Texturas Translúcidas

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COLEÇÃO CADERNOS SENSÓRIOS | OUTONO-INVERNO 2021


Cadernos Sensórios Corpo Palavra Forças Intermoleculares Outono-Inverno 2021

Edições Lab Corpo Palavra 2021

Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


A licença poética utilizada na construção dramatúrgica dos textos dessa coleção de cadernos sensórios é uma escolha das autoras de acordo com a natureza de uma escrita que surge da relação com o corpo em movimeto. Por esse motivo, é possível notar algumas passagens em desacordo com a norma padrão do português brasileiro (N. E.) Aline Bernardi e Lia Petrelli


Sejam muito bem vindes, as, os

aos

cadernos sensórios corpo palavra Esta coletânea vem se apresentando como um espaço de reverberação do emergir das poéticas de escritas performativas que são tecidas no ambiente artístico pedagógico do Lab Corpo Palavra. O Programa de (Des)Aprendizagem vem se configurando como um lugar para encontros intergeracionais e trocas de saberes pluri epistêmicos, através de atividades oferecidas em diferentes formatos.

Nesta terceira edição, reunimos as cartografias sensíveis de duas turmas do Módulo I - versão online: Lab Corpo Palavra: eixos éticos, estéticos e políticos. O entrelaçamento das escritas sensórias de Vitor, Tainá, Prashanti, Marcelo, Luciano, Luciana, Laura, Juliana, Joyce, Jonaira, Joanna, Irene, Flavia, Elisa, Ed, Flávia e Cléverson compõem essas texturas translúcidas, manifestadas pelos fios do projeto gráfico de Lia Petrelli.

Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


O selo editorial Cadernos Sensórios Corpo Palavra está agora vinculado ao selo artístico Celeiro Moebius. Lançado esse ano, o Celeiro é um espaço coletivo de convergência híbrida de linguagens que estejam entrelaçadas em processos de criação artística na perspectiva cartográfica.

Um lugar de convergência das diferentes iniciativas que estão em sintonia com a proposta do Lab Corpo Palavra.

O Lab Corpo Palavra (Lab) vêm se constituindo como uma abordagem ética-estética-política que integra ensino, pesquisa e criação mobilizando a experimentação de escritas cartográficas e sensórias. Propõe a liberação da motricidade das escritas de codificações pré-estabelecidas e pré-fixadas para a produção de conhecimento.

O que se pensa quando se dança? Qual a implicação do corpo durante o ato de escrever? Uma prática laboratorial que estimula a investigação dos movimentos e das motricidades em torno da relação corpo e palavra.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


No propósito de re-tecer os vínculos entre prática pedagógica e artística, o Lab articula a convivência da vontade de saber com o acolhimento do que nos é desconhecido e das errâncias. A perspectiva da Cartografia dá suporte à construção pedagógica do Lab Corpo Palavra, envolvendo a feitura investigativa em uma escavação sem planejamentos prévios e pré determinados.

Essa bússola de orientação das escritas do/no/com o corpo abarca a possibilidade de desorientação no meio do percurso, assumindo a errância como uma ondulação do processo de conhecer que está em um imbricamento com o fazer. Reconhecer que estamos continuamente em processo é uma pista de acionamento vital em sintonia de convivência com o desconhecido

O método cartográfico é complexo e tem diretrizes, pistas que não se configuram como regras a serem cumpridas, mas são balizas do posicionamento político-ético no ato de pesquisar. A cartografia se afirma como um método de pesquisa implicada em produzir ativações que atuam na construção de mundos, interferindo nos processos de produção de realidade. Nesse sentido, as linhas de errância e os encontros com o desconhecido são mote para o acontecimento de sensações inusitadas, que possam ser integradas como parte do percurso da pesquisa.

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O exercício de uma escrita sensória, para a abertura de uma fisicalidade da escrita, é um caminho de ativação do corpo que estranha suas marcas. O estranhamento é o primeiro acesso ao desvio dos padrões normatizados, estereotipados ou aficcionados em seus modos de aprendizagem. Os estudos de Virgínia Kastrup com a pista cartográfica do funcionamento da atenção do cartógrafo e suas proposições acerca da aprendizagem inventiva contribuem em muito com a abertura dos processos de diferenciação que são friccionados no Lab como variações dos modos de aprendizagem.

O selo editorial também se dedica a dar visibilidade às pautas políticas minoritárias, por perceber a insurgência da necessidade que temos em conversar e conscientizar a existência de temas como o racismo, o capacitismo, o machismo, o sexismo, fobias à diversidade de gênero que operam violências no tecido social. Na primeira edição convidamos artistas, pesquisadores e educadores negres para compor o livro Vertigem Infinita com suas poéticas e perspectivas políticas, contribuindo assim com um processo de alfabetização racial.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Neste terceiro livro da coleção, convidamos primeiramente Luciano Dias, psicólogo negro e integrante do Programa de (Des)Aprendizagem do Lab. Já tendo concluído os módulos I, II e III chega aqui com as suas poéticas dentro do coletivo e assina, também, o texto de apresentação desta nova edição. Outro convite que abrimos foi o espaço para as poéticas e perspectivas políticas dos artistas, pesquisadores e educadores com corpos(es/as) não hegemônicos. Temos aqui a presença de Edu Ó, performer e pesquisador baiano, e professor da Escola de Dança da UFBA que oferece um texto dramatúrgico chamado “Para quando eu morrer”; Moira Braga, bailarina e atriz carioca com deficiência visual; e Ariadne Antico, palhaça, atriz, produtora e artesã, paulista, pessoa com deficiência, tem um tipo de paralisia cerebral. Junto aos artistas, convidamos Atanael Weber, psicólogo, tradutor/intérprete e professor de libras, baiano, negro, professor de forró bilíngue que vem nos contar sobre o Projeto Forró em Libras para pessoas surdas, na escola de dança Cabrueira.

Desejamos que cada leitora/leitor possa passear por essas páginas ativando a sensação vibrátil do corpo, convidando as letras às andarilhagens em diferentes paisagens. Se tiver vontade de dançar e/ou escrever enquanto estiver lendo algum texto, não hesite, permita-se percorrer o movimento sensível que esteja anunciando presença. Caso você perceba a chegança de alguma sensação inusitada, entregue-se à ela em fluxo pelo espaço. Brinque com o ler-escrever-falar em trânsitos contínuos. Pouse a dinâmica quando sentir que é o momento de modular a sua atenção para envolver-se em outras conexões!

por Aline Bernardi Artista-pesquisadora da dança, das artes do corpo e da cena Diretora Artística do Celeiro Moebius Criadora e Propositora do Lab Corpo Palavra Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


Aline Bernardi apresenta Luciano Dias uma voz e presença doce que pratica a insistência gosta de exercitar as dobras do persistir, na busca por ampliar horizontes de si e do mundo traça em vida a conexão com a alegria tonificando as direções da esperança tecendo constantes processos de diferenciação a lupa de suas lentes revelam seu gesto de cuidar e ser cuidado em terras férteis que querem germinar amor

Luciano Dias apresenta Aline Bernardi Aline faz da partilha de uma arte. Um exercício constante, poroso, continuado e que, informado a partir do corpo-próprio, se transmuta em um corpo-mundo. Uma existência que encontra sua poética singular na paixão pela descoberta, no gesto de compartilhar e no ato de se reinventar.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Agenciamento do corpóreo como escrita por Luciano Dias Psicanalista negro Pós Doutorando em Psicologia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Pesquisador Bolsista CAPES

O Lab Corpo Palavra é uma experiência desterritorializante, um modo de experimentação de si que nos lança num território aberto de conexões.

É um ambiente experimental que interliga de forma indistinta corpo e palavra, movimento e criação, gesto e ato, supõe, contudo, uma reorientação teórica que vale explicitar. Como sabemos, a tradição ocidental se constitui, desde a Antiguidade, a partir da oposição hierárquica entre o corpo e o espírito. Nesta tradição, a ênfase conferida aos atributos do espírito (Razão, por exemplo) tornaram-se base estruturante do conhecimento, relegando o registro corpóreo à condição de subalternidade. Com efeito, o corpo foi tido (e vivenciado) como fonte de erro, de engano e, porque não, de pecado. Trata-se de uma opção epistemológica em que os saberes, as práticas e os fazeres atrelados ao registro corpóreo foram silenciados em detrimento do exercício racional, do logos divinamente orientado. Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


Marcelo Araya apresenta Flavia Muniz Nascida em Iemanjá Universo múltiplo Fluxo transbordante, Subaquático. Corpo reencarnado Dádiva da vida Mergulhadora De cavernas, Experiências, Terrestre escola. Multilinguagem Em nascimentos.

Flavia Muniz apresenta Marcelo Araya Aprendiz perene na busca de nutrientes e substratos que adubem a linguagem, do cipó às raízes. Procurante de novos líquidos, xamã do tempo, tecelão de estandartes, tão amável quanto o Sul generoso das bússolas. Aline Bernardi e Lia Petrelli


Agenciamento do corpóreo como escrita por Luciano Dias

Nesta perspectiva, o registro do corpo, bem como a dimensão intensiva dos afetos, foram subordinados e inferiorizados frente à clareza e à evidência do pensamento, que passou então a definir de forma privilegiada a expressão da subjetividade.

