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COLEÇÃO CADERNOS SENSÓRIOS | PRIMAVERA 2020


Coleção Cadernos Sensórios Corpo Palavra Vertigem Infinita Primavera 2020

Edições Lab Corpo Palavra 2020

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


A licença poética utilizada na construção dramatúrgica dos textos dessa coleção de cadernos sensórios é uma escolha das autoras de acordo com a natureza de uma escrita que surge da relação com o corpo em movimento. Por esse motivo, é possível notar algumas passagens em desacordo com a norma padrão do português brasileiro. (N.E.) Aline Bernardi e Lia Petrelli


Sejam bem vindas, bem vindes, bem vindos

aos

Essa coleção tem o desejo de ser um espaço de diálogo entre as múltiplas poéticas que emergem da experiência com o Lab Corpo Palavra, metodologia que vem sendo desenvolvida como um procedimento artístico pedagógico que articula a prática de modulação das conectividades entre presença corporal, qualidades de movimento e produção de conhecimento. Através de dinâmicas entre corpo e palavra, co-criamos um ambiente de experimentação para a investigação de uma escrita sensória e cartográfica, permitindo aberturas para o emergir das poéticas de escritas do corpo.

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020

CADERNOS SENSÓRIOS LAB CORPO PALAVRA


PRIMEIRA TURMA

MÓDULO I

(VERSÃO ONLINE)

LAB CORPO PALAVRA: eixos éticos, estéticos e políticos

Aqui estão reunidas produções de textos, desenhos, imagens, fotografias, colagens - das cartografias do sensível. O texto “Pensamento, corpo e devir: uma perspectiva ético/estético/política no trabalho acadêmico”, da psicanalista e filósofa Suely Rolnik, foi usado como fio condutor das dinâmicas vivenciadas coletivamente. Ailime, Fabíola, Fernanda, Gabriela, Ingrid, Iva, Lia, Livia, Luza, Maitê, Manuela, Marcelo, Nathália e Pedro teceram letras, gestos, falas, escritas, afetos, partilhas, sonhos, sensações, intensidades e marcas deixando suas poéticas aparecerem entre telas e papéis.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Iva por Gabi Iva, Via, Vai, Avi é ela mulher das palavras, ela que ganhou da filha o presente que presenteou a mim, dos céus como casa, de nuvens de poemas, de amor essa palavra que me marcou. Iva apaixonada por onde sempre te resgata, literatura que faz do papel o palco. Iva que abraça quando fala.

Gabi por Iva

Mulher, fêmea flutuante. Na malemolência do corpo encontra palavra. Num rodopiar, fêmea que é, traz ao colo as crias, Rafael e Gael e traz a criança que a habita. Se (des) dobra flutuando o mover para experiências. De quando em vez recolhe-se no silêncio do corpo para sentir o movimento mudo das ancas, ventre, braços e pernas. Seu olhar fluido está no infinitivo DANÇAR. Gabi, mulher, corpo líquido.

Lívia por Ailime Livia pesquisa colagem do amar. Admira o mar, como fazer colagem da vida. Com timidez e expansão, busca a existencia nos seus multiplos significados. É produtora, colagista (que bonito isso) e pesquisadora. Ama amar, o mar, o amor.segue o fluxo continuo quebrando como onda, nas variantes da evolução e da respiração.

Ailime por Lívia Artista do corpo e da visualidade das múltiplas camadas entremeadas Em tessituras de uma escrita-voz em movimento e diálogo A Caminhar como água e ser filha do vento Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


O Lab Corpo Palavra aciona a escuta das intensidades do afeto enquanto o corpo move e escreve simultaneamente, enquanto dança e fala conjuntamente, enquanto mobiliza e lê concomitantemente. Decifrar sensações, produzir e deslocar sentidos enquanto praticamos o corpo-escrita e o corpo-fala nas transitoriedades da atenção.

Criar intimidade com os micromovimentos dos espaços internos do corpo e as interconectividades com os espaços externos promove uma inauguração de trajetos dos modos de pensar e mover.

A construção da presença é um percurso que envolve encontros e afetos.

Como nos aponta Suely Rolnik “nessa esfera da experiência subjetiva somos constituídos pelos efeitos das forças e suas relações que agita o fluxo vital de um mundo”.

O que reconheço como movimento? E como pensamento?

O convite é para ampliar a capacidade de dobrar-se na relação com o corpo e sua infinitude motriz.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Marcelo por Luza Dança, arte e política fazem parte de Marcelo Palma Lavin, hablando español em voz clara e macia. Desde pequeno é das artes e comunicação, mas dedicase integralmente a la danza. Coquimbo, Grécia, França, Espanha, Bélgica, Portugal, Alemanha fazem parte de seu roteiro de vida profissional. Vive o sonho da criação e atuação política: integrante da Rede Nacional Dança Sul e organizações gremiais do Chile. Haz lo que amas. Nada como ir tras tu corazón!

Luza por Marcelo Luz a la arquitectura, la danza, la capoeira, la política y el medioambiente. 30 años de sueños de un mejor Brasil, de existencia, Resistencia y vida.

Nathalia por si mesma Mestranda em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense, com estudos que dialogam pelo corpo, afetos e emoções pelo viés das relações entre animais, humanos e não humanos. A literatura, filosofia, cinema, séries, música são hobbies. A arte sempre acompanhando a jornada.

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


Ao observar o padrão de motricidade que criamos em nossa cultura ocidental moderna nas práticas de aprendizagem desde os tempos escolares, podemos dizer que o corpo apto para aprender a escrever é aquele com estabilidade nos ísquios, mantendo uma posição de frontalidade da parte anterior do corpo (tronco e cabeça) com a superfície do papel ou da tela de computador (locais onde normalmente a escrita é impressa).

Será que podemos encontrar outras dobras possíveis de conectividades para o gesto da escrita? Que outras escritas podem surgir quando o corpo sensível ganha eco e alcança espaços na sua potência de comunicar desejos e necessidades através das sensações? Podemos dizer também que esse padrão mantém o olhar fixo na letra que vai sendo transcrita e normalmente temos os dedos das mãos segurando a caneta ou digitando as teclas na altura do plexo solar, onde costuma ter também um apoio de uma mesa ou uma superfície plana estável.

Isso já convoca uma certa dobra das vértebras cervicais para baixo, mantendo uma curvatura acentuada por um tempo ditado pela ordem do discurso que se impõe como algo que deve ser escrito, mesmo se o corpo nas suas vozes de sensibilidades anunciarem algum tipo de dor.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Lia por Ingrid Lia Petrelli, 23 anos, paulista

Artista Transdiciplinar de criação múltipla e mistureba. Produtora, ampliadora e ressonante da cultura brasileira independente. Pesquisadora da escrita assêmica, do corpo e de máscaras sociais. Poeta em fluxo de consciência e brincante da palavra. Habitante do multimeio, educadora, amante e estudiosa da psicanalise, diretora de arte e cinema.

Ingrid por Lia Ingrid Crespo, 34, artista interdisciplinar mulher feminista educadora bruxa palhaça liberta e nua. Corpo sexualidade escuta de si, do outro. Autocuidados. Suas múltiplas facetas cohabitam sua autopoiesis. Na quarentena participa do projeto Trocas Afetivas, do Coletivos DELAS.

Fernanda por si mesma Formada pelas intercessões do circo, teatro, dança e performance, mergulha no universo do corpo sútil como estado de presença e potência. Pós graduada pela faculdade Angel Vianna é amante do mover corpos e afetos.

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


“As propostas de movência pensadas por Aline Bernardi, assim como suas contínuas experimentações que friccionam dança, performance, som e escrita, certamente colaboram na abertura de um corpo mais vital e presente. As linhas que se abrem nessa desterritorialização e reterritorialização permanentes fazem fugir o status normalmente melancólico e repetitivo do movimento que vivenciamos como padrão cotidiano. Esse processo, acredito, envolve uma abertura através da pele. O trabalho de Aline me permite poder criar temporariamente um corpo que tudo vê. Isso se dá pelas contaminações constantes entre práticas, dança e escrita, poesia e som. Mais do que improvisar e provocar contato, as agitações provocadas por suas propostas, fazem atritar afetos que podem misturar-se uns aos outros, como em um processo de contágio. Aline perfura o real e não se contenta em apenas representá-lo. Suas propostas já são o próprio acontecimento de criação de territórios mais vitais, diferentes do contexto espetacular em que as cidades modernas se apresentam.” Daniela Avellar, psicóloga e mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela UFF/RJ, sobre sua participação no percurso Espaço Corpo, no Sesc Copacana/RJ, junto com o Lab Corpo Palavra, em 2017.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Nesse campo de germinação e partilha das escritas de outras pensabilidades, sinto-me enriquecidamente afetada pelos debates sobre racismo e imersa nos aprendizados que venho tendo ao ler pensadoras negras como Djamila Ribeiro.

Inspirada nas palavras tão elucidadoras de Djamila Ribeiro em seu livro “Pequeno Manual Antirracista” onde ela relembra as palavras de outra grande pensadora negra, Grada Kilomba, ao nos provocar dizendo que o racismo é uma problemática branca.

Como mulher branca sinto-me na responsabilidade de contribuir com as ações de políticas antirracistas e, ao lançar esses Cadernos, abro um convite em cada edição aos artistas e educadores negras/negres/negros para compor um espaço de visibilidade à essa produção do pensamento negro.

Por que?

“Até serem homogeneizados pelo processo colonial, os povos negros existiam como etnias, culturas e idiomas diversos - isso até serem tratados como ‘o negro’. Tal categoria foi criada em um processo de discriminação, que visava ao tratamento de seres humanos como mercadorias.

