Issuu on Google+

G uarรก

ISSN 1413-571X

Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008 - R$ 13,00

E D i TO R A

Indexada no ISI Web of Knowledge - Zoological Record e no CAB Abstracts

www.revistaclinicaveterinaria.com.br


Heloísa Orsini

Índice

Neurologia - 28

Eduardo B. Santos Júnior

Patogenia das lesões do sistema nervoso central (SNC) na cinomose canina

Pathogenesis of central nervous system (CNS) lesions in canine distemper Patogenia de las lesiones en el sistema nervioso central (SNC) en la cinomosis

Cirurgia - 36

Glossectomia parcial em um cão

Infiltração inflamatória perivascular na substância branca do cerebelo de um cão com cinomose. H/E. Obj. 10x

Cão após cinco meses da realização da glossectomia: observar tecido lingual totalmente cicatrizado

Bernardo Kemper

Partial glossectomy in a dog Glosectomía parcial en un perro

Ortopedia - 40

Fixação percutânea externa complementar na osteossíntese de fratura pélvica cominutiva bilateral - relato de caso em um cão

Renato Moraes Sarmento

Use of the complementary external percutaneous fixation in the osteosynthesis of bilateral comminuted pelvic fractures - case report in a dog Fijación percutánea externa complementar en la osteosíntesis de fractura pélvica conminuta bilateral - relato de caso en un perro

Oncologia - 46

Tumor maligno de bainha nervosa em papagaioverdadeiro (Amazona aestiva) - relato de caso

Peripheral nerve sheath tumor in a blue-fronted amazon parrot (Amazona aestiva) - case report Tumor maligno de vaina nerviosa en loro hablador (Amazona aestiva) - relato de caso

Clínica médica - 52

Tahisa Faria Velloso

Fotomicrografia de tumor maligno de bainha nervosa excisado da face de um papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), com área de transição entre os tecidos Antoni A (em amarelo) e Antoni B (em vermelho).

Imagem fotográfica pós-cirúrgica imediata, mostrando os pinos de Schantz implantados no coxal e conectados externamente com barra de polimetilmetacrilato

Aelurostrongylus abstrusus - relato de caso em felino

Aelurostrongylus abstrusus - case report in a cat Aelurostrongylus abstrusus - relato de caso en felino

Thais Okamoto

Saúde pública - 58

Leishmaniose tegumentar americana em felino doméstico no município do Rio de Janeiro, Brasil - relato de caso

American tegumentary leishmaniasis in a domestic feline in the city of Rio de Janeiro, Brazil - case report Leishmaniasis tegumentaria americana en un felino doméstico en la ciudad de Rio de Janeiro, Brasil - relato de caso

Clínica médica - 62

Larva de Aelurostrongylus abstrusus encontrada em fezes de gata examinada pelo método de Baermann. (Objetiva de 10x)

Felis catus, SRD, fêmea, três anos, com lesões ulcerativas no plano nasal causadas por L. (V.) braziliensis

Paulo César Maiorka

Vasculite necrosante e focos hemorrágicos no encéfalo de gato acometido pela peritonite infecciosa dos felinos - relato de caso Necrotizing vasculitis and hemorrhagic foci in the encephalon of a cat with feline infectious peritonitis - a case report Vasculitis necrosante y focos hemorrágicos en encéfalo de gato acometido por peritonitis infecciosa felina - relato de caso

Ilvio Mendes Vidal

Clínica médica - 68

Eletrocardiografia em quatis (Nasua nasua - Linnaeus, 1766) mantidos em cativeiro e contidos quimicamente com quetamina e xilazina

Electrocardiography in coatis (Nasua nasua - Linnaeus, 1766) maintained in captivity and restrained chemically with ketamine and xylazine Electrocardiografía en coatíes (Nasua nasua - Linnaeus, 1766) mantenidos en cautiverio y contenidos químicamente con cetamina y xilazina

Vasculite e necrose de vaso sangüíneo e conseqüente extravasamento de sangue para o interior do neurópilo

Quati (Nasua nasua - Linnaeus, 1766)

Editorial - 5

• Relançamento de Duramune® Max • I Seminário de Residência em Medicina Veterinária • Scientific Meeting Royal Canin

Notícias - 6

Bem-estar animal - 26

Seções • Total Alimentos lança selo de comprometimento social, ético e com o meio ambiente • Lista Vermelha do Pará

8 10

• Congresso da Anclivepa 2008 12 • Consumidores de Frontline® ganharão cobertura para emergências e mortes do animal de estimação 18 • O programa do Ministério da Saúde de avaliação externa da qualidade em sorologia para leishmaniose visceral canina certifica o Tecsa Laboratórios 20 • Jundiaí (SP) já tem centro de reabilitação e fisioterapia 20 • Núcleo Diagnóstico Veterinário implanta ensaio de proficiência para controle de qualidade para laboratórios 20 • Bayer Brasil cresce 25% em vendas e planeja dobrar investimentos no Brasil 22

22 24 24

Eventos discutem o bem-estar animal, a vivissecção e o direito animal

Animais silvestres como animais de estimação

Gestão, marketing e estratégia - 91 Queridos Amigos

Lançamentos - 94

Livros - 76

• Virologia veterinária • Seja vegano

Negócios e oportunidades - 96

Ofertas de produtos e equipamentos

Legislação - 78

• Resolução do CFMV normatiza procedimentos cirúrgicos • Caça é proibida no Estado do Rio Grande do Sul

Ecologia - 86

78 80

Pesquisa - 82

Nova linhagem de bactéria, resistência a medicamentos, pobreza e interação com Aids agravam quadro da tuberculose

Serviços e especialidades - 97

Prestadores de serviços para clínicos veterinários

Agenda - 104

Interação homem-animal - 84 Comunicação entre espécies

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008

3


Indexada no ISI Web of Knowledge - Zoological Record e no CAB Abstracts CONSULTORES CIENTÍFICOS SCIENTIFIC COUNCIL Revista de educação continuada do clínico veterinário de pequenos animais

EDITORES / PUBLISHERS

Arthur de Vasconcelos Paes Barretto editor@editoraguara.com.br CRMV-SP 6871

Maria Angela Sanches Fessel cvredacao@editoraguara.com.br

Journal of continuing education for small animal veterinarians

EDITORAÇÃO ELETRÔNICA / DESKTOP PUBLISHING Editora Guará Ltda.

CAPA / COVER

Cavacué ou papagaiodiadema (Amazona autumnalis). Brand X Pictures.

CRMV-SP 10159

PUBLICIDADE / ADVERTISING João Paulo S. Brandão

midia@editoraguara.com.br (11) 3672-9497

JORNALISTA / JOURNALIST Aristides Castelo Hanssen MTb-16.679

IMPRESSÃO / PRINT

CONSULTORIA JURÍDICA / CONSULTING ATTORNEY Joakim M. C. da Cunha

(OAB 19.330/SP) (11) 3251-2670

Copypress

www.copypress.com.br

TIRAGEM / CIRCULATION 12.000 exemplares

CORRESPONDÊNCIA E ASSINATURAS LETTERS AND SUBSCRIPTION

Editora Guará Ltda. - Depto. de Assinaturas Caixa Postal 66002 - 05311-970 - São Paulo - SP BRASIL cvassinaturas@editoraguara.com.br Telefone/fax: (11) 3835-4555 é uma revista técnico-científica bimestral, dirigida aos clínicos veterinários de pequenos animais, estudantes e professores de medicina veterinária, publicada pela Editora Guará Ltda. As opiniões em artigos assinados não são necessariamente compartilhadas pelos editores. Os conteúdos dos anúncios veiculados são de total responsabilidade dos anunciantes. Não é permitida a reprodução parcial ou total do conteúdo desta publicação sem a prévia autorização da editora.

Instruções aos autores

Artigos científicos inéditos, revisões de literatura e relatos de caso enviados à redação são avaliados pela equipe editorial. Em face do parecer inicial, o material é encaminhado aos consultores científicos. A equipe decidirá sobre a conveniência da publicação, de forma integral ou parcial, encaminhando ao autor sugestões e possíveis correções. Para esta primeira avaliação, devem ser enviados pela internet (cvredacao@ editoraguara.com.br) um arquivo texto (.doc ou .rtf) com o trabalho e imagens digitalizadas em formato .jpg . No caso dos autores não possuirem imagens digitalizadas, cópias das imagens originais (fotos, slides ou ilustrações acompanhadas de identificação de propriedade e autor) devem ser encaminhadas pelo correio ao nosso departamento de redação. Os autores devem enviar tambem a identificação de todos os autores do trabalho (endereço, telefone e e-mail). Os artigos de todas as categorias devem ser acompanhados de versões em língua inglesa e espanhola de: título, resumo (de 600 a 800 caracteres) e unitermos (3 a 6). Os unitermos não devem constar do título. Devem ser dispostos do mais abrangente para o mais específico (eg, “cães, cirurgias, abcessos, próstata). Verificar se os unitermos escolhidos constam dos “Descritores em Ciências de Saúde” da Bireme (http://decs.bvs.br/). ou do Index Medicus. (www.nlm.nih.gov/ mesh/MBrowser.html). No caso do material ser totalmente enviado por correio, devem necessariamente ser enviados, além de uma apresentação impressa, uma cópia em CD-room. Imagens como tabelas, gráficos e ilustrações não podem ser provenientes de literatura, mesmo que seja indicada a fonte. Imagens fotográficas devem possuir indicação do fotógrafo e proprietário; e quando cedidas por terceiros, deverão ser obrigatoriamente acompanhadas de autorização para publicação. As referências bibliográficas serão indicadas ao longo do texto apenas por números, que corresponderão à listagem ao final do artigo, evitando citações de autores e datas. A apresentação das referências ao final do artigo deve seguir as normas atuais da ABNT e elas devem ser numeradas pela ordem de aparecimento no texto. Com relação aos princípios éticos da experimentação animal, os autores deverão considerar as normas do COBEA (Colégio Brasileiro de Experimentação Animal).

Revista Clínica Veterinária / Redação Caixa Postal 66002 CEP 05311-970 São Paulo - SP e-mail: cvredacao@editoraguara.com.br

4

Adriano B. Carregaro DCPA/UFSM carregaro@smail.ufsm.br Alceu Gaspar Raiser DCPA/CCR/UFSM raisermv@smail.ufsm.br Alexandre Lima Andrade CMV/UNESP-Aracatuba landrade@fmva.unesp.br Alexandre Mazzzanti UFSM mazzal@smail.ufsm.br Alexander Walker Biondo UFPR, UI/EUA abiondo@uiuc.edu Ana Maria Reis Ferreira FMV/UFF anamrferreira@br.inter.net Ana Paula F. L. Bracarense DCV/CCA/UEL anapaula@uel.br Antonio Marcos Guimarães DMV/UFLA amg@ufla.br Aparecido A. Camacho FCAV/Unesp/Jaboticabal camacho@fcav.unesp.br A. Nancy B. Mariana FMVZ/USP - SPMV anbmaria@usp.br Arlei Marcili ICB/USP amarcili@usp.br Aulus C. Carciofi FCAV/Unesp/Jaboticabal aulus@fcav.unesp.br Aury Nunes de Moraes UESC a2anm@cav.udesc.br Benedicto W. De Martin FMVZ/USP; IVI ivi@ivi.vet.br Berenice Avila Rodrigues FAVET/UFRGS berenice@portoweb.com.br Carlos Alexandre Pessoa Médico veterinário autônomo animalexotico@terra.com.br Carlos Eduardo S. Goulart FTB carlosedgourlart@yahoo.com.br Carlos Roberto Daleck FCAV/Unesp/Jaboticabal daleck@fcav.unesp.br Cassio R. Auada Ferrigno FMVZ/USP cassioaf@usp.br César Augusto Dinóla Pereira UAM, UNG, UNISA dinolaca@hotmail.com Christina Joselevitch Yale Univ. School of Medicine christina.joselevitch@yale.edu Cibele F. Carvalho UNIABC cibelecarv1904@aol.com Cleber Oliveira Soares EMBRAPA cleber@cnpgc.embrapa.br Cristina Massoco Salles Gomes Consult. Empresaria cmassoco@gmail.com Daisy Pontes Netto FMV/UEL rnetto@uel.br Daniel Macieira IV/UFRRJ dbmacieira@ufrrj.br Denise T. Fantoni FMVZ/USP dfantoni@fmvz.usp.br Dominguita L. Graça FMV/UFSM dlgraca@smail.ufsm.br Edgar L. Sommer PROVET edgarsommer@sti.com.br Eduardo A. Tudury DMV/UFRPE eat-dmv@ufrpe.br Elba Lemos FioCruz-RJ elemos@ioc.fiocruz.br Fabiano Montiani-Ferreira FMV/UFPR fabiomontiani@hotmail.com Fernando C. Maiorino FEJAL/CESMAC/FCBS fcmaiorino@uol.com.br

Fernando Ferreira FMVZ/USP fernando@vps.fmvz.usp.br Flavia Toledo Univ. Estácio de Sá ftoledo@attglobal.net Flavio Massone FMVZ/UNESP/Botucatu btflama@uol.com.br Francisco J. Teixeira Neto FMVZ/UNESP/Botucatu fteixeira@fmvz.unesp.br Francisco Marlon C. Feijo UFERSA marlonfeijo@yahoo.com.br Franklin A. Stermann FMVZ/USP fsterman@usp.br Franz Naoki Yoshitoshi Provet franz.naoki@terra.com.br Geovanni Dantas Cassali ICB/UFMG cassalig@icb.ufmg.br Geraldo Márcio da Costa DMV/UFLA gmcosta@ufla.br Gerson Barreto Mourão ESALQ/USP gbmourao@esalq.usp.br Hannelore Fuchs Instituto PetSmile afuchs@amcham.com.br Hector Daniel Herrera Univ. de Buenos Aires hdh@fvet.uba.ar Hector Mario Gomez FMV/UNG hectgz@netscape.net Hélio Autran de Moraes Madison S. V. M./UW demorais@svm.vetmed.wisc.edu Hélio Langoni FMVZ/UNESP-Botucatu hlangoni@fmvz.unesp.br Heloisa J. M. de Souza FMV/UFRRJ justen@centroin.com.br Herbert Lima Corrêa ODONTOVET odontovet@odontovet.com Idael C. A. Santa Rosa UFLA starosa@ufla.br James N. B. M. Andrade FMV/UTP jamescardio@hotmail.com Jane Megid FMVZ/UNESP-Botucatu jane@fmvz.unesp.br Janis R. M. Gonzalez FMV/UEL janis@uel.br Jairo Barreras FioCruz jairo@ioc.fiocruz.br Jean Carlos Ramos Silva UFRPE, IBMC-Triade jean@triade.org.br João G. Padilha Filho FCAV-UNESP/Jaboticabal padilha@fcav.unesp.br João Pedro A. Neto UAM joaopedrovet@hotmail.com José Alberto P. da Silva FMVZ/USP e UNIBAN jsilva@uniban.br José de Alvarenga FMVZ/USP Alangarve@terra.com.br Jose Fernando Ibañez FMV/UEL fibanez@yahoo.com.br José Luiz Laus FCAV/Unesp/Jaboticabal jllaus@fcav.unesp.br José Ricardo Pachaly UNIPAR pachaly@uol.com.br José Roberto Kfoury Júnior FMVZ/USP robertok@fmvz.usp.br Karin Werther FCAV/Unesp/Jaboticabal werther@fcav.unesp.br Leonardo Pinto Brandão Merial Saúde Animal leobrandao@yahoo.com

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008

Leucio Alves FMV/UFRPE leucioalves@gmail.com Luciana Torres FMVZ/USP lu.torres@terra.com.br Lucy M . R. de Muniz FMVZ/UNESP-Botucatu lucy_marie@uol.com.br Luiz Henrique Machado FMVZ/UNESP-Botucatu henrique@fmvz.unesp.br Marcelo Bahia Labruna FMVZ/USP labruna@usp.br Marcelo de C. Pereira FMVZ/USP marcelcp@usp.br Márcia Marques Jericó UAM e UNISA marciajerico@hotmail.com Marcia M. Kogika FMVZ/USP mmkogika@usp.br Marcio B. Castro UNB mbcastro2005@yahoo.com.br Marcio Dentello Lustoza Agener/União mdlustoza@uol.com.br Márcio Garcia Ribeiro FMVZ/UNESP-Botucatu mgribeiro@fmvz.unesp.br Marco Antonio Gioso FMVZ/USP maggioso@usp.br Marconi Rodrigues de Farias PUC-PR marconi.farias@pucpr.br Maria Cecilia Rui Luvizotto CMV/UNESP-Aracatuba ruimcl@fmva.unesp.br Maria Cristina F. N. S. Hage FMV/UFV crishage@ufv.br Maria Cristina Nobre FMV/UFF mcnobre@predialnet.com.br Maria de Lourdes E. Faria Madison S. V. M. / UW mfaria@svm.vetmed.wisc.edu Maria Isabel Mello Martins FMV/UEL imartins@uel.br Maria Jaqueline Mamprim FMVZ/UNESP-Botucatu jaquelinem@fmvz.unesp.br Maria Lúcia Zaidan Dagli FMVZ/USP malu021@yahoo.com Mariangela Lozano Cruz FMVZ/UNESP-Botucatu neca@fmvz.unesp.br Maria Rosalina R. Gomes Médica veterinária sanitarista rosa-gomes@ig.com.br Marion B. de Koivisto FO/CMV/UNESP/Araçatuba koivisto@fmva.unesp.br Masao Iwasaki FMVZ/USP miwasaki@usp.br Michele A. F. A. Venturini ODONTOVET michele@odontovet.com Michiko Sakate FMVZ/UNESP-Botucatu michikos@fmvz.unesp.br Miriam Siliane Batista FMV/UEL msiliane@uel.br Moacir S. de Lacerda UNIUBE moacir.lacerda@uniube.br Monica Vicky Bahr Arias FMV/UEL vicky@uel.br Nadia Almosny FMV/UFF mcvalny@vm.uff.br Nayro X. Alencar FMV/UFF nayro@vm.uff.br Nilson R. Benites FMVZ/USP benites@usp.br Nobuko Kasai FMVZ/USP nkasai@usp.br