Além disso, é importante demarcar que a este binarismo hierárquico que subjuga o registro dos afetos, se articula outro, que o acompanha em continuidade. Na dita tradição, a força simbólica da palavra escrita foi contraposta à da palavra falada, ou seja, a escrita foi privilegiada em detrimento da oralidade, fazendo desta primeira um modo dominante de transmissão e expressão dos modos de existência.

Desta feita, no Ocidente, o intercruzamento entre saber-poder se realiza por intermédio do valor concedido à expressão escrita da palavra. Esta foi transformada na forma prioritária de fixar a história, de engendrar o campo coletivo da memória, enfim, de produzir modos hegemônicos de subjetividade. Nenhuma dúvida deve existir quanto ao fato de ser esta uma opção, antes de mais nada, política. É, por este mecanismo que centraliza o lugar da palavra escrita como modo de expressão do racional, que, por exemplo, o continente africano foi nomeado por uma inferioridade suposta.

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Lu Bowen apresenta Prashanti Prem Prashanti, Aquela que em silêncio sente a vida e caminha no mundo. E por amar o experimento do viver segue com “coeur age” desbravando novos caminhos, experimentando novos ares Dando voz e vez ao invisível. Guia de jornadas humanas.

Prashanti Prem apresenta Luciana Bowen Em permanente inquietaçao curiosa por querer descobrir a expressão da Vida que é, exercita-se em sentimentos- corpo- poesia. Entrega. Planta. É caminhante indomesticável, também mãe e filha. E traz do percurso a boa bagagem de psicanalista, que a ensina a ter olhos maiores de mundo. Olhos estes que já veem flores no próprio jardim.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Agenciamento do corpóreo como escrita por Luciano Dias

Seguindo as trilhas dos movimentos que visam deslocar a pregnância destes modos binários de orientar corpo e afeto, escrita e sentido, o Lab é um convite a nos experimentarmos em outro lugar, que não estes estabelecidos por essa tradição da lógica racionalista.

Ao exercitar um reposicionamento que convoca o corpo e a palavra a uma nova direção de sentido, o Lab nos convida a habitar o desconhecido, a ocupar um território não traçado que interroga a prevalência dos modos de existência forjados a partir da prioridade do par escrita-Razão.

Assim, o que se tenciona é o escoamento de formas-corpos, de devires outros. Propriamente um laboratório, o Lab é um campo aberto ao experimento e à facilitação expressiva dos múltiplos textos que nos compõe, sem que necessariamente precisemos supor uma hierarquia entre estes.

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Elisa Tonon apresenta Flavia Dalla Flávia é andarilha que transita entre a dança, a escrita, as leis e outras artes. com avidez, paixão, curiosidade e otimismo, tece conexões entre saberes e práticas para desfazer fragmentações e tornar o mundo conversante e, assim, mais possível de existir com grandeza.

Flavia Dalla apresenta Elisa Tonon Elisa, uma ilha ao sul. da parte que diz que é burocrática, mas a constitui, é professora. de sua pulsão vital, nasce a busca pelas letras, o prazer pela leitura, pela escrita e como ela se desdobra no corpo, na voz e nos encontros. a letra faz a marca em sua vida. um ancoramento na palavra como forma de abandoná-la, para ver o que sobra. quem sabe ouro?

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Agenciamento do corpóreo como escrita por Luciano Dias

Deste modo, tão importante quanto desmontar territórios enrijecidos pela pregnância desta tradição racionalista, é a necessidade de favorecer a abertura e a criação de novos fluxos produtivos, na perspectiva da processualidade.

O Lab convoca a uma apreensão do corpo em que este não é experimentado como um mero receptáculo, como se fosse apenas um anteparo de uma substância de maior nobreza, ao contrário, num giro, o corpo é transformado em base incontornável do sentir-fazer.

Surgindo como efeito dos diferentes experimentos, o registro corpóreo transmuta-se em fonte pulsante de sabedoria, em bússola ativa de aprendizados e de novas direções inventivas.

O que se desvela é o corpo como um território inexplorado de expressões discursivas.

Não é que o corpo fale, mas sim, que ele é falado, experimentado e convocado em direções inexploradas em que o compromisso a priori com o sentido não orienta qualquer meta de chegada. Assim, a imersão intensiva acampada na proposição do Lab desorienta os caminhos prefixados de nossa inscrição civilizatória, ele não apenas interroga a permanência estruturante destes binarismos, como desfaz o lugar de certeza e de verdade a que os lançamos.

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Jonaira Bonfim apresenta Ed Di Lallo um ser transparente, incompreendido por si mesmo, numa busca intensa, que vive o prazer de novas descobertas.

Ed Di Lallo apresenta Jonaira Bonfim muito decidida, inteligente, força de vontade com iniciativa para o novo, além de positiva.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Agenciamento do corpóreo como escrita por Luciano Dias

Vale destacar que esta reorientação do eixo corpóreo e a explosão do sentido no campo discursivo da palavra não surgem de forma espontânea, ou mesmo atrelada a algum formalismo que estabeleça o “como fazer”. Por mais que os diferentes referenciais teóricos que orientam a proposição do Lab possam ser devidamente explicitados, metodologicamente, o Lab é um ato contiguo da inventividade criativa de Aline Bernardi. Em sua condução, Aline agencia e sustenta um campo de trabalho definido pelo acolhimento e pela receptividade do possível. Bem entendido, não é que, no Lab, o método seja inoperante, mas sim que, ao ser recusado num lugar de prioridade, ele é colocado a serviço da apropriação singular.

Com isto, a leveza e a coragem requeridas para o salto ao fazer são cultivadas como elementos indispensáveis para a experimentação e, principalmente, para a invenção de novos campos de agenciamento do corpóreo como escrita do saber. Mais diretamente, a condução da Aline favorece o contato com o impensado, com o não sabido, por isto mesmo é que a particularidade deste acolhimento abre formas novas de exercício do pensamento, que desaguam em modos outros do pensar, do exercitar, e do existir. Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


Tainá Dias apresenta Cléverson Rêgo artista, produtor e professor de filosofia da rede pública. navega por pensamentos e inventa sua própria utopia. experimenta a hibridez das artes do corpo e da escrita com suas crônicas e poesias. natural de União (Piauí), é protetor da causa animal.

Clérverson Rêgo apresenta Tainá Dias estudante de turismo, escreve textos livres e poesia, nutre conexão com o mundo, com o inesperado. paixão por dança e coisas antigas, forte ligação com a política, filosofia e um gosto muito especial entre o elo do pensar e do sentir.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Agenciamento do corpóreo como escrita por Luciano Dias

Retomando o fio que identifica a matriz produtora das subjetividades, podemos localizar dois operadores que se articulam ao rebaixamento dos afetos e a desconsideração dos múltiplos sentidos da palavra, trata-se da raça e do gênero. Nesta matriz, a marcação racial e de gênero cooperam na fabricação dos corpos ditos como subalternos, ou seja, é a partir da prioridade conferida à Razão e à centralidade da palavra escrita que mulheres e negros foram compreendidos como seres inferiorizados em suas potencialidades políticas, sociais e expressivas.

Ser negro, habitar um corpo feminino, ou mesmo um que não corresponda às normas regulares do gênero, são formas de experienciar uma não correspondência no sentido dominante propagado pela matriz ocidental.

Foi por este mesmo diapasão, regulado por uma métrica de valor inferiorizante, que aquela matriz estabeleceu a produção dos corpos ditos por sua anormalidade suposta.

Segundo esta perspectiva os corpos sem conformidade física com o campo da normalidade foram rebaixados em sua condição de humanidade, desinvestidos, portanto, de suas potencialidades em existir. Daí, foram taxados no campo da anomalia, ou seja, reduzidos a um modo qualquer de restrição física. Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


Joyce Firme apresenta Vitor Faria um ser de marcação do tempo, aberto ao mundo, escuta ao silêncio, com sensibilidade e esforço aos territórios habitados. construindo rimas, delimitando percursos, deixando ser atingido pelas mudanças da vida. Comprometido ao metrônomo.

Vitor Faria apresenta Joyce Firme referências ancestrais, genes: os livros me guiam. 29 anos de amadurecimento, ânsias e vontades. troco algumas saídas por uma boa conversa na varanda: ouvinte infinito particular. psicóloga, piano, mais música, psicanálise: novidades em mim.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Agenciamento do corpóreo como escrita por Luciano Dias

Nesta direção, seja pela incidência do gênero, pela marcação racial, ou pelo enquadre normalizante o que se verifica é o rechaço da matriz ocidental aos corpos diferentes.

Nesta última, as diferenças de apresentação físicas são estabelecidas como signo de inferioridade, de maneira que tais corpos puderam ser estigmatizados nos domínios da abjeção e remetidos a uma condição de descartabilidade.

Ao apontar para uma subversão do sentido, para a arrebentação deste em múltiplas direções, o Lab se alinha, se faz sensível para captar e incitar a afirmação positiva dos modos de existência que foram lançados à condição de subalternidade.

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Laura Addor apresenta Juliana Cordaro Juliana é uma artista que se motiva pela vontade da relação com o(s) mistério(s) - do corpo, do(s) encontro(s), do(s) outro(s) e, a partir disso, cria possibilidades de existência e formas de relação.

