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exposição comemorativa do nascimento

Galeria Municipal do Montijo 1


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exposição comemorativa do nascimento

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exposição comemorativa do nascimento

Galeria Municipal do Montijo 5


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Arte Antidestino: Artur Bual: 90 anos

No ano em que se assinalam 90 anos sobre o nascimento de Artur Bual, é com muita satisfação e orgulho que a Câmara Municipal de Montijo apresenta a Exposição “Arte Antidestino”, em justa homenagem ao trabalho e obra de um dos grandes artistas plásticos da contemporaneidade. Artur Bual é reconhecido nacional e internacionalmente como o percursor da pintura gestual e da abstração em Portugal, num trabalho sempre muito marcado pelo expressionismo mas também pela sua capacidade de quebrar regras, rasgar convenções, desafiar sistemas. É essa profundidade e complexidade que podemos encontrar em cada trabalho seu, mas também nas palavras que nos chegam, expressionistas elas também e sem dúvida reveladoras de uma personalidade com a coragem de desafiar o mundo, mas continuando por outro lado a ser um homem do seu mundo e do seu tempo. A ligação de Artur Bual ao Concelho de Montijo foi estabelecida pelo trabalho. Foi esse aspeto da vida comum que o levou, no final da década de 50, a ser contratado pela Junta de Colonização Interna, exercendo funções de desenhador e envolvendo-se em diversos projetos técnicos e artísticos no Colonato de Pegões, dos quais se destacam naturalmente as pinturas nas Igrejas das Faias e de Pegões. Artur Bual conseguiu conciliar a dedicação ao serviço público com a atividade de artista notável e homem de cultura, deixando-nos um legado artístico e cultural de valor incalculável, que perpetua a sua memória, que valoriza o nosso território e pelo qual estaremos eternamente gratos. A obra artística que integra o património cultural do nosso Concelho estabelece uma ligação muito estreita e emotiva entre Montijo e Artur Bual. Por tudo isto, acolhemos esta exposição na Galeria Municipal com a emoção de que Artur Bual merece o reconhecimento do Montijo, nesta sua “aventura da existência”, como o próprio em alguns momentos referiu, agradecendo-lhe o muito que fez pela arte e cultura em Montijo.

O Presidente da Câmara Municipal

Nuno Ribeiro Canta 7


O mítico reino

Há uma eternidade que procuro, Dentro e fora da minha jaula de vidro e betão, o reino que meus olhos não vêem nem alcanço com a minha mão!... Quem me dera ser livre para voar, ser folha arrastada pelo vento, ser nuvem, ser pensamento e poder procurar o mítico reino que não encontro há tanto tempo!... Do reino nada sei. Não o conheci. Eu apenas sei de mim E dos íntimos sentimentos que trago à flor da pele, que são doces ou me sabem a fel!... Sou descrença, sou mágoa e dor, sou poeta e sonhador nesta jaula de vidro e betão!... sou também a ternura e o amor que guardo dentro do meu coração!... Poeta Eduardo de Jesus Alves

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Fechei a porta do atelier e o último olhar, foi para a frase escrita na parede, “O AMOR É REDONDO“. Assim, era o meu pai entre o falar suave e o olhar no infinito, como se estivesse em frente a uma tela em branco, na sua luta interior... “Ele dizia que precisava de pintar como respirava”. Não vou escrever sobre a sua pintura e o grande gestualista que foi não só em Portugal, mas, como dizia o Professor Doutor Eduíno de Jesus, Professor de Literatura e Crítico de Arte “ BUAL, se não fosse Português, ou se o Chiado fosse um Bairro de Paris, Londres ou Nova Iorque, seria citado na História de Arte Mundial, ao lado de Hartung, Wols, Soulages, Tobey, Kline, Pollock entre outros, e, apesar de muito mais novo, certamente não em último lugar...“ Eu como filha, e os netos, queremos continuar o seu legado e a sua marca, deixando a sua pincelada correr pela Vida... Por fim, termino com uma frase de meu pai “A Terra ainda tem Amor para nos dar flores...“

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A Emotividade Dilacerante da Pintura Eurico Gonçalves | Pintor e Crítico de Arte

Nascido em 1926 em Lisboa, Artur Bual cedo se revelou um dos artistas mais dotados da sua geração, considerado um pioneiro da pintura gestual em Portugal, desde o início dos anos cinquenta. Efectivamente, Artur Bual foi um dos primeiros pintores gestuais abstractos portugueses, que participaram no I Salão de Arte Abstracta, em 1954 organizado pelo historiador e crítico de arte José-Augusto França, na Galeria de Março – Lisboa. Foi distinguido pelo Sindicato dos Críticos de Arte de França, na I Bienal de Paris em 1959, onde o então jovem artista português mereceu as seguintes palavras elogiosas de André Malraux: “La peinture de ce jeune portuguais (Bual) contient la charge et l’motion du silence eloquant de la poesie”. Foi Prémio Nacional de Pintura Amadeo Souza Cardoso, em 1959. Acontece que, para ele, a pintura não era coisa fácil, mas algo que o mantinha permanentemente inquieto e vivo. Nessa perspectiva, o artista não tinha receio de assumir os aspectos mais contraditórios de uma arte de expressão directa, aparentemente caótica, que tentava resolver, quantas vezes com mestria, em termos eminentemente plásticos. Ao longo de cerca de 50 anos de pintura, o seu gestualismo de vocação expressionista sempre se debateu entre a abstracção e a figuração, na apropriação de um espaço cenográfico, onde se inscreve o ritmo convulsivo do gesto do pintor. A sua paleta não abdica do claro-escuro do cromatismo tonal, que sugere profundidade e luminosidade, ao associar o negro a uma gama de tons sombrios de cinzentos e castanhos, de cuja obscuridade irrompem, por vezes, súbitos clarões de brancos, vermelhos sanguíneos, amarelos pálidos e azuis claros. Curiosamente, é no princípio e, mais deliberadamente no fim da sua carreira, que melhor se afirma a sua pintura gestual abstracta, expansiva e informal, onde sobressai o ritmo sincopado de pinceladas sobrepostas que, numa agitação frenética, aceita os escorridos e os salpicos de tinta, na expressão directa e total do gesto. Ao fazê-lo cria uma linguagem espontânea que, pela sua carga emotiva, exasperação dramática e forte

