Catálogo Exposição "Imperfeita" - Coletivo 284 Lisboa

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«IMPERFEITA«


«IMPERFEITA« REALIZAÇÃO

COLETIVO 284 CURADORIA

CLARA AFONSO TEXTO DE APRESENTAÇÃO

PEDRO GOULÃO ARTISTAS PARTICIPANTES

ADRIANA ALESSA ANGELA BERNARDO CAROLINA CLARA CONSTÂNCIA CRISTINA GONÇALO IANARA INDIARA JU MALVACCINI MARILENE UTOPIA TERESA VINICIUS

SCARTARIS BAGGIO CANABRAVA B. MEDEIROS PITEIRA AFONSO GRAIN RAVAGNANI MAR MOTA PINTO NICOLETTI BARROS ZANCCHETT CORTEZ DE PAULA

REALIDADE AUMENTADA

JOÃO NUNEZ


Se quer ir rápido vá sozinho Se quer ir longe vá em grupo


Imperfeita, ou a Perfeita Imperfeição de Frida Kahlo “Pinto autorretratos porque estou muito tempo sozinha. Pinto-me a mim mesma, porque sou a que melhor conheço.” Frida Kahlo Nada na vida de Frida Kahlo e nela mesma se aproxima do que poderíamos convencionar ser a “perfeição”. Felizmente. Nada disso impediu e, pelo contrário, impulsionou o trajecto que levou a que ela se tornasse um duplo ícone, da Pintura e Artes plásticas e do Feminismo. A Arte de Frida é um dos exemplos maiores da capacidade de um ser humano transmutar, de forma quase alquímica, tudo o que lhe é essencial, intrínseco, em Arte. Na Arte de Frida e nos seus inúmeros autorretratos está, imperfeitamente, é certo, ela: as suas paixões, os seus amores e desamores, as suas raízes mexicanas, a sua beleza não convencional, o seu corpo martirizado e torturado pela poliomielite e pelo acidente e as mais de trinta operações que lhe sucederam. Frida, como ninguém, pintou a dor e a superação e, ao fazê-lo, sublimou-as e sublimou-se. E assim firmou a sua condição de mulher livre, numa sociedade e num mundo que era, e permanece, patriarcal, machista. Tornou-se ela mesmo, bandeira, ícone, inspiração. Assim mesmo, “imperfeita”. E é essa mesma “imperfeição” que inspirou mais de uma vintena de artistas, mulheres e homens, de várias nacionalidades, abordagens e técnicas diferentes, a criarem as obras que constituem o corpo desta exposição. Em todas elas e eles e nas suas obras, encontramos o efeito transformativo da arte de Frida. Nela, eles e elas encontraram reflexos, exploraram afinidades, afirmaram diferenças, criaram interpretações. Conheceram-na, reconhecendo-se. E estabeleceram com ela laços. E essa capacidade conexão, talvez seja o que de mais importante a Arte pode estabelecer. Termino, como comecei, com outra frase dela: “Eu costumava pensar que era a pessoa mais estranha do mundo, mas então dei por mim a pensar: há muita gente no mundo, tem de existir alguém como eu, que se sinta bizarra e danificada da mesma forma como eu me sinto. Consigo imaginá-la, e imagino que ela também deve estar por aí, a pensar em mim. Bom, espero que se estiver por aí e ler isto, saiba que, sim, é verdade, eu estou aqui e sou tão estranha como você.” Frida Kahlo Pedro Goulão, Lisboa, Maio de 2021