Portanto, o racismo foi inventado pela branquitude, que como criadora deve se responsabilizar por ele. Para além de se entender como privilegiado, o branco deve ter atitudes antirracistas. Não se trata de se sentir culpado por ser branco: a questão é se responsabilizar. Diferente da culpa, que leva à inércia, a responsabilidade leva à ação. Dessa forma, se o primeiro passo é desnaturalizar o olhar condicionado pelo racismo, o segundo é criar espaços, sobretudo em lugares que pessoas negras não costumam acessar”. Djamila Ribeiro (2019) filósofa, feminista negra, escritora e acadêmica brasileira Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


JÉSSICA BARBOSA

S

Sou doula pela Bini Birth, formada em Pilates pelo Estúdio Pilates. Já atuei em peças, musicais, novelas, séries, dirigi filmes, e hoje estou numa residência artística no Museu Bispo do Rosário preparando a peça Em Busca de Judite e propondo a sala de estudos online sobre arte e saúde mental Interfaces.

FOTO POR PEDRO SÁ MORAES

ou licenciada em dança pela Faculdade Angel Vianna, no Rio de Janeiro, fiz formação técnica em Teatro na escola pública mais antiga da América Latina, Martins Penna.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Atriz doula. As vezes me sinto um coração em duas pernas. Pode ter a ver com a baianidade, com querer Nasci quando minha mãe todes em casa, agregar, tinha 21 anos e a história cuidar. do meu nascimento virou Mas hoje tenho aprendido um solo de dança teatro, a fechar a porta. na Faculdade Angel Vianna, Aprendido sobre silêncio e onde me licenciei em dança. recolhimento, coisa que só o tempo ensina. Sou a quinta de seis filhos. Não fui pro mestrado ainda. Por ora menos academia, mais teatro. Minha família e suas histórias são um retrato do Brasil. Uma avó branca que fugiu para casar com um avô retinto, ameaçado de morte pela relação deles. Uma outra avô negra, de quem até ter meu filho, eu não sabia nem o nome. Silenciamentos. Venho de uma família sem tanta consciência do que é ser negro/negra. As escolhas e os caminhos até uma fase da minha vida foram marcadas por isso. Sempre uma sensação de não pertencer.

FOTO POR PEDRO SÁ MORAES - “JUDITE EXPERIMENTO 1”

Hoje eu sei que “enegrecer” é um caminho sem fim.

Pertenço a mim.

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Infelizmente a frase “Eu não consigo respirar” não se trata de uma metáfora. Ela foi literalmente dita por um homem negro que estava sendo sufocado por um policial branco. E infelizmente quando se fala de nossas vidas, negras, na maioria das vezes não se trata de metáfora, mas de tentáculos, de espaços que nos são negados, da falta de afeto, de abuso de poder, de necropolítica. Mbembe, autor do livro Necropolítica, revela o quanto a noção de biopoder não é suficiente para dar conta dessas estruturas contemporâneas que tornam a vida submissa à morte. E ainda vivemos no Brasil, diante das recentes mortes de jovens, de crianças negras, a naturalização dessas mortes sob a justificativa do genérico termo “violência”. Como mãe, classe média, pessoa cisgênero, diante da realidade do nosso país, carrego privilégios desde minha infância, mesmo assim daqui grito “eu não consigo respirar”. Estou viva, neste tempo de agora, e o que fazer para não me tornar uma “morta-viva”, nessa falta de ar?


Quando um fato ou contexto me adoece, quando preciso provocar alguma uma ruptura como forma de dar conta, sou chamada de louca, de louco. Seria eu uma louca ou uma enlouquecida? A loucura, a ruptura, a necessidade de criar para si uma outra realidade, surge para apontar somente questões individuais ou também realidades coletivas? A criança brinca com a ruptura. Ao mesmo tempo que ela é capaz de se conectar plenamente consigo, de viajar pela imaginação, cria imagens, corpos, vozes, varia de um tema pra outro com habilidade. Mas geralmente a criança não passa por um certo sofrimento que as pessoas que adoecem psiquicamente passam. Ora por que seu adoecimento traz sofrimento, ora por que sua condição vai fazer lhe negarem direitos, espaços, afetos, cuidado, maternidade, paternidade, de certa forma, como acontece com nós, pessoas negras.

M a c h i s m o , r a c i s m o , p s i c o f o b i a , t r a n s f o b i a , g o r d o f o b i a , h o m o f o b i a , inacessibilidade, n o r m a t i v i d a d e , c a p a c i t i s m o , racismo religioso. Onde está meu corpo no meio disso tudo? Como está o meu corpo em relação a tudo isso? Ansiedade, insônia, síndrome do pânico, alcoolismo, todo mundo presente conhece pelo menos alguém que já sofreu pelo menos uma desta lista. Mas sempre vamos achar que a questão é do adoecido, ou em dado momento naturalizar essas “violências” contra a nossa subjetividade. Não quero negar aqui a importância que o apoio da rede de saúde mental pública, que um terapeuta, psicólogo ou bom psiquiatra, pode oferecer, ou sobre como um remédio pode apoiar determinadas situações. Nesse mundo em que o inimigo invisível nos impede de respirar por que nos exige estar isolados, não tocar, usar máscaras, basicamente nos exigiu mudar a nossa vida, ainda tendo que atravessar por uma grande crise humanitária, que criou abismos ainda maiores, a saída precisará ser criativa.

Quando eu falo de criatividade, com certeza aponto o espírito criativo do artista de “fazer surgir, formar”. É no momento de desafio, de não ter as condições ideais para criar, de esbarrar com uma dificuldade, que a poesia revela sua forma. E a gente está de alguma forma precisando se recriar. Há os que chamem a vida de agora de “novo normal”. Mas para mim ela não tem nada de normal. O que estão fazendo é simplesmente adaptando a vida antiga a esta situação nova. Eu não acredito que a pandemia de repente causará uma melhoria repentina nossa, que de repente com isso tudo, vamos mudar e ter um mundo melhor. Parece utópico pra mim. Quando aqui em São Paulo leio a manchete do jornal Folha de São Paulo, que diz “São Paulo mantém remoções e vê nascer favela com desabrigados da quarentena”. Esse é o novo normal ou o mundo melhor? E com certeza são pessoas, negras em sua maioria, que carregam a herança pesada da escravidão, ainda em 2020.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Mudar dá trabalho, exige continuidade, esforço diário, sentido coletivo.

Sinto que precisamos fazer uma reeducação nos nossos sentidos mais profundos, como o da relação com o outro/a outra - não vou falar com a natureza, por que era para a gente ser parte da natureza, não? Reconhecer-se parte. Makota Valdina fala sobre a humanidade da montanha, Ailton Krenak sobre a humanidade da formiga, li essas citações outro dia num texto da Dr. Aza Njeri. Interagimos excessivamente com um mundo virtual com o qual ainda não sabemos lidar, mas que já sentimos os efeitos. Caracteres limitados, que nunca nos possibilita aprofundar os diálogos, múltiplas telas gerando um efeito de dispersão e stress.

“Eu não consigo respirar”.

É like, deslike, cola, copia, e a gente cai numa realidade em que as decisões muitas vezes são tomadas a partir de uma base de formação de nossa opinião feita por deepfakes.

Começo a me mover.

Movimento sim, de ossos e músculos, integrado ao ambiente, olhando para dentro e para fora. Assim temos eleito presidentes por exemplo. Movimento que também faz o pensamento. E já existe uma indústria do lucro em cima de nossas vidas pessoais. É... Neste contexto de hoje, não posso falar de educação somente, mas preciso falar de educação anti-racista. Precisamos primeiro nos assumir racistas, olhar para os nossos preconceitos,

em primeira pessoa mesmo.

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FOTO POR HELENA COOPER - DECOPULAGEM TRIO RITUAL

A nossa estrutura é racista, colonializada, como poderíamos ter passados ilesos disso? A produção acadêmica branca, por exemplo. Se eu pedisse uma lista de 10 autores, 5 autores e autoras negras, que tem na biblioteca de vocês,

vocês conseguem me devolver a lista preenchida? Boaventura de Souza Santos chama “Epistemicídio” a destruição de formas de conhecimento e culturas, que não são assimiladas pelo Ocidente branco, porque produzidas elas foram, na verdade tem sido, mas esbarram nesses muros tão bem erguidos e não chegam.

E aqui eu posso dizer que essas formas de conhecimento e culturas que precisamos acessar não são somente as das culturas negras, mas também indígenas. Se falo de arte, aqui neste contexto preciso falar da arte que também acontece nas periferias, nas lonas culturais, em outros espaços que não só os do teatro. Tudo isso parece estar na contramão de nossos corpos que não podem mais se encontrar, dos movimentos agora limitados pelo espaço de casa, pela interação a partir de uma tela. Mas como criar a possibilidade? Criar a possibilidade da dança, inspire, expire, inspire, expire, bora gente, inspira profundo, expira. Agora mais do que nunca precisamos que ações de assistência aconteçam de forma regular, pela manutenção da vida, ações em prol do prioritário, como comida, isso é poder respirar. De ações coletivas que promovam a sustentabilidade financeira de educadores, dos artistas, da produção filosófica, dos brincantes, da ciência, dos espaços de pensamento como por exemplo as universidades públicas, da assistência à saúde pública, da assistência à saúde mental nesse modelo humanitário.

Eu quero respirar, eu desejo respirar, respira comigo. Dizem “a vida imita a arte ou a arte imita a vida?” Hoje tenho acreditado que viver é arte e que arte é a própria vida. Aline Bernardi e Lia Petrelli


Sendo assim, teremos ao longo deste livro uma grande oportunidade de conhecer artistas e educadores negres.

Aqui contaremos com a presença de Jéssica Barbosa, atriz doula baiana, moradora de São Paulo; Karen Mirelly, palhaça de Umarizal/ RN; Marcus Liberato, ator mineiro radicado no Rio de Janeiro; Marlúcia Ferreira, bailarina e pesquisadora em dança, moradora de Nova Iguaçu; Livia Prado, poeta, atriz e palhaça de Campos dos Goytacazes e Genilson Leite, performer pernambucano radicado no Rio de Janeiro. O convite é para que possamos reconhecer e perceber cada vez mais a potência das vozes e das expressões dessas pessoas no mundo.