Noeme Sousa Rocha FMV/UNESP-Botucatu rochanoeme@fmvz.unesp.br Norma V. Labarthe FMV/UFFe FioCruz labarthe@centroin.com.br Paulo César Maiorka USP/UNISA pmaiorka@yahoo.com Paulo S. Salzo UNIMES, UNIBAN pssalzo@ig.com.br Paulo Sérgio M. Barros FMVZ/USP pauloeye@usp.br Pedro Germano FSP/USP pmlgerma@usp.br Pedro Luiz Camargo DCV/CCA/UEL p.camargo@uel.br Rafael Almeida Fighera FMV/UFSM anemiaveterinaria@yahoo.com.br Regina H. R. Ramadinha FMV/UFRRJ regina@vetskin.com.br Renée Laufer Amorim FMVZ/UNESP-Botucatu renee@fmvz.unesp.br Ricardo Duarte CREUPI-SP ricardoduarte@diabetes.vet.br Rita de Cassia Garcia FMV/USP - Instituto Nina Rosa rita@vps.fmvz.usp.br Rita de Cassia Meneses IV/UFRRJ cassia@ufrrj.br Rita Leal Paixão FMV/UFF rita_paixao@uol.com.br Rodrigo Mannarino FMVZ/UNESP-Botucatu r.mannarino@uol.com.br Ronaldo G. Morato CENAP/IBAMA ronaldo@procarnivoros.org.br Rosângela de O. Alves EV/UFG rosecardio@yahoo.com.br Rute Chamie A. de Souza UFRPE/UAG rutecardio@yahoo.com.br Ruthnéa A. L. Muzzi DMV/UFLA ralmuzzi@ufla.br Sady Alexis C. Valdes Zoo/Piracicaba sadyzola@usp.br Sheila Canavese Rahal FMVZ/UNESP/Botucatu sheilacr@fmvz.unesp.br Silvia E. Crusco FMVA/UNESP/Araçatuba silviacrusco@terra.com.br Silvia R. G. Cortopassi FMVZ/USP silcorto@usp.br Silvio Arruda Vasconcellos FMVZ/USP savasco@usp.br Silvio Luis P. de Souza FMVZ/USP, UAM slpsouza@usp.br Stelio Pacca L. Luna FMVZ/UNESP/Botucatu stelio@fmvz.unesp.br Suely Beloni DCV/CCA/UEL beloni@uel.br Tilde Rodrigues Froes Paiva FMV/UFPR tilde9@hotmail.com Valéria Ruoppolo International Fund for Animal Welfare vruoppolo@uol.com.br Vamilton Santarém Unoeste vamilton@vet.unoeste.br Wagner S. Ushikoshi FMV/UNISA e FMV/CREUPI wushikoshi@yahoo.com.br William G. Vale FCAP/UFPA wmvale@ufpa.br Zalmir S. Cubas Itaipu Binacional cubas@foznet.com.br


Editorial

http://www.isiwebofknowledge.com/ http://www.thomsonreuters.com/products_services/scientific1/Zoological_Record

E

stamos muito felizes celebrando esta grande conquista que é a indexação desta revista no ISI WEB of Knowledge, na seção Zoological Record, como pode ser observado no site da instituição (vide imagem acima). Esta indexação é a comprovação e o reconhecimento internacional da qualidade editorial da Clínica Veterinária por parte de um organismo que preza a excelência científica. O trabalho de fazer uma revista especializada enfrenta inúmeros obstáculos, especialmente num país como o nosso. É preciso vencer a inércia inicial que qualquer publicação é obrigada a enfrentar, mostrar a seriedade das intenções, a competência, montar uma equipe de autores e consultores, aprender com os erros e acertos, conquistar credibilidade passo a passo, buscar sempre a qualidade, na visão de conjunto e nos detalhes, investir em esforço, em tempo, em obsessão pela precisão e clareza das informações, dentro do amplo propósito de promover a divulgação científica e a educação continuada do médico veterinário. O trabalho envolvido para levar adiante esse projeto e transformá-lo numa realização contou com a persistência da fé pessoal e com o incentivo de muitos que desde o início acreditaram e apoiaram o nosso trabalho, mantendo-se ao nosso lado com coragem e alegria. Esse reconhecimento internacional é resultado da dedicação dos autores e editores e, principalmente, da atuação dos consultores, que ao longo destes treze anos vêm, generosamente, contribuindo com seus conhecimentos e disposição, avaliando, corrigindo, sugerindo e zelando pela qualidade de nossa publicação. Agradecemos imensamente a todos que têm colaborado conosco para que este importante acontecimento pudesse se concretizar. É momento de celebrações, mas também é uma grande responsabilidade. Agora, mais do que nunca, precisamos buscar a qualidade nos trabalhos que publicamos e, para isso, contamos com a participação de todos. Que todos possamos ser cada vez mais abençoados em nossas realizações. Maria Angela Sanches Fessel Clínica Veterinária, Ano XII, n. 74, maio/junho, 2008

5


Anclivepa 2008 - Eita coisa boa!

A

Outro fato inédito nos palestra de abercongressos da Anclivepa tura do Congresfoi o compromisso social so da Anclivepa que os organizadores se teve um tema inédito: propuseram, direcionanComo ganhar mais dido uma parte da renda do nheiro de forma ética, congresso para a Apala, proferida pelo prof. dr. “Um dos segredos do organização que cuida de Marco Antonio Gioso, sucesso é ler”, afirmou crianças com câncer. que destacou a importânMarco A. Gioso Os colegas que não pucia de planejar e seguir mederam comparecer, não tas. A palestra prendeu a atenção de devem perder o próximuitos clínicos e de veterinários da mo, pois será o munindústria. Inclusive, representantes dial da WSAVA! do segmento pet da indústria farmaA seguir, confira cêutica veterinária aproveitaram essa algumas fotos que registraram o evento. palestra para comunicar aos clínicos a criação da Comissão Animais de Companhia (Comac), braço do Sindan, que visa o crescimento ordenado do setor pet.

Com muita atenção e gentileza, a Anclivepa-AL recebeu todos os participantes do congresso A nutrição enteral do paciente crítico, tema bastante atual, foi abordada por Márcio Brunetto, da Unesp/Jaboticabal. A aplicação dos seus conceitos é viável de ser inserida nas clínicas veterinárias e vital para os pacientes críticos

Nuno Félix, de Portugal, veio ao Brasil dar sua contribuição ao evento, abordando a nutrição parentérica

A cultura do povo alagoana também passou pelo congresso

João Telhado discorreu sobre a interação homemanimal e também transmitiu importantes informação para o tratamento de medos e fobias

Da esquerda para a direita, os palestrantes Ronaldo Casimiro, Hélio Autran e Yves Miceli

O presidente do CBA 2008, André Sandes Moura, deixou registrado no stand da WSPA sua mensagem de apoio ao bem-estar animal

Vitor Márcio Ribeiro lotou o auditório com sua palestra sobre tratamento da leishmaniose visceral canina, a qual foi patrocinada pela WSPA, e também participou de mesa redonda sobre o tema, juntamente com Carlos Muller, Rita Leal Paixão , Norma Labarthe e Lêucio Alves

12

Congressistas receberam anais em CD-Rom

A emergência veterinária e a terapia intensiva foram bastante abordadas no congresso. Rodrigo Rabelo, presidente da Academia Brasileira de Medicina Veterinária Intensiva (BVECCS) ministrou vária palestras. Quem não foi, não deve perder o I Congresso LatinoAmericano de Emergência e Cuidados Intensivos, que ocorrerá em dezembro, no Rio de Janeiro, RJ

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008

A avaliação crítica do tratamento da dor em pequenos animais, assunto apresentado por Stélio Luna Pacca, despertou interesse do público participante

Andrés Sánchez Carmona discorreu sobre o tratamento médico e cirúrgico das osteoartroses


A excelente programação científica atraiu um grande público para o evento Nestlé Purina foi a patrocinadora oficial do congresso. A empresa possui produto inovador, o Pro Plan OptiStart Plus, que inclui colostro em sua formulação, ingrediente rico em anticorpos naturais

Dermatopatias foi um dos temas abordados por Andrew Hillier (EUA)

Membros da comissão organizadora do Congresso Brasileiro de Cirurgia e Anestesiologia Veterinária (CBCAV) foram a Maceió literalmente vestir a camisa do CBCAV. O evento ocorre em novembro, em Recife, PE

Bernard Pouloux e Yvex Miceli deram importante contribuição ao evento com Informações sobre a tendência do mercado de pet food e as inovações da Royal Canin

A Royal Canin inovou com seu espaço cultural onde os médicos veterinários puderam participar a um circuito de 4 palestras que apresentavam as últimas inovações em termos de nutrição para gatos castrados, proteção contra herpesvirose em filhotes felinos, diluição de cálculos urinários e alimentação para animais internados. Durante 4 dias foram mais de 400 médicos veterinários em grupos de 8 pessoas que assistiram ao circuito de palestras

A CentralVet, empresa especializada em gestão comercial de marcas e produtos em todo o Brasil, marcou presença no evento apresentando, entre outras, a linha Frenesis Kabi, da qual faz parte o Ketosteril, medicamento composto por cetoanálogos, fórmula patenteada mundialmente e indicada no tratamento da insuficiência renal crônica

Pedigree e Whiskas destacaram-se no congresso e prestaram excelem suporte oferecendo acesso à internet pelo seu cyber space

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008

Eduardo Batista Borges (presidente - CRMV-RJ) e José Maria dos Santos Filho (presidente CRMV-CE), que estão compondo uma das chapas que serão canditadas à gestão 2008/2011 do CFMV. Já se encontra publicado no sítio do CFMV (www.cfmv. org.br) o edital de convocação dos delegados eleitores dos Conselhos Regionais de Medicina Veterinária

13


Presente no Brasil e no exterior, a Vetnil divulgou no congresso que ainda esse ano irá lançar 15 novos produtos e duas novas linhas Bayer manteve seu foco na ZooAção, importante campanha de prevenção de zoonoses, toda apoiada em produtos de qualidade, associados a excelente materiais educativos para serem utilizados pelos médicos veterinários com os proprietários de cães e gatos. A campanha é realizada anualmente durante os meses de maio a agosto e envolve a distribuição de materiais informativos sobre zoonoses aos médicos veterinários e donos de cães e gatos em pontos-de-venda de todo o país

Vanguard Plus foi um dos destaques da Pfizer no evento

Informe técnico da König distribuído no evento, apresenta dados sobre casos de reinsfestação natural de endoparasitas em cães de área urbana

Um dos focos da Fort Dodge durante o evento foi informar que Duramune® Max 5-CvK/4L agora proporciona três anos de imunidade contra a parvovirose, conforme estudo realizado com cães vacinados e desafiados

O grupo Ceva Vetbrands focou suas ações no grande lançamento realizado recentemente: o Fiprolex, ectoparasitário que possui o fipronil como princípio ativo Desde o início do processo de fusão esse foi o primeiro congresso que a Intervet e a ScheringPlough apresentam-se juntas

Além de produtos como a Recombitek e a Pneumodog, a Merial promoveu a nova campanha feita com Frontline: proteção plus, que agrega benefícios ao consumidor

A Total apresentou aos participantes sua mais nova linha de alimentos high premium: naturalis

A equipe da Nutron Pet participou pela primeira vez do Congresso Brasileiro da Anclivepa, levando sua nova linha de alimentos: a wellness

Ouro Fino participou levando novidades aos participantes: Energy Pet e AziCox-2 200mg

Organnact levou ao evento linha que adquiriu recentemente: a Fitovet

Frost, alimento high premium, promovido durante o evento

14

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


Bet Laboratories participou divulgando seus exames especializados em endocrinologia veterinária, que podem ser enviados de qualquer lugar do Brasil

A Bio Brasil expôs vários equipamentos laboratoriais que são comercializados em condições especiais para os clínicos, ajudando-os a inserir a tecnologia no dia-a-dia do atendimento clínico

O Tecsa Laboratórios foi bastante procurado. O laboratório recebeu recentemente cerficado do Ministério da Saúde pelo 100% de acerto nos resultados reportados para leishmaniose visceral canina

Detentora de uma ampla linha de protudos para pets a Coveli também levou uma grande novidade aos participantes do evento: o Coprovet, único anticoprofágico do mercado

Muitos atrativos no stand do Instituto Hermes Pardini, entre eles, a ampla cobertura nacional e resultados pela internet

Diversas ofertas com excelente relação custo/ benefício foram encontradas pelos congressistas no stand da Brasmed

Xandog foi uma das importantes linhas de produtos que a Centagro possui e que levou ao evento

A ControlLab, empresa especializada no gereciamento do controle de qualidade de laboratórios marcou presença em Maceió

Guabi investiu em destacar a linha Natural

Aparelhos de anestesia inalatória específicos para medicina veterinária estavam expostos no stand da Oxigel. Outra oportunidade para pesquisar sobre esse tipo de equipamento será no Congresso Brasileiro de Cirurgia e Anestesiologia Veterinária, que ocorrerá em novembro, em Recife, PE

16

A linha especializada de produtos amici dottori atraiu a atenção de vários participantes do congresso

A equipe da Agener União apresentou mais um lançamento da empresa: o Revipel, produto que traz grande benefícios aos problemas de calosidades de apoio e escaras

O Laboratório Biovet apresentou novos produtos em seu stand: o Amitraz 12,5% agora em embalagem de 200mL e o Condrovet Pet, suplemento vitamínico apresentado na forma de comprimido palatável, que possui extrato de yucca, glucosamina, colágeno, 100% de sulfato de condroitina A, zinco, cobre, manganês e vitaminas A e E

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


Bem-estar animal

N

Eventos discutem o bem-estar animal, a vivissecção e o direito animal

Arquivo CFMV

o período de 16 a 18 de abril de 2008, na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) foram realizados o I Congresso Brasileiro de Bem-Estar Animal e I Seminário Nacional de Biossegurança e Biotecnologia Animal. Participaram das discussões aproximadamente 500 congressistas, entre médicos veterinários, zootecnistas, biólogos, professores, estudantes, dirigentes de Conselhos Regionais de Medicina Veterinária (CRMVs), membros das comissões assessoras do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), além de profissionais de diversos outros segmentos, como centros de controle de zoonoses e outras instituições.