«IMPERFEITA» Celebramos em 8 março o dia das mulheres.‘Imperfeita’’ é uma homenagem a Frida Kahlo e a todas as mulheres,que pelo seu carisma nos deixaram um imenso legado. Frida nasceu nas proximidades da cidade do México a 6 julho 1907 e é hoje um ícone do sec. XX pela sua singularidade. ´´Pensaram que eu era surrealista mas nunca fui’ Marcada por paixões, dor e sofrimento, não podemos dissociar o seu trabalho da sua biografia. Em 1922 Frida foi uma das primeiras mulheres a frequentar o ensino médio no México e sonhou ser médica, mas em 1925 um aparatoso acidente mudou para sempre a sua vida. Polémica e controversa, Frida assumiu o seu espirito nacionalista e a sua própria natureza extravagante. Exibiu trajes tradicionais de cores vibrantes. Popularizou a sua imagem e tornou o seu estilo também a sua marca, levando ao mundo os valores da arte e da cultura popular mexicana. Desenhou e pintou sucessivos momentos de dor e de sofrimento. Tratou temas como o parto, o aborto e o feminicidio refletindo o silêncio da voz de outras mulheres. Tomada pelo desejo da Maternidade, pintou o aborto, a dor e o sofrimento espelhando sentimentos femininos, nunca antes trazidos à cena pública. Foi também símbolo de luta enquanto mulher bissexual e portadora de uma deficiência física. Frida, encontrou na sua fragilidade física a solidez e a perseverança, munida de uma força interior vital capaz de expressar e transformar diálogos pictóricos numa linguagem universal. Em 1937/38 expõe em New York e em Paris e é a primeira artista mexicana a fazer parte da coleção do Museu do Louvre. Frida é também um símbolo de liberdade. Ao longo desta exposição vamos encontrar diferentes olhares, inúmeras leituras e interpretações, pensamentos e técnicas em vários géneros e linguagens de ordem plástica abraçando memórias unidas por um único sentimento: FRIDA KAHLO

Celebremos … Celebremos o MILAGRE DA VIDA … Celebremos a LIBERDADE. Clara Afonso curadora


Dual como toda mulher. Dual entre o sagrado e o profano, entre o bem e o mal, entre a guerra e a paz, entre o divino e o mundano.. Nem santa nem demônio, capaz de sentir na pele e na alma todos os prazeres e dores do mundo, consegue decidir baixar as armas diante da guerra eterna e, com os olhos cheios de cansaço e esperança, olhar para as entranhas do ser que a espreita e fazer pensar que a luta agora é outra.

Dual como toda mulher, de Adriana Scartaris A obra lida com as dualidades da artista mexicana que se manifestam em toda mulher. É possível encontrar o delicado colibri, associado à sensibilidade e à alma, mas em preto e branco, assim como o revolver colorido e as balas na cintura. O felino, no canto inferior esquerdo, alerta para um lado que nem sempre os seres humanos gostam de revelar ou que seja revelado. Existe na criação da imagem o conceito de que não há pessoas perfeitas. Predominam ambiguidades, ambivalências e interpretações daquilo que a cada um faz e pensa. Neste século XXI, muitas das questões de Frida Kahlo permanecem. São colocadas de novas maneiras, mas indagam o papel da mulher na sociedade, seja ela artista ou não, vivenciando alegrias, prazeres, dores e preconceitos. Ser desconfiado gato ou espiritual colibri e usar armas ou flores depende muito de cada situação.

Oscar D'Ambrosio


Adriana Scartaris Dual como toda mulher | Digital Art impressa em alta resolução sobre acrílico 5mm e montada em caixa de luz | tiragem 1/5 | 150 x 100cm


A obra «As Duas Faces de Frida» representa a dualidade de sua vida marcada pela intensa vontade de viver e a presença constante da morte. Frida Kahlo, representa a mulher sofrida de sua época à mulher empoderada para as novas gerações. Deixou como marca sua impressionante história de vida.

As duas faces de Frida Kahlo, de Alessa Baggio É sobre um círculo dourado pintado com purpurina que Alessa Baggio representa o rosto de Frida Kahlo dividido em duas partes. Do lado esquerdo, ela surge reconhecível, mas em tons de cinza, indicando uma existência caracterizada pelo sofrimento físico e pelas dores de amor. Do direito, aparece a face de uma caveira, mas acompanhada das flores que colhia em seu jardim e usava como adorno na cabeça, uma de suas marcas registradas. Essa ambiguidade entre a vida e a morte acompanhou toda a trajetória da pintora. Desde o acidente em um bonde que deixou marcas físicas em seu corpo e psicológicas em sua alma, como apontam os pregos no trabalho, à construção de uma obra plástica reconhecida nacional e internacionalmente, boa parte dela baseada em suas experiências pessoais, Frida se autotransformou em um ícone da força feminina para enfrentar adversidades.