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


Maitê por Pedro Maitê, a apaixonada Pela vida, pelo mar, pelo suor de se exercitar. Pelas pessoas em sua vida, e por uni-las. Como toda apaixonada, se distrai com facilidade. Apaixonada por seu filho Enrico, que orgulhosamente descreve como um artista, assim como ela. A arte é extremamente importante em sua vida. Música, pintura, filmes, todo tipo de arte a encanta. Mas uma em particular: a dança. Maitê é uma orgulhosa integrante da companhia de dança contemporânea mais antiga da sua cidade. Professora com entusiasmo particular pelas turmas avançadas. Apaixonada pelo palco, a dança a consome de uma forma muito positiva. Em suas palavras, sente-se intensa paixão, pela dança e pelas coisas da vida.

Pedro por Maitê Um mundo particular onde na imaginação busca mergulhar. Uma mente inquieta cheias de estórias imaginárias desse garoto que nasceu em uma cidade pequena mas com grandes pensamentos e objetivos. Pesquisa, improvisa e na música potencializa os sentidos do sentir. Redescobrir. Existir. Lugar difícil que dá medo. Mas mesmo assim faz mover seu otimismo, o desejo de sair da zona de conforto. Exigente consigo mesmo, busca para a vida a alegria e a empolgação, sentimentos que resgata lembranças . Um dia diferente todo dia. Sensações e desafios: seu desejo.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Este livro, intitulado Vertigem Infinita, celebra o nascimento de mais um desdobramento da pesquisa Corpo Palavra, que começou em 2012 com a Série de Encontros Corpo Palavra, que ocorreu na Faculdade Angel Vianna/RJ com artistas de diferentes linguagens em conversas sobre processo de criação. Em 2013 essa série aconteceu novamente no Studio Gesto/RJ. Em 2015 surgiu o Lab Corpo Palavra que passou a ser realizado nos formatos workshop imersivo, oficina regular, residências artísticas ou participação em seminários universitários nas mais diversas instituições públicas e privadas em todo o Brasil e pela América Latina. Agora, em 2020 damos início ao Processo de Aprendizagem Lab Corpo Palavra com os módulos oferecidos virtualmente com transmissão ao vivo. Devido ao contexto da pandemia COVID-19, que nos exige um recolhimento de nossas atividades presenciais, optamos por desenvolver os módulos dentro de plataformas digitais como um caminho de fortalecimento da rede de artistas e educadores que encontram nessa metodologia um ponto de apoio para a oxigenação do seu mover e pensar no mundo.

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


Manuela por Fabiola Manuela, Ela é mulher de sorriso largo, Desses que barca o mundo. Manu, Ela conversa com criança, dança a dança da vida do corpo. Manu com suas mãos, toca nas pessoas o além de suas formas, faz no tato, o contato com elas mesmas. Manu, Ela permeia a vida numa teia, como uma renda, fiada pelas mãos da deusa. Manu, Fabiola por Manuela Ela resgata na essência de ser mulher, a mulher que gente tem em si, como Brandão, Mulher-Terra, nota musical, para dançar em mim, em Fabíola nós, sendo Um, sendo Om na senda do movimenta a existência pelo ar, gira ao redor do Sol, do todo e de si para fazer destino. nascer, renascer e auto-gerar. Faz o convite para a vida chegar, permeia Manuela. renovação, gestação. Mãe de Nilo e Jonas e de tantas criações, se eterniza na presença. Fabíola faz a travessia entre portais: traz a vida e também ajuda na saída de quem precisa partir. Faz nascer e amadurecer, acompanha a experiência de quem mais vive, baila com a aceitação. Reverbera as intensidades do corpo-natureza que se integra Nela-Planeta como a água das ondas do mar. Fabíola é fluidez, é a corrente livre do fluxo de amar.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Desejamos que cada leitora/leitor possa degustar essas páginas em estado de dança: Experimente ler enquanto caminha em um jardim ou em alguma rua de sua cidade, folheie essas escritas comendo algo que lhe aguça o paladar, se algo lido ou visto ao longo dos cadernos te der vontade de mover o corpo se deixe levar por essa sensação.

Prove as letras enquanto gesto encarnado em seu cotidiano. Deixe a porta aberta para alguma possibilidade de ser surpreendida(o) com alguma alteração respiratória, quiçá um arrepio dos pêlos do corpo.

Cheire as palavras e permita-se ter uma brecha de ludicidade no ler, mover, pensar, sentir. Silencie toda vez que escutar esse chamado!

Aline Bernardi criadora e proponente do Lab Corpo Palavra

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IMAGEM POR LÍVIA RENÓ

Aline Bernardi e Lia Petrelli


O que é o fluxo? O que o compõem? Quando começa? De onde vem? Para onde vai? Continua? O que o intercepta? Tem o que o interdite? Composição complexa do visível e invisível. Discernir para compreender? Tem uma lâmpada bem no meio -- (meio de onde? π) -- que, quando acesa, acessa, atende ao convite da observação: o que vibra? O que pensa? O que move? ... Parece fundir. Um@ só consciência π()””*””()π O contorno de {dentro e fora}- tem contorno fora? }}} Os infinitos contornos dos infinitos de dentro.{{{ Tanta interação! Tudo em conjunção. Preciso estar inteira. {π} Tento dissecar, então, para ter contradição, 1) penso, vibro, movo?, ou, 2) vibro, movo, penso?, ou, 3) movo, vibro e penso? Infinitas combinações. ContrAção:[{][}] O que tem é movimento em construção. Atenção ao perceber as Sensações promove melhores CriAções. Podemos entender que existe um fluxo contínuo de observação, de atenção? Por hora, não tem resposta não, sem pretensão, nada é em vão. √{π}{π}{π}√ manuela

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KAREN

FOTO DE ACERVO PESSOAL DA ARTISTA

MIRELLY

19 anos, militante mulher negra, palhaça, arteira, cenopoetisa, trancista, artista pública de rua, sertaneja do sertão do Rio Grande do Norte de uma pequena cidade chamada Umarizal/RN, Graduanda em Pedagogia pela UERN, campus Patu/RN, componente da Cia. Arte e Riso e do Movimento Popular Escambo Livre de Rua.

Iniciei minha vida artística no ano de 2017, junto ao “Coletivo Invisível de Teatro”, apresentando o espetáculo “Quebra de Silencio”, no qual discutíamos sobre as violências sofridas pelas mulheres em nosso cotidiano. Aline Bernardi e Lia Petrelli


Iniciavam-se então minhas primeiras experiências relacionadas ao feminismo - bandeira erguida ontem, hoje e sempre. Um outro espetáculo denominado “Manifesto Negro”, chamava-me a refletir sobre o racismo mascarado de nossa sociedade.

Foi nesse momento que, pela primeira vez, transformei minhas dores em arte. “Vem ver tua filha brincar, vem ver tua filha lutar, vem ver tua filha sua história cantar, vem ver tua filha lutar” Em 2019, entrei na Cia. Arte e Riso, novas transformações.

Emanuel Coringa

Dessa vez, foi através dos riscos no rosto que me coloquei nos riscos do riso.

Novos questionamentos, novas mudanças, aqui estávamos eu e Navalha, fazendo 1000 perguntas, o mundo parecia parado, mas os genocídios, as agressões e o ódio existente.

Não!

Nascendo a

Palhaça Navalha,

Um racismo que deixa marcas profundas no povo preto.

uma menina que está descobrindo o mundo e questionando as nossas formas de viver e se relacionar, repensando a própria forma de se fazer riso nos dias atuais. Em meio às questões que atravessam minha existência artística, comunitária e social, questionei-me sobre como agir na cidade sobre as questões de negritude, feminismo, palhaçada feminina e LGBTQIA+.

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020

Enquanto os EUA viviam “George Floyd” o RN sofria com “Geovane Gabriel, 18 anos”.


E como fazer isso vivendo esse momento de pandemia onde as praças e escolas estão vazias?

não dá mais para ser submissa à esse silêncio!

“Minha raça é julgada, humilhada, apedrejada, afogada, minha raça é morta por pessoas preconceituosas, que em casa clamam por uma sociedade mais amorosa”, Karen Mirelly, texto presente na dramaturgia do espetáculo “Manifesto Negro”

Em coletivo, resolvemos entrar no “Balanço da Rede”, nos adaptarmos ao novo balanço.

Fundando junto com Bernardo Henrique e a Cia. Arte e Riso o

“Movimento Gavião Negro”

formado por negrxs, com múltiplos conhecimentos humanos, desenvolvendo ações artísticas pelas/para as plataformas digitais,

transformando-as em espaços de falas e de protestos através da arte.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Como escreve u “Maya Angelo u”: “Acima de um passado que e stá enraizado na dor, eu me le vanto, eu sou um o ceano negro, vasto e irrequieto, ind o e vindo con tra as marés, eu me levanto” Juntos formam os um corpo, um oceano, um povo!

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IMAGEM POR AILIME HUCKEMBECK

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Marcas são pensamentos que se acham no corpo, são materialidades da transformação do tempo, de como as coisas se instalam e num estalo de compreensão se transmutam no caminho das emoções que fluem no corpo, dando vida aos fluxos estagnados. As marcas se exteriorizam ao longo do desenvolvimento ontogenético do ser humano, em seus fluxos e relações com o mundo, naquilo que freia e naquilo que acelera, motivado pelo desejo ou pela castração do desejo em sua relação com o mundo, sensível, físico e espiritual.