Os assuntos abordados no I Congresso Brasileiro de Bem-Estar Animal e I Seminário Nacional de Biossegurança e Biotecnologia Animal foram de grande interesse, contando com a participação dos especialistas e do público que lotou o auditório

Renomados especialistas do Brasil e do exterior oriundos de diversas instituições ministraram palestras e conduziram as discussões que ressaltaram que o bem-estar, deve ser entendido no seu sentido amplo, estendendo a preocupação aos sentimentos e sensações vividos pelos animais e não somente para proporcionar a saúde com o sentido de ausência de doença. Neste contexto, os procedimentos que causam estresse, dor e medo precisam ser analisados, compreendidos e evitados na interação homem-animal. A contribuição dos pesquisadores estrangeiros presentes permitiu aos participantes conhecer a realidade dos outros países quanto ao bemestar animal. As situações que causam dor e sofrimento nos animais mostram efeito semelhante ao que ocorre com os seres humanos. Expostos a estas sensações, os animais tem sua imunidade afetada, possibilitando o acometimento de enfermidades de etiologias variadas. O tema é bastante complexo e apresenta diversas facetas. Proporcionar mais bemestar aos animais de produção reduzirá sem dúvida a produtividade e aumentará os preços dos produtos de origem animal. Foram apontados desafios para o futuro: produzir melhor, poluindo menos e proporcionando o

26

bem-estar aos animais. A solução – pesquisas, modificações na legislação e mais investimentos – começa com a conscientização dos profissionais, que deve ser trabalhada nas Instituições de Ensino Superior (IES), por meio de disciplinas específicas que proporcionem formação ética e que assegure a dignidade dos animais. Ao final do encontro, o foco do debate voltou-se para as resoluções emanadas do CFMV que visa normatizar o uso científico e garantir o bem-estar dos animais, tanto os de companhia e de produção, quanto os silvestres e aqueles utilizados em pesquisa. Oportuno e de alto nível técnico, o evento agradou aos distintos segmentos presentes ao evento. O dr. Rubenval Feitosa, presidente do CRMV-SE, exaltou a singularidade da iniciativa, por ele analisada como “o pontapé inicial da discussão sobre a relação homem-animal no meio ambiente, nos diversos contextos: produção, animais de companhia, pesquisa etc”. O mais importante, destacou Feitosa, foi “a nova visão proporcionada, que nos leva a uma reflexão do comportamento do próprio homem, dos seus valores intrínsecos, já que estamos perdendo os nossos referenciais como seres humanos.” Heyde Amorim, bióloga, também aprovou a iniciativa e ressaltou a importância da visão proporcionada pelas discussões desenvolvidas em Recife. “Na biologia o animal é entendido como 'coisa'. Mas deve-se respeitar os direitos dos animais e garantir o bemestar deles”, observou. No começo do mês de abril também ocorreu, na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ/USP), o I Curso Introdutório à Ciência do Bem-estar Animal e Etologia Aplicada, uma realização do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal (VPS). O curso proposto teve como objetivo principal a introdução dos conceitos básicos sobre a ciência bem-estar animal e etologia aplicada, preenchendo uma lacuna há tanto tempo existente na formação dos profissionais. A sua continuidade faz parte de uma proposta de educação continuada do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal da FMVZ/USP, juntamente com os pós-graduandos do mesmo departamento. O entendimento do bem-estar animal é tão importante hoje para o profissional médico

Realizado na FMVZ/USP, o I Curso Introdutório à Ciência do Bem-estar Animal e Etologia Aplicada teve apoio da revista Clínica Veterinária, da Nestlé Purina e da WSPA, que também contribuiu cedendo a todos os participantes o CD-Rom Conceitos em Bem-Estar Animal

veterinário e zootecnista assim como os conhecimentos nas áreas de cirurgia, clínica, patologia, epidemiologia etc. Dessa forma, o oferecimento de disciplinas nos cursos de formação desses profissionais é de fundamental importância, não apenas para a inserção dos profissionais no mercado, mas visando melhorias na qualidade de vida dos animais e, indiretamente, dos seres humanos. Entre março e abril desse ano também ocorreu no Brasil, na Argentina, na Bolívia, no Peru e no México, o Latino America Tour InterNICHE (www.internichebrasil.org). O evento, que foi promovido pela InterNICHE (The International Network for Humane Education), teve como tema o "I Encontro sobre Métodos Substitutivos ao Uso de Animais na Educação: a ética no avanço do saber". Entre as novidades, foram exibidos softwares nas áreas de cirurgia e farmacologia e proferidas conferências internacionais pelo coordenador da InterNICHE, Nick Jukes (Inglaterra). Demonstrações de métodos substitutivos, palestras técnicas e mesas-redondas sobre questões éticas e de direitos animais e estudantis, também fizeram parte da programação. A discussão do assunto não pára. Do dia 1º ao dia 4 de maio, realizou-se o 1º Encontro Nacional de Direitos Animais, em Porangaba, SP, e, de 8 a 11 de outubro, em Salvador, B A , s e r á realizado o I Congresso Mundial de Bioética e Direito Animal.

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


Heloísa Orsini

Patogenia das lesões do sistema nervoso central (SNC) na cinomose canina

MV, MS. profa. aux. UNICSUL

helorsini@yahoo.com.br

Eduardo Fernandes Bondan

MV prof. dr. tit. UNIP e UNICSUL

bondan@uol.com.br

Pathogenesis of central nervous system (CNS) lesions in canine distemper Patogenia de las lesiones en el sistema nervioso central (SNC) en la cinomosis Resumo: A cinomose é uma doença importante e freqüente na clínica de cães, conhecida por sua alta morbimortalidade e pelos sinais e sintomas clínicos característicos que gera nos animais acometidos. Apesar de ser reconhecida como a principal enfermidade infecciosa dos cães, e de técnicas para o seu tratamento e profilaxia serem utilizadas rotineiramente pelo médico veterinário, informações acerca dos mecanismos envolvidos na patogenia da doença – especialmente no que se refere ao acometimento do sistema nervoso central (SNC) – são ainda pouco difundidas. Tendo em vista a importância do conhecimento dos mecanismos e processos celulares envolvidos na cinomose para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais eficientes no tratamento de tal doença, esta revisão traz um resumo dos principais aspectos patológicos da enfermidade e aborda de forma mais aprofundada a patogenia da afecção do SNC, enfocando os tipos celulares possivelmente envolvidos no desenvolvimento das alterações neurológicas. Unitermos: canídeos, paramixovírus, encefalite, glia, desmielinização Abstract: Canine distemper is an important and common disease of domestic dogs, known for its high death rate and for its specific clinical signs and symptoms. Although it is recognized as the main infectious canine disease and in spite of the techniques for its treatment and prophylaxis being routinely used by clinicians, information about the mechanisms involved in the disease's pathogenesis – specially regarding the damage to the central nervous system (CNS) – is still unsatisfactorily shared. Knowledge about the cellular mechanisms and processes involved in canine distemper are crucial to the development of more efficient therapeutic strategies. This review therefore summarizes the main pathological aspects of the illness and accesses in a deeper manner the pathogenesis of CNS damage, concentrating on the cellular types possibly involved in the development of neurological changes. Keywords: canides, paramyxovirus, encephalitis, glia, demyelination Resumen: La cinomosis es una enfermedad importante y frecuente en perros, conocida por su gran morbimortalidad y por sus señales y síntomas característicos. Aunque sea la principal enfermedad infecciosa de los perros, y su tratamiento y profilaxis sean realizados como rutina por el veterinario, poco se conoce sobre los mecanismos implicados en la patogenia de la enfermedad, especialmente sobre los daños al sistema nervioso central (SNC). Considerando la importancia en conocer estos mecanismos, esta revisión trae un resumen de los principales aspectos patológicos de la enfermedad y aborda de forma más profunda la patogenia de la afección del SNC, enfocando los tipos celulares posiblemente implicados en el desarrollo de alteraciones neurológicas. Palabras clave: cánidos, paramixovirus, encefalitis, glía, desmielinización

Clínica Veterinária, n. 74, p. 28-34, 2008

Introdução A cinomose é uma doença viral severa e altamente contagiosa, que acomete cães e outros carnívoros de forma multissistêmica 1,2. Apesar de gerar diferentes alterações orgânicas 1,2, a gravidade do processo e a morte dos animais estão relacionadas às lesões desencadeadas pelo vírus no SNC 2,3. Sabe-se que as alterações neurológicas presentes na doença se associam aos processos desmielinizantes e inflamatórios gerados no parênquima nervoso 3,4,5. No entanto, os mecanismos envolvidos no desenvolvimento de tais processos são ainda pouco esclarecidos 6,7. Uma vez que o SNC é tido como um sítio de privilégio imunológico 8,9, ou 28

seja, é isolado de patógenos e elementos sistêmicos – tais como células inflamatórias – capazes de lesá-lo 8,10, especulase que a desmielinização seja iniciada pela ação de células constituintes do próprio tecido nervoso 5,7,11. Por essa razão e pela semelhança histopatológica das lesões observadas no SNC de animais com cinomose com as originadas em doenças humanas, tais como a esclerose múltipla (de etiologia ainda indefinida) 5,12,13, o esclarecimento dos eventos celulares envolvidos no processo de desmielinização do SNC torna-se essencial. Da mesma forma, para o clínico veterinário, o conhecimento dos mecanismos envolvidos na doença é importante para o desenvolvimento de estratégias

mais adequadas para o seu tratamento e prevenção. O presente trabalho tem como objetivo apresentar um panorama geral da cinomose e descrever mais detalhadamente os processos possivelmente envolvidos no desencadeamento das lesões no SNC. Considerações iniciais sobre a cinomose A cinomose é uma doença que apresenta distribuição mundial 1,2,5. Acomete diversas espécies de carnívoros domésticos e selvagens, tais como os das famílias Canidae (raposas, lobos, chacais e coiotes), Mustelidae (lontras, ferrets e furões), Procyoinidae (quatis e guaxinins) e alguns indivíduos da família Felidae (gatos domésticos e selvagens, leões e tigres). Moléstias semelhantes, causadas por vírus antigenicamente relacionados ao vírus da cinomose, também foram descritas em focas e golfinhos 1,2. No entanto, são os cães domésticos os principais animais acometidos e nos quais a cinomose se manifesta como a principal enfermidade infecciosa 1. A cinomose canina é causada por um morbilivírus, da família Paramyxoviridae, descrito pela primeira vez em 1905 2. Trata-se de um RNA-vírus de fita simples, grande (150 a 350nm), de simetria helicoidal, envelopado 14 e antigenicamente relacionado aos vírus do sarampo humano e da peste bovina 1. Morfologicamente, é constituído por, além de outras moléculas não-estruturais, seis proteínas estruturais – três internas (L, N e P), envolvidas na transcrição e na replicação do RNA viral, e três inseridas no envelope (M, H e F). A proteína N (nucleocapsídeo) é responsável pela proteção do material genético, enquanto as proteínas L e P (complexo polimerase) encontram-se envolvidas na transcrição

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


Graziela Kopinits de Oliveira

Glossectomia parcial em um cão

MV, mestranda PPGMV/UFSM

grakopinits@yahoo.com.br

Alceu Gaspar Raiser

MV, prof. tit. Depto. Clínica de Pequenos Animais, CCR/UFSM

Partial glossectomy in a dog

raisermv@smail.ufsm.br

Glosectomía parcial en un perro

Eduardo de Bastos Santos Júnior

MV, doutorando PPGMV/UFSM

edvet@brturbo.com.br

Resumo: Ressecções de grandes porções da língua não têm sido realizadas com freqüência em cães, devido à preocupação com a ocorrência de seqüelas pós-operatórias desfavoráveis. Neste relato é apresentado o caso de um cão levado ao Hospital Veterinário da Universidade de Santa Maria apresentando traumatismo lingual com subseqüente necrose (decorrente da passagem de um projétil de arma de fogo), e submetido à glossectomia parcial de 2/3 da língua como tratamento. Cinco meses após a intervenção cirúrgica, o animal se encontrava bem adaptado à nova situação e não apresentava dificuldade de ingestão de sólidos ou líquidos. A glossectomia parcial pode proporcionar sobrevida digna para os animais, dada à capacidade que eles têm de se adaptar a esse tipo de intervenção. Unitermos: cirurgia, língua, traumatismo lingual

Maicon Pinheiro

Graduando em medicina veterinária UFSM vetpinheiro@hotmail.com

Liandra Vogel Portella

MV, anestesista Hospital Veterinário/UFSM

Abstract: Resection of great portions of the tongue is not common practice in dogs, due to the possibility of postoperative sequels. This article reports the case of a dog presented to the Veterinary Hospital of the University of Santa Maria with lingual traumatism and subsequent necrosis due to the passage of a firearm projectile. The animal underwent partial glossectomy of 2/3 of the tongue. Five months after the surgical intervention, the animal was well adapted to the new situation and it did not have any difficulties in ingesting solids or liquids. The amputation is an option that allows the survival of the animal, due to its capacity of adaptation to the procedure. Keywords: surgery, tongue, lingual traumatism

liandracp@terra.com.br

Resumen: Resecciones de grandes porciones de la lengua no son realizadas con frecuencia en canes, debido a preocupaciones con resultados post quirúrgicos desfavorables. En este relato es mostrado el caso de un perro que fue llevado al Hospital Veterinario de la Universidad de Santa Maria presentando traumatismo lingual con subsiguiente necrosis (debido al pasaje de un proyectil de arma de fuego), y sometido a una glosectomia parcial de 2/3 de la lengua como tratamiento. Cinco meses después de la intervención quirúrgica, el animal se encontraba bien y adaptado a la nueva situación sin presentar dificultad de ingesta de sólidos o líquidos. La glosectomia parcial es una opción que permite la sobrevida digna del animal debido a su capacidad de adaptación a este tipo de situación. Palabras clave: cirugía, lengua, traumatismo lingual

Clínica Veterinária, n. 74, p. 36-38, 2008

Introdução Pacientes com doenças na cavidade oral podem apresentar salivação, disfagia, anorexia, sangramento, odor fétido, ou podem permanecer assintomáticos 1. O traumatismo de língua pode ser conseqüência de complicações resultantes de déficit da vascularização, que promovem isquemia ou a necrose da área 2. Ressecções de grandes porções da língua em cães não são realizadas com frequência, em virtude da preocupação com a ocorrência de complicações pósoperatórias e com o declínio da qualidade de vida, decorrentes da redução da função lingual 3. Amputações de 40% a 60% da porção rostral da língua são bem toleradas, mas após o procedimento pode ser necessária a colocação de uma sonda para alimentação 1. Para verificar a capacidade de preensão e a qualidade de vida no pós operatório, cinco cães que haviam sido submetidos à glossectomia foram avaliados 3. Os exames foram realizados 36

de uma semana até oito anos após as cirurgias e, com base nos resultados obtidos, os autores concluíram que a amputação de parte da língua foi bem tolerada pelos cães e pode ser uma opção de tratamento viável quando necessária. Um cão desenvolveu isquemia seguida de necrose da língua devido à ingestão de pulmão bovino, e ficou com um anel traqueal preso na base da língua por mais de treze horas. Ao exame clínico, realizado após a remoção do anel traqueal, o tecido encontrava-se necrosado, pois os tecidos corporais não toleram mais do que seis horas de isquemia. Diante da impossibilidade de preservar a língua, foi realizada a amputação de todo o segmento livre do órgão 4. A manutenção da língua após a amputação completa ou de grande porção é um evento raro 3. Há relato 5 de revascularização por meio de anastomose, utilizando a artéria lingual esquerda e a veia lingual direita, após a amputação

traumática de 2/3 do órgão em um paciente humano, vitimado por acidente automobilístico, que deixou a porção cranial da língua ligada apenas por um pedículo. Cinco meses depois do procedimento o indivíduo apresentava função normal, boa cicatrização e vascularização do órgão. Depois da cirurgia de ressecção da língua, as manifestações adversas são o acúmulo de alimentos na cavidade oral, a dificuldade no trânsito alimentar e as aspirações durante e após a deglutição 6. O presente relato tem por objetivo apresentar a glossectomia parcial como alternativa para o tratamento de lesões graves da língua, pois quando conduzida de maneira adequada, essa intervenção permite adaptação satisfatória em cão. Relato de caso Um cão, macho, SRD, com suspeita de mordida por gambá, foi atendido no Hospital Veterinário Universitário da

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


Lígia Henz Silva

Universidade Federal de Santa Maria (HVU/UFSM). Segundo o proprietário, o cão havia desaparecido de casa durante aproximadamente uma semana e, quando foi encontrado apresentava ferimentos na boca e no pescoço, secreção sanguinolenta e um odor fétido na cavidade oral. Ao exame físico constatou-se que o animal estava desidratado, magro, com temperatura elevada, mas com ritmo cardíaco e demais parâmetros normais. O cão foi anestesiado com propofol a (6mg kg-1) para a realização de exame mais detalhado da cavidade oral, que permitiu a observação de necrose em aproximadamente 2/3 da região rostral da língua (Figura 1). Diante desse quadro, foi recomendada a amputação da parte comprometida. Os resultados do hemograma demonstraram anemia com hematócrito de 25%, hemácias 3,74 e hemoglobina 8,6g/dL. Na série branca constatou-se aumento de leucócitos para 20.100/µL, principalmente no número de bastonetes (1,6x103/µL), a contagem das demais células brancas estava dentro dos valores normais. O animal foi encaminhado ao setor de internação do hospital, onde recebeu solução de Ringer com lactato b (60mL kg-1 h-1) e antibioticoterapia – associação de metronidazol c (40mg kg-1) e cefalotina d (30mg kg-1), ambos por via intravenosa. Após ser hidratado, e sob proteção antibiótica, o paciente foi conduzido ao centro cirúrgico do HVUFSM, onde foi submetido à pré-medicação com midazolan e (0,4mg kg-1) e à indução anestésica com propofol (4mg kg-1). Para a manutenção anestésica, utilizou-se halotano f vaporizado em oxigênio em sistema semi-aberto e como terapia analgésica, foi empregado cloridrato de tramadol g (2mg kg-1). O animal foi mantido em

Figura 2 - Retirada do projétil alojado na região rostral da maxila do cão (seta)