Oscar D'Ambrosio


Alessa Baggio As duas faces de Frida Kahlo | Acrílica sobre tela e purpurina em pasta | A.C.I.D. | 100 x 100cm


A capacidade de superação faz dela uma representação de todas as mulheres. De uma forma ou de outra vemos um pouco de nós em Frida Kahlo.

Rosas para Frida, de Angela Canabrava B. A pintura toma Frida Khalo como uma representação de todas as mulheres. A capacidade de superação da artista mexicana e a sua paixão pela vida está representada no vermelho da rosa no canto inferior direito do quadro, flor que também simboliza as causas políticas que ela abraçava. O quadro representa ainda a complexidade de seus afetos, seja no uso de um terno masculino ou pelo uso do “Rebozo Mexicano”, xale típico na cor azul, a mesma da casa em que passou parte de sua vida. A obra coloca no centro Frida, com seus adornos no cabelo, tradições no país, pintando a si mesmo com Diego Rivera, na cena que retornam para o México vindos dos EUA. A obsessão em se retratar e ao pintor constitui uma maneira de, pela arte, eternizar o seu amor. Assim como as rosas, que perdem o viço com o tempo, o casal sucumbiu, mas a arte a todos pode preservar.

Oscar D'Ambrosio


Angela Canabrava B. Rosas para Frida | Óleo sobre tela | A.C.I.D. | 090 x 090cm


Nesta Opereta, Frida mergulha no Amazonas deixando seus pertences à margem do Rio e com seu magnetismo e sensualidade exótica desperta a atenção do Boto cor-de -rosa. A lendária estória é assim invertida, o Boto outrora conquistador é seduzido e encantado pela artista. O Boto Rosa nunca mais será o mesmo, fica eternamente apaixonado...

O dia em que o Boto Rosa foi seduzido, de Bernardo Medeiros A proposta visual é uma inversão da lenda indígena do boto cor-de-rosa que, nas noites de lua cheia, nas festas juninas, se transforma num jovem belo e elegante, emerge das águas amazônicas e, vestido de branco, com um chapéu para esconder as narinas no topo da cabeça, seduz a moça solteira mais bonita das festividades e a leva ao fundo do rio, onde a engravida e a abandona, retomando a sua forma original. Essa narrativa, geralmente usada para explicar a gravidez fora do casamento, ganha, nesta pintura, nova versão. É Frida Kahlo que deixa seus pertences à margem do Rio e mergulha para encantar o boto, que passará por uma eterna transformação. As cores vibrantes aumentam a magia do espaço pictórico. Bambuzais, bananeiras, bromélias, animais, flores e frutas; o cenário em que a artista, rebelde como sempre foi e contrária às convenções, subverte a lenda amazônica.

Oscar D'Ambrosio


Bernardo Medeiros O dia em que o Boto Rosa foi seduzido | Acrílica sobre tela A.C.I.D | 118,5 x 84cm


Frida Kahlo study in blue, de Carolina Piteira Uma obra de arte é o resultado de uma série de seleções que o criador visual realiza. Algumas podem ser mais conscientes do que outras, mas cada uma delas contribui de maneira significativa para o resultado final, que provém tanto de constantes exercícios de atenção do olhar a variadas referências como de pesquisas em que se busca a libertação da racionalidade. Desse jogo entre a segurança do conhecido e as incertezas do desconhecido, decorre uma fluência. Carolina Piteira se vale de um fundo predominante azul para estabelecer um diálogo com outras tonalidades da cor nos arranjos do cabelo, na vestimenta nas manchas do rosto da figura central. É atingida assim uma imagem em que a composição se dá pela mescla daquilo que se reconhece como sendo Frida Kahlo com uma pintura com o estilo da própria Carolina. Surge assim uma autônoma visão da célebre artista mexicana.

Oscar D'Ambrosio


Carolina Piteira Frida Kahlo study in blue | Acrílica e pastel de óleo sobre papel 52 x 40cm com moldura


The silence is full of answers. There are no limits.

