoração públi­ ca era o primeiro dia da semana, o do­ mingo romano (dia do sol), que qs cris­ tãos logo passaram a chamar de “dia do Senhor” , em comemoração da ressurrei­ ção de Jesus (cf. I Cor. 11:20; I Cor. 16:1,2; Ap. 1:10; Did. 14:1; Justino, I Apol., 67). Nesse dia, que logo começou a suplantar o sábado (Sabbath) judaico


durante o primeiro século, eles se congre­ gavam em um lugar indicado para louvar a Deus e buscar direção para as suas vi­ das. Lendo a Apologia de Justino Mártir, escrita no meio do segundo século, podese verificar o esboço básico da adoração na sinagoga judaica ainda influenciando a liturgia cristã. O caráter distintivamente cristão desse culto era a Ceia do Senhor ou Eucaristia. Aparentemente, desde os primeiros tem­ pos, os membros do novo Israel observa­ vam-na todas as vezes que se reuniam. Ela possuía significado especial para eles, porque, na sua observância, “esta­ reis anunciando a morte do Senhor, até que ele venha” (I Cor. 11:26). Neste sentido, a Ceia do Senhor era a Páscoa Cristã, como muitas referências primiti­ vas nos informam. Enquanto para os judeus a Páscoa fazia lembrar o mais poderoso ato de Deus em seu favor, isto é, o êxodo do Egito, a Eucaristia fazia os cristãos lembrarem um ato ainda mais poderoso em seu favor, a saber, a sua redenção da escravidão do pecado e de Satanás, mediante a morte e ressurreição de Cristo. Ao usar a palavra grega anam­ nesis em referência à Ceia, Paulo falava em mais do que um memorial, da mesma forma como a Páscoa era mais do que isso. O Mishnah, ou seja, a tradição oral codificada do judaísmo, depois de deter­ minar a maneira pela qual a Páscoa devia ser observada, ordenava: “Em ca­ da geração um homem deve conside­ rar-se como tendo saído pessoalmente do Egito.” ^ A bem dizer, portanto, os primeiros cristãos pensavam na participação do pão e do vinho como uma participação um pouco mais do que simbólica na morte e ressurreição de Jesus, e qualquer outra coisa que esse acontecimento desse a entender. A refeição simbolizava a sua participação da comunidade messiânica, através do Espírito, a sua participação na 3 Mishnah, 10:5, tradução para o inglês de Her­ bert Danby (London; Oxford, 1933), p. 151.

vitória de Cristo sobre os principados e potestades, a sua união com Cristo e uns com os outros (cf. I Cor. 10:1-22; 11:1834). Para Joâo e alguns escritores do segundo século, ela denotava a realidade da natureza humana de Jesus (cf. Joâo 6:1-14, 26-71; Inácio, Ef. 20:2; Phiia. 4:1; Smyrn. 7:1). Ela também prometia que o que Deus havia começado, ao ressuscitar Jesus dentre os mortos, iria completar. 4. Falando a Verdade em Amor Cor a sua promessa de salvação para todos os homens sem considerações quanto à situação da sua vida pregressa, a igreja se impusera uma tarefa difícil. Os seus convertidos, alguns quiçá atraí­ dos pela sua beneficência, em muitos casos haviam vindo da própria escória da sociedade. Paulo lembrou os coríntios, por exemplo, que alguns deles haviam sido fornicários, idólatras, adúlteros, efe­ minados, sodomitas, ladrões, avarentos, beberrões, caluniadores (I Cor. 6:9-11). O não convertido punha em perigo a vida da própria igreja. Por isso, instruções e disciplina “no Senhor” se tornaram uma característica regular da vida da comuni­ dade cristã primitiva. Além do treinamento pré-batismal, os cristãos recebiam ulteriores instruções, através do sermão e em sessões diárias da igreja. Por volta do meado do segundo século, havia também escolas, em que, os que tivessem tempo e o desejassem, pu­ dessem obter um nível mais elevado de compreensão teológica. Mas a maior par­ te da instrução era ministrada no lar. As crianças recebiam quase todo o seu treinamento cristão no recesso do lar, pois a cristandade não levantou escolas especiais para elas antes da Idade Média. Os pais e mães ensinavam os seus filhos e filhas a orar, liam as Escrituras para eles e inculcavam neles “o temor do Senhor” . Embora as crianças cristãs tivessem que freqüentar escolas pagãs, para recebe­ rem educação liberal, a responsabilidade 51


de corrigir os erros pagãos a respeito dos deuses, etc., cabia aos seus pais. Como uma comunidade de amor for­ temente unida, a igreja primitiva tam­ bém expressava preocupação pelos seus membros através da disciplina, “seguin­ do a verdade em amor” (Ef. 4:15). O objetivo aqui não era a vingança, mas a redenção. Algumas pessoas haviam deixado de cortar os laços com Satanás, ou haviam caído de novo sob a sua influência. Mediante palavras de encora­ jamento ou admoestação, elas podiam reafirmar a sua lealdade a Cristo e manifestá-la em suas vidas. Não é de estranhar-se, portanto, que se encontre, fre­ qüentemente, nos escritos cristãos primi­ tivos, injunções para encorajar, admoes­ tar, repreender, exortar e instruir. Lamentavelmente, alguns casos mais rebeldes requereram ações severas. Os que não reagiam aos conselhos minis­ trados com amor, a igreja “entregava a Satanás” , cortando-os da “koinonia” cristã. Esperava-se que a exclusão iria levar tanto à restauração do ofensor co­ mo à preservação de pelo menos o padrão mínimo de santidade no corpo de Cristo. Duas ofensas mereciam essa espécie de disciplina: imoralidade crassa e facção ou divisão. As duas se situavam em antí­ tese à natureza da igreja, como comuni­ dade do Espírito, e refletiam um retorno do domínio demoníaco sobre o indivíduo. Em sua ação, a igreja tentava aplicar as medidas que iriam restaurar e revitaüzar a pessoa que havia caído. Ela era pronta em pronunciar o perdão de Deus. 5. Deus Estabeleceu Como qualquer outro movimento de monta, o sucesso do cristianismo depen­ deu, em grande parte, dos seus líderes. Logo de início, indubitavelmente, a co­ munidade de Jerusalém podia confiar em líderes apostólicos, testemunhas oculares e participantes do ministério de Cristo. Mas, à medida que o movimento se 4 Cf. Tertuliano, On Idolatry, p. 10.

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espalhou pelas partes mais longínquas da terra, líderes como Paulo, Barnabé, João Marcos, Timóteo, Tito, e centenas que não haviam visto Cristo na carne, tive­ ram que assumir a liderança. Durante muito tempo a comunidade de Jerusalém ainda consistiu em fiel da balança para as outras igrejas, como a de Antioquia, por exemplo. Porém, à medida que os horizontes do cristianismo se expandi­ ram, a influência de Jerusalém se des­ vaneceu, e outras igrejas de fundamento apostólico propiciaram também os pon­ tos de referências para todo o movi­ mento. Durante esta fase inicial, centenas ser­ viram por indicação espiritual, junta­ mente com os apóstolos, cumprindo o ministério da igreja no mundo. Em suas primeiras cartas, Paulo enumerou mui­ tas funções, que nunca se solidificaram, tomando-se ofícios: profetas, mestres, governos, dons de curar, socorros, admi­ nistradores, oradores em línguas (I Cor. 12:28). Posteriormente, entretanto, as funções que essas pessoas exerciam fo­ ram resumidas para se encaixarem nos ofícios de bispo, presbítero e diácono. O ofício de presbítero (ancião) prova­ velmente fora emprestado da sinagoga. A medida que o cristianismo traçou uma linha de separação do judaísmo, instalou os seus próprios presbíteros. No mundo grego, esses presbíteros recebiam o título mais descritivo de episkopoi, ou bispos, que significa “supervisores” . Os presbí­ teros, ou bispos, em certõ local, ou certa região, funcionavam como junta, servin­ do um dos seus membros como “presi­ dente” ou “presbítero que presidia” . Posteriormente, embora não com a mes­ ma velocidade em toda parte, o título de bispo foi sendo reservado para o presbí­ tero que presidia. As igrejas na Síria e na Asia Menor parece terem estabelecido o padrão para esta estmtura, chamada de episcopado monárquico. Inácio, Bispo de Antioquia, martirizado em cerca de 110-117 d.C., recomendou a sua imple­ mentação com fervor profético, mas o


seu tom sugere que o que ele buscava não era um padrão genérico. Roma aparente­ mente apegou-se à estrutura antiga até o fim do segundo século. Sobre os presbíteros-bispos, e, mais tarde, somente sobre o bispo, repousava a responsabilidade principal de dirigir e coordenar todo o ministério da igreja. Eles pregavam, administravam o batis­ mo e a Ceia do Senhor, supervisionavam a distribuição de fundos para ajudar os pobres e necessitados, ensinavam os no­ vos convertidos e exercitavam um cuida­ do pastoral genérico sobre o rebanho. Os diáconos, por outro lado, desincumbiamse de numerosas funções relacionadas com o ministério da igreja. Exerciam o seu ministério múltiplo sob a direção dos presbíteros ou do bispo. Conclusão O crescimento do cristianismo, naque­ les primeiros séculos, foi notável, e o seu impacto ainda mais extraordinário. A igreja da era do Novo Testamento lançou os alicerces, de forma que, com o passar do tempo, o novo Israel alcançou uma vitória que facilmente fez sombra às con­ quistas do velho Israel. Rompendo os laços de uma só cultura, eles univer­ salizaram as boas-novas de Deus, trazi­ das em Jesus Cristo. Fizeram notáveis modificações na vida política, social, econômica, intelectual e religiosa de Roma. No processo, eles correram os riscos nele inerentes. Algumas vezes, tal­ vez, foram longe demais. Mas a sua cora­ gem inventiva, nascida da confiança de que o evangelho é boas-novas para todos os homens, em toda parte, deu-lhes um triunfo merecido sobre dúzias de compe­ tidores. Cristo, o seu soberano, provou ser mais forte do que todos os outros juntos.

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Leitura Suplementar DAVIES, J.G., The Early Christian Church (Série “History of Religion” ,

ed. E.O. JAMES). New York, Chicago e São Francisco: Holt, Rinehart & Winston, 1965. DODDS, E.R., Pagan and Clu-istian in the Age of Anxiety, Cambridge: The University Press, 1965. FREND, W. H. C., The Early Church (Série “ Knowing Christianity” , ed. WILLIAM NEILL). Philadelphia e New York: J. B. Lippincott Co, 1966. _, Martyrdom and Persecution in the Early Church. Garden City, New York: Doubleday & Co., Inc., 1967. GLOVER, T. R., The Conflit of Reli­ gions in the Early Roman Empire. Boston: Beacon Press, 1909, 1960. HARNACK, ADOLF, The Mission and Expansion of Christianity in the First Three Centuries. Traduzido e editado por JAMES MOFFATT. New York: Harper & Bros., 1908, 1962. LATOURETTE, KENNETH SCOTT, The First Five Centuries (“A History of the Expansion of Christianity” , Vol. I). New York, Evanston and Lon­ don: Harper & Row, 1939. LIETZMANN, HANS, The Beginnings of the Christian Church. Traduzido por BERTRAM LEE WOOLF. Lon­ don: Lutterworth Press, 1939. NOCK, ARTHUR DARBY, Early Gen­ tile Christianity and Its Hellenistic Ba­ ckground. New York, Evanston and London; Harper & Row, 1964 (re­ impressão). SCHLATTER, ADOLF, The Church in the New Testament Period. Traduzido por PAUL P. LEVERTOFF. London: S.P.C.K., 1955. WEISS, JOHANNES, Earliest Christia­ nity: A History of the Period A.D. 30-150. 2 vols. New York; Harper & Bros., 1959 (reimpressão). 53


A Teologia do Novo Testamento William L. Hendricks A teologia do Novo Testamento é o estudo que enfatiza e explica detalhada­ mente o conteúdo do Novo Testamento do ponto de vista teológico. Como tal, ela está intimamente relacionada com outros estudos teológicos, e, muitas vezes, é difícil distinguir entre eles e a teologia do Novo Testamento. A teologia do Novo Testamento difere da exegese do Novo Testamento pelo fato de se concentrar nos temas e implicações mais importantes dos materiais do Novo Testamento. Contudo, a teologia do No­ vo Testamento precisa pressupor tanto o trabalho do exegeta, para fornecer os de­ talhes de interpretação, quanto os vários significados de uma dada passagem. A teologia do Novo Testamento tam­ bém difere da teologia sistemática. A teo­ logia sistemática trata mais sistematica­ mente e compreensivamente de doutrinas como Deus, o homem, o pecado e a sal­ vação. A teologia sistemática tem como fontes os materiais bíblicos; e também usa a perspectiva histórica de maneira intencional, para mostrar a influência da cultura e da interpretação bíblica na for­ mação e moldagem da doutrina. Da mes­ ma forma, a teologia sistemática se preo­ cupa em relacionar materiais bíblicos e históricos com o contexto atual. A teolo­ gia do Novo Testamento difere no ar­ ranjo do material e na consciente exclu­ são das preocupações da teologia liistórica clássica. Isto significa que a teologia do Novo Testamento se preocupa em per­ mitir que os materiais bíblicos falem, em primeiro lugar, em seu próprio contexto, e depois no contexto contemporâneo. A teologia do Novo Testamento difere da teologia histórica e da história da 54

igreja. Em certo sentido, ela é o prólogo e primeiro capítulo desses estudos. Em outro sentido, ela deve propiciar as nor­ mas pelas quais se avalia a teologia histó­ rica e a história da igreja. Um teólogo protestante do Novo Testamento pressu­ põe a prioridade do Novo Testamento, devido ao seu ponto de vista da autori­ dade e significado dos materiais bíblicos. Visto que a teologia do Novo Testa­ mento trata da mensagem do Novo Tes­ tamento em seu próprio contexto e em suas dimensões teológicas, a organização dos materiais é importante. Os livros do Novo Testamento são diferentes em pro­ pósito e em conteúdo. A sua mensagem é normativa e prática em sua expressão. As percepções teológicas do Novo Testa­ mento não são principalmente sistemáti­ cas em sua estrutura. Por exemplo, os Evangelhos foram escritos para contar a iiistória de Jesus Cristo e dar direção e autoridade para o testemunho cristão. Paulo fez um pequeno resumo da fé cris­ ta em Romanos, mas falou mais fre­ qüentemente de problemas específicos em Gálatas e em I e II Coríntios. Seria melhor falar de teologias do Novo Testa­ mento, pois há diferenças de ênfase e percepção nos vários livros do Novo Tes­ tamento. Ã guisa de introdução ulterior, note­ mos algumas ênfases principais np estu­ do atual da teologia do Novo Testamen­ to. Entender os antecedentes históricos é importante. A teologia do Novo Testa­ mento expressa a percepção teológica do Novo Testamento. A Bíblia não apareceu em um vácuo. Se o homem moderno lê o Novo Testamento apenas à luz das suas


experiências, é provável que ele perca de vista valiosas percepções bíblicas e dis­ torça o significado original dos materiais bíblicos. A ênfase nos antecedentes his­ tóricos é uma das tendências mais pro­ nunciadas no estudo da teologia bíblica, nos dias de hoje. No entanto, o Novo Testamento é mais do que um documento histórico. Ele é história interpretada pela fé. Tem havido uma forte reação à ênfase que se tem dado aos estudos do Novo Testamento como história da religião. Esta reação afirmou que a história nunca pode esta­ belecer os fatos da fé. Jâ em 1892, M ar­ tin Kahler enfatizou esta posição. i Uma questão importante é o debate entre a fé e a história. A questão é dupla: (1) Qual é a relação entre os acontecimentos his­ tóricos e a crença? (2) Dado o fato de que a crença não se prova por eventos da história, pode alguém dedicar-se a afir­ mações de fé sem nenhuma preocupação pela sua base histórica? Um dos alunos mais ilustres de Kahler é Rudolph Bultmann, que esposou o ponto de vista do seu mestre, de que a história não pode provar a fé. No en­ tanto, Bultmann foi muito além de Kah­ ler, e negou que os aspectos históricos da vida de Jesus sejam importantes para a fé. O que sabemos acerca de Jesus nos foi entregue pela fé da igreja primitiva. Uma pessoa é salva pela fé, e não por fatos históricos. Esta clivagem entre história e fé desencadeou um dos debates teoló­ gicos mais acesos do século XX. Bult­ mann e sua escola têm sido a influência predominante nos estudos do Novo Tes­ tamento durante os últimos vinte anos. ^ A derrota da história, esposada por Bultmann, nesse debate, não ficou sem sofrer desafios na Alemanha e no mundo 1 The So-Called Historical }esus and the Historical Bibli­ cal Christ, trad. C arl B raaten (Philadelphia: Fortress, 1964). 2 Veja Theoiogj o f the New Testament, 3-62; James Smart, The Divided Mind of Modern Theoiogj (P hila­ delphia; W estm inster, 1967); e Kerjgma and Myth, ed por A .W . B artsch (New York: H arp er Torchbooks, 1961).

de fala inglesa. Os oponentes de Bult­ mann têm argumentado que uma fé discriminadora precisa perguntar quais são as bases históricas para a sua crença. Perguntar apenas acerca da fé da igreja primitiva e acerca da percepção de si mesmo que tem o homem contemporâ­ neo tom a Cristo um fator sem impor­ tância, e o ser humano a coisa mais importante. Assim argumenta a oposi­ ção.^ ■ Não existe nada que possa ser chama­ do de história pura. Todos os relatos,, escritos e edições são predispostos em alguma direção. É óbvio que temos, em o Novo Testamento, relatos acerca de Jesus e da igreja primitiva que foram grande­ mente influenciados pela fé e pela ex­ periência dos autores. De fato, sem a ressurreição, nenhum relato de fé teria sido escrito acerca de Jesus de Nazaré. Pelo contrário, se Jesus não tivesse res­ suscitado, não haveria nenhuma base para a nossa fé. O Novo Testamento inclui tanto a história como a fé. A his­ tória do Novo Testamento não foi regis­ trada pelo amor à história. Foi registrada para a promoção da fé. A fé do Novo Testamento não se manifesta sem a ocor­ rência da história, que suscitou corações cheios de fé e registros formados pela fé. Outra ârea digna de consideração é a hermenêutica. Os estudantes do Novo Testamento há muito tempo sabem que a maneira como uma pessoa interpreta a Bíblia determina a sua declaração do que ela considera ser o ensino da Bíblia. A hermenêutica é a ciência de interpretar registros escritos. Qualquer pessoa que leia a Bíblia e a relacione com a vida usa certos princípios de hermenêutica, de interpretação. Muitos usam um foco ex­ perimental, que relaciona todos os mate­ riais bíblicos com a vida do indi\íduo em 3 Cf. espedalm ente J. M oltm ann. Theology of Hope, trad, p o r Jam es Leitch (New York: H arper, 1967), p. 182-90; Paul A lthaus, Fact and Faith in the Kerygma of Today, tra d , por D avid C airns (Philadelphia: M uh­ lenberg, 1959); Alan Richardson, An Introduction to the Theology of the New Testament (New York: H arper, 1958).

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termos da sua experiência pessoal. Ou­ tros enfatizam uma abordagem histórica, indicando o que a Bíblia quer dizer. A primeira abordagem carece de profun­ didade, e a segunda, de aplicação. O propósito deste artigo é destacar as idéias teológicas básicas do Novo Testa­ mento. Procuramos responder à pergun­ ta: Qual é a mensagem essencial do Novo Testamento? A resposta pode ser encon­ trada enquanto considerarmos as afirma­ ções feitas no esboço deste artigo.

Gênesis 1 é identificado mais minuciosa­ mente como Aquele que estava com o Verbo que se fez carne. A auto-revelação de Deus é completa. O Deus que pelo Verbo fez todas as coisas (João 1:3) e deu a Lei a Moisés (João 1:17) revelou-se plenamente aos homens em Cristo, o Verbo encarnado (v. 14). Em Cristo, Deus agiu para a redenção do homem (Rom. 3:24; Col. 1:14,20; I Ped. 1:18,19). Deus enviou Cristo ao mundo (João 3:16; Luc. 4:18). Visto que Cristo efetua a nossa redenção, e Cristo I. Deus Tem Interesse e Cui­ vem de Deus, nenhuma outra conclusão dado Pela Sua Criação pode ser tirada, a não ser que o Deus que Os primeiros cristãos eram judeus. nos redime em Cristo é o que criou o Eles sabiam que Jeová Deus havia criado mundo. o mundo e que o governava com poder e O amor é também uma característica amor. Era de suprema importância que o de Deus. O amor de Deus é visto no que Deus de Israel, criador do céu e da terra, ele fez. Ele deu Cristo em favor do mun­ fosse também o Redentor. O foco pri­ do (João 3:16). Ele dá coragem, esperan­ mordial do Novo Testamento é que Deus ça e graça ao seu povo, como evidência redimiu o homem em Cristo. A obra do seu amor (II Tess. 2:16). Ele castiga redentora de Deus era o ponto de parti­ os seus filhos como evidência do seu da. O pensamento do Novo Testamento amor (Heb. 12:6). O amor de Deus avança da redençãó e retorna à criação. é especialmente derramado sobre o seu O ensino de Jesus reforça o ponto de Filho (João 3:35). A natureza essen­ vista de que o seu Pai é o Criador e cial de Deus é amor (I João 4:8). O amor Sustentador do mundo. Deus se preo­ é a marca registrada de Deus, e é exigido cupa com as flores do campo e os pás­ do povo de Deus como sua marca identi­ saros dos ares (Mat. 6:28; 10:29-31). ficadora (I João 4:11). O amor a Deus e Paulo aceita o ensino do Velho Testa­ ao próximo é o maior mandamento de mento de que Criador e criatura são as Deus (Mat. 22:37-39). duas ordens de existência. Os homens O amor é sempre uma recordáção da erraram em adorar “ à criatura antes que, possibilidade da ira de Deus. Amor e ira ao Criador” (Rom. 1:25). O que Deus são dois lados da mesma moeda. Deus criou é basicamente bom. Foi o homem não é contraditório. A sua ira origina-se quem corrompeu as coisas (I Tim. 4:3,4). do seu amor. Ira é amor rejeitado. A ira Tiago reconhece que Deus é o originador de Deus habita naqueles que se recusam de todas as coisas, especialmente do bem a crer em Jesus (João 3:36). Quando os que o homem recebe (1:17,18). Pedro homens retêm a verdade de Deus em encoraja os seguidores de Cristo a se en­ falsas formas, a sua ira permanece neles tregarem e os seus sofrimentos a Deus, (Rom. 1:18). A desobediência desenca­ que é “fiel Criador” (I Ped. 4:19). deia a ira de Deus (Col. 3:6). Os homens O primeiro capitulo do Evangelho de que andam nas concupiscências carnais João une, na sua mensagem, a noção de do mundo estão, por natureza, debaixo que Deus, o Criador, também é o Reden­ da ira de Deus (Ef. 2:3). Mas esta não é a tor. João começa com as mesmas pala­ maneira final de ele tratar os seus filhos; vras do Gênesis. O paralelo é intencio­ pelo contrário, eles são destinados à sal­ nal. O Deus da criação mencionado em vação (I Tess. 5:9). 56


Deus é chamado de Pai por Jesus Cristo (Mat. 11:27; João 17:1). Os cris­ tãos afirmam ter um relacionamento es­ pecial na expressão de Jesus dizendo que Deus é seu Pai. Este é o uso primordial da palavra “pai” em o Novo Testamento; é a paternidade de Deus em relação a Cristo, o Filho. Um uso secundário, des­ se derivado, vê-se quando Jesus ensina os seus discípulos a chamar Deus de Pai (Mat. 5-7). Os cristãos primitivos chama­ vam Deus de Pai porque se relacionavam com ele através de Jesus Cristo, o Filho. O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo se tornou uma frase quase técnica, para identificar o Deus dos cristãos (II Cor. 11:31). As bênçãos e saudações dos cristãos são expressas em nome do Pai (Rom. 1:7; II Cor. 1:2; Filem. 1:3). A co­ munhão dos remidos é com o Pai (I João 1:3), e eles levam o nome do Pai (Apoc. 14:1).

II. Jesus Cristo, em Sua Vida, Morte e Ressurreição, é a Palavra de Deus O foco central do Novo Testamento é Jesus Cristo. O que é novo em o Novo Testamento não é o seu retrato de Deus ou a sua promessa de libertação para o homem. O que é novo é a afirmação de que em Jesus de Nazaré Deus é clara­ mente visto e a salvação do homem é plenamente realizada. 1. O Desenvolvimento da Cristologia Uma das mais antigas confissões cris­ tãs foi que Jesus é o Cristo (Mat. 16:16). Outras antigas confissões de fé são: “Vem, Senhor Jesus” (I Cor. 16:22); “Jesus Cristo é Senhor” Fil. 2:11). Esses foram clamores nascidos da fé. Os ho­ mens do Novo Testamento foram sacudi­ dos pelo impacto de Cristo em suas vidas. Começaram a reconhecer o que Cristo significava em termos do Deus de Israel e da esperança para todos os homens. A Cristologia do Novo Testamento bem po­ de ter-se desenvolvido de acordo com os

seguintes passos; (1) uma profunda per­ cepção de que o Cristo crucificado e ressuscitado era de fato o Messias de Deus; (2) uma continuação de comunhão com o Cristo ressuscitado através do Es­ pirito Santo; (3) a expectativa da volta de Cristo; (4) uma avaliação da vida e dos ensinos de Jesus; e (5) uma afirmação da sua preexistência com Deus, desde o princípio.“* Os vários autores do Novo Testamento abordam a figura de Jesus de diferentes perspectivas. O Novo Testamento apre­ senta um quadro multifacetado de Jesus Cristo. Sempre ele é o centro da mensa­ gem. Todavia, a fim de perceber a sua plenitude, é melhor examinar esses qua­ dros separadamente. 2. A Cristologia Sinóptica A morte e ressurreição de Cristo é o ponto inicial adequado para discutir co­ mo a igreja primitiva enxergava Jesus. Os Evangelhos não são biografias, con­ forme a acepção tradicional desse termo. Mais espaço é dedicado à semana final e à morte de Cristo do que a qualquer outro aspecto de sua vida (Mat. 21-27; Mar. 11-15; Luc. 19-23). Na morte de Cristo a vida do povo de Deus começou de novo. Ligada com a morte de Cristo em humildade, está o triunfo da sua res­ surreição. Os crentes primitivos ficaram extasiados com o fato de Deus ter ressus­ citado Cristo. A morte e ressurreição de Cristo deu forma à compreensão sub­ seqüente de quem era Jesus e como de­ veria ser encarada a sua missão. Sua Obra — Em fé bíbhca, o homem é conhecido primeiramente pelo que faz, ao invés de sê-lo pelo que é. Sendo assim, a obra de Jesus propiciou o foco do qual a sua pessoa e os seus ensinamentos de­ viam ser vistos. A morte e ressurreição foram a ênfase primordial dos Evange­ lhos. As suas obras poderosas (duna4 P ara as várias perspectivas, veja R. H. Fuller, The Foundations of New Testament Christology (New York: Scribner’s, 1965) e John Knox, The Humanity and D i­ vinity of Christi (Cam bridge: University Press, 1967).

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meis) eram vistas como atos significati­ vos do Messias. Da mesma forma como os Evangelhos Sinópticos dedicam muito espaço à morte e ressurreição, dedicam também muito espaço às obras poderosas ou milagres de Jesus. Quase um terço de Marcos (209 dentre 661 v.) fala de coisas miraculosas. As obras poderosas são par­ tes integrais, e não acidentais, para a formação dos Evangelhos. Estas obras de Cristo não sâo primei­ ramente sinais para provar as suas cre­ denciais. Jesus afirmou que a sua gera­ ção não teria sinal, a não ser ressurreição e julgamento (Mar. 8:11,12; Mat. 12:3845; 16:1-4). Por ocasião do seu julgamen­ to, Jesus não realizou nenhum milagre para satisfazer a curiosidade de Herodes (Luc. 23:8). 5 Os milagres de Cristo foram basica­ mente de quatro tipos: cura, expulsão de demônios, ressurreição de mortos e o uso da natureza para satisfazer as necessida­ des do seu ministério redentor. Todos os seus milagres estavam intimamente rela­ cionados com o reino de Deus. Recomenda-se aos seguidores do Ba­ tista para considerar as obras milagrosas de Jesus como evidência de que ele é o Messias (Luc. 7:22; Mat. 11:4 e ss.) “Mas se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, logo é chegado a vós o reino de Deus” (Luc. 11:20; Mat. 12:28; cf. Mar. 3:23-30). A pergunta do primeiro século não era: “Os milagres são possíveis?” mas “Por que autoridade você está fazendo estas coisas, e quem lhe deu tal autoridade?” (Mat. 21:23; cf. Mar. 1:27; 11:28; Luc. 20:2). Jesus esquivou-se de expressar diretamente a sua autoridade aos líderes judaicos. Nâo obs­ tante, os seus seguidores já liaviam re­ conhecido, em suas obras poderosas, a autoridade de Deus e a alvorada do reino. Os milagres eram mais do que obras de compaixão ou demonstrações de for­ 5 Veja A .M . H unter, The Work and Words of Jesus (Philadelphia: W estm inster, 1950), p. 54-59.

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ça. Eram também promessas do que Deus fará, por fim, em favor do seu povo, quando o seu reino vier plenamen­ te. Ele vai remover a dor, a morte, o mal, e as limitações da presente existência do homem (Cf. Apoc. 21:4). No quarto Evangelho, os milagres de Jesus sâo chamados obras e sinais. As obras e sinais poderosos eram fatores vitais na formação do quadro que o Novo Testamento pinta acerca da vida e do ministério de Jesus. Os eventos da vida de Jesus são apre­ sentados nos Sinópticos como feitos de cumprimento messiânico. O seu nasci­ mento virginal é encarado como cumpri­ mento de profecia (Mat. 1:23; cf. Is. 7:14; e referências veterotestamentárias em pronunciamentos e “cânticos” rela­ cionados com o nascimento de Jesus em Luc. 1 e 2). O seu batismo está ligado com a idéia da restauração da profecia e da atividade do Espírito nos últimos dias (Luc. 3:16-22). ^ Tanto a descida da pomba como a voz do céu, por ocasião do batismo de Jesus, devem ser interpreta­ das messianicamente. Isto é, os últimos dias despontaram. O Messias chegou. O Espírito repousa sobre ele. Ele é vali­ dado e confirmado por uma voz celestial. A fórmula da voz vinda do céu é uma combinação de duas passagens do Velho Testamento: “Tu és meu filho” (Sal. 2:7) e “em quem se compraz a minha alma” (Is. 42:1). Nesta combinação, de Filho de Deus exaltado e Servo de Deus Sofredor, estão as diretrizes para a tarefa messiâ­ nica de Jesus. Ser Messias mediante sofrimento foi o peso da tentação de Jesus (Mat. 4:1-11). O tempo da tentação de Jesus também tinha um caráter simbólico. Os quarenta anos do vaguear desobediente de Israel são revividos e vencidos nos quarenta 6 Os rabis haviam ensinado que a profecia e o Espírito de D eus haviam abandonado Israel depois do último dos profetas, e haveriam de voltar só com a vinda do M essias. Nesse ínterim . D eus interveio diretam ente, em Israel, m ediante um a voz celestial. Veja W . D. D a­ vies, Paul and Rabbinic Judaism (London: S. P. C. K., 1958), p. 208-215.


dias de obediência (cf. Ex. 16:35; Rom. 5:19). Semelhantemente, o primeiro le­ gislador, Moisés, esteve no Monte Sinai quarenta dias e quarenta noites (Êx. 24:18). Assim, também, o doador da nova lei, maior do que Moisés, experi­ mentou um período de tentação e reve­ lação. O clímax da tentação de Jesus foi fazer a vontade de Deus à moda do Diabo: ser um messias-pão, um messias espetacular, um messias transigente. A pressão dessa prova de falsas formas de messianismo continuou durante o minis­ tério de Jesus. A fé na ressurreição, que os escritores dos Evangelhos manifestaram, serviu co­ mo trampolim por onde a Sua vida e o Seu trabalho eram encarados, com a per­ cepção total de que ele era o Messias de Deus. O começo de sua vida, o seu batismo, a sua tentação e as suas obras poderosas eram vistos com a visão retros­ pectiva da ressurreição. Seus Ensinos — Os Evangelhos Sinóp­ ticos apresentam os ensinos de Jesus de um ponto de vista messiânico. A ênfase não era o seu método de ensino. Da mesma forma, ele também não é apre­ sentado como um gênio religioso. Jesus é o proclamador do reino de Deus. A sua mensagem diz como é que os homens que entram nesse reino devem viver, e como o cumprimento do reino está nas mãos de Deus. Os ensinamentos de Jesus eram dire­ tos, intensamente práticos e tinham au­ toridade. Ele exige obediência radical da parte dos homens, porque o reino de Deus os confronta. O fato de ele usar parábolas era método comum no judaís­ mo. O hermetismo das parábolas propi­ cia a oportunidade para o Mestre (rabban) desenvolver a fé dos discípulos. Os ensinos de Jesus nasceram dos rela­ cionamentos da sua vida. Havia os discí­ pulos escolhidos que Jesus reunira em 7 Cristo, como a Nova T orah (lei) e o Novo Moisés, é um tem a favorito de M ateus. Veja Alan Richardson, An Introduction to the Theologj of the New Testament, p. 166-69.

torno de si. Eram esses que recebiam e eram responsáveis por transmitir os ensi­ nos de Jesus (Mat. 4:18-22; Luc.'6:12-16; Mat. 28:19,20).« \ Aos que desejavam seguir a Jesus, apresentava-se a exigência de deixar tudo e segui-lo, a despeito das contingências da vida e dos estritos requisitos do reino (Mat. 8:19-22; Luc. 9:57-62). Esperavase que os discípulos servissem em um clima de oposição (Mat. 9:37,38; 10:16; Luc. 10:2.3). e com um senso de urgência e de juízo iminente (Luc. 10:8-12; Mat. 10:15). As recompensas do discipulado eram, em grande parte, intangíveis, mas de valor transcendental. O discipulado propicia um conhecimento de Deus que não se consegue de outra forma (Mat. 11:25-27; Luc. 10:21 e ss.). Seja o que for que o discípulo necessite, lhe será dado, Conquanto que ele busque o reino de Deus em primeiro lugar (Mat. 6:33; 7:711; Luc. 11:9-13). Nem todos os homens se relacionavam com Jesus mediante o discipulado; mui­ tos se relacionavam com ele através de hostilidade e rejeição. A esses, ele res­ pondia com palavras sábias e medidas (Mat. 12:25-37; Luc. 11:17-23). Jesus re­ conhecia que as reivindicações de Deus eram supremas, e fazer a vontade de Deus era o padrão pelo qual Deus se agradava (Luc. 11:21-28). A rejeição em face da confrontação de Deus nos ensinos de Jesus acarretava maior responsabili­ dade e juízo mais pesado (Mat. 12:41. 42; Luc. 11:31-32). A medida que os escribas e fariseus intensificavam a sua rejeição de Jesus, e assumiam uma atitu­ de de perseguidores e censores, Ele os desmascarava e demolia os seus argu­ mentos (Mat. 23; Mar. 12; Luc. 11). O relacionamento de Jesus com Deus determinava todos os outros relaciona­ mentos. Jesus realizou a sua obra pela autoridade (exousia) de Deus (Mat. 9:8; 28:18). Ele abriu o caminho para o en8 Veja W illiam Barclay. The Master’s Men (New York: Abingdon, 1959).

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tendimento de Deus (Mat. 11:27). É importante não se ofender com o Cristo (Mat. 11:6), confessá-lo perante os ho­ mens (Luc. 12:8) e não se envergonhar do Filho do Homem (Mar. 8:38). O Deus de Jesus Cristo se preocupa ativamente com os homens. O seu cui­ dado providencial se estende a tudo o que tem vida (Mat. 10:28-31; Luc. 12:22-30). O mundo e seus processos, em última análise, estão em suas mãos, “porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos” (Mat. 5:45). Deus é especialmente o Pai dos pacificadores (Mat. 5:9), e os discípulos de Jesus clamam a ele como “Pai nosso que estás nos céus” (Mat. 6:9). Jesus selou com aprovação e respeito a Lei de Deus. Ela permanece e tem cum­ primento nele (Mat. 5:17,18). Ele perce­ bia o espírito da Lei além do seu labirinto de requerimentos específicos. A essência da Lei é amor a Deus e ao próximo (Mat. 22:36-40). Jesus reverenciou o Templo e o sábado, mas não hesitou em desafiar o seu mau pso, ou apresentar a intenção mais profunda de Deus, contra as inter­ pretações e distorções dos homens (Mat. 21:13; Mar. 2:23,24; Luc. 6:2-9). Os ensinos de Jesus em relação ao Velho Testamento e às tradições de Israel são melhor resumidos com o “ouvistes o que foi dito... eu, porém, vos digo” (Mat. 5:21-48). No que ele ensinou e era e fez, as primeiras testemunhas perce­ biam que Alguém maior do que Moisés estava no meio delas. Seus Títulos — Nos dias neotestamen­ tários, dava-se, aos homens, títulos de acordo com os seus feitos. Um homem era o que fazia, da maneira como agia, o que realizava. Os nomes que o Evangelho dá a Jesus são reflexos das ésperanças messiânicas de Israel, cumpridas em Je­ sus de Nazaré. ^ O termo p r rf e ^ é usado pelas multi­ dões para designar Jesus (Luc. 7:16; 9 Veja O scar C ullm ann, The Christology of the New Testament, trad , de G uthrie an d Hail (Philadelphia: W estm inster, 1959).

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Mar. 6:15). Na Palestina do primeiro século, isto significava que um porta-voz de Deus havia se levantado. Para algu­ mas pessoas, significava a alvorada da era messiânica. Os próprios escritores dos Evangelhos não chamam Jesus de profeta, pessoalmente. Jesus deu a enten­ der que era profeta (Mar. 6:4; Luc. 13:33-35). Crescendo o cristianismo além da Palestina, essa designação de Jesus começou a perder o seu significado ori­ ginal. <€ n s t^ é uma designação de Jesus favo­ rita no Novo Testamento. Esse termo significa ungido, e é usado por Mateus e Lucas, especialmente em conexão com o nascimento e a morte de Jesus. O uso mais memorável do termo Cristo é a confissão de Pedro de que Jesus é o Cristo (Mat. 16:16 e ss.), seguida pela aprova­ ção de Jesus para essa confissão. O te rm o \S e n ^ ^ (kurios) era ampla­ mente usado no mundo antigo. Era tão comum como hoje, como pronome de tratamento, e, em alguns casos, era nada mais do que isso mesmo. Em outros usos, era uma palavra sagrada, empregada em lugar do nome sagrado de Deus. Esse termo é usado extensivamente nos Evan­ gelhos, referindo-se a Deus (Mat. 1:22; 9:38; 11:25) e a Cristo (Mat. 12:8; 15:22; Luc. 24:34). Visto que o termo era am­ plamente usado, tanto no mundo judeu como no gentio, o seu exato significado precisa ser determinado pelo contexto em cada caso. O termo mais estranho aplicado a Je­ sus foi{ríÍhodÕ H Õ m ê^^io Ele usou-o como títüÍo'”ãS"réfSfír^se a si próprio. “O Filho do Homem não tem onde recli­ nar a cabeça” (Mat. 8:20). Ê usado para referir-se a uma f i^ r a exárfada> Ü o d o sobrê^as nu^^ens (Mat. 24:27-30). É tam­ bém usado acerca do Filho do Homem 10 B ultm ann nega que Jesus ten h a usado esse term o a respeito de si mesmo; acha que a igreja aplicou esse termo a Jesus depois da sua m orte. Veja H. Todt, The Son of Man in the Synoptic Tradition, trad, de D .M . Barton (Philadelphia: W estm inster, 1965); R. Fuller, The Mission and Aclilevement of Jesus (C hica­ go: Alec Allenson, 1956).


sofredor (Mar. 8:31; 9:12; 14:21). Esse termo tem antecedentes ricos no Velho Testamento e na literatura inter-testamental. Nos Evangelhos, ele se refere a Jesus comn Aqiiplfi q n e vpín para se iden­ tificar com o homem; para sofrer Por ele: e como 0 futuro Redentor, que vai voltar no “último dia” . 3. Opinião de João Acerca de Jesus Cristo, o Filho de Deus O Evangelho de João enfatiza especial­ mente a filiação do Cristo. O Filho é “Filho unigénito” — único por si mes­ mo, na categoria (1:14,18; 3:16,18). Ele vê oFilho como o Verbo de Deus (1:1). O Verbo participa da natureza divina, mas assim mesmo se torna carne (1:1,14). O Filho encarnado é plenamente huma­ no. Ficou cansado junto ao poço de Jacó (4:6); demonstrou preocupação por sua mãe (19:26); e demonstrou a sua obe­ diência e dependência do Pai (5:19; 6:38). O íntimo relacionamento entre Pai e Filho é enfatizado pelo fato de que o Pai dá testemunho do Filho (5:17,37). A autoridade e poder do próprio Deus residem em Jesus. O Filho é eterno; ele era desde o princípio (1:1; 8:58; 17:5) e vai para o Pai depois da sua morte (16:17). O Filho veio do Pai e volta para ele (João 8; 14:1-3). O Filho sai do mundo ao ser levantado na cruz. O termo “levantado” significa tanto a crucificação como a glorificação. Para João, é na crucificação que Jesus é glorificado (3:14; 8:28). Todos os sinais no Evangelho de João são dados para demonstrar que Cristo, pelo poder de Deus, satisfaz as necessidades dos ho­ mens. 4. A Cristologia de Paulo Paulo contribui muito para o retrato que o Novo Testamento apresenta a res­ peito de Cristo. Paulo fala a partir do seu relacionamento com Cristo, o Senhor res­ suscitado. Todavia, ele sabe que Jesus era um homem “nascido de mulher” (Gál. 4:4). Jesus era judeu, da semente

de Davi (Rom. 1:3). Jesus era manso e suave (II Cor. 10:1). Ele demonstrou constância (II Tess. 3:5) e obediência (Rom. 5:19). Paulo designa Jesus, mais freqüentemente pelo título de Senhor. A confissão de Jesus como Senhor é ne­ cessária para a salvação (Rom. 10:9,10). Só se pode reconhecer Jesus como Senhor pelo poder do Espírito (I Cor. 12:3). Por causa de Jesus Cristo, o Senhor, a graça efetua a vida eterna para o homem (Rom. 5:21). Embora os pagãos falassem de muitos deuses e muitos senhores (I Cor. 8:5), sò existe um Senhor (Ef. 4:5). Cristo, o Senhor, foi o agente de Deus para a criação, e o seu instrumento para a redenção (Col. 1:13-17). Cristo, o Senhor, esvaziou-se para tornar-se o Servo-Salvador dos homens (Fil. 2:1-8). É em Jesus, o Senhor, que Deus irá expressar o próprio senhorio de Deus sobre toda a criação e receber o louvor de todos os homens (Ef. 1:10; Fil. 2:10). 5. Outros Escritos do Novo Testamento O retrato de Cristo apresenta magni­ ficente variedade em outros escritos do Novo Testamento. O autor de Hebreus enfatiza que Cristo é a imagem de Deus (1:3). Cristo formou os mundos e é a melhor e última — perfeita em todos os aspectos — das manifestações de Deus ao homem (Heb. 1:1-3). Cristo é o sumo sacerdote, que se preocupa com o bem de todos os homens (Heb. 8:1). Cristo é o mediador da nova aliança de Deus com os homens, e a sela com a sua morte (Heb. 7:15-26). Pedro fala de Cristo como a principal pedra angular do tem­ plo de Deus (I Ped. 2:6,25); como o pastor e bispo de nossas almas; como o cordeiro sem pecado (I Ped, 1:19), que leva os homens à salvação, como fora anunciado pelos profetas (I Ped. 1:1012).

Em Tiago, Jesus Cristo é visto como o Senhor da glória (2:1), que ostenta o nome honorável (2:7) e vem para julgar os homens (5:9). O Apocalipse apresenta uma expressão multifacetada do triunfo 61


de Cristo. O Senhor ressuscitado, o Cris­ antiga maldição de Deus registrada em Deuteronômio. Ela se torna o símbolo do to, não é outro senão Jesus (1:9), o sacrifício de Cristo, o mais elevado sinal Messias de Deus (11:15). Ele é o Cordei­ ro de Deus, que dá fiel testemunho em do amor redentor de Deus pelos homens, e a palavra a ser proclamada pela igreja favor do povo de Deus (1:5); e ele é o cristã. soberano Senhor das igrejas (1:17-20). Ele é o Alfa e o Ômega, o princípio e o Ligada com a humilhação da morte de Cristo está a exaltação da sua ressurrei­ fim (1:8). Os títulos de Jesus enfatizam quem ele ção. Cada um dos Evangelhos se demora era e o que fizera. Ele era um homem que ternamente nos seus detalhes. A tumba andara por toda parte fazendo o bem está vazia (Mat. 28:6). O mensageiro celestial proclama a ressurreição (Mar. (At. 10:38), mas também era ungido pelo 16:6). O próprio Jesus aparece aos seus Espírito de Deus. Esse Jesus era, em ver­ dade, o Senhor de todos (At. 10:36). Nele discípulos, inclusive dois seguidores de­ sanimados, na estrada para Emaús (Luc. habitava corporalmente a plenitude da divindade (Col. 2:9). Os títulos que o 24). Uma cena às margens do mar da Novo Testamento dá a Jesus e as suas ob­ Galiléia propicia encorajamento e instru­ servações a respeito dele levam-nos inevi­ ções para um grupo especial (João 21). tavelmente às duas afirmações de que^^í Sem a ressurreição de Cristo a nossa fé"^ Jesus é Deus e é homem. / seria em vão, e a certeza da ressurreição ) do homem seria invalidada (I Cor. 15). ^ 6. A Centralidade da Morte e Da mesma forma como a sua morte, a s Ressurreição de Cristo C sua ressurreição também está relacion^ / O acontecimento decisivo que foLp clí- C, da com a salvação do h o m em .Q P a^ ^ \ maxMTevêIãçIÕ~3êlDeusem C risto M ^ enfatiza a centralidade da morte e res­ surreição de Cristo, quando afirma que da cruz^TessuggjglÍÊ. 'cruz,"a víàa de J e s u s 'ié iía s i3 o n íc o ^ Cristo “foi entrepig por causa das nossas pleta^e os seus ensinos ocupariam tãotransgressões, g^ ^ su sçM 3 õ°pãrã^ nos^justificação” (Rom. 4:fe). somente o primeiro lugar em uma longa lista de filosofias morais. S e m ^ ^ i dade da ressurreição, os discípulos teriam perIII. O Espírito de Deus Dá 'ínaliecitíoTSamdecisão do desespero. Testemunho da Sua Palavra Dedica-se amplo espaço à morte de e Atrai os Homens a Deus Cristo nos quatro Evangelhos. Paulo sa­ O termo “palavra de Deus” tem pro­ bia só Cristo, e ele crucificado (í Cor. fundas raízes no pensamento do Velho 2:2). Pedro recorda aos cristãos persegui­ Testamento. Quando Deus falou, acon­ dos que a morte de Cristo é um exemplo teceu (Gên. 1). O termo grego logos para eles e um sacrifício — ele levou os (palavra) também tem ricos e variegados nossos pecados no madeiro (I Ped. 2:2124). Hebreus enfatiza o ministério sacer­ significados no solo grego. Talvez po­ der-se-ia dizer melhor que “g a l a ^ | ^ ^ dotal e o sacrifício de Cristo pelos ho­ iS ü s ” significa o ln s l^m erifo que reaJi^ mens feito uma vez por todas (8-10). za o seu propósito e vontade. Sob esta A sua morte foi um assassinato brutal, luz, fesu sC ri^o é a primeira e última mas além da traição dos homens está o Pala^TS?lüleus.~ ~ plano predeterminado por Deus para a salvação do homem (At. 2:23). Geral- ^ As palavras e mensagens acerca de mente a morte de Cristo é interpretada j Jesus se tomaram a palavra de Deus que através da terminologia sacrificial do Ve- S é anunciada aos homens. Quando esta mensagem acerca de Jesus, o Verbo, (a lho Testamento. A cruz, um instrumento Palavra), foi colocada em forma escrita. da crueldade romana, é colocada sob a

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\ ela tornou-se, para os cristãos, a palavra 16:14). O^Cristojçgasuscitadq assopra^ o C de Deus, porque efetivamente conta e Espírito sobre os apóstolos (20:22).”' ^ X expressa os intentos de Deus em Jesus, o \V e r b o (a Palavra). E útil verificar um, 2. O Espírito na Vida da Igreja tó j^ ic ^ u s o ^ ^ a la v ^ . JesuTê*ã Palavra Dando Poder ao Povo de Deus no v iv aT ?]^ ^ ^ffiy ^ T cg ?cã* 5 e Jesus é a Pentecoste — O - livro de Atos fala da Palavra lalada; e os registros do Novò vinda do Espírito por ocasião do Pen^Testamento são a Palavra escrita. Nos Esta era uma festividade histórica dias do Novo Testamento, o Espírito de dõ judaísmo, associada,com os primeiros Deus estava j g f ^ ^ n g gÕTêhi-Erimeiro e grãos da-colheita, e. desde os dias rabímais importante lugar, com Jesus, e de| \ pois com áyroclam ação da Palavra. Está “nicos, com a outorga da lei a Moisés. O Espírito veio sobre os seguidores de p 1íein aos fiomens hoje também em forma Jesus quando eles_s_e_reuniram em Jerusa^ escrita, e a igreja contemporânea sente lém _ ^A t^ Elesreceberam jiod^ que o Espírito dá testemunho desta pabolizad” elos ventos veementes) e jo ram bvra escrita. purifigados p a ra p^erviço (simbolizado 1. O Espírito na Vida de Cristo pela^^ngu^,^ de fogo), e proclamaram Em o Novo Testam ento,_^^sg^to_de^ ccm ^egríà _o eyangelho aTõdoT’os'1í3^ mens, representando todas as regiões da Deus dá um testemunho essencial de terra (simbolizado pelas línguas e pela Verbo de Deus. O seu n^diggn_ s e “3a mediante a vinda d o E s ^ rito 'lista de todas as nações). A mensagem'“? acerca de Jesus (kerygma) foi proclama- / sobre Maria (Luc. 1:35). O seu katismo da no poder do Espírito Santo, e a pala- ) é confirmado pelo Espírito, simbolizado >vra foi abençoada com a adição de novos ^ pela pomba (Mat. 3:16). O Espírito o ^ impulsiona para o deserto, a fim de ser , discípulos (2:14-39; 3:12-26). fentado (Mar. 1:12). CT“>eu ministério Moldando a Comunidade da Fé — púMco é iniciado com uma cit^ão^^Ho" Cumprindo a promessa de Cristo, o EspívèD í^estam ento, reivindicando direção nto veio sobre os seus seguidores, para pelo Espírito de Deus (Luc. 4:18). As dar-lhes consolo (Joãõ Í4:16). O Espírito niasobraspoderosas são realizadas pelo é o Espírito da verdade (João 14:17), que iÊspíriito7Maíri5?28) e ele fala do dom vai guiar o povo de Deus. O Espírito, do Espírito Santo, que Deus iria dar ao como Consolador (Parácleto) está pre­ Seu povo (Luc. 11:13). — — sente para continuar a comunhão de ( O Evangelho de Joãó? escrito tendo em Cristo (João 15:26) e proclamar o julga­ ¥Ísta o adicionamento de percepção teo­ mento sobre o mundo (João 16:8-11). lógica aos detalhes primeiros, fala freO Espírito testifica aos homens de Deus que Jesus foi verdadeiramente homem com Cristo. Este batizará com o Espírito (1 João 4:2). O Espírito de Deus é um n^32;33). 'Ní&d3«nra'''e'Tníoi™ dom de graçaTcharisma)^ para ajudar os Cristo que precisajiascer^,^dpEsgírijto, CrisSos a discernirem o cahiinKo‘aêTíêus para entrar no reiriode'O eusU oao 3). C T ^ J õ â ^ á p T ): e propio^ar lhes certeza jrf sgnça ágXrijSÍP deve ser estendida ^ t o m íF ln afcrg O ajOTHr ^3:24). p Espírito conduz o videhte“Bo H umâ,jQnle_de_ á g u a jiv ^ (7:38,39). Apocalipse através dos mistérios e sím­ íesus enviar^ o^Espírito^Santo (15:26) bolos do conflito cósmico e da vitória [elevará íestemuriíio é"o glorificará final (1:10; 4:2). O Espírito junta-se à (16:14). Q ^ sp írito cQmplein§nta,^o míj- igreja para proclamar o convite para que jlistério de Cristo, rememorando aos todos venham — “e quem quiser, receba apóstolos as palavras de Cristo (14:26; de graça a água da vida” (Apoc. 22:17). 63


o Espírito de Deus testifica de Cristo,| e, âo fazê-lo, atrai os homens a DeusJ O Espírito de Deus mergulha nas profun­ dezas do ser divino, da mesma forma como o espírito do homem interpreta os seus desejos íntimos (I Cor. 2 :1 1 )._ ^ u m ag ^ s^a n ^ tem_o Espírito de ^ s t o , t!3o?"aeirtRÕínrB1^7lSS'o‘E 5 in ío p c5ãcÍtS F ''^ '1 ío S ^ i” a confessar Cristo (I Cor. 12:3). O Espírito faz do povo de Deus uma carta viva do testemunho (II Cor. 3:3), e a palavra que eles falam é acerca dessa Palavra viva de Deus, poiso Espírito e Cristo são um em objetivos (irCoi7"3TÍ7). Õs cristãos devem conduizir as suas vidas de forma que pelo Espírito possam produzir resultados que sejam reconhecíveis como “fruto do Espi-^ rito” (Gál. 5:22-25). O Espírito dá dons ao poyo^de ^ e u s . Esses dons vênr'5ãraTSdívrduòsr^1 devem ser usados para o bem do corpo (I Cor. 12-14). Os dons servem a p ro p ó -^ sitos especiais (I Cor. 12:4-12; Ef. 4:412), e são dados a diferentes indivíduos. Çada homem não possui todos os dons do Espírito. Contudo, todo o povo de Deus deve ser caracterizado pelos três grandes ê"niêrhores dons doEsp^írito: fé, esperan­ ça e amor (I Cor. 13).

das outras religiões o cristianismo e o Novo Testamento do Velho. “ O cÕncéiío*cristão da Trindade tem sido freqüentemente interpretado erra­ damente, para significar que os cristãos adoram três deuses. Taltriteísm oé estra­ nho ao Novo Testamento!""À uni d a d e de Deus é uma unidade de gfôpositos e acão comum. A ^mm9ã3ê~Hi Deus é a sua mãneíra'3 8 ^ e r ^ ê í? ^ * 3 ^ s g ^ ^ ^ im Blstónã7'd’^ v o Testamento não recO' S e c e ^ T rin d a d e dó ponto de vista da filosofia ou da matemática. Pelo contrá­ rio. em o Novo TestametiicL-ã-tau.iiidade de Deus era um fato primário de expe­ riência. Foi excesso em bênçãos eldoxolfl^a^^]L T C z de sê4o, emj ^m u las sisiticas (Rom. 15:33; II Cor. 13:13;

rV. Deus Escolheu uma Co­ munidade Redimida pa-^^e \ o, ra Testificar Dele a » " '

-------------- ^ C 'Deus se revela aos homens como Pai. Filho e Espírito. Cada expressão do tripiice movimento'de Deus aos homens é* proposital. O propósito de Deus é de sua própria escolha (eleição) e inclui a reden;ão do homem. Ao realizar este propósiçã( fe: ueus escolhe um POVO (escolhido ou 3. Espírito, Filho e Pai eleito) para cumprir o seu propósito e O Novo Testamento reflete o dram á-i para manifestá-lo a todo o mundo. A co­ ticõlnõvimên^ de D e u s ~ ^ direção°R)' munidade veterotestamentária estava bem cônscia de ser escolhida por Deus HõniemTWDeusl ~ para cumprir o seu propósito e para mente e finalmente em Cristo (Heb. 1:1implementar a sua revelação aos ho­ mens. A Bíblia crista contém um Velho 'Õ conceito crisfâo^í eus necesgaria- Testamento e um Novo Testamento — duas alianças. Estas alianças propiciam^ m iîïîêT n cIîu asû â ige natureza. O tCTmõ Mri^de~nâo aparec^^t^ T N o v o ^ expressões preliminares e finais do proTëstamënto.'"Ë uma e x p r^ ^ o que ^pa- / pósito de Deus. A característica constan-, rèce mais tarde na história. Mas a noção ( te de ambos os Testamentos é a aliança \ ] 5que está por detrás da doutrina da Trin-/ de Deus e o seu propósito redentor. dade é uma característica neotestamen-J tária primordial. _gs|aLÍri]^dd|^eesge-'' 1. O Propósito Contínuo de Deus cífica de Deus (PaiTrulio. Espírito) surJesus se colocou conscientemente den­ ^ i ^ S * 2LqSla época da história em par­ tro dos propósitos históricos de Deus. ticular (Palestina do primeiro século), O começo do seu ministério aconteceu distingue da maneira mais sigmfigativa devido à sua consciência^^a tarefa pro­ 64


fética que lhe cabia (Luc. 4:18; cf. Is. provocado à inveja pelos gentios, que 61:1). A sua relação com a Lei de Deus foram nele enxertados (Rom. 11:17-24). era de promessa e cumprimento (Mat. Uma coisa é certa: o propósito de Deus 5:17). Tanto o legislador como o profeta em salvar se estende à Sua comunidade aparecem na Transfiguração, o que pre­ de aliança original; mas pode ser efetua­ vê a morte de Cristo, evento decisivo no da apenas por Cristo. plano de redenção planejado por Deus A relação entre a lei e o evangelho é (Mat. 17:2ess.; Mar. 9:2ess.). uma das preocupações de Paulo. A lei é i^jggg^^adosjdoze^póstolos por Jesus uma palavra com diversos usos. Há uma e a insistência da igreia pr^ t i v a em man­ lei de consciência para os gentios (Rom. ter "^sé numero mostra uni esforç(7deíi2:14). Lei pode referir-se a todo o Velho berado e consciente para representar o Testamento (Rom. 3:10-19), ou apenas ; novo Israel (Mat. 10:1 e ss.; Mar. 3:14;< aos elementos mosaicos (Gál. 3:10-13). Luc. 6:13; At. 1:15-26). Q _grandejnai^ A lei mosaica e as tradições judaicas são damejito.para o povo de Deus e o mesmo personificadas em um sistema legal que em o Velho Testamento (Deut. 6:5) e em compete com o evangelho, nas afeições o Novo (Mat. 22:37). As dimensões do dos gálatas. A lei não pode salvar (Gál. Deus de Israel tomaram precisão históri­ 2:6), mas a lei, em si mesma, era Deus ca e cresceram com a vinda de Cristo (Rom. 7:14). Ela revela ao homem o que (João 1:17). A intenção de Jesus de ajun­ é pecado (Rom. 7:9). A lei é boa. Os tar o nove Israel foi desempenhada na homens é que não o são (Rom. 9:12-25). vocação dos discípulos e expressa em O resumo do assunto é que o propósito Cesaréia de Filipe (Mat. 16:16-20). de Deus para redimir é constante, e que a O derramamento de poder sobre o povo lei serve a esse propósito como serva, ou de Deus no Pentecoste é interpretado co­ aia, para conduzir o homem ao mestre, mo cumprimento profético (At. 2:14-21). que é Cristo (Gál. 3:24). Os autores do Novo Testamento interpre^^ taram a vinda de Cristo e a sua vida em^^ ^[2. O Corpo de Cristo termos de cumprimento profético. O novo Israel é uma frase que signi­ Uma breve história e filosofia do propó­ ficou muito no contexto do judaísmo do sito de Deus se encontra em Romanos primeiro século. A medida que a comu­ 9 — 11. Nestes capítulos, Paulo introduz nidade de Deus se espalhou pelo mundo, temas que têm exercitado a fé cristã em levando o sal e a luz do seu testemunho, todas as épocas. Esses temas são: a cons­ outros terínos se tornaram necessários tância do propósito de Deus; a relação para expressar a sua existência. O corpo entre Israel e a Igreja; as intenções finais de Cristo foi usado freqüentemente, por de Deus para Israel; e o propósito eletivo Paiüo. com o fim de propiciar uma ana^ e os caminhos de Deus. lõga viya_e orgânica, para d^crever o Paulo interpreta os propósitos de Deus para Israel e para os gentios (Rom. 9 — Os muitos crentes individualmente 11). Ele está certo de que o propósito da constituem um sò corpo em Cristo (Rom. redenção por parte de Deus é constante n i3)T D F ^n^slaõ'~ 5ãtizãdos flo corpo (Rom. 9:4). O que muda é o homem. de Cristo e nutridos pelo seu Espintõ Isto é ilustrado pela recusa do povo de (ICor. 12:13). Cada crisJão_é^relaçíqnado Deus em fazer a Sua vontade e aceitar o com Cristo coníò as várias partes de um Seu Cristo (Rom. 9:31-33). Israel não cõípõ"cõmVcabeça desse organismo vivo acompanhou a ampliação dramática do (I Cor. 12; Col. 1:18). Os crentes devem propósito de Deus, em Cristo. No dia do cumprimento, o povo é salvo por clamar 11 Cf. J. A. T. Robinson, T h e Body (London: SCM, 1952). a Cristo (Rom. 10:9-13). Israel vai ser 65


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estar relacionados a Cristo como os mem­ bros de um dado corpo se relacionam com o todo, ou como a esposa ao marido, pois eles se tornam um só corpo (Ef. 4-5). A igreja (ekklesia) é um termo laream^ e usaao para o povo d e P e u s . Elè lRrr~rS 7.es em palavras ~üsiH ^ ^ assemWeia^ israelitas. E usado em Mateus por Cristo (16:18^; 18:17). “ Igreia’' ordinariamente se refere à congregaçao local específica de crentes. A f o m a ^ u rahiCTeia^refere-se a congregaçao dè unia c iy a região (I Cor. 1:2; Gál. 1:2). I^ Ía te m b é m ^ Ê _ J ||g Ê _ à mais ampla 'â s s S ib îe ïâ 'ïïr T o ^ ^ ^ r e n te s , e, nessas ocorrências, é sinônimo da expressão “o corpo de Cristo” (Ef. 1:22,23). Muitas outras express^^ são usadas em o Novo Testamento para falar do continuo i3ropósito de Deus çorporjfiçja: A igreia deve servir a Deus.^Sem ^ especiais (ministros) na igreja são chamados pastores, diâconos, presbíteros ou a n c iã o srm ^ re sT “B i ^ s e evangSfis^ 0 E ír ííll- l3 f T T iir 3 :^ 2 r i 31). Várias qualificações são requeridas daqueles que^ p e n isionam e ministram. ãÕ sT ^éB SíhordeK ur(rT m r‘3 r T l t ^ ^ As fmiçõesjpr ^ ic ^ d o ministério_ de.diácõnó na igreja em Jerusalém são registra^f^p ecificam en te(A t. 6). o povo de Deus é chamado p ^ nE^m êciso~qu^ cada um m SvSuamiente ouça e s s e P ^ ' ra se tornar seu _goro (João 1:12,13). Dentro desta acepcao mais ampla de vocacão. há a separação especial, peíõ Espíntõ, g ^ p e ^ o a s chamadas para a reaEaçãõ de tarefas redentoras especí­ ficas (At. 13:2,3). Esta vocação especial é reconhecida e honrada pelas congrega­ ções que expressãm reáfflhedm gaíaJgr~ Ú às pessoas que 12 Cf. I. R. Neison, The Realm of Redemption (G reen­

wich, Conn.: Seabury, 1951.) 13 Cf. “ Igreja” , Interpreter’s Dictionary of the Bible, I, 508-26. Os m em bros d a igreja s5o escravos de D eus (Rom. 1:1; II Ped. 1:1; Tiago 1:1). A igreja é o Israel de D eus (G ál. 6:16); o rebanho (Luc. 12:32; I Ped. 5:2, 3); um a nação santa; um povo peculiar (I Ped. 2:9).

são chamadas específico. Esse reconhecimento íõinõu a forma de imposição de mãos sobre os cha­ mados (At. 13:3r"í Tim^ 4:14). A^^ diferenças de ministério aconteciam gnção, enãóTêm grau. ( _ S £ K V / ^ ONovÕTestamem^é insistente quan­ to à responsabilidade de todos os homens perante Deus, bem como quanto à culpa de todos os homens perante o Senhor (At. 17:26-31; Rom. 1-3). Em Jesus Cris­ to as barreiras construídas pelos homens e éxistentes'êhtre eles, são derrubadas (Gál.. 3:28). Todos os crentgsjlevein,jgr_saçgi; dotes dé~Deus êm~1ãvM-~Hêum jnundo perdido. Ochamado-^especial para o ministenÕcóRca a pessôa debaixo de séria obrigação e propicia graça incomum para o serviço. Isto não marca o vocacionado como diferente ou melhor do que os outros filhos de Deus. to^s^QS cpntes é um corolário da nossa ffllação de Deus em Cristo. da proclamação, obpoir ^ s t o , que dão testemurihõ simtjQlico íic o odo o seu. evento redentor. Èsses n M ^ s s ^ o batismo^eTCeia. Õ tismo é ordenado pelo Senhor ressusci 3b (Mat. 28:20). Ele retrata a experiência de morrer e ressus­ citar com Cristo (Rom. 6:1-4). j m seu batismo, Cristo se_identificou cbíii o p fíomem, to i^ u -se um com a humanida- S dè^pècadorX^ElFcm zoua linha da nossa -i imperfeição, para permanecer conosco. No batismo_cristão. o crente em Cristo conscientemente se id e ^ ifica com (^isto. t l e “ còhfêsSá" publicamente o nome de Cristo (Rom. 10:9,10) e “ se reveste” de Cristo pela imersão (Rom. 6:3; Gál. 3:27). ' 'è. A Ceia foi estabelecida por Cristo, e é toiftsffi“ elos seus seguidores para recor­ dar o seu sacrifício em favor deles, e para refletir sõbre a sua^idnda iminente, para comungar com eles (Luc. 22:19-30; M a t.|| 26:26-29; Mar. 14:22-25; I Cor. ll:23-~ 26). O cálice e o Pão da mesa do Senhor propiciam comunhão c_om. ele (I Cor.^„ 10:16,17). Ambos levam o crente a lem-«*

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brar-se da necessidade de separação de ' vida e pureza de conduta (I Cor. 10:21). Em o Novo Testamento, a Ceia do Se­ nhor pressupunha rigoroso exame de consciência e uma sondagem minuciosa do homem interior (I Cor. 11:28-33).

V. A Comunidade Redimida É Composta de Homens Que Compartilham das Fraquezas do Pecado e da Experiência da Salvação 1. O Homem no Pecado A oginião do Nçvo Testamentg a respeltõdò^hom em ^âo é nem pessimista nêm^^pt^stã?~? õ ^ ° 's è r ‘'d è la itã ^ reaKtaT^trKomem é criatura de Deus e apresenta a i m a g e ^ S ^ ^ d e m a n d a distorcida. “ TO^antor o homem nunca deve ser desprezado pelos seus semelhan­ tes (Tiago 5:9). De fato, o homem é a maior preocupação do Criador, e a sua vida elnãíFH liõsa do que a de qualquer outro ser criado (Mat. 10:29-31). Mesmo ^ instituições religiosas ordenad;^ nor Deui^sap pará o bem dos homens. ~ S l^ínaslpãrtês do iiomenTinuitas ve­ zes sâo responsáveis pela sua reação co­ mo um todo ou pelo seu modo de viver. O coração é o órgão do pensamento e das_ reaçSes, nõ NõvcTTe^aínênto7"oTíome^ é o que e lfp ê n s F em s e u ^ ração''^M 'ãt' Í2:34,35)70s õrgão^nteriOTes refletem compaixão ou profundas emoções (Fil. 1:7; 2:1,2; Col. 3:12). Os escritos d^^?auÍoVdedicam muito espaço às reflexões, acerca doJiomem jio p e ç a ^ O homem participa de inna^aja decaída. Da mesma forma com\) o pnm eíro^dão, todos os homens pecaram (I Cor. 15:21,22; Rom. 5:12-21). A justiça deve ser julgada segundo os padrões de Deus, e, segundo esse critério, nenhum homem está à altura (Rom. 3:21-23). O homem é carne. Isto significa que há uínprm apí3'''aíívo, no homem, que é mau e que torce a vida para a direção das 14 Cf. C. Ryder Smith, The Bible D octrine of M an lÆndon, Epw orth, 1949).

coisas demoníacas e pecaminosas (II Cor. 7:1; 10:2). O homem tern uni corno. Algumas vezes corpo e carne são smonimos (Rom. 6:6; 7:24). Basicamente, o^ cor^o é a forma do hom em rNéstãrVídáT ele é^quTmico e terreno, e j o mundo futyro ele será espiritual (I Cor. 15:3^,40). 0 ho­ mem tem um espírito, que conlíece"^ prõfund^ãr'3o’^eú''ser (I Cor. 2:11); o e s p m ^ é aquela capacidade consciente do homem que passa por experiêncías^e a¥l«laciona cõrn toda a existência do ^ n ie m CRom. 7:6; I Còr. 2:12)7lEspíritÓ” ' Ç é o oposto de came. É a capacidade do jhomem de cooperar com o Espírito de C D e ^ j orde^jrj ] j Sjirá~^ facTpTõpósito de Deus (Rom. 8:1,4; I Cor.^ ^ ‘:20; Gál. 5:16,17). OJiomem é uma alma, um ser total, um ^ in^âivM im li^âeTfflnã^ inas vezes, ser sihôíumo de espírito e corpo (I Tess. 5:23). Alm aé a designação básica para a personaBBaae ao fiõniem, o seu tõdo. o gue ele é (Rom. 12:1~). O homem, em sua existência atual, é pecador, e necessita de Deus. é descrito de muitas formas. Ele é errar o alvo (hamartia); é mal moral (poneras); é injustiça (adikos); é ilegalidade (anomos); é escuridão (skotos). Pecado é mais do que pecados. Ele é o gênero"iTiaÍs'''Hlíípít5'‘'Hõ”quarnásceram as várias espécies de pecados específicos. O pecado, genericamente, é caracteriza^ò^põrcõn^glscêngíâoü"^!^ ^ ^ ^ meigl, ejgroduz^nto morte (Tiago 1:15; !^ m , J ^ í^ ^ ^ c o ^ ^ ^ p a T ã ç â o T ê r Ç ê u I ^ (í João 5T18). Ô pécadS^produz o"^ seu“ próprio fruto (Gál. §:19); é uma lei ope­ rando dentro do homem (Kom. ò:l); e coloca o homem em escravidão (Rom. 6:17). O homem, como pecador, precisa de T rrovb Testamento^fírma que o pecado foi fator determinante para a vinda de Cristo. O própriojiome de Jesus_se_relaçiona com a^ibertação do h ^ e m , cto seu p ê c ãd S ~ (M at7 T ?2 T rO sêu lãn g u en 67


fé é viver com Deus (Rom. 1:17). A salva­ purifica do pecado (I João 1:7). Ele leva os pecados do mundo (João 1:29; Heb. ção do __________________ homem estã" na fé e, __ sua possi. 9:28). ~ " ^ 'Piirdadê~3e ter té reside em~Pêiis (Êf. O testemunho do Novo Testamento é C '2T8~i9T. ' unânime no sentido de que o homem é J “ TO^homem confrontado por Jesus Cristo menos do aue devia ser. Q homem, dei- ( é responsável pelas suas decisões. DuranxaâoXmCTcê dos seus próprios recursos, ! te a vida terrena de Jesus, um moço rico não tem nenhuma esperança de ser real­ j decidiu contra Cristo, e “retirou-se trismente diferente do que é. Contudo, a Ç te” (Mat. 19:22). O Espirito de Deus essência da mensagem do Novo Testa­ > convence os homens do pecado da incremento é que o homeni^pode ser difereiite. 1 dulidade. O fato de não crer em Cristo é . do q u e ^ a g o ra , e pode, em Cristo, por que condena o homem (Joâo 3:36; 16:| T ii^ ò r n ã r^ Öque dérê~sér. A base parãXcrença e a c a p a c id á ^ ^ r a crer sâo dons de Deus ao homem. A de­ 2. O Homem Como Redimido cisão e o exercício da fé sâo obrigações do Eleição e Resposta — A vida cristã é homem. uma vida que passa por experiências, e ^ ‘^^‘Expríessões Para a Vida Cristã — Mui­ que relaciona cada experiência a Deus, tas expressões são usadas em o Novo através de Cristo. A possibilidade da vida Testamento para indicar o aue significa cristã está em Deus e na sua provisão ser crente. A maioria dessas expressões para o homem em Cristo (II Cor. 5:19). saõ metãíoras tiradas da diversidade das Os homens vão a Deus porque são esco­ experiências da vida. As metáforas tiralhidos para fazê-lo (I Ped. 2:4,9; Ef. 1:4). das dos relacionamentos familiares enfa­ São atraídos a Cristo pela proclamação tizam o lato ae a ú F õ rc rê n E F râ ^ iffiõs do evangelho e a atração do Espírito de Deus porad o g ão (Gál. 4:6)7^Eles Santo (At. 2:14-47; Rom. 8:15; Gál. 4:6; nascèranTae'^ôvoTJoâo 3:3-7); se rege­ Apoc. 22:17). neraram (Tito 3:5); tornaram-se'novas A reação do homem a Cristo, através criaturas (II Cor. 5:17); sâo herdeiros do do Espírito, é de fé e de arrependimento. reino de Deus (Rom. 8:17). Da corte judicial vem a ^ a lo g ia d a ji^ tif fia ^ o o u Arre^endiiasnto é a exigência divina anunciada no ministério de Jesus (Mat. (3lãIõ3Fsêr5êcfôra3ojústo7e7 portanto, 4: íTTTCucT I s : 1-5). A injunção para se a(Ébé?ía3g(Rom . 4:25; 3:24,28; 8:30). arrepender emoldurava a pregação da Da a r ^ de relações pessoais, o termo igreja primitiva (At. 2:38; 3:19; 17:30). raçonclliaçâo eusTdo para (iêscrevêra O genuíno arrependimento é-. possível cessação de isolamento entre pessoas apenas por causa da fé. (Rom. 5:10 e ss.; Ef. 2:16). O crente, pertencendo a Cristo, é se­ Fé é a capacidade que Deus dá_^qs_ hb^nsTguaiíH o ^ n ^ M te gõTcõf f C n ^ parado p ira õ propõsTtolÍ^lJêus,reÍaçã^ qúé é ehfãtízácfa por"u n T g ru ^ impor­ to7^g^ff^neje.^A fê'"ãcarreta o e l í v ^ vimenfo de todas as reações de um ho­ tante de termos usadpS-^em relação à vida cristã: santo, sagrado, santificar, santifi­ mem. Ela é jn te le c t^ , em^ional^e tiva. SenTíe^!^el!níp^rvefagraà'í- a Deiis cação. ^Treîaçâ”o"vït^ entrem ^ d o ~ e S iI^ ^ r o x im a r - s e dele (Heb. 11:6). Sem fé TEÉ^TEf. 5:22-33) e da videira com os em Cristo, a pessoa está condena(Ía poT ramos (Joâo 15:1-5) ilustra a condição causa aa sua incredulidadeTioão 3:36). dos crentes que estâo em Cristo.’ Estas ^ a cCTae^nac^p é|cominada^ao mundo expressões trazem consigo a conotação pelo b ^ mto de Deus, queconvence d(T ^íi~um.„r^çio.narnento ativo, vital. Há pecaSÕT^baseando-se na incredulidade üma vitalidade e uma alegria no relaciò^ namento ao povÕ~de^~De^ com o7sëû (João 16:8,9). .No evangelho, a pessoa contra a posslbüidade de fé. ejvimLB^ Senhor. Esta a ie g m e b e m capturada no 68


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termo redenção, que expressa cíam a^ reforçam a relação entre relatar da e sc S v ? 5 ã ^ ^ pecado e dos g n m o e ^ a ( ò~evãngelho §,, dar_t£slemuntK>-.dele em í incapacidade humana (Rom. 3:24; I Cor. ^ atos ^ um *slníirnenf^^ç^^^ y ' 1:30; Col. 1:14). A liberdade de perdão é ‘ ' - ^ ^ ' uma das principais bênçãos da vida cristã ^gelism o e ética estãõ relacionados intima(Rom. 4:7-16). mente em o Novo Testamento. o

VI. A Tarefa da Comunidade Cristã É Dar Testemunho ao Mundo Esta tarefa, executada pelos crentes, resulta em missão, interesse evangelístico e uma vida de acordo com princípios éticos por parte do povo de Deus. 1. Missão

2. Evangelísmo A palavra grega traduzida como pregação” .propicia a raiz para as nossas palavras portuguesas evangelho, evange­ lizar, evangelista e evangelismo. E ^ ^ ^UsmOj^eni_^Noj^^ nao.e'um .g K tg ^ más uma Alguns são chamados para ser .evangelistas (At. 21: 8; Ef. 4:11; II Tim. 4:5). Em sentido amplo, todos os seguidores de Cristo participam da vocação de cõínpirtíífiar" c g ç n c ^ s T ^ e ^ r^ ^ Evangelismo é uriíá inodo de vida carac­ terizado por compaixão (Rom. 9:1-3; Mar. 8:2; Luc. 7:13), e expresso pelo fato de se demonstrar fé em Cristo, que é a palavra e o caminho de Deus (At. 16:17). ..^ ^ e ^ p lo de interesse pe.lo evangelism o ^ ^ ^ ^ o ^ i ^ p e u s . As p a r ^ ^ a s ^ dracma percfiBa,'(iã ovelha perdida e do filho perdido (Luc. 15) revelam a inten­ sidade do interesse de Deus. A preocup^ão,4® D e u s jj;^ homem e^sua"^saP

O povo de Deus, é chamado,sm Cristo pa^ã s e rv ir^ ^ D ^ . ~0 serviço primofawl aõ~pòvo 'de Deus é dar testemunho ao mundo do que ele fez. Quando Jesus "êstava na terra, com í^onou os seus se­ guidores para anunciar o reino de Deus, mediante a realização de sinais messiâ­ nicos. A proclam^jyãoiaio reino de Deus foi em ^ QS. tanto auantõ ~em ni^lavras (Mat. 10:1-11; Luc. 10:1-16). Á ordem do Cristo ressuscitado foi pregar o evan­ gelho e ministrar aos necessitados (Mat. 28:19-20; João 20:21). Os primeiroj^cristãos proclamaram a in e n s a g e n T ^ e ^ ma) acerca de7estflT3É?iy0if'‘qúe^l^ que v g io jm ra J^ c a r e s a l v ^ *ram ò podeFac^spírito (ÃtT2 — j(yic. 19:JiO). Tarcompàixão é contagio­ Cristo indicou que serTa^um sinal do sa. Ela é encontrada em Paulo e seu zelo jeino o fato de que o e v a í^ ê lh o ^ ria por Israel (Rom. 9:3). Ela deve caracte­ regado_DQr palavras e por atos, aos rizar todo o povo de Deus. p o ^ s (f^ E lí:^ ./l^ a u Íõ ^ n fa tiz o u 3. Vida ele próprio fora e n v m d ó ^ ra proclamar a mensagem de Cristo (I Cor. 1:17); e A ,£^unidade^^^g|j|é é caracterizada esse foi o seu maior esforço (I Cor. 1:23). por uln. es tü o ^ ^ , vida. Os cristãos são* k, mensagem (pregação) do evangjife® chamados por esse nome devido à sua é o ins^me^nt5*escolKi3crp^^ sen^llmnça^com^Cm (At. 11:26). Eles" testificar acerca salvação (I Cor. ^ d e s e m p e n n ^ as suas profissões, desini:21). A injunção expressa a Timóteo foi ,;'‘cumbem-se dos seus deveres, mas são pripregar a palavra (II Tim. 4:2). Pregar é /m ordialm ente dedicados a Deus (R om .f^ mais do que dizer palavras. Freqüente12:1). Estão sob ojnandato de amor (João mènte retere-se ao conteúdo vital da pro­ 13:34). De fato, amor e a marca indic^ clamação, a mensagem, e não aos meios dora e digna de nota da~ c ^ ^ n p ^ e (II Tim. 4:17; Tito 1 ^ I Qss.nèotestamentMa (I João 3:14). À vida O u |ro s J e r^ s , como '^^nwstfar”/eV^proqu ^ M ¥ produz resultados cristãos nâo é 69


( / termo jedengã^ que expressa a jib ^ a ^ ã o c Ía rn ^ j;e fo rçam a rely ã o entre .relator^ í 7da e s c S v íS à ^ ^ pecado e dos g ^ 'B o e s ^ :eího _e^ dar tesíemunho^jiele em . incapacidade humana (Rom. 3:24; I Cor. atos e por uin *^en!Í!ménJo^l^_ co^ 1:30; Col. 1:14). A liberdade de perdão é | xãoTBm sümaV evanuma das principais bênçãos da vida cristã gelismo e ética estãoreÍac'ionadc)s intima(Rom. 4:7-16). mente em o Novo Testamento.

VI. ’A Tarefa da Comunidade Cristã £ Dar Testemunho ao Mundo Esta tarefa, executada pelos crentes, resulta em missão, interesse evangelístico e uma vida de acordo com princípios éticos por parte do povo de Deus. 1. Missão

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2. Evangelismo A palavra grega traduzida como “pre­ gação” propicia a raiz para as nossas palavras portuguesas evangelho, evange­ lizar, evangelista e evangelismo. Evange^Usm aem ^^N o;^^ nao e um mas uma Alguns são chamados para ser evangehstãs (Af. 21: 8; Ef. 4:11; II Tim. 4:5). Em sentido amplo, todos os seguidores de Cristo participam da vocação^de^õnTpirfíIHar"^ ^ 7 bToàs"nõrIg^cll^(hiíto^ Evangelismo é uma niiõdo de vida carac­ terizado por compaixão (Rom. 9:1-3; Mar. 8:2; Luc. 7:13), e expresso pelo fato de se demonstrar fé em Cristo, que é a palavra e o caminho de Deus (At. 16:17).

OgOTo^^e_^^g.é chamado^em Cristo para"ser\'ir a Deus.T) serviço primorHml aõnpõv^íé Deus é dar testemunho ao mundo do que ele fez. Quando Jesus 'estava na terra, comissionou os seus se­ guidores para anunciar o reino de Deus, mediante a realização de sinais messiâ­ nicos. A proclamacãoi-do reino de Deus foi em aíQS. tanto auantò éth palavras mO^ , _ ...... .........^ ___________ (Mat. lO Ü -ll; Luc. 10:1-16). A ordeírT dracma p er3 íd a,^ ã ovèlha perdida e do do Cristo ressuscitado foi pregar o evan­ filho perdido (Luc. 15) revelam a inten­ gelho e ministrar aos necessitados (Mat. sidade do interesse de Deus. A preo28:19-20; Joâo 20:21). Os p rim e ir^ criscupação^e Deus^p^lo homem e j ^ a ^ F tâos proclamaram a rnensãgèniTCkeryg- yaçã^ é çoijionficg ina) acerca d ^ e s |g 3 ^ ^ ^ ^ u e j i c e B e que vfiio para buscar e salvarjos^S ^ i S m 'raní"epodef'dõ^Espírito (Át. 2"^^^7T()Í^ ^ c . 19:10). Tar^õmpàixão é contagio­ Cristo Indicou qúe~sfrTa^um sinal do sa. Ela é encontrada em Paulo e seu zelo reino o fato de que o evangelho seria por Israel (Rom. 9:3). Ela deve caracte­ pregado. jr palavras e por atos, aos rizar todo o povo de Deus. pobres J M atT1iTs).(Paulo \snfatizou q w 3. Vida ele próprio fora e n v iã d o ^ ra proclamar a mensagem de Cristo (I Cor. 1:17); e ^^co^inidade^^^^jé é caracterizada esse foi o seu maior esforço (I Cor. 1:23). por üm estilo dè n ^ ~0s c risto s lã o A mensagem (pregação) do evangdho chamados por esse nome devido à sua é 0 mstru m ^ ^escõffiídypOT^D sem dhança^^ 11:26). E les'> testificar acerca" Cor. <='oesempennam as s u ^ profissões, desin- \ l:21).~A“injunção expr^sã a Timóteo foi ?cumbem-se dos seus deveres, mas são pri- > pregar a palavra (II Tim. 4:2). Pregar é /m ordialm ente dedicados a Deus (Rom._í=^ mais do que dizer palavras. Freqüente12:1). Estão sob o mandato de amor (João mènte retere-se ao conteúdo vital da pro­ 13:34)! De fato, amor e a marca indicaclamação, a mensagem, e não aos meios dOTa e d ig n a ^ e nota da comunidade (II Tim. 4:17; Tito ^^O ^IC w . UISX. neotestamentária (I João 3:Í4). À vida O^^ros t e r ^ s , como '^^nw ^f^yeÇ proque não produz íèsulfáBos cristãos não é 69


cristã (Mat. 7:16). A^ve|dadeira j é ^ r ^ , duz uma vida reta. A corifissão de fé de um'crente e 'as xi)rê§s55 " He sua precisam çoncori ãrT riago í regras específicas mudam de acordo com as circunstâncias e a situação (I Cor. 8:1-9). Orientações genéricas de conduta propiciam as normas da vida cristã (Fil. 2:5; I Cor. 10:31; João 13:34; Tiago 1:8). A vida cristã ^ ^ t ^ l por^que está ^rai-^ gãriã"num~lólõ~mais~~amplõ^ dòIqííí^os ^objetivpsjgoísfeos(Ef. 3:17 e ss.). A vid^ ^cristã é íle S v ire progressiva^ porque os e u s ^ v o s ^ o maiores do aue uma^sitaãçlSTníêdIãla”(Für3:12-14). A vida crísíaT um ãviB ã^undante agora (João 10:10, e vida com a face voltada para o futuro (I Ped. 1:3; I João 3:3; I Cor. 15:19).

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VII. Deus Tem a Última Palavra em Relação a Toda a Sua Criação A Palavra de Deus em carne (Jesus Cristo) é a primeira e última expressão do caminho de Deus para o homem. Ele é o Alfa e o Ômega (Apoc. 1:8). Existe uma fo ra m çiry ilaT j^ ^ ^ ria d ajia maneira de Deus"ãg i r T ^ ^ c o n r a sua c n a S o ? ppT õm eca as,5uas expressões rederitoras nolíárdim do Eden (Gên. 2:8; 3:15) e as conciüi' lío j ^ ^ ^ ~ ^ ^ a r a ^ o “TA^c!^ S n ^ S T E n tre esses íoís jardms Be Deus ficam os tortuosos caminhos da história e a revelação do plano redentor de Deus para o homem. A revelação biblica é caracterizada Pgl^ abertura e por u m a lp |f ^ 5 tiv 0 ^ o futuroXcf.CTTS^I^ lieology ot Hopè — Teolõ^a da isperança). O Velho Testamento olha para além de si mesmo, para. a promessa do Messias. O Novo Testamento anuncia a chegada do Messias, e prevê a sua vinda final(Apoc. 1:7,8). Çrisíp, como o cumpri(tor do propósito de Deus, vence o malígnoT~ É m ^ Novo Testamento á ameaça do" mal é mais pronunciada do que no V e lh o .^ mal é projetado em esçda pessoa^ tanto qUan- " 70

to em e^scala cósmica. Satanás (o adverfanÕJ tenta ate o próprio Messias (Mat. 4:1-11; Mar. 1:12,13; Luc. 4:1-13). O maligno é mestre em subterfúgios,‘apare­ cendo como um anjo de luz (II Cor. 11:14). Como príncipe deste mundo, ele exerce influência e poder. Mas a sua destruição é certa, no fato de Cristo ter vencido a morte (João 12:31; 14:30; 16:11). Uma afirmação repetidamente feita no pensamento do Novo Testamento é que o adversário, por fim, não conseguirá pre­ judicar o homem (I João 5:18), pois o dragão, a antiga serpente, simbolizando a oposição a Deus, será por fim vencido e lançado no lago de fogo (Apoc. 20:2,3, 10). A vinda de Cristo foi para vencer as obras do Diabo (I João 3:8)^A ^ rrota dos poderes demoníacos çomeçou^^STa níõrte de'Cristo',^ecõSin(úa^ v i^ I^ ifff°C rõ a í2 1 lll; I jQjõ*jf^4j r ^ a será plenaihente consegui3a~lío~ultimo dia (Apoc. 20:10). O crente deve tomar cuidado com o adversário e sua força (I Ped. 5:8), mas deve temer só a Deus (Mat. 10:28). 1. O Destino Final do Homem nasce da c^^sdêngk _^^algaym ^to^^O Tse (apropriadamen'te, esta è a palavra grega para julgamen­ to) do mundo está nas mãos de Deus. Cristo é o instrumento de julgamento. Às divisõeTentre o bem e o mal, crentes e incrédulos, céu e inferno, são fixadas (Mat. 2 4 — 25; Mar. 13; Luc. 16:19-31). Mas a decisão do juízo cabe só a Deus. O homem não deve ju lg a r (Rom. 2:1; Luc. 6:37; 1 Ped. 1717)7 M zosignifiç.a decisão e separarão en­ tre oT eine o mal. U destino dos homens )eus, e é revelado em esta nas maos Cristo. Os que persistem_em^sejguir o demônio são alienados e separados de Deus para sempre. O infemo é a sua habitação. O Novo Testamento fala acer­ ca do infemo com termos emprestados do VelhoTestamento e da literatura intertestamental. Geena, ou vale do Hinom,


era lugar associado com o sacrifício hu­ mano e com a adoração de Moloque. O inferno faz a lereia lembrar-se do divisl^*

nism^ e/õ res^ ado ma5ãr3E‘'^ ,ado e 7 séiíédade da missão de proclamar o c^mmho da?édencão do pecado. Tudo isto e enfatizado pela vivida oes^crição do inferno; em termos de fogo (Mat. 5:22), tormento jM a r. 9:43-47) e trevas (Mat.. 22:13)j QJaf££110_é separação da presen­ ça de Deus quanto à comunhão (Mat. ' 25:41), mas é uma consciência da sua i presença emjuÍ7.o(Apnc. 6:16') ~Q„EOTO^g^Dm^é peregrino e nômade (H ei 11:10,16; I Ped. 2:11). Estão no mundo, mas não são dele (João 17:9-18). Esperam o fim desta era e por fim a vinda de Cristo (At. 1:11; Apoc. 1:7). O seu destino é o céu; o seiuuj^^^enlxar em perfeita comunhão com Cristo (Mat.

me debaixo do peso da alienação de Deus. Promete-se libertação no_úlj:imo dia. para tu35^~qú^lt^êW ^^^Rom. 8:22,23). Só“ KÔmens rebeldes e demônios deixarão de partilhar da plenitude alcançada na obra redentora de Cristo (Mat. 25:41-46; Apoc. 20:10). O Novo Testamento é per­ meado de esperanças para o fim dos tempos. Homens de, f ^ e nrontram_a sua p a z jm ^ a d o ra r^ ^ e u |^ 2 M 5 Í= 2 J lS B ^ e o redi^m^e. Qs seus caminhos são insondáveis (Rom. 11:33). Louvores são cantados a ele e ao Cordeiro para todo o sempre (Apoc. 5:13). Conclusão Os parágrafos acima tentaram realizar a primeira tarefa da teologia do Novo Testamento. Esta tarefa tem por fim declarar, de maneira descritiva, o que o Novo Testamento afirma. Segue-se que

Q céu é mais do que uma referência geõgrãf!^ como a ^fe"qüi'^s~tar ãcimã* da terra. E o Ju g ar de Deus. Ele está scigunda tarefa daJeoIpgia do Novo assentado “no seü ‘^no7"alÍ“tSpoc. 4:2). Testamento. i^alm ente’^TmportanteT? Foi ao céu que Jesus ascendeu, e do céu dizer o que significam hoje estesjnatgríais voltará (At. 1:10,11). A promessa para o (le^rüivos^Us cr&tes, em todas as epocrente é que ele por fim estará onde Cristo está (João 14). Q^^cpi^^.oj;eino^ ^ cas, precisam relacionar a essência da fé í "' /bíblica aos tempos em que vivem.^Esta./^ preparado^desdej. ete^rnid^e^^^ segunda tarefa inclui tradução e íflter-^ "fes que ministram ern^ ncm^ _^e _Çnsto pretação que abrangem mais do que ha(Mat. 25:34 e ss.). O céu é como uma bíUdades lingüísticas ou a capacidade de cidade grande perfeita. Os maiores te­ passar as palavras de uma língua para souros da terra descrevem-na inadequa­ outra. O padrão mental dos autores bíbli­ damente (Apoc. 21). A imaginação do cos precisa tornar-se tão familiar como homem extasia-se com o que Deus pro­ uma segunda língua, muito usada meteu para os que o amam (I Cor. por uma pessoa bilingüe. A primeira 2:9,10). linguagem de uma pessoa é o século e o 2. Redenção Cósmica ambiente em que ela vive. Cgnstruir uma A última palavra de Deus é dita, por ponte entre o g ^ s a ^ e ’^ p p ï^ en ïe!“Ç°’ Cristo, que vence a morte, o último ini­ ^assmi. á segunda grande ta l^ í|“ffileóÍ(>’ migo, e entrega o reino a Deus (I Cor. *^a^íb^icar^ significado do Novo 15:24-25). Deus leva todas as coisas à sua MTestáméSto para o tempo em que vivemos ‘ | pretendida''^"plêmffi^^eHr''^Cflsfé^ ^ é o grande desafio e o fim, em aberto, da ^ 1:10). T ^ È ;a óiSim xn^da e^âo^mtere^e Jteologia-bíblica. de Deus. O hometn é o objeto máximo da Leitura Suplementar ^reo cu p ap õ '’^ S i ! o r r B e ^ ú C l í i ã r n I o e~ O g s ü ir^ d a ^ ° p re o c u ^ ^ BULTMANN, RUDOLF. Theology of (João 3lÍ6). À ordém criadãl:ambém gethe New Testament. 2 Vois. Traduzido 71


por Kendrick Grobel. London: S.C.M. Press, 1952. CONNER, W. T. The Faith of the New Testament. Nashville: B roadm an Press, 1951. GRANT, ROBERT. Historical Intro­ duction to the New Testament. New York: Harper & Row, 1963. Interpreter’s Dictionary of the Bible. Vol 1.. Artigos sobre Teologia Bíblica. New York; Abingdon Press, 1962.

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Abordagens Contemporâneas no Estudo do Novo Testamento Ray Summers A mudança de padrões de pensamento e de vida exigem abordagens diferentes na base da verdade final. Como crentes, temos nos entregado à crença de que a verdade final deve ser encontrada em Jesus de Nazaré como o Cristo de Deus, e sempre em relação a ele. Descobrimos, portanto, que a nossa busca nos leva a novas abordagens, no estudo do Novo Testamento, livro que expressa a fé e a experiência dos que conheceram a Jesus em Sua vida terrena e é a interpretação da sua fé e experiência. Os cristãos do século XX concordam com os cristãos do primeiro século, em confessar que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (II Cor. 5:19). Mas não participamos do mesmo tipo de entendimento, pensamento, lin­ guagem e dos muitos outros elementos da sua vida sócio-religiosa. Neste estudo, procuramos abordagens que tornem pos­ sível um melhor entendimento do Novo Testamento, e a aplicação dele à nossa vida complexa.

I. A Intenção da Linguagem Bí­ blica A mais importante tarefa da pessoa que estuda o Novo Testamento é deter­ minar a intenção do escritor. A interpre­ tação tem sido definida como o esforço da mente para seguir os processos do pensamento de outra mente, por meio da linguagem. O principal alvo a ser alcan­ çado é a intenção, o pensamento, o que está sendo expresso por aquele meio. O único alvo adequado é a descoberta de todo o processo mental e de significado do escritor — todo o estado de cons-

ciência que se está expressando através dessa linguagem. Segue-se, portanto, que a página impressa não é o objetivo final da interpretação. O objetivo final é o significado dessa página impressa para o escritor, para o leitor original e para leitores subseqüentes, em cada época.

II. Interpretação Histórico-critica É básico, para todas as abordagens contemporâneas competentes, no estudo do Novo Testamento, o método históricocrítico. O interesse teológico contempo­ râneo precisa ser controlado por esse mé­ todo. Ele é o único método que conserva a exegese em contínuo diálogo com o texto que ela procura entender. Voltar as costas a este método é negligenciar o intento teológico do escritor. Qualificar isto deixa o intérprete no perigo de ser inconscientemente influenciado pelos seus próprios antecedentes e pelo meio ambiente teológico, na medida em que o que ele lê dá significado, ao invés de tirar significado das Escrituras. A interpretação histórico-critica é a determinante do significado de uma pas­ sagem da Escritura à luz de todas as evidências propiciadas pelos fenômenos do texto original e pelo contexto da pas­ sagem. A palavra “crítico” ê uma transli­ teração do adjetivo grego kritikos, deri­ vado do verbo krino, que significa julgar à luz de evidências. O adjetivo em referên­ cia significa pesquisar e julgar uma ma­ téria; daí, decidir à luz de todas as evidências disponíveis. Tal interpretação começa com uma tentativa de averiguar todas as circuns­ tâncias que de qualquer forma afetam o 73


significado de uma unidade da Escritura. Isto inclui uma investigação cuidadosa de todos os detalhes do texto original: léxicos, gramáticos, sintáticos, compara­ tivos e retóricos. Tudo isto pode ser inútil, se estiver divorciado do ambiente vivo em que a passagem foi produzida. Quem é o orador ou escritor? Qual é a natureza da sua experiência religiosa? A quem está ele se dirigindo? Qual é a necessidade particular a que ele estâ falando? As Escrituras foram endereça­ das a homens de profundas necessidades e apetites espirituais. Sob a direção do Espírito, os escritores bíblicos usaram métodos e materiais da maior eficiência para assegurar o interesse e a compreen­ são dos seus leitores. Deixar de entender a experiência religiosa, as características mentais e as variegadas necessidades, tanto do escritor como dos seus leitores, é ser prejudicado grandemente no estudo da mensagem. A interpretação histórico-critica come­ ça com as Escrituras, determina a inten­ ção das Escrituras à luz de todas as evi­ dências disponíveis e avança para uma declaração dessa intenção na forma de ensinamentos ou doutrinas. Embora seja o único método válido de estudo, ele não garante que todos os intérpretes se apre­ sentem com a mesma interpretação. Sempre há o elemento subjetivo do julga­ mento de valores. Muitas matérias en­ tram na maneira como uma pessoa pesa evidências e forma conclusões. O intér­ prete sincero lutará por uma objetividade que seja livre de preconceitos; o intérpre­ te honesto confessará determinado grau de fracasso, quer em resultados positi­ vos, quer em negativos. Por meio dessa abordagem vem a com­ preensão. Mas somente por reverente cometimento de fé vem a aceitação disto como sendo de fato a Palavra de Deus ao homem. Aprender o significado pode ser um processo de grupo; aceitá-lo perma­ nece um assunto individual. E a aplica­ ção sincera do que é aprendido e aceito é o objetivo final do estudo do Novo Tes­ 74

tamento. Somente isto leva o estudante da esterilidade, à fecundidade. Chama-se atenção especial para o fato de que o assunto deste artigo, “Aborda­ gens Contemporâneas no Estudo do No­ vo Testamento” , sugere limitações autoimpostas. De longe, o maior impulso, nas abordagens contemporâneas do Novo Testamento, tem-se relacionado com o estudo dos Evangelhos, e principalmen­ te, dos Evangelhos Sinópticos. O Evan­ gelho de João participa, com os Sinópti­ cos, da disciplina da critica da forma, mas é uma participação limitada. A abordagem contemporânea de João tem sido grandemente um exame das inten­ ções teológicas. Nada suficientemente distintivo, para ser considerado como abordagem contemporânea, tem apare­ cido no estudo das Epístolas Joaninas e do Apocalipse. Estritamente definidas, as “aborda­ gens contemporâneas” oferecem pouco na área do estudo das Epístolas Paulinas. Notáveis comentários e obras teológicas têm sido produzidas, mas basicamente elas seguem as linhas de estudos ante­ riores, no padrão da interpretação histórico-crítica, exegese e resultados teoló­ gicos.

III. Crítica da Forma Ê duvidoso que qualquer abordagem contemporânea do estudo do Novo Tes­ tamento tenha tido uso mais amplo do que este instrumento de crítica literária O termo é a tradução da alemão Formgeschichte, geralmente usada, e que sig­ nifica literalmente “história da forma” . Ë um estudo da história de como os materiais dos Evangelhos vieram a ser preservados e colocados na forma em que aparecem no evangelho escrito. As li­ nhas-mestras desse método foram desen­ volvidas na Alemanha, através dos esfor­ ços de M. Dibelius (From Tradition to Gospel). R. Bultmann (Jesus and the Word) e K. L. Schmidt (Die Rahmen der Geschichte Jesus). Ao seu primeiro vo­ lume, Dibelius acrescentou The Message


of Jesus como extensão dos seus pontos de vista. Numerosas obras foram acres­ centadas por Bultmann e um a multidão de outros eruditos — europeus, britâni­ cos e americanos. Não é possível apresentar os objetivos e métodos da crítica da forma em uma declaração que se aplique igualmente bem a todos os eruditos que a empregam. Basicamente, o método da crítica da forma é duplo. Primeiro, mediante re­ construção e análise, ele procura explicar a origem dos relatos orais das palavras e atos de Jesus, penetrando no período anterior ao em que os materiais foram colocados em forma escrita. Segundo, ela procura tom ar clara a intenção e interes­ se real da mais antiga tradição a respeito de Jesus. Por tradição designamos o rela­ to oral por detrás do relato escrito. A crí­ tica da forma deseja mostrar por que as primeiras igrejas contavam histórias acerca de Jesus, por que coUgiram essas histórias e por que as escreveram como “Evangelhos” . Obviamente, então, um dos fatos im­ portantes a respeito da crítica da forma é que ela focaliza a atenção no período mais remoto de transmissão de materiais evangélicos: as três prímeiras décadas depois da morte e ressurreição de Jesus. Este é um difícil período de estudo. Nenhuns registros escritos desse período chegaram até nós, exceto, talvez, a hipo­ tética Logia ou Quelle (Q), fonte isolada pela crítica da fonte, uma geração antes da crítica da forma, como a fonte que Mateus e Lucas possuíam, mas não Marcos. Outra característica deste método é a ênfase que ele dá ao estágio de tradição oral. Ele usa os Evangelhos escritos, reco­ nhece fontes escritas por detrás deles e capitaliza sobre o valor inestimável da sua antecessora, a crítica da fonte. Mas a sua maior preocupação não é com as fontes escritas. O seu interesse reside na transmissão oral dos atos e palavras de Jesus. De acordo com a crítica da forma.

foi devido à constante repetição durante esses anos de uso oral, que o relato recebeu a “forma” que possui no relato escrito. O ponto de vista de que os materiais evangélicos emi primeiro lugar circula­ ram oralmente em unidades pequenas, independentes, de ensinos e de atos de Jesus é básico para este método. Por exemplo, remova os onze “logo” , “ime­ diatamente” e “em seguida” que unem o primeiro capítulo de Marcos. Uma nar­ rativa intimamente ligada desaparece, e ficam múltiplas narrativas independen­ tes, que podem ter sido usadas separada­ mente, quando necessárias, em diferen­ tes situações. Estas unidades são chama­ das perícopes, e podem ser classificadas em numerosas categorias, inclusive: re­ latos de milagres, declarações gnômicas, ensinamentos mais longos, ou paradig­ mas, histórias épicas acerca de alguma pessoa, diálogos didáticos e exortações. Outra característica da abordagem da crítica da forma é a busca dos antece­ dentes do relato escrito resultante na vida da igreja primitiva, o Sitz in Leben ou “ambiente de vida” ou “situação am­ biental” . A situação social em que a história ou ensinamentos em considera­ ção foi preservado, precisa ser encarado. Isto oferece uma solução para a questão de por que o material particular em nossos Evangelhos foi preservado, usado, e, por fim, colocado em forma escrita. Dependendo da questão complicada das “Páscoas” no Evangelho de João, o mi­ nistério público de Jesus é estimado va­ riavelmente como tendo sido de um pou­ co menor do que um ano, um pouco maior do que dois anos, ou cerca de três anos e meio. Em qualquer circunstância, é óbvio que Jesus disse e fez muito mais do que o que é representado nos cinqüen­ ta ou cinqüenta e um dias que podem ser isolados nos Evangelhos. Foi um mero interesse histórico ou biográfico que governou a escolha do que devia ser preservado? Parece, pelo con­ 75


trário, que a escolha foi determinada pe­ lo uso e necessidade da igreja primitiva. Quatro aspectos dessa necessidade po­ dem ser identificados. Um: Os cristãos preservavam palavras e incidentes que lhes davam orientação em matéria de fé e conduta. Qual devia ser a sua atitude em relação à Lei, ao perdão, ao pagamento de impostos, à observância do sábado e a muitas outras questões sociais? O que o relato oral da vida de Jesus e da sua obra oferecia, à guisa de solução para esses problemas, os cristãos guardavam, usavam e por fim escreveram. Dois: Os interessados e convertidos precisavam obter instruções quanto ao significado da sua fé e ao caráter de seu Senhor. Feitos e palavras aplicáveis, de Jesus e dos apóstolos, foram entesoura­ dos e usados. Três: Em épocas remotas, os cristãos perceberam que não se sentiam em casa no Templo e na sinagoga. Ao saírem dali, estabeleceram os seus próprios cul­ tos de adoração. Retendo muito do seu berço original, a sinagoga, eles também acrescentaram muito de si mesmos, nas formas de adoração. O que puderam acumular dos ensinos e práticas de Jesus, eles usaram. Este é, provavelmente, o fator motivador, por exemplo, que levou á preservação de tantos detalhes de Jesus orando, dando, e outros elementos corre-, latos de adoração. Quatro: Havia controvérsia com os ini­ migos da fé. Desde o começo os cristãos se descobriram na posição em que se tomaram necessárias tanto a polêmica como a apologética. Eles tinham que enfrentar oposição, crítica e càlúnias. O fato de apelarem para o que Jesus tinham a dizer, e aos seus atos, deu-lhes o seu melhor material. Este eles usaram, pre­ servaram e escreveram. Desta forma, os materiais que melhor serviram às suas necessidades de orientação, instmção, adoração e controvérsia foram preserva­ dos. 76

A forma do material foi afetada pelo interesse prático; o relato oral foi mol­ dado para servir aos fins imediatos. É o produto resultante que aparece em forma escrita. Uma palavra de cautela está em or­ dem. Alguns críticos da forma dizem que muitas das histórias e palavras atribuí­ das a Jesus na verdade foram criações da igreja primitiva, criações essas que visa­ vam preencher as suas necessidades. Ë neste ponto que o perigo do extremo subjetivismo polui um método de estudo, que, de outra forma, seria útil. Evitando este extremo subjetivismo, outros erudi­ tos que usam este método (Manson V. Taylor) insistem que viajamos longe e depressa demais se dissermos que a co­ munidade criou essas histórias para sa­ tisfazer às suas necessidades. Embora reconhecendo a mão da igreja no moldar a forma final do relato escrito, precisa­ mos procurar não apenas a situação da vida da igreja primitiva, mas também a situação na vida do próprio Jesus. O estudo do kerygma (a “coisa prega­ da”) da igreja primitiva é o exame da convicção da igreja primitiva acerca de Jesus. Desta forma, descobre-se uma única e coerente história acerca de Jesus, e ela apresenta um importante subprodu­ to da crítica da forma; isto é, tão remo­ tamente quanto se pode investigar Jesus (a pregação da igreja primitiva), a con­ clusão é de que ele é um Jesus sobre­ natural. A reivindicação da igreja primi­ tiva era de que, em Jesus", Deus se revelou em ação salvadora. Se Deus se revelou na história, é na história que devemos en­ contrá-lo. Se de fato Deus falou redento­ ramente através da vida, morte e ressur­ reição de Jesus, é importantíssimo co­ nhecer, tão exatamente quanto possível, que sorte de vida, morte e ressurreição constituíram o instmmento para isso. Não há escapar desta inquirição, e não há razão para se ficar descoroçoado acer­ ca das suas perspectivas. Adequadamen­ te usada, a crítica da forma é uma ferra­ menta na consecução desse alvo.


IV. Demitização Amos N. Wilder, em seu ensaio “New Testament Hermeneutic Today” (p. 3852 de Current Issues in New Testament Interpretation), nota que toda a obra da vida de R. Butmarm testifica que ele não pretende substituir a fé, ou piedade, pela razão. Em nenhum lugar isso é mais evi­ dente do que em sua abordagem do estudo do Novo Testamento, pelo fato de desmistificar a linguagem dos Evange­ lhos. A palavra “ demitização” foi in­ troduzida por Bultmann, em 1941, em um ensaio sobre o Novo Testamento e a mitologia. Em conseqüência, pratica­ mente tudo o que tem sido escrito acerca desse assunto tem sido em diálogo — tanto apoio como negação — com a sua proposta de que o Novo Testamento seja demitizado. A abordagem de Bultmann sustenta que o Novo Testamento testifica do ato escatològico de Deus na história de Jesus de Nazaré. Todavia, o seu ponto de vista é que esse ato é proclamado no Novo Testamento em termos agora obsoletos, termos derivados das mitologias apoca­ líptica judaica e gnóstica grega. Ele dis­ cute que um ponto de vista obsoleto do mundo é pressuposto no kerygma do Novo Testamento: um universo de três andares (céu, terra, inferno) e a intrusão de espíritos e demônios de outras esferas na terra e nos negócios dos homens. A mitologia do Filho do Homem dos escri­ tos apocalípticos judaicos e a mitologia gnóstica do redentor fornecem os termos usados no Novo Testamento para descre­ ver e interpretar o evento de Cristo. Estes termos, sustenta Bultmann, não são nem inteligíveis nem aceitáveis para o homem científico do século XX, de forma que o relato do Novo Testamento precisa ser purgado das idéias errôneas sugeridas por essa terminologia. Eruditos liberais do século XIX (tais como F. C. Baur e D. F. Strauss) consideravam essa lingua­ gem como mitológica, e resolveram o problema eliminando o próprio kerygma.

Bultmann insiste em reter o kerygma, mas não as idéias sugeridas pela lingua­ gem. Bultmann aceita o que entende ser a pretendida mensagem do Novo Testa­ mento, isto é, .que o evento de Cristo é o ato de Deus em que ele colocou à dispo­ sição do homem o dom de uma nova vida. Bultmann também deseja que o ho­ mem jnodemo, cientificamente orienta­ do aceite isto. Este alvo ele crê que pode ser alcançado interpretando-se a mitolo­ gia. Ele declara que o verdadeiro propó­ sito da linguagem mitológica não é apre­ sentar um quadro objetivo do mundo como ele realmente é, mas expressar a compreensão do homem acerca de si mesmo no mundo em que vive. Ë melhor interpretar a linguagem mitológica em termos da compreensão da vida humana que esta linguagem contém, e expressar essa compreensão de vida em termos não mitológicos. Por exemplo, no relato evan­ gélico em que Jesus acalma a tempes­ tade, o assunto importante não seria se Jesus no primeiro século realmente falou com os ventos e eles obedeceram à sua ordem de parar de soprar. O assunto importante é a capacidade que Jesus tem de acalmar as tempestades da vida que o homem enfrenta em seus encontros exis­ tenciais, no ambiente social de qualquer época. Para evitar os erros dos intérpretes anteriores, que, ao eliminarem a mitolo­ gia, eliminaram a proclamação do ato escatològico de Deus em Cristo, Bult­ mann argumenta que qualquer interpre­ tação correta do Novo Testamento deve ser uma interpretação existencial: que confronte o intérprete com Cristo, exi­ gindo uma resposta. Dois exemplos po­ dem ilustrar esta posição: a cruz e a ressurreição. A cruz precisa ser inter­ pretada como um acontecimento que tem lugar dentro da nossa própria existência, ao invés de sê-lo fora de nós. Para Bult­ mann, o assunto importante não é o Filho de Deus preexistente, encarnado, sem pecado, oferecendo o seu sangue 77


como sacrifício expiador, e assim ven­ cendo os poderes demoníacos. Pelo con­ trário, a coisa importante é a confron­ tação do próprio homem com o mal, e a sua morte para o mal, mediante a sua identificação com Cristo. Isto Bultmann sustenta com referências paulinas, tais como Romanos 6:3 e ss., Gálatas 5:24, 6:14 e Filipenses 3:10. A ressurreição precisa ser interpretada não em termos do retomo do corpo de Jesus à vida e experimentando tal trans­ formação que transcende a morte. A coi­ sa importante é a que aconteceu na vida dos discípulos quando eles chegaram a crer que mesmo na sua morte os poderes do mal não o haviam vencido; só neste sentido pode-se dizer que Jesus “ ressus­ citou” . Bultmann sustenta que, na rea­ lidade, tanto a cruz como a ressurreição representam a mesma coisa: fé no signi­ ficado salvador do ato escatològico de Deus em Jesus. Proclamar tanto a cmz como a ressurreição é proclamar isto. A sua opinião é de que esta abordagem faz mais justiça ao verdadeiro significado do Novo Testamento do que a que aceita a sua linguagem como ela se apresenta. Levada à sua conclusão lógica, esta abordagem leva ao ceticismo histórico. Foi a consideração a este respeito que levou alguns estudantes de Bultmann a observar que seguir a opinião de Bultmarm até o fim é a pessoa acabar desco­ brindo que lhe restou apenas um senhor mitológico.