Lígia Henz Silva

Figura 1 - Cão apresentando necrose de aproximadamente 2/3 da língua

fluidoterapia intravenosa com solução de Ringer Lactato e transfusão de 500mL de sangue, uma vez que os valores de hematócrito, hemoglobina e hemácias estavam abaixo da normalidade. Em exploração da cavidade oral do cão, realizada após anti-sepsia com clorexidine, foi encontrado e retirado um projétil de arma de fogo que estava alojado na parte rostral da maxila (Figura 2); o ferimento foi curetado e lavado abundantemente. Constatou-se, que a causa da necrose da língua não fora uma mordida de gambá, e sim a passagem do projétil. Para a glossectomia parcial foi realizada uma incisão elíptica ao redor da língua, com bisturi, e removeu-se toda a área que havia sofrido necrose (aproximadamente 2/3). Depois da remoção e da hemostasia da área lesionada, a incisão foi suturada com fio poliglactina 910 3-0, em pontos isolados simples, de modo a aproximar anatomicamente a porção remanescente da língua (Figura 3). Em seguida foi efetuada aplicação de tubo de faringostomia para facilitar a alimentação do animal, e evitar que a presença de alimentos na cavidade bucal interferisse na cicatrização. No pós-operatório foi administrado como antiinflamatório cetoprofeno h (2mg kg-1 ao dia), durante cinco dias e a terapia antibiótica foi mantida por mais dez dias, cada um dos antibióticos sendo administrado duas vezes ao dia, nas mesmas via e doses citadas anteriormente. Foi indicada limpeza do local cirúrgico com clorexidine três vezes ao dia. a) Fresofol 1%. Fresenius Kabi Brasil Ltda. Campinas, SP b) Ringer com lactato. Aster. Sorocaba, SP c) Astergyl. Aster. Sorocaba, SP d) Keflin. Antibióticos do Brasil LTDA. Cosmópolis, SP e) Dormonid. Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos S.A. Rio de Janeiro, RJ f) Tanohalo. Cristália. Campinas, SP g ) Tramal. laboratórios Pfizer LTDA. Guarulhos, SP h) Profenid. Sanofi-aventis. Morumbi, SP

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008

37


Bernardo Kemper

Fixação percutânea externa complementar na osteossíntese de fratura pélvica cominutiva bilateral relato de caso em um cão

MV, mestrando DMV/UFRPE

bkemper@bol.com.br

Maira Santos Severo

MV, mestranda DMV/UFRPE

mairasevero@yahoo.com.br

Marcela Luiz de Figueiredo MV, residente DMV/UFRPE

marcellalf@hotmail.com

Use of the complementary external percutaneous fixation in the osteosynthesis of bilateral comminuted pelvic fractures - case report in a dog

Alex Alves da Silva

MV, residente DMV/UFRPE

alex_alvesdasilva@yahoo.com.br

Ricardo Chioratto MV, doutorando DMV/UFRPE

rchioratto@hotmail.com

Fijación percutánea externa complementar en la osteosíntesis de fractura pélvica conminuta bilateral - relato de caso en un perro Resumo: Fraturas da pelve são relativamente comuns, sendo a maioria do tipo múltipla. Os métodos de fixação para as fraturas pélvicas incluem o uso de pinos e fios de Kirschner, placas ortopédicas, parafusos ortopédicos, cerclagem interfragmentar, e parafusos ortopédicos e polimetilmetacrilato. O objetivo deste trabalho é relatar a bem sucedida osteossíntese de uma fratura pélvica bilateral cominutiva pela combinação de duas técnicas ortopédicas de estabilização do coxal: utilizando parafusos e polimetilmetacrilato (PMMC) para a estabilização das fraturas acetabulares, e pinos de Schantz inseridos no ílio e ísquio, conectados externamente com PMMC. As vantagens dessa combinação, como simplicidade e versatilidade da técnica, recuperação funcional precoce, satisfação do proprietário com a evolução clinica do animal, cicatrização óssea apropriada e posterior remoção do fixador, diminuindo o número de implantes, justifica a sua utilização em fraturas pélvicas cominutivas bilaterais em cães. Unitermos: pelve, reparo de fratura Abstract: Fractures of the pelvis are relatively common and occur mostly at multiple sites. Fixation methods for pelvic fractures include the use of pins and Kirschner wires, orthopedic plates, orthopedic screws, interfragmentary cerclage and orthopedic screws and polymethylmetacrylate. The objective of this work is to describe the successful osteosynthesis of a bilateral comminuted pelvic fracture using the combination of two orthopedic surgical techniques: screw and polimetilmetacrilate (PMMA) usage for the stabilization of the acetabulum fractures, and the use of Schantz pins connected externally with PMMA. Many advantages justify the use of this combination in this type of fracture in dogs: simplicity, versatility, precocious functional recovery, owner satisfaction with the clinical evolution of the animal, appropriate bone scarring and subsequent fixative removal, which reduce the number of implants. Keywords: pelvis, fracture repair Resumen: Las fracturas de la pelvis son relativamente comunes y la mayoría de ellas son múltiples. Los métodos de fijación para las fracturas pélvicas incluyen el uso de clavos y alambres del Kirschner, placas ortopédicas, tornillos ortopédicos, cerclaje interfragmental y tornillos ortopédicos y polimetilmetacrilato (PMMC). El objetivo de este trabajo es describir la bien sucedida osteosíntesis de una fractura pélvica conminuta bilateral por la combinación de dos técnicas ortopédicas de estabilización del coxal: utilizando tornillos y PMMC para la estabilización de fracturas acetabulares y la utilización de clavos de Schantz en ilion e isquion, conectados externamente con PMMC. Las ventajas de esta combinación, como simplicidad y versatilidad de la técnica, recuperación funcional temprana, satisfacción del propietario con la evolución clínica del animal, cicatrización del hueso y retiro subsiguiente del fijador, reduciendo el número de implantes, justifica su uso en fracturas pélvicas conminutas en perros. Palabras clave: pelvis, reparación de la fractura

Clínica Veterinária, n. 74, p. 40-44, 2008

Introdução Fraturas da pelve são relativamente comuns e, em muitas clínicas veterinárias, respondem por 20% a 30% do total de fraturas atendidas 1,2,3,4. A maioria dessas fraturas é múltipla, ou seja, envolve mais de três ossos 3,4. Para fazer frente à alta prevalência dessas lesões, os cirurgiões veterinários devem ser 40

capazes de selecionar tratamentos adequados para diferentes tipos de fraturas 2. A pelve é constituída por vários ossos grandes e achatados que, pela sua articulação com o sacro, formam uma estrutura semelhante a um caixão. Essa estrutura contorna a porção caudal do esqueleto axial, conectando-o aos membros pélvicos. Cada hemipelve se compõe

Neuza Marques MV, doutoranda DMV/UFRPE

neuzavet@hotmail.com

Eduardo Alberto Tudury

MV, dr. prof. ass. I DMV/UFRPE

eat-dmv@ufrpe.br

de: ílio, acetábulo, ísquio e púbis 1. Na suspeita de fraturas pélvicas, após o exame clinico geral para estabelecer o estado geral do paciente, deve ser realizado exame ortopédico completo 5. Pela palpação são verificadas a simetria pélvica, a saúde articular e a presença de áreas doloridas ou edemaciadas. Pontos de orientação são as proeminências ósseas, como asa do ílio, trocanter maior e tuberosidade isquiática 6. Uma palpação retal adicional cuidadosa pode trazer informações sobre estreitamento do canal pélvico 5,6, mas o diagnóstico definitivo da extensão da fratura é proporcionado pelo exame radiográfico 5,6,7. Apesar de as fraturas pélvicas poderem ser tratadas com repouso e restrição de exercício, o reparo cirúrgico geralmente resulta em retorno funcional precoce, com menos dor e complicações durante a cicatrização 8. Complicações associadas às fraturas da pelve são usualmente conseqüência da ausência total de tratamento, podendo resultar em obstipação, constipação crônica, e impossibilitar a fêmea de ter partos normais em virtude da má união de fraturas do corpo do ílio 9. Outras complicações associadas ao tratamento

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


B

Bernardo Kemper

Figura 1 - Imagem radiográfica (A) e desenho esquemático da fratura do coxal (B). Lado esquerdo (E): fratura acetabular com deslocamento da porção acetabular caudal (para medial) sobrepondo-se como parte do corpo do ílio deslocado para lateral; fragmento acetabular ilíaco solto e deslocado craniolateralmente para fora da pelve; fratura de tábua isquiática. Lado direito: fratura acetabular com deslocamento do fragmento caudal, incluindo a cabeça femoral, para o interior do canal pélvico; corpo ilíaco situado lateral e externamente ao acetábulo: deslocamento para o interior do canal pélvico e do colo femoral. Fragmento acetabular do ílio (cranial) livre, discretamente rotacioado lateralmente e situado cranialmente à cabeça femoral

mantido anestesiado, e posteriormente foi intubado sob vaporização com oxigênio 100% e isoflurano f. A anestesia epidural foi complementada com associação de lidocaína g (1mL), bupivacaína h (1mL) e cloridrato de tramadol 5% (0,15mL) injetada no espaço epidural, entre L7-S1. Após preparação do campo cirúrgico e colocação dos panos de campo, foi realizada a abordagem lateral da hemipelve esquerda de acordo com técnica já descrita 11, mantendo-se o nervo ciático afastado e protegido com uma faixa de látex confeccionada a partir de um dedo de luva. O fêmur, juntamente com os fragmentos ósseos que compõem o acetábulo, encontrava-se deslocado cranial e medialmente. A tração caudo-lateral do fêmur com a utilização de pinça Backhaus (fixa no trocanter maior) promoveu redução parcial da fratura. Em seguida foram utilizadas pinças de redução de fragmentos ósseos para manter a fratura alinhada. Conforme descrito na literatura 12,13, foram então realizadas duas perfurações – uma cranial e a outra caudal à linha de fratura acetabular – para a inserção de dois parafusos auto-atarraxantes (aço 304 de 2,9mm), evitando-se a penetração da cavidade acetabular. Para a interligação desses parafusos usou-se um fio de aço (0,8mm de espessura) em banda de tenção: os parafusos foram deixados sobressalentes, o que permitiu sua estabilização pela colocação a) Tramaliv®.Teuto. Anápolis-GO b) Ketofen1%®. Merial Saúde Animal LTDA. Campinas-SP c) Acepram 0.2%®. Univet S/A. São Paulo-S d) Compaz ®. Cristália. São Paulo-SP e) Provine 2%®. Claris. São Paulo-SP f) Isoforine®. Cristália,. São Paulo-SP g) Lidovet®. Bravet. Rio de Janeiro-RJ h) Neocaína 0,5%®. Cristáila. São Paulo-SP

de cimento cirúrgico (PMMC), tomando-se o cuidado de envolver toda a superfície de suas extremidades. Durante a polimerização do PMMC, foi utilizada irrigação com solução fisiológica para minimizar o aquecimento. Com o intuito de complementar essa estabilização e manter os fragmentos fixos e alinhados, foram inseridos dois pinos de 2mm por 120mm com rosca negativa na ponta (tipo Schantz), um no corpo do ílio e outro no ramo acetabular do ísquio, com direção de dorsal para ventral em relação à pelve. Para isso, a musculatura e a pele foram reposicionadas antes da penetração dos pinos, evitando posterior tensão no ponto de inserção. Após lavagem e fechamento da ferida cirúrgica, a extremidades dos pinos foram envergadas para compor a barra externa de PMMC. Esse procedimento foi repetido na hemipelve contralateral e as barras então conectadas entre si, aumentando sua estabilidade mecânica (Figura 2). Bernardo Kemper

Relato de caso Um cão sem raça definida (SRD), de quatro anos de idade, pesando oito quilogramas e apresentando severa impotência funcional dos membros pélvicos foi encaminhado ao Hospital Veterinário da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Na anamenese constatouse que o animal havia sofrido acidente automobilístico cinco dias antes do atendimento, e desde então não se mantinha em estação. O paciente vinha sendo tratado em uma clinica veterinária particular com repouso, analgésicos, laxantes e cuidados de enfermagem, sem apresentar melhoras. Ao exame clínico, observou-se que o animal estava apático e manifestava crepitação e dor na manipulação da região pélvica, cuja conformação estava alterada. O paciente mantinha as funções urinárias normais, mas tinha dificuldade para defecar, e não apresentava alterações ao exame neurológico. Ao exame radiográfico foi evidenciada fratura pélvica cominutiva bilateral com severo estreitamento do canal pélvico e perda do eixo de sustentação (Figura 1). Optou-se pela osteossíntese após anestesia, utilizando cloridrato de tramadol a (2mg/kg/IM), cetoprofeno b (1mg/kg/IM) e acepromazina c (0,05mg/ kg/IM) na preparação pré-anestésica, e indução com diazepam d (0,5mg/kg/IV) e propofol e (4mg/kg/IV). O paciente foi

A

Bernardo Kemper

conservativo de fraturas pélvicas são a claudicação persistente associada a anomalias anatômicas e a doença articular degenerativa da articulação coxofemoral 8. Cada fratura deve ser abordada com plano pré-operatório minucioso, mas o cirurgião deve ter a versatilidade de impor mudanças quando necessário 2. Os métodos de fixação para as fraturas pélvicas incluem o uso de pinos de Steinmann, placas ortopédicas, e/ou parafusos ortopédicos e cerclagem interfragmentar 4. A utilização de parafusos ortopédicos e polimetilmetacrilato (PMMC) para a fixação de fraturas ilíacas e acetabulares apresentou resultados satisfatórios 10,12. O objetivo deste trabalho é relatar a bem sucedida osteossíntese de uma fratura pélvica bilateral cominutiva empregando fixação percutânea externa complementar à estabilização acetabular interna com parafusos e PMMC.

Figura 2 - Imagem fotográfica pós-cirúrgica imediata, mostrando os pinos de Schantz implantados no coxal e conectados externamente com uma barra de polimetilmetacrilato

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008

41


Renato Moraes Sarmento

Tumor maligno de bainha nervosa em papagaioverdadeiro (Amazona aestiva) - relato de caso

Médico veterinário, especialista bolostro@gmail.com

Adrien Wilhelm Dilger Sanches

MV, mestre. prof. adj. Setor de Patologia Animal HV/UNIPAR-Umuarama jabotrix@unipar.br

José Ricardo Pachaly

MV, mestre, dr. prof. tit. Setor de Medicina de Animais Selvagens HV/UNIPAR-Umuarama

Peripheral nerve sheath tumor in a bluefronted amazon parrot (Amazona aestiva) case report

pachaly@uol.com.br

Tumor maligno de vaina nerviosa en loro hablador (Amazona aestiva) relato de caso Resumo: O tumor maligno de bainha nervosa é um neoplasma raro, com poucos relatos em medicina veterinária, especialmente em aves. Este artigo apresenta um caso de tumor maligno de bainha nervosa em papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva). Realizou-se exérese da massa neoplásica sob anestesia geral dissociativa e acompanhamento da evolução pósoperatória durante 60 dias. O exame histopatológico revelou anisocitose, anisocariose, células gigantes multinucleadas e mitoses aberrantes. As células mesenquimais estavam entremeadas por substância intercelular abundante, conferindo ao tecido aspecto mixóide em algumas áreas (tecido Antoni B). Em outras áreas as células apresentavam-se em feixes sólidos, por vezes em forma curva ou nodular (tecido Antoni A). Os achados microscópicos possibilitaram o diagnóstico definitivo, como primeira ocorrência desse raro neoplasma em uma ave da Família Psittacidae, Ordem Psittaciformes. Unitermos: ave, Psittacidae, neoplasma, neurofibrossarcoma, schwannoma maligno Abstract: The peripheral nerve sheath tumor is a rare type of neoplasia. There are very few reports of this disease in veterinary medicine, and even less in birds. This paper reports the case of a peripheral nerve sheath tumor in a blue-fronted amazon parrot (Amazona aestiva). The neoplastic mass was excised under general dissociative anesthesia and the patient was monitored during 60 days after surgery. The histopathological examination revealed presence of anisocytosis, anisokaryosis, multinucleated giant cells and aberrant mitosis. The mesenchymal cells were interspersed by abundant intercellular substance, giving the tissue a myxoid appearance in some areas (Antoni B tissue), whereas in other areas the cells were gathered in solid bundles, sometimes in curved or nodular form (Antoni A tissue). The microscopic findings enabled the definitive diagnosis of peripheral nerve sheath tumor, to date the first reported occurrence of this rare neoplasia in a psittacine bird (Family Psittacidae, Order Psittaciformes). Keywords: bird, Psittacidae, neoplasia, neurofibrosarcoma, malignant schwannoma Resumen: Se reporta un caso raro de tumor maligno de vaina nerviosa en un loro hablador (Amazona aestiva). Se realizó escisión de la masa tumoral bajo anestesia general disociativa y monitoreo de la evolución post-operatoria por 60 días. El examen histopatológico evidenció anisocitosis, anisocariosis, células gigantes con múltiplos núcleos y mitosis aberrantes. Las células mesenquimales se encontraban intercaladas por sustancia intercelular abundante, dando al tejido un aspecto mixoide en algunas áreas (tejido Antoni B). En otras áreas las células tenían formación en agregados sólidos, por veces en forma curva o nodular (tejido Antoni A). El examen microscópico posibilitó el diagnóstico definitivo de tumor maligno de vaina nerviosa, como la primera ocurrencia de esta rara neoplasia en un ave de la Familia Psittacidae, Orden Psittaciformes. Palabras clave: ave, Psittacidae, neoplasia, neurofibrosarcoma, schwannoma maligno