Com os relacionamentos novas marcas são impressas em nossa imagem corporal, que vai se modificando conforme criamos e recriamos os movimentos relacionais. A cada instante somos outros, renovados em marcas, mas ainda os mesmos enquanto fluxo original, enquanto pulso das relações, somos eu e o outro do mundo em que vivemos e o outro nos vê nestas modificações de unidade, em dobras, como na Fita de Moebius, que se transforma conforme nela caminhamos, nos levando a quadridimensionalidade da existência. fabiola

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Não importa o que eu faça, existe essa mulher quem eu era, e já não sou irremediavelmente, eu já parti. Já segui. Entretanto não cheguei, não sei se chegarei no quem eu sou. Queria eu entrar em mim, descobrir-me inteira e só. Mas na maior parte dos dias o medo e a solidão me desfiguram. Não sou. Talvez seja meu julgamento, minha negação. Eu observo. Eu inflamo. Movimento solidão e soluço escrevo de olhos fechados. Estou irremediavelmente só nesses dias. E fugir daqui: não importa quantas vezes eu planeje, arrume as malas e parta. Já não tenho escapatória. Pequenas fugas apenas transformam as marcas em feridas mais fundas e não adianta: não tem fuga para quem ainda não sonhou. Minha garganta sem amígdala ainda inflama porque saber não é mover. Saber é arrancar a casca do machucado. Agir é encontrar a fresta na razão de ser. Agir é encontrar movimento. Dançar nas pontas dos pés horas a fio em equilíbrio e sem medo de cair. Com braços de asas traçando círculos no ar. ingrid

Existe um espaço entre corpo e mente? Tem como sair do racional, como?

Como ouvir as vozes do meu corpo?

Como sentir as palavras e ao mesmo tempo ver todas as conexões? Qual é o meu processo de desconstrução? Eu consigo sair do casulo, de tirar o meu corpo desse lugar? iva Aline Bernardi e Lia Petrelli


As marcas são sempre Respiração Camadas adentrar Rompe-se assim o equilíbrio Dessa atual figura Pensamento, andamento, fluxo Contínuo Curvas cognitivas tremem o seu contorno Tato, frio, pausa Encarnar esse estado inédito que se fez Soltar O corpo A partir das composições De um devir lívia

Cuando el cuerpo desaparece, la atención se amplia, cuando el cuerpo siente una Marca reacciona en lo visible con una relación entre uno mismo y uno o varios otros. La marca comprendida como un estado exacto, inédito producido en nuestro cuerpo, considerando a éste un sistema creativo cognitivo... marcelo

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Até que ponto as coisas acontecem porque acontecem, até que ponto fazemos acontecer? Em que momento a fumaça passa da matéria para o etério? O que nos movimenta a algo novo? Como perceber quando buscar e quando silenciar? luza

Existencia, dimensões e criação: conexões correndo em diferentes fluxos energéticos. No invisível, ou não-óbvio, há uma leveza agradável, como o som da chuva ao fundo. É vibração com frequência desconhecida que conecta-se com vibrações de mesma frequencia. A busca por este outro local ou uma abertura natural podem culminar em estados inéditos, estranhos ao nosso campo de conhecimento até então. Ao atingir este estágio, os contornos estremecem, coração bate mais forte. É necessário segurar o estômago. O estágio é leve e ligeiro, mas deixa marcas profundas. Estado inédito é expansão de corpo e mente. É excitante e desafiador. Deixa rastros, marcas no caminho. Início de uma mutação. luza

Aline Bernardi e Lia Petrelli


A busca pela atenção? Onde está o botão de ligar? Onde é o lugar verdadeiro que estou? Letras que vão dançando? Espiritual em uma matéria mais densa? Que lugar é esse que não tá na atenção? O que aflora o meu corpo no fluxo continuo? Como perder o controle controlado nas minhas memórias? Marcas no meu corpo?

IMAGEM POR LUZA

nathália

Tais composições num momento escuro, acelera e pulsa, geram em nós estados inéditos. Os músculos se contraem e ficam rijos. As subjetividades geram em nós sensações, atenções, presença e conexões que se produzem em nosso corpo, gêneses de um devir, num momento escuro. Movimento que acelera, pulsa, pulsa, pulsa. A gênese de mover o corpo e aceitar o silêncio como criação, sensação e escuta. iva

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


FOTO POR YULLI

ator mineiro de Belo Horizonte, formado pelo Teatro Universitário da UFMG: subi em um palco de teatro pela primeira vez aos 6 anos de idade, quando participei de um auto de Natal e interpretei Baltasar. Anos depois, aos 11, iniciei atividades teatrais em minha escola pública como disciplina aberta aos interessados - atuei em “Os Saltimbancos” de Chico Buarque e desde então me mantive presente nas atividades artísticas escolares. No ensino médio, entrei para companhia de teatro estudantil Argonautas e fizemos apresentações em teatros e repartições públicas de BH. Aos 16 anos, passei no meu primeiro teste para um seriado independente, exibido na Rede TV, e filmado em SP.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Em São Paulo , antes de voltar para BH, escutei atentamente o diretor do seriado me dizer que deveria estudar teatro pois tinha talento e vocação. Pois bem, voltei pra BH determinado a fazer um curso livre de teatro paralelo ao trabalho que fazia na Cia de teatro estudantil. Aconselhado a procurar uma agência de modelo, me profissionalizei e um novo mundo se abriu: fiz várias campanhas publicitárias e alguns anos depois trabalhei como VJ, apresentando um programa de clipes chamado K22 do canal BH Gerares.

Ao me formar como ator aos 22 anos me mudei para a Cidade Maravilhosa

FOTO PATRICK ORLANDO

Peça Áurea, a lei da velha senhora

No carnaval carioca atuei nas escolas de samba Vila Isabel, Unidos da Tijuca, Portela, Salgueiro (minha escola de coração, onde tive a alegria de desfilar com a ala Maculelê, dirigida pelo coreógrafo Carlinhos do Salgueiro, no carnaval de San Luis, centro oeste da Argentina [2012]; participei da comissão de frente pela União Parque Curicica [2009] e pela Portela [2017]- campeã do Carnaval no ano citado.

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Outras atuações que trago aqui na minha bagagem: “Cabaré Praça Onze”, de Antônio Pedro dirigido por Cláudia Borioni e Vilma Melo [2011]; a performance “Essas Associações” do artista inglês Tino Seghal , no CCBB RJ [2011]; e a performance musical “O mistério tempo em poesias” do artista Cacau Brasil na estação de metrô General Osório em Ipanema [2011].

Atuei como membro da Cia teatral Banquete Cultural nos espetáculos: “Amor e Restos Humanos” [2014] do autor canadense Brad Fraser e na peça “Áurea, a lei da velha senhora” [2015], espetáculo contemplado pelo prêmio Myriam Muniz, ambos dirigidos por Jean Mendonça.


No audiovisual, Curtas metragens:

“Liberdade?” De Rodrigo França, “Acabou” de Giuliano Saade, ambos realizados pelo Nucelar, coletivo de artistas de vários cantos do país, onde também atuo como figurinista e diretor de arte. “Vinícius” de autoria própria, “Laços” de Micheli Laviola, “Onda” de Clara Vives e direção de João Celles para o 72horas Rio Festival de Filmes [2017]. Séries: “Subúrbia” da rede Globo [2012] e protagonista de um dos capítulos da “Superação” como o advogado Robson, uma produção da Fundação Cesgranrio, dirigida por Alexandre Machafer [2013]. “O Mecanismo” da Netflix como um delegado Bastos da polícia federal e “Tocs de Dalila” como um personagem com mania de contar os fios da barba, ambos da Multishow [2017]. “Cidade Invisível” [2019], da Netflix que ainda não foi ao ar. Filmes: o média metragem “O triste fim de Arsênio Godard”, de Adolfo Rosenthal [2011] como enfermeiro da marinha; no longa “O filho do homem”, direção de Alexandre Machafer com produção da Fundação Cesgranrio [2018], como Simão de Cirene (com estréia no Cine Odeon-RJ e exibido nas salas de cinema do Brasil pela Cinemark). Criei um solo de dança em “Seiva”, projeto do músico e tablista Marcelo Conti, filmado em uma floresta no Rio de Janeiro [2019] - ainda sem data para lançamento.

Ao ler essa trajetória você pode estar se perguntando: por que um ator com formação, experiência de vida e profissional, não está ocupando outros lugares na sociedade? Eu te respondo. Independe do tempo das coisas:

existe uma coisa horrorosa chamada Racismo que invisibiliza , estigmatiza e rotula artistas pretos e pretas.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Aos 16 anos eu não pude fazer o personagem na peça “O Alienista” do Machado de Assis (nessa época eu não sabia que o Machado não era branco) porque eu era negro, e o personagem era um homem da corte, se fosse o barbeiro até poderia - disse o diretor - mas não era o caso. Eu sabia a fala de todos os personagens, marcas e tudo mais, mas a mim foi dado apenas o direito de ser do coro e subir ao palco apenas na cena final do espetáculo. Aos 17 , o dono da agência de modelos, que eu trabalhava, me disse que eles não me ligariam no inverno porque modelos pretos (naquela estação) não eram chamados. Ele alegou que a moda preferia pessoas bem claras pois passavam a idéia de que estavam queimadas do frio. Certa vez uma produtora de elenco disse que adorou meu material de ator

(geralmente gostam muito, mas entre gostarem e contratarem tem uma enorme lacuna)

mas que eles queriam negro com cara de negro.

Bom, eu sou negro, não vejo a possibilidade de ter outra cara senão essa preta que tenho - pensei.

No fim ela disse: “Marcus, você é bonito demais para o personagem”.

E mais uma vez o Marcus ficou de fora. Atualmente sou ator exclusivo da Túnel Q, e quem faz minha gestão artística desde 2019 é a Ana Nero, mas antes de iniciarmos nossa parceria, estava em uma negociação com uma agente de São Paulo, que optou em não trabalhar comigo porque ela já tinha um ator negro com idade próxima a minha e que 2 negros ela não ia saber administrar.

Com tudo isso, de um tempo pra cá tenho sentido cada vez mais necessidade de criar coisas minhas, trocar com mais profissionais pretxs e expandir a rede, furar essa bolha e com a pandemia isso ficou mais latente.