V. A Nova Busca do Jesus Histó­ rico Visto que a demitização dos EvangeUios, esposada por Bultmann, quando Tevada à sua conclusão extrema, resulta em um divórcio da historia, em favor do encontro existencial, era inevitável que^ uma gietodotogia corretiva se levantasse. Significativamente, essa metodologia corretiva surgiu através dos esforços de alguns dos mais conhecidos estudantes de Bultmann. e da sua convicçâodeque 78

o seu mestre fora longe demais. A opi­ nião deles é de que é importante conhecer algo do “Jesus histórico” que~ está por detrás do “Cristo da té' , prõcTamadõlíõ" ^^rygm ãT e que é possível ter taLconherimentn. F.ste conhecimento eles encon­ tram disponível através dos ensinos e atos do próprio Jesus. Com ênfases diferentes e princípios de ação diferentes, e com diferentes graus de concordância, o novo questionamen­ to inclui, entre os seus muitos defensores, nomes como Bornkamm, Conzelmann, Dinkler, Ebeling, Fuchs, Kasemann e Robinson. A sua obra é uma tentativa para corngir Bultmann "tornar níãís cíãra a transição do Jesus ^ã~E ístona Ço proclamador) para o Cristo da té~(o proclam ado) e faze-io assegurãSido o cõ^ nhecimento mais profundo ~pos^eI do pnmeiro. enquanto Ele se coloca por detrás do segundo. 0 produto final será que os dois são um, visto que o seu método não separa Jesus radicalmente da mensagem dos apóstolos acerca de Jesus; eles pregaram Jesus, e não a respeito de Jesus. Esta abordagem enfatiza o Jesus histórico concreto da fé apostólica. A falta de interesse um tanto genérica do século XX, a respeito do Jesus his­ tórico, tem acontecido devido a dois prin­ cipais fatores: Primeiro, o fracasso do questionamento do século XIX a respeito da busca do Jesus histórico; segundo, ênfases como a de K. Barth, cuja teologia dialética insiste na importância do “ salto de fé” — a espécie de fé que não seria fé se lhe fosse requerido o absoluto da verificação histórica. O questionamento do século XIX, re­ sumido no monumental livro The Quest of the Historical Jesus, de A. Schweitzer, estava condenado ao fracasso desde o princípio, por causa da sua errônea abor­ dagem dos próprios Evangelhos. Seguiuse o ponto de vista padrão da época, de que os Evangelhos eram retratos biográ­ ficos de Jesus, e por isso uma compreen­ são deles devia apresentar o registro com­ pleto de Jesus — o que ele fez e disse. O


método histórico-crítico provou que essa opinião era errônea. Provou que até M ar­ cos — para nâo se falar de Mateus, Lucas e João — era querigmático por natureza. Não era uma biografia de Je­ sus; era uma proclamação de Jesus. E as­ sim também eram os outros. Uma bio­ grafia requer mais do que o conhecimen­ to de cinqüenta dias da vida do biogra­ fado, por parte do biógrafo. A ênfase teológica de Barth era inade­ quada nesta área. Até a abordagem de Bultmaim deixou o caminho aberto para uma “nova busca” . Ela insistia que o kerygma dos apóstolos era realmente ba­ seado em Jesus de Nazaré como uma figura concreta da história, embora fos­ sem poucas as verdadeiras informações históricas a seu respeito, de acordo com a opinião de Bultmann. Esta nova busca originou-se em 1953, quando E. Kasemann, aparecendo dian­ te de um grupo dos seus condiscípulos Bultmannianos, leu um ensaio intitulado “O Problema do Jesus Histórico” , Ele asseverou que podemos conhecer mais e precisamos conhecer mais, a respeito do Jesus histórico, do que Bultmann aceita. Assumindo esta posição, Kâsemann co­ meçou um dos movimentos mais vigoro­ sos do meio do século XX, quanto ao estudo do Novo Testamento. Ele expres­ sou a sua firme crença de que substan­ cial informação a respeito de Jesus está disponível, e que, mediante cuidadosa erudição, ela pode ser isolada do texto total do Novo Testamento. O mais prolifero dos eruditos ameri­ canos engajados nesse movimento é Ja­ mes M. Robinson. O incentivo da rele­ vância da história para com a fé é básico para a sua abordagem. A importância disto, no Novo Testamento, é observável na identificação do Jesus da humilhação (a cruz) com o Cristo da exaltação (a res­ surreição) na proclamação da Igreja. Em outras palavras, para aqueles que pela primeira vez proclamaram o Cristo da fé, esse Cristo não podia ser separado do Jesus da história. A mensagem que eles

proclamaram foi de boas-novas da obra de redenção escatológica de Deus na história. Eles estavam definidamente in­ teressados em um Jesus que era um homem na história, e o confessavam “nascido de mulher, nascido debaixo de lei” (Gál. 4:4). Ele era o Filho de Deus, e através dele os homens podiam tornar-se filhos de Deus. Por que processo estes eruditos che­ garam ao Jesus da história? O processo é duplo. Primeiro, eles peneiram todas as palavras e eventos sinópticos atribuídos a Jesus, a fim de peneirar todos os que eles consideram como tendo sido criados pela igreja proclamadora, ao invés de tê-lo sido por Jesus. Isto deixa apenas as pala­ vras e acontecimentos que eles, pelos seus padrões de julgamento, aceitam co­ mo sendo autenticamente de Jesus. Se­ gundo, com este corpo de palavras e acontecimentos aceitos, eles trabalham para adquirir a sua compreensão (de Jesus), ou para entender como ele com­ preendia o seu papel no propósito reden­ tor do Deus de Israel. Por que critérios esses eruditos isolam o que eles aceitam como autêntico? Pri­ meiro; os materiais que têm paralelos na literatura contemporânea judaica ou ra­ bínica são rejeitados. Segundo: todos os materiais que se relacionam com a si­ tuação “pós-Páscoa” na Igreja, ou no entendimento dela, são rejeitados, embo­ ra pareçam palavras de Jesus. Terceiro: todos os materiais que possuem o “ sa­ bor” de kerygma são rejeitados como criações da Igreja proclamadora. Isto deixa dois tipos de conhecimento a res­ peito do Jesus histórico; o que pode ser conhecido pela sua vida histórica autên­ tica e pelo que ele disse; e o que pode ser conhecido através da pregação refletiva e criativa da Igreja. Os opositores dessa abordagem estão alertas para indicar fraquezas básicas nesses critérios. Por exemplo, considereos na ordem mencionada. Primeiro, Je­ sus era um homem do judaísmo da sua época. Os seus ensinamentos eram rabí79


nicos. Subseqüentemente, será observa­ do que as parábolas, geralmente reco­ nhecidas como a coisa mais próxima das indefiníveis “ipsis literis” de Jesus, são solidamente rabinicas. Mas não parece legítimo rejeitá-las. Segundo, a Igreja “pós-Páscoa” identificou o Cristo exalta­ do com o Jesus humilhado. É disciplina mais sólida procurar a “cor” ou “mol­ dura” transmitidos aos acontecimentos pós-ressurreição, visto que a Igreja os usava para satisfazer às suas necessida­ des de proclamação e adoração, em vez de rejeitá-los totalmente como não autên­ ticos. Terceiro: se as igrejas compreende­ ram que o kerygma básico devia ser identificado com o Jesus da história, a sua proclamação necessariamente inclui­ ria o uso das palavras e atos de Jesus — embora elas transmitissem a essas pala­ vras um tom querigmático mais aplicá­ vel às situações delas do que à em que ele vivera. É na área desses critérios que os eru­ ditos deste grupo demonstram alguma discordância. No entanto, todos os do grupo se atêm ao mesmo alvo básico: descobrir se existe uma continuidade identificável entre o Jesus da história e a proclamação do Cristo da fé, exaltado, feita pela Igreja. Kasemann procura evi­ dências, através da mensagem que Jesus pregava: Quais são as semelhanças e diferenças em comparação com a mensa­ gem proclamada pela Igreja a respeito do Cristo da fé? Fuchs enfatiza a ação de Jesus como mais reveladora da identi­ dade ou continuidade, porque ele enten­ de a ação como alicerce da mensagem. Mesmo a parte mais básica da mensagem de Jesus, as parábolas, é realmente um reflexo da sua ação como redentora por natureza. As duas opiniões são comple­ mentares. Em ambas — a ação e o ensino de Jesus — está implícito um entendi­ mento de Jesus em seu significado reden­ tor. Isto se torna explícito na proclama­ ção da igreja pós-Páscoa. Conzelmann, em busca do mesmo alvo que Fuchs e Kâsemann, começa com as 80

parábolas, que são tão claramente pro­ duto de Jesus que ninguém debate a autenticidade do texto. Ele procura, co­ mo característica, uma unidade intrínse­ ca dos ensinos, em vez de procurar um tema que sirva de elo entre eles. Ele vê grande importância nos ensinos que re­ clamam uma ação decisiva agora. Ele descobre uma cristologia alicerçada na escatologia e na ética dos ensinos de Jesus. O “Jesus de Nazaré” , de Bornkamm, foi um dos primeiros e mais importantes produtos deste movimento. Da maneira como ele entende o problema, os Evange­ lhos tanto permitem como exigem uma busca do Jesus histórico. A Igreja procla­ ma Jesus como Senhor, depois da sua ressurreição, mas o Jesus proclamado é Aquele conhecido como um homem na história, antes da ressurreição. Sem isto, a proclamação seria de um mito sem âncoras na história. Tanto os atos como os ensinos de Jesus são refletidos na proclamação da Igreja, e sublinham a continuidade do Jesus da história e do Cristo da fé. Se existe um a idéia central que serve como o centro do ensino acerca do Jesus histórico e da proclamação da igreja pri­ mitiva, precisa ser o conceito do reino de Deus. Jesus entendia que, devido à sua presença no mundo, o ansiado reino de Deus havia irrompido na história. A sua obra de expulsar demônios indicava a presença do reino de Deus triunfando sobre o reino do mal. Esta era a com­ preensão da igreja primitiva, embora ela esperasse um a consumação futura da­ quele reino. Com a presença de Jesus e o governo de Deus sobre os homens, esta­ belecido pela presença de Jesus, a velha era do mal e a futura era de justiça se sobrepunham, formando um período de transição. O seu sacrifício pessoal', feito uma vez por todas, de fato marcou a “reunião das extremidades das duas eras” (Heb. 9:26, tradução do autor). Como deve ser avaliado o novo ques­ tionamento quanto ao Jesus histórico?


mo “história da salvação” .^ s te é o título Avaliações negativas e positivas estão dis­ da monografia deCÉT C K^st iacerca poníveis. Esquecendo os pontos de vista título alemão da obra d^ adversos quanto a detalhes e concentran­ Cullmann)é Heils ais Geschichte, “salva- ^ _ do-nos na unidade de alvo dos eruditos çao como história” , mas ele p re fe re ^ envolvidos, podemos ver valores positi­ tra d u ç ã o ^ [^ lv a ^ ^ a |lü g J ç ^ ^ e este é o vos. J. B. Cobb faz isso. É importante fifülò na y iç ã ó em inglês OLtermo foi que o estudo coloca Jesus solidamente na - te r esfera de “fé cristã” , em vez de na do (ióST-ÍTSZjT^n^sua^fflnação de que a judaísmo, como têm insistido Bultmann, Klausner e outros. Além disso, a mensa­ »pessoa pode e n t e ^ e ^ ^ i ^ 0S |W s t ^ ^ ^ gem de Jesus é também eficiente como dablblia soi iivmo kerygma, no fato de apresentar ao ho­ ^ ^ ^ e n ç ã o ..trazido á realidade neles, õ s "acontecimentos históricos nIo‘^ o mem a graça redentora de Deus, da mesma forma como o kerygma da igreja / simplesmente narrativas cronológicas, primitiva. Pesando todos os envolvimen­ \ mas, pelo contrário, seguem um princítos, o estudante conclui que o propósito ( pio teleológico: “O propósito redentor de Deus na história.” do kerygma era apresentar uma auto­ Em abordagem relativamente moder­ compreensão de Jesus, e que foi um na do estudo do Novo Testamento, esta assunto definidamente alicerçado na his­ tem-se tomado a idéia organizadora da tória. Por outro lado, um erudito de valor obra de eruditos na Europa, Inglaterra e como R. E. Brown descobre que o resul­ Estados Unidos, tais como Cullmann, tado final é mais negativo, devido à Rust, G. Beasley-Murray, R. H. Fuller, metodologia dos homens que fizeram a W. G. Kümmel, P. Althaus, E. Stauffer, investigação. Ele encara a exegese como A. M. Hunter e O. Piper. Eruditos sobre existencial demais, e necessitada de mais o Velho Testamento que fazem a mesma exegese objetiva ou não-existencial, se­ abordagem são: F. Cross, W. Eichrodt, gundo a ordem de O. Cullmann, J. Jere­ M. Noth, G. von Rad e G. E. Wright. mias e V. Taylor. Ele rejeita a validade A expressão “história da salvação” da eliminação dos ensinos de Jesus, da­ designa um princípio de interpretação queles que tenham o aspecto de querig­ bíblica e um tema teológico como orga­ máticos ou judaicos; a sua rejeição se nizador para a compreensão de todo o efetua pelas mesmas razões expressas alcance das Escrituras judaico-cristãs. acima, quando tratamos dos critérios Afirma que, na história. Deus fez uma usados. Felizmente, ele critica o movi­ revelação progressiva de sua natureza mento por não ter levado a sério o Evan­ como Redentor. A compreensão bíblica gelho de Joâo, que empresta um a percep­ da história é que o Deus da criação se ção positiva e frutífera à natureza da envolveu nos negócios de si’^, criação, e mensagem do Jesus histórico. Esta omis­ que, em uma cadeia específica de aconte­ são de grandes porções dos ensinamentos cimentos nos negócios terrenos, huma­ de Jesus como texto autêntico é uma das nos, Deus preparou a salvação para sua falhas sob as quais esses homens tra­ criação. Esta salvação é redenção da balham, pois esta é uma das áreas em totalidade do pecado. O próprio ceme que os que esposam a abordagem que das Escrituras é a história desse processo vamos tratar a seguir encontram a sua de salvação, passo a passo. Desta forma, maior força. como princípio interpretativo, esta é uma abordagem das Escrituras do ponto de VI. História da Salvação vista de como elas se consideram a si Heilsgeschichte é uma palavra alemã mesmas. A Bíblia apresenta o desdobra­ traduzida literalmente em português comento de passos sucessivos no plano di81


vino para a salvação do homem, do peca­ do, como parte da própria história. Deus está trabalhando nos aconteci­ mentos históricos. Gênesis 1 — 11 mos­ tra o envolvimento do homem no pecado, de forma que ele necessita de salvação. A história da provisão de Deus para está salvação começa em Gênesis 12, quando Deus chama Abraão, e continua quando ele faz ascender os descendentes de Abraão à condição de seu povo, através do Êxodo e subseqüentes acontecimen­ tos, tendo em vista o seu propósito reden­ tor. Através desse povo. Deus iria trazer o seu Redentor-Salvador ao mundo e es­ tabelecer o seu reino, o seu governo espiritual entre os homens. Em Jesus de Nazaré, esse propósito redentor é levado à sua culminação. A sua presença no mundo inaugurou o reino de Deus entre os homens. Pelo sa­ crifício de si mesmo, feito uma vez por todas, ele levou a um glorioso clímax o alcance longo e pleno dos poderosos atos redentores de Deus na história. Os Evan­ gelhos Sinópticos registram que, enquan­ to a vida se esvaía de Jesus na cruz, ele “bradou com grande voz” e entregou o seu espírito ao Pai. O místico João relata que aquele grito foi uma palavra em grego: tetelestai. Em português ela é tra­ duzida por “Está consumado” (João 19: 30). As versões latinas traduziram consununatum est. Tudo o que Deus, ao chamar Abraão, pusera em movimento, para recriar a sua criação perdida, foi trazido a um a gloriosa reaUdade no acontecimento histórico da encarnação, crucificação e ressurreição de Jesus, o Redentor, vindo de Deus. Em Romanos 8:21-23, Paulo conside­ rou este fato como tendo tão longo alcan­ ce que o efeito total do pecado, até no cosmos material, seria ofuscado em rela­ ção à esperada libertação do homem, do pecado, na ressurreição. Em Efésios e Colossenses, Paulo encara toda esta his­ tória da salvação como a administração ordenada de Deus, dirigindo a sua casa de forma a levar outra vez todos os seus 82

componentes, para sempre, a se coloca­ rem sob um só “capitão” , Jesus Crisito. Da mesma forma, como no Velho Testa mento, o acontecimento do Êxodo falou do ato redentor de Deus para o Israel velho, também, no Novo Testamento, o clímax do evento da Páscoa falou do ato redentor de Deus para o novo Israel, o seu novo povo de propósito redentor. Era mais do que simplesmente história. Foi “história da salvação” . Esta é a natureza da Bíblia, uma revelação da “história da salvação” , de Deus.

VII. Parábolas Uma recapitulação das abordagens contemporâneas, no estudo do Novo Tes­ tamento, seria incompleta sem um reco­ nhecimento da atenção que tem sido fo­ calizada especificamente em uma parte do Novo Testamento; as parábolas. Hoje reconhece-se, geralmente, que, neste tipo bem rasteiro de sabedoria oriental, es­ tamos no ponto mais próximo do êxito, na busca das algumas vezes indefiníveis “ipsissima verba” (palavras textuais) de Jesus. Esta é a compreensão expressa por escritores como Denny, Dodd, Hunter, Jeremias, Linnermann, Summers e Via. Toda esta obra é relacionada com obras mais antigas de A. Jülicher (Die Gleichnisreden Jesu, 1880-89) e P. Fiebig (Altjüdische Gleichnisse und die Gleichnisse Jesu, 1904), que libertaram as parábolas da interpretação alegórica paralizante que havia marcado o seu uso durante mil e quinhentos anos. Jülicher e Fiebig apre­ sentaram as parábolas de forma que elas puderam ser vistas em sua verdadeira natureza e propósito, e encaminharam os intérpretes na direção de exegese, expo­ sição e aplicação úteis e essenciais. Dodd limitou o seu estudo quase que completamente a um tipo característico de parábola, as “parábolas do reino” , e limitou a interpretação delas por um con­ trole demasiadamente rígido da sua opi­ nião de escatologia reaUzada. A monu­ mental obra de Jeremias, As Parábolas


de Jesus, tem sido um dos mais prolíferos estudos atuais. Ê, em um só volume, a análise mais completa que já foi escrita, da mensagem de Jesus. O ponto inicial (a grande contribuição de Fiebig) é um reconhecimento dos an­ tecedentes das parábolas de Jesus nos ensinos rabínicos. Embora esta forma es­ teja quase completamente ausente do Velho Testamento (Is. 5:1-7, Juí. 9:7-15 e II Sam. 12:1-7 sâo exemplos de “ quase parábolas” , mas nâo de verdadeiras pa­ rábolas na forma neotestamentária), abunda nos ensinamentos dos rabinos. No Talm ude,. quase todos os conceitos religiosos e éticos sâo ilustrados por pa­ rábolas idênticas na forma das parábolas do Novo Testamento. A força dessas parábolas está na comparação ou “seme­ lhança” que apresentam, e deviam espe­ cificamente clarificar ou ilustrar alguma verdade. Segue-se, portanto, que, seja qual for a solução para a difícil declara­ ção de Jesus em Marcos 4:11,12, é sim­ plesmente absurdo negar que o propósito de Jesus, ao usar as parábolas, era tor­ nar a sua mensagem clara. O próximo passo é uma análise bem minuciosa das parábolas do ponto de vista do propósito da parábola, evidente devido ao seu lugar no Novo Testamento — tanto a localização original quanto o propósito de Jesus e, subseqüentemente, a localização e o propósito do evangelis­ ta, pessoalmente — Mateus, Marcos ou Lucas. As localizações e propósitos, tan­ to originais quanto posteriores (dados pelo evangehsta), podem não ser os mes­ mos. Freqüentemente, o evangelista apresenta uma parábola de Jesus no am­ biente da igreja e aplicando-a à sua época, em lugar da época de Jesus. Isto pode refletir a coloração ou aplicação da parábola em um novo contexto ambien­ tal. Indispensável ao estudo deste tipo de parábola é a técnica relativamente nova, que veio a chamar-se Redaktionsgeschichte, que, em terminologia popular, foi chamado de “história da redação” , tam ­

bém conhecida como “crítica da reda­ ção” . Esta é uma fase da crítica textual, e é endereçada à questão da natureza do texto, como foi recebido pelo escritor (ou editor) do Evangelho, e como foi altera­ do por ele, mediante a sua interpretação pessoal do que havia recebido. Uma aná­ lise excelente da importância desta técni­ ca e suas implicações para o estudo total e compreensão do Novo Testamento é o artigo “Implications of Redaktionsgeschichte for the Textual Criticism of the New Testament” (Journal of the Ameri­ can Academy of Religion, Vol. XXXVI, NS 1, março de 1968), de Harold H. Oliver. Ele contende pela validade do método e sua importância de longo al­ cance para a compreensão do Novo Tes­ tamento. O método continua ao longo da mesma linha da crítica da forma, ao reconhecer a criatividade teológica, tanto no nível da transmissão oral como da transmissão es­ crita. Oliver aponta corretamente para a complicação do problema de desembara­ çar esses vários fios — a perspectiva teológica do erudito envolvido no proces­ so. Aqui, como na crítica da forma, o processo pode tornar-se presa de extremo subjetivismo. Este risco calculado não pode, entretanto, impedir os eruditos do uso da ferramenta valiosa. Um exemplo frutífero desta aborda­ gem relaciona-se cõm o estudo das pará­ bolas de Jesus. Esse estudo indica que essas parábolas constituíam chamados à ação, desafios à reação dos ouvintes. Isto se relaciona com a relevante aplicação das parábolas no sentido de que a pa­ rábola do primeiro século encontra a pessoa do século XX. Nesta área. Via escreve convincentemente a respeito da “interpretação existencial-teológica” das parábolas. Em cada ponto da experiên­ cia contemporânea, o homem, nas pará­ bolas, se defronta com as realidades da sua própria natureza, a natureza do seu ambiente social e a natureza de Deus. Tal confrontação é uma exigência para considerar, para decidir, para agir. 83


Quando a ação exigida é drástica, trans­ formadora de caracteres, diretora de mo­ tivações, emprestando energia à reação em relação à necessidade do homem e à preocupação de Deus, quando isto é ver­ dade, as parábolas estarão realizando, no século XX, aquilo que era o seu propósito no primeiro século.

Conclusão Como foi anteriormente sugerido, as limitações de espaço para este artigo impediram uma consideração detalhada dos materiais joaninos e paulinos. A abordagem contemporânea dos materiais joaninos tem-se ocupado principalmente com as preocupações teológicas, defini­ damente mais típicas aqui do que nos Evangelhos Sinópticos. Embora as opi­ niões variem grandemente, e sejam am­ plamente subjetivas, quanto aos caracte­ res distintivos dos estudos paulinos, a abordagem contemporânea parece ter-se focalizado na Igreja como o corpo con­ fessante e adorador de Cristo. O âmago tanto da confissão quanto da adoração, como é sugerido por Schweitzer, pode ser visto em dois credos pauHnos: Cristo morreu por nossos pecados, se­ gundo as Escrituras, ...foi sepultado, ...foi ressuscitado ao terceiro dia, se­ gundo as Escrituras. ...apareceu... I Coríntios 15:3-5 Aquele que se manifestou em carne foi justificado em espírito, visto dos anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido acima na glória. I Timóteo 3:16 O lugar da confissão coríntia, na es­ trutura da epístola, é importante. Come­ çando com 7:1, Paulo respondeu a uma série de perguntas apresentadas a ele em uma carta procedente da igreja em Co84

rinto. Uma dessas perguntas se relacio­ nava com a resposta cristã para a sobre­ vivência da morte. Ao responder à per­ gunta, Paulo começa com uma declara­ ção compacta do evangelho que ele havia pregado e os corintios haviam aceitado. Essa declaração compacta é este hino confessional. Paulo constrói a sua defesa da ressurreição dos mortos sobre a fé cristã na ressurreição de Jesus Cristo, uma fé confessada no hino. O uso paralelo de “segundo as Escri­ turas” , nas duas linhas longas, fazem mais do que indicar um instrumento judaico para esta confissão. Ela ancora os dois “eventos salvadores” na total his­ tória da redenção sob o comando de Deus. Cristo morreu conforme às Escri­ turas, e ressuscitou conforme às Escritu­ ras. Que os cristãos primitivos criam que a morte de Jesus fora profetizada no Antigo Testamento é claro em toda parte (Evangelhos, Atos, Epístolas, Apocalip­ se). Que a sua ressurreição dentre os mortos foi profetizada no Antigo Testa­ mento é não apenas expresso amplamen­ te, mas claramente expresso no uso que Pedro faz de Salmos 16:11, em seu ser­ mão no Dia do Pentecoste. Em cada caso uma frase preposicional une o “conforme às Escrituras” ao ver­ bo: Cristo morreu por nossos pecados conforme às Escrituras. Ele ressuscitou no terceiro dia, conforme às Escrituras. “Por nossos pecados” é importante, por­ que relaciona a morte de Cristo com a obra de Deus de recriação (redenção). “No terceiro dia” deve ser iguahnente importante como parte da confissão de que esta “recriação” de Deus foi com­ pletada no primeiro dia da semana (dia de adoração cristã, ao tempo em que essa carta foi escrita), da mesma forma como a sua obra da “criação” havia sido ter­ minada no sexto dia da semana, ’dia de adoração judaica. A frase é uma apolo­ gética para o dia cristão de adoração, quando, em solene assembléia, os crentes confessam, através dos seus hinos, a sua fé em Jesus Cristo.


A essência da fé cristã em Jesus Cris­ to também foi insinuada no hino confes­ sional de I Timóteo. Os dois hinos di­ ferem em conceito e estrutura, mas concordam na centralidade de Jesus, adorado como o Cristo. No hino de Ti­ móteo não há referência específica à morte de Jesus, à ressurreição de Jesus, ao embasamento nas Escrituras, aos seus aparecimentos aos homens. Não obstante, um crente confesso não pode 1er (ou cantar) esse hino sem sentir que todas estas características da confissão coríntia fazem parte do padrão de pen­ samento do hino de Timóteo. Este é um hino da encarnação. Considerando-se sua estrutura, ele tem seis linhas, arranjadas em três grupos de dois versos: O fato da encarnação: Ele foi manifesto em carne, Foi justificado em espírito. A manifestação da encarnação: Ele foi visto dos anjos (pelos anjos), Foi pregado entre os gentios. O resultado da encarnação: Ele foi crido no mundo, Foi recebido acima na glória. A confissão começa com a invasão do mundo terreno pelo Cristo encarnado; e termina com a sua volta triunfante ao céu. O céu triunfa sobre a terra na redentora encarnação de Cristo, operada por Deus. Estas confissões, em forma de credo, se focalizam em um fato supremamente importante, urgentemente significativo

para os cristãos do século XX: desde o começo da Igreja, tem havido apenas um centro na fé do Novo Testamento. Esse centro é Jesus Cristo, em virtude da sua encarnação redentora, confessado e ado­ rado como Senhor da terra e dos céus.

Leitura Suplementar BORNKAMM, G. Jesus of Nazareth. New York: Harper & Row', 1956. BULTMANN, R. Jesus and the Word. New York: (Charles Scribner’s Sons, 1934. CULLMANN, O. Salvation in History. London: SCM Press, 1967. DIBELIUS, M. From Tradition to Gos­ pel. New York: Charles Scribner’s Sons, 1935. FUNK, R. W. Language, Hermeneutic, and Word of God. New York: Harper & Row, 1966. JEREMIAS, J. The Parables of Jesus. New York: Charles Scribner’s Sons, 1953. NEILL, STEPHEN. The Interpretation of the New Testament, 1861-1961. New York: Oxford University Press, 1966. ROBINSON, J. M. A New Quest of the Historical Jesus. Naperville, III.: A. R. Allenson, Inc. 1959. RUST, E. C. Salvation History. Rich­ mond: John Knox Press, 1962. SUMMERS, RAY. The Secret Sayings of the Living Jesus. Waco: Word Pu­ blishers, 1968.

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Escala em Milhas

A PALESTINA NO TEMPO DO NOVO TESTAMENTO


Mateus FRANK STAGG ^ue J ^ u s é^ p Cristo da|_e^ectativas veteròtestamentárias, e o criador j e u O Evangelho de Mateus é. provavel­ 'd r indestru mente, n ^ íh ^ r e n ^ d i d o cÕmS^õ-tivrò’ Esta igreja h ä b ^ '^ ^ s t a nnem como ,um ”^n O T__ ^ s ^ I ”^ m c o m o 1 verdadeiro Scrito para uma igreja iudaico-eentilica. I^ a é l^ m a T c õ m y o p ^ p ^ D e u s , consãTguiis anos depois da primeira guerra Íüdáico-rótnãnãX6b-70 d.C.). Jerusalém e tiSMS^dgludem e^gentíosTflareT?. iT0)7’ seu Templo haviam sido destruídos, e a 'Mateus considerou a des&iição de Jeru­ ruptura entre o judaísmo e o cristianismo salém como julgamento sobre Israel, por ter rejeitado Jesus como o Cristo. Ele estava quase completa. O que inicialmen­ te havia sido uma igreja totalmente ju ­ considerava Jesus como o cumprimento da Lei, tanto como seu intérprete quanto daica, agora estava-se tornando cada vez mais gentia. A igreja para que Mateus como Alguém que realmente viveu à altu­ escrevera estava séhdo ãméãcãd^TfTrriãTgr ra das intenções da Lei. A relevância de Mateus precisa apenas ^ s suas origens ju d ajçaSj j elo legalismp ^ S s a ic o, e, do seu^ lado gèrifíiico. pelo ser encontrada, e não forçada. Como antinomianismo”óu Übertin^smpj(a^_opF" pode a pessoa ficar liberta das regras e ■Blãb de qüe etiTCristo áX e fn lo ^ é mais regulamentos exteriores, e ainda ser mo­ compulsória). ralmente reta e eticamente responsável? -3 «. ^ Como pode a pessoa escapar ao legalis­ O legalismo e o antinomianismo opos­ mo, por um lado, e à licenciosidade, de tos por Mateus não precisam ser enten­ didos como os dos judaizantes e antino- ^ outro? Como pode a pessoa conhecer a salvação como a dádiva de Deus, e ao mianistas da época de Paulo, mas como os mesmo tempo conhecer as suas exigências podem emergir najeli^ãO deS^ttâl" í que / absolutas? Como pode a religião ser mo­ s quer “época, vicejando nas disposições ral e eticamente sensível sem se tornar um nõrinãifda^fiumanidade, com ou sem um sistema endurecido de faça e não faça, um grupo promocional. ^ código legal “sob o qual o coração de­ Lutando em duas frentes, Mateus in­ sobediente imagina que está tudo bem” dica um caminho que foge, por um lado, (Bornkamm, p. 25), ou uma religião ao orgulho, superficialidade e irrelevân­ indulgente, que deixa a pessoa chafurda­ cia do legalismo, e, de outro, ao colapso da em fracasso moral e ético? Mateus nos moral e irresponsabilidade ética da hceniodica não regras, mas a regra de_Deus. ça que se mascara de liberdade. i Ele revela a ju s tiç a que excedie"'à"^s Mateus desejava principalmente conescribasefariseus(5:20), sem demonstrar vencer õ^êüsneitorès òu reafirmar-lhes justiça própria. Mostra como a salvação é oferecida com misericórdia aos pecado­ res, sem desculpar o pecado. Apresenta 1 P ara variações desta opinião, veja Bacon, p. 348 et pas­ sim; Bornkam m , et al., p, 15 e s., 94 e s., 158 e s., Jesus Cristo como Senhor e Salvador, 162 e ss., et passim; Davies; Hum m el; e H ans Wincomo que oferecendo um jugo que é tanto disch. The Meaning of the Sermon on the Mount pesado como leve (11:28-30). (Leipzig, 1929).

Introdução

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I. Situação Ambiental e Propósito

sim declarou puros todos os alimentos” (Mar. 7:19; Mat. 15:17). Na década após a Primeira Guerra JuOs debates com o farisaísmo dão a daico-Romana, a igreja à qual Mateus entender um relacionamento contínuo, escreveu ficou algures entre a sua origem embora restringido. Mateus afirma a vali­ judaica e o que mais tarde se tomou uma dade contínua da Lei, tão importante igreja totalmente gentílica. Essa igreja para os fariseus. O que o aparta deles é a ainda não estava preparada para admitir sua declaração de que em Cristo se encon­ a sua separação do judaísmo, embora tra uma melhor compreensão da Lei (5 possa ser que o judaísmo a tivesse repu­ 21-48; 9:13; 12:3,5,7; 15:3-14; 16:6,11) diado. Pelo menos, a igreja de Mateus e o seu verdadeiro cumprimento, em con ainda estava interagihdo^TOTõjudaísm õ traste com o mau entendimento e uso er (cf. 17:24-27; 23:1-12; 24:9). O cristianis­ rado da Lei por parte dos fariseus (9:4 mo estava rapidamente se tornando me­ 15:12-14; 22:18; 23:2). Mateus vê Jesus nos judaico e mais gentílico. Os como cumprindo a Lei, mas descobrindo Judeus precisavam compreender o signifi­ a sua verdadeira intenção, dando a ela cado da Lei e do Templo (agora em obediência plena, expressa por fim no fu ín ã s Ip iT ã ir mesmos, tanto quanto o amor, que se dá em serviço sacrificial. seu relacionamento com os convertidos _ A Lei é usada de várias formas no gentios. Os c ri^ â ro g ^ tio s precisavam judaísmo, no Novo Testamento, e neste èrítlnaêr a nSureza dâ liberdade em Comentário. No Novo Testamento, ela respeito à lei de Deus. Ambos os grupos geralmente significa a lei de Deus, reve­ precisavam compreender a relação do lada no Velho Testamento. No Velho cristianismo com o judaísmo. Testamento, a palavra “lei” é tradução de torah, bem como de outras palavras 1. Distância e Interação hebraicas. Torah significa instrução ou O Evangelho de Mateus reflete tanto direção, e não apenas lei no sentido res­ distância quanto interação entre a sina­ trito de mandamentos ou regras. Toda a goga e a igreja. Mateus conhece as sina­ história dos tratamentos de Deus para gogas como sinagogas do judaísmo fari­ com a humanidade é realmente Torah. saico (4:23; 9:35; 10:17; 12:9; 13:54; Mas torah, traduzida nomos (lei) na 23:34). Exceto em 4:23, cada ocorrência LXX, passou a designar o Pentateuco em do termo “sinagoga deles” é redacional, é particular, embora ainda pudesse referirobra editorial de Mateus. Marcos conhe­ se a todo o Velho Testamento, ou, em um ce a expressão (1:23,39), mas Mateus sentido mais amplo, a toda a revelação de enfatiza. Onde ele não fala da “sinagoga Deus, escrita e oral. Mateus se refere à deles” , retrata-os como sinagogas de hi“lei” oito vezes, designando a lei do Velho pócratas ou famintos de posição (6:2,5; Testamento. Em 5:17 e 11:13, “a lei e os 23:6). Só o livro de Apocalipse vai mais profetas” se refere ao Velho Testamento, além, referindo-se à “sinagoga de Sata­ com menção especial às duas divisões nás” (2:9; 3:9). mais antigas, sendo designado como Lei o Embora a igreja de Mateus, provavel­ Pentateuco. mente, não adorava mais nas sinagogas, 2. A Luta com o Judaísmo ele parece evitar o que parece cortaria completamente as relações da igreja com A Guerra Judaico-Romana fora trau­ o judaísmo. Ele reconhece, pelo menos mática e de efeitos duradouros, com con­ em princípio, a autoridade dos escribas seqüências tanto para o judaísmo como (23:2), e omite a citação que Marcos faz para o cristianismo. Com o Templo des­ da “ tradição dos homens” (Mar. 7:8; truído, os seus elaborados sacrifícios cul­ Mat. 15:8-11) e a frase de Marcos: “As­ tuais e rituais cessaram. Os outrora 90


poderosos saduceus, cujos interesses, por 3. A Questão Gentílica direito, haviam estado no Templo e no Sendo juckus, os p r im e is cristãos Sinédrio, desapareceram de cena. Os es­ adoraram por algumas décadas n ãs^i^ sênios haviam perdido o seu centro em nagogas é hõ Templo. Aléih dás^evidênQumran, destruído pela Décima Legião cias èncõhtfãdãs "através do Novo Testa­ Romana em 68 d.C. Os essênios eram um mento, há a história atribuída por Eusé­ grupo sacerdotal que se havia retirado do bio (Hist., II, 23) a Hegésipo (cristão ju ­ Templo como protesto duplo: contra os deu do fim do segundo século, na Pales­ corruptos sacerdotes saduceus, e contra t i n a ^ com a finalidade de dizer que os fariseus, grupo leigo, que tomara pos­ ^'l iago^era grandemente respeitado pelos se, em grande parte, da interpretação da judeus em Jem^além, e que esfSvã^SnãP” Lei, que era anteriormente uma função inen^hõTtém pIo, Tãfé p tempo fftnimíe sacerdotal. ^01 maijirizado, martírio esse atribuído, Os zelotes, fogosos ativistas “da direi­ por H ê^sipo, aos temores dos escribas e ta” , cujo zelo era pela libertação de sua fariseus de que Tiago fosse influenciar nação do domínio romano, haviam sido todo o povo a seguir a Jesus. esmagados em guerra que haviam preci­ Tensões surgiram, não apenas porque pitado, onde encontraram total insuces­ alguns estavam seguindo a Jesus como o so. Os fariseus permaneciam os líderes Cristo enquanto outros não o faziam, mas sem rival do judaísmo. Com escolas em principalmente porque homens como Fi­ Jâmnia e BabUônia, eles determinaram lipe, Estêvão, Paulo e, até certo ponto, reconstruir a nação ao redor da Lei de Pedro contendiam pelo reconhecimento Moisés, codificando e expandindo a tra­ dos convertidos gentios, até na comunhão dição oral, chegando ao que, por volta de à mesa (cf. At; GáL 2; Ef. 2:11 - 3:13). 220 d.C. se tornou a Mishnah (segunda Não foi a cristologia como tal, que dividiu lei), baseada na Torah. a sinagoga e a igreja, pois os judeus Por volta de 85 d.C., uma maldição tinham muitos desentendimentos sobre a contra apóstatas, provavelmente cristãos sua compreensão das funções e identi­ e outros, foi adicionada — ou ampliada dade do Messias. O que levou à divisão foi de uma forma anterior — às Dezoito bênçãos, oração diária da sinagoga. A a inclusão de gentios incircuncisos na igreja, especialmente na comunhão à décima segunda bênção é, na verdade, mesa.” ^ uma maldição, possivelmente incluída A Guerra Judaico-Romana aparente­ para excluir os cristãos judeus das sina­ mente foi a crise que levou as tensões a um gogas. De acordo com uma forma desco­ ponto insuportáveL Uma guerra de li­ berta em uma Genizah do Cairo, ela diz: bertação nacional e um evangelho em que “Para os perseguidores não haja esperan­ nâo há “judeu nem grego” eram incom­ ça, e que, o domínio da arrogância, tu patíveis. O judaísmo se tomou mais na­ depressa desarraigues em nossos dias; cionalista e centralizado na Lei, com uma que os nazoreanos (cristãos?) e minim fechada (VT) e uma Mishnah Torah pereçam em um momento, que eles sejam crescente (segunda lei). A igreja cristã apagados do livro dos vivos e que não avançou mais profundamente no mundo sejam anotados juntamente com os re­ gentio. tos.” ^ Os pontos de tensão entre os cristãos e A inclusão desta bênção nas orações não-cristãos são perceptíveis dentro do das sinagogas fez com que se tomasse Novo Testamento. Muitos cristãos ques­ impossível os cristãos continuarem oran­ do nelas. 2 Tradução e texto hebraico em Davies, p. 265.

3 F rank Stagg, The Book of Acts, the Early Struggle for an Unhindered Gospel {Nashville: Broadm an, 1955), p. 1-18 et passim.

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tionavam os símbolos centrais da soli­ dariedade nacional judaica: a Torah, o Templo, a cidade santa, os rituais de purificação, as leis acerca dos alimentos, o sábado (sabbath) e a circuncisão (Hare, p. 3 e s. et passim). Nisto eles seguiram, em princípio, uma direção tomada por Jesus. Vistos da perspectiva judaica, os “limites de tolerância” haviam-se excedi­ do; e, especialmente durante e após a Guerra Judaico-Romana, eles recorreram à censura pública, ao ostracismo social e, algumas vezes, à violência física contra os judeus cristãos.

dada a Jesus “ toda a autoridade no céu e na terra” (28:18); todas as nações deve­ riam ser trazidas sob a sua disciplina (28:19); dever-lhes-ia ser ensinada obe­ diência, com a certeza de que Cristo esta­ ria com elas (Emmanuel, “Deus conos­ co!” 1:23) “ até a consumação dos sé­ culos” (28:20). Desta forma, em um rei­ nado universal e eterno, exercido em justiça, as alianças com Abraão e Davi foram cumpridas. Mateus queria que os judeus olhassem para Jesus, e não para Jâmnia, esperando o cumprimento das esperanças de Israel.

4. Cumprimento

5. Duas Frentes

Um dos principais propósitos de M a­ teus era argumentar que o verdadeiro judaísmo tinha o seu cumprimento em Cristo, e não no judaísmo farisaico cen­ tralizado em Jâmnia. Jesus Cristo é apre­ sentado como “filho de Davi, filho de Abraão” (1:1), e Mateus mostra como as alianças com Abraão e Davi se cumpri­ ram em Jesus. A genealogia e nascimento e narrativas da infância de Jesus (1 — 2) são construídas de tal forma a mostrar que Jesus é Filho de Davi, mas também Filho de Deus, em Quem as alianças com Abraão e Davi são cumpridas."* Fora prometido a Abraão que todas as nações da terra seriam abençoadas nele (Gên. 12:2es.; 18:18); e dele fora dito que Deus o conhecia “a fim de que ele ordene, a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para praticarem retidão e justiça” (Gên. 18: 19). Portanto, universalismo, justiça e retidão marcaram a aliança com Abraão. Mateus, consentaneamente, mostra que Jesus veio para estabelecer um reino que deve incluir todas as nações debaixo de um domínio de retidão e justiça (28:1820). A Davi fora prometido que o seu trono seria estabelecido para sempre (II Sam. 7:16). Como Filho de Davi (1:1), fora

Mateus parece ter estado a lutar em duas frentes principais, achando necessá­ rio opor-se ao legalismo farisaico em Jâm­ nia e à ameaça do libertinismo antinomiano dentro da igreja. A oposição aos fariseus está patente e constantemen­ te diante do leitor. Menos óbvia, mas suficientemente clara, é a outra frente. Entre os Evangelhos, apenas Mateus (7: 23; 13:41; 23:28; 24:12) emprega a pala­ vra iniqüidade (anomia), refletindo a sua preocupação em resistir ao libertinismo antinomiano. Consentaneamente, para a pessoa en­ trar no reino de Deus, a sua justiça precisa exceder a dos escribas e fariseus (5:20). Nem uma pequena parte da Lei ou dos Profetas ficará perdida (5:18,19). De fato, Jesus veio não para destruir, mas para cumprir a Lei e os Profetas (5:17). As demandas de Cristo são as mais elevadas possíveis, requerendo nãó apenas que a conduta exterior seja apropriada, mas que o homem interior seja limpo e puro, livre do ódio, da concupiscência ou am­ bição (5:21-42). Além disso, a pessoa precisa ser tão cheia de amor, que ame até os seus inimigos (5:43-47). O reino de Deus é tão exigente que a pessoa precisa ser perfeita como é perfeito o Pai Celestial(5:48). Uma chave para o Evangelho pode ser achada no convite que Jesus faz para os cansados se colocarem debaixo do seu

4 Helen M ilton, “ The Structured of the Prologue to St. M attew ’s G ospel” , lournal of Biblical Literature, 81:175-181 (ju n h o d e 1962).

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jugo (11:28-30). É um jugo, pois existe uma reivindicação. Não obstante, o jugo é feito suave, porque a reivindicação está baseada em amor e misericórdia. Salva­ ção não é indulgência nem legalismo. A ética radical de Jesus, resumida no Ser­ mão da Montanha, é expressa no relato dos atos misericordiosos de Deus; e a exi­ gência radical é feita aos pecadores que diariamente precisam perdoar e pedir perdão, ser misericordiosos e receber misericórdia(5:5,6,7,10; 6:12,14 e s.; 7:11). Uma delas é viver na tensão do dom e da exigência de Deus. Deus faz uma exigên­ cia absoluta e final aos seus filhos (5:48; 28:20), porém a salvação é um dom que pode tão-somente ser recebido. Ela per­ tence aos pobres de espírito, àqueles que choram, aos mansos, aos que têm fome e sede de justiça, e àqueles que buscam o perdão(5:3-7; 6:12). O legalista procura alcançar um pa­ drão que Deus precise aceitar, geralmente consistindo de observâncias externas, que podem ser demonstradas, medidas e anunciadas. O libertino antinomiano en­ fatiza a salvação como o dom da graça de Deus, e argumenta que está livre da lei. Isto pode resultar na desvalorização dos padrões morais e éticos. Mateus se opõe a ambos. Mateus fez constante apelo às Escritu­ ras Judaicas, mostrando, no Velho Testa­ mento (cf. Miq. 6:8; Prov. 14:22; Os. 6:6), que Deus requer justiça, misericórAa, fé e fidelidade (23'23). Ele mostra que a essência da Lei é o amor, dirigido para Deus e para o homem, e expresso principalmente em servir o próximo nas coisas corriqueiras da vida, como quan­ do há fome, sede, doença ou sohdão (25:31-46). ê. Dádiva e Exigência Mateus confrontou os seus leitores com nm evangelho tanto de dádiva como de demanda, p reino (governo soberano) do céu requer uma jusüça que vá além da dos escribas e fariseus (5:20). O discípulo deve ter fome e sede de justiça (5:6). Ele

deve fazer da justiça no reino do céu a sua primeira preocupação (6:33). Por sua justiça, o povo de Deus, tanto na antiga quanto na nova aliança, deve ser reco­ nhecido (10:41; 23:34 e ss.) O juízo, no fim do mundo, será devido ao fato de ter sido ou não cumprida a vontade de Deus (7:24:27; 24:37 e ss.; 42 e ss.; 25:1 e ss., 14 e ss.). A prática, e não apenas o estudo da Lei, é o requisito de Deus (23:3,5,23 e ss., 28). Embora o “cum­ prir” exteriormente possa ser superficial e hipócrita (7:21-23), Mateus não hesita em enfatizar a importância de se fazer a vontade de Deus (7:21; 23:3). A justiça é um alvo a ser cumprido (3:15; 5:18). O Evangelho se encerra dando ênfase a se “observar” ou “guardar” tudo o que Cristo havia ordenado (28:20). O padrão é nada menos do que a per­ feição que pertence ao Pai celeste (5:48). Mateus não dá nenhuma indicação de que este padrão deva ser explicado ou diluído. A exigência de Deus é absoluta e final: “ Sede perfeitos.” Ao mesmo tem­ po, é declarado que a perfeição é encon­ trada apenas em Deus (19:17). Embora perfeita justiça seja o alvo dos discípulos desde o princípio, ela se realizará apenas por ocasião da vinda do Filho do homem (13:43). A salvação também é uma dádiva. Através de Mateus, o homem é visto como pecador, que diariamente requer perdão. Misericórdia e perdão perten­ cem, necessariamente, à vida dentro da igreja (5:7; 6:12,14,15; 18:15-17, 21-35). Os filhos do reino não podem escapar a esta tensão de viverem entre a dádiva e a exigência, a salvação como dádiva gra­ tuita, que nunca pode ser merecida ou adquirida por seus próprios meios, mas somente recebida, e ao mesmo tempo a exigência absoluta de Deus, que jamais é satisfeita. Estranho ao verdadeiro filho do reino é o orgulho do legalista de que o conseguiu, também o fácil escapismo do antinomiano, no pensamento errôneo de que a misericórdia, o perdão e o amor de Deus se exercem sem exigências. 93


Porém Mateus também mostra que as exigências de Deus são expressas em amor e misericórdia. Da mesma forma como ele libertara misericordiosamente os escravos do Egito, milagre que ocorreu imediatamente antes das exigências sole­ nes feitas no Monte Sinai, assim tam ­ bém as pesadas exigências do Sermão da Montanha são precedidas das boas-noas de que Jesus é Emanuel, Deus conosco (1:23), e que ele veio “pregando o evan­ gelho do reino, e curando todas as doen­ ças e enfermidades entre o povo” (4: 23). Deus sempre dá antes de exigir, e dá o que exige. A justiça que excede a dos escribas e fariseus é verdadeira justiça, mas do começo ao fim é a própria obra criativa de Deus no homem, e não a obra do homem oferecida a Deus. Em Jesus Cristo, Deus oferece um novo “ status” para os pecadores que nunca o merece­ ram, aceitando-os antes que eles mere­ cessem aceitação; mas, em Jesus Cristo, ele também está fazendo o homem de novo. Salvação é libertação, limpeza, cura, renovação, justiça e paz. Ela é saúde, e não meramente um certificado de saúde. Hans Conzelmann,.em uma discussão acerca das exigências de Deus, observa irrefutavelmente que, nas pesadas exi­ gências para que amemos e sejamos per­ feitos, Jesus pressupõe “ que, pelo fato de tomar conhecidas as suas exigências. Deus toma possível o seu cumprimento” , pois “Aquele que ordena é ao mesmo tempo Aquele que se preocupa e o que perdoa” . Ele observa, ulteriormente, que “realização moral não leva o homem a um relacionamento com Deus, mas o relacionamento com Deus é dádiva do próprio Deus, e pela primeira vez abre a possibilidade de um procedimento de moral elevada.” ^

reduzido a uma anáhse segundo apenas um fator. Foi um livro eclesiástico, apa­ rentemente destinado a satisfazer muitas necessidades: evangeUsmo, missões, apo­ logia, ensino, disciplina e adoração. ® Os melhoramentos estilísticos em relação a Marcos — histórias e discursos autoinclusos, arranjos tópicos e outros fatores — sugerem que um especial cuidado foi dado à produção de um livro apropriado para a leitura pública. Adoração e ensino devem ter sido as duas preocupações do­ minantes. Até o Sermão da Montanha é colocado em um a situação didática, e é apropriado para adoração e instmção. Indubitavelmente, o objetivo básico de Mateus é o mesmo comum a todos os Evangelhos: retratar Jesus Cristo — quem é ele, porque veio, o que exige e o que oferece.

II. Estrutura e Plano

O Evangelho de Mateus é demasiada­ mente rico em seus materiais para ser

É mais fácil reconhecer as divisões principais do Evangelho de Mateus do que o seu deliberado plano ou desígnio. O problema é ver até que ponto as fontes deram forma ao Evangelho, e até que ponto o autor conscientemente e delibe­ radamente o moldou. Visto que um pro­ jeto deliberado reflete algo do objetivo, o fato de se detectar um projeto pretendido abriria o Evangelho para uma melhor compreensão. Todos reconhecem que há cinco dis­ cursos principais em Mateus: (1) O Ser­ mão da Montanha (5 — 7); (2) o apos­ tolado (10); (3) parábolas do reino (13); (4) disciplina eclesiástica; (18); e (5) as últimas coisas (24 e 25). Cada discurso é seguido por uma declaração sumária de fraseado quase uniforme: “Tendo Jesus concluído estas palavras...” (7:28; 11:1; 13:53; 19:1; 26:1). O projeto artístico, como na genealo­ gia, no Sermão da Montanha, e nas parábolas do capítulo 13, encoraja o leitor a i

5 G rundriss der Theologie des Neuen Testam ents (M ü n ­ chen: Kaiser, 1967), p. 137 e 141.

6 Veja tanto K ilpatrick como Stendahl, p a ra menções , acerca d a origem e objetivos.

7. Muitas Preocupações

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procurar um cuidadoso plano para todo Jesus como outorgador de uma nova lei, o livro, comparável ao tão óbvio nas uni­ pois, para ele, Jesus interpreta e cumpre dades menores. Em 1930, Bacon (p. 225- a Lei (Bornkamm, p. 35 e 64). Mateus 335, et passim), reconhecendo débito U- está interessado com a continuidade, terário a F. Godet, argumentou que Ma­ tanto quanto com o cumprimento. Jesus teus desenvolveu um esquema deliberado cumpre as alianças com Israel, bem co­ de cinco livros, um novo Pentateuco, com mo a Lei (5:17-20). Mateus apresenta narrativa e discurso em cada livro: (1) Jesus tanto respeitando como estendendo discipulado (3 — 7); (2) apostolado (8 — aLei(5:17 e ss.; 8:4; 19:17-19; 23:2 e ss.; 10); (3) o encobrimento da revelação (11 24:20; 26:18). Em Mateus, Jesus não se — 13); (4) administração eclesiástica (14 opôs à ênfase farisaica sobre a Lei, mas — 18) e (5) o juízo (19 — 25), chamando ao fracasso deles, tanto em penetrar nas os capítulos 1 e 2 de preâmbulo e os profundezas das suas intenções quanto capítulos 26 a 28 de epílogo. em praticá-la (23:3). Embora a tese de Bacon, de que M a­ Uma outra forma de encarar a estru­ teus era um neolegalista, deve ser rejei­ tura de Mateus caracterizou a geografia e tada, a sua percepção penetrante ainda . a cronologia, dividindo o ministério de não foi levada a sério. Há reconhecíveis Jesus em preparação para o ministério porções de material, e um projeto pode (ou primórdios na Judéia), ministério ga­ ■er visto dentro dessas porções, como nos lileu, afastamento da Galiléia, jornada a ■ove ou dez milagres dos capítulos 8 e 9; Jerusalém, e ministério em Jerusalém. mas o que fica sem demonstração é que Esta abordagem tem alguma validade, ■m tema ou projeto unifique cada bloco pelo fato de o arranjo cronológico e geo­ de material de narrativa e o relacione gráfico de Marcos ser em grande parte assumido por Mateus. Além do mais, os eran o discurso que se segue. Os capíEvangelhos não são biografias, apresen­ M os 1 e 2 são importantes demais para acrem designados como “Preâmbulo” , e tando a vida de Jesus em sua seqüência «E capítulos 26 a 28 de forma alguma cronológica, embora obviamente haja al­ I»dem ser reduzidos à simples condição guma aderência à seqüência (nascimen­ de “Epílogo” . Se algo deve ser consideto, infância, batismo, ministério público, n d o epílogo, não pode começar antes de morte, ressurreição, aparecimentos). 26:16, mas até isto é inadmissível (Wal­ ker, p. 146). Embora quatro discursos principais e III. Temas Principais Hocos de material de narrativa sejam ób1. A Pessoa de Jesus Cristo «os, não é indicado que Mateus pretenInquestionavelmente, Jesus é o assunto d&a criar um novo Pentateuco. Mateus se opunha ao legalismo farisaico, mas não dominante através de todo o Evangelho era um neolegalista. Ele considerava a de Mateus. Nenhum discurso, aconteci­ iptija como o verdadeiro povo de Deus, e mento ou pessoa tem interesse para M a­ Jésus como seu fundador, mas não apre­ teus, exceto se relacionado com Jesus, sentou Jesus como um “novo Moisés” , pessoa única, que dá unidade e signifi­ que tenha dado uma “nova lei” . Ele cado ao Evangelho. traçou alguns paralelos entre Moisés e A primeira preocupação de Mateus é Jesus, quer conscientemente, quer não; apresentar Jesus nos termos de suã~õrimas nunca apresenta Jesus como “filho gem, identidade, ' missão, autoridade, de Moisés” . Ele o introduz, sim, como dons, exigências, atos e ensinamentos “filho de Davi, füho de Abraão” (1:1). humanos e divinos. Títulos significativos “Nova lei” não é palavra que interesse são empregados: Filho de Davi, SenhõF a Mateus. Ele não vê, nem poderia ver. de Davi, Rei dos Judeus, Emanuel, Filho 95


de Deus, Servo de Deus, Filho do Ho­ mem, Senhor e Cristo; mas Jesus é apre­ sentado especialmente através de sua maneira de agir, seus atos, suas palavras e da reação de outras pessoas para com ele. Mateus nâo levanta questões espe­ culativas acerca da natureza de Cristo. Ele, pelo contrário, prefere apresentar Jesus em termos de sua função: cumprin­ do a Lei, revelando o Pai, salvando os homens dos seus pecados, criando a Igre­ ja, vencendo os demônios, a doença e a morte. Mateus mostra Jesus como humano e divino. Ele era um verdadeiro homem: nascido de um a VirR&m~1TTI03). füho de Abraão e de Davi (1:1): tentado (4:111; 16:23), negando saber a época da Parousia (24:36); orou (26:39); sentiu-se abandonado (27:46). Ele também foi di­ vino. Foi gerado pelo Espírito Santo (1: 18,20). O seu nome Jesus significa “Yahw^eh (Senhor) é salvação” (1:21). Ele foi também chamado Emanuel, “Deus co­ nosco” (1:23). Foi adorado como Deus (2:2,11; 28:9). Mateus conheceu Jesus como o Libertador escatològico do Fim dos tempos, a quem fora dada a autori­ dade de Deus (7:29; 8:9; 9:6; 21:23-27; 24:30; 26:64; 28:18). Mateus está interessado tanto nq J e ^ s de Nazaré, terreno, como no Senhor res^ ^ H c it^ S lZ) Jesus terreno não pode ser compreendido sem o Senhor ressuscita­ do, e, da mesma forma, o evento da Páscoa, ou o Senhor ressuscitado, não pode ser entendido sem o Jesus terreno. ^ Mateus nada sabe de um Jesus mera­ mente humano ou de um Cristo “docé­ tico” , para quem é indiferente uma ver­ dadeira existência terrena. Ele escreve de alguém cuja vida humana, terrena, foi tão real, que conheceu fome, sede, can­ saço e tentação; e escreve também da­ quele que, já nesta terrena existência, fez reivindicações para" si mesmo, fez exi­ gências para outros, e andou entre os 7 Cf. E rjist K âsem ann, Essays on New Testament The­ mes (London; SCM, 1964), p. 25.

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homens de maneira adequada apenas a | alguém que fosse divino e que d e sta ' forma entendesse a si mesmo. Os títulos não expressam com todas as cores o retrato que Mateus pinta de Jesus, mas são importantes. Jesus é cha­ mado de “Mestre” e ocasionalmente usou esse termo acerca de si mesmo (10:24 e ss.; 23:8; 26:18), mas é apre­ sentado como mestre mesmo quando o termo não é empregado. Mateus não se agrada do termo “rabi” , todavia. Os dis­ dpulos de Jesus devem evitar esse termo (23:7 e ss.), e apenas Judas o usa em relação a Jesus (26:25,49). Como profeta (10:41; 13:57; 16:14; 21:11,46) e como mestre, Jesus falou com a autoridade de Deus. Possivelmente Ma­ teus o considerava como o profeta de Deuteronômio 18:15,18. Mestre e profe­ ta não são prerrogativas que estabeleçam Jesus como divino; mas, com a autorida­ de de Deus reclamada para as suas pala­ vras de mestre e profeta, forte apoio é dado ao que algures é explícito. Na antí­ tese (eu, porém, vos digo) do Sermão da Montanha (5:22, 28, 32, 39, 44; 7:29), Jesus reclama para si uma autoridade que o coloca acima de rabi e profeta, pois essa autoridade o coloca acima de Moi­ sés. A única categoria que faz justiça a esses reclamos é a que lhe é atribuída em Mateus 16:16, “o Cristo, o füho do Deus vivo” (Kâsemann, p. 37 e ss.). Mateus considera Jesus como Cristo e Senhor, unindo e separando ao mesmo tempo, desta forma, Israel e a Igreja, o judaísmo e o cristianismo (Hummel, p. 172 e ss.). Ele é o Messias das expecta­ ções veterotestamentárias, o verdadeiro cumprimento da Lei, tanto como seu intérprete, como personificação das suas intenções, alcançando, desta forma, “a justiça que excede à dos escribas e fari­ seus” . Ele é também o Senhor ressusci­ tado da Igreja, rejeitado em grande parte por Israel, mas em sua morte e ressur­ reição exaltado como o Senhor a quem é dada “ toda a autoridade no céu e na


terra” (Mat. 28:18) e sob cuja disciplina todas as nações devem ser trazidas. Jesus é tanto filho de Davi (1:1; 9:27; 15:22; 20:30 e s.; 21:9,15) como Senhor de Davi (22:45). Ele é o rei humiíde profetizado por Zacarias (9:9) e também o Filho do Homem ressurrecto e triunfante que já reina sobre a terra (28:18). A hu­ mildade e obediência do Servo de Yaweh e a presença viva e soberania do Fi­ lho do Homem sâo ambas fortes ênfases. Mateus gosta de unir os dois temas no paradoxo da humildade e exaltação de Jesus. Em 3:17, Mateus adiciona “em quem me comprazo” à citação de Marcos, ex­ traindo essas palavras do quadro do Ser: vo em Isaías 42. Em 8:17 ele enfatiza o humilde papel de servo que Jesus de­ sempenha, baseando-se em Isaías 53:4. Em 12:15-21 ele acrescenta, à narrativa de Marcos, um a citação de Isaías 42:1-4, mostrando Jesus em uma atividade salva­ dora, em favor dos quebrantados, pro­ clamando um julgamento que é redentor, dando vitória e esperança para os gen­ tios. Devido ao seu silêncio quando sob opressão, e a sua ternura ao tratar com os quebrantados, Jesus é visto em sua humildade. Mateus 21:4 e seguintes acrescenta, ao relato feito por Marcos, da entrada de Jesus em Jerusalém, uma mistura de Isaías 62:11 e Zacarias 9:9, centralizando, desta forma, a mansidão ou ternura do “rei” . Mas, para Mateus, Jesus é o ressurrec­ to entronizado, bem como o temo ServoRei. O Evangelho termina com a figura extasiante do Cristo ressurrecto possuin­ do “toda a autoridade no céu e na terra” , comissionando os seus seguidores para levar todas as nações debaixo do seu dis­ cipulado e obrigá-las aos seus manda­ mentos (28:16-20). “Toda a autoridade no céu e na terra” (28:18) parece fazer eco a Daniel 7:14, desta forma identifi­ cando Jesus como o FiUio do Homem (G. Barth, p. 133). As palavras “estou con­ vosco” provavelmente remontam a 1:23, Emanuel ou “Deus conosco” . Em Jesus,

Deus não apenas fala e age, mas está pre­ sente. Em seu ministério terreno, Jesus foi o Servo-Rei manso, humilde, obedien­ te. O Cristo ressuscitado é o Senhor, o Fi­ lho do Homem, Deus conosco. O termo “Pai” é usado em relação a Deus 45 vezes em Mateus, excedido ape­ nas por João (107 vezes, quando compa­ rado com 4 em Marcos e 15 em Lucas). Jesus conhecia a Deus como seu Pai, e considerava a sua obra como a de minis­ trar esse conhecimento aos seus segui­ dores (5:48; 11:27). Mateus pesquisa a consciência filial de Jesus desde o seu batismo (3:17). Jesus é, para Mateus, o Filho de Deus (14:33; 16:16; 27:54; 28: 18-20). O termo Cristo aparece 13 vezes em Mateus. Jesus aceitou esse título em Ce­ saréia de Filipe (16:16), mas substituiu-o pelo título “Filho do Homem” (16:28) e interpretou ambos os títulos em termos do Servo Sofredor de Isaías, sem usar o termo explicitamente (16:21). Jesus de­ sencorajou o uso do termo Cristo (16:20), presumivelmente porque o seu uso cor­ rente estava intimamente ligado com as idéias de um libertador nacional. Em 26:63,64, Jesus nem negou nem aceitou plenamente esse título. Para a comuni­ dade de Qumram, “messias” podia sig­ nificar um tipo sacerdotal ou um tipo político de Arão. Os zelotes pugnavam por um tipo nacional, político, munda­ no. Havia muitos falsos messias deste último tipo (24:24). Com estes antece­ dentes, o título só podia ser usado com cautela. Filho do Homem é empregado 31 vezes em Mateus, referindo-se a Jesus. Este título estava mais livre de qualquer co­ notação política, e era mais abrangente quanto ao significado, apropriado para combinar os aspectos presente (8:20) e futuro (25:31) do ministério de Jesus, tanto quanto o seu papel de sofredor (17:22; 20:18) e também de exaltado Soberano e Juiz (25:31). Se 28:18-20 faz eco a Daniel 7:13,14, a própria autorida­ 97


de que o Ancião de Dias promete ao Filho do Homem foi dada a Jesus, o Senhor ressuscitado. A promessa ao Filho do Homem fora “domínio, e glória, e um reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem” e a certeza de que o seu domínio é um reino etemo, que não será destmído (Dan. 7:13-18). Precisa­ mente esta é a prerrogativa reivindicada para o Cristo ressurrecto em 28:18-20. O termo Filho do Homem serviu, além disso, para indicar a preocupação de Jesus em criar uma comunidade, o povo de Deus, “os santos do Altíssimo” . A referência mais direta feita por Ma­ teus a Jesus como servo de Deus é 12:18, onde Isaías 42:1 é mencionado: “Eis aqui o meu servo que escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se compraz.” O Filho do Homem é aquele que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos (20:28). Por ocasião do seu batismo, veio uma voz do céu, declarando que Jesus era o Filho amado de Deus (3:17). Esta declaração, provavelmente, reflete tanto Isaías 42:1 como Salmos 2:7. Refletidas são também a consciência de Jesus de que Deus é seu Pai, peculiarmente, e a consciência de si próprio como o Cristo de Deus (Sal. 2:2), e Servo de Deus (Is. 42:1). A sua função messiânica era para ser realizada me­ diante sofrimento sacrificial, dando ele a sua própria vida, e não tirando a vida dos romanos, inimigos de Israel. Para M a­ teus, Jesus é Cristo, o Filho de Deus, e o Filho do Homem sofredor aqui na terra. Estando Jemsalém em minas, e o Templo destmído, e Israel sob o tacão de Roma, e os fariseus tentando reconstmir o judaísmo ao redor da Lei, Mateus escreveu para demonstrar que em Jesus Cristo está o cumprimento da Lei, dos profetas, e do Templo. Em Jesus Cristo, as alianças feitas com Abraão e Davi são cumpridas, o “ trono de Davi” é estabele­ cido etemamente, e a sua “autoridade” é a de levar todas as nações a se sub­ meterem ao seu governo de justiça. 98

2. O Reino do Céu O termo reino (basileia) aparece cerca de cem vezes em Mateus, em 20 dos seus 28 capítulos, ^ ^ te u s prefere, o je rn jo ‘^ i n o do céu” (32 vezesl_a “reino^de Deus” (4 vezes^ Ele também fala do “reino” , “reino do seu Pai” , “reino de meu Pai” e “reino do Filho do Homem” . Ò significado é constante, nestas várias^ formulações. Presumivelmente, Mateus* prefere “reino do céu” ou para evitar uma conotação política do reino de Deus, ou devido a piedoso escrúpulo dos judeus em usar uma referência direta a Deus^ “Não existe base bíblica para se fazer di?’ tinção entre “reino de Deus” e “reino do céu” . Nos paralelos Sinópticos, os termos são usados indiferentemente. Q reino de Deus é o reinado soberano de Deus. Significãque Deus é rei. O reino de Deus não é edificado ou “tra­ zido” . Ele vem, mas não se torna. Deus é rei, indiferentemente quanto à obediên­ cia ou desobediência do homem. O que o homem é e faz influencia a sua posição no reino de Deus, mas não afeta o fato do I reino de Deus. Outros “reinos” se opõem "ào reino de Deus, mas Déus permanece rei. 0_^ Velho Testamento já conhecia a Deus como rei, e conhecia “um como o fiUio do homem” , a quem “o Ancião de Dias” prometera “um reino que não terá fim” (Dan. 7:13es.). Mateus conhece a Jesus de Nazaré como o Cristo, o unRÍdo de Deus, em quê^tTo reino de Deus já se iniciou. Isto significa, antes dé tuHo, que o homem precisa se “arrepender” , isto é, voltar-se em submissãó~á Déus (3:2; 4:17; 7:21). Deus é rei e o homem é vassalo. Somente' quando o homem aceita este relaciona­ mento, a sua rebehão ou indiferença dando lugar à obediência voluntária, é que se abrem, para ele, nova liberdade e nova existência. O reino do céu é boas-novas. Mateus podiê falar do “evanRelho do reino” (4: 23; 9:35; 24:14). Nos dias terríveis do louco rei Herodes. eram boas as novas de


-jque Deus é o verdadeiro Rei, e que ele^ Iprios; é uma herança, uma dádiva de j " ^ ^ v e io para ser “nascido rei (ios judeus’ Deus (25:34). I (2:2). Foram boas-novas quando Mateus O reino de Deus vem como juízo, tanto escreveu.,^eiKmantofJèrusaSm)fazia ení’ quanto como evangelho.. Q^juízp é apacinzas, e Roma parecia governar o mun­ rêníem êníFidiado, porém e certo e su­ do. Para os doentes e pecadores eram mário. Ele é como a separação do ioio e boas-novas, pois o fato de o reino irrom­ do trigo, na colheita (13:24,36,41,44), per no mundo, de novo, em Jesus Cristo, ou como a separação de peixes úteis e era acompanhado da cura de todas as inúteis, q u ã n H õ T ^ a F U c T pescador é doenças e enfermidades (4:23; 9:35) e da trazida para a praia (13:47). O seu jullibertação do domínio das forças do mal gamento é suave para os misericordiosos ê (12:28). perd^idores, mas duro para com os sem nusericórdia, que não sabem perdoar. Paradoxalmente, a pessoa reina com (TBT2^ ss.)TEÍe julga a pessoa mediante Cristo precisamente~qüãndo se rende a a maneira como ela se relaciona com ele, abdicando de todas as reivindicações lesus Cristo, relacionando-se com os oude soberania. A coisa^correlata ao reino tros em situações de fome, doença ^ u de Deus é a liberdade, e não a escravidão prisão (25:31-46). O tamanho no reino é dos filhos de Deus (Kâsemann, p. 47). medido em term o sd ê ”^ S S I E a n ç n s O reino pertence aos que não procuram crianças (18:1-4), motivação (20:1) e serarrebatá-lo. Pertence aos pobres de espí­ viço(20:ll,25ess.). rito (5:3), aos que sofrem perseguição O reino do céu, em^^Mateus, é tanto por amor à justiça (5:10), e aos que se presente como futuro ^M ateus) aparenteassemelham às crianças Ú 8:l,3; 19:14). mênteTTe considera comolim .escriba do Publicanos e meretrizes, que não têm re^„(13:51 e s.). As “çhaves^o reino^’ nenhuma ilusão acerca de si mesmos, são uma realidade presrateTróH^TTS^S entram no reino antes dos orgulhosos e s.). Tanto João Batista como Jesus religiosos (21:31). Desconhecidos do ori­ anunciam que ele,“ é chegado” (3:2; 4: ente e do ocidente entram no reino plíra 17; 10: 7). Ele ja pertence aos pobres de se assentarenToom Abraão, Isaque e espirito e aos perseguidos por amor à Jacó, no banquete messiânico, enquanto justiça (5:3,10). Ele iá está em conflito os orgulhosos, que pensam que o mere­ com o reino de Satanás, e os homens cem, são lançados fora (8:11 e s.). tentam entrar nele pela força (11:12; O reino do céu é ao mesmo tempo 12:28). Ele deve ser buscado agora (6: dádiva e exigência. Inclusão, ou jxclu33). O reconhecimento mais claro e mais são, délê não é um destino impoitõ~à conclusivo, em Mateus, da realidade pre­ pessoa, mas uma decisão a ser tomada. sente do reino, é visto em 12:28: “ Mas se Ele sobrevêm à pessoa com os apelos é pelo Espírito de Deus que eu expulso os para se arrepender, confiar, obed&cèfT demônios, logo é chegado a vós o reino de ElFHêm aiidalim ãjustiça que excede a Deus.” O reino.de Deus iá está vencendo o reino de Satanás^ O Cristo ressurrecto dos escribas e fariseus (5:20), a prática da vontade de Deus (7:21), a produção já tem “ toda a autoridade no céu e na de frutos (21:43). O discípulo precisa terra” (2 vender tudo o que tem, para possuir este Mas o reino é também futuro. Os po­ deres, já em açã'oem Tésüs7só^o fim do tesouro oií pérola de grande preço (13: 44,45). A con|ia^ajia^riquezasjexc^uij) mundo” alcançarão plena vitória. Devg~ seu possuidor do relnò ( Í9:23 el;.r. Custa sejrig iar, esperar e ficar preparado para tudo o que a pèYsóâlem, entrar no reino ãi^eíè dia (25:1). O gginqr ^gm cer to . do céu (6:33; 13:44,45). Não obstante, o sentido, iá veio; em üm sentido especial reino nunca é adquirido por meios"^ó(provavdmente ^ r ocasião da destruição

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de Jerusalém), ele veio para a geração à qual Jesus se dirigira (16:28); e ele ainda está por vir em sua plenitude, na Pãrourfi1i?IÍ27). De maneira contrária às expectativas dos zelotes, o reino não iria vir com o (^m a^exterior, visível, dé ^ è f f á catástrofe, como algo para o que correr, pàrãTvèr como espetáculo (24:4-14). Ele vemcomouma pequena semente de mosta j^ ^ Í3 :3 Í)~ o u cornb^uina medida de fermento em uma massa de pão (13:33).

pois aparentemente já se encontrava na W i ^ ^ u ç el^^ usou T r-T ü fin iã n n , Sy~ noptíc Tradition, Í38 e ss., p. 146). Para Mateus, o termo mais significativo usaHõ" ^arà*5rsegui'dorer~dê~ Jesus é o d e d i s c í ^ ~ p ín o lm a lh ê iE ê s )n u n ta m e rite ^ c o m o r t e r ^

Istas palavras ajudam a pmtaF^ÕquãSro, feito por Mateus, de Jesus como intérprete e cumpridor da Lei, e como Senhor da Igreja. ^A_^grejaé a sua Igreja (16:18), da mesma f^ m a ^ m o o remo tãníEém é õ reino d5~Fílho 3. A Igreja ■ ^ l i õ m ê m ^(13:41: 16:28). Mateüs conJg reja ^ rgmo se relacionam, sidera a Igreja como a comunidade escaã o ^ ^ j 3 i n w ^ r ^ ) r e m o é o governo V tológica, pertencendo a alguém que era ^sõbefaiío de Dêus, e a sua absoluta e / tanto o Rei Messias de Israel como o final declaração de posse sobre tudo o ^ Senhor das nações. Ele é o Mestre, os que existe, o seu governo soberano, que ^ seus seguidores são os discípulos; ele é se defronta com todo o mundo na pessoa ) Senhor, eles, seus escravos; ele é o dono de Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus, a V da casa, eles, os serviçais caseiros (10: quem este ungiu para reinar. A Igreia / 2 5 ) . é essa família de pessoas subm f§ias^õ Novo Israel” dificilmente é o termo reino de Deus, na forma em que ele se para aue MateiTT faz da apresenta em Jesus C risto .^ ^ ^ e ^ é mais Igreja, embora ele reconheça os seguiamplo do que a Igreja. Ê o governo de dores^eTesús como os verdadeiros filhos Deus sobre todas as coisas, obedientese de Ábraão (3:9). Mate^ v ê cónidniiid a ^ desobedientes, Igreja e mundo. A Igreja e n tr^ lsra el e a^TgfqaT^A ^^^^raçâo 1 a parte^alcriacão oue encontra a sua* Wquc^ÍnuífBf''vmao§^do oriente e do existência na obediência voluntária ao ocidente, como o centurião de Cafar­ ^•emo de Deus. A Igreja não traz nem naum j[8;5), “ reclinar-se-ão à mesa com edifica o rèinò. O reino cria e sustenta a Abraão^ Isaque e Jacó, no reino dos Igreja. céus’’ C ^ l ) encara duas direções. A sua O termo igreja (eliklcsia) aparece ape­ prin^paTpreocupacão é incluir õs gen­ nas três vezes nos Evangelhos, todas elas tios, mas também reconhece que Abra­ em Mateus (16:18; 18:17). ^ £ o n ç e H o ^ ão, Isaque e Jacó pèrtencem ao povo de povode^D e^ expresso em vanos iermos, D e ^ E m F o rá M âtéüs veja que a nação °e anâlogiasTeTnüito mais proeminenje como um todo já está julgada em termos nõsnBvan^hos ^gõ~que^êssiFl5-es~ocõrda destruição de Jerusalém (23:37-39; rências dãTpHivra “igreja” podem d.ar_a 24:1-3), em lugar nenhum ele sugere que entender. ílm segundo lügaf em impor­ os judeus, pelo fato de sê-lo, são ex­ tância, logo depois da posição dada a cluídos do povo de Cristo. Jesus nos Evangelhos, estâ a dada aos Mateus yê a Igreja como se estivesse seus seguidores. Jesus chamou pessoas a UgaHir^õjudaísmQ^mrela si, e formou um grupo ao seu redor, seja luEoTA L ê rírõ ^ g a tó ria para ambos, e qual for o termo pelo qual esse grupo seja apresentar-se para subme­ chamado. ter-se ao mesmo M z ^ A produção de A presença doterm oJ4greia|\£m 16: frutos (7:16 e ss.;‘^ : 4 3 ) , justiça (5:20; 18 e 18:17 não p S ^ ^ ^ p e s q ú is a g o em^ 6:20) e perfeição (5:48; 19:21) são as exi­ relação ao interesse editorial de Ç gências sob as quais a Igreja deve viver. 100


como era verdade em relação a Israel. A própria Igreja exteriormente deveria submeter-se a juízo, o que separaria o verdadeiro povo de Deus dos que nâo o são (7:21 e ss.; 13:24-30, 36-43, 47-50; 22:10,14; 25:31-46). Mateus vê a Lei unindo o povo de Deus sob a velha e a nova aliança, naquilo em que ela é compulsória sobre ambas. Tan­ to de Israel como da Igreia. exiee-se jastiça. Como mostram os paralelos em Lucas, Mateus insere “justiça” três vezes em 23:29-36. Só os justos permanecem nojuízo final. Portanto, a Igreia consiste do verdadeiro pÒvó 'd e T ? e u ^ b S ^ iç ^ f a g o fa ^ ís m rã ^ exteriormente, I 'e peneirado apenas nojuízo final, do qüe" ‘^^-Pão é verdadeiro.

4. A Disputa com os Fariseus Evidências de que Mateus estava conscientemente interagindo com os fariseus I da sua época podem ser vistas no fato de ele constantemente enfatizar o papel deI fcs como oponentes de Jesus. Isto nâo í Hgnifica que ele inventou o conflito, pois este é histórico; porém, mais do que Lucas e Marcos, ele o revelou. Em 3:7; 12:24,38, ele escreve “fariseus” , enquan­ to Lucas (3:7; 11:29) diz “ multidões” . Mas em 3:7 e 12:38 Mateus insere “ fari­ seus” no material que compartilhou com Lucas. Fariseus em 12:24 é redacional de Marcos, que diz “escribas” . Especialmente nos debates, vemos o interesse de Mateus em apresentar os fariseus como oponentes de Jesus. Em 12:24,38; 21:45; 22:34,35,41, Mateus in­ troduziu o termo “fariseus” na narrativa (cf. Mar. 12:12; Luc. 20:19). A sua preo­ cupação com os fariseus é refletida na sua ênfase na justiça, que precisa exce­ der à dos escribas e fariseus (5:20), na sua ênfase sobre o juízo que cai sobre os fariseus (15:12,13 e especialmente 23:136; cf. Mar. 12:37-40; Luc. 20:45-47), no retrato que ele faz dos fariseus como q}onentes de Joâo Batista (3:7), e na citação dos fariseus como os oponentes de Jesus na narrativa da Páscoa (21:45;

22:15; 27:62). Em 22:15 ele segue M ar­ cos, mas em 21:45 e 27:62 Mateus só nomeia os fariseus (Marcos não men­ ciona os fariseus depois de 12:13). Mateus não inventou a acusação de que os fariseus tramaram a morte de Jesus, pois Marcos 3:6 conserva esta tra­ dição. Nem Marcos nem a tradição mais antiga que ele seguiu estavam interessa­ dos em enfatizar o papel desempenhado pelos fariseus. O que é novo é o interesse de Mateus na culpa dos fariseus. O fato de que a tradição fora registrada ante­ riormente sem motivação aparente argu­ menta a favor de sua historicidade (Hum­ mel, p. 12-17). Só Mateus nomeia os fariseus como pessoas que acusaram Je­ sus de ter expulsado demônios pelo prín­ cipe dos demônios (9:34). Nâo há para­ lelos a 9:34, e o versículo está faltando no texto Ocidental; mas em 12:24 Mateus muda as palavras de Marcos, “os escri­ bas” (3:22) para fariseus. Mateus freqüentemente se refere aos escribas e fariseus (5:20; 12:38; 23:2,13, 15,23,25,27,29), mas não faz distinção entre eles. Pode ser que uma fonte ante­ rior a Mateus e Lucas tenha feito distin­ ção entre os escribas e fariseus (Luc. 11:37,38,39,42,43 e 12:1 apresentam fa­ riseus; 11:45,46,52 dizem doutores; 20: 39,46 falam de escribas; e 11:53 anota escribas e fariseus). A maioria dos escri­ bas eram fariseus, mas havia alguns es­ cribas essênios e saduceus. Os escribas eram eruditos ordenados, que ficavam acima da maioria dos fariseus, porém Mateus não está interessado nessa distin­ ção (cf. 21:23 com 21:45).

IV. O Nome Mateus O grego Maththaios ou Matthaios pro­ vém da forma abreviada de uma palavra hebraica ou aramaica que significa dá­ diva de Yaweh. Mateus aparece em qua­ tro listas de apóstolos de Jesus (Mat. 10:3; Mar. 3:18; Luc. 6:15; At. 1:13). De acordo com 9:9 e 10:3, ele era um 101


coletor de impostos quando Jesus o cha­ mou. Se deve ou nâo ser identificado com Levi é mcerto. Marcos e Lucas parecem Hístijilgiinrentre LevieM ateus, porém em Mateus eles parecem ser a mesma pes­ soa. Em Marcos 2:14, um coletor de impos­ tos (telõnés) que seguia a Jesus é cha­ mado “Levi, filho de Alfeu” ; e em Lucas 5:27,29, ele é chamado Levi. Parece certo que Mateus 9:9-13, Marcos 2:13-17 e Lucas 5:27-32 são paralelos, referindo-se ao mesmo coletor de impostos. Desta forma, Mateus 9:9 se refere ao Levi de Marcos 2:14 e Lucas 5:27,29. Em cada uma das quatro listas de apóstolos (Mat. 10:2-4; Mar. 3:16-19; Luc. 6:13-16 e At. 1:13) o nome de Mateus aparece. O nome de Levi nâo. Só em Mateus (9:9; 10:3) Mateus é chaníado de “coletor de impostos” . Tanto Marcos (2:14) como Lucas (5:27,29) conhecem um coletor de impostos (telõnés) chamado Levi. Se os judeus algumas vezes usavam dois nomes é discutível. Simâo Pedro nâo é um exemplo decisivo, pois Pedro é epíteto, e não um verdadeiro nome. 8 Existe supor­ te substancial e textual anterior para “Tiago, filho de Alfeu” , em vez de “Le­ vi” , em Marcos 2:14. Isto concordaria com “Tiago, filho de Alfeu” em Marcos 3:18. Heracleon (cf. Clemente, Stromata, 4:9) e Orígenes (Contra Ceisum 1:62) fazem distinção entre Levi e Mateus. Se Mateus e I^vi. o coletor de impos­ tos, sâo a mesma pessoa, ele exercia o seü

oficíõ^ b a^ãutondãM‘gelHêroderAntP~ pas, nas vizinhanças de Cafarnaum; e a suSTunção era receber os impostos ou taxas das mercadorias transportadas pe­ la estrada Damasco-Acre e possivelmente lançar impostos sobre a pesca e outros negócios em sua região. Devido ao silên­ cio de Marcos e Lucas, a inòerteza tex­ tual de Marcos 2:14 (Levi ou Tiago?) e a incerteza patrística primitiva, o erudito hoje em dia é compelido a uma susE. P. Blair, “ M atthew ” , The Interpreter’s Dictionarj of the Bible (Nashville: Abingdon, 1962), III, p. 302.

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pensão do julgamento quanto à iden­ tidade de Levi e Mateus. Mateus é cha­ mado de coletor de impostos (9:9; 10:3), seja qual foParTèlação entre Mateus e LêvT — —— ^ -

V. Autoria A tradição sustenta que o nosso Evan­ gelho foi escrito por Mateus, um dos doze apóstolos. O próprio evangelho é por si anônimo. O título “Segundo Ma­ teus” provavelmente foi acrescentado quando os quatro Evangelhos foram reu­ nidos dentro de uma só capa. Os eruditos estão muito mais convencidos de que Marcos e Lucas escreveram os Evange­ lhos que ostentam os seus nomes, Jo que convictos que o primeiro Evangelho foi escrito por Mateus. O que está em jogo é uma tradição da Igreja, e não a au­ tenticidade ou valor do Evangelho de Mateus. A verdade parece ser que os autores dos quatro Evangelhos se conservaram deliberadamente à sombra, encobrindo as suas pisadas, por assim dizer. Os Evangelhos foram escritos para as igre­ jas, e, num sentido real, eram produtos das igrejas, embora houvesse um autor individual por detrás de cada um deles. Como o autor considerava a si mesmo pode ser visto em 13:52: um escriba que tira do seu tesouro coisas velhas e novas — as velhas, em continuidade com o ju ­ daísmo, da maneira como ele é refletido no Velho Testamento; e as novas, que são o cumprimento daquelas, como se encontra em Jesus Cristo. A tradição de que Mateus escreveu este Evangelho, e de que foi o primeiro a ser escrito, parece remontar a Papias, de Hierápolis (155 d.C.), conforme cita­ do por Eusébio (III, 39): “Mateus compi­ lou (sunetaxato) os oráculos (ta logia) na língua hebraica (dialektó), e cada um os interpretou (hermeneusen) como foi ca­ paz.” Essa passagem contém várias am­ bigüidades. O grego sunetaxato pode sig­


nificar tanto compilar como arranjar; iogia pode significar relatórios ou orá­ culos; e hermeneusen pode referir-se a tradução e/ou exposição. Desta referência surgem opiniões co­ mo as de que, falando em logia, Papias queria dizer uma vida de Cristo, o nosso Evangelho de Mateus, as palavras de Je­ sus, ou uma fonte hoje conhecida como Q. Pelo contrário, Papias pode ter queri­ do dizer que Mateus compilou em he­ braico alguns oráculos proféticos veterotestamentários, e que cada pessoa na igreja primitiva os interpretava como era capaz. 9 Pais .da igreja posteriores erra­ damente presumiram que Mateus es­ crevera o mais antigo dos Evangelhos.. Irineu (c. 180 d.C.) via o Evangelho de Mateus como o mais antigo dos quatro (Contra Heresias, III, 1; Eusébio, V, 8), da mesma forma como Clemente, de Ale­ xandria (c. 200 d.C.), de acordo com Eusébio (VI, 14), o próprio Eusébio (III, 24), Jerônimo (Proemio ao Commentary 4H1Matthew, 5 — 7), e Agostinho. Deve ter havido alguma razão subs­ tancial para atribuir o primeiro Evange­ lho a Mateus. Que o apóstolo teve al­ guma relação com ele, é provável. Bas­ tante provável é que ele fosse o compi­ lador das logia (cf. Papias), usadas ex­ tensivamente nesse Evangelho.

VI. A Ordem dos Evangelhos A ordem canônica atual tem sido vir­ tualmente uniforme desde Agostinho (sé­ culo IV). Eusébio, aparentemente, en­ tendia a referência de Papias como sendo ao Evangelho de Mateus, e daí surgiu a opinião de que o Evangelho de Mateus foi o primeiro. Agostinho aceitou esta opinião, e tomou-a virtualmente padrão, até o período crítico moderno. 9 Cf. e F . C. G ran t, “ Gospel of M atthew ” , T he In te r­ p reter’s £>ictioaai7 of th e Bible, III, p. 303. P a ra o ponto de vista de que Papias tinha em m ente o nosso Evangelho de M ateus, veja W. G . Kümmel, In tro ­ duction to the New T estam ent, trad , de A. J. M attill, Jr., em ingles (Nashville; A bingdon, 1966), p. 85.

O que não foi notado por aqueles que formaram a tradição de que Mateus fora o primeiro Evangelho, é a evidência de que Papias discutiu Marcos antes de Mateus (Eusébio, III, 39), provavelmen­ te datando Marcos anteriormente a M a­ teus. Ê interessante que Apocalipse 4:7 bem pode ser uma referência velada à ordem dos quatro Evangelhos: Marcos, Lucas, Mateus e João. Pelo menos desde o tem­ po de Irineu (III, 11), cerca de 180 d.C., as quatro criaturas viventes (leão, boi, criatura com face de homem e águia voando) (*) de Apocalipse 4:7 têm sido entendidas na exegese e na arte como os quatro evangelistas, identificados, res­ pectivamente, como Marcos, Lucas, M a­ teus e João.^° Isto não deve ser forçado, pois o simbolismo para os quatro Evan­ gelhos parece ter variado nesse período primitivo. Do lado de fora da Igreja de São Vitale, em Ravena, está o mausoléu de Galla Placídia, onde se encontra um mosaico romano (c. 440) figurando os quatro Evangelhos na seguinte ordem: Marcos, Lucas, Mateus e João. Este mo­ saico pode preservar uma tradição que antecede à que Eusébio e Agostinho deri­ varam de uma possível má compreensão de Papias. Esta ordem é também encon­ trada na Academia em Veneza, no forro da Sala delia Presentazione, numa cole­ ção de placas espanholas, que agora es­ tão no Museu Metropolitano, em New York, (M. 167), e possivelmente é encon­ trada também em outros lugares. A mais forte evidência de que Mateus é posterior a Marcos e mais ou menos con­ temporâneo de Lucas é interna, como veremos ao estudarmos as “Fontes” . No que é conhecido como o texto Ocidental, 10 Cf. F. C. G ran t, p. 302, em cuja obra esta seçâo está principalm ente baseada. (*) NOTA D O TR A D U TO R : O Simbolismo de A poca­ lipse 4:7 é mais consentâneo com a ordem em que os Evangelhos se encontram n a nossa Bíblia, apresentan­ do Jesus respectivamente como rei (leâo), Servo (boi), Filho do Homem (face do homem) e Filho de Deus (águia voando).

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outra ordem prevalecia, baseada em um princípio diferente; Mateus, João, Lucas, Marcos, colocando os dois apóstolos an­ tes dos dois não-apóstolos. Esta “ordem Ocidental” é arbitrária, e não resolve a questão de autoria ou ordem.

VII. Data e Lugar em Que Foi Escrito Não há prova conclusiva de que os Evangelhos não tenham sido escritos an­ teriormente, “ quiçá por volta de 60 d.c. Por outro lado, a probabilidade é de que Marcos tenha sido escrito pouco depois da perseguição movida por Nero contra os cristãos, em seguida ao incêndio de Roma, em 64 d.c., que Lucas e Mateus tenham sido escritos depois de Marcos, provavelmente após a queda de Jerusa­ lém, em 70 d.C., e que João tenha sido escrito um pouco mais tarde. Isto não pode ser demonstrado, mas essas datas aproximadas satisfazem melhor às evi­ dências e iluminam o estudo. O reconhecimento de fontes por Lucas (1:1-4) e o uso quase certo que Mateus fez delas indicam que estes dois Evange­ lhos pertencem aos cristãos da segunda geração. Ajdeclaração feita por^ a p ia s^de que (Mateus/ compilara os j)rá c ^ õ s"em hebraiçai e que cada pessoa os traduzira como fora capaz, indica que no começo do segundo século deveria haver várias_^ versões gregas.do que Papias mencionou, cõmo a coleção de oráculos feita por Mateus, bem como de profecias do Velho Testamento e textos de prova, possivel­ mente. Se o autor do Evangelho de M a­ teus usou esses oráculos ou versos do Velho Testamento, isto iria explicar co­ mo o nome de Mateus veio a ser associa­ do com este Evangelho. É impossível^ fixar uma^ data entre 70 d.C. e 90 d.C., pois não existe nenhum evento notável, pelo qual possamos ser guiados, nas décadas de 70 ou de 80 11 R. M. G ran t, A Historical Introduction to the New Testament(NewYork: H a rp e r& R o w , 1963), p. 107.

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algumas vezes chamados de “período do túnel” . O Jugar em ^ u e Mateus^ foi escrito é desconhecido e hngossíveljie se determi-. nar. O autor escreveu para uma comuni-1 dade que falavã"gre^, e parecia sentir-se | à vontade êm üm lugar em que se falasse | grego. A Palestina, especialmente a Gali'léia, não deve ser excluída. Visto que a testemunha certa mais antiga de M a­ teus é Inácio (Smyrna, 1:1), Antioquia, ou algum outro lugar da Síria, é o lugar mais provável de origem, embora a Fenícia (Kilpatrick) e Cesaréia (Stendahl) tenham sido adequadamente propostas. CsAv^rooí

VIII. Fontes Mateus não faz nenhuma referência explícita a fontes, mas as evidências são tão fortes de que ele as empregou, que o peso da prova cai sobre a opinião contrá­ ria. O emprego de fontes, escritas e/ou orais, não questiona à TnspTrã^õ divina. qu a corifiabUidade do Evangelho de Mateus^ Ã memória, interpretação e fé de uma comunidade sustentam os Evan­ gelhos, e não apenas quatro homens. O Espírito de Deus poderia ter operado através dessa comunidade, tanto quanto através de um escritor individual. Embora seja contestado por alguns estudiosos, parece que Mateus fez jle Marcos a sua fonte básica de narrativa. A FTuas, únka^^om ss^ de qualquer extensão de palavras de Marcos são: a cura de um endemoninhado (1:23-28), a pregação nas sinagogas da Galiléia (1:3539), a parábola da semente que cresceu sozinha (4:26-29), a cura de um surdo (7:32-37), a cura de um cego (8:22-26), um exorcismo (9:38-40) e uma viúva e suas esmolas (12:41-44) Embora M ^ teus tenha usado muito da organização de Marcos, ele transferiu livrernente o 12 W . C. Allen p. xiii. Veja ainda p. xiii-ixii, onde se acha um estudo exaustivo do uso feito por M ateus de fo n t« diversas. P ara a rejeição d a opinião de que M ateus dependeu de M arcos, veja W . R. F arm er, The Synoptic Problem (New York: M acm illan, 1964).


material de Marcos para a sua narrativa, fórmula introdutória, geralmente se­ guem a LXXj^ com algurnas exceções dá forma como este atendia aos seus objetivos, com abreviações, reformula­ seguindo o texto hebraico (11:29; 16:27 e ções, mudanças estilísticas e o entreteciss.; 27:43). As citações-fórmula ficam mais perto do hebraico, com alguma mento de novos materiais. Mateus usou tanto material estranho a ^ influência da LXX (cf. Kümmel, p. 78 e s., para detalhes). Que o autor se apro-'" / Marcos quanto material de Marcos. Cerveitou de uma coleção de citações do \ c a de cinco nonos desse material estraVelho Testamento ou enunciações profé­ ( nho a Marcos, comumente chamado Q, é ticas que eram usadas na pregação mis­ (tombém eiKontrâdo em Lucas. 0 ~ ^ fesionária é coisa bem provável. Elas _pó' rial peculiar a Mateus é geralmente de"drãm a logia mencionada por^apiasT^ ' signado como M. da mesma forma como o peculiar a Lucas é chamado L. É O Evangél^rpropriam ente dito não foT ^ escrito em hebraicp^(ou~em ararimico), altamente precário dizer-se que Q é uma em grego, como está claroT^vido ao fonte (cf. A. M. Farrer, “On Dispersing uso que ele faz de fontes gregas. Umai with Q” , Studies in the Gospels, ed. por dessas fontes podia ser uma coleção grê ^ n b . E. Nineham; Oxford, 1957; p. 55-86). ^a de passagens veterotestamentálrias, i Tudo que é realmente certo é que ele pnmeiramente escolhidas em hebraico representa um bloco de material comum (possivelmente por Mateus) e depois traa Mateus e Lucas, e nâo encontrado em duzidas para o grego por várias pessoas, i J4arcos. Por detrás dele podem estar fontes escritas e orais. O mesmo se aplica Por detrás dos quatro Evangelhos e a M e L. Extensas concordâncias entre suas fontes escritas, certamente deve ter Mateus e Lucas sugerem que Q represenhavido fontes orais. As palavras ditas por ta pelo menos algum material escrÍto, Jesus foram repetidas durante a sua vida mas não é provável que representa uma^ e depois de sua morte. Da mesma forma, fonte escrfte a p e n ^ . De toda a celeuma as coisas que ele fez devem ter sido ,"Acerca de 0 . M e L, tudo o que, na descritas pelas pessoas que as haviam . verdade, se confiece è que tanto Mateus testemunhado. É inconcebível que as como Lucas contêm quase todo o matepessoas que haviam visto e ouvido Jesus I rial de Marcos, e, além disso, têm alguns não tivessem discutido essas coisas entre materiais estranhos a Marcos em cosi e as relatado a outros. Para dizer * mum, e outros que não são comuns a pouco, Jesus era, em todos os respeitos, ; ambos (R. M. Grant, p. 117). uma pessoa incomum, altamente imagi­ *— Uma das características maisjiotáveis nativa, ousada, não-convencional, con­ do È vãn^lH õ^ o uso extensivo que ele trovertida, encantadora para alguns e faz de citações (mais de 60) do Velho uma ameaça para outros. Ele suscitavaj Testamento(yejaFrC. Grant, p. 307-11). os mais fortes sentimentos^nas pessoas,f Entre elas estão onze “citações-fórmula” , tãnfo de simpatm como de hostilidadei isto é, introduzidas com uma declaração Em sum^, ele foi crucificado por alguns é como “p ara^ue se cumprisse g que fora adorado por outros. Como poderia„hadito da parte do Senhor pelo profeta” ver, alçim a vez, u m ^ m õ ^ o ^ è sUênçio a (1:22 e s., 2:6, 15, 17 e s., 23; 4:14-16; , respeito dele?^ " 8:17; 12:17-21; 13:35; 21:4 e s.; 27:9 e ' Além áisso, os registros indicam que s-)- As citações que Mateus tem em (Jesus não apenas chamou homens para comum com Marcos e Lucas ^ o j i r a d ^ segui-lo, mas também os ensine^ e j:o-^ em grego das suas fontes,” e algumas , rifissionou a pregar e ensinar. Ter resul-<^ vezes são^sim iladas à LXX. ^tado deste fato uma tradição (II Tess. A ^ ^ ta ç õ ^ ' encohtradas tão-somente (2:15; 3:6) das palavras e atos de Jesus < em Mateus, e que não apresentam uma i.não é surpreendente. Essa tradição ter^ 105


começado aJo íM iJp n n a antes da morte de Jesus é altamente provável. Depois da sua morte e ressurreição, seria consentâ­ neo com tudo o que sabemos acerca dos seres humanos o fato de seus seguidores terem começado a compartilhar essas memórias uns com os outros. Quando os| 1novos convertidos comecaram a ser agre-; ■gados e ensinados, devem ter sido ins-! Itruídos nas coisas feitas e faladas por Jesus. Mais do que qualque_r outra coisa, a ressurreição de Jesus transformou os segindÕ resT ^ésus, e o tornou o centro sem rival das suãs palestras e do seu ? interesse. O s^ parecimentos de Jesus de­ pois da sua ressurreição excitaram as esperanças deles da sua futura volta, mas o ^ u interesse em um Senhor que volta­ ria nunca se divorciou da sua recordação ^de um Mestre terreno. A seleção e moi- > ' dagem da tradição acerca de Jesus foi 2; ’ grandemente determinada pelas necessi-^ dades da comunidade. Isto não deve excluir o fato de que algumas coisas foram lembradas e repetida^s, porque não podiam ser esquecidas ou negligenciadas (cf. At. 4:20). A memória, as impressões duradouras, as esperanças e os temores, e principalmente a perda e recuperaçãd| do seu Mestre e Senhor, tornaram c silêncio impossível. Mas, além disso, ha­ via as necessidades diárias de evaneelismo, instrução e disciplina. Ós primitivos cristãos recordavam, in­ terpretavam, usavam e, dessa forma, de­ ram forma aos materiais, que por fim se canalizaram nos quatro Evangelhos. Desse modo, os Evangelhos foram fontes para a vida da igreja primitiva, tanto quanto eram das obras e ensinos de Jesus.

Esboço do Evangelho I. O Nascimento de Jesus e Começo do Seu Ministério (1:1 — 4:25) 1. A Genealogia de Jesus Cristo (1:1-17) 106

2. O Nascimento de Jesus Cristo (1:18-25) 3. Rejeição na Terra Natal, Re­ cepção no Estrangeiro (2:1-23) 1) Os Magos do Oriente (2:112)

2) A Fuga para o Egito (2:1315) 3) As Crianças Mortas em Be­ lém (2:16-18) 4) Do Egito para Nazaré (2:1923) 4. O Ministério Inaugurado (3:1 4:25) 1) A Mensagem do Batista (3:1-12) 2) O Batismo de Jesus (3:13-17) 3) A Tentação de Jesus (4:111)

4) Retirada Para a Galiléia (4:12-17) 5) Quatro Pescadores Chama­ dos (4:18-22) 6) Um Ministério T ríplice (4:23-25) II. O Sermão da Montanha (5:1 — 7:29) 1. Introdução (5:1,2) 2. As Beatitudes (5:3-12) 3. Sal, Luz e uma Cidade Situa­ da Sobre um Monte (5:13-16) 4. Jesus e a ^ i (5:17-20) 5. As Intenções da (5:21-48) 1) A Essência do Homicídio (5:21-26) 2) Concupiscência e Adulté­ rio (5:27-30) 3) Os Danos do Divórcio (5: 31, 32) 4) Ensino Acerca de Juramen­ tos (5:33-37) 5) Vencendo o Mal com o Bem (5:38-42) 6) Amor Pelos Inimigos (5:4348) 6. Motivos na Vida Religiosa (6: 1-18)


1) Esmolas (6:1-4) 2) Oração (6:5-15) 3) Jejum (6:16-18) 7. Liberdade da Tirania das Coi­ sas Materiais (6:19-34) 8. O Julgamento dos Outros (7: 1- 6)

1) O Argueiro e a Trave (7:15) 2) Pérolas aos Porcos (7:6) 9. Pedi, Buscai, Batei (7:7-12) 10. Perigos no Caminho da Justi­ ça (7:13-27) 1) Os Dois Caminhos (7:13, 14) 2) Uma Ãn'ore Conhecida' por Seus Frutos (7:15-20) 3) Dizer sem Fazer (7:21-23) 4) Ouvir e Fazer (7:24-27) 11. Sumário (7:28,29) III. A Autoridade de Jesus em Pala­ vras e em Obras (8:1 — 9:34) 1. Um Leproso Purificado (8:1-4) 2. A Cura do Servo de um Centu­ rião (8:5-13) 3. Os Enfermos Curados (8:14-17) 4. O Custo do Discipulado (8:1822)

5. Uma Tempestade Acalmada (8:23-27) 6. Endemoninhados Loucos Cu­ rados (8:28-34) 7. Cura e Perdão (9:1-8) 8. A Chamada de Mateus (9:913) 9. Odres Novos Para Vinho Novo (9:14-17) 10. Uma Mulher Curada e uma Menina Ressuscitada (9:1826) 11. Dois Cegos Recebem a Vista (9:27-31) 12. Os Fariseus Protestam Contra uma Cura (9:32-34)

IV. A Compaixão de Jesus e a Comis­ são dos Doze (9:35 — 11:1) 1. A Compaixão de Jesus Pelas Multidões (9:35-38) 2. A Missão dos Doze (10:1-4) 3. Os Doze Comissionados (10:515) ,4. A Perseguição Vindoura: Se­ nhor e Discípulo (10:16-42) 1) Ovelhas no Meio de Lobos (10:16-25) 2) A Quem Temer (10:26-33) 3) Não Paz, Mas Espada (10:3439) 4) Recompensas (10:40-42) 5. Sumário (11:1) V. Várias Reações Para com Jesus (11:2-30) 1. Incerteza e Confusão (11:2-6) 2. Distorção e Violência (11:715) 3. Desprazer Infantil (11:16-19) 4. Rejeição Voluntária (11:2024) 5. Confiança Infantil (11:25-30) VI. Crescente Oposição a Jesus (12:150) 1. Superior ao Sábado (12:1-14) 1) Colher Grãos no Sábado ( 12 : 1 - 8 )

2. 3. 4. 5. 6. 7.

2) Curar no Sábado (12:9-14) A Esperança das Nações (12: 15-21) O Pecado sem Perdão (12:2232) O Juízo Inescapável (12:3337) O Sinal de Jonas (12:38-42) A Volta do Espírito Imundo (12:43-45) A Verdadeira Família de Jesus (12:46-50) 107


VII. Parábolas do Reino (13:1-52) 1. Semeador e Solos (13:1-23) 1) A Parábola Dada (13:1-9) 2) O Objetivo das Parábolas (13:10-17) 3) A Parábola Explicada (13: 18-23) 2. Joio no Meio do Trigo (13:2430) 3. Semente de Mostarda e Fer­ mento (13:31-33) 4 .O Uso das Parábolas (13:3435) 5. Parábola do Joio Explicada (13:36-43) 6. Tesouro Escondido e Pérola Cara (13:44-46) 7. Rede e Separação dos Peixes (13:47-50) 8. Tesouros Velho e Novo (13:51, 52) VIII. Rejeitado na Terra Natal, Mas Po­ pular com as Multidões (13:53 — 14:36) 1. Rejeição em Nazaré (13:53-58) 2. A Morte de João Batista (14:112 )

3. Os Cinco Mil Alimentados (14:13-21) 4. Pedro Resgatado da Tempes­ tade (14:22-33) 5. Multidões Procuram Ser Cu­ radas (14:34-36) IX. Conflito com Fariseus, Escribas e Saduceus (15:1 — 16:12) 1. Jesus Desafia a Tradição (15: 1- 20 )

2. A Fé de uma Mulher Cana­ néia (15:21-28) 3. Multidões Curadas e Alimen­ tadas (15:29-39) 4. Os Discípulos Advertidos Quanto ao “Fermento” dos Fariseus e Saduceus (16:1-12) 108

X. Cristo, a Sua Igreja e a Sua Cruz (16:13 - 17:27) 1. Cristo e Sua Igreja (16:13-20) 2. Jesus Prediz Sua Morte e Res­ surreição (16:21-28) 3. Jesus Transfigurado: Revela­ ção e Preparação Para a Cruz (17:1-13) 4. Fé Para Remover Montes (17: 14-21) 5. Os Discípulos Novamente Ad­ vertidos (17:22,23) 6. Imposto do Templo Pago, Di­ reitos Abdicados (17:24-27) XI. Instruções Para a Igreja (18:1-35) 1. A Grandeza do Reino (18:114) 1) Humildade Infantil (18:14) 2) O Pecado de Fazer um Pe­ quenino Tropeçar (18:5-9) 3) Preocupação Para Que Ne­ nhum Pequenino Pereça (18:10-14) 2. Disciplina Eclesiástica: Corri­ gir e Recuperar (18:15-20) 3. Só Quem Perdoa É Capaz de Receber Perdão (18:21-35) XII. Casamento, (19:1-15)

Divórcio,

Celibato

1. Introdução (19:1,2) 2. Casamento: Sagrado e Indis­ solúvel, exceto Pela Morte (19:3-9) 3. Celibato e Suas Exigências (19:10-12) 4. O Acesso das Crianças a Cris­ to (19:13-15) XIII. Repreensões ao Egoísmo (19:16 — 20:34) 1. O Perigo das Riquezas (19:1630)


2. Trabalhadores nu Vinha: Os Primeiros por Ültimo, os Últi­ mos Primeiro (20:1-16) 3. Terceiro Aviso cie Morte e Ressurreição Iminentes (20: 17-19) 4. Os Discípulos One Procuram os Seus Próprios Interesses Desafiados a Ser\iços Sacrificiais (20:20-28) 5. Jesus Cura Dois Cegos Repre­ endidos pela Multidão (20:2934) XIV. Entrada Triunfal em Jerusalém (21:1 - 23:39) 1. A Entrada Triunfal (21:1-11) 2. A Purificação do Templo (21: 12-17) 3. Lições Tiradas de uma Figuei­ ra Infrutífera (21:18-22) 4. A Questão da Autoridade de Jesus (21:23 — 22:14) 1) Autoridade Desafiada (21: 23-27) 2) Dois Filhos: Autoridade Reconhecida em Obediên­ cia, e Não em Palavras (21: 28-32) 3) Os Lavradores Maus: Es­ magados Pela Autoridade Rejeitada (21:33-44) 4) Endurecimento dos Princi­ pais Sacerdotes e Fariseus (21:45,46) 5) Hóspedes Desafiadores e a Ira do Rei (22:1-14) 5. Esforços Abortados Para Lo­ grar Jesus (22:15-40) 1) O Pagamento de Impostos a César (22:15-22) 2) A Questão da Ressurreição (22:23-33) 3) O Grande Mandamento (22:34-40) 6. A Pergunta de Jesus: Filho ou Senhor de Davi? (22:41-46)

Os Mscribas c Far iseus líxpostos e D e n u n c i ad o s (23:13í.) 1) A d\ er l ên c i a s C o n t r a o Seu l i x e mpl o (23:1-12) 2) Sete Ais e o J u l g a m e n t o V i n d o u r o (23:13-36)

8. Jesus Chora Sobre Jerusalém (23:37-39) XV. Juízo: Imediato e Final (24:1 — 26:2) 1. Predita a Destruição do Tem­ plo (24:1.2) 2. Ais Antes do Fim da Era (24: 3-14) 3. Destino da Judéia e Advertên­ cia Contra Falsos Messias e Profetas (24:15-28) 4. A Vinda do Filho do Homem (24:29-31) 5. Lições Tiradas da Figueira (24:32-35) 6. Desconhecido o Tempo da Pa­ rousia (24:36-44) 7. Acerca de Ficar Preparado (24:45 — 25:13) 1) O Servo Fiel e o Infiel (24: 45-51) 2) As Dez Virgens (25:1-13) 8. A Parábola dos Talentos: Os Que os Têm e os Que os não Têm (25:14-30) 9. O Juízo Final: Servir a Cristo em Servir aos Outros (25:3146) 10. Predições Acerca da Traição (26:1,2) XVI. Prisão, Crucificação e Ressurrei­ ção de Jesus (26:3 — 28:20) 1. Even tos A ntecedentes (26:3 — 27:26) 1) A Conspiração (26:3-5) 2) Jesus Ungido em Betânia (26:6-13) 109


3) Jucias Negocia a Traição (2(i:14-l()) 4) A 1’ásfoa com os Discípu­ los (26:17-25) 5) Instituição da Ceia do Se­ nhor (26:20-29) 6) Jesus Adverte os Discípulos Quanto à Traição, e Pedro Protesta (26:30-35) 7) O Getsêmane (26:36-46) 8) Traição e Prisão (26:475t)) 9) Audiência Diante de Cai­ fás (26:57-68) 10) Pedro Nega Jesus (26:6975) 11) Julgamento Diante de Pi­ latos (27:1-26) 2. A Crucificação (27:27-56) 1) Jesus Escarnecido Pelos ■ Soldados (27:27-31) 2) Jesus Crucificado (27:3244) 3) A Morte de Jesus (27:4556) ’ 3. O Sepultamento de Jesus (27: 57-66) 1) O Sepultamento (27:5761) 2) A Guarda do Sepulcro 27:62-66) 4. A Ressurreição e os Apareci­ mentos de Jesus (28:1-20) 1) Aparece às Mulheres (28: 1- 10)

2) Falso Relatório dos Guardas(28:ll-15) 3) C om issionam ento dos Discipulos (28:16-20)

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Comentário Sobre o Texto I. o Nascimento de Jesus e Come­ ço do Seu Ministério (1:1 — 4:25) I. A Genealogia de Jesus Cristo (1:117) 1 L ivro cia gen ealogia de J e su s Cristo, filho de D avi, filho de Abraão. 'i A Abraão n asceu Isaque; a Isaque n a s­ ceu J a có ; a J a có n a scera m Judá e seu s irm ãos; 3 a Judá n a scera m , de T am ar, F arés e Zará; a F a rés n a sceu E srom ; a E srom n asceu A rão; 4 a Arão n a sceu Aminadabe; a A m inadabe n asceu N asom ; a N asom n asceu Salm om ; 5 a S alm om n a s­ ceu, de R aabe, Booz; a Booz n a sceu , de R ute, Obede; a Obede n a sceu J e ss é ; 6 e a J e ssé nasceu o rei D avi. A D avi n asceu Salom ão, da que fora m u ­ lher de U rias; 7 a Salom ão n a sceu R oboão; a Roboão n asceu A bias; a A bias n a sceu A safe; 8 a A safe n asceu J o sa fá ; a J o sa fá nasceu Jorão; a Jorão n a sceu Ozias; 9 a Ozias n a sceu J o a tã o ; a Joatão n a sceu A c a z ; a Acaz n asceu E zequias; 10 a E zeq u ias n asceu M a n a ssé s; a M a n a ssés n a sceu A m om ; a Am om n asceu J o sia s; 11 e a Josias n a scera m J econ ia s e seu s irm ãos, no tem po d a deportação p ara B abilônia. 12 D epois d a deportação p ara Babilônia n asceu a Jecon ias S alatiel; a S alatiel naszeu Z orobabel; 13 a Zorobabel n a sceu Abiúd e ; a Abiúde n asceu E lia q u im ; a E liaquim nasceu Azor; 14 a Azor n a sceu Sadoque; a

Sadoque n a sceu A quim ; a A quim n asceu E liúde; 15 a E liú d e n a sceu E lea za r; a E leazar n a sceu M atã; a M atã n a sceu Jacó; 16 e a J a có n a sceu J o sé, m arido de M aria, da qual n a sceu JE SU S, que se ch a m a Cristo. 17 D e sorte que tod as a s g era çõ es, desde Abraão a té D a v i, são catorze g era çõ es; e desde D a v i a té a deportação p ara B abilônia, catorze g era çõ es; e desde a deportação para B ab ilôn ia a té o Cristo, catorze g e r a ­ ções.

Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão estabelece o tema de todo o Evangelho, embora o seu laço mais ínti-^ mo seja com a genealogia que se segue. O "tema de Mateus é que Jesus é o Messias davídico, em quem as alianças com Abraão (Gên. 12:2 e s.; 18:18) e Davi (II Sam. 7:16) se cumprem (cf. Robinson, p. 2). O tema do cumprimento não é explí' cito no titulo, mas é desvendado no Evangelho e levado adiante nos versícu­ los finais do livro (28:18-20). Mateus começa com a herança e as esperanças de Israel, que se cumprem em Jesus Cristo, e encerra o seii Evangelho com uma visão mundial (Filson, p. 52). Filho de Abraão pode ter como antece­ dente tanto Jásus como Davi. Não há dificuldade verdadeira, pois ambos são filhos de Abra-io. 111


Livro da genealogia traduz uma pala­ vra que literalmente significa gênese. Provavelmente, Mateus segue delibera­ damente um padrão de Gênesis (2:4; 5:1, 6:9; 10:1; 11:10,27). Visto que 1:18 tem uma introdução ulterior, o nascimento (gênesis) de Jesus Cristo foi assim, é provável que 1:1 introduza formalmente apenas a genealogia (1:1-17), mas tem implicações com o Evangelho todo. Em Mateus, a ascendência davídica de Jesus é tanto afirmada (também em At. 2:30 e ss., 13:23; Rom. 1:3; II Tim. 2:8; Apoc. 22:16) como esclarecida (22:4143). Jesus é visto como aauele em quem as promessas de Davi são cumpridas. mas ele é mais do que apenasoutro Davi. Èle é Senhor de Davi (22:41-43)7 bem como seu filho. Mateus vê Jesus como Messias, mas não em um sentido políti­ co. o toque artístico de Mateus, tão apa­ rente através de todo o Evangelho, é claramente visto na genealogia. De acor­ do com a sua declaração sumária (1:17), os nomes se agrupam em três séries de catorze gerações: de Abraão a Davi, de Davi até a deportação para Babilônia, e da deportação para Babilônia até Jesus. O fato de Mateus chamar atenção espe­ cial para este ponto indica a importância do número 14, para ele.

(verdadeiro filha—de Davi^ -JUhfiu-idÊ' Abraão. O que é ganho nele será euarda,' do “até a consumação dos séculos” (28: ^ '20),__1"^ ^ A genealogi^pode propiciar um^ri^togramCTíaraFína de um acróstico, para UavTrCatorze pode ser uma referência codificada a Jesus como “Davi” . A ^ ^ ^ matria é uma prática antiga de atribuir unTlíumero a uma pessoa (cf. Apoc. 13:18), computado somando-se o valor numérico de cada letra do nome da pes­ soa. A primeira letra do alfabeto tinha o valor numérico de um, a segunda de dois, etc. O nome Davi, em hebraico, tinha o valor numérico de catorze (DVD = 4 + 6 + 4). Pode ser que Mateus tenha pretendido desta forma escrever “Davi” através de cada seção da genealo­ gia. Tanto Mateus como Lucas pesquisam a ascendência de Jesus através de José (pai legal), e não de Maria. A opinião de que Lucas traça a genealogia através de Maria, esposada por Annius de Viterbo (c. 1490), deve ser rejeitada. A principal diferença entre Mateus e Lugas.é que Qvlãteus^trãçã~á~~isceiidlncia através da linhagem real de Davi e Salomão, enquantoÇLuca?)a traça a t r a ^ de Davi e Natã. A genealogia de(Luca^se preocupa com a relação de Jesus com toda a raca humana. QVIateus)está mais preocupado / A preocupação dominante da genealo­ com a ascendência real, e com o cumpri­ gia é traçar os sucessos do povo de Deus mento da herança e das e s p e r ã n ^ de desde as grandes expectativas em Abraão Israel. Os catorze clararnente pertencem ao até o aparente cumprimento em Davi (v. 2-6), depois o declínio de Davi até o exílio projeto literário de Mateus, e não devem ser considerados como um algarismo babilónico (v. 7-11), onde tudo parecia estar perdido, e finalmente do desespero exato para as gerações que pertencem a do exílio babilónico ao verdadeiro alvo cada período (cf. Broadus, p. 4 e ss.). Os em Jesus Cristo (v. 12-16). O que fora( nomes, na verdade, nâo somam catorze prometido a Abraão foi aparentemente gerações em cada período. Mateus apre­ cumprido em Davi, o Rei, sob a direção senta ^ e n a s viníe-e-sete^nomes depois de de quem os israelitas atingiram ^ a ú e Davi, enquanto Lucas apresenta quarenlhes parecia ser a era de ouro, mas o aue. ta e dois. Na consideração semítica, “fifoi ganho em Davi foi miseravelmente Uio de” podia designar uma linhagem de perdido no exílio. O verdadeiro cumiuá- ascendência tanto quanto parentesco mento do que fora prometido a Abraão e. próximo. Evidência ulterior de que cator­ a Davi encontra-se em Jesus Cristo, o ze não deve ser entendido literalmente é

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112


que há omissões aparentemente entre Salmom e Davi (v. 5), e claramente entre Jorão e Ozias (Acazias, Joás e Amazias não aparecem), e Jeoaquim é omitido no v. 11 (cf. II Reis 8:24; 23:34; 24:6; I Crôn. 3:11; II Crôn. 22:1,11; 24:27). Estas omissões tornam claro que pai de (e, em Lucas, “filho de”) devem ser considerados “não literalmente, mas co­ mo denotando paternidade de ascendên­ cia em geral” {Broadus, p. 6). Mateus deliberadamente procurou apresentar si­ metria no estilo literário da genealogia, e os catorze parecem ter valor simbólico. O estudioso pode seguramente seguir Broa­ dus em rejeitar várias tentativas para harmonizar as duas genealogias, e tam­ bém os esforços para fazer a credibilida­ de de Mateus depender de uma análise científica das genealogias (p. 5 e ss.). O seu objetivo é relacionar Jesus a Davi e a Abraão, e não apresentar um catálogo ^nealógico completo e literal. Notável é a inclusão de quatro mulhe­ res (Tamar, Raabe, Rute e a esposa de Urias). Costumeiramente, as genealogias judaicas mencionam apenas os nomes dos homens. Mateus não apenas passou por cima de mulheres como Sara, mas incluiu mulheres que se haviam envolvi­ do em atos vergonhosos, ou que eram estranhas ao povo de Israel. A viúva Tamar, fazendo o papel de prostituta, kvou fraudulentamente o seu sogro Judá a assumir a paternidade dos seus filhos gêmeos Farés e Zará (cf. Gên. 38:3-30). Raabe era uma meretriz de Jerieó que deu assistência aos invasores israelitas (Jos. 2:1-7; 6:22-25). Rute era uma moabita, e, portanto, não de Israel. BateSeba não é nomeada, mas citada como esposa de Urias, através da qual Davi foi pai de Salomão. Pode ser que Mateus tenha querido contrastar Maria e essas quatro mulhe­ res, mas a natureza poética das narrati­ vas da genealogia e do nascimento dão a entender não tanto uma polêmica contra os judeus que difamavam Maria, quanto a confissão de fé da Igreja, pois raramen­

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te a polêmica cria poesia (veja Davies, p. 66). Por que Mateus apresentou essas mu­ lheres desta forma? Claro que de manei­ ra nenhuma foi para que isso refletisse adversamente sobre Jesus. Deve ter side para enfatizar a graça de Deus sobre os pecadores, os maltratados e os desafortu­ nados. Provavelmente, foi para mostrar que a salvação é um ato da graça de Deus, e não depende do mérito humano. A inclusão de Raabe, uma cananéia, e Rute, uma moabita, apoia o universalis­ mo de Mateus, e o retrato que ele pinta de Jesus como alguém que veio para reu­ nir todas as nações sob o seu discipulado (cf. 15:22; 28:19). Jesus era filho de Davi, filho de Abraão, mas também se relacio­ nava com toda a humanidade, e veio para criar uma nova família da fé que transcende os laços da carne (12:50). A observação de Mateus, de que Rute esta­ va na linhagem de Davi, o rei, e de Jesus, demonstra uma disposição em direção a todos os povos, em flagrante contraste com o fato de que os sacerdotes negavam acesso na “assembléia do Senhor” a um “bastardo... amorreu ou moabita” nem até a “ décima geração” (Deut. 23:2 e s.). A escolha que Mateus faz da palavra gênesis (geração nas traduções mais anti­ gas, e genealogia nas modernas) parece ser um reflexo deliberado do livro de Gênesis. Ele obviamente está preocupa­ do, antes de tudo, em demonstrar a iiliação humana (v. 1-17) e divina (1:18-25) de Jesus. Ele também estar interessado ~em mostrar um novo comeco (gênese), que procede de Jesus Cristo, é uma idéia excitante. Jesus é apresentado ao fim de uma longa linhagem de pessoas que “ge­ raram” outras. Alguém pode perguntar: “A quem gerou Jesus?” Será que a cria­ ção parou em Jesus? Jesus não gerou ninguém segundo a carne, mas nele a criação continua em um nível novo e mais elevado. Mateus não chama 13 Fritz K unkel, Creation Continues, A Psychological Interpretation of the First Gospei (New York: Scrib­ ners, 194‘7) p. 22, et passim.

113


Jesus de “último Adão” , como o faz Paulo (I Cor. 15:45), nem descreve a salvação como uma nova criação (II Cor. 5:17) ou como um “nascimento de no­ vo” , como 0 faz João (3:3). Na genealogia há idéias embrionárias para se ver em Jesus uma nova “gênese” , mas a origem de Jesus, humana e divina, é a primeira preocupação de Mateus. Pode estar im­ plícita a idéia adicional de que uma nova era e uma nova criação começaram com Jesus. Embora Mateus apresente Jesus como filho tanto de Abraão como de Davi, ele toma cuidado em indicar que Jesus é também Senhor de Davi (22:41-46) e que os verdadeiros filhos de Abraão partici­ pam da sua fé, e não apenas da sua carne (3:9; 8:11; cf. 12:46-50). Mateus pode estar considerando que cumprem-se em Jesus Cristo (1:1; 28:18-20) as promessas das alianças feitas com Abraão, de que nele todas as nações seriam abençoadas (Gên. 12:2 e s.; 18:18), e a Davi, de que lhe seria dado um reino eterno e justo (II Sam. 7:16). Em Jesus há tanto uma continuidade quanto uma descontinuidade com Israel. Jesus é o cumprimento das esperanças davídico-messiânicas de Israel, mas tam­ bém no Jesus nascido de uma virgem há o início de uma nova criação. De acordo com o texto aceito para a genealogia, como seguimos aqui, o versí­ culo 16 apoia a história do nascimento virginal de Jesus. Contudo, um manus­ crito importante do quarto século, o Sinaítico Siríaco, diz: “José, que estava noivo da virgem Maria, gerou Jesus, chamado Cristo.” Uma redação se­ melhante é encontrada, com variações, em alguns manuscritos gregos (Theta e Família, 13), à margem do Lectionário 547, em alguns velhos manuscritos lati­ nos (a, c, d, g 1, q, e possivelmente b, k) e em Ambrosiaster. Estas diferenças nos manuscritos levantam a questão das tra­ dições que podem estar por detrás de Mateus, porém que Mateus aceita o nas­ cimento virginal de Jesus é coisa fora de 114

questão. Os temores de José (1:19) e as declarações claras em 1:18,23, colocam a posição de Mateus fora de qualquer dú­ vida. 2. O Nascimento de Jesus Cristo (1:18-25) 18 Ora, o n a scim en to de J esu s Cristo foi a ssim : E stan d o M aria, su a m ã e, desp osad a com J o sé, a n tes de se a ju n ta rem , e la se achou ter concebido do E spírito Santo. 19 E com o J o sé , seu esp oso, er a ju sto, e não a queria in fa m a r, intentou d eixá-la se c r e ta ­ m en te. 20 E , projetando e le isso , eis que em sonho lh e a p a receu u m anjo do Senhor, dizendo: J o sé, filho de D a v i, não tem a s receb er a M aria, tua m ulher, p ois o que nela se pernil é dn Tlspírito S an to; 21 ela d ará à luz u m filho, a q u e m ~ ch a m a rá s JE SU S; porque ele sa lv a rá o seu povo dos seu s p e ­ cados. 22 Ora, tudo isso acon teceu para que se cu m p risse o que fo ra dito da p a rte do Senhor pelo p ro feta : 23 E is que a v irg em con ceb erá e dará à luz umfilhõ^ o qual se r á cham ado EM AN UEL, que traduzido é : D eu s con osco. 24 E J o sé, tendo d espertado do sono, fez com o o anjo do Senhor lhe ordenara, e receb eu su a m ulher; 23 e não a conheceu enquanto e la não deu à luz um filho; e pôs-lhe o nom e de JE SU S.

A mesma palavra grega (genesis) é usada para a genealogia (1:1) e para o nascimento (1:18) de Jesus Cristo. Nos v. 1-17 apresenta-se o livro da genealogia; em 1:18-25 apresenta-se a história do nascimento, com interesse especml na origem divina de Jesus: nascido da vir­ gem Maria e gerado pelo Espírito Santo. Com esta ênfase primária na origem divi­ na, há uma segunda maior preocupação de Mateus. Tudo o que teve lugar em Jesus Cristo foi como cumprimento da profecia, como ela é encontrada nas Esc r i t u r ã ^ . 22). Jesus Cristo é Emanuel, Deus conosco (v.23); e o nome(^Jesüs~^ indica o seu propósito em vir para nos salvar de nossos pecados (v. 21). • , Mateus e Lucas (1:26-38) apresentam semelhantemente a história do nascimen­ to virginal de Jesus. Nt.nhum deles pari^ ce depender do outro, o que indica que a história é mais antiga do que o Evangelho.


Cada um deles conta a história com um interesse teológico. A preocupação de Lucas parece ser enfatizar o poder e a graça divinos. A pergunta de Maria, de como ela poderia ter um filho, visto que nâo tinha marido, a resposta foi: .llÇara Deus nada será impossívd“ (Luc. 1:37). MãnaTporsTmesma, nâòpodia produzir um filho, mas Deus podia dar-lhe um. Este é o evangelho; o homem não conse­ gue produzir a sua salvação, mas Deus ) pode realizá-la. Em Mateus, a ênfase está na origem divina de Jesus: o que nela se gerou é do Espirito Santo. Isto é duplamente enfati­ zado pelo nome Emanuel, o hebraico para Deus conosco. Da mesma forma como a genealofiia determina a origem humana de Jesus através de Maria até Davi e Abraão, a narrativa do nascimen­ to determina a síia origem divina através de Maria até o Espírito Santo. M ateus' não tenta explicar como Jesus Cristo podia ser tanto homem como Deus; ele simplesmente o afirma. Não há disposi­ ção para distinguir i^duasnaturezas” dentro de Jesus. Mateussirnplesmente o conhece como nascido de Maria (1:16) e *concebido pelo Espírito Santo (1:20). Ele"' conhece Jesus como verdadeiro homem, e hão aparente (docético). Ele também o conhece como EmanuenTJius conosco. Ô nome Emanuel não reaparece em Ma­ teus, mas o equivalente aparece no últi­ mo versículo do Evangelho: “e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consu­ mação dos séculos” (28:20). Embora di­ versos em antecedentes e em natureza, como são o Emanuel de Mateus e o Logos de Joâo, ambos fazem as mesmas reivin­ dicações básicas, dc que o próprio Deus está de maneira, neculiar pre^senje e^m Jesus Cristo. Desta forma José é introduzido na his­ tória como que a reforçar essa reivindi­ cação de que Jesus não teve pai humano. Quando ficou sabendo da gravidez de Maria, concluiu uue ela lhe fora infiel. sabendo que o filho nâo era dele. José resolveu divorciar-se de Maria, e fazê-lo

em particular. A palavra dikaios pode significar iusto ou reto. Se o mencionado ãnteríõrmênte é a intenção, deve-se en­ tender que José queria tratar Maria de maneira justa. Provavelmente, isso signi­ fica que ele era jústo, e, no seu entendi­ mento de justiça, não podia pensar em continuaF um relacionamento com al­ guém de quem se pensava que era adúlte­ ra. A coniuncão pode ser traduzida como “e” ou “ mas” . “Sendo justo” e ou mas “nâo querendo infamá-la” provavelmen­ te se referem a duas coisas diferentes. Ele queria agir com retidão, o que para ele significava que precisava divorciar-se dela; ele não tinha nenhuLm_deseio-d£_sjLiiei^ tá-la a qualquer vergonha ou perigo des­ necessário. Uma adúltera podia ser ape­ drejada até a morte (Lev. 20:10; Deut. 22:23 e s.). Divórcio privado era uma provisão da lei judaica. „ ' ^ Q noivado era um arranjo legal, sendo os noivos chamados marido e mulher (Deut. 22:24), e podia ser dissolvido ape­ nas Por divórcio. José e Maria legalmente eram marido e mulher, mas não haviam consumado o casamento através da rela­ ção sexual. Só a certeza de que o filho de Maria fora gerado pelo Espírito Santo pre­ dispôs José a reter Maria como sua espo­ sa. José não a conheceu enquanto Maria não deu à luz um filho. ^Q gn^cer]’ é um termo bíblico freqüentemente usado para designar a relação sexual^ Mateus clara­ mente afirma que(José,e(Maria\nâo tive­ ram relações sexuais antes do nascimento dê Jesus. Não há nenhuma sugestão de que eles observaram essa abstinência de­ pois do nascimento de Jesus. P jJ o g m ^ a \jrâindade perpétua de Mari¥ T ^ósbíFfico, e não pertence à discussáo aqui. Embora Mateus apresente Jesus como tendo nascido de virgem, a ênfase é sobre o fato de qúe ele foi concebido' pelo Espírito Santo. Ele não faz a divindade de Jesus depender do fato de aue ele era filho de Maria, mas, sim, do Espírito Santo. Depois de Mateus e Lucas, a referencia seguinte pesquisável está em 115


(^ á c ic O d e Antioquia (c. 117) e a sua preocupação foi refutar as opiniões docéticas ou gnósticas, enfatizando a realida­ deJium ana e carnal db nasciínento de

po^a (Joel 1:8); mas aqui ela traduz a palavra hebraica almah, normalmente traduzida em grego por neanis (donze­ la).'^ Parthenos geralmente designa uma virgem, embora seja ocasionalmente Ó nascimento virginal não tem a pre; usada em relação à mulher nào virgem tensão dè ê ^ lic a r o fato de Jesus não ter (Gên 34:3 e s.). O fato de que o texto tido_peçado. Significativamente^é preci­ hebraico de Isaías 7:14 nào vá além de samente em (Mateus; e emJLucas'« onde designar uma mulher jovem (almah se aparece a hisforíà’ do nascimento virgi­ refere a uma mulher jovem de idade ca­ nal, que a atenção mais direta é dedicada sadoura,''qiTèrcãYada^~qüér não), nem às tentações de Jesus. Os dois versículos afirma nem exclui a idéia ulterior de que de^Tãfcos acerca das tentações de Jesiis a mulher era uma virgem, tanto quanto a no deserto (1:12,13) são consideravel­ declaração de Paulo de que Jesus era mente expandidos por Mateus (4:1-11) e “ nascido de mulher” (Gál. 4:4). A inten- \ por Lucas (4:1-13). Ambos representam"^ ção de Mateus de afirmar o nascimento t Hesus como tendo sido severamente tentavirginal de Jesus deve ser descoberta na » i do, e ambos atribuem à sua própria | história por ele narrada, e nào nas ambi­ ;decisão a sua completa vitória sobre a güidades das palavras hebraicas ou gre­ jtentação. Eles creditam a Jesus, e não a gas. Maria, a vitória sobre o pecado. É indefensável a idéia de que Isaías “—idéias posteriores, de que o pecado é ^ 7:14 é a origem da crença no nascimento transnútido pelo progenitor mãsõIM o eÇ virginal de Jesus (McNeile, p. 10). A aiÿ^és do sexo, são estranhas à intenção3> história contada por Lucas não faz refede Máteus e contradizem o ponto de vista rência a Isaías 7:14, e o Evangelho de bíblico acerca da criação, do sexo e do, Lucas é independente, se não mais antigo pecado, p pecado pertence á escolha do que o de Mateus. A história do nasci-1 pessoal, rnõrãl,'ê não à biologia._ Nernja mento virginal é mais antiga do que pecado nern a salvagão são transmitidos ambos os Evangelhos. Mateus apela para í?^°.SÍeamepte. As idéias gnósticas que j Isaías para apoiar uma história em que já interpretaramò nascimento virginalcomo ,i {cria. a maneira de Deus vencer a naturezas O nome Jesus,é significativo para Mapecaminosa, e especulações acerca da i teüsT vr 21 e 25). É o correspondente ‘limaculada concepção” (ou conceição) e i grego do hebraico Joshuae significa “ Yah“virgindade perpétua” de Maria são pro-: w d ij salvação” . Com alguma modifica­ cedente^ de‘êscrTtõr^õ segun3õ^éculo, ? ção, Mateus considera o nome como sugecomo o Protoevangelho dc Tiago, que é | rindo libertação ou salvação provinda de apócrifOj_s nào ao Novo Testamento. O YafiweTiV Jésus CrisTò'"veio para salvar os'^^ 1_J ^ M v-v ^ d^esus_tóo ter tido ujn pai humano ^ homens àos seus pecados. Pode haver a pertei^e^2a_e^-<?PÍha_ divina, e não aos id«a_corretiva à noção zelote de que o pfõFlemas gnósticos acerca de sexo. Messias Davídico iria salvar Israel do O versículo 23 segue á tradução da jugo romano. Mateus pode ter tido a LXX de Isaías 7:14. Parthenos é o termo preocupação adicional de rejeitar e resis­ grego que geralmente traduz o hebraico tiria alguma ameaça hj^ertmirou antinobethulah, que geralmente significa yirmiana dentro dã cgmunidadé~cristã, que gem, mas que pode significar jcwem es14 Hans Von Cam penhausen. The Virgin Birth in the Theology of the Ancient Church, “ Studies in Historical Theology, n® 2'* (Naperville: Allenson, 1964), p. 30.

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15 B roadus(p. 13) escreve: ” 0 substantivo hebraico signi­ fica ‘donzela’." E continua: “ Nào foi encontrado nenhum caso em que ele (almah) precisasse significar mulher casada.”


podia estar apresentando a salvação co­ mo uma dádiva sem exigências, como contrapartida. Para Mateus, a salvação tanto é dádiva como exigência. A salva­ ção é dos pecados tanto quanto Hõ pèca-' do. 3. Rejeição na Terra Natal, Recepção no Estrangeiro (2; 1-23) Vários dos interesses de Mateus são servidos neste capítulo: a prefiguração da rejeição final de Jesus na terra natal e aceitação pelos gentios, o cumprimento das expectativas veterotestamentárias, a linhagem davídica de Jesus, a identida­ de de Jesus como Rei dos Judeus, e ao mesmo tempo como pastor-rei do povo de Deus. e a perseguição que ele e seu povo haveriam de sofrer. 1) Os Magos do Oriente (2:1-12) 1 Tendo, pois, nascido J esu s em B elém da Judéia, no tem po do rei H erodes, eis que vieram do oriente a Jeru sa lém uns m agos que p ergu n tavam : 2 Onde està aquele que ^ nasfid o rei dos Judeu s?~poTs~ao~^5riinte^ vim o ^ a su a _ estreia e v ie m ^ _ a d o r á ^ . .3 O rei(H erodes^ouvindo isso , perturbòu-s^, e com ^ e todã~a J eru sa lém ; 4 e , reunindo todos os principais sacerd otes e os escrib as do povo, perguntava-llie^ onHe ha v ia de nasc^T o Crigto. 5 R estw nderam -lhe eles: È m T B e lé ^ da~' JudéiaT? pois a ssim está escrito pelo profetãl 6 E tu,(Belém ^terra de Judá, de m odo nlenhum é s a m enor entre as principais cidad es de Ju aa; ^ ' pofque de ti sairá o Giim que há de ap ascen ta r o m eu povo de Israel ___ 7 EntáoítT ero d e^ ham ou secretam en te os m agos, e d eles inquiriu com p recisão a cerca . do tem po em que a estrela ap arecera: 8 e, enviando-os a B elém , d isse-lh es: Ide, e perguntai diligentemeiTte pelo m enino; e, quando o achardes, participai-m o, para que tam bém eu vá e o adore. 9 Tendo e le s, pois, ouvido o rei, p a rtira m ; e eis que a estrela que tinham visto quando no oriente ia a d i-"* ante d eles, até que, chegando, se deteve sobre o lugar onde esta v a o m enino. 10 Ao verem e le s istõ", regozijaram -se com grande alegria. 11 E , entranto na ca sa , viram o m enino com M aria, su a m ã e, e prostrando-se, o adoraram ; e, abrindo os seus t e ­

souros, ofertaram -lhe dádivas: ouro, in ­ censo e m irra. 12 Ora, sendo por divina revelação av isa d o s em sonhos para nào voltarem a H erodes, reg ressa ra m à sua terra por outro cam inho.

A história da visita dos Magos do Oriente não pareceria estranha a leitores do primeiro século, e “ não viola nenhum cânon de probabilidade histórica” (Al­ len, p. 14). Em grande parte do mundo antigo havia a expectativa de um reden­ tor do mundo, e muitos judeus espe^vam um Messias (ou vários messias, coriTo em Qumran). Havia magos no Orien­ te, considerados de maneira variada co­ mo mágicos, astrólogos ou sábios. Ma­ teus pretendeu relatar” história, e não lenda. Isto não deve menosprezar a parte desempenhada pelo Velho Testamento, em moldar a forma da história, mas é arbitrário dizer que a história foi inven­ tada para suprir um cumprimento de textos do Velho Testamento. É mais pro­ vável que a história veio anteriormente, e que textos da Escritura foram então en­ contrados para sustentar e iluminar a história. Para Mateus, os Magos provavelmente possuíam um significado simbólico. embora histórico. O fato de eles têreni ido em busca de Jesus préfigura a vinda dè pessoas do !^lesísejio__oesj^’ (8:11), para se curvarem dîaiitê’^Ho^Rei dos Judeus. Como Paulo. Mateus crê que o Evangelho precisa ser pregado primeiro ao ludeu, e depois ao “ gre^o” (cf. 8:1012; 12:18-21; 15:24-28; 24:14; 28:19 com Rom. 1:16). Consentaneamente, o uni­ versalismo que é explícito nas últimas linhas de Mateus (28:18-20) percebe-se jpor^ferência desde o começo, quando J e s i^ é apresentado como Kei 'dos Judeus, aquele que deve apascentar (polmanei) o seu povo de Israel (v. 6), mas que recebe homenagens do Oriente. Belém da Judéia, sete quilômetros ao sul de Jerusalém, fora o lar de Rute e Davi, e lugar de sêpultarrienlo de itáT quel. Havia também uma Belém na Galiléia, sete milhas ao noroeste de Nazaré. Mateus e Lucas não demonstram de­ pendência nem conhecimento um do 117


outro. Eles seguem tradições diferentes, deus?” Herodes era rei por intriga. ma-‘\ não apresentando Mateus nada do relato nobras, indicação dos romanos e o uso de Lucas acerca de uma residência prévia constante da espada para eliminar rivais de José e Maria em Nazaré, e Lucas não Macabeus. ^ falando nada da narrativa feita por Ma­ Quando/Herode^icou perturbado, to­ teus acerca da fuga para o Egito, ou da a Jerusalem ficou. Isto é compreensí­ retirada da Judéia por causa de Arquevel. Quando o rei louco estava desassos-\ lau. Não obstante, ambos colocam Belém segado, nenhuma vida estava a salvo. como local de nascimento de Jesus. Isto Família, amigos e inimigos eram facil­ dá a entender duas tradições indepen­ mente vítimas do rei cruel e imprevisível. 1 dentes anteriores a Mateus e Lucas. Os principais sacerdotes e os escribas O rei Herodes era Herodes, o Grande, filho de Antípater, o idumeu. A ele foi pode referir-se ao Sinédrio judaico, a mais alta corte dos judeus, a uma reudado o título de “rei da Judéia” pelo niãoJofprm al de sacerdotes e escribas. Senado Romano, com o apoio de Antô_____________ nio e Otávio, em 40 a.C. Desta forma ele (^Herodes)reduziu a influência dessa corte [erode^rê____________ enquanto viveu, mas não a l^ o liu . Não é rompeu a dinastia Hasmoneana ou Maimprovável que~ÍIe a convocasse guando cabeana, que havia estado no governo /3esde cerca de 142 a.C. Quando o cãiètP lhe conviesse. Principais sacerdotes (arí dário cristão foi elaborado por Dionísio chiereis) pode ser traduzido como mos s^erdote&l!. Tradicionalmente, ha­ Exíguo, de Roma (século VI), ele errou em pelo menos qïïatro anos em relação via apenas um sumo sacerdote de cada vez, como herdeiro de Arão, e ele servia ' ao calendário romano mais antigo. O por um termo vitalício. Mas sob o domí­ , referido Herodes fez com que as crianças nio dos romanos, desde cerca de 63 a.C., de Belém, de até dois anos de idade, os sumos sacerdotes eram indicados e ; fossem mortas; este fato leva a crer que mudados à vontade. De acordo com Jose­ 5Jesus estava no seu segundo ano de idafo, houve 28 sumos sacerdotes de 40 a.C. I de, a essa altura. De acordo com esse ; cálculo, o nascimento de Jesus parece ter a 70 d.C., indicados ou pelos Herodes ou pelos romanos. Sumos sacerdotes oiT ocorrido não depois de 6 ou 5 a.C. O fato de Herodes ter matado os infan­ 'principais sacerdotes provavelmente sigmtica as poucas famílias aristocráticas tes de Belém concorda com todos os fatos das quais saíam os homens que preen^.j conhecidos de outra forma acerca desse chiam o ofício de sumo sacerdote. Os homem cruel. Ele executou a sua esposa favorita, a princesa macabeana Maria- i ^ cribas. no tempo de Jesus, eram especialmente fariseus, havendo alguns entre mneT^íT^seu cunhado sumo sacerdote; os essênios e saduceus. Os escribas fari­ vários de seus próprios filhos; e outras seus eram “leigos” , e não sacerdotes. pessoas que lhe eram próximas. Esse usurpador idumeu vivia temeroso de in-^ mas eram ordenados como intérpretes trigas ou assassinato, e desconfiavá da er reconhecidos da lei mosaica. temia principalmente a família Maca- í - As belas linhas do versículo_p a re c e m beana, com a qual se havia unjdo pelo^'".> vir de Miquéias 5:2, suplementado por II casamento. A interrogação dos Magos Sam ueí5:2. Belém era uma pequena acerca daquele que havia nascido rei dos* ' vila, mas não*sem importancIa~ern t ^ judeus seria suficiente para lançar o vemos de honra, pois era a terra natal de lho rei em outro acesso de suspeita, medo fflavi^^e, como se esperava, lugar de V e mveja. No texto de Mateus, “nascido” ongem do ^4eÍsIãs7)o Cristo. De grande'^ significado é o fato de que o prometido ÿ (ho techteis) não é um verbo, mas um particípio, tendo força de adjetivo. A Guia (hegoumenos) deveria apascentar o ^ seu povo Israel. Jesus^ja rei, mas não.,!^ pergunta feita pelos magos fora: “Onde e^á aquek que é nascido^ i d(^ ju^ segundo o padrão familiar. Ele era o rei 118


pastor (daí, apascentar, poimanei). Esse*^ suplemeiito é edição do próprio Mateus, ? e reflete o seu interesse particular em\S retratar(^OT^como o rei-pastor do povo ^ de DeusrTsrãel.^Um p^toV nâo^'^Îp^as^ ~gbvemaT'~eîë~^rotege e aBmenta. Mais tarde Mateus o pinta como o (21:5, 'citando Is. 62:11 Z,ac. Embora Mateus freqüentemente reflita a tensão entre o judaísmo farisaico e os ^ristâos, ele também preserva expressões ^ê"gfãnHe afeição por Israel^como nas palavras: “ guejiá_de_apasçentar^^ povo^&Jsiael” (v. 6). O tempo em que a estrela aparecera poderia ser traduzido “o tempo da estrela si^gente” , uma segunda maneira de ref5m -sê~r estrela do Oriente, literajmente, “a estrela no_seu levant^ ’\ ( í ^ l e r calculou que houve um a^ co n ju n çãÔ ^ ^ planetas J ú p i ^ e Çaturno^m maio, o ü ^ 'íubro e novembro 3ê”T‘a.C., e alguns eruditos |vêmluma alusão a esse fenôme­ no. Todavia, Mateus usa a palavra estre­ la (aster) e não constelação (astron). Provavelmente ele tinha em mente uma estrela peculiar, que marcou o nascimento, de Jesus. Mais importante para Mateus do que a estrela eram os magos (em inglês, “sá­ bios”) do oriente. A palavra magos é indo-eurpgéiai aparecendo a sua raiz em muitas línguas e tendo o sentido de grandiosidade. Os magos eram originalmente uma _ os medos, e — casta sacerdotal entre mais tarde recorihecidos como mestres de religião e ciência entre os medo-persas, com interesse especial em medicina e astrologia. Que eles eram gentios, é uinã dedíTçãõ^aceitável, devido à referência que fazem aos judeus. Oue eles eram ^^^,A um a dedução precária, decorrente da menção das ofertas de ouro, incenso e mirra. Três espécies de presentes podem ou não dar a idéia de três doadores. A lenda de aue eles eram reis Pode ter sido transmitida por inferência da passagem de Isaías 39:3. A arte medieval e os cânti­ cos de Natal popularizaram a noção de que eles eram reis, noção que contradiz

T

todos os quadros neotestamentários dos humildes começos de Jesus. Tem funda­ mento a observação defSSiiatterTide que todo o Evangelho teria sido diferente. fivesse ele começado com o fato de Deus mandar reis para homenagear Jesus. Nem as estruturas de poder da religião ’ nem as do mundo estavam do lado d e . Jesus. Só um rei (Herodes) é menciona­ do, e ^ le tentou matar Jesus. O s _ n o i^ ' _^__3ar')^Belqmo^ Baltazar são lehdánÕ jrQ ue^cTou^simboliza realeza, o incenso^(uma goma óciorifera) divindade?^ mirra (uma goma usada para perfume, especiaria, medicina, embalsamento) hu­ manidade, é também lendário, e não lan­ ça necessariamenteTüz sobre as intenções de Mateus. F-sses nresen|es. eram nor-""^ mais na época, especialmente para serem ^ r t | ^ a ^ i r e i ^ O fato de que os magos ; representam, para Mateus, o reconhe c i^ mento de Jesus por parte dos gentios êsfá’ ; de acordo com uma das suas maiores l preocupações. Mateus, interagindo corri" üm judaísmo que havia rejeitado Jesus, forçosamente deixa perceber que aceita

lhe tributaram contrasta com a inc^iferença e posterior h ^ ilid a ^ d o seu pró­ prio pm o. (^M ate^parece ver a estrela guiando os magos de Jerusalém a Belém, especifica­ mente ao lugar (v. 9) ou à casa (v. 11) onde Maria e o menino Jesus estavam. Justino M ártir, Origenes e Jerônimo pre­ servam a tradição de que Jesus n a s ç e ^ em uma caverna. Lucas, aludindo a noite em que J^e^s nàs’c era, especifica utna_ manjedoura (2:7.12). Mateus parece re­ ferir-se a um estágio posterior, quando Jesus era mais do que um recém-nascido, chãmãndo-o^e^eninò~(pãi3ion), pfovàvelmente com mais de um ano. Nesta breve passagem, o interesse cristológico de Mateus é enfático, quando ele apresenta Jesus como Rei dos Judeus, o 16 Adolf Schlatter, Das Evangelium nach (Stuttgart: Calwer, 1961), p. 15.

Matthäus

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Cristo, o Guia, e alguém a quem se presta homenagem (ou adoração). A ho­ menagem dos magos do Oriente aponta para Jesus, além do mais, como rei de todo o mundo, e não apenas de Israel. Embora ignorado por alguns e rejeitado ' por outros, ele é a alegria dos que, como os magos, o encontram (v. 1 0 ;^ :8 ) . ^ 2) A Fuga para o Egito (2:13-15) 13 E , havendo e le s se retirad o, e is que um anjo do Senhor a p a receu a J o sé e m sonho, dizendo: L evanta-té, tom a o m enino e su a m ã e, foge para o E g ito , e ali fic a a té que eu te fa le; porque H erodes h á de procurar o m enino, para o m a ta r. 14 L evantou-se, pois, tom ou de noite o m enino e su a m ã e , e partiu p ara o E gito, 15 e lá ficou a té a m orte de H erodes, p ara que se cu m p risse o que fora dito da p arte do Senhor pelo profeta: Do E gito ch am ei o m eu Filh o.

O Egito, no tempo de Jesus, era uma província romana, fora da autoridade de Herodes. Havia uma forte colônia judai­ ca no Egito, de cerca de um milhão de pessoas, segundo Filo; judeus egípcios falavam grego, e, por volta de 150 a.C., tinham o seu próprio templo em Leontópolis. Embora o Egito incluísse a penín­ sula sinaítica, e chegasse quase até Be­ lém, provavelmente Mateus tinha em mente o Egito do Nilo. Há indícios, fora de Mateus, da jorna­ da de Jesus ao Egito. O Rabi Eliézer ben Hircano (80-120 d.C.) sustentou que Je­ sus (Ben Stada) trouxe artes mágicas do Egito (Shabbath, 104b) e Origenes (Con­ tra Celsus, 1,38) teve que responder a uma tradição de que Jesus trabalhou no Egito como operário, ali aprendeu artes mágicas, e voltou para a Palestina, pro­ clamando ser um deus (cf. Justino, Apol., 1,30). Estas tradições, obviamen­ te prejudiciais, podem ter-se desenvolvi­ do do relato de Mateus, não tendo valor independente. Se são independentes, uma parte do objetivo de Mateus pode ter sido contraditar essas tradições adver­ sas, mostrando que Jesus era apenas uma criança pequena quando esteve no Egito, e não um homem crescido, capaz de 120

aprender mágica, e que ele fora levado para lá por motivos de proteção contra Herodes e trazido de volta sob divina proteção e orientação. Ê possível que a crença de que Jesus passou algum tempo no Egito seja mais antiga do que o emprego de Oséias 11:1 como texto de prova em apoio à história. Oséias havia se referido a Israel como “filho” de Deus, a quem ele chamou do Egito na época de Moisés. Mateus aplica isso a Jesus, Filho de Deus, em quem um novo povo estava para ser constituído (ou Israel reconstituído). O fato de o texto precisar ser, de alguma forma, forçado ou reinterpretado, a fim de se aplicar a Jesus, fortalece o ponto de vista de que a crença em uma jornada ao Egito seja mais antiga do que o emprego do texto. Um paralelo que ilustra o princípio operante da prova pode ser encontrado na aplicação rabíni­ ca posterior de Números 24:17 a Bar Cocheba, “filho da estrela” . Nenhum erudito sugere que a história de Bar Cocheba e a Segunda Guerra JudaicoRomana (132-135 d.C.) tenham sido inventadas para suprir um cumprimento para esse texto obscuro. Muitos dos “tex­ tos de prova” de Mateus parecem remo­ tos ou forçados na sua aplicação. Esse próprio fato argumenta em favor da prio­ ridade da crença no acontecimento sobre o emprego dos textos de prova. Os textos foram encontrados para explicar ou justi­ ficar crenças já existentes. Paralelos surpreendentes entre Jesus e Moisés aparecem neste parágrafo. Da mesma forma como Moisés fugira do Egito, para escapar a Faraó, e voltara quando o Faraó morreu (Êx. 4:19, Jesus foi tirado da Palestina, para escapar a Herodes, e voltou depois da morte deste. Da mesma forma como Deus havia cha­ mado a Israel do Egito, Jesus é chamado do Egito para salvar o seu povo. A des­ peito desses paralelos periféricos, não se segue que Mateus visse Jesus como um novo Moisés. Nas antíteses, as passagens “Eu, porém, vos digo” , no Sermão da


Montanha (5:21-48) e em outras passa­ gens, Mateus coloca Jesus acima de Moi­ sés, e não em seqüência, depois dele. Jesus veio não como um novo Moisés, mas como “Filho de Abraão, filho de Davi” , e também como o Filho de Deus, cujo paçel era cumprir a Lei e os Profe­ tas, e não outorgar outra lei. Novamente, aqui, os temas básicos são claros: rejeição de Jesus na terra natal, retirada forçada de entre o seu próprio povo, a direção de Deus em todos os pontos, a prefiguração da rejeição final e do sofrimento, a criação do povo de Deus, e o cumprimento, em Jesus, das expectações do Velho Testamento. Este parágrafo, como o conjunto dos capítulos 1 e 2, é programático, devido ao fato de apontar para um desenvolvimento du­ plo. Por um lado, estâo os humildes meios ambientes de Jesus, o seu nasci­ mento em uma vila pequena, a sua rejei­ ção e fuga, prefigurando a cruz. Por outro lado, está a mão de Deus, compe­ lindo homens de todas as espécies — bons e maus, amigos e hostis — a servir ao seu propósito último. 3) As Crianças Mortas em Belém (2:16-18) 16 E ntão H erodes, vendo que fora iludido pelos m a g o s, irou-se gran d em en te e m a n ­ dou m atar todos os m en in os de dois anos para baixo que h a v ia em B elém , e em todos os seus arred ores, segundo o tem po e m que com p recisão inquirira dos m a g o s. 17 C um ­ priu-se então o que fora dito p elo profeta J e r e m ia s: 18 E m R a m á se ouviu u m a voz. L am en tações e grande p ra n to : R aquel chorando os se u s filh os, E não querendo ser consolada, porque e le s já não ex istem .

O massacre de criancinhas é quase incrível, mas tem sido freqüentemente uma parte feia da vida de Herodes. Em 7 a.C., Herodes mandou m atar Alexandre e Aristóbulo, filhos que tivera com Mariamne, temendo que eles estivessem bus17 Franz Lau, Das Matthäus Evangelium (S tuttgart: O ncken, n .d .), p. 25.

cando apoderar-se do trono. Este ato atroz levou o Imperador Romano Augus­ to a dizer, fazendo um jogo de palavras em grego, que era melhor ser porco (hus) de Herodes do que filho (huios). Cinco dias antes de sua própria morte, Herodes mandou m atar o seu filho Antípater. Temendo que a sua própria morte fosse causar alegria no país, Herodes deixou a ordem (compreensivelmente, não obede­ cida) de que por ocasião de sua morte o filho mais velho de cada lar fosse assassi­ nado, esperando dessa forma fazer com que a nação chorasse, em vez de se regozijar. Mateus mudou a sua fórmula introdu­ tória nos versículos 16 e 17, empregando a conjunção “então” (tote), em vez de “Por­ que” (hina), possivelmente para evitar a implicação de que Deus desejara o massa­ cre dos infantes (cf. Plummer, p. 18). Esta narrativa, como as outras em Mateus 1-2, é contada de maneira muito simples, sem nenhum embelezamento novelístico. José é representado como ser­ vindo obedientemente às determinações divinas para o cuidado da criança e de sua mãe. O fato de que as diretivas vieram através de sonhos não é tão importante para Mateus como o fato de que elas vieram. O emprego que Mateus faz de Jeremias 31:15 é caracteristicamente livre em sua aplicação, evidência de que a história do infanticídio não foi inventada à parte desta passagem, mas que esse emprego foi feito para servir á história. Raquel, de acordo com a tradição, fora enterrada entre Jerusalém e Belém. Ramá distava cerca de doze quilômetros de Jerusalém, e a referência de Jeremias falava de Raquel chorando sobre os efraimitas que iam para o exílio babilónico. Raquel era a mãe de Benjamim e Efraim. Mateus aplica o versículo à tristeza existente em Belém, lugar próximo ao túmulo de Raquel. Teria sido necessária muita imaginação para inventar a história do infanticídio baseada em Jeremias31:15. O pensamen­ to cristão facilmente poderia ter adaptado 121


o versículo a uma crença já existente ou a um evento já conhecido (cf. Robinson p. 10). A pungente história aponta para o sofrimento inocente do Salvador e do seu povo. A ordem de Herodes para m atar todos os meninos de dois anos para baixo dá a entender que Jesus naquela época tinha mais de um ano, ou que o rei desnaturado fez a sua rede maior do que era necessá­ rio, não se importando nem um pouco com o número de crianças mortas, con­ quanto alcançasse a pretendida vítima. 4) Do Egito para Nazaré (2:19-23) 19 M as tendo m orrido H erodes, eis que um anjo do Senlior ap a receu em sonho a José no E gito, 20 dizendo: L evanta-te, tom a o m enino e sua m ã e e v a i p a ra a terra de Isra«!; porque já m orreram os que p ro­ cu ravam a m orte do m enino. 21 E ntão e le se levantou, tom ou o m enino e su a m ã e e foi para a terra de Isra el. 22 Ouvindo, porém , que A rquelau rein ava n a Ju d éia e m lu gar de seu p ai H erodes, tem eu ir p ara lá ; m a s avisado em sonho por d ivin a rev ela çã o , retirou-se para a s reg iõ e s da O aU léia, 2S e foi habitar num a cidade ch a m a d a N azaré; para que se cum p risse o que fora dito p elos p ro feta s: E le se r á cham ad o nazareno.

O propósito deste parágrafo é explicar por que Jesus, embora tendo nascido em Belém, era conhecido como Nazareno (mais adequadamente pronunciando Nazoreano). Mateus faz derivar esse nome da cidade de Nazaré. O fato de que Jesus era conhecido como Nazoreano e que residia em Nazaré está bem fundamenta­ do, mas a derivação e significado de Nazoreano (em grego) e a origem do que fora dito pelos profetas são problemáti­ cos. Jesus é chamado “o nazoreano” (Nazoraios em grego, traduzido como nazareno na versão da IBB) em Mateus (2:23; 26:71), Lucas (18:37; 24:19), Joâo (18:5, 7; 19:19) e Atos (2:22; 3:6; 4:10; 6:14; 22:8; 26:9). Os seus seguidores são cha­ mados nazoreanos em Atos 24:5. O pro­ blema se levanta pelo fato de Nazaré e nazoreano não parecerem ser palavras 122

cognatas. Como é que o “o” é derivado do “ a” em Nazaré? (Cf. Lohmeyer e Schmauch, p. 31 e s.). Alguns tentam derivar o termo nazoreano de “ nazireu” (naziraios ou nazarios), mas Jesus obviamente não era um nazireu. João Batista tinha alguma afinidade com os nazireus (cf. Luc. 1:15; Núm. 6), mas Jesus diferia de João nesse ponto (cf. 11:19). Foi feita a sugestão de que o termo nazireu pode ter sido primeiramente aplicado a João, e então a Jesus, como um dos primeiros seguidores de João. Ainda outra possibili­ dade é de que em um dialeto local (galileu-aramaico) o termo nazoreano e o nome da cidade (Nas’rath) fossem rela­ cionados. Outro problema insolúvel até agora é a intenção da citação do que fora dito pelos profetas. A frase Ele será chamado na­ zareno não se encontra no Velho Testa­ mento. Possíveis derivações são Isaías 11:1; Juizes 13:5; Jeremias 23:5 e Levítico 21:10-12. Alguns vêem uma alusão ao ramo (netzer) que brota do que parecia um tronco morto (Is. 11:1). Contra esta interpretação existe o fato de que “ramo” ou “rebento” não é conhecido em outras fontes como termo messiânico. O que emerge com clareza é que a prova enganosa do texto não fez surgir a tradi­ ção de que Jesus era de Nazaré, ou de que ele era conhecido como nazareno. O in­ teresse de Mateus era explicar o uso e a crença correntes. O fato de Jesus ter crescido na pequena aldeia de Nazaré (não mencionada no Velho Testamento, nem por Josefo, ou no Talmude), na desprezada “Galiléia dos gentios” (4:15), não é invenção cristã. Mateus atribui a mudança da família de Jesus para Nazaré á ameaça herodia­ na. Herodes, o Grande, morrera em 4 a.C., e o seu testamento designara o seu filho Arquelau como rei da Judéia, ‘Samá­ ria e Iduméia. Outro filho, Antipas, tor­ nou-se tetrarca da Galiléia e Peréia. (Para um terceiro filho, Filipe, veja Lucas 3:1). Augusto negou a Arquelau o título de rei, dizendo que, com a perspectiva de recom­


pensa por uma conduta adequada no seu cargo, ele mais tarde poderia ter o título de rei. Augusto lhe deu o título de “etnarca” , mas baniu-o em 6 d.C. Arquelau era o pior dos filhos de Herodes, sendo Anti­ pas um pouco melhor. A forma plural já morreram os que... refere-se a Herodes, o Grande, e possivelmente foi influenciada por Êxodo 4:19. 4. O Ministério Inaugurado (3:1 - 4:25) Em 3:1, Mateus alcança o ponto em que Marcos começa. Nos capítulo 1 — 2, Mateus segue fontes desconhecidas aos outros evangelistas, tendo um leve parale­ lismo em Lucas. Deste ponto em diante Mateus parece seguir Marcos como sua. principal fonte de narrativa, trabalhando outras narrativas e materiais didáticos no arcabouço de Marcos. Empregando um princípio tópico ou temático, ele quebra ou mesmo reverte a ordem de Marcos, quando isso serve ao seu propósito. Ele freqüentemente resume e ocasionalmente omite material de Marcos, presumivel­ mente para dar lugar para novo material, ou para servir aos seus próprios interesses redacionais ou teológicos. Alguma moldagem de materiais, para torná-los inteligíveis ou aplicáveis a uma dada situação, é válida e necessária. Por outro lado, nunca será demasiadamente enfatizado que Mateus está trabalhando com materiais que, na verdade, remon­ tam às obras e palavras de Jesus. Nos capítulos 3 e 4 há cinco assuntos principais: a pregação de João Batista (3:1-12), o batismo de Jesus (3:13-17), a tentação de Jesus (4:1-11), a mudança de Nazaré para Cafarnaum (4:12-17), e a vocação dos discípulos (4:18-25). Do pon­ to de vista das fontes, três categorias de material são encontradas: (1) material aparentemente de Marcos, (2) material estranho a Marcos, e comum a Mateus e Lucas, comumente designado como Q, e (3) material encontrado apenas em M a­ teus. Precisamente que fontes orais ou escritas estão por detrás do que é usado

por Mateus não é demonstrável em todos os casos. 1) A Mensagem do Batista (3:1-12) I N aq u eles dias a p a receu João, o B atista, pregando no deserto da Ju d éia, 2 dizendo: A rrependei-vos, porque é ch egad o o reino dos c éu s. 3 Forque e ste é o anunciado pelo profeta Isa ía s, que d iz : Voz do que cla m a no d ese r to : P rep arai o cam inho do Senhor, en d ireitai a s su a s v ered a s. 4 Ora, João u sa v a u m a v este de p elos de cam elo, e um cinto de couro e m torno de seu s lom b os; e a lim en ta v a -se de gafanhotos e m el silv e str e . 5 E n tão ia m ter com e le os de J eru sa lém , de toda a Ju d éia, e de toda a circunvizinhança do Jordão, 6 e era m por ele batizados no rio Jordão, confessando os seu s p ecad os. 7 M as, vendo e le m u itos dos fa riseu s e dos sad u ceu s que vin h am ao seu b atism o, disselh es: B a ç a de víb o ras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura? 8 Produzi, pois, frutos dignos de arrependim ento, 9 e não queirais dizer dentro de v ó s m e sm o s: T em os por pai a A braão; porque eu vos digo que m e s ­ m o d esta s p ed ras D eu s pode su scita r filhos a A braão. 10 E já e stá posto o m ach ad o à raiz d as á rv o res; toda á rvore, p ois, que não produz bom fruto, é cortad a e lan ça d a no fogo. II E u , n a v erd ad e, v o s batizo em ág u a , na b ase do arrependim ento; m a s aq u ele que v e m ap ós m im é m a is poderoso do que eu, que n em sou digno de levar-lh e a s a lp arcas; e le vos b atizará no E sp írito Santo, e em fogo. 12 A su a pá e le tem na m ão, e lim p ará b em a su a eira ; recolh erá o seu trigo ao celeiro, m a s q u eim ará a p alha e m fogo in extin gu ível.

João, o Batista, é apresentado como alguém já conhecido, evidência de que Mateus escreveu primariamente para a Igreja, fosse qual fosse a sua esperança de que o seu Evangelho seria lido por pessoas fora dela. A história é contada sem ne­ nhum interesse especial na pessoa de João. O naqueles dias de Mateus aparen­ temente se refere aos dias de Jesus, e não de João, que é importante apenas na medida que se relaciona com Jesus. Atenção é focalizada na mensagem de João, e Mateus descreve a sua roupa e sua dieta. A sua roupa era feita de pêlos de camelo (e não de pele de camelo), cingida 123


por um cinto de couro, e a sua dieta consistia de insetos, como gafanhotos e mel silveste, provavelmente depositado, por abelhas, em rochas ou árvores, asse­ melhando-o ao profeta Elias (II Reis 1:8; cf. Mal. 4:5 e s.; Luc. 1:17). É possível que 11:18 dê a entender uma motivação ascética por detrás da dieta de João, mas o versículo diante de nós pode implicar não mais de que João vivia do que o deserto permitia. Embora fosse de uma linha­ gem sacerdotal, João era um profeta (11:9). A sua pregação, comoé apresenta­ da por Mateus, era principalmente acerca do reino do céu, e de “ aquele que havia de vir” , e que estava próximo (v. 2 , 11 e s.). O reino dos céus (ou “reino de Deus” , indiferentemente) é o governo soberano de Deus (veja Introdução, p. 98 e 99), que Joâo vê já ter-se aproximado em aquele que vem. Ele considera o reino especial­ mente em termos de juízo (v. 7), explicado sob as analogias de machado, fogo e pá. O urgente clamor é para arrependimento, endereçado primeiramente a todos os judeus (v. 5, 9), inclusive os seus líderes fariseus e saduceus (v. 7). Mateus, dife­ rentemente de Marcos e Lucas, coloca a proclamação do reino anteriormente: no ministério de João Batista. O ministério de João, de acordo com Mateus, exerceu-se no deserto da Judéia, aparentemente a oeste do Mar Morto, mas chegando até pelo menos à parte inferior do rio Jordão (v. 6). Em algum lugar, ele deve ter atravessado o rio, e chegado à Peréia, ou à Galiléia; se não fosse assim, não teria caído sob a jurisdi­ ção de Herodes Antipas (cf. 14:1-12; João 1:28; 3:23; 10:40). Joâo provavelmente era conhecido co­ mo “o Batista” ou “o batizador” (14:2,8) não apenas porque empregava este ritual de iniciação, mas porque batizou judeus. Havia um batismo judaico de prosélitos no primeiro século, e probabilidade há que ele fosse praticado antes da época de João. Há tradições judaicas que possivel­ mente refletem a sua prática ante cristã, tão antigas como Hillel (Tosephta Pesa124

chim, 7:13; Jer. Pesach. 8:8 ou Eduyoth 5:2). O requisito talmúdio de batismo, circuncisão e um sacrifício (Kerithoth, 81®; Jeb, 46®) dá a entender um período anterior à destruição do Templo (70 d.C.), tempo depois do qual os sacrifícios no Templo se tornaram impossíveis. Não é provável que o judaísmo ortodoxo tives­ se adotado um rito cristão. Visto que o berço do cristianismo foi o judaísmo, nenhum problema haveria pelo fato de o batismo ter sido o desenvolvimento de uma prática judaica. O que foi revolucionário no batismo de João foi o batismo de judeus. Isto colocou os judeus no mesmo pé de igualdade com os gentios, chamando-os para o mesmo rito de iniciação a fim de pertencerem ao verdadeiro povo de Deus. João não permi­ tiu os fariseus nem os saduceus basearem as suas esperanças de inclusão no povo de Deus no fato de descenderem de Abraão segundo a carne, com um provável jogo de palavras aramaicas, dizendo destas pe­ dras (banin) Deus pode suscitar fílhos (abanim) a Abraão. João conclamou os seus ouvintes ao arrependimento (v. 2). A palavra grega, por etimologia, significa mudança de mente, mas isto quer dizer muito mais do que a acepção racional. O termo arrepen­ der-se (metanoiete) é mais adequadamen­ te traduzido como “converter-se” ou “vi­ rar” , como no hebraico shuv ou no ara­ maico thuv. Na presença do reino dos céus, o governo soberano de Deus, a pessoa deve voltar-se para Deus em sub­ missão. O relacionamento básico entre Deus e o homem é reconhecido no arre­ pendimento (conversão), quando o ho­ mem toma o seu lugar de súdito diante de Deus como rei. O termo Cristo (1:1) designa aquele que haveria de vir como ungido de Deus para reinar. O povo de Deus são aqueles que se apresentam em submissão ao reino de Deus, da forma como ele os confronta em Cristo. Mateus considera o reino como futuro em relação à sua plenitude, mas já presente em aquele que vem.


o versículo 3 não apenas apoia o tema de cumprimento de Mateus (Is. 40:3), mas indica uma pressuposição da maior importância em toda a teologia bíblica, istoé, a iniciativa de Deus para a salvação do homem. Em Isaías, Deus é retratado como vindo ao seu povo, exilado na Babilônia, para livrá-lo e guiá-lo para a terra natal. Mateus aplica a passagem a João e a Jesus — sendo João a voz do que clama no deserto, cuja missão é preparar o caminho do Senhor, sendo Jesus o Senhor que está vindo para salvar o seu povo. Na perspectiva bíblica, a iniciativa cabe a Deus, na criação, na revelação e na redenção. Deus cria; Deus se revela; e Deus vem ao homem para salvá-lo. Em muitos sistemas religiosos, o homem é visto descobrindo Deus e se estabelecendo diante de Deus, seja através de rituais, obras, bondade, asceticismo, conheci­ mento. ou outro fator. Grande número de judeus de Jerusa­ lém, de toda a Judéia, e de toda a circunvi­ zinhança do Jordão saiu para ouvir João. Toda é melhor etendido como hipérbole, sem nenhuma idéia de que todas as pessoas existentes nessas regiões ouviram João. (Em português essa palavra está oculta, pois o texto diz: “ iam ter com ele os de Jerusalém...”) O súbito apareci­ mento de um homem com a aparência e a mensagem de um profeta, depois de mui­ tas gerações sem profeta, fez sensação. A voz média do verbo ebaptizonto pode ser melhor traduzida como “Eles estavam se batizando” (cf. v. 6). Eles não eram passivos. Por outro lado, não é conclusivo que eles se imergiam a si mesmos. Os rituais de ablução de Qumran eram repe­ tidos diariamente, e eram efetuados, apa­ rentemente, por auto-imersão, mas tais rituais não formam os antecedentes ou modelos para o batismo de João. O seu batismo era uma inovação, ou uma adap­ tação do batismo judaico de prosélitos. O fato de que o batismo de João era por imersão não está sujeito a debate sério. A própria palavra indica um “mergulho” . A palavra batismo é construída da raiz baph

análogo a bath- em bathus, que significa “profundo” (Curtius, Greek Etymology). O alemão Taufe (tief significa fundo) preserva esta idéia. Toda a analogia de Paulo acerca de ser “ sepultado” com Cristo (Rom. 6:4) seria sem sentido fora do contexto da imersão. Seja o que for que a pessoa queira reter da intenção do batismo por qualquer outra forma, perde a força pictórica do sepultamento e res­ surreição, exceto por imersão. Mais im­ portante do que a forma do batismo, é a sua pressuposição de arrependimento (v. 2 , 8) e confissão de pecados (v. 6). Aqueles que João batizou no rio Jordão confessaram os seus pecados. O fato de que João não considerava que o seu ba­ tismo tinha poder salvador depreende-se do fato de que ele o negou aos fariseus e saduceus que não conseguiram produzir frutos (evidência) dignos de arrependi­ mento. Se João tivesse atribuído poder salvador ao batismo em si, não teria des­ culpas para negá-lo aos que, segundo o seu próprio pronunciamento, estavam no caminho do juízo vindouro (v. 7). João excluiu a esperança de que a descendência física de Abraão desse à pessoa aceitação diante de Deus (v. 9). O fato de ser judeu acarretava maiores privi­ légios (Rom. 2:17-3:2) e maiores respon­ sabilidades, mas não garantia aceitação por parte de Deus. A filiação na família de Deus é questão de fé, e não de carne. O versículo 9 antevê a inclusão dos gentios entre o povo de Deus. O batismo de João e o de Jesus diferiam no fato de que o batismo de João nas águas podia significar apenas exterior­ mente uma nova situação para os que se arrependiam e confessavam os seus peca­ dos, enquanto Jesus oferecia um batismo no Espírito Santo, e em fogo. Jesus é o portador do Espírito. O dom do Espírito não é uma “segunda bênção” especial, para os crentes de modelo de luxo; é aquela sem a qual não existe novidade de vida. Todo crente recebe o batismo (en­ chimento) do Espírito. Não há crentes não-carismáticos. O dom do Espírito não 125


é limitado a uns poucos selecionados entre os salvos, ou a uma ârea especial da vida no salvo. O Espírito Santo é Deus entran­ do em cada um dos seus filhos, para pro­ piciar nova direção, poder e significado para toda a vida. “Espiritualidade” é coisa que se relaciona com cada filho de Deus, e com todas as áreas da vida. O batismo com fogo aparentemente indica julgamento, a ser entendido jun­ tamente com as analogias do machado e da pá. O julgamento pertence à salvação como a cirurgia pertence à terapia. O julgamento pertence essencialmente ao evangelho. É boas-novas o fato de que Deus é contra o que é falso e errado, da mesma forma como é boas-novas o fato de que ele vem ao mundo para nos dar o direito à vitória sobre o erro. A mensagem de João parece ser pesada do lado do julgamento, e apenas em Jesus verifica-se o equilíbrio entre juízo e salvação plena­ mente atingido. Para ver as limitações de João basta reconhecer o que ele mesmo e Mateus reconheceram (3:11; 11:11). João considerava-se assim: nem sou digno de levar... as alparcas de Jesus. Fogo é interpretado como símbolo de julgamento, no versículo 12 , e não do Espírito Santo, como em Atos 2. A pá era usada para lançar palha e grão ao ar, sendo desta forma a palha leve soprada para o lado, e o grão mais pesado caindo no chão. A palha é queimada e o grão preservado. Argumentar, quanto ao versículo 12, em favor da completa aniquilação final do ímpio, baseando-se no fato de que ele será queimado (katakausei), é forçar o simbo­ lismo e a lógica além de qualquer intenção aparente de Mateus. Seria tão justo quan­ to “lógico” argumentar, quanto ao fogo inextinguível (asbesto), que os ímpios vão queimar eternamente, ou que haverá um suprimento infindável de ímpios para conservar o fogo aeeso. O interesse de Mateus não reside em tal “lógica” , mas em avisar que Jesus vem com uma salva­ ção que inclui julgamento e que aqueles que produzirem frutos dignos de arre­ 126

pendimento serão separados dos que não os produzirem. Mateus 3:7-10 é paralelo quase ipsis litteris de Lucas 3:7-9, refletindo uma fonte comum (provavelmente 0 ), diferen­ te de Marcos, mas há uma significativa diferença no versículo 7. Mateus fala de fariseus e saduceus, enquanto Lucas grafa “multidões” . Visto que Mateus não tinha preocupação especial com os sadu­ ceus, é provável que ele tenha retido o que encontrara na sua fonte: fariseus e sadu­ ceus. Lucas, com outros interesses, subs­ titui o que achara por “multidões” . Ma­ teus pesquisa o conflito com os fariseus, tão acalorado em seus dias, até o tempo de João Batista. Os fortes sentimentos antagônicos em relação aos fariseus são verificados por todo o livro, reaparecen­ do a acusação de raça de víboras em 12:34 e 23:33. 2) O Batismo de Jesus (3:13-17) 13 E ntão v eio J esu s da G aliléia ter com João, junto do Jordão, para se r batizado por e le. 14 M as João o im p ed ia, dizendo: Eu é que p reciso se r batizado por ti, e tu ven s a m im ? 15 J esu s, p orém , lhe respondeu: C onsente agora; porque a ssim nos convém cum prir toda a ju stiç a . E ntão e le co n sen ­ tiu. 16 B atizado que foi J esu s, saiu logo da água; e e is que se lh e ab riram os céu s, e viu o E spírito de D eu s d escendo com o pom ba, e vindo sobre e le ; 17 e e is que u m a voz dos céu s dizia: E ste é o m eu FUho am ad o, em quem m e com prazo.

Mateus é excedido apenas por João (1:6-8,15, 19-27,30; 3:22-30) no interesse em demonstrar o verdadeiro relaciona­ mento entre Jesus e João Batista. O diálogo entre João e Jesus sobre a conveni­ ência de Jesus ser batizado por João (v. 14 e s.) não se encontra nos paralelos dej Marcos (1:9-11) e Lucas (3:21 e s.).; Traços de um movimento centralizado ao j redor de João Batista, mas não de Jesus j são explícitos em Atos 19:1-7, e uma seitaj desses discípulos de João continuou bem] depois do período do Novo Testamento.| Mateus está mais interessado com ameaça farisaica exterior e a ameaç interior antlnomiana, do que com \mi;


seita rival de seguidores de João Batista, mas a sua preocupação com esta última aparece (v. 14 e s.) Parece que o que Lucas conhecia como movimento isolado (At. 19:1-7) era um problema mais sério para Mateus, e mais ainda quando o Evange­ lho de João foi escrito. Que João batizou Jesus está fora de dúvida. Este não é o tipo de história que os cristãos inventariam, pois ela levanta pro­ blemas para serem resolvidos. Os segui­ dores de João poderiam se jactar de que ele não apenas era anterior a Jesus, mas que também o havia batizado. Mateus^ mostra que o batismo teve lugar devido àl iniciativa e insistência de Jesus, sobrepu­ jando o protesto de João de que era indigno, e como reconhecimento de Jesus do que era apropriado e correto. / Mateus estava interessado não apenas com a questão de por que a pessoa que batizava apenas com água deveria batizar a que batizava “no Espírito Santo, e em fogo” , mas também com a questão de por que Jesus devia se submeter a um batismo de arrependimento, visto que era sem pecado. Não há registro de que João tenha entrado na Galiléia, mas a sua influência / e mensagem alcançaram essa região. JeI sus apresentou-se a João à margem dó rio Jordão, para ser batizado (v. 13). João tentou impedi-lo (diekoluen), protestan­ do que ele é que precisava ser batizado por Jesus. João era muito exigente acerca de todas as pessoas que vinham a ele para serem batizados, requerendo a confissão de pecados e a evidência de arrependi­ mento (conversão). Quando Jesus apare­ ceu diante dele, não fez tais exigências, ; porque não viu nenhum pecado em Jesus. Ele colocou tudo sob a exigência final de Deus, o reino (reinado) dos céus, sem rei■vindicar perfeição em si mesmo ou em outrem. Só em Jesus encontrou ele exce­ lência. Por detrás do protesto de João de que ele precisava ser batizado por Jesus, podia ter estado implícito mais do que o seu reconhecimento de indignidade. Podia ter

estado também implícito que ele precisa­ va do batismo do Espírito, que, dissera ele, aquele que viria, traria. Este fato não deve menosprezar a realidade de que o Espírito já estava sobre João, da mesma forma como não deve ser menosprezado o fato de que aquele sobre quem o Espírito viera como pomba fora gerado pelo Espí­ rito (1:20; 3:16). Contra o protesto de João, de que era indigno de batizar Jesus, atuou a insistên­ cia de Jesus de que era conveniente (prepon) e que era para cumprir toda a justiça. Jesus reconheceu o batismo de João como sendo de Deus (21:23-27), e que era conveniente que os judeus aten­ dessem àquele batismo. Os fatos de que Jesus não tinha pecado pára confessar, de que ordenou a João, e que João reconhe­ ceu a sua subordinação a ele, estão claros. Tomando lugar entre os que se submete­ ram ao batismo de João, Jesus endossou o batismo de_João e se identificou com aqúêtaT^essòas que atenderam ao cha^dorfeJoãõT E m bora sem pecado, Jesus se identificou com os pecadores a quem viera salvar (cf. Is. 53:12). O nos convém (v. 15) pode referir-se a João e Jesus, ou a Jesus e o povo com quem ele se associou. Ele se tomou um com as pessoas que precisavam se arrepender, embora fosse sem pecado (Heb. 2:17). Mas o batismo de Jesus foi mais do que isso; foi um compromisso aberto para com a sua mis­ são^ A declaração de que Jesus saiu logo da água pode descrever o fato de que ele foi levantado da água depois de ter sido imergido nela, mas provavelmente alude ao fato de ele ter saído andando do rio, e subindo o seu barranco. Logo não descre-' ve a rapidez da imersão, mas o fato de que Jesus não ficou no rio depois do seu batismo. Possivelmente algumas pessoas permanecessem por algum tempo, espe­ rando o batismo de outras, ou para con­ fessar os seus pecados. Quando Jesus foi batizado, o Espírito de Deus veio sobre ele como pomba, e ouviu-se uma voz dos céus, declarando 127


que ele era o Filho amado de Deus, em quem ele se comprazia. Mateus difere de Marcos ao empregar a expressão mais judaica, o Espirito de Deus (cf. 12:28), correspondente a “ o Espírito” de Marcos ( 1 : 10), e ao dar a entender que a voz foi ouvida por outras pessoas além de Jesus. O “ tu és” de Marcos é seguido por Lucas, mas Mateus diz este é. O “este é” de Mateus é assimilado ao este é comum a todos os sinópticos na narrativa da trans­ figuração (Mat. 17:5; Mar. 9:7; Luc. 9:35). Na história do batismo. Marcos e Lucas seguem o “tu és” de Salmos 2:7. Lucas é mais objetivo do que Marcos ou Mateus, ao dizer que o Espírito veio “em forma corpórea, como um a pomba” (3:22). Ê aparente a concordância essen­ cial no testemunho dos Sinópticos, bem como a independência e variação. Eles concordam que Jesus foi batizado por João devido à sua própria iniciativa, que João reconheceu a sua subordinação a Jesus, que o Espírito desceu sobre Jesus de maneira peculiar, e que Deus se com­ prazia com o seu Filho amado. A pomba é geralmente um símbolo rabínico de Israel, mas é também símbolo do Espírito, provavelmente assim enten­ dido no fato de que o Espírito, na história da criação, “pairava” (Gên. 1:2). João havia pregado em termos de um machado à raiz de certas árvores, da pá, através da qual palha e trigo seriam separados, e do batismo em julgamento de fogo. A vinda do Espírito como pomba permitiu_AJoão ter uma nova revelação, pois a pomba é entre as aves o que a ovelha é entre os animais. João estava certo em ver que o reino dos céus vem em juízo, mas em 11:11 está explícito que havia mais a ser dito acerca do reino do que João tinha o privilégio de saber. As exigências e julga­ mentos de Deus são sempre calcados em atos anteriores de misericórdia. Deus dá antes de exigir, e pòr detrás do seu juízohá misericórdia. No versículo 17, apresenta-se algo da compreensão que Jesus tinha de si mes­ mo. Hoje em dia, nenhum erudito quer 128

repetir o erro de gerações anteriores, de tentar “psico-analisar” Jesus. Não pode­ mos perscrutar o seu coração e sua mente, pesquisar o seu crescimento em autocompreensão, e descrevê-lo. Mas é igualmente inatingível o alvo de presumir que Jesus não se compreendia, ou que não temos sugestões de como ele se considerava. Presumir que Jesus não ponderava as questões da sua própria identidade e a obra que lhe cabia fazer, é presumir que ele era menos do que um homem normal, e isso é rejeitar o ensino claro do Novo Testamento. É irônico que alguns intér­ pretes “sabem” tanto acerca de Jesus, que chegam a saber o que Jesus sabia e o que ele não sabia! Dizer que Jesus não podia ter-se considerado como Messias ou Filho do Homem é reivindicar um conhecimen­ to que não temos (para exemplo de julga­ mento moderado, cf. McNeile, p. 32). Os Evangelhos apresentam Jesus em sua infância (Luc. 2:42-52), no seu batis­ mo, nas tentações do deserto, na transfi­ guração, no Getsêmane, e em outras partes, lutando com as profundas ques­ tões da sua identidade e da sua missão. Não considerando os significativos títulos atribuídos a Jesus, a própria maneira como ele andou entre os homens reflete uma compreensão de si mesmo como pessoa ao mesmo tempo identificada com os homens e separada deles, como alguém que podia fazer promessas e exigências tão-somente próprias de Deus. A voz dos céus, ouvida logo em seguida ao batismo de Jesus, parece refletir Sal­ mos 2:7 e Isaías 42:1 (e possivelmente Gên. 22:2 e Is. 44:2). Títulos e papéis significativos a desempenhar estão em vista aqui. Em Salmos 2, a referência é ao Filho de Deus, que é ungido para reinar, unindo desta forma os quadros de Filho de Deus e Messias real. Em Isaías 42:1 está o quadro do Servo de Deus Sofredor. Aparentemente, Jesus ponderava essas passagens, e via em si mesmo o seu cumprimento, começando com a súa consciência filial, considerando-se como


Filho de Deus de maneira especial (cf. 3:17; 17:5; Luc. 2:49). Jesus não apenas personificou em si os papéis de Filho divino e Messias real (Sal. 2), mas também o de servo de Deus (Is. 42:1); mas, de acordo com os Evangelhos, foi ele o primeiro que verificou que o Messias e o Servo Sofredor eram uma e a mesma pessoa. Mais tarde, Mateus apre­ senta a figura do Filho do Homem, tam­ bém cumprida em Jesus e interpretada em termos do Servo Sofredor. Ele vai mostrar que, quando Jesus estabeleceu o Messias ou Filho do Homem em termos do Servo Sofredor, ele não apenas contradisse as esperanças populares e poKticas, mas desafiou a resistência até no pequeno circulo dos seus próprios discípulos (cf. 16:21-28). Foi-lhes difícil ver que o reino de Deus não vem com os equipamentos exteriores de um exército conquistador, mas como o fermento: que ele conquista não com a espada, mas com uma cruz, não tirando a vida, mas dando-a. O que está implícito no versículo 17 será amplia­ do e explicado no desdobrar deste Evan­ gelho. 3) A Tentação de Jesus (4:1-11) 1 E ntão foi conduzido J esu s p elo E spírito ao d eserto, p ara ser tentado pelo D iabo. 2 E , tendo jejuado quarenta d ia s e quarenta noites, depois te v e fom e. 3 C hegando, en tão, o tentador, d isse-lh e: Se tu é s F ilh o de D eus m anda que esta s p edras se to m em em p ães. 4 M as J esu s lhe respondeu: E stá esc r ito : N em só de pão v iv erá o hom em , m as de toda p alavra que sa i da boca de D eus. 5 E ntão o D iabo o levou à cidade santa, colocou-o sobre o pináculo do tem p lo, 6 e disse-lhe: Se tu és F ilho de D eu s, !ança-te daqui a b a ix o ; porque está e sc r ito : Aos seu s anjos dará ordens a teu r e sp e ito ; e: e le s te susterão nas m ãos, para que nunca trop eces e m algu m a pedra. 7 R«plicou-Uie Jesu s: T am bém e stá e s ­ crito: N ão ten tarás o Senhor teu D eus. 8 N ovam ente o D iabo o levou a um m onte m uito alto; e m ostrou-lhe todos os reinos do m undo, e a glória d eles; 9 e disse-lh e: Tudo

isto de darei, se , prostrado, m e adorares. 10 E ntão ordenou-lhe J esu s: V ai-te, S a ta ­ n ás ; porque e stá e sc r ito : Ao Senhor teu D eus ad orarás, e só a e le serv irá s, 11 E ntão o D iabo o d eixou; e e is que v ie ­ ram anjos e o serv ia m .

Os três Sinópticos apresentam a tenta­ ção de Jesus no deserto imediatamente em seguida ao seu batismo. Marcos (1:12,13) apresenta o fato sem descrição. As narra­ tivas em Mateus e Lucas (4:1-13) são independentes de Marcos, e uma da ou­ tra. Mateus e Lucas não apenas têm algu­ mas diferenças verbais, mas diferem tam­ bém na ordem da segunda e terceira tentações. A ordem de Lucas pode ser mais primitiva, sendo a mudança, que Mateus faz, de natureza estilística, de forma a concluir com a tentação climáti­ ca. As concordâncias fraseológicas apon­ tam decisivamente para uma fonte co­ mum, que cada um deles usou com liber­ dade redacional, ou para duas fontes inti­ mamente relacionadas. Em Marcos, as tentações ocorreram durante os quarenta dias no deserto (1:13). Lucas verifica as tentações ocor­ rendo durante os quarenta dias (4:2), mas também deixa entender a sua reincidên­ cia “em ocasião oportuna” (4:13). Ma­ teus parece colocar as tentações no fim do jejum de quarenta dias (v. 2). A frase de Lucas dá a entender que as tentações do deserto foram típicas, e não isoladas. Mateus mostra a sua reincidência, refleti­ da na resposta de Jesus a Pedro: “Para trás de mim. Satanás!” (16:23) e na agonia do Getsêmane (26:36-46). As tentações de Jesus devem ser enten­ didas ao pé da letra. Elas não foram bata­ lhas simuladas, mas escaramuças reais. Refletem, provavelmente, não tanto in­ certeza de mente, quanto testes da vonta­ de (Schniewind, segundo Schlatter, p. 31). É significativo que os dois Evange­ lhos que falam do nascimento virginal de Jesus também enfatizam as suas tenta­ ções. Eles estão tão certo da sua verdadei­ ra humanidade quanto da sua origem di­ 129


vina. Em ponto nenhum eles expõem (23:24) e dos pagãos de Roma. Uma nação minúscula, sob o tacão de Roma, como fáceis as escolhas feitas por Jesus. tinha as mesmas reivindicações de liber­ Ele suportou a cruz; não a desejou. Não apreciou o seu cálice, mas o bebeu dade que qualquer outro povo. A tentação era para tomar atalhos para (26:39). Embora Jesus tenha sido tentado de alvos imediatos, usufruindo de benefícios todas as formas que o somos (Heb. 4:15), reais, ou empregar os meios errados para as tentações no deserto foram basicamen­ alcançar alvos que, pelo menos em parte, te messiânicas, tendo a ver com a sua representavam necessidades humanas vá­ missão. Por ocasião do seu batismo, ele se lidas. Mas Jesus, que podia oferecer ape­ havia visto como o Filho de Deus, escolhi­ nas uma porta estreita e um caminho do de Deus, considerado como o “Ungi­ apertado para os seus seguidores (7:13, 14), não podia escolher caminho fácil do” real de Salmos 2, e também como o Servo Sofredor de Isaías 42:1. Mais tarde, para si mesmo. os discípulos se rebelaram contra a su­ Levantam-se interrogações que nâo são gestão de que 0 Messias real (ou glorioso o interesse central de Mateus. O que Filho do Homem) deveria sofrer e ser significa Satanás? O que significa jejum? O estudioso pode inclinar-se para a crucificado (cf. 16:21-28). Não deve ser esquecido o fato de que foi precisamente opinião de quanto mais se vê que Satanás isto que não foi fácil para Jesus. é objetivo, mais se deve levar a sério essa idéia. Na verdade, o oposto é a verdade. O Aqueles que deveriam ter propiciado apoio a Jesus, fizeram o seu fardo ainda ponto de vista mais objetivo seria o que diz mais pesado. Ele o levou sozinho. Sozinho que Satanás apareceu física e visivel­ mente a Jesus. Alguém iria concluir que ele viu e aceitou tudo o que acarretava ser Satanás está presente apenas onde é fisi­ o Servo Sofredor. Ficou sem companhia camente visível? Ele nâo nos aparece humana durante as tentações no deserto. assim, de maneira objetiva, fisicamente, Em Cesaréia de Filipe eles se rebelaram mas precisa-se ir ainda mais longe. Quan­ diante da sua declaração de que ele to mais objetivamente interessado, mais precisava sofrer muitas coisas e ser morto (16:21-23). Como nas tentações no deser­ remoto Satanás se torna, e para mais distante de nós é deslocado o problema do to, Jesus outra vez precisou combater a pecado. A nossa culpa, quando muito, é tentação satânica de tentar ser o “Cristo” sem ser ao mesmo tempo o Servo Sofre­ admiti-lo em nossas vidas. Mesmo assim, a pessoa pode alegar: “Não eu, mas dor. No Getsêmane, quando o círculo mais restrito de discípulos dormiu, Jesus . Satanás.” Segue-se que, quanto mais seriamente lutou sozinho até a vitória sobre a tenta­ concebido, mais seriamente Satanás é ção reincidente de escapar ao seu cálice entendido, e mais plenamente o homem (26:36-46). aceita o fato do seu próprio pecado e As tentações no deserto foram fortes culpa. Este raciocínio não deve resolver a assaltos contra Jesus, não apenas porque questão do sentido em que Satanás deve desta forma ele enfrentou as exigências ser entendido. Quer dizer que não se quase insuportáveis do papel de servo, segue automaticamente que o ponto de mas porque o que ele foi tentado a fazer vista objetivo é o sério, e que o subjetivo é não estava separado do sabor de coisas o fácil. Seja qual for o significado de’Sataagradáveis. Ele estava com fome, bem nás, sem dúvida alguma, Jesus descobriu como muitas pessoas na terra. O homem que a essência da tentação está profunda­ não vive apenas de pão, mas também não mente arraigada no coração humano, e é vive sem ele. Por isso, também, o povo ali que ela precisa ser confrontada e precisava de um verdadeiro líder que o vencida. livrasse dos “ guias cegos” em Israel 130


Mateus escreve que Jesus jejuou qua­ renta dias e quarenta noites. Imediata­ mente o leitor pensa nos quarenta dias e quarenta noites de Moisés no monte Sinai (Êx. 24:18; 34:28), nos quarenta dias de jejum de Elias (I Reis 19:8), e nos quaren­ ta anos de Israel no deserto (Núm. 14:33 e s.;«Deut. 8:2). Algumas pessoas vêem quarenta como um número redondo, su­ gerido por estes padrões veterotestamentários, ou mesmo como uma recapitula­ ção dos quarenta anos de Israel, desta vez com um resultado positivo. Nada disto é explícito em Mateus. Ou Jesus deve ser considerado como tendo sido sustentado miraculosamente durante quarenta dias de abstinência total de comida e água, ou deve ser entendido que foi um jejum real, mas não total. A primeira tentação de Jesus (v. 3 e 4) foi para usar o seu poder para transfor­ mar pedras em pão. Mateus liga a tenta­ ção com a fome de Jesus (v. 2). As pedras no chão, ao seu redor, facilmente fariam uma pessoa pensar em pão (cf. 7:9). Embora a tentação se tenha levantado diretamente da sua própria fome, devia também ser considerada a fome do seu povo. Além do mais, o povo esperava que o Messias repetisse os mUagres do tempo de Moisés, especialmente o milagre do m aná(cf.Êx. 16; João6:30es.). Jesus, na verdade, queria que o povo tivesse pão. Ele alimentou cinco mil (14: 13-21) e fez da doação de pão aos famintos um teste básico para a relação de uma pessoa para com ele (25:31-46). Jesus nunca achou fácil satisfazer esta necessi­ dade humana. Ele estava profundamente preocupado em que o homem tivesse pão, sem o qual não poderia viver; mas estava ainda mais preocupado em que ele consi­ derasse e aceitasse o fato de que uma pessoa não pode viver só de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Assim, a primeira tentação não deve ser descartada simplesmente como uma ten­ tação para empregar egoisticamente os poderes às suas ordens. A tentação fora para tomar um atalho para a satisfação de

uma necessidade imediata, fosse para si mesmo, no momento, fosse para o seu povo, mais tarde. O povo queria pão, com ou sem a palavra de Deus. Jesus percebeu que precisava dar-lhes a palavra de Deus, preferivelmente com pão, mas de qual­ quer forma a palavra. As palavras de Satanás: Se tu és Filho de Deus, não foram necessariamente cal­ culadas para lançar dúvida. Pelo contrá­ rio, o desígnio das palavras (ouvidas por ocasião do seu batismo) era predispor Jesus a confiantemente fazer certas exi­ gências de Deus. Mas a filiação não se manifesta através de exigências, mas de obediência (cf. Rom. 5:19; Fil. 2:8; Heb. 5:8). A segunda tentação de Jesus (v. 5-7) se relaciona com o clamor popular por “si­ nais e maravilhas” . Havia uma profecia de que o Messias iria aparecer dramatica­ mente no Templo (Mal. 3:1,2). Jesus poderia facilmente agregar a si uma mul­ tidão de seguidores, apresentando sinais e maravilhas, mas ele se recusou a edificar sobre esse alicerce(16:l-4). Ele empregou “sinais” e realizou milagres, mas não foi nem para ganhar seguidores nem para compelir alguém à fé. Jesus verificou que a verdadeira fé não tenta compelir Deus a agir, e a verdadeira fé não pode ser produzida “compelindose” sinais e maravilhas. O que Satanás propusera, um salto da torre do templo, não iria ser um ato de fé, mas de presun­ ção e provocação. Satanás apresentou esse salto como ato de confiança em Deus, que iria mandar os seus ai\jos para salvar Jesus. Jesus o via como tentar a Deus. Seria uma tentativa para forçar Deus a certo curso de ação. A verdadeira fé em Deus se manifesta em uma confiança na sua vontade amorosa e sábia, e não sim­ plesmente confiança em seu poder para prover. O fato de que a Escritura pode ser usada ou abusada é ilustrado nesta nar­ rativa da tentação. Satanás citou Salmos 91:11 e 12. Da resposta de Jesus, depreende-se que a Escritura é melhor com­ 131


preendida pela Escritura (Deut. 6:16; Êx. 17:1-7). Há textos climáticos, que resumem o ensino bíblico básico, e sâo capazes de ter-se de pé sozinhos (v.g., João 3:16); mas é muito precário usar textos isolados como textos de prova. Desta forma abusados, eles podem ser torcidos para servir a qualquer interesse, embora removidos da verdade e do di­ reito. Mateus considerou a terceira tentação do diabo (v. 8 - 10), de reivindicar os reinos do mundo como o ponto culmi­ nante. O povo judaico, na época de Jesus, cria que o Messias daria a Israel o domínio sobre as outras nações. Os zelo­ tes constantemente recorriam a revoltas militares contra os romanos, com a con­ fiança de que Deus lhes iria dar vitória. Duas guerras sangrentas foram travadas com os romanos (em 66-70 d.C. e 132135 d.C.) na vã expectativa de que Deus iria mandar o Messias conquistador para livrar Israel de Roma. Teudas e Judas (At. 5:36 e s.), e provavelmente Barrabás (27:16-21), foram tipos messiânicos, ou, para alguns, verdadeiros messias. Jesus foi forçado a tomar uma decisão com respeito às esperanças judaicas de libertação messiânica do jugo romano. Semjustificar o governo romano ou negar a legitimidade dos anseios judaicos de liberdade nacional, ele se recusou a inter­ pretar a função messiânica em termos políticos ou a igualar o reino de Deus com o reino de Israel. Ele reconheceu certas reivindicações de “César” sobre o povo (22:15-22) e rejeitou peremptoriamente o emprego da espada em seu próprio be­ nefício (26:52). A terceira tentação presumivelmente deve ser entendida em termos de uma visão, pois não existe nenhum monte muito alto do qual uma pessoa possa real­ mente ver todos os reinos do mundo. A oferta que o Diabo fez dos reinos do mun­ do tinha a condição de que ele fosse adora­ do. Jesus rejeitou esse atalho para a glória e o poder. Provavelmente esta tentação deva ser entendida como para 132

seguir o caminho de “edificação do reino” , como fora exemplificado por Davi, Judas Macabeu ou os zelotes. Jesus rejeitou esse caminho mundano para o poder mundano. Mateus posteriormente mostrará que “toda autoridade no céu e na terra” (28:18) havia sido dada àquele que havia se recusado a curvar-se diante de Satanás, no esforço de apode­ rar-se do domínio do mundo. Na lingua­ gem de Apocalipse 11:15, “o reino do mundo passou a ser de nosso Senhor e do seu Cristo” . Para aquele que se recusara a buscar os reinos do mundo, foi dado “o reino (governo) do mundo” . É significativo que as tentações vieram imediatamente depois do batismo de Jesus. Por ocasião do seu batismo, os céus se abriram, o Espírito veio, e uma voz foi ouvida, para declará-lo o amado Filho de Deus, em quem ele se comprazia (3:16 e s.) Um momento mais elevado de exaltação dificilmente pode ser imagi­ nado. Os assaltos contra a sua vontade logo se seguiram. Os momentos de gran­ de visão e exaltação são precisamente aqueles em que a pessoa está mais sujeita a tais assaltos. A vida, quanto mais alto estiver ligada à potencialidade para a verdade e o bem, mais aberta ficará para a tentação. Não está explícito que M a­ teus tivesse isto em mente. É indicado que Jesus, no limiar do seu ministério, foi compelido a escolher a estrada que devia trilhar, contra os seus impulsos pessoais e contra as expectativas populares, mas em obediência à vontade de Deus. 4) Retirada para a Galiléia (4:12-17) 12 Ora, tendo ouvido J esu s que João fora en tregu e, retirou-se p ara a G aliléia; 13 e, deixando N a za ré, foi habitar e m C afar­ naum , cid ad e m a rítim a , nos confins de Zabulom e N aftali; 14 para que se cu m p ris­ se o que fora dito pelo p rofeta I s a ía s : 15 A terra de Zabulom e a terra de N aftali, o cam inho do m ar, a lé m do Jordão, a G aliléia dos gentios, 16 o povo que e sta v a sentado em trev a s viu u m a grande lu z ; sim , a o s que e sta v a m sen tad os na região da som bra da m orte, a e ste s a luz raiou.


17 D esd e então com eço u J esu s a pregar, e a dizer: A rrependei-vos, porque é chegado o reino dos céu s.

Várias implicações se levantam da declaração quase casual: tendo ouvido Jesus que João fora entregue (preso), quando Mateus explica por que Jesus retirou-se para a Galiléia. A narrativa da prisão e decapitação de João Batista não é feita antes de 14:1-12, e, mesmo então, quase incidentalmente em relação à reação de Herodes a relatórios acerca de Jesus. De 11:2, o leitor fica sabendo da prisão de João, e de novo João é trazido para a narrativa de maneira que mostra tanto a sua grandeza quanto a sua limi­ tação, bem como a sua subordinação a Jesus. No versículo 12, Mateus presume que o leitor conheça quem é João, e já tenha conhecimento de sua prisão e exe­ cução. O Evangelho é escrito em pri­ meiro lugar para a Igreja, e presume-se que o leitor já saiba grande parte da história. Sem dúvida, Mateus pretende informar o leitor, mas ele deseja prin­ cipalmente interpretar a tradição que já pertence à Igreja. Ele demonstra respeito por João, mas também mostra que o papel dele era secundário em relação ao de Jesus. João nunca é discutido, a não ser na medida em que se relaciona com Jesus. A “retirada” de Jesus para a Galiléia não foi uma fuga de Herodes Antipas, pois Antipas era tetrarca da Galiléia e da Peréia. Por outro lado, o motivo da reti­ rada é proeminente em Mateus, pois ele mostra que Jesus foi repetidamente ame­ açado dentro da sua própria nação, e encontrou melhor recepção entre os gen­ tios (cf. 2:12, 13, 14, 22). Isto antevê o movimento no mundo gentílico. Mateus declara simplesmente que Jesus, deixando Nazaré, foi habitar em Cafamaum, cidade maritima, nos con­ fins de Zabulom e Naftali. Mas a sua palavra não é tanto “deixando” , como “abandonando” (katalipón). Mais tarde, ele falará da rejeição em Nazaré (13:5458). Lucas 4:16-30 tomou esta nairativa

fundamental em todo o seu Evangelho, mostrando como a admiração inicial quanto à “ sua inteligência e das suas respostas” se transformou em ira e inten­ tos assassinos, quando Jesus começou a mostrar, baseado nas histórias de Elias e Eliseu, que Deus jamais se limitara a Israel, mas sempre havia se interessado por outras nações. Os materiais de Mateus não estão em seqüência cronológica severa, e é signi­ ficativo que ele ligue o “abandono” (katalipón) de Nazaré e o estabelecimen­ to de Jesus nos confins de Zabulom e Naftali... Galiléia dos gentios, mostran­ do que isto era cumprimento das pala­ vras faladas por Isaías 9:1,2. Desta forma, ele mostra que a inclusão dos gentios, que já faziam parte da igreja conhecida de Mateus, era direção de Deus. Mateus segue Marcos, ao mostrar que Jesus trabalhou quase que exclusi­ vamente entre os judeus, sendo excep­ cional o seu ministério direto aos gentios (8:5 e ss.; 15:21-28); porém Mateus já está apontando para o alvo alcançado pelo comissionamento do Senhor ressus­ citado, de que todas as nações seriam trazidas ao seu discipulado (28:18 e ss.). Ele já sugerira esta idéia devido à inclu­ são de algumas mulheres na genealogia (1:2-17), na visita dos magos do Oriente e na fuga para o Egito (2:1,13), e na palavra de João acerca dos verdadeiros filhos de Abraão (3:9). Mateus escreveu acerca de alguém que era “filho de Abraão” e “filho de Davi” , mas também Salvador do mundo. Não era sem razão que a Galiléia era chamada “ dos gentios” . O território em questão outrora pertencera às tribos de Zabulom e Naftali. Juntamente com o Reino do Norte, de Israel, ela havia sido capturada pela Assíria em cerca de 722 a.C. Ela permaneceu basicamente gentia até o segundo século a.C., quando os Macabeus deram aos seus habitantes a chance de escolher entre a “conversão” , 18 Cf. Stagg, Studies in Luke’s Gospel (Nashville: Contion. 1957), p. 41-44.

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mediante a circuncisão, ou a morte. Muitos dos que desta forma foram for­ çados a entrar no judaísmo nunca foram nada mais do que judeus nominais. Mateus considerou Jesus trazendo luz a um mundo de trevas. Embora ele não chame Jesus explicitamente de “a luz” , como o faz João (1:4-9; 8:12), ele consi­ dera Jesus nessa capacidade. Mateus cita palavras de Jesus, dizendo aos seus discí­ pulos: “Vós sois a luz do mundo” (5:14); mas vê Jesus como aquele em quem uma grande luz vem para aqueles que estavam sentados na região da sombra da morte. A aplicação que Mateus faz de Isaías 9:1,2 à permanência de Jesus na Galiléia ilustra claramente como ele usava as Escrituras. O fato de que Jesus se esta­ beleceu na Galiléia pertence a todas as tradições primitivas (cf. Mar. 1:14; Luc. 4:14) e não depende da citação de Isaías. Mateus não inventou situações como cumprimento de textos de prova. Pelo contrário, ele se aproveitou do Velho Testamento para justificar ou iluminar o que já se cria havia acontecido. 5) Quatro Pescadores Chamados (4:18-22) 1 8 E J esu s, andando ao longo do m ar da G aliléia, viu dois irm ãos — Sim ão, cham ado P edro, e seu irm ão A ndré, o s quais la n ç a ­ v am a rede ao m a r, porque e ra m p e sc a ­ dores. 19 D isse-lh es: Vinde após m im , e eu vo s farei p esca d ores de h om en s. 20 E le s, pois, deixando im ed iata m en te a s red es, o segu iram . Z 1 E , passan do m a is ad ian te, viu. outros dois irm ãos — T iago, filho de Z eb e­ deu, e seu irm ão João, no b arco, co m seu pai Zebedeu, consertando a s red es; e os ch a ­ m ou. 32 E ste s, deixando im ed ia ta m en te o barco e seu pai, segtiiram -no.

Depois de Jesus, o interesse do Evan­ gelho de Mateus se focaliza, nos seus discípulos. Jesus chamou pessoas para si, Ele fez obras poderosas e ensinou “como tendo autoridade” (7:29), mas a sua principal preocupação era tornar Deus conhecido como Pai e levar as pessoas a Deus. Jesus deixou um grande compên­ dio de ensinamentos, mas não se con­ tentou simplesmente em ligar as pessoas 134

aos seus ensinos. Ele se ligou ao seu povo, e ligou-os a si. A primeira indi­ cação clara deste fato é vista na vocação dos quatro pescadores. Jesus chamou dois pares de irmãos: Simão e André, depois Tiago e João. O Evangelho de João indica que Pedro e André haviam sido anteriormente segui­ dores de João Batista, e que André influ­ enciou o seu irmão Simão Pedro a seguir a Jesus (João 1:35-42). Aparentemente, Mateus segue Marcos (1:16-20), no seu relato da vocação dos quatro pescadores. Não há, necessariamente, conflito com o Evangelho de João, pois o fato de Pedro e André terem seguido João antes deste passo ulterior no discipulado não pre­ cisa, propriamente, ser excluído. A essa altura, requer-se que os homens deixem as suas redes, ou tanto as redes como o pai, a fim de se tornarem pescadores de homens. O fato de Jesus ter sentido que tinha o direito de fazer exigências sem restrições aos homens, apresenta-se com força em todas as tradições. Eie exigiu a confi­ ança, o amor, a obediência e, se neces­ sário, as vidas dos seus seguidores. Indu­ bitavelmente, ele deu-se a eles da mesma maneira radical, ao ponto de entregar a sua vida no Gólgota. Ele ofereceu mais do que exemplo e ensino: ofereceu-se a si mesmo. Ele exigiu mais do que imitação e a aceitação dos seus ensinamentos. Pediu que as pessoas se dessem a ele. Nessa história fica bem patente que algumas pessoas se dispuseram a sub­ meter-se dessa forma às suas reivindica­ ções. Isto é da maior importância. De maneira radical, Jesus se obrigou ao seu povo, e obrigou-o a si — na vida e na morte. Este tema vai ocorrer repetida­ mente em Mateus. O simples fraseado do versículo 22 torna claro o abandono requerido por Cristo, quando ele «chama homens para segui-lo (cf. 9:9; 10:37; 19:27). Os quatro pescadores foram chamados para se tornarem pescadores de homens. A sua nova profissão era levar os homens


vivos a Cristo. Segundo o uso rabínico e grego, essa expressão geralmente tinha um sentido pejorativo (cf. Jer. 16:16), mas aqui tinha um bom sentido. Dos quatro discípulos citados, Pedro e João são os melhores conhecidos. Simão foi chamado Pedro, ou Cefas, respectiva­ mente, os nomes grego e aramaico tra­ duzidos por Pedra. Tiago deve ter sido uma pessoa agressiva, pois foi o primeiro dos doze a ser martirizado (At. 12:2). Tiago e Jacó são as formas, respectiva­ mente, grega e hebraica do mesmo nome. 6) Um Ministério Tríplice (4:23-25) 23 E percorria J esu s toda a G aliléia, ensinando nas sin a g o g a s, pregando o ev a n ­ gelho do reino, e curando todas a s doenças e enferm id ades en tre o povo. 24 A ssim a su a fam a correu por toda a Síria; e trouxeram lhe todos os que p a d ecia m , a com etid os de várias doenças e torm en tos, os en d em on i­ nhados, os lun áticos, e os p aralíticos; e ele os curou. 25 D e sorte que o seg u ia m grandes m ultidões da GaUléia, de D ecá p o lis, de Jeru salém , da Ju d éia, e dalém do Jordão.

O versículo 23 reúne três termos que, em grande parte, resumem o ministério de Jesus: ensinando, pregando e curando. Ele ensinava nas sinagogas. Onde quer que dez cabeças de famílias se reunis­ sem, uma sinagoga era permitida. As sinagogas (palavra grega que significa assembléia) surgiram não depois do exílio, mas possivelmente antes. Durante o exílio, quando os judeus foram impe­ didos de ir ao Templo, as sinagogas se tornaram centros de adoração, estudo e disciplina. Estavam sob o controle de leigos, e não de sacerdotes. Grande parte da atividade das sinagogas centralizavase no estudo da lei mosaica, talvez para compensar a negligência pela Lei, consi­ derada uma das razões do exílio. Depois do exílio, as sinagogas continuaram a funcionar ao lado do Templo restaurado, tão importante haviam-se tornado. Apôs 70 d.C., com o Templo destruído, as sinagogas adquiriram importância ainda maior e continuam, até hoje, a ser os

centros da vida judaica. Jesus ensinou nas sinagogas, indicando claramente que ele ainda estava dentro da estrutura do judaísmo. Mateus repetidamente se refere às sinagogas como suas sinagogas (cf. v. 23; 9:35; 10:17; 12:9; 13:54; 23:34) e em cada caso, exceto em 23:34, ele inseriu “deles” na fonte, sendo desta forma cla­ ramente expresso o seu interesse reda­ cional ou situação histórica. Quando ele escreveu, pode ser que os cristãos já tivessem sido expulso das sinagogas. Pregar o evangelho do reino foi uma segunda principal função do ministério de Jesus. Esta proclamação do reino de Deus era também um chamado ao arre­ pendimento. Jesus ensinava e pregava dentro das sinagogas e ao ar livre. Ne­ nhuma linha definida pode ser traçada entre o seu ensino e a sua pregação. Poderia haver proclamação do evangelho do reino sem instrução, mas o ensino era construído ao redor do evento procla­ mado. O que é chamado o Sermão da Montanha é apresentado, por Mateus, como ensino (5:2) e resumido como ensino (7:28 e s.), embora tenha fortes elementos querigmáticos ou oratórios em toda a sua decorrência. Curar constituiu uma parte impor­ tante do ministério de Jesus. Ele se inte­ ressava pelo homem total, incluindo corpo e mente. A compaixão entrava no seu ministério de cura, tanto quanto a fé. Por outro lado, como vai ser visto à medida que as narrativas de curas forem estudadas, nem todas as curas se se­ guiam à fé, e havia outros interesses além da compaixão. Em grande parte, os milagres de cura eram sinais de que o reino de Deus já chegara, pelo menos a princípio (cf. 12:28). Os poderes que por fim iriam triunfar plenamente já estavam em funcionamento em Jesus, vencendo a doença, as desordens mentais, o pecado e a morte. A fórmula tríplice de ensino, pregação e cura (v. 23) é repetida em 9:35, cin135


gindo, desta forma, o ministério de Jesus em palavras (5-7) e em obras (8 e 9).

II. O Sermão da Montanha (5 :1 -7 :2 9 ) 1. Introdução (5:1,2) 1 J esu s, pois, vendo a s m u ltid ões, subiu ao m onte; e, tendo e le se a ssen ta d o , aproxim aram -se os seu s d iscíp u los, 2 e ele se pôs a ensiná-los, d izen d o:

Provavelmente 4:25 deveria juntar-se a 5:1,2, para formar a introdução do Ser­ mão. A menção das “ multidões” em 4:25, 5:1 e s. e 7:28 e s. sustentam este ponto de vista, “Decápolis” é palavra grega que signi­ fica “ dez cidades” , uma liga, incluindo outras: Damasco, Gadara, Pela, Gerasa, Filadélfia (hoje Amam) e Citópolis, todas do lado leste do rio Jordão, menos a última. O plural “ multidões” alude aos vários grupos das diferentes áreas geográ­ ficas mencionadas. Não se sabe por que Samária, tão proeminente em Lucas e João, não é mencionada. A quem foi dirigido — Se o Sermão da Montanha foi dirigido aos discípulos apenas (v. 2) ou também às multidões (4:25; 5:2; 7:28), não pode ser resolvido conclusivamente. O antecedente grama­ tical a eles (ele se pôs a ensiná-los), no versículo 2 , pode referir-se tanto às mul­ tidões como aos seus discipulos, ou a ambos (v. 1). Em 5:1 pode estar implícito que Jesus se afastou das multidões, para se dirigir apenas aos seus discípulos, que se aproximaram. Contudo, até este ponto Mateus mencionara apenas quatro dis­ cípulos (4:18-22), e a instrução especial para os doze é mencionada pela primeira vez no capítulo 10. Além do rhais, 7:28 é explícito no sentido de que as multi­ dões ouviram Jesus e se maravilharam da autoridade com que ele ensinava. Pro­ vavelmente o sermão é dirigido a todos os que seguem a Jesus, aplicando-se as suas promessas e exigências a todos os cris­ tãos, e não apenas a uns poucos esco­ lhidos. 136

Sermão ou ensino? — O que é univer­ salmente chamado de Sermão da Mon­ tanha aparece sob o título de ensina­ mento: Jesus “ as ensinava como tendo autoridade” (7: 28 e s.). Se o material é oratório, Mateus o coloca em uma situa­ ção didática. A pregação (kerygma) e o ensino (didache) podem ser distinguidos, o primeiro tendo a ver fundamental­ mente com o acontecimento no centro do qual Cristo estava, e o último tendo a ver principalmente com as suas implicações e aplicações. Kerygma era uma procla­ mação para o mundo, e didache, instru­ ção para a Igreja. Contudo, a distinção entre kerygma e didache não deve ser forçada. Em todo didache, como no Sermão da Montanha, o kerygma é explícito ou implícito, pressupondo o ensino a proclamação do acontecimento. Mateus nos oferece Jesus Cristo, e nunca a pregação, ensino ou cura à parte dele. Origem e unidade — O que Mateus apresenta nos capítulos 5 — 7 encontra extensos paralelos, dispersos por seis capítulos de Lucas (caps. 6, 11, 12, 13, 14, 16). Um discurso muito mais breve, de alguma forma fazendo paralelo a Mateus, encontra-se em Lucas 6:20-49, freqüentemente chamado Sermão da Planície. Os paralelos mais extensos de Lucas ao sermão de Mateus são os se­ guintes: Luc. 6:20-23; 14:34,35; 16:18; 6:29,30; 6:27,28, 32-36; 11:2-4; 12:33, 34; 11:34-36; 16:13; 12:22-34; 6:37,38, 41,42; 11:9-13; 13:24; 6:43,44; 13:25-27; 6:47-49. É bem provável que Mateus aqui, como através de todo o Evangelho, tenha seguido o princípio de reunir material de ensino e narrativa ao redor de temas básicos. Isto não exclui a existência de um sermão básico, pré-Mateus, mas reco­ nhece a liberdade dada ao autor em arranjar os materiais de forma a apre­ sentar Jesus e a sua mensagem da ma­ neira mais significativa para os leitores. A intenção do sermão — Separada­ mente de uma exegese detalhada, surge a questão de como o sermão deve ser ou­


vido. Uma dúzia ou mais pontos de vista diferentes foram sugeridos. Alguns sentimentalistas se ufanam de que a única religião que desejam é o Sermão da Montanha. Será que eles já o leram? Outros, extasiados ou amedrontados pelas suas exigências grandiosas, de­ sistem, desesperados, concluindo que ele é irreal ou impossível. Uns poucos, na verdade, empreenderam a tarefa de segui-lo ao pé da letra, até o ponto de automutilação (5:29 e s.). Alguns deram a ele o epíteto de ética de ínterim ou provisória, pretendida por um breve pe­ ríodo, pouco antes de um esperado fim do mundo. Ainda outros sustentaram que o sermão se aplica apenas a clérigos, e não a leigos; ou apenas os relaciona­ mentos dentro da Igreja, mas não no mundo, embora Jesus nunca tenha endos­ sado padrões duplos que tais. O grande perigo é que não se esteja fazendo jus­ tiça, quer às extasiantes exigências, quer aos graciosos dons, ou a ambos. Nossa proposta é que o Sermão da Montanha é melhor entendido quando considerado em seu contexto, visto como a exigência final e absoluta de Deus, dirigida aos pecadores, a quem também é oferecida a aceitação, com base na misericórdia e no perdão. As exigên­ cias não devem ser diluídas ou descar­ tadas, nem mesmo o solene: “ Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial” (5:48). As reivindicações de Deus, isto é, as exigências do reino (reinado) de Deus da maneira como ele nos confronta em Cristo (ungido para reinar), são finais e absolutas. São finais no sentido de que definem de maneira cabal a questão. São absolutas no sentido de que Deus nâo divide a sua autoridade com ninguém mais. Entrar no reino de Deus é reconhecer o seu direito de domi­ nar plena e cabalmente. 19 Cf. Harvey K. MacArthur, Understanding the Sermon on the Mount (New York, Harper, 1960) para um sumário conciso. 20 Cf. Bornkamm, p. 15 — 164, e Davies, p. X, 14, 90 e ss., 96, 119, 219, 440 et passim).