Clínica Veterinária, n. 74, p. 46-50, 2008

Introdução e revisão da literatura O tumor maligno de bainha nervosa é também chamado de neurofibrossarcoma ou schwannoma maligno. É um tumor neurogênico que pode acometer nervos cranianos, periféricos ou raízes nervosas, originário de células que embainham essas estruturas. 1 Na bainha do nervo são encontrados três tipos celulares – células de Schwann, fibroblastos no epineuro, perineuro e endoneuro, e células perineurais. 2 É opinião preponderante que as células de Schwann 46

constituem a principal fonte desses tumores. Nos nervos periféricos, os ramos sensitivos são mais acometidos que os motores, e os tumores malignos de bainha nervosa são lesões circunscritas, bem encapsuladas e firmes, localizadas excentricamente nos nervos. 1,2,3,4,5,6,7,8 O tumor maligno de bainha nervosa freqüentemente ocorre como uma massa solitária, ao contrário do neurofibroma, que pode ser multilobulado. Os schwannomas são sempre encapsulados, enquanto os neurofibromas são caracterizados por

proliferação difusa. Podem ocorrer intracranialmente ou envolver raízes espinhais. As características patológicas incluem aumento fusiforme do nervo envolvido, e as características histopatológicas incluem células em fuso atípicas em proliferação, com núcleos delgados, serosos e pontiagudos, áreas de hipocelularidade e áreas apresentando espirais organizadas de proliferação fibroblástica. O exame microscópico revela um padrão celular frouxo e desorganizado, com núcleos alongados no meio

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


de tiras fibrosas. 1,2,3,4,5,6,7,8,9 Na extremidade cefálica extra craniana, a incidência desse neoplasma é rara, o que justifica a escassez de publicações a respeito. 1 Mesmo na literatura internacional, tanto em medicina humana quanto veterinária, verifica-se que poucos são os autores que dispõem de uma casuística maior, e todos são unânimes em afirmar a baixa freqüência desse tumor. 1,3,4,5,6,7,8,9 Em aves, a literatura é ainda mais escassa. Há relato de um caso de neurofibrossarcoma, em conjunto com leiomiossarcoma, observado em galinha (Gallus gallus) com sete semanas de idade, 10 um caso de neurofibrossarcoma na forma multicêntrica em ganso-canadense (Branta canadensis) adulto, 11 e em psitacídeos, no Brasil, um caso de fibrossarcoma em um exemplar de papagaio verdadeiro (Amazona aestiva). 9

Renato Moraes Sarmento

Relato de caso Um papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), de sexo indeterminado e com 18 anos de idade, foi atendido na rotina

da Clínica Veterinária Tratadog, na cidade de Americana, interior do Estado de São Paulo. O animal apresentava grande massa, com aproximadamente 3,5cm de diâmetro, na face esquerda (Figuras 1 e 2). Segundo relato do proprietário, o desenvolvimento foi relativamente rápido, pois a massa havia surgido aproximadamente três meses antes da consulta. Inicialmente era uma pequena nodulação sob a pele, que progrediu em termos de volume e se tornou ulcerada. O animal se apresentava apático e inapetente e, ao exame físico, constatou-se acentuada magreza – peso de 0,398kg. À palpação da massa, notou-se que sua consistência era firme e muito aderida, porém o animal não apresentava reações dolorosas. Como primeiro procedimento, após a aplicação de botão anestésico com 0,2mL de cloridrato de lidocaína a a 2%, foi efetuada punção com agulha 40x12, sendo aspirado somente pequeno volume de sangue. O animal permaneceu então internado por 10 dias, sob temperatura controlada e recebendo cuidados de suporte, como hidratação, alimentação forçada à base de queijo petit-suisse, grãos variados e ração comercial para papagaios. A resposta clínica foi positiva, e nesse período o paciente ficou mais ativo e

ganhou peso, chegando a 0,513kg. Uma vez estabilizadas as condições clínicas gerais, optou-se pela exérese da massa, com posterior encaminhamento de fragmento para a realização de exame histopatológico. O procedimento cirúrgico teve início com a indução de anestesia injetável dissociativa, pela associação de cloridrato de xilazina b, cloridrato de cetamina c e sulfato de atropina d, em doses calculadas por meio de extrapolação alométrica interespecífica. 12.13 Usou-se como modelo para os cálculos o cão doméstico de 10kg; a figura 3 indica as doses-modelo e as doses que foram administradas ao paciente, por via intramuscular (musculatura peitoral), após acondicionamento conjunto da associação de drogas em uma mesma seringa. A indução da anestesia ocorreu cinco minutos após a administração da associação de drogas, sendo então as penas da área operatória removidas por arrancamento, com margem de segurança de alguns milímetros (Figuras 4 e 5). A seguir, a pele foi incisada com bisturi elétrico, de forma semi-circular, na base posterior da massa, a qual foi então rebatida rostralmente (Figura 6). Isso possibilitou visualizar o olho esquerdo, que estava sepultado sob a massa, porém ainda íntegro e funcional. Foi efetuada então a excisão plena do

Figura 3 - Protocolo anestésico empregado em papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) para a realização de exérese de massa neoplásica localizada na face. As doses foram calculadas por meio de extrapolação alométrica interespecífica, usando como modelo as indicações para o cão doméstico

Droga Figura 1 - Vista frontal da massa neoplásica localizada na face esquerda de um papagaioverdadeiro (Amazona aestiva), e posteriormente identificada como tumor maligno de bainha nervosa

Cloridrato de cetamina Cloridrato de xilazina Sulfato de atropina

Dose-modelo, indicada para o cão doméstico de 10kg

Dose calculada para o papagaio de 0,513kg

10mg/kg

23,41mg/kg

2g/kg

4,68mg/kg

0,05mg/kg

0,12mg/kg

Renato Moraes Sarmento

Figura 4 - Vista ventral da massa neoplásica localizada na face esquerda de um papagaioverdadeiro (Amazona aestiva), após a remoção das penas circunjacentes

Renato Moraes Sarmento

Renato Moraes Sarmento

Figura 2 - Vista lateral esquerda da massa neoplásica localizada na face esquerda de um papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva)

Figura 5 - Vista lateral esquerda da massa neoplásica localizada na face esquerda de um papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), após a remoção das penas circunjacentes

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008

47


Mariana Caetano Teixeira

Aelurostrongylus abstrusus relato de caso em felino

MV, mestranda PPGCV/UFRGS

caetano_teixeira@hotmail.com

Tahisa Faria Velloso MV, esp. mestranda PPGCV/UFRGS

Aelurostrongylus abstrusus case report in a cat

tahisa@cbov.org

Cristina Germani Fialho MV, MSc. doutoranda PPGCV/UFRGS

Aelurostrongylus abstrusus relato de caso en felino

cristina.fialho@gmail.com

Sandra Tietz Marques

Médica veterinária, mestre, dra. sandra.tietz@terra.com.br

Resumo: Relata-se um caso clínico de parasitismo por Aelurostrongylus abstrusus em fêmea felina castrada, sem raça definida, de dois anos de idade, apresentando dispnéia, episódios de tosse seca e engasgos. O diagnóstico parasitológico, realizado pelas técnicas de Baermann, esfregaço direto e Willis-Mollay, detectou grande quantidade de larvas de A. abstrusus. A radiografia de tórax apresentou infiltrados peribrônquicos e padrão intersticial difuso, compatível com pneumonia. O tratamento à base de fenbendazol promoveu redução de 70% e 100% das larvas, redução esta observada nos exames parasitológicos, realizados, respectivamente, três e sete dias após o tratamento. Antibioticoterapia com amoxicilina e ácido clavulânico tratou a pneumonia bacteriana secundária, com diminuição considerável do desconforto respiratório. Unitermos: diagnóstico por imagem, coproparasitológico

Karla Escopelli MV, MSc

kescopelli@gmail.com

Flávio Antônio P. de Araújo

MV, MSc, prof. dr. Lab. Protozoologia, FV/UFRGS

faraujo@via-rs.net

Abstract: Here we report a clinical case of infection by Aelurostrongylus abstrusus in a two-year-old female mixed-breed cat with dyspnea, dry cough and gagging. The parasitological diagnosis by direct smearing and by Baermann's and Willis-Mollay's techniques revealed a large amount of A. abstrusus larvae. The chest radiograph showed peribronchial infiltration and a diffuse interstitial pattern compatible with pneumonia. Fenbendazole therapy caused a 70% and 100% reduction in larval count at three and seven days after treatment, respectively. Amoxicillin and clavulanic acid were used to treat the secondary bacterial pneumonia, with remarkable reduction of respiratory distress. Keywords: imaging diagnosis; coprological test Resumen: Se relata un caso clínico de parasitismo por Aelurostrongylus abstrusus en un felino hembra castrada, sin raza definida, dos años de edad, presentando disnea, episodios de tos seca y atoros. El diagnóstico parasitológico, por las técnicas de Baermann, Frotis Directo y Willis-Mollay, detectó gran cantidad de larvas de A. abstrusus. La radiografía presentó infiltrados peribrónquicos y patrón intersticial difuso, compatible con neumonía. El tratamiento a base de fenbendazol mostró reducción de 70% y 100% de las larvas al examen parasitológico, en tres y siete días pos tratamiento, respectivamente. Antibioticoterapia con amoxicilina y ácido clavulánico trató la neumonía bacteriana secundaria, con disminución considerable de la molestia respiratoria. Palabras clave: diagnóstico por imagen, coproparasitológico

Clínica Veterinária, n. 74, p. 52-54, 2008

Introdução O Aelurostrongylus abstrusus (Railliet, 1898), helminto da família Angiostrongylidae, é um nematódeo do trato respiratório de gatos 1,2. É de distribuição cosmopolita e independente de raça, idade e sexo 3, não sendo considerado zoonose 4. No pulmão, os parasitos adultos, medem ao redor de 14-15mm 5. Em achados macroscópicos, apresentam-se finos e delicados 6. As larvas L1 se caracterizam por apresentar uma estrutura em forma de gancho na extremidade posterior 7,8. O A. abstrusus, cujo ciclo biológico é heteroxeno, tem como hospedeiros intermediários os moluscos do gênero Subulina sp 9 ; e como vetores de transporte, roedores e pássaros. Assim os felinos são susceptíveis à doença em decorrência de seus hábitos alimentares 1,6. 52

As larvas aparecem nas fezes cinco a seis semanas após a infecção 2, podem sobreviver no ambiente por mais de um ano 10, e permanecer nos pulmões por vários anos 6. A aelurostrongilíase se apresenta sob as formas assintomática ou sintomática. Quando sintomática, detecta-se desde uma tosse branda até quadro clínico de angústia respiratória, e morte 1 decorrentes da consolidação pulmonar 5. O quadro sintomatológico deve ser associado também a deficiência imunológica 7. Na auscultação pulmonar identificam-se sibilos e crepitações, também presentes em outras afecções respiratórias como bronquite felina, asma, peritonite infecciosa felina e hérnia diafragmática 10,12 e ocasionalmente podem ocorrer complicações como a pneumonia bacteriana secundária 1,7. Intolerância a exercícios e

perda de peso também podem ser verificados 11. O diagnóstico de aelurostrongilíase é feito pela identificação das larvas do parasito nas fezes de felinos pelas técnicas de Baermann, flutuação em sulfato de zinco a 33%, esfregaço direto e solução hipersaturada com NaCl 11,12. As técnicas de flutuação em sulfato de zinco a 33% e o esfregaço direto são as mais utilizadas quando os felinos estão clinicamente infectados 1,12. Para a identificação do helminto A. abstrusus também pode ser utilizado o lavado transtraqueal 13. O diagnóstico por imagem (Raios X) mostra características de padrão bronquial e intersticial difuso, com densidade nodular mal definida, na porção caudal do pulmão, em decorrência do acúmulo de ovos no parênquima pulmonar 1,7,11. Os anti-helmínticos indicados são:

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


Fabiano Borges Figueiredo

Leishmaniose tegumentar americana em felino doméstico no município do Rio de Janeiro, Brasil relato de caso American tegumentary leishmaniasis in a domestic feline in the city of Rio de Janeiro, Brazil - case report Leishmaniasis tegumentaria americana en un felino doméstico en la ciudad de Rio de Janeiro, Brasil - relato de caso

MV, MSc, doutorando Lab. Pesq. Clínica Dermatozoonoses em Animais Domésticos IPEC/FIOCRUZ fabiano.figueiredo@ipec.fiocruz.br

Sandro Antonio Pereira

MV, MSc, doutorando Lab. Pesq. Clínica Dermatozoonoses em Animais Domésticos IPEC/FIOCRUZ sandroantonio@ipec.fiocruz.br

Isabella Dib Ferreira Gremião

MV, MSc, doutoranda Lab. Pesq. Clínica Dermatozoonoses em Animais Domésticos IPEC/FIOCRUZ dib@ipec.fiocruz.br

Lílian Dias Nascimento

Biomédica, MSc., doutoranda Lab. Vigilância em Leishmanioses IPEC/FIOCRUZ lilian@ipec.fiocruz.br

Maria de Fátima Madeira

Bióloga, DSc., pesquisadora adjunta Lab. Pesquisa Clínica em Dermatozoonoses em Animas Domésticos IPEC/FIOCRUZ fmadeira@ipec.fiocruz.br

Tânia Maria Pacheco Schubach

Resumo: As leishmanioses são zoonoses que acometem os seres humanos e outras espécies de mamíferos. São causadas por protozoários do gênero Leishmania e transmitidas através da picada de insetos vetores do gênero Phlebotomus. A primeira descrição de leishmaniose felina no mundo data de 1927. Desde então a doença tem sido esporadicamente notificada, tanto na forma cutânea quanto na forma visceral, em diversos países. O presente artigo relata um caso de leishmaniose tegumentar em gato doméstico no município do Rio de Janeiro, com ênfase nos achados parasitológicos, sorológicos, hematológicos, bioquímicos e histopatológicos. Unitermos: Leishmania, gato, diagnóstico

MV, DSc., pesquisadora associada Lab. Pesquisa Clínica em Dermatozoonoses em Animas Domésticos IPEC/FIOCRUZ schubach@ipec.fiocruz.br

Abstract: Leishmaniasis are zoonoses that affect humans and other mammalian species. They are caused by protozoa of the genus Leishmania, which are transmitted through the bite of sandflies of the genus Phlebotomus. The first case of feline leishmaniasis in the world was reported in 1927. Since then the occurrence of both cutaneous and visceral forms of the disease has been reported sporadically in several countries. The present report describes a case of tegumentary leishmaniasis in a domestic cat in the city of Rio de Janeiro, with emphasis in the parasitological, sorological, hematological, biochemical and histopathological findings. Keywords: Leishmania, cat, diagnosis Resumen: Las leishmaniasis son zoonosis que afectan seres humanos y otras especies de mamíferos. Son causadas por protozoarios del género Leishmania y la transmisión ocurre a través de la mordedura de los insectos del género Phlebotomus. El primer caso de la leishmaniasis felina en el mundo fue descrito en 1927. Desde entonces la enfermedad se ha informado de forma esporádica, en las formas cutánea y visceral en varios países. Se relata en la ciudad de Rio de Janeiro un caso del leishmaniasis tegumentaria en gato doméstico, enfatizando las alteraciones clínicas observadas, así como los resultados de los exámenes parasitológicos, serológicos, hematológicos, bioqu��micos e histopatológicos. Palabras clave: Leishmania, gato, diagnóstico

Clínica Veterinária, n. 74, p. 58-60, 2008

Introdução As leishmanioses, zoonoses que acometem o ser humano e outras espécies de mamíferos silvestres e domésticos de forma crônica, apresentam grande diversidade de manifestações clínicas. São causadas por protozoários do gênero Leishmania e transmitidas através da picada de insetos vetores da subfamília Phlebotominae 1,2. A primeira descrição de leishmaniose felina data de 1927 3. Desde então a doença tem sido esporadicamente notificada, em diversas partes do mundo, 58

tanto na forma cutânea quanto na forma visceral 4,5,6. No Brasil, o primeiro diagnóstico dessa doença, em um gato naturalmente infectado no Estado do Pará, foi firmado em 1939 com base na visualização de formas amastigotas ao exame citológico 7. Posteriormente, em Minas Gerais, pesquisadores identificaram, pela reação em cadeia da polimerase (PCR), parasitas do subgênero Viannia como causadores da doença em felinos 8. Dois casos autóctones de leishmaniose felina, nos quais o parasita foi isolado em

cultura e caracterizado como Leishmania (Viannia) braziliensis, foram diagnosticados pela primeira vez no Rio de Janeiro 9. A apresentação clínica das leishmanioses felinas varia de acordo com o parasita envolvido. Na leishmaniose visceral, os sinais clínicos mais freqüentes são: febre, perda de peso, icterícia, vômitos, alopecia recorrente no abdômen e na cabeça, descamação difusa, ulcerações junto a saliências ósseas, edema na borda das orelhas, linfadenopatia e úlcera de córnea 10,11. Na leishmaniose cutânea, as alterações comumente relatadas são: áreas de

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


alopecia arredondadas, nódulos e lesões ulceradas principalmente no nariz e nas orelhas, e lesões vegetantes nas regiões interdigital e plantar 5,6,7,8,9,12. Diferentes estudos sugerem que a coinfecção Leishmania spp. e vírus da leucemia felina (FeLV) ou vírus da imunodeficiência felina (FIV) pode favorecer a evolução clínica da leishmaniose 11,13,14,15. Na região metropolitana do Rio de Janeiro, o diagnóstico diferencial da leishmaniose tegumentar americana (LTA) felina deve ser estabelecido principalmente em relação à esporotricose, doença cujos sinais clínicos mais freqüentes são lesões cutâneas ulceradas, espirros e dispnéia 9,16. O diagnóstico da LTA felina baseiase na apresentação clínica, nas evidências epidemiológicas, na demonstração do parasito e na detecção de anticorpos específicos, mediante testes sorológicos como a imunofluorescência indireta (IFI) e o ensaio imunoenzimático (ELISA) 17. O presente estudo descreve os principais achados clínicos e laboratoriais de um caso de leishmaniose tegumentar felina.

animal estava apático, desidratado, desnutrido, caquético, com nariz e plano nasal edemaciados, mucosas nasais congestas e narinas totalmente obstruídas (Figura 2), mucosas oral e ocular hipocoradas e linfonodos mandibulares infartados. A partir de fragmentos de lesão cutânea foram realizados cultivos parasitológico e micológico, além de exame histopatológico e citopatológico. Para a coleta dos fragmentos o felino foi submetido a sedação com cloridrato de quetamina a 10% (10mg/kg), associado a acepromazina b 1% (0,2mg/kg) por via intramuscular. Após a anestesia local com cloridrato de lidocaína c 2%, anti-sepsia e assepsia, foram realizadas biópsias da borda da lesão com o auxílio de um punch de 3mm. Todos os procedimentos foram aprovados pela Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA - FIOCRUZ). Na cultura parasitológica 18 foram visualizadas formas promastigotas que, posteriormente, foram caracterizadas como L. (V.) braziliensis. O exame histopatológico revelou formas amastigotas compatíveis com o gênero Leishmania e processo inflamatório granulomatoso. No exame citopatológico não foram observadas formas amastigotas, e no cultivo micológico não houve isolamento de fungos patogênicos. Não foram constatadas alterações significativas nos exames hematológicos e bioquímicos. A pesquisa de anticorpos anti-L. (V.) braziliensis resultou positiva nas técnicas de ELISA e IFI, a última com título 1280. O resultado dos testes de detecção de antígenos de FeLV e anticorpos para FIV (SNAP Combo FeLV Ag/ FIV Ab ") d foi negativo.