Irene Milhomens apresenta Laura Addor Laura é artista investigadora das infâncias e naturezas. tem 32 anos e, atualmente, é professora de crianças pequenas. ela vem das artes: teatro, dança e cinema; numa eterna dança contínua entre estes três pilares que sustentam suas investigações.

Juliana Cordaro apresenta Irene Milhomens Irene é amor. transborda sensibilidade. ela é gateira, trabalha com criança e ama a dança.Irene ama. move palavras,gestos, poesia. pra Irene tudo é música. “Irene ri. Irene ri. Irene. Quero ver Irene Dar sua risada” Aline Bernardi e Lia Petrelli


Agenciamento do corpóreo como escrita por Luciano Dias

O Lab é um exercício de escuta-ação que ao mesmo tempo em que apreende os locais viciados de experimentação de si, nos lança à positivação de formas outras de ordenar o campo do sentido. Finalmente, se trata-se de orientar o pensar-sentir em direções inexploradas, podemos nos perguntar em que medida seria necessária um movimento em direção aos saberes-fazeres dos povos africanos.

Não estaria neste encontro um manancial vivo e pouco experimentado, capaz de ampliar as condições de um giro ético-estético-político que favoreça novos modos para existir e conviver?

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Imagem de Ed Di Lallo Aline Bernardi e Lia Petrelli


Fotografia por Brisa Andrade Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021

Edu Ó.


Para quando eu morrer No centro do espaço amplo e escuro, encontramos Edu Ó. sob um feixe de luz. Ele é um homem cis de pele clara, calvo, barba e bigode grisalhos, nariz grande, olhos escuros amendoados, sobrancelhas grossas, boca carnuda, usando camiseta e calça brancas e tênis All Star vermelho. Imóvel, ele olha fixamente para a frente, sentado em sua cadeira de rodas, segurando - sobre as pernas - a boneca de Judite, uma lagarta verde com chapéu lilás e uma bolsa azul na boca. Aos poucos, as luzes do espaço se acendem exibindo móveis, objetos e eletrodomésticos espalhados ao seu redor. Ao entrar no ambiente, o público atravessa 1 sofá cinza de três lugares, 1 mesa de madeira rodeada por 4 cadeiras coloridas, esteiras e almofadas pelo chão. Muitas… Muitas almofadas pelo chão. À esquerda da sala, encontra-se 1 geladeira semi-aberta que emite uma luz branca, fria e uma fumaça constante que em alguns momentos se espalha com mais opacidade pelo espaço. Sobre a geladeira, um porta-retrato com a fotografia de Estela Lapponi de cabelos curtos nas laterais e um moicano caindo para o lado direito. De batom roxo e olhos com maquiagem preta carregada, ela fala ao microfone com os seios nus, cobertos por colares grandes e coloridos, segurando na frente da mama esquerda um melão amarelo. Ao lado da geladeira, um armário com muitas xícaras brancas, amontoadas, que Nei - homem branco, de cabelos longos, barba e bigode, vestindo roupa branca - retira e guarda cuidadosamente em uma caixa de madeira [som de xícaras batendo uma na outra].

Aline Bernardi e Lia Petrelli


À direita da sala, encontra-se uma cama baixa de rodinha, colchão de casal, lençol e travesseiros azuis. Atrás da cama, uma estante com livros. Um ventilador insiste em bagunçar os papéis da escrivaninha que voam pelo espaço [som de papéis]. Durante toda a apresentação, quatro funcionários de uma transportadora, fardados, atravessam o palco, retirando, aos poucos, os objetos de cena, desmontando os móveis, limpando o ambiente ao redor do homem sentado em sua cadeira de rodas. O público é convidado a entrar devagar, como quem pisa em ovos. As pessoas adentram observando a instalação cênica, escolhendo onde sentar-se espalhadas pelos móveis e objetos do espaço, compondo o ambiente com sua presença. Inesperadamente, três dançarinas do Grupo Sobre Rodas…? atravessam o espaço sentadas em suas cadeiras que deslizam, ziguezagueando entre as pessoas [som de assovios e ventania]. Seus movimentos são sincrônicos: rodopiam, avançam, retornam de ré, rodopiam, avançam… Em seus rostos os sorrisos de quem parece brincar. Elas param, separadas, no meio do público. Nesse momento, entram pela porta 10 integrantes do Grupo X de Improvisação em Dança. Entram sorridentes - mulheres, homens, cadeirantes, pessoas mais velhas, mais jovens, crianças… cada uma carregando bancos plásticos brancos, cantando uma canção da infância, Cintia entra na turma traduzindo a letra da música em Libras como uma coreografia: “Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes Para o meu, para o meu amor passar…” Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


Param de cantar sentando-se lado a outro, cochichando, tremendo, respondendo as provocações de Fafá Daltro que usa uma saia volumosa de saco de lixo preto, presa ao corpo por fita crepe que também segura o corpete de mesmo material. Ela usa maquiagem forte, base branca que mancha seu rosto, batom vermelho, cílios postiços azuis e os cabelos, propositalmente, assanhados. As outras pessoas do grupo, vestidas e maquiadas como Fafá, saem correndo, parando ao redor da mesa onde 4 pessoas da platéia estão sentadas nas cadeiras coloridas. A mesa e as 4 cadeiras desaparecem junto com o Grupo X seguido por Nei que finalizou a arrumação das xícaras. O ventilador permanece agitando os papéis que se mantêm presos na escrivaninha com pedrinhas. Surge, ao lado de Edu, João Rafael Neto - homem alto, de barba e bigode, cabelos ralos, vestindo camisa de manga comprida lilás e calça de malha verde - planando no ar, pendurado em uma corda. Airerêêêêê! A luz se apaga e volta a ocupar o espaço. João, a geladeira e a estante com livros também não se encontram mais onde estavam. Edu O. permanece imóvel no centro do palco. Por trás da cama, Meia Lua - homem negro, cabelos curtos, sem barba, coluna escoliótica e pernas finas, como as de Edu, vestindo apenas um short balonê preto, surge arrastando-se de costas pelo chão, calçando pernas enormes de pêlo de cabra que alongam seu corpo pequeno. Seus ombros em movimentos circulares provocam seu deslocamento. Meia Lua sobe na cama construindo imagens com torções de corpo enrolando-se nas pernas compridas. Os funcionários da transportadora carregam a cama e o levam junto com as esteiras e almofadas. O público que estava sentado, precisa se reorganizar. Aline Bernardi e Lia Petrelli


Fotografia por Nei Lima

Ao lado de Edu, sentado no chão com botas plásticas pretas, calça lilás e camiseta de malha azul, surge Lucas Valentim homem branco, sem barba, cabelos curtos, com tatuagens pelos braços e pescoço, escreve uma carta enquanto toma chá, ouvindo uma música francesa na caixinha de som que carrega [música francesa]. Desaparecem o sofá, Lucas, a caixinha de som, as botas pretas… Agora, um feixe de luz concentra-se, apenas, numa maleta vermelha com bolas brancas, aberta, exibindo uma peruca loira, batons e esmaltes vermelhos, um caderno com o rosto da atriz Marilyn Monroe e 1 ampulheta caindo areia amarela… [assobio da música parabéns para você]. O tempo passa, sempre… inexoravelmente. Os funcionários levam todos os objetos que restam no espaço. Quando retornam à cena, penduram samambaias ao redor de Edu, já sem Judite, e também o carregam. Restam no espaço as samambaias penduradas e a cadeira de rodas vazia. [Uma voz rompe o espaço: Eu só queria saber como ela está]. Elinilson surge na projeção, sinalizando o texto em Libras. Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


A porta se abre. O público escolhe a hora de ir embora, sem pressa. Pode ficar ainda pelo espaço o tempo que quiser. As pessoas que já estão fora são conduzidas a sair por uma outra sala e lá encontram 1 sofá cinza de três lugares, 1 mesa de madeira rodeada por 4 cadeiras coloridas, esteiras e almofadas pelo chão, 1 geladeira semi-aberta que emite uma luz branca, fria e uma fumaça constante que em alguns momentos se espalha com mais opacidade pelo espaço, uma estante amontoada com xícaras brancas e uma caixa de madeira vazia. À direita, uma cama baixa de rodinha, colchão de casal, lençol e travesseiros azuis. Atrás da cama, uma estante com livros. Um ventilador insiste em bagunçar os papéis da escrivaninha. No fundo do espaço, Edu Ó., sentado em sua cadeira de rodas. Ele está acompanhado por uma banda e canta músicas para o público dançar.

Fotografia por Nei Lima

A festa começa!