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conteúdo humano, se abeira do expressionismo abstracto. Oscilante entre o telúrico, o orgânico e o cósmico, o informalismo matérico de Bual converge, nos anos 50, com o dos espanhóis seus contemporâneos: Villacasas, Tarrats, Pijuan, Viola, Millares e Tapies. Na mesma cumplicidade contra a desoladora realidade social, marcada pela guerra, os seus trapos colados sobre tela exprimem essa memória trágica. No caso de Bual também transparece a memória sinistra do negro e do vermelho sanguíneo (cor de sangue de boi) de uma infância complexa, vivida em Torres Novas. O expressionismo abstracto, que se vinha anunciando desde os anos 50, atinge ampla e significativa dimensão nos anos 90, nomeadamente nas últimas telas, executadas em 1998, no ano que antecedeu a morte do pintor, em Janeiro de 1999. Essas últimas telas são o testemunho gritante de uma existência atormentada, sedenta de infinito. Numa visão retrospectiva, a figuração e a abstracção alternam e, frequentemente, se confundem, na obra de Artur Bual. É nos retratos de conhecidos Escritores Portugueses, como Bocage, Camilo Castelo Branco, Aquilino Ribeiro (1963), Antero de Quental (1983), Fernando Pessoa (1988), Florbela Espanca (1996), Natália Correia, Sofia e ouros, que o talento do pintor vai ao encontro do gesto dominante.

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Na descendência de Columbano e outros Mestres Naturalistas Portugueses que admira, Artur Bual tenta conciliar a concepção tradicional do claro-escuro com o seu gestualismo impulsivo, conseguindo uma vigorosa expressão dramática. Por vezes, o rosto humano se transfigura em máscara fantasmagórica, designadamente nos retratos imaginários dos poetas: Teixeira de Pascoais (1987), Camões (1990) e Mário Cesarinny (1990). Nestas e noutras máscaras dilaceradas pela dor e tragédia, perpassa alguma evocação goyesca, na sua fase negra.

Estudo do Retrato do Aquilino Ribeiro, Carvão sobre papel 43 x 30 cm, Assinado e datado Bual/64

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AcrĂ­lico s/ tela, 73 x 50 cm Assinado e datado Bual/91

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De temperamento expressionista, o gesto do pintor tende a romper com esquemas de representação convencional, quer nas cabeças de “Cristo”, quer nas “Crucificações”, que sintetizam a paixão e angústia existencial do homem contemporâneo. Sobre a tela branca, colocada verticalmente no cavalete, o gesto largo e decidido do pintor traça a pincel e tinta negra o esquema figurativo de uma “Crucificação”, integrada na estrutura da composição. Ao contraste negro-branco inicial, acrescenta-lhe o vermelho sanguíneo, o azul, o ocre e uma gama de cinzentos. O espaço cenográfico enquadra-se no rectângulo vertical da tela. O modelo interiorizado é um referente que o pintor trabalha obstinadamente. Enquanto pinta, o pintor remete-se ao silêncio, inteiramente absorvido pelo acto de pintar. Na ânsia de preencher totalmente o suporte, largas manchas de cor tonal alastram e alteram parcialmente o esquema figurativo inicial, que o pintor posteriormente recupera e realça com negros e brancos. Vivendo por dentro a imagem que emerge da aparente confusão de pinceladas sobrepostas, Bual não perde nunca a percepção da pintura. Sublinhe-se a sinceridade e a convicção com que o pintor ataca a tela, onde se projecta totalmente. O desenho revela a gramática formal do artista, desde a figuração estilizada e distorcida até à abstracção caligráfica. Na representação esquemática do nú feminino, em atitude de pose erótico-sensual, há algo de irreverente e provocatório. Noutras obras, a relação com o corpo humano está na origem de um biomorfismo orgânico, abstractizante. O antropomorfismo é, aliás, uma constante na obra de Artur Bual, mesmo quando reduzido a apontamentos sintéticos ou elementares sinais gráficos. No traçado gestual de cavalos em movimento, a figura tende a reduzir-se a uma ágil caligrafia. Muitos dos seus desenhos e algumas pinturas abstractas mais depuradas evidenciam o sentido caligráfico de uma linguagem, que começa por se exercer em função da nudez branca do suporte, antes de ser o preenchimento total da superfície.

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Em Portugal, nomeadamente desde o 25 de Abril de 1974, Dia da Liberdade, Artur Bual pintou ao vivo telas de grandes dimensões, nos Encontros Internacionais de Arte, nas Bienais de Cerveira e em outros locais públicos. Quer aí, quer no seu atelier-cave da Amadora, aberto ao convívio de amigos e admiradores, muitos tiveram o privilégio de ver como o pintor se dava de corpo e alma à articulação do seu gesto estrutural, que se apodera do espaço, sem deixar de sentir o élan vital de toda a composição. Jamais desvinculada da emoção que a motiva, a sua pintura, tão incómoda como profundamente inquieta e ávida de mil sensações, não abdica de dimensão humana, pelo que se torna dramática, exasperante e, ao mesmo tempo, sensual e fraterna. Ao assumir o seu ofício de pintor como um ritual de todos os dias, o artista pintava quase incessantemente. Pintor por instinto, Artur Bual atinge a maturidade do seu próprio estilo, consequentemente de uma longa e persistente prática. Pela profundidade humana e verdade intrínseca que exprime, a sua pintura não nos deixa indiferentes, antes nos torna cúmplices do drama em que se envolve e nos envolve, através da problemática estética que suscita. Em algumas obras mais audaciosas e menos conhecidas, a pintura integra a colagem de materiais pobres, formando relevos, que exaltam a aspereza da matéria e a violência agressiva da mancha. Sobre não importa qual suporte (tela, madeira, cartão, papel), tudo lhe serve de pretexto para intervir com a sua marca pessoal. A pintura de Bual não se cinge à mera explosão catártica do instinto, é muito mais do que isso, persiste em algo que a transcende. Ao absorver a complexidade do drama humano, há uma angústia latente em tudo o que projecta no papel ou na tela em plena concordância com a própria vida.