Geralmente esses trabalhos nos tem como um “fantoche”, não são pensados para nós - falam por nós, dirigem por nós, escrevem por nós, atuam por nós porque nós não estamos de fato inseridos.

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FOTO POR RENATA MEIRELLES

Pois bem, vi a necessidade de me ver em cena a partir de mim. Foi aí que comecei a escrever um projeto pessoal e independente que resultou em 3 vídeos: o curta metragem chamado “Vinícius”, o vídeo dança “Camadas” e o vídeo performance intitulado “Cicatrizes”.

Os três vídeos estão interligados e dialogam sobre liberdade. Apresentei o projeto a dois profissionais pretos, o músico João Vinícius Barbosa e o editor Robson Maia, que toparam e acolheram a idéia. O curta já está filmado e se encontra em fase de edição final. Seguimos em processo. Devido à pandemia e ao isolamento social, os vídeos são feitos em casa e filmados por mim mesmo. Um experimento que me permite transitar em outras áreas além da interpretação e que me possibilita certa independência, mais aprendizados e me coloca no lugar de protagonista da minha própria estória.

Quanto mais as narrativas forem pensadas e executadas por nós, teremos espaços pra além do não senhor, sim senhor.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


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Aline Bernardi e Lia Petrelli


IMAGEM POR MANUELA KREMPER

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Mobilizo Atravesso o canto do olhar Toque múltiplo desses contornos que vieram de figurino Mirar seus ojos en eco Etérica intensidade Manutenção do baloiço Corpo, calor e cor Cheiro, aquilo que é inato Tem batom, tem poder muito forte Com a ressonância Com os afetos O poder do ventre Gosto da fumaça que sai do corpo quente Liberação do silêncio Luz, gemer, quero seduzir Fazer de olhos fechados A pele Imã de força Magnetizaçao de tudo feca

dimensões amplas que aceno com as minhas mãos vivendo e mergulhando não só na própria humanidade dos meus pensamentos. quando sinto e escuto o ambiente invisível mas com texturas, cheiros e música. outros fluxos atravessam para uma tensão atual que treme seus meus contornos criando um novo corpo inédito gênese de um devir. AMPLITUDE gabriela Aline Bernardi e Lia Petrelli


Fiamie Pleia Querendo expor muito Sou apaixonada Ponto de partida para muitos movimentos da minha vida De um novo corpo, um corpo dois Eu não sabia que estava precisando tanto Investigar o corpo com a palavra Continuar e seguir investigando nathalia

Na existência pulsam dimensões que vão compondo o fluxo de acordo com a demanda. Uma nova marca , marca nova. Obra invisível que passa. Uma espécie de presente que pode ser ou deve ser achado no estado de atenção. A marca reverbera na razão óbvia da atração. Criamos conexão e engendramos produzindo diferenças, criando o que conduz a potência da existência. maitê

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O que é atenção? Como você busca as coisas? Para que serve o entendimento? Desconcentrar te leva para aonde? Despertar fala de que lugar? O que pode ser quando você não está desperta? Como você se sente neste lugar que não conhece? Por que ter de estar onde você quer e não onde está e vai? Quais são as partes de você que são difíceis de acessar? O que é dualidade consigo mesma? Ativar o inativo é bom? Te causa prazer? De onde vem o prazer? A dificuldade de se expressar pode ser por medo? De onde você acha que pode ser este medo? Como a gente fica parado te olhando? O que esta sensação te provoca? Para onde te leva a marca que se abre? A palavra se conecta com o corpo? Aonde? Você sente isso? Síntese te parece uma coisa simples? Como você se conecta com o que fica? Adentrar uma nova trilha te leva a um novo lugar? Você quer voltar? O que é razão para você? Está ligada ao social? Dosar é escolher? Como é olhar para o seu corpo? De onde vem esta tensão? O que é relaxamento? De onde vem o pensamento? Por que pará-lo? O que é marca para você? O estado inédito é surpreendente para você? Como você se sente sendo inédita? Você é inédita para você mesma? Falar e escrever em círculo te dá prazer? Perda de controle é um caminho? Como o fluxo se apresenta para você? As rupturas te dão prazer? Você prefere o fluxo? Como as pausas podem ser movimento? Como as palavras limitam seu fluxo? O que é perder o fluxo? Se está dentro, o papel é realmente necessário? Você gosta do desenho das palavras? Do ato de escrevê-las ou do prazer de ter este registro? Como você sente seu corpo nesta outra dimensão? Como você sente seu copo pedindo para voar? Encuentro, encontro, ritmo, curso, palavras e entonações, isto pode alterar suas marcas e formas de pensar? A digestão é realmente necessária? A escrita produz fluxo em você? O silêncio abre ou fecha? O que é presença física? Como você abraça o silêncio em sua vida? O que é estado infinito de possibilidades de ritmos e sensibilidades? No silêncio vejo minha imagem. O que vejo? Por que a vontade de mover? O que quero preencher? f

a

b

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l

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Aline Bernardi e Lia Petrelli


FOTO DE FILIPE TRINDADE - Espetáculo Fragmentos de um Processo

MARLÚCIA

FERREIRA

S

ou Marlúcia Cristina Ferreira Gomes, filha de Maria e Antônio.

Habito na TERRA (Nova Iguaçu) - que deus a tenha a cidade que surgiu das margens do rio Iguassú, onde as ruas cheiravam o perfume das frutas douradas, laranjas que a terra nos dava. Fragmentada a terra agora, não mais laranjais, mas Baixada Fluminense, a terra rebaixada às margens das valas que percorre a cidade adentra na favela, nas ruas e nas vielas, é baixada distante da burguesia contemporânea, é rasgada por uma estrada de ferro que cortando a cidade em dois pólos, nos liga ao centro da cidade transportando das margens (Nova Iguaçu) para o centro nosso de cada dia (Rio de Janeiro/Centro), mão de obra barata que vale milhões (capitalismo exploratório). Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


Neta de maquinista lá vou eu, saindo do quintal de terra batida, indo ao encontro do mundo UNIVERsitário, onde entro no curso de Bacharelado em Dança da UFRJ encontrando o que já havia me encontrado, o que nos jogos do meu quintal (de infância) na terra sagrada da brincadeira já acontecia, a dança já dançava em mim. Hoje mestranda na linha de poéticas e interfaces da dança buscando experimentar o sagrado como agir poético (criativo) na dança, ainda habito em Nova Iguaçu, no espaço sagrado do morro K-11 (kwanza), é aqui que sou desafiada a fincar meus pés na terra, enraizando o corpo nas memórias que ela me oferece, terreiro Kwanza, que dantes quilombo, agora se desdobra na esquina da Santa Branca com Irmãos Mauricio rua que atravesso, habitando na casa em obra.

Em tempos de confinamento habitando na casa em obra, incômodo diário no espaço onde moro,

me deparo com a escassez do espaço físico na minha casa, com isso inicio uma proCURA nos espaços que me cabem.

FOTO DE NATAEL GOMES

Entrando nas questões do corpo e sua corporeidade, um corpo integrado e suas dobras, me encontro retornando à Ontologia que põe o ser em obra, não como fundamento anterior as coisas, mas como o mistério que está prestes a ser revelado.

A casa-em-obra é o corpo-em-obra ou seja, é o acontecer poético sempre instaurando dança (arte) onde, e quando houver mundo. O corpo é limitado, limitante e, por isso não cessa de chamar a dança (a obra) no por em obra da casa-corpo, uma pequena cozinha se transforma, extrapola seus limites, instaura uma porta para um vão, o vão se torna lugar e o lugar da cozinha se torna um vão onde é possível ainda e sempre consumar o próprio possível: o poético, o milagre. Aline Bernardi e Lia Petrelli


Manter a casa em obra é guardar e liberar vãos para o movimento: co-nascer a cada confinar, renascer a cada findar, na cozinha a terra sempre se põe em obra a terra se guarda, se cozinha, ferve, oferece alimento ao corpo.

Corpo se oferece como da cozinha à cozinha. O corpo se cozinha. Corpo se conserva. O corpo ferve. O corpo não morre: transforma-se na cozinha, água, fogo, ar são terracéu (espaço de dança, liberando espaços no acontecer da arte) no espaço da cozinha da casa-em-obra. O espaço da cozinha se tornou um milagre, lugar sagrado que se instaurou no processo de procura, na solidão do confinamento.

A arte encontrou nos vãos a possibilidade de se manifestar entre o fogão, a geladeira, os móveis, e a pia, danço na terra que a cozinha me oferece, azeitando as articulações, apontando os pés para o teto descascado, dobraduras da casa-em-obra, me entrego ao chão aguardando o acontecimento da dança inesperada, me lançando à experienciação, na travessia, na descoberta.