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Assim que veio,

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do visível para o invisível Flávia Dalla

A BOCA O rigor e a possibilidade: são camadas, marcas estéticas escancaradas na linguagem da busca. Qual é a textura na escrita? Como funciona escrever com o violino? Se falar sobre sonho é ativar o mundo, a diferença só existe em territórios do espaço das alianças com o sonho: litoral literal. Nadar nos sonhos como pássaros na sopa. Expandindo na ordem do impalpável, traçar um devir em outra pele azul. No encontro da matéria prima do tempo: a exploração de uma concha. Irene Milhomens

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Pelas marcas que escrevem enquanto ando ao pé do tempo que desanda e até parece um cão que ladra. As marcas reverberam o eco de outras paragens. As imagens que me aparecem são turvas quando vejo o mar de nossa cama. Onde não há separação entre o horizonte e o último olhar. A verdade do tempo é o risco sobre o papel. Escrever é andar sobre a música da noite gritante e engasgada de silêncios do que não disse. O estranhamento é todo o luar escrito na pele da mais íntima frase sem escultura: as raízes de me perseguir na garganta da procura. Flávia Muniz

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Quais marcas ficam em aberto? Como o meu corpo acolhe as marcas alheias? Como exploramos o universo das palavras? Desde que lugar? Com quais veículos? Como a expressão delas através de um olhar novo? Olhos do corpo Dar voz própria às marcas? Como elas falam conosco? O que compartilho quando falo? A marca do que se tem? Marcelo Araya

Aline Bernardi e Lia Petrelli


a gente guarda muita coisa foi isso que ficou pra mim se eu tivesse também me transformado naquele texto as coisas dentro da gente meio que elas não acabam como viver esse perigo de estar viva pulsante? o entender é limitado estranhamento lentidão dilemas Deixo acontecer esse tempo ou fico correndo atrás de algo que perdi? cada um disse coisas diferentes instantes da nossa vida uma cicatriz pode ser uma lembrança esse processo que eu acho que estou vivendo através das sensações uma coisa meio pausa me puxa muito e eu só obedeço Elisa Tonon

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Ato em potência. Se atualizar a partir das marcas? Desistir das palavras. Quem és tu? O que a gente compartilha quando fala? Oficina, um ofício? Artesania? Flávia Dalla

Aline Bernardi e Lia Petrelli


eu fico pensando - o que tinha em mim? momentos que ficam. ansiedade por correr atrás. o movimento de som. a palavra “marcas”. as cicatrizes... ... costurei muito o rosto. eu só consigo chegar quando me afeta. me puxa muito. ágil de acessar - me fisgou, ficou. você me conhece? eu não queria. como vive esse perigo que é estar viva? ser pulsante? se defenda. se defenda? a única palavra que me guardei: entender. eu quero muito entender sem pretensão nenhuma de entender. o entender consciente, pra mim, é limitado. memórias são passíveis de transformações. podem mudar de lugar. como se a gente pudesse ser todas elas. a dobra do tempo, o tempo no corpo: são também o meu humano. as coisas dentro da gente não acabam. Tainá Dias

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O que deixa marcas? Como falar delas? A cor dar a vida? Como soltar as palavras? Com partilhar palavras? Como digo disso? Interagir? Interferir? Como encontrar sua voz? Surpresa? All star/ ao estar ? Luciana Bowen

O futuro em mim é existência inteira. A vontade de conexão esboçando outras composições, é vibração. Estados inéditos com o mundo são sempre gênese de um devir. Rompe-se com o planeta, tremem seus contornos. Nos tornamos outros. Assim, o equilíbrio é pensamento somando-se à minha história. Carrego em meu corpo este estado inédito que se fez em nós. Juliana Cordaro

Aline Bernardi e Lia Petrelli


MESCLAGRIT corpo que escreve fio que conduz horizontes linguagens práticas ressonância vibrações calma confiança vozes integrativas confluir processo várias coisas atritos aprendendo tocar coletivo Vitor Faria

Que marcas meu corpo carrega? Como experimentar a vida através das marcas? O que me estimula a mover? Como abrir espaços para mover dialogando com as marcas? Como abrir a escuta a diversos ritmos do corpo? Jonaira Bonfim

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Cicatrizes no corpo: lembranças As cicatrizes andam: releituras Destrinchar as camadas Momentos, memórias, manifestação, Fluxo, polaridades. Tudo me transforma, Camada sobre camada. Minhas escolhas carregam o mundo. Como é correr o perigo de estar viva? Desde a infância eu acumulo momentos distintos. É assim que eu entendo as coisas: Como eu me ouço. Flávia Muniz

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Inaugurar novas eus. Alargar os contornos. Me permitir conexões catárticas. Camadas Células Trocas. Acessar o invisível. Me trans-formar. me revelar. Marcas Texturas Composições. Trans -(a)-parecer. Ser (estar) corpo e estrelas. Encontro minhas aberturas. Laura Addor

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Vumnagoji As marcas, as linhas no tempo são vozes do corpo, o tronco marcado pelo tempo interdependente intercontido. vivências, células. mente... enrijece processos doloridos que marcas podemos gerar para tecer? Olhar pro que cria vida, de um lugar mais verdadeiro descamar as palavras, abrir as marcas. Não negar o atrito do aprendizado. O espaço vital é fluxo. Marcelo Araya Aline Bernardi e Lia Petrelli


Imagem de Prashanti Prem Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


Aline Bernardi e Lia Petrelli


Imagem de Juliana Cordaro, durante uma experiência movendo o quadril enquanto ouvia a Laura Addor na sua fala fluxo

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Imagem de Flávia Dalla Aline Bernardi e Lia Petrelli


Sou Moira Braga, artista, mulher, mãe e cega.

Acho importante falar sobre minha deficiência visual porque ela não me define, mas imprime no meu corpo uma condição específica sobre o meu modo de estar no mundo e o quanto isso interfere diretamente nos meus processos criativos. Tenho pele branca, cabelos castanhos escuros, lisos, na altura dos ombros. Rosto fino, olhos castanhos, nariz mediano, boca pequena. Tenho 1,69 de altura, corpo magro e longilíneo.

Foto: Arquivo Pessoal

Sou filha de José Luiz Avila Sales e Marilia Braga Sales. Nasci em 1978, na cidade do Rio de Janeiro. Filha de pai carioca e mãe mineira. Tenho um irmão 5 anos mais novo que eu e, em 1985, quando minha mãe estava grávida de minha Irmã caçula, nos mudamos todos para Leopoldina, a cidade de minha mãe, em Minas. Foi nessa época que descobrimos que eu tinha uma doença degenerativa da retina chamada Stargadth que levaria a perda da visão. Sinceramente, não foi um trauma para mim.

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Não me lembro de como essas informações reverberaram em mim. Na memória de criança, as coisas foram acontecendo devagar e eu tive uma infância feliz, criativa e cheia de liberdade por ter ido morar no interior. Gostava de dançar, contar estórias, criar eventos e contracenar comigo mesma diante do espelho. Mas no interior a gente não tinha acesso à cultura. Não tinha cinema, teatro, ou espaços culturais, muito menos escolas de arte. O que tinha era o conservatório estadual de música, que tem até hoje, onde todas as crianças iam aprender a tocar algum instrumento. Eu entrei também, para estudar piano e flauta. Mas logo tive de desistir pois os professores, na época, não souberam lidar com minha deficiência. Esse acontecimento, no auge dos meus 8 anos, me fez perceber pela primeira vez que eu tinha uma diferença marcante das outras crianças. E que eu tinha de resolver as coisas do meu jeito, claro, sempre com muito apoio da minha família. Saí do conservatório e fui estudar com um professor particular de piano que ampliava as partituras para mim e também tentava me ensinar de ouvido. Ele tinha muita alegria em me dar aulas, mas eu acabei deixando o piano. Não me lembro se era porque meus pais não podiam pagar, porque o conservatório era público, não dava despesas e as aulas particulares talvez fosse um luxo que a minha família não poderia arcar. Ou, se eu perdi o interesse porque no conservatório eu estudava com outras crianças e não tinha muita graça estudar sozinha. A gente sempre quer fazer o que as outras crianças fazem.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Em relação aos colegas, as crianças que conviviam comigo, na escola e na rua, eu nunca tive problema, nunca me senti diferente ou excluída.

Os adultos é que esquecem que um dia foram crianças. As crianças não têm preconceito, têm curiosidade. E quando a criança é privada, por qualquer razão de entender, conviver, experimentar, perceber as diferenças, aí isso pode virar um tabu, uma questão que pode ser levada para o resto da vida e consolidada como uma crença limitante. As crenças limitantes são coisas que vamos ouvindo ou atitudes que vamos percebendo que nos fazem acreditar que não somos capazes ou merecedores de algo.

Ou ainda pior, que não podemos sonhar ou desejar coisas por causa de nossa condição.

Foto: Arquivo Pessoal

Então, minhas possíveis habilidades artísticas foram ficando de lado. Chegando a época do vestibular, tinha de escolher uma profissão. Artes cênicas, queria muito, mas já não acreditava que isso fosse para mim. Acabei fazendo jornalismo. Porque gostava de gente e de contar histórias e de certa forma, um jornalista é um contador de histórias de gente. Em 1997 voltei para o Rio de Janeiro, com o apoio incondicional do meu pai. Essa foi uma grande e talvez primeira conquista em minha vida. Porque a criança Moira foi muito feliz por ter tido uma infância no interior. Mas a adolescente Moira, já estava inquieta, me achava diferente da maioria das garotas de minha idade, não pela deficiência em si, mas por desejar viver coisas que aquela cidade pequena já não podia proporcionar.