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Aguarela e Tinta da China sobre papel, 59 x 42 cm Assinado e datado Bual/87

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Individuais e Colectivas 1952 – Galeria do S.N.I. – Exposição de pintura ”Um Americano em Paris” – Lisboa 1954 – Galeria de Março – I Salão de Arte Abstracta – Lisboa 1956 – Galeria Pórtico – 17 Artistas Contemporâneos – Lisboa 1957 – Sociedade Nacional de Belas Artes – I Salão de Artes Plásticas – Lisboa 1957 – Convento dos Capuchos – II Exposição de Artes Plásticas – Almada 1958 – Faculdade de Ciências – Retrospectiva da Pintura não Figurativa em Portugal – Lisboa 1958 – Sociedade Nacional de Belas Artes – I Salão de Arte Moderna – Lisboa 1958 – Junta de Turismo da Costa do Sol – III Salão de Primavera de Pintura e Escultura – Estoril

Jornal de Notícias | 1971

1959 – I Bienal de Paris – França 1959 – Museu de Arte Moderna – V Bienal de S. Paulo – Brasil 1959 – Galeria do S.N.I. – II Salão dos Novíssimos – Lisboa 1959 – Galerie Charpentier – École de Paris – Paris – França 1959 – Museu de S. Francisco da Califórnia – Exposição de Arte Moderna – S. Francisco da Califórnia – U.S.A. 1959 – Bienal Internacional Bianco e Nero – Lugano – Itália Correio da Manhã | 1983

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1960 – Museu Municipal de Amarante – Amarante 1961 – Museu de Arte Moderna – VI Bienal de S. Paulo – Brasil 1962 – Exposição Itinerante da Colecção da Fundação Calouste Gulbenkian – Açores 1962 – Galeria Alvarez – Exposição Itinerante de Arte Moderna – Porto 1963 – Biblioteca-Museu de Amarante – Artur Bual e Fausto Boavida – Amarante 1963 – Sociedade Nacional de Belas Artes – 59.º Salão da Primavera – Pintura – Aguarela – Desenho – Gravura e Escultura – Lisboa 1964 – Junta de Turismo da Costa do Sol – II Salão de Arte Moderna – Estoril 1964 – Sociedade Nacional de Belas Artes – Lisboa

Diário de Notícias | 1966

1965 – Galeria do S.N.I – Exposição dos Artistas Premiados nos Salões dos Novíssimos – Lisboa 1965 – Museu de Arte Moderna – VIII Bienal de S. Paulo – Brasil 1966 – I concurso Nacional de Pintura da BP – Lisboa 1966 – Galeria de Arte do Diário de Notícias – Lisboa 1966 – Galeria de Arte de Schiedam – Roterdão – Holanda 1967 – Palácio Bettencourt – 10 Trabalho das Fases Abstracta – Gestualista e Neo-Figurativa – Terceira – Açores O Dia | 1980

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1967 – Fundação Calouste Gulbenkian – 60 anos de Arte Portuguesa em Bruxelas – Bélgica 1968 – 5 Pintores Portugueses na Sala de Santa Catalina del Ateneo de Madrid – Madrid – Espanha

1983 – Galeria S. Francisco – Exposição de Originais Portugueses – Lisboa

1969 – Museu de Arte Moderna – 11 Artistas Portugueses – Rio de Janeiro – Brasil

1983 – Museu de Setúbal – Da Arte á Escola/ Da Escola á Arte – Setúbal

1969 – Palácio Foz – 5 Artistas Portugueses – Lisboa

1983 – Museu Municipal Armindo Teixeira Lopes – Mirandela

1969 – II Bienal Internacional del Deporte en las Bellas Artes – Madrid – Espanha 1969 – Museu de Arte Moderna de Belo Horizonte – I Exposição Circulante – Brasil 1971 – Galeria de Arte da Secretaria de Turismo e Fomento do Município de S. Paulo – São Paulo – Brasil 1974 – Galeria S. Francisco – Diálogo 74 – Exposição Colectiva de Pintura – Lisboa 1975 – Palácio Foz – Exposição de 100 obras do Património do M.C.S. – Lisboa 1977 – IV Encontros Internacionais de Arte em Portugal – Caldas da Rainha 1978 – I Bienal de Arte de Vila Nova de Cerveira – Vila Nova de Cerveira 1980 – II Bienal de Arte de Vila Nova de Cerveira – Vila Nova de Cerveira 1981 – Galeria Tempo – Diálogo Corporal – Grupo Alvarez – Lisboa 1981 – Galeria Neupergana – 15 Pintores Portugueses – Grupo Alvarez – Torres Novas

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1982 – Museu Nacional de Arte Moderna – S.N.B.A. – I Exposição Nacional de Arte Moderna – Porto

1984 – Galerie de la Maison Portugaise – Artur Bual e Miguel Barbosa – Marseille – França 1985 – Galeria Almada Negreiros – M. da Cultura – Homenagem dos Artistas Portugueses a Almada Negreiros – Lisboa 1988 – Galeria de Arte do Casino Estoril – Fernando Namora 50 anos de vida literária – Estoril 1988 – Biblioteca Nacional de Praga – Exposição de Pintura Portuguesa – Praga – Checoslováquia 1990 – Exposição no Ayuntamento de Cordoba – Espanha 1991 – Exposição na Galeria Magellan – Paris – França 1991 – Galeria de Arte do Casino Estoril – XII Salão de Outono – Estoril 1992 – Exposição no Leal Senado de Macau integrado nas comemorações do Dia de Portugal e das Comunidades – Macau 1992 – VII – Bienal de Arte de Vila Nova de Cerveira – Vila Nova de Cerveira


1993 – Galeria S. Francisco – Lisboa

Citado em:

1993 – II Simpósio Internacional de Escultura em Ferro na Amadora – Amadora

+ Pintura e Pintores etc. – Fernando Guedes

1994 – Fábrica da Cultura – Retrospectiva antológica da obra de Artur Bual – Amadora 1995 – Museu Municipal Dr. Santos Rocha – Figueira da Foz 1996 – Cordoaria Nacional – I Salão de Prestígio – THE BEST – Lisboa 1996 – Exposition “ Le rêve et L’exotisme” – Culture Brésiliens et Portugais – Avignom – França 1997 – Galeria MAC – Arte gráfica de Bual – Lisboa 1999 – Galeria Municipal Artur Bual –“ Sopros de Ser” – Amadora

+ Dicionário da Pintura Universal – Estúdios Cor +Abstract Painting – Harryn, Abrarns, Ins., Publishers, New York + Art – Larousse + Koogan Larousse, Selecções + Dicionário dos Pintores e Escultores Portugueses – Fernando Pamplona + Arte Moderna e Contemporânea Portuguesa – 1900 a 1979 – Dictionaire Grolier +Portuguese 20th Century Artist – Londres + História de Arte Contemporânea por José Augusto França

Estação da CP na Amadora

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Artur Bual, Funcionário da Junta de Colonização Interna e o seu Legado Artístico no Concelho de Montijo Margarida Calado e José Pedro Regatão

Artur Bual (1926-1999) tem o seu nome ligado ao Montijo embora as obras que realizou neste concelho não sejam muito conhecidas, quer por historiadores de arte quer pelo público em geral, por um lado porque se trata, na maioria, de pinturas de carácter religioso e por outro lado, porque ainda se encontram nos locais de origem, em pequenas igrejas do concelho. Artur Mendes de Sousa Bual nasceu em Lisboa a 16 de Agosto de 1926, viveu a sua infância em Torres Novas, num ambiente rural que lhe proporcionou um contacto directo com a natureza. Descobre a vocação artística ainda muito jovem e, aos 14 anos, ingressa na Escola António Arroio onde permanece até 1946; dessa época ficou um grupo fiel de amigos com quem viria a confraternizar e partilhar a sua carreira ao longo da sua vida1. Um ano após a conclusão do curso, iniciou a actividade pictórica com a participação nas Exposições Gerais de Artes Plásticas da S.N.B.A., mas a afirmação do seu trabalho deu-se em 1954 com a participação no 1.º Salão de Arte Abstracta na Galeria Março, organizado por José Augusto-França, ao lado de Lanhas, Vespeira, Joaquim Rodrigo, René Bértholo, entre outros. Inicialmente, a sua pintura não foi fácil de catalogar, mas rapidamente ganhou o interesse da crítica que o considerou um dos pioneiros da pintura abstrata gestualista. Ao longo da década 50, participa em diversas exposições relevantes no panorama nacional; em 1958 integra a 1.ª Retrospectiva da Pintura Não-Figurativa Portuguesa na Faculdade de Ciências de Lisboa e no I Salão Moderno da S.N.B.A, alcançando grande “sucesso com o quadro intitulado ‘Fuga’”2. Na mesma década ganha o Prémio Nacional Amadeu de Souza Cardoso (1954), o reconhecimento do Sindicato dos Críticos de Arte da I Bienal de Paris e o prémio no 1.º Salão dos Novíssimos do SNI (1959), conquistando uma posição de relevo no panorama artístico nacional.

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LISBOA. Câmara Municipal/ Comissão Municipal de Toponímia – Artur Bual. Lisboa: C.M.L., 2007. P. 5. Rui Mário Gonçalves – 100 pintores portugueses do século XX. 1986. P. 142.

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Retrato de Guilhermina Bual, Ă“leo sobre madeira, 26

200 x 97 cm, Assinado e datado Bual/63


Ainda no mesmo período, obtém uma bolsa atribuída pela Fundação Calouste Gulbenkian para estudar em Paris durante três meses, onde visita museus e galerias, e contacta pela primeira com a obra dos Expressionistas Alemães. Nos anos 50, Artur Bual fixa residência na Amadora e instala o seu ateliê na mesma cidade, mantendo as portas sempre abertas para receber os amigos e conhecidos, com quem se gostava de rodear3. Durante sensivelmente três décadas trabalhou para a Junta de Colonização Interna, do que adiante falaremos, tendo sido requisitado pelo S.N.I., por sugestão de Carlos Botelho, para emitir pareceres e organizar exposições. Após o 25 de Abril de 1974, Bual pintou telas de grande formato em vários locais públicos, no âmbito de encontros, festas e bienais de arte. Ainda realizou projectos de cenografia para o Teatro Experimental de Cascais, foi ilustrador de revistas, ceramista e escultor. Nos anos 90 participou em Simpósios de Escultura na Amadora e, na mesma cidade, recebe a sua primeira exposição antológica em 1994 na Fábrica da Cultura. Faleceu aos 72 anos na Amadora, a 10 de Janeiro de 1999; como reconhecimento pelo seu trabalho, a autarquia atribuiu o seu nome à Galeria Municipal. A razão da presença de várias obras de Bual no concelho do Montijo justifica-se porque além da actividade como artista plástico desde os anos 50, Bual foi funcionário da Junta de Colonização Interna. Esta foi criada em 1936 para colonizar os terrenos e fomentar a actividade agrícola portuguesa, por meio da implementação de um programa de modernização da estrutura agrária. Uma das principais iniciativas deste organismo passou pela criação de colónias agrícolas, onde se fixaram grupos “de pequenos proprietários” que desenvolveram “actividades agrícolas e pecuárias”4. Para apoiar os colonos foram destacados diversos

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LISBOA. Câmara Municipal/ Comissão Municipal de Toponímia – Op. Cit., P. 7. Sara Alexandra M. P. C. Pereira – A Colonização Interna durante o Estado Novo: o exemplo da Colónia Agrícola de Pegões. Lisboa: Faculdade de Letras, 2004. P. 42.