Isto não significa que qualquer pessoa, exceto Jesus, preencheu essas exigências. Mas significa decisivamente que ser cristão é viver sob essas reivindicações, não importa quanto se fique aquém do seu cumprimento. Deus não requer obediência de 50 ou 99 por-cento. A sua vontade é que sejamos perfeitos. Por outro lado, o Sermão da Monta­ nha é endereçado a pecadores (7: 11), que dependem inteiramente da miseri­ córdia e perdão do Senhor (cf. 5:3-7; 6:12, 14 e s.). Em nenhum ponto o Sermão da Montanha presume que se­ jamos inculpáveis ou perfeitos. O Sermão é pronunciado em um contexto de mi­ sericórdia. Ele é precedido por uma de­ claração sumária do ministério de Jesus de curar, ensinar e pregar (4:23 e s.) e é seguido por dez relatos de misericor­ diosas curas e cuidado (8:1 — 9:34), com um quadro tocante da compaixão de Jesus pelas multidões negligenciadas (9:35-38). Os requisitos de Deus são sempre precedidos pelas suas dádivas. Da mesma forma como a lei mosaica surgiu do êxodo, o ato misericordioso de libertação de Israel do cativeiro egípcio, efetuado por Deus, assim também o Sermão da Montanha está calcado nos atos misericordiosos de libertação, efetua­ dos por Deus. Os elevados requisitos de Cristo (5:1 — 7:28) vêm de alguém que oferece ilimitado socorro (4:23 e s.; 8:1 — 9:34). O Sermão está engastado em um contexto, um arcabouço de cura e piedade (Davies, p. 90, 96). O Sermão da Montanha nâo nos deixa esperanças, exceto na misericórdia de Deus, e ao mesmo tempo coloca-nos sob requisitos morais, éticos, e outras exi­ gências pessoais, que são absolutos e finais. O cristão não pode fugir a esta “tensão” entre a dádiva e o requisito de Deus. Da mesma forma, a sua agudeza não deve ser abrandada. Uma justiça que exceda à dos escribas e fariseus é reque­ rida de pecadores, que diariamente devem perdoar e pedir perdão. O Sermão da Montanha leva a sério a necessidade 137


infinita, que o homem tem, de miseri­ córdia e as suas infinitas possibilidades morais e éticas. Por si mesmo o homem não consegue nada, mas Cristo pode trazer à luz uma nova espécie de exis­ tência naqueles que estão dispostos a ser aceitos mediante a misericórdia de Deus e a reconhecer o direito que Deus tem de reinar. O Sermão da Montanha exclui o orgulho, a superficialidade, o engano do legalismo, e também a irresponsabili­ dade moral e ética e o escapismo do antinomianismo. Não é a realização moral que leva o homem a um adequado relacionamento com Deus, mas a nova relação é por si mesma um dom de Deus, oferecido na base da misericórdia; e esta nova relação com Deus logo de início nos abre a pos­ sibilidade de cumprir o procedimento moral requerido (Conzelmann, p. 141). Aquele que ordena é também o que perdoa, salva e sustenta. Em certo sen­ tido, o Sermão da Montanha nos con­ fronta com a lei e o evangelho, mas pre­ cisa ser lembrado que a lei de Deus por si mesma é uma expressão de amor e mise­ ricórdia, pois o que ele requer pertence às nossas verdadeiras necessidades e natureza. A sua lei consiste não de regras arbitrárias, mas de princípios sem os quais não alcançamos a nossa verda­ deira existência. O reino de Deus nos vem em Jesus Cristo não como um monte de regras, mas como o reinado de alguém que ama o suficiente para dar e exigir. O Monte — Jesus, pois, vendo as mul­ tidões, subiu ao monte. O monte não é identificado, mas provavelmente a refe­ rência é a um lugar ao oeste do Lago da GaUléia, e na vizinhança de Cafarnaum (8:5). É possível, mas longe'de conclu­ sivo, que Mateus veja um paralelo entre o Sermão da Montanha e a outorga da lei no Monte Sinai. Ele não estabelece ana­ logias entre o fato de‘Moisés ter recebido a lei no Sinai e Jesus ter ensinado no monte. Lucas (6:12,17) chega mais perto de um paralelismo com Êxodo 19 do que Mateus, pois Lucas vê Jesus descendo da 138

montanha, para ensinar, como o fizera Moisés. Em Mateus, Jesus sobe para ensinar. Para Mateus, Jesus não é um novo Moisés, dando uma nova lei, mas o cumpridor da Lei e os Profetas. 2. As Beatitudes (5:3-12) 3 B em -aven tu rad os o s h u m ild es de e sp i­ rito, porque d eles é o reino dos céu s. 4 B em -aven tu rad os os que ch oram , por­ que e le s serão consolados. 5 B em -aven tu rad os o s m an sos, porque e le s herdarão a terra. 6 B em -aven tu rad os os que têm fom e e sed e de ju stiça , porque e le s serã o fartos. 7 B em -aven tu rad os os m isericord iosos, porque e le s alca n ça rã o m isericórd ia. 8 B em -aven tu rad os os lim p os de coração, porque e le s verão a D eu s. 9 B em -aven tu rad os os p a cifica d o res, p or­ que e le s serã o ch am ad os filhos de D eus. 10 B em -aven tu rad os os que são p e r se ­ guidos por ca u sa da ju stiç a , porque d eles é o reino dos céu s. 11 B em -aven tu rad os so is vós, quando vos injuriarem e p erseg u irem e, m entindo, d is­ sera m todo m a l con tra v ó s por m inha ca u sa . 12 A legrai-vos e ex u lta i, porque é grande o v o sso galard ão nos céu s; porque a ssim p ersegu iram aos p rofetas que foram an tes de vós.

Mateus parece apresentar nove beatitudes. É arbitrário encontrar dez, con­ tando os versículos 11 e 12 como duas beatitudes. Esses versículos são paralelos íntimos de Lucas 6:22,23; e Lucas conta esses dois versículos claramente como um só, apresentando quatro beatitudes (Luc. 6:20-23), compensadas por quatro ais (6:24-26). Há alguma discussão de que Mateus originalmente tinha apenas oito beati­ tudes, sendo 5:11,12 uma adição. As pri­ meiras oito estão todas na terceira pessoa, enquanto a nona está na segunda pessoa. E também as primeiras oito têm parale­ lismo e ritmo não encontrado na nona. Não existe evidência em nenhum’ manus­ crito da omissão da nona beatitude. A sua diferença estilística é melhor atri­ buída a diferenças de fontes empregadas. A nona beatitude de Mateus faz íntimo paralelo com a quarta de Lucas, e todas


as beatitudes de Lucas estão na segunda pessoa. Algumas pessoas consideram o ver­ sículo 5 como uma adição, visto que certos manuscritos revertem a ordem dos versículos 4 e 5 (veja abaixo). Sete, um número simbólico, seria alcançado se eliminássemos o versículo 5, ou se eli­ minássemos os versículos 11 e 12 , ou contássemos os versículos 10 a 12 como uma única beatitude. Isto é algo forçado. A palavra makarioi introduz cada uma das beatitudes. É uma declaração de bem-aventurança, uma interjeição que não requer uríi verbo. Não descreve os sentimentos de uma pessoa a respeito de si mesma, mas o seu estado de bemaventurança, da forma que é visto por Jesus. O significado pretendido pode ser expresso como “Oh! que felicidade é ...” , mas o familiar “Bem-aventurado” é ade­ quado. y Os humOdes de espirito (v. 3). O “vós, os pobres” , de Lucas, é provavelmente mais primitivo do que o “pobres (humil­ des) de espírito” de Mateus. Duas opi­ niões podem ser esposadas do antigo judaísmo: Uma considerando a riqueza como o favor de Deus, e a adversidade como sinal de juízo divino. A outra iden­ tificando a riqueza com a impiedade, e a pobreza com a piedade (cf. Tiago 2:5; 5:1). A beatitude de Lucas reflete o se­ gundo padrão, “ os pobres” possivelmen­ te sendo identificados com “o povo da terra” . O termo semítico por detrás do grego designa os piedosos em Israel, principalmente, mas não exclusivamente identificados com os materialmente po­ bres. Mateus remove a ambigüidade, acrescentando “ de espírito” , reconhe­ cendo que a pobreza material ou social por si não é marca de fé ou de piedade. As beatitudes enfatizam o agudo con­ traste entre a aparência externa e a reali­ dade interior. O reino dos céus pertence não àqueles que, segundo os padrões do mundo, são ricos e poderosos. Só os que abdicam de todas as reivindicações a riqueza e poder reinam com Deus. Nem

pobreza material nem espiritual é bemaventurada, mas o reconhecimento ho­ nesto e humilde do seu empobrecimento (cf. Is. 61:1) abre, à pessoa, a porta para receber as bênçãos de Deus. É precisa­ mente quando ò homem vê que não é nada, que Deus pode lhe dar da sua plenitude. Lohmeyer (p. 83) argumenta que pobres de espírito (nas versões mais modernàs, humildes) refere-se àqueles que voluntariamente aceitam a pobreza material ou até chegam a vender as suas possessões e dar aos pobres (19:21), en­ contrando em Mateus, desta forma, a mesma ênfase na pobreza exterior como em Lucas. Assim entendido, Mateus en­ fatiza a bem-aventurança da liberdade da tirania das coisas exteriores e de viver sob o domínio dos céus, ao invés de sob o domínio das coisas terrenas (cf. 6:19-34). Os que choram (v. 4) — Nem todo choro é abençoado, e muita tristeza não encontra consolo. Esta beatitude faz eco com Isaías 61:1; e, do contexto, pode-se fazer referência à tristeza que se segue à percepção da sua pobreza espiritual. Mas 0 significado não pode ser confinado à tristeza devido ao pecado. Provavel­ mente a referência é feita ao consolo que encontram agora e no juízo final aqueles que choram no tempo presente, seja de­ vido às feridas e dificuldades da vida, ou devido aos seus pecados e aos do mundo. Os mansos (v. 5) — Este versículo faz eco com Salmos 37:11. Os mansos não são os fracos ou covardes. São os que, sob as pressões da vida, aprenderam a curvar as suas vontades e colocar de lado as suas noções próprias, diante da gran­ deza e da graça de Deus (Lohmeyer, p. 86). São caracterizados por uma confian­ ça humilde, em vez de arrogância inde­ pendente. A terra não pertence aos autoconfiantes ou que se auto-afirmam, que procuram possuí-la, mas aos “ humildes de espírito” , que estão dispostos a perder tudo por causa do reino. Este paradoxo está incluso no ensinamento mais amplo, que considera que a pessoa vive por morrer, recebe porque dá, e é a primeira 139


precisamente quando está disposta a ser a última: Os que têm fome e sede de justiça (v. 6) — Esta beatitude não teve origem entre pessoas cujo problema era a obesi­ dade. Fala de um anelo de justiça, que é comparável à tal fome e sede físicas como se conhece apenas em países onde o povo morre à míngua de comida ou água. Benditos são os que anseiam pela vitória do direito sobre o erro, nas suas próprias vidas e no mundo. A esses é assegurado que a justiça de Deus prevalecerá. Este versículo é escatològico, procu­ rando cumprimento na futura consuma­ ção do reino; mas a justiça também é um alvo para o presente (3:15; 5:10,20; 6:1, 33; 21:32). A justiça e o reino andam juntos (6:33). Onde Deus reina, ele reina em justiça. Tanto o reino como a justiça esperam um cumprimento escatològico, mas ambos são realidades presentes. Os misericordiosos (v. 7) — Na miseri­ córdia e no perdão (6:12, 14 e s.; 18:2135), o receber está ligado ao dar. Não que alguém mereça misericórdia pelo fato de ter sido misericordioso, pois então isso seria recompensa baseada em méritos. Não que alguém receba perdão por per­ doar, pois novamente isso seria recom­ pensa por mérito. Também não é que Jesus estabeleceu requisitos arbitrários para se receber misericórdia ou perdão. Pelo contrário, na natureza da misericór^ dia e do perdão não pode haver recepção sem doação. A condição pessoal das pes­ soas não misericordiosas ou não perdoadoras é tal que elas são incapazes de receber. A condição que as torna sem misericórdia ou não perdoadoras, tam­ bém as torna incapazes de receber mise­ ricórdia ou perdão. Os limpos de coração (v. 8) — Limpos traduz katharos, termo usado para puri­ ficação; e pureza de coração contrasta com as purificações rituais de mãos e corpo. Nos vários grupos existentes no judaísmo, um a aguda distinção era feita entre o que era ritualmente puro e o que 140

era impuro. Jesus apagou essa distinção, no interesse da verdadeira pureza, a de coração (cf. 15:1-20, 23:25). O termo coração dava a entender todo o ser inte­ rior, a mente tanto quanto os sentimen­ tos. Ser limpo de coração é ser simples ou íntegro, em contraste com a duplicidade. Ê a concentração de todo o seu “eu” em Deus. Essa beatiüide aparentemente se baseia em Salmos 24:3 e s., mas também faz lembrar Salmos 51:10. Embora a ênfase aqui seja na pureza íntima ou integridade, contrastando-se com a lim­ peza externa, ritual, não há indiferença para com a vida exterior de palavras e atos. A pureza de coração e integridade andam juntas, sendo que a vida exterior reflete a pureza interior. Os pacificadores (v. 9) — Jesus é o “Príncipe da Paz” (Is. 9:6). Ele é a nossa paz(Ef. 2:13 e s.). A participação é ativa e positiva, e não passiva. Jesus mergu­ lhou no meio da vida humana para criar ordem no caos, reconciliação na separa­ ção, amor em lugar de ódio. Israel fora designado “filho de Deus” (Os. 11:1). Jesus ensinou que os filhos de Deus são aqueles que se unem a ele na sua obra de pacificação. Ser chamados é ser, pois o nome reflete a natureza. Embora a paz acarrete o fim da luta e da guerra, é mais do que isso. Ê harmonia com o homem através de harmonia com Deus. Perseguidos por causa da justiça (v. 10-12) — Embora formalmente restem duas beatitudes, elas constituem apenas uma declaração básica. Em algum está­ gio da transmissão, as beatitudes podem ter terminado com o versículo 10 , pois o ritmo poético não continua nos versículos 11 e 12; e deles é o reino dos céus, no versículo 10, remonta-se ao mesmo no versículo 3. Com o versículo 5„ o total seria oito, de alguma forma correspon­ dendo às quatro beatitudes e quatro ais de Lucas. Sem o versículo 5 (muitos manuscritos o colocam antes do versículo 4), haveria sete beatitudes, número per­ feito. Mas da maneira como está, Mateus


apresenta nove beatitudes, sendo a oitava r3. Sal, Luz, e uma Cidade Situada Sobre e a nona basicamente a mesma. - ■ ^ |um Monte (5:13-16). P ’ f» z V ? '' ■ J r Embora a oitava beatitude de Mateus (v. 10) seja estilisticamente mais parecida i^ •' t l 3 V ós so is o sa l da terra; m a s se o sa l se insípido, com que se há de restaurarcom as primeiras sete, a nona (v. 11 e 12) • tornar lhe o sabor? p ara nada m a is p resta, senão faz um íntimo paralelo com a quarta de' ^ para ser lançado fora, e ser p isado pelos Lucas (6:22 e s.). As diferenças fraseolò- - hom ens. gicas entre a nona de Mateus e a quarta- ' í 14 V ós so is a luz do m undo. N áo se pode escon d er u m a cidade situ ad a sobre um de Lucas sâo tão grandes, ao ponto de m onte ; 15 n em os que a cen d em u m a can d eia ~1 sugerirem fontes diferentes; nâo obstan­ a colocam debaixo do a lq u eire, m a s no te, os seus paralelos são tão notáveis, > velador, e a ssim ilu m in a a todos os que ' inclusive a mudança feita por Mateus da ^ estão na c a sa . 16 A ssim resp la n d eça a v o ssa . luz diante dos h om en s, p ara que v eja m as terceira para a segunda pessoa, que suge­ v ossas boas obras, e glorifiquem a vosso rem um a origem comum, contudo, bem P a i, que está nos céu s. r no começo da tradição. Os versículos 11 e 12 não podem ser considerados como A responsabilidade dos crentes para dependentes do v. 10 , como freqüente­ com o mundo é estabelecida em três mente se afirma. Os versículos 11 e 12 quadros, intimamente relacionados: sal, continuam o pensamento do versículo 10 , luz e uma cidade situada sobre um mon­ mas sâo-independentes por origem. te. O ministério não pertence opcional­ A perseguição ou abuso, como tal, nâo mente, mas essencialmente ao povo de é uma bênção, mas aqui promete-se bên­ Cristo. Uma marca dos remidos é que elçs y ção para os crentes no seu sofrimento por são remidores. Os verdadeiros cristãos/, Cristo (Fil. 1:29). A bem-aventurança é nao estão apenas salvos, mas são salva-/^ válida apenas quando a pessoa sofre no dores, não por si mesmos, mas na medida^ serviço de Cristo e da justiça, e quando as em que Cristo vive neles. acusações de maus atos são falsas. Uma Sal era um importante preservativo de pessoa pode sofrer oposição porque anda alimentos, bem como tempero. Sem C riserrada, é ímpia, ou simplesmente pertur­ to, somos corrompidos e corruptores, badora. Para os que, como os profetas, inas ém Cristo nos tornamos uni elemen­ sofrem por amor da verdade e do direito, to sãlvaH O T^m j^jnu]^^ perece. O : há um galardão nos céus. Não há certeza sal puro, como o conhecemos~hoje, não ^ de vingança ou de recompensa entre os perde o seu sabor; mas o sal tirado do Mar homens, agora. Com certeza a recom­ Morto, nos tempos de Jesus, era uma mis­ pensa pertence ao futuro, mas, mesmo tura de sal e outras matérias. Exposto ao agora, do ponto de vista dos céus, aque­ tempo, o sal podia perder suas proprieda­ les que desta forma sofrem estão em um des tornando-se algo que apenas tinha estado de bem-aventurança. A certeza aparência de sal. Assim, o sal comercial pertence aos que sofrem por aquilo que podia ser adulterado, tendo a mistura en­ por fim prevalecerá. fraquecida pouco ou nenhum sabor. Uma Em Mateus, a perseguição dos cristãos grande possibilidade é de que Jesus pre­ movida pelos judeus está ligada com a tendia pintar o absurdo de um saF“sem opinião de que Israel sempre perseguiu sabor” , fisicamente impossível. Não meos seus profetas. Este ponto de vista não noFãFsurdo do que sal j;em saBpr^é^b se originou de um preconceito cristão, cristianismo,sem sabor^ que não é um a mas é encontrado no próprio Velho Tes­ força salvadora no, mundo. N adaJjSiãis . tamento (cf. II Crôn. 24:20 e s.; 36:15 e desprezado. , s.; Jer. 2:30; 26:20-23; I Reis 18:4; 19:10, É possível que sal aqui seja um símbo­ 14). . .,.,5 lo de síibedoria,,Isto concordaria com á f

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cláusula que diz, literalmente: “Se o sal (sabedoria) se tornar loucura.” Ã parte de Cristo somos trevas; ele é a verdadeira luz (4:16). Mas Cristo decla­ rou ao seu povo para ser a luz do mundo. Jesus ensinou que os seus seguidores devem brilhar e brilhariam. Ele não disse que uma cidade situada sobre um monte não devia, mas que não podia ser escon­ dida. Ele não disse que os homens não devem, mas que eles simplesmente não acendem uma candeia e depois a colo­ cam debaixo do alqueire. Qualquer pes­ soa acende uma candeia para colocá-la no velador, e assim ilumina a todos que estão na casa. Sem Cristo, somos lâmpa­ das apagadas; mas ele acende as suas lâmpadas para que elas possam iluminar todos os homens. Há uma possível alusão à comunidade sectária (essênia?) em Qumran. Eles se chamavam a si mesmos “filhos da luz” , mas haviam-se afastado do mundo, in­ cluindo grande parte do judaísmo. Eles estavam escondendo, em retiro sectário aquilo que chamavam de sua luz. É significativo que Jesus nos ordena que deixemos as boas obras serem vistas, e também ajlverte contra orgulho ou e x ir bição mediante “shows” de esmolas, ora"çãcTTj^qü^m fô:4,6^ ^ ). Ele nâo oferece caminho fácil. O crente" receBeTHens ^ ã râ viver em bondade e serviço abertam ente''H ãntê'3Tm un3Õ ^as é advertido ^ ã ra söTaze^lo'para glôria de Deus. 4. Jesuse a Lei (5:17-20) 17 N ão p en seis que v im destruir a lei ou os p rofetas: não v im destruir, m a s cum prir. 18 P orque em verdade v o s digo que, até que o céu e a terra p a ssem , de m odo nenhum p assará da lei u m só i ou um só til, até que tudo se ja cum prido. 19 Qualquer, pois, que violar um d estes m an d am en tos, por m enor que se ja , e a ssim ensinar aos h om ens, será cham ado o m enor no reino dos c é u s ; aquele, porém , que os cum prir e ensinar se rá ch a ­ m ado grande no reino dos céu s. 20 P o is eu vos digo que, se a v o ssa ju stiç a não exced er a dos escrib a s e fa riseu s, de m odo nenhum entrareis no reino dos céu s.

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Estes versículos aparecem apenas em Mateus, e trazem para a ribalta a oposi­ ção à interpretação farisaica da Lei mo­ saica, e a evasão antinomiana da Lei. Presume-se, aqui, que Jesus, na verdade, estava sendo acusado pelos fariseus de estar destruindo a Lei, e que outros erroneamente interpretavam a sua liber­ dade do legalismo como o desejo de se isentar da Lei. Os versículos 17 e 18 poderiam ser uma resposta tanto para as acusações farisaicas de que Jesus estava destruindo a lei e os profetas (as duas partes mais antigas do Velho Testamento) como fora a afirmação antinomiana de que a liber­ dade em Cristo significava a abolição da Lei. Para ambas se dirige a advertência de que a pessoa não deve começar a pensar (esta é a força do grego) que Jesus veio para abolir a Lei ou os Profetas. Ele não veio para abolir, mas para cumprir. Cumprir não significa apenas levar a efeito as predições, mas a realização da intenção da Lei e dos Profetas. Em con­ traste com os fariseus, Jesus expressou o significado verdadeiro e mais profundo da Lei, e, na verdade, correspondeu às suas intenções. Os antinomianos foram avisados de que nem um só i (letra menor do alfabeto grego) nem um só til (provavelmente um pequeno traço que formava parte de uma letra hebraica) passariam, mas que a Lei toda iria ser cumprida. O versículo 18 não deve ser interpretado de forma a contradizer a recusa do próprio Jesus em ser obrigado a uma interpretação inflexí­ vel e literal da Escritura. Este versículo pode ser melhor entendido como o seu protesto contra a disposição de colocar a Lei de lado. Tê s u s f r a õ que parece ser uma declaração extrema^ Os seus atos e ensinamentos demonstram que ele sem­ pre levou a Escritura a sério, mas nem sempre a considerou literalmente. Levar ao pé da letra pode ser tornar a Escritura trivial. Jesus não foi um neolegalista, tornando suprema a letra da Lei. A sua declaração eu vos digo mostra que ele


estava acima da Lei, e não ela acima dele. Significativamente, o seu primeiro “eu vos digo” aparece neste versículo. _ O versículo 19 é dirigido especialmente \ contra os antinomianos, advertindo-os a i não fazerem pouco caso de nenhum dos / mandamentos. A salvação é dádiva di~' Deus em misericórdia e perdão, mas os seus requisitos por isso não se relaxam. Não deve ser tolerada licenciosidade em nome de liberdade. O versículo 20 pode dirigir-se tanto contra os fariseus como contra os antino­ mianos. A justiça farisaica não satisfaz, tanto por causa de uma compreensão inadequada da Lei, como por não conse­ guir prestar verdadeira obediência ao que era compreendido. Jesus cumpriu a Lei e os Profetas, como intérprete final, tanto quanto devido à obediência total. A “justiça” farisaica é inadequada, e os antinomianos devem ter como alvo uma justiça maior, e não menor do que a encontrada entre os escribas e fariseus. Mateus parece não fazer distinção entre escribas (mestres da Lei) e o número maior de fariseus leigos. Jesus aceitou a Lei do Velho Testamen­ to em princípio e como compulsória per­ manentemente, mas ele interpretou Es­ critura com Escritura, elevando os requi­ sitos morais e éticos, e a primazia das leis pessoais sobre as leis rituais. Para ele, o que afinal de contas importava eram Deus e o homem — e não o sábado, a purificação de mãos, e coisas semelhan­ tes. O melhor comentário a este parágra­ fo é o que segue imediatamente a ele: seis ilustrações do que Jesus queria dizer quando falou em cumprimento da Lei. 5. As Intenções da Lei (5:21-48) Estas seis antíteses aparentemente co­ locam os Eu, porém, vos digo de Jesus sobre e contra a Lei. Na verdade, é a in­ terpretação da Lei feita por Jesus que se coloca sobre e contra a dos fariseus (Hu­ mmel, p. 50). Jesus não outorgou uma nova lei, mas, pelo contrário, desvendou

as intenções da antiga, e levou-a até a sua expressão mais completa. 1) A Essência do Homicídio (5:21-26) 31 O uvistes que foi dito a o s an tigos: N ão m a ta rá s; e, Quem m a ta r será reu de juízo. 22 E u, porém , vos digo que todo aquele que se en colerizar contra seu irm ão será réu de juízo; e quem d isser a seu irm ão: R aca, será réu diante do sinédrio; e quem lhe d isser: Tolo, se r á réu do fogo do inferno. 33 P ortan to, se e stiv e r e s apresentando a tua oferta no alta r, e a í te lem b rares de que teu irm ão tem a lg u m a co isa contra ti, 24 d eix a a li diante do a lta r a tua oferta, e v a i recon ciliar-te p rim eiro com teu irm ão, e depois v em ap resen ta r a tua o ferta. 25 Con­ cilia-te d ep ressa com o teu ad versário, e n ­ quanto e stá s no cam inho com e le ; para que não a co n teça que o ad versário te entregue ao ju iz, e o juiz te en tregu e ao guarda, e seja s la n ça a o n a p risão. 26 E m verd ad e te digo que de m a n eira a lg u m a sa irá s dali enquanto não p a g a res o ú ltim o ceitU.

Jesus abalançou-se até a disposição, a atitude ou intenção do pecado. O ato de homicídio propriamente dito tem suas raízes na ira, hostilidade ou desprezo por outrem. Jesus citou a ira (“ sem causa” em alguns manuscritos é possivelmente uma glosa do escriba), o fato de se insultar o irmão (raca é um termo que expressa desprezo, mas o seu significado exato é incerto), e chamar alguém de tolo (more, também um termo que expressa desprezo, mas pode referir-se a uma pes­ soa como teimosa e insubordinada) como sendo crimes pelos quais uma pessoa será levada perante a corte de justiça (corte local de 23 pessoas), o Sinédrio (junta governamental mais alta dos judeus), ou pelo qual ela esta sujeita à Geena. Ne­ nhuma corte procura condenar uma pes­ soa com base em sentimentos ou atitu­ des, mas sentimentos de ira e de desprezo são tão perigosos quanto os crimes pro­ priamente ditos, pelos quais uma pessoa é levada aos tribunais ou considerada merecedora do inferno. As palavras de Jesus não devem ser transformadas em um novo legalismo. Devem ser entendidas como protestos 143


radicais e advertências contra sentimen­ tos errados contra outrem. Isto não quer dizer que é tão errado matar quanto ter maus sentimentos ou má vontade para com outra pessoa. A vítima preferiria ser odiada a ser morta, e é melhor trazer o ódio sob controle, antes que resulte em homicídio, do que deixá-lo correr livre­ mente o seu curso. Na ocorrência repetida de teu irmão observa-se que Jesus tinha em mente a sua própria comunidade, pois esta é uma expressão usada em Mateus apenas para um irmão pertencente ao círculo cristão. Ira e desprezo não são apenas autodestruidoras, mas destroem a comunhão da igreja. O versículo 23 tem em vista não uma sinagoga, mas o Templo. É melhor inter­ romper ou abandonar o ritual do Tem­ plo, a fim de procurar reconciliação, do que tentar adorar a Deus enquanto ao mesmo tempo indisposto com o seu ir­ mão. Jesus nunca permite que a pessoa isole a sua relação com Deus da com o seu próximo. Ninguém pode compelir o seu irmão a ir com ele diante do altar de Deus para se reconciliarem, mas a pessoa não tem acesso a Deus, a nâo ser que procure aproximar-se do altar de Deus juntamente com seu irmão. Os versículos 25-26 recomendam que a reconciliação seja buscada independente­ mente dos tribunais, com a advertência de que se a pessoa escolher diferentemen­ te, precisa então deixar que os tribunais resolvam o caso. Os crentes são recomen­ dados a resolver as suas dificuldades numa relação direta uns com os outros (18:15-20; I Cor. 6:1-11). 2) Concupiscência e Adultério (5:27-30) 37 O uvistes que foi dito: N ão a d u lterarás. 28 E u, porém , vos digo que todo aquele que olhar para um a m ulher p ara a cob içar, já em seu coração com eteu adultério com ela . 29 Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te é m elhor que se perca um dos teus m em b ros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.

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30 E , se a tua m ão d ireita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de t i ; pois te é m elh or que se p erca um dos teus m em b ros do que vá todo o teu corpo para o inferno.

Os Dez Mandamentos proibiam o adultério, e também a cobiça da esposa de outrem (Êx. 20:17; Deut. 5:21). Sobre este alicerce, o judaísmo edificou em duas direções. Deu crescente atenção ao olhar concupiscente como pecado contra o casamento. Por outro lado, os rabis tendiam a reduzir o conceito de adultério a um pecado contra os direitos de pro­ priedade de outro homem judeu, sendo o adultério limitado a relações sexuais ilí­ citas com a esposa ou noiva de outro judeu. De acordo com este ponto de vista, a sedução de uma mulher solteira ou de uma esposa não judia não era considerada adultério. Jesus considerou o adultério como pecado contra qualquer mulher, como algo destrutivo em relação ao ofensor, à ofendida e ao casamento, antes de tudo como uma questão de atitude ou inten­ ção. O adultério pode ocorrer sem existir o ato em si. Jesus não disse que olhar concupiscentemente é tão mau como cometer o ato propriamente dito, pois o ato sexual continua o pecado já existente no coração e extende o dano a outra pessoa. É mais destrutivo, para todas as pessoas envolvidas, ceder abertamente à concupiscência do que submetê-la a certa medida de controle. O ponto de vista esposado é que não é suficiente apenas refrear-se do ato propriamente dito. Estar libertado da concupiscência é um requisito divino. O Novo Testamento não iguala tenta­ ção e pecado. Jesus foi tentado, mas não pecou. O ensinamento é que o pecado tem seu início no consentimento, não na tentação em si, e nâo primordialmente no ato propriamente dito. Obviamente, a concupiscência não pode ser controlada meramente pelo fato de se arrancar o olho direito ou cortar a mão direita. A concupiscência pode ser implementada pelo olho ou pela mão


restante, ou mesmo na ausência de mãos ou olhos físicos. Jesus está dizendo que a concupiscência sexual não é apenas uma forma de adultério, mas que a ameaça da concupiscência é tão forte e seus perigos são tão grandes que um preço comparável à remoção de um olho ou uma mão não é grande demais, se a pessoa está pro­ curando libertar-se dela. A idéia também é que a disciplina radical é requerida para que se goze uma vida livre deste mal. “Geena” é derivada de Hinom, um vale a oeste de Jerusalém, cena de sacri­ fícios a Moloque, e, mais tarde, lugar onde era queimado o lixo de Jerusalém. O termo passou a simbolizar lugar de julga­ mento para os ímpios. A descrição pres­ supõe uma existência corpórea depois da morte. 3) Os Danos do Divórcio (5:31,32) 31 T am bém foi dito: Quem repudiar su a m ullier, dê-lhe carta de d ivórcio. 32 E u, porém , vos digo que todo aquele que repudia sua m ulher, a não ser por c a u sa de in fid eli­ dade, a faz ad últera; e , quem c a sa r com a repudiada, co m ete adultério.

A discussão desta passagem geralmen­ te se centraliza ao redor da cláusula a não ser por causa de infidelidade, e ignora o verdadeiro problema do marido que se divorcia de sua esposa. Visto que a cláusula “a não ser” não se encontra em Marcos 10:11,12 ou em Lucas 16:18, é amplamente aceita a interpretação de que Mateus acrescentou essa cláusula, para tornar o ensino mais funcional na igreja de sua época. Mas a remoção desta cláusula não anula o problema da pas­ sagem. A verdadeira questão é por que, como se entende comumente, o julga­ mento recai sobre a mulher divorciada (que pode ser uma esposa inocente, sem a cláusula “ a não ser” , e, necessaria­ mente, com ela) e o segundo marido, no caso de novo casamento da parte dela. Dizer que a passagem ensina que o divór­ cio é comparável ao adultério, tornaria supérflua qualquer referência a novo casamento.

Mais livre de dificuldades é a interpre­ tação que retém a cláusula “ a não ser” , fk a a atenção sobre o primeiro marido como pessoa sob julgamento e observa a voz passiva dos verbos empregados. As­ sim entendido, Jesus diz que o fato de um marido se divorciar de uma esposa ino­ cente é sacrificá-la e ao seu segundo marido, no caso de ela se casar de novo. É tratar uma mulher inocente da forma como se trata uma adúltera, e forçar sobre ela um estigma, bem como sobre o seu casamento subseqüente. O que Jesus disse pode ser melhor compreendido contra o pano de fundo de um mundo centralizado no homem, em que um homem podia jactar-se de que, dando à esposa rejeitada uma carta de divórcio, ele estava protegendo os seus direitos. Jesus demoliu essas alegações, mostrando que os direitos de uma mu­ lher inocente são protegidos tão-somente se ela for respeitada como esposa. Um certificado de divórcio não a isenta de dano. A cláusula “a não ser” reconhece que a esposa culpada é responsável pela sua própria ruína. O texto grego não justifica a tradução “a faz adúltera” . O infinitivo é passivo (moicheuthenai), intraduzível em portu­ guês. Algo como “atira-lhe a pecha de adúltera” ou a “a torna vítima com respeito ao adultério” aproxima-se da idéia. Pior ainda a tradução Atualizada, que diz “a expõe a tornar-se adúltera” (SBB). Nada sabemos de Jesus que nos daria o direito de interpretá-lo como dizendo que uma esposa inocente (isto se segue necessariamente se a cláusula “a não ser” for mantida, e é presumida também por aqueles que estigmatizam a cláusula!) é adúltera pelo fato de seu marido ter-se divorciado dela. Os exege­ tas geralmente presumem que ela se casa­ rá de novo, mais isto é apenas uma dedu­ ção da cláusula seguinte. A chave de ambas as passagens de Mateus acerca do divórcio (5:32 e 19:9) é verificar que elas se concentram na culpa do marido, mostrando pelo menos duas 145


circunstâncias sob as quais ele peca con­ tra o casamento e é culpado de adultério. Em 5:32 (retendo a cláusula “a não ser” ) a idéia pode ser que, se um homem repudia uma esposa inocente e ela se casa de novo, ele participa da culpa do seu segundo casamento, pois criara a situa­ ção para tal (cf. Strecker, p. 131). Em 19:9 (retendo a cláusula “a não ser”) o marido que se divorcia de uma esposa inocente é culpado de adultério, se casarse de novo. Conservando a cláusula “a não ser” , estes pontos aparecem, em Mateus, espe­ cialmente relacionados com o esposo que se divorcia de esposa inocente: ( 1 ) o marido não é culpado se divorciar-se de esposa que já cometeu fornicação; ( 2) o divórcio sem novo casamento não deve, como tal, ser considerado corresponden­ te a adultério (isto concorda com Mar. 10:12; Luc. 16:18; I Cor. 7:11); (3) o marido que se divorcia de esposa ino­ cente automaticamente a estigmatiza como adúltera (tendo-a tratado como a uma adúltera) ou, por interpretação menos provável, ele compartilha da responsabiUdade da culpa subseqüente de sua esposa (inocente) divorciada, se ela tornar a se casar (5:32); e (4) ele é culpado de adultério, se casar de novo depois de divorciar-se de esposa inocente (19:9). Entendido desta forma, Mateus reconhece apenas uma razão válida para o divórcio e novo casamento: o da parte inocente, em que a outra cometeu forni­ cação. Por outro lado, ele é ainda mais severo do que Marcos ou Lucas acerca do marido que se divorcia de esposa ino­ cente (veja ainda 19:3-9). 4) Ensino Acerca de Juramentos (5:3337) 3 O utrossim , ou vistes que foi dito aos an tigos: N ão ju rarás falso , m a s cum prirás para com o Senhor os teu s ju ram entos. 34 E u, porém , vos digo que de m an eira nenhum a ju r e is; n em pelo céu , porque é o trono de D e u s; 35 nem p ela terra , porque é o escab elo de seu s p és; n em por Jeru sa lém , porque é a cidade do grande R ei; 36 nem

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jures p ela tua ca b e ç a , porque não podes tornar u m só cab elo branco ou preto; 37 Seja, p orém , o v o sso fa la r: Sim , sim ; não, n ào; p ois o que p a ssa d ai, v e m do M aligno.

Este parágrafo è uma conclamação para a simples honestidade, que torna os juramentos desnecessários, e exclui a casuística (manipulação de um juram en­ to ou da Escritura por parte de alguém de forma tal a enganar os outros e encobrir a sua própria falta de integridade). Os escribas haviam descoberto muitas ma­ neiras de torcer um juramento, ao mes­ mo tempo que fingiam observá-lo. Fazi­ am um juramento compulsório ou não, dependendo do seu fraseado. Jurar pelo ouro do altar era considerado compul­ sório, mas jurar pelo próprio altar, dizi­ am eles, não era compulsório. A idéia deles era de que um juramento é obriga­ tório se Deus estiver envolvido. O frasea­ do do juramento envolvia Deus ou não. Mas isto faz vista grossa ao fato de que o mundo todo pertence a Deus, e ele já está envolvido. Nós não o “importamos” para os nossos negócios. Jesus protesta não tanto contra os juramentos, como contra a desonestidade que se escondia por detrás das ficções legais. É claro que ele ensinou que para a pessoa honesta, a palavra dada não necessita de juramen­ to, pois o seu sim significa sim, e o seu não significa não. Esta passagem não está falando de profanação ou de juramentos civis usados hoje em dia, mas do per­ júrio e da casuística, a desonestidade que procura esconder-se por .detrás do frasea­ do esperto de um juramento. 5) Vencendo o Mal com o Bem (5:38-42) 38 O uvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por d en te. 39 E u , porém , v o s digo que não r esista is ao h om em m au ; m a s, a qu al­ quer que te b ater n a fa c e d ireita, ofei*ece-lhe tam b ém a outra; 40 e, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a tú n ica, la rga-lh e ta m ­ bém a cap a; 41 e, se qualquer te obrigar a cam inhar m il p a sso s, v a i com e le dois m il. 4Z D á a quem te pedir, e não v o ltes a s costas ao que quiser que lh e em p restes.


A lei de olho por olho e dente por dente foi introduzida para restringir um mal maior. Da mesma forma como o certi­ ficado de divórcio era requerido para dar alguma medida de proteção para a esposa que de outra forma estaria indefesa, a lei de olho por olho a principio pretendia restringir retaliação ilimitada (cf. Ex. 21:23-25; Lev. 24:19-21; Deut. 19:21). Porém Jesus penetrou além desta lei de retaliação igual ou controlada, e repu­ diou toda idéia de vingança. “Nâo resistir com o mal” pode ser uma tradução melhor do que não resistais ao homem mau. Jesus resistiu ao mal, e este é o dever do crente. Ninguém deve r é s is ^ tir ao mal com o mal, mas vencer o mal com o bem (cf. Rom. 12:21). Poucos crentes, hoje em dia, sofrem um golpe físico na face, mas o princípio de “dar a outra face” pode ser aplicado diaria­ mente em termos de auto-exposição aos insultos, mal-entendidos, ressentimentos e outras ofensas, quando uma pessoa tenta se relacionar pacífica ou construti­ vamente com os outros. Na lei judaica, a pessoa podia proces­ sar outra por causa da túnica, vestimenta de baixo com mangas; mas não podia processar ninguém por causa da capa, veste exterior que servia aos pobres como cobertor durante a noite (Êx. 22:26 e s.). Permitia-se aos soldados e oficiais roma­ nos que forçassem os nativos a carregar os seus suprimentos ou bagagem por uma mUha (cf. 27:32, quando Simão cireneu é compelido a carregar a cruz). Jesus admoesta os seus seguidores para irem além do que podia ser tomado ou requerido por lei, dando livremente a pessoas que não mereciam, e não se esquivando dos que iriam mendigar ou tomar-lhes algo emprestado. Alguém pode protestar que muitas pessoas não merecem tratamento tão generoso. Mas o mérito não é a base para a decisão. Se alguém não “ merecer” ser ajudado, nem nós mereceremos estar em uma posição de ajudar. A pergunta cristã nunca é: “O outro merece a minha

ajuda?” mas “Como posso ajudar?” O amor algumas vezes precisa se negar, mas a reação cristã deve ser controlada pelas necessidades dos outros, não pelos seus méritos ou pelos nossos “ direitos” . Embora uma consciência iluminada precise decidir como servir aos outros, o amor já decidiu que precisamos servir. 6) Amor Pelos Inimigos (5:43-48) 43 O uvistes que foi dito; A m arás o teu próxim o, e od iarás o teu in im igo, i i E u, porém v o s digo: A m ai os v o sso s Inim igos, e orai p elos que v o s p erseg u em ; 4S p ara que vos to rn eis filh os do v o sso P a i que e stá nos ~^cSíTs; porque e le faz n a sc e r o se u sol sobre m aus e bons, e fa z ch over sobre ju sto s e injustos. 46 P o is, se a m a rd es o s que vos am am , que reco m p en sa tereis? não fa zem os pubUcanos ta m b ém o m esm o ? 47 E , se saudardes som en te o s v o sso s irm ãos, que fazeis d em a is? não fa z em os gen tios ta m ­ b ém o m e sm o 48 Sede v ó s, p ois, p erfeitos, com o é perfeito o v o sso P a i ce le stia l.

O Velho Testamento não diz explicita­ mente: odiarás o teu inimigo. Há passa­ gens que encorajam hostilidade e vingan­ ça. O Manual de Disciplina de Qumran (L 4,10) ordena amor por todos os que Deus elegeu, mas ódio a todos os que ele rejeitou, inclusive “todos os filhos das trevas” . O mandamento para amar o próximo (Lev. 19:18) seria entendido por um judeu como sendo para amar outro judeu. O fariseu possivelmente restrin­ giria “próximo” a outro fariseu (eles se chamavam a si mesmos Haberim, isto é, “próximos”). Os cristãos são considerados como filhos do vosso Pai que está nos céus, quando personificam o amor dele. O amor de Deus não discrimina, mas der­ rama-se sobre amigos e inimigos igual­ mente. Ele não é motivado pelos nossos méritos. É governado pelo seu próprio caráter, que é sempre de autonegação e autodoação. O amor de Deus procura relacionar-se com amigo ou inimigo, buscando o seu bem, sem perguntar pelo custo. A palavra grega agape, por si pró­ pria, não significa um determinado tipo 147


de amor. Os publicanos também podem amar. O que se dá a entender por amor não precisa ser derivado de uma palavra grega, mas do que vemos de Deus revela­ do em Jesus Cristo. O amor recomenda­ do é aquele que se tornou encarnado em Jesus. Alguns dos dons de Deus, como o seu sol e chuva, podem ser dados a despeito do caráter ou da atitude dos recipientes. Dons mais elevados, como o perdão e a novidade de vida, apenas podem ser ofe­ recidos; por sua natureza, eles não po­ dem ser impostos. Mas Deus nunca dá como negociante, esperando receber. A doação calculada, para ganhar de volta, não representa o amor de Deus, mas, pelo contrário, é um tipo de amor pagão. A perfeição requerida por Jesus (v. 48) não é o legalismo dos fariseus ou dos Qumranistas, mas uma compreensão mais profunda e radical das intenções da Lei. Mateus encontra perfeição sem pecado apenas em Jesus, mas não hesita em representar Jesus fazendo requisitos radicais, finais e absolutos aos seus segui­ dores. Sede vós, pois, perfeitos está gra­ maticalmente no futuro, mas a força é de imperativo. Jesus não apenas predisse perfeição futura. Ele sustentou que a perfeição de Deus é o ideal, ou o requi­ sito, agora. Interpretar perfeito (teleios) como “ amadurecido” se torna estranho, quando se continua a ler; “como Deus é amadurecido” . Bornkamm (p. 98) é exegeticamente correto, em encontrar “inteireza” como o antecedente veterotestamentário de teleios (o hebraico shalom e tamim), citando I Reis 11:4 como o exemplo mais elucidativo. Em sua velhice, o coração de Salomão não era “perfeito” para com o Senhor seu Deus, como fora o coração de Davi, seu pai. Por padrão nenhum, Davi era moralmente ou eticamente sem peca­ do. O fato é que Davi, o pecador, tinha um coração que era dedicado em “intei­ reza” a Deus, não de modo dividido, embora ele tivesse contraditado esse coração, devido a sua fraqueza e pecado. 148

Nem mesmo esta exegese deve enfra­ quecer o requisito do versículo 48. Deus requer perfeição, embora aceite as pes­ soas devido à Sua misericórdia, e não ao mérito delas. Dentro do dom da salvação existe uma exigência absoluta. O homem se rebela contra isto, preferindo o lega­ lismo, em que sente que adquiriu por seus meios a sua salvação, ou o liberti­ nismo, em que a graça é toda dons e nenhum requisito. Jesus nos chama para o caminho estreito, que escapa tanto ao legalismo quanto ao antinominianismo. A salvação é dom que nunca se adquire pelos próprios meios, e o cristão continua sendo ainda um pecador que precisa de perdão diário. A pessoa nunca está mais longe da bondade do que quando pensa que é boa. Por outro lado, o seguir a Jesus começa com a conversão ao reino (reinado) de Deus, submissão a determi­ nações que são finais e absolutas. O requisito de perfeição nunca é satisfeito, mas está aí para ser observado. 6 . Motivos na Vida Religiosa (6:1-18)

A primazia dos motivos na vida reli­ giosa é ilustrada nas áreas de esmolas, oração e jejum. Jesus prezava muito estas três manifestações, e presumia que os seus seguidores as iriam praticar. O seu ponto de vista era que os motivos por detrás das expressões religiosas dão a estas o seu significado. A religião como espetáculo, para impressionar a Deus, a outras pes­ soas ou a si mesmo, é fals.a e fútil. A proposta desenvolvida nas três ilustrações é estabelecida no versículo 1. Fazer as vossas boas obras é pensar na justiça como desempenho exterior. A fa­ lácia começa no fato de não reconhe­ cermos que os valores morais, éticos ou espirituais não são inerentes nas coisas feitas ou ditas. Os atos e palavras exte­ riores podem originar-se de motivos tan­ to pagãos quanto cristãos. Nenhum ato, ou palavra, é de si mesmo mau ou bom; é necessário que haja qualidades morais, produzidas por motivos, intenções, con-


texto e outros fatores. Utn empurrão, por exemplo, pode ser por si mesmo nem bom nem mau. Pode ser um ato rude de auto-afirmação, ou um ato heróico, como quando um a pessoa, com o risco de sua própria vida, empurra outra do ca­ minho de um carro que vem sobre ela à toda. Um beijo pode expressar amor e confiança, ou covarde traição, como quando Judas beijou Jesus. Esmolas, oração e jejum podem ser expressões significativas de religião autêntica.^Também podem ser feitos exteriores calcula­ dos, para ganhar vantagem egoística. 1) Esmolas (6:1-4) 1 G uardai-vos d e fa zer a s v o ssa s boas obras diante dos h om en s, p ara serd es v isto s por e le s ; de outra sorte nào ter e is r e co m ­ p en sa junto de v o sso P a i, que e stá nos céu s. 3 Quando, p ois, d eres esm o la , não fa ç a s tocar trom b eta d ian te de ti, com o fa zem os hipócritas, n as sin a g o g a s e n a s ru as, p ara serem glorificad os p elos h om en s. E m v e r ­ dade v o s digo que já receb era m a su a r e ­ com p en sa. 3 M as, quando tu d eres e sm o la , não saib a a tu a m ão esq u erd a o que faz a d ireita; 4 para que a tu a esm o la fique e m secreto; e teu P a i, que v ê e m secreto , te recom p en sará.

Esmola traduz o grego eleemosunen, termo usado para atos de misericórdia mais inclusivos que esmolas. Aqui a refe­ rência especial é a dádivas feitas por caridade. Quer Jesus tenha querido, quer não, dizer que algumas pessoas literal­ mente tocavam trombeta para chamar a atenção para os seus atos de caridade, o motivo oculto é revelado através desta figura. Tocava-se trombeta durante jejuns em épocas de seca. “Hipócrita” é tradução de uma palavra usada em tea­ tro para “ator” , pessoa que representava um papel. Deus não fica impressionado com atos religiosos destinados a impressioná-lo. Se uma pessoa “representa um papel” religiosamente, para ganhar o louvor dos homens, pode ter sucesso, mas esse louvor é o máximo que ela pode esperar. Já receberam a sua recompensa (v. 2, 5,16) emprega um termo comercial que se refere ao ato de passar recibo (apechein). O ato de dar esmolas, oração

ou jejum como representação pode cha­ mar atenção; mas quando a pessoa é reconhecida desta forma, pode muito bem exigir recibo, pois recebeu tudo que podia, pela sua representação. A ordem, não saiba a tua mão esquer­ da o que faz a direita, não deve ser interpretada à parte de outros ensinos de Jesus, v.g., que a nossa luz deve brilhar e nossas boas obras serem vistas pelos ho­ mens, para a glória de Deus (5:16). Cada versículo é equilibrado por outro. Tentar reduzir esses ensinamentos a um sistema rígido é perder de vista a sua intenção. Devido à presença de versículos, como 5:16 e 6:3, lado a lado, no mesmo ser­ mão, emerge o importante princípio de que a Escritura deve ser interpretada pela Escritura. A verdade toda nunca pode ser capturada em uma só declara­ ção. Em 5:16 o ensinamento é que a pes­ soa deve partilhar com os outros o que recebeu de Deus, fazendo-o para o bem do homem e para a glória de Deus. Em 6:3 está a advertência de que a busca egoística de seus interesses vicia os atos religiosos. A lâmpada deve espargir a sua luz (5:16), mas não deve ela mesma aparecer (v. 3). Recompensa é prometida para esmo­ las, oração e jejum feitos em secreto (v. 4, 6 , 18). A privacidade ordenada não deve ser irrestrita. Jesus praticou publicamen­ te atos de misericórdia, orou e jejuou. A advertência deve ser interpretada segundo o seu contexto. A privacidade é prescrita para a pessoa cuja tentação é representar teatralmente diante dos outros. A expressão religiosa pode ser aberta e sincera. “Fazer o bem” em segredo pode se tornar uma obsessão tão hipócrita e egoísta quanto exibir aberta­ mente a sua religião. A promessa de recompensa é por si mesma uma bênção e um perigo. O genuíno serviço traz consigo a sua recompensa, mas a recom­ pensa é proporcional à liberdade que a pessoa tenha de buscar a mesma recom­ pensa. Aqueles que receberam as maio­ res recompensas no juízo nem haviam 149


percebido que se haviam empenhado em serviço meritório (cf. 25:37 e s.). A pala­ vra “publicamente” encontrada após teu Pai, que vê em secreto, te recompen­ sará (v. 4, 6 , 18), provavelmente é espú­ ria, embora se encontre em alguns ma­ nuscritos antigos.

nismo (v. 7). Assim vistos, os versículos 5 e 6 perfazem uma unidade acerca da oração, intimamente relacionada com os versículos 2-4 e 16-18, três ilustrações advertindo contra o esforço para impre^ sionar os homens com a vida religiosa "da pessoa. A unidade 6:7-15 fala do perigo de 2) Oração (6:5-15) tentarmos usar a oração como meio jdê quando orar d es. não se ia ls com o os impressionar Deus ou de compeli-lo a se, !*<•'I j,í h iggcritas; p ois g o sta m de orar e m pé nas curvar diante da~nossa vontade. Maior sin agogas, e à s~ esq u in a s das ru as, para t serem visto s pelos h om en s. E m verd ad e vos evidência de que 6:7-15 foi inserido na ^ g o que já receb era m a su a recom p en sa. çt.'j; tríplice estrutura, pode ser vista na ocortu, quando o rares, e n t r a j o teu q u a r - ^ renda repetida de hipócritas, nos versíto, e , fechando a porta, ora a teu P a i que ^ ^ n ir ee stá secreto ;: ee teu teu P Pa,i. se- S Culos 2, 5 e 16, enquanto, em 6. 7-15, a s tá .eem m secreto a i, oiie que vê v ê em e m se advertência é contra ser como pagãos ereto, te recom p en sará. 7 E , orando, n â Õ lísêis de v ã s rep etiçõ es. (gentios em nossa tradução), com o os gen tios; porque p en sa m que peIo^,jj, A estrofe 6 :5,6 desenvolve, em relação seu m uito fa la r serão ouvidos. 8 N áo vos * '

assemelheis, pois, a eles; poraue vosso Pai P sabe o que vos é n ecessá rio , a n tes de vós lho p ed ird es. 9 P ortan to, orai v ó s d este modo: P ai nosso que e stá s nos céu s. ,, r.rí ^• Santificado se ja o teu n om e ; } 1 10 V enha o teu reino, Seja feita a tua vontade. A ssim n a terra com o no céu; 110 p ão n osso de ca d a dia nos dá h oje ; 1? E perdoa-nos a s n o ssa s d ívid as. A ssim com o nós ta m b ém tem o s perdoado aos nossos deved ores ; 13 E não nos d eix es en trar em ten tação : M as livra-nos do m al. fo r q u e teu é o reino, o poder, e a glória, 'fT'"'p ara sem p re. A m ém . “ .K ls . 14 P orque, se perdoard es aos h om en s as V» ^ " suas ofen sas, tam b ém v o sso P a i C elestial . vos perdoará a vós ; 15 se' porém , não perdo- “ , ardes ao s h om en s, tam pouco v o sso P a i perdoará v o ssa s ofen sas.

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Três parágrafos cuidadosamente equi­ librados, de igual extensão, e cada um t .f.71 deles terminando com a promessa de ■ ' recompensa do Pai (v. 4, 6 , 18), podem ser vistos, se por um momento se coloca de lado os versículos 7-15. Em outras ' palavras, 6:7-15 parece ter sido inserido ^ em uma estrutura anterior de três estro­ rwj fes equilibradas acerca de esmolas, pra-_ ção e jejum. A Oração Modelo (v. 9-13), desta forma, é um contexto que adverte contra o erro de fazer da oração um bal­ buciar ininteligível, como é feito no paga­ 150

oraçao, as mesmas ideias expressas com respeito a esmolas: o mau exemplo dos hipócritas, a tentação de fazer praça da piedade na sinagoga ou nas ruas, o desejo de^ger visto pelos homens, a,adver­ tência de quê~STI~motiyaç:ão nã^ nada mais d o ^ u e o louvor dos homens, pelo quaf bim pòde ser dada “plena quitação” , e a admoestação para se orar em secreto, com a certeza da recompensa do Pai. Indubitavelmente, segue-se que mera­ mente entrar no teu quarto e, fechando a porta, orar tóo elimina a po^ibilidade de hipocrisia. Elimina outros oúvmtes humanos, inas, ainda assim, a pessoa pj^ e ser oseu próprio ouvinte; e'dã'põ3ê lêntar impressionar Deus com a sua oração. A palavra acerca de oração secre­ ta deve ser levada em consideração de acordo com o contexto. Esta não é uma regra que governe toda a nossa vida de oração. Jesus orou em público, e nós também podemos fazê-lo. Esta estrofe trata apenas do perigo de orar para ser ouvido pelos homens. Outro pr^ le n m ainda é apreseaíado nn vpr»;íc u lo 7. O 3F~Entar, através da oração, compelir Deus a^fazer o que_qu.eremos. Jesus comparou esta prática com o balbucio dos pagãos. Embora esta cláusula possa servir como advertência


contra “Knguas” , como as que ocorre­ maneira de uma criança tratar o seu pai, ram em Corinto (cf. I Cor. 14), é pfová- .e não ã l orma bem mais formal, “o pai” vel que a advertência seja contra o uso da ou “nosso p ar j m as'a palavra simples e oração para controlar Deus para obter íntima, “Papai” . Jesus conhecia a Deus vantagem egoística. Jesus não proíbe a, '^como Pái,^Î véÍo° para nos capacitar a sincera repetição em oração. No Getsê­ conhecê-lo dessa forma. O Pai nosso mane ele orou três vezes pela possível de ^ a té íis jé adaptado ao uso congregaremoção do seu “ cálice” (26:39,42,44). cional, e enfatiza o fato de aue nâo pode­ Mas Deus não pode ser pressionado mos excluir os ouJtos, quando nos^achea agir devido ao nosso muito falar. A p m o s a Deus (cf. 5:23 e s.). função dajjracão não é informar Deus, O que estás nos céus de Mateus pre­ pois ele já sabe o que vos é necessário, serva p equilíbrio entre reconhecer a proantes de vós lho pedirdes. Ele não precisa ximidade e a transcendêticia f e ^Deuj . ser persuadido, pois já está interessado Com a intimidade familiar. Deus pode no nosso bem. ser tratado de Pai, mas permanece como Ei^tão, p o r_ ^ e orar? O propósito da o Deus transcendente, que deve sempre oração não é informar a Deus ou mudar ser abordado em solenidade e reverêticíã. a sua voiitade. mas, como dÍ2C^ e o rfflr O paradoxo da proximidade e da trans­ ^ a rk iiè s ij lancar mão da sua disposição. cendência nunca é perdido na revelação Não que Deus precise ser solicitado, mas bíblica. Deus está em Cristo, e nós en­ o fato ê que nós temos necessidade de contramos Cristo nas outras pessoas pedir. Oração é comunhão com Deus, (25:31-46), mas ele é um a pessoa diferen­ em que somos levados a novos relaciona­ te daquelas em quem o encontramos. mentos e novas atitudes, abrindo, desta Para o deísmo. Deus está distante e fora forma, o caminho para as bênçãos que de alcance; para o panteísmo. Deus é Deus já se propôs a dar. Uma das acep­ tudo e tudo é Deus; para o sentimenta­ ções da palavra oração é a de pedir, e lista. Deus pode ser “aquele lá em cima” . reflete a nossa infeliz tendência para Para Jesus. Deus não é nenhum desses. reduzir a oração a simples prece (pe­ Ele é Pai e é Deus, sempre próximo e T dido). A oração inclui prece, mas é muito sempre para ser tratado com reverência. V mais do que isto. EK'ëTnâiFcÔîno abrir-, A oração para que venha o teu reino"^ se para Deus em confiança e louvor, para considera tanto o triunfo final do governo / que se possa receber gratuitamente os de Deus na Parousia, quanto a submis­ seus dons, e se submeter aos seus requi­ são crescente e imediata ao seu governoy sitos. na terra. O mais simples “venha o teu A Oração Modelo (v. 9-13) — A Ora­ reino” defLucaT'preserva a ênfase escação Modelo, em Mateus, tem paralelo tológica pnm ana, o triunfo final do reino em Lucas 11:2-4. A forma da de Lucas é de Deus; mas_Q assim na terra como no mais curta, e,. no seu todo, mais primi­ céu de® Íate^J>reserva uma preocupa­ tiva, embora possa ser que Mateus esteja ção autêntica de Jesus pela submissão preservando algumas formas mais anti­ agora ao reino de Deus. O reino dos céus gas nas petições de pão e perdão. O traé tanto presente q u a n to ^ lu ^ r õ r ^ náo tamento simples de em LucasT b a liz a d o já, mas será consumado l^epresenta um a p faticaaas mais signifi­ apenas na vinda final de Cristo. cativas, nos ensinos de Jesus. O judaísmo Seja feita a tua vontade se relaciona já conhecia Deus como Pai, mas o trata­ intimamente com a oração para que o mento direto, como que infantil (Abba, reino de Deus venha. “Vontade” traduz em aramaico) representa algo novo na um substantivo grego com um sufixo de prática e ensinamentos de Jesus. Abba resultado (thelêma), enfatizando não o (cf, Rom. 8:15 e s.; Gál. 4:6) era a ato de querer tanto quanto o que é dese­ 151


jado. Ê a oração para que o que Deus^ desejou seja cumprido tanto na terraI quanto no céu. ___ I — Tanto Mateus como Lucas apresen­ tam a frase o pão nosso de cada dia. “De cada dia” tenta traduzir epiousion, mas o significado é incerto. “ O nosso pão para o dia vindouro” pode ser uma tra­ dução preferível, mas assim mesmo é ambígua, podendo significar tanto o pão para o dia corrente quanto o pão para o amanhã. Outra possibilidade é pão “ de necessidade” ou nosso pão “necessário” . Não foi encontrada nenhuma ocorrência da palavra epiousion além de na oração modelo. Dois exemplos foram aventados, mas provou-se que um foi apresentado por engano, e o outro não pode ser veri­ ficado, tendo sido citado como existente em um manuscrito agora perdido. A compreensão d e ( ^ c ^ a c e r c a da pala­ vra permite a frase; “Continua dandonos dia a dia ” F.le claramente conside­ rou esta frase como um a petição de pão literal para cada dia. A fórmula de Ma­ teus pode ser mais primitiva: Dá-nos hoje. O tempo aoristo (dos) não pode legitimamente ser usado para se argu­ mentar que esta palavra precisa referir-se a uma ação só ou a um a outorga permanente de pão, de uma vez por todas, como por exemplo, para o ban­ quete messiânico no fim do século. Isto seria compreender mal o tempo aoristo grego, que apenas trata uma ação sem descrição, mas não diz se a ação propria­ mente dita era única, iterativa, ou extendida(cf. o tempo aoristo em Lucas 19:13 — “Negociai até que eu venha” ; e em João 2:20 — “Em quarenta e seis anos foi edificado este santuário”). Que epiousion se refere ao pão para amanhã (tradução inglesa) é possível, mas não conclusivo; mas argumentar que ele se refere “ao grande Amanhã, à con­ 21 Bruce M. Metzger, “How Many Times Does ‘Epiousios’ Occur Outside the Lord's Prayer?” The Ezpodtoiy Times, LXIX, 2(nov. 1957), p. 52-54. 22 Como por J. Jeremias, The Lord’s Prayer (Philadel­ phia: Fortress, 1964), p. 13.

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sumação final” (J. Jeremias, p. 25), dando-lhe, desta forma, um significado escatològico, é edificar sobre um alicerce _muito frouxo. O hoje de Mateus e o cada“/ dia de Lucas entendem a petição como sendo de pão literal para as necessidades diárias. Ler escatologia nesta petição é altamente precário. Excluir referência ao pão material, coisa tentada já no tempo de Orígenes, é contradizer a preocupa­ ção óbvia de Jesus para que o povo tenha pão, claramente expressa no fato de ele ter alimentado cinco mil pessoas (14: 13-21) e provavelmente refletida na Oração Modelo. As nossas dívidas de Mateus (v. 12) é, provavelmente, mais primitivo do que “ ps nossos pecados” de Lucas, pois este também se refere todo aquele que ims deve” (11:4). Lucas colocou uma palavra mais familiar e interpretativa: “peca­ dos” . Esta é a única petição acerca da qual Mateus dá explicações suplementa­ res, quando cita Jesus ligando o fato de perdoarmos ao de sermos perdoados (v. 14 e 15). Como foi dito acerca da misericórdia (5:7), o mesmo se diz acerca do perdão — a pessoa precisa estar aber­ ta para dar a fim de que seja capaz de receber. Isto não deve ser d^cartado ^ r ^ medo de “üma doutrina de “obras” ou mérito. O requerimento não é arbitrário. Pertence inerente e inescapavelmente ao perdão. Não que Deus não esteja disposto a perdoar aquele que não perdoa, mas á condição da pessoa que não perdoa é tal que ela é incapaz de receber perdão. Quando uma porta se fechà, fecha-se de ambos os lados. O que bloqueia o fluxo de misericórdia ou perdão de nós, bloqueia o seu fluxo para nós (cf. 18:21-35). A petição: não nos deixes entrar em tentação (não nos induzas à tentação na IBB antiga) não dá a entender que Deus nos tenta (cf. Tiago 1:13-15). Esta pode ser a forma poética de dar forca a uma declaração positiva.^Jivra--nos do ms cÓIõcaiídõ^ em contradição à negativa. U m ^ a rd e lp seria: "Dá-nòs nãÕ trevas, -------------■ u z petição ? ^ -----masí ^ T Esta pode ser um


contraste deliberado à orgulhosa oração do homem cheio de justiça própria, que convidava Deus a testá-lo e ver a sua bondade. Se é assim, Jesus não estava afirmando para se repetir esta oração, mas a dizer: “ Senhor, não me testes; pelo contrário, livra-me das tentações que iá estão sobre mim.” Uma teoria sustenta que peirasmos (tentação ou prova) se refere à “grande prova final” , e, desta forma, é uma oração pedindo libertação da apostasia, quando o anticristo faz o seu assalto final. Esta opinião é forçada, e deve ser rejeitada (cf. J. Jeremias, p. 30). Peirasmos pode indicar a prova de fogo que introduz o fim do mundo (cf. II Ped. 2:9; Apc. 3:10), mas o termo pode referir-se a provas e tentações que nos sobrevêm a qualquer tempo (cf. Tiago 1:2). Mal traduz uma palavra grega que pode ser tanto masculina como neutra — tanto o maligno„&omo o mal. A bela e queridajioxologia (v. 13), por todas as indicações, não e_Qriginal de Mateus. Não aparece em Lucas. Aparece já no Didaquê (começo do segundo sécu­ lo) em forma abreviada: “Pois teu é o poder e a glória para sempre.” Também aparece em vários manuscritos em outras formas abreviadas, e, finalmente, emer­ giu na forma extensa largamente conhe­ cida hoje (aparentemente modelada se­ gundo I Crônicas 29:11 e s.).

ção. Os fariseus jejuavam duas vezes por semana (Luc. 18:12) e faziam disso um teste de piedade. Jesus se recusava a ser guiado por um calendário. Ele jejuava como prática normal, em tempos de crise (cf. 4:2), achando-o significativo quando espontâneo, em situações de tristeza ou de crise (cf. 9:14-17). Abstinência pode ser um meio individual de libertar a pessoa de certas preocupações (v. g. co­ mida, sono, diversão ou trabalho), em favor da concentração em algo que, pelo menos na ocasião, representa uma ativi­ dade mais importante (cf. I Cor. 7:5). Unção era uma figura de alegria, proibi­ da no Dia da Expiação ou em outras ocasiões de jejum ou tristeza; mas Jesus propôs que a pessoa uiya a sua cabeça quando estiver jejuando, desta forma evi­ tando qualquer exibição de “humilda­ de” . 7. Liberdade da Tirania das Coisas Ma­ teriais (6:19-34)

19 N ão aju n teis p ara v ó s tesou ros n a te r ­ ra, onde a tr a ça e a ferru g em o s con som em , e onde os la d rõ es m in a m e roubam ; 20 m a s ajuntai p ara v ó s tesou ros no céu , onde nem a tra ça n em a ferru g em os con som em , e onde os lad rões n ão m in a m n em roubam . 21 porque onde e stiv e r o teu tesou ro, a í e sta rá tam b ém o teu coração. A can d eia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teu s olh os forem bons, todo o teu corpo te rá luz; 23 se , p orém , o s teu s olhos forem m a u s, o teu corpo se r á te n e ­ 3) Jejum (6:16-18) broso. S e, portanto, a lu z que e m tl h á são 16 Quando jeju a rd es, não v o s m o streis trev a s, quão gran d es sã o ta is trev a s! contristados, com o os h ip ócritas; porque 24 N in gu ém pode se r v ir a d ois sen h ores; e le s d esfigu ram os se u s rostos, p a ra que os porque ou há de odiar a u m e a m a r o outro, hom ens v eja m que estã o jejuando. E m ou h á de d ed icar-se a u m e d esp rezar o verd ade v o s digo que já r eceb era m a su a outro. N ão p od eis serv ir a D eu s e à s riq u e­ recom pen sa. 17 Tu, p orém , quando jeju a res, zas (M am om ). unge a tu a ca b eça , e la v a o teu rosto, 18 para 25 P o r isso v o s d igo: N ã« e ste ja is a n sio ­ não m ostrar ao s h om en s que e s tá s jejuando, sos quanto à v o ssa v id a , pelo que h a v eis de m as a teu P a i, que e stá em secreto ; e teu com er ou p elo que h a v e is de beb er; n em , P ai, que v ê em secreto , t^ reco m p en sa rá . quanto ao v o sso corpo, p elo que h a v eis de v estir. N ão é a vid a m a is do que o alim en to, Jesus algumas vezes jejuou, e esperava e o corpo m a is do que o v estu ário? 36 Olhai para a s a v e s do céu, que não se m e ia m , n em que os seus seguidores o fizessem. O que ceifa m , n em aju n tam e m c ele iro s; e vosso ele rejeitou foi o jejum como exibição. A P a i c e le stia l a s a lim en ta . N ão v a ie is vós lei mosaica não requeria especificamente m uito m a is do que ela s? 27 Ora, qual de vós, o jejum, mas entendia-se que Levítico por m a is an sio so que e ste ja , pode a c r e s­ 16:31 o requeria para o Dia da Expiacen tar um côvado à su a estatu ra? 28 £ pelo

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que h a v eis de v estir, por que an d ais a n sio ­ sos? Oihai para os lírio s do cam p o, com o crescem ; não trab alh a m n em fia m ; 29 contudo, v o s digo que n em m esm o Salom ão em toda a su a glória s e v e stiu com o um d eles. 30 P o is, se D eu s a s s im v e ste a erv a do cam po, que boje e x is te e a m a n h ã é lan ça d a no forno, quanto m a is a v ó s, b om en s de pouca fé? 31 P ortan to, não v o s in q u ieteis, dizendo: Que h a v em o s de com er? ou: Que h avem os de beber? ou: Com que nos h a v e ­ m os d e v estir? 32 (P o is a tod as e sta s co isa s os gen tios p rou ram .) P orque v o sso P a i c e le stia l sa b e que p r e c isa is de tudo isso . 33 M as b u sca i p rim eiro o seu reino e a su a ju stiça , e tod as e s ta s c o isa s v o s serão a crescen ta d a s. 34 N ão v o s in q u ieteis, p ois, p elo dia de am anhã; porque o d ia de am a n h ã cu id a rá de si m esm o . B a sta a c a d a d ia o seu m al.

Esta secção parece ser governada pelo tema de liberdade da tirania das coisas materiais. A alternativa é o reino de Deus (v. 33). A escolha está entre encontrar os seus valores finais nos tesouros que pere­ cem, ou nos que permanecem (v. 19-21), entre a mesquinhez, que deixa a pessoa nas trevas, ou a generosidade, que propi­ cia luz (v. 22 e 23), entre a adoração de Mamom ou Deus (v. 25-34). Te&ouro no céu (v. 19-21) — A adver­ tência é dupla: (1) os tesouros na terra são perecíveis e (2) a pessoa compartilha do destino daquilo em que coloca o cora­ ção. Não existe segurança permanente nas coisas materiais. Traça, ferrugem e ladrões ilustram algumas das ameaças a essa “segurança” . O aviso contra a confi­ ança nas coisas materiais não é feito apenas para os ricos. A casa que os ladrões minam e roubam pode ser a casa de adobe do homem pobre. A palavra traduzida como ferrugem (brósis) provavelmente deveria ser tradu­ zida como “comida” , com possível refe­ rência à destruição de roupas, ou alimen­ tos estocados, por ratos ou outros ani­ mais daninhos. Ninguém entende os ensinos de Jesus, a não ser que veja que ele estava profun­ damente interessado em que as pessoas tivessem o essencial para a vida, e tam­ bém, por outro lado, que ficassem livres 154

da tirania das coisas materiais. Jesus não era um asceta nem requeria uma absten­ ção de uma vida física. Ele curou os doentes, alimentou os famintos e chamou a nossa atenção para as necessidades materiais de outras pessoas, fazendo dis­ so o teste do nosso relacionamento com ele (25:31-46). Ao mesmo tempo, adver­ tiu contra o erro de fazer das coisas materiais o objeto de nossa confiança ou afeição. Jesus deu pão aos famintos, mas avisou que o homem não vive sò de pão. O coração da pessoa está onde estiver o seu tesouro, e ela compartilha do destino daquilo a que se dedica — seja a coisas perecíveis, seja a imperecíveis. A candeia do corpo (v. 22 e 23) — Esta parábola é edificada sobre a analogia do olho bom, que pode focalizar bem os objetos, e o mau, que não pode. O olho serve de lâmpada, ou candeia, para o corpo, dando-lhe luz, deixando-o em tre­ vas. Aplicada ao problema de possessões materiais, esta lição pode ser que, se a pessoa divide a sua atenção entre Deus e as coisas materiais, pode ser que não esteja se focalizando bem em nenhum dos dois. Bons (haplous) tem significado singular, e é empregado, algumas vezes, em relação à generosidade (cf. Tiago 1:5, onde se diz que Deus dá generosamente, haplõs; cf. também Rom. 12:8; II Cor. 8:2; 9:11-13). “Maus” traduz a palavra poneros, algumas vezes usada para a disposição mesquinha, rancorosa (cf. 20: 15: “Ou é mau — poneros — o teu olho porque eu sou bom?” cf. também Deut. 15:9; Prov. 23:6). Assim entendida, a parábola ensina que a pessoa generosa (olhos bons) anda na luz, mas a pessoa mesquinha (olhos maus) anda nas trevas. Outra abordagem é ver os olhos bons representando abertura ou receptividade para Deus, e os olhos maus representan­ do a desconfiança, que exclui a pessoa do mundo de luz onde Deus está. Assim entendida, esta parábola concorda com a do semeador (veja 13:1-9, 18-23), ao ensinar que a pessoa sem abertura para Deus é cega.


Deus e Mamom (v. 24) — Esta pará­ bola pode ser entendida apenas em rela­ ção à escravidão, quando um senhor possuía direitos legais sobre um escravo, e tinha completa autoridade sobre ele, e quando experiências de dupla proprieda­ de de um escravo causavam dificuldades, pois o escravo não podia dedicar-se intei­ ramente a dois possuidores. Alguém não pode pertencer a Deus e a Mamom ao mesmo tempo. Mamom tem derivação incerta. Pode designar algo escondido ou armazenado, ou algo confiado. Aqui, representa dinheiro ou possessões mate­ riais. Na parábola do fazendeiro rico (Luc.’ 12:13-21), Jesus advertiu que a pessoa pode ser possuída pelas coisas que pensa possuir. Portanto, aqui Jesus ad­ verte contra a tirania das coisas. O único"! Y^scape contra o domínio das coisas mate­ riais é a submissão ao governo de Deus ^ 33). Odiar e amar são melhor entendidos aqui jom.o “rejeitar” e “aceitar” . A lição é que Deus precisa ser exclusivo em seus direitos sobre nós. É significativo que Jesus faz do dinheiro, e não de Satanás, o rival das revindicações de Deus sobre nós (Schniewind, p. 92). Jesus estava preocu­ pado com o que fazemos do dinheiro (cf. 25:31-46), mas a sua primeira preocupa­ ção era o que ele faz de nós. Ele pode cegar (olho mau), escravizar (Mamom), e, desta forma, nos destruir. O dinheiro não é mau, pois pode ser usado para servir a Deus e aos homens; mas o amor ao dinheiro é a raiz de toda sorte de males (I Tim. 6:10). Ansiedade acerca de coisas materiais (v. 25—34) — Não estejais ansiosos é" uma boa tradução para me merimnate, mas “rião fiqueis digtraídQS^ pode chegar ainda mais perto da intenção do texto. Jesus não prescreveu indiferença, pelas coisas matermis nem encorajou o ócio ( c í .l l Tuh. 3 :Í-l2 )T ^ ^ ç i|^ n ã o é nem para os cristãos nem plírã^^pássaros. Os gáss^os^exgmplifi^m^^não o ^ j o j gnas^^ e ^ ^ ^ ^ ^ J a ^ ! ^ ^ ^ d ^ e . L onge^e ser indolente, Jesus teve uma vida cheia e

ativa. Em João 4:6, ele é descrito à beira de um poço em Sicar, exausto de uma jornada. Algumas vezes ele se envolvia tanto com as necessidades dos homens, que passava sem dormir ou sem comer. A”7 "sua advertência contra distração ou an­ siedade acerca de coisas materiais não diz respeito aos problemas legítimos è jiecessidades verdadeiras. A palavra gré-' ga merimnate é construída de uma pala­ vra que significa “uma parte” , e poderia ser traduzida como “Não se reparta” ou “Não se distraia” . A n ^ e d b ^ ja c e rc a jd e ^ ^ a s _ m a te ri^ como cõmida e roupa, é desnecéssamT inútil e maligna. Se Deus cuida das aves do céu, pode-se’ confiar que ele cuidará de nós. Se ele dá vida, pode sustentá-la. A „ansiedade é. inútil, pois por ela a pessoa não consegue sequer acrescentar um côvado à sua estatura. Embora o ç ô ra ^ s e ja uma medida linear (cerca de meio metro), o termo gpde referir-se à duração da vida. É mais provável qúe "a ansiedade encurte a vida do que a pro­ longue. A mawr acusação centra a ansiedade acerca de comida e roupa hão ë que ela sqa desnecessária e inútil, mas qu^j^ Homens dê”pouca te! llutàr•pel pelas coisas imateriais tradução melhor do que ^ ^ jre in é d io p a ra ^ m ie d a ^ a c e rc a de coisas materiais em dar o primeiro lugar ao reino de Deus justiça. A ênfã^soB re o reino (reinado) de Deus e sobre a justiça é característica de todo o Evangelho de Mateus. A certe­ za de que, para aqueles que buscam primeiro o seu reino e a sua justiça serão acrescentadas todas estas coisas, deve ser equilibrada pela advertência de que sa­ crifício, privação e ate a cruz pertencem ao discipulado (10:34-39). Considerando tanto a pranessa^v. 33) como a adverténçk^Jü?34^39^ode-se entender que a parte do discípulo é, submissão incondicional ao governo de Cristo, com a certezã de^que õ que se requer do discípulo para cumprir .a sua vocação será provi155


determina a sua medida, Da maior im­ portância, neste ensinamento, é a adver­ tência de que, quando presumimos estar julgando os outros, de fato estamos tra­ zendo sobre nós mesmos o juízo de Deus. Além disso, quando nos envolvemos em julgamento sem misericórdia, negamos a nós mesmos a misericórdia de Deus. Deus não é arbitrário nisto (cf. 5:7; 6:12, 14 e s.), mas quando negamos misericór­ dia a outrem, negamo-la a nós mesmos. Ou tomamos posição conforme à miseri­ córdia de Deus, ou não o fazemos. Não podemos agir duplicemente, isto é, querermos misericórdia para nós, mas nao "Para os outros. E também verdadê~QÍÍIF' somos julgados pelo próprio ato de jul­ gar. Em cada julgamento, revelamos os nossos próprios padrões e valores. A hipocrisia de condenar nos outros o que toleramos em nós mesmos é estabe­ lecida na analogia do argueiro e da trave. Jesus deliberadamente desenhou o 8. O Julgamento dos Outros quadro burlesco de um homem com uma 1 N ão ju lgu eis, p ara que não se ja ís ju l­ trave no seu olho, tentando remover um gados. 2 Porque com o ju ízo com que ju lg a is, cisco áo olho de outro! Grande partê~do sereis ju lgad os; e com a m ed id a com que m ed is v o s m edirão a v ó s. 3 E por que v ê s o nosso juízo acerca dos outros é, dessa argueiro no olho do teu irm ão, e não rep aras forma, absurdo. Se a pessoa é sincera.*^ na trave que e stá no teu olho? 4 Ou, com o dirás a teu irm ão; D eixa -m e tirar o argueiro ^vai primeiramente submeter-se a juízo, ‘ do teu olho, quando ten s a tr a v e no teu? 5 ^removendo a trave do seu olho. H ipócrita! tira prim eiro a tra v e do teu olho; Jesus não está dizendo que precisamos e então v erá s b em p a ra tirar o argueiro do ignorar o argueiro no olho do nosso olho do teu irm ão. irmão. É da nossa obrigação tentar liber­ 6 N ão d eis a o s cã e s o que é santo, nem tar um irmão do cisco que atrapalha a lan ceis a o s porcos a s v o ssa s p érolas, p ara não acon tecer que a s ca lq u em a o s p é s, e, sua visão. Mas estaremos em condições voltando-se, v o s d esp ed a cem . de exercer esse ministério só depois que a Juízo é o tema dominante de todo o trave estiver fora do nosso olho. A ques­ tão não é trave ou argueiro. Ambos preci­ capítulo 7, embora a sua coesão seja sam ser removidos, mas primeiro a trave.^ menos aparente do que nos capítulo 5 ou 6. Os laços lógicos não são sempre visí­ 'Só depois que a pessoa conhece a vergo­ nha ou agonia de colocar-se sob julga­ veis, quando se faz transição de um mento, e de ter a trave removida do seu assunto para outro. olho, pode ela entender a necessidade e 1) O Argueiro e a Trave (v. 7:1-5) os sentimentos do seu irmão. Só então Fazer julgamentos é uma função ines­ pode ela ver bem para tirar o argiieiro do_ capável da mente, mas o expressá-los .^Iho do seu irmão. está sujeito a controle. A pessoa não Mesmo assim, só Deus tem o conheci­ escapa de ser julgada pelo fato de assu­ mento e a integridade para exercer juízo mir o papel de juiz, pelo contrário, torna final; e, felizmente, o juízo final cabe a certo o fato do seu próprio julgamento e ele, e não a nós (I Cor. 4:3-5). Embora as

denciado. De fato, o discípulo pode expe- | r rimentar “abundância” ou “falta” , mas I em Cristo ele encontrará a sua suficiência I (Fil. 4:11-13). ^ I 0 versículo34 corrobora a advertência contra 'trazeV os problemas de amanhã para ho|erTesuriiSõ'3r5íBê~a~‘p r e v i^ ^ m ãsa^vèrte contra o sobrecarregar o / dia de hoje com ansiedade a respeito dos í problemas desconhecidos do futuro. Ar* pessoa não deve se destruir por ansied^e^^ ãCercã^Hè um"7úturo que não pode con­ trolar. Juntamente com uma previsão „ jegítima (que hão discutiremos aqui), precisa Eaver a confiança em Deus, pois sò eie conhece '"o^íuturo.' PoHelíiotar-se que Jesus não baseou a palàvra acerca da libertação da ansiedade no fato de que o tempo era curto antes do fim do mundo. Esta não é uma ética de interim ou provisória’’’."7 *

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mentes sejam feitas de tal forma que não escapem à função de julgar, podemos pelo menos lembrar que não fomos apon­ tados para o ofício de juizes; e podemos lembrar a nossa falibilidade, predisposta pelos nossos próprios pecados, e por isso nunca possuímos toda a verdade acerca daquilo que devemos julgar, estando sempre sujeitos a parcialidade ou precon­ ceito.

dará u m a pedra? 10 Ou, se lh e pedir p eix e, lhe dará u m a serp en te? 11 Se v ó s, pois sendo m aus, sa b e is dar boas dád ivas a v o sso s filIhos, quanto m a is v o sso P a i, que è stá nos céu s, d ará b o a s c o isa s a o s que lh a s p ed i­ rem ? 12 P ortan to, tudo o que vó s quereis que os h om ens vos fa ça m , fazei-Uio ta m b ém vós a e les; porque esta é a lei e o s p rofetas.

O que podem fazer os cristãos em face da responsabilidade de remover o cisco do olho do irmão, e compartilhar o que é 2) Pérolas aos porcos (7:6) santo e as suas pérolas, sabendo da sua Cães e porcos eram animais despreza­ inadequação pessoal para ambos os mi­ dos pelos judeus, e ambos eram conside-_^ nistérios? Precisam procurar uma sabe­ rados imundos. Jesus não está fazendo doria de cunho mais elevado, e recursos alusão aos gentios, mas a qualquer pes­ mais amplos do que os seus. Eles preci­ soa que seja incapaz ou não esteja dispos­ sam pedir, buscar e bater. Certamente, ta a distinguir entre o que é santo e o que esta advertência vai além das necessida­ não é, ou entre pérolas e objetos sem des que se levantam neste ministério de valor. Estas palavras soam duramenteT” julgamento e compartilhamento, mas is­ mas precisam ser ouvidas. Jesus não ex­ to está incluso. cluiu ninguém arbitrariamente, mas re­ Pedi, buscai, batei significa primaria­ conheceu que havia ocasiões em que não mente uma predisposição para Deus, pa­ havia nas pessoas nenhuma predisposi­ ra sua instrução, orientação ou dádivas. ção para o evangelho ou para o seu Isto não quer dizer que a pessoa obtém o ministério (cf. 26:63). que deseja simplesmente orando por ela. Embora seja da obrigação do cristão Jesus orou três vezes pela possibilidade compartilhar o que é santo ou as suas da remoção do cálice que o esperava pérolas com qualquer pessoa que as qui­ (26:39-44). Ele não exigiu a sua remoção, ser receber, há horas em que ele deve e ele não foi removido. Ele, isso sim, re­ apenas ficar em silêncio, ou procurar cebeu forças para bebê-lo. Pode ser que a criar um clima melhor para um compar­ pessoa não receba o que pede, não en­ tilhamento futuro. O que é santo e péro­ contre o que busca, e a porta a que está las aqui podem referir-se ao discernimen­ batendo pode não ser a que se abrirá; to, ao julgamento ou à mensagem de mas a certeza é qüe, onde houver pedidos, uma pessoa. Três perigos ameaçam o haverá resposta, onde houver busca, ha­ testemunho ou o ministro cristão que não verá encontro, e onde houver batidas discerne quando deve falar e quando insistentes. Deus abrirá uma porta. deve guardar silêncio: pode prejudicar Pode-se confiar em Deus não apenas ainda mais a pessoa que procura ajudar; para dar, mas para dar boas coisas aos pode tentar forçar a sua própria pessoa,, que lhas pedirem. Um pai não dará uma ou os seus valores, sobre outrem; e pode, pedra ao filho que pede pão, ou uma desnecessariamente, colocar em perigo a serpente ao filho que lhe pede peixe. si mesmo e a outrem. Deus não nos dará pedras ou serpentes quando pedimos pão ou peixe, e não nos 9. Pedi, Buscai, Batei (7:7-12) dará pedras ou serpentes nem mesmo 7 P e d i, e dar-se-vos-á; b u sca i, e a ch a reis; quando estivermos tão confusos e desa­ b atei, e abrir-se-vos-á. 8 P o is todo o que jeitados que não soubermos pedir coisa pede, receb e; e quem b u sca , a ch a ; e ao que melhor! A necessidade de oração persis­ bate, abrir-se-lhe-á. 9 Ou qual dentre v ó s é o tente não existe porque Deus é relutante hom em que, se se u filho lh e p ed ir pão, Uie 157


em dar, mas porque precisamos ser con­ dicionados a receber. Se até os homens maus dão boas dádi­ vas aos seus filhos (v. 11), certamente pode-se confiar que vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhas pedirem. Mateus não indica que coisas boas são essas. O paralelo em Lucas (11:13) diz que Deus dá o Espírito Santo. Uma velha oração, de forma muito feliz, diz o seguinte: “ Senhor, não nos dês o objeto de nosso desejo, mas a substância do que pedimos.” A Regra Ãurea (v. 12) — De forma negativa, este provérbio era grandemente conhecido entre os judeus (Tobias 4:15; Filo; Hilel) e os gentios. Jesus deu-lhe forma positiva, e deu-lhe o epíteto de essência da Lei e dos Profetas. A Regra Ãurea pressupõe discipulado, submissão ao governo de Deus. Não é uma regra suficiente para todo mundo. Em uma vida pagã, a “regra” iria ser experimentada em termos de valores pagãos, pois dese­ jos pagãos originam-se em corações pa-^ gãos. A intenção da Regra Ãurea pres-‘ supondo discipulado é que a pessoa deve preocupar-se com o bem dos outros, tan­ to quanto com o seu próprio bem (cf. 22:39 e s.). 10. Perigos no Caminho da Justiça (7: 13-27) É difícil seguir o movimento do pensa­ mento, ou encontrar o princípio de coe­ são desta grande porção de material. O perigo de um esboço nítido é que ele força ao material um sistema que lhe é estranho. Alguma continuidade pode ser vista na advertência contra o caminho fácil (v. 13 e 14), os falsos profetas (v. 15-20), confissão sem obediência (v. 2123), e edificar sobre alicerces errados (v. 24-27). Há também o lado positivo, enfa­ tizando o caminho que conduz à vida, a árvore boa que produz fruto bom, e o alicerce na rocha, que não se abalará; mas as advertências pesadas nos versícu­ los 13, 15, 21 e 26 são tão importantes que nunca as enfatizaremos demais. M a­ 158

teus parece ter em mente ameaças anti­ nomianas quando reúne esses ensinos de Jesus. 1) Os Dois Caminhos (7:13,14) 13 E n trai p ela porta estreita ; porque larga é a porta, e esp a ço so o cam in h o que conduz à perd ição, e m u itos são os que e n ­ tram por ela ; 14 e porque e str e ita é a porta, e apertado o cam inho que conduz à vid a , e poucos sáto os que a en con tram .

O Pai que está nos céus dá boas dádi­ vas aos homens que, no que têm de melhor, ainda são maus (v. 11), e oferece 0 reino aos pobres de espírito, aos man­ sos e aos misericordiosos; mas intrínsecos na dádiva da salvação há também requi­ sitos. Mateus não conhece salvação atra­ vés de méritos humanos, mas também não conhece salvação que liberte o ho­ mem dos requisitos de Deus. O caminho que conduz á vida está por detrás de uma porta estreita, e o caminho propriamente dito é apertado, isto é, de aflição, an­ gústia e tormento. Ê um caminho de de­ cisão, entrega e obediência a Deus. Em um mundo iníquo, é uma estrada deser­ ta, palmilhada por poucos companhei­ ros. “Apertado” é tradução de tethlimmene, normalmente vertido como “aflito” . Pode estar fazendo referência à cruz, pois mestre e discípulo (16:21,24), perseguição (5:10 e ss.), tentação (6:13; 26:41), autonegação (16:24), são todas características do discipulado. Embora não seja feita refêrencia ex­ plícita nem a legalismo nem a antinomia­ nismo, não é forçoso pensar no caminho apertado, estreito, como correndo entre os dois, evitando os dois. A religião pode facilmente tornar-se um sistema rígido, legalista, enfatizando alvos inatingíveis, estabelecendo regras impossíveis, sejam rituais, doutrinárias, ascéticas, ou ou­ tras. Da mesma forma, facilmente se toma um caminho de licenciosidade, em nome da liberdade ou da graça, moral e eticamente irresponsável. Jesus nos cha­ ma para o caminho estreito, difícil, que não é legalista nem libertino.


que faz a von tad e de m eu P a i, que e stá nos céu s. 22 M uiios m e dirão naquele dia: S e­ nhor, Senhor, não p rofetizam os nós e m teu 15 G uardai-vos dos fa lso s p rofetas, que nom e? e em teu nom e n ão ex p u lsa m o s d e ­ vêm a vós disfarçad os em o v elh a s, m as m ônios? e e m teu nom e não fizem o s m u itos interiorm ente são lobos d evorad ores. 16 P e ­ m ila g res? 23 E n tão lh e s d irei cla ra m en te: los seu s frutos os co n h ecereis. C olhem -se, N unca v o s con h eci; ap artai-vos de m im , vós porventura, u vas dos esp in h eiros, ou figos que p ra tica is a iniqüidade. dos abrolhos? 17 A ssim , toda árvore boa Pode parecer que este parágrafo ofere­ produz bons frutos; porém a árvore m á ce uma escolha simples entre dizer e produz frutos m a u s. 18 U m a á r v o r e b oa nã« pode d ar m au s frutos; n em u m a árvore m á fazer, mas não é este o caso. Os que dar frutos bons. 19 T oda árvore que não foram rejeitados no juízo foram os que produz bom fruto é cortad a e la n ça d a no tanto falavam como faziam! Eles disse­ fogo. 20 P ortanto, p elo s seu s frutos o s c o ­ ram: “ Senhor, Senhor!” e faziam muitas n h ecereis.

2) Uma Árvore Conhecida por Seus Frutos(7:15-20)

Os falsos profetas, que vêm disfarça­ dos em ovelhas,'mas que interiormente são lobos devoradores, não são os fari­ seus ou saduceus, pois nenhum deles dizia profetizar. São pessoas, dentro da comunidade cristã, que se fingem de profetas, mas que são falsos. No parágra­ fo seguinte (v. 23), intimamente relacio­ nado com este, pode ser encontrada uma idéia do emprego da palavra iniqüidade. Esses podem ser os antinomianos, que enfatizam a graça, o Espírito e a pro­ fecia, mas verifica-se serem falsos. Fin­ gindo-se ovelhas, na verdade, são lobos devoradores, que dividem e destroem. Fruto é um tema importante em o Novo Testamento, nunca equiparado com obras exteriores (veja 3:8; João 15:1-10; Gál. 5:22). No versículo 17 e ss., árvore má é uma tradução melhor do que “ árvo­ re corruçta ou podre” . Sapron não quer dizer árvore estragada, e, sim, qualidade errada de árvore. Esta palavra é usada na parábola da rede (13:48). Os peixes maus não são doentes, mas da qualidade erra­ da, não comestíveis. Os falsos profetas produzem frutos maus, da qualidade er­ rada. Que fruto é esse, não é especificado aqui; mas, em Gálatas 5:22, “o fruto do Espírito é: o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bonda­ de, a fidelidade, a mansidão, o domínio próprio” . 3) Dizer sem Fazer (7:21-23) 21 N em todo o que m e diz: Senhor, S e­ nhor! en trará no reino do céu s, m a s aquelf*

obras religiosas: profetizavam, expulsa­ vam demônios, e realizavam milagres ou feitos poderosos. Os atos requeridos são o fazer a vontade de Deus, e não realizar meramente atos religiosos, por impres­ sionantes que sejam. Para muitos que dizem: Senhor, Se­ nhor!” e fazem coisas sensacionais (pro­ fecia, exorcismo, milagres) o veredicto, no juízo final (naquele dia, v. 22), será: Nunca vos conheci. Não que um a vez eles tivessem sido conhecidos depois esqueci­ dos, mas eles nunca haviam entrado em um relacionamento salvador com Cristo. O “fazer” , que é requerido além de “dizer” , claramente não é igualado com ortodoxia, profecia, exorcismo ou mila­ gres. A entrada no reino dos céus é prometida apenas para os que fazem a vontade do Pai celestial (cf. 6:10). O Evangelho de Mateus termina com esta nota: “ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho ordenado” (28: 20). A palavra iniqüidade (anomian), no v. 23, é a chave das pessoas descritas. Pare­ cem sèr os libertinos antinomianos, que diziam que, agora que Cristo veio, a Lei não tem mais efeito (cf. 5:17 e ss., 24:11 e ss.) Parece que eles substituem as obras pelo que provavelmente chamariam de dons carismáticos de profecia, exorcismo de demônios e milagres (Barth, p. 15964). O paralelo, em Lucas (13:27), grafa outra palavra grega (adildos), também traduzida como iniqüidade, enquanto Mateus usa a palavra anomia (v. 23), 159


possivelmente refletindo a preocupação de Mateus com a ameaça antionomiana. 4) Ouvir e Fazer (7:24-27) M Todo aq u ele, p ois, que ouve e sta s m i­ nhas p a la v ra s e a s põe e m p rá tica , será com parado a u m h om em prudente, que e d i­ ficou a su a c a sa sobre a rocha. 23 £ d esceu a chuva, correram a s torren tes, sop raram os ventos, e b ateram com ím peto contra aq u e­ la c a sa ; contudo, não caiu , porque e sta v a fundada sobre a roch a. 26 M as todo aq u ele que ouve e sta s m in h as p a la v ra s, e n ão a s põe e m p rática, será c o m p a r t o a u m h o ­ m em in sen sato, que edificou a su a c a sa sobre a areia . 27 E d esceu a ch u va, co rre­ ram a s torren tes, sop raram o s ven tos, e b ateram com ím peto contra aq u ela c a sa , e e la caiu ; e grande foi á su a queda.

Da mesma forma como dizer e fazer foram discutidos no parágrafo anterior, ouvir e fazer são considerados aqui. A 'péssõã que ouve as palavras de Jesus e as põe em prática é comparada com um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. Aquele que ouve, mas não as põe em prática, é como um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. Um alicerce suporta, _enquantoj) outro se desmoronai^" * Tanto o sermão de Mateus como o de Lucas terminam com a parábola dos dois fundamentos. A parábola e a sua incor­ poração no sermão, de alguma forma, são anteriores a ambos os Evangelhos. Para o Evangelho de Mateus, ela repre­ senta uma preocupação de monta, enfa­ tizando a obediência indispensável ao discipulado. Ela também reflete o senso que Jesus tinha do direito de fazer reivin­ dicações supremas dos homens, e o fato de que o destino deles está ligado á sua obediência a ele. 11. Sumário(7:28,29) 28 Ao concluir J esu s e ste d iscu rso, a s m ultid ões se m a ra v ilh a v a m da su a doutri­ na; 29 porque a s en sin a v a com o tendo a u to­ ridade, o não com o os e sc rib a s.

A declaração do sumário aparece aqui quase nas mesmas palavras em que é 160

feita no fim de cada um dos principais cinco discursos de Mateus (7:28; 11;1; 13:53; 19:1; 26:1). Não é provável que Mateus tivesse em mente um novo Penta­ teuco (veja Introdução, p. 22-26), mas é claro que os cinco discursos representam uma característica marcante do seu Evangelho. As multidões ficaram impressionadas com a autoridade com que Jesus ensina­ va. Ele fazia requerimentos supremos, baseado no seu “Eu, porém, vos digo” . Em contrário, os escribas sempre apela­ vam a rabis anteriores. Mas a autoridade que havia nos ensinos de Jesus é vista também na profundidade, verdade e fi­ nalidade do que ele disse.

III. A Autoridade de Jesus em Palavras e em Obras 8:1 — 9:34) Esta é uma unidade bem definida, consistindo grandemente de narrativas (dez milagres) precedidas pelo primeiro de cinco discursos de Mateus: O Sermão da Montanha (caps. 5 - 7), e seguidas pelo seu segundo grande discurso, acerca do apostolado (cap. 10). Evidência suple­ mentar de uma transição de importância é encontrada na concordância quase pa­ lavra por palavra de 4:23 e 9:35, cada um desses versículos resumindo o ministério de Jesus em termos de ensino, pregação e cura, e ambos marcando uma transição de uma seção para outra. Esta seção de “narrativas” também contém importan­ tes materiais de discurso (8:18-22; 9:1017). A autoridade de Jesus é um tema básico nesta seção. Da mesma forma como Jesus “as ensinava como tendo autoridade” (7:29), a sua autoridade é reconhecida sobre a doença, os demô­ nios, a morte, a natureza, o perdão de pecados, a vocação de discípulos e o ato de sobrepujar os costumes judaicos. A palavra autoridade é explícita em 8:9; 9:6, 8, e implícita em toda a seção, especialmente em 9:28. Além e junta­


mente com o tema da autoridade de Jesus, há ênfase sobre “fé” (8:10,26; 9:2,22, 29) e entrega radical a Jesus como Senhor (8:18-22). O monte de 8:1 remonta a 5:1, e gran­ des multidões, a 4:25 e 5:1. Desta forma, Mateus mostra que as multidões que ouviram o Sermão da Montanha são as mesmas- que testificaram acerca das obras poderosas. Isto não apenas liga a autoridade em palavras à autoridade em obras, mas, além disso, mostra que as pesadas exigências de Jesus estão firma­ das em atos de misericórdia, acessíveis através da fé. • O número dez, para os milagres reu­ nidos nesta seção, pode ser de propósito artístico ou teológico. Dez é número re­ dondo, completo, e pode corresponder aos dez milagres do Egito, dez no Mar Vermelho, e aos dez no Templo, como alegado pela tradição judaica (Pirke Âboth, 5:4,5). Os milagres dos capítulos 8 e 9 são, algumas vezes, subdivididos em três grupos de três cada um, 9:18-26 contan­ do como uma as histórias da filha de Jairo e da mulher hemorrágica. As três unidades de curas seriam desta forma entremeadas de material de discursos, 8:18-22 e 9:9-17. Os dez milagres se clas­ sificam em três categorias: exorcismos, cura de enfermidades, e milagres na na­ tureza. Mais significativo é, nos dez mi­ lagres, a premonição da declaração do sumário em 11:5 e s., caracterizando o ministério de Jesus como sendo aos ce­ gos, coxos, leprosos, surdos, mortos (al­ guns manuscritos omitem isto) e pobres (cf. Is. 29:18; 35:5; 42:7). A possibilidade de milagres não foi questionada pelos seguidores ou inimigos de Jesus. A era do racionalismo, culmi­ nando no século XIX, foi muito cética acerca de “milagres” . Tanto a ciência como a fé, hoje em dia, estão menos dispostas a estabelecer limites para o homem ou para Deus. Os fariseus não questionaram o fato dos milagres de Je­

sus; só a fonte do seu poder e o seu direito de fazê-lo (9:34; 12:24). Jesus se inclinava a fazer milagres de misericórdia para satisfazer às necessida­ des humanas, e, no entanto, se eximiu de fazer o papel de “milagreiro” e afastou-se de seguidores cuja “fé” dependia de mila­ gres. Para Jesus, os milagres eram atos de misericórdia, bem como sinais escatológicos -de que o reino de Deus havia vindo, e os seus poderes já estavam der­ rotando o reino de Satanás, ao vencer o pecado, a doença, os demônios e a morte (cf. 12:28 e s.). “Milagre” significa maravilha, e é tra­ dução de teras. Este termo nunca é usado sozinho em o Novo Testamento grego. Coube ao Evangelho de João desenvolver a idéia de que um “milagre” é um sinal (sêmeion), tendo valor didático e eviden­ ciai para a fé. Nos Sinópticos, a fé é geralmente, mas não sempre (cf. 8:1417), uma pré-condição para os milagres de cura. A fé não era pré-condição para a expulsão de demônios ou para milagres na natureza. 1. Um Leproso Purificado (8:1-4) 1 Quando J e su s d esceu do m on te, gran d es m ultidões o seg u ira m . 2 £ e is que v eio um leproso, e o a d o ra v a , dizendo: Senhor, se q u iseres, p od es to m a r-m e lim po. 3 J esu s, pois, esten d en d o a m ã o , tocou-o, dizendo: Quero, sê lim p o. No m e sm o in stan te ficou purificado da su a lep ra . 4 D isse-lh e então Jesu s: Olha, não con tes isto a nin gu ém ; m a s va i, m ostra-te a o sa cerd o te, e ap resen ta a oferta que M oisés d eterm inou, p ara lh es servir de testem unho.

A lepra na Bíblia abrangia várias do­ enças da pele, mas, em o Novo Testa­ mento, não era a lepra agora conhecida como Mal de Hansen. A lepra podia tornar impuras uma pessoa, roupas ou uma casa. Havia testes elaborados para detectá-la, providências para isolar o do­ ente e procedimentos rituais para aqueles que saravam, sempre sob a autoridade dos sacerdotes (cf. Lev. 13 e 14). Depois de um cadáver, a lepra era considerada 161


como a coisa mais ritualmente poluidora. Exigia-se que o leproso vestisse roupas rasgadas, deixasse o cabelo cair solto dà cabeça, cobrisse o lábio superior, e gri­ tasse: “ Imundo! Imundo!” quando se aproximasse de alguém (Lev. 13:45). Aliás, não devia aproximar-se de outra pessoa. Mais significativo do que o fato do leproso ter-se aproximado de Jesus, o que era uma violação da lei, é o fato de que Jesus, estendendo a mão, tocou-o. Jesus tocou o intocável! Ele o fez como ato de vontade deliberado. A ordem para que ele não o contasse a ninguém fora, prova­ velmente, para que se evitasse que os milagres de cura se tomassem a base para o povo o seguir. Mostra-te ao sacer­ dote reflete o requisito legal de que a cura da lepra fosse certificada por um sacerdote; de outra forma, a pessoa não podia ter contatos sociais. O fato de Jesus ter-lhe dito para apresentar a oferta que Moisés determinou (Lev. 14:1-7) prova­ velmente reflete o respeito de Jesus pela lei judaica (5:17). Para lhes servir de testemunho (ao povo) seria literalmente “como testemu­ nho a eles” . A forma plural “a eles” pode referir-se ao povo, em vez de ao sacerdo­ te. Mais provavelmente, a referência é aos sacerdotes e escribas, prova a eles de que Jesus não estava destruindo a Lei ou abandonando os judeus. 2. A cura do Servo de um Centurião (8:5-13) 5 Xendo J esu s entrado e m C afa m a u m , chegou-se a e le u m centu rião, que lhe ro g a ­ va, dizendo: 6 Senhor, o m eu criado ja z em c a sa p aralítico, e h orrivelm en te atorm en ­ tado. 7 R «spondeu-lhe J esu s: E u irei, e o curarei. 8 O centu rião, p orém , replicou-lhe: Senhor, não sou digno de que en tres debaixo do m eu telhad o; m a s so m en te dize u m a p alavra, e o m eu criado h á d e sa ra r. 9 P o is tam b ém eu sou h om em su jeito à autoridade, e tenho soldados à s m in h a s ord en s; e d igo a este: V ai, e e le v a i; e a outro: V em , e e le v em ; e ao m eu servo: F a ze isto , e e le o faz. 10 J esu s, ouvindo isso , ad m irou -se, e d isse aos que o seg u ia m : E m verd ad e vos digo

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que a nin gu ém en con trei e m Isra el com tam an h a fé . 11 T am b ém v o s digo que m u itos virão do oriente e do ocid en te, e recUnar-seão à m e s a co m A braão, Isaq u e e J a có , no reino dos c é u s; IZ m a s o s filh os do reino serão la n ça d o s n a s tr e v a s ex terio res; ali h averá choro e ran ger de d en tes. 13 E ntão d isse J e su s ao cen tu rião: V ai-te, e te se ja feito a ss im com o cr e ste . E n aq u ela m esm a hora o se u criado sarou .

O centurião era um oficial romano que comandava cem homens. Que ele não era judeu, é explícito nas palavras de Jesus: a ninguém encontrei em Israel com tama­ nha fé. É provavelmente de propósito que Mateus coloca esta história imedia­ tamente após a do leproso purificado. Lucas não as coloca juntas (5:12-16; 7:110). O respeito de Jesus pela lei judaica e a preocupação pelos judeus é expressa na história do judeu leproso. A história do centurião expressa a sua atitude para com os gentios, e prevê a sua missão a eles. O termo grego pais, usado por Ma­ teus, pode ser vertido como servo ou “filho” . No paralelo, Lucas usou servo (doulos); portanto, servo provavelmente é o termo correto aqui. Ê difícil o portu­ guês preservar a força da resposta de Jesus: Eu (ego) irei, e o curarei. O prono­ me é enfático. Jesus indica disposição para ir pessoalmente à casa de um gen­ tio, considerada impura, segundo a lei judaica. A sugestão de que o versículo 7 deva ser lido como interrogação, em vez de afirmação, é gramaticalmente possí­ vel, mas não provável (cf. Luc. 7:6). Se a pergunta era o pretendido, “Devo ir?” , será melhor compreendida como testan­ do a fé do centurião. O fato de Jesus não ter ido, mas ter curado à distância, não expressa má vontade de entrar na casa de um gentio, mas, pelo contrário, indica o fato da sua autoridade, uma das princi­ pais ênfases da história. Pode também ser uma referência velada à missão aos gentios, em que Jesus não entrou pessoal­ mente, mas ordenou, posteriormente. Como militar, o centurião vivia pela lei da autoridade, tendo homens sobre ele


tanto quanto sob ele. Ele reconheceu a autoridade de Jesus, confiou nela e con­ fessou-a. Foi essa fé que Jesus louvou, e isto ocasionou sua declaração de longo alcance, de que muitos virão do oriente e do ocidente (isto é, gentios) e reclinar-seão à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus! Jesus havia tocado um leproso, um judeu “imundo” , e havia-se oferecido para entrar na casa de um “imundo” gentio. Deveriam cair as li­ nhas superficiais entre limpo e imundo, e entre judeu e gentio, e os gentios iriam sentar-se à mesa do “banquete messiâni­ co” com Abraão, Isaque e Jacó. Fé como a manifestada pelo centurião não foi encontrada nem mesmo em Is­ rael; e muitos filhos do reino (israelitas) seriam excluídos da presença de Abraão, Isaque e Jacó, possivelmente porque lhes faltasse fé. A advertência é dirigida prin­ cipalmente àqueles que presumem que têtn uma posição de privilégio, e firmam as suas esperanças no que chamam de seus direitos. As palavras do centurião; Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado, mostram que a sua fé está na bondade e poder de Jesus, e não nos seus próprios méritos ou direi­ tos. Trevas exteriores, onde há choro e ranger de dentes, são expressões que aparecem seis vezes em Mateus (13:42, 50; 22:13; 24:51; 25:30). Eram descri­ ções primitivas judaicas do Sheol (um abismo), mas haviam passado a caracte­ rizar a Geena. Obviamente, a lógica acha difícil a figura de uma Geena como lugar de fogo (3:12) e trevas, o que é uma advertência contra a redução de toda a linguagem bíblica a seu significado apa­ rente. A linguagem simbólica e poética tem a sua própria lógica, e a sua verdade não é menos verdadeira ou séria, porque emprega tais imagens. Reclinar-se-ão à mesa é também uma imagem para a alegria da era futura, como a de um banquete (cf. 22:1-14; 26:29; Apoc. 19: 9).

3. Os Enfermos Curados (8:14-17) 14 Ora, tendo J e su s entrado n a c a sa de Pedro, viu a so g ra d e ste de ca m a , e com febre. 15 E tocou-lhe a m ão, e a feb re a deixou; en tão e la se levan tou , e o serv ia . 16 Caída a tard e, trouxeram -lhe m u ito s en d e­ m oninhados; e eie com a su a p a la v ra ex p u l­ sou os esp írito s, e curou todos os en ferm os; 17 p ara que se cu m p risse o que fo ra dito pelo profeta Is a ía s : E le tom ou sobre si a s n o ssa s en ferm id ad es, e levou a s n o ssa s doenças.

Mateus indica que o próprio Jesus, ao entrar na casa, notou a sogra de Pedro, dando, possivelmente, a idéia da casa de um só comodo de um pescador. Pode-se dar especial atenção à observação de que a mulher curada o servia. É a lição de que a cura e a salvação têm em vista serviço? Jesus capacita a pessoa para cumprir o seu papel na vida. Mateus passa por cima da anotação de Marcos de que curas gerais tiveram lugar ao pôr-do-sol (Mar. 1:32), hora em que o sábado havia passado (Mar. 1:21). Dife­ rentemente de Marcos, Mateus não havia apresentado a referência ao sábado, e por isso não tinha razões para observar que ele tinha terminado. Ele estava mais interessado no tema de cumprimento, traduzindo o texto hebraico de Isaías 53:4: Verdadeiramente Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores. O texto grego torna enfático o pronome ele (autos). A expres­ são ^Sen[o_Sofredqr não é usada aqui, mas a idéia está presente. Apesar de a ênfase não estar no fato de que ele levou os pecados dos homens, mas nas curas de enfermidades deles, esta passagem pode nos lembrar qu ^ em b o ra a obra redento­ ra de Cnstç tenha_o sei^ centro na^ruz, ele j á e r a Redento^__^a doMça e do^ p e c S õ j^ ra n te p seu ministério^erreno. 4. O Custo do Discipulado (8:18-22) 18 Vendo J e su s u m a m ultidão ao redor de si, deu ordem de partir p ara o outro lado do m ar. 19 E , aproxim ando-se u m escrib a , d isse-lh e: M estre, segu ir-te-ei p ara onde quer que fores. ZO R espondeu-lhe J esu s: As rap osas têm covis, e a s a v e s do céu têm

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m ilh os; m as o F ilh o do h o m em n ão tem onde reclin ar a ca b eça. 21 E outro de seu s d is c í­ pulos lhe d isse: Senhor, p erm ite-m e ir p ri­ m eiro sepu ltar m eu p ai. 2Z J e su s, porém , respondeu-lhe: S egu e-m e, e d eix a os m ortos sepu ltar os seu s próprios m ortos.