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Mas eu também tinha muitos medos, se eu iria dar conta de viver longe da proteção da casa dos pais, se eu aprenderia a sobreviver, numa cidade grande, com todas as dificuldades que um grande centro impõe a pessoas como eu, sem recursos financeiros e com uma deficiência. Morei em casa de parentes, em vagas nas casas de senhoras, e uma vez, cheguei a dividir um kitnet em Copacabana com mais 4 mulheres. No meio da faculdade, comecei a desacreditar de mim como jornalista. Pensei em desistir, fazer outra coisa, mas meu pai me convenceu a seguir em frente. E assim foi feito. Concluí o curso de jornalismo no final do ano 2000. Bom, eu realmente não me tornei uma jornalista. Entre 2001 e 2007, eu trabalhei alguns anos na faculdade onde estudei, fazendo atendimento aos alunos por telemarketing, trabalhei um tempo em assessoria de imprensa. Quando meu pai ficou doente, com câncer, já estava querendo encontrar outra profissão. Foi quando comecei a estudar terapias holísticas, porque achava que também podia ajudar no tratamento dele. Depois de 3 anos lutando contra o câncer, meu pai faleceu em janeiro de 2007. Esse foi um ano muito marcante para mim, um divisor de águas. É como se a morte de meu pai fosse o prenúncio de um ciclo que estava se encerrando para o começo de uma nova fase de minha vida.

É como se o destino estivesse me chamando de volta para o meu propósito.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Uma amiga, Analu Palma, estava fazendo mestrado na Unirio em arte e educação. Ela já tinha um projeto muito bacana, chamado livro falado e tinha muito contato com pessoas cegas e de baixa visão. Sua pesquisa no mestrado era sobre a expressividade corporal de um ator cego. Como quase tudo que aprendemos se dá através da visão, como uma pessoa que não enxerga poderia criar um corpo expressivo para estar em cena? Ela me convidou para ser uma colaboradora de sua pesquisa pois sabia do interesse que eu tinha em teatro e assim comecei a frequentar a Unirio, para participar de algumas aulas. Foi numa dessas que conheci Angel Vianna. Pra quem não sabe, assim como eu não sabia, Angel Vianna é uma referência como bailarina, artista, educadora e pesquisadora em dança, no Brasil e no mundo. Eu tive a oportunidade de conhecê-la fazendo uma aula de corpo com a própria.

Foto: Arquivo Pessoal

Saí dessa aula muito emocionada e com uma sensação de que tinha encontrado um fio perdido. Eu me agarrei a esse fio e sem saber porque, fui seguindo para ver onde ele ia dar. Depois de conhecer essa senhora de sensibilidade única para tocar no corpo do outro, fui saber que ela tinha uma escola e eu decidi que queria estudar lá. Entrei e nunca mais saí. A Escola e Faculdade Angel Vianna é a minha casa. Estou sempre lá, como aluna, ou como professora. Fiz o curso técnico de recuperação motora e terapia através da dança e pós graduação em corpo, diferenças e educação. Dei aula no curso livre chamado Reeducação dos Sentidos e atualmente sou professora de introdução a metodologia Angel Vianna no curso técnico de bailarino contemporâneo.

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Doze anos depois de conhecer Angel, quando ela foi homenageada pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro que lhe concedeu o título de Cidadã Carioca, eu fui uma das pessoas convidadas a falar nesta homenagem. Foi quando eu estava no púlpito, diante de uma plenária repleta de artistas, me dei conta de que no mesmo ano em que eu tive uma grande perda, a morte de meu pai, recebi também este presente da vida, encontrei minha mestra.

Sabe aquele ditado, de que Deus quando fecha uma porta ele abre uma janela? No meu caso foi um portal que se abriu. Um portal que venho atravessando ainda devagar, mas com muita certeza de que estou no caminho certo. O portal do movimento, da consciência corporal, do autoconhecimento e da realização através da dança.

Esse fio que eu encontrei lá em 2007, com a ajuda de Analu e Angel, me trouxe até aqui para falar de arte e deficiência. Me tornei atriz, bailarina da Pulsar, companhia de dança do Rio de Janeiro, e já faz uns três anos que tenho dado os primeiros passos no universo da performance. Falando assim pode até parecer que foi fácil, mas não foi. Eu demorei um tempo para me admitir artista. Tanto que eu comecei pelos bastidores, porque era uma crença limitante muito forte de que eu não poderia estar em cena, atuar ou dançar bem o suficiente, para estar nos palcos, diante de um público.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Quando comecei no teatro, fui como assistente de dramaturgia, no grupo Os Inclusos e os Sisos. Lá eu também fui preparadora corporal, assistente de direção, operadora de legenda eletrônica para pessoas surdas nos espetáculos e atriz substituta. Em 2015, um amigo diretor e produtor teatral, Mat Lima, disse que ia montar um infantil, que tinha uma preocupação em fazer um espetáculo acessível e me convidou para ser sua assistente. Quando vi, estava dirigindo junto com ele e entrando em cena aos poucos, acabei ganhando dois papéis: uma preguiça professora de educação física e uma traça devoradora de livros (aliás, as duas personagens tinham muito a ver comigo, só um parênteses). Ao longo da temporada, acabei fazendo também outros papéis, substituindo outras atrizes. Nesse mesmo ano, estreei meu primeiro espetáculo com a Pulsar CIA de dança.

Foto: Arquivo Pessoal

E aí tive de admitir. Sim, eu sou artista. Depois disso, não parei mais. Atuei em outros espetáculos, de teatro e dança. Participei de um curta e um longa metragem, de diretoras mulheres que vieram a se tornar grandes amigas minhas: Jessica Barbosa e Ekatala Keler. O curta se chama “Cicatriz” e o longa, “Prazer, casa 8”. Colaborei em projetos de acessibilidade em artes, fazendo consultoria de audiodescrição. E hoje, tenho dois trabalhos autorais, a performance “O que você vê?” e o livro, audiolivro, espetáculo e curta metragem, “Ventaneira, a cidade das flautas”.

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Em 2021 ingressei no Mestrado Profissional em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Infelizmente as aulas acontecem de modo remoto por causa da crise sanitária, mas ainda assim está sendo um curso de potência extraordinária e uma experiência muito importante nessa minha trajetória artística. E a grande motivação para estar nesse mestrado é homenagear minha mestra, Angel Vianna.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


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escrever-apresentar essenciais vontades de criar vejo experiências da alma investigando juntes o silêncio intimidade fundamental fonte espaço aberto novos todos relações arte vida abundância movimento intenção de fluir Vitor Faria

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Filnodjuaê Fluxo, abrir espaço. Estrela D’alva é tão bonita, O pulsar nos conecta. (Existir em estrelas) Ânimo Eu vou com o eco. O tempo borbulha enquanto os cães emitem o som da noite. Outro dia aconteceu de eu ser gente sem saber que podia voar. Escrever é ganhar contorno de gaivota. Brincadeira, cozinhar a fala. O vírus quer de mim palavra Flávia Muniz

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Improviso + risco --- Performar Medo na criatividade – o que a gente perde quando teme o risco da criatividade? o tempo de conviver com o texto, As coisas fluem, o ser humano tem vertentes lentidão de ativação, tempo diferente Reverberações em mim Me ouço As vozes alheias me atrapalham? Marcas guardadas em mim O novo eu agora se apresenta

Cléverson Rêgo

Aline Bernardi e Lia Petrelli


ILMVHNUR

violência

medo

tristeza enclausuramento

continuar

essencial

vida

nem sabe

cindida

escapava ------------------------------------------------------------------------------- que toca o corpo quando se . . . . . fala novas narrativas novos repertórios Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


o que é? que vibra que gera vida construção perdeu a sensibilidade, virtuoso, vicioso

afastado

o corpo é um cárcere fome de criação

vital é fluxo, o quanto somos água? o que escapa? os timbres as intensidades -------------------------me marca e deixo sair

Flávia Dalla

Aline Bernardi e Lia Petrelli


os percursos pelo corpo me sussurram. abandonam seus limites. vislumbra-se o paradoxo dicotômico em existência inteira. inteiramente estranhos — suas multiplicidades se complementam. e o que tanto silencio se faz gradativamente real. as vibrações fluem em conformidade com o movimento: o plano visível da textura de um caos dançante. venha encarnar este estado inédito. unidades inseparáveis.

Tainá Dias

Como se fossem cordas A música do tempo suave seguia o senso do vento — para onde vai o vento? Importava-me mais conhecer os segredos do vento E seus inconstantes bailados, saber dançar seus bailados O sabor do vento: Queria lamber o vento, como ele me lambe os cabelos O vento descobriu-me. Queria descobri-lo eu, Acho que o nome disso é amor. Irene Milhomens

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Requer tempo Entender é limitado Ancestralidade Cicatrizes mudam de lugar; Transformá-las em vozes; As coisas dentro da gente não acabam; As coisas que sinto que eu perdi deixando a lentidão do meu corpo; A não leitura me faz ler o que dizem com ressonância e tempo; Liberta a dor Essas marcas falam da gente; Conviver com essas memórias passíveis de transformação; Outras cicatrizes ficam Processo de mexer bastante; viver nesse perigo; A gente pode visitar essas marcas; Essas sensações são naturais; Meu corpo tá levando um tempo para ser ativado; Cicatrizes internas Joyce Firme

Aline Bernardi e Lia Petrelli


é sensibilidade, transpassável. é ponte entre vazios... que se habita no invisível. é escuta, do óbvio e do interno. Subtexto. Ouvir por outras vias. é pausa, é descanso... é exatamente o que é!!! é entregar o viver num estado de arte disposta a esvaziar. é beleza verdadeira, é respiração, é intensidade, é canção, é felicidade, é olhar, é sentir, é sorriso, é mato, é sal, é filho, é vinho, é vento, é dança, é lágrima de amor. é! pois o que seja que você quer já fez moradia dentro.