Thais Okamoto

Thais Okamoto

Relato de caso A partir de inquérito epidemiológico visando a busca ativa de felinos domésticos na região do Mendanha, zona oeste do município do Rio de Janeiro, foi encontrado caso suspeito de leishmaniose felina. O animal, fêmea sem raça definida e não-castrada, tinha três anos e pesava 2,8kg. Ao exame dermatológico foram observadas duas lesões cutâneas ulceradas, com bordas elevadas e regulares e fundo granulomatoso, localizadas no plano nasal e com diâmetros de 12 e 7mm (Figura 1). No exame físico, verificou-se que o

Figura 1 - Felis catus, SRD, fêmea, três anos, com lesões ulcerativas no plano nasal causadas por L. (V.) braziliensis

Figura 2 - Felis catus, SRD, fêmea, três anos, com narinas totalmente obstruídas devido ao edema causado pela infecção por L. (V.) braziliensis

Discussão As alterações clínicas verificadas no presente relato são semelhantes àquelas descritas na literatura em casos similares, com predomínio do acometimento de mucosas nasais e obstrução das narinas, além de linfadenopatia regional 19. A presença de sinais de desidratação e caquexia pode ser atribuída à obstrução das narinas, que tende a provocar anorexia, como tem sido evidenciado em obstruções nasais de felinos causadas por diferentes afecções 20. A lesão no plano nasal verificada no presente caso já havia sido registrada em relato anterior, no Rio de Janeiro 9. Em contraste, a maioria das descrições de leishmaniose em felinos reporta, predominantemente, lesões tegumentares nas orelhas e nos membros 3,8,21. Com efeito, os achados do presente estudo reforçam a importância do exame clínico minucioso em animais suspeitos de leishmaniose – especialmente em regiões endêmicas –, em virtude da ampla variedade de sintomas nos felinos. Os achados histopatológicos desta investigação corroboram os resultados obtidos em estudo similar em gatos domésticos, que também evidenciou numerosas estruturas intracelulares compatíveis com o gênero Leishmania 11, reforçando a importância desse exame no diagnóstico da afecção em animais de companhia. Entretanto, não foram encontradas formas similares no exame citopatológico, o que difere dos resultados obtidos por outros pesquisadores, que obtiveram êxito na visualização de formas amastigotas do parasito em felinos 8. No Estado do Rio de Janeiro, a esporotricose felina é considerada importante causa de diagnóstico diferencial com a leishmaniose. De vez que o cultivo fúngico de fragmento de lesão cutânea do animal objeto do presente relato não evidenciou o agente etiológico da esporotricose, descartou-se a possibilidade de acometimento por aquela zoonose 9. Na literatura médico-veterinária, não há relatos sobre a detecção de infecção a) Ketamina Agener 10%®. União Química Farmacêutica Nacional S/A. Embu-Guaçu, SP. b) Acepran 1%®. UNIVET S/A - Industria Veterinária. São Paulo, SP. c) Lidovet®. Laboratório Bravet LTDA. Rio de Janeiro, RJ. d) SNAP Combo FeLV Ag / FIV Antibody Test TM, IDEXX Laboratories, Wesbrook, USA. Sander 2004 Comércio em Geral Ltda. São Gonçalo, RJ

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008

59


Vasculite necrosante e focos hemorrágicos no encéfalo de gato acometido pela peritonite infecciosa dos felinos - relato de caso

Alexandre Gonçalves Teixeira Daniel

Necrotizing vasculitis and hemorrhagic foci in the encephalon of a cat with feline infectious peritonitis - a case report

Audrey Cristina Rosatti de Souza

Vasculitis necrosante y focos hemorrágicos en encéfalo de gato acometido por peritonitis infecciosa felina - relato de caso

dando início ao processo de reação imunológica que resulta na formação de piogranulomas, vasculite, falência de órgãos e morte 6,7,8,9. Anticorpos específicos para o coronavírus entérico felino são encontrados em 80 a 90% dos gatos que vivem em colônias, e em 10 a 50% dos gatos que vivem em residências, sem companhia ou contato com outros animais da espécie 10. Entretanto, somente 5 a 10% dos gatos que vivem em colônias desenvolvem a PIF, e gatos não pertencentes a colônias ou ambientes de risco têm uma incidência menor de desenvolvimento da doença 10. A manifestação neurológica da PIF ocorre em cerca de 1/3 dos gatos acometidos pela doença, e apresenta sintomas como ataxia, convulsões, hiperestesia, hiper-reflexia, propriocepção reduzida, paralisia de cauda, head tilt (cabeça pendente para a direita ou para a esquerda), depressão mental e paralisia, entre outras manifestações neurológicas 9,11,12. A PIF é responsável por cerca de 16% dos casos de desordens do sistema nervoso central dos felinos domésticos 4. Também é predominante entre as doenças medulares em gatos 13. Convulsões provocadas em gatos pela forma neurológica da doença são associadas a extenso quadro de lesões cerebrais, existindo uma pior evolução da doença 14 . As alterações histopatológicas verificadas no sistema nervoso são variáveis, e podem ser difusas, multifocais ou localizadas. As lesões definitivas e características da PIF são caracterizadas por piogranulomas resultantes de processo

Resumo: A peritonite infecciosa dos felinos é uma doença comum e fatal, que pode ocorrer sistemicamente ou em órgãos isolados, sendo a afecção neurológica uma manifestação habitual. Uma fêmea felina, de um ano de idade, foi atendido com quadro de disorexia, paralisia de membros posteriores e hematúria. Os exames laboratoriais e radiográficos do animal não mostraram alterações. Após 20 dias de tratamento suporte, o animal apresentou panuveíte e foi submetido à eutanásia. O exame necroscópico mostrou diversas áreas de vasculite necrótica, malácia e hemorragia em tecido nervoso, com presença de polimorfonucleares, neutrófilos e aneurismas, secundários a severa vasculite necrótica, além de congestão, edema e degeneração neuronal. Embora o quadro histopatológico seja condizente com a peritonite infecciosa dos felinos, a manifestação exacerbada do sistema imune gerando vasculite necrótica e formação de aneurismas mostrou-se incomum. Unitermos: neurologia, coronavírus, patologia Abstract: Feline infectious peritonitis is a common and fatal disease that may occur systemically or in any single organ. Primary neurological disease is a common manifestation. A one-year-old female cat with dysorexia, hind limb paralysis and hematuria was attended. CBC, biochemical and radiographic exams had no alterations. Twenty days after support treatment, the cat presented panuveitis and was euthanized. The necropsy showed several areas of necrotic vasculitis, malacia and hemorrhage in nervous tissue, with polymorphonuclears, neutrophils and aneurysm secondary to severe necrotic vasculitis, as well as congestion, edema and neuronal degeneration. Although the histopathological exam was compatible with feline infectious peritonitis, the intense immune response, which caused vasculitis and aneurysm, was most uncommon. Keywords: neurology, coronavirus, patology Resumen: La peritonitis infecciosa felina es una enfermedad común y fatal. Puede presentarse sistémicamente o en órganos aisladamente y la afección neurológica es la manifestación más común. Un felino hembra, de un año de edad, fue atendido con disorexia, parálisis de miembros posteriores y hematuria. Exámenes de laboratorio y radiografías no evidenciaron alteraciones. Luego de 20 días de tratamiento, el animal presentó panuveítis y fue eutanasiado. La necropsia mostró diversas áreas de vasculitis necrosante, malacia y hemorragia en tejido nervioso, con presencia de polimorfonucleares, neutrófilos y aneurismas, secundarios a una severa vasculitis necrosante, además de congestión, edema y degeneración neuronal. Aunque el cuadro histopatológico sea concordante con la peritonitis infecciosa, la manifestación exacerbada del sistema inmune, generando vasculitis necrosante y formación de aneurismas, son poco comunes. Palabras clave: neurología, coronavíru, patología

Clínica Veterinária, n. 74, p. 62-66, 2008

Introdução As causas de manifestações neurológicas em gatos são bem documentadas na literatura médico-veterinária 1,2,3 e podem ser incitadas por diversos fatores, dentre os quais se incluem, principalmente, as alterações congênitas, degenerativas, inflamatórias/infecciosas e neoplásicas 4. A peritonite infecciosa dos felinos (PIF) é uma doença imunomediada progressiva 62

com desenvolvimento de reação do tipo Arthus (hipersensibilidade tipo III), que acomete predominantemente gatos que vivem em colônias 5. É causada por uma variante mutante do coronavírus entérico felino (FCoV) que tem predileção pelos macrófagos, através dos quais adentra o sistema imune dos animais e, aí instalada, espalha intracelularmente a infecção. Portanto, os macrófagos infectados disseminam sistemicamente o vírus,

Médico veterinário autônomo alegtd@yahoo.com.br

Archivaldo Reche Junior

MV, prof. dr. Depto. Clínica Médica FMVZ/USP valdorec@usp.br

Paulo César Maiorka

MV, prof. dr. Depto. Patologia FMVZ/USP

maiorka@usp.br

Médica veterinária autônoma audreycrs@ig.com.br

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


Rinaldo Cavalcante Ferri

Eletrocardiografia em quatis (Nasua nasua - Linnaeus, 1766) mantidos em cativeiro e contidos quimicamente com quetamina e xilazina

Médico veterinário autônomo, mestre DMV/UFRPE naldoferri@gmail.com

Fabrício Bezerra de Sá MV, prof. dr. - DMFA/UFRPE

crleucas@yahoo.com

Cyro Rego Cabral Jr

Bioestatístico, prof. dr. - FANUT/UFAL

zoocrcj@gmail.com

Simona Teobaldo Sanchez

Electrocardiography in coatis (Nasua nasua - Linnaeus, 1766) maintained in captivity and restrained chemically with ketamine and xylazine

MV, mestre, dra.

monasanchez@ig.com.br

Taciana Pontes Spinelli Médica veterinári autônoma spinellitaciana@yahoo.com

Electrocardiografía en coatíes (Nasua nasua - Linnaeus, 1766) mantenidos en cautiverio y contenidos químicamente con cetamina y xilazina Resumo: Este trabalho teve por objetivo avaliar o perfil eletrocardiográfico de 21 quatis (Nasua nasua - Linnaeus, 1766) mantidos em cativeiro. Para tanto, os animais foram submetidos à contenção química com quetamina e xilazina. As variáveis analisadas foram: freqüência cardíaca (FC), ritmo, eixo elétrico médio (EEM), onda P, complexo QRS, intervalos PR e QT, segmento ST e onda T. Os resultados encontrados foram: FC (157,62±28,22 bpm); onda P (0,058±0,021 mV e 0,03±0,0056 seg); QRS (0,551±0,20 mV e 0,0335±0,0055 seg); PR (0,07±0,0097 seg); e QT (0,165±0,017 seg). O ritmo dominante foi o sinusal (90,48%). O EEM variou de -30˚ a +90˚ sendo que, em 90,48% dos animais, estava dentro do intervalo +60˚ a +90˚. Os valores observados para os quatis foram similares aos de gatos (mensurações e configurações do complexo P-QRS-T) e cães domésticos (EEM). Unitermos: procyonidae, eletrofisiologia, coração, anestesia Abstract: The objective of this work was to evaluate the electrocardiographic profile in 21 coatis (Nasua nasua - Linnaeus, 1766) kept in captivity. Animals were anesthetized with ketamine and xylazine. The variables analyzed were: heart rate (HR), rhythm, mean electrical axis (MEA), P wave, QRS complex, PR and QT intervals, ST segment and T wave. Results were as follows: FC (157.62±28.22 bpm); P (0.058±0.021 mV and 0.03±0.0056 s); QRS (0.551±0.20 mV and 0.0335±0.0055 s); PR (0.07±0.0097 s); QT (0.165±0.017 s.). Normal sinus rhythm was dominant (90.48%). The MEA varied from -30˚ to +90˚; in 90.48% of the cases it was between +60˚ and +90˚. The values observed in coatis were similar to those of domestic cats (voltage and P-QRS-T complex) and domestic dogs (MEA). Keywords: procyonidae, electrophysiology, heart, anesthesia Resumen: Este trabajo tuvo como objetivo evaluar el perfil electrocardiográfico de 21 coatíes (Nasua nasua - Linnaeus, 1766) mantenidos en cautiverio y contenidos químicamente utilizando cetamina y xilazina. Las variables analizadas fueron: frecuencia cardiaca (FC), ritmo, eje eléctrico medio (EEM), onda P, complejo QRS, intervalo PR y QT, segmento ST y onda T. Los resultados encontrados fueron: FC (157,62±28,22 bpm); onda P (0,058±0,021 mV y 0,03±0,0056 s); QRS (0,551±0,20 mV y 0,0335±0,0055 s); PR (0,07±0,0097 s); y QT (0,165±0,017 s). El ritmo dominante fue el sinusal normal (90,48%). El EEM varió de -30˚ a +90˚, aunque en 90,48% de los animales estaba en el intervalo de +60˚ a +90˚. Los valores observados para los coatíes fueron similares a los de gato (mensuraciones y configuraciones del complejo P-QRS-T) y de perro domésticos (EEM). Palabras clave: procyonidae, electrofisiología, corazón, anestesia

Introdução A família Procyonidae pertence à ordem carnívora e todos os seus representantes habitam o Novo Mundo, possuindo extensões territoriais que adentram a região neotropical. Está dividida em seis gêneros, com 18 espécies. Na América do Sul encontram-se quatro 68

gêneros (Procyon, Nasua, Potos e Bassaricyon) e quatro a sete espécies 1. Filogeneticamente, a família Procyonidae é considerada um ramo do ancestral da família canídea 2. O quati (Nasua nasua - Linnaeus, 1766) é um procionídeo identificado pelo formato do corpo e pelo focinho

Ilvio Mendes Vidal

Clínica Veterinária, n. 74, p. 68-74, 2008

longo, que se destaca diante de olhos e orelhas pequenos. Mede entre 70 e 120 centímetros e pesa de três a seis quilogramas. Sua dieta, que varia sazonalmente, inclui frutas, insetos, ovos e pequenos vertebrados. É encontrado na América do Sul, desde o leste dos Andes (a partir da Colômbia e da Venezuela), até a Argentina e o Uruguai. No Brasil, é criado como animal de estimação por alguns povos indígenas, enquanto outros o incluem em sua dieta (Figura 1) 1,3,4. Embora seja uma técnica antiga, a eletrocardiografia é de uso recente na medicina veterinária de animais selvagens e os padrões de normalidade e a avaliação das alterações do traçado elétrico associadas às doenças ainda não estão suficientemente elucidados nessas espécies. Assim, a aplicação dos

Figura 1 - Quati (Nasua nasua - Linnaeus, 1766)

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


Divulgação

VIROLOGIA VETERINÁRIA

Virologia Veterinária - 888 páginas - Editora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)

W Divulgação

ilson Grassi, autor de Seja vegano, é medico veterinário, formado em 1994 pela Universidade Paulista. Além de trabalhar como clínico de