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profissionais (engenheiros, agrónomos, veterinários, professores, médicos, etc.), cuja missão era oferecer todas as condições necessárias para garantir o correto funcionamento dos casais agrícolas. Segundo Sara Pereira, a colónia de Pegões foi aquela que apresentou “maiores dimensões” e obteve melhores resultados, sendo considerada na época uma “colónia modelo”5. Artur Bual foi contratado para trabalhar na Junta de Colonização Interna como desenhador, sendo incumbido de realizar diversos projectos técnicos e artísticos, entre os quais as pinturas para as Igrejas de Faias e Pegões, e para o Centro Nacional de Formação Técnica de Gil Vaz, em Canha. A maior parte destes trabalhos foram encorajados pelo Engenheiro Vasco Leónidas, Presidente da Junta de Colonização Interna durante vários anos, que segundo consta admirava as qualidades humanas e artísticas do pintor6. À luz dessa amizade, Artur Bual realizou um conjunto de obras públicas no domínio da pintura e, pela primeira vez, estreou-se no campo tridimensional com a execução de uma escultura monumental. JPR É significativo que nos anos em que realizou as obras no concelho do Montijo, ou seja, o final dos anos 50 e a década de 60, Bual destacava-se no panorama artístico nacional tendo sido bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, em 1959, como dissemos, e nesse mesmo ano sendo premiado pelo SNI com o prémio «Souza-Cardoso» e pelo Sindicato dos Críticos de Arte de França. E é curioso que seja sobretudo mencionado nas histórias da arte nacionais como um artista ligado à abstracção e ao expressionismo gestual e tenha trabalhado para um poder político que via com desconfiança as «aventuras do abstracto» como lhe tinha chamado António Ferro. No tempo em que Bual iniciou a sua actividade pictórica no final dos anos 40, época marcada pela saída de Ferro do SNI e pelo fim dos Salões de Arte Moderna,

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Idem, Ibidem, p. 43 e 63. Entrevista com o Sr. António Pinheiro. Em rigor terá sido a mulher do Engenheiro Vasco Leónidas a propor a contratação de Artur Bual.

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em 1951, era cada vez maior o fosso que separava os artistas do regime dos que se aventuravam em práticas mais experimentais ligadas à abstracção, ao surrealismo ou de envolvência política como os neo-realistas. De facto a contribuição de Bual deve-se por um lado aos laços de amizade que o ligavam ao engenheiro agrónomo Vasco Leónidas, por outro ao facto de haver da parte do regime um esforço por atrair artistas modernos, o que também explicará o referido prémio que Bual recebeu em 1959, no I Salão dos Novíssimos organizado pelo SNI. Como afirma José-Augusto França7 foi em 1958, no I Salão Moderno da SNBA, que Artur Bual apresentou uma pintura monocromática, «Fuga», especialmente notada pela sua desenvoltura expressionista, de teor gestual. Obra de poderosa cenografia, mesmo que a sua originalidade pudesse ter sido contestada, abriu à pintura nacional uma via de difícil circulação… Segundo Pinharanda8, Artur Bual encaminha, a partir de 1958, a sua pintura para uma nova dimensão (um gestualismo controlado nos seus meios e efeitos). Mas como também disse José-Augusto França9, mais tarde … o seu expressionismo lírico … fixou-se melodramaticamente numa figuração assaz fácil. Rui Mário Gonçalves10 também considera que é no final dos anos 50 que a personalidade artística de Bual se encontra na sua melhor fase. Depois, segundo o mesmo crítico, aproveita equívocos do neofigurativismo para que o seu claro-escuro vá ao encontro do conservadorismo do gosto dominante.

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José-Augusto França – A Arte em Portugal no século XX. 3ªed. 1991. P. 426 João Lima Pinharanda – O declínio das vanguardas: dos anos 50 ao fim do milénio. In História da Arte Portuguesa. Vol. III. P. 601 9 José-Augusto França – A Arte em Portugal no século XX. 3ª ed. 1991. P. 427 10 Rui Mário Gonçalves – 100 Pintores Portugueses do Século XX. P. 142 8

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As Faias (antigo Vale de Cebolas) constituem o primeiro núcleo de povoamento, originário do antigo Colonato Agrícola de Pegões, criado a partir dos anos 40. Como era preocupação do Estado Novo incentivar a prática do catolicismo, as igrejas eram uma componente absolutamente necessária nestes núcleos populacionais, como locais de culto e sociabilidade. Assim a igreja das Faias dispõe de um amplo terreiro e é um edifício de betão coberto por telhado de duas águas tendo uma espécie de alpendre aberto lateralmente. É obra do arquitecto Eugénio Rodrigues responsável pelo colonato. No seu interior existe uma pintura a fresco de Artur Bual, na qual se lê: O Presidente da Junta/de Colonização Interna/ o engenheiro agrónomo / Vasco Leónidas / promoveu que se pintasse / este altar, sendo o / pintor Artur Bual/ o seu autor// Pintado em 12 dias /aos, 18, Agosto 1965. Esta legenda tem, de facto, a particularidade de confirmar quem foi o elemento da Junta de Colonização Interna que decidiu usar os talentos pictóricos do seu funcionário Artur Bual. O preciosismo do tempo que demorou a execução da pintura talvez seja uma justificação de que não se estava a afastar por muito tempo o funcionário do seu trabalho mais burocrático. Em nossa opinião, esta não será a melhor pintura de Bual, mas de qualquer forma merece a nossa atenção. Toda a parede de fundo do altar é pintada num tom escuro, verde, com pinceladas irregulares, e nesse fundo inscreve-se uma cruz da qual apenas são visíveis os três braços superiores. Ao centro, sobre essa cruz, desenha-se uma mendorla, contornada num amarelo dourado, na qual o eixo central é marcado por uma figura esguia da Virgem, de branco, com as mãos postas e a cabeça cercada por uma auréola luminosa, acima da qual ainda se vê um sol, menos luminoso que a Virgem. É esta figura, longe do expressionismo habitual no pintor que nos parece mais estereotipada. Na parte inferior, a mendorla prolonga-se para receber uma representação de um Cristo crucificado num painel quadrangular delimitado pelo mesmo amarelo dourado. Este apresenta-se como um Cristo sofredor e tanto a cruz como a figura são acompanhadas de escorrências de tinta negra e vermelha na parte inferior, que se integram claramente no pendor expressionista de outras obras religiosas do pintor.