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IMAGEM POR IVA FRANÇA

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Rolando na cama o movimento fluiu com leveza, livremente e a leitura o acompanhou. A palavra foi potencializador ao rolar na cama. O fluxo contínuo do corpo não impediu que através do texto novo texto se formasse. Houve uma união. Palavra-movimento-corpo-escrita. Fazendo café a leitura e o ato de fazer o café se conectaram perfeitamente. É algo palpável e visível, pois são atos contínuos que mantêm uma relação afetiva. Atraiu ressonância pelo prazer cotidiano. Palavra-prazer-afetos. Ler e ouvir música uma mistura de falta de concentração, desequilíbrio por não conseguir perceber as palavras do texto ao perceber o corpo se movendo, ou querendo mover-se. A concentração se diluiu transformando a leitura puramente em movimento, em corpo-dança. Talvez a aflição tenha se dado por não conseguir unir leitura-música-corpo. iva

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(Buscando os ques por ques e comos da sedução) Sedução é vida em movimento Corpo em compreensão Voz rouca, palavra lenta, poema doce Cadência na fala da mulher Magnetismo Atração entre espaços ocos Tem a ver com contatos, contratos, contratempos Fricções entre diferenças Pele na pele que reage Arrepio pausa olhos olhares ingrid

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Como se siente conectarse al cuerpo ? Sintetizar incomoda? La Racionalidad no permite crear? Llegar al control de flujo continuo y al de la tención es un objetivo? marcelo palma

Existe vontade de descorrer sobre frase, vibração e impulso. De ver conectados planos de nossa figura que escreve, também movimento proveniente da mão, braço ou pensamento. Assim podemos ser bicho. Confundir essa linha do próprio pensar a linha, igualmente entende e despercebe, pouco a pouco, o plano visível que virá à intenção de palabra como fato de forma. Conectar dimensões imaginárias de sair do sensível, entrelaça o saber vibrar. lia

Como relaxar e me colocar nessa tensão? Caminho para o pensamento fluir para além da dança, do corpo, das palavras? gabriela Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


Ainda que de corpo presente A minha mente um turbilhão de vozes Escrever é esculpir com palavras Ecoando entre sensações O tempo não existe senão esculpido em um corpo nathália

onde encontrar e como encontrar esse estado verdadeiro? como seria o caminho para se desprender? quais elos , encontros são mais marcantes ? onde você está quando se distrai!? o que seria o estado inédito? o estado de ruptura, o que ele provoca no corpo? assumir o corpo presente seria uma liberdade? maitê

Aline Bernardi e Lia Petrelli


1 Como manter a atenção no fluxo contínuo, continuamente? 2 O que fazer diante do desafio de desligar do racional? 3 De onde vem a palavra? Fazer a síntese é falar a partir da conexão com o coração? 4 Como são as dobras, no meu corpo? Me refiro às articulações que mexem com as dimensões de tempo, expressadas na materialidade. 6 Voltar de onde? O que está operando? Como dosar a operação? 7 As marcas imprimem o que eu penso? O que são as marcas? Marcas de que tempo? 8 Estado inédito é descobrir como perder o controle controlado? 9 Como o fluxo se apresenta no estado de ruptura? 10 O pensamento é feito de palavras? Como se dá o processo de memória corporal? 11 Como é a experiência do corpo em outras dimensões? 12 A tranquilidade amplia a escuta? 13 Como ativar os ritmos essenciais das múltiplas atenções? 14 Como dobrar o nó na garganta? manuela

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


Ficamos mais fortes com a presença uns dos outros. Nos ancoramos potencializados com o coletivo. Atração, síncrono idades e o som das palavras mexem com o movimento do meu corpo. A poesia corre pelo meu corpo em silêncio e vai ressonando memórias. A poesia da sedução, do devir do movimento, da conexão corpo – palavra. A boca entre aberta, quando a água escorre pelo corpo, no frescor do preparo para encontrar em mim o gosto Manso da sedução Inspira versos e rodopios, giros divertidos que reverberam pelo ambiente. Tenho uma relação meio arrastada com a sedução, porque não me sinto sedutora e porque penso que você não precisa seduzir para se sentir sedutora, a sedução acontece, o encantamento acontece e a conexão se faz fluida. “Se eu olhar de novo o céu escuro” (Otávio Paz), juro que vou sentir o universo cheio de estrelas em meu corpo, em meus movimentos atentos, singulares e cheio da presença dos outros corpos que se movem. Escrevo porque sufoco e destravo enquanto tenho a percepção que o meu corpo está flutuando, transbordando por minhas veias as palavras que me seduzem e causam sedução.

IMAGEM POR AILIME HUCKEMBECK

iva

Antes de sequer pensar sobre o que descobri já me senti descobrindo o texto e as próprias conexões de invisibilidade e atenção. Logo nas primeiras leituras não me senti tão conectada. Demorou para que a conexão fosse inteligível - muito embora o corpo já houvesse sentido a conexão. A primeira vez que captei a mensagem foi quando li em voz alta, mexendo o corpo de acordo com a vibração das cordas vocais - experimentando tanto o lento como o acelerado. A última vez que senti forte a conexão foi hoje quando li o texto escutando uma música brasileiramisturada-com-turco, mas aí a palavra “engendrar” tava gritando demais, então escutei Volver A Los 17, porque essa mesma palavra grita na musica. Senti a conexão total do sentimento da música e do texto e ainda senti muito fortemente a marca do corpo que me apresentou essa música passear pela leitura. lia Aline Bernardi e Lia Petrelli


Ponto de convergência; Poesia, sentimento Ideologia, sedução. O amargo da vida, Sentido da existência O encantar-se é poesia Acontece Não necessariamente em um exercício de sedução Mas nas superfícies expostas Na fala com paixão A poesia é encontrar-se Ponta de agulha que fisga o estômago Estudo profundo dos elementos Tola eu, não pude sustentar uma sedução: A densidade do silêncio O peso do vazio Mas fui atingida pela lança que carregam aqueles que tem paciência Quando percebi estava envolta, Tive os contornos estremecidos: Um desabrochar por devir

luza

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Aline Bernardi e Lia Petrelli


FOTO POR MARCELO REIS - ESPETÁCULO ESPERANÇA NA REVOLTA

Eu sou Lívia Prado, ou melhor, estou sendo e aprendendo a SER. Sou nascida em terras sangradas, nos Campos dos Goytacazes. Das linhas que correm em minha história, tenho ascendência indígena (goytacá e puri), portuguesa, turca e africana de etnias que só Olorun sabe. No meu corpo habitam multiversos multidimensionais, todos envolvidos no meu universo pele preta que dá forma e acabamento ao meu sentido de existência.

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


Eu sou uma árvore intergalática que fincou suas raízes no planeta Terra para aprender a ser artista. E nessa jornada sigo sendo: personagens que afetam pessoas, ou como chamam, atriz; uma palhaça em descoberta do riso compartilhado; poesia em movimento de palavra viva, poeta e tantas... sou criadora desde que me reconheço como gente, crio com palavras escritas, palavra corpo, palavra sonora e canção, palavra movimento, que conta história, pesquisa, compõe as linhas do papel e dos espaços do ar. Eu posso dizer que sou multi artista campista, atriz, poeta, contadora de histórias, escritora, dramaturga, compositora, professora e pesquisadora teatral, palhaça e arteterapeuta, criadora de obras/conteúdos artísticos e mercadora/criadora da Turbantu. A Turbantu é a oportunidade que eu criei de exercer a minha ancestralidade de mercado, é o Turbantuamento da Consciência por meio dos acessórios afro, turbantes, faixas, brincos e máscaras. Com o objetivo de promover autoestima, conhecimento e poder de realização - às mulheres negras principalmente - sigo navegando nas águas do divino da vida. Amo o que a arte faz comigo e com você, através de mim e de tantos outros. Atravessada pela arte expresso emoções e compartilho reflexões, dessa forma sigo aterrando meus passos internos, transmutando desafios e alçando risos de esperança,

pois sou um multiverso multidimensional com um lindo nome: Lívia.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


(premiado no Fest Campos de Palavra Falada em 2019) Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020

Eu sei o que é morrer. Matei-me muitas vezes, em lascas fétidas cerrei ossos inteiriços de minha pele esgarçada por demandas externas. Triturei minha pele e colei sobre o vento o pó que fiz de mim. Arranhei as costas do nada e fiz cócegas na barriga do mundo até ele explodir em água. sursursursursur SUGUEI o sangue da terra como se eu mesma fosse o chão que pudesse se deitar uma cobra. Segui o rastro do lagarto que renasci em mim e abandonava o rabo, o cabo e o fim. Essa história de morrer é rio que escorre pelo canal central o uterino, o feminino o hino de ser mulher que esqueleta esquenta, ereta e reta voa pelas linhas de si. Mas que mulher aberta! Aberta! Entre uvas e vulvas se pompa se goma e goza o deleite de SER em SI Nu e rOSA.


Arranhada pelos cabelos recentemente cortados risca sobre a pele os adinkras e pinta sobre a boca a cor da noite. Envenena-se com a própria saliva que deveria cuspir e e e cai no ai e e e chora mais, mais do que o necessário pois o adversário mora dentro e ri de quem deságua mas a lágrima é pesada e e e cai na cabeça do riso e e e ele morre. Matei meu próprio riso com a lágrima que plantei Quem planta água dentro do peito sempre tem um rio pra se afogar quem seca o tempo dentro sempre racha o bico do peito que iria amamentar. Eu sou cura a nervura a fervura a ervura a sutura a criatura a atadura a molécula que muda transfigura

Eu sou a morte que atravessa o âmago da vida que mergulha no sangue que revés. Eu sou o processo que encharca de si que morre morre profundamente nos braços do fim. O enverdescer de minhas raízes vem por baixo, me caulifica me finca me faz bambu com sabor de cana de açúcar me mela a boca muda me suja de terra pura e me cura, ao cruzar a vagina da lua toda crua e corto com os meus próprios dentes o condão materno e paterno que me gerei Solucei criança pequena Rezei o pranto de vó e gritei: Sou a lua que me pariu da morte que me cingiu Sou as cinzas que da FÉ nix ressurgiu... Lívia Prado Aline Bernardi e Lia Petrelli


Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


IMAGEM POR GABRIELA CAMARGO

Aline Bernardi e Lia Petrelli


IMAGEM POR INGRID CRESPO

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


sonhar-é-um-vazio-cheio onde me encontro com meus mortos é alívio são mensagens de um lugar que desconheço que chegam até mim . É resposta que não quero ver nem enxergar sonho é Tesão é um salto no espaço-tempo fala mais de mim do que eu mesma sei falar

lia

fabiola

IMAGEM POR LIA PETRELLI

Um presente para muitas escrituras, inscrituras, pausas e silêncio. Para exercitar a linguagem texto e desenho. Para se exercitar poética no papel. Para sonhar e voar gaivota. Para seduzir e se deleitar no fazer para ser vôo e imersão. Para ser mais você.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Sonho mergulho para buscar os cantos, a cura, a inspiração e mesmo resolução de questões. Construção do contrário de consumir. Mergulho no inconsciente coletivo, sonhos das orientações, apaziguar comigo mesma. Sonhar o que deixei afetar em mim. Matéria-prima de experiências. Falar de sonhos vida, escultura de outras moradas, minha ilha. Perco meus sonhos, perco partes de mim. Não há separação entre matéria-prima do tempo e estrutura. Impotência do vazio. Sonho é gênese, nascente, fonte, liberação, salto no tempo-espaço, sonho é planeta, fluxos esculpidos em um corpo. É palpável, invisível. Passei a sonhar ou lembrar? O que se escreve não existe. Algo que eu não quero enxergar. O medo. Sonhar acordada, uma prática que é percebida, reconhecer essa instituição do sonho. Pesadelo é renunciar o sentido prático da vida. Abdicar da realidade. Resolução de questões. Deixava me matar. Ampliar minha escuta e reverberações: é como um escafandro que que possibilita mergulhar no estranhamento com mais coragem e rigor. Fui atrás da tartaruga. Fui ver, ela tava no chão de cimento. Pode se tornar real. Mais palpável possível. Nesta aventura encarna-se um sujeito, traçar um devir. Sonhar construção de uma realidade em que eu me conheça. Um lugar meu e não meu. sonhar fala de mim mais do que a realidade. São marcas que escrevem. Meus desejos e minha criança livre, feito potência de minha essência. Dimensão profunda com meu futuro. Mundo de experiências para respostas, profunda conexão com meus ancestros e mis mortos. manuela

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


Yo fui criado por una familia católica y prefiero dormir y no soñar, por que no quiero aceptar que adoro soñar y vivir la alegría de la vida jajaja. Soñar es imaginar y viajar hacía un mundo lleno de experiencias, donde aparecen revelaciones, respuestas señales, y la conexión con el subconsciente, son un salto liberador y profundamente conectado con mis muertos mi ancestralidad y mis sentidos. marcelo

Como deixo o fluxo me conduzir? Como aceitar as rupturas como fluxo? Como me proporcionar mais estados inéditos? lívia

MiLT sentimento, básico afeto conseguindo. Adolescente racional sendo. Permitir reprimiu. Fala corpo cala. Despi constante música. Escrever é marca. Sonhar: abrir ancestralidade. Desconectar palavra fuga, eu. luza

Aline Bernardi e Lia Petrelli

IMAGEM POR ALINE BERNARDI

Demonstrar


Corpo nutre se nutre da totalidade. É ambiente e se ambienta no todo. A subjetividade da consciência, a consistência do subjetil. Conexão fluxo, recriar planos, traço, linhas desconhecidas, pulsões da vida, adormecidas. Invisível visível do devir do corpo, do que é da ordem do corpo. do que ambienta o mundo do corpo. feca

Sonhos trazem revelações de marcas, portal para possibilidades não vividas. É escrita impalpável palpável do impalpável. Olhar meu que não é meu constrói, esculpe o possível mundo bom. Escrever sonhos, trazer respostas exercer conscientemente. pedro

Sonhar nem sempre é uma experiência que retrata algo que eu queria. Sonho com cobras. Sonhei hoje que tinha colocado alguma coisa dentro de uma tartaruga. Sonho várias vezes com água. Nascente, fonte, liberação, solta, tempo presente. Essa realidade é como um sonho porque me perco no que é realidade e no que é sonho. ingrid

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Os sonhos são metas não cumpridas Eu devo continuar E continuar E continuar Vivendo Dimensões atemporais Mergulho no inconsciente coletivo no que achava que sabia mas não sei Sonhos são experiências Existe uma ilha que habito Posição ontológica, passado, futuro E acredito muito na linguagem dos sonhos Sonhar várias vezes com água Traz notícias da instabilidade lívia

IMAGEM POR FABIOLA BRITTO BRANDÃO

Sonhar um lugar que desconheço Sonhar constrói quem eu sou Marcar dentro dos sonhos, gostaria de morar nessa ilha Sonho é uma nascente Sonho é um rizoma É onde eu me perco e me encontro Sonhar é criar nathalia

Aline Bernardi e Lia Petrelli


A poética é um algo que abre os canais das pessoas, fazendo e desfazendo voltas no punho. Rodando e girando ao redor, escuto o eco do que sou no espaço, e no tempo habito em mim. Neste deslocamento de ser e sentir me encho de ar e as palavras fluem para fora, em atitude empoderada e falante, pêlos poros, pela boca, pelos olhos. Também vem o olfato, que me traz à memória as vivências sensíveis de mim na vida. Borbulhas efervescentes me fazem uma cosquinha gostosa na barriga. Toque e textura arrepiam meus pelos. Criar esta ebulição que está em mim no mundo , neste desvendar o que já existe e que ainda não se mostrou, como uma nudez atrás de um véu, que a cada movimento se apresenta outra, mas ainda é a mesma, nudez, de um corpo inteiro presente, atrás do véu, respirando, vibrando, motivado pelas sensações do presente, que a cada instante é outro. E que neste lindo bailado do corpo, leva a alma ao deleite, das sensações mais profundas das entranhas. Sensações que saem, sensações que entram, sensações que atravessam o corpo chegando na alma e que retornam, volvendo ondas de sensibilidade e excitação. O olfato fala mesmo desta outra arte, a poética da sedução, onde tato e memória se entrelaçam e dançam juntos em júbilo o gozo desta união. Na lapidação de si vou me descascando a mim, e a ti, no mundo. Desnudos, arfamos a troca do eu com o mundo, neste visível invisível ato de criar, onde a entrega marca o existir e a necessidade de se relacionar dá forma a sedução, em atração ressonante com aquilo que dá significado ao existir dentro de mim e no outro. Nesta magnetização de vida, as sinestesias corporais se atraem numa ritualização pulsante do que existe e daquilo que é sentido. E a nudez por trás do véu também revela o laço, do olhar que olha o corpo e do corpo que arrepia diante do olhar. Somos feitos do deleite da relação entre corpo e alma, nosso e do outro. Poesia é relação Sedução é interesse Poética é movimento de linguagem Sedução é interesse da língua em movimento para falar e saborear Poesia é a relação do deleite desta revelação fabiola Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


Sonhar é onde me perco. Sonhar é trazer para o imaginário o que talvez tenha me afetado. Todos os meus sonhos são como reverberações. É uma nascente, uma fonte. Sonhar faz com que eu construa o meu mundo. Prefiro dormir e não sonhar. Sonhar é a construção de uma realidade. Tem sonho que é muito real, tem sonho que é surreal, são questões que eu queria saber... Para mí, los sueños son una dimensión profunda con mi subconsciente. iva

Curiosidad siento al sorprenderme con oportunidades que aparecen para disfrutar de relaciones con personas que se pierden y se encuentran , trabajando con otro cuerpo e infinitas palabras , agradezco la reflexión la necesitaba ..... Tantas cosas en la cabeza que nos hacen estar en una rutina racional, todos tenemos dificultades, presiones y autoexigencias. Pero debemos permitirnos la sincronía, el soltar, el fluir sin procesos tímidos y así crear libres, confiados y muy presentes. Desde caminos diversos recuperar la conexión mas profunda en estos momentos de cambio y de concreción de sueños sin cumplir que nos lleven a superar la barrera del cuerpo y la mente para encontrar mas espacios para existir honesta y siceramente.

IMAGEM POR MARCELO PALMA

marcelo

Aline Bernardi e Lia Petrelli


IMAGEM POR LIA PETRELLI

Como a atenção vibra? Vibração participa da atenção? Quando o fluxo contínuo sabe ele também pode descer ou ir pra outras direções? Como que dá pra não acessar a presença? Como encontramos a liberdade que procuramos? Muitas palavras não classificam síntese? O que é síntese, quando existem muitas palavras? Qual a diferença entre muito e pouco? As pausas fazem parte da síntese? A palavra e o corpo falam a mesma língua? A síntese nasce da compreensão? O movimento faz o pensamento caminhar? O movimento faz o pensamento caminhar com mais fluídez? A velocidade da fala tem haver com qual movimento? A atenção se desenvolve em tods da mesma forma? Como trazer a escuta como atenção? Concentração e atenção são diferentes? Dá pra não pensar? Dá pra sentir o inédito mais de uma vez? A atenção vem de um só lugar ou da mescla de lugares? Como podemos escutar melhor o corpo? Como podemos escutar melhor nossos desejos e vontades? Como respeitar nosso corpo/nossos sentidos? (O silêncio também faz parte da escuta, né?) O entendimento das coisas faz com que o ritmo seja desacelerado / encontre caminhos de desaceleração? Como se desfazer da velocidade do mundo? Encontrar a atenção é saber escutar o próprio ritmo humano? Como melhor observar a atenção da escuta? lia Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


Aline Bernardi e Lia Petrelli


IMAGENS POR MANUELA KEMPER E INGRID CRESPO

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


Gracias a todo espaço Graças a vida que se abre Graças a cada espaço aberto para o preenchimento. Graças ao vazio, que torna presente o sentido da evolução, que abre ao pensamento a concretude da existência. Graças ao que não vejo mas que sou, graças as relações tecidas com finos alinhavos, entrelaçamentos de pensamentos, nesta dança mágica de sermos intensos. Graças ao silêncio que dá voz as palavras, graças ao tempo que pára e que na pausa permite o movimento. Graças ao sentimento que aquece o corpo voluptuoso e incandescente, graças ao fogo que retorna e torna livres as emoções. Graças a toda entrega rara, a toda entrega cara, a toda entrega com direcionamento. Graças ao movimento livre, com caminho desconhecido, que se faz no ir de si mesmo. Graças a nós por sermos rio, água de cachoeira, por sermos mar abundante, com ondas e espuma, graças por sermos autolimpantes, por nos purificarnos na fala, nas palavras corporais, musicais, moventes dos ares em aromas. Graças às texturas, à todas tecituras que materializam um pouco de nós, sem nós, com amarrados que se dançam livres. Gracias pela música, pelo contato. Pelas estrelas acima da cabeça e embaixo do chão. fabiola

Aline Bernardi e Lia Petrelli


GENILSON LEITE

P

ai de Ionã, perfomer que curto falar sobre corpo negro, religião afro-brasileira, performance e performatividade.