Love Above, de Clara Afonso A fotografia de Clara Afonso traz uma frase de Frida Kahlo que aponta que nada é absoluto. Esse pensamento é muito forte no pensamento da artista mexicana, pois a sua existência foi de lutas contra diversos preconceitos em sua caminhada estética e afetiva, indo desde verbalizadas opiniões a mensagens culturais em suas escolhas de roupas e adornos. O grande ensinamento que a trajetória dela traz pode ser encontrado em uma concepção de mundo em que as mudanças, movimentos e renovações são constantes. As impermanências são a única contínua permanência em uma sequência de perdas, que incluem amores e a própria saúde. A única força eterna a acompanhá-la por todo o tempo foi o amor, embora ele também tenha caminhado em distintas direções ao longo da sua trajetória, na qual não se deve buscar coerência, mas fidelidade a uma jornada singular, plena e intensa. Oscar D'Ambrosio


Clara Afonso Love Above | fotografia impressa impressa em alta resolução sobre acrílico 5mm e montada em caixa de luz | peça única | 120 x 70cm


Como artista, o que mais me toca é a história que está por trás da consequência. Em todos os aspectos da minha arte tem estudo e pesquisa que transformo em sentimento e aí algo surge na minha tela. A dor e a possibilidade de sair dela é muito presente em minha personalidade. Frida Kahlo é perfeita para isso. Pintar o “estar Frida” mexeu muito comigo. Realmente me surpreendeu. Quando comecei a entrar na vida dela através dos pincéis, doeu. Meu corpo congelou e me deu medo, muito medo. Mas queria seguir. Sentir aquela mulher com todas as suas dores e coragem e, confesso, há de se ter coragem para estar em Frida. Uma mulher que expôs sua vida sem dó nem piedade, nem dos outros, nem de si mesma. Incrível. É muito maior e mais profundo do que imaginava. Como artista foi desafiador e modificador. Como mulher, um soco no estômago. Certamente essa experiência me deixará marcas.

Olhe para Mim, de Constância Grain Um dos aspectos mais importantes da obra de Frida Kahlo é a intensidade. Seu trabalho é o resultado de um constante percorrer os meandros de si mesma para dialogar plasticamente com o mundo. Transitar por esse percurso é um exercício que deixa marcas. Constância Grain realiza uma jornada em que disseca o interior da artista mexicana. Muito além das flores que recolhia em seu jardim para realizar os icônicos adornos de sua cabeça, estavam um corpo e uma mente caracterizados por um coração dilacerado, coluna partida, ossos fraturados e pulmões debilitados. Na imagem, o colibri da vida começa a se afastar perante a caveira da morte, mas a artista mexicana permaneceu em seu oficio, sugando a vida até o último instante que lhe foi possível, deixando um legado denso e transformador, construído com densas experiências universalizadas em imagens.

Oscar D'Ambrosio


Constância Grain Olhe para mim | Acrílica sobre tela | A.V. | 100 x 100cm


Exemplo de tenacidade, de luta e superação em todos os percalços ao longo de sua vida! Através desta obra homenageio, respeito e admiro às mulheres que não se abatem diante das adversidades da vida!

Faces de Frida, de Cristina Ravagnani Pensar em Frida Kahlo é trabalhar em um universo de dualidades. Cristina Ravagnani opta por construir uma imagem que a pintora mexicana aparece em seu esplendor, rodeada de elementos simbólicos que a caracterizaram ao longo da existência. As flores sobre a cabeça. Adorno que tem origem na cultura popular dos nativos locais, assim como a sua blusa, são colocadas junto à leveza do voo do colibri e aos pinceis. As espessas sobrancelhas e o os olhos pintados dão força à imagem, enquanto os brincos exuberantes dialogam com a cor do pássaro e a vivacidade do macaquinho. O fundo azul indica a elevação da artista, cujo rosto está rodeado por três de suas frases, com destaque a que despreza os pés, responsáveis pela sua dificuldade de mobilidade após um acidente de bonde na juventude, e valoriza as asas da imaginação da sua arte.

Oscar D'Ambrosio


Cristina Ravagnani Faces de Frida | Óleo sobre tela | A.C.I.D. | 140 x 100cm


Uma mulher que se tornou lenda e um símbolo de causas, pintava o que era a sua realidade. Um ícone enorme que espero fazer justiça a esta pessoa, iluminada pela sua força. É uma reflexão sobre a mortalidade e a relação humana com a natureza. Recupero aqui algumas imagens do visual mexicano trabalhando o surrealismo, com o qual me identifico muito e que, naturalmente, crio uma ponte com o trabalho de Frida.