Marcelo Araya

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a experiência física de sentir as raízes na cabeça: uma força de ancoramento. essa tem sido a vivência com os dreads e o desejo de plantar essas raízes no topo de meu corpo. dizem que os cabelos são feito antenas, captam informações que nos orientam e/ou desorientam. esses fios quando se enroscam entre si tecem relações que podem parecer aos olhos distraídos um emaranhado caótico. esse caos carrega profunda conectividade com as vozes ancestrais. fluxos de tantas minúcias: o vento bate diferente na pele, os ouvidos possuem uma cortina de cipó, o peso da cabeça muda a cada amanhecer, os olhos se aproximam da terra e mira o horizonte com âncora de chegança nas profundezas do mar. muitas escutatórias de um povo que passou a habitar meus pensamentos. plantando na terra fértil que tudo dá para nutrir a vida. rezo e entrego. Aline Bernardi

A palavra chega na coisa? Por que esquecemos que temos tesouros? Onde esquecemos nossos tesouros? Como escrever com o corpo? O meu silêncio é escolha? Como e por onde abrir espaço para o peso sair? Laura Addor

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Desapegar é um modo de trânsito. Peso, escassez, deserto árido. Deixo para trás um bocado de medo. A flor do amanhã não mais me devora. Transitoriedade é fazer novas perguntas. O céu azul me chama Para um bailado destinado ao mar. Encontro a pétala da aurora no luar da noite. Trânsito do corpo imóvel Até a vida que me conclama para um novo tempo. Poética é dar ao corpo a sensação de gozo, Oferecer ao espírito a condição de asa. Poética é dar a casa tempero de encanto Mover o tronco, ir de encontro A vida-encantaria. Poética é via de mão dupla Entre o que me afeta e o que posso afetar. Poética é me aninhar em mim. Ser consciente do sol mesmo quando há nuvens. Enquanto o tempo me abraça, Solto meu canto e dou às palavras O gingado, A graça, A fertilidade inata Da força do meu ilíaco. Concavidades Meu poros e reentrâncias são espertos Seguram um cometa que passa E fagocitam o brilho Da poética do universo inteiro. Flávia Muniz Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


Imagem de Juliana Cordaro Aline Bernardi e Lia Petrelli


Imagem de Prashanti Prem Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


Aline Bernardi e Lia Petrelli


Imagem de Juliana Cordaro Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


Imagem de Ed Di Lallo Aline Bernardi e Lia Petrelli


Já estive funcionária pública, já ocupei vagas de cota para pessoas com deficiência em empresas privadas e multinacionais. Hoje sou/estou artista, palhaça, atriz, produtora, palestrante, artesã, vez ou outra operadora de luz e integrante da Cia A Casa das Lagartixas Teatro Clube de São José dos Campos, interior de São Paulo.

Dona dos melhores movimentos involuntários já experimentados (por mim e por algumas pessoas hahaha) e de um jeito de andar único, charmoso, não retilíneo e fora do eixo. Há pouco me defino ativista da causa da pessoa com deficiência.

Eu não sei como é não ser assim.

Fotografia por Samira Lemes

Durante toda minha existência precisei provar que era capaz, provar que podia brincar de esconde esconde mesmo sendo “café com leite”, provar que podia me virar e morar sozinha aos 17 anos, provar que dava conta do trabalho no primeiro, no segundo e em todos os empregos, provar que não estava babada (pelo menos não todo dia rsrs) nem passando mal e não precisava de ajuda para atravessar a rua... Como diz a poeta Marina Calasanti “A gente se acostuma, mas não devia”. Nesse período de pandemia, tendo que permanecer dentro, dentro do Estado, da cidade, do bairro, de casa e dentro de mim, desse corpo que ainda é considerado, pela sociedade, anormal, várias fichas caíram como um meteoro na minha cabeça.

Percebi que estava acostumada, mas não devia.

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ARIADNE ANTICO Filha caçula de Dona Filó e Sr Vavá, nascida em Guarulhos mas pertencente a esse mundão,

agradeço todos os dias por não ter sido superprotegida na infância e adolescência.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Comecei a entender e me dar conta das inúmeras vezes que passei por situações capacitistas sem me dar conta que eram situações capacitistas. Me dei conta também da dualidade no comportamento das pessoas com relação a esse corpo, afinal tenho um Tipo de Paralisia Cerebral (PC) e no imaginário social uma pessoa com PC não anda, não pensa, não fala, não viaja, não...., não..., não....

Das coisas que escutei e vivi sem me dar conta que estava acostumada: -Nossa, na foto nem parece que você tem uma deficiência -Sério que você tem paralisia cerebral? Nem parece, você é tão espertinha. -Se olha no espelho, olha o jeito que você anda garota, eu jamais ficaria com você -Olha lá, jovem, saudável, sentada no assento preferencial do ônibus ocupando o lugar dos idosos e dos deficientes. -Coitadinha, ela tem problema -Onde já se viu, furando fila no caixa do supermercado e comprando bebida alcoólica. -Mas você vai em festas? Você bebe? -Você faz sexo normal? -Moça, esse caixa é preferencial, você tem que ir no caixa ao lado. -Quer terminar a relação, termina, amanhã já tô com outra, quero ver arrumar alguém que queira ficar com você caindo no meio da rua. (e o medo de que os movimentos involuntários fossem experimentados por outras pessoas hahahahahahahaha)

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Entrei de paraquedas nesse mundo da arte.

Há 7 anos fui convidada, pelo Marcio Douglas pra fazer um curso de palhaçaria que ele iria ministrar, eu disse que não iria, alegando ter vergonha, mas ele insistiu que eu fosse conhecer (ainda bem que insistiu, obrigada Doug rsrs), e posso afirmar que essa insistência mudou minha vida completamente, em todos os sentidos. A palhaçaria me ensinou a enxergar minha deficiência com outros olhos e a lidar com ela e com os olhares que vinham de fora de outra forma, afinal, fazer um baita discurso e me embolar toda na hora de articular as palavras, arremessar um brócolis no prato de alguém que tá almoçando comigo ou derrubar o café logo cedo molhando a mesa toda é um prato cheio pra uma palhaça.

Já não me vejo fazendo outra coisa que não arte.

Nos meus dois trabalhos solos trago para a cena questões e experiências vividas enquanto pessoa com deficiência. A Palestra show “Muros e Grades são Invenções Humanas” que surge do desejo de incentivar a não superproteção da criança/pessoa com deficiência (Defs) e o Espetáculo “Birita Procura-se”, com direção do Esio Magalhães, que traz críticas sobre o mercado de trabalho, as vagas de cotas para Defs e a essa sociedade capacitista.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Estar no palco, no bar, numa trip subindo o Canion Del Coca, saltar de paraquedas, ir ao supermercado fazer compras, estar nas universidades, nas ruas, no dentista, numa clínica de radiologia, no estúdio de tatuagem, na academia,

existir num corpo com deficiência é um ato político e estou disposta a ocupar todos esses espaços se preciso for. Meu sonho é um dia não precisarmos mais falar sobre isso.

Fotografia por Renato Oliveira

Tenho trabalhado duro para que esse sonho se torne realidade, talvez não a minha realidade, mas a dos defs que vierem depois de mim.

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Aline Bernardi e Lia Petrelli


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Flávia Dalla

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Escrevo tomada pelas palavras nessa liberdade do ser poético, de ser singular. ACHAR a poesia na vida, no simples. Permitir se surpreender, sol tar o sorriso, gargalhada que balança o corpo todo mexe, e a voz escorrega palavras que movemos Luciana Bowen

Como contornar a impotência e a imobilidade com as palavras? Um ponto de ausência, quando dobrado, pode ser um ponto de contato? O espaço é papel, eu sou caneta? Por que eu sempre esqueço que meu corpo é meu mestre? Como autorizar a palavra a sair sem medo, livre, desinibida? Outros fluxos que nos constituem e definem nossa composição: oscilação constante, sístole e diástole. Como um terremoto, tremem os contornos. Confinamento: reconhecer cada pedaço da casa e do corpo, inteiramente estranhos. Sentir o toque do amuleto: abraçar a marca e entregar-se à gravidade. Outra eu: abertura para a criação de um novo corpo. Elisa Tonon Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


Se o movimento modifica a nossa percepção, por que não sentir nele cada palavra? deixar que as palavras o atravessem mais abrir os poros para entrar as sensações trans versal mente des-hierarquizar, ouvir desde outros lugares brincar com a percepção como uma criança brinca com formigas Marcelo Araya

Aline Bernardi e Lia Petrelli


conforme mastigo todos os sentidos é mais fácil aprender descobrir movendo texto em operação abrir os poros para a entrada da descolonização comportamentos o sol nascendo t r a n s v e r s a l rico processo de conciliar tudo Vitor Faria