Seja vegano - 110 páginas - Giz Editorial

76

E

m Virologia veterinária, obra organizada por Eduardo Furtado Flores e editada pela Editora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o leitor irá encontrar uma obra extremamente atual, respaldada pelos avanços na genética e biologia dos agentes virais e por uma ampla lista de especialistas do Brasil e do exterior que colaboraram na execução da obra. O objetivo da obra é fornecer informações básicas sobre a estrutura, biologia, patogenia, diagnóstico e controle dos principais vírus de interesse veterinário. Os principais aspectos da biologia molecular e replicação viral são abordados de maneira simples e de fácil compreensão, para embasar o entendimento da patogenia, resposta imunológica e diagnóstico dessas infecções. A parte inicial da obra aborda os aspectos gerais da virologia animal, discorrendo sobre a estrutura, classificação

e nomenclatura, genética e evolução, métodos de detecção e identificação de vírus, aspectos gerais da replicação viral, replicação de vírus DNA e RNA, patogenia das infecções, epidemiologia, imunidade a vírus, diagnóstico laboratorial e vacinas. As famílias virais de importância em medicina veterinária, são tratadas individualmente, abordando-se os aspectos gerais, a estrutura dos vírions, a estrutura da organização genômica, expressão gênica, replicação do genoma e o ciclo replicativo, dando enfoque às doenças de importância veterinária, discorrendose sobre as características dos agentes, epidemiologia, patogenia, sinais clínicos e patologia, diagnóstico, controle e profilaxia. Editora UFSM: (55) 3220-8610 www.ufsm.br/editora editora@ctlab.ufsm.br

SEJA VEGANO pequenos animais, é diretor da Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais do Estado de São Paulo (Anclivepa-SP) e membro da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), dedicando-se à difusão do veganismo e da proteção animal Wilson Grassi, através de experiências pessoais, mostra, de uma forma descontraída, como ele se tornou vegano, o porquê de ser vegano e o quanto isso é bom para a saúde, para a consciência, para os animais e para o planeta. De leitura fácil, Seja vegano pode ser lido por qualquer pessoa, adulto ou criança. Para incentivar as pessoas a tornarem-se veganas, também incluiu no livro receitas culinárias para que todos possam desfrutar de saborosas refeições que não possuam absolutamente nada de origem animal. Os animais devem ter direitos? Sentem dor? Têm inteligência e sentimentos afetivos? E o mais importante, têm interesses? As respostas são comentadas por Grassi, que além de utilizar ilustrações bem humoradas, inclui

diversas frases de celebridades, como, por exemplo, uma de Pitágoras: “Enquanto o homem continuar a ser o destruidor dos seres animados dos planos inferiores, não conhecerá a saúde nem a paz. Enquanto os homens massacrarem os animais, eles se matarão uns aos outros. Aquele que semeia a morte e o sofrimento não pode colher a alegria e o amor”. “Muitos ainda não sabem o que significa ser vegano. Aliás, a palavra ainda não consta oficialmente na lígua portuguesa... Os veganos reconhecem que os animais têm direitos. Principalmente, direito à vida e à liberdade. Para serem coerentes com este princípio, os veganos são contra a exploração dos animais, seja para quaisquer fins. Portanto, contra a utilização dos animais como comida, vestuário, diversão, experiências científicas, comércio de animais etc”, explica o autor. Veterinário Wilson Grassi: www.wilsonveterinario.com.br

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


Legislação Resolução do CFMV normatiza procedimentos cirúrgicos RESOLUÇÃO N. 877, DE 15 DE FEVEREIRO DE 2008* Dispõe sobre os procedimentos cirúrgicos em animais de produção e em animais silvestres; e cirurgias mutilantes em pequenos animais e dá outras providências. *www.cfmv.org.br/portal/legislacao/resolucoes/resoluca_877.pdf

O CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA VETERINÁRIA – CFMV, no uso das atribuições que lhe são conferidas pela alínea “i” do Artigo 6° e alínea “f” do Artigo 16 da Lei no 5.517, de 23 de outubro de 1968, combinado com os Artigos 2°, 4° e 6° inciso VIII, Artigo 13 inciso XXI e Artigo 25 incisos I, II e III da Resolução n. 722, de 16 de agosto de 2002, considerando a necessidade de disciplinar, uniformizar e normatizar procedimentos cirúrgicos em animais de produção e em animais silvestres; considerando que esses procedimentos cirúrgicos devem ser realizados em condições ambientais aceitáveis, com contenção física, anestesia e analgesia adequadas, e técnica operatória que respeite os princípios do pré, trans e pós-operatório; considerando a necessidade de disciplinar, uniformizar e normatizar cirurgias mutilantes em pequenos animais; considerando que as intervenções cirúrgicas ditas mutilantes, em pequenos animais, têm sido realizadas de forma indiscriminada em todo o País e que muitos procedimentos são danosos e desnecessários, o que fere o bem-estar dos animais; considerando que é obrigação do médico-veterinário preservar e promover o bem-estar animal, RESOLVE: CAPÍTULO I DAS DISPOSIÇÕES GERAIS Art. 1° Instituir, no âmbito do Conselho Federal de Medicina Veterinária, normas regulatórias que balizem a condução de cirurgias em animais de produção e em animais silvestres; e cirurgias mutilantes em pequenos animais. Art. 2º As cirurgias devem ser realizadas, preferencialmente, em locais fechados e de uso adequado para esta finalidade. Art. 3º Todos os procedimentos anestésicos e/ou cirúrgicos devem ser realizados exclusivamente pelo médico 78

veterinário conforme previsto na lei n. 5.517/68. Parágrafo único. Devem ser respeitadas as técnicas de antissepsia nos animais e na equipe cirúrgica, bem como a utilização de material cirúrgico estéril por método químico ou físico. CAPÍTULO II DOS PROCEDIMENTOS CIRÚRGICOS EM ANIMAIS DE PRODUÇÃO Art. 4º Não se recomenda o uso exclusivo de contenção mecânica para qualquer procedimento cirúrgico, devendo-se promover anestesia e analgesia adequadas para cada caso (conforme estabelecido no Anexo 1). Art. 5º O escopo desta Resolução abrange as cirurgias realizadas em locais onde não haja condições ideais para garantir um ambiente cirúrgico controlado. §1º Todos os procedimentos devem ser realizados de acordo com o previsto no Anexo 1 desta Resolução, observadas as suas indicações clínicas. §2º São considerados procedimentos proibidos na prática médico- veterinária: castração utilizando anéis de borracha, caudectomia em ruminantes ou qualquer procedimento sem o respeito às normas de antissepsia, profilaxia, anestesia e analgesia previstos no Anexo 1 desta resolução. §3º São considerados procedimentos não recomendáveis na prática médicoveterinária: corte de dentes e caudectomia em suínos neonatos e debicagem em aves. CAPÍTULO III DAS CIRURGIAS EM ANIMAIS SILVESTRES Art. 6° As cirurgias realizadas em animais silvestres devem ser executadas de preferência em salas cirúrgicas ou em ambientes controlados e específicos para este fim, respeitado o disposto nos

Artigos 2º e 3º desta Resolução. Parágrafo único. Fica proibida a realização de cirurgias consideradas mutilantes, tais como: amputação de artelhos e amputação parcial ou total das asas conduzidas, com a finalidade de marcação ou que visem impedir o comportamento natural da espécie. CAPÍTULO IV CIRURGIAS ESTÉTICAS MUTILANTES EM PEQUENOS ANIMAIS Art. 7° Ficam proibidas as cirurgias consideradas desnecessárias ou que possam impedir a capacidade de expressão do comportamento natural da espécie, sendo permitidas apenas as cirurgias que atendam as indicações clínicas. §1° São considerados procedimentos proibidos na prática médico-veterinária: conchectomia e cordectomia em cães e, onicectomia em felinos. §2° A caudectomia é considerada um procedimento cirúrgico não recomendável na prática médico-veterinária.

A conchectomia, comum em algumas raças de cães, como o schnauzer miniatura, fica proibida a partir da publicação da resolução n. 877

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


Legislação Caça é proibida no Estado do Rio Grande do Sul Em 2004 as entidades União pela Vida e Movimento Gaúcho de Defesa Animal ingressaram com ações civis públicas contra a caça amadorística. Foram quatro anos de luta, reunindo material para derrubar uma prática de extrema crueldade. O Ministério Público Federal também atuou. Todas as ações foram julgadas procedentes no primeiro grau. Contudo, a ação mais importante, sob o ponto de vista legal, já que atacou a prática da caça amadorística confrontando-a com a Constituição Federal, e requerendo a aplicação da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, foi julgada improcedente no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em recurso apresentado pelo IBAMA e pela FEDERAÇÃO DE CAÇA E TIRO. No entanto, por não ter sido unânime a decisão possibilitou a apresentação de outro recurso, embargos infringentes, que foram elaborados pela JUS BRASIL e pelo Ministério Público Federal, ambos os recursos tiveram êxito, e a caça amadorística está proibida no Rio Grande do Sul - único estado da federação que possuía legislação regulamentando essa atividade. Acreditase que eventuais recursos aos Tribunais Superiores não terão sucesso, diante dos argumentos trazidos aos autos pela entidade autora.

80

EMBARGOS INFRINGENTES EM AC Nº 2004.71.00.021481-2/RS EMENTA AMBIENTAL. CAÇA AMADORÍSTICA. EMBARGOS INFRINGENTES EM FACE DE ACÓRDÃO QUE, REFORMANDO A SENTENÇA DE PARCIAL PROCEDÊNCIA EM AÇÃO CIVIL PÚBLICA AJUIZADA COM VISTAS À VEDAÇÃO DA CAÇA AMADORISTA NO RIO GRANDE DO SUL, DEU PROVIMENTO ÀS APELAÇÕES PARA JULGAR IMPROCEDENTE A ACTIO. PRÁTICA CRUEL EXPRESSAMENTE PROIBIDA PELO INCISO VII DO § 1° DO ART. 225 DA CONSTITUIÇÃO E PELO ART. 11 DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DOS ANIMAIS, PROCLAMADA EM 1978 PELA ASSEMBLÉIA DA UNESCO, A QUAL OFENDE NÃO SÓ I. O SENDO COMUM, QUANDO CONTRASTADO O DIREITO À VIDA ANIMAL COM O DIREITO FUNDAMENTAL AO LAZER DO HOMEM (QUE PODE SER SUPRIDO DE MUITAS OUTRAS FORMAS) E II. OS PRINCÍPIOS DA PREVENÇÃO E DA PRECAUÇÃO, MAS TAMBÉM APRESENTA RISCO CONCRETO DE DANO AO MEIO AMBIENTE, REPRESENTADO PELO POTENCIAL TÓXICO DO CHUMBO, METAL UTILIZADO NA MUNIÇÃO DE CAÇA. PELO PROVIMENTO DOS EMBARGOS

INFRINGENTES, NOS TERMOS DO VOTO DIVERGENTE. Com razão a sentença ao proibir, no condão do art. 225 da Constituição Federal, bem como na exegese constitucional da Lei n.º 5.197/67, a caça amadorista, uma vez carente de finalidade social relevante que lhe legitime e, ainda, ante à suspeita de poluição ambiental resultante de sua prática (irregular emissão de chumbo na biosfera), relatada ao longo dos presentes autos e bem explicitada pelo MPF. Ademais, i. proibição da crueldade contra animais - art. 225, § 1°, VII, da Constituição - e a sua prevalência quando ponderada com o direito fundamental ao lazer, ii. incidência, no caso concreto, do art. 11 da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, proclamada em 1978 pela Assembléia da UNESCO, o qual dispõe que o ato que leva à morte de um animal sem necessidade é um biocídio, ou seja, um crime contra a vida e iii. necessidade de consagração, in concreto, do princípio da precaução. 3. Por fim, comprovado potencial nocivo do chumbo, metal tóxico encontrado na munição de caça. 4. Embargos infringentes providos.

A íntegra da decisão: www.trf4.gov.br/trf4/processos/visualizar_documento_gedpro.php?local=trf4& documento=2130570&hash=1e5af6f45bbf991939481469e8a46b9a

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


Ecologia Animais silvestres como animais de estimação

O

Ibama realizou consulta pública, que se encerrou no dia 6 de abril de 2008, para estudar a possibilidade de algumas espécies da fauna silvestre serem criadas e comercializadas com a finalidade de animal de estimação. A ação recebeu cerca de 10 mil e-mails. “A análise da consulta pública vai ser feita baseada nos critérios do Conama [Conselho Nacional do Meio Ambiente]. Serão consideradas apenas as contribuições encaminhadas no sentido de justificar a inclusão ou exclusão de alguma espécie”, informou a coordenadora substituta de Gestão do Uso da Fauna do Ibama, Raquel Sabaine, em entrevista à Agência Brasil. De acordo com Raquel Sabaine, a lista definitiva das espécies que poderão ser criadas como animais de estimação deverá ser publicada em maio deste ano. A seguir, publicamos algumas manifestações sobre o assunto, que merece atenção e discussão.

A fauna silvestre como mercadoria: mais uma vitória do especismo?*

Por Paula Brügger (brugger@ccb.ufsc.br), bióloga, professora do Departamento. de Ecologia e Zoologia

da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ex-membro da Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA), mestra em educação e doutora em ciências humanas - sociedade e meio ambiente. É autora dos livros "Educação ou adestramento ambiental?", que está na 3ª edição, e "Amigo Animal – reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente". Atualmente, coordena o projeto educacional "Amigo Animal".

* Fonte: Pensata Animal, n. 10, ano I, abril 2008 - http://www.sentiens.net/top/PA_TRI_paulabrugger_10_top.html

O Ibama - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - disponibilizou para Consulta Pública uma lista com mais de 50 espécies da fauna silvestre nativa que poderão ser criadas e comercializadas como animais de estimação1. Répteis como iguanas e o lagarto-preguiça e uma grande variedade de aves como o tucano, o tico-tico, a graúna, e diversos tipos de psitacídios - como periquitos, araras, caturritas e papagaios poderão compor o novo rol de animais que serão criados e vendidos como “pets”. Na contramão de uma ética biocêntrica:

O primeiro preceito de ordem ética que tal consulta afronta é o fato de os animais não-humanos serem seres vivos sencientes e não coisas. Portanto, jamais poderiam ser “objetos” passíveis de mercantilização. Já não basta termos interferido ao longo de nossa trajetória histórica no planeta – por meio da domesticação - no curso de tantas outras espécies? Mesmo desconsiderando nesta discussão todo o sofrimento imposto aos bilhões de animais criados com a finalidade de serem abatidos para consumo humano (e os conseqüentes impactos ambientais e sociais decorrentes dessa prática), 1 - Conforme determina o Art. 3º da Resolução Conama nº 394 de 6 de novembro de 2007. A Consulta Pública esteve disponível até o dia 6 de abril de 2008 no site do Ibama

86

os problemas advindos da domesticação de animais como cães e gatos, sobretudo nos ambientes urbanos, ainda estão longe de ter uma solução. Por que, então, persistir, ampliar e legitimar uma relação com o entorno que tem sido tão problemática? A resposta para essa pergunta jaz, em grande parte, na visão antropocêntrica de mundo que guia nossa cultura. Vemos a natureza como uma grande fábrica, ou seja, como um conjunto de recursos ou meios para se atingir um fim: o de servir aos interesses humanos. E esse ideário está presente inclusive no nome do órgão responsável pela estapafúrdia consulta. Na contramão da prudência ecológica:

O Ibama argumenta que como o Brasil é signatário da “Convenção sobre Diversidade Biológica”, cujo objetivo é - em tese – a conservação da diversidade biológica e a utilização sustentável de seus componentes, tal medida seria importante para prevenir e combater na origem as causas da redução ou perda da diversidade biológica e controlar ou erradicar e impedir que se introduzam espécies exóticas que ameacem os ecossistemas, habitats ou espécies, entre outras questões. Mas é no mínimo contraditório que um país signatário de tal “Convenção” tenha uma política agrícola baseada na produção de commodities como grãos e carne – cuja produção é responsável pela devastação de uma das

florestas mais ricas em biodiversidade do planeta: a Amazônica. E a própria resolução 394 do CONAMA (que trata da mencionada consulta) reconhece que, para a aprovação da lista, diversas questões deverão ser levadas em conta. Entre elas estão: o potencial de invasão dos ecossistemas fora da área de distribuição geográfica original de tais espécies (incluindo outros países); o potencial de riscos à saúde humana, animal, ou ao equilíbrio das populações naturais; a possibilidade de introdução de agentes biológicos com potencial de causar prejuízos de qualquer natureza; o risco de os espécimes serem abandonados ou de fuga etc. A quem interessa tal lista? Como ficam os interesses dos animais?

Uma vez que há também muitas vozes que se levantam contra tal proposta, é fácil perceber que a criação e comercialização de animais silvestres visam tão somente a atender a satisfação dos desejos hedonistas de alguns seres humanos e criadores que lucrarão às custas do sofrimento dos animais. Tal medida, além de não respeitar o atributo de senciência e de desconsiderar os animais não-humanos como sujeitos de suas vidas (veja os filósofos Peter Singer e Tom Regan), poderá causar danos à biosfera mesmo sob um ponto de vista meramente instrumental, pois não se encontra em consonância com uma visão sistêmica

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


de sustentabilidade e tampouco com um “uso sustentável da biodiversidade”, como desejam seus proponentes. Além de excluir a dimensão ética da sustentabilidade (evoca-se apenas a dimensão cultural na forma dos “anseios da sociedade brasileira” – sic-, uma questão de ordem estética, não ética), a medida poderá gerar um sem-número de externalidades que serão pagas por toda a sociedade e inclusive pelas gerações futuras, como os riscos apontados antes e questões mais imediatas como: animais abandonados, atropelados ou estropiados (necessitando de cuidados); a necessidade de intervenções cirúrgicas como castrações etc; os absurdos gastos com fiscalização para saber quais animais são nascidos em criadouro comercial legalmente estabelecido (uma meta cujo sucesso me parece extremamente difícil, além de não justificar sob o ponto de vista ético a comercialização dos animais), etc. Em vez de facilitar e legitimar a produção de tais riscos, o Poder Público deveria investir em projetos de educação e em medidas que visem a proibir a criação e a venda de animais de estimação. E isso seria apenas um começo, pois, a rigor, nenhum animal deveria ser criado e comercializado, para nenhuma finalidade. Um triste cenário?