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Fresco 550 x 240 cm Assinado e datado Bual/65 Igreja das Faias - Sto. Isidro de PegĂľes 31


Fresco (Pormenor) Igreja das Faias - Sto. Isidro de PegĂľes

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Igreja das Faias, Santo Isidro de Pegões

Diário de Notícias | 1967

Igreja das Faias, Santo Isidro de Pegões - interior

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Originalmente existiram três pinturas de Bual no Centro Nacional de Formação Técnica Gil Vaz, aqui recolhidas aquando da inauguração das instalações do Centro, em 1987. A primeira, e sem dúvida a mais significativa, encontra-se exposta no átrio do Centro. Pintura de grandes dimensões (cerca de 400 cm por 300 cm) representa um Cristo crucificado (assinado: “bual”). Dentro das instalações do estabelecimento, no refeitório, acha-se uma Última Ceia (“bual” 67), de cerca de 300 cm por 150 cm. Num dos gabinetes do centro achase ainda uma outra pintura do mesmo artista, assinada e datada, intitulada “apontamento/ bual64” 11. Destas três pinturas apenas uma, a primeira, se encontra ainda no Montijo, exposta na zona de recepção da Galeria Municipal; as outras duas terão sido trazidas para Lisboa, pelo Ministério da Agricultura12, quando do encerramento do Centro Gil Vaz, sendo a «Última Ceia» parcialmente reproduzida na obra de Almeida referida13 mostrando um Cristo de túnica vermelha, rosto alongado evocativo de uma espiritualidade à maneira de Greco, abençoando o cálice e apenas sendo representados seis apóstolos, à esquerda de Cristo. No artigo de Francisco Correia14, a Ceia está totalmente reproduzida, mostrando, do lado oposto, os outros seis apóstolos, desenhados de forma quase esquemática e o fundo de tom azul-escuro mas intenso. Será uma obra figurativa mas de cariz expressionista, como é característico do pintor.

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Fernando-António Almeida, Op. Cit., P. 103 Informação constante da obra Património Artístico-cultural do Montijo – II. Câmara Municipal do Montijo e Edições Colibri, 2012, p. 152, nota 73 13 Fernando- António Almeida, Op. Cit., P. 103 14 Francisco Correia - A arte de Artur Bual no Concelho do Montijo. Montijo: Revista Municipal (Dez. 2004). P. 40 12

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Acrílico s/ madeira 260 x 122 cm Assinado e datado Bual/67 Centro Formação Profissional Gil Vaz - Sto. Isidro de Pegões

Cristo Crucificado, [1966] Acrílico s/ madeira, 3420 x 2580 mm

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O Cristo Crucificado que está exposto atualmente na Galeria Municipal é uma obra de certo impacto, combinando o sentido dramático acentuado pelo claro-escuro (iluminação da figura de Cristo em contraste com o fundo negro) com a tendência expressionista abstracta que caracteriza toda a envolvência da figura. Do lado esquerdo sugere-se um tronco de árvore com um galho e do lado oposto uma série de arabescos diluídos no fundo. Sobre os Cristos de Bual, escreveu Eurico Gonçalves: De temperamento expressionista, o gesto do pintor tende a romper com esquemas de representação convencional, quer nas cabeças de “Cristo” quer nas “Crucificações” que sintetizam a paixão e a angústia existencial do homem contemporâneo. Sobre a tela branca, colocada verticalmente no cavalete, o gesto largo e decidido do pintor traça a pincel e tinta negra o esquema figurativo de uma “Crucificação”, integrada na estrutura geral da composição. Ao contraste negro – branco inicial, acrescenta-lhe o vermelho sanguíneo, o azul, o ocre e uma gama de cinzentos. O espaço cenográfico enquadra-se no rectângulo vertical da tela. O modelo interiorizado é um referente que o pintor trabalha obstinadamente.15 Aliás é o próprio Bual que comenta a propósito dos seus Cristos: Cristos ou Crucificações são símbolos de humanidade e despojamento, de torturas e amor, na aventura da existência. Cristo é talvez um homem transfigurado. Pinto-o no sentido de ter sido, quanto a mim, um dos grandes poetas… Alguém que deu e ainda dá! Estou sempre predisposto a pintá-lo. Quem sabe se o pinto como quem faz um auto-retrato?16

15 Eurico Gonçalves in Artur Bual. Exposição Retrospectiva. Perve Galeria & Casa da Liberdade Mário Cesariny, Novembro de 2015. www.pervegaleria.eu/home/images/storia (acedido em 28/08/2016) 16 Texto citado por Egídio Álvaro – Arte Anti – Destino. In Bual. Extractos da Obra. Art Extracts. Caxias: Valente Editores, 2005, p. 25

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apontamento/bual64

Quanto à terceira obra, pertencente ao Centro Gil Vaz, está igualmente reproduzida no artigo de Francisco Correia17 e representa uma paisagem em que a linha do horizonte é baixa, sugerindo a terra através de cores terrosas avermelhadas e sendo a parte superior ocupada pelo céu azul profundo sobre o qual se destaca uma mancha de nuvens brancas e amarelas que diluem a linha do horizonte. É uma paisagem quase abstracta, evocativa do romantismo de Turner e Constable.

17

Francisco Correia, Ibidem. P. 40

37


Na igreja paroquial de Nossa Senhora de Fátima, em Pegões, existe um tríptico que ocupa o altar-mor da igreja. Trata-se de uma obra de carácter abstracto, em tonalidades em que domina o azul pálido, evocativo do céu, e tonalidades de branco e amarelo que evocam a luz celestial, tendo no painel central aplicada uma pequena cruz em ferro que se destaca em volumetria como em cor. Apesar da simplicidade da solução é, a nosso ver, uma das melhores obras que Bual realizou no concelho do Montijo, a nível de arte religiosa, aqui aparecendo liberto de coacções programáticas. De um modo geral, constata-se que há uma irregularidade na produção pictórica de Bual que umas vezes consegue… atingir uma tensão dramática [no seu] claro-escuro e uma violência da forma no gestualismo, integrando-se assim na tendência expressionista, enquanto noutras obras prefere a espectacularidade imediata, em quadros de grandes dimensões, acumulativos no traçado e teatrais na figuração 18. MC Na verdade o nome de Artur Bual que, além do concelho do Montijo, realizou outras obras de carácter religioso na zona do Alentejo e do Ribatejo, não aparece ligado ao chamado Movimento de Renovação da Arte Religiosa, fundado em 1952 e que a partir de 1965 começava a perder força, embora fosse publicado irregularmente um Boletim até 1967 e a sua obra mais representativa, a igreja do Sagrado Coração em Lisboa seja de 1970. Movimento liderado por arquitectos, a ele se associaram artistas plásticos e mesmo historiadores de arte, e entre os primeiros conta-se precisamente Cargaleiro, que era amigo de Bual. Ora o conjunto de obras religiosas que o artista realizou só no concelho do Montijo revela de facto uma abordagem da espiritualidade cristã completamente liberta de ligações ao passado ou à estética do Estado Novo.