O fato de Jesus se retirar do meio da multidão que havia se reunido ao redor de si (dele), e o da sua resposta aos dois discípulos em perspectiva, não deixam nenhuma dúvida acerca do custo do dis­ cipulado. Ele se afastou das multidões, cujo interesse, aparentemente, estava apenas nos benefícios físicos derivados dos milagres. A preocupação maior de Jesus era alistar seguidores e dar-lhes nova vida, mas ele não estava disposto a acei­ tar que as pessoas o seguissem sob qual­ quer pretexto. Ele fugia da popularidade superficial, e compelia as pessoas que desejavam segui-lo a considerar os custos e as conseqüências dessa decisão. Sem dúvida, algures ele advertiu os indiferen­ tes, os tímidos, e os rebeldes, do terrível preço de não segui-lo. O escriba que se ofereceu para seguir a Jesus podia já ser discípulo, visto o se­ gundo voluntário ser apresentado como outro de seus discipulos. Se for assim, esse homem era um escriba cristão. O escriba que disse: Seguir-te-ei para onde quer que fores não sabia que Jesus estava a caminho da cruz (mais claro em Lucas 9:22, 51-62). Provavelmente, Jesus não quis dizer que não tinha cama em que dormir, literalmente. Ele vivia em Cafarnaum (4:13), e acabara de entrar na casa de Pedro. Os Evangelhos indi­ cam que lhe fora oferecida hospitalidade em Betânia, e até em casas de fariseus. Possivelmente, Jesus queria dizer o que está explícito em João 1:11: “V.eio para o que era seu, e os seus não o receberam.” As raposas têm covis como refúgio, e as aves do céu têm ninhos (na verdade, “poleiros” para passar a noite, e não ninhos), mas ele não tinha lugar para onde escapar de um mundo hostil. A palavra de Jesus, de que ele não tinha onde reclinar a cabeça (ten kepha164

lên klinê), pode ter eco em João 19:30, onde na cruz Jesus “inclinou a cabeça” (klinas tên kephalên). Robinson observa: “O único travesseiro em que ele diz ter descansado é a cruz” (p. 73). O Filho do Homem é apresentado aqui, e vai tornar-se um termo cada vez mais importante em Mateus (veja Intro­ dução). Este termo é empregado cerca de 80 vezes nos Evangelhos, 31 vezes em Mateus. No Novo Testamento é sempre uma autodesignação, usada por Jesus. O mesmo termo aparece em Ezequiel mais de 90 vezes, referindo-se ao profeta como homem. Em Daniel 7:13 e ss., designa um homem celestial, que recebe do “An­ cião de Dias” um reino universal e eter­ no, e, em 7:22, 27, este filho do homem parece ser identificado com “os santos do Altíssimo” , que recebem um reino eter­ no. De acordo com os Evangelhos, Filho do Homem torna-se a autodesignação favorita de Jesus. Era expressão mais livre de associações políticas do que o termo Messias e também mais inclusiva, adequada para enfatizar o triunfo e a glória futuros de Jesus, bem como o seu ministério presente de humilde serviço, sofrimento e morte. Foi Jesus quem ligou à expressão “Filho do homem” a figura do Servo Sofredor de Isaías. Em 8:20, ouvimos as primeiras sugestões de Ma­ teus a este respeito. O Filho do homem celestial, destinado a receber um reino universal e eterno, e a julgar as nações, está na terra sem ter onde reclinar a cabeça! Indubitavelmente, ao unir as duas figuras, as adaptações necessárias foram feitas. O segundo voluntário ofereceu-se para seguir a Jesus, mas primeiro queria se­ pultar o seu pai. Pode ser observado que o sepultamento tinha lugar no dia da morte; se o pai desse discípulo já'tivesse morrido, o filho estaria lá, a assisti-lo. Mas a história não discute este ponto. Enterrar o pai era uma responsabilidade sagrada entre os judeus, tendo precedên­ cia sobre todos os outros deveres estabe­


lecidos pela Lei. Jesus exigiu uma lealda­ de que tem precedência até sobre este significativo dever familiar. Ele já havia desistido do seu lar em Nazaré (4:13) e logo iria dar a sua vida pelo seu povo. Ele deu tudo e exigiu tudo. Jesus ensinou claramente que um filho deve ser leal ao seu pai (15:3-6), mas essa é uma outra história. Os mortos a quem cabe sepultar os seus próprios mortos são os espiritual­ mente mortos.

por a q u ele cam inho. 29 E e is que gritaram , dizendo: Que tem o s nós contigo. F ilh o de D eus? V ieste aqui atorm entar-nos a n tes do tem po? 30 Ora, a a lg u m a d istâ n cia d eles, an d ava pastando u m a grande m an ad a de porcos. 31 E os d em ôn ios rogavam -U ie, dizendo: Se nos e x p u lsa s, manda.-nos entrar n aq u ela m an ad á de p orcos. 82 D isse-lh es J esu s: Id e. E ntão sa íra m , e en traram nos p orcos; e e is que toda a m a n a d a se p r e c i­ pitou pelo d espenhadeiro no m a r, perecendo n as á g u a s. 33 Os p a sto res fu g ira m e, c h e ­ gando à cid ad e, d iv u lga ra m tod as e sta s co isa s, e o que a co n tecera a o s en d em o n i­ nhados. 34 E e is que tod a a cid ad e sa iu ao 5. Uma Tempestade Acalmada (8:23-27) encontro de J esu s; e , vendo-o, rogaram -lhe 23 E , entrando e le no b arco, se u s d is c i­ que se retira sse dos se u s term os. pulos o segu iram . 24 E e is que se levan tou no m ar tão grande tem p esta d e, que o barco era O outro lado presumivelmente é o lado coberto p ela s ondas; e le , p orém , e sta v a leste do lago da Galiléia. Gadarenos é em dorm indo. 25 Os discip u lo s, p o is, a p roxi­ Mateus a melhor versão, atestada pelos m ando-se, o d esp ertaram , dizendo; Salvanos, Senhor, que e sta m o s p erecen d o. 26 E le manuscritos, sendo também plausíveis Uies respondeu: F o r que te m e is, hom ens de “gergesenos” e “gerasenos” . Gergesenos pouca fé? E n tão, levantan d o-se rep reendeu pode ter sido a forma original em Lucas e os ven tos e o m a r, e seg u iu -se grande Marcos. Possivelmente, a cidade deve ser bonança. 27 E aq u eles h om en s se m a r a v i­ identificada como Kersa ou Gersa, cujas lharam , dizendo: Que h o m em é e ste , que até os ven tos e o m a r Die ob ed ecem ? ruínas estão na margem oriental do lago

A história de Mateus é um resumo da narrativa de Marcos, bem mais detalha­ da (4:35-41). A autoridade de Jesus sobre a natureza é estabelecida conclusivamen­ te na pergunta final acerca de que ho­ mem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem? Todavia, o ponto a ser ensi­ nado relaciona-se com a fé. A calma de Jesus em dormir enquanto o bote estava sendo coberto pelas ondas estabelece agudo contraste com o medo e a pouca fé dos discípulos. O objetivo da narrativa é mais sublinhado em Marcos: “Por que sois assim tímidos? Ainda não tendes fé?” (4:40). Através dos séculos, os cris­ tãos têm aplicado legitimamente esta his­ tória aos perigos e crises da vida, obtendo dela a certeza de que Cristo pode nos livrar das “tempestades” da vida. 6. Endemoninhados (8:28-34)

Loucos

Curados

28 Tendo ele ch egado ao outro lado, à terra dos gad arenos, sairam -lh e ao encontro dois endem oninhados, vindo dos sep u lcros; tão ferozes erãm que nin gu ém podia p a ssa r

da Galiléia. A presença de suínos, proibi­ da a judeus, dá a entender que aquela era uma região gentílica. Entende-se que os dois endemoninha­ dos fossem homens sujeitos ao poder de demônios. A ciência moderna descreve­ ria esses homens como loucos, hostis e suicidas. No mundo antigo o homem vivia com o temor diário de maus espíri­ tos ou demônios. Embora o mundo oci­ dental hoje em dia esteja dividido entre os que substituíram “possessão demo­ níaca” por uma análise psicológica e aqueles que retêm a idéia doutrinariamente, poucos cristãos, hoje em dia, e possivelmente nenhum, vivem com o te­ mor diário de um ataque de demônios. Seja o que for que esteja sendo enten­ dido por demônios, Jesus libertou o mun­ do, ou grande parte dele, desse medo. A pergunta dos demônios: Que temos nós contigo? é realmente “O que é que temos a ver uns com os outros?” Quando Jesus vem, os demônios precisam ir embora. Apesar de Jesus não ter negado a rea­ lidade da existência de demônios, fez 165


voltar os homens para uma fé que é liberdade do medo, inclusive medo de demônios. Ele também desviou a atenção dos maus pensamentos, sentimentos e intenções profundamente arraigadas no coração humano, e propiciou vitória so­ bre esta fortaleza do mal. O leitor moderno fica preocupado com o destino da manada de porcos, seja pela questão científica de como é que demô­ nios puderam afetar porcos, seja pela questão moral da destruição de proprie­ dade alheia. Nenhuma das duas questões preocupou Mateus. Ele se regozija com a libertação de dois homens, coisa mais importante do que uma manada de suí­ nos. Não se depreende, necessariamente, que os moradores da cidade pediram a Jesus para se retirar por causa da perda dos seus porcos. Pode ser porque esta­ vam com medo do misterioso poder que estava se manifestando em Jesus. 0 que os demônios temiam era serem atormentados antes do tempo, isto é, antes do juízo final. Jesus venceu os demônios no decorrer da história, não esperando o fim da história, para fazê-lo. Em Mateus e Marcos há duas versões, aparentemente independentes, de uma história que fora pela primeira vez conta­ da em um território gentílico da Galiléia. Se, por um lado, o interesse de Marcos está em um homem liberto e restaurado, o interesse de Mateus, por outro lado, está na vitória sobre os demônios e no fato de os homens daquela cidade não terem aceitado uma salvação, que che­ gou tão perto, preferindo viver sob a tirania do medo, a viver na liberdade da fé. 7. Cura e Perdão (9:1-8) 1 E entrando J e su s n um b arco, passou para o outro lado, e chegou à su a própria cidade. 3 E e is que lhe trou xeram um p a ra ­ lítico deitado num leito.. J esu s, pois, vendolh es a fé, d isse ao para lítico : T em ânim o, filho; perdoados são os teu s p eca d o s. 3 E alguns dos escrib a s d issera m c o n sig o : E ste h om em b la sfem a . 4 M as J e su s, conhecendolh es os p ensam entos, d is s e : P or que p en sa is

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o m a l e m v o sso s cora çõ es? 5 P o is qual é m a is fácil? dizer: P erd oad os são os teus p ecad os, ou dizer: L evan ta-te e anda? 6 Ora, para que sa ib a is que o F ilho do h om em tem sobre a terra autoridade para perdoar p e­ cados (d isse en tão a o p a ra lítico }: L evantate, tom a o teu leito , e v a i p ara tua ca sa . 7 E este , levan tan d o-se, foi p ara su a c a sa . 8 E a s m u ltid ões, vendo isso , tem era m , e g lo ­ rificaram a D eu s, que d era ta l autoridade a o s hom ens.

A autoridade de Jesus para perdoar pe­ cados é a questão nesta história. Os escri­ bas puseram em dúvida o direito de Jesus de perdoar pecados, dizendo que era direito exclusivo de Deus (Mar. 2:7). O conflito entre Jesus e os escribas já estava tomando forma, com outras questões a serem ainda adicionadas a esta. A sua própria cidade (de Jesus) agora é Cafarnaum. O paralítico foi trazido no seu próprio leito, provavelmente uma padiola. Nem todos os milagres de Jesus foram realizados em resposta à fé, mas neste caso Jesus reagiu à fé das pessoas que haviam trazido o paralítico. O fato de Jesus ter começado a tratar do proble­ ma do pecado do homem não significa que ele tenha traçado uma conexão dire­ ta causal entre cada caso de enfermidade e o pecado (Luc. 13:1-5 e João 9:1-3 refutam isto). Por outro lado, Jesus via o pecado, em última análise, por detrás de toda doença humana, e algumas vezes uma conexão causal direta podia ser tra­ çada. O perdão é geralmente considerado mais fácil do que a cura. Pelo menos esta última é mais difícil, pelo fato de ser mais susceptível às provas. Entendendo assim, Jesus ofereceu provas de que po­ dia curar, e desta forma sustentou o fato de ser capaz também de perdoar peca­ dos. Para nós, perdoar é mais difícil, pois fizemos mais progressos em curar doen­ ças do que em perdoar uns aos outros. As multidões ficaram admiradas pelo fato de autoridade ser dada aos homens para perdoar pecados. Esta autoridade pertence, em última instância, a Deus (Is. 43:25), mas aqui ela é requerida por


Jesus como Filho do homem. No ensina­ mento de Jesus, o perdão é também responsabilidade do homem (6:12, 14, 15). Nesta história pode existir uma abordagem para unir as idéias do Filho do homem como uma pessoa individual (v. 6) e como uma comunidade (v. 8), em consonância com o quadro de Daniel 7:13 e s., 22. Esta idéia é um tanto substancial, mas também difícil e indefi­ nível. 8. A Chamada de Mateus (9:9-13) 9 P artindo J esu s dali, viu sentado coletoria um h om em cham ado M ateus, e disse-lhe: Segne-m e. E e le , levan tan d o-se, o seguiu . 10 O ra, estan d o e le à m e s a e m c a sa , eis que chegaram m uitos pub lican os e peca^ dores, e se reclin aram à m e sa ju n tam en te com J e su s e seu s d iscip u los. 11 E os fa r i­ seu s, vendo isso , p ergu n taram aos d is c í­ pulos: P or que co m e o v o sso M estre com os publicanos e p ecad ores? 12 J e su s, porém , ouvindo isso , resp on d eu ; N ão n e c essita m de ?2 m édico os sã o s, m a s, sim , os en ferm os. ^ 1 3 Ide, pois, e ap ren d ei o que sign ifica: . S M isericórdia quero, e não sa crifíc io s. Por,5 que eu não v im ch am ar ju sto s, m a s pecadores.

Embora esta narrativa tenha sido oca^ sionada pela vocação de Mateus, um coletor de impõsíõs, osei^ea^_ 5^jg ^ jjjg ^ I la s t r a r a reieicão. pór parte de Jesus,-da. posição farisaica a resoeito dos justos e dos pecadores, e o seu reconhecimento de à uma comunidade composta de publicãií5s e pecadores. A missão aos pecadores e defendida como lógica e correta, por analogia com o médico que ministra aos enfermos, e com base nas Escrituras, sendo citado Oséias 6:6, ensinando a preferência de Deus pela misericórdia aos sacrifícios rituais (outra vez em 12:7 e não fora de Mateus). Com base no aue viram àm esa de Jesus, õm to de ele estar comendo com pecadores, os fariseus de­ vem ir e aprender o que significa O séi^ h:b. mes precisam re-estudar aquela pãs^ sagem à luz do exemplo de Jesus e ver que a intenção dela é cumprida no que Jesus está fazendo. Possivelmente, Mateus deva ser identi­ ficado como o Levi de Marcos e de Lucas

(veja Introdução, p. 72). Ele era coletor de impostos, encarregado de coletar os impostos aduaneiros. Qs,coletores de impostos eram, pelo mdíretamerite', representantes do governo romano; eram considerados ritualmente impuros, por­ que lidavam com pessoas e com coisas impuras; e freqüentemente eram acusa­ dos de extorsão. Por estas razões, eles eram desprezados pelos fariseus e classi­ ficados com os pecadores. Os fariseus se consideravam retos e puros. Fariseu sig­ nifica separado — pessoas separadas de na pessoas e coisas “impuras” . .Social e reli­ giosamente, um grande abismo separava os fariseus~3õs~publtcãnõsTepecadores. rêsüi cõ n süílinrm a poiTEe'sõbre o abis" mo; ou, para mudar a figura, destruiu o muro que havia entre os dois grupos. Ele comeu com os publicanos e pecadores, bem como com os fariseus. A refeição compartilhada é universalmentê~reconhecida como sinal de aceitação. O fato de Jesus ter aceito os publica­ nos e pecadores prefigurou a aceitação dos gentios. Esse ato era legitimado~^las iiscrituras,l)ois Jesus citou misericórdia acima de sacrifícios religiosos. O que os fariseus rejeitavam como mau, Jesus aceitou como bom. Jesus fez da comunhão à mesa uma virtude e um Hêver, onde os religiosos o haviam consi~ difãdo um mal. Da mesma forma como o médico não espera até que os doentes sarem, para visitá-los, Jesus não esperou que as pessoas más se tornassem boas, para poder ministrar a elas, mesmo atra­ vés da comunhão à mesa. Ao negar qual. quer distinção básica entre fariseu e colehor de impostos, Jesus, em princípio, /derrubou todos os muros artificiais e superficiais entre os homens; e estabele­ ceu relações entre homem e homem, sob o olhar de Deus, baseadas na misericór­ dia de Deus, e não nas obras dos ho­ mens. Jesus não apenas recebeu perarlnres: Ele os procurou!-A casa em que Jesus estava à mesa podia ser a de Mateus, ou de Jesus, mas a declaração de que muitos 167


publicanos e pecadores chegaram e se reclinaram à mesa juntamente com Jesus e seus discípulos pode ter a implicação de que a casa era de Jesus. Se foi assim, ele era o hospedeiro. Estranho é que os seguidores de Jesus, como os fariseus, muifas ve^s são mais exclusivistas do que Tesus, seu Mestre. 9. Odres Novos Para Vinho Novo (9:1417) 14 £ n tã o v iera m ter com e le os d iscípulos de João, perguntando: P or que é que nós e os fa riseu s jeju am os, m a s os teu s discípulos não jeju am ? 15 R espondeu-lhes J esu s: P odem porventura fica r tristes o s con v id a ­ dos à s n úp cias, enquanto o noivo está com oles? D ia s virão, porém , e m que lh es será tirado o noivo, e então hão de jeju a r. 16 N inguém põe rem endo d e pano novo em vestid o velho; porque sem elh a n te rem endo tira p arte do vestid o, e faz-se m aior a rotura. 17 N em se d eita vinho novo e m odres velhos; do contrário, os odres se reb en tam , derram a-se o vinho, e os odres se p erdem ; m as d eita-se vinho novo e m o d res novos, e a ssim am bos se con servam .

O contraste entre a austeridade de João Batista e o profundo envolvimento de Jesus com a vida ao seu redor é exposto aqui, declarado agudamente em 11:18 e s., e apoiado por tudo o que se sabe sobre ambos. Não há nenhuma evi­ dência de choque entre João e Jesus, embora seja explícito que João estava pelo menos confuso acerca do ministério de Jesus (11:2 e s.), e por algum tempo houve pessoas que seguiram João, e não Jesus (cf. At. 19:1-7). Jesus tinha João em alta consideração, mas diferia dele. Jesus jejuava de vez em quando, e esperava que os seus seguidores o fizes­ sem, porém para ele o jejum era governadó não por costumes religiosos ou pelo calendário, mas pelas necessidades da ocasião (veja 6:16-18). Ele tornou claro este pensamento na analogia dos convi­ dados às núpcias. Eles não jejuam du­ rante o tempo alegre em que o noivo está com eles. Os participantes e convidados às núpcias estavam livres das obrigações 168

religiosas, inclusive o jejum, durante os sete dias da celebração do casamento. 23 Presumivelmente, Jesus aludiu à sua própria morte, quando se referiu aos dias em que lhes será tirado o noivo. A prisão de João (4:12) bem pode ter sido um fator para fazê-lo lembrar da sua própria mor­ te. As parábolas do remendo e do vinho novo aplicam-se não apenas ao jejum, mas a todo o relacionamento entre Jesus e o judaísmo. Ele não tinha vindo para destruir, mas para cumprir (5:17), e isto significava respeito pelo que havia antes dele, mas também liberdade para a obra criativa que lhe cabia fazer. O que ele viera fazer era dinâmico e revolucionário, e não podia ser contido em velhas fórmu­ las como jejum e sabatismo. Além do mais, Jesus se recusou a derramar o vinho novo da vida que ele oferecia, nos odres velhos da religião estabelecida, como é ilustrado pelo jejum que os discípulos de João e os fariseus tentaram impor-lhe. Derramar vinho no­ vo em odres velhos e ressequidos, seria perder a ambos, pois à medida que fer­ mentasse, o vinho estouraria os velhos odres. Embora fossem conhecidas garra­ fas de vidro (cf. 26:7), os recipientes comumente usados eram feitos de peles de animais. QJnteresse de Jesus era de que encop^ á s„semos novlTvïga~ÿms com os^ o^ so b ^ governo de Deus. Para essa espéaTdè~vidã^empre é necessário aue haia Tib^dade para dese^nvolver novas fórmu­ las, veicúlos ou expressões"de adOTa^ã ^ co ^ ^ ã õ ~ e seg^içq. Jesus não rejeitava af^^rm ulãs coíSoTãis, pelò contrário, deu a entender que elas eram necessá­ rias, da mesma forma como os odres eram necessários para o vinho, para que ele não se derramasse pelo chão. A idéia é que os odres só servem para consen^ar o vinho, e nao sãò um fim por sFlmesmos. 23 H. L. Strack e Paul BUlerbeck, Kommentar zum Neuem Testament aus Talmud und Midrash (M ün­ chen: Beck, 1922), I, 506.


Eles podem ser mudados, se necessário. A i g r a ^ precisa d ejó rm ^ mas iam-, bem de liberdade para desenvolver novas fórmulas. 10. Uma Mulher Curada e uma Menina Ressuscitada (9:18-26) 18 E nquanto aind a lh e s d izia e s s a s co isa s, eis que chegou um ch efe da sin a g o g a e o a d o­ rou, dizendo: M inha filh a a c a b a de fa lecer; m as v em , im põe-lhe a tua m ã o , e e la v iv erá . 19 L evantou-se, pois, J esu s, e o foi seguindo, ele e o s seu s d iscíp u los. 20 E e is que certa m ulher, que h a v ia doze an os p a d ecia de u m a h em orragia, chegou por d etrá s d ele e tocou-lhe a orla do m an to; 21 porque dizia consigo; Se eu tão-som en te tocar-lhe o m a n ­ to, fica r ei s ã . 22 M as J e su s, voltando-se e vendo-a, d isse: T em ânim o, filh a , a tua fé to salvou. E d esde aq u ela hora a m u lh er ficou sã. 23 Quando J e su s chegou à c a sa daquele ch efe, e viu os tocad ores de flau ta, e a m ultidão em alvoroço, 24 d is s e : R etir a i-v o s; porque a m enina não e stá m o rta , m a s dor­ m e. E riam -se d ele. 25 T endo-se feito sa ir o povo, entrou J esu s, tom ou a m en in a p ela m ão, e e la se levan tou . 26 E esp alh ou -se a noticia disso por toda aq u ela terra .

A narrativa de duas curas é unificada; a da mulher que por doze anos padecia de uma hemorragia, encaixada na da ressurreição da filha de doze anos (Mar. 5:42) de um chefe. Uma narrativa mais ampla está em Marcos. Em dois pontos, pelo menos, parece que uma fonte estra­ nha a Marcos foi compartilhada por M a­ teus e Lucas. Ambos falam de “um che­ fe” , enquanto Marcos fala de “um dos chefes da sinagoga” (5:22). Mais notável é a sua exata concordância verbal, ao dizer que a mulher chegou por detrás dele e tocou-lhe a orla do manto, en­ quanto Marcos diz que ela “veio por detrás, entre a multidão, e tocou-lhe o manto” (5:27). Uma hemorragia tornava a mulher “imunda” . A isto deve atribuir-se o fato de ela aproximar-se de Jesus secretamen­ te, tendo a esperança de não ser desco­ berta, pois estava violando uma lei judai­ ca. A orla do manto tinha um a borla, costurada, pelos judeus, como memória dos mandamentos de Deus (Núm. 15:37-

39). Mencionar isto servia aos interesses de Mateus, pois mostrava que Jesus não veio para destruir, mas para cumprir a Lei (5:17); mas, visto que a palavra está também em Lucas, pertence à sua fonte, e não ao seu trabalho editorial. A fé da mulher é o ponto culminante desta história, declarando todos os três sinópticos o clímax com palavras idênti­ cas: “Filha, a tua fé te salvou.” A sua fé simples chegava às raias da superstição, mas Jesus viu o elemento de confiança que ela continha. A fé clama por ilumi­ nação e direção, mas basicamente é con­ fiança, e não competência teológica. A cultura não leva necessariamente à fé, mas a confiança sempre pode ser instruí­ da. Te salvou, significa literalmente “te tornou inteira” e embora se referisse à cura física, expressa o uso de uma pala­ vra grega traduzida freqüentemente por “salvou” . No Novo Testamento, a salva­ ção se relaciona com toda a personalida­ de; inclusive o corpo. O termo usado por Mateus, chefe, pode designar vários tipos de oficiais, inclusive o mencionado por Marcos, ou um dos chefes da comunidade. A história de Marcos deixa algumas perguntas sem resposta, como a de se a filha estava realmente morta, ou apenas pensava-se que o estivesse (5:23, 35, 39), embora a primeira hipótese pareça ser a intenção de Marcos. Mateus (e Lucas) falam ex­ plicitamente que ela já tinha morrido. O chefe relatou a Jesus que a sua filha acabara de falecer e expressou a fé que Jesus poderia fazê-la viver. Quando Jesus disse: A menina não está morta, mas dorme, não quis dizer que a morte não é nada mais do que um sono. Ê mais do que um sono! Ele quis dizer que uma pessoa pode ser despertada da morte da mesma forma como pode acordar, quan­ do está dormindo (cf. Joâo 11:11-15). A história enfatiza a fé do pai e a autorida­ de de Jesus sobre a morte. Tocadores de flauta, em um funeral, eram normais na vida judaica. Para o sepultamento de sua esposa, até um ho­ 169


mem pobre empregaria pelo menos dois tocadores de flauta e uma mulher carpi­ deira. Carpideiras profissionais eram coisa característica nos costumes judai­ cos, e eram usados nos funerais. Isto ex­ plica a facilidade com que eles pararam o alvoroço e riram-se dele. Parece que essas carpideiras alugadas não estavam na casa, mas no terraço, fora. 11. Dois Cegos Recebem a Vista (9:2731) 27 P artindo J esu s d a li, segu iram -n o dois cegos, que cla m a v a m , dizendo: T em c o m ­ p aixão de nós. F ilh o de D a v i. 28 E , tendo e lè entrado é m c a sa , os ceg o s se a p roxim aram dele; e J esu s perguntou-lhes: Cre d e s que eu posso f a ^ r isto? R esponderam -lhé~ eTêsl Sim , Senhor. 29 É n tão lh es tocou os olhos, dizendo: Seja-vos feito segundo a v o ssa fé. 30 E o s olhos se lh es ab riram . J esu s ord e­ nou-lhes term in an tem en te, dizendo: V ede que ningu ém o saib a. 31 E le s, porém , s a í­ ram , e d ivu lgaram a su a fa m a por toda a q u e la te r i^ . _ .......... , a ’" -

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Esta passagem encontra-se apènas em / Mateus, mas é surpreendentemente seU-melhante a 20:29-34 (paralelos em M ar­ cos 10:46-52 e Lucas 18:35-43). O signifi­ cativo título Filho de Davi aparece aqui, mas sem nenhuma ênfase aparente. O termo reaparece em Mateus (cf. 1:1; 12:23; 15:22; 21:9, 15), e apóia a ênfase que Mateus dá a Jesus como Messias. O que é ressaltado na história é a fé dos dois cegos:. Credes? e segundo a vossa fé. O fato de Mateus mencionar, mas não enfatizar o título Filho de Davi pode ser entendido em termos da severa ordem de Jesus para que a cura não fosse publica­ da. É importante, para Mateus, apresen­ tar Jesus como “Filho de Davi, filho de Abraão” (cf. 1:1), mas ele também mos­ tra que Jesus era o Senhor de Davi (22:41-45). Os termos Messias e Filho de Davi representavam direitos autênticos de Jesus, mas ambos eram de limitado valor para ele devido às idéias populares de um Messias ou Filho de Davi político. Ordenou-lhes terminantemente (enebrimêthê) expressa fortes sentimentos da parte de Jesus. A sua profunda emoção 170

pode ser compreendida em vista do fato de que ele tinha compaixão para curar, mas não queria ser considerado como um simples milagreiro, tendo a segui-lo uma turba de pessoas sequiosas por milagres. Ele aceitou a aclamação como Filho de Davi, porém rejeitou o papel de um Messias político. 12. Os Fariseus Protestam Contra uma Cura (9:32-34) 32 E nquanto e s s e s se r etira v a m , e is que lhe trou xeram u m h o m em m udo e en d em o ­ ninhado. 88 E , exp u lso o dem ônio, falou o m udo, e a s m u ltid ões se a d m ira v a m , d izen ­ do: N u n ca ta l se viu e m Isra el. 34 Os fa r i­ seu s, p orém , d iziam : É p elo p rín cip e dos d e ­ m ônios que e le ex p u lsa o s dem ônios.

Mudo (kõphos) poderia ser traduzido “surdo” , o que seria fiel à palavra grega, e preferido em relação a todas as pessoas “silenciosas” . A história se contrapõe em flagrante contraste à admiração das mul­ tidões e à atitude cínica dos fariseus, que não podiam negar o milagre, mas o atribuíram ao príncipe dos demônios Importantes manuscritos em grego, la tim e siríaco omitem o versículo 34, que possivelmente uma adição de Lucas 11 15. De qualquer forma, idêntica acusa ção se faz acerca de 12:24, onde ela será discutida.

IV. A Compaixão de Jesus e Co­ missão dos Doze (9:35 — 11:1) O segundo grande discurso de Mateus, a comissão dos doze, forma grande parte desta seção, mas é melhor estudado em confronto com 9:35-38, uma passagem tocante, a respeito das necessidades do povo e da compaixão de Jesus. A inclusão de 11:1 nesta unidade deve-se ao fato de que esse versículo explicitamente se re­ monta à instrução dos doze discípulos, e é uma fórmula de conclusão das princi­ pais partes do Evangelho (cf. 7:28; 13: 53; 19:1; 26:1). Os materiais do capítulo 10 são tirados de Marcos e de Q, havendo ainda outros materiais peculiares a Mateus. Consentâ-


neo com este arranjo temático dos mate­ riais, Mateus não faz nenhuma tentativa para conservar todas as unidades em seu contexto, ou seqüência, original. O leitor que não perceber o princípio de trabalho de Mateus ficará confuso com a abrupta apresentação dos doze, a acusação de Belzebu, e outros assuntos; mas o arran­ jo de materiais feito por Mateus é bem adequado para alcançar o seu objetivo de dar, à igreja da sua época, incentivo, encorajamento, advertências e instruções para a continuação do seu ministério em palavras e em obras. 1. Á Compaixão de Jesus Pelas Multi­ dões (9:35-38) 35 E percorria J e su s tod as a s cid a d es e ald eias, ensinando n a s su a s sin a g o g a s, p r e ­ gando o evan gelh o do reino, e curando toda sorte de doenças e en ferm id a d es. 36 Vendo ele a s m ultid ões, com p ad eceu -se d ela s, p or­ que an d avam d esgarrad a s e erra n tes, com o ovelh as que não tém p astor. 37 E n tão d isse a seu s discípulos : A a verd ad e, a se a r a é g ra n ­ de, m a s os trab alh adores são pou cos. 38 R o ­ gai, pois, ao Senhor da sea ra que m ande trabalhadores p ara a su a sea ra .

O versículo 35 é uma duplicata apro­ ximada de 4:23, resumindo o tríplice ministério de Jesus de ensinar, pregar e curar. Mateus apanha Marcos 6:6b, fá-lo seguir de uma repetição do seu próprio 4:23, em seguida acrescenta um paralelo bem aproximado de Marcos 6:34, e en­ tão, aparentemente, aproveita-se de Q (cf. Luc. 10:2). Esta mistura de materiais continua através do capítulo 10. Jesus viu as multidões como ovelhas que não têm pastor (cf. I Reis 22:17), desgarradas e errantes. Rebanho é uma figura bíblica para o povo de Deus. A palavra desgarradas (eskulmenoi) origi­ nalmente significa espoliadas, mutila­ das, mas passou a significar molestadas (cf. Mar. 5:35; Luc. 7:6; 8:49). Errantes (errimmenoi) pinta o povo como sendo como ovelhas jogadas ao chão e jazendo à míngua de socorro. A seara, figura bíbli­ ca de julgamento, introduz uma nota escatológica, apontando para o juízo últi­ mo, embora a ênfase esteja no recolhi­

mento do grão que está para perder-se, por falta de colheita. Jesus conclama à oração ao Senhor da seara para que mande trabalhadores para a sua seara. “Mande” (ekbalé) literalmente significa expulsar, mas passou a significar man­ dar ou enviar (cf. 12:26). Por que é que os homens precisam rogar ao Senhor para enviar trabalhadores para a sua seara?' Provavelmente a oração não é necessária devido à má vontade de Deus em enviar, mas por causa da indisposição do homem em ir. Quando uma pessoa ora pela seara, de certa forma ela se torna uma ceifeira, e pode estar entre os que forem enviados. A característica mais notável deste pa­ rágrafo facilmente passa despercebida. A Palestina estava apinhada de líderes reli­ giosos bem na época em que Jesus viu as multidões como ovelhas sem pastor, des­ garradas e errantes, e como uma seara negligenciada. Mediante os testes exte­ riores, a religião estava robusta, com um templo apinhado, sinagogas em cada al­ deia, seis mil fariseus, vinte mil sacerdo­ tes de casta inferior, um pequeno, mas poderoso grupo de sacerdotes saduceus, um grupo considerável de essênios, e outros grupos sectários. Mas com milha­ res de sacerdotes e leigos que faziam da religião a sua ocupação principal, o povo estava sendo negligenciado, ou o que era ainda pior, lançado por terra e à míngua de socorro. Embora “pastores” e “ceifeiros” fos­ sem necessários, a verdadeira necessida­ de era mais qualitativa. Ter meramente mais líderes religiosos do tipo pelo qual as multidões já estavam sendo espoliadas não resolveria nada. A necessidade era de pessoas que não se preocupassem tanto com o sábado, jejuns, rituais de purificação e coisas semelhantes, mas com o povo. 2. A Missão dos Doze (10:1-4) 1 E , cham ando a si os se u s doze discípulos, deu-lhes poder sobre os esp íritos im undos, para os ex p u lsa rem , e p a ra cu rarem toda

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Mateus não inclui o dado revelado por Marcos, de que Jesus enviou os doze “dois a dois” (6:7), mas este arranjo é refletido no fato de que ele relaciona os doze em pares, mudando a ordem de Marcos (3:16-19), de forma a colocar os irmãos juntos. O fato de colocar os discí­ pulos em pares pode expressar o princí­ Os doze discípulos são introduzidos na narrativa como se o leitor já tivesse co­ pio de que duas testemunhas eram re­ queridas para estabelecer um assunto nhecimento deles (cf. 11:1; 20:17; 26:14, 20, 47). Que havia discípulos conhecidos (Deut. 19:15). Só em 10:2 Mateus usa o termo apóstolos; em todas as outras pas­ como os doze, é além de qualquer dúvida, razoável. Paulo é o primeiro escritor a sagens, ele se refere a eles como discípu­ mencionar os doze (I Cor. 15:5), e ele se los ou simplesmente os doze. A palavra referiu aos que eram apóstolos antes dele grega traduzida como “apóstolo” signifi­ ca enviado, e isto se adapta ao contexto (Gál. 1:17). Paulo havia sido comparado e m q u e M a te u s usa essa palavra pela desfavoravelmente com esses apóstolos, por algumas pessoas, e foi forçado a única vez. Por detrás da palavra do Novo defender a sua autoridade como apósto­ Testamento, está o veterotestamentário lo. Se houvesse alguma dúvida quanto à shãliah, significando embaixador ou pes­ soa comissionada. A outorga de autori­ existência dos doze, ele não teria ocasião, ou razão, para defender o seu apostola­ dade é a mais próxima reflexão desta idéia no parágrafo anterior. O termo do. Que Jesus deu algum valor simbólico apóstolo é estendido no Novo Testamento ao número doze é claro, como se vê na para incluir Paulo e Barnabé (Gál. 1:1; sua palavra acerca de eles se sentarem At. 14:14); Matias (At. 1:26); os irmãos em “doze tronos, para julgar as doze de Jesus (I Cor. 9:5; Gál. 1:19); e AndrÔtribos de Israel” (19:28). Os doze simbo­ nico e Júnias (Rom. 16:7). Embora a existência dos doze seja lizavam dramaticamente o verdadeiro Is­ rael (doze tribos) de Deus (cf. 3:9). Apa­ clara, e alguns deles sejam bem conheci­ rentemente, Mateus não viu os seguido­ dos, a maioria aparece apenas de nome no Novo Testamento. Mesmo o nome de res de Cristo tanto como um novo Israel, quanto como um Israel renovado, man­ alguns não é claro, como pode ser visto, se compararmos esta lista com as outras tendo uma continuidade com Abraão, três (Mar. 3:16-19; Luc. 6:14-16; At. Isaque e Jacó (8:11), bem como abrindo 1:13). Nomes duplos, ou até alguma flu­ o caminho para uma comunidade que tuação nos doze, é possível, mas não há por fim incluiria os gentios (28:19), assim explicações certas. O fato de a maioria como os pecadores em Israel (9:13). O ponto principal deste parágrafo é a ser desconhecida pode ser lançado na autoridade transmitida aos doze discípu­ conta de eles terem falhado em avança­ los. A autoridade de Jesus, verificada em rem na missão mais ampla às nações (cf. Stagg, The Book of Acts, Introdução, et palavras e em obras, aparentemente não passim). Em cada uma das quatro listas, se estendeu aos doze, através de quem há três grupos de quatro, estando-Pedro Jesus continuou e alargou a sua obra. O sempre à frente do primeiro grupo, e trabalho dos discípulos seria o do seu sendo Judas o último do terceiro grupo. Mestre: curar (v. 1) e pregar (10:7). Exceto essas duas posições fixas, há va­ Ensinar não é explícito aqui, mas pode ser subentendido, pelo fato de esses discí­ riações dentro de cada um dos três gru­ pulos (mathêtês significa aprendiz) tam ­ pos, tanto na ordem como nos nomes em si. bém terem ensinado (cf. 28:20).

sorte de d oen ças e en ferm id a d es. 2 Ora, os iTomes dos doze ap óstolos são e s t e s : p rim ei­ ro, Sim ão, cham ado P ed ro, e A ndré, seu irm ão; T iago, filho de Zebedeu, e João, seu ir m ã o ; 3 F ilip e e B a rto lo m eu ; T om é e M a­ teus, o publicano; T iago, filho de A lfeu, e Tadeu; 4 S im ão C ananeu, e J u d a s Isc a r io ­ tes, aq u ele que o traiu.

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Pedro significa-rocha. o equivalente grego do aramaico K ^ h a s (Cefas). Pe­ dro é o apelido de Simão (grego) ou Simeão (hebraico). PrmeirQ, je m dúvi­ da, significa, o mais importante. apenas o primeiro da lista. A liderança de Pedro entre os doze é geralmente reconhecida no Novo Testamento. André é nome grego gue significa viril. Ele ê mais proeminente no Evangelho de João (1:40-42). Pode ser surpreendente o fato de Tiago ser mencionado antes de João, mas ele deve ter sido o mais agressir TO dos dois, sendo, como que se sabe. o _ p^rimejrp_ dosjdoze a ser martirizado (At. 12:2). Filho de Ãífea faz a distinção entre ele e outros com o mesmo nome. Filipe é um norne ^ e g o g u e significa “gmante dé cavalo^\ Bartolomeu é ^miti(^.~e significa filho (bSTIie Tolmai ou Toíomai. Tomé significii^êmeQ (João 11:16), possívelmenígJoim a helgnizada de uma pa­ lavra aramaica. Para a discussão de Mateus e Tiago, filho de Alfeu, veja a Introdução. Tadeu é encontrado como “ Lebeu” em alguns manuscritos, e é desconhecidcL_.exceta por nonã^ ^ a n a n e u pode ser a forma aramaica de zelote, e ele anteriormente pode ter pertencido à seita dos zelotes, hipemacionalistas, que procuravam libertar o seu pais do dommio romano (cf. Luc? 6:l?r^tr~ ÍT Í3 )rT scario tes é de derivação incerta, mas possivelmente sig­ nifica “homem de Queriote” , uma aldeia da Judéia (Dalman, Words of Jesus, p. 51 e s.). Possivelments_=todQs^os,,doze, menosJ.u.das,^am daJoaUléia^ 3. Os Doze Comissionados (10:5-15) 5 A e ste s doze en viou J esu s, e ordenoulh es, dizendo: N ão ireis aos gen tios, n em en trareis em cid ad e de sa m a rita n o s; 6 m a s ide an tes à s o velh as p erd id as d a c a sa de Israel; 7 e indo, p regai, dizendo: É chegado o reino dos céu s. 8 C urai os en ferm os, r e s ­ su scitai os m ortos, lim p a i os lep rosos, e x ­ pulsai o s dem ônios; de g r a ç a re c e b e ste s, de graça dai. 9 N ão vo s prov ereis de ouro, n em de prata, n em de cobre, em v o sso s c in to s; 10 nem de alforje para o cam in h o, n em de duas túnicas, n em de a lp a rca s, n em de bordão;

porque digno é o trabalhador do seu a lim e n ­ to. 11 E m qualquer cid ad e ou aldeia, e m que en trard es, procurai sa b er quem n ela é d ig ­ no, e h osp ed ai-vos a í a té que v o s retireis. 12 E , ao en trard es na c a sa , sa u d a i-a; 13 se a c a sa for digna, d e sç a sobre e la a v o ssa paz; m a s, se não for d ign a, to m e p a ra v ó s a v o ssa paz. 14 E , se n in gu ém v o s receb er, n em ouvir a s v o ssa s p a la v ra s, saindo d aq u e­ la c a sa ou d aq u ela cid a d e, sa cu d i o pó dos v ossos p és. 15 E m v erd ad e vos digo que, no dia do juizo, h a v erá m en o s rigor p ara a terra d e Sodom a e G om orra do que p ara aq u ela cid ad e.

A restrição de que os doze deveriam ir não aos gentios nem entrar em cidade de samaritanos é um dos mais difíceis pro­ blemas em Mateus, pois isto parece con­ tradizer o comissionamento final para “fazer discípulos de todas as nações” (28:19). O fato de Mateus ter escrito para uma igreja então já fortemente gentílica, torna esse ponto de vista, gue pelo menos na superfície parece ser nacionalista ou exclusivista, ainda mais estranho. A su­ gestão de que a opinião do próprio Ma­ teus é a universalista, que prevalece, e que a opinião nacionalista pertence me­ ramente a uma das suas fontes, não satis­ faz. Mateus não apenas não omitiu essa aparente contradição, mas dá-lhe o que parece ser uma proeminência deliberada (cf. 15:24). É melhor tentar entender ambas as comissões: uma restrita a Israel e a outra abrangente, incluindo as na­ ções ambas pertencentes às intenções de Mateus. Provavelmente, para Mateus não havia problema. Hummel (p. 136-39) sugere que M a­ teus inclui 10:5 e s. e 15:24 por interesses cristológicos, e não missionários, para mostrar que Jesus era o “Filho de Davi” , o Messias de Israel, e que apenas o Cristo ressuscitado, depois de ter sido rejeitado por Israel, comissiona os seus discípulos para irem a todas as nações. Provavelmente, o problema é melhor entendido nos termos da revelação de Paulo: “primeiro do judeu, e também do grego” (Rom. 1:16). Na verdade, Jesus se ofereceu primeiramente a Israel. A alian­ ça com Abraão tinha em vista as nações. 173


mas também levava em conta que Deus catológicos de que o reino dos céus estava _ iria alcançar as nações através de Israel irrdmpSI3Õ*^Ffe’oTnün3õ. ^ (Gên. 12:2 e s.; 18:18). Isaías é explícito "*T^~^ãç5^TO^SVflm‘éhT:e'ê uma tradu­ no esperar a conversão das nações, mas ção correta de dõrean, algumas vezes ele viu a conversão de Israel acontecendo vertido como “livremente” . Possivelmen­ antes (2:2-4; 49:6 e s.). O que Jesus fez. te, a referência imediata é à autõridadE po^^xjB^f^ curar. ples-'nãó"ligvtgitíi ao oferecer-se prim eiran^me^’a T s i^ l, e depois às nações, e coererítè' com ás p ^ o nada por a.quete poder, e. não de^ '’^ am ~cio b r a F ^ r ele. Provavelmente, a 'êxpwfativas d o ^ iB ió Testamento. "^SêTHüs tivesse' ido primeiramente aos referência é ao*ministério total, em palagenSõTou samaritanos, os judeus teiianí v f S ^ em^ obras, ^ õ~"qüãT' e lé s n lõ 'ti^ó”mais desculpas para reieitá-ío-Jesus HeviiTim receber jiin h u m pagamento. não apenas se dirigiu^ diretamente aos K ra l^ fo rç a r este rèquSito, elSTõrãm ’ ^ d e iís, csmo,tambéin atacou osjDrpble- ’ instruídos a não se proverem de dinheiro em seus cintos. “Procurai” (ktêsSstlie) é más de discriminação ou jxclusivismOj a tradução exàta. Cintos é tradução de lo^qu^e õs encontrou, jíentro dq judaísmò. Áo rejeitar a distinção superficial zõnas, aqui referindo-se às bolsas carre­ enfrêlfariseus e “pecadores” , Jesus abriu gadas em cintos. Um alforge (pSran) era o caminho para a rejeição' final de qual­ usado para carregar comida ou outros quer distinção verdadeira entre judeus e bens. A túnica (chitõn) era um blusão vestido sobre a camisa (sindõn) e sob a gregos. Lucas, em Atos, traça o curso do evan­ capa (himation). Nem de alparcas dá a gelho de judeu a samaritano, a gentios entender que eles deveriam ir descalços (mas veja Marcos 6:9). Bordão (rabdon) tementes a Deus, e finalmente a pagãos, como o carcereiro de Filipos (At. 16:27- refere-se a um porrete, possivelmente para defesa. O fato de que os discípula 34). João (cap. 4) descreve uma ministração de Jesus aos samaritanos, e Mateus 4eyiam viajar desta forma aliviados de também mostra os primórdios do que pesc^ pode ter sido pãrã~ permitir-lhes mais tarde se tornou uma missão plena ándír mais rápido^m as p r o v ^ d l ^ ^ éraTãntõ para sàlyl^ardá-los do desejo aos gentios (8:5-13; 15:21-28). De qualquer forma, não há absoluta- dè coisaj; materiais, ou confiança nelas. ' ^ a Fconfiãnçaem mente nenhum f ã v õ n ^ S õ ja r a com ^ ___ _ como para ençprajar Tael^ pois a missão é de misericórdia, e ~Peus^ daí, de juízo. Aqui Israel é considerado^^*^Éste não é um conjunto de regras que WTÍ, pomJoecesSítado de^misericòrdia. e i \ deva ser universalmente ordenado. Lucas não ji^ jjo y o Juslp.,. merecendo-jecom- j apresenta as mesmas restidções B a ^ pensã^ — são as ovelhas perdidas da casa ; em 10:4, mas mostra que m ais tarde j[ê~Erael. Antes que um evangelho de | J ^ sjeyerteu as ordens p2:35-38), pro~grãça“e~*misencordia seja oferecido aos_ ! vãrolmente dando a princípio uma lição pagãos, ele é primeiramente oferecido aos } de confiança, e jnais tarde umâ licâcude jü3euir^quF“slÕ igualmente pecadores, r3i3ícaçãõ de fôdos qs recursos ao traba-, ■Sêm^qüSa^SpéÍM^ ScKlatter, p. ; lRõ dò"feffrê. Paulo se.jeçusou a.aceita^^r^ T 54e s.). s 'pagamento pefo^g u trabalho, mas_de- . Outra vez aqui é demonstrado que o p fendèu°o" seu direito a isso (I Cor. 9:4, ministériq dos^disgipulos deve ser _q_jío j IS-íST* Na sua"maior parte, as igrejas seu Mèstre. Com a sua autoridade (10:1), têm verificado que„um pastor pago tem eles devem realizar a sua obra de preear 'mais possijjilidade de se tom ar melhor e curar. Os milagres de cura, ressurrei- “prem rado para a obra e de se dedicar çã^õ^lnortõsTpurificação de leprosos e ~n^ r^ é n a m e n te „ a _ d a ^ O preco deste expulsão de demônios, seriam sinais es- sistema, porém, é o perigo do mercena174


i rismo. isto é. de o homem de Deus ; “âSapteîCâsluas mën ^ e n s ~ ^ ^ ^ m a a agradar àqueles que. o sustentam, ou^ aqu5i^ que q fazeiri e^igir que ele o faça^ I 'Xis discipulos nâo estavam servindo a _ I i g ï ^ s e s ta b e le c i^ empenhados / em trabalhó missionário novo. A integra^ ção najddajdji cqmunidade e á liçâo de dar e receber foram algumas das vanta-, gens ^ jp l a n o de ação que Jesus lhes_

dos acerca do possível ^rompimento dos lâços familiares e assegurados quanío ás recompensas que esperam qs fiéis. l)(q ^ lh as no Meio de L o b ^ 10:16-25)

16 E is que v o s en vio com o o v elh a s ao m eio d e lobos; portanto, siede pru d en tes co'm o a s serp en tes e sim p le s com o a s p o m ­ b as. 17 A cau telai-vos d os h om en s; porque e le v o s en treg a rã o a o s sin éd rios, e v o s a ç o i­ tarão n a s su a s sin a g o g a s; 18 e por m inha ca u sa se r e is lev a d o s à p resen ça dos g o v er ­ ' ^ Os discípulos deviam aceitar hospitali-_ nadores e d os r e is, p a ra lh e s serv ir de te s te ­ m unho, a e le s e a o s g en tio s. 19 M as, quando dade. p o r q ^ iJimo é o t r a b a lh a d o r ^ v o s en treg a rem , n ão cu id eis d e com õ, ou o~ seu alimento. Deviam procurar uma casa que h a v eis ae falair; porque n aq u ela hora "âg ia, alguém aberto para o evangelho, e v os se r á dado o qüe h a v e is de dizer. 20 P o r­ ficar ali até saírem daquela comunidade. que não so is v âs que fa la is, m a s o E sp írito d e v o sso P a i é qu e fa la e m v ó s. 21 U m irm ão Não deviam mudax.de.lugar. procurando en treg a rá à m o rte a seu irm ã o , e u m p a i a melhores acomqdac5es_ou sustento. Conseu filh o; e fUhos se lev a n ta rã o contra os siMfava-se sua, paz como algo m a i s ^ p ais e o s m ata rã o . E se r e is odiados de que uma saudação: algo nmis substan­ todos por c a u sa do m éu n o m e, ínãsTljiiHelé cial, palavra revestida de poder, ^ J b ^ e p er se v e r a r a té o fim , e ss e sé r à sa lv o . ZS põãiá" desêer sobre uH a ~casa oiii/^QuandõTporerii, y o s p erseg u irem nn m a c i­ dade, fu gi pa r a outra; porque e m verd ad e tom u para os discípulos. Sacudir o pó v o s digo que nã« a ca b a r eis de percorrer a s 3 o í pés era um costume judaico, quando cid ad es de Isr a e l a n tes que ven h a o F ilh o do um judeu deixava solo gentio, considera­ hom em . do por aquele como “impuro” . Os iudeus. 24 N ão é o d iscípulo m a is do que_p„seu m estr e, n e m o s è i^ õ m a is do _que o j e í que rejeitassem o evangelho, desta forsenhor. 25 B a sta a o discípiílo se r com o seii m a7sèn5nlao'^*unpuros” quanto, aquem estre, e ao serv o com o séii senHorT.Se íês (^e eles assim classificavam. Sodoma ch a m a ra m B e lz ^ u ao dono da c a sa , quanto e ^ õ m o rra eram cidades notòriar'pe]5 ^ i j í ã õ s se u s d o m e sá c o s? ' " " —

sTO iniqüidade, mas eíãs^ iríam receber Juízo mais leve do que aqueles que rejei­ tassem o evangelho. Quanto maior a oportunidade. ou.J3rivilegÍQrmaior a resP õ 5 s^^^

Mateus apresentou os doze contra um pano de fundo que pinta o povo como ovelhas sem pastor, que haviam sido lançadas por terra e deixadas à míngua de socorro (9:36). Os próprios discípulos 4. Pjerscguiçao^ Vindoura; Senhor e são enviados como ovelhas_ao.. meio dfe Discípulo (10:16-42) Tobos?~PrOTã^ que os. lobos são as auto-^ O restante do capítulo 10 é endereçado ridades civis e religiosas. Sinédrios (sunedria) eram tribunais locais judaicos, aos discípulos, pretendendo colocâ-los compostos de 23 homens. Na Palestina, em uma disposição mental correta para a eles eram distintos das sinagogas, mas na tarefa que deveriam realizar. Eles são avisados das perseguições que os espeDiáspora, geralmente eles se relaciona­ vam intimamente com as sinagogas ram, lembrados que respondem, em últi­ (Sanhedrim 1:6). Não havia distinção ma instância, a Deus, e a ninguém mais. ivisados das sérias implicações de con­ entre Igreja e Estado, no governo local; por isso, os julgamentos podiam ter lugar fessar Cristo ou não sob coação, advertinas sinagogas, onde os condenados po­ 24 Suzanne de Dietrich, The Goipel Accordlns to M at­ diam ser açoitados. Açoitar era dar, em thew (Richmond: John Knox Press, 1961), p. 62 e s. uma pessoa, 39 chibatadas (a lei judaica 175


permitia 40, mas eles paravam em 39, para que não ultrapassassem o permitido por lei, devido a um erro de contagem.) O flapelamento romano era muito mais severo do que o açoitamento judaico (II Cor. 11:24 e s.). Governadores provavel­ mente se refere aos lyocuradores roma­ nos da Judéia, como Pilatos. Reis podia referir-se aos príncipes herodianos, como Antipas ou Agripa I. A referência aos gentios pode estar prevendo uma missão ]ue iria além de Israel. Os discípulos são avisados claramente j da rejeição, perseguição e possível martíI rio que provavelmente encontrariam, ' mas de forma alguma são encorajados a procurar o martírio. Pelo contrário, são" iíü sto íd ^ l)ara evitar uma oposição desnecessária, que excitasse os ânimos, e, conforme a ocasião,- para se afastarem da, hostilidade. Eles devem ter cuidado com os homens, e devem ser prudentes como as serpentes e simples como as pombas. Prudentes (phronimos) refere-se à ser cauteloso, e simples (akeraios) à sinceri­ dade, isto é, puros ou sem mistura. Este era provavelmente um provérbio. Os dis­ cípulos devem usar o bom senso, que evita conflitos desnecessários, e manter integridade de motivos e métodos, em seu trabalho missionário. Em certas oca­ siões será melhor — para todas as pes­ soas envolvidas, eles e seus inimigos — fugir de uma cidade para a seguinte. Isto èstá de acòrdo com a Advertência para evitar controvérsia desnecessária e inútil (7:6) e com o próprio costume de Jesus, de fugir dos inimigos até oue ele pudesse realizar a sua tarefa líá^ica (4:12; Luc. 4:29 e s.). A despeito de todas as precauções, haveria prisões e julgamentos. A responsabilidade do discípulo seria realizar o seu trabalho com diligêncTa, sabedoriãTe integridade, mas não ficar ansioso ante­ cipadamente acerca de como iria se de"fender, se levado a tribunal. O que deve­ ria dizer lhe seria dado naquela hora. Esta não é uma promessa de sermões pré-fabricados para cultos na igreja, ou 176

um texto de prova contra um pregador culto. Isto se relaciona com julgamentos em tribunais, e não com a pregação em púlpitos. O discípulo saberá o que dizer quando chegar a hora. O Espírito de vosso Pai aqui significa o Espírito Santo, nome este que nunca a p re c e em Mateus. O Espirito é o próprio Deus próxi­ mo ao homem. 0 teste mais severo para o discípulo pode acontecer dentro de sua família, onde os mais fortes lã^_da,carne~3lQ cortados, e a pessoa pode ser odiada e até entregue pelos seus próprios parentes às autoridades, para ser julgada. Isto se refere particularmente ao elevado preço pago por muitos judeus seguidores de Cristo. O próprio Jesus perdeu a sua família por algum tempo, e recuperou-a apenas depois de sua morte (| 12:46-50). R ^ w g ^ ra r (hupomene) é um termo neo' testamentário básico, denotando firmeza ou constância. Até o fim (eis telos) pode referir-se ao fim do século, mas provavel; mente significa perseverança até em face do martírio (cf. Apoc. 2:10). Istojiâojignifica que apenas os mártires,^erão_ salY ^ m ^ T T e T iã R g o ra lü g o rta rá até q ■martíno. E ã cõiístâriciã que expressa a I s S v ã ç ^ ^ a pessoa, e não o suportar que *kanha a salvação. ‘ versículo 23 é muito difícil. A tradu­ ção mais simples parece ser que Jesus esperava que o Filho do Homem apare­ cesse antes que os doze tivessem viajado por todas as cidades de Israel. Se a refe­ rência é à Parousia, ^ vinda do Füho do Homem nas nuvens, no fim dos séculos, é estranho que Mateus o registrasse uma geração mais tarde. A interpretação mais difícil e mais provável é presumir que, ao falar de Filho do Homem, Jesus estava se referindo a si próprio, e que, de alguma forma, ele viria na época dos discipulos. Num sentido real, o Filho do Homem veio e vem em juízo, em cada situação de crise, quando o homem é compelido a escolher o seu destino, seja no Gólgota, na destruição de Jerusalém ou em outra época.


Pode-se observar que a prometida vin­ da do Filho do Homem aqui está relacio­ nada com a perseguição dos discípulos. O papel do Filho do Homem era julgar e reinar. Possivelmente, o assunto é que, os discípulos ao serem expulsos de cidade em cidade, julgados e rejeitados pelos seus conterrâneos, o Filho do Homem estaria ali, julgando os que condenassem os seus. A vitória pertence ao Filho do Homem e seus discípulos perseguidos, e não àqueles que os perseguem de cidade em cidade (cf. Schlatter, pp. 161 e s.). O discípulo não podia esperar recep­ ção melhor do que a dispensada ao seu mestre. Jesus procurou seguidores, mas nunca permitiu que eles se esquecessem o quanto custaria segui-lo. Belzebu é apre­ sentado aqui como se o leitor já tivesse conhecimento da acusação feita contra Jesus (veja a discussão de 12:24).

visto pela perspectiva do dualismo grego, que o considera como uma alma aprisio­ nada em um corpo. Deus fez o homem" em sua existência corporal, e a salvação é completada apenas por ocasião da res­ surreição do corpo. Este parágrafo sinP” plesmente se refere à distinção entre a vida física, que pode ser tirada, e o “eu ” , que está alem do alcance da morte físicaT Alma muitas vezes é usada para designar o “eu” . O versículo 26 consiste de um parale­ lismo semítico, pois declara que o que está encoberto será descoberto, e o que está oculto será conhecido. O versículo 27 também contém um paralelismo, e significa claramente que o que Jesus ensi­ nou aos discípulos deve ser abertamente proclamado a todos os que quiserem ouvir. Jesus não tinha segredo ou ensina­ mento esotérico como os essênios e rabis. O que o versículo 27 diz claramente pode 2) A Quem Temer (10:26-33) ser a intenção do, mais obscuro, versículo 26 P ortanto, não o s te m a is ; porque n ad a 26, ambos ensinando que o evangelho deve ser abertamente proclamado. Con­ há encoberto, que não h a ja de se r d esco b er­ to, n em oculto, que não h a ja d e s e r co n h eci­ tudo, o versículo 26 pode referir-se aos do. 27 O que v o s digo à s e sc u ra s, dlzei-o à s sofrimentos dos discípulos. O ódio, insul­ claras; e o que esc u ta is a o ouvido, dos eiratos, flagelamento, e outras coisas sofri­ dos pregai-o. 28 E não te m a is o s que m a ta m o corpo, e não pod em m a te r a a lm a ; te m e i das por eles podem acontecer secreta­ mente, à noite, ou em algum lugar remo­ ím tes a,jguéléj[ue jpc^e"fazer p erecer no Ç fem o ^ t o ~ a alm a. com o o co iço ^ 2 9 N ão se to, mas por fim tudo será conhecido; ven d em dois passarin h os por u m a sse ? e imediatamente por Deus, e futuramente nenhum d eles ca ir á em terra se m a vontade por todo mundo. Assim entendido, o de vosso P a i. 30 E a te m e sm o os ca b elo s da versículo 26 é um encorajamento a um v o ssa ca b eça e stã o todos con tad os. 31 N m tem a is, pois; m a is v a ieis v ó s do que m iíítos ministério sacrificial, e o versículo 27 é passarinhos. 32 P ortan to, todo a q u ele que*^ uma ordem para ensinar e pregar aberta­ f m e con fessar d ian te dos h om en s, tom b ém mente, sejam quais forem os perigos que eu o con fessa rei diante de m eu P a i, que e stá isso acarretar. nos céu s. 33 M as qualquer que m e n eg a r í O encorajamento é reforçado pela cer­ diante dos h om ens, ta m b ém eu o n eg a rei / diaote de m eu P a i, que e stá nos céu s. ' teza de que Deus, que observa até a morte de um pardal, e conhece o número O Novo Testamento nunca ensina que dos cabelos da cabeça de uma pessoa, se deve temer a Satanás, mas que se deve certamente cuidará dos seus. O valor resistir a ele (Ef. 6:11). Temei aquele se infinito do homem é enfatizado, ^ con­ refere a Deus, diante de quem, por fim, a traste com o preço de passarinhos. Asse pessoa permanece de pé ou cai, é absolvi­ (assarion) era um-dezesseis avos de um da ou condenada. Não se deve procurar o”l denário, sendo este o salário de um dia ^ a r tír io , mas, por outro lado, não se ' de trabalho do operário (20:2). Sugerir o j deve temer os que podem matar o corpo, equivalente em dinheiro nos dias de hoje ‘ mas não a alma. O homem aqui não é é enganoso, pois muda diariamente. 177


Promessa e advertência estâo combinaãõs riõsversículos 3 T é33. A referência' é aos crenïès qüè esíao seiído julgados, ou confessando a Cristo com o perigo de suas próprias vidas, ou negando-o, p a r ^ l^ c a p a r a castigos. Este era um assunto oásico para a igre|a pnmitiva. estando a sua própria existência ligada com a dis^ pM çao de morrer por Cristo. A referênciá nao é a confissão de jJn sto diante de crentes, mas à declaração de sua fé em Cristo'qÏÏândo em prisão ou julgamento. O fato de Jesus reconhecer õü descòtóecer aqueles que o confessarenT^u negarem não é arbitrário. Cristo não pode deixar de declarar qual é o verda­ deiro relacionamento de uma pessoa com ele. Ele não pode declarar ser seu alguém que não o é. Equilibrando a sóbria adver­ tência desta passagem, existe o fato de Jesus ter ficado ao lado de Pedro, a dëspëitô'dë ele ter vêfgonhosamente nèg ã ^ ^ s e u Mestrê'(26:69-75; Mar. 14: 68-71). Possivelmente, -existe diferença entre negação proposital e fraqueza humana, que nao preenche os requisitos de uma situaçaô^ë'cnsë’.'T) propósito óbvio de j ^ t e u l) e ~ãBvéftif~ a Igreja da sua época ^ n t r a o perigo de negar a Cristo em momêhtos~3e'pressão; desta forma, ëlF H tr^ 'rd v ertên d â,' más não inclui a menção que Marcos faz da palavra espe­ cial de Jesus para Pedro (cf. 28:10 com Mar. 16:7). 3) Não Paz, Mas Espada (10:34-39) 34 N ão p en seis que v im tra zer p az ã te r­ ra; não v im trazer paz, m a s esp a d a . 35 P o r ­ que eu v im pôr em d lssen sã o o h om em contra seu pai, a filh a contra su a m ã e , e a nora contra sua sogra ; 36 e a ss im os in im i­ gos do hom em serã o os da su a própria c a ­ sa . 37 Q uem a m a o p a i ou a m ã e m a is do que a m im não é digno de m im ; e q u em a m a o filho ou a] filha m a is do que a m im n ão é digno de m im . 38 E quem n ão tom a a su a cruz, e não seg u e após m im , não é digno de m im . 39 Q uem a ch a r a su a vid a , perdê-la-á, e quem perder a su a v id á p o r a m o r de m im , achá-la-á.

Ou objetivo ou resultado pode ser o pretendido pela gramática dos versículos 34 e s. Sem dúvida, Jesus veio para trazer 178

e efetuar a paz da reconciliação entre homem e homem, bem como entre o Homem e Deus. Esta é a sua intenção. O verdadeiro resultado é muitas vezes a espada da divisão. Em tempos de perse­ guição, os inimigos do homem, os que o entregam às autoridades, podem perten­ cer à sua própria família. Através de todo este Evangelho, o parentesco básico é apresentado como um a questão de fé, e não de came (cf. 3:9; 12:46-50). O princípio mais profundo corporificado no ensino e na vida de Jesus é o dos versículos 38 e s. A cruz era um cruel meio de execução, que os romanos ha­ viam tomado emprestado dos cartagine­ ses, e empregado para a humilhante e torturante execução de criminosos, sendo os cidadãos romanos isentos dessa espé­ cie de execução. Exigia-se do condenado que carregasse a barra transversal da cruz, que, no lugar da execução, iria ser afixada à peça vertical. Jesus fez da cruz um símbolo de vitória. O seu grande paradoxo é que a pessoa acha a sua vida pela disposição em perdê-la, da mesma forma como inevitavelmente perde-a ten­ tando salvá-la. A cruz é a completa auto­ negação e autodoação, primeiramente no próprio Jesus, e depois como um princí­ pio transformador naqueles que nele confiam. Neste contexto, há uma referência es­ pecial ao martírio. Aquele que, estando sob julgamento, aparentemente salva a sua vida, renunciando a Cristo, na verda­ de, perde-a. Aquele que sofre o martírio como o preço de confessar Cristo, parece perder, mas, na verdade, encontra a sua vida. Para Jesus, e mais tarde para a igreja de Mateus, o teste era o da morte física, mas, em princípio, cada pessoa aceita ou rejeita a sua cruz. Cada crente encontra sua vida submetendo-a a Cristo, ou perde-a por causa de confiança pró­ pria, amor próprio e auto-afirmação. 4) Recompensas (10:40-42) 40 Q uem vo s receb e, a m im m e re ceb e: e q uem m e receb e a m im , receb e aq u ele que


m e enviou. 41 Q uem receb e um profeta na qualidade de p rofeta, receb erá a recom p en ­ sa de profeta; e quem receb e u m justo na qualidade de ju sto , receb erá a recom p en sa de justo. 42 E aq u ele que der a té m esm o um copo de águ a fr e sc a a u m d e ste s pequeninos, na qualidade de discípu lo, em verd ad e vos digo que de m odo a lg u m perd erá a su a recom pensa.

Outro princípio básico do Novo Tes­ tamento aparece neste parágrafo. O rela­ cionamento verdadeiro de uma pessoa com Deus é expresso no seu relaciona­ mento com Jesus, è o seu verdadeiro relacionamento com Jesus é expresso no seu relacionámento com o seu povo (cf. 25:31-46). Não que dar um copo de água fresca a outrem faz da pessoa um filho de Deus, mas em um simples ato como este podem revelar-se a verdadeira natureza e o verdadeiro relacionamento de uma pes­ soa. Existe aqui a dimensão adicional de que a pessoa revela o seu verdadeiro relacionamento com Deus quando recebe ou serve a um profeta, um justo, ou um discípulo, como tal, e não por qualquer motivo ulterior. Especial atenção pode ser dada ao interesse de Jesus pelos pequeninos. Es­ tes não eram meras crianças, mas as pessoas comuns, que tão facilmente são desprezadas ou passadas despercebidas. Para Jesus não havia pessoas sem impor­ tância, fosse qual fosse a sua idade, sexo ou posição. A recompensa é certa, mas não especificada. Possivelmente o pen­ samento é que pelo fato de receber a pessoa a recompensa é recebida. 5) Sumário (11:1) 1 Tendo acab ad o J esu s de d ar instruções aos se u s doze d iscíp u lo s, partiu d ali, a e n si­ nar e a pregar nas cid ad es d a região.

Stephan Langton, em 1228, ao fazer a nossa moderna divisão em capítulos, bem podia ter incluído este versículo no capítulo 10, pois ele pertence à seção das cinco fórmulas de Mateus, indicando uma divisão principal da sua obra (cf. 7:28; 13:53; 19:1; 26:1).

V. Várias Reações Para com Jesus ( 11 :2 - 30 ) Sem forçar o material, o leitor facil­ mente vê, nesta seção, pelo menos cinco reações para com Jesus: a cautelosa apro­ ximação de João (v. 2-11), os esforços para fazer o reino de Deus servir aos alvos humanos (v. 12-15), o desagrado infantil com todas as opções (v. 16-19), o flagrante desinteresse ou rejeição do evangelho (v. 20-24) e a confiança de cunho infantil (v. 25-30). 1. Incerteza e Confusão (11:2-6) 2 O ra, quando João no cá rcere ouviu falar das obras do C risto, m andou, p elos seu s discípulos, perguntar-lhe: 3 É s tu aquele que h a v ia de v ir, ou h a v em o s de esp era r outro? 4 R espondeu-lhes J e s u s : Ide contar a João a s c o isa s que ou vis e v e d es: 5 os ceg o s v êem , e os coxos a n d a m ; os lep rosos sã o p u ­ rificad os, e os surdos o u v em ; os m ortos são ressu scita d o s, e a o s p ob res é anunciado o evan gelh o. 6 E bem -aventurado é aq u ele que não se esca n d a liza r de m im .

A prisão de João foi mencionada em 4:12, e aqui o fato de ele estar preso é apresentado como algo já familiar ao leitor. Não antes de 14:1-12 Mateus des­ creve, a prisão em si, em termos de fatores causais e resultados. De Josefo (Antiguidades, XVIII, 5, 2) vem a infor­ mação de que foi em Maqueros, a leste do Mar Morto, que João foi preso. A gramática não resolve a questão, se o problema da identidade de Jesus era de João pessoalmente, ou (posição sustenta­ da já por Orígenes) dos seus discípulos. Este parágrafo parece dar a entender que a pergunta veio do próprio João. Não há nada que anule esta possibilidade, e é improvável que Mateus tivesse deixado campo para esta interpretação, se não fosse esse o seu objetivo. Parece melhor presumir que a pergunta partira de João. Se assim é, ela expressa tanto uma certa medida de dúvida quanto certa medida de confiança. Ele apresentou a interro­ gação diretamente a Jesus — uma indi­ cação de confiança, embora confusa. 179


Uma outra ambigüidade permanece quanto à pergunta de João. Será que ela expressa dúvida crescente, ou esperança novamente desperta? Este parágrafo pa­ rece favorecer a primeira hipótese, e os registros dos outros Evangelhos apoiam o ponto de vista de que este não é o começo da fé em João, de que Jesus é o Cristo, mas, pelo contrário, um período de in­ certeza (cf. 3:14; João 1:29, 35 e s.). O que João ouvira na prisão falar das obras do Cristo levou-o a enviar alguns dos seus discípulos para perguntar a Jesus se ele era de fato aquele que havia de vir. A incerteza de João acerca de Jesus germinou devido à espécie de ministério que Jesus estava realizando. João havia proclamado a vinda do reino dos céus, e havia visto a sua vinda em termos de juízo, simbolizado por machado, pá e fogo (3:2, 10-12). Ele aparentemente es­ perava que o Cristo agisse dramatica­ mente, destruindo os ímpios e vingando os justos. Exteriormente, os sinais de tal vitória não eram aparentes, pois ele esta­ va na prisão, enquanto Herodes Antipas e Herodias estavam vivendo em luxo e poder (14:1-12). João queria saber se Jesus era aquele que havia de vir ou se deviam esperar outro. Outro (heteron) pode designar um de outra espécie, mas isto não pode ser considerado apenas gramaticalmente. Todavia, o contexto apoia essa idéia. Que tipo de Messias devia ser esperado? “O que havia de vir” não é uma expres­ são muito bem estabelecida, mas parece ser messiânica (cf. 3:11; Dan. 7:13; Heb. 10:37; Apoc. 1:4). Os zelotes claramente esperavam um messias de tipo militar, e João parece ter esperado pelo menos um homem mais militante do que os atos dê Jesus pareciam expressar. Aparentemen­ te, ele esperava que o Messias se envol­ vesse mais direta e exteriormente com o mundo ao seu redor. Pode ter-lhe pareci­ do que Jesus estava assumindo um papel humilde demais. Foi exatamente neste ponto que Pedro e outros tropeçaram (cf. 16:21-23; João 13:8). 180

Faz parte da força do Novo Testamen­ to o fato de ele revelar as limitações dos seus heróis. Só Jesus não tem defeitos. É significativo, também, que Jesus não re­ jeitou nem menosprezou João, embora a honesta dúvida ou incerteza de João fosse acerca do ponto mais crucial: a identida­ de de Jesus. Em resposta, Jesus indicou que João devia encontrar a sua resposta exatamen­ te onde encontrara a sua pergunta: nas obras do Cristo. Jesus citou as suas obras: visão para os cegos, forças para os coxos, purificação para os leprosos, audi­ ção para os surdos, vida para os mortos e o evangelho para os pobres (cf. Luc. 4:18 e s. para uma descrição similar do seu ministério). A vinda de Jesus era um julgamento inevitável; não obstante, a sua intenção era curar, purificar, restau­ rar, libertar e dar poder a todos os que recebessem a salvação que ele oferecia. É interessante que Jesus fez da pregação do evangelho aos pobres, e não dos mila­ gres, a sua obra culminante. O versículo 6 é decisivo. Esta é uma outra “beatitude” , e a bem-aventurança pertence aos que não se escandalizam com Jesus devido à natureza do seu mi­ nistério. Escandalizar traduz uma forma verbal edificada sobre a palavra grega skandalon, usada, em primeiro lugar, para designar a isca de uma armadilha, e, posteriormente, como metáfora para tudo o que faz uma pessoa tropeçar ou errar e cair. Jesus declara bem-aventura­ dos os que não tropeçam sobre o fato de o seu ministério ser o de servo, em vez do de um “conquistador” material. Paulo chamou isto de “escândalo (pedra de tropeço) da cruz” (I Cor. 1:22-25). Até os apóstolos tropeçaram acerca do papel que Jesus declarou que viera executar (16:21-23). 2. Distorção e Violência (11:7-15) 7 Ao p artirem e le s, com eçou J e su s a dizer à s m u ltid ões a resp eito de João: Que sa iste s a v er no d eserto? um can iço agitad o pelo vento? 8 M as que sa is te s a ver? um h om em trajado de v e ste s lu xu osas? Elis que a q u eles


que trajam v e ste s luxu osas estã o n a s c a sa s dos reis. 9 M as por que sa iste s? p ara v er uin profeta? Sini, v o s digo, e m u ito m a is do que profeta. 10 E ste é aquele de quem e stá e s c r i­ to: E is a í envio eu ante a tua fa c e o m eu m e n ­ sageiro, que h á de preparar ad ian te de ti o teu cam inho. 11 E m verdade v o s d igo que, en tre os n a sc i­ dos de m ulher, n ão surgiu outro m aior do que João, o B a tista ; m a s a^iuele que é o m enor no reino dos céu s é m aior do que e le. 12 E d esd e os dias de João, o B a tista , até agora, o reino dos céu s é tom ado a fo rça , e os violentos o tom am de a ssa lto . 13 P o is todos os p rofetas e a le i profetizaram a té João. 14 E , se.q u ereis dar créd ito, é e ste o E lia s que h a v ia de vir. 15 Q uem tem o u v i­ dos, ouça.

João louvado (v. 7-11) — Jesus expôs as limitações de João, mas também lhe pagou grandes tributos. João representa­ va uma linha divisória entre uma era que se encerrava, e outra, nova, que começa­ va. João era um profeta, e mais do que profeta. Ele era o mensageiro anunciado por Malaquias (3:1; 4:5). A sua função era preparar o caminho do Senhor, de Jesus Cristo. João se situava no fim de uma longa linhagem de profetas; não obstante, pertencia a uma era de promes­ sa, e não de cumprimento. A nova era, que Jesus trazia, situava-se acima da era que estava passando com João. “A sua base ficava mais alta do que a cumeeira da outra” (Robinson, p. 101). A gramática (ti pode significar o quê? ou por quê?) e a ausência de pontuação nos manuscritos primitivos, torna possí­ vel a tradução da IBB ou outra. Poderia ser traduzido: “Por que saistes ao deser­ to? para ver um caniço agitado pelo vento?” Em qualquer das duas tradu­ ções, a intenção é clara. Jesus está defen­ dendo João contra qualquer suspeita de que ele é fraco ou vacilante. João pode estar confuso ou incerto, mas não há questão quanto à sua coragem, dedica­ ção ou sinceridade. Apesar de toda a grandeza de João, aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele. Alguns consideram “o menor” como sendo o próprio Jesus; isto

é, aquele que “veio depois” (Jesus) na verdade “posiciona-se antes” daquele que viera antes (João), como é explanado em João 1:15. Mais provavelmente, a referência é aos seguidores de Jesus. Jesus não lançou dúvidas sobre a sal­ vação de João, mas declarou que João não estava em posição de ver a verdadei­ ra natureza e manifestação do reino. Ele estava já irrompendo na história, mas o seu maior triunfo, na morte e ressurrei­ ção de Jesus, estava além da duração da vida e da experiência de João. Machado, pá e fogo simbolizam, corretamente, o juízo pertencente essencialmente ao rei­ no, mas a cruz em sua suprema vitória é tanto juízo como redenção. Os violentos (v. 12-15) — Há várias interpretações possíveis da declaração de que o reino dos céus é tomado à força, e que os violentos o tomam de assalto (M-Neile, p. 155). O reino pode ser con­ siderado em termos dos da perseguição sofrida pelos seus membros. Isto é im­ provável, pois o reino geralmente se refe­ re ao governo de Deus, mais do que às pessoas sob esse governo. O reino pode ser visto violentamente atacado por pes­ soas ansiosas por entrar nele, mas isso não tem apoio em nenhuma outra passa­ gem de Mateus. A nossa tradução dá o significado mais provável. Os violentos tentam tomar o reino de assalto, e fazê-lo servir aos seus propósitos. A declaração dos versículos 12 e s. irre­ futavelmente se remonta a Jesus, e nela ele proclama que o reino já raiou nele, mas está sendo obstruído por homens violentos. A grandeza de João é vista no fato de ele se levantar no entroncamento das eras (aeons), contudo, o próprio Jesus está acima de João. O reino vem em Jesus, e é zombado por alguns, enquanto outros tentam distorcê-lo, precisamente porque “ele aparece na forma indefesa de evangelho” (Kasemann, p. 42 e s.). Tomado à força (biazetai) descreve o reino como sendo assaltado. Tomam de assalto (harpazousin) pode ser o que gra­ maticalmente é conhecido como “cona181


tivo” . Se assim é, ele descreve esforço ou intenção, mas não necessariamente rea­ lização. A força conativa de um verbo não é determinada por sua forma, mas sugerida pelo contexto. Os violentos se­ riam os zelotes e todos os ativistas que pensavam no reino de Deus em termos políticos, e no papel do Messias realizan­ do inclusive a derrota do domínio roma­ no, mediante a força militar. Os extre­ mistas, através de revolta armada, pro­ curavam precipitar a vinda messiânica e estabelecer o reino de Deus. Os mode­ rados se contentavam em esperar que Deus tomasse a iniciativa. Ambos os grupos esperavam um reino que tomaria forma dentro de uma estrutura política. Jesus rejeitou positiva e repetidamente assumir este papel. Betz 25 argumentou irrefutavelmente que o versículo 12 pode ser melhor en­ tendido à luz dos paralelos de Qumran. Ele considera biazetai como uma forma verbal média, em vez de passiva, e desta forma traduz a passagem: “Desde os dias de João Batista até agora o Reino do Céu está irrompendo por força, mas homens violentos o atacam e saqueiam.” Inter­ pretada desta forma, a passagem, vê-se dois movimentos: a vitoriosa erupção do reino do céu na pessoa de Jesus, e o contra-ataque de homens violentos, exemplificados por aqueles que tentaram afastar as pessoas de Jesus, dizendo que a sua obra era de Satanás. Betz vê 12:29 sob esta luz, onde Jesus é o guerreiro, que entra na casa de Satanás, para sa­ quear os seus bens. Embora a força “conativa” do verbo seja possível, como vimos acima, o qua­ dro pode, na verdade, ser o de dois reinos em tal conflito que, embora a vitória seja assegurada para o reino de Deus, há também baixas, que lhe são infligidas ao longo do processo, pelo reino do mal. ^6 25 O tto Betz, “ The Eschatological Interpretation of the Sinai-Tradition in Q u m ran an d in the New T esta­ m ent” , (Revue de Qumran, V I, 21 (Février, 1967), p. 89-107. 26 N orm an Perrin, Rediscovering the Teaching of Jesu§ (New Y ork; H arp er & Row, 1967), p. 77.

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Jesus baseou a sua identificação de João como Elias em duas declarações importantes: (1) se quereis dar crédito e (2) quem tem ouvidos, ouça. A primeira reconhece a dificuldade para os judeus do tempo de Jesus identificarem Elias com um homem que estava na prisão. Isto não correspondia às suas grandes esperanças de liberdade e reconstrução nacional. A segunda declaração enfatiza a importância da disposição para ouvir uma reivindicação que contradiz as espe­ ranças populares e nacionalistas; e ambas as declarações podem dar a en­ tender que a identificação de João com Elias deva ser levada em conta seriamen­ te, mas não literalmente. João Batista e Elias são dois homens diferentes (cf. 17:3), mas João Batista cumpriu o papel associado com o nome de Elias (cf. 17:12; Mal. 4:5). O fato de João ter negado que era Elias (João 1:21) não contradiz a intenção da declaração de Jesus (11:14). A negação de João concorda com o fato de ele ter recusado tornar-se importante, e a decla­ ração de Jesus deve ser compreendida dentro do seu contexto, como indicamos acima. A passagem reconhece claramen­ te que João Batista levantou-se na linha exata de divisão entre duas eras, uma dando lugar à outra. Foi uma época quando o poder do reino de Deus estava irrompendo no mundo, e sendo enfren­ tado pelos violentos esforços de alguns para se oporem a ele e derrotá-lo, e por outros fazendo grandes esforços para usá-lo ou explorá-lo. Os profetas e a lei é a maneira judaica de se referir ao que conhecemos como o Velho Testamento, agora encontrando cumprimento nos fatos e na pessoa proclamados por João. Ainda outra interpretação de desde os dias de João é a que entende que Jesus disse que o reino já havia raiado em João, sendo este o iniciador da nova era (aeon), o que significa que Jesus estava atraindo João para o seu lado, embora reclamasse para si mesmo uma missão mais elevada do que a de João (Kasemann, p. 43).


Desta maneira, o reino podé ser visto como tendo ao mesmo tempo sido inau­ gurado e obstruído por homens violentos. O problema não é esta última declara­ ção, mas a relação de João com o reino. Em todas as outras menções do Novo Testamento, o reino vem e se inicia em Jesus. Se a interpretação de Kâsemann é válida, aqui Jesus dá a João uma posição que só é sobrepujada por ele mesmo. 3. Desprazer Infantil (11:16-19) 16 M as, a quem com p ararei e sta g er a ­ ção? É sem elh an te a o s m en in os que, se n ta ­ dos nas p ra ça s, cla m a m aos se u s co m p a ­ nheiros: 17 T ocam o-vos flau ta, e não d an ­ ça stes; can tam os la m en ta çõ es, e não pran- ' tea stes. 18 P orquanto v eio João, não co m en ­ do n em bebendo, e d izem : T em dem ônio. 19 V eio o Filh o do hom em , com endo e b eb en ­ do, e dizem : E is a í u m co m ilã o e bebedor de vinho, am igo de publicanos e p ecad ores. E ntretanto, a sab ed oria é ju stifica d a p ela s su as obras.

Jesus comparou a sua geração a cri­ anças desagradáveis, que sempre acham defeitos nos outros. Geralmente esta ana­ logia é compreendida como referindo-se a crianças que acham ruim qualquer brincadeira proposta. Não querem brin­ car nem de casamento nem de funeral. Não querem nem dançar nem lamentar. Outra reconstrução é possível. As crianças desagradáveis podem ser as que ficam sentadas, esperando que as outras façam a parte mais cansativa das brin­ cadeiras. Elas meramente tocaram as suas flautas, mas esperavam que as ou­ tras crianças dançassem, ou cantaram lamentações, mas deixaram o choro (ba­ tendo os punhos no peito) por conta de outras crianças. Quando as outras se recusaram a dançar ou chorar, as que tocavam flauta ou lamentações culpa­ ram-nas de estragar o brinquedo. João foi criticado por ser severo e ascético demais. Não comendo nem be27 E. F. F. Bishop, Jesus of Palestine (London: L utter­ worth, 1955), p. 104.

bendo é, indubitavelmente, um exagero, pois a verdade é que ele tinha uma dieta simples. A acusação de que ele tinha demônio pode ser que tivesse sido feita literalmente, embora possa ter sido uma expressão semelhante à acusação po­ pular: “ele é louco” (cf. João 10:20). Jesus foi acusado por razão oposta: porque veio comendo e bebendo. A acusação, como a feita contra João, era exagerada, pois Jesus não era comilão e bebedor de vinho. Por outro lado, é claro que Jesus mergulhou profundamente na vida, ofendendo, muitas vezes, os líderes religiosos pela liberdade e alegria com que se movia entre pessoas de todas as espécies, e por se recusar a permitir que regras superficiais ou costumes assumis­ sem prioridade sobre as pessoas. Provavelmente nós tendemos a subes­ timar a extensão em que Jesus entrou na participação alegre de comunhão à mesa, com pessoas que anteriormente só ti­ nham conhecido exclusão, mas agora conheciam as alegrias do perdão e da aceitação. Estes foram os antecedentes da koinõnia, prática tão importante para a igreja primitiva. Isso prefigurava a Ceia do Senhor, e o “banquete messiânico” final (cf. At. 2:42; Apoc. 3:20). A comu­ nhão à mesa com tais pessoas, provavel­ mente, mais do que qualquer outra coisa, suscitou a ira dos fariseus. O provérbio de que a sabedoria é justi­ ficada pelas suas obras provavelmente significa que a maneira de ser de Jesus é justificada pelos seus resultados. Jesus estava disposto a suportar as críticas, a perseguição e a morte, enquanto trilhava um caminho que por fim prevaleceria e seria justificado. Há um a possível refe­ rência a João, tanto quanto a Jesus. O provérbio pode estar dizendo que a sabe­ doria e a vontade de Deus trabalharam tanto através da severidade de João quanto da liberdade de Jesus. Esta geração não se refere a todos os judeus de uma dada época. Geração (genea) é sempre usado por Jesus em repreensão (exceto em 24:34 e paralelos e 183


(8:5); e com Betsaida, na margem norte, cerca de dois quilômetros do Jordão, estão ligados os nomes de Filipe, André e Pedro (João 1:44). Estas cidades reagi­ ram em certa medida ao ministério de Jesus, mas não em medida comparável ao privilégio que haviam obtido. Tiro e 4. Rejeição Voluntária (11:20-24) Sidom eram cidades gentílicas, freqüen­ 30 E n tão com eçou ele a la n ça r e m rosto temente denunciadas pelos profetas pela à s cid ad es onde se operara a m aior parte sua riqueza e iniqüidade (cf. Amós 1:9 dos seu s m ila g res, o não se h a v e r em a r r e ­ s.; Is. 23:1 e ss; Jer. 25:22; et al.) Em pendido, dizendo: 21 A i de ti, Corazim I a i de cilício e em cinza eram símbolos de tris­ ti, B etsa id a ! porque, se e m Tiro e em Sidom teza e arrependimento. Sodoma era uma se tiv e sse m operado os m ila g res que e m vós se op eraram , há m uito e la s se teria m a r r e ­ cidade do Mar Morto, destruída pelos pendido em cilicio e em cin za. 22 Contudo, seus pecados, e proverbial por sua ini­ eu vos digo que p ara Tiro e Sidom h a v erá qüidade. Dela vem o termo sodomia. m enos rigor, no d ia do juízo, do que p ara O versículo 23, condenando Cafar­ vós. 23 E tu, C afarnaum , porventura será s elev a d a até o céu? até o h ad es d escerá s; naum, é adotado da acusação original­ porque, se e m Sodom a se tiv e sse m operado mente feita contra Babilônia (Is. 14:13os m ila g res que em ti se o p eraram , teria e la 15). A primeira parte é em forma de p erm an ecido a té hoje. 24 Contudo, eu vos pergunta, introduzida por uma partícula digo que no dia do juízo h averá m en os rigor para a terra de Sodom a do que p a ra ti. (mê), que espera resposta negativa. A segunda parte provavelmente deva ser A principal lição desta unidade é que a desta forma traduzida: “Ao hades desce­ rás” , como na tradução que usamos. Os severidade do juízo é determinada pela extensão do privilégio concedido. Quanto manuscritos variam entre as vozes ativa e maior o privilégio, maior a responsabi­ passiva do verbo, mas a ativa (katabêsêi) lidade. Não é um simples jogo de pala­ tem mais fortes fundamentos. Não que a vras dizer que a responsabilidade é me­ orgulhosa Cafarnaum, aspirando ao céu, dida pela capacidade de reagir. A pessoa será mandada ou levada ao hades, mas ou cidade é responsabilizada por nem ela “ mergulhará” ou “descerá” . O fato mais nem menos do que o que está . mais sério acerca do pecado é que ele é dentro da sua oportunidade e compe­ como um a doença; ele traz consigo os tência. As cidades em que tantos dos germes da própria destruição. É clara­ seus milagres haviam sido operados mente ensinado que Deus julga o peca­ foram condenadas por não se haverem dor, mas a Escritura também ensina que arrependido (quanto a arrependimento, o pecado, por si mesmo, acarreta ruína. veja 3:2). A seriedade do pecado, como uma do­ Corazim possivelmente deva ser iden­ ença maligna, não é devida ao fato de ser tificada com a ruina de Keraze, pouco descoberta, mas ao fato de estar ali. mais de três quilômetros a noroeste de Hades, como Sheol, no Velho Testa­ Tel Hum, provavelmente Cafarnaum. mento, refere-se ao sepulcro ou lugar dos Ela tem a infeliz distinção de ser lem­ mortos. Parece que pouco a pouco foi brada apenas por não ter reagido favo­ assumindo o significado de Geena ou ravelmente a Jesus. O fato de Jesus ter inferno, embora originalmente simples­ feito muitos milagres ali, torna explícito mente se referisse à esfera dos mortos (o que conhecemos apenas uma pequena termo grego significa “ não vistos” ). parte do que ele fez e disse (cf. João Pode ser observado que a reação moral 20:30;21:25). Cafarnaum parece ter sido do arrependimento, não meramente a por algum tempo a residência de Jesus curiosidade ou busca de ganhos tempo­ Lucas 16:8). Nunca se refere a toda a raça judaica, mas especificamente àque­ les a quem Jesus se dirigia na época, como representantes dela (cf. 12:39, 41 es.; 16:4; 17:17; 23:36).

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rais, é a reação apropriada aos milagres de Jesus. ^8 5. Confiança Infantil (11:25-30) 35 N aqu ele tem p o falou J e su s, dizendo: G raças te dou, ó P a i, Senhor do céu e da te r ­ ra, porque o cu lta ste e s ta s c o isa s a o s sáb ios e en ien d id os, e a s r e v e la ste s a o s p eq u e­ ninos. 26 Sim , ó P a i, porque a ssim foi do teu agrado. 37 T odas a s co isa s m e fo ra m e n tre­ gu es por m eu P a i; e n in g u ém con h ece p le ­ nam en te o F ilh o sen ão o P a i; e ninguém conh ece p len am en te o P a i, sen ã o o F ilh o, e aqu ele a q uem o FUho o q u iser rev ela r. 38 Vinde a m im , todos os que e sta is can sad os e oprim idos, e eu vo s a liv ia r ei. 39 T om ai sobre vós o m eu ju go, e apren d ei de m im , que sou m an so e hum ilde de co ra çã o ; e a ch a reis d escan so p ara a s v o ss a s a lm a s. 30 Porq u e o ■ m eu ju go é su ave, e o m eu fardo é lev e .

Os versículos 25-27 são conhecidos como a passagem joanina em Mateus, porque, tanto em pensamento como em estno, ela tem uma semelhança muito grande com o Evangelho de João. A sua presença aqui bem pode servir como uma conclamação para se reavaliar a origem da tradição preservada no Evangelho de João. 29 Esta passagem é melhor enten­ dida como tradução grega de um ditado aramaico que se remonta a Jesus. Este parágrafo é insuperável em res­ peito à natureza e significado da revela­ ção. O conhecimento de Deus não é realização dos sábios e entendidos. É o presente de Deus aos pequeninos. Fa­ lando de sábios e entendidos, provavel­ mente Jesus estava se referindo primeira­ mente aos escribas, que estavam tão certos do seu conhecimento. O julgamen­ to iria se aplicar a qualquer pessoa que “se fecha em sua própria sabedoria” (Dietrich, p. 72). Os pequeninos são os humildes e receptivos. O homem não descobre Deus, mas é Deus que se revela aos que nele confiam. Paulo, de forma similar, escreveu que, segundo a sabe28 George E. P. Cox, The Gospei According to Saint M at­ thew (New York: M acm illan, 1952), p. 87. 29 Cf. C. H . D odd, Historical TradJtion in the Fourth Gospel, (C am bridge: University Press, 1963).

doria de Deus, não é através da sabedo­ ria, mas através da fé que conhecemos a Deus, desvendada especialmente pela cruz(I Cor. 1:21). A revelação se preocupa com fatos, pois a suprema revelação de Deus teve lugar em um a pessoa, em um evento concreto da história. Daí, a revelação trata destas coisas, isto é, as que dizem respeito à vinda do reino dos céus em Jesus Cristo. Não obstante, a sua essên­ cia não está em proposições, mas no que é pessoal. Deus vem a nós não como uma proposição, para ser debatida, mas como uma pessoa em quem confiar, a quem amar, servir e conhecer. Salvação é co­ nhecer o Pai através do Filho (João 17:3). Jesus veio para nos capacitar a conhecer a Deus como Pai. “Conhecer” da forma como é usado aqui, não é ter conheci­ mento intelectual. Se fosse este o caso, os eruditos teriam vantagens. “ Conhecer” Deus é encontrá-lo em confiança e amor. É conhecê-lo como um a pessoa é conhe­ cida. A singularidade e a solidão de Jesus no mundo são refletidas na declaração de que apenas o Pai conhece plenamente o Filho. Nem mesmo João o conhecia ade­ quadamente. Jesus repetidamente era mal entendido pelos que o rodeavam. Só o Pai verdadeiramente o conhece. O próprio Pai é conhecido no Filho. Deus não apenas falou e agiu em Jesus, mas estava peculiarmente presente em Jesus. Deus se autodesvenda em tudo o que fez, mas é supremamente revelado só em Jesus Cristo (cf. Joâo 1:1,14; Rom. l:1 9 e s.;H e b . 1:1-3). O conhecimento do Pai é possível para aqueles a quem o Filho o quiser revelar. Isto pode parecer arbitrário, como se Jesus tivesse escolhido alguns para a sal­ vação, e a tivesse recusado a outros. O parágrafo precedente impede tal inter­ pretação. As cidades que haviam tido privilégios são condenadas porque rejei­ taram a luz que lhes fora oferecida. A responsabilidade humana e a determina­ ção divina não podem ser harmonizadas. 185


pois a nossa passagem não nos pede para fazê-lo. A doutrina bíblica da eleição diz que Deus toma a iniciativa na revelação e na redenção. Deus vem ao homem; o homem não abre caminho para Deus. Deus se revela ao homem; o homem não descobre Deus. Jesus não apenas revela o Pai para nós, mas ele quer revelar. Conhecer Deus como Pai é o alvo final da revelação e da redenção. O versiculo 28 torna claro que nin­ guém é excluído arbitrariamente da sal­ vação. O gracioso convite de Jesus é feito para todos os que estais cansados e opri­ midos. Provavelmente é feita uma refe­ rência especial aos que se esfalfam para cumprir a Lei a carregar os seus fardos, como era ensinado pelos escribas (cf. 23:4; At. 15:10). O descanso que Jesus ofereceu não é uma escapatória do tra­ balho ou de outras exigências da vida. “Eu vos refrigerarei” é outra forma de traduzir a sua promessa. O próprio Jesus não escapou à labuta, à dor, aos conflitos e a tudo o que torna a vida dura. Em tudo isso, ele tinha a capacidade de viver abundante, alegre e triunfantemente. Ele encontrou descanso no meio de uma vida assim, e oferece esse descanso a qualquer pessoa que for a ele. Para nós, o descanso é mais do que forças estóicas em face da adversidade. É a vitória sobre o medo, a ansiedade, a incerteza e a falta de sentido da vida, vitória esta encontrada na alegria e paz de Deus, na presença de Jesus Cristo. É a certeza de alguém que conhe­ ce o perdão de pecados e a aceitação na família de Deus. Jesus oferece um jugo tanto quanto um descanso. Os rabis falavam da lei judaica como um jugo, e embora falassem dela como uma alegria, tinham feito dela um fardo pesado para o povo. Jesus oferece um jugo que é suave, e um fardo que é leve. Isto demonstra o profundo para­ doxo que permeia o Evangelho de M a­ teus. A salvação é dádiva e exigência. É evangelho e lei. Deus dá tudo e exige tudo. Jesus pode ser conhecido como Senhor altíssimo e como o juiz, que 186

separa “as ovelhas” dos “bodes” (25: 31 e s.), e pode ser conhecido como o Mestre manso e humilde. Ele coloca o seu jugo sobre nós, o que não se faz sem requisitos pesados (cf. 5:20; 10:38; 16:24), mas é também suave e leve. Suave (chrêstos) significa amável e bom. Ele é bem ajustado, e não escoria o pescoço. Leve (elaphron) significa que o seu fardo não é pesado (cf. I João 5:3). Um jugo é feito para dois, e nunca para um só. Jesus nunca impõe aos seus discí­ pulos um jugo que ele também não car­ regue.

VI. Crescente Oposição a Jesus (12:1-50) Mateus mostra um novo estágio na oposição a Jesus. Os fariseus começaram a fazer planos para destruir Jesus, quan­ do sentiram que o sistema deles e os seus valores estavam sendo ameaçados. Duas abordagens radicalmente diferentes em relação à religião são verificadas aqui. O interesse de Jesus era sempre estrita­ mente pessoal. Nenhuma lei, nenhuma prática reUgiosa, nada interessava, a não ser se se relacionasse com Deus e com o homem. Os fariseus, pelo contrário, faziam do sábado, dos rituais de purifi­ cação, e coisas que tais, fins em si mes­ mos. Este capítulo vai descrever o abismo crescente entre Jesus e os fariseus, e até entre ele e sua própria mãe e irmãos. Vai indicar uma nova família da fé e obedi­ ência à vontade de Deus, família em que os gentios podem ser incluídos. 1. Superior ao Sábado (12:1-14) O sábado era quase um emblema nacional de Israel, ao lado do seu rito de iniciação da circuncisão. Jesus abalou aos alicerces da religião farisaica, quan­ do, por palavras e por atos, afirhiou a sua autoridade sobre o sábado, colocou o homem acima dele, e lembrou aos ho­ mens que Deus prezava a misericórdia mais do que todo o sistema judaico de cultos.


o sábado é uma divisão religiosa de tempo, e não uma divisão natural, como um ano, as estações, o mês lunar, dias e noites. Deus dera o sábado como dia de descanso. O legalismo judaico se tomara quase idólatra pelo fato de elevar o sába­ do acima do homem. Por outro lado, era com fortes convicções que os judeus guardavam o sábado, como é evidencia­ do pela disposição de serem dizimados de preferência a guerrearem no sábado (cf. I Macabeus 2:31-38). Jesus ofereceu um verdadeiro descanso, sendo ele mes­ mo o cumprimento do que era prefigura­ do no sábado semanal (cf. 11:28; Heb. 4:9 e s.). Ele é o nosso “sábado” da mes­ ma forma como é o nosso “templo” . 1) Colher Grãos no Sábado (12:1-8) 1 N aquele tem p o p asso u J esu s p ela s s e a ­ ras num d ia de sá b a d o ; e os se u s discípulos, sentindo fo m e, co m eça ra m a colh er e sp i­ g a s, e a com er. 2 Os fa riseu s, vendo isso , d isseram -lh e: E is que o s te u s discípulos estão fazendo o que não é lic ito fazer no sábado. 3 E le , p orém , lh es d isse : A caso não le s te s o que fez D a v i, quando te v e fo m e, ele e se u s com panheiros? 4 Gomo entrou na c a sa d e D eu s, e com o e le s co m era m os p ã es d a proposiçáui, que não lh e era lícito com er, n em a seu s com p an h eiros, m a s som ente a o s sa cerd o tes? 5 Ou n ã o le sto s n a na le i que, aos sáb ad os, o s sa cerd o tes no tem plo violam o sábado e fic a m se m cu l­ pa? 6 D igo-vos, porém , que aq u i e stá o qne é m aior do que o tem p lo. 7 M as, se v ó s so u b és­ se is o que sig n ifica : M isericórd ia quero, e não sa crifício s, n ão con d en aríeis os in o cen ­ tes. 8 Porque o F ilh o do h o m em a té do sábado é Senhor.

A lei permitia que uma pessoa colhesse grãos à mão, mas não com foice, quan­ do passasse pelo campo de um vizinho (Deut. 23:25). A tradição judaica rela­ cionava 39 espécies principais dè traba­ lhos que eram proibidos no sábado, in-' clusive a colheita e beneficiamento de grãos. Jesus defendeu os seus discipulos baseado no principio de que as necessi­ dades e o conforto humano são mais importantes do que a observância do sábado. Ele citou o exemplo de Davi, que comera “o pão da proposição” quando

fugia de Saul (I Sam. 21:1-6). Esse pão especial era colocado sobre a mesa no tabernáculo no sábado, e era conservado ali até ser substituído no sábado seguin­ te; o pão substituído era então comido, mas apenas pelos sacerdotes (Êx. 25:30; Lev. 24:5-9). Até aos sacerdotes era per­ mitido passarem por cima de leis sabá­ ticas, a fim de executarem os sacrifícios rituais (Núm. 28:9,10). Aos argumentos de haver precedentes (Davi e os sacerdotes), e da necessidade humana, Jesus adicionou a sua própria autoridade sobre o sábado, e o desejo de Deus de receber misericórdia acima de sacrifícios. Jesus não repudiou o Templo ou os sacrifícios, mas contendeu pela prioridade de outras coisas necessárias. O que é maior traduz adequadamente a forma neutra de meizon, no versículo 6. A referência específica é ao reino dos céus, que estava vindo em Jesus, ou simplesmente à autoridade de Jesus. O interesse de Deus pela misericórdia (Os. 6:6) era uma ênfase constante de Jesus (cf. 5:7; 9:13). Esta é uma expressão do “jugo suave” (11:30). Filho do Homem é aqui interpretado em termos de soberania: Senhor do Sábado; e também na forma do Servo Sofredor, cuja identificação é com a humanidade necessitada. Marcos pode ver “Filho do Homem” referindo-se tan­ to a Jesus como ao seu povo (2:27 e s.), mas a idéia de comunidade em “Filho do Homem” é ilusória. O que está claro é que Jesus declarou ter autoridade sobre o sábado e sobre o Templo. 2) Curar no Sábado (12:9-14) 9 P artindo d a li, entrou J e su s na sin agoga d eles. 10 E e is que e sta v a a li u m h om em que tinha u m a d a s m ã o s atrofiad a; e e le s, para poderem a c u sa r a J e su s, o in terrogaram , d izen d o: É lícito curar nos sáb ad os? 1 1 E e le lh es d isse : Qual dentre vós se r á o h om em que, tendo u m a só o v elh a , se num sáb ad o ela ca ir n u m a c o v a , não h á de lan çar m ã o d ela, e tirá-la? 12 O ra, quanto m a is v a le u m h o ­ m em do que u m a o v e lh a ! P ortanto, é lícito fazer b em nos sáb ad os. 13 E ntão d isse àq u e­ le h om em : E sten d e a tua m ã o . E e le a

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esten d eu , e lhe foi restitu íd a sã com o a outra. 14 Os fa riseu s, p orém , sain d o d ali, tom aram con selho contra e le , p a ra o m a ta ­ rem .

Os fariseus estavam vendo toda a sua teologia e autoridade sendo ameaçadas, e começaram a conspirar contra Jesus. Na sinagoga eles o testaram a respeito de curar no sábado um homem que tinha uma das mãos atrofiada. Os fariseus diziam que apenas casos de emergência deviam ser atendidos no sábado. Jesus favorecia qualquer ministério às necessi­ dades humanas, sem considerar o dia. Jesus fez os fariseus lembrarem a sua lei, que permitia-lhes libertar um animal no sábado ou dia de festa. Pelo fato de uma ovelha ter valor para eles, eles iriam pôr de lado as restrições sabáticas, normais, para salvá-la. Jesus não poderia ter colo­ cado o seu sistema em jogo de maneira mais aguda do que dizer-lhes que um homem vale mais do que uma ovelha. Antes de condenarmos injustamente os fariseus, podemos perguntar que coisas nós mesmos temos a tendência de colocar acima do valor da personalidade huma­ na. A fúria dos fariseus, quando conspi­ raram para o matarem, devia-se ao fato do seu próprio reconhecimento, não intencional, da completa vitória moral de Jesus sobre eles (Cox, op. cit., p. 89). Ele contendia pelo valor de um homem e pela legalidade de fazer o bem (kalõs) signi­ fica o que é apropriado) em qualquer tempo, enquanto eles contendiam pela observância de um dia. Com efeito, Jesus colocou o mandamento do amor acima do sábado. Incapazes de fazer-lhe frente, mesmo no seu próprio campo, eles recor­ reram à força bruta: a involuntária con­ fissão de derrota dos perseguidores. Marcos nos informa que eles até pediram ajuda dos herodianos (3:6). 2. A Esperança das Nações (12:15-21) 15 J esu s, p ercebend o isso , retirou -se dali. A com panharam -no m u ito s; e e le curou a todos, 16 e advertiu-lhes que não o d e sse m a

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con h ecer; 17 p a ra que se ciu n p risse o que foi dito p elo p rofeta I s a ía s : 18 E is aqui o m eu serv o que esco lh i, o m eu am a d o , e m quem a m in h a a lm a se com p raz; porei sobre e le o m eu esp írito, e e le an u n ciará a o s gen tios o juizo. 19 N ão con ten d erá, n em cla m a rá , n em se ou virá p e la s ru as a su a voz. 20 N ão esm a g a r á a ca n a quebrada, e n ão a p a g a rá o m orrão que fu m eg a , até que fa ç a triunfar o ju íz o ; 21 e no seu n om e os g en tio s esp erarão.

Este parágrafo contrasta o suave mi­ nistério de Jesus com a fúria farisaica, bem como com as expectativas messiâ­ nicas da época, e contrasta a rejeição de Jesus pelo seu próprio povo com a sua aceitação final pelos gentios. Mateus continua a desenvolver os temas da reti­ rada forçada de Jesus de Israel e do cum­ primento da profecia do Velho Testa­ mento. Mateus reconhece que, devido à cons­ pirata farisaica, Jesus retirou-se. Ainda não havia chegado a hora de um a con­ frontação final com os líderes da nação. Jesus retirou-se não apenas da hostilida­ de farisaica, mas também da publici­ dade baseada em milagres, mandando aos curados que não o dessem a conhe­ cer. O maior interesse de Mateus aqui, todavia, é na natureza calma do minis­ tério de Jesus, vendo-o em termos do Servo Sofredor de Isaías (42:1-4). Esta é a mais longa citação do Velho Testamen­ to em Mateus, e não segue plenamente nem o texto hebraico nem o da LXX que conhecemos. A figura do servo em Isaías foi pri­ meiramente entendida pelos judeus como se referindo a Israel, mas passou a ser entendida messianicamente. Para Jesus e a igreja primitiva, ela era uma fonte mes­ siânica básica. O termo grego pais pode significar servo ou “filho” . Com a adição de amado, ele se aproxima da idéia de filho. Na passagem, contudo, a função básica de servo é predominante. O servo é Servo de Deus, escolhido e amado. Ele é o portador do Espirito de Deus, e o seu


ministério deve ser estendido quieta­ mente até os gentios. Justiça (krisis) traduz um a palavra geralmente vertida como “julgamento” ou “juízo” . Provavelmente, a idéia bási­ ca de julgamento deve ser considerada aqui. Jesus realiza a sua obra de maneira suavé, mas isto não exclui julgamento. De fato, o julgamento pertence necessa­ riamente à redenção. O alvo do julga­ mento não é negativo, mas positivo, não simplesmente para condenar, mas para corrigir e salvar. Jesus leva o “juízo” ou a justiça à vitória, pois o juízo leva ao arrependimento, uma volta para Deus em fé submissa. Provavelmente, o interesse de Mateus na longa citação de Isaías se exerce igual­ mente no modo de ser calmo de Jesus, contrastado pela exibição exterior espe­ rada pelo povo, e a inclusão dos gentios. Embora Jesus venha em “Juízo” ; ele cuida gentilmente de cana quebrada e cada morrão que fumega. Ao invés de esmagar as pessoas, ele procura curar os moralmente feridos, e atiçar cada fagu­ lha de fé, fazendo-a tornar-se uma chama. 3. O Pecado sem Perdão (12:22-32) 23 T rouxeram -lhe en tã o u m en d em on i­ nhado ceg o e m udo; e e le o curou, de m odo que o m udo fa la v a e v ia . 23 E tod a a m u lti­ dão, m aravilh ad a, d izia: É e ste , p orven ­ tura, o F ilh o de D avi? 24 M as os fa riseu s, ouvindo isso , d is s e r a m : E ste não ex p u lsa os dem ônios sen ão por B elzeb u , p rm cipe dos dem ônios. 25 J esu s, p orém , conhecendo-lhes os p en sam en tos, d isse-lh es: Todo reino dividido contra si m e sm o é d ev a sta d o ; e toda cid ad e, ou c a sa , dividida con tra si m e s ­ m a não su b sistirá. 26 Ora, se S atan ás ex p u l­ sa a S atan ás, e stá dividido contra si m e s m o ; com o su b sistirá, p ois, o seu reino? 27 E , se eu expu lso os dem ônios por B elzeb u , por quem o s ex p u lsa m os v o sso s filhos? P or isso, e le s m esm o s serã o os v o sso s ju izes. 28 M as, se é p elo E sp irito de D eu s que eu expulso os d em ônios, logo é ch egad o a vós o reino de D eu s. 29 Ou, com o pode a lg u ém entrar n a c a sa do v a len te, e roubar-lhe os bens, se p rim eiro não am a rra r o v a len te? e então lhe sa q u eará a c a sa . 30 Q uem não é com igo é contra m im ; e quem com igo não

ajunta, esp a lh a . 31 P ortantp, v o s digo: Todo p ecado e b la sfê m ia se p erd oará a o s h o ­ m en s; m a s a b la sfêm ia contra o E sp írito não se r á perdoada. 32 Se a lg u é m d isser a lg u m a p a la v ra contra o FiUio do h om em , isso lh e se r á p erd o a d o ; m a s se a lg u ém falar contra o E sp írito Santo, não lh e se r á p er ­ doado, n em n este m undo, n em no vindouro.