Frida, de Gonçalo Mar Frida Kahlo se tornou um símbolo em várias dimensões, tanto da cultura mexicana quanto do feminino. Sua vida atribulada, seja na esfera médica como na afetiva, é a principal matéria-prima de uma obra visual que cresce em significados quanto mais se busca conhecer a trajetória vivencial e artística da pintora. Esta obra concretiza elos entre o universo que a artista vivenciou, a sua arte e a sua própria imagem, que se tornou um ícone mundial. A lírica do trabalho está em colocar elementos simbólicos conectados com o país no fundo da tela e no próprio rosto de Frida. Ela surge construída e imersa pelos diversos fatores que a acompanharam na sua trajetória. Evidencia-se assim como um criador visual é uma somatória de fatores biográficos, circunst anciais de sua época e da cultura em que viveu, dando ao resultado final uma atmosfera próxima ao sonho, algo que agradava aos artistas surrealistas.

Oscar D'Ambrosio


Gonçalo Mar Frida | acrílica sobre tela | A.V. | 150 x 100cm


O paradoxo entre a força e a vulnerabilidade de uma mulher tão icónica quanto Frida Kahlo me faz pensar o quanto nós, mulheres comuns e atuais muitas vezes vivemos sob esta ambiguidade de sentimentos para tornar nossos relacionamentos possíveis.

Strength, Vulnerability, Love, de Ianara Mota Pinto Poucos relacionamentos na história da arte são tão marcantes como o de Frida Kahlo e Diego Rivera. Ambos foram gigantes em suas manifestações estéticas e intensos em seus elos afetivos e sexuais. Em sua criação, Ianara Mota Pinto explora, como diz o título, aspectos de força, vulnerabilidade e amor dessa relação. O protagonismo visual recai sobre o coração, mas há também palavras escritas por Frida, mas nunca entregues ao artista mexicano. Existe um diálogo entre as tonalidades mais claras quentes, ligadas ao amor, à paixão e ao desejo; e as mais escuras e frias, que apontam para o ódio, o desprezo e o ciúme. A obra trata de estados d'alma intensos, em que ações e decisões ocorreram motivadas por um sentir em ex cesso, não pelo equilibrado pensar, em um jogo de sentimentos em que todos saíram feridos de alguma maneira.

Oscar D'Ambrosio


Ianara Mota Pinto Strength, Vulnerability, Love. | Mista (Acrílico, pastel e colagem) | Assinado na Lateral Direita | 120 x 120cm


O sofrimento não se encerra em si, ele é sempre uma transformação. Para nascermos, sentimos dor, nossa mãe sentiu as dores do parto e da gestação para se tornar mãe. A dor, faz com que atravessemos limites para transmutá-la, essa transmutação ao sofrimento traz crescimento e força interior. Assim como a luz e a sombra, a rosa e os espinhos, a pérola e a ostra. Um grão de areia entra dentro da ostra, ferindo-a. Como reação, a ostra produz o nácar, o nácar é a reação da ostra ao sofrimento. O nácar envolve o grão de areia, que é um corpo estranho à ostra, formando com o tempo uma pérola. A pérola é a transformação do sofrimento em vida, em amor. A pérola é a transmutação, a transgressão da ostra.

Pérola – A Transgressão da Dor, de Indiara Nicoletti A partir do conceito de que dor gera transformações, como o grão de areia que entra na ostra e a fere leva à produção do nácar, que envolve o corpo estranho dando origem à pérola, o trabalho de Indiara Nicoletti é desenvolvido pelas construções e desconstruções que a litografia permite. A imagem inicial é “Autorretrato com colar de espinhos e beija flor”, pintada por Frida em 1940, após o divórcio com Diego Rivera e o fim do relacionamento com o fotógrafo Nickolas Muray. Os espinhos sobre a pele, o sangue derramado e o beija-flor morto evidenciam dores vividas pelos afetos perdidos e pela saúde debilitada. A alegria do macaco e a personalidade misteriosa do gato apontam para distintas posturas perante os desafios da vida. As impressões, reimpressões e transferências realizadas na imagem e o olhar de Frida indicam a força necessária para realizar a nossa caminhada existencial.