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Toda espécie de ambiente, igualmente real, uma textura mitológica, outras composições. Estou experimentando morrer a vida inteira, conexão-pulsação, convite, provocação. Meu coração dispara com o ouvir, e o pensamento flui. Encontrar com o espaço-tempo Somáticas Tessituras Dinâmicas Gravidade Minúscula teia de experimentação. Permita-se errar. Ver o invisível Ed Di Lallo

que desassossego esse devir des estabiliza, estranho, faz tremer os contornos sinto a gravidade mas me lanço nesta nova di(z)mensão, abrir E S P A Ç

O

mer gulho deixo que fluxo me leva r me E leva novas com posições, novos arranjos estados inéditos Luciana Bowen

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Até que ponto as palavras não te afetam? Abrir espaço para o peso sair. Você está disponível? Uma criação livre. Como? Grifos: Existência inteira, fluxos, estados inéditos, criar um novo corpo Cléverson Rêgo

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Sentimento Ação Energia Existência inteira Dimensões Compondo, vivemos mergulhados Plano visível, invisível Um eu e um ou vários outros Somando-se Sentir, pensar, agir Encarnar vivendo Criação Eu sinto Eu ajo Eu vibro Janaira Bonfim

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Por que as palavras aparecem dentro da gente? Por que as matrioskas sempre carregam memórias das coisas que temos dentro? Por que as experiências nos tocam de formas tão diferentes?` Por que o movimento nos impulsiona na direção de criar mundos? De onde surgem as potências? De onde mobilizamos forças para ativar a criação? Como despertamos o olhar para ver com os olhos da procura? De qual lugar da gente nasce o fluxo quando cruzamos pontos de ausência? Como transformamos o conhecimento em matéria-prima para realizar amplamente o nosso ser-asa? De que maneira a escrita nos escreve? A palavra pode dar conta do que precisa ser comunicado? Onde é que mora a intuição? Quais são os temperos da palavra para que ela não esteja apenas na morada da boca? Flávia Muniz

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Ed Di Lallo

P O I S __^___IA LÁ IA SEM EIRA NEM UM SINALA ÁGUA QUE CAIÍIIIIÍIIIIÍUOOOLAEMSONHOS!!!

em trânsito criar e recriAR a vida o mundo poÉtica entre o desejo de mover e o de ficar parada um toque micromovimento balança confronto os contornos do ser e do estar as palavras que eriçam os pêlos movem tuas pupilas na minha direção rota de colisão idem e alter fluxo sagrado na direção da terra meus buracos abismam criar e recriar estico pernas e braços para alcançar alto longe grande e já não sou escuto a semente pulsa galáxias em mim Elisa Tonon Aline Bernardi e Lia Petrelli


Imagem de Luciano Dias Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


Aline Bernardi e Lia Petrelli


Imagem de Juliana Cordaro Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


Imagem de Flávia Dalla Aline Bernardi e Lia Petrelli


Projeto Cabrueira

por Atanael Weber Para muitas pessoas, pensar em dança é pensar em música, mas, como seria a dança para pessoas privadas do sentido da audição?

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Antes de partilhar sobre essa experiência, permita-me que eu me apresente: sou Atanael Weber, psicólogo, especialista em Libras, intérprete de Libras, professor e dançarino de forró. Através da Escola de Dança Cabrueira, criada por Edj Braga, escola de forró baiana referência a mais de uma década, iniciei um projeto de aulas para ensinar forró a pessoas surdas. Esse projeto teve seu início após um convite feito por uma aluna da Cabrueira, Nanci Araújo Bento, que após publicar um vídeo dançando forró nas suas redes sociais, foi questionada por uma aluna surda:

“surdo também pode dançar? ”

Tal indagação disparou o gatilho que idealizaria um projeto, até então sem referências de outras escolas de dança no Brasil, para ensino de forró utilizando como língua de instrução nas aulas a Libras (Língua Brasileira de Sinais). Para responder à pergunta inicial desse texto, é importante entendermos que som são ondas físicas, invisíveis, que se propagam no ar captadas pelo sistema auditivo, e decodificada pelo cérebro, possibilitando a compreensão de voz, músicas e outros tipos sonoros. Nessa lógica, entender como os surdos captavam essas ondas com o corpo, dada sua condição de privação da audição, foi a proposta desse projeto inicialmente, só para pessoas surdas. Todavia a proposta também despertou interesse em ouvintes, amantes do forró, que viu nesse espaço a oportunidade de interagirem com nativos das Libras e, além de aprender a dançar, desenvolverem sua fluência na língua.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


As aulas do projeto idealizado e executado por mim, e pela minha parceira Jaíne Ribeiro, realizadas em parceira com a AESOS (Associação Educacional Sons no Silêncio) que cedeu o espaço físico, teve início em 14 de março de 2017, e já contou com a participação de 14 pessoas: 12 surdos e 2 ouvintes. No começo, apesar de já me comunicar em Libras, o maior desafio foi pensar em metodologias que fossem efetivas para o aprendizado destes novos alunos. As aulas incialmente ocorreram duas vezes na semana, com duração de 1 (uma) hora cada aula. Utilizei as primeiras aulas para entender a consciência corporal de cada participante, e sua aproximação com a música e a dança, que para minha surpresa, a maioria já tinha hábitos de reproduzir movimentos coreográficos aprendidos em vídeos-aulas de dança na internet (mesmo sem nenhum tipo de acessibilidade). A partir desta avaliação inicial, com diálogo e dinâmicas, iniciamos as aulas práticas. Nos primeiros dias, ensinada a marcação básica na contagem do forró para os movimentos iniciais, utilizado no método de aulas da Cabrueira, já vimos duplas dançando, com técnica. Alguns já mostravam ritmo (ainda que não soubessem explicar como), outros com maior dificuldade de acompanhar a música tocada. Com o tempo percebi que dançando com técnica, “misteriosamente” eles encontravam o ritmo da música que, na verdade, nada mais era que o encaixe dos movimentos na frequência rítmica das vibrações sonoras sentidas no corpo.

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Apresentação de alunos em um seminário N-NE da AESOS

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Os primeiros movimentos, ensinados na contagem de três tempos, era repetido até que alguma dupla conseguisse executar. A partir daí, a dupla assumia ensinar para os demais da turma, enquanto observávamos como alunos, para aprender não os movimentos, mas, a metodologia que seria utilizada no ensino. Sempre chegavam cedo para treinar e partilhar, com colegas que faltaram a aula anterior, os movimentos. Alguns movimentos nomeados, ganham novas nomenclaturas por eles, a exemplo: o movimento “aviãozinho”, nomeado por ouvintes pela semelhança visual dos braços esticados na execução, para os surdos foi batizado como “infinito” pois enxergavam no movimento e união dos braços entre os parceiros o símbolo do “infinito”, caracterizado pelo número 8 na horizontal. Ainda em 2017, a Cabrueira realizou seu primeiro espetáculo de Dança, e tivemos a participação de surdos na coreografia com outros ouvintes, e uma coreografia apresentada exclusivamente por eles/as. Nos ensaios do espetáculo como se tratavam de coreografias de músicas específicas, decidi traduzir a música que eles dançariam, e mais uma nova descoberta, eles se expressaram corporalmente diferente, antes e depois de conhecerem a letra, menos mecânicos e com mais sentimento. Essas experiências oportunizaram uma aproximação intercultural (ouvinte e surda), desmistificando a convivência dessas diferenças em quaisquer ambientes.

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1º contato com vestimentas sertanejas

Rod e Jaiane: Alunos apresentando 1º espetáculo de forró da Escola CABRUEIRA Aline Bernardi e Lia Petrelli


Em 2018 a banda Zefa di Zeca contratou profissionalmente dançarinos surdos para um show, mostrando a inclusão, e criando oportunidades de novas fontes de renda para essas pessoas, assim como novas perspectivas de atuação profissional por elas/es. Tal espaço foi enriquecedor para a comunidade surda, pois a levou às mídias televisivas locais e nacionais, à produção de um documentário acadêmico na Universidade Federal da Bahia (UFBA), e a inúmeros convites para apresentações artísticas na Bahia e em outros Estados, transformando essa invisibilidade e preconceito, em uma visibilidade de potências, antes excluídas. Potencializou, também, a força do projeto, que naturalizando as diferenças, despertou o interesse nos ouvintes em conviver mais com surdos/as, a aprender Libras e respeitar sua cultura e identidades. Enquanto mediador inicial deste projeto, precisei enfrentar comentários ofensivos e preconceituosos sobre os alunos. Enquanto intérpretes em alguns encontros também me senti constrangido por traduzir falas de “opressões recreativas”, respeitando minha função em tornar acessível, linguisticamente, tudo que é dito no espaço, e garantindo aos surdos o direito de contestarem tais comentários. Sendo assim, posso afirmar que esse percurso não foi só de conquistas, tivemos inúmeros obstáculos linguísticos e principalmente atitudinais à serem superados, ou contornados, em especial pela falta de empatia de algumas pessoas, que refletiam em seus comentários e atitudes preconceitos socialmente construídos.