Quando Jesus restaurou a vista e a fala a um endemoninhado, as multidões perguntaram se isso não podia indicar que ele era o Filho de Davi, mas os fariseus acusaram Jesus de estar expul­ sando demônios apenas por Belzebu, príncipe dos demônios. Enquanto Jesus ministrava no meio deles, um cego viu e os líderes religiosos ficaram “cegos” . É nesse contexto que o “pecado sem per­ dão” deve ser compreendido. O pecado descrito é o de blasfêmia deliberada e arrogante, chamando de obra do diabo aquilo que inequivocamente é obra de Deus. Belzebu (Beelzeboul) é a forma correta para o termo empregado aqui. Ela en­ trou para as traduções em português da Vulgata Latina, influenciada por “BaalZebube” de II Reis 1:2. Belzebu pode significar “o exaltado” , seja exaltado no templo, seja no céu (McNeile, p. 143 e s.). O que é importante para o seu uso aqui não é a derivação do termo, mas o seu emprego como o príncipe dos demô­ nios (v. 24), e presumivelmente também como Satanás (v. 26). Em suma, Jesus é acusado de receber o seu poder de Sata­ nás. Como resposta, Jesus primeiramente mostrou o absurdo da acusação. O exor­ cismo de demônios não pode ser uma obra de Satanás, pois ele não seria tão tolo ao ponto de destruir o seu próprio reino. O que Jesus está fazendo represen­ ta Deus contra Satanás, e não Satanás, contra Satanás. O segundo ponto era que os fariseus condenaram os seus próprios fílhos, isto é, os seus discí­ pulos, ao condenar Jesus, pois eles tam ­ bém expulsavam demônios. Inciden­ talmente, isto dá a entender que, no 189


pensamento judaico daquela época, o uso indiferente dos termos Espírito de exorcismo de demônios não estava limi­ Deus, Espírito, e Espírito Santo nos tado ao Messias, ou como um necessário V. 28, 31 e 32). Isto precisa ser compre­ sinal dele. endido no contexto. Jesus havia restaura­ O versículo 28 é digno de notgt, um dos do a visão e a audição de um endemoni­ mais importantes deste Evangelho. Jesus nhado. Incapazes de negar o fato, líderes afirma não somente que o seu poder se religiosos de confiança atribuíram a sua exerce através do Espirito de Deus, mas fonte a Belzebu. Observaram uma obra que os fatos acontecidos eram evidência óbvia de Deus, e chamaram-na de obra de que é chegado a vós o reino de Deus. dêSatanás. ü problema deles não era dê Esta é, em Mateus, a declaração mais cãbeça, mas de coração. Isto é cegueira explícita de que o reino de Deus já havia voluntária, para a qual não há desculpas. chegado, em Jesus. O verbo grego tra­ Os ignorantes podem ser informados, e duzido como é chegado (ephthasen) indi­ os fracos podem ser fortalecidos, mas, ca não apenas proximidade, mas presen­ mediante a rejeição voluntária do Espí­ ça. Sem dúvida, o assunto é que a expul­ rito de Deus, a pessoa nega a si mesma são de demônios significa que o reino de a sua única possibilidade de arrependi­ Deus agora está vencendo o reino de mento e fé. Satanás. A consumação do reino é futu­ Esta passagem parece dura, mas deve ra, mas ele já está se realizando em Jesus. ser considerada com toda a seriedade. O valente já está sendo amarrado, e os • “T esus não está dizendo aue Deus esteiá~7 homens já estão sendo libertos do poder alguma vez indisposto a perdoar, mas do mal. que õ liô tném pode~se tornar imperdõa^ O costumeiro “ reino dos céus” de vél. Isto se relaciona com a co n d ição '^ Mateus (32 vezes) aparece aqui e três _homem. Um paralelo a isto é encontradcT^ outras vezes (19:24; 21:31, 43) como ~em João 9:1-41, onde é demonstrado que reino de Deus. Isto pode ser devido à sua o preço de se rejeitar a luz de Deus é a fonte, mas também concorda bem com a cegueira. Fechar os olhosjde altniém não expressão o Espírito de Deus. O Espírito é apa,gar a luz, mas apagar a sua visão. de Deus é o Espírito Santo, isto é, a Èste é o princípio que está pòr detrás do própria presença de Deus. Lucas contém “pecado sem perdão” ; “o dedo de Deus” (11:20), uma expres­ Falar contra o Filho do Homem é são veterotestamentária para a obra de perdoável, mas falar contra o Espírito Deus na criação (Sal. 8:3), ao libertar Santo não é. Possivelmente Jesus quis os israelitas do Egito (Êx. 8:19) e ao dar a dizer que o problema não está no Filho Lei (Deut. 9:10), isto é. Deus como cria­ do Homem, ele mesmo; pois está sempre dor, revelador e redentor. O Espírito dê" pronto a perdoar (cf. Broadus, p. 271 e eus não é outro Deus ou apenas uma j s .) . Mas falar contra o Espírito Santo,' parte de Deus. O Espírito de D-&us_é. o como os fariseus haviam feito de maneira próprio Deus, aqui apresentado peculiar­ voluntária, como um ato de descrença e mente em Jesus Cristo. desobediência, é negar a si mesmo a Diante de Jesus, o homem é chamado única esperança. Ê cortar qualquer co­ municação com a única pessoa que pode a uma decisão. Não se pode permanecer ___ ] neutro. A pessoa que não está positiva­ levá-lo ao arrependimento. mente com Jesus é contra ele. Quem não 4. O Juízo Inescapável (12:33-37) ^ u n ta o rebanho (possível referência à ceifa, como em 9:37), o espalha. 33 Ou fa zei a árvore boa, e o seu fruto A severa advertência atribuída a Jesus bom ; ou fa z ei a árvore m á , e o seu fruto aparece nos versículos 31 e s. Blasfêmia m au ; porque p elo fruto se con h ece a árvore. 34 R a ça d e v íb oras! com o p od eis vós falar contra o Espírito não é perdoada (veja o 190


coisas boas, sen do m au s? p ois do que b á em abundância no coração, d isso fa la a boca. 35 O hom em bom , do seu b om tesouro tira coisas boas, e, o h om em m au , do m au t e ­ souro tira co isa s m á s. 36 D igo-vos, pois, que de toda p alavra fútil que os h om en s d is­ serem , hão de dar con ta no d ia do juízo. 37 Forque p ela s tu as p a la v ra s se r á s ju stifi­ cado, e p ela s tu as p a la v r a s se r á s con d e­ nado.

E&te parágrafo apresenta explicita­ mente o que fora declarado acima impli­ citamente: que Jesus colocava o centro do mal no coração humano, e não nas forças fora dele. Mesmo as palavras de blasfê­ mia não seriam, afinal, sérias, se fossem apenas sons da boca, ou garganta, para foi a. Mas as palavras são sérias, pois vêm do coração, expressando o que a pessoa é, tanto quanto o que fala. Me­ diante as analogias de fruto e tesouro, Jesus torna claro que é na medida em que as palavras e atos expressam o caráter, o que a pessoa é, que elas são importantes. Uma árvore pode produzir frutos ape­ nas segundo a sua espécie ou qualidade. Bom e mau (cf. 7:16-20) referem-se não a estados de saúde, mas a quahdade de fruto, comestíveis ou não. Uma pessoa pode tirar do seu tesouro só o que tem, seja bom ou mau. Jesus faz uma clara distinção entre um homem bom (agathos) e um homem mau (ponêros), usan­ do termos morais. A pessoa é julgada até por toda palavra fútil. Fútil é tradução da palavra argon (contração de a-ergon), isto é, o que é “ocioso” , sem propósito. As palavras duras a respeito de uma raça de víboras são dirigidas àqueles que, devido à cegueira expontânea, dizem que a obra de Deus é obra de Satanás. As suas palavras não são acidentais. Refle­ tem a natureza da fonte de que proce­ dem. Sem dúvida, as palavras nem ex­ pressam o que a pessoa é, como no caso dos hipócritas (cf. 7:21-23); mas as pala­ vras acompanhadas de atos, na verdade, podem revelar o que uma pessoa é, espe­ cialmente palavras costumeiras e não premeditadas, que refletem padrões, pe­ las quais a pessoa inconscientemente des­

venda os seus pensamentos, sentimentos e valores. Jesus não está dizendo que o bem e o mal são inerentes, por si mes­ mos, nas palavras, mas que o bem e o mal estão no coração, de onde vêm as palavras. A ignominiosa acusação feita pelos fariseus contra Jesus só podia pro­ vir de corações ignominiosos. No próprio ato presunçoso de julgar Jesus, eles esta­ vam se julgando. 5. O Sinal de Jonas (12:38-42) 38 E ntão algim s dos escr ib a s e dos fa r i­ seu s, tom ando a p a la v ra , d is se r a m : M estre, q u erem os v er da tua p arte a lg u m sin al. 3 9 M as ele lh es respondeu: u m a g era çã o m á e ad ú ltera pede um sin a l; e nenhum sin a l se lhe dará, sen ão o do profeta Jon as; 40 pois, com o J on as e ste v e tr ê s d ia s e três noites no ven tre do grande p eix e, a ssim esta r á o F ilho do h om em tr ê s d ias e tr ê s n oites no seio da terra. 41 Os n in iv ita s se lev a n ta rã o no juízo com e sta gera çã o , e a condenarão; porque se a rrep en d eram com a p reg a çã o de Jon as. E e is aq u i q u em é m a io r do que Jon as. 42 A rainha do su l se lev a n ta rá no ju ízo com e sta g era çã o , e a con d en ará; porque v eio dos confins d a terra p ara ouvir a sab ed oria de Salom ão. E e is aqui quem é m aior do que Salom ão.

O pedido de um sinal é o pedido de algo dramático e sensacional. A verda­ deira fé não é suscitada desta forma. Mais do que isto, aqueles que pediram esse sinal não estavam sinceramente abertos para as evidências que já estavam diante dos seus olhos. O problema deles era principalmente de coração, e não de cabeça, pois precisavam de uma disposi­ ção para crer, e não de mais evidências para a fé. Este é o escopo da história que estamos para comentar. O interesse especial de Mateus na oposição dos fariseus pode ser verificado ao compararmos esta seção com os seus paralelos em Lucas 11:29-32. Lucas não menciona os escribas e fariseus. O fato de chamar aquela geração de adúltera apresenta um paralelismo com o Velho Testamento, que usa esse termo para definir infidelidade contra Deus, como na analogia de Israel como noiva de 191


Deus, que foi infiel (cf. Jer. 2:1-5, 32; Os. 2:16-23; Ez. 16:1-63). Jesus ofereceu àquele povo insincero apenas o sinal do profeta Jonas. Os nini­ vitas se haviam arrependido, embora tivessem como seu evangelista apenas um profeta relutante, que realmente não queria que eles fossem poupados. Quem é maior do que Jonas refere-se ao reino do céu que veio em Jesus. Aquela geração estava na presença de Jesus, em quem já estavam operando os poderes do reino, mas eles ainda pediam mais! A rainha do sul é a rainha de Sabá, ou Arábia do sul (I Reis 10:1-13). Ela não crera nas notícias acerca de Salomão, quando as ouviu; mas em benefício dela deve ser dito que ela, quando o viu e ouviu, reconheceu o seu erro, e a sabe­ doria dele. Como os ninivitas, ela aceitou as evidências, quando as confrontou. A geração de Jesus foi condenada porque, na presença de alguém maior do que Jonas ou Salomão, pediu mais. Não pre­ cisava de mais luz, porém de mais visão; não de algo para ver, mas de olhos dis­ postos a ver. O versículo 40 desenvolve outra idéia. Ela não está no paralelo em Lucas. Em Mateus a analogia de Jonas serve ao pro­ pósito ulterior de apontar para a ressur­ reição de Jesus. Três dias e três noites não devem ser tomados em sentido lite­ ral, como sendo aplicados à ressurreição de Jesus. Na contagem judaica, uma parte de um dia era contado como dia completo; e a expressão aqui é como um número redondo, e não científico. Sem dúvida, a ressurreição de Jesus é o “ si­ nal” colocado como clímax; não obstan­ te nem ele convenceu a muitos. 6. A Volta do Espírito Imundo (12:43-45) 43 Ora, havendo o esp írito im undo saído do hom em , anda por lu g a res áridos, b u s­ cando repouso, e não o en con tra. 44 E ntão diz: V oltarei p ara m in h à c a sa , donde sa í. E , chegando, ach a-a desocu p ad a, varrid a e adornada. 4S E ntão v a i e le v a con sigo outros sete esp íritos, p iores do que e le , e , entrando, h abitam a l i ; e o ú ltim o esta d o d e ss e hom em

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v em a ser pior do que o p rim eiro. A ssim há de a co n tecer ta m b ém a e sta g e ra çã o p er­ v ersa .

A referência imediata a esta advertên­ cia pode ser contra o interesse indevido em exorcismo, cura e outros benefícios. Não é suficiente apenas expeUr os demô­ nios ou remover enfermidades físicas, como a cegueira. Deus precisa habitar na pessoa, fazendo dela o templo de Deus. Não é suficiente receber os dons exterio­ res de Deus; é necessário recebê-lo. Aphcado mais largamente, o juízo cai sobre Israel devido à sua grande atenção a “reformas” , em que exteriormente a sua casa estava varrida e adornada, mas desocupada (vazia). Desde a época de Esdras, Israel havia dado atenção à Lei, elaborando um intrincado sistema, para governar todas as situações da vida. Nada fora deixado ao acaso. Havia uma regra para tudo: lar, negócios, adoração, vestimentas, dieta, etc. Mas com toda a atenção às coisas da religião e da vida, a maior negligência era em termos pessoais: Deus e o ho­ mem. Os deuses velhos haviam sido bani­ dos, e não havia mais idolatria exterior, como antes do exílio. Baal, Astarote, Moloque, e outros deuses que tais, não mais eram uma ameaça para Israel. Mas novos “ deuses” haviam entrado em cena — piores do que os antigos: mamom, orgulho, provincialismo, sábado, jejum, rituais de purificação, e coisas semelhan­ tes. Esses “deuses” são mais sutis e mais perigosos do que os deuses grotescos e estranhos do paganismo. 7. A Verdadeira Família de Jesus (12: 46-50) 46 E nquanto e le ain d a fa la v a à s m u lti­ dões, e sta v a m do lado de fora su a m ã e e seu s irm ã o s, procurando falar-lh e. 47 D isselh e a lg u ém : E is que e stã o a li fo ra tua m ã e e teu s irm ã o s, e p rocuram fa la r contigo. 48 E le , porém , respondeu ao que lh e fa la v a : Quem é m inha m ã e? e quem sã o m eu s ir­ m ãos? 49 E , esten d en d o a m ã o p a ra os seu s d iscípulos, d isse : E is aqui m inha m ã e e m eu s irm ã o s. 50 P o is qualquer que fizer a


vontade de m eu P a i que e stá n os céu s, e ss e é m eu irm ão, irm ã e m ã e.

III. Parábolas do Reino (13:1-52)

Neste ponto Mateus retoma à ordem de narrativa de Marcos (Mar. 3:31-35). Este apresenta, em seqüência, três gru­ pos e suas reações em relação a Jesus: os “seus amigos” , que diziam: “Ele está fora de si” (3:21); os escribas, que disse ram que ele estava “possesso de Belze bu” (3:22); e a mãe e os irmãos de Jesus que “ficando da parte de fora, mandaram chamá-lo” , presumivelmente para remo vê-lo de cena, escohdendo-o (3:31). Ma teus nâo tem paralelo a Marcos 3:21 mas indica as reações dos fariseus e da família de Jesus. Nem Marcos nem Mateus declaram explicitamente qual a atitude da mãe e dos irmãos de Jesus, mas a resposta de Jesus dá a entender que eles não simpa­ tizavam com o que ele estava fazendo. O melhor que poderia ser dito a favor deles é que eles temiam que ele pudesse sofrer algo por parte das pessoas que lhe eram hostis. Parece, contudo, que o relacio­ namento entre eles era mais tenso, e que não foi senão depois da ressurreição que a família de Jesus começou a entendê-lo e apoiá-lo. Jesus teve que perder sua mãe e seus irmãos antes de recuperá-los em bases novas e mais significativas (cf. João 2:4es.; 7:5; IC or. 9:5). Jesus não deixou campo para dúvidas de que a fé, e nâo a carne, era a base para o verdadeiro parentesco. Mais pre­ cisamente, qualquer que Szer a vontade do Pai de Jesus, que está nos céus, é seu irmão, irmã ou mãe. Isto enfatiza nâo apenas a verdadeira base para o paren­ tesco, mas também a importância de fazer-se a vontade de Deus. Pode ser observado que, embora Jesus chamasse outras pessoas de mãe, irmão e irmã, chama apenas Deus de seu Pai. O versículo 47 é fortemente sustentado pela família textual Ocidental mas nâo é sustentado pelos melhores manuscritos da família textual alexandrina. Ele pro­ vavelmente nâo é original em relação a este contexto.

A parábola era um método importante de didática para Jesus, mas não era novo. O Velho Testamento tem muitas parábo­ las, e elas eram largamente usadas fora do judaísmo. Na LXX, parabole traduz o termo hebraico mãshal cerca de 45 vezes. Parábola significa literalmente algo “lançado ao lado de” , como ilustração ou analogia, mas a etimologia nâo vai longe em indicar-o seu significado ou uso. O mâshal do Velho Testamento podia ser um oráculo, enigma ou “dito obs­ curo” , inteligível para os iniciados, mas ininteligível para os estranhos. Salmos 78:2 fala de “uma parábola” e de “enig­ mas da antiguidade” , de segredos nacio­ nais passados de família para família. Mas geralmente a parábola deve ser en­ tendida por todos a quem é dirigida, não apenas para esclarecer, mas também para julgar e evocar uma reação moral. Isto é bem ilustrado na parábola de Natã, acerca da “única ovelhinha” , tira­ da do pobre pelo rico (II Sam. 12:1-14). Esta parábola é tirada da vida real; ensina por analogia ou ilustração; instrui ou esclarece; julga e demanda uma rea­ ção moral. As parábolas são muitas e variadas em o Novo Testamento. Pela compreensão mais restrita do que constitui uma pará­ bola, há dúzias delas no Novo Testamen­ to. O número cresce quando as parábolas sâo entendidas em sentido mais amplo e flexível. Por exemplo, “médico, cura-te a ti mesmo” é explicitamente citado como parábola em Lucas 4:23 (as traduções modernas grafam “provérbio” , mas em grego é parabole. Tanto no Velho como no Novo Testa­ mento as mãshal ou parábolas são mais bem entendidas como tendo vários tipos e formas: símile, máxima, ou ditos ex­ pressivos (cf. I Sam. 10:12), provérbio, metáfora, estórias da vida real e imaginá­ rias, e mesmo uma ocasional alegoria, ou semi-alegoria. Um símile assemelha uma 193


cousa à outra. A metáfora é mais direta, dando a uma coisa o nome de outra, como “vós sois o sal da terra” (5:13). A alegoria pode personificar coisas abs­ tratas. Algumas das parábolas do Novo Testamento abordam a alegoria, como acontece na parábola do semeador e os diferentes tipos de solo (13:3-23). Con­ tudo, segue-se que a comparação é “ a marca registrada de uma parábola” , en­ quanto a identidade oculta é a “marca registrada da alegoria” , pois esta requer uma chave para ser entendida (Perrin, p. 84 e 86). A parábola costumeiramente possui um alvo principal, e só um, mas isto não é sempre verdade. Dois extremos devem ser evitados: a abordagem alegórica, que parece fazer cada palavra ou frase dizer algo, bem como a restrição de todas as parábolas a um único significado. O pri­ meiro padrão foi seguido por intérpretes primitivos como Orígenes e Agostinho, que podiam deixar a imaginação correr solta, ao ler alegoricamente tudo a que queriam dar um segundo significado, em uma parábola. Esta falácia foi inteiramente exposta e refutada por Adolf Jülicher. ^ Infeliz­ mente, Jülicher errou por outro lado, entendendo a natureza da parábola em termos de algum uso grego pagão, ao invés de um uso veterotestamentário, limitando, desta forma, cada parábola a um único uso. Um equilíbrio mais feliz logo foi recobrado, expresso em obras como as de Paul Fiebig e McNeile (p. 185 e s.). Entendidas assim, as pará­ bolas do Novo Testamento são vistas em termos da sua mais ampla variedade de tipos e formas, tendo geralmente apenas um significado, mas às vezes apresentan­ do significados secundários, abordando até a alegoria. 30 Die Gleichntsreden Jesu (2^ ed; Tübingen: M ohr, 1899). 31 Die Gleiehnisredeii lesu Im Lichte der labbinisehen Gleichnisse des neutestamentlichen Zeitalters (Tübin­ gen: M ohf, 1912).

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Um passo de grande importância para a compreensão das parábolas do Novo Testamento foi dado no período moder­ no, quando atenção mais detida foi dada ao contexto das parábolas. Houve, indu­ bitavelmente, o contexto original, em que Jesus ensinou em parábolas. Sempre que possível, este contexto deve ser re­ construído, a fim de vermos a força original da parábola. Mas pode existir o contexto ulterior, da Igreja, em que a parábola foi preservada, ou do evange­ lista, que a repetia. Era váüdo e necessá­ rio adaptar as parábolas às novas situa­ ções que surgiam na vida da Igreja. Dois erros podem ser evitados mui bem: não distinguir entre o contexto original e o da Igreja, e também o exage­ ro da mudança do contexto original para o posterior, da Igreja. Ê tão indefensável dizer que o contexto sempre muda, como dizer que ele nunca muda. Mateus, por exemplo, compreensível e apropriada­ mente relatou as parábolas de Jesus de forma a dar-lhes a máxima relevância para a igreja de sua época. Isto não significa que ele era indiferente quanto à sua intenção original. O mesmo princípio é válido para o emprego das parábolas hoje em dia. Precisamos adaptá-las e aplicá-las aos nossos problemas e neces­ sidades, mas isto não justifica a violação da sua intenção original. É apropriado perguntar o que uma parábola pode nos dizer hoje, mas ela nunca pode ser levada ao ponto de contradizer o que original­ mente tinha a intenção de dizer. A questão mais difícil em relação às parábolas de Jesus relaciona-se com o seu objetivo. O versículo 13 parece dizer que as parábolas tinham o objetivo de ocultar a verdade a alguns, ao invés de revelá-la. Por outro lado, o versículo 34 e s. apre­ sentam as parábolas como desven­ dando “as coisas ocultas” desde’o prin­ cípio do mundo. O versículo 13 será estu­ dado dentro do seu contexto, e o seu escopo precisa ser levado a sério; mas é claro que o objetivo dominante de Jesus era dar luz, e não negá-la, revelar, e não


ocultar. Ele veio como o “Verbo” que “se fez came” (João 1:14), para ser a Palavra de Deus bem entendida. As sete parábolas do capítulo 13 cons­ tituem o terceiro maior “discurso” , en­ cerrado com a fórmula repetida em 13:53 (cf. 7:28; 11:1; 19:1; 26:1). Duas das parábolas são de Marcos (do semeador e da mostarda); estas duas e a do fermento são compartilhadas com Lucas; além disso, Mateus acrescenta quatro pará­ bolas não encontradas em nenhum outro lugar (do joio, do tesouro escondido, da pérola de grande preço e da rede). Isto pode refletir a existência de três fontes (Marcos, Q e M); tudo o que isso neces­ sariamente significa é que Mateus con­ tém duas das sete em comum com M ar­ cos, três em comum com Lucas e quatro peculiares a si mesmo. Embora as parábolas se relacionem com diferentes temas, estas sete se rela­ cionam com o reino dos céus. Ensinam a sua presença nas palavras e nas obras de Jesus, o seu juízo, o seu chamado ao arrependimento, a sua natureza, e o seu triunfo final e seu significado, em fla­ grante contraste com a sua aparente pequenez e fraqueza, quando aparece na pessoa e métodos de Jesus. \ 1

Jesus tirou a maioria das suas parábolas da vida cotidiana, e as contou de" maneira tão simples que a verdade p r^ tendida era transDarent& oara a pessoa comum. “As parábolas não têm o obje­ tivo de serem decifradas por meio do estudo; elas têm o propósito de serem entendidas, ouvidas e postas em prá­ tica.” 32 ( ^ fazendeiros semeavam sobre o solo ru3e, e depTJis ò aravam, misturando a semente com a terra (cf. uma prática semelhante hoje em dia nos Estados Unidos, expressa na frase “plow in oats” , que significa arar as sementes de aveia, misturando-as com a terra). O fato de algumas sementes caírem em solo improdutivo e se perderem era um risco cal“^ la d o . Ò fazendeiro semeava n á expec-' tatívadè uma colheita que lhe desse lucro em relação à semente plantada. Ã beira do caminho era a trilha batida que atra­ vessava ou margeava u m ^ ã m ^ . Lugares pedregosos refere-se a solo pouco espesso sobre um estrato rochoso, e não a pedras misturadas com solo. O solo pouco espes­ so depressa seria aquecido pelo sol, e uma rápida germinação da semente seria o resultado. Todavia, carecendo de pro­ fundidade, o solo não teria a humidade • para sustentar o crescimento. Os espi­ 1. Semeador e Solos ( 13:1-23) rM : nhos cresciam nos promontórios e luga­ res remotos do campo. Eles abafariam as 1) A Parábola Dada (13:1-9) 5 !^ plantinhas novas. A boa terra produzia 1 N o m esm o d ia, tendo J e su s saído de várias quantidades: um a cem, outro a ca sa , se n to u -^ à ^ e l r a dp m a r; 2 e reu n i­ sessenta e outro a trinta por um. Uma ram -se a e le gran d es m u ltid ões, de m odo multiplicação de vinte e cinco vezes a que entrou numTSffico; êrsé^ en ío ü ; e todo o semente plantada era boa. O nível de povo e sta v a em pé na p ra ia . 3 E falou-lhes cem por uma era fenomenal. No plantio m u ltas co isa s por p ará b o la s, dizenda; E is de arroz, por exemplo, um grão pode que o sem ead or sa iu a se m ea r . 4 E quando se m e a v a , u m a p arte d a se m e n te ca iu à produzb: duzentos grãos; nâo obstante, b e ira ^ g _ ca m in h p , e v ie ra m a s a v e s e a qualquer fazendeiro ficará satisfeito com com eram . 5 E outra p arte ca iu e m |u g a r es quarenta quilos colhidos de cada quilo pedregosos^ onde náu> h a v ia m u ita terra : e semeado. logo n a sceu , porque n ã o tin h a terra p ro ­ O versículo 9 aponta para a função, funda ; 6 m a s, sain do o so l, q ueim ou-se e, por não ter raiz, secou -se. 7 E outra caiu entre adequada dos ouvidos. Eles se,rvem para espinh os; e o s esp in h os c re sc e ra m e a sufoca ram . 8 M as outra ca iu e m b o a terra, e d ava fruto, um a c e m , outro ã sessen ta' e outro a trinta por u m . 9 Q uem te m ouvidos ouça.

32 H arold S. Songer, “Jesus” U se of Parables: M atthew 13’, Review and Expositor, LIX (outubro, 1962). p. 495.

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de desvendamento, e não uma descoberta humana; dom da graça de Deus, e não resultado dò trabalho do homem (cf. 11:25-27). Isto não acarreta necessaria­ mente a idéia de que Deus arbitrariamente se revela a alguns e nega a revela2) O Objetivo das Parábolas (13:10-17) ção a outros. Se assim fosse, o homem 10 E ch egand o-se a e le os discípulos, perseria reduzido a um ser passivo, anor­ gu n tara m -lh e: P or que lh e s fa la s por p a rá ­ mal, sem virtude nem culpa. O determibolas? 11 R espondeu-lhes J e su s: Porque a nismo exclui a responsabilidade de to­ vós é dado con h ecer os m isté r io s do reino dos, exceto daquele que exerce a deter­ dos céu s, m a s a e le s não lh es é dado; IZ pois ao que tem , d ar-se-lh e-á, e te r á e m ab u n ­ minação. Jesus não diz que Deus nega os dân cia: m a s ao que não tem , a té aquilo que seus mistérios a algumas pessoas, mas tem lh e será tirado. 13 P or isso lh e s falo por que o homem pode ouvir apenas porque parábolas; porque e le s , vendo, n ão v êe m ; e Deus falou. ouvindo, não ou vem n em en ten d em . 14 E n eles se cum pre a p rofecia de Isa ía s, que Algumas vezes Mateus parece abordar diz: uma doutrina de determinismo divino. Ouvindo, ou vireis, e de m a n eira a lgu m a mas se afasta dela, fazendo o homem en ten d ereis; responsável por sua própria culpa (Hare, e, vendo, v ereis, e de m an eira algu m a p. 150). Mateiís vê um homem dado ao p erceb ereis. 13 Porque o coração d este povo se en d u ­ “voluntarismo” , pelo qual ele pode en­ receu , trar no reino de Deus (19:17) ou recusare com os ouvidos oiw ira m tard iam en te, se a fazê-lo (23:37). e fecharãnT os blliòs, Jesus distingue entre aqueles a quem é para que não v e ja m com os olhos, dado conhecer e aqueles a quem não lhes n em ou çam com os ouvidos, n em en ten d am co m o coração, é dado, expresso em outros termos: ao n em se con vertam , e eu os c iv e . que tem e ao que não tem. Àquele que 16 M as b en i j,v en tu r a d o s os y o ss tem, mais pode ser dado, e daquele que porque v ê e m , e o s v o sso s ouvido s, porque não tem é tomado até o que ele tem. É ou vem . 17 P o is e m verd ad e v o s digo que m uitos p rofetas e ju sto s d eseja r a m v e r o claro que isto não pode ser considerado que v e d e s, e não o v ira m ; e ou vir o que literalmente, pois é impossível tomar ou vis, e n ão o ou viram . algo que a pessoa não tem. 0 princípio Inserida, entre a narrativa da parábola jnsinado é que Dei^s pode Jransm itir ps ' e a sua explicação, está uma di^ussaa ^eíTsliíèlhòfés dons apenas àqueles que acerca do prc^ósito das parábolas. Desta estão abertos para receber. Aqueles que ■forma, a parábola do semeador serve não tem è s ^ di^ôsição mergulham fun­ como introdução a todas as parábolas, do em sua cegueira e surdez. São como o solo endurecido, à margem do caminho, em adição à sua aplicação imediata. Mateus torna mais enfático o que onde a semente não pode penetrar e dar consta em Marcos 4:10-12, isto é, o fato fruto. Em Unguagem popular, alguns de que os discípula compreendem, mas_ “têm” e alguns não têm. Deus é que está os estranhos riaó.~Em Marcos a questão fia n d o , mas nem todos estão ouvindo. O 'girãTiimpleTmehte em torno das parábo­ CT^o_de se re ^ s ã r a ouvir é que a pessoa las, mas em Mateus a questão é por que ^ toima surda, da mesma forma como o Jesus fala em parábolas “ a eles” , presu­ prgço_da recusarem ver é a cegueira (cf. mivelmente não-discípulos (v. 10). Jesus Toão 9:39-41). responde que a compreensão dos misté­ No versículo 13, Mateus, de alguma rios do reino é algo dado, e não alcança­ forma, atenuou Marcos 4:12, empregan­ do. Isto é consentâneo com o ensino de do a conjunção porque (hoti), em vez do que a revelação é semprejim^^to divino. “para que” (hina) de Marcos. Ele tam­ ouvir. A pessoa que tem ouvidos tem a responsabilidade de ouvir. jDs ouyidQs_ são uma dádiva de Deus aos homens, mas ouvir se torna a responsabilidade do. homem. ,

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bém omitiu a frase “para que não se convertam e sejam perdoados” de Mar­ cos 4:12. A diferença pode não ser tão grande como parece, pois tanto hina como hoti podem denotar resultado ou propósito (18:16). Embora M ateus omita Marcos 4:12c, o equivalente aparece na longa citação de Isaías em 13:14 e s. Marcos faz eco com Isaías 6:9 e s., e Mateus o cita, seguindo a versão da LXX. A citação de Isaías e o seu tratamento, éxêcutãdõ esp^iUm ente por Marcos, e, em menor extensão, por Mateus, é aber­ ta para o^ignificado de que Deus deliberadamente fechail)s’õíividõs e olhos de alguns, de fqr^ma que eles sejam^ncapazes dejjuvir e v^er.,E sta posição ^ d 'e ser oposta à p rin c ip a lIn fS ê ' bíbGca, que retrata Deüs^orerécênaò luz ã"Tõdos os que desejarem recebê-la. Um ponto de vista determinista livraria o homem de toda a responsabilidade, virtude ou cul­ pa; mas este ponto de vista não é apoiado pela ênfase dominante em Marcos ou Mateus. Esta passagem difícil é melhor enten­ dida se a interpretamos dizendo que ela enfatiza a iniciativa _e a_ soberania__deDeus aq tratar com o homem. Se Deus íiâo abrir o caminho para o hôniêm ouvir e ver, o homem não pode fazê-lo. Deus se revela ao homem; não é o homem que descobre Deus. Mas a passagem vai um passo mais longe, em sua compreensão da cegueira humana em termos de provi­ dência divina, que tem o objetivo não de desculpar o homem, mas declarar a soberania de Deus. A lógica requer a conclusão de que, quando uma pessoa determina a condi­ ção de outra, toda a responsabilidade repouse sobre aquela que determina (su­ jeito), e não sobre a que é determinada (objeto). A lógica não pode escapar a isto. Mas Isaías 6:9 e s. e o seu emprego feito por Mateus devem ser entendidos em termos de intenção, sem forçar a lógica da declaração. Á parábola não pretende desculpar o Tiomem por ser

surdo ou cego, pois o chama à responsa-; bilidade jjor ouvir e ver. Á citação de Isaías fica pouco aquém de explicar a surdez e a cegueira como devidas à vontade de Deus. Ela descreve pessoas que ouvem palavras, mas não entendem, e que vêem, mas não perce­ bem. Corações que se endureceram e ouvidos que ouviram tardiamente descre­ vem a falta de receptividade, da parte do homem, à revelação de Deus. Não se diz gue Deus fechou os olhos de, certas pes-, soas, mas que elas fecharam os seu^ próprios olhos^ Esta é a rejeição da luz de Déiís, exercida pelo homem, e não uma predestinação divina, que fixa o destino do homem. ^ Os versículos 16 e 17 enfatizam o grande privilégio dos discípulos, pois eles agora vêem o cumprimento de tudo o que os profetas e justos desejaram ver. Vossos (humõn) é enfático no texto grego. A preocupação de Mateus pela retidão e expressa ü a sua escolha da palavra jus­ tos, enquanto Lucas 10:'24 grafa “reis” . Por detrás de Mateus 13:10-15 está Marcos 4:10-12, e possivelmentejo estudo mais bem feito desta passagem é o de joachim Jereriiias^^ Éle vê Marcos ^klT "e s. preservando um a antiga paráfrase palestina de Isaías 6:9 e s., semelhante ao Targum (tradução oral de textos he­ braicos para o aramaico). Aos discípulos _é confiado o segredo^mustérionl^do reino 'dos^eus7 uma dádiva da pura graça de Deus. Para os de fora tudo é apresentado em parábolas, isto é, em mistérios (musterion). Aqui “parábola” é usada no sentido de enigma, um dõs empregos da palavra hebraica mashal (cf. a antítese entre paroimia, dito marginal, e parresia, abertura ou abertamente, em João 16:25). Por enquanto, tudo está em enig­ mas, ou parábolas, para os de fora. O hina de Marcos (v. 12), “para que” , pode ser entendido como uma abreviatura de

33 The Parables of Jesus (ed. rev.; New Y ork; Scribners, 1963), p . 12-18.

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“a fim de que se cumpra” , referindo-se a Isaías 6:9 e s. Isto pode significar “ tendo em vista” ou “ resultando em” que a profecia de Isaías 6:9 e s. se cumpra. O mépote de Marcos (v. 12), geralmente vertido como “para que não” pode ser traduzido, de acordo com a exegese rabí­ nica de Isaías 6:10 (cf. Strack e Biller­ beck, I, 662 e s.): “para que seja que” eles se convertam, e Deus os perdoe. exegese rabínica entendia Isaías 6:10jiãd como uma ameaça dc estupor final, jn a s como uma promessa de conversão e per^ dão apoteóticos. Desta forma entendido, Marcos 4:12b é considerado como enten­ dendo Isaías 6:10b como promessa, e não ameaça. Mateus, atenuando e esclare­ cendo, edifica sobre Marcos 4:10-12. 3) A Parábola Explicada (13:18-23) 18 Ouvi, pois, v ó s a p aráb ola do se m e a ­ dor. 19 A todo o que ou ve a p a la v ra do reino e não a enten d e, v e m o M aligno e a rreb ata o que lhe foi sem ead o no c o r a ç ã o ; e s te é o que foi sem ea d o à b eira do cam in h o. 20 E o que foi sem ea d o nos lu g a res p ed regosos, e ste é o que ouve a p a la v ra , e logo a receb e com a leg ria ; 21 m a s não te m raiz e m si m esm o , a n tes, é de pouca duração; e , sobrevindo a an gú stia e a p erseg u içã o por c a u sa da p a la ­ vra, logo se esca n d a liza . 22 E o que foi sem ea d o entre os esp in h os, e s te é o que ouve a p a lav ra: m a s o s cu idad os d este m undo e a sed u ção das riq u ezas su fo ca m a p a la v ra , e e la fic a Infrutífera. 23 M as o que fo i s e m e ­ ado e m boa terra , e ste é o que ouve a p a lavra, e a en ten d e; e dá fruto, e um produz cem , outro se sse n ta , e outro trinta.

^Duas interpretações basicamente difere^^T^desS^pllavra são possíveisf Ela "pode ser vista como a parábola do semea­ dor, conforme aqui, ou como a parábola dos solos. A primeira interpretação enfa'fizá^ã^cõlEêita bem-sucedida, a despeito de todos os azares e oposições. Muitos eruditos entendem que inicialmente a parábola teve esta ênfase. Se a entende­ mos assim, Jesus nos dá a certeza de que o reino do céu prevalecerá sobre toda a oposição. A despeito de solo duro, pás­ saros, solo rochoso e espinhos, haverá uma colheita abundante. 198

Da forma como a parábola está, ela parece colocar a ^ênfase nas dijferentes espécies de solo, embora seja ainda co­ nhecida como a “parábola do semea­ dor” . Desta forma, a ênfase é dada à responsabilidade gue o homem tem de puyir. Os ouvidos foram feitos para ouvir' (13:9). Os que “não têm” , isto é, aqueles que não estão abertos para a palavra de Deus, perdem a sua capacidade de ouvir. Os “ que têm” , isto é, aqueles que são como a boa terra, abrem-se para a pala­ vra de Deus, e crescem em sua capaci­ dade para receber. Nesta segunda forma de vê-la, que é desenvolvida por todos os Sinópticos, quatro tipos de ouvintes são retratados. H T ^ ^ ^ d u re c i^ s , impenetráveis. Men­ tes, ouvídore^õiiiÕs estão fechados para as palavras e obras de Deus. Um segundo grupo é assemelhado aos lugares pedre­ gosos. São os que seguem a Jesus de maneira suçeríicialj^atraídos facilmente por benefícios exteriores, mas basica­ mente não dedicados ao Servo de Deus, cujo travesseiro é uma cruz. O terceiro grupo é como a semente entre os espi­ nhos. Eles têm um interesse sincero, mas também os cuidados deste mundo. Desta forma d iv id id ^ e distraídos, eles não se entregam basicamente a Jesus como seu Senhor. A boa terra tipifica aqueles que manifestam uma reação g e jn Ú M ^ p a l^ yra de De^us. Até”a ^ i ha diferenças, sendo aíguhs mais produtivos do que outros. O interesse de Mateus, em retratar os discípulos como pessoas que “entendem” , é expresso na introdução que ele faz deste termo em 13:19,23,51. Isto é especialmente claro em 13:23, onde M a­ teus usa as palavras o que ouve a palavra, e a entende, substituindo a expressão usada por Marcos: os que a “recebem” (4:20). Um dos objetivos de Mateus é enfatizar a compreensão que o discípulo tem da palavra dé Déus, enL contraste com a incompreensão farisaica. embora esta última não seja mencionada aqui.


2. Joio no Meio do Trigo (13:24-30) 34 P ropôs-lhes ou tra p aráb ola, dizendo: O reino d os c éu s é sem elh a n te a o h o m em que sem eou boa sem en te no seu c a m p o ; 25 m a s, enquanto o s h o m en s d orm iam , v elo o in i­ m igo d ele, sem eou joio no m eio do trigo, e retirou-se. 26 Quando, p orém , a e r v a c r e s ­ ceu e com eçou a e sp ig a r , en tã o a p a receu tamíbém o joio. 27 C h egaram , p o is, o s se rv o s do proprietário, e d isseram -]h e: Senhor, não se m e a ste no teu cam p o boa sem en te? D o n ­ de, p ois, v e m o joio? 28 R espondeu-lhes: A lgum in im igo é q u em fe z is so . £ o s se r v o s lhe d issera m : Q ueres, p o is, que v a m o s a r ­ rancá-lo? 29 M e , p orém , d isse : N ã o ; p ara que, ao colh er o joio, não arran q u eis com e le tam b ém o trigo. 30 D e ix a i c r e sc e r am b os juntos a té a c e ifa ; e , por o c a siã o d a ceifa , d irei a o s c e ife ir o s: A juntai p rim eiro o joio, e atai-o e m m olhos p a ra o q u eim ar; o trigo« porém , recolhei-o no m eu cele iro .

Esta parábola é peculiar a Mateus, aparecendo no lugar da parábola da se­ mente que cresceu por si mesma, conta­ da por Marcos (4:26-29). Pode-se obser­ var a cuidadosa fraseologia de forma que o reino dos céus seja semelhante a, e não que ele realmente seja como um homem semeando um campo (cf. 11:16; 18:23; 22:2; 25:1). O reino não é como um homem, um campo, etc., mas algo acer­ ca dessas coisas pode ser comparado com a experiência do fazendeiro com o trigo e ojoio (mas veja 13:31,33,44,45,47; 20:1). Joio (zizania) era um a das várias espé­ cies de ervilhaca ou cizirão (lolium temulentum) que cresciam na Palestina. Cres­ ciam juntamente com o trigo, e se pare­ ciam muito com ele. Eram mais facil­ mente distinguíveis quando “embone­ cavam", isto é, quando o grão aparecia no tempo da colheita. Mas a principal razão por que se deixava que o joio crescesse juntamente com o trigo é que deSãrraigar um seria arrancar o outro. Antigamente, bem como agora, os fazen­ deiros carpiam as suas roças; mas, nesta parábola, o fazendeiro excluiu esta pos­ sibilidade provavelmente porque era grande o número de pés de joio semeado deliberadamente por um inimigo. O homem que semeou o campo e o proprietário são a mesma pessoa. O apa­

recimento de joio (ervilhaca ou cizirão) em meio à boa semente é uma ameaça perene, mas sabotagem deliberada é coisa incomum. Visto que o proprietário havia semeado boa semente, isto é, limpa ou livre de joio, concluiu-se que um inimigo havia semeado a m á semente. Por ocasião da colheita, o joio deveria ser queimado, para que nâo lançasse semen­ tes ou “envenenasse” a terra para a pró­ xima colheita. Os servos não são culpa­ dos pelo fato de terem dormido; o ponto é que o inimigo se aproveitou dessa hora para a sua obra maligna. A interpretação da parábola se segue nos versículos 36-43. 3. Semente de Mostarda e Fermento (13:31-33) 31 P rop ôs-lh es outra p aráb ola, dizendo: O reino dos céu s é sem elh a n te a u m grão de m ostard a que u m h o m em tom ou, e sem eo u no se u cam p o ; 32 o qu al é r ea lm en te a m enor d e to d a s a s s e m e n te s ; m a s, d ep ois de ter crescid o , é a m a io r d as h o rta liça s, e faz-se árv o re, de sorte que v ê m a s a v e s do céu, e se an in h am n os se u s ram os. 33 Outra paráb ola lh e s d is s e : O reino dos céu s é sem elh a n te a o ferm en to que u m a m ulh er tom ou e m istu rou co m tr ê s m ed id a s de farin h a, a té fic a r tudo leved ad o.

Estas parábolas parecem formar um par, contrastando a magnitude e poder do reino dos céus com o seu aparente­ mente pequeno começo em Jesus, e que nada promete. De acordo com as expectações judai­ cas, o reino de Deus viria com poder tremendo e resultados catastróficos, der­ rubando os ímpios e vingando os justos. O fato de ele ter vindo na pessoa de um bebezinho, e ter-se manifestado em uma pessoa que rejeitou todos os métodos militaristas e que se considerava como o Servo Sofredor de Deus, era contrário às idéias extravagantes de muitas pessoas. Mas foi assim que o reino dos céus veio! Ele veio em um homem que se dedicou a coletores de impostos e a pecadores, e que começou a sua missão com uma mancheia de homens comuns. As pará­ bolas refletem a alegria e a confiança de Jesus na obra que ele está fazendo. 199


As duas parábolas aparentemente se juntaram em Q, fonte comum a Mateus e Lucas. Marcos contém apenas a pará­ bola da semente de mostarda, e não a do fermento. Concordâncias verbais entre Mateus e Lucas, no que eles diferem de Marcos, indicam que eles conheciam a parábola da semente de mostarda em Q, tanto quanto em Marcos. O contraste entre a pequenez da se­ mente de mostarda e o tamanho da plan­ ta que ela produziu era proverbial. Não é necessário forçar o texto para reconhecer o tamanho de ambas. Se deve ou não ser descoberto algum simboUsmo nos detalhes da parábola da semente de mostarda, ramos e pássaros, é coisa incerta. Possivelmente eles servem apenas para tornar mais vivido o quadro de uma grande planta derivada de mi­ núscula semente. Por outro lado, alguns eruditos cuidadosos descobrem o ponto principal exatamente aqui, observando que no judaísmo o fato de pássaros faze­ rem ninhos em árvores simbolizava a vinda dos gentios às bênçãos do reino (Ez. 17:3; 31:6; Dan. 4:12). Da mesma forma como os pássaros convergem para a sombra da árvore, procurando abrigo, assim também as bênçãos do reino de Deus são pintadas como disponíveis agora a todos os homens. Se isto é válido, o ponto principal ainda é válido. A parábola é de contrastes, do começo pequeno, com um pequeno grupo de pessoas comuns, para uma comunidade universal. A parábola do fermento também ensi­ na uma lição por contraste, embora a quantidade de fermento não tenha sido especificada, Ttês medidas de farinha seria cerca de cento e sessenta quilos de pão. Todavia, a maior ênfase é provavel­ mente a maneira íntima e transforma­ dora pela qual o fermento penetra na massa e a transforma. O reino não vem 34 C. H . D odd, The Parables of the Kingdom (ed. rev.; New Y ork, Scribners, 1936), p. 190 e s. Cf. T . W . M anson, Teaching of Jesus (C am bridge, 1935), p. 133, N « l.

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como um espetáculo sensacional, ou com poderes mundanos. Vem com força revo­ lucionária, sim, mas transformando de dentro para fora. Ambas as parábolas, a do grão de mostarda e do fermento, enfa­ tizam o poder miraculoso do reino de Deus, a maravilha do poder criativo de Deus, a partir dos começos menos pro­ metedores, produzindo resultados tão grandes (J. Jeremias, Parables, p. 148). No Velho Testamento e em outras partes do Novo, o fermento é um símbolo do m al(cf. 16:6,11 e s.), mas essa inter­ pretação parece impossível aqui. Nesta parábola, o fermento conquista toda a massa de farinha, e Jesus não estava ensinando o triunfo do mal. É o reino dos céus, e não o mal, que trabalha como fer­ mento. 4. O Uso das Parábolas (13.34,35) 34 T odas e sta s c o isa s falou J e su s à s m u l­ tid ões por p ará b o la s, e se m p aráb olas nada lh e s fa la v a ; 35 p ara qu e s e cu m p risse o que foi dito pelo p r o fe ta : A brirei e m p ará b o la s a m inha, b o c a ; p u b licarei c o isa s o cu lta s d esd e a fundad ação do m undo.

A fórmula de conclusão indica que, em certo estágio, uma coleção de parábo­ las terminava aqui, sendo o versículo 51 uma segunda fórmula para marcar a conclusão de coleção mais ampla, feita por Mateus. O fato de terem existido coleções anteriores, das palavras tanto quanto das obras de Jesus, é explícito em Lucas 1:1-4 e expresso em passagens como esta. Não houve nenhum período de silêncio entre a época de Jesus e a em que os Evangelhos foram completados. Pelo contrário, houve uma tradição não interrompida — oral, e depois escrita — em que os materiais eram recordados, recebiam melhor forma e foram preser­ vados. A declaração de que Jesus sem pará­ bolas nada lhes falava deve aplicar-se apenas a uma dada situação, como aqui, e não a todo o seu ministério didático, pois freqüentemente ele ensinava sem usar parábolas. Embora parábola possa


representar “um dito obscuro” , isto é, algo compreensível apenas para o inicia­ do, (cf. 13:11-13; João 16:25, embora aqui a palavra seja paroimia, e não parabolé), no versículo 34 e s. dá-se a enten­ der que ela é algo compreensível. As coisas que outrora estavam escondidas agora são proclamadas, e não ocultas. Isto sustentaria as evidências encontra­ das algures de que Jesus ensinou recor­ rendo a parábolas, para ser melhor en­ tendido, e não para velar os seus ensinos. O profeta pode referir-se ao salmista, pois o versículo 35 é citação de Salmos 78:2. O título de Salmos 78 é “Maskil de Asafe” , e, em I Crônicas 25:1, os filhos de Asafe foram separados para “profeti­ zarem com harpas, com alaúdes, e com címbalos” . Jerônimo parece ter conheci­ do manuscritos que tinham o nome de “Asafe” , mas nenhum desses manuscri­ tos foi preservado. Muitos manuscritos antigos e dignos de confiança grafam “por Isaías” , persuadindo Hort acerca da originalidade dessa variante textual. O profeta, referindo-se ao salmista, é provavelmente a tradução correta, mas o assunto não está encerrado. 5. Parábola do Joio Explicada (13:36-43) 36 E ntão J esu s, d eixan d o a s m u ltid ões, entrou e m c a sa . E ch eg a ra m -se a e le os se u s discípulos, dizendo: E xp lica -n o s a p arábola do joio no cam p o. 37 £ e le , respondendo, d is s e : O que se m e ia a boa se m e n te é o FUlio do h om em ; 38 o cam p o é o m undo; a boa sem en te sã o os fUhos do rein o; o joio sã o os filhos do m a lig n o ; 39 o in im igo que o sem eou é o D iab o; a c eifa é o fim do m undo; e os ceifeiro s sã o os an jos. 40 P o is a s s im com o o joio é colhido e queim ado no fogo, a ssim será no fim do m undo. 41 M andará o F ilho do h om em os se u s anjos, e e le s a juntarão do seu rein o todos o s que se r v e m de trop eço, e os que p raticam a iniqüidade, i 2 e lançá-losão n a fornalha de fogo; a li h a v er á choro e ranger d e d en tes. 43 E n tão os ju sto s r e s ­ pland ecerão com o o so l, no reino d e seu F a i. Quem tem ouvidos, ouça.

Esta parábola é interpretada e aplica­ da, ponto por ponto, de maneira alegó­ rica. O estilo do texto é tipicamente de

Mateus. O principal ensinamento é que a separação entre os que praticam a iniqüidade e os justos vai acontecer no fim do mundo (fim ou consumação do século), e não antes. Desta forma parece que o juízo é adiado, mas certo. Este é um lembrete, para os discípulos impa­ cientes, de que Deus tem a sua maneira peculiar de julgar os ímpios e vingar os justos, e não vai aceitar nenhuma pressão para adotar qualquer outro método ou cronograma, nem para uma nem para outra coisa. O contraste entre os que praticam a iniqüidade, na verdade, “fora da lei” (anomia, cf. também 7:23; 23:28; 24:12) e os justos, apoia a grande preocupação de Mateus de mostrar que Jesus rejeitou não apenas o legalismo farisaico, mas também o antinomianismo ou ilegalida­ de. As exigências morais não são sacrifi­ cadas por um evangelho de salvação pre­ gado como dádiva da misericórdia de Deus. Pode ser observado, ainda mais, que, para Mateus, o mundo é o campo de trabalho missionário, e não apenas a nação de Israel (cf. 28:19, bem como 10:5; 15:24). O fim do mundo (cf. 28:20) é a consumação do século, quando a história for levada ao seu alvo final. Tanto o julgamento como a salvação são realidades presentes, mas a completação de cada uma delas pertence à con­ sumação do século. É possível que.esta parábola servisse para alertar a Igreja contra a exclusão apressada de membros que causassem problemas na comunidade. Jesus não expulsou Judas de entre os doze, embora soubesse da sua traição antes de Judas agir para traí-lo. Mais provavelmente, contudo, a preocupação da parábola é a impaciência dos que desejavam que Deus agisse imediatamente em juízo externo e final dos maus, e recompensa dos justos. Duas razões-são apresentadas para adiar 35 Cf. Jerem ias, Parables (p. 81-85), p a ra verificar estilo e significado.

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a “capina” até a colheita: (1) para que o bom não fosse arrancado com o mau, e (2) porque Deus marcou um fim dos tempos para tal separação. Quando o homem tenta assumir a função de Deus como juiz, ele tanto desobedece a Deus como arrisca-se a confundir o bom com o mau. 6. Tesouro Escondido e Pérola Cara (13:44-46) 44 O reino dos céu s é sem ellia n te a um tesouro escondido no cam p o, que u m liom em , ao descobri-lo, esco n d e; entáu>, m o v i­ do de gozo, v a i, ven d e tudo quanto tem , e com pra aq u ele cam po. 45 O utrossim , o reino dos c é u s é sem elliante a um n egocian te que b u sc a v a b oas p érolas; 46 e, encontrando u m a pérola de grande vaior, foi, ven d eu tudo quanto tiniia, e a com prou.

Estas parábolas gêmeas apresentam o mesmo ensino básico: a alegria ocasiona­ da pelo irromper do reino de Deus (J. Jeremias, Parables, p. 201). Juntamente com a alegria há lições correlatas intima­ mente. O privilégio de viver sob o gover­ no de Deus, o reino dos céus, é uma alegria, um gozo que vale a entrega de tudo o mais. Esse jubiloso privilégio não apenas vale tudo, mas também custa tudo. Paradoxalmente, a salvação é grá­ tis, mas custa tudo (cf. 10:37-39). A pessoa precisa vender tudo o que tem para possuir o tesouro ou a pérola de grande valor. As parábolas são uma con­ clamação à decisão. O reino veio em Jesus, e é o maior bem, a coisa de maior valor. A pessoa terá esta alegria se estiver disposta a deixar tudo e seguir a Jesus. Possivelmente há um ensinamento ulterior, se focalizarmos a diferença en­ tre o encontro acidental do tesouro es­ condido e a descoberta da pérola valiosa apenas ao fim de longa procura. Isto pode sugerir que algumas pessoas encon­ tram o reino sem procürá-lo, enquanto outros primeiramente o procuram. Se as parábolas devem ser levadas a este ponto de interpretação, não pode ser determi­ nado. Preço incalculável, a alegria da 202

posse, a disposição para abrir mão de tudo o mais em favor do reino, e uma conclamação à decisão, parecem ser as lições destas parábolas. A parábola do tesouro escondido não trata da ética do homem que comprou o campo sem infor­ mar o antigo possuidor acerca do tesouro ali escondido. Jülicher (II, p. 581-85) há muito tempo já mostrou o perigo de tentar tirar lições morais dos detalhes de cada parábola. 7. Rede e Separação dos Peixes (13: 47-50) 47 Ig u a lm en te, o rein o dos céu s é sem eiiiante a u m a red e la n ça d a ao m ar, e que apaniiou toda e sp é c ie d e p eix e s. 4g E , quan­ do clieia, p u xaram -n a p a ra a p ra ia ; e , sen ­ tando-se, p u sera m ós bons e m cesto s; os ruins, p orém , la n ça ra m fora. 49 A ssim se rá no fim do m u n d o : sa irã o os anjos, e se p a r a ­ rão os m a u s dentre os ju sto s, 50 e lançá-losão n a forn alh a de fogo; a li iia v erá choro e ranger de den tes.

Esta parábola pode ser emparelhada com a do joio em meio ao trigo, cada uma delas ensinando que o juízo é adiado exteriormente, mas certo. A rede (sagènê) é uma rede de arrasto ou aTrastão. Ela é puxada entre dois barcos, ou levada por um sò barco, e puxada para a mar­ gem com cordas. Nesse tipo de pesca, todas as espécies de peixes são pescadas juntas, tendo lugar a separação de espé­ cies só depois que a rede é arrastada para a praia. Bons (kala) e ruins (sapra) refe­ re-se a peixes comestíveis e não-comestíveis, como era determinado pelo gosto ou pela lei judaica. Os judeus eram proi­ bidos de comer animais marinhos, a não ser que tivessem barbatanas e escamas (Lev. 11:9-12). Na aplicação, deve ser verificado que o reino não separa exteriormente o que é bom e o que é ruim, nesta vida. _Deus manda indiferentemente o sol e a chuva sobre ambos (5:45), e as circunstâncias materiais e físicas deles podem não ex­ pressar a sua verdadeira condição para com Deus. Somente no fim do mundo será feita a separação visível. Nesse tem­


po, tanto o juízo como a redenção serão completados. A aplicação imediata pode ter sido feita para a Igreja da época de Mateus. A comunidade de Qumran havia conside­ rado a si mesma como santuário vivo, uma esfera de santidade em agudo con­ traste com o resto do mundo, que os essênios pensavam estar corrompido (Betz, p. 98). Jesus clamou por pureza e retidão, muito mais do que Qumran, todavia, não forçou Judas a sair do cír­ culo dos doze. Dodd acha que o objetivo da história é que, da mesma forma como, ao pescar com rede, üma pessoa não pode escolher o seu peixe, mas precisa esperar um resultado misto, também os “pescadores de homens” precisam estar preparados para lançar as suas redes largamente sobre o campo da sociedade humana, acarretando a missão de Jesus um apelo indiscriminado a homens de todas as classes e todos os tipos (Parables, p. 188). 8. Tesouros Novos e Velhos (13:51,52) 51 K n ten destes tod as e sta s co isa s? D isseram -llie e le s : E n ten d em os. 52 E dissellie s í P or isso , todo escrib a que s e fez d is c í­ pulo do reino dos céu s é sem ellia n te a um liom em , proprietário, que tira do seu te ­ souro co isa s n ovas e v ellia s.

Este pequeno parágrafo capta muito da ênfase de Mateus. O discípulo é con­ siderado como escriba cristão (cf. 8:19; 23:34). Da mesma forma como Jesus não veio para abolir a Lei e os Profetas, mas para cumpri-los (5:17), os seus discípulos devem conservar os tesouros encontrados nos ensinamentos de Jesus. Já foi suge­ rido que Mateus pode estar expressando, aqui, a compreensão que tinha acerca do seu papel pessoal (Bacon, p. 131). Na analogia, o proprietário é visto como alguém que está preparado para cuidar de sua família ou de seus hóspe­ des, lançando mão de bens tanto velhos como novos. Espera-se que o escriba cristão seja capaz de satisfazer às neces­ sidades dos seus ouvintes com verdades tiradas da herança de Israel e de Jesus.

VIII. Rejeitado na Terra Natal, Mas Popular com as Multi­ dões (13:53 — 14:36) 1. Rejeição em Nazaré (13:53-58) 53 E J e su s, tendo concluído e sta s p a rá ­ b olas, se retirou d ali. 54 E , ch egan d o à su a terra, e n sin a v a o p ovo n a sin a g o g a , d e m odo que e ste se m a r a v ilh a v a , e d izia: D onde lhe v e m e sta sab ed oria, e e s te s pod eres m ila ­ grosos? 55 N ão é e ste o filho do carpinteiro? e não se c h a m a su a m ã e M aria e se u s ir ­ m ã o s T iago, J o sé , S im ão e Ju d as? 56 E não estã o en tre nós tod as a s su a s irm ã s? Donde Uie v e m , p ois, tudo isto ? 57 E escan d alizav a m -se d e le . J e su s, p orém , lh es d isse: U m p rofeta n ão fic a se m honra sen ã o n a su a terra e n a su a própria c a sa . 58 E não fez ali m uitos m ila g r es, por c a u sa da in cred u li­ dade d ele s.

No versículo 53 aparece pela terceira vez a fórmula sumária que Mateus usa cinco vezes, cada uma delas marcando o fim de um discurso principal (cf. 7:28; 11:1; 19:1; 26:1). Nesta altura, Mateus volta à ordem de Marcos, e segue-a até o fim de Marcos. Na sua terra (patris) provavelmente se refere a Nazaré, embora isto não esteja explícito aqui, nem no paralelo em M ar­ cos 6:1-6. Lucas (4:16-30) identifica o lugar como sendo Nazaré, e faz desta a narrativa básica, contra a qual estabelece a natureza do ministério de Jesus e as bases para o seu conflito com o seu próprio povo. Em todos os três Sinópti­ cos, a experiência da rejeição nas sina­ gogas de Nazaré prefigura a rejeição final e crucificação de Jesus (17:12). Qualquer homem judeu podia ser con­ vidado a ensinar em uma sinagoga. Ensi­ nava (edidasken) é tradução de um tem­ po imperfeito grego, e pode dar a enten­ der que Jesus ensinou em mais de uma ocasião nessa sinagoga. Este ponto de gramática não precisa ser enfatizado, pois poderia descrever nada mais do que o processo de ensinar em uma só reunião. Os habitantes da cidade não estavam preparados para tanta sabedoria em uma pessoa que havia crescido entre eles. Os 203


poderes milagrosos podiam ser os exer­ de Marcos, deixando aberta a questão se cidos em outro lugar (cf. caps. 8 e 9) e Jesus fora incapaz ou não quisera fazer coisas de que eles tivessem apenas ouvido obras milagrosas em face da increduli­ falar (Luc. 4:23), pois em Nazaré ele não dade. Se não quis, foi porque ele não fez muitos milagres (v. 58). fazia milagres a fim de compelir as pes­ Os aldeões ponderavam acerca da fon­ soas à fé ou para satisfazer à curiosidade. te de sabedoria e do poder de Jesus, “Ele não fez com que o poder de Deus pensando nele apenas como o filho do servisse à incredulidade do homem nem carpinteiro, cuja humilde família vivia procurou vencê-la pela força” (Schlatter, entre eles. “Carpinteiro” é tradução de op. cit., p. 226). tektõn, um termo que se refere a alguém 2. A Morte de João Batista (14:1-12) que trabalha com madeira ou pedra. Em Marcos (6:3), Jesus é chamado “o car­ 1 N aq u ele tem p o H erodes, o tetra rca , pinteiro, filho de M aria” . Mateus regis­ ouviu a fa m a de J esu s, 2 e d isse a o s seu s tra os aldeões chamando-o de o filho do co rtesã os: E ste é João, o B a tista ; e le r e s ­ su scitou dentre os m o rto s, e por isso e ss e s carpinteiro. Tanto José como Jesus de­ poderes m ila g ro so s op eram n ele . 3 F o is viam ter sido “carpinteiros” . Ao chamar H erodes h a v ia prendido a João, e , m a n ia ­ tando-o, o gu ard ara no c á rcere, por ca u sa Jesus de filho do carpinteiro, Mateus não de H erodias, m u lh er de seu irm ão F ilip e ; 4 contradiz o seu relato, dando Jesus como porque J o ã o lh e d izia: N ão te é licito posnascido de uma virgem (1:23). Não era su i-la. 5 E qu eria m a tá -lo , m a s te m ia o costume os judeus identificar um filho, povo; porque o tinham com o profeta. 6 F esmencionando sua mãe. tejan d o-se, p orém , o d ia n ata lício de H ero­ Não há razão para entender irmãos e d es, a fUha d e H ero d ia s dançou no m eio dos con v iv a s, e agrad ou a H erod es, 7 pelo que irmãs de qualquer forma que não seja a e ste p rom eteu , co m ju ram en to, dar-lhe tudo normal. Depois do nascimento de Jesus, o que p ed isse. 8 E , in stig a d a por su a m ã e, Maria viveu com José e deu à luz filhos e d isse e la : D á-m e aqui n um prato a ca b eça de João, o Batista.. 9 E n tristeceu -se, então o filhas. A tendência teológica no segundo rei; m a s, por ca u sa do ju ram en to, e dos que século começou a inventar histórias que esta v a m á m e sa com e le , ordenou que se lhe atribuíam esses filhos a um casamento d esse, 10 e m andou d eg o la r a João no c á r ­ anterior de José, procurando, desta for­ cere; 11 e a c a b eça foi trazid a num prato, e ma, construir possibilidades para afir­ dada à jo v em , e e la a levou a su a m ã e . 12 E ntão v ier a m o s seu s d iscíp u los, lev a ra m mar a virgindade perpétua de Maria (cf. o corpo e o se p u lta r a m ; e foram anunciá-lo The Protoevangelium of James). Esses a J esu s. filhos não eram irmãos adotivos ou pseudo-irmãos, nem primos de Jesus. A morte dé João é relatada não por si Eram meio-irmãos e meio-irmãs. própria, mas por causa do seu relaciona­ A família de Jesus, bem como os al­ mento com os atos de Jesus, e como uma deões parecem não tê-lo apoiado em seu prefiguração do destino de Jesus. Até a ministério. Só depois de sua morte e liistória do martírio de João é levada a ressurreição eles começaram a entendê-lo servir ao interesse primário, do Evange­ (12:46-50; João 7:5). Os aldeões escan­ lho, em Jesus. A fama de Jesus fez com dalizavam-se dele, com aparente inveja e que Herodes Antipas, tetrarca da Gali­ ressentimento. Lucas expõe o fato de que léia e Peréia (4 a.C. a 39 d.C.), se lem­ a descrição que Jesus fez de sua missão brasse de João Batista. O paralelo aue moveu-os a até lançá-lo fora da sinagoga havia entre os dois estava na sua mensae a tentar matá-lo (4:16-30). gem profética, pois Joâo não fêãlizava Por causa de incredulidade em Naza­ milagres (João 10:41). Pode ser qué~l ré, Jesus não tez ali muitos milagres (isto ' “’Herodes realmente crera que João ressus- / preserva a ambigüidade do original gre­ citara dentre os mortos, mas provável-/ go). Mateus suaviza o “não podia fazer” mente ele queria dizer que a mensagemj 204


profética de Jesus era como ouvir João \ que o fascinou (cf. Dietrich, p. 86). outra vez. •— ^ Herodes, sob juramento, fez uma pro­ A execução de João, por Herodes An­ messa apressada à filha de Herodias. Quando o pedido veio de mãe e filha para tipas (filho de Herodes, o Grande, e sua esposa samaritana Malthace), é relatada que lhes fosse dada a cabeça de João por Josefo (Antig. XVIII:5), bem como Batista num prato (isto é, prato da me­ por Marcos (6:14-29), Lucas (9:7-9) e sa), ele verificou que havia caído numa Mateus. Em detalhes insignificantes, armadilha. Cheio de medo e suspeita, ele ninguém foi capaz de fazer a plena cor­ deplorou um juramento feito na presen­ relação destas narrativas. A principal ça dos ■seus hóspedes. Os temores de dificuldade surge em conexão com o relaHerodes eram muitos: ele temia João; cíõnamento entre Herodias e (Jlerodes temia o povo, que considerava João como profeta; temia quebrar aquele juramento Filipe^ Josefo diz apenas que Herodes ^SÊpas se casara com a esposa de seu iníquo; temia voltar atrás perante os seus irmão Herodes. Marcos e Mateus cha­ hóspedes; e temia a sua astuta esposa__ mam-no de Filipe, embora alguns ma­ ^Herodias (Filson, p. 169). O fraco rei nuscritos importantes não incluam o honrou o seu juramento, e fez com que nome Filipe em Mateus 14:3. Josefo diz João fosse decapitado, embora a lei que Salomé, filha de Herodias, casou-se judaica proibisse a execução de um ho­ com Filipe, meio-irmão de Antipas. mem sem um julgamento prévio, e não Pelo menos isto é claro, considerando- permitisse a decapitação. Herodes seguiu se todos os relatos: (^Herodês~AiitipaS') o costume romano, e não o judaico. Contudo, as recordações ck João conticasou com Herodias, esposa de um de niiargjTi a a ^ s n m h r a r n vp.lbf) rp.i. seus irmãos, e mais tarde executou João Batista (em Maqueros, perto do M ar Os problemas históricos e inconse­ qüentes, e os detalhes sanguinolentos Morto, de acordo com Josefo). A primei­ acerca de ações da família herodiana não ra esposa de Antipas era filha de Aretas, nos devem distrair das lições perenes rei de Nabatéia. Em uma visita a Roma, ele apaixonou-se por Herodias, esposa do desta passagem: a integridade profética seu irmão (Filipe, de acordo com M ar-_ de João e de Jesus debaixo das pressões cos; Boethus, nas demais fontes). Divor­ mais severas, a santidade do casamento, que nunca pode ser transigida impune­ ciou-se de sua primeira esposa e casou-se com a esposa de seu irmão, contrariando mente, e o relacionamento entre os discí­ a lei judaica (Lev. 18:16: 20:21). pulos e o Mestre, tanto na vida como na João condenou o casamento adúltero morte. do rei, e fê-lo na cara. Possivelmente, 3. Os cinco Mil Alimentados (14:13-21) Antipas havia chamado João para com­ parecer em sua presença, pensando que 13 J e su s, ouvindo isto , retirou-se dali num ele então se retrataria do que havia fala­ barco, p a ra u m lu g a r d eserto , à p a rte; e, do (o tempo do verbo, no v. 4, indica quando a s m u ltid ões o sou b eram , segu iram repetidas acusações). João não vacilou. no a p é d esd e a s cid a d es. 14 E e le , ao d e se m ­ barcar, v iu u m a grande m u ltid ão; e, com Antipas queria matá-lo. mas temia o p ad ecen d o-se d ela , curou os se u s e n fer­ povo. Josefo (XVIII, 5,2) escreveu que m os. 15 C hegada a tard e, ap roxim aram -se Antipas queria m atar João porque temia d ele os se u s d iscíp u los, dizendo: O lu g a r é que ele instigasse o povo a uma revolta. deserto, e a hora é já p a ssa d a ; desp ed e as Pode ser aue Antipas temesse deixar Joãg m u ltid ões, p a ra que v ã o à s a ld e ia s, e co m ­ p rem o que co m er. 16 J e su s, porém , lh es vivo, tanto quanto executá-lo.^ d isse : N ão p r e cisa m ir em b ora ; d al-lh es vós Por ocasião da celebração de um ani­ dé co m er. 17 E n tão e le s lh e d issera m : N ão versário seu, provavelmente depois de tem os aqui sen ão cin co p ã e s e dois p e ix es. 18 muita bebida, e assistindo a uma dança E e le d isse : T razei-m os aqui. 19 Tendo m a n ­ 205


dado à s m u ltid ões que se recU n assem sobre a relv a , tom ou os cin co p ã es e os dois p eix es, e, erguendo os olhos a o céu , o s abençoou; e, partindo os p ã e s, deu-os a o s d iscip u lo s, e os d iscip u los à s m u ltid õ es. 20 Todos c o m e ­ ram e se fa rta ra m ; e dos p ed a ço s que so b e ­ ja ra m lev a n ta ra m doze cesto s ch eios. 21 Ora, os que co m era m foram c e r c a de cin co m il h om ens, a lé m de m u lh eres e crian ça s.

Esta é a única história milagrosa que aparece em todos os quatro Evangelhos (cf. Mar. 6:35-44; Luc. 9:10-17; João 6:1-14). Marcos (8:1-9) e Mateus (15: 32-38) contêm ainda uma história semelhante, acerca da alimentação de quatro mil pessoas. O ter Jesus alimen­ tado as multidões era de suprema impor­ tância para a igreja primitiva. Isto é atestado pelo fato de estas histórias esta­ rem arraigadas tão profundamente na tradição e serem contadas com tanta fre­ qüência. Para o Evangelho de João, este é um dos principais sinais, seguido por um extenso discurso de Jesus como Pão da Vida (6:1-71). A compaixão de Jesus pelo povo fa­ minto é a preocupação mais óbvia por detrás do milagre e do seu relato. Embo­ ra Jesus se recusasse a usar poder mira­ culoso para satisfazer a sua própria fome (4:2-4), ele se preocupava ativamente com as necessidades materiais e físicas das outras pessoas. Seja o que for, além disso, que esse milagre dê a entender, esta compaixão de Jesus não pode ser obscurecida sem causarmos grave injus­ tiça à intenção da história. Os milagres na natureza são mais difí­ ceis para a mente moderna do que os de cura, porque os fatores psicológicos são excluídos. A questão básica com respeito aos milagres na natureza não se relaciona com o poder que Deus tem para operar esses milagres. A fé não pode colocar limites ao poder de Deus. A questão mais difícil relaciona-se com a encarnação. A interrogação freqüentemente feita é: “Será que esses milagres dão a entender que o Verbo realmente não se tornou carne?” Duas observações podem ser fei­ tas, como resposta. Primeiro, que o 206

ministério da encarnação está além de qualquer explicação. A fé cristã pode simplesmente afirmar, e não explicar, aquele que era plenamente homem, e, não obstante, “Deus conosco” . Segundo, o emprego de poderes feito por Jesus, além dos poderes conhecidos, de outra forma, como humanos, operava-se por amor de outras pessoas, e não para esca­ par aos limites da encarnação que ele mesmo se impôs. • O significado da alimentação dos cinco mil vai além da compaixão de Jesus, embora esta seja básica. Uma clara indi­ cação do simbolismo encontrado no milagre é descoberta em Marcos 6:52 e 8:17-21, e em Mateus 16:8-11. No Evan­ gelho de João (6:1-71), este é assunto de Jesus faz, a^esentondo-se como Pão-da. vida. Da mesma forma como .Teais dav-a pão material para o coroo, ele veiojtara transmitir o pão mais elevado, o da vida eterna. Em Mateus, como nos outros Evange­ lhos emprega-se uma linguagem expres­ siva da Ceia do Senhor. As palavras tomou, abençoou, partiu e deu, perten­ cem também à hnguagem da Ceia do Senhor. Embora possa haver alguma alusão em Mateus, e uma ainda mais forte em João, à Ceia do Senhor, e ao “banquete escatològico” além dela, esta alusão tem sido grandemente exagerada no estudo do Novo Testamento. Os Si­ nópticos não enfatizam isto, e é grande­ mente questionável o fato de que João o faça. Todas as refeições judaicas eram sagradas, e os termos tomar, abençoar, partir e dar são normais para o conviva em qualquer refeição judaica. Quando Jesus disse que a pessoa pre­ cisa “comer a carne do Filho do homem e beber o seu sangue” , os discípulos acha­ ram que aquele era um “ discurso duro” , e “muitos dos seus discípulos voltaram para trás e não andavam mais com ele” (João 6:53,60,66). Eles não voltaram atrás por causa das exigências para que comessem da Ceia do Senhor no ban­


quete messiânico! Foi da cruz que eles fugiram. A “Eucaristia” não deve ser entendida em João 6, e depois dali ser lida com este significado em Mateus 14:13-21. Doze cestos cheios enfatiza a abundân­ cia de alimentos propiciada por .Jesus ao povo. Doze provavelmente expresse o fato de a ^ u ltid ã o ter sido servida pelos doze apóstolos, cada um com uma cesta. Depois que todos haviam sido servidos, cada cesta ainda estava cheia. Outra possibilidade é que, na verdade, não tivessem sido usadas cestas, mas a quan­ tidade de pão que snhrnu daria para encher doze cestas. Os pedaços que sobe­ jaram não eram migalhas deixadas pelos ai^ haviam comido, mas os pedaços que caíram das mãos de Jesus enquanto ele quebrava os pães. 4. Pedro Resgatado da Tempestade (14:22-33) 22 Logo e m seg u id a obrigou o s se u s d is c i­ pulos a entrar no barco, e p a ssa r adiante d ele p a ra o outro lado, enquanto e le d e sp e­ dia a s m u ltid ões. 23 T endo-as despedido, subiu ao jn o n t« p ara orar à p a rte. Ao a n o ite­ cer, e sta v a a li sozinho. 24 E n trem en tes, o barco já esta v a a m u ito s está d io s da terra, açoitad o p ela s ond as; porque o vento era contrário. 25 À q uarta v ig ília d a n oite, foi J esu s ter com e le s , andando sobre o m a r. 26 Os d iscíp u los, p orém , ao vê-lo, andando sobre o m a r, a ssu sta ra m -se e d isse ra m : Éum fan tasm a! E grita ra m de m edo. 27 J esu s, p orém , im ed ia ta m en te lh e s falou, dizendo; T ende â n m o ; sou eu ; n ào tem a is. 28 R espondeu-lhe P ed ro : Senhor! se é s tu, m anda-m e ir ter contigo sobre a s á g u a s. 29 D isse-lh e e le : V em . P ed ro, d escen d o do barco, e andando sobre a s á g u a s, foi ao encontro de J esu s. 30 M as, sentindo o vento, teve m ed o; e , com eçan d o a su b m ergir, clam ou : Senhor, sa lv a -m e. 31 Im ed ia ta ­ m ente esten d eu J e su s a m ã o , segurou-o, e d isse-lh e: H om em de p ouca fé, por que duvidaste? 32 E logo que su b iram p ara o barco, o vento cesso u . 33 E n tão os que e s t a ­ vam no b arco adoraram -no, dizendo: V er­ dadeiram en te tu é s F ilho de D eu s.

SÓ João fala dos esforços abortados dos discípulos para tomar Jesus “pela força

para fazê-lo rei” (6:15), mas Mateus expressa a mesma coisa, ao dizer que Jesus obrigou os seus discípulos á entrar no barco e a precedê-lo na ida ao outro lado do lago (Galiléia), enquanto ele despedia as multidões. Aparentemente, as multidões encontraram, na alimenta­ ção miraculosa, um encorajamento para crer que Jesus iria tornar-se o seu liber­ tador nacional — Messias em sentido político. Desde que a multiplicação dos pães aconteceu quando se proximava a Páscoa (João 6:4), a celebração anual da libertação do Egito, as esperanças de uma nova libertação, agora do poderio de Roma, estavam acesas. Parece que os doze estavam encorajando as multidões para proclamar Jesus como rei. Por isso foi que ele primeiro precisou forçá-los a entrar no barco, para afastá-los das mul­ tidões, a quem ele dispersou. Não sfendo compreendido pelas multidões nem pelos discípulos, Jesus, então, subiu ao monte para orar. 36 O fato de os discípulos terem sido pegos no meio do lago em uma tempes­ tade durante a quarta vigília da noite (pelo método romano de contagem de tempo: 3h às 6h) sugere que eles não haviam feito muito progresso, não tendo se distanciado muito da cena do milagre, antes de começarem a remar através dõ^ lago. Isto pode implicar que eles estavam perturbados com a recusa de Jesus em se tornar “rei” . O lago tem cerca de doze quilômetros de largura. O medo dos discípulos e o pedido apressado de Pedro, acompanhado de medo, e a sua pouca fé, não consistem em cumprimentos aos discípulos. Este quadro da fraqueza dos discípulos, e até de Pedro, sublinha a integridade dos Evangelhos. Os apóstolos, e em parti­ cular Pedro, são considerados; não obs­ tante, os relatos não obscurecem os seus

36 Cf. W illiam Hersey Davis, Davis^ Notes on Matthew (Nashville: B roadm an; 1962), p. 59 e s.

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fracassos e falhas. Jesus foi adorado como Filho de Deus. Em Mateus este título articula a mais elevada fé dos discípulos (cf. 16:16) e é usado por Jesus acerca de si mesmo (26:63 e s.; cf. 11:27; 24:36). Embora a perfeição seja o requi­ sito feito a todos (5:48), ela é encontrada apenas em Jesus. Sou eu (egõ eimi) é a mesma expressão grega tão freqüente­ mente usada para designar a divindade (Êx. 3:14; João 6:35; 8:12,58; et al.). A intenção de Mateus é descrever um milagre ou um aglomerado de milagres: Jesus andando sobre as águas, Pedro andando sobre as águas e a tempestade sendo acalmada. Andando sobre o mar não deve ser explicado como andar na praia próxima ao mar. É verdade que a frase grega empregada no versículo 26 (epi tes thãlassês) poderia referir-se ao fato de Jesus andar perto ou à margem do mar, mas as evidências em contrário são fortes demais para permitir esta interpretação. Toda a história e os seus muitos detalhes dão a entender algo mais do que simplesmente andar na praia ou na margem. A pessoa pode crer na histó­ ria ou descrer mas um a exegese compe­ tente não pode explicá-la como se ela devesse ser entendida de maneira dife­ rente do que um milagre. Desde os tempos mais primitivos, a igreja tem tirado desta história a lição de que Cristo vem ao seu povo nas tempes­ tades da vida, para livrá-lo. Parece que Mateus tinha um a coleção de histórias a respeito de Pedro. Elas mostram a sua fraqueza e recuperação. A “Pedra” não se assemelhava à rocha; não obstante, ele era de Cristo, como são todos os que aceitam a sua direção. Mateus não tem como objetivo ensinar que o fracasso não importa, mas que Cristo não falha nem mesmo para com os que falham para com ele. Isto concorda' com a posição assumida de maneira decidida, através deste Evangelho, de que a salvação é uma dádiva tanto quanto exigência, graça e lei ao mesmo tempo. 208

5. Multidões Procuram Ser Curadas (14:34-36) 34 Ora, term in ad a a tr a v e ssia , ch eg a ra m à terra e m G en ezaré. 35 Quando os hom ens daquele lugar o reco n h ecera m , m an d aram por toda a q u ela circun vizin h an ça, e tro u x e­ ram -lhe todos o s en ferm o s; 36 e rogavam lhe que a p en a s os d e ix a sse tocar a orla do seu m an to; e todos os que a to ca ra m fic a ­ ra m curados.

Genezaré era uma planície fértil a noroeste do Lago da Galiléia, entre Ca­ farnaum e Tiberíades. Algumas vezes o lago era chamado por esse nome (Luc. 5:1). Este parágrafo mostra a grande popularidade de Jesus entre as multi­ dões. Também mostra a paciência de Jesus para com o povo comum, muito embora os interesses deste muitas vezes fossem apenas secundários, físicos e materiais, e embora a sua fé algumas vezes chegasse às raias da superstição, como ao pensar que ao tocar a orla do seu manto entrariam em contato com o seu poder. Jesus se preocupava com as necessidades físicas e materiais do povo embora ensinasse que “ nem só de pão viverá o homem (4:4). Ficaram curados (diesõthésan) poderia ser traduzido “ sal­ vos” . A mesma palavra é usada para “salvação” em ambos os níveis, físico e espiritual.

IX. Conflito com Fariseus, Escri­ bas e Saduceus (15:1 — 16:12) Se alguma coisa emerge com clareza dos Evangelhos, é que Jesus viveu no contexto do judaísmo com verdadeira piedade e, ao mesmo tempo, manteve liberdade para diferir radicalmente dos seus mais fortes lideres e expoente;s. A erudição crítica de hoje em dia está ple­ namente convencida, por nada mais do que o claro ensino do Evangelho, que Jesus se caracterizava por profunda piedade, e ao mesmo tempo era consi­ derado um liberal perigoso pelo mundo


religioso ao qual pertencia. Este foi um fator dos principais na decisão fari­ saica de matá-lo. Jesus vivia em liberda­ de e independência em relação aos cos­ tumes religiosos, pelos quais muitas pes­ soas estavam preparadas para dar a vida ou tirar a vida de outrem. 0 abismo que separava Jesus dos lei­ gos fariseus e dos sacerdotes saduceus se tornou cada vez mais visível, à medida que, por palavras, atos e forma de vida, Jesus tornou mais clara a sua intenção. Ele diferia tanto de fariseus como de saduceus, por diferentes razões. O seu conflito com os fariseus era basicamente em relação à lei ritual, que, para os fariseus, estabelecia a distinção entré judeus e não-judeus, e até entre “justos” e “pecadores” , dentro do judaísmo. Na passagem diante de nós, pode ser vista a rejeição de Jesus à base que os fariseus apresentavam para essas distinções. Os saduceus se opunham a Jesus por causa da sua posição em relação ao Templo e porque pensavam que Jesus iria pertur­ bar a sua confortável aliança com Roma. Mateus não está muito interessado em estabelecer a diferença entre fari­ seus e saduceus. Ele tende a combiná-los como líderes de Israel, os mais responsá­ veis pelo fato de Israel ter rejeitado Jesus e pela conseqüente queda da nação como taUcf. 3:7; 16:1,6,11,12; 18:6). 1. Jesus Desafia a Tradição (15:1-20) 1 E n tão ch eg a ra m a J esu s uns fa riseu s e escrib a s vindos de J eru sa lé m , e lh e pergu n ­ taram : 2 P or que tran sgrid em os teu s d is c i­ pulos a tradição dos an ciã o s? p ois não la ­ v a m a s m ãos, quando co m em . 3 E le , porém , respondendo, d isse-lh es: E v ó s, por que tran sgred is o m an d am en to de D eu s por ca u sa d a v o ssa tradição? 4 P o is D eu s o rd e­ nou: Honra a teu p ai e a tu a m ã e ; e : Quem m a ld isser a seu p ai ou a su a m ã e , c e r ta ­ m en te m orrerá. S M as v ó s d iz e is : Qualquer que d isser a seu pai ou a su a m ã e : O que poderias ap roveitar de m im é oferta ao Senhor; e ss e de m odo a lg u m ter á de honrar

37 E m st K asem ann, Der Ruf der Freiheit ÍTübingen; M ohr, 1968), p. 29, 33 e s.

a seu p ai. 6 E a ss im , por c a u sa da v o ssa trad ição, in v a lid a stes a p a la v ra de D eu s. 7 H ipócritas! b em profetizou I s a ía s a v o sso resp eito, dizendo : 8 E ste povo honra-m e co m os láb ios : o seu cora çã o , p orém , e stá lon ge de m im . 9 M as e m v ã o m e ad oram , ensinando doutrinas que sã o p receito s de hom ens. 10 E , ch am an d o a si a m ultidão, d isselh es : Ouvi, e en ten d ei : 11 N ão é o que en tra p ela b o ca que con tam in a o h om em ; m a s o que sa i d a boca, isso é o que o con tam in a. 12 E n tãe os d iscíp u los, ap roxim an d o-se d ele, p ergu n taram -lh e: S ab es que os fa riseu s, ouvindo e s s a s p a la v ra s, se esca n d a liza ­ ram ? 13 Respondeu-U ies e le : Toda p lan ta que m eu P a i c e le stia l nã« plantou se r á arran cad a. 14 D eix a i-os; são g u ia s ceg o s; ora, se u m ceg o guiar outro ceg o , am b os cairão no b arranco. 15 E P ed ro, tom ando a p a la v ra , d isse-lh e: E xp lica -n o s e s s a p a rá ­ bola. 16 R espondeu J e su s: E sta is vós ta m ­ b ém ain d a se m en tender? 17 N ão co m p re­ en d eis que tudo o que en tra p e la b oca d esce para o ven tre, e é lan çad o fora? 18 M as o que sa i da b o ca proced e do co ra çã o ; e é isso o que con tam in a o h o m em . 19 P orq u e do c o ra ­ ção p ro ced em os m a u s p en sa m en to s, h om i­ cídios, ad u ltérios, p rostitu ição, furtos, fa l­ sos testem u n h o s e b la sfêm ia s. 20 Sã« e sta s a s c o isa s que con tam in am o h o m em ; m a s o co m er se m la v a r a s m ã o s, isso n ão o co n ta ­ m ina.

A tradição dos anciãos era a tradição oral judaica, que posteriormente formou o Talmude. Essa tradição era uma com­ pilação de materiais que se foram juntan­ do durante muitas gerações, sendo trans­ mitida oralmente de uma geração para outra, cada geração adicionando algo a ela. Este material representava a inter­ pretação rabínica da Torah, a parte mais antiga do Velho Testamento, e a sua aplicação a todos os aspectos da vida. Entre 70 d.c. e cerca de 200, havia várias coleções dessa tradição, todas compi­ ladas ao redor de seis principais assun­ tos, chamados ordens. A atribuída a Judas, o Patriarca, prevaleceu. Era co­ nhecida como Mishnah, ou segunda lei. Por volta do quarto século, ela havia se estendido, na Babilônia, ao ponto de incluir a Gemara, que eram comentários à Mishnah. Juntas, a Mishnah e a Ge209


mara constituíram o Talmude. Outra Câmara foi produzida na Palestina, mas nunca, completada. Os fariseus davam, à tradição oral, um valor tão grande como o da Lei. Diziam que Moisés recebera a lei oral no Monte Sinai, e a passara aos profetas, que, em seu turno, a haviam passado aos homens da Grande Sinagoga (Pirke Aboth, 1:1). Dessa forma, atribuíram sanção mosaica às tradições, que, na verdade, estavam ainda se desenvolvendo ao tempo de Cristo. Jesus rejeitou a autoridade dessa tradição oral, e dessa forma aüenou os fariseus. O problema de lavar as mãos antes das refeições era de interesse ritual, em vez de sanitário. Esse ato não era requerido pelo Velho Testamento, mas os fariseus o consideravam uma marca de piedade. Tocar um gentio era uma das muitas formas pela qual uma pessoa podia ficar ritualmente impura, segundo o ensina­ mento deles. Jesus rejeitou frontalmente essa distinção ritual entre puro e impuro. O termo contamina (koinoi) era usado pelos judeus para designar uma pessoa como “comum” , isto é, ritualmente desquaUficada para atos reUgiosos. Jesus acusou os fariseus de elevar a sua tradição acima do mandamento de Deus, nome que ele estava dando às Escrituras. Jesus reverteu a ordem, reconhecendo a autoridade das Escrituras, mas rejeitan­ do a tradição oral. Ele expôs a tendência dos fariseus de elevar a tradição acima das Escrituras, dando como exemplo o fato de eles não observarem a intenção do quinto dentre os Dez Mandamentos (cf. Êx. 20:12; 21:17). Ele ilustrou o ponto em questão, citando a sua regra conhecida como “corbã” , palavra ara­ maica que significa oferta ao Senhor. De acordo com esta regra, se uma pessoa pronunciasse “ corbã” em relação à sua propriedade, ela era dedicada ao Senhor. Isto podia resultar na incapacidade de um filho ajudar os seus pais, e oferecia a filhos egoístas um escape da responsa­ bilidade de ajudar os pais carentes. 210

Embora, por volta do fim do primeiro século, os rabis legislassem que uma pessoa não precisava cumprir um voto, se ele entrasse em confhto com os seus deveres para com os pais (Nedarim 9:1), esta prática era costumeira no tempo de Jesus. Mas Jesus recusou-se a colocar a religião acima do homem. Religião não deve ser confundida com Deus. A prática de corbã desonrava a Deus tanto quanto ao homem. Era “adoração de lábios” , para Deus, como fora denunciado por Isaías (29:13). Preceitos de homens, aqui, aplica-se à tradição oral judaica, embora Mateus não o apresente tão ex­ plicitamente como a expressão de M ar­ cos: “tradição de homens” (7:8). Jesus não apenas rejeitou a autoridade da tradição oral, em favor das Escritu­ ras, mas também introduziu um princí­ pio de longo alcance para a interpretação das Escrituras. Ele reconheceu a autori­ dade das Escrituras como mandamento de Deus, mas enfatizou a intenção da Lei, e não a letra da Lei. Jesus demons­ trou ser independente da Lei, mas com um diferente resultado do que os escribas haviam alcançado. A sua preocupação era cumprir a lei, levar a sua intenção à realização, e não esvaziá-la ou obscurecêla. Ele não se deteve, ao repudiar a regra farisaica acerca de mãos sem lavar, mas varreu a idéia toda de que contaminação ou purificação moral dependia de qual­ quer forma de legalismo. Ele rejeitou a idéia de que o mal está na natureza ou nas coisas, dando a entender que a raiz do mal está no coração humano (Schlat­ ter, p. 239). Ele apelou para isto como algo que o homem deve compreender (v. 17), e não como algo que pertence à sabedoria oculta ou esotérica. Ao declarar a contaminação como condição do coração, ao invés de resul­ tado do que entra pela boca, Jesus rèpudiou grande parte do alicerce do judaís­ mo farisaico (cf. Rom. 14:14; Tito 1:15). Jesus descobriu a fonte do mal no coração do homem, do qual saem maus pensa­ mentos, impulsos e sentimentos que se


podem tornar expressos exteriormente na forma de homicídios, adultérios, prosti­ tuição, furtos, falsos testemunhos e blas­ fêmias (estes modelados segundo os Dez Mandamentos). Ele recusou-se a encon­ trar o mal em termos de preocupações rituais, como, por exemplo, comer sem lavar as mãos. Negou categoricamente que um ato de comer ou beber é por si só uma coisa má. Descreveu-o como pro­ cesso fisiológico (v. 17). Foi até atrás de toda ação visível, para descobrir a origem do mal, seguindo-o até a intenção ou condição do “eu” íntimo (cf. 5:8). O coração abrange, na linguagem bíblica, sentimento e pensamento. Mateus não deixa dúvidas quanto ao grande abismo existente entre Jesus e os fariseus, com respeito à autoridade rela­ tiva das Escrituras e da tradição oral, e também com respeito à natureza do mal. Mesmo assim, Mateus não inclui a mais enfática declaração de Marcos: “Assim declarou puros todos os alimentos” (7:19). Mateus é, algumas vezes, acusado de ser exageradamente rude para com os fariseus, mas, nesta seção, ele por duas vezes suaviza a linguagem mais forte de Marcos (omitindo Marcos 7:8,19). Na verdade, Mateus mostra o conflito básico entre Jesus e os fariseus, mas não tornou maior do que era o abismo entre Jesus e os fariseus. De fato, desde os primeiros discípulos até hoje, tem sido difícil, para todos os seguidores de Jesus, aceitá-lo na plenitude da força da sua rebelião contra os preceitos de homens. Isto é dito reve­ rentemente, mas, ao romper com as crenças e práticas religiosas estabeleci­ das, Jesus foi mais radical do que qual­ quer um de seus seguidores tem sido. Até os discípulos ficaram temerosos, e Pedro achou que os ensinamentos de Jesus esta­ vam sendo confusos (v. 12 e 15). Pedro e os outros discípulos estavam ainda sem entender. Todos nós tendemos a “diluir” ou explicar evasivamente os seus ensina­ mentos. Será que também hoje em dia não tendemos a expressar em tom menor declarações tão enfáticas como Não é o

que entra pela boca que contamina o homem; mas o que sai da boca isso é o que contamina? Será que não procura­ mos fugir do seu ensino de que Do coração procedem os maus pensamen­ tos... etc.) escolhendo, pelo contrário, nos centraUzarmos em coisas mais visí­ veis? Ao falar de toda planta não plantada por Deus, pode ser que a referência ime­ diata de Jesus tenha sido à tradição oral, como é ilustrado pela lei ritual acerca da lavagem de mãos. De fato, este princípio se relaciona com qualquer um a das nos­ sas leis'religiosas, práticas ou ensinos que contradigam os mandamentos de Deus. Planta é uma figura bíblica famihar do povo de Deus. Aqui ela pode referir-se aos fariseus como os que se consideram o “cerne” da comunidade de Deus (Schni­ ewind, op. cit., p. 183; McNeile, op. cit., p. 227). Os guias cegos, contra quem ele advertia, eram os líderes reli­ giosos, que se consideravam as autorida­ des para interpretar a lei de Deus. A cegueira que ele declarou faria com que os líderes e os seus seguidores caíssem ambos no barranco, era a cegueira reli­ giosa melhor designada como legahsmo. Este legalismo não era simplesmente o de alguns extremistas de aldeia. A batalha estava sendo travada entre Jesus e os fariseus e escribas vindos de Jerusalém. 2. A Fé de uma Mulher Cananéia (15: 21-28) 21 Ora, partindo J e su s d ali, retirou-se para a s reg iõ e s de T iro e Sidom . 22 E e is que u m a m u lh er ca n a n éia , provinda d aquelas cerca n ia s, c la m a v a , dizendo: Senhor, F ilho de D a v i, te m com p aixão de m im , que m inha filha e s tá h orriv elm en te endem oninhada. 23 Contudo, e le não lh e respondeu p alavra. C hegando-se, p ois, a e le os seu s discípulos, rogavam -lh e, dizendo: D esp ed e-a , porque v em clam an d o a tr á s de n ós. 24 R espondeulh es e l e : N ão fui en viad o sen ão à s ov elh a s perdidas d a c a sa de Isr a e l. 25 E n tão v eio e la e, a d o ra n d o -o ,d isse: Senhor, socorre-m e. 26 E le, p orém , respondeu: N ão é b om tom ar o pão dos filh o s e lan çá-lo a o s cachorrinhos. 27 Ao que e la d isse : Sim , Senhor, m a s a té os

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cachorrinhos co m em d a s m ig a lh a s que ca em d a m e sa dos seu s donos. 28 E n tão r e s ­ pondeu J esu s, e d isse-lh e: Ó m u lh er, grande é a tua fé! Seja-te feito com o q u eres. E desde aq u ela hora su a filh a ficou sã .

É notável que esta história segue ime­ diatamente o relato da rejeição, expressa por Jesus, dos testes externos acerca do que é puro ou impuro. Superficialmente, esta história, que mostra pelo menos uma rejeição momentânea de uma mu­ lher cananéia, pelo fato de ela não ser judia, parece contradizer o princípio que acabara de ser exposto, isto é, de que a condição do coração, e não as coisas externas, é que determina se a pessoa está contaminada ou não. A história está também em aparente conflito com a Grande Comissão, com a qual se encerra o Evangelho (28:19). Mateus, ainda mais do que Marcos, aponta para amplas diferenças, que por fim são vencidas. Cananéia é quase ar­ caico (Marcos 7:26 identifica a mulher pela linguagem como “uma grega” , e, pelo nascimento, como “ siro-fenícia). Canaã era o nome da terra pagã dada a Israel. Esta história coloca lado a lado os reclamos de uma mulher cananéia e as ovelhas perdidas da casa de Israel. Gran­ de diferença também surge na compara­ ção de filhos e cachorrinhos. Este último não é tão indeUcado no grego como é em português, e não é, necessariamente, um termo de desprezo, pois o diminutivo é empregado para a palavra cachorros possivelmente se referindo aos animais de estimação das crianças. Assim sendo, filhos e “cachorrinhos” são relacionados, bem como distinguidos. A mulher cana­ néia não contesta a missão de Jesus às ovelhas perdidas da casa de Israel, e é ela que observa que os cachorros comem as migalhas que caem da mesa do seus donos (Marcos contém os cachorrinhos debaixo da mesa comem das “migalhas dos filhos” , como se os filhos os aUmentassem). Como resolver estes problemas? Primeiro, pode ser observado que Jesus não virou as costas ao povo judaico. 212

embora rejeitasse o legalismo farisaico e colocasse seu povo sob pesado julgamen­ to. Sua missão era às ovelhas perdidas da casa de Israel. Ele foi enviado a Israel não para recompensar pessoas retas, mas para resgatar as pessoas perdidas. Se Jesus tivesse dado as costas aos judeus e partido de imediato para os gentios, teria, quem sabe, fechado todas as portas entre si mesmo e os judeus. Desde o prin­ cípio o mundo inteiro estava incluído em sua missão, da mesma forma como as nações estavam incluídas na aliança de Deus com Abraão. Mas havia razões importantes para que ele se oferecesse “primeiramente aos judeus” e depois aos gentios (Rom. 1:16). Os judeus estavam mais bem preparados para receber e entender Jesus; poderiam tê-lo recebido e compartilhado com o mundo; e não havia barreiras de maior porte para que os gentios aceitassem um Salvador judeu, dos judeus. Pode ainda ser observado que, ao se oferecer primeiramente aos judeus, Jesus o fez de tal forma que repudiava a distin­ ção básica entre judeu e não-judeu. Esta é a conclusão da seção que acabamos de estudar. Jesus era fiel a certa prioridade (cronológica) aos judeus: “primeiramen­ te aos judeus.” Mas ele o fez de tal forma a descartar-se de distinções finais entre judeus e não-judeus. A mulher cananéia e Israel a princípio parecem ser pólos . opostos, mas, na verdade, estão reunidos nesta história. As ovelhas perdidas da casa de Israel e a cananéia que clamava por compaixão são reunidas, devido à sua necessidade comum. “Israel” e “Canaã” têm uma esperança de se unir: a confissão do que lhes falta, da sua necessidade. Há pelo menos três diferentes maneiras de abordar o problema da resposta de Jesus à mulher cananéia. Pode ser’que ele estivesse testando a sua fé, compe­ lindo-a a pôr de lado o seu orgulho ou preconceito anti-semita. O fato de ela tê-lo chamado de filho de Davi parece excluir nela esse problema, ou mostrar


que, devido à sua grande necessidade, ela ultrapassara o abismo entre judeus e não-judeus. Foi a sua grande fé que comoveu Jesus profundamente. A sua fé, como a do centurião (8:10), erguia-se em contraste com a falta dela em Israel. Uma segunda possibilidade é que Jesus tivesse usado o incidente como forma de instruir os discípulos. Eles esta­ vam mostrando impaciência para com a mulher, e rogavam-lhe que a despedisse, pois os seus clamores os perturbavam. Se eles tinham a intenção de que Jesus a curasse primeiro, não está claro. Pode ser que Jesus tivesse assumido a posição deles apenas para repudiá-la como uma repreensão a eles, e indicar a eles uma atitude melhor. Uma terceira e mais difícil abordagem é a que entende detectar uma luta inte­ rior em Jesus. A sua grande compaixão para com todas as pessoas foi por demais constatada, para ser menosprezada, embora ouçamos da sua boca palavras aparentemente ásperas, como: Não é bom (kalon significa “adequado”) dar o pão dos filhos aos cachorrinhos. Será que Jesus lutou entre o desejo de se entregar de imediato às nações do mundo, e o objetivo de dar ao seu próprio povo todas as oportunidades de recebê-lo? Voltar as costas aos judeus teria sido selar o seu destino, e os gentios ainda não tinham preparação formada para recebê-lo e proclamá-lo de maneira mais significa­ tiva. Até hoje, lemos um Novo Testa­ mento judaico (com a possível exceção de Lucas e Atos). Foram judeus os que em primeiro lugar receberam, compreende­ ram melhor e proclamaram Jesus. Mateus demonstra que Jesus não rejei­ tou a sua nação, embora ela por fim o tivesse rejeitado. Ele também mostra que Jesus se ofereceu aos judeus numa base que desacreditava toda diferença essen­ cial entre judeus e não-judeus. O Senhor ressurrecto comissionou os seus discípu­ los para levarem todas as nações ao dis­ cipulado. Seja qual for o significado da hesitação e das palavras de Jesus, perma­

nece o fato de que ele recomendou a fé da mulher e curou a sua filha. Israel negouo, nas ele não negou Israel. Com o seu pão, ele alimentou tanto os filhos como os “cachorrinhos” (Schlatter, op. cit., p. 245). Embora a restrição a Israel, nesta pas­ sagem e em 10:5 e s., pareça ser total­ mente oposta à comissão mundial de 28:19, èlas estão correlatas no Evangelho d© Mateus. Os que são comissionados para fazer discípulos de todas as nações têm solo firme debaixo dos seus pés. Jesus expressou fé em Israel, e a rejeição de Jesus, por parte de Israel, não podia ser desculpada com base em uma missão gentílica antecipada. Mais tarde, uma igreja gentílica pôde proclamar como Cristo alguém que era “filho de Davi, filho de Abraão” e que expressara leal­ dade ao seu povo (cf. Hummel, p. 138). 3. Multidões Curadas e Alimentadas (15:29-39) Z» P artin d o J esu s d a li, cliegou a « p é do m ar d a G a liléia ; e , subindo ao m on te, se n ­ tou-se a li. 30 E v ie r a m a e le gra n d es m u l­ tid ões, trazendo con sigo co x o s, a leijad os, ceg o s, m u d os, e outros m u ito s, e lhos p u se ­ ra m ao s p é s; e e le os curou; 31 d e m odo que a m u ltid ão se a d m ira v a , vendo m udos a falar, a leija d o s a fica r sã o s, co x o s a a n d ar, e c eg o s a v er; e g lo rifica v a m a o D eu s de Isra el. SZ J esu s cham ou os seu s distápulos e d is s e : Tenho co m p a ix ã o da m u ltid ão, por que já fa z três d ia s que e le s e stã o com igo e não tê m o que co m er; e não quero desp ed i los e m jeju m , p ara que n ão d e sfa le ç a m no cam inho. 33 D issera m -lh e os discípulos D onde n os viria m , num deserto , ta n to s p ã es para fa rta r tam an h a m ultidão? 34 P ergu n tou-lhes J e su s: Q uantos p ã e s ten d es? E r es ponderam : S ete, e a lg u n s p eixin h os. 3S E tendo e le ordenado ao povo que s e se n ta sse no chão, 36 tom ou os se te p ã e s e o s p e ix es, e havendo dado g r a ç a s, partiu-os, e os entre g a v a a o s d iscíp u los, e o s discípulos à m u lti dão. 37 A ssim todos co m era m , e se fa rta ra m ; e do que sobejou dos p ed a ço s lev a n ta ra m se te a lco fa s c h e ia s. 38 Ora, o s que tinham com ido eram quatro m il hom ens, a lé m de m u lh eres e cria n ç a s. 39 E , havendo J e su s desp ed id o a m u ltid ão, entrou no bar CO, e foi p a ra os confins de M agad ã.

Como paralelo do relato de Marcos, da cura de um surdo mudo (7:31-37), M a­ 213


teus apresenta uma declaração geral e sumária, descrevendo um ministério de cura às multidões, algures nas proximi­ dades do Mar da Galiléia. Possivelmen­ te este ministério foi aos gentios, como o fora a alimentação dos quatro mil. As multidões louvaram o Deus de Israel. Isto pode referir-se ao louvor expresso pelos judeus, porém mais provavelmente é louvor de gentios ao Deus de Israel. A alimentação de quatro mil homens é expressa como um ministério de com­ paixão. Jesus não queria mandar embora pessoas famintas, para que não desfale­ çam. Algumas pessoas consideram esta passagem como variante ou dublagem da alimentação de cinco mil pessoas. Tanto Mateus como Marcos consideram distin­ tas as duas multiplicações de pães e peixes (16:9 e s.; Mar. 8:18-20). Em muitos detalhes, as duas narrativas dife­ rem: número de pães e peixes, tipos de cestas (sphuris, uma cesta de pescadores flexível e trançada, para carregar peixes ou frutas, é a usada aqui) e o número de pessoas alimentadas. Provavelmente, as quatro mil pessoas eram gentias, sendo que os cinco mil haviam sido judeus. Se assim é, este é um ministério aos gentios em paralelo ao outro, aos judeus. Esta interpretação seria um a tentativa de achar em Jesus uma preocupação por todo o mundo, embora ele estivesse concentrando o seu ministério nas “ovelhas perdidas da casa de Israel” . Mateus cita Magadã, enquanto M ar­ cos grafa “Dalmanuta” (8:10). Cada um deles se refere à região da cidade mencio­ nada, e não à cidade propriamente dita. Nenhuma das duas cidades pode ser identificada. Alguns manuscritos poste­ riores citam “Magdala” , cidade bem co­ nhecida, do lado oeste do lago. Seja qual for a cidade, a região da qual ele aden­ trou, a alimentação das quatro mil pes­ soas ocorreu no lado leste, possivelmente na gentílica Decápolis (cf. Mar. 7:31). A localização das duas multiplicações de pães foi praticamente a mesma, porém os 214

cinco mil alimentados eram galileus que estavam seguindo a Jesus. 4. Os Discípulos Advertidos Quanto ao “Fermento” dos Fariseus e Saduceus (16:1-12) 1 E n tão ch eg a ra m a e le ò s fa riseu s e os sad u ceu s e, p ara o ex p erim en ta rem , p ed i­ ram -lhe que lh es m o str a sse a lg u m sin a l do céu. S M as e le respondeu, e d isse-lh es: Ao ca ir da tard e, d izeis: H a v erá b om tem po, IKtrque o céu e stá rubro. 3 £ p e la m an h ã: H oje h a v erá tem p esta d e, porque o céu e stá de um v erm elh o som brio. Ora, sa b e is d is­ cernir o a sp ecto do céu , e não p od eis d isce r ­ nir os sin a is dos tem p os? 4 U m a g era çã o m á e ad ú ltera p ed e u m sin a l, e nenhum sin a l lhe se rá dado, sen ã« o de J o n a s. £ , deixando-os, retirou-se. S Quando os discípulos p a ssa ra m p a ra o outro lad o, e sq u ecera m -se de lev a r pão. 6 £ J e su s lh es d is s e : O lhai, e aca u tela i-v o s do ferm en to dos fa riseu s e dos sad u ceu s. 7 P elo que e le s a rra zo a v a m en tre si, d izen ­ do : É porque não trou xem os pão. 8 £ J e su s, p ercebendo isso , d isse : P o r que arrazoais entre vó s por não terd es pão, h om en s de pou­ c a fé? 9 N ão co m p reen d eis ain d a , n em vos lem b ra is dos cin co p ã e s p a ra os cin co mU, e de quantos ce sto s lev a n ta ste s? 10 N em dos se te p ã e s p a ra o s quatro m il, e d e q uantas a lco fa s lev a n ta ste s? 11 Como n ão co m p re­ en d eis que não v o s fa le i a resp eito d e p ã«s? M as gu ard ai-vos do ferm en to d os fa r ise u s e dos sa d u ceu s. 13 E n tã o en ten d eram que nã« d issera que se g u a rd a ssem do ferm en to dos p ã es, m a s d a doutrina d os fa r ise u s e dos sad u ceu s.

Mateus junta os fariseus e saduceus cinco vezes (3:7; 16:1,6,11,12; cf. 22: 34). Para ele, eles representavam os mes­ tres e líderes de Israel, e ele tinha muito pouco interesse em fazer distinções entre eles (Walker, p .13). Marcos menciona “fariseus” e “Herodes” (8:15) onde M a­ teus grafa fariseus e saduceus. Marcos e Lucas mencionam os saduceus apenas uma vez cada um (Mar. 12:18; Luc. 20:27). Os versículos 2b e 3 não são encontra­ dos nos mais velhos manuscritos em grego, siiíaco, còptico e armênio. Tam ­ bém foram omitidos por Orígenes e em manuscritos conhecidos de Jerônimo.


Parece que esses versículos foram adicio­ nados por famílias de textos Ocidentais, aparentem ente m odelados segundo Lucas 12:54-56. O significado desses versículos é suficientemente claro. As pessoas que são capazes de prever as condições do tempo mediante a cor do céu òu a direção do vento, estranhamente são cegás para os sinais do julgamento iminente sobre a sua nação. Os sinais dos tempos possivelmente alude à crescente influência dos zelotes, às crescentes ten­ sões com Roma, e à indisposição dos judeus, como nação, em ouvir o seu ver­ dadeiro libertador. Em 70 d.C. a nação, tendo seguido os seus falsos “ Messias” , foi esmagada pelos romanos. Contudo, a evidência textual testifica contra a origi­ nalidade desses versículos, nesse ponto. Os fariseus e saduceus, para provar Jesus, pediram um sinal do céu. O que eles pediam de Jesus era algum milagre tão poderoso que os compelisse à fé. Jesus recusou-se a fazer tal demonstra­ ção. O único sinal que ele ofereceu a uma geração má e adúltera foi o sinal de Jonas. Adúltero é um termo familiar ao Velho Testamento, para designar a infi­ delidade a Deus. O sinal de Jonas já foi interpretado (cf. 12:38-42). Jonas pregou julgamento, e os ninivitas se arrepende­ ram. A geração de Jesus tinha maiores privilégios do que os ninivitas, e por isso seriam colocados sob juízo mais severo. Esta advertência é duplamente atestada na tradição do evangelho, sendo tirada de Marcos e Q; e aparece não apenas em Marcos 8:11-13 e Lucas 11:29, mas duas vezes em Mateus (12:39; 16:4). Ê a maior ironia da história que Jesus, que tentou tão intensamente fazer voltar a sua nação do curso que a levaria a uma colisão suicida com Roma, e que repetidamente rejeitou o papel de Messias político, ti­ vesse sido crucificado sob a acusação de rebelião; e a nação, tendo seguido os seus falsos “ messias” , continuasse o seu curso para a colisão e a ruína. Os versículos 5-12 expressam não apenas a ameaça da doutrina dos fari­

seus e saduceus, mas também a insensi­ bilidade dos discípulos, quando Jesus procurou ensiná-los. Fermento tem o simbolismo bíblico normal aqui, simboüzando o mal ou a corrupção. Os discí­ pulos haviam-se esquecido de providen­ ciar pão ao entrarem no barco, para atravessar o lago. Quando Jesus os adver­ tiu contra o fermento dos fariseus e dos saduceus, eles entenderam literalmente o que ele pretendera que fosse figurado. Eles entenderam que Jesus os estava advertindo contra o pão literal dos seus oponentes. Jesus havia-se referido ao ensino deles (Lucas 12:1 o chama de “hipocrisia”). Os versículos 8-10 podem consistir em uma repreensão dupla contra os dis­ cípulos. Eles são chamados de homens de pouca fé, pois deviam ter aprendido, das duas milagrosas multiplicações de pães, que não precisavam ter ansiedade nenhu­ ma acerca de pão. Mas a verdadeira ênfase recai sobre o perigo do ensino dos fariseus e saduceus. Os milagres de aümentação haviam sido realizados não apenas para nutrir corpos, mas para ensinar o valor do seu simbolismo. Eles haviam sido evidências de que o ensino de Jesus era adequado, e que eles preci­ savam do ensino desses falsos líderes (Johnson, p. 447).