Oscar D'Ambrosio


Indiara Nicoletti Pérola – A transgressão da dor | Assinada Lado direito da obra em baixo da mancha da gravura, seriada e com I.P.A (Impresso por artista) Impressa no papel Hahnemuhle 300 com moldura e vidro | 120 x 80,5cm


As polaridades de Frida estão separadas por suas mãos que, de maneira icônica, seguram um cigarro e uma rosa simbolizando a dual capacidade de nos destruirmos ou nos fortalecermos diante das adversidades da vida.

Polaridades, de Ju Barros Frida Kahlo concilia pulsões de masculino e feminino; e de vida e de morte. Ju Barros aponta forças e fragilidades de uma artista que se tornou um ícone de uma existência marcada por polaridades perante as suas dores físicas e as suas relações afetivas. À esquerda, ela está de cabeça para cima, com as flores nos cabelos que caracterizam a sua imagem pública, assim como a foice o martelo, símbolos do marxismo, ideologia que defendeu e aliou ao seu forte vínculo pessoal com a cultura popular mexicana. À direita, está o lado sombrio da criadora visual, caracterizado principalmente pelas dores do acidente que a levou a numerosas cirurgias na coluna e a nunca poder gerar um desejado bebê. As lágrimas que caem da rosa que se desintegra são símbolos de seu próprio esfacelamento. Suas mãos seguram o cigarro da morte prazerosa e a rosa da beleza efêmera, ícones de sua jornada.

Oscar D'Ambrosio


Ju Barros Polaridades | mosaico com pintura em vidro | A.C.I.D. | 80 x 80cm


Frida não se intitulou feminista em sua vida, mas isso não a impediu que sua importância no meio político e artístico fizesse com que ela se tornasse referência a sua luta feminista.

Reflexo de Frida, de Malvaccini A obra de Malvaccini tem a sua poética baseada na experiência de Frida com o espelho que pediu para ser colocado sobre a sua cama para que pudesse se retratar. Surge assim uma caverna que dá acesso aos lados mais sombrios da artista e um portal para a capacidade criativa dela e dos que mergulham em sua obra. De grandes dimensões, o trabalho lida com as ambiguidades da artista mexicana. As rosas que adornam o cabelo têm caules com espinhos que ferem; e o vermelho da paixão pela vida é o mesmo da dor. A atmosfera de tonalidades rebaixadas acentua esse sentimento agônico; e a diversidade de técnicas cria um espectro que vai da delicadeza da tinta a óleo nos braços e rosto ao aspecto mais rústico da parede. O conjunto acentua a percepção de uma icônica criadora imersa em seus demônios interiores, buscando em seu próprio espelho a energia para estabelecer uma densa pintura onírica.

Oscar D'Ambrosio


Malvaccini Reflexo de Frida | mista sobre lona | A.C.I.D. | 200 x 150cm


O que é padrões estéticos? Regras? Comportamentos? Impostas pela sociedade, na maneira de como se vestir, como se comportar, criando padrões onde todos acabam se parecendo uns com os outros... Mas Frida Kalho não se importava com tais padrões, criando seu próprio estilo, de se vestir e de seu comportamento que eram únicos.

Estilo próprio, de Marilene Zancchett O trabalho enfatiza a personalidade de Frida Kahlo como criadora de seus próprios padrões estéticos na pintura e na forma de vestir, tendo também um comportamento não-convencional nos mais variados aspectos de sua trajetória artística e existencial. Perante regras e comportamentos limitadores instaurados pela sociedade, ela se diferenciou, deixando seu nome na história e um legado com várias dimensões. Marilene Zancchetti destaca a imagem de diversas figuras de Frida em um fundo branco sem cenário, ressaltando as saias longas, os babados o amplo uso da cor, as flores que enfeitavam a cabeça e longos colares. O efeito das sombras cria a impressão que as imagens descolam da tela, parecendo que se está perante uma obra tridimensional. A visão das múltiplas Fridas em diverso s tamanhos auxilia a destacar a diversidade de suas roupas, que representa uma marcante visão de mundo.