Estou mestre em arte, arte essa que ganha sentido nas minhas práticas corpo-orais, seja nas aulas de ritmos como bacharel em Dança ou como graduando em educação física, enquanto rebolo para sobreviver na caça de um sonho que não é só meu. Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020

FOTOS POR GEORGE MAGARAIA

Fã de Exu, também versa sobre tensões sociais, relações étnico-raciais e arte.


São 37 anos de vida no conforto de colher só o que planta, esses são conselhos trazidos de Recife e que ainda ressoam como uma voz que se faz nos detalhes deixados pelo tempo e marcado pela vida dos que vieram antes de mim. Pelos que pela primeira vez se arriscaram a conquistar o mundo se deslocando de sua terra natal para terras longínquas. Hoje, do Rio de Janeiro, tento seguir os rastros, as pegadas deixadas pelos ancestrais que me acolhem nos momentos menos floridos e me ensinam a contemplar as belezas dos espinhos.

Partindo do princípio de que o candomblé no Brasil é fundado sobre a cosmovisão africana e afrodiaspórica, nós, candomblecistas, nos relacionamos com o meio e com o outro de forma diferente dos eurocêntricos. No terreiro, todos os elementos, corpos, que o compõe são fundamentais para a construção e estruturação de um espaço físico e espiritual, um otá (Pedra) no candomblé é um corpo, tão importante quanto um filho de orixá. Todo corpo no terreiro é potencial, todo corpo precisa ser disponível, aberto às experiências diversas, fluido aos processos e transformações.

No terreiro todo corpo é meio para corpos, todo corpo é produto do encruzamento entre corpos, é encruzilhada. Assim, o corpo constitui e é constituído por corpos. Tambor, vasilhas de barro, cabaça, laterita, caxixi, vários corpos ritualísticos inertes no espaço lhe imprimindo uma atmosfera caótica.

Aline Bernardi e Lia Petrelli


FOTO POR GEORGE MAGARAIA

Essa inércia caótica é friccionada e rompida pelo movimento do meu corpo que se expande pelo espaço envolvendo outros corpos, agora celestes, que juntos invocam a presença das Yamin, as senhoras dos segredos, que atravessa a linha do som impondo outras dinâmicas que faz, o corpo celeste em movimento, retornar ao estado de nascente, a voltar ao útero da terra. Me levando a um transe poético onde os limiares entre divindade, humano, arte, sagrado, profanos são meros caprichos humanos que não dão conta do campo enérgico que impõe razão aos corpos. Logo cruzo corpos no meu corpo com a finalidade de dar origem a yangi, a Laterita, o primeiro Igba Exu. Depois de comer, beber, cheirar, tocar os elementos, convido a platéia à fazer o mesmo. E um por um, de forma ordinária sentem o cheiro do charuto, sentem a seiva do óleo de amêndoas, comem o atari, a pimenta de Exu, bebem a cachaça e provam do mel.

Todos compõem e são compostos por Exu.

texto fragmento da dissertação de mestrado em artes na UERJ Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020

FOTO POR GEORGE MAGARAIA

A questão em jogo que confronta a psique no fazer artístico é saber quem moldou quem. O barro nos moldou? Eles moldaram o Igba Exu ou foram moldados por eles? Todos aqueles corpos foram intercruzados, logo todos são Igba Exu, todos têm em si uma centelha da partícula de Exu.

Posteriormente todos são convidados a encruzar o corpo barro no meu corpo para assim moldar o Igba Exu. Subjugando meu corpo encruzilhada a obra coletiva e por fim todos contemplam a obra enquanto por ela são contemplados.


IMAGEM POR MANUELA KEMPER

Aline Bernardi e Lia Petrelli


OH DR PE

IETRACCI IQUE P ENR

MAITÊ BUMACHA

R

MARIANA LEIS

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


MAR A CA RIEL

GAB

LIM AI

EM UCK H E

BECK

GO Aline Bernardi e Lia Petrelli


IMAGEM POR LÍVIA RENÓ

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


IMAGEM POR IVA FRANÇA

Aline Bernardi e Lia Petrelli


Para fechar essa experiência me proponho a escrever como aprendi com Aline, que é o presente que me chega pelos ares todos os dias. As coisas que reverberam nos aproximam cada vez mais, mesmo que a distância física seja imensa. Descobri nos últimos meses que a

distância,

na verdade, mais aproxima do que afasta.

Todas as possibilidades dançantes que se acumulam e escorrem pelo corpo. No Lab Corpo Palavra aprendi a reconectar o ritmo que coloco no mundo. No módulo I aprendi a escutar o ruído, a mover a sensualidade, a explorar a criatividade que vem a qualquer hora, sem sequer ser chamada – basta que nossa escuta esteja alinhada ao nosso ser. Ter Aline como propositora é um derramar sem fim. O movimento que parte dela, nos chega por todo canto – escrevo canto, porque a voz também é foco nisso tudo; se pudesse falaria; sou da escrita de nascença, mas me permito cantar as palavras enquanto a cabeça pesa e a língua sente. Os microrganismos brincantes ficam batucando o labirinto tornam-se vídeos, palavras, rabiscos. Ganham corpo porque são do corpo, acredito que passeiem para voltar à forma original. Falei de experiência no começo porque o projeto gráfico, desde seus primórdios foi experiência intuitiva sem fim. Estar em parceria com Aline é fácil.

A comunicação fluí. Somos comunicadoras da palavra-som-corpo que move em espiral.

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


Por hora deixo escrito a delícia da criação mútua, que se entrelaça em fractais do espaço-tempo desalinhado que encontra o paralelo para seguir em crescimento ondular. Deixo avisado que as produções de meus colegas seguiram fluindo por tantos dias e acredito que permanecerão. Disse em vídeo: O que o Lab proporciona não deixa de vibrar, segue se construindo como gotinha de chuva que caí em mar, desaguando por aí. Quando escrevo assim, de uma só vez, coloco em prática tudo o que tenho aprendido – pois sigo aprendendo – desligar o racional permite que o inconsciente emerja se faz luz. Sigo movendo, criando, aprendendo: é o que mais gosto de fazer. Com muito afeto ainda sentido,

Lia Petrelli.

Aline Bernardi e Lia Petrelli

IMAGEM POR LIA PETRELLI - “SAUDADE”, SÉRIE “não-figurativo é palavra”, PROVOCADA POR ALINE BERNARDI NAS AULAS INDIVIDUAIS DO LAB CORPO PALAVRA

Tenho mais a agradecer.


CONHEÇA MAIS SOBRE O TRABALHO DOS ARTISTAS PARTICIPANTES DESTE LIVRO AILIME HUCKEMBECK Curitiba/PR (Brasil) ALINE BERNARDI Rio de Janeiro/RJ (Brasil)

FABIOLA BRANDÃO Teresópolis/RJ (Brasil) FERNANDA MÁS (FECA) Rio de Janeiro/RJ (Brasil) GABRIELA CAMARGO Vitória/ES (Brasil) GENILSON LEITE Rio de Janeiro/RJ (Brasil) INGRID CRESPO Niterói/RJ (Brasil) IVA FRANÇA Rio de Janeiro/RJ (Brasil) Porto (Portugal) JÉSSICA BARBOSA São Paulo/SP (Brasil)

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KAREN MIRELLY Umarizal/RN (Brasil) @ka.mirelly @mov_gaviaonegro | @bernardohrq | @cia.arteeriso @narededemalaecuia LUZA BASSO Curitiba/PR (Brasil) Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020

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LIA PETRELLI São Paulo/SP (Brasil)

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LÍVIA PRADO Campos dos Goytacazes/RJ (Brasil)

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LÍVIA RENÓ Rio de Janeiro/RJ (Brasil) MAITÊ BUMACHAR Vitória/ES (Brasil)

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MARCELO PALMA LAVIN Coquimbo (Chile)

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Aline Bernardi e Lia Petrelli


Copyright © by Aline Bernardi Concepção

Aline Bernardi e Lia Petrelli Criação, Proposição e Revisão

Aline Bernardi

Projeto gráfico e Capa

Lia Petrelli

Conselho Editorial

Hélia Borges, Ligia Losada Tourinho, Maria Ignez Calfa, Olivia von der Weid ____________________________________________________________________ Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) B523

Bernardi, Aline Vertigem Infinita /Aline Bernardi e Lia Petrelli. Rio de Janeiro: Edições Lab Corpo e Palavra, 2020. 90 p.: il.; 29cm - (Coleção Cadernos Sensórios Corpo Palavra; Primavera 2020. ISBN 978-65-992675-0-5 (versão on-line). 1. Escrita Dançada. 2. Cartografias do Sensível. 3. Dança. 4. Poéticas do Corpo. I. Petrelli, Lia. II. Título. III. Série. CDD: 792 Elaborada por: Érica dos Santos Resende CRB-7/5105

[2020] Todos os direitos desta edição reservado à EDIÇÕES LAB CORPO PALAVRA Email: decopulagem@gmail.com www.alinebernardi.com

Coleção Cadernos Sensórios | Primavera 2020


Esse livro (ebook) foi composto por Aline Bernardi e Lia Petrelli, entre São Paulo e Rio de Janeiro, e publicado online através da plataforma ISSU, com distribuição gratuita e ampla divulgação em todas as redes sociais, na primavera de 2020. As construções poéticas desta obra são reais e foram feitas a partir de vivências propostas através do Lab Corpo Palavra, artistas-educadores-pesquisadores que integram este livro tem propriedade intelectual sobre os textos e imagens.

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Aline Bernardi e Lia Petrelli



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