X. Cristo, Sua Igreja e Sua Cruz (16 :1 3 — 17:27) Os temas que pertencem a esta seção são os temas centrais do evangelho: Cris­ to, a sua Igreja e a sua cruz. A confissão de Pedro acerca de Jesus como o Cristo, e a resposta de Jesus, em relação à criação de sua Igreja e da cruz como porta para o triunfo para si mesmo e para a sua Igreja marcam um ponto decisivo em todos os três Sinópticos. Em suma, o evangelho é a proclamação do que Deus fez na pessoa de Jesus Cristo, tendo o seu apogeu na sua morte e ressurreição, e personifica­ ção no povo que ele criou e está criando: a Igreja. 215


-®VV' Gristo e Sua Igreja (16:13-20) 13 Tendo J esu s chegado à s reg iõ es de C esaréia de F ilip e, interrogou o s seu s d is c i­ pulos, d izen d o: Quem d izem os hom en s ser o Ellho do hom em ? 14 R esp on d eram e l e s : U ns dizem que é João, o B atista ; outros, E lia s; e outros, J e rem ia s, ou a lg u m dos profetas. 15 M as vós, perguntou-lhes J esu s, quem dizeis que eu sou? 16 R espondeu-lhe Sim ão P e d r o ; Tu é s o C risto, o F ilh o do D eu s vivo. 17 D isse-lh e J esu s: B em -aventurado é s tu, Sim ão B arjon as, porque não foi c a m e e sangue quem to revelou, m a s m eu P a i, que está nos céu s. 18 P o is tam b ém eu te digo que tu és P ed ro , e sobre e sta .g e d r a edifica^^ ^ e a s por ire*válecerao contra e la ; 19 darbte ^ei a s ch a v es do rein g dos, c é u s ; o qüe l i b r e s , pois', na Iterra, se r a U g ä S o n o s céu s, e o que d e slig a ­ res na terra se r á desligad o n os céu s. 20 E ntão ordenou a o s discípulos que a ninguém d isse sse m que e le era o Cristo.

O Cristo (v. 13-17) — A confissão de que Jesus era o Cristo aconteceu nas regiões de Cesaréia de Filipe, e não na própria cidade. Este é o ponto mais ao norte que se sabe Jesus tenha alcançado, com a possível exceção da sua retirada para as regiões de Tiro e de Sidom (cf. 15:21). Cesaréia de Filipe não deve ser confundida com a cidade costeira de Cesaréia. A antiga Panéias (moderna Banias) fora refundada pelo Tetrarca Herodes Filipe, e chamada de Cesaréia, em honra ao Imperador César Tibério. Ela passou a ter nome duplo, para evitar confusão com outras cidades chamadas Cesaréia. Ela se localizava acima do Mar da Galiléia, em uma das fontes do Jor­ dão, e havia recebido o seu nome anterior de Pã, deus grego. Havia muitas opiniões acerca de Jesus, variando desde intenso temor e ódio, até amor e adoração. A primeira pergunta de Jesus suscitou algumas das opiniões correntes. Por muitos, Jesud era visto como um profeta. Alguns o considera­ vam como João, o Batista ressuscitado, ou como um segundo João Batista (cf. 14:1,2). Elias não fora apenas um grande profeta, mas esperava-se que ele fosse enviado antes do grande dia do juízo, num ministério de reconciliação (Mal. 216

4:5 e s.). Jeremias não é identificado com Jesus em outro lugar; nos Evangelhos, só Mateus o menciona (2:17; 27:9). Algum dos profetas é indefinido. Alguns pensa­ vam que João Batista fosse “o profeta” , possivelmente o profeta de Deuteronô­ mio 18:15 (cf. João 1:21), mas não se tem em vista essa interpretação aqui. Embora Jesus fosse visto como desem­ penhando 0 papel de um profeta e tivesse aceitado essa designação (cf. 13:57)„ este termo não era adequado. Jesus não podia limitar-se a esse ministério, e ele mesmo se considerava numa posição mais eleva­ da. Ele se via acima de Moisés, acima de João e acima de todos os profetas. Isto é expresso não apenas no que ele disse, mas especialmente nas promessas que fez, nas exigências que fez (por exemplo, a de se amá-lo acima dos pais, esposa ou filhos, e a de se deixar tudo para seguilo) e na própria maneira em que eie se moveu entoe os homens. C kasemáng/está inteiramente certo, ao dizer: “A única categoria que faz justiça às suas reivindicações (bem independen­ temente de se ele a usou ou a requereu dos outros) é aquela em que os discípulos o colocaram, isto é, a de Messias” (Es­ says, p. 38). As antíteses “eu, porém, vos digo” do Sermão da Montanha (5:2148); o fato de se colocar acima de Moisés, ao reinterpretar a lei (15:10-20; Mar. 7:19); e o fato de ele ter assumido a mesma autoridade que Deus tem sobre o sábado (12:8; João 5:17) são evidências ' de que Jesus se considerava com a auto­ ridade que só pertence a Deus. Uma comparação dos Sinópticos (16:16; Mar. 8:29; Luc. 9:20) demonstra que não havia nenhuma formulação fixa, autorizada, da confissão de Pedro em Cesaréia de Filipe. Mas “o Cristo” , “o Cristo de Deus” e o Cristo, o Filho do Deus vivo, todas estas expressões apon­ tam para o mesmo reconhecimento bási­ co de quem era Jesus. Este reconheci­ mento básico, e não a concordância ver­ bal, é o importante. O próprio fato de que, entre as acusações feitas contra


Jesus, em seu julgamento, estava a de ele sível, e não digno de confiança (cf. 14: ser pretendente ao trono judaico (John­ 28-31; 16:22 e s.; 26:33-35; 26:69-75; son, p. 448) é uma evidência irrefutável Gál. 2:11-14). Será que Jesus o chamava de que, durante a sua vida, Jesus fora de “pedra” c6ín'^umã ^ ro iiiã ^ T f^ õiã? considerado, pelos homens, em termos “M Sfprõvãviim ente éra^um noniê'3ãdomessiânicos, embora não foss.e entendido como uma promessa do que ele iria se nem por amigos nem por inimigos. Jesus tornar, e nao do-jous. ele era. Ele se era 'o aquele que Deus ungira, ^ tornou um baluarte de força, especial­ para reinar, p termo foiãceito põrJesusTl, mente diante da perseguição física (cf. rinãs era inadequado e requeria uma i At. 3:11 — 4:22). interpretação melhor, porque era enten­ A relação de Pedro com a Igreja é dido de maneiras diferentes por judeus e grandemente controvertida. Algum iogo romanos. __________ de palavra com a p a l a v r a pMfa:a-é.nhmn. Pedro é chamado Simão Baqonas. No texto grego, como em português, Simão era o seu nome judaico. Baijonas aparecem duas formas em tu és Pedro significa “filho de Jonas” . Em João 1:42, (Petros), e sobre esta pedra (petra). ele é “ Simão, filho de João” . Mas a Ambas as palavras significam “rocha” . compreensão de Simão não proviera de sêMõ~'aTõrmrinã:sculina7~^^ apro­ seu pai terreno, ou de came e sangue, priada para se referir a um homem. A isto é, da natureza humana. Era uma forma feminina, petra. CiarresrLonde à revelação de Deus, o Pai Celestial de forma feminina ^ o aramaico k e g ^ . É Jesus, e não uma descoberta da percep­ wãs£^^clfto!airOÍÍusTenhrTãladó"enr ção humana (cf. 11:25-27). aramaico. e não em grego. Entre as eviA igreja (v. 18-20) — Esta é, provaveld ê ííc ía s ^ e demonstram esta declaração mente, a passagem mãis contrcvgrtíaá, está o paralelo de João 1:42: “Tu és ~faa" BíCTia, entre os cnstaos. A própria Simão, filho de João; tu serás chamado 'atihôslêrã“ de controvérsia é uma das Cefas (que quer dizer Pedro).” Tanto principais barreiras pará a sua interpre­ quanto se conhece, nenhum jogo de pala­ tação adequada. Um grupo confessional vras era possível com “rocha” , em ara­ diz muita coisa da passagemalemclo que maico, em que uma só palavra servisse ela realmente transmite, e isto tenta para Petros e petra. A declaracão araoutros a descobrirem coisas de menos maica teria sido: }“Tu és Kepha esoBre nela., Nenhum intérprete pode jactar-se èSláíép^ de 1er esta passagem sem preconceüõT ^ antecedentes a esta pedra, sobre a ^PïïiT'ô^êïïvîgâ^ ’^ â o e^ m e n te uma / qual Cristo prometeu edificar a sua Igre­ 1actâncii~ fãisa^ maF^senã^uma forma w ja, não podem ser demonstrados cabal­ 'errada dè” abordar esta passagem, se mente. Há possibilidades de que fosse ela possíveL ÃTBiblia, alias7 naS^brê“os seus o próprio Pedro, a fé de Pedro, a confis-_; segredos à “ciência pura” , mas apenas à 'sIoTdB Pgdrõro próprio Cristo, ou .um á' fé devota. Mas a devoção da fé requer a cõmbinà^ão "deTãtores. Superficialmendisciplina dos métodos científicos. E, teT a referência parecè ser ao próprio principalmente, a pessoa deve desejar Pedro; mas, se ele for a pedra, é estranho ouvir honestamente a intenção das Escri­ que o impessoal esta pedra venha logo a turas, se for para ela ser ouvida. seguir do pessoal tu és. Não é apenas Pedro é utn nome grego, de que vem a impossível isolar precisamente o que nossa {J^pedrã^ em português, e corres­ Jesus queria dizer, mas pode ser que ponde ao aramaico “Cefas” (cf. João estejamos seguindo a direção errada, se 1:42). Era um apelido, dado a Pedrojixor êstreitaÍTOOT j Sfin ^ o —da—passagem, ~ã Jesus. Pedro não era semelhante à fro c l^ aíjenár^um?^coisa. Na resposta à sua < Muitas vezes ele era impulsivo, imprevi- { primeira pergunta, quanto a quem os 217


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homens diziam que ele era, Jesus não foi mencionado em primeiro lugar por havia encontrado nada sobre que edifi­ Paulo (I Cor. 15:5). Ele convocou o gru­ car. Na resposta de Pedro, ele encontrara po de cerca de cento e vinte pessoas em aquiio sõBre' que podia edificar a sua Jerusalém, depois da ascenção de Cristo Igre|£lTJm”hornem comum, nada mais i (At. 1:15). Ele pregou o sermão no dia de Pentecostes (At. 2:14). "do que parecido com pedra, iluminado pelo Espírito de Deus, reconhecera e Por outro lado, não há indicações de , confessara Jesus como o Cristo, o Filho qu'? ~Pedro tiygse alguma autpridade:::^do Deus vivo. Em contraste com aqueles s in ^ la r entre os doze ou entre os primi- ^ que confundiam Jesus com algum pro­ TivòV cristãos. ETè lilò "enviou ' oú to s feta, Pedro oj;ecqiyie^c^u como o Cristo, ''ãpostÒTòs^ tnas foi enviado por eles (At. o F iH w "3^eus. Jesus não é jljãõTlEííãs, 8:14). Tiago logo emergiu como o líder Jerelniasr”nem'* ninguém, a não ser ele da igreja em Jerusalém (At. 21:18). mesmo. Ele também aceitou Pedro como Paulo pôde repreender abertamente a era, sem confundi-lo com nenhum outro. Pedro, na igreja em Antioouia (Gál. Tu és o Cristo... tu és Pedro. Sobre isto ^2:11). I Não há "nenhuma partícula de Jesus pôde edificar a sua Igreja, cada um (f^^õdencia bíblica de que Pedro foi feito dedicado ao outro, cada um aceito pelo ^bispo sobre toda a Igreja, ou que quai­ outro. s q u e r ofício especial foi transmitido dele ______________ Embora ( P e d ^ fosse um indivíduo \ para outra pessoa. especial, e um apóstolo e discípulo pe­ ‘'^"E m bora haja tradições literári^, e arqueológicas que ligam os nomei^ de culiar, pode ser tam^ m que ele fos^e Pedro e Paulo com a Igreja Romana, no visto por Mateus"comolipo e f i ^ r a dòs caso de Pedro, estas tradições não se remontam à época posterior ao fim do segundo século; e, mesmo assim, elas se dada por Marcos, com adicional tradição relacionam conjuntamente a Paulo e petrina, peculiar a ele mesmo (cf. 14:28Pedro. 38 O significado de nossa passa31; 15:15; 17:24-27; 18:21), mas não tem gem em relação ~ã~Pedro não tem refeinteresse biográfico especial em Pedro. ■rêriciã~valigã~com respeito às reivindicaEB''^p:o“é-tiem"’‘'pró-petrinp^ ngnL a^ pètrino. Jvláteiis" apresenta os aspectos çõés fêfíãrp èl^ íg reja Romana. É pena positivos e negativos de Pedro, mostran­ "que esta declaração, umá^^HClusão ines­ capável de um estudo competente bíblico do não apenas a sua inconsistência, mas considerando-o como tipo e figura dos e histórico, precise ser feita em um con­ texto de controvérsia. discípulos, com todas as contradições que eles tinham, fator que foi e é um Embora Pedro e todos os apóstolc problema perene dentro da Igreja (cf. C,(Ef. 2:20; Apoc. 21:14) fizessem parte, Strecker, p. 198-206). /-em certo sentido, do alicerce sobre o qual /fL Igreja foi edificada, o Novo Testamento ( A compreensão mais natural da pas! nunca admite esta hipótese de maneira ( ^ vp.r lilp iim a im portância especial ligada a Pedro (veja Broadus, p. 355-61,'“ ;absoluta. O próprio Jesus é “a rocha’ para a definição desta posicão). O Novo ;ísobre que^aTg^^JJonstrul^ãTTsfo nãí Testamento claramente dá a Pedro certa tííecessita H^Ç^rovas^^e^lêxto^. O novo testamento é acerca de Jesus, e não acer­ ^im azia. Em todas as hstas de apóstoca de Pedro. Poderia haver um a'igreja Iõs7ele é mencionado em primeiro lugar. sem Pedro, mas não haveria nenhuma Ele sempre participou do círculo mais íntimo de discípulos, ao redor de Jesus. 38 P ara m elhor estudo das tradições ligando Pedro com Foi ele quem fez a confissão em Cesaréia Roma, cf. O scar C ullm ann, Peter: Disciple, A p o stle,. de Filipe. Ele estava entre as pessoas a Martyr, tr. F.V . Filson (Philadelphia: W estm inster, quem o Cristo ressuscitado apareceu, e 1953). 218


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mas também que “o Jesus histórico não sem Cristo. Pedro não é o cabeça nem separou um grupo como um pugilo o fundamentÕÜa Igreja. Jesus a fundou; (Shar) dos eleitos, à parte do povo judeu; êfa permanece de pe~õu cai com ele; e, ele chamou toda a nação” (p. 49 e s.). além disso, ele é o seu Senhor vivo, e Ele repetidamente iguala a Igreja com sua cabeça. uma “ organização” . Ë bem claro que A igreja que Jesus prometeu edificar é Jesus não organizou uma igreja, mas a suajgreja. Igreja é tradução do grego chamou e criou um povo de Deus, conheelfklesia, que, por seu turno, é tradução cido como igreja e por outros termos. do termo hebraico qahal, na LXX. Tanto a palavra grega como a hebraica desig­ Corretamente. Conzelmann observou que Jesus tinha seguidores, e que eles não nam literalmente uma convocação. eram organizados. Ele também é correto Qahal pode designar Israel como um no seu ponto de vista de que “os Doze” todo, ou reunido como uma congrega­ representavam os reclamos de^lesus^sia;^ ção, e ekklesia pode designar a Igreja de forma universal, ou como uma assem­ 'bre todo o Israel. M as i s t o ^ o garante a conclusão de~~que~lêsuriiãõ^ criou uina bléia local. a referência é obviamente a uma assembléia local, reu­ Igreja. Ele não procurõíTganhar todo o nida para disciplinar os seus membros. Í^Isrãél, e não há evidências de que ele Em a referência é, da mesma •tenha organizado algo; mas há evidên­ cias irrefutáveis do seu propósito primor­ rormãclara, à assembléia universal. Esta dial de chamar a si pessoas, cuja afinipassagem perderia toda validez, se fosse ■ restringida a uma igreja local. Jesus não )dade a ele e de uns aos outros fossem d e ; fé e de espírito, e não de carne e naciona- < estava em Jerusalém, e, sem dúvida lidade. Esta é .a Igreja em seu sentido' . também não em Roma, quando falo primário. A sua existência está ligada à essas palavras. Nenhuma assembléia local da região de Cesaréia de Filipe ou y ressurreição, sem a qual, provavelmente, nenhuma igreja teria sobrevivido. Mas os" / 'd ê le rusãlém sobrevive / de Jesus. A Igreia da qual ele falou sobre^ seus primórdios centralizaram-se ao ^ viveu, e é indestrutível até pelas portas do redor do “Jesus histórico” , e não logo de princípio ao redor do Cristo ressuscitado. Tiades Não é apenas uma confusão argumen­ ^ O fato de que a palavra igreja apare apenas aqui e em 18:17, em Mateus, e tar que “Jesus esperava o reino de Deus... não aparece em nenhum dos outros mas veio a Igreja” (Loisy). Jesus não Evangelhos, leva alguns intérpretes a apenas esperava o reino de Deus, como concluir que Jésus não pretendia criar a também declarou a sua chegada._|íãQera remo ^ Ig re jã'é qüiT slãpãssãgênrnlo remonfã o reino o uaJgr^a^jp^^^^jnb^ aos tempos de Jesus. A evidência dé^que veío"ennesusC ri?f^^ ele criou a Igreja. Portas do hades é literalmente o que \ Jesus desejava criar o que conhecemos como a Igreja vai muito além da palavra^ diz o original grego. Hades (como Sheol) igreja,. Este é apenas um dos muitos era um termo que designava o reino dos mortos (cf. Is. 38:10). Jesi^^|tova^gara té fmos^ empregados-em--er'T?ÕTO “Testa. e muitos dos seus seguidores Ihento paraTesignãr~õ'"^ sotrer oó martírio. Ma§.^a rnorte, encontrado no V^elho Testamento e re- ifíam soírer eõnstituído j3or'JeSüs7 esus chamou as para__o^Iestre e_os discípulos, por cruci^“ pessoas a si mèsmo, e as ligou com laços íicacão ou__causas naTiIraisriiaB''gogêría de amor, confiança e dedicação. Elas ^encefaJgr^jaTSeTesus tivesse cedido às foram ligadas por uma vida, uma tarefa e pressões paraTse tornar um Messias políiim destino comuns. tico, o que ele tivesse edificado seria tão 'ÇConzélm an^argum enta não apenas vulnerável como os reinos de Davi e dos com a rara”ocorrência da palavra igreja, Macabeus. Ele veio para criar uma igreja'

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sob o reinado de Deus. Ele iria edificar, com“ã cruz, e não com a espada; dando vida, e não tirando-a. A sua Igreja seria indestrutível para todo o sempre. Betz^Was Wissen Wir von Jesus? p738J encontra corretamente os^nteçe^ sníes desta tJassaeem em Isaías 28: ^oyef rgufhi^ ò s ."go v e m a t ^ 'Se Jerusalém sê jactavam d e q u e inham feito um pacto com a morte' morte” e um “acordo com o Sheol” . Eles pensavam aue estavam assegurados contra.« mnrtp Mas ojprqfeta de D ^ s declarou que “o y5sso’pac!o^ginã'*moTO será anulado’ e “a vossa aliança com o Sheol não subsis­ tirá” . Isto é, eles seriam derrotados e mortos. Contra essa falsa segurança dos 'or^lhósos gõveníãhtes de“ Témsalém levantava-se a certeza de que o Senhor Deus estava pondo “em Sião, como ali-" cerce, uma pedraT^uma péãra pipyada, funoSnento* ” T” '^ TòT^I ^ ^ e ’Turigimênto 'pòdé-se conffar. Este fundamento seria verdadeiro, pois, ao construí-lo, Deus faria “ o juízo a linha para medir, e a justiça o prumo” (v. 17). Esta passagem parece que estava cla­ ramente na mente de Jesus quando e le ' falou da criação da Igreja, edificada' sobre um firme alicerce, e impossível de ser destruída pela morte ou pelo H ades' Sheol). A passagem em Isaías é linda­ mente poética, para ser levada em toda a seriedade, mas não com literalismo cru. (As palavras atribuídas a Jesus também £ têm simbolismo poético, para serem leva/ das totalmente a sério, mas não são conspurcadas pelo literalismo cru, e cer'"\^>tamente não devem ser levadas a servir a nenhum grupo confessional, em seu egoísmo e seus reclamos ambiciosos. Promessas, como as contidas em Isaías 28:15-18 e Mateus 16:18-20, são cumpri­ das tão-somente em Jesus. As chames do reino simbolizam autorid a d e /A q u i^ las são dadas a PedroT^ m 1 S ! ^ ^ ã o dadas _a. todos os discípulos os poderes para ligar e desligar7^ ^ ^ ^ i7 a aplicação parece relacionar-se pnmor220

dialmente ao ensino; no (cap ítu lo lS J à disciplina eclesiástica. L i^ r ^ desligar eram termos rabínicos para expressar proibição e permissão (cf. Terumoth 5:4). ^ Será ligado (estai dedemenon) e será desligado (estai lelumenon) podem não ser precisamente as traduções dos tem­ pos de verbo nessa passagem. Em cada caso o tempo grego é uma forma peri­ frástica do futuro perfeito passivo. Pos­ sivelmente devam ser traduzidas “ierá sid o J[ig a^ ” e “te r á ^ d o ^ ^ e s lig a d ^ em bõram uitos granfflcõs' cliamanam isto de pedantismo. Se a força do futuro perfeito se exerce aqui, o significado é de certa forma alterado. Sugere não gue a ação na terra seráLr a tif íc ^ S n o c e u /n S ^ q ú e ^l^ éjjrev isla^ liõ ^ u T ^ ^ ^m o ü tras palavras, d ê sla T ^ m a ° ã “'^ T a segue o céu, e não ao contrário. A aaveríência para que os discípulos a ninguém dissessem que Jesus é o Cristo está de acordo com a decisão de Jesus de evitar assumir o papel de um rei popular, político. Visto que o papel do Messias era entendido de diferentes maneiras, e es­ pecialmente visto que muitos judeus e romanos viam nele implicações políticas, Jesus desencorajava o uso aberto do termo. Ele o,aceitava, mas somente da maneira como ele o interpretava. 2. Jesus Prediz Sua Morte e Ressurreição (16:21-28) 31 D esd e en tão co m eço u f^ e su s C ris@ a m ostrar a o s se u s d iscíp u los qi£& era n e c e s ­ sário que e le fo sse a J eru sa lém , que paaê^ ro sse m u lta s co isa s dos a n ciã o s, dos p rin ci­ p a is sa cerd o tes, e dos e scrib a s, que fo sse m orto, e que ao terceiro dia r e ssu sc ita sse . 32 E (P ed ro ,'^ m a n d o -o à p arte, com eçou a r e p r^ n d é -lo , dizendo: T enha D eu s co m ­ p aixão de ti, Senhor; is so ^ m odo n enhum te a co n tecerá . 23 E le , p orém , voltando-se, d isse a P ed ro : P a r a tr á s d e m im , Satanás, que m e se r v e s d e escãria a lo; porque nao e stá s p ensando n a s c o isa s aue sã o de D eu s, m asj sim , n a s que sã o dos hom en s. 34 EntãÕ^^díssê“9esÚsraos se u s discipulos: Se a lg u ém quer v ir ap ó s m im , n eg u e-se a si m esm o , to m e a su a c m z e sig a -m e; 25 pois, q uem q u iser sa lv a r a su a vid a , perdê-la-á;


m as qu em p erd er a su a vid a por am or de » m im , achá-Ia-á. 26 P o is que a p r o v e i t a ao ^ hom em se ganhar o m undo lntéirõ~é peYder a sim jd^aZ-^ou que dará o h o m em e m troca “SãJsua vida? 27 P orque o F ilh o do h om em há de vir n a glória de seu “Pai, com os seu s anjos; e en faorefrib u trá a ca d a um seejm d a as su a s obras. 28 E m verd ad e vos digo, álguns dos que aqui e stã o de m odo nenhum provarão a m orte a té que v e ja m v ir o F ilho do h om em no seu reino.

A pergunta feita e respondida em Cesaréia de Filipe se relacionava com a identidade de Jesus. Tendo aceito a con­ fissão dos discípulos, de que ele era o Cristo, Jesus avançou para o estágio se­ guinte, indicando a maneira como ele e os seus deveriam agir. Mateus registra que Jesus por três vezes declarou que seria o caminho da cruz, o caminho da completa auto-negação (ou abnegação) e auto-entrega (cf. também 17:22 e s.; 20:18 e s.). O mais flagrante paradoxo do evangelho é apresentado aqui. A pessoa salva a sua vida tão-somente ao perdê-la. Vive apenas ao morrer. O único triunfo verdadeiro é através da cruz. Paradoxal, mente, a cruz é uma forma de morte, mas, para Jesus e os seus seguidores, é a forma de vida através da morte. Jesus começou a mostrar que ele ir a Jerusalém, para sofrer e m oner, era algo que precisava jazer. Era uma necessida­ de sem liberdade, não devido a alguma compulsão externa, mas interna. Movido por amor redentor, isto era algo que ele “tinha que fazer” . Não era um destino inescapável, pois a porta de escape per­ maneceu aberta até o fim (cf. 26:53), mas a sua completa devoção às necessi­ dades humanas e à vontade do Pai o levou avante até a cruz e à glória que se lhe seguiu. Jesus considerava Jerusalém, o centro do mundo judaico, como a cidade onde ele deveria oferecer-se pela sua nação. AU ele conclamaria a sua nação a uma 39 Cf. E d u a rd Lohse, Die Geschichte des Leidens and Sterbens Jesus Christi (2* ed.; G ütersloh: M ohn, 1967), p .2 7 .

decisão. Ela deveria rejeitá-lo ou aceitálo. Este não era um destino imposto sobre a sua nação. A oferta de si mesmo era uma oferta verdadeira. Mas Jesus previa para si rejeição e execução nas mãos dos líderes de Israel. Entende-se por anciãos, principais sacerdotes e escribas o Sinédrio. Aquele corpo de sacerdotes e leigos o condenaria à morte. Mas Jesus não via morte, e, sim, vida, como a última palavra. Ao terceiro dia era necessário que ele ressuscitasse. As expressões “ ao terceiro dia” , de Mateus, e “ depois de três dias” , de Marcos, en­ tendia-se, significavam a mesma coisa (Cf, Deut. 15:12, “no sétimo ano” , e o texto hebraico de Jer. 34:14: “ ao fim de seis anos”). Pedro falou pelo grupo, recusando-se a admitir o sofrimento e a morte como quinhão do Messias. Eles participavam das expectações judaicas de que o Mes­ sias derrotaria os inimigos de Israel e restauraria o reino nacional (cf. At. 1:6). Pedro presumia poder corrigir Jesus do que para ele era um ponto de vista desne­ cessariamente pessimista e uma contra­ dição às idéias aceitas acerca do Messias. Tomando-o à parte (proslabontes) pode descrever uma ação em que Pedro levou Jesus de lado ou puxou-o para si, dando a entender uma intenção de oferecer pro­ teção ou até uma custódia protetora. Tenha Deus compaixão de ti é tradução do que literalmente é “(Deus) seja mise­ ricordioso para contigo” . Possivelmente, Pedro quis dizer: “Deus tenha misericór­ dia de ti por dizeres tal coisa” (cf, Fil­ son, p. 188). Jesus achou necessário repreender Pedro mais severamente do que Pedro o havia repreendido. Tendo anteriormente atribuído a confissão de Pedro à revela­ ção divina, ele agora chama o protesto de Pedro de satânico. O aramaico, por de­ trás das palavras gregas traduzidas como Para trás de mim, podiam significar “afaste-se” tanto no sentido de “para trás” como de ir “embora” (Robinson, p. 143). Provavelmente, Jesus sentiu a 221


força das tentações do deserto expres­ sando-se de novo na luta de Pedro por um Messias sem sofrimento e morte. Pedro estava errado, e Jesus teve de novo que colocar para trâs aquela sugestão de um Messias político (cLl4:8-10). A suggs^ tão de Pedro era um escândalo para Jesus, isto é, algo em que se tropeça (skandalon). Os alvos messiânicos colimados por Pedro pertenciam aos propó­ sitos do homem, e não de Deus. Jesus insistiu na necessidade do cami­ nho da cruz, não apenas para si mesmo, mas tamBenl para os seursêguidores. A cruz poderia v ira sêFITtêrãl'pIfFÕs^iscípulos, como o seria para o Mestre. Quer literal, quer não, ela representa uma verdadeira forma de vida através da “morte do eu” em cada discípulo. ’~Ã decisão do seguidorde^ Jesus, de negar-se a si mesmo, não é opcional dentro do discipulado. Não se pode se­ gui-lo sem observar este princípio. Seguir é tomar a c r ^ ejaegarje^aji^m g^p^ A negação do eu não deve ser confundida com a negação deãlgo a si mesmo, sejam coisas materiais, prazer, ou o que for. Os ímpios muitas vezes se negam muitas côIsaTT fim de alcancar os seus alvos egoísticos, ou vencer os seus inimigos. A negação"3e coisas para si pode ser uma expressão do que Jesus chamou de “ne­ gar-se a si mesmo” , mas pode ser, da mesma forma, uma autodisciplina, com vistas a alvos não-cristãos. Todo guer-, reiro, para não ir mais longe, se disci­ plina a fim de vencer os seus inimigos. O que Jesus quis significar com a expressão a u to n ^ a ç ã ^ ( a b n é muito mais r a d íc ir f B ^ u e líe g a r a si mesmo algumas coisas. Ele estava que­ rendo dizer que precisa-se dizer não para si mesmo. Ele estava dizendo o oposto do Hm~dê^gao para o eu, e não para Deus, Ele estava falando um sim para Deus e ^um não para o “ego” . Todo pecado, e düm iição do home^m centraliza-se no amor-próprio, confiança-própria e auto' afirmação. A craz^sjgnifiça o oposto. ' Sigmfica c o n f í S n ç ? « n ^ ^ , amor a 222

Deus, entrega a Deus, e não ao eu. Paraáõcãlmente, este não para o eu é um sim para o verdãdêirõ eu. A pessoa pela C ^Primeira vez se torna o aue foi feita para J \ ser quando nega-se a si mesma. ' ^ } A pessoa salva a sua vida somente "^ ^quãnctcrarperde-par^-Crisla^E perde a f \ sua vida quando (egoisticamente) tenta ^ salvá-la. Vida e alma são. traduções da mesma palavra grega (psuché). Desta forma, a pessoa pode salvar-se apenas guando se perde. E se perde quando tin ta j alvar-se. Esta é uma lei da vida, expressa em o Nòvo Testamento de mui­ tas maneiras. Não foi apenas declarada; Jesus salvou a sua própria vida (eu) pre-^ cisamente ao perdê-la na cruz (cf. 27:£ 41-44). Os versículos 26-28 relacionam-se com o juízo. Depois de advertir que a pessoa pode perder-se no próprio ato de tentar salvar-se, Jesus mdicou como j grande e irrecuperável essa perda. Mesmo ganhar o munHõ inteirò, não teria valor para al­ guém que perdera a sua vida. Ao falar de perder a vida, Jesus não se referiu à morte física, pois essa vem" para todos. Ele referiu-se ao fato de a pessoa não alcançar o seu verdadeiro destino, deixando^^êT^ornar o que sTiaêrSnava a ser. Em troca de sua vida, ou em troca de sêu eu perdido, a pessoa darâ alegremen­ te o mundo, se isso puder ser feito. Pafã~' expressá-lo mais simplesmente, quando uma pessoa persegue os seus alvos na vida, pode pèiFHer de vista a verdadeira vida, que só pode ser conhecida mediante uma relação apropriada com Deus. Se tal pessoa pudesse viver a sua vida de novo, " daria o mundo em troca da vida que permanece. Ao Filho do homem fora prometido um reino universal“ ê“ etemo (cf. Dan. 7:13 e s.). Embora o seu propósito posi­ tivo seja salvar a humanidade, eie tam­ bém vem para julgar. O juízo pertence redenção, faz parte dela, da mesma for- ( ma como a cirurgia faz parte da terapia. ^ Mas o juízo vem a ser não redentor, e apenas condenador, para os que rejeitam

S


o reinado do Filho do homem. Jesus falou de juizo como pagamento: ele retri­ buirá (apodosei) a cada um segundo as suas obras, pela sua “prática” (praxis). pessoa é salva por um ato livre da^ V graça de Deus, mas é julgada de acordo | / com o seus atos. Jesus predisse um a vinda do Filho do homem no seu reino durante a vida de algumas pessoas que o ouviam falar. Essa vinda parece relacionar-se especi­ ficamente ao juizo. O limite, o fato de que esse juizo viria durante a vida de algumas “pessoas^ qüe 6 ouviam falar é maüljonsèníaneõ c^om um cumprimento nos eventos que cercaram a sua morte, ou no julgam entcTquelõbr?" veio à nação em 70 d.C. A primeira hipótese parece ser mais natural, em relação ao contexto. Na sua morte e^ essurreição, Jesus triunfou, e assim tam-1 3ém levou o homem à crise de juízo {ci.j (João 3:18-21). Não deve ser menospre­ zada uma referência à destruição de Je­ rusalém e da nação em 70 d.C. Jesus repetidamente tentou fazer a nação se desviar da sua colisão com Roma. A ruína que sobreveio à nação, quando ela estava no próprio ato de tentar salvar-se, foi uma verdadeira vinda do Filho do homem para juízo. A referência mais óbvia, no versículo 27 e s. é à Parousia ou vinda do Filho do homem no fim dos séculos (cf. 10:23). Mas esta interpretação entra em dificul­ dades. A referência é a um acontecimen­ to que deve ser testemunhado por con­ temporâneos de Jesus. Quando Mateus escreveu, quase uma geração inteira se havia passado. Parece que, em outros lugares, Mateus claramente antevê um extenso período de espera e de atividade missionária por todo o mundo, antes do fim(cf. 24:48; 25:5, 19; 28:20). E depois, também, registra Jesus dizendo que “aquele dia e hora” só o Pai sabia (24:36). O versículo 27 e s. são melhor enten­ didos em termos do interesse paraenético ou didático de Mateus, aqui enfati­

zado por sua posição em um contexto escatològico. Mateus nâo nos apresenta uma formulação sistemática, um quadro sistemático do “fim do mundo” . A asser­ tiva é que a morte de Jesus nâo deveria ser a sua derrota, pois ele viria outra vez como Juiz e como Rei! Juntamente com isto, há tanto advertência quanto jn c o ^ ,raiaménto.lpararcaiiárpê5soá."de que as suas obras serão julgadas pelo Filho do homem, que virá no seu reino. Desta forma, a preocupação de Mateus nâo é fixar urna data para a Parousiia, mas enfatizar as exigências atuais, colocandoas em um contexto escatològico. 3. Jesus Transfigurado: Revelação e Pre­ paração para a Cruz (17:1-13) 1 S eis d ias d ep ois, tom ou J e su s con sigo a P ed ro, a T iago e a João, irm ão d este, e os conduziu à p arte a u m a lto m on te; Z e foi transfigurado d iante d e le s; o seu rosto r e s ­ p lan d eceu com o o so l, e a s su a s v e ste s torn aram -se b ra n ca s co m o a luz. 3 £ e is que lh es a p a r e c er a m M oisés e E lia s, falando com e le . 4 P ed ro , tom ando a p a la v ra , d isse a J esu s: Senhor, b om é esta r m o s aqui; se qu eres, fa r e i aqui três ca b a n a s, u m a p ara ti, outra p ara M oisés, e outra p ara E lia s. 5 E stan d o e le a in d a a fa la r, e is que u m a n uvem lu m in osa os cobriu ; e d ela sa iu u m a voz, que d izia: E ste é o m eu F ilh o am ad o, e m quem m e com p razo; a e le ouvi. 6 Os discipulos, ouvindo isso , ca ír a m com o rosto e m terra , e fic a r a m gran d em en te a te m o ­ rizados. 7 C hegou-se, p o is, J e su s e, tocandoos, d isse : L evan tai-vos, e n ão tem a is. 8 E , erguendo e le s os olh os, não v ir a m a n in ­ guém sen ão a J esu s som en te. 9 E nquanto d esc ia m do m on te, J e su s lh es ordenou : A n in gu ém co n teis a v isã o , a té que o F ilb o do h om em se ja lev a n ta d o en tre os m ortos. 10 P ergu n taram -lh e os discípulos: P or que d izem en tão o s e scr ib a s que é nec«ssário que E lia s v en h a p rim eiro? 11 R esp on ­ deu e le : N a v erd ad e E lia s h a v ia de v ir e restau rar tod as a s c o isa s; 12 digo-vos, porém , que E lia s já v eio , e n ão o reco n h e­ c era m ; m a s fizeram -lh e tudo o que q u ise­ ram . A ssim ta m b ém o F ilh o do h om em há de p a d ecer à s m ã o s d eles. 13 E n tão en ten ­ d eram os d iscíp u los que lh es fa la r a a r e s ­ peito de João, o B a tista .

Hoje em dia é lugar-comum chamar este episódio de aparecimento da ressur­ 223


reição, inserido na vida de Jesus. Isto não é garantido. Mateus o chama de visão, enfatizando o subjetivo. Essa foi real­ mente uma verdadeira experiência na vida de Jesus e de seus discípulos. Podese entender que essa experiência seria mais bem compreendida pelos discípulos depois da ressurreição de Jesus. A tra­ dução da palavra metamorphõthè como “transfigurado” deve-se à Vulgata Lati­ na. Essa palavra normalmente é vertida como “ transformado” , como em Roma­ nos 12:2. ou “mudado” , como em II Coríntios 3:18. Que Pedro, Tiago e João formavam um círculo mais íntimo ao redor de Jesus é fato bem atestado (cf. 26:37; Mar. 5:37; 13:3). Tiago foi um dos primeiros mártires (At. 12:2), e durante certo tem­ po pode ter sido mais proeminente do que João. O alto monte é identificado por tradição posterior como sendo o monte Tabor, mas o Hermom é mais provável, pois fica mais perto de Cesaréia de Fili­ pe, e se levanta a uma altura de 3.000 metros. A transfiguração de Jesus pode ter servido para fortalecê-lo para as prova­ ções que estavam à sua frente, mas isto não está explícito. O interesse explícito se relaciona mais com as necessidades dos discípulos. Eles precisavam receber uma certeza, vinda da voz na nuvem lumino­ sa, de que Jesus era o Filho amado, em quem Deus se compraz. Pedro acabara de expressar discordância acerca do que Jesus dissera a respeito de sofrimento e morte (16:22). Pedro havia demonstrado mais disposição para instruir Jesus do qu( ara ser instruído. Ele e os seus companheiros agora testemunham uma maravilhosa glorificação de Jesus, e lhes é dito: a ele ouvi. Só Lucas conta o que Moisés e Elias discutiam com Jesus (9:31). Eles falavam da sua partida, literalmente “êxodo” (exodon), que Jesus “estava para cum­ prir em Jerusalém” . (Moisés e Elias podem representar a Lei e os Profetas, 224

mostrando a relação entre a velha e a nova alianças. Possivelmente o ponto importante é a maneira triunfante pela qual cada um deles terminou a sua vida. Elias fora levado ao céu “ num rede­ moinho” , e presumivelmente em uma carruagem de fogo (II Reis 2:11). Uma tradição afirma que Moisés não morrera, mas ascendera ao céu (cf. A Assunção de Moisés em escritos pseudo-epigráficos). A palestra acerca da sua partida fortale­ ceria Jesus para a sua cruz, e era espe­ cialmente acerca desse assunto que os discípulos precisavam ouvi-lo. O desaparecimento de Moisés e Elias da visão, deixando a ninguém senão a Jesus somente, serve para exaltar a Jesus e para enfatizar a ordem dada aos discí­ pulos, de que eles deviam ouvi-lo. Se Moi­ sés e Elias tipificam a Lei e os Profetas, a mensagem é que Jesus é o cumprimento de ambos. Só ele é suficiente. A ordem para não contar a ninguém acerca da visão antes que Jesus fosse ressuscitado dentre os mortos servia a diferentes obje­ tivos. Os discípulos ainda não estavam plenamente preparados para interpretar a visão, e as outras pessoas teriam a ten­ dência de ver nela o cumprimento de es­ peranças nacionalistas populares. Levan­ tando dentre os mortos preserva a manei­ ra mais primitiva de descrever a ressur­ reição. O que estava sendo enfatizado não é que ele iria se levantar, mas res­ suscitar (At. 2:24). Baseando-se em Malaquias 3:1 e 4:5, esperava-se que Elias viesse antes do Messias, para preparar o seu caminho. Jesus identificara Elias com João Batista. Embora Jesus fosse experimentar uma morte triunfante, também sofreria rejei­ ção e execução às mãos de homens ím­ pios, como João o experimentara. O ver­ sículo 11 não é claro, ao dizer que Elias havia de restaurar todas as coisas. João Batista, o “Elias” que viera, fora morto. Se colocarmos a pontuação interrogativa, ficaria menos difícil, pois se seguiria: “Na verdade, Elias havia de vir; mas iria ele restaurar todas as coisas?” Isto pro­


piciaria o reconhecimento de que a obra de restauração ficaria para Jesus realizar. 4. Fé Para Remover Montes (17:14-21) 14 Quando ch eg a ra m à m u ltid ão, ap ro­ xim ou-se de J esu s um h om em que, a jo e ­ lhando-se diante d ele, d isse : 15 Senhor, tem com paixão de m eu filho, porque é ep ilép tico e sofre m uito ; p ois m u ita s v e z e s ca i no fogo, e m u ita s v ezes n a águ a. 16 E u o trouxe aos teus discípulos, e náo o p u d eram curar. 17 E J esu s, respondendo, d isse : Ó gera çã o incrédula e p erv ersa ! a té quando esta r e i convosco? até quando v o s sofrerei? Trazeim o aqui. 18 E n tão J e su s repreendeu ao dem ônio, o qual saiu do m enino, que desde aquela hora ficou curado. 19 D ep ois os d is­ cípulos, aproxim ando-se de J e su s em p a rti­ cular, p erguntaram -lh e: F o r que não p u ­ dem os nós expulsá-lo? 30 D isse-lh es e le : P or causa da v o ssa pouca fé ; pois e m verdade vos digo que, se tiverd es fé com o u m grão de m ostarda, direis a e ste m onte : P a s s a daqui para a co lá , e e le h á de p a ssa r; e n ad a vos será im p ossível.

Mateus segue Marcos, ao fazer esta história servir de contraste à experiência da transfiguração. Rafael, em um grande quadro, conseguiu captar o contraste entre a glória da transfiguração sobre o monte e o sofrimento e frustração lá embaixo. Há também o contraste entre 0 poder de Jesus e a ineficácia dos dis­ cípulos. O menino afligido é chamado epilético (literalmente, “lunático”) e também se diz que ele tinha um demônio. Isto é, dentro do próprio Novo Testamento, uma indicação de que a mesma doença pode ser descrita tanto cientificamente, ou medicinalmente, como teologicamen­ te. O emprego do termo demônio dá a en­ tender algum relacionamento entre as do­ enças humanas e o mal, mas a relação não é tão direta como quando a palavra Sata­ nás é empregada. Dá-se a entender a cul­ pa de uma pessoa quando as suas atitudes ou atos são atribuídos a Satanás. Contu­ do, quando se diz que uma pessoa é pos­ sessa de demônios, como no caso deste menino epilético, o que se enfatiza não é a culpa, mas o fato de a pessoa ser domina­ da ou vitimada por forças ou fatores des­ truidores, resultando em distúrbios físi-

cos e psicológicos (mentais e emocionais). 40

A acusação de Jesus, de que a sua geração era incrédula e perversa, expres­ sa Deuteronômio 32:6. O fato de os discípulos não terem podido curar o me­ nino foi lançado à conta de sua pouca fé, e não à incredulidade, como em tradu­ ções mais antigas. O grão de mostarda era proverbialmente a mais pequena das sementes (cf. 13:32). A idéia é que qual­ quer quantidade de fé deve dar à pessoa a vitória sobre as limitações e condições normais da vida. A referência à remoção de montes é proverbial, e deve ser consi­ derada como hipérbole, e não em sentido literal. Para a remoção literal de monta­ nhas, o equipamento moderno de terra­ planagem é suficiente. O versículo 21 tem grande confirma­ ção entre os manuscritos, mas está au­ sente dos manuscritos de mais confiabi­ lidade das famílias textuais alexandrina e cesareana. Parece claramente que é uma adição feita a Mateus. Ele é mais bem atestado em Marcos, porém, mesmo ali (9:29), a sua originaUdade não é certa. Ele muda a ênfase da fé para a oração (e até para o jejum, em um desenyolvimento textual posterior). A ausência do versículo nos melhores textos de Mateus e Lucas pode significar que ele não era original a Marcos. 5. Os Discipulos Novamente Advertidos (17:22,23) 23 Ora, achando-se e le s n a G aliléia, disselh es J e s u s : O FiUio do h o m em e stá p ara ser en tregu e n a s m ã o s d os h o m en s; 23 e m atálo-ão, e ao terceiro dia ressu rg irá . E e le s se e n tristecera m gran d em en te.

Parece que freqüentemente Jesus ten­ tou preparar os seus discípulos para a rejeição e morte dele. Mateus segue M ar­ cos, ao trazer isto à ribalta por três vezes. A primeira predição seguira-se à confis­ são de Pedro acerca de Jesus ser o Cristo 40 Cf. R agnar Leivestad, Christ the Conqueror (New York: M acm illan, 1954).

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(16:21). O segundo anúncio fora feito na Galiléia. O terceiro teve lugar quando Jesus se aproximava de Jerusalém, pouco antes de sua morte (20:17-19). Parece estranho que os discípulos estivessem tão despreparados para a morte de Jesus quando ela ocorreu. Isto demonstra até que ponto a pessoa pode ser “surda” para o que não quer ouvir. Os ouvidos são para ouvir, mas nem sempre ouvem (13:9; 17:5). Os discípulos ainda não entendiam, mas, nesta segun­ da ocasião, eles pelo menos não repre­ enderam Jesus. Ficaram muito tristes, ouvindo a palavra acerca de sua morte. 6. Imposto do Templo Pago, Direitos Abdicados (17:24-27) 2i Tendo e le s ch egad o a C afarnaiun, ap roxim aram -se de P ed ro os que cob ravam a s d id racm as, e lh e pergu n taram : O v o sso m estre não p a g a a s did ra cm a s? 25 D isse e le: S im . Ao en trar P ed ro e m c a sa , J esu s se lhe antecip ou, perguntando: Que te p a re ­ ce, Sim ão? D e qu em cobram o s r e is da terra im posto ou tributo? dos se u s filh os, ou dos alheios? 26 Quando e le respondeu: D os a lh eios, d isse-lh e J e s u s : L ogo, sã o isen to s os filh os. 27 M as, para que não os e sc a n d a li­ zem os, v a i ao m a r, la n ça o an zol, tira o prim eiro p eix e que subir e , abrindo-lhe a b oca, en con trarás u m e s t á te r ; tom a-o, e dálho por m im e por ti.

Esta história encontra-se apenas em Mateus; possivelmente é a mais estranha das histórias miraculosas. Algumas pes­ soas têm zombado dela; um milagre por um “shequel” (aproximadamente seten­ ta cruzeiros)! Levanta-se outro problema do fato de que Jesus normalmente se recusara a empregar milagres para a sua própria conveniência. Sérios estudiosos se têm perguntado se este milagre, apa­ rentemente insignificante, quase bizarro, pode realmente ser atribuído a Jesus. Todavia, este ponto de vista peca por não apreciar o grande princípio que ele ensina. Esta estranhâ história ensina o princípio primário do abandono dos di­ reitos pessoais quando estes puderem servir aos interesses de outrem. A idéia é que Jesus fez o que tinha direito de não 226

fazer. Pagou um imposto do Templo, do qual por direito era isento. As didracmas (“ a terça parte de um siclo” , conforme Neemias 10:32) eram um imposto do Templo, a ser pago anu­ almente, seis semanas antes da Páscoa, por todo judeu do sexo masculino “de vinte anos para cima” (Êx. 30:11-16). Quando Mateus escreveu, o imposto do Templo era pago para Roma, e não para Jerusalém, e podia servir como advertên­ cia contra a recusa de se pagar um imposto aos romanos; mas, em sua apli­ cação primitiva, exortava os cristãos para não usarem desta forma a sua liberdade, de forma a ofender os judeus (Hare, p. 142). Os que cobravam perguntaram a Pedro se o seu Mestre não pagava as didracmas (duas dracmas, moeda grega), fazendo a pergunta de forma a receber uma resposta afirmativa. Pedro impul­ sivamente respondeu por Jesus, esperan­ do, possivelmente, esclarecer o assunto com Jesus mais tarde. Posteriormente, em casa (a casa de Jesus, de Pedro, ou outra pessoa), Jesus se lhe antecipou (prosephthasen). Jesus estabeleceu o princípio de que os filhos dos reis estão isentos de taxas ou tribu­ tos, sendo lançados esses encargos sobre os alheios. Impostos (telè) se refere a taxas locais ou de alfândega, e tributos (kênsos) eram um imposto de recensea­ mento, ou imposto “por cabeça” . Como Filho de Deus, Jesus declarou a sua isenção do imposto do Templo. Não obstante, ele pagou o imposto, para não os escandalizar. Essa disposição de abrir mão de direitos pessoais, no interesse de outrem, é característica básica do modo de agir de Cristo (cf. I Cor. 8:13; 9:12; 10:28). A família humana nunca avança significativamente para uma vida mais significativa, exceto se alguém _estiver disposto a abdicar de direitos pessoais pelo bem de outrem. Este princípio en­ controu a sua expressão máxima em Jesus Cristo, especialmente na sua cruz. O fato de Jesus ter recorrido a um milagre (ele parece ser dado a entender.


mas, na verdade, não declarado ou des­ crito) pode ter tido o objetivo de uma demonstração imediata, para apoiar os seus reclamos de que de fato ele era o Filho, ao qual pertencia o Templo, e que, desta forma, era isento de pagar esse imposto. O seu propósito não era o de servir a interesses e conveniências pes­ soais, mas preparar o cenário para im­ primir nas mentes um princípio básico. Resumindo, Jesus declarou a sua filiação característica, a sua isenção do imposto do Templo (com a implicação da sua liberdade, e de seus discípulos, do pró­ prio templo) e a sua disposição de pagar o imposto em consideração aos outros. Esta passagem faz manterem-se em equiKbrio dois princípios cardeais; (1) a liber­ dade de Jesus e dos seus seguidores em relação ao Templo e à lei judaica, e (2) o interesse dos outros limitando a liber­ dade pessoal. Pode-se dizer que a fé de uma pessoa a torna livre, e o amor esta­ belece os limites com que essa liberdade deve ser exercida.

XI. Instruções Para a Igreja (18:1-35)

ligado inseparavelmente à perdoabilidade, e não deve conhecer limites. *1. A Grandeza no Reino (18:1-14) Marcos (9:33-37) indica que os discí­ pulos haviam estado a discutir a questão de quem era o maior. Ao entrar numa casa de Cafarnaum, possivelmente a de Pedro, Jesus perguntou-lhes o que é que eles haviam estado discutindo. O silêncio deles traiu a conclusão a que haviam chegado: de que o seu interesse não iria ser do agrado de Jesus. Marcos cita Jesus~ estabelecendo, em^^garado^, o_grMde^ princípio de que a grajicleza pertencé'õu~ fãz parte da disposição íe"sér o últimõT" servo de todos. Mateus resume o tratamento que M ar­ cos dá ao episódio, mas preserva o ponto essencial. Ele também omite a história que Marcos conta (9:38-41), da hostili­ dade dos discípulos para com um exor­ cista, que trabalhava fora do seu grupo, tendo Jesus repreendido o preconceito dos discípulos contra aquele estranho. Desta forma, Mateus se concentra na ameaça do. orpiilhn^ enquanto Marcos trata as ameaças gêmeas de orgulho e preconceito. Possivelmente a omissão de Mateus, em relação à história contada por Marcos, acerca do estranho a quem Jesus sancionou, deva ser entendida em termos da preocupação dele em focalizar a atenção na Igreja. Os seus leitores poderiam ter usado a história para justi.. ficar movimentos cismáticos. ’

Aqui começa o quarto dos cinco gran­ des discursos de Mateus que dividem este Evangelho em cinco partes (cf. 5-7; 10; 13; 18; 24 e 25). Esta coleção de discur­ sos é edificada ao redor do tema do rela­ cionamento dos discípulos uns com os diitros dentro da I ^ j a (Lau, p. 134). A ambição orgulhosa é rejeitada, em favor. 1) Humildade Infantil (18:1-4) 3o serviço humilde. "A aceitação do povo de Cristo é um 1 N aquela hora ch eg a ra m -se a J esu s os teste básico de discipulado. Levar outra discípulos e p e r g u n ta ra m : Quem é o m aior pessoa a fracassar, seja por mau exemplo no reino dos céu s? 2 J e su s, cham ando u m a crian ça, colocou-a no m eio d ele s, 3 e d isse : orgulhosa ambição, por indiferença, E m v erd ad e v o s digo que, se não vos co n ­ ou outra coisa, é pecado mortal. A im­ verterd es e não vos fizerd es co m o cria n ça s, portância do “mênor” e do último é de m odo a lg u m en tra reis no reino dòs cèü s. suficiente para nos levar a um esforço 4 P ortanto, quem se tornar hum ilde com o |estrem]^yoãra recuperar o perdido. A< , esta cria n ça , e ss e é o m aior/nojireino dos icOmunRâo eclesiástica requer auto-dis-J [ciplina, mas o alvo da disciplina é a sal-< Jesus respondeu à pergunta dos dis­ rvação ou convalescença. A reconciliação cípulos, acerca da grandeza, por meio de é a atividade da Igreja. O perdão está uma parábola dramatizada, colocando 227


uma criança no meio deles. Rle primei- Ç ramente abalou o seu interesse na eran- ^ T----------------------- 3~— --— 2 T" deza no reino aíiiS ^ndo que, se eles nao , ^vessem um espirito diferente, nem en-L v trariam no reino. Eles precisavam se converter (straphête) e se fazer como crianças. Dua^andogiag^familiares são empregadas aqui: conversão erenovag^. Con­ verter (mudãr de rumo ou direção) é a idéia de mudar as atitudes e o curso básico da vida. A preocupacão com a grandeza pessoal é a coisa diametral­ mente oposta da preocupação pelo ver­ dadeiro discipulado. E.também o oposlõ" da submissão requerida pelo reino de Deus. Como já foi observado, o reinoXo overno ou reinado deJDeus. A ambição i~grãndeza" nãÕ*sê'’cõadunãr'com esses requisitos. A luta do discípulo em busca< de poder ou primazia entre os seus pares também trai a confusão que está fazendo I do reino dos céus com um tipo de reino terreno, político, que propicia posições de poder (cf. 20:20-28). A exigência de que as pessoas que entram no reino se façam como crianças ^çopgiste em um paralelo íntimo com o f^^n^ c e r 3ê~novy^ analogia apresentada por João (3:3). Entrar no reino significa

f

qiip a ppccna r n m p p a a -virla- /íp .novn.

baslcãmen^te com novas atitudes, valores,' confiança e dedicacãoT A semelhança a uma criança é coloca> da‘com y5Q aíaa“^ T g r a ^ do - < 5 remo, bem como a condição para entrada nele. O ^ aio r^ aquele^ e ^ : 9 ^ humilde. O sé n íím è n to ^ e '^ 2 ^ is3 e n S ^ ^ “S ã c n â íí^ , baseado na percèpção da sua pequenez, pode ser considerado, mas Jesus enfatiza a humildade como o I^ oposto às orgulhosas ambições dos discí! pulos (cf. 23:12). 2) O Pecado de Fazer um Pequenino Tropeçar (18:5-9) 5 E qualquer que receb er e m m eu nom e um a j^ian^Su ta l com o e sta , a m im m e receb è. 6 M as qualquer que fizer tropeçar um d estes Deau^jjjios^que c rê e m em m ^ , m elhor Ih ^ fo r a que s^ T h ê^ en d u râ ssê^ à ò

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b r ite i.

p esco ço u m a p ed ra de m oinho, e se subprofundeza do m a r. 7 Al do m undo, por ca u sa dos tropeços!

- mevitável que venham; mas ai do

h om em por q u em o trop eço v ier! 8 S e, pois, a tua m ã o ou o teu pé te fizer tropeçar, corta-o, e lança-o de ti; m elh or te é entrar n a vid a aleija d o , ou coxo, do que, tendo duas m ã o s ou d ois p é s, ser lan çad o no fogo e te r ­ no. 9 E , se o teu olho te fizer tropeçar, arran ca-o, e lan ça-o d e t i ; m elh or te é entrar n a v id a co m lu n só olho, do que, tendo dois olhos, se r lan çad o no infern o de fogo.

A aceitação uns dos outros, e especial­ mente a recepção dos pequeninos é um teste básico do discipulado. Jesus se identificou tanto com os pequeninos que recebê-los em seu nome é recebê-lo (cf. 25:40). Ao falar de pequeninos, Jesus estava se referindo tanto a crianças como a pessoas que comumente são menos-": prezadas, negligenciadas ouexploradas — os “pequeninos” do mundo. Üma comparação dos versículos 5, 6, 10 e 14 esclarece este fato. Precisa-se considerar as atitudes contemporaneas em relação às criancas_e ‘*pêqü^inos” ,^ a r a apreciar a a tl^ d e e os ensinamentos de Jesus. Os iudeus tinham muito mais consiaeraçao para com as crianças do que o s p ^ ã o s , mas até eles ficavam aquém do exemplo de Jesus. A impaciência dos discípulos para com as crianças se colocou em contraste com a acessibilidade de Jesus para com elas (19:13-15). As meninas sofriam mais do que os meninos, n o m undõ^iJesus. Os p^ aro -n n iitas v*^^^ expunham ^arc?íâs recém-nascidas. à„jnorte, quando não eram desejadas. Isto é explícito em um papiro do primeiro século, do qual resta um fragmento com uma carta de Hilarião à sua esposa Alis, instruindo-a acerca do bebê que esperavam: se fosse menino, conservá-lo; se fosse menina, deixá-la morrer. NoJudaísnjQ^ uma filha era proprieàa3e qu^^im a ser dada a outra pessoa, em um contrato de casamento. Jesus 41 Cf. W . H . Davis G reek P apyri of the F irst Century (New Y ork; H arper, 1933) p. 1 e s.


elevou as crianças, bem como as mulheres7 os “pequeninos” e os “estrangeiros” “a condição de pessoas preciosas, que deviam ser aceitas, cuidaoas e amadas. Us "pequeninos" tem sido negligenciados ou explorados em todas as épocas. Havia milhões de escravos na éooca de Jesus, e até os lideres judeus~d^]^ez'avam o ‘am ha’ arez, “o povo da ter r ^ (cf. Pirke ^ ãra Jesus não havia pessoas sem importân­ cia. Pequeninos pode ser um apelido para todos os seus discípulos. A insistência no fato de que, ao reieitar ou aceitar o seu povo, a pessoa reieita ou aceita o próprioTêsus é um tema em que se toca constantemente no Novo Testa­ mento. A verdadeira atitude e relação dc uma pessoa com Jesus é expressa na sua atitude e relação para com o seu p o v o . Não se pode divorciar a relação “verti­ cal” com Deus da relação “horizontal” com o próximo (cf. 5:7, 23 e s.; 6:14 e s.; 25:40; I Cor. 8:12; I João 4:20 e s.). Fazer um pequenino, literalmente, uma criança ou pessoa comum, tropeçar (skandalisèi) é pior do que morrer. Seria melhor ser afogado no mar do que fazer com que um pequenino se transvie. Uma pedra de moinho, à qual Jesus se referiu, era a mó superior, dentre as duas pedras do moinho, tão grande que precisava ser girada por um asno. As causas de tro­ peço podem ser várias, mas a que por inferência é mencionada aqui é a ambi­ ção orgulhosa, como a que acabara de ser manifestada pelos discípulos. Marcos traz à baila também os efeitos pernicio­ sos do preconceito (9:38-41). Os inevitáveis tropeços (skandala), contra os quais Jesus advertiu, são oca­ siões para tropeçar, tentações para tal. Ao dizer que eles são inevitáveis (anagké), Jesus não quis dizer que Deus os decre­ tou, ou que eles são indispensáveis para nós. O que ele disse foi que na vida, ela sendo como é, pode-se contar com o problema constante da tentação. Sempre que a vida é Uvre, é perigosa. Dar ao homem a opção do bem é dar-lhe a opção

do mal. Isto não significa que não pode haver bem sem mal, pois este é um “dualismo” estranho à Bíblia. Significa que Deus nos deu verdadeira liberdade e verdadeiras oportunidades para escolher, e que a vida é cheia de armadilhas. Mas a advertência é feita especialmente contra o fato de se fazer outra pessoa tropeçar. Uma mudança súbita de rumo é efe­ tuada no versículo 8 e seguintes. Precisase não apenas guardar-se contra o perigo de fazer outra pessoa tropeçar; é neces­ sário a própria colocar-se debaixo da dis­ ciplina que for necessária, para salva­ guardar-se contra os tropeços. Sem dú­ vida, o sacrifício literal de mão, pé ou olho não resolverá os problemas da tenta­ ção e do pecado, mas a ilustração é clara. Da mesma forma como se sacrifica um órgão do corpo para salvar a vida física, também qualquer disciplina, por severa que seja, não é preço muito grande a ser pago pela vitória sobre os tropeços. Em 5:27-30 uma analogia cirúrgica similar é empregada com respeito ao problema da concupiscência carnal. Aqui a mesma analogia cirúrgica é apli­ cada ao problema do orgulho (e do pre­ conceito em Marcos), que está tão pro­ fundamente arraigado. O verdadeiro problema do homem está dentro dele mesmo, e a vitória sobre o egocentrismo, tão firmemente alojado (e também do orgulho, preconceito, concupiscência, ou seja o que for), só acontece com a radical “cirurgia” do arrependimento, conver­ são, novo nascimento e disciplina diária. 3) Preocupação Para Que Nenhum Pe­ quenino Pereça ( 18:10-14) 10 V ede, não d esp rezeis a nenlium d estes pequeninos; pois eu v o s digo que os seu s anjos nos céu s sem p re v ê e m a fa c e d e m eu P a i, que e stá nos céu s. 11 Porque o F ilh o do h om em v eio sa lv a r o que se h a v ia perdido. 12 Que v o s p a rece? Se a lg u ém tiv er cem ovelh as, e u m a d e la s se ex tra v ia r, não d e i­ x a rá a s n oven ta e nove nos m on tes, p a ra ir bu scar a que se extraviou ? 13 E , se a co n te­ cer a ch á -la , e m v erd ad e v o s digo que m aior prazer te m por e sta do que p ela s n oven ta e nove que não se ex tra v ia ra m . 14 A ssim

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tam b ém não é d a von tad e de v o sso P a i, que está nos céu s, que ven lia a p erecer um só d estes pequeninos.

Mateus parece ter tirado a história da ovelha perdida de Q, sendo o seu para­ lelo encontrado em Lucas 15:3-7. É en­ fatizada a importância do menor e do último. Deus não deseja' a perda de nem um só destes pequeninos, pelo con­ trário, ele tem o maior prazer com a recuperação, nem que seja de apenas um deles. Ter noventa e nove em segurança não satisfaz o pastor, se existe uma ove­ lha que seja que se extraviou. Não que ele ame menos as noventa e nove, mas é que não existe alegria como a de recuperar uma que estava perdida. A alegria de Deus ao recobrar perdidos talvez seja a idéia prin­ cipal da história, a julgar da maneira como Jesus a contou (cf. Luc. 15:7,10, 22-24). Jesus advertiu contra o pecado de des­ prezar um pequenino. O fato de que os seus aivjos nos céus sempre vêem a face de Deus reflete o ponto de vista de que cada pessoa tem um “sósia” ou represen­ tante angélico nos céus (cf. Est. 1:14; Dan. 10:13; At. 12:15; Apoc. 1:20). Não está claro que Jesus tenha querido en­ dossar a crença em anjos da guarda. A preocupação não é com essa doutrina como tal. A citação é apenas incidental, em relação à idéia central. A preocupa­ ção de Jesus era dizer que as crianças e os “pequeninos” são importantes para Deus, e por isso devem ser importantes para nós. É forte a evidência de manuscritos, tanto a favor como contra o versículo 11. O versículo provavelmente não é original em relação a Mateus, mas emprestado de Lucas 19:10. Se ele fosse original, os escribas não teriam razão para tirá-lo dos manuscritos primitivos em grego, latim, siríaco e copta. 2. Disciplina Eclesiástica: Corrigir e Recuperar (18:15-20) 15 Ora, se teu irm ão p eca r, v a i, e rep re­ ende-o entre ti e e le só ; se te ouvir, terá s

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ganho teu irm ã o ; 16 m a s , se não te ouvir, le v a ain d a contigo um ou'dois, p ara que p ela boca de duas ou tr ês testem u n h as toda p a ­ la v ra se ja con firm ad a. 17 Se recu sa r ouvilos, dize-o à ig r e ja ; e, se tam b ém recu sar ouvir a ig reja , considera-o com o gentio e publicano. 18 E m verd ad e vos d igo: Tudo quanto lig a rd es n a terra ser á ligad o no céu ; e tudo quando d eslig a rd es na terra será d esligad o no céu. 19 Ainda vos digo m a is : Se dois de v ó s n a terra concordarem a c e r ca de a lgu m a co isa que p ed irem , isso lh es será feito por m eu P a i, que e s tá nos céu s. 80 P o is onde se a ch a m dois ou tr ê s reunidos em m eu nom e, a í estou eu no m eio d eles.

Este parágrafo propicia o modelo de disciplina eclesiástica, inclusive motivo, espírito e procedimento básico. Estão ausentes dele todos os traços de legalismo ou motivação penal. A preocupação é salvar e fortalecer, e não expor e tripudiar os errados. Jesus colocou a maior responsabili­ dade para reconciliação sobre a pessoa contra quem se pecou. Não que o ofensor não tenha responsabilidades (cf. 5:23 es.), mas é que o próprio fato do pecado já prejudica o pecador. A pessoa preju­ dicada está em posição melhor para dar início à reconciliação do que o malfeitor (cf. Gal. 6:1). Jesus, além disso, estava preocupado em que a reconciliação fosse efetuada sem desnecessária exposição pública do ofensor. Está excluída qual­ quer disposição para punir, embaraçar ou expor uma pessoa à zombaria da comuni­ dade. Somente quando todos os esforços feitos em particular falham, é necessário chamar o ofensor diante da igreja. Jesus esboça quatro passos possíveis na disciplina eclesiástica. O primeiro, que é o ideal, é a reconciliação, que deve ser tentada pelos imediatamente interes­ sados. O objetivo é que o irmão seja ganho ou recuperado. No caso de fra­ casso, o segundo esforço deve ser através de uma comissão. Isto segue o pçncípio exarado em Deuteronômio 19:15, que determina que as disputas deviam ser resolvidas na presença de duas ou três testemunhas. A palavra de um contra o outro pode levar apenas a um impasse,


e nenhuma pessoa deve ser condenada mediante a palavra de apenas uma tes­ temunha. Se o segundo passo falhar, o ofensor deve ser chamado perante a igreja. Uma disciplina assim interessada não é antitética em relação à natureza da igreja, mas apropriada a ela. Deve pre­ sumir-se que a mesma motivação e espí­ rito governem a igreja, como governem o indivíduo ou a comissão que procuram ganhar o irmão. Pode ser que seja neces­ sário um quarto passo, se ele também recusar ouvir a igreja. Neste caso, não é demais que ele seja excluído, por se ter auto-excluído. Não que a igreja “negue comunhão” a ele, mas que ele aprende, infelizmente, que não há comunhão para ele ali. A afirmação de que a pessoa que se recusar ouvir a igreja deve ser conside­ rada como gentio e publicano parece dura. Ela expressa claramente uma situação judaico-cristã, e não um con­ texto gentílico. A dureza não é assim tão grande quando todos os fatores são con­ siderados. Antes de tudo, são pressupos­ tos três passos anteriores, procurando a reconciliação. E depois, o ato não é tanto de exclusão, mas é uma recusa de “per­ tencer” à igreja. Além do mais, Jesus sempre era amável e aberto para com os gentios e publicanos. O fato de a igreja reconhecer como um estranho a pessoa que se recusara a ouvir, de imediato, não fecha a porta para que ela seja recebida quando estiver disposta a ser recebida (e disciplinada) como irmão. Este pará­ grafo ensina que cada discípulo é res­ ponsável pelo seu irmão, e que toda a igreja é responsável por todo membro, e que cada membro responde perante a igreja (cf. Schniewind, p. 200). A autoridade para ligar e desligar, dada a Pedro em 16:19, aqui é estendida a toda a igreja. Em 16:19 ela parece se relacionar primordialmente à instrução, que conduta é permitida e que conduta não é. Aqui ela se relaciona principal­ mente com a disciplina eclesiástica. O futuro perfeito passivo perifrástico é

usado para os verbos ligar e desligar, como em 16:19 (veja o comentário a respeito). Se esta distinção de tempos verbais puder ser enfatizada, a igreja recebe a certeza de que a sua ação ao receber uma pessoa que houve, ou de excluir a que se recusa a ouvir já foi prevista nos céus. Entendido como um tempo futuro simples, a certeza é a de que os céus validarão a ação da igreja. De qualquer forma, é descrita uma con­ cordância entre os céus e a igreja. Esta idéia, sem dúvida, pressupõe que, ao empreender a disciplina de um membro, a igreja seja governada pelas motivações e pelo espírito prescritos. Além disso, assegura-se aos discípulos que eles terão as bênçãos e a presença de Cristo onde quer que se reúnam em oração ou de comum acordo. Este não é um “cheque em branco” para pessoas egoístas. Segundo o contexto, estas pa­ lavras devem ser compreendidas como uma certeza da presença e da ajuda divina, quando o povo de Cristo empre­ ende a difícil tarefa de cuidar uns dos outros, mesmo até a extensão da disci­ plina corretora e redentora das pessoas erradas. Por exemplo, o fato de receber de volta um irmão que cometeu um erro, sem sujeitá-lo à vergonha ou a alguma punição, pode deixar a igreja propensa a críticas, dizendo que foi indulgente de­ mais. E excluir um membro que se re­ cusa a ouvir é coisa bastante dolorosa para uma igreja conscienciosa. Em am­ bos os casos, a igreja tem diante de si uma tarefa difícil. Ela precisa do consolo de estar agindo corretamente ao ter de usar de disciplina. Jesus prometeu tudo isto. Ele prome­ teu estar presente quando dois ou três se reunirem em seu nome. Um ensinamento rabínico (Aboth 3:2) falou da Shekinah, a presença de Deus, presente com os que se ocupavam com as palavras da Torah (Lei). A igreja é assegurada da presença de Deus quando realmente age como igreja. 231


3. Só Quem Perdoa Ê Capaz de Receber Perdão (18:21-35) E n tão P edro, aproxim an d o-se d ele, lhe perguntou: Senhor, a té q uantas v e z e s p e c a ­ rá m eu irm ão contra m im , e eu lh e h ei de perdoar? Até sete? t t R espondeu-lhe J esu s: N ão te digo que a té se te ; m a s a té seten ta v ezes se te. 33 P or isso o reino dos céu s é com parado a um rei que quis tom ar con tas a se u s s e r v o s ; 34 e , tendo com eçad o a to m á -la s, foi-lhe apresen tado u m que lhe d ev ia d ez m il ta le n ­ tos; 35 m a s não tendo e le co m que p agar, ordenou seu senh or que fo sse m vendidos e le , su a m ulher, seu s filh os, e tudo o que tinha, e que se p a g a sse a d ívid a. 36 E ntão aquele servo, prostrando-se, o r e v e r e n c ia ­ va, d izen d o: Senhor, te m p a c iê n c ia com igo, que tudo te p a g a rei. 37 O senhor daquele servo, p ois, m ovido de com p aixão, soltou-o, e perdoou-lhe a d ívida. 38 Saindo, porém , aquele servo, encontrou um dos seu s conservos, que lhe d ev ia cem d en ários; e, segurando-o, o su fo ca v a , dizendo: P a g a o que m e d e v e s. 39 E ntão o seu com panheiro, caindo-lhe a o s p és, rogava-lh e, dizendo: T em p a ciên cia com igo, que te p a g a rei. 30 E le, porém , não q u is; a n tes foi encerrá-lo na p risão, até que p a g a sse a d ívid a. 31 V en­ do, pois, o seu s con servos o que aco n tecera , contristaram -se gran d em en te, e foram revelar tudo isso ao seu sen h or. 33 E ntão o seu senhor, cham ando-o à su a p resen ça , d isse-lh e: Servo m alvad o , perdoei-te toda aq uela dívida, porque m e su p U ca ste; 33 não d evias tu tam b ém ter co m p a ix ã o do teu com panheiro, a ss im com o eu tiv e co m p a i­ xão de ti? 34 E , indignado, o seu senhor o entregou aos verd u gos, a té que p a g a sse tudo o que lh e d evia. 35 A ssim v o s fa r á m eu P a i c e le stia l, se de coração não p erd oard es, cad a um a seu irm ão.

Perguntas podem ser tão reveladoras quanto respostas. Duas perguntas apa­ recem no capítulo 18, cada uma delas expressando lacunas sérias na vida, dos discípulos, tanto de entendimento como de espirito (v. 1 e 21). Quem é o maior? Eu preciso perdoar sempre? Jesus res­ pondeu à primeira, j nostrando o interes~ se de Deus pelas crianças e os “peque­ ninos” . Respondeu à segunda, mostran­ do a ílimrEãda misericòrdíârHe Deus para com os pecadores (cf. Schlatter, p. 289). Reconciliação diz respeito ao j:rente, da mesma forma coíncTa Cristo, e não_ 232

conhsçeJim^ites_Jcf. II Cor. 5:18-20). Pedro se predispôs a fazer uma boa pergunta, mas a fez da maneira errada. Ele estava correto ao considerar o assun­ to do perdão de um irmão que o ofen­ dera, mas errado em pensar acerca de limites além do qual a sua responsabili­ dade cessasse. Sete vezes pode ter pare­ cido generoso para ele, mas não ê. Perdão não é tanto um ato, como uma atitude (Robinson, p. 156). e a disposi­ ção para perdoar deve ser ilimitada. ” A frase setenta vezes sete é incerta em um ponto insignificante. O grego pos­ sivelmente poderia ser traduzido “seten­ ta e sete vezes” , em vez de “setenta vezes O problema surge na versão da sete” . LXX, de Gênesis 4:24, que serve de antecedente à passagem sob considera­ ção. O ponto não é importante, pois a intenção não é dizer literalmente setenta e sete ou quatrocentos e noventa. Manter-se contando trairia a falta de um verdadeiro espírito de perdão, não im­ porta quantas vezes se presumisse que uma pessoa devesse perdoar outra. O verdadeiro significado da resposta de Jesus é encontrado apenas quando a pessoa a vê como o reverso da velha lei de vingança, como fora expressa por Lameque (Gên. 4:23,24). Cita-se que Lamequ^ 3isse às síias~3üãs^sposas: “Matei u homem por me ferir, e um mancebo por me pisar. Se Caim há de ser vingado sete vezes, com certeza Lameque o será seten­ ta e sete vezes.” Jesus apresenta o reverso da lei da vingança de Lameque. Em vez de vingança infindável, o discípulojdaKfc, praticar per9ão interminável (cf. 5:3848). Esta parábola contém tanto uma promessa como uma advertência. Ela ~^ ^m ete o perdão de Deus para as dívi­ das do homem, embora sejam enormes. E adverte que o perdão é impossível para aque[equê não perdoa. A parábola do servo desapiedado, encontrada apenas em Mateus, serve 42 Cf. E. J. Goodspeed, Problems of New Testament Translation (Chicago: University, 1945), p. 29-31.


bem para tornar claros a natureza e o com um princípio freqüentemente repe­ princípio do perdão. Ela contrasta a tido por Jesus. O princípio não é arbi­ enorme dívida do homem para com Deuj trário. O verdadeiro perdão nasce no com a msigmtTcância do q ü ê ^ ndemos a coração. É uma atitude, bem como um ato. A incapacidade de perdoar demons­ considerar como os débitos dõs"óutros tra falta de aceitação do princípio do para conosco. A nossa dívida para com Deus é tão grande que nunca poderemos perdão. pagá-la. Estamos inteiramente depen­ Basear o relacionamento com os outros dentes da sua misericórdia, único fator em méritos é negar misericórdia e graça. que nos pode libertar das nossas dívidas. É negar a única esperança do homem, Não é apenas absurdo exigirmos paga­ quando ele se apresenta diante de Deus. mento dos outros sob ameaça de vin­ Não perdoar e ser vingativo é uma con­ gança contra eles, mas é também negar a dição. Tal pessoa não tem condições para única base pela qual podemos esperar receber ou para oferecer perdão (cf. permanecer de pé diante de Deus. A 6:14 e s.). Não existe sinal mais seguro de Fpessoa que não perdoa tem de permaneque uma pessoa verificou o que é con­ Wer sem ser perdoada, porque, ao negar siderar-se pecadora diante de Deus e conheceu as alegrias do perdão do que perdão a outrem, ela demonstra que não I tem condições de ser perdoada. ^ verificar a sua própria misericórdia para í— Jesus deliberadamente pintoi^ um com os outros. A pessoa que é inflexível quadro absurd(^de um homem que devia^ mostra que nunca experimentou o que é “ã cT sêüT iP íim a enorme quantia, man­ obter misericórdia diante de Deus. dando outro para a prisão por causa de 0 perdão precisa ser de coração. A obrigação do discípulo é perdoar incon­ um débito insignificante. Os valores monetários mudam dia a dia, e é impos­ dicional e ilimitadamente. Essa obriga­ sível chegar-se a uma soma que hoje em ção não é governada pela matemática, mas por uma disposição que provém de dia fosse equivalente aos dez mil talentos devidos pelo primeiro devedor, e aos cem Deus. denários, devidos pelo segundo. Quan­ tias próximas de um bilhão de cruzeiros e XII. Casamento, Divórcio, Celi­ dois mil cruzeiros podem pelo menos ser bato (19:1-15) sugeridas como contraste (1981). A ilustração é tirada do mundo pMã<i,, §nL9 ue 1. Introdução (19:1,2) atos punitivos que tais, contra um deve1 Tendo J esu s concluído e sta s p ala v ra s, dor, eram possíveis. No judaísmo, um partiu da G aliléia, e foi para o s confins da judeu apenas podia ser vendido por Ju d éia, a lé m do Jord ão; Z e seguiram -no causa de roubo, e em casos em que a grandes m u ltid ões, e curou-as ali. soma não podia ser inferior ao preço pelo A quarta fórmula de Mateus, mar­ qual o ladrão pudesse ser vendido, e quando o ladrão não podia fazer resti­ cando o fim de um discurso, aparece aqui (cf. 7:28; 11:1; 13:53; 19:1; 26:1). tuição. A venda de uma esposa e a tortura de um devedor eram proibidas Não há separação completa entre mate­ riais de discurso e de narrativa, pois pela lei judaica (cf. J. Jeremias, Parables. grande parte dos discursos, ou discus­ p. 211). A história podia ser contada na Palestina segundo uma perspectiva ju ­ sões, seguem-se imediatamente à fór­ daica, mas aproveitando-se de práticas e mula. No versículo 2, Mateus caracteris­ ticamente chama a atenção para o minis­ ilustrações não-judaicas. A história é tão clara e minuciosa, que tério de cura de Jesus, embora o seu Evangelho esteja cheio de material didá­ o ponto de ser enfatizado dificilmente tico. Marcos, no paralelo a este texto pode ser menoscabado. É consentâneo 233


ca sa r com a repudiada ta m b ém com ete (10:1), caracteristicamente chama a a d u ltério .) atenção para Jesus como mestre, embora inclua mais material de ação do que Esta é a segunda vez que Mateus trata ensino. A despeito de toda a diferença de da questão do casamento e divórcio (veja ênfase entre eles, ambos reconhecem a os comentários a 5:31 e s.). Ambas as importância dos atos e palavras de Jesus. Mateus marca uma significativa tran­ passagens contêm a tão debatida “cláusula-exceção” . Ambas não contêm a sição, quando Jesus começa a aproximarmesma ênfase, pois a primeira focaliza a se, finalmente, de Jerusalém. Jesus aban­ atenção sobre a enorme injustiça feita ao donou a Galiléia, e foi para os confins da se divorciar de uma esposa inocente, Judéia, além do Jordão, isto é, a Peréia. onde a “ cláusula-exceção” é necessária A referência não é clara, pois a Peréia era para a idéia em consideração. Nos versí­ uma região politicamente sob o domínio culos 3-9, toda a questão do casamento e de Herodes Antipas, como a Galiléia. divórcio é abordada mais diretamente, A Peréia era separada da Judéia, porém embora se focalize a atenção sobre a Mateus aparentemente expressa uma óulpa do marido que se divorcia de uma forma popular de se referir a ela como esposa mocente e depois se casa de novo. parte da Judéia. O divórcio recente de Diferenças marcantes aparecem entre Herodes Antipas aguça a referência à os paralelos de Mateus e Marcos (10:2questão do divórcio. 12). Em Marcos a expressão por qualquer Grande parte do material dos capí­ tulos 19 a 25 revolve-se ao redor do tema motivo não aparece na pergunta dos fari­ seus, e as palavras a não ser por causa de de julgamento (cf. Bacon, p. 308-25). A história avança em direção ao julga­ infidelidade não constam na resposta de Jesus (cf. Luc. 16:18; I Cor. 7:10 e s.)_^ mento de Jesus, mas os fariseus e a nação estão também sob julgamento por parte Y^erá que Jesus descartou completamente~ a hipótese do divórcio, ou será que ele daquele que eles acham que estão jul­ gando. Esta longa seção definirá a enor­ reconheceu pelo menos um motivo p a r^ ele? Os estudiosos são quase unânimes me brecha que se alargava entre Jesus e os líderes da nação, e indica o julga­ êm apegar-se à prioridade de Marcos (reforçada por Lucas e Paulo) e sustentar mento daquele e destes. que Mateus incorpora uma modificação 2. Casamento: Sagrado e Indissolúvel, posterior, feita pela igreja, que procura­ Exceto pela Morte (19:3-9) va ajustar o ideal a uma regra praticável. 3 A p roxim aram -se d ele a lg u n s fa riseu s, - Argumentam que não apenas Marcos, Lucas e Paulo preservam a posição mais que o ex p erim en ta v a m , d izen d o : É lícito ao h om em repudiar su a m u lh er por qualquer extrita, mas que até Mateus cita o apelo m otivo? 4 R espondeu-lhes J e su s: N ão te n ­ de Jesus ao próposito de Deus na criação, d es lido que o Criador os fez d esd e o p rin ­ não deixando vasa para a modificação de cípio h om em e m ulher, 5 e que ordenou: P or a não ser por causa de infidelidade. Pode isso d eixará o h om em p ai e m ã e, e unir-se-á à su a m ulher; e serã o o s dois u m a só c a m e ? ser apresentada uma defesa melhor da 6 A ssim já n ão são m a is d ois, m a s u m a só “cláusula-exceção” de Mateus? O míni­ carne. P ortanto, o que D eu s ajuntou, n ão o mo que pode ser dito é que mais apoio à sep are o h om em . 7 R esp on d eram -lh e: E n ­ cláusula de Mateus pode ser conseguido tão por que m andou M oisés dar-lhe ca rta do que foi citado acima, ou dado a de divórcio, e repudiá-la? 8 D isse-lh es ele : P e la dureza de v o sso s co ra çõ es M oisés vos entender. perm itiu repudiar v o ssa s m u lh e r e s; m a s não Os antecedentes para a forma em que foi a ssim d esde o princípio. 9 E u v o s digo, Mateus apresenta a pergunta dos fari­ porém , que qualquer que repudiar su a m u ­ seus são fáceis de encontrar. As escolas lher, a não ser por ca u sa de in fid elid ad e, e ca sa r com outra, com ete ad u ltério; (e o que de Shammai e Hillel, no tempo de Jesus,

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debatiam as bases para o divórcio, assu­ mindo diferentes posições na sua inter­ pretação de Deuteronômio 24:1 (cf. Gittim, 9:10). A passagem em Deutero­ nômio presume a prática do divórcio e pretende regulá-la. Presume o direito de um marido divorciar-se de sua esposa “se ela não achar graça aos seus olhos, por haver ele encontrado nela coisa ver­ gonhosa” . As escolas de Shammai e Hillel deba­ tiam o significado de “coisa vergonhosa” ou “alguma indecência” . A frase em he­ braico é de significado incerto, mas aparece também éifr^ Deuteronômio 23:14, onde literalmente diz: “a nudez de uma coisa” . A escola de Shammai enfatizava a palavra “nudez,” e a inter­ pretava como falando de adultério, fa­ zendo dessa a única base para o divórcio. A escola de Hillel preferia basear a sua exegese na palavra “ coisa” , e desta for­ ma encontrara um texto-prova para fazer com que qualquer coisa servisse como motivo para o divórcio. Para a escola de Hillel a “coisa” podia ser, por exemplo, o fato de a esposa ter queimado a comi­ da, de o marido ter visto uma mulher que lhe agradasse mais, ou de a esposa levar o marido a comer algo que não havia sido antecipadamente dizimado. A frase, em Deuteronômio, aparente­ mente se refere a “procedimento imodesto ou indecente” , mas não ao adultério, pois, se assim fosse, isso se enquadraria em uma penalidade mais severa do que o divórcio pelo primeiro marido (Driver, p. 271). Seja qual for a intenção da lei, o certo é que no tempo de Jesus a escola de Shammai assumira o ponto de vista mais extrito, de que o divórcio só é permitido quando do adultério da esposa, e que a escola de Hillel assumira o ponto de vista liberal de que o homem podia divorciarse de sua esposa por qualquer causa. Não há nenhuma evidência de que os 43 S. R, Driver, D euteronomy, “ The International C riti­ cal C om entary” (3® ed.; Edinburgh: T. & T. Clark, 1902), p. 269 e ss.

fariseus da época questionassem o divór­ cio em si. Tanto em Mateus como em Marcos, Jesus foi além de Deuteronômio 24:1, e expandiu a intenção de Deus na criação do homem (Gên. 1:27; 2:24). Ele obser­ vou que desde o princípio Deus fizera homem e mulher, prescrevendo que por amor ao casamento o homem devia deixar pai e mãe, e que ele unir-se-á à sua mulher e serão os dois uma só carne. Esta união ele reconhecia como obra de Deus, que não podia ser desfeita pelo homem. Separar é obra do homem, e não de Deus. Dizendo que serão os dois uma só carne, Jesus não deu a entender que a individualidade se perde no casamento, da mesma forma como não se perde na redenção, quando um discípulo se faz um com Cristo (cf. 25:40). A individua­ lidade encontra cumprimento no casa­ mento, mas, paradoxalmente, os dois se tornam um. A união física externa é santificada por uma união espiritual pes­ soal, que é indissolúvel, exceto pela morte. Os fariseus apelaram para o que man­ dou Moisés (Deut. 24:1). Jesus coloca o mandamento em sua verdadeira perspec­ tiva, afirmando que Moisés permitiu o divórcio pela dureza de vossos corações (veja Mar. 10:2-8, para a ordem reversa em relação a Moisés e à criação). O divórcio era comumente praticado, e a regra de Deuteronômio procurou regu­ lá-lo, propiciando à esposa alguma pro­ teção. Até então a esposa fora conside­ rada como propriedade do homem. A carta de divórcio pelo menos provaria que o marido abrira mão de seus direitos legais sobre a esposa que mandara em­ bora de casa. Isto significava que a espo­ sa repudiada podia procurar um novo lar ou relação. Sem o certificado de divórcio, outro homem podia ser acusado de rou­ bar ou violar os direitos de propriedade do primeiro marido, se tomasse a mulher como sua esposa ou serva. Desta forma, a escritura de divórcio tinha em vista 235


colocar alguns limites sobre o marido, e dar à esposa alguma proteção. Jesus atalhou tudo isto, baseando a natureza e a indissolubilidade do casamento na intenção de Deus, ao criar o homem. B. H. Streeter argumenta que a seção de Mateus acerca do divórcio é “narrada mais naturalmente e está mais intima­ mente relacionada com o uso judaico do que o paralelo em Marcos” . Ele obser­ va que a questão do divórcio por qual­ quer motivo era, na verdade, debatida na época, mas que o direito de se divorciar, como tal, não o era. Ele sugere que Mateus pode ter empregado uma fonte independente de Marcos, uma versão paralela, que Streeter chama de “M ” , com material peculiar a Mateus. Ao achar Mateus, neste ponto, mais primi­ tivo do que Marcos, Streeter seguiu R. H. Charles, que argumenta fortemen­ te em favor da originalidade do relato de Mateus. O debate continuará entre os intér­ pretes, quanto ao fato de Jesus simples­ mente ter tomado o partido da escola de Shammai, contra a de Hillel, ou que ele simplesmente desaprovou totalmente o divórcio. Pelo menos é claro que, ao remontar à criação, ele afirmou, sem ambigüidades, que a intenção de Deus para o casamento é cumprida apenas ná união vitalícia de marido e mulher, que não deve ser dissolvida pelo divórcio. Ao chamar a união matrimonial de ato de Deus unindo os dois, Jesus não disse que alguns casamentos não são feitos por Deus, e por isso podem ser dissolvidos. Pode haver “casamentos” que Deus não fez, mas esta passagem não nos autoriza a dissolver nenhum casamento, dizendo que Deus não o fizera. Há abdicações e obrigações em todo casamento, que podem não ser renunciadas sem prejuízo de todas as pessoas envolvidas. 44 The F ou r G ospels, A S tu d ; of O rigins (London: M ac­ millan, 1924), p. 259. 45 The T eaching of th e New T estam ent on Divorce (L on­ don: W illiams & N orgate, 1921), p. 85 e ss.

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É significativo que Jesus discutiu o casamento sem subordinar a mulher a um papel secundário. Os dois se tornam um. Jesus não reconhecia um padrão duplo para homem e mulher, marido e esposa. O judaísmo permitia que o ho­ mem se divorciasse de sua esposa, mas não permitia que a esposa se divorciasse do seu marido, como era permitido no mundo romano. Jesus contendeu pela permanência do casamento monogâmico, honrando igualmente marido e espo­ sa. Os romanos davam aos maridos e às esposas igual direito de se divorciarem; Jesus deu aos maridos e às esposas igual direito (e responsabilidade) para per­ manência no casamento. A palavra traduzida como infidelidade (porneiai) é geralmente traduzida como “fornicação” , e pode denotar impureza anterior ao casamento. Etimologicamen­ te, o termo se refere à venda do corpo em sexualidade. Desta forma, pelo menos durante algum tempo, porneia designou prostituição ou impureza pré-marital, enquanto moicheuai designava adultério: sexualidade ilícita dentro do casamento e contra ele. Mais tarde as duas palavras passaram a ser usadas indiferentemente. Se porneia, em Mateus, retém o seu primitivo sentido ou não, é incerto. Em caso afirmativo, a “cláusula-exceção” refere-se a uma infidelidade pré-marital, tornando possível o que hoje em dia se chama de anulação. Na época de Jesus, chamava-se divórcio, pois até o noivado era um contrato legal (e freqüentemente financeiro), que só podia ser rompido através do divórcio (cf. 1:18 e s.). Portanto, é possível que até a “cláu­ sula-exceção” se relacione com o que chamaríamos de causa de anulação, e não de divórcio, e, até baseando-se em Mateus, não é absolutamente cerjo que Jesus possa ser citado como tendo auto­ rizado novo casamento seguindo-se ao__ divórcio. Se, de alguma forma, se pode "apelar a Jesus, para uma segunda opor­ tunidade no casamento, é mais provável que seja em termos da sua misericórdia


e graça, e não nos de sua declaração/ explícita. Jesus sustentou claramente! apenas um ideal, de que o casamento | monogâmico não pode ser rompido. Para | os que o romperam, em qualquer senti- i do, e em todos o sentidos, ele ofereceu perdão. Mas isto é ir além do texto. | 3. Celibato e Suas Exigências (19:10-12) 10 D isseram -lh e os d iscíp u los: Se tal é a condição do hom em rela tiv a m en te à m u ­ lher, nào convém ca sa r. 11 E le , porém , lh es d is s e : N em todos podem a ce ita r e sta p a la ­ vra, m a s som en te a q u eles a q u em é dado. 12 P orque há eunucos que n a sce r a m a s s im ; e há eunucos que p elos h om en s foram feitos t a is ; e outros há que a si m e sm o s se fizeram eunucos por ca u sa do reino dos céu s. Quem • pode a ceita r isso , aceite-o.

Os discípulos acharam que o padrão de Jesus para o casamento era tão ele­ vado que questionaram se haveria sabe­ doria em se casar. Eles não apenas esta­ vam assustados com as exigências do casamento, mas também o encaravam apenas do ponto de vista do homem. Disseram que não convém casar se for esta a condição do homem para com sua esposa. Aparentemente, eles queriam dizer que o homem não devia se casar, se do casamento não pudesse escapar. Não falaram nada acerca do perigo em que a mulher cairia ao tomar um esposo inde­ vido. Especularam que era melhor o homem ficar solteiro do que se arriscar aos envolvimentos do casamento. A alternativa ao casamento é o ceUbato. Jesus deu lugar a ambos como honoráveis e apropriados para o disci­ pulado. Contudo, advertiu que as exigên­ cias do celibato são grandes, da mesma forma como as do casamento. Alguns estão incapacitados para o casamento por causa de impotência ou dano físico. São os que são eunucos que nasceram assim ou os que pelos homens foram feitos tais. Nas cortes reais, especialmen­ te, havia escravos que eram feitos eunu­ cos mediante cirurgia, para que não se tornassem uma ameaça para a família do seu senhor. Aqueles que a si mesmos se

fizeram eunucos por causa do reino dos céus são os que abrem mão do casamen­ to, tendo em vista uma vida dedicada mais plenamente ao serviço de Cristo. Quando Jesus falou do casamento e do celibato, não disse que um era moral­ mente mais elevado do que o outro, ou que um oferecia maiores oportunidades de discipulado que o outro. Cada um deles é üma escolha honrosa, a ser feita em acordo com o foro íntimo. O celibato é uma escolha vocacional válida do seguidor de Cristo, mas é ape­ nas para quem pode aceitar isso, isto é, que pode enfrentar as suas exigências. O casamento não é um mal a ser enxotado, mas algo bom a que abdicam aqueles que desejam cumprir o discipulado em celi­ bato. O celibato é sancionado como esco­ lha vocacional, mas não por razões ascé­ ticas. O casamento monogâmico como união vitalícia e o celibato pelo amor do reino, são ambos honrosos e elevados em suas exigências. 4. O Acesso das Crianças a Cristo (19: 13-15) 13 E n tão lh e trou xeram a lg u m a s cria n ­ ç a s, para que lh e s im p u se sse a s m ã o s, e o r a s s e ; m a s os d iscip u los os rep reen d eram . 14 J e su s, p orém , d is s e : D eix a i a s cria n ça s e não a s im p e ç a is de v ir e m a m im , porque de ta is é o reino dos céu s. 15 E , d epois de lh es im por a s m ã o s, partiu dali.

Este belo quadro de Jesus recebendo ternamente as crianças é uma feliz con­ clusão da seção acerca do casamento, divórcio e celibato. Ele é apenas man­ chado pela impaciência dos discípulos, que os repreenderam (às pessoas que trouxeram as crianças). Jesus deu aten­ ção às criancinhas, da mesma forma como havia dado às mulheres, aos po­ bres, aos doentes, a publicanos e peca­ dores, judeus e gentios. As crianças de­ viam ter livre acesso a ele, e ninguém devia impedi-las de se aproximarem dele. Esta passagem não pode ser usada validamente como texto de prova para o batismo infantil. S6 quando o reino dos céus foi confundido com a Igreja é que 237


este texto foi aplicado ao batismo (cf. McNeile, p. 277). O texto nada diz acer­ ca de igreja ou batismo eclesiástico; e fala de crianças (paídia), que devem ter a permissão de virem, e não de crianças trazidas para serem batizadas.

XIII. Repreensões ao (19:16 — 20:34)

Egoísmo

gran d em en te m aravilh ad os, e p ergu n ta­ ram : Q uem pode, en tã o , se r salvo? 26 J esu s, fixando n e le s o olhar, resp o n d eu : Aos hom ens é isso im p o ssív el m a s a D eu s tudo é p o ssív el. 27 E n tão P ed ro , tom ando a p a la ­ vra, d isse-lh e: E is que nós d eix a m o s tudo, e te seg u im o s; que reco m p en sa , pois te r e ­ m os nós? 28 Ao que lh e d isse J e su s: E m verd ad e v o s digo a vós que m e se g u iste s, que na reg en era çã o , quando o F ilh o do hom em se a ssen ta r no trono d a su a g lória, sentarv os-eis ta m b ém vós sobre doze tronos, para julgar a s doze tribos de Isra el. 29 E todo o que tiv er d eixad o c a sa s , ou irm ã o s, ou ir ­ m ã s, ou p ai, ou m ã e, ou filhos ou terra s, por am or do m eu n om e, receb erá ce m v e zes tanto, e herdará a v id a e te m a . 30 E n treta n ­ to, m u itos que são p rim eiro s serã o ú ltim o s; e m uitos que sã o ú ltim os serã o p rim eiros.

A comparação de 19:30 e 20:16 des­ venda o fato de que a história do jovem rico e a parábola dos trabalhadores na vinha devem, segundo as intenções de Mateus, ser lidas juntamente. Cada uma delas terminou com “últimos serão pri­ meiros e primeiros, últimos” . A seqüên­ Esta história é encontrada também cia e as conexões não são tão óbvias com em Marcos (10:17-31) e Lucas (18:18relação às outras unidades desta seção. 30), com variações em cada Evangelho. Os nossos esboços ou agrupamento de Mateus chama o inquiridor de jovem e materiais não expressam, necessaria­ Lucas o identifica como um “dos princimente, em todos os casos, o senso de pais” , possivelmente um dos chefes da ordem do próprio Mateus. As nossas "smãgoga. Os três Evangelhos o descre­ próprias necessidades de estudo nos com­ vem como rico e localizam o problema pelem a procurar uma ordem, e a adver­ nessa condição. No judaísmo havia dois tência contra as várias expressões de o o n to ^ _ ^ ^ ^ i^ a ^ jm rela ç ão à riqueza: egoísmo parecem ser um “Leitmotiv” por Cum^consideran3õ-a um-SÍnal de piedade e gST ^ f ^ y f ,^ f a vor divino., e o püír^vendo-a cõrnõ ímpiedadeTTêsus não viu ne1 .‘O ‘ O Perigo das Riquezas (19:16-30) sinal de ímpiedadeTTesus fnhum mai na riqueza em si mesma, mas 16 E e is que se aproxim ou d ele u m jo v em , e lhe d isse: M estre, que b em fa r e i p ara co n ­ \ a considerava como uma grande ameaça seguir a vid a e te m a ? 17 R espondeu-lhe e l e : l para a pessoa que a possuísse. Embora P or que m e p ergu n tas sobre o que é bom ? ele estivesse grandemente interessado nos U m só é b o m : m a s, se é que q u eres entrar pob r ^ , e fizesse da preocupação pelos na vid a, guarda os m an d am en tos. 18 P e r ­ pobres um teste de afinidade consigo (cf. guntou-lhe e le : Q uais? R espondeu J esu s: 25:31-46), o objetivo desta passagem jião N ão m a ta rá s; não ad u ltera rá s; não furtará s; não dirás fa lso testem u n h o; 19 honra a é apontar jsto. Antes de tudo, aqui Jesus teu pai e a tua m ã e ; e a m a r á s o teu próxim o estava interessado no que o dinhèiroTãz com o a ti m esm o . 20 D isse-lh e o jo v em : à pessoa que o possui, e em seguida no Tudo isso tenho guardado; que m e fa lta que o homem faz com o dinheiro. ~ ainda? 21 D isse-lh e J e su s: Se queres ser Jesus baseou o _ d isd g u la^ n a com pl^ perfeito ,vai,ven de tudo o que ten s e dá-o aos pobres, e terá s u m tesouro no céu ; e v em , ta dependência de Deus. E por isso que segu e-m e. 22 M as o jo v e m , ouvindo e ss a os pobres, os “pequeninos", as crianças, p alavra, retirou-se triste; porque possuía os publicanos e “pecadores” têm vantam uitos bens. 23 D isse então J esu s aos seu s d iscíp u lo s: gen^ Eles conhecem a sua deficiência, a E m verd ad e vo s digo que im i rico d ificil­ sua necessidade e a sua completa depen­ m ente en trará no reino dos c é u s. 24 E outra dência de Deus. A posse de dinheiro ' vez vos digo que é m a is fá c il um cam elo tende a dar à pessoa um falso senso de pa ssa r pelo fundo dum a ag u lh a , do que segurança, e menos disposição de confiar entrar um rico no reino de D eu s. 23 Quando em Deus. Jesus procurou libertar o ho­ os seu s d iscíp ulos ouviram isso , fica ra m 238


mem _da Jirania_ das _ coisas matgriais^ levandoro a ^ car sob a soberania de Deus, único lugar em que há lib e rd ^ e ^e O jovem rico estava longe da vida etema, embora sinceramente a buscasse. Ele senBã-sTWnfiante pelo fato dê ter guardado (ephulaxa) todos os manda­ mentos. Na verdade, ele estava fazendo papel de negociante, na procura séria da vida eterna; mas, como bom negociante, ele não estava disposto a pagar mais do que pensava q u ^ l a valia.Ã sü ã ã E o rd a"^em egocêntrica ou egoísta é o exato oposto da autonegação, do caminho da cruz, sem a qual ninguém pode seguir ^ Jesus (cf. 16:24 e s.). Ele dirigiu-se a Jesus, procurando a vida eterna, à pessoa certa, procurando as coisas certas; mas retlrou-se sem ter obtido o que procura­ va. Ele era possuído pelo que possuía. Principalmente, ele era possuído por si mesmo, e fracassou devido à sua indis-" posição de entregar tudo, para seguir a Jesus. Ele não aprendeu que todo lucro coineça com a perda. A tradução farei expressa bem a força da pergunta no versículo 16. Mais ainda, ele perguntou: “Que preciso fazer para adquirir (schõ) a vida eterna?” Da mes­ ma forma, a tradução Que recompensa, pois, teremos nós? .rouba um pouco a clareza da pergunta de Pedro., Ele per­ guntou: “Que se rá ^ e nós?” Ambas as perguntas são egoístas. “Que_será de m im P T isõ contradiz o princípicTMsico Sa^^om, e se afasta, ao invés de se aproximar da qualidade de vida encon­ trada em Jesus. Paradoxalmente, vida”^ etema pertence à pessoa que perde a sua vida por amor de Cristo, e não à que procura “ganhá-la” . Jesus repreendeu o espírito negocista que persistia em Pe­ dro, e que triunfou no jovem rico. ___ Mateus evita a maneira de Marcos mencionar a forma por que aquele jovem se dirigiu a Jesus: “Bom Mestre” , e a resposta dele: “Por que me "Chamas bom?” (10:17 e s.). Possivelmente, ele o fez para impedir os leitores de entende­

rem que Jesus estivesse negando o fato de ser bom. Nem_.em-MarcQs nemjem^Mateus Jesus dá a entender que não é bom.  idéia é de que a bondade reside em Deus apenas, e não no que o homem faz. bondade pode ser expressã^m fazer,? mas faz parte essencialmente do ser. istoC é, do que a pessoa, é. Antes de tudo, ela J faz parte do que Deus é . De duas maneiras parece que Mateus vai além de Marcos, em sua ênfase quari^ to aos atos; ao mencionar Jesus quando diz ao jovem rico que ele precisa guardar os mandamentos, se quiser entrar na vida (v. 17), e ao estabelecer as condições sob as quais ele poderia ser perfeito (v. 21). Em _Marcos, o homem é simples­ mente levado a recordar que conhece os mandamentos, e lhe é dito que ainda lhe faltava uma coisa (10:19,21). Em parte, isto reflete a grande ênfase que Mateus da àse^gências tanjo-giianto às^dádixas. na salvação. As exigências são dadas a entender em Marcos, mas não de manei­ ra tão explícita. Em Mateus, tanto q u a n ^ To em Marcos, a vida etem a é determi­ nada, finalmente, não pelõ~fãi5°°de se" f a r d a r os mandamentos, mas pela dis­ posição de se render tudo a Jesus, e ----segui-lo. ^“ “ Embora a g e rtó ^ ^ p e rm a n e ç a sendo a exigência (v. aTjondade se encon­ tra apenas em Deus, e por isso está além do alcance do homem (cf. Lohmeyer, p. 286). Aqui outra vez encontramos, em Mateus, lado a lado, a exigência absoluta de Deus (y. 17, 21^ e, no entanto, a total dependência do homem, de Deus, em quem, somente, existe bondade (v. 17) e em quem, somente, há poder para salvar (v. 26). A cláusula se queres ser perfeito pode dar a implicação de que Mateus consi­ dera dois^raus_de_discÍ£uto^ os que têm vida eierna, e os que são perfeitos (teleios). Isto não se entrevê em nenhuma outra parte de Mateus, e, em 5:48, a ordem “seia perfeito” é dada a todõi~os discípulos. Jesus não separou os seus seguidores em dois grupos; os comuns e 239


os esforços para interpretar camelo como cs perfeitos. Ele, isso sim, enfatizou per­ sendo uma confusão com um cabo de feição como o ideal para todos, mesmo navio ou corda,. e fundo duma agulha que ninguém o alcance. As palavras como referência a uma pequena porta no mencionadas por Mateus, se queres ser muro de Jerusalém é pura fantasia, sem perfeito, são a contrapartida das de nenhum suporte de evidências. Jesus Marcos: “Uma coisa te falta.” Nem usou uma hipérbole deliberada. A intenT Mateus nem Marcos apresentam o ho­ mem como possuidor da vida eterna. 'çao era representar a salvação de um homem rico como nada menos do que Nenhum discípulo é considerado perum milagrç^, possível apenas para Deus. feitõ^ Seria um milagre um camelo, o maior “' ’Os”mandamentos citados são basica­ animal da Palestina, passar pelo fundo mente os da segunda tábua do Decálogo, duma agulha. que dizem respeito primariamente ás relações do homem com o homem. MaSó o poder de Deus pode libertar o teus segue Marcos 10:19, mas omite “a homem da tirania das coisas materiais, e ninguém defraudarás” , que não é encon­ levá-lo à verdadeira liberdade, que é trado no Velho Testamento. O fraseado conhecida tão-somente no reino (reina-J de Mateus é mais próximo do hebraico ido) de Deus. Esta passagem se relaciona em Exodo 20:12-16, com a adição do não apenas com a necessidade que o mandamento para amar o próximo como homem tem de salvação, mas tambem a si mesmo, que é tirado de Levítico cõürõsrêquisitõs^depeuspara a retidão, 19:18. tão proeminente através de todo o Evan^ Quais? (poias) pode conter o signifi­ ^elho. Mateus demonstra que tanto a cado de “ de que espécie?” mas esta não ■ salvação como a retidão são possíveis parece a intenção do versículo 18. apenas mediante o poder de D e u s . _____ A ordem para vender e dar obviamente ‘ Jesus não indicou que uma soma fixa expressa interesse pelos pobres, mas essa fizesse a diferença entre um homem rico não era a preocupacão básica de„lesus., neste caso. Era, isto sim, libertar o moço _e um pobre. Este é um assunto relativo. A mesma pessoa é rica pelos padrões de rico das muletas das riquezas. Jesus não uma comunidade, e pobre pelos padrões cõbrãvã'dêTõ3bs õs~cãndidãtos a discí­ de outra. Um homem pobre pode estar pulo a entrega das propriedades. Parece escravizado aos seus tostões; todavia. que Pedro tinha uma casa (8:14) e um quanto maior a riqueza, mais provável é barco (João 21:3), e José de Arimatéia que o seu possuidor lhe dê o seu coração, era um homem rico e discípulo de Jesus . em amor e confiança. (27:57). É significativo que Jesus não (P ed ro ):onfiantemente apontou para os tinha forma estereotipada de dirigir-se às sacrifícios que ele e os seus condiscípulos p e s i^ s TÇãdãTTima era indivi^iiar, e ele haviam tèito a fim de seguir a Jesus. Ise dirigia ao âmago do problema de cada Depois, fez uma pergunta que traiu a grande distância a que ele estava de Jesus ______ ___ ^ _____ma da vida do Uovem rrco eraT dinheiro, e Jesiís õ desa(cf. 26:58). Que recompensa, pois, tere­ ItTòTnesàVpontio. Foi através desse teste mos nós? é, literalmente: “Ql que, .pois, / / ^ w ique o moço rico pôde descobrir se queria há de ser de ngs?” “O que é que vamos f 1 2 realmente ou não a vida que lhe era tirar disto?” Pedro estava “sendo ’salvo” "colocada à disposição, de seguir a Jesus. (cf. I Cor. 1:18), mas a maior parte da Jesus espantou os discípulos ao decla­ sua peregrinação ainda estava para ser rar que um rico difícilmente entrará no feita. A sua pergunta era mais pagã do. que c m tã . Foi egocêntrica. ( Jesu sjdeu reino dos céus. Ê mais fácil um camelo üm a resposta paciente, todavia pesada. passar pelo fundo duma agulha. Todos 240


dramática e forte de assegurar aos seus tanto com julgamento quanto com pro­ discípulos que Deus é muito mais gene­ messa, advertência e segurança. roso em suas recompensas do que o ho­ Jesus (^'rimeiramenté^ assegurou a mem merece. Ninguém pode exceder Pedro que Deus iria recompensar ampla­ mente o seu povo. Sa regéiiéíáção (palig- ISeÜs em dar. Regeneração, vida etergenesíai), o discípulo poderia ter a certe­ na e recompensas muito além do cus­ za de ganhar cem vezes mais do que os to do discipulado são certezas para aque­ les que estão dispostos a entregar tudo, custos do discipulado. A palavra paligpara seguir a Jesus., genesia traz consigo a idéia de renovação Mas Jesus tinha mais a dizer em res­ ou renascimento. A regeneração é lin­ guagem bíblica para designar este mun- posta a Pedro. Embora as recompensas do discipulado sejam certas e generosas, do^ seja transformado, seja substitmdo haverá muitas ,^uggre^s.^ Muitas posi­ por outro,.depois da sua destru!Hõ°(Is. ções na regeneraçao serão opostas às do '65:17; 66:22; Rõín. 8 :lT 2 irB á l. 6:15; II Ped. 3:13; Apoc. 21:1-5). Não é a presente. "MüTtor^que parecem ser priintenção desta passagem d e s c r e ^ ou miTros serão últimos, e muitos últimos serão primeiros. A parábola a seguir discutir esse mundo novo como tal, mas termina com o mesmo princípio e é a sua assegurar aos discípulos as grandes bênexplicação. As recompensas serão maio- ' ç a o s ^ depósito para eles. _________ é um estado em que res para aqueles que não buscam recom­ res pensa, e menores para aqueles que estão o Filho do liomem se assenta no trono da preocupados com recompensas. A pessoa sua glória, e em que os discípulos, pos­ “conseguirá” tudo o que merece; mas sivelmente os apóstolos, se assentarão se a sua preocupação é com “O que será sobre doze tronos, para julgar as doze de mim?” a sua recompensa será peque­ tribos de Israel. Embora a intenção seja na. séria, isso nâo deve ser forçado em senti­ do literal. Em outras partes, assegura-se. 2. Trabalhadores na Vinha: Os Primeiros a todos os seguidores de Jesus que eles por Ültimo, Os Ültimos Primeiro reinarão com Cns!õlTOeT °12?3^7^*q^ (20:1-16). S5 santo's~jirigárao^ o niundo (I Cor. 6:2). EstaUão é uma promessa de que as doze 1 Forque o reino dos céu s é sem elh a n te a um h o m em , p roprietário, que saiu de m a ­ tribos de Israel originais serão revivificadrugada a contratar trab alh ad ores para a das, pois Jesus veio para criar os verda­ sua vinha. 2 Ajustou co m os trabalhadores deiros “filhos de Abraão” , da fé, e não o salário de um denário por d ia, e mandouda carne. os p ara a su a vinha. 3 C erca da hora terceira Há intérpretes que visualizam um rei-^ saiu, e v iu que e sta v a m outros, o cio so s, na no literal na Palestina, com tronos lite­ p raça, 4 e d isse -lh e s: Ide ta m b ém v ó s p ara a vinha, e dar-vos-ei o que for ju sto . E e le s rais para Jesus e os doze apóstolos. Esta foram . 5 Outra v ez sa iu , ce r c a d a hora sex ta ou qualquer outra interpretação literal e da nona, e fez o m e sm o . 6 Igu alm en te, pode ser comparada com o resto da cerca da hora u n d écim a, sa iu e achou outros passagem em consideração. Se esses te r^ que lá esta v a m , e perguntou-lhes: P o r que esta is aqui o ciosos o dia todo? 7 R esp on d e­ f~mos devem ser tomados em sentido lite­ ram -lhe e le s : Porque n in gu ém nos co n tra ­ ral, será que a mesma coisa se aplica à tou. D isse-lh es ta m b ém e le : Ide tam b ém promessa de cem vezes mais em pais, vós p ara a vinha. 8 Ao an oitecer, d isse o irmãos, irmãs, filhos e terra? Lucas senhor d a vinha ao seu m o rd o m o : C ham a os trabalhadores, e p a g a -lh es o sa lá rio , c o m e­ inclui “esposa” na sua lista! Certamente çando p elos ú ltim os a té o s p rim eiros. 9 C he­ Jesus não prometeu cem esposas para gando, pois, os que tin h am ido c e rc a da hora í c a d a seguidor. Literalizar é obviamente u n décim a, receb era m u m denário cad a um . trivializar, e perder de vista a intenção de 10 Vindo, en tão, os p rim eiros, p en sa ra m que ha v ia m de receb er m a is; m a s do m esm o Jesus. A sua resposta foi uma forma 241


m odo receb era m um denário ca d a um . 11 E , ao recebê-lo, m u rm u ravam contra o proprietário, dizendo: 12 E ste s ú ltim os trab alh aram so m en te u m a hora, e os ig u a ­ la ste a nós, que suportam os a fa d ig a do dia inteiro e o forte calor. 13 M as e le , respon­ dendo, d isse a u m d e le s : A m igo, não te faço in ju stiça; não a ju sta ste com igo u m d en á­ rio? 14 T om a o que é teu , e v a i-te; eu quero dar a e ste últim o tanto com o a ti. 13 N ão m e é licito fazer o que quero do que é m eu? Ou é m au o teu olho porque eu sou bom ? 16 A ssim os últim os serã o p rim eiro s, e os prim eiros serão últim os.