Oscar D'Ambrosio


Marilene Zancchett Estilo Próprio | óleo espatulado sobre tela | A.C.I.D. | 80 x 80cm


Amor e arte.

Holy Frida Kahlo, de Utopia Frida Kahlo surge como uma santa com uma aureola amarela. A sua pose, contida e bem comportada, de certa forma, remete ao divino. A palavra 'Santo” provém de “Sancus”, antigo deus romano que não deixava que as pessoas esquecessem de cumprir promessas e juramentos. Daí veio o verbo “sancire”, ou seja, “consagrar”, “tratar com respeito”. Nas Igrejas Católicas e Ortodoxa, algumas pessoas são reconhecidas como santos por terem feito algo extraordinário ou pela sua relação próxima com o divino. Como os santos estão vivos no Céu, eles podem interceder ou orar junto a Deus pelos que estão na Terra. Embora a prática não seja uma doutrina oficial da Igreja, um santo pode ser padroeiro de causas e profissões ou s er invocado contra doenças ou catástrofes. Frida poderia então tornar-se “Holy Frida”, a “Santa Frida”, a proteger homens e mulheres artistas.

Oscar D'Ambrosio


Utopia Holy Frida Kahlo | mixed media, stencil, spray on cotton and acrilic paint | tela cotton and polyester | A.C.I.D. | 105 x 90cm


Cerâmicas, de Teresa Cortez Artista considerada uma das maiores ceramistas em atividade em Portugal, Teresa Cortez faz lembrar como a emoção é um elemento essencial na obra de arte. Seja um trabalho mais figurativo ou abstrato, tanto na cerâmica ou em outra técnica, conceber expressões visuais como maneiras de estabelecer um diálogo do mundo interno com o externo revela como cada criador tem um processo mental diferente, que gera distintas gamas de prazer intelectual e estético. As obras de Teresa Cortez trazem viscerais corações orgânicos literalmente entalados na garganta, macacos que encantavam Frida e uma estética que remonta ao ludismo de cartas de baralho. Frutas, brincos e adornos no cabelo são tratados de modo a passar ao observador a riqueza e a complexidade de Frida Kahlo em suas mais variadas facetas.

Oscar D'Ambrosio


Teresa Cortez Placa Grande cerâmica 50cm x 50cm

Teresa Cortez Placa Média cerâmica 54cm x 38cm

Teresa Cortez Placa Pequena cerâmica 15cm x 15cm


Quem controla o destino? Alguém escolhe como vai nascer e viver? Pessoas começam o jogo da vida recebendo cartas, sorte ou azar. Alguns as rejeitam, questionam origem, papel, gênero. Este trabalho é dedicado a alguém que soube jogar com sabedoria as cartas recebidas do destino, e lograr resultados, por mais crueldades estas lhe tenham reservado. Frida Kahlo transmutou sua dor em arte.

O Jogo do Espelho, de Vinicius de Paula A concepção visual de Vinicius de Paula trabalha com a vida como um jogo de baralho em que cada indivíduo recebe as suas cartas. Frida Kahlo trabalhou toda a ambiguidade possível das suas, lidando com suas origens europeias e mexicanas, a sua sexualidade e o seu papel de mulher em uma sociedade machista. Dores da existência se tornaram arte; e a intensidade de seus trabalhos resultou em imortalidade. Dentro de uma poética dos autorretratos que caracterizou a pintora, o espelho foi uma ferramenta bastante utilizada. Nesse contexto, Vinicius coloca a artista como uma dama de copas, intensa, de coração exposto; e, também; de espadas, como guerreira. A imagem apresenta mesclas entre o realismo do colete ortopédico e a delicadeza de adornos, texturas e grafismos étnicos. Os dois lados se articulam de modo a não haver superioridade de um sobre o outro, mas integração.

Oscar D'Ambrosio


Vinicius de Paula O Jogo do Espelho | Acrílica sobre cartão Kraft | A.V. | 122 x 87cm


Artista, Designer e Polímata busca trazer as novas tecnologias para o mundo da arte. Em seus trabalhos de realidade aumentada, conduz a arte e a tecnologia com o objetivo de transportar o usuário à experiência completa de suas obras. Afirma: “O muro entre o âmbito dos sentidos e o mundo das ideias, realidade abstrata, sugerida por Platão, é quebrado. A arte transcende; uma ponte entre o real e o virtual é criada, libertando do mundo que lhe é apresentado como real, proporcionando a imersão sensorial e o deglute completo da arte.”