18

38

Rui Mário Gonçalves – 100 Pintores Portugueses do século XX. P. 142


Tríptico, Altar-mor da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, Pegões

Igreja de Nossa Senhora de Fátima, Pegões

Igreja de Nossa Senhora de Fátima, Pegões - interior 39


Para além da assistência técnica, na colónia de Pegões existia uma cooperativa de máquinas agrícolas, vocacionada para apoiar a actividade dos colonos, na qual se depositaram ao longo dos anos antigas máquinas inutilizadas e peças soltas. Foi a partir desse aglomerado de sucata que Artur Bual propôs a Vasco Leónidas a execução de uma escultura para a entrada do Parque de Material Agrícola de Pegões. Para o ajudar nessa tarefa, o pintor solicitou o apoio técnico do Sr. António Pinheiro, experiente soldador. É necessário referir, antes de mais, que a escultura por soldagem directa é uma das inovações técnicas da arte do século XX, ela permitiu criar “esculturas estáveis e permanentes” sem recorrer ao processo de fundição, proporcionando aos artistas maior liberdade criativa19. Também designada por objets trouvés ou junk sculpture, a escultura em sucata teve a sua primeira aparição pela mão de Pablo Picasso e Georges Braque, através das suas “colagens e construções cubistas” realizadas a partir de objectos do quotidiano20. Esta técnica teve ainda continuidade nos famosos ready-mades da autoria de Marcel Duchamp e no trabalho dos Novos Realistas, cujas esculturas (ou combinações) foram construídas a partir detritos industriais oriundos da sociedade de consumo. Em termos internacionais o seu trabalho enquadra-se neste movimento que reivindica um novo entendimento do papel da arte, através da libertação da escultura dos pressupostos clássicos, por meio da apropriação e combinação de objetos banais e utilitários. Este ato revolucionário, mas também de natureza experimental, não só revolucionou o modo de pensar a escultura como influenciou os movimentos posteriores que traçaram os destinos da arte do século XX e XXI. Em 1966, perante os tímidos passos da escultura abstrata em Portugal, Artur Bual constrói uma notável escultura abstracta, de grandes dimensões, articulando antigos fragmentos de máquinas agrícolas descobertos no local. Peças provenientes de tractores,

19

Rosalind Krauss – Caminhos da Escultura Moderna. P. 159 Robert Atkins – Art speak: a guide to contemporary ideas, movements and buzzwords, 1945 to the present. 2.ª ed. P. 106.

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velhas alfaias, charruas, grades rotativas, cultivadores, brocas, parafusos entre outros acessórios mecânicos, foram combinados e soldados entre si para formar uma composição escultórica de rara originalidade. Assente sobre uma base em cimento, o corpo da escultura é constituído por um intricado de formas e hastes metálicas que evoluem verticalmente, a partir de um volume com maior densidade para uma estrutura mais leve e aberta. No centro da composição observa-se um volume oco obtido pela conjugação de uma espécie de carregadores agrícolas, à sua volta emergem com grande expressividade, parafusos, correntes e tubos. Na parte frontal e posterior da escultura, sobressai um disco com finas hastes metálicas, mais acima a marcar o meio da composição encontramos uma broca perfuradora, a partir da qual proliferam de um modo organizado diversos elementos verticais que terminam em formas circulares. A assinalar o topo mais alto, a mais de seis metros de altura, observa-se uma pá metálica. Num olhar menos atento, engana-se quem pensa tratar-se de uma forma irracional construída aleatoriamente, pelo contrário a escultura de Bual é uma composição plasticamente coerente que evidencia um grande sentido de harmonia e equilíbrio estético. Segundo relatou o soldador que apoiou a execução do trabalho, a obra terá sido refeita entre três a quatro vezes21, sempre que o artista através da observação à distância encontrava partes incongruentes entre os elementos plásticos, procedia à sua alteração e redefinição formal. Deste modo, a escultura ganhou corpo adquirindo um caráter vertical, por meio das junções de diferentes fragmentos. Do ponto de vista temático, como o próprio título sugere, ela representa a homenagem à agricultura, não apenas entendida no seu valor simbólico e ancestral, mas aqui compreendida enquanto manifestação de uma nova “era técnica” introduzida pela modernidade. Ao mesmo tempo, parece evocar uma certa realidade social, ao consagrar a união e o trabalho coletivo, remetendo-nos para a árdua missão do colono na transformação do terreno agreste.

21

Entrevista com o Sr. António Pinheiro.