Stephen Langton, em 1228, ao estabe­ lecer a moderna divisão em capítulos, bem poderia ter evitado separar 20:1-16 de 19:16-30. A parábola explica o prin­ cípio de que os primeiros serão últimos e os últimos primeiros. O motivo da re­ compensa é solidamente baseado nos ensinos de Jesus, mas é importante veri­ ficar que, para os seguidores de Jesus, “a recompensa se torna cada vez mais a coroa, em vez de o motivo do serviço, e também ela não é de tal sorte a atrair o homem centralizado no eu” (Cox, p. 125). A parábola ensina a manifestação de motivos e atitudes quanto ao assunto de recompensas. O ditado acerca dos “primeiros por último e os últimos em primeiro lugar” era provavelmente um provérbio empre­ gado em várias situações (cf. 19:30; Mar. 10:31; Luc. 13:30). Pode ser visto, da introdução da parábola, pela palavra porque (v. 1), e da introdução do segun­ do emprego do provérbio (v. 16), pela palavra assim (houtõs é um advérbio que significa “desta forma”), que Mateus pretendia relacionar a parábola e o pro­ vérbio à discussão com Pedro. Havia, nos tempos de Jesus, um largo uso de um provérbio de “primeiros por último e últimos em primeiro lugar” , para enfatizar igualdade, e isto algumas vezes foi aplicado ao uso de Mateus, verificando-se que o significado é que as recompensas são todas iguais no reino dos céus. Em IV Esdras 5:42, o juízo é comparado a uma “ dança redonda” , um 242

círculo em que ninguém é primeiro ou último. Ê verdade que na parábola todos os trabalhadores receberam o mesmo salá­ rio, mas esse não é o ponto que ela deseja provar. Ela aponta para o fato da liber­ dade e da generosidade do proprietário, ao dar um salário de um dia aos traba­ lhadores que haviam trabalhado apenas uma hora. É um a defesa da graça livre do evangelho, contra os protestos dos que tropeçam quanto a isto (cf. J. Jeremias, Parables, p. 33-38). Da mesma forma como alguns trabalhadores murmura­ vam contra o proprietário, por ter pago aos últimos o mesmo que eles receberam, Jesus era constantemente criticado por receber pecadores (cf. Luc. 15:1 es.). Embora a parábola, em seu contexto imediato, provavelmente enfatizasse a generosidade de Jesus em contraste com os seus críticos, em Mateus ela serve a um propósito ulterior. É uma repreensão contra o espírito negocista, encontrado no moço rico, e que ainda era um pro­ blema para Pedro, e a característica dos trabalhadores que murmuravam contra o proprietário. Os primeiros trabalhadores tinham um trato com o proprietário, pois ele tyustou com eles o salário de um denário por dia. Que o fato de um con­ trato é importante para a história, é claro do fato de o proprietário ter feito um deles se lembrar que eles haviam feito um contrato, e que ele fora observado, e que agora ele podia ir-se (v. 14). Só os últi­ mos trabalhadores, aqueles que haviam trabalhado apenas uma hora, não ha­ viam feito contrato nenhum. Eles sim­ plesmente responderam ao chamado para trabalhar na vinha. Os primeiros lavradores concordaram em trabalhar o dia todo por um denário. Este era o salário diário médio de um trabalhador comum, baixo, segundo os nossos padrões, contudo, mais substan­ cial do que pode dar a entender o dinhei­ ro equivalente a cerca de mil cruzeiros (quatro denários compravam uma ove­ lha). O segundo grupo foi empregado à


hora terceira, segundo a forma judaica de medir o tempo, contando-se do nascer do sol ao ocaso. A esses fora prometido o que for justo, presumivelmente uma boa porcentagem do salário de um dia. O mesmo contrato foi acordado com os tra­ balhadores que foram empregados à hora sexta (meio-dia) e à hora nona. Os últimos trabalhadores foram empregados à hora undécima, apenas uma hora antes do pôr-do-sol. Eles explicaram a sua ociosidade como devida a não terem tido oportunidade de trabalhar. O proprietá­ rio disse: Ide também vós para a vinha. Manuscritos posteriores acrescentam a promessa dada ao grupo de trabalha­ dores que começou no meio do dia; mas esta não é encontrada nos melhores ma­ nuscritos, e a adição obscurece um prin­ cipal ponto da parábola. Esses últimos não haviam ajustado nada, e nada pedi­ ram. Ao anoitecer, o senhor da vinha ins­ truiu o mordomo (idêntico ao chamado proprietário) para pagar os trabalha­ dores, começando pelos últimos e termi­ nando com os primeiros. Receberam um denário cada um. Vendo a genero­ sidade do senhor, os primeiros ansiosa­ mente previram uma grande soma, pois haviam trabalhado longas horas, e ha­ viam suportado o calor do dia. Ficaram não apenas desiludidos, ao não rece­ berem mais, mas murmuravam porque aqueles que trabalharam apenas uma hora haviam sido igualados a eles. O proprietário lhes fez lembrar o ajuste feito: um denário por dia. O trato havia sido honrado de ambos os lados, e fora cumprido. O proprietário defendeu a sua liberdade e direito de ser generoso para com aqueles que haviam trabalhado sem ajuste. Um marcante contraste é observado entre aqueles que resmungaram e aquelfe que exerceu generosidade. “M urm urar” é tradução da palavra grega que literal­ mente pode ser traduzida: Ê mau o teu olho? Olho mau era uma expressão para

designar inveja ou avareza (cf. 6:23; Mar. 7:22). Aplicando-se ao moço rico e a Pedro, isto significaria que a atitude e a motiva­ ção afetam a recompensa. Jesus chamou seguidores que não pedissem nenhum “ajuste” , pessoas cuja preocupação não fosse o que iriam “receber” . O discípulo, bem como o “ negocista” receberão tudo o que lhes for devido, mas o negocista sempre ficará insatisfeito com o que receber. As maiores recompensas são para aqueles que não procuram recom­ pensa. Jesus está procurando aqueles que pedem apenas a oportunidade de traba­ lhar na sua vinha. A sua generosidade é muito maior do que os salários garanti­ dos por qualquer ajuste. Jesus oferece-se a nós sem medida, e nos chama a si com a mesma intensidade. O nosso relacio­ namento com ele deve ser de confiança e amor, incluindo doação e recepção ge­ nerosas. Qualquer barganha é inteira­ mente estranha a este tipo de relaciona­ mento. 3. Terceiro Aviso de Morte e Ressurrei­ ção Iminentes (20:17-19) 17 E stan d o J esu s para subir a J eru sa lém , cham ou à p arte os doze e no cam in h o lh es d is s e : 18 E is que subim os a J eru sa lém , e o Filho do hom em se rá en tregu e a o s p rin ci­ p ais sa cerd o tes e a o s e scrib a s, e e le s o condenarão à m orte, 19 e o en tregarão aos gen tios, para que d ele e sc a rn eça m , e o aço item e cru cifiq u em ; e a o terceiro dia ressu scita rá .

Pela terceira vez Jesus procurou fazer os seus discípulos entenderem o que o esperava, bem como a eles (cf. 16:21-23; 17:22,23). Desta vez, Jesus estava a ca­ minho de Jerusalém. Esperando-o ali, estavam traição, zombaria, tortura e morte por crucificação, bem como res­ surreição. Esta terceira predição indica que a iniciativa contra Jesus já fora tomada, pelos líderes judeus, e que os gentios, oficiais romanos, estariam envolvidos na execução de Jesus. A despeito dos protés243


tos modernos de que a morte de Jesus foi iniciada pelos romanos e que a igreja cristã gentílica, subseqüentemente, tirou a culpa dos judeus e a colocou sobre os romanos, a posição de Mateus é sustenta­ da pelas evidências. Paulo não era antisemita, mas, pouco depois de 50 d.C., escreveu que “ os judeus” haviam m ata­ do Jesus (I Tess. 2:14 e s.). Mateus nãoé anti-semita. Os seus heróis e os seus vilões são judeus. O própçio Jesus é “filho de Davi, filho de Abraão” , bem como “Filho de Deus” . Em cada ocasião, os doze parecem não conseguir entender o que Jesus lhes diz. De cada vez, a reação deles é de recusa em ouvir ou de absorção em suas ambi­ ções egoísticas. Mateus não explica a falha dos discípulos em compreender Jesus em termos de um “segredo mes­ siânico” , mas, pelo contrário, em termos da sua recusa em ouvir a Jesus. Até Marcos, para quem o “segredo messiâ­ nico” é mais proeminente, mostra Jesus proclamando claramente a sua morte aos seus discípulos (10:32-34), demonstran­ do sentimentos tão fortes que aqueles que jornadeavam com ele “se maravilha­ vam” e ficaram “atemorizados” . 4. Os Discípulos, Que Procuravam os Seus Próprios Interesses, Desafiados a Serviços Sacrificiais (20:20-28) 20 A proxim ou-se d e le , en tão, a m ã e dos filhos de Zebedeu, com se u s filh os, a joelh an ­ do-se e fazendo-lhe um pedido. 21 P erg u n ­ tou-lhe J esu s: Que queres? E la respondeu: Concede que e ste s m eu s dois filh o s se se n ­ tem , um à tua d ireita e o outro à tu a esq u er­ da, no te u reino. 22 J esu s, p orém , rep licou : N ão sa b eis o que p e d is ; podeis b eb er o c á ­ lice que eu estou para beber? B esp on d eram Ihe: P od em os. 23 E n tão lh es d issé : O m eu cá lice certa m en te h a v eis d e b eb er; m a s o sentar-se ã m in ha d ireita e à m in h a esq u er­ da, não m e p erten ce concedé-lo; m a s is so é para a q u eles para quem e stá preparado por m eu P a i. 24 E ouvindo isso os dez, in d ign a­ ram -se contra os dois irm ã o s. 25 J e su s, pois, cham ou-os para junto de s i e lh e s d isse: Sabeis que os governad ores dos gen tios os dom inam , e os seu s gran d es e x e r c e m a u to ­ ridade sobre e le s . 26 N ão será a ss im entre

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vós; a n tes qualquer que en tre vós quiser tornar-se gran d e, se r á e s s e o que vos sirv a ; 27 e qualquer que en tre vós q u iser se r o prim eiro, se r á o v o sso s e r v o ; 28 a ss im com o o F ilho do h om em não v eio para s e r servid o, m a s p ara serv ir, e p ara dar a su a vid a em resg a te de m u itos.

Mateus especifica a mãe dos fílhos de Zebedeu, isto é, Tiago e João, falando a Jesus em favor dos seus filhos. Marcos diz que Tiago e João fizeram o pedido para si mesmos (10:35). Quer Mateus esteja removendo parte da culpa dos dois discípulos, quer simplesmente suprindo maiores minúcias ao relato de Marcos, tanto ele como Marcos mostram que os próprios discípulos eram os responsáveis pelo pedido egoísta e incivilizado. Isto é claro devido à resposta de Jesus no versí­ culo 22 e s., dirigida aos discípulos, e não à mãe deles. O pedido de uma posição de honra, à direita e à esquerda de Jesus em seu reino (provavelmente a mesma coisa que M ar­ cos menciona: “na tua glória” , 10:37), expressa o interesse egoísta dos discí­ pulos, e também a sua falta de compre­ ensão da natureza do reino de Jesus. O padrão que eles tinham em vista era flagrantemente semelhante ao dos rei­ nos deste mundo. Eles consideravam o reino messiânico como basicamente político, esperando que Jesus expulsasse os governantes romanos de Jerusalém. O assento à direita do trono de um rei era da primeira pessoa em honra, e o à esquerda, da segunda. O desejo dos dis­ cípulos de receber honra e a sua idéia de grandeza eram essencialmente pagãos, como Jesus disse. Os discípulos não perceberam o que estavam pedindo, ao desejar lugares próximos a Jesus no seu reino. Eles ainda não compreendiam que o seu trono iria ser a cruz. Cálice é uma figura que Jesus usou para a morte que o aguardava. No relato de Marcos (10:38), “batismo” também é usado como figura do sofri­ mento e morte que o esperavam. Estas não são referências diretas à Ceia do


Senhor e batismo nas águas, mas uma linguagem figurada poderosa para desig­ nar a morte. O versículo 22 coloca a responsabilidade, pelo pedido egoísta, irrefutavelmente sobre Tiago e João, e os acusa de não conseguirem entender o que estavam pedindo. Isto significa que eles não compreendiam o que esperava por Jesus. Ã pergunta de Jesus acerca da capaci­ dade de beber o cálice que ele estava para beber, os discípulos responderam depres­ sa: Podemos. Como eles demonstraram ser incapazes e estarem despreparados! Quando Jesus foi preso, todos os doze “ deixando-o, fugiram” (26:56). Ironica­ mente, as posições à direta e à esquerda de Jesus, na sua hora de maior triunfo, foram ocupadas não por Tiago e João, mas por dois ladrões {21:38). Jesus predisse que Tiago e João iriam . beber o seu cálice, isto é, entrar nos seus sofrimentos. Tiago veio a ser o primeiro dos doze a sofrer o martírio, sendo exe­ cutado por Herodes Agripa (At. 12:2). Nenhuma das conflitantes tradições acerca de João pode ser provada: nem a de que ele sofreu o martírio nem a mais forte, de que ele viveu até a mais avança­ da idade em Éfeso. João 21:22 parece apoiar a última. Embora beber o cálice de Jesus possa bem referir-se ao martírio físico, no pensamento do novo Testamen­ to, tal dedicação a Cristo, da parte de uma pessoa que esteja pronta para mor­ rer por ele, é, em princípio, considerada como martírio (cf. 16:24 e s.; Gál. 2:19 e s.). Neste sentido, João bebeu o cálice, quer tenha ou não sofrido o m ar­ tírio físico. Os lugares à direita e à esquerda de Jesus, por natureza, não são posições que possam ser arbitrariamente concedidas ou dadas como prêmio. O próprio Jesus não podia “ dá-las” , pois pertenciam àqueles para quem está preparado. Jesus demonstrou que a grandeza é medida pelo serviço sacrificial. O maior é aquele que é servo; o primeiro é aquele que serve. No mundo pagão, os gentios me­

diam a grandeza através da dominação, sendo o grande aquele que exercia o maior controle sobre o maior número de pessoas. Jesus reverteu o padrão gentí­ lico, mas os discípulos ainda estavam por aprender essa lição. Possivelmente aque­ les para quem os principais lugares esta­ vam preparados são os que se entregam mais plenamente a um serviço sacrificial. Esta é uma outra declaração do princípio de que “primeiros serão últimos, e últi­ mos, primeiros” (19:30; 20:16). A indignação dos dez mostrou que eles não estavam mais livres dos interesses egoístas e mundanos do que os dois irmãos, mas possivelmente não eram tão ousados. Em o Novo Testamento há traços da rivalidade entre Pedro e João, e o pedido de Tiago e João pode refletir isso (cf. João 20:2-6; 21:20-22). Se tal rivalidade era visível, pelo menos mais tarde eles são encontrados trabalhando juntos em harmonia (At. 3:1-4). As palavras concernentes ao contraste entre os padrões falsos do mundo quanto à grandeza e o princípio exarado por Jesus, de serviço sacrificial, foram diri­ gidas a todos os discípulos. No mundo deles, o servo (escravo) era colocado no degrau mais baixo da escala social. Jesus tomou os termos servo e escravo como padrões de grandeza. Aquele que se tor­ nasse escravo voluntário, renunciando todas as reivindicações a direitos e pre­ tensões de mérito ou grandeza, iria ser o primeiro entre eles. O versículo 28 está entre os mais im­ portantes de IVlateus. Jesus interpretou o papel do Filho do homem em termos de serviço sacrificial, possivelmente aprovei­ tando-se das passagens acerca do Servó Sofredor em Isaías (53:12). Ao combinar essas figuras ou papéis, Jesus foi bem além do judaísmo contemporâneo e dos seus próprios discípulos. O Filho do homem, a quem foram dados domínio e glória e um reino universal e eterno (Dan. 7:13 e s.), tinha vindo na forma humilde de servo, e iria dar a sua vida em resgate de muitos. Esses papéis não 245


apenas se uniam em Jesus, mas também foi ele a primeira pessoa a declará-los, e não os discípulos ou a Igreja. Os pri­ meiros discípulos e a primeira igreja resistiram a esse caminho estranho, da mesma forma como o fazemos hoje. A palavra resgate (lutron) é construída de uma palavra grega, cuja raiz significa livrar ou libertar. Carrega a idéia de custo e libertação. Através da entrega da sua vida, Jesus colocaria muitos em li­ berdade. Vida (psuchê) podé significar o eu ou a vida física. Jesus deu ambos. Ele deu a sua vida física na cruz, mas deu mais. Deu-se a si mesmo em completa autonegação (abnegação) e auto-sacrifício. O termo resgate não é um termo litúrgico (cúltico, no original em inglês) usa­ do em conexão com a oferta pelo pecado (cf. Robinson, p. 168, e Hummel, p. 101). É um termo usado em conexão com o salvamento de uma pessoa ou animal, mas nunca, no pensamento judaico, para a substituição de um pecador pela víti­ ma, no sacrifício. Jesus estava falando de algo muito mais exigente, mais pessoal e mais significativo. Ele veio para libertar o homem das garras do pecado (1:21), e isto ele pôde realizar somente dando a sua vida (a si mesmo) e operando aquele milagre de conversão naqueles que nele confiam, através do qual eles também bebem o seu cálice, suportam o seu “ba­ tismo” (Mar. 10:38) e seguem o seu Mestre em autonegação e no caminho da cruz (16:24). Resgate de muitos não dâ a entender um número limitado de pessoas, por quem Jesus morreu ou para quem a sal­ vação é possível. Muitos é uma forma judaica de dizer “ todos” (cf. Is; 53:12). A preposição por (anti) (em português, em nossa tradução, de) não implica, necessariamente, “em lugar de” , como demonstra o emprego desta palavra em seu freqüente uso em o Novo Testamen­ to. Jesus deu a sua vida por nós, mas ele o fez para nos capacitar a também dar­ mos a nossa, em um sentido real. Esta é a 246

idéia da sua repreensão da ambição autocentralizada e auto-afirmativa dos seus discípulos. Eles podem encontrar vida apenas “perdendo-a” e vivem ape­ nas “morrendo” . Esta não é uma “teoria exemplificada da expiação” ; longe disso. Não que o homem salve a si mesmo seguindo o exemplo de Jesus. Ê um res­ gate, quando Jesus se torna uma presen­ ça transformadora na vida do seu segui­ dor, libertando-o da morte que parece vida, para a vida que tem a forma de morte. 5. Jesus Cura Dois Cegos Repreendidos pela Multidão (20:29-34) 29 Saindo e le s de J erie ó , seguiu-o u m a grande m u ltid ão; 30 e e is que d ois ceg o s, sen tad os junto do cam in h o, ouvindo que J esu s p a ssa v a , c la m a ra m , dizendo: Senhor, Filho de D a v i, te m com p aixão de n ós. 31 £) a m ultidão os rep reen d eu , p ara que se c a la s ­ sem ; e le s, p orém , c la m a ra m a in d a m a is alto, dizendo: Senhor, F ilh o d e D a v i, tem com p aixão de nós. 32 £) J e su s, parando, cham ou-os e perguntou: Que q u ereis que v o s fa ça ? 33 D issera m -lh e e le s : Senhor, que se nos ab ra m os olhos. 34 E J esu s, m ovido de com p aixão, tocou-lhes os olhos, e im e d ia ta ­ m ente recu p eraram a v ista , e o seg u ira m .

Esta história é muito parecida com a de 9:27-31. Em cada uma das histórias, dois cegos gritam pedindo misericórdia a Jesus, chamando-o de Filho de Davi. Na primeira, eles são questionados acerca de sua fé, e, depois de serem curados, são instados para que não o relatem. Nesta história, a compaixão de Jesus é contras­ tada com a repreensão dos dois homens, levada a efeito pela multidão. A essa altura, Jesus está avançando abertamente para Jerusalém, para ali ter a sua con­ frontação final, e não pede mais silêncio da parte dos que foram curados. O motivo para a multidão dizer aos cegos para guardarem silêncio pode ser apenas conjecturado. Pode ter sido ex­ pressão da sua indiferença para com as necessidades dos homens, ou medo de que a aclamação pública de Jesus como Filho de Davi pudesse suscitar hostili­ dade. Mas isto não está claro.


Filho de Davi é um título importante, que se repete várias vezes em Mateus (cf. 1:1; 9:27; 12:23; 15:22; 21:9,15). Mais tarde, no judaísmo, ele emergiu como título messiânico, mas as esperan­ ças messiânicas populares entre os judeus se centralizavam em um rei davídicò. Senhor (kurios) pode ser usado para designar desde um “ senhor” ou pessoa qualquer como simples pronome polido de tratamento até um título para Deus. A sua força aqui não é clara, mas Senhor veio a ser um título de primeira importância para Jesus no Novo Testa­ mento. Aquele que está a caminho de Jerusalém como Servo Sofredor, para ali sofrer zombaria, açoites e crucificação, e em relação a quem até os doze estavam ainda tão cegos, aqui é aclamado por dois cegos, na majestade de Filho de Davi.

XIV. Entrada Triunfal em Jeru­ salém (21:1 — 23:39) Antes de tudo Jesus foi enviado às “ovelhas perdidas da casa de Israel” (10:6), e, neste ponto, Mateus mostra como Jesus fez abertamente as suas rei­ vindicações messiânicas sobre Jerusalém e legitimou essas reivindicações mediante as suas obras miraculosas. A entrada triunfal em Jerusalém, o fato de ele ter aceito a aclamação do povo, dizendo ser ele o Filho de Davi, a purificação do Templo e os sinais messiânicos em Jeru­ salém, tudo aponta para o fato de que Jesus é o Filho de Davi enviado a Israel (cf. Hummel, p. 138 e s.). A hora da decisão para Jerusalém chegou. Israel precisava receber ou rejeitar o seu rei. Não haveria uma terceira chance para eles. 1. A Entrada Triunfal (21:1-11) 1 Quando se ap roxim a ra m de J eru sa lém , e ch egaram a B e tfa g é, a o M onte d as O livei­ ras, en viou J e su s dois d iscíp u los, dizendolh es: 2 Ide à a ld eia que e stá d efronte de v ó s, e logo en con trareis u m a ju m en ta p resa , e um jum entinho com e la ; d esprendei-a, e trazei-m os. 3 E , se a lg u ém v o s d isser al-

gum a co isa , respondei: O Senhor p recisa d e le s ; e logo os en v ia rá . 4 Ora, isso a co n te­ ceu p a ra que se cu m p risse o que foi dito pelo profeta: 5 D izei à filh a de S iã o : E is que a í te v e m o teu R ei, m an so, e m ontado em um ju m ento, em u m jum entinho, cria de a n im a l de carg a . 6 Indo, p ois, os d iscíp u los e fazen d o com o J esu s lh es ordenara, 7 trou xeram a ju m en ta e o jum entinho, e sobre e le s pu sera m os seu s m an tos, e J esu s m ontou. 8 E a m a io r parte da m u ltid ão esten d eu o s seu s m an tos pelo ca m in h o ; e outros co rta v a m ra m o s de á rv o ­ res, e os esp a lh a v a m p elo cam in h o. 9 E a s m u ltid ões, tanto a s que o p reced ia m com o a s que o seg u ia m , c la m a v a m , dizendo: H osana, ao F ilh o de D a v i! bendito o que v e m em n om e do Senhor! H osana n a s a l­ turas! 10 Ao en trar e le e m J er u sa lém , agitou-se a cid ad e toda e p e r g u n ta v a : Q uem é este? 11 E a s m u ltid ões resp on d iam : E ste é o profeta J esu s, de N azaré da G aliléia.

Este é um ato messiânico, mais exata­ mente designado como entrada real do que entrada triunfal. Jesus deliberada­ mente apresentou-se como Rei, mas não como um rei mundano e político. Ele nâo empregou nenhum símbolo de poder mundano. Entrou montado em uma humilde besta de carga, e não em um cavalo branco, como um vitorioso mili­ tarista. Isto é verificado como cumpri­ mento da promessa que consta em Zaca­ rias 9:9, sendo colocada a ênfase sobre Jesus como Rei de Israel, e, não obstan­ te, humilde. A expressão “triunfante e vi­ torioso’’de Zacarias não é citada (cf. Mar. 11:3-10; Luc. 19:31-38; João 12:12-19). Claro que Jesus triunfou em Jerusalém, através do estranho caminho da cruz, mas qualquer semelhança com o padrão mundano de “ triunfo” é evitado. De acordo com João, a chegada a Betânia ocorreu seis dias antes da Páscoa (12:1), e a entrada em Jerusalém, no dia se­ guinte (12:12). Betfagé é mencionada aqui pela pri­ meira vez. A sua localização exata é desconhecida, mas era perto de Betânia (Mar. 11:1), cerca de seis quilômetros ao sudeste de Jerusalém. O seu significado, “casa dos figos novos” , pode ter algo a 247


ver com o fato de seu nome ser mencio­ nado, visto que o episódio da figueira estéril segue-se logo (21:18-22). Embora possa ser considerado um conhecimento sobrenatural, uma combi­ nação prévia para o jumentinho (ou ju ­ mentinho e sua mãe) pode ter sido feita. Se assim foi, pode ser que Lázaro de Betânia o tivesse preparado. Entendida assim, a palavra O Senhor precisa deles poderia ser uma senha. Esses planos requeriam o máximo de segredo, até a hora da dramática entrada em Jerusa­ lém, de outra forma, esta poderia esbar­ rar com a interferência de adversários, ou o elemento surpresa se perderia. O fato de que essas combinações tives­ sem sido feitas antecipadamente, admi­ timos, é um a pressuposição, mas não inerentemente inadmissível nem se refle­ te adversamente sobre a história. Expli­ caria a boa vontade dos proprietários em entregar o jumentinho (e sua mãe) sem resistência. Mateus claramente se refere a dois animais: uma jumenta, e seu jumenti­ nho. Ele interpreta Zacarias 9:9 como referindo-se a dois animais. Os outros três Evangelhos mencionam apenas o jumentinho (cf. Mar. 11:1-10; Luc. 19: 31-38; Joâo 12:12-19). A conjunção grega kai pode ser traduzida como “e” ou “mesmo” . As linhas ou versos poéticos são geralmente entendidos de forma a conter paralelismo hebraico: “ sobre um jumento, mesmo sobre um jumentinho, filho de jum enta” . Autõn, no versículo 7, é mais apropriadamente traduzido “sobre eles” (conforme na Versão da IBB), significando que Jesus sentou sobre os dois animais ou sobre os man­ tos. Mesmo se ao que se está referindo são os mantos, a afirmação permanece obscura, pois a referência é feita aos mantos sobre eles. Não há, evidente­ mente, solução para este problema. É claro que Mateus tinha em mente dois animais, e que essa era a forma como ele interpretou Zacarias 9:9. O que é mais importante é que ele não 248

inventou a história da entrada de Jesus em Jerusalém, montado em um animal humilde. Mateus aproveitou-se bem do tema de cumprimento das profecias e empregou a linguagem das suas citações do Velho Testamento, ao contar as suas histórias. Mas, como temos insistido no decorrer de todo este comentário, ele nâo criou as histórias para ajustar-se a textos de prova, e, sim, interpretou, mediante as Escrituras, o que já era reco­ nhecido como acontecimentos na vida de Jesus. Até a relação algumas vezes for­ çada entre o texto da Escritura e o acon­ tecimento, argumenta em favor da prio­ ridade da história, e não contra ela. A primeira parte do versículo 5 vem de Isaías 62:11, uma promessa feita â filha de Sião, isto é, Jerusalém, de que a sua salvação se aproxima. Mateus vê o cum­ primento dessas palavras em Jesus, o rei humilde que, nessa condição, entrou em Jerusalém. A saudação da multidão faz eco com Salmos 118:25 e s., o último dos cânticos de Hallel, cantados na Pás­ coa. Hosana significa: “Salva-nos, te rogamos.” Originalmente, era uma prece, pedindo a ajuda, mas aqui parece ser um grito de louvor. Tanto Filho de Davi como o que vem são títulos messiâ­ nicos. As multidões também aclamaram Jesus como o profeta, provavelmente mais do que simplesmente uni profeta. Havia expectações judaicas de que sur­ giria um profeta como Moisés (Deut. 18:15,18), aparentemente messiânico. Pela terceira vez Mateus demonstrou que Jesus foi proclamado Filho de Davi pelo põvo comum, tendo sido antes por f e " -W p rt9 ? 2 T 3 1 ) e pelas multidões (12:22 e ss.), e, aqui, ele é rejeitado pelos líderes (WalJker, p. 131). 2. A Purificação do Templo (21:12-17) IZ E n tã o J e su s entrou no tem p lo ,' ex p u l­ sou todos os que aU v en d ia m e com p ravam , e derribou a s m e sa s dos ca m b ista s e as ca d eira s dos que v en d iam p om b as; 13 e d isse-lh es: E s tá e sc r ito : A m in h a c a sa se r á ch a m a d a c a sa de o ração; v ó s p orém , a fa ­ zeis co v il de sa ltea d o res.


14 E ch egaram -se a e le , no tem p lo , ceg o s e coxos, e e le os curou. 15 V endo, porém , os p rincipais sacerd o tes e os escr ib a s a s m a ­ ravilh as que e le fizera, e os m en in os que c la m a v a m no tem p lo: H osana a o F ilho de D avi, in d ign aram -se, 16 e p erg u n ta ra m -lh e: Ouves o que e ste s estã o dizendo? R espondeulh es J e s u s ; S im ; nunca le s t e s : D a b oca de pequeninos e d e crian cin h as de p eito tira ste p erfeito louvor? 17 E deixando-os, saiu da cid ad e, para B e ­ tãn ia, e a li p assou a noite.

A purificação do Templo foi um ato profético. Não foi um protesto contra o Templo em si, mas contra os abusos que ali se praticavam. As famílias dos sumos sacerdotes, particularmente a de Anás, no tempo de Jesus, exerciam grande con­ trole sobre o Templo, através da sua colaboração com os romanos. Por templo (hieron) entende-se não o santuário (naos) propriamente dito, mas o comple­ xo de cinqüenta mil metros quadrados, que incluía várias cortes e edifícios. Não sendo Jesus, sacerdote, era-lhe barrada a entrada no Templo pro­ priamente dito (naos). A venda de animais para sacrifícios e a troca (câm­ bio) de moedas eram feitas no Pátio dos Gentios. A prática inicialmente servia às necessidades do povo, pois os judeus provindos de lugares distantes não po­ diam, com facilidade, trazer animais para os sacrifícios consigo, e também precisavam cambiar moedas gregas, ro­ manas e de outras terras, para obter as duas didracmas requeridas. Parece que sal, óleo e vinho eram também vendidos no pátio do Templo. Os cambistas mon­ tavam as suas mesas desde o mês judaico de Adar, no dia 25, até 1 de Nisã (mais ou menos março-abril). Possivelmente, preços exorbitantes eram cobrados pelos cambistas, mas não se conhece nenhum protesto da parte dos judéus contra isso. Havia protestos con­ tra a venda de animais e pássaros. Pode ser que a ação de Jesus tivesse sido diri­ gida primordialmente contra a venda de animais e aves, e que as mesas dos cambistas tivessem sido derribadas na confusão (Johnson, p. 504). Robinson

acha que a ofensa mais séria foi expressa nas palavras covil de salteadores (cf. Jer. 7:11). Que o Templo servia de santuário para todo judeu que tivesse prejudicado um gentio, e Jesus estava considerando que as autoridades do templo estavam permitindo que o Templo se tornasse abrigo de malfeitores ou fugitivos da justiça, com quem se identificavam al­ guns dos que negociavam ali (p. 171 e s.). Esta possibilidade não pode ser verifi­ cada. A explicação mais simples e mais provável é que Jesus viu o Pátio dos Gentios em tal confusão que era impos­ sível orar ali, e que ele via o povo sendo explorado em nome da religião. Contra isso foi que ele protestou. A declaração de Jesus de que o Templo era a casa de Deus e casa de oração expressa a linguagem de Isaías 56:7 e Jeremias 7:11. A expressão “para todas as nações” é encontrada em Marcos 11:17 (cf. Is. 56:7). Tem sido sugerido que Mateus omitiu-a porque via o Tem­ plo como a casa de oração apenas para Israel, mas isto não seria atribuído à sua ausência em Lucas 19:46, cujo tema de um evangelho para todas as nações teria sido tão bem servido com a sua inclusão! A explicação pode ser que Mateus e Lucas seguiram um texto diferente do de Marcos, neste ponto, ou as palavras podem ser um a adição de escribas, em Marcos. Embora anteriormente Jesus tivesse evitado o encorajamento das aclamações populares, por causa dos muitos perigos que podia acarretar à sua missão, agora ele abertamente curava cegos e coxos, até no Templo. O que agradou às multidões e fez com que até os meninos expressas­ sem o seu louvor fez com que os prin­ cipais sacerdotes e escribas ficassem in­ dignados. Quando os meninos louvaram Jesus como o Filho de Davi, esses líderes religiosos protestaram contra Jesus. Louvor de crianças e protestos das auto­ ridades do Templo e da sinagoga pare­ cem ser um estranho padrão, mas não era novo. Jesus encontrou em Salmos 8:2 249


uma previsão de perfeito louvor, vindo de pequeninos e de criancinhas de peito. Saindo do Templo, Jesus foi para Betânia, e ali passou a noite. Eulisthê pode indicar que ele passou a noite ao relento, mas o termo não é limitado a este significado. Provavelmente, por medidas de segurança, Jesus passou a noite ao relento ou com amigos em Betâ­ nia no lar de Lázaro, Maria e M arta (João 11:1 e s.; 12:1 e s.). A data específica da purificação do Templo é problemática. João apresenta a purificação do Templo como tendo ocor­ rido no começo do ministério de Jesus (2:14-17). Todos os Sinópticos a colocam depois da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém — Mateus e Lucas no dia da entrada, e Marcos, no dia seguinte (11: 11-15). O fato de Jesus ter feito esse protesto contra os abusos do Templo tem base sólida em todos os Evangelhos. Que ele falou de um verdadeiro Templo — ele mesmo e sua Igreja — que substituiria aquele “feito por mãos” , é mencionado por João (2:19) e constituiu uma acusa­ ção de monta no seu julgamento (26:61; Mar. 14:58; cf. Ef. 2:18e ss.; II Cor. 5:1). Mais do qualquer outra coisa, esta ação e estas palavras incitaram os sumos sacer­ dotes saduceus à ação, pois o protesto de Jesus era contra eles, e não apenas contra os mercadores e cambistas. Já havia muito tempo que os fariseus se haviam decidido a destruir Jesus, porque ele havia desa­ fiado os fundamentos do seu sistema e a distinção que eles faziam entre o povo de Deus “limpo” e “justo” e os que não o eram. Neste ponto os dois grupos mais poderosos do judaísmo, saduceüs e fari­ seus, uniram as suas forças contra o seu comum inimigo. 3. Lições Tiradas de uma Figueira Infru­ tífera (21:18-22) 18 Ora, de m anh ã, ao voltar à cid ad e, te v e fom e; 19 e , avistan d o u m a fig u eira à beira do cam inho, d ela se aproxim ou, e não achou n ela sen ão folh as som en te; e d isse-lh e:

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N unca m a is n a sç a fruto de ti. E a figu eira secou im ed ia ta m en te. 20 Quando os d is c i­ pulos v ir a m isso , p ergu n taram , a d m ir a d o s: Ciomo é que im ed ia ta m en te seco u a fig u ei­ ra? 21 J esu s, p orém , respondeu-lhes: E m verd ad e vos digo que, se tiv erd es fé e não duvidardes, não só fa reis o que foi feito à figu eira, m a s a té , se a e s te m on te d is se r d e s: E rgu e-te e lan ça-te no m a r, isso se r á feito; 22 e tudo o que ped ird es n a o ração, crendo, receb ereis.

O fato de que Jesus teve fomé na manhã seguinte, depois de ter passado a noite em Betânia (v. 18), sugere que ele tenha passado a noite ao relento. O verbo usado (eulisthê) pode sugerir isso. Se passara a noite ao relento, pode ser que não tivesse comido nada. Os figos aparecem ao mesmo tempo que as folhas, em um a figueira, surgin­ do, na verdade, os botões antes das folhas. As folhas amadurecem antes dos figos, mas uns poucos figos são comíveis antes da colheita principal. A folhagem suscitaria, em pessoas famintas, a espe­ rança de que a figueira tivesse frutos maduros. O fato de ele ter achado folhas somente significa que aquela figueira não iria produzir frutos naquele ano. Se Jesus usou a figueira como uma lição objetiva, como um sinal dramático ou como simbolismo profético acerca do destino da infrutífera Israel, tudo está bem claro. A figueira era uma figura e um símbolo familiar para Israel, e esta parece ser a lição na parábola da figueira infrutífera em Lucas 13:6-9. O sacrifício de uma árvore, à beira do caminho, se justificaria, se ele pudesse despertar os doze e a sua nação para o terrível perigo que os ameaçava (cf. 21:41,43). A lição igualmente podia ser aplicada como advertência contra a esterilidade na vida individual (cf. João 15:2-6) O discurso acerca de fé e oração não é óbvio em sua relação com o fato =de a figueira ter secado. Que a pessoa precisa orar, e orar com fé, é claro. Mas o que significa fazer outras figueiras como aquela secarem, ou lançar um monte no mar?


Pode-se encontrar algum paralelo en­ tre esta passagem e João 15:1-11. Em ambas, a discussão passa da importância de dar frutos para o assunto de pedir. É fatal ser infrutífero, tanto para um indi­ víduo como para uma nação; mas isto não é necessário. Há recursos divinos que podçm salvar da esterilidade e da sua consequente destruição. Em João, esses recursos estão à disposição daquele que “permanece” em Cristo e “pede” . Em Mateus, esses recursos estão à disposição da pessoa que ora com fé. 4. A Questão da Autoridade de Jesus (21:23-22:14) Autoridade é a palavra-chave que pro­ picia unidade a esta seção. A questão é levantada pelas autoridades judaicas reconhecidas, e Jesus a enfrentou cara a cara. Ele primeiramente trouxe à tona a hipocrisia dos que pediam as suas cre­ denciais. Depois, apresentou a natureza, significado e testes para a autoridade, e as conseqüências do desrespeito à auto­ ridade. 1) AutoridadeDesafíada(21:23-27) 23 Tendo J esu s entrado no T em plo, e estando a en sin ar, ap rox im a ra m -se d ele os principais sacerd o tes e os an ciã o s do povo, e p erg u n ta ra m : Com que autoridade fa z e s tu e sta s coisas? e quem te deu ta l autoridade? 24 R espondeu-lhes J e su s: E u ta m b ém vos p erguntarei u m a co isa ; se m a d isserd es, eu de ig u a l m odo v o s d irei com que autori’ dade faço e sta s co isa s. 23 O b atism o de João, donde era? do céu ou dos hom ens? Ao que e le s arra zoavam en tre si: Se d isse r ­ m os: Do céu, ele nos dirá: E ntão por que não o crestes? 26 M as, se d isserm o s: D os hom ens, tem em o s o povo; porque todos co n ­ sid eram João com o profeta. 27 R esp on d e­ ram , p ois, a J e su s: N ão sa b em o s. D isselh es e le : N em eu vos digo com que au tori­ dade faço esta s co isa s.

Os principais sacerdotes e os anciãos do povo eram as autoridades reconhe­ cidas do judaísmo. Entre os principais sacerdotes estava o sumo sacerdote, que era também presidente do Sinédrio, a suprema corte dos judeus. Os anciãos

(presbuteroi) eram os leigos, fariseus ou escribas, que também eram represen­ tados no Sinédrio. Esses homens tinham o direito de pedir de Jesus as suas cre­ denciais, especialmente em vista da liberdade que ele tomara na interpreta­ ção da Lei, atribuindo novos valores à tradição oral, e no fato de purificar o Tem­ plo. Jesus havia falado ousadamente e agido em áreas que eram reconhecidas como esfera de autoridade deles. Jesus não desafiou o direito deles de questionálo. Eles teriam negligenciado os seus deveres, se tivessem sido indiferentes ao que ele estava ensinando e praticando. Jesus desafiou as “autoridades” em outro ponto, o da sinceridade. Trouxe à tona a sua hipocrisia, testando-os. Se eles tivessem inquirido honestamente acerca da autoridade dele, Jesus teria respeitado às suas perguntas. Mas essa não era a evidência de que eles necessitavam. Pre­ cisavam de uma disposição para pesar honestamente as evidências que já esta­ vam diante deles. Jesus desnudou a sua hipocrisia, perguntando-lhes acerca do batismo de João. Era ele de Deus ou dos homens? Percebendo o dilema, eles se tornaram evasivos. Não querendo reco­ nhecer o comissionamento de João como sendo de Deus, e temendo o povo, que reconhecia João como um profeta, eles disseram que não sabiam responder. Jesus se recusou a dar resposta à sua pergunta, não porque ela em si era im­ própria, mas porque eles não estavam abertos para a verdade. Jesus não tinha nenhuma palavra para a hipocrisia, a não ser julgamento. Se eles não eram competentes para julgar João, cuja vida já se completara, como podiam julgar Jesus? Não que eles não o pudessem, mas o fato é que não julgariam retamente nem João nem Jesus. 2) Dois FUhos: Autoridade Reconhecida em Obediência, e Não em Palavras (21:28-32) 28 M as que vos p a rece? U m h o m em tinha dois filh os; e , ch egan d o-se ao prim eiro, d isse: F ilh o, v a i trab alh ar hoje n a vinha.

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29 E le respondeu: Sim , sen h or; m a s não foi.

30 C hegando-se, en tão, a o segu n d o, falou-lhe de igu al m odo; respondeu-lhe e ste : N ão quero; m a s depois, arrep en d en d o-se, foi. 31 Qual dos dois fez a vontade do p ai? D is­ sera m e le s : O segund o. D isse-lh es J esu s: E m verd ad e v o s d igo que os publicanos e m eretrizes en tram ad ian te d e v ó s no reino de D eu s. 32 P o is João v e io a v ó s no cam inho da ju stiça , e não lh e d este s créd ito, m a s os pubUcanos e a s m eretrizes lho d era m ; vós, porém , vendo isto , n em depois v o s a rrep en ­ d estes p ara crerd es n ele.

O ponto principal está claro: que_a^ autoridade é respeitada pela j abediência. e não da boca para fora. Os principais 'sacerdotes e linciãòs7\ao perguntarem “a Jesu^acêrca da sífã autoridade, deram a entender £ue eles respeitavam a autori­ dade. ^esus^vprimeiro desnudou a sua hmocrisiiráuestionando-os a respeito de João, e depois focalizou o assunto do que constitui respeito pela autoridade.,, ÕbedíênHC^êliãHaTnSnõrdõ que isso, é a resposta! O único problema, nesta parábola, é textual. Os~mãnuscn1®s existentes apresenfãm frês versões diferentes: (1) no seguido pelas versões da IBB antiga e Trinitariana, o primeiro filho diz não, mas se arrepende; e o seguriHõ~fÍffio^Hz sim, mas nada faz^ O primeiro filho é aprovado por ter feito a vontade do seu pai. Esta versão tem suporte relativa­ mente bom de manuscritos, e provavel­ mente é a correta. (2) Os manuscritos que são geralmente muito dignos de con­ fiança revertem a ordem, em que o pri­ meiro filho diz sim, mas não faz nada, e o segundo diz não, mas obedece. O se­ gundo filho é aprovado. (3) Os manuscristos Ocidentais contêm um a versão que surpreende. O p^rimeiro filho diz não, mas se arrepende; o segundo diz sim, mas nada faz; não obstante, o sggundo é aprovado. Esta claramente não e a idèlà que Jesus" tinha em mente. A escolha está entre as versões (1) e (2), ambas aprovando o filho que obedeceu, embora a princípio tivesse dito não. Seguindo a versão da IBB, o primeiro filho tipifica Israel ou os líderes aê^lsraiT, 252

que prometem obediência a Deus, mas não obedecem aos seus mandamentos, ac passo que o segundo tipifica os publica­ nos e as meretrizes. E stésen tram no reino de Deus antes dos governantes judaicos. O reino é o governo de Deus. Ele exige submissão, e nao mero semçb da boca paj a forá. ~0s publicanos e as meretrizesl3efce5em melhor o seupecado e se a r r e p e n d i e crêem lhais facilmente. A culpa das autoridades religiosas é agravada pelo fato de elas não' apenas terem ignorado.!_____ mas de não se terem comovido nem sequer quando os publicanos e as meretrizes sendo levados para o caminho da justiça, para o governo real de Deus, mediante a pregação de João. Ao louvar os publicanos e as meretri­ zes mais do que os principais sacerdotes e anciãos do povo, Jesus não sancionou as tendências libertinas ou antinomianas. O que ele fez foi censurar os líderes por não terem reagido adequadamente a João, que viera no caminho da justiça. O reino de Deus faz exigências retas como as que João proclama, mas abre as portas para os publicanos e as meretrizes, que se arrependem e crêem. Esta é a ênfase de Mateus, e nisto ele representa correta­ mente a posição de Jesus. Exigências radicais e misericórdia ilimitada são juntãdãFho eásinõ e proCSdimênto de Jesus. 3) Os Lavradores Maus: Esmagados pela Autoridade Rejeitada (21:33-44) 33 Ouvi ainda outra p a rá b o la : H a v ia um h om em , proprietário, que plantou u m a vinha, cercou-a com u m a seb e, cavou n ela um la g a r, e edificou u m a to r r e ; depois a r ­ rendou-a a uns la v ra d o res e ausen tou -se do p a ís. 34 E quando chegou o tem p o dos frutos, enviou os se u s se rv o s a o s la v ra d o res, para receb er os se u s fru tos. 35 E os lavrad ores, apoderando-se dos ser v o s, esp a n ca ra m um , m a ta ra m outro, e a outro a p ed rejaram . 36 D ep ois en viou a in d a outros serv o s, em m aior núm ero dò que os p rim eiros; e fiz e ­ ram -lh es o m esm o . 37 F o r ú ltim o envioulh es seu filho, dizendo: A m eu fUho terão resp eito. 38 M as o s lavrad ores, vendo o filho, d isse ra m en tre si: E ste é o herdeiro; vinde, m atem o-lo, e apoderem o-nos da su a


herança. 39 E , agarrando-o, lançaram -no fora da vinha e o m a ta ra m . 40 Quando, pois, vier o senhor d a vinha, que fo r á à q u eles lavradores? 41 R esp ond eram -lh e e le s : F a r á p erecer h orrivelm en te a e s s e s m a u s, e a r ­ rendará a vinha a outros la v ra d o res, que a seu tem po lhe en treg u em os fru tos. 42 D isselh es J e su s: N u n ca le s te s n a s E scritu ra s: A pedra que o s ed ificad o res rejeita ra m , e ss a fo i posta com o pedra a n g u la r ; pelo Senhor foi feito isso , e é m aravilh oso a o s n o sso s olhos? 43 P ortanto, eu v o s digo que v o s se rá tir a ­ do o reino de D eu s e se r á dado a u m povo que dê os se u s frutos. 44 E q u em c a ir sobre e sta pedra se r á d esp ed a ça d o ; m a s aq u ele sobre quem e la ca ir se r á reduzido a pó.

Autoridade é o tema continuo na pará­ bola dos lavradores maus. Esta é uma história de rebelião contra a autoridade e as suas conseqüências. A parábola está em forma de alegoria, grandemente ba­ seada no padrão de Isaías 5:1-7. A vinha é uma figura familiar para Israel, e esse é o seu simbolismo aqui. Deus é o proprie­ tário da vinha, e os lavradores arrenda­ tários são os líderes de Israel, ou Israel mesmo. Os servos são os profetas, e o filho é Jesus. Os outros lavradores, a quem a vinha é dada, são os líderes cristãos ou a própria Igreja. A descrição da vinha e suas provisões ou benfeitorias é clara e corresponde aos costumes da época. Sebe é uma cerca viva, feita de arbustos; serve de proteção contra animais daninhos. O lagar consis­ tia de duas partes: a superior, em que as uvas eram esmagadas, e a inferior, em que o suco era coletado. A torre servia como abrigo para os trabalhadores, e como observatório para os guardas. Essas minúcias pertencem apenas ao colorido da história e não têm valor simbólico, exceto para sugerir as cuida­ dosas provisões que Deus fez para o seu povo, como o proprietário fez para a sua vinha. Um ponto importante da parábola é que ao rejeitar os servos e o fílho, os lavradores maus estavam realmente re­ jeitando a autoridade do proprietário.

Era com ele que finalmente eles teriam que se haver. Semelhantemente, Israel ou os seus líderes haviam matado os profetas e em breve iriam m atar o filho, mas, ao fazê-lo, não conseguiriam ganhar a sua herança para si. Ao m atar profetas e filho, eles estavam desafiando a auto­ ridade de Deus, e teriam que responder diante dele. Um outro ponto, indicando a culpa dos lavradores, é que eles mataram os profetas e o filho sabendo quem eles eram. O crime não fora cometido por ignorância. Desta forma, Jesus está dei­ xando bem clara a acusação de que os principais sacerdotes e anciãos do povo que questionavam a sua autoridade eram insinceros. Pediam mais evidências, mas não estavam abertos para elas. Era a sua rejeição deliberada do filho que consti­ tuía i) seu grande pecado. Um dos versículos mais comoventes e instrutivos é o 37. O filho foi enviado, apesar de os servos já terem sido maltra­ tados e mortos. Deus mandou o seu Filho a um mundo que já havia matado os seus profetas. Este era o risco calculado do amor. Os lavradores não precisavam matar o filho, e o proprietário não man­ dou o seu filho para ser morto. O pro­ prietário mandou o seu filho para pre­ valecer sobre os lavradores, para lhe en­ tregarem o fruto. Deus não forçou Israel a crucificar Jesus, e ele não queria que Israel o rejei­ tasse e crucificasse. Deus mandou o seu Filho para converter o povo, para salválo. O Novo Testamento condena o que os judeus e romanos fizeram como rejei­ ção (21:42; João 1:11; At. 4:11; Rom. 9:32; I Ped. 2:7), traição (Mar. 8:31; 9:31; 10:33; 14:41) e assassínio (At. 7:52). Deus deu o seu Filho, e Jesus deu a sua vida, e nessa doação há redenção; mas o homem tirou a vida, e essa é a sua culpa (cf. At. 2:23). Os versículos 42 e seguinte refletem Salmos 118:22 e s; uma passagem muito importante em sua aplicação a Jesus, feita pelos cristãos primitivos (cf. At. 253


4:11; I Ped. 2:7). Jesus é a pedra que os edificadores rejeitaram. Mas a pedra rejeitada foi posta como pedra angular, possivelmente sendo a pedra principal do alicerce. A pedra angular era mais do que uma pedra ornamental ou depositá­ ria de recordações, como acontece hoje em dia. Ela, na verdade, suportava grande parte do peso do edifício (Mc­ Neile, p. 312). Alguns acham que a pedra se refere à pedra de remate, mas isso não é prová­ vel. Seja qual for a função da pedra, ela é a mais importante do edifício. Israel está para colocar Jesus de lado, mas ele é o próprio fundamento do “edifício” que Deus constrói. A favorecida Israel, tendo falhado em sua mordomia, perderá o reino pará outra nação, isto é, para a Igreja, a comunidade dos crentes (cf. IPed. 2:9,10). O versículo 44 é de autenticidade incerta. Não é encontrado nos manus­ critos Ocidentais, e pode ter sido tomado emprestado de Lucas 20:18. A sua adver­ tência parece ser que aqueles que se opõem a Cristo serão despedaçados, e que, sob o seu juízo final, serão esmaga­ dos. A destruição de Jerusalém e da nação em 70 d.C., depois que Israel seguiu os seus falsos messias guerreiros, foi, pelo menos em parte, o cumprimento deste destino. 4) Endurecimento dos Principais Sacer­ dotes e Fariseus (21:45,46) 45 Os princip ais sa cerd o tes e os fariseu s, ouvindo e ss a s p aráb olas, en ten d eram que era d eles que J e su s fa la v a . 46 E procura­ vam prendé-lo, m a s tem era m o povo, p or­ quanto este o tinha por profeta.

Este parágrafo remonta a 21:23, exceto que os anciãos do povo agora são identificados como fariseus. Indica tam­ bém que as parábolas dos dois filhos e dos lavradores maus fazem parte da resposta de Jesus aos principais sacerdo­ tes e fariseus (os anciãos do povo de 21:23). É indicado, além disso, que eles já estavam decididos, com as mentes 254

fechadas para as evidências que haviam levado as multidões a considerar Jesus como um profeta, isto é, alguém que falava em lugar de Deus. 5) Hóspedes Desafiadores e a Ira do Rei (22:1-14) 1 E ntão J e su s to m o u a falar-lh es por p arábolas, dizendo: 2 O reino dos céu s é sem elh a n te a um rei que celebrou a s bodas de seu filho. 3 E nviou os seu s serv o s a cham ar os convidados p a ra a s b od as, e e ste s não q u iseram vir. 4 D ep ois en viou outros servos, ordenando: D izei a o s convidados: E is que tenho o m eu ja n ta r preparado; os m eu s b ois e c e v a d o s já e stã o m ortos, e tudo e stá pronto, vinde à s b od as. 5 E le s, porém , não fazendo ca so , foram , um para o seu cam po, outro p ara o seu negócio; 6 e os outros, apoderando-se dos serv o s, os u ltra­ ja ra m e m a ta ra m . 7 M as o rei encolerizouSe; e , enviando o s seu s ex ército s, destruiu a^iueles h om icid as, e incendiou a su a c id a ­ de. 8 E n tão d isse a o s se u s serv o s: As bodas, n a verd a d e, estã o p rep arad as, m a s os co n ­ vidados não e ra m d ign os. 9 Ide, p ois, p elas encruzilhadas dos cam in h os, e a quantos encontrardes, convidai-os p ara a s bodas. 10 E sa íra m a q u eles se rv o s p elos cam inhos, e aju n taram todos quantos encontraram , tanto m a u s com o b o n s; e en ch eu -se de con ­ v iv a s a sa la nupcial. 11 M as, quando o rei entrou p ara v er os co n v iv a s, viu a li im i hom em que não tra ja v a v e ste n upcial; 12 e perguntou-lhe: A m igo, com o en tra ste aqui, sem te res v e ste nupcial? E le , p orém , e m u ­ d eceu. 13 Ordenou en tão o rei a o s serv o s: A m arrai-o de p és e m ã o s, e lançai-o n as trev a s e x te r io r e s; a li h a v e r á choro e ranger d e d en tes. 14 P orq u e m u ito s sã o cham ados, m a s poucos escolh id os.

Esta parábola pode não estar intima­ mente relacionada com a questão de autoridade colocada em 21:23, como estão as parábolas dos dois filhos e dos lavradores maus, mas pode ser que Mateus tencionasse que ela fosse a pará­ bola que marcasse o apogeu do desenvol­ vimento desse tema. A lição estabelece um paralelismo bem íntimo com a pará­ bola dos lavradores maus. Aqui um rei é a figura central, e é a sua autoridade que é desafiada; e os desafiantes não esca­ pam. O rei emitiu convites para muitas pes­ soas, para que se considerassem hóspe­


des nas bodas de seu filho. Embora emitido como convite, é muito mais do que um a simples cortesia social, o con­ vite do rei. Desprezar o convite do rei seria rejeitar a sua autoridade. Isto não pode ser feito impunemente. Na pará­ bola, o rei faz referência a Deus. Deus convida os homens à sua mesa. Se ele não convidasse, o homem não poderia assentar-se à sua mesa, da mesma forma como um súdito não poderia participar de um banquete do rei, a não ser que fosse con­ vidado. Deus convida, mas não obriga ninguém a comer do seu banquete. A pessoa pode recusar-se, mas, ao fazê-lo, desafia a autoridade de Deus, e desta forma escolhe a alternativa: destruição nas trevas exteriores. É necessário entender os costumes antigos, para ter a idéia de serem envia­ dos os servos a chamar os convidados. Os convites haviam sido enviados antecipa­ damente; e, quando o banquete estava pronto, os servos foram enviados àque­ les que haviam sido convidados, para dizer-lhes que o banquete estava pronto, e que estava na hora de comparecerem. Isto significa que as pessoas que se recu­ saram a participar haviam recebido seus convites antecipadamente, e tinham ainda menos desculpas para se recusa­ rem a ir. As pessoas convidadas a principio se recusaram a ir, e mais tarde não fizeram caso do convite, preocupando-se com outros interesses. Mas não havia apenas indiferença para com o convite do rei; alguns demonstraram hostilidade. Quan­ do pela segunda vez os servos foram enviados, alguns dos convidados zomba­ ram, e outros ultrajaram e mataram os servos. A conduta das pessoas convida­ das é quase impossível de crer. Foi rude, abjeta e cruel. Mas esta é a idéia. Mais surpreendente do que o amoroso convite de Deus para os homens, para se assenta­ rem à sua mesa, é a indiferença, recusa e até desafio do homem. O versículo 7 encaixa-se na história com dificuldade. O rei enviou os seus

exércitos para destruir os homicidas e queimar a sua cidade (presumivelmente uma alusão à destruição de Jerusalém em 70 d.C.), contudo, as bodas ainda estão preparadas (v. 8) para os hóspedes. É forçado pensar em uma “blitz” que pudesse estar terminada antes que a re­ feição se esfriasse. É melhor lembrar simplesmente que isto é uma parábola. As lições são suficientemente claras, apesar de ser difícil perceber os detalhes da história. Embora um banquete não permaneça preparado enquanto se trava uma guerra, o “banquete messiânico” , ao qual a parábola se refere, permanece pronto. Quando os que foram convidados a princípio demonstraram que não eram dignos, os servos foram mandados para as encruzilhadas (diexodous pode signi­ ficar as estradas que saem da cidade, ou o cruzamento de estradas), para convidar qualquer pessoa que fosse encontrada, tanto maus como bons. A referência pode ser à missão gentílica, em seguida à rejeição de Jesus, por parte de Israel, mas, antes de tudo, aos coletores de im­ postos e “pecadores” dentro de Israel. A vocação ou eleição tem suas faízes na graça de Deus, e não no mérito do ho­ mem. A sala nupcial vai encher-se, quer atendam ou não os mais privilegiados. Uma parábola dentro de uma pará­ bola encontra-se nos versículos 11-14. Descobriu-se que um dos convivas não tinha veste nupcial. A conjetura de que o hospedeiro providenciasse roupas espe­ ciais para os convidados pode ser correta, mas será derivada apenas desta passa­ gem (a não ser que, como parece impro­ vável, tal pensamento seja um reflexo de Gên. 45:22; Juí. 14:12 e s.). Não somos informados por que o homem se conside­ rou culpado. Quando interrogado, para explicar que direito ele tivera de entrar (e não como entrara) sem veste nupcial, ele emudeceu. Possivelmente não encon­ trou desculpas. A idéia pode ser que o seu desafio da autoridade era ainda maior do que dos primeiros homens con255


vidados. Eles haviam desafiado a auto­ ridade do rei, recusando-se a assistir à festa. Este homem desafiou essa autori­ dade de maneira mais arrogante, ten­ tando assisti-la à sua própria moda. A confusa passagem acerca do homem sem veste nupcial, bem como a declara­ ção final de que muitos são chamados, mas poucos escolhidos, podem ter o obje­ tivo de advertir o último grupo convida­ do, fossem eles coletores de impostos e prostitutas (21:32) ou gentios, de que eles também estão correndo o perigo de se­ rem presunçosos. Da mesma forma como o primeiro grupo convidado representa os lideres judeus, o segundo grupo, ao qual pertencia o homem sem vestes nup­ ciais, representa os gentios, ou o grupo de proscritos em Israel. Devido à pre­ sunção, ou privilégio, qualquer dos dois grupos pode ser rejeitado. A veste nup­ cial é uma forma de fazer lembrar que, até dentro da graça da vocação, ou elei­ ção, divina, há exigências morais (cf. Lau, p. 157). Jeremias afirma que não se deve enten­ der, por veste nupcial, nenhuma roupa usada especialmente para tais celebra­ ções, mas que a referência era às condi­ ções das vestes, lavadas muito bem para o banquete (Parables, p. 187-89). A dá­ diva gratuita da salvação, feita por Deus^ muitas vezes é descrita como “roupas de salvação” ou “vestes de justiça” (Is. 61:10). Na interpretação rabínica de Eclesiastes 9:8, “sejam sempre alvas as tuas vestes” , a roupa festiva significa arrependimento. Em Apocalipse uma roupa branca simboliza a pureza ou ar­ rependimento (3:4,5,18; 19:8). Portanto, aqui, a veste nupcial pode simbolizar o dom da salvação, oferecido por Deus, ou especificamente arrependimentos e jus­ tiça. A salvação é oferecida a coletores de impostos e prostitutas e gentios, mas não há indulgência. Há dádiva e exigên­ cia. O preço da rejeição do convite de Deus é a rejeição. Muitos são chamados (klé^ toi), mas poucos escolhidos (eklektoi). 256

Isto parece significar que muitos são chamados, mas nem todos aprovados. O ensino, aqui, de certa forma, serve de paralelismo ao das parábolas do joio (13:24-30,36-43) e da rede (13:47-50). Os maus e bons encontram-se juntos até o juízo, mas no juízo final são separados. Mateus difere de Paulo no emprego dos termos “chamados” e “ escolhidos” , ou “eleitos” . Paulo restringe os termos às pessoas que responderam em fé ao con­ vite de Deus. Para ele, o oposto a “os chamados” não é os “não chamados” , mas os que se recusaram ou desobede­ ceram. Mateus emprega “chamados” para o convite de Deus, extensivo a todos, e “eleitos” aos que se verificou terem reagido adequadamente. 5. Esforços Abortados Para Lograr Jesus (22:15-40) Mateus agora segue Marcos ao apre­ sentar três tentativas das autoridades judaicas para lograr ou apanhar Jesus, quer levando-o a fazer declarações acerca de assunto controvertido, quer embaraçando-o ou desacreditando-o diante do povo. Os fariseus, com a ajuda dos hero­ dianos, fizeram a primeira tentativa. Foram seguidos pelos saduceus, e depois tentaram, ainda um a outra vez, confun­ dir Jesus na área da Lei, onde eles se julgavam autoridades. 1) O Pagamento de Impostos a César (22:15-22) 15 E n tão os fa riseu s se retira ra m e co n ­ su ltaram en tre s i com o o ap an h ariam em a lg u m a p a la v ra ; 16 e en viaram -lh e os seu s discipulos, ju n tam en te co m os herodianos, a d iz e r ; M estre, sa b em o s que é s verdadeiro, e que e n sin a s segundo a verd a d e o cam inho de D eu s, e de n in gu ém se te dá, porque não olhas a a p a rên cia dos h om en s. 17 D ize-nos, pois, que te p a rece? É líc ito p a g a r o tributo a C ésar, ou não? 18 J e su s, p orém , p e r c e ­ bendo a su a m a líc ia , resp o n d eu : P o r ^ue m e ex p erim en ta is, h ip ócritas? 19 M ostrai-m e a m oed a do tributo. E e le s lh e ap resen taram um denário. 20 P ergu n tou -lh es e l e : D e quem é e sta im a g e m e in scriçã o ? 21 R esp on d e­ ram : D e C ésar. E n tã o lh e s d isse; D ai, pois, a C ésar o que é de C ésar, e a D eu s o que é de


D eus. 22 Ao ou virem isso , fic a r a m a d m ira ­ dos ; e , deixando-o, se retira ra m .

O fato de questionarem Jesus acerca do pagamento de tributo a César era uma conspiração deliberada, tendo em vista forçá-lo a entrar em um dilema, do qual não pudesse escapar. Os fariseus se opunham ao pagamento desse tributo a César, embora coubesse futuramente aos zelotes fazer a nação mergulhar em uma guerra, por esse motivo, contra os roma­ nos (66 a 70 d.C.) Os herodianos (cf. Mar. 3:6) eram partidários políticos que apoiavam os herdeiros de Herodes, o Grande. Visto que Herodes dependia dos romanos, para manter-se no cargo, apoiava o pagamento do tributo. O tributo (kênson) em questão era uma capitação ou imposto pago por cabeça, chamado hoje imposto de recen­ seamento, cobrado igualmente de todos os do sexo masculino de quatorze anos para cima, e do sexo feminino dos doze aos sessenta e cinco anos de idade, em províncias como a Judéia, que estavam diretamente sob o domínio de Roma. Este tributo pessoal era cobrado em adi­ ção a um imposto sobre as propriedades e taxas sobre a produção. O tributo era pago com um denário especial, de prata, que ostentava o busto e o nome do César que estava reinando. O tributo era du­ plamente odioso para os patriotas ju ­ deus, pois os forçava a reconhecer a sua subordinação a um governante estran­ geiro, e a imagem de César violava a sua lei e a sua consciência contra a idola­ tria. Este foi o tributo que serviu de ocasião para a revolta de Judas da Gali­ léia em 6 d.C. (Josefo, Antig., 18:1 e Guerras, 2:8). Esperando apanhar Jesus em alguma palavra, isto é, levá-lo a dizer algo que afastasse dele os patriotas judeus, ou que desse aos herodianos motivo para acusálo de tendências revolucionárias ou trai­ ção, os fariseus primeiro tentaram apa­ nhar Jesus desprevenido, mediante li­ sonja. Dirigiram-se a ele como Mestre,

título de honra entre eles, e o louvaram como verdadeiro e imparcial. As frases de ninguém se te dá e não olhas a apa­ rência dos homens são um tanto ambí­ guas. O que se queria dizer era que Jesus não demonstrava parcialidade, e que ele não julgava os homens pela aparência exterior. Neste contexto, eles fizeram a pergunta que, esperavam eles, deixaria Jesus sem saída: tributo a César, ou não? Eles usaram originalmente a palavra dar, e não a palavra pagar. Em Marcos 12:14 é mais enfático: “Daremos, ou não da­ remos?” A questão de se era lícito ou não pagar o tributo foi feita do ponto de vista da lei mosaica. Jesus não fugiu à pergunta, mas deu uma resposta surpreendente, tanto de­ vastadora para a posição farisaica, como de longo alcance em sua direção para todo o povo. A alternativa para “equi­ librar-se na cerca” não é necessaria­ mente cair num lado ou no outro. Pode ser demolir a cerca. Jesus, percebendo a sua malícia, chamou-os de hipócritas. Respondeu à pergunta pedindo a moeda (nomisma) do tributo (kénsou), isto é, a moeda especial para o tributo do censo ou “por cabeça” . O próprio fato de eles possuírem a moeda era prova de que já haviam reco­ nhecido o domínio de César. Ao aceitar a sua m.oeda, eles haviam assumido certas obrigações. Jesus os compeliu a reconhe­ cer que ela continha a imagem e inscri­ ção (literalmente, “nome”) de César. Jesus então os encarregou de dar (literal­ mente “ devolver,” apodote) a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Ele mudou o seu “ dar” para “ devolver” , para enfatizar o seu débito para com César e para com Deus. Implicitamente, Jesus se recusou a apoiar o que estava sendo demonstrado ser uma guerra devastadora e sem espe­ ranças contra Roma, e tampouco disse que Roma tinha o direito de governar sobre os judeus. Ele ensinou a validade do governo humano, e reconheceu o domínio romano como um fato. Ao 257


reconhecer débito para com César e para com Deus, Jesus não estava afirmando uma completa separação entre os dois, fazendo César independente de Deus, ou isolando o que é secular do que é sagra­ do. “César” , ou o Estado, tem as suas reivindicações válidas, mas “César” permanece válido apenas quando é sub­ misso a Deus, único soberano, que está sempre acima de César. Sempre que o governo (César) procurar ser totalitário ou independente de Deus, torna-se idó­ latra. Imagem (eikõn) pode ser um a referên­ cia adicional aos ensinos bíblicos de que o homem é feito à “imagem” de Deus (Gên. 1:27). O que o homem precisa “devolver” a Deus é antes de tudo a si mesmo. 2) A Questão da Ressurreição (22:23-33) 23 N o m esm o d ia v ie r a m alg u n s sa d u ­ ceu s, que dizem não h av er ressu rreição , e o interrogaram , dizendo: Z i M estre, M oisés d isse: Se m orrer a lg u ém , n ão tendo filhos, seu irm ão ca sa r á com a m u lh er d e le , e s u s­ citará d escen d ên cia a seu irm ã o . 25 Ora, h avia en tre nós se te irm ã o s: o prim eiro, tendo casad o, m orreu; e, n ão tendo d e sc e n ­ dên cia, deixou su a m ulh er a se u irm ão; 26 da m e s m a sorte tam b ém o segu n d o, e o terceiro, até o sétim o . 27 D ep o is de todos, m orreu tam b ém a m u lh er. 28 P ortan to, n a ressu rreição, de qual dos se te se r á e la e sp o ­ sa , pois todos a tiveram ? 29 J esu s, porém , lh es respondeu: E rra is não conhecendo m E scritu ra s n em o poder de D e u s ; 30 pois na ressu rreição nMn se c a sa m n em se dão em casam en to; m a s serão co m o os anjos no 'céu. 31 E , quanto à ressu r r e i^ Ó dós m ortos, não le s te s o que v o s foi dito por D e u s : 32 E u sou o D eu s de A braão, o D eu s dé Isaq u e, e o D eus de Jacó? O ra, e le não é D eu s de m o r ­ tos, m a s de v iv o s. 33 E a s m u ltid ões, ou vin ­ do isso , se m a ra v ilh a v a m da su a doutrina.

Os saduceus (nome derivado possivel­ mente de Zadoque) são mencionados aqui pela sexta vez, por Mateus (cf. 3:7; 16:1, 6, 11 e s.), mas pela primeira vez agindo sozinhos. Em Marcos e Lucas eles são mencionados apenas nesta história (Mar. 12:18; Luc. 20:27). Os saduceus eram ricos aristocratas, poucos em n ^ miêrÕ7 mas~lnurtó^Õdèrosos. Haviam 258

emergido dos “ grepos” ou “helenistas” . que, iiõ^tempo de Antíoco Epifânio (c. 175 a.C.), haviam colaborado com os sírios, adaptados ao sistema gfego. JSob_ o domínio dos romanos (60. a.C. em diintê);'éres se tornaram colabojacionistas, aceitando o sumosacerdòcio como cargo nomeado pelos romanos. Éram o \ partido sacerdotal, os fariseus sendo J leigos. Nem o termo liberais nem o termo conservadores descreve adequadamente os saduceus. Se ambos esses termos fo­ rem aplicados, eles eram política e so­ cialmente conservadores (status~qüo) e 6T5Hcârnênte (Pentateuco) literalistas. Não há evidência conclusiva de que eles rejeitassem qualquer parte das Escritu­ ras, mas edificavam sobre o Pentateuco. Rejeitavam a tradição oral dos fariseus.-\ R ^êítãvãínT r3õutfnãs ~3ã_ressurreicão, \ anjos, destino e providência, enfatizando | o livre-arbítrio do homem (cf. At. 23:8; ' Josefo, Antig., 13:5; 18:1; Guerras, 2,8). A doutrina da ressurreição surgiu num período mais tarde no Velho Testamento (cf. Is. 26:19; Dan. 12:2 e s.; Habacuque; Jó; Sal. 71, e os saduceus não a/ aceitavam. É significativo que Jesus ré^ í montou a Êxodo 3:6, 15 e s. para encon! trar uma base bíblica para a doutrina da (ressurreição. A intenção dos saduceus era principalm en^^ m ^ r ^ â r ' Jesus, mas, para eles e para os romanos. Havia algumas to n a F dades políticas na doutrina da ressurrei­ ção. A doutrina era escatológica, e podia í Csugerir um Israel nacional restaurado à j í soberania e í6 e r3 a 3 r* d e ^ o m ã . M a s / *^isto que os poderosos fariseus^ criam firmemente eih uma ressurreição, os saduceus podiam fazer pouco càsd disso, como acusação política contra Jesus. Eles provavelmente pretendiam apenas ridi­ cularizar tanto Jesus'^üãi2Ô ^O ifiseü|7 '~~r iu s t o r i a ' dos sete irmãos, em qilê cada“um7'por sua vez, esposaram a mes­ ma mulher, era provavelmente uma anedota corrente, usada pelos sáducéus escarnecedoramente. Ela alude à doutri­


na do levirato de Deuteronômio 25:5 da criação, que considera o corpo como fcTada a éntendér em Gên. 38:8), que essencial para o que o homem é, e ã requeria que, quando irmãos viviam jun­ doutrina da redenção, que considerado tos, e um morresse sem deixar filhos do homem completo como o objetivo da sexo masculino, o irmão sobrevivente redenção. Mas o corpo é visto como pasdevia tomar a mulher dele como esposa, sando por transformações, comparáveis e suscitar um filho para o seu irmão fale­ à renovação ^'ue corneça com o homem cido. Os saduceus citaram a versãq^_da interiqr. ' LXX, que omite a condição de que os È significativo quetfesu^enha apelado irmãos haviam vivido no mesmo lugar e para o_Peatateuco (Êx. 3:6), parte mais que se refere apenas a não tendo fílhos antiga das Escrituras, reconhecida pelos (sperma, semente), em vez de “ não tendo saduceus, ao afirmar que Deus é o Deus filhos do sexo masculino” . A estória dos de Àbraãó, o Deus de Isaque, e o Deus saduceus também presumia uma ressur­ de Jacó, e o Deus de vivos. Antes de tudo, reição material, em que a vida ressuristo afirma a importância eterna da indirecta seria como esta. yidualidade. Ele não é apenas o Deus de Jesu^ _corrigiu os saduceu^^em dojs^ Israel, mas de pessoas individualmente..^ pontos. Eles e r a m j ^ i o r a n ^ das Éscri- '”Somos indivíduos distintos na criação, / t u j ^ ^ t é mesmo da parte que"l?conheredenção e continuaremos sendo n o / ciam como tal), eJ§inbémjl^^_gueJD^s mundo futuro. Jesus afirmou que Deus pode fazer. A ressurreição é a continuaagora, presentemente, é o Deus de çãò^âa^ída pessoal, mas não em expres­ Ãbraãõ^TsIq u re Jacó. Èsses homens não sões materiais como o lado físico do casa­ e^taò mo ^ s , mas viros. Eles estão vivos mento. Jesus e Paulo (I Cor. 15:35-44) como pessoas individuais. Não estão ensinaram que o corpo da ressurreição mortos ou dormindo. Sejam quais forem será espiritual, corpo, mas não de “carne as dimensões ulteriores dadas à ressur­ e sangue” . Na analogia da “ semente” reição na Parousia de Jesus, já os que (descendência), Paulo encontrou tanto morreram são pessoas vivas (cf. 17:3). continuidade como descontinuidade A crença na continuidade da vida para ! entre o corpo que temos agora e o corpo o homem está ligada à crença em um í ressuscitado. Jesus não entra em deta­ Deus vivo. J lhes, mas isto é o que se depreende da sua A declaração de que na ressurreição os resposta aos saduceus. homens são como os aiyos não deve ser A doutrina neotestamentária da res­ forçada ãlém de um ponto: nem se casam surreição evita dois extremos: o ponto de nem se dão em casamento. A idéia po­ vista cruamente literal dos saduceus, e o pular de que ps homens se tornam anjos ponto de vista chamado “grego” , de uma nos céus não tem apoio bíblico. alma imortal. O^ ponto de j istaLmaterial 3) O Grande Mandamento (22:34-40) era amplamente esposáBo no mundo antigo, cõ5iõ~TêvTáen£ exem­ 34 Os fa riseu s, quando sou b eram que ele plo, nos costumes funerais dos antigos fizera em u d ecer o s sa d u ceu s, reuniram -se egípcios e dos primitivos índios america­ todos; 35 e um d ele s, doutor da le i, p ara o nos. Eles esperavam que a vida no mun­ ex p erim en tar, interrogou-o, dizendo: 36 M estre, qual é o grande m an d am en to n a lei? do futuro fosse física e material. O ppr^to 37 B espondeu-lhe J e su s: A m arás o Senhor de vista “ tn-ego” (esposado por muitos teu D eu s de todo o teu coração, de toda a tua não-gregos) da imortaUdade da alma sus­ alm a, e de todo o teu en ten d im en to. 38 E ste é tentava que o corpo era apenas a sepul­ o grande e prim eiro m an d am en to. 39 E o segundo, sem elh a n te a e ste , é : A m arás o teu tura qu prisão da alma, e que a morte era próxim o com o a ti m e sm o . 40 D e ste s dois a amiga que iria libertar a alma do m an d am en tos dep en d em toda a le i e os corpo. Isto contradiz a doutrina bíblica p rofetas. !■— ■liiBaiimiMiiiiiiiilHin II IIIIIII.. . WI iiriiTTT i»m

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o granite mandamento aparece em todos os três Sinópticos, baseado em Deuteronômio 6:5. Há pequenas varia­ ções em cada uma das citações. As dife­ renças sinópticas parecem apontar para duas tradições básicas: uma preservada em Marcos 12:28-34, e outra no do­ cumento Q. Em Lucas, o “ doutor da lei” é creditado com o fato de combinar Deu­ teronômio 6:5 e Levítico 19:18, reunindo os mandamentos para amar a Deus e o homem. Lucas parece ter preservado a tradição de Q. Em Marcos os dois man­ damentos são reunidos por Jesus (12:29 e s.), e depois são mencionados de novo pelo “escriba” (12:32 e s.). Mateus segue Marcos, ao atribuir a declaração sumária a Jesus. Em Marcos, o grande manda­ mento é apresentado contra a declaração da unicidade de Deus (Deut. 6:4), e a história é conciliatória. Em Lucas, o segundo dos grandes mandamentos é explicado através da história do bom samaritano. Em Mateus a hostilidade entre fariseus e Jesus é visível. Os fariseus haviam descoberto que as leis eram em número de 613, sendo que 365 proibições e 248 mandamentos posi­ tivos. Também haviam discutido a im­ portância relativa das leis. Doutor da lei (nomikos) é um termo alternativo para escriba — copista e estudioso da lei mosaica. A palavra-chave, no grande manda­ mento, bem como no segundo, que é semelhante a ele, é amor (veja a discus­ são de 5:43-48). O amor é a disposição básica de todo o ser da pessoa em relacio­ nar-se com Deus, para a Sua glória, e com o homem, para o seu bem. Coração, no pensamento judaico, era a sede dos pensamentos e sentimentos. Alma (psuquê) pode referir-se a vida, mente ou “eu” . Entendimento (dianoia) refere-se ao elemento racional. Quando se compara todas as passa­ gens envolvidas, torna-se claro que os termos variam em número e em ordem. O texto hebraico de Deuteronômio 6:5 apresenta coração, alma e força. A LXX 260

apresenta o mesmo no Codex Alexandrinus, mas mente, alma e força no Codex Vaticanus. Em Marcos, Jesus fala de coração, alma, mente e força, ao passo que o escriba menciona coração entendi­ mento e força. Em Lucas, o doutor da lei menciona coração, alma, força e mente. O que se pretende, em cada passagem, é que todo o ser seja dedicado a Deus e aos outros. Precisão mecânica não é um alvo importante para os escritores bíblicos. Jesus faz do amor não apenas o grande mandamento, mas também a essência e cumprimento da lei e os profetas (cf. 5:17). Todas as Escrituras dependem destes dois mandamentos. Traduzindose literalmente, a lei e os profetas “de­ penduram-se” (krematai) nesses dois mandamentos acerca do amor, como uma porta nos seus gonzos. Isto significa que o duplo mandamento para amar é o princípio da interpretação de toda a lei e os profetas (o nosso Velho Testamento). Também significa que, ao executarmos a lei de amor para com Deus e o próximo, todas as leis de Deus são cumpridas, pois aquela é a essência da Lei. Jesus e os rabis aparentemente esta­ vam de acordo quanto à compreensão da Lei desta forma, mas havia uma dife­ rença de monta que os separava. Embora os rabis ocasionalmente reconhecessem um sumário de todas as leis em um ou em uns poucos mandamentos, apegavam-se firmemente ao princípio de que cada mandamento é tão importante quanto os outros, sendo os mandamentos “leves” tão importantes quanto os “pesados” (cf. Aboth 2:1b; Jerusalém Kiddushin 1:61b; Tanhuma 5b; Hagigah Babiló­ nica 5®). Jesus, todavia, achava que o amor é o cumprimento de todas as leis, e não apenas uma lei ao lado das outras (cf. Bornkamm, p. 75-78, 85). Mateus mostra que Jesus reconhecia a validade de toda a Lei, sendo esta posição contra os antinomianos. Ele mostrou que Jesus tinha uma compreensão mais profunda da Lei do que os rabis. Isto se opõe a todo o legalismo. Esta idéia não nos coloca


debaixo de requisitos mais leves, porém mais pesados, porque os requisitos do amor são mais pesados do que todo o legalismo. O amor tanto liberta quanto prende. Ele dá gratuitamente, contudo, requer todo o ser para Deus, o próximo e si mesmo. Para um fariseu, o seu próximo seria outro fariseu. O nome fariseu, que signi­ fica separatista e alude ao seu propósito de separar-se das pessoas e coisas ritual­ mente “impuras” , era um apelido que lhes era dado pelas outras pessoas. A si mesmos eles se chamavam Haberim, que significa “vizinhos” . Jesus ensinou que o verdadeiro próximo é aquele que age em amor para com qualquer pessoa a quem possa servir (cf. Luc. 10:29-37). Embora a ênfase seja acerca de amar a Deus e o próximo, a pessoa deve também amar a si mesma. Existe um amor pró­ prio que é a essência da depravação, mas há também um amor piedoso que neces­ sariamente inclui a si próprio. Quando a pessoa verifica que pertence a Deus e ao próximo, descobre que precisa também cuidar de si mesma. O amor não pode ser dividido, e o verdadeiro eu não pode ser separado de Deus ou do próximo. Ou a pessoa ama a Deus, o próximo e a si. mesma, ou não ama a nenhum deles. 6. A Pergunta de Jesus: Filho ou Senhor de Davi? (22:41-46) 41 Ora, enquanto os fa r ise u s e sta v a m reunidos, interrogou-os J esu s, dizendo: 42 Que p en sais vó s do C risto? D e q u em é filho? R esponderam -lhe: D e D a v i. 43 R eplicoulh es e l e : Como é então que D a v i, no E sp iri­ to, lhe ch a m a Senhor, dizendo: 44 D isse o Senhor ao m eu Sen h or: A ssenta-te à m in h a direita, a té que eu ponha o s teu s in im ig o s debaixo dos te u s pés? 45 Se D a v i, pois, lh e ch a m a Senhor, com o é e le seu filho? 46 E nin gu ém podia responderlhe p a la v ra ; n em d esd é a q u ele dia ja m a is ousou alg u ém interrogá-lo.

Depois de responder a várias perguntas-testes, propostas pelos fariseus e saduceus, Jesus tomou a iniciativa de

propor uma pergunta que não apenas silenciou os seus oponentes, mas também focalizou a interrogação básica quanto à sua própria identidade. Quem é Jesus? A resposta é que ele é tanto filho de Davi coino Senhor de Davi. Mateus começou chamando Jesus de “filho de Davi, filho de Abraão” e mostra que Jesus aceitou o título de “filho de Davi” (20:31; 21:9,15). Mas ele é infinitamente mais do que filho de Davi. Ele é verdadeiramente humano, “da descendência de Davi segundo a carne” (Rom. 1:3), mas é também “Filho de Deus” e Senhor de Davi. Ele não é um Messias político, davídico, como se en­ tendia no judaísmo daquela época. Esta passagem não tem o objetivo de negar que Jesus é “filho de Davi” , mas corrige ou interpreta essa declaração. É interessante que a discussão, mencionan­ do Salmos 110:1, termina com a pergun­ ta: “Como?” A peculiaridade de Jesus ser tanto filho de Davi como Senhor de Davi, bem como verdadeiro Deus e ver­ dadeiro homem, é um fato a ser afirma­ do, mas não a ser reduzido a uma expla­ nação lógica. A fé cristã se mantém segu­ ramente diante do mistério da encarna­ ção, e não remove o mistério. 7. Os Escribas e Fariseus Expostos e Denunciados (23:1-36) Uma seção principal, começando aqui e continuando por todo o capítulo 25, pode ser reconhecida. A denúncia dos escribas e fariseus levou Jesus a lamentar sobre Jerusalém (23:37-39), e esta lamen­ tação, por seu turno, levou-o a julgar Jerusalém e o mundo (24 - 25). A seção imediatamente diante de nós, 23:1-36, tem alguns paralelos em Marcos 12:37-40 e extensos paralelos, espalhados por váriôs capítulos de Lucas e em ordem diferente (especialmente capítulos 11 e 20). O discurso em Mateus divide-se em duas partes: advertências contra o exem­ plo dos escribas e fariseus (23:1-12) e juízo sobre os escribas e fariseus 23:1336). Os escribas e fariseus, como líderes 261


religiosos, representam Israel como um todo, e não apenas um partido.

tente em um a sinagoga, simbolizando a origem e a autoridade do ensino dos es­ cribas. Os escribas atribuíam as origens 1) Advertências Contra o Seu Exemplo dos seus ensinos a Moisés. A acusação de (23:1-12) que os escribas e fariseus não praticam o 1 E ntão falou J e su s à s m u ltid õ es e a o s que dizem não deve ser levada em sentido seu s d iscípulos, dizendo: 3 N a ca d eira de absoluto, como o indica o versículo 5. M oisés se a ssen ta m o s e sc r ib a s e fa riseu s. Jesus não endossava tudo o que eles pre­ 3 P ortanto, tudo o que v o s d isserem , isso gavam, mas reconhecia que eles pratica­ fazei e o b se r v a i; m a s n ão fa ç a is conform e a s su a s obras; porque d izem e não p ra ti­ vam alguns dos seus ensinamentos, pelo ca m . 4 P o is a ta m fardos p e sa d o s e d ifíceis menos exteriormente. Neste ponto, a de suportar, e os p oèm a o om bro dos h o ­ acusação é contra as suas motivações e m en s; m a s e le s m esm o s n em co m o dedo procedimento, que roubavam o valor de q u erem m ovê-los. 5 X odas a s su a s obras e le s a s fa zem a fim de se r e m v isto s p elos h o ­ suas ações, pois, paradoxalmente, eles m en s; p ois a la rg a m o s seu s fU actérios, e não praticavam, realmente, aos olhos de au m en tam a s fra n ja s dos se u s m a n to s; 6 Deus, o que pareciam fazer (McNeile, p. gostam do prim eiro lu gar nos ban q u etes, 330). d as p rim eiras ca d eira s n a s sin a g o g a s, 7 d as Esta passagem expressa um relaciona­ sau d ações n a s p ra ça s, e de se r e m ch am ad os p elos h o m e n s: R abi. 8 V ós, p o rém , náo q u ei­ mento entre os discípulos de Jesus e a ra is ser ch am ad os B a b i; porque u m só é o sinagoga, sem nenhuma sugestão de um vosso M estre, e todos v ó s so is irm ã o s. 9 £ a rompimento total entre eles (Lohmeyer, ninguém sobre a terra ch a m eis vo sso p ai; p. 335; Bornkamm p. 21 e s.) porque u m só é o v o sso P a i, a q u ele que e stá nos céu s. 10 N em q u eirais se r ch am ad os Os fardos que os escribas e fariseus g u ias; porque u m só é o v o sso G uia, que é o atam sobre o povo são as regras meti­ C risto. 11 M as o m aior dentre v ó s há de ser culosas acerca de rituais de purificação, v osso servo. 12 Qualquer, p ois, que a si leis alimentícias, observância do sábado, m esm o se ex a lta r, se r á hum ilhado; e q u al­ dízimo até de produtos da horta, e coisas quer que a si m e sm o se hum ilhar, se r á exaltad o. semelhantes. Atar é o termo técnico para proibir. A escola de Hillel era mais libe­ Os escribas e os fariseus não são idên­ ral do que a de Shammai, mas, em ticos. A maior parte dos escribas eram muitos respeitos, esta última parece que fariseus, mas nem todos os fariseus eram prevalecia na época de Jesus. A religião escribas. Os escribas eram os intérpre­ passara a ser, de forma exagerada, um tes reconhecidos da lei judaica. As suas fardo a ser carregado, e não um poder oiigens remontam ao tempo de Esdras. . que sustentasse o crente (cf. 11:28-30). Os primeiros escribas eram sacerdotes, As acusações, aqui, são devastadoras, mas os últimos eram leigos. Os fariseus mas expressam a extensão em que uma do tempo de Jesus consistiam de cerca de reforma se fazia necessária. Acusações seis mil leigos judeus, que procuravam mais suaves não teriam sido ouvidas. escrupulosamente executar o governo Embora houvesse exceções entre os mes­ tribal. Lucas preserva a distinção entre tres e os ensinos, basta apenas ler as escribas e fariseus, registrando três ais longas seções do Talmude, para verificar contra cada um (11:42-52), porém M a­ a extensão em que fardos de trivialida­ teus não estava interessado nessa distin­ des haviam sido lançados sobre o povo. ção (cf. a Introdução). Quando escreveu, Jesus clamou pela substituição de’regras os fariseus eram os lideres do judaísmo, mortas por uma dedicação básica de quase sem rivais. Para ele, eles represen­ amor a Deus e ao próximo. Ele concla­ tavam Israel como um todo. mou os seus ouvintes a uma maior liber­ Cadeira de Moisés parece referir-se a dade para a consciência individual, e uma cadeira propriamente dita, exis­ menos regulamentos de todas as áreas da 262


vida de uma pessoa, pelos escribas e doutores da lei. Uma acusação importante é a de que eles estavam representando, para serem vistos pelos homens. Esta prática levava a atos extremos de ostentação, exibição ou dramatização da sua piedade. Filactérios eram caixas de couro usadas sobre a testa e o braço esquerdo (Êx. 13:9; Deut. 6:8,9), contendo as palavras de Êxodo 13:1-10,11-16 e de Deuteronômio 6:4-9 e 11:13-21, escritas em tiras de velo (pergaminho), em cumprimento literal de Êxodo 13:16 e Deuteronômio 6:8 e 11:18. Alguns faziam essas bolsas de couro indevidamente grandes, para chamar a atenção para a sua piedade. As fraiyas eram borlas costuradas nos qua­ tro cantos da vestimenta exterior (cf. Núm. 15:38e s., Deut. 22:12). O próprio Jesus usava essas borlas (9:20; 14:36). O seu protesto não era contra o costume, mas contra a ostentação: o alongamento das bordas de forma a parecer piedoso. Além da exibição pública de piedade, mediante a vestimenta, havia o desejo de privilégios especiais e honras. O mais importante lugar numa festa era uma poltrona ao lado direito imediatamente próximo ao hospedeiro. Parece que os lugares de honra ficavam em uma plata­ forma, de frente para a congregação. Saudações não eram os cumprimentos apressados, como no mundo ocidental, mas rapapés mais formais. Jesus encon­ trou duas falhas no desejo de títulos espe­ ciais: reclamar o que pertence apenas a Deus ou ao seu Cristo, e a negação do princípio básico de que a medida da grandeza é o serviço. Rabi significa “ meu mestre” (profes­ sor). Depois do tempo de Jesus, o prono­ me perdeu a sua força, e o termo passou a significar apenas “ mestre” , Na comuni­ dade de Cristo, ele é o Mestre, e nós somos os irmãos. “Abba” (pai) era um termo usado para designar os rabis e grandes homens do passado, e, aparen­ temente, naquela época estava sendo usado para pessoas vivas. Mestre (kathè-

gétés) é tradução de outro termo sinôni­ mo de professor, encontrado apenas na Bíblia. Como hodègos, no versículo 24, ele enfatiza um papel de liderança, e não administrativo. Não há distinção entre mestre, no versículo 8, e guia, no versí­ culo 10, representando as duas palavras gregas, aparentemente, a hebraica rab (professor, mestre). A verdadeira gran­ deza, medida pelo serviço e humildade, é um tema constante em o Novo Testamen­ to e seu ensino. Os crentes devem ser irmãos, aprendizes e servos (dialconos, diácono ou servo). 2) Sete Ais e o Julgamento Vindouro (23:13-36) 13 M as a i de v ó s, e sc r ib a s e fa rise u s, hip ó­ critas! porque fec h a is a o s h om en s o reino dos c é u s ; p ois n em v ó s en tra is, n em a o s que en trariam p erm itis en trar. 14 Ai de vós, escrib a s e fa r ise u s, h ip ócritas! porque d evorais a s c a s a s d a s v iú v a s, e sob p retexto fazeis lo n g a s o ra çõ es; por isso receb ereis m aior con d en ação. 15 A i de v ó s, escr ib a s e fa riseu s, h ip ócritas! porque p erco rreis o m a r e a terra , p ara fa ze r u m p rosélito; e, depois d e o terd es feito, o to m a is duas v e z e s m a is filho do inferno do que v ó s. 16 Ai de vós, g u ia s ceg o s! que d izeis: Quem jurar pelo san tu ário, isso n ad a é ; m a s quem jurar p elo ouro do santuário, e s s e fic a obrigado ao que jurou. 17 In sen sa to s e ceg o s! pois qual é m a io r: o ouro, ou o san tu ário, que sa n tifica o ouro? 18 E : Q uem ju rar pelo altar, is so n ad a é ; m a s quem ju rar p ela oferta qu e e stá sobre o a lta r, e s s e fic a obri­ gado a o que jurou. 19 C egos! P o is qual é m aior: a o ferta, ou o a lta r que sa n tifica a oferta? ZO P ortan to, q u em ju rar pelo altar ju ra por e le e por tudo quanto sobre ele e s t á ; 21 e quem ju rar pelo san tu ário ju ra por e le e por a q u ele que n ele h ab ita ; 22 e q u em jurar pelo céu ju ra pelo trono de D eu s e por aq u ele que n ele está assen ta d o . 23 Ai de v ó s, e sc rib a s e fa riseu s, h ip ócri­ ta s! porque d a is o d ízim o d a h ortelã, do endro e do com inho, e ten d es om itido o que há de m a is im p ortan te n a lei, a sa b er, a ju s ­ tiça , a m iseric ó rd ia e a fé; e sta s co isa s, porém , d ev íeis fa zer, se m om itir aq u elas. 24 G uias ceg o s! que co a is u m m osquito, e en gu lis u m ca m elo . 25 Ai de v ó s, e scr ib a s e fa riseu s, h ip ócri­ ta s ! porque lim p a is o exterio r do copo e do prato, m a s por dentro e stã o ch eio s de rapina e de in tem p era n ça . 26 F a r ise u ceg o ! lim pa

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prim eiro o interior do copo, p a ra que ta m ­ b ém o exterior se to m e lim po. 37 Ai de v ó s, e scrib a s e fa r ise u s, h ip ócri­ ta s ! porque so is sem elh a n te s a o s sep u lcros caiad os, que por fora r ea lm en te p a recem form osos, m a s por dentro e stã o ch eios de ossos de m ortos e de tod a im u n d ícia. 28 A ssim tam b ém vó s ex terio rm en te p a receis ju st»s ao s h om en s, m a s por dentro e sta is ch eios de hip ocrisia e de iniqüidade. 29 Ai de v ós, escrib a s e fa r ise u s, h ip ócri­ tas ! porque ed ifica is os sep u lcros dos p ro fe­ ta s, e ad ornais os m on u m en tos dos ju sto s, 30 e d izeis: Se tiv é sse m o s viv id o nos d ia s de nossos p ais, não teríam o s sido seu s cú m ­ p lices no d erram ar o san g u e de p ro feta s. 31 A ssim v ó s testem u n h a is con tra v ó s m esm o s que so is filh os d aq u eles que m a ta ra m os profetas. 32 E n ch ei v ó s, p ois, a m ed id a de vossos p ais. 33 S erp en tes, ra ç a de víboras! com o e sc a p a reis d a cond en ação do in fem o ? 34 P ortanto, e is que eu v o s en vio p rofetas, sábios e escrib a s; e a un s d e le s m a ta r e is e cru cificareis; e a outros a ço ita reis n a s v o ssa s sin a g o g a s e os p erseg u ireis de cid ad e em cid ad e; 35 p ara que sob re v ó s ca ia todo o sangue ju sto, que foi d erram ad o sobre a terra, d esd e o san gu e de A bel, o ju sto, a té o sangue de Z acarias, filho de B araq u ias, que m a ta ste s entre o santuário e o alta r. 36 E m verdade vos digo que tod as e s s a s c o isa s hão de v ir sobre e sta geração .

Sete ais (23:13-32) — Estes versículos freqüentemente têm sido criticados como severos demais para pertencerem a Jesus, e por isso têm sido atribuídos à Igreja posterior, em um período de amargo conflito com o judaísmo. Por outro lado, deve ser reconhecido que os discursos e atos de Jesus foram preservados e procla­ mados por diferentes comunidades e escritores cristãos, com suficiente liber­ dade para permitir ênfases e aplicações diferentes. Isto é conseqüência inescapável de qualquer comparação entre os paralelos sinópticos. Algo da experiência e caráter de cada comunidade, de cada es­ critor, é estampado em cada transmissão do Evangelho. Mas quando a devida margem é dada à participação da Igreja, deve ser feita justiça ao fato de que a figura de Jesus aparece clara e radiosa. A passagem, diante de nós, preserva o jul­ gamento de Jesus contra a liderança reli­ giosa da sua época. 264

Antes de tudo, pode ser observado que a rejeição cabal de fundamentos básicos dos escribas e fariseus aparece com ex­ pressão mais forte em Marcos do que em Mateus. Por exemplo, em 15:6 Mateus atenua a expressão mais forte de Marcos (7:8): “as tradições dos homens” . Em 15:18 ele omite o drástico “Assim decla­ rou puros todos os alimentos” de Marcos 7:19. Mateus escreveu em uma época de grande tensão entre igreja e sinagoga, mas também procurou conservar os canais abertos entre as duas. O Novo Testamento contém fortes evidências de que Jesus era, na verdade, mais “radi­ cal” , em sua rejeição dos ensinos, prá­ ticas e alvos do judaísmo farisaico, do que a Igreja. Ela continuou a apegar-se a elementos da prática judaica daqueles dias, dos quais Jesus já havia oferecido completa liberdade (cf. At. Gál. e Heb.). Porém, ainda mais, é fácil interpretar erroneamente a intenção e espírito de Jesus, quando ele pronunciou esses “ ais” contra os escribas e fariseus. Al (ouai) não é uma maldição, e não é apenas uma denúncia. A palavra pode expressar ira ou piedade. Embora ela traga consigo um elemento de juízo, aqui ela é um clamor ou lamentação. Jesus chorou sobre Jerusalém, e os sete ais são lamen­ tações, bem como condenações dos líde­ res religiosos, que estavam guiando er­ radamente as pessoas que confiavam neles. Não deve ser passado por alto o fato de que esses ais não foram dirigidos contra os “pequeninos” , os cobradores de impostos, ou meretrizes, mas contra os que estavam em posição de conhecer melhor e agir melhor do que os outros. Foram dirigidos contra os privilegiados líderes: porque fechais aos homens o reino dos céus. Os ais foram pronunciados por alguém ] que, desta forma, expôs a sua própria] vida, e, na verdade, a entregou, no esfor- í ço de fazer os líderes e o povo se voltarem i da morte para a vida, da escravidão p a ra ! a liberdade, das coisas da religião para o \ próprio Deus. Jesus não era anti-semita.


Ele era, de acordo com a came, um judeu, que amava o seu povo suficiente­ mente para expor os seus falsos valores e verdades deslocadas, e apontar-lhes a sua única esperança. Foi por amor, e não ódio, que essas denúncias tão fortes foram feitas. Embora, por sua natureza, elas julgassem, eram redentoras em sua intenção. Não se conclui, do versículo 13, que nenhum escriba ou fariseu está salvo. José de Arimatéia, por exemplo, era um discípulo de Jesus, bem como membro do Sinédrio (27:57; Mar. 15:43; Luc. 23: 50-53; João 19:38) e presumivelmente um fariseu. A idéia é que os fariseus não estavam dando ao mundo um a chance imparcial de salvação; e isto consistia uma acusação muito séria (Robinson, p. 188). O versículo 14 está entre colchetes na versão da IBB e em todos os textos mo­ dernos, pois só se apoia em manuscritos menos antigos. É emprestado de Marcos 12:40 por outros manuscritos. O judaísmo do primeiro século era aberto para prosélitos, gentios que eram induzidos ao judaísmo tanto como reli­ gião quanto como nação, mediante a circuncisão dos homens (no mundo anti­ go havia uma circuncisão para as mu­ lheres, mas não no judaísmo), e também o batismo e a oferta de sacrifícios rituais para homens e mulheres. Freqüentemen­ te um proséUto de uma religião é mais extremado do que os que o converteram para aquela religião. Provavelmente, Jesus queria dizer que a situação era piorada para o gentio que era levado a confiar em valores legais e rituais para sua salvação. O terceiro ai relaciona-se com a ca­ suística, uma distinção legal entre votos considerados compulsórios, e outros não considerados como tais. Ao tornar-se alguns votos válidos, e outros não, estava aberto o caminho para a legalização do perjúrio, isto é, fingir obrigar-se mediante juramento, mas dekando-se um escape técnico ou legal. Por detrás

dessa casuística estava a idéia de que um um voto ou juramento não era válido, a não ser que fosse feito na presença de Deus, como se ele estivesse mais presen­ te e envolvido no juramento, se este fosse feito pelo ouro do Templo, do que se feito pelo próprio Templo. Em 5:33-37, M a­ teus mostra que Jesus ensinou que ne­ nhum juramento é absolutamente neces­ sário para pessoas honestas. É bobagem e cegueira procurar esconder-se por detrás de uma ficção legal, como a do fraseado especial de um juramento, para obrigar uma pessoa à palavra dada ou não. O quarto ai expressa a falácia da aten­ ção escrupulosa a matérias de menor importância, em face da negligência de princípios básicos e valores primordiais. O dízimo (um décimo) do grão, do vinho, do óleo, das frutas, do rebanho, era pres­ crito nas Escrituras (cf. Lev. 27:30; Deut. 14:22), mas os escribas haviam extendido esse conceito para incluir até as ervas da horta. Hortelã, endro e comi­ nho eram ervas ou especiarias usadas para tempero, e as duas últimas eram também usadas na medicina. A maior falha não era a ênfase indevida nas coisas de menor importância, mas o fato de eles não terem dado a atenção devida ao que há de mais importante na lei. A justiça, a misericórdia e a fé são, de certa forma, reminiscências de Miquéias 6:8 e Provér­ bios 14:22. Fé (pistin) pode significar confiança ou fidelidade, sendo a fideli­ dade a Deus provavelmente o pensamen­ to aqui. A parábola do mosquito e o camelo é deliberadamente grotesca, para apontar para a cegueira da atenção meticulosa a matérias tão pequenas como dar o dízi­ mo de ervas da horta, enquanto negUgenciavam matérias básicas de caráter e conduta. Coar é filtrar. O quinto ai é uma advertência contra uma vida exteriormente regulada que esconde uma vida interior impura. Rapi­ na (harpagés) e intemperança (akrasias) são acusações pesadas. Harpagés é rou­ bo, e alcrasias é falta de autocontrole ou 265


desejo desenfreado (cf. I Cor. 7:5). Jesus estava preocupado com que tanto o Inte­ rior quanto também o exterior do copo e do prato se torne limpo. Ele colocou o homem interior em primeiro lugar, mas também ensinou que uma renovação in­ terior é refletida ou expressa na vida exterior. Os sepulcros caiados do sexto ai prova­ velmente se referem ao costume judaico de pintar com cal os sepulcros um mês antes da Páscoa, de forma que eles pu­ dessem ser vistos prontamente, e evita­ dos. Tocar um túmulo era contaminarse. A caiação fazia com que os túmulos parecessem formosos, mas todos conhe­ ciam as suas condições, interiormente. Este ai é dirigido contra a hipocrisia. O legalismo facilmente se torna uma capa sob a qual pode estar de emboscada um coração não regenerado. Jesus, aqui e em vários outros lugares, advertiu con­ tra a religião com o objetivo de servir de exibição, para ser vista pelos homens. Mateus, resistindo ao antinomianismo, bem como ao legalismo, pode ter tido um interesse especial no contraste entre a justiça que Jesus exigia e a prática da iniqüidade (anomias é ilegalidade ou antinomianismo). O sétimo ai desvenda a contradição entre o louvor aos profetas, agora conve­ nientemente mortos, e a rejeição dos profetas, que nos causam desconforto pela sua presença. Isto é desonestidade. Antes de tudo, desta forma a pessoa finge ser melhor do que os seus antepas­ sados, dando a implicação de que ela teria respeitado os profetas de antanho. Depois, é desonesto porque a pessoa rejeita, em seus dias, o mesmo testemu­ nho profético que presume estar honrado do passado. Será que ouviríamos com atenção a Amós, Miquéias ou Jeremias, se eles aparecessem em nossos dias? Todos nós gostamos de nos identifica^ com os profetas ou o salvador, tranca­ dos com segurança no passado. Os filhos daqueles que mataram os profetas é uma maneira proverbial de dizer: “Tal pai, tal 266

filho.” O versículo 32 é corretamente traduzido como imperativo, o que é ates­ tado pelas melhores versões gregas. Jesus emprega aqui uma triste ironia: “Conti­ nuai e completai o que os vossos pais começaram!” Os filhos daqueles que haviam matado os profetas bem depressa iriam crucificá-lo. luízo vindouro (23:33-36) — Estas palavras soam como as mais duras já atribuídas a Jesus. Muitos intérpretes acham que Jesus não teria falado essas palavras. Mas uma leitura cuidadosa pode lançar nova luz sobre elas. É bom que seja notado que Jesus nunca, nem sequer remotamente, sugeriu que os seus seguidores perseguissem outras pessoas. Ele nem mesmo permitiu que os seus discípulos o defendessem no Getsêmane. Ele está denunciando a perseguição, e ao mesmo tempo rogando, às pessoas que têm disposição para tal, que deixem de fazê-lo. Quem pode negar que toda forma de ódio e perseguição denunciada aqui veio a ter ativa expressão incontáveis vezes no judaísmo, bem como em outras religiões? Quem pode negar que o homem tem as­ sassinado “em nome de Deus” e até em “nome de Cristo” ? Jesus não estava lutando contra um espantalho. Ele não odiava ninguém, e nunca, nem uma vez, sancionou a perseguição. Nestas fortes palavras, ele está denunciando qualquer religião em que o homem tenta “fazer de conta” que é Deus, ao tratar com as outras pessoas. As palavras de Jesus po­ dem chocar-nos. Será que ficamos menos chocados com os que matam, crucificam e açoitam outros, até em uma assembléia religiosa, ou perseguem pessoas de cida­ de em cidade? Deve ser lembrado que essas palavras eram inteiramente contra a impiedade das autoridades religiosas, que insistiam em sua piedade e autoridade. Em jogo estava o seu destino, bem como o da sua nação. A devastação de 70 d.C. nada mais era do que uma parte do que have­ ria de sobrevir a esta geração.


Os assassinos de Abel e Zacarias ex­ pressam a ordem dos livros da Bíblia Hebraica, começando com Gênesis e ter­ minando com II Crônicas. Jesus simples­ mente chamou a atenção para a trilha de sangue ou de homicídios de justos, desde o primeiro (Grên. 4:8) até o último men­ cionados (II Crôn. 24:20 e ss.) na Bíblia Hebraica. Baraquias (ausente de Lucas 11:51 e sendo mencionado em nossa tra­ dução como Baraquias), era, na verdade, o pai de Zacarias em Zacarias 1:1, sendo Jeoiada o pai de Zacarias de II Crônicas 24:20 e ss. Em que ponto esta troca de nomes ocorreu, é fato desconhecido, e por isso mesmo sem importância. 8. Jesus Chora Sobre Jerusalém (23:37-39) 37 J eru sa lém , J eru sa lém , que m a ta s os profetas, e ap ed rejas os que a ti são e n v ia ­ dos; quantas v e z e s quis eu ajuntar o s teu s filhos, com o a galinh a ajunta o s se u s pintos debaixo d as asaa, e n áe o q u is e ste ! 38 E is a i abandonada vo s é a v o ssa c a sa . 39 P o is eu vos d eclaro que d esd e agora de m odo alg u m m e v er e is, a té que d ig a is: B endito aquele que v e m e m nom e do Senhor.

Este lamento, profundamente como­ vente, sobre Jerusalém, lança mais luz sobre os ais da passagem precedente. Foi rofunda tristeza e interesse ativo aue ievou Jesus a insistir em advertir o seu povo. Jerusalém era o centro sem rival do mundo judaicç. Era lá que se decidiria o destino da nação. Embora todos os regis­ tros de ter ela matado os profetas e ape­ drejado os que a ela foram enriados (maneira judaica de execução), Jesus a ela se dirigiu, oferecendo-se para aceita­ ção ou rejeição. Quantas vezes pode dar a entender uma confirmação do registro de João de que Jesus fez várias viagens a Jerusalém durante o seu ministério (João 2:13; 5:1; 7:14; 10:22 e s.; 12:12). Galmha (ornls) pode referir-se a qualquer ave-mãe, e a analogia de uma ave-mãe reunindo os seus pintos debaixo das asas pode expres­ sar passagens como Salmos 36:7 e Isaías 31:5. Jesus não deseiava nenhum mal a

Jerusalém oii ao_sen pnvn. alegre- "■ mente teria escudado a ambos com a sua , p rópria pessoa, reunindo-os a si mesmo • ;em amor, para abrigar e escudar. / Mas Jerusalém não o quis! Nenhuma doutrina de predeterminação (determiiusmÕ) pode sobreviver entre o eu quis de Jesus e o não o quiseste de Jerusa­ lém. Jerusalém ficou abandonada, mas o destino Joi escolhido., e não imposto. Uma referência especial pode ser feita à ruína do Templo, da cidade, da nação ou de todos eles. O versículo 39 é escatológico, referindo-se à Parousia de Jesus. Ele haveria de voltar em juízo, aclamado pelos seus como aquele que vem em nome do Senhor. Mas então seria tarde demais para aqueles que o haviam rejei­ tado.

XV. J