Artista criador das interpretações em Realidade Aumentada de todas as obras da Exposição «Imperfeita».

Adriana Scartaris | Avenida | digital art

Conecte

https://artivive.com/ Em seguida aponte a câmera para a obra e poderá ver o trabalho de Realidade Aumentada com todos os seus detalhes.

Abra o QR code para ver um vídeo com parte da experiência em Realidade Aumentada criada pelo artista João Nunez para a obra «Avenida» de Adriana Scartaris


Oscar D’Ambrosio, conceituado crítico de arte brasileiro, assina as crônicas de todas as obras da Exposição «Imperfeita».

@oscardambrosioinsta oscar.dambrosio@fcmsantacasasp.edu.br

O que é arte? O que é arte? Muitos já se fizeram essa pergunta. A resposta não é simples. Há diversas teorias. O filósofo Platão (428 – 348 a.C.), por exemplo, dizia que a arte possuía a função mimética, ou seja, a arte apenas imitaria a realidade. Ele acreditava que havia basicamente dois mundos: o mundo das ideias e o mundo da existência. O mundo das ideias reuniria a essência de todas as coisas, um mundo de idealismo e perfeição. Lá estariam todas as pessoas e objetos perfeitos, tudo em um estado de pureza absoluta. O mundo da existência seria a nossa realidade concreta. É o mundo em que vivemos, com pessoas e objetos bonitos, mas nada é perfeito. O sonho dos homens seria exatamente sair do mundo da existência – que conhecem – e atingir o da essência – que desconhecem. A arte seria exatamente uma tentativa. Mas, para Platão, não ela não obtém resultado. Para realizar uma pintura ou o desenho de uma pessoa, o artista teria como ponto de partida quem conhece. Assim atingiria o que desconhece. A pessoa desenhada seria, portanto, uma imitação que tenta atingir a essência. Cada pintura somente afastaria o homem do ideal. Seriam cópias de segunda mão da realidade do mundo da existência. Sendo assim, a arte não teria sentido. Por isso, ao elaborar a sua República, projeto de um governo ideal, os artistas não teriam direito de participar, pois em nada contribuiriam para a busca do mundo das essências. Discípulo de Platão, Aristóteles (383 – 322 a. C.) discordava. Também achava que a arte era uma mimese, imitação do real, mas a valorizava o mundo real, o da existência. A arte teria a função de desmontar a realidade e remontá-la. Nesse procedimento, o ser humano poderia atingir a essência que Platão tanto almejava. Para Aristóteles, se o artista vai pintar um pássaro precisa estudar cuidadosamente todas as suas partes (desmontar) e organizá-las da maneira que achar melhor (remontar). Fazendo isso, poderia atingir a essência do pássaro. A regra seria captar o geral no particular. Ao examinar o pássaro, o artista tenta verificar o que há nele que o identifica aos outros. Se conseguir, terá encontrado a essência dos pássaros, não o de um em particular, mas de todos. Uma obra de arte deveria fazer o mesmo. Ao ver um quadro, portanto, estaríamos observando aspectos comuns e universais. Nesta publicação, temos a reunião de artistas contemporâneos de distintas tendências. Cada um deles toma a vida como ponto de partida e reflete sobre ela de maneira diferente. Parte do real, do que conhece e o transforma de diversas formas, sempre procurando entender melhor o mundo que nos cerca. Cada artista interpreta o mundo a seu jeito, questionando o que vê e obrigando o observador a refletir. A arte transforma a realidade – e há infinitas formas de fazer isso, permitindo o surgimento de diversas possibilidades de entender a vida. Não há certo ou errado, mas incontáveis maneiras de ver o que está ao nosso redor. A arte, portanto, é uma das formas de expressão mais completas do homem porque lida com a inteligência, a afetividade, a razão e o sentimento. Tudo se mistura, permitindo entender melhor a complexidade do ser humano e do mundo em que vivemos.

Oscar D'Ambrosio (@oscardambrosioinsta) é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.


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