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A partir da teoria vygotskiana entendi, na prática, que a linguagem e o processo histórico social são essenciais no desenvolvimento do indivíduo, e fortalece sua autonomia através da aquisição de novos conhecimentos obtidos na interação com o meio. O convívio com a diferença possibilita não só a “libertação” dos corpos não correspondentes com um padrão socialmente imposto, mas também, a harmonia no convívio entre essas diferenças e o rompimento de uma formação colonizadora e excludente enraizada no inconsciente coletivo da sociedade. O objetivo deste projeto sempre foi oportunizar o protagonismo surdo no universo da dança, e atualmente as aulas, e alguns workshops, já são ministrados por profissionais surdos, sendo o professor principal Alberto Marinho, aluno surdo desde as primeiras aulas neste projeto. As artes, nesse contexto a dança, foi a linguagem que aproximou e apresentou potencialidades nas diferenças, fazendo emergir um modelo de sociedade que muitos almejam, não no discurso utópico da igualdade, mas no convívio harmônico e saudável entres as diferenças.

Como disse nosso saudoso Paulo Freire: o Inédito-Viável!

Aline Bernardi e Lia Petrelli


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Transbordar Os rios contam os sonhos As experiências transbordam os rios As vertigens dizem de nós o que não sabemos O canto, as curas, as inspirações Desenham na gente o transe de existir. Flávia Muniz

Aline Bernardi e Lia Petrelli


a pele do sonho é azul é nosso papel fazer este sonho ser estrelado criação de um campo, uma escrita que transporte o invisível, a escrita convoca o trabalho, esculpir com palavras na escrita o pensamento rende o mais que pode aprendo muito sonhando Luciana Bowen

A pele do sonho, reverberações sorrindo para mim Qual a textura do invisível? Para acontecer simultaneamente Mensagens Fazer o Ser Estrelado Mais palpável Marcelo Araya

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Quais são as marcas deixadas? O que é o silêncio? Eu existo depois do que compartilho? Como abrir espaço no corpo? Luciano Dias

Sonhar Tecer sonhos Sonhos profundos da alma Sentido da vida Persistência, disciplina Instituição dos sonhos? São muitos tipos de sonhos Aprender novas linguagens Clarear, decifrar Sentir na pele a textura Sonhar vivendo Aprender sonhando A pele do sonho é azul A busca de encontrar qual é a textura Falar sobre sonhos é ampliar - abrir novos espaços Pra sonhar tem que aprender a voar - mover o corpo de forma diferente Permitir ter uma direção Sonho como espaço que a gente visita, passeia O sonho dobra o tempo e o espaço Janaira Bonfim Aline Bernardi e Lia Petrelli


A sedução te seduz? Ela te chama pra dançar? O ato vivo da pulsação, um ressoar que vai para todos os buracos... A vida e a morte são poéticas. Cléverson Rêgo

A ressonância do meu ser se transforma em vicissitudes de prazer e dor, de maneiras inconfundíveis de ser, de fazer, de estar, numa elaboração de inquietudes metamórficas e incongruentes. Nas impossibilidades do que se foi e nas imagens do espelho, aparece o magnetismo da imagem que se transforma em paixão e modifica a natureza do que premeia a consideração do eu. Abrindo o invisível Ed Di Lallo

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Ofícios, senhas, palimpsestos

Os sopros da memória de mim falam baixo o suficiente para que eu grite

O passado volta cheirando a futuro e sobre isso não tenho mais nada a dizer a não ser que tenho sangrado mais.

O tempo já se converteu para outras dobras as respostas não tem respeitado a angústia das dúvidas e ninguém pode abafar a minha voz

Faço tranças na minha filha, descosturo a barra da calça, meu primogênito cresce

Assisto eles se fazerem pessoas de dentro para fora confiando, sem qualquer garantia, que as coisas se encaminharão

Tenho sangrado mais e minha pele regenerado rápido, faço uma boa cicatriz. Até coleciono essas marcas, um fetiche, posso dizer

Tenho dormido pouco, me parece que há mais a fazer no mundo da carne Deixo os sonhos para esse outro tempo, longo como um abrir e fechar de olhos. Flávia Dalla

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Ainda tem potência? Será que a palavra chega na coisa? Como acontece o cozimento das palavras no corpo? Sonhos como o guia do que se faz na vida. A escrita é o passar do sonho. A bússola faz o passar para montar a sensibilidade: cheiro, fome, atenção, direção. som, sentido que guia. O movimento livre mexe dentro. Mostra onde dói. Saber mudar o sentido faz emergir o conteúdo. Joyce Firme

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as estrelas dos sonhos a gente que tem que colocar dar sentido à vida o que é o real afinal? experimentar novas coisas, solto mas muito intrincado sutil acariciável mensagens Vitor Faria Compondo Invisível real óbvio Composição inéditos figura instaura novo corpo pensamento compondo Luciano Dias

Aline Bernardi e Lia Petrelli


sentir é movimentar por dentro - sem saber ou sabendo. como o teu corpo pede por movimento? é sede? me banho, me benzo e me molho em dupla vênus entrelaçada. te ganho, te penso e te olho em sincronia quase inventada. por quais meios o corpo pode ser sentido? por quais meios o corpo pede ser sentido? a gente é só buraco - perceber é mar? as pequenas torções de prazer: círculos e ciclos do corpo. dançar o frisson como a ressonância eletrônica de um encontro; imergir em campos de sensualidade para além do óbvio; tocar a sedução como ponto que reverbera. as multiplicidades do que foi e hoje transita com o peso do leve que alivia a minha paz em prol do que nem me lembro só sei que danço o ritmo me mantém viva pulsante o risco da queda é alarmante me atento e sigo o perigo: aqui eu sou. aquela sensação vibrátil antes da coisa ganhar nome encantam-me as possibilidades de invenção de mundo encantam-me as linhas absurdas de sentido, por isso me entrego à poesia.

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a poética é o contato com o íntimo mais íntimo de todas as suas entradas e saídas. é se experimentar no gosto. no cheiro. no tato. no todo. é se aquecer no ponto mais frio que suportaria um olhar para dentro. é arrancar do corpo a beleza que mora no grotesco subversivo. é traduzir o arrepio dilacerante de forma que transborde em cor. é fazer o sangue fluir de forma contínua e interminável do sexo ao cérebro. como se estar vivo fosse sentido em cada micromolécula que implica um demorar-se intransitivo. como o corpo me quer movimentando?

Tainá Dias

Aline Bernardi e Lia Petrelli


de olhos fechados exercício disciplinado a cabeça move e a mão que fica ... também parece que o lado direito é mais difícil quero dançar terra que sombra é essa um objeto me chama possibilidade como tentar equilibrar inspiração a vela ereta abro pra trás esse ... meu corpo mundo aceito o limite cura que engasga quando o pescoço sensação sonho orientações atrás ... costas cosmovisão fixa em outra posição mergulho lembro de ... interação posso abrir outra página percebo travas sinto sinto sinto muito Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021

* aprendizado apaziguada abro comportas fluem corredeiras desaprendo mais Elisa Tonon


Através da articulação do estático vamos vivendo a saída na frequência esboçando seus contornos somos partículas que marcam outras composições que oscilam no invisível respirando fluxos conectando-se... movimento num devir somando-se em nós o inédito que se fez um novo corpo, texturas dos fluxos separáveis, O que eu sei sobre o sonho? confluindo... sonho desejo, sonho tecido, gênese sonho realizado Vida vivida em forma de sonho expansão para todos os lados Marcelo Araya Vida que pulsa na frequência do sonho ((((vibra)))) escrevo a vida que sinto como a água que f(l)ui LETRAS Es cor rem Que beleza sonhar Mundo sem controle EXPaN çà O LI

ber

Da dE

Luciana Bowen Aline Bernardi e Lia Petrelli


Imagem de Flávia Dalla Coleção Cadernos Sensórios | Outono-Inverno 2021


Imagem de Marcelo Araya Aline Bernardi e Lia Petrelli


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Aline Bernardi e Lia Petrelli


Copyright © by Aline Bernardi Concepção

Aline Bernardi e Lia Petrelli Criação, Proposição e Dramaturgia

Aline Bernardi

Projeto gráfico e Capa

Lia Petrelli

Conselho Editorial

Katya Gualter, Ligia Tourinho, Márcia Feijó e Tania Alice ____________________________________________________________________

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) B523

Bernardi, Aline Texturas Translúcidas / Aline Bernardi e Lia Petrelli. Rio de Janeiro: Edições Lab Corpo e Palavra, 2021. 116 p.: il.; 29cm - (Coleção Cadernos Sensórios Corpo Palavra; Outono-Inverno 2021). ISBN 978-65-992675-2-9 (versão on-line). 1. Escrita Dançada. 2. Cartografias do Sensível. 3. Dança. 4. Poéticas do Corpo. I. Petrelli, Lia. III. Título. IV. Série. CDD: 792 Elaborada por: Érica dos Santos Resende CRB-7/5105

[2021] Todos os direitos desta edição reservado à EDIÇÕES LAB CORPO PALAVRA Email: celeiromoebius@gmail.com www.alinebernardi.com

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Estes cadernos foram compostos por Aline Bernardi e Lia Petrelli, entre São Paulo e Rio de Janeiro, e publicada online através da plataforma ISSU, com distribuição gratuita e ampla divulgação em todas as redes sociais, entre Outono e Inverno de 2021. As construções poéticas desta obra são reais e foram feitas a partir de vivências propostas através do Lab Corpo Palavra, os autores tem propriedade intelectual sobre os textos e imagens.

Aline Bernardi e Lia Petrelli



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