41


Homenagem à Agricultura, Escultura em ferro 900 x 220 x 200 cm, Assinado Bual/67 Parque de material agrícola de Pegões - Sto. Isidro de Pegões Diário da Amadora | 1967

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Tal como a pintura, gestualista e informal, Artur Bual soube aplicar na escultura uma linguagem espontânea e emotiva, tirando partido dos meios plásticos ao seu dispor. É de facto uma obra admirável, quer pela sua riqueza plástica e formal, quer pela atualidade da linguagem escultórica, em perfeita sintonia com as correntes internacionais. Será necessário recordar que esta obra conseguiu escapar de forma surpreendente à estética oficial do regime, ainda em vigor na década 60, que continuava a promover a encomenda de estatuária pública. Neste sentido, a realização deste trabalho só se tornou possível num contexto muito particular, marcadamente rural, por iniciativa de um patrono que dirigia um organismo que gozava de uma certa autonomia. A “Homenagem à Agricultura”, como ficou conhecida, levou cerca de três meses a ser construída, sendo inaugurada a 8 de Janeiro de 1967, na presença de Vasco Leónidas e várias dezenas de funcionários da Junta de Colonização Interna. Inscrito na própria obra com solda, pode ler-se a dupla referência a Bual e a António Pinheiro enquanto executante. Ao contrário do que se poderia supor, Artur Bual não recebeu qualquer remuneração pela realização da obra, uma vez que a ideia partiu da sua própria iniciativa e integrava-se nas funções que ocupava naquele organismo. Acresce referir que, segundo António Pinheiro, Bual teria manifestado a intenção de realizar um amplo mural com a mesma técnica, mas esse projecto terá sido inviabilizado após a saída de Vasco Leónidas da presidência da Junta de Colonização Interna. Praticamente ignorada pelos historiadores de arte por ter permanecido no anonimato22, a “Homenagem a Agricultura” é uma das esculturas mais notáveis da arte portuguesa do séc. XX, sem paralelo na década de 60, cuja notoriedade deverá ser reconhecida futuramente. Podemos afirmar que a escultura de Artur Bual é uma obra pioneira na história da escultura portuguesa, responsável pela rutura com a estatuária nacional, destronando o célebre “D. Sebastião” (1973) da autoria de João Cutileiro. JPR

22

Encontramos uma das primeiras referências a esta escultura numa coleção de diapositivos de apoio a programas de Educação Visual, Estética e Desenho de 1974/75 (edição do Ministério da Educação e das Universidades, Instituto de Tecnologia Educativa, 1982). Na série C dedicada à escultura, consta o diapositivo n.º 18 “Homenagem à agricultura” – conceção de Bual e trabalho oficinal de Pinheiro (1968). Escola Agrícola de Pegões – Portugal (Foto de Elisabete Oliveira).

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Obras

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Ao José Gomes Ferreira, 1988 48

Acrílico s/ tela, 1400 x 900 mm


S/ título, 1991 Acrílico s/ tela, 1000 x 1000 mm

49


S/ tĂ­tulo, 1989 AcrĂ­lico s/ tela com colagem, 1000 x 1000 mm

50


Cristo Crucificado, [1966] AcrĂ­lico s/ madeira, 3420 x 2580 mm

51


S/ título, 1972 Acrílico s/ tela, 1000 x 970 mm

52


Pulsações de Tomar, 1991 Acrílico s/ tela, 1000 x 1000 mm

53


S/ título, 1989 Acrílico s/ tela, 1000 x 1000 mm

54


Angústia, 1958 Óleo s/ tela, 1170 x 890 mm 55


Auto-retrato, 1985 AcrĂ­lico s/ tela, 1290 x 860 mm 56


S/ tĂ­tulo, 1983 AcrĂ­lico s/ contraplacado, 1370 x 850 mm

57


S/ tĂ­tulo, 1989 58

AcrĂ­lico s/ tela com colagem, 1500 x 1000 mm


S/ tĂ­tulo, 1998 AcrĂ­lico s/ papel colado em tela, 1370 x 960 mm

59


Torrejana,1988 60

Pastel s/ papel, 410 x 300 mm


S/ tĂ­tulo, 1968 Gravura (exemplar 2/5), 560 x 380 mm

61


S/ tĂ­tulo, Paris 1959 Tinta da china s/ papel, 140 x 200 mm

62


S/ tĂ­tulo, Paris 1959 Tinta da china s/ papel, 175 x 220 mm 63


S/ tĂ­tulo, Marbella 1972 64

Tinta da china s/ papel, 300 x 230 mm


S/ tĂ­tulo, Marbella 1972 Tinta da china s/ papel, 280 x 230 mm 65


S/ tĂ­tulo, 1975 66

TĂŠcnica mista s/ papel, 610 x 430 mm


S/ tĂ­tulo, Circa 1950 Tinta da china e aguada s/ papel, 130 x 100 mm

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Agradecimentos A Maria João Bual e Manuel Salvado, filha e genro do autor Ao Circulo Artístico e Cultural Artur Bual, Amadora Ao Eduardo Nascimento, Responsável pela Galeria Municipal Artur Bual, Amadora À Margarida Calado e ao José Pedro Regatão, autores do texto “Artur Bual, Funcionário da Junta de Colonização Interna e o seu Legado Artístico no Concelho de Montijo”

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Galeria Municipal do Montijo Rua Almirante Cândido dos Reis, 12 • 2870-253 Montijo Telefone: 21 232 77 36 E-mail: cultura@mun-montijo.pt Horário: 2.ª a Sábado das 09h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30 www.facebook.com/cmmontijo

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www.mu n-montijo.pt


Fichas Técnicas Ficha Técnica [catálogo] Título Edição Organização Textos Fotografia Projecto gráfico Divulgação Impressão Tiragem Depósito Legal

Arte Antidestino: Artur Bual: 90 anos Câmara Municipal do Montijo Galeria Municipal do Montijo Eurico Gonçalves, Margarida Calado e José Pedro Regatão CMM | Fotos retiradas do livro “Artur Bual Extractos da Obra” cedidas pela família Gabinete de Comunicação e Relações Públicas Gabinete de Comunicação e Relações Públicas Tipografia Belgráfica 300 ex. 415830/16

Ficha Técnica [exposição] Produção e Organização Design Gráfico Montagem

Divisão de Cultura, Bibliotecas, Juventude e Desporto - Galeria Municipal Gabinete de Comunicação e Relações Públicas Divisão de Obras, Serviços Urbanos e Ambiente Gabinete de Comunicação e Relações Públicas Galeria Municipal – Divisão de Cultura, Bibliotecas, Juventude e Desporto

Montijo, outubro 2016

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Exposição Arte Antidestino - Artur Bual: 90 anos | Galeria Municipal do Montijo  

No ano em que se assinalam 90 anos sobre o nascimento de Artur Bual, a Galeria Municipal do Montijo presta homenagem a este conceituado arti...

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