Caso a consulta pública em questão venha a dar respaldo a tal ato de insensatez poderá haver, em breve, um novo cenário no país no qual o encarceramento de répteis e aves se tornará uma prática corriqueira e legal (sic). Privados de seu bem mais precioso, sua liberdade – e aprisionados em jaulas, fossos, viveiros e gaiolas - espécimes da fauna silvestre serão apenas a sombra do que foram um dia na natureza, independentemente de terem sido criados para isso ou não. Serão mais uma mercadoria nas vitrines de pet shops e outros pontos de venda, produtos prontos para “divertir” os seres humanos. Termino com um trecho da belíssima música “Passaredo” de Chico Buarque e Francis Hime: “Some rolinha; Anda, andorinha; Te esconde, bem-te-vi; Voa, bicudo; Voa, sanhaço; Vai, juriti; Bico calado; Muito cuidado; Que o homem vem aí; O homem vem aí”

A SOS Fauna é uma organização não governamental que trabalha há quase duas décadas lidando diretamente com a problemática do tráfico de animais silvestres no Brasil e, com base em seu conhecimento de campo e vivência direta com a questão, expõem a seguir seu posicionamento perante esta consulta pública: Queremos deixar bastante claro que nossos posicionamentos em relação ao tema serão abordados tanto pelo lado da conservação como também por questões que envolvem ética e consciência em relação à condição de bem estar animal, assim como questões ligadas aos processos educativos. Também queremos expor neste documento que durante anos, inúmeros fatos ocorreram, fatos estes que conduzem a um triste cenário e que justificam nosso posicionamento contrário perante a prática de criação comercial em cativeiro destinada a atender ao mercado de animais de estimação.

pessoas que quer a posse destas aves são do sexo feminino. Mulheres que acham fantástico - por exemplo - ter um papagaio em casa e lhe ensinar a reproduzir uma série de palavras e pequenas frases, além de tratar a ave como se esta fosse um membro de sua própria família, oferecendo-lhe uma diversidade de alimentos consumidos por seres humanos como café, pão, leite, arroz com feijão etc., isso se chama-se antropomorfismo, ou seja, é a tendência para interpretar os hábitos dos animais segundo os hábitos e sentimentos humanos; c) E, por último, temos aqueles que gostam de manter sob seu domínio, mamíferos e répteis, para os quais este ato parece trazer a estas pessoas uma espécie de status social perante os outros que às cercam.

I - UM HÁBITO CULTURAL Desde a época do descobrimento, tornou-se um hábito cultural manter um animal selvagem como bicho de estimação, atualmente podemos dividir as pessoas que querem ter estes animais sob sua posse em três categorias: a) Aquelas pessoas que têm prazer, sentem-se bem, tendo em suas residências pássaros que cantam mesmo que em cativeiro, isso na verdade é um hobby, é algo que faz parte da vida destas pessoas, adoram apreciar o canto de curiós, canários-da-terra, bicudos, picharros, coleirinhas, entre outros. Neste grupo também há aqueles que, com o passar do tempo e utilizando-se de técnicas criadas pelo próprio homem, melhoram e alteram a forma de canto destas aves, como por exemplo, maior tempo de canto, alterações das notas musicais e até mesmo, no caso dos canários-da-terra, estimulando-os à rinha, verdadeiros duelos travados entre dois indivíduos machos da espécie, onde ocorrem apostas entre os “proprietários” das aves e a platéia expectadora, onde muitas vezes um dos combatentes chega a óbito; b) Existem também aqueles que apreciam ter em casa aves da família dos psitacídeos (papagaios, araras, maritacas e periquitos em geral). Nestes casos a maioria das

III - FALHAS GRAVÍSSIMAS NA FISCALIZAÇÃO Apontem quantos criadores comerciais de fauna silvestre foram fiscalizados desde que a criação da Portaria que autorizou a Criação Comercial de Fauna Silvestre (Portaria Ibama 117/97) foi lançada e quantos foram os casos de suspeita de fraudes (bichos “esquentados”) e consequentemente realizados testes de paternidade (DNA). São quase onze anos que esta Portaria está em vigor. Há alguns meses, em uma reunião no Ministério Público do Estado de São Paulo, nos foi informado pela Policia Federal que eles tinham um banco com cerca de trezentas amostras de material genético para teste de paternidade, mas não havia recursos financeiros para a realização dos mesmos. Então fica difícil trabalhar desta forma!

II - GRANDES DIFERENÇAS DE VALORES O que ocorre entre as diferenças de valores atribuídos a animais silvestres de origem legal e ilegal é um fenômeno genérico. Alguns exemplos em relação à lista sugerida pelo IBAMA:

IV - SISPASS Durante o período em que o SISPASS esteve em operação, quantas fraudes não ocorreram em cima do sistema, pessoas tentando burlar de todas as maneiras, anilhas falsas, avalanches de procuradores agindo como representantes de uma série de pessoas que possuíam aves silvestres em casa e alegando a estas - PASMEM que suas aves poderiam ser “registradas!”

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008

87


Ecologia Valores de alguns animais silvestres criados em cativeiro e oriundos do tráfico

Valor mínimo do animal vindo de criador comercial ANIMAL REALMENTE NASCIDO EM CATIVEIRO

Nome científico

Nome popular

Passerina brissonii Saltator similis

azulão picharro, trinca-ferro-verdadeiro pintassilgo pássaro-preto papagaio-verdadeiro arara-canindé jandaia-estrela periquito-da-caatinga cardeal curió tucano-toco canário-da-terra coleirinha bigodinho coleiro-baiano

Carduelis magellanica Gnorimopsar chopi Amazona aestiva Ara ararauna Aratinga aurea Aratinga cactorum Paroaria coronata Oryzoborus angolensis Ramphastos toco Sicalis flaveola Sporophila caerulescens Sporophila lineola Sporophila nigricollis

Valor (individual) médio do animal adquirido pelo consumidor final com origem do tráfico

Valor (individual) médio do animal adquirido pelo traficante nas regiões de captura

R$ 250,00

R$ 20,00

R$ 2,00

R$ 400,00

R$ 40,00

R$ 3,00

R$ 200,00 *(1)R$ 200,00 R$ 1.200,00 R$ 1.400,00 R$ 400,00 R$ 400,00 R$ 400,00 R$ 300,00 R$ 1.800,00 R$ 150,00 R$ 200,00 R$ 200,00

R$ 15,00 R$ 20,00 R$ 150,00 *(2)Não há R$ 30,00 R$ 30,00 R$ 40,00 R$ 50,00 Não há R$ 20,00 R$ 10,00 R$ 15,00

R$ 1,00 R$ 2,00 R$ 35,00 *(3)Desconhecido R$ 3,00 R$ 2,00 R$ 5,00 R$ 10,00 *(4)Desconhecido R$ 1,00 R$ 0,50

Os exemplos de valores de animais silvestres de origem legal são os baseados em animais que ainda não tiveram seu canto preparado, como ocorre em muitos casos, são considerados como animais que nasceram em cativeiro e tão logo estivessem se alimentando sozinhos, seriam disponibilizados para venda. Os itens marcados com *(1), *(2), *(3) e *(4) referem-se: *(1): Não há comprovação que a reprodução da espécie Gnorimopsar chopi ocorra com facilidade em cativeiro. Esta espécie é apontada pela comunidade científica como uma ave de manejo reprodutivo em cativeiro ainda desconhecido e muito difícil, no entanto vez ou outra surgem ofertas desta ave para venda, informando que a mesma tem origem legal e documentação necessária. O mesmo acontece com o Icterus jamacaii (corrupião), não citado nesta lista, porém houve épocas em que esta espécie era oferecida como se sua reprodução em cativeiro fosse tão simples quanto a de galinhas. *(2): Há muitos anos não se encontra filhotes de Ara ararauna à venda no mercado ilegal, e também não se tem idéia de preço nas regiões de captura de filhotes. O que teria ocorrido então? Os traficantes ficaram conscientes em relação à esta espécie e decidiram não mais captura-la? Óbvio que não. Na verdade o que pode estar ocorrendo - e não é somente com a Ara ararauna, mas com vários psitacídeos - é a canalização dos mesmos para criadores comerciais mal intencionados, com o propósito de esquentar legalmente a ave, pois é necessário notar que um animal que custaria em uma feira algo em torno de duzentos/trezentos reais, documentado passa a ter um valor não inferior a R$ 1.400,00. Já presenciamos Ara ararauna sendo vendida em um shopping center de São Paulo por R$ 7.500,00. Melhor vender por R$ 7.500,00 do que por R$ 300,00, não é mesmo? *(3): Não temos conhecimento do valor desta arara nas regiões de captura, mas a captura ocorre. Então onde vão parar? *(4): O caso do Ramphastos toco talvez seja o que mais ilustra a estranheza desta lista, pois é de amplo conhecimento que a reprodução desta espécie em cativeiro é algo quase impossível de acontecer. Se houver maneira de realizar uma busca de quantos criadores de tucano-toco existem e quantos filhotes já foram vendidos, seria conveniente realizar teste de paternidade em todos.

V - TERIA A PORTARIA 117/97 TRAZIDO ALGUM BENEFÍCIO PARA NOSSA FAUNA SILVESTRE? No início imaginávamos que esta Portaria estimularia a criação em cativeiro, com isso animais silvestres deixariam de ser capturados na natureza para atender ao comércio ilegal. Contudo não foi isso que aconteceu, havendo grande diferença de preços entre animais oriundos do tráfico e de criadores legais, praticamente de nada resolveu, são dois públicos consumidores distintos, na verdade o que ocorreu foi a estimulação maior ainda do tráfico, muitas pessoas de má fé enxergaram a possibilidade de esquentar animais vindos da natureza e vendendo-os como animais de origem absolutamente legal, valorizando animais 88

do tráfico em 800/900/1000%, um alto negócio, não é mesmo? VI - EDUCAÇÃO E CONSCIÊNCIA O hábito de “criar” animais silvestres em casa - diga-se de passagem que o termo criar é muito estranho, pois o animal silvestre se cria sozinho, não precisa do “auxílio” do homem - data de muitos anos, séculos. Existem pessoas que ficam literalmente doentes quando este seu hobby lhe é ceifado, fato que nos leva a entender que esta prática na verdade é para muitos algo que causa até dependência, uma doença. O fato de classificar isso como uma espécie de dependência, leva ao entendimento que esta fará com que muitas pessoas, hoje e no futuro, se utilizem das

práticas que entenderem necessárias para ter em casa seu animal de estimação, a qualquer custo. Esta dependência, este hábito cultural estranho e sádico, nunca, jamais e em tempo algum permitirá que o tráfico de animais silvestre termine e nem mesmo que ele diminua em todo o território brasileiro. Estamos falando de vida silvestre, de indivíduos que têm função biológica na natureza, em ecossistemas. A permissão da criação de espécies nativas em cativeiro, abre um precedente, que facilita muito a retirada de espécimes da natureza para sua posterior "lavagem" e legalização. Cada indivíduo retirado da natureza torna-se geneticamente morto e não contribui para a formação da próxima geração. Com isso

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008


ocorre uma redução no número efetivo da espécie, o que pode levar à sua erosão genética, com conseqüências sérias não só para a espécie, mas para todo o ecossistema em questão. É o comprometimento de uma série de espécies que poderão vir a sofrer em função de atos lesivos ao meio ambiente, inclusive a espécie humana. Onde está a racionalidade do homem quando o mesmo destrói conscientemente parte de algo que está ligado diretamente à continuidade de sua existência sobre a Terra? Onde está o processo de educação que damos aos nossos filhos quando lhes mostramos ser algo “bonito” submeter um animal de vida livre ou os seus descendentes ao cárcere? É bonito ensinar a uma criança que passarinho em gaiola é algo legal? VII - COMEÇANDO ERRADO Há um ditado popular que diz que quando algo começa errado, é melhor parar, pois tudo sairá errado. Vejam que até nisso o próprio Ibama errou, trocando os nomes na cópia fiel da lista que está no site do mesmo, como podem observar na outra tabela abaixo. Vejam que na lista do Ibama, o que há mais são psitacídeos, ou melhor, as aves que são as mais fáceis de realizar uma fraude, pois podem ser coletadas da natureza até mesmo com poucos dias de vida, são as que mais tem, isso é um prato cheio para quem quer praticar atos criminosos como esquentar bichos vindos da natureza. Se ocorrer um posicionamento do órgão à partir de agora alegando que a fiscalização irá ocorrer de maneira austera, é difícil acreditar, pois os erros cometidos no passado foram muitos.

www.wspabrasil.org A Sociedade Mundial de Proteção Animal - WSPA vem, por meio desta, manifestar-se em relação à Resolução Conama nº. 394 de 06 de novembro de 2007, que estabelece os critérios para a determinação de espécies silvestres a serem criadas e

VIII - CONCLUSÕES FINAIS Somos absolutamente favoráveis à criação de animais silvestres em cativeiro com a finalidade científica, visando conservação de espécies silvestres da fauna silvestre brasileira, objetivando revigoramentos populacionais de espécies que se encontrem com populações depauperadas, reintrodução de espécies silvestres extintas em determinadas regiões e estudo de comportamento também visando conservação. Jornais, revistas, ou até mesmo com um simples olhar a nossa volta, um simples ouvir - buraco na camada de ozônio, asfixia dos oceanos, furações, enchentes, criadores de gado e madeireiras nacionais e estrangeiras devastando as florestas, turistas e sem terras se instalando em lugares de preservação, traficantes de animais silvestres, calotas polares derretendo, mosquitos levando a morte em sua forma alada, gripe do frango, tubarões mais próximos da costa e tantos e tantos etc's. O ser humano pode criar leis, portarias etc, isso não é problema, afinal o papel existe para isso mesmo. Para ser preenchido. Mas e quanto à eficácia das Leis? Podemos garanti-la? Não. A falta de conscientização associada à vaidade humana cega-nos a tal ponto que estes dois “atributos” passam a ser as únicas leis que verdadeiramente tem eficácia garantida. O resultado? Criamos uma “Constituição” cujos artigos baseiam-se na morte e na destruição. Não somos todos assim, mas sabemos que, apesar da ação de uma minoria surtir os mesmos efeitos de um vazamento nuclear (quem não se lembra do caso da Usina de Chernobyl, 28 de abril de 1986?), comercializadas como animais de estimação. Com base nesses critérios fica o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) responsável pela publicação da lista das espécies que poderão ser criadas e comercializadas como animais de estimação, no prazo de até 7 de maio de 2008. A atividade comercial de animais silvestres em nosso país é legalizada, e inclusive estimulada, desde 1967 por meio da

ainda assim, os mesmos encontram o respaldo de que necessitam para seus atos na vaidade, na cobiça, na miséria humana, na falta de vontade política, na corrupção, na tecnologia (equipamentos de destruição em massa)... O resultado? Uma morte lenta, mas inexorável, de toda forma existente de vida no planeta. Essa legalização da comercialização de animais silvestre é um ato que perpetra e justifica legalmente os atos de depredação do meio ambiente. É a forma enganosa e generosa de livrar-se do problema, “se não podemos vencê-lo, unamo-nos a ele”, de quem menos esperamos... A afronta à garantia Constitucional à vida e à liberdade não deve ser interpretada em stricto sensu, apenas em relação à vida humana, mas lato sensu, pois a vida depende da sobrevivência de cada um, nas suas mais variadas formas. O planeta está morrendo e vai morrer cada vez mais rápido na medida em que tomamos atitudes como essa de liberar a comercialização de animais silvestres, vítimas inocentes, tudo em nome da comodidade, do medo, da falta de vontade, da falta de respeito a si mesmo e ao próximo, seja ele humano ou não. Tudo justificado pela vaidade humana, que sempre se sobrepõe ao bem maior que é a vida. Simplesmente, a vida. Com base em tudo que aqui foi exposto, face aos fatos, entendemos que tornar a criação de animais silvestres legal para atender ao mercado PET é algo absolutamente sem fundamento, ferindo brutalmente a natureza e os princípios da ética, da educação e de tudo que queremos deixar para as presentes e futuras gerações, portanto somos contrários à regulamentação. Lei Federal nº. 5.197, também conhecida como Código de Fauna: “Artigo 3° - É proibido o comércio de espécimes da fauna silvestre e de produtos e objetos que impliquem na sua caça, perseguição, destruição ou apanha. § 1° - Excetuam-se os espécimes provenientes de criadouros devidamente legalizados. Artigo 6º - O Poder Público estimulará: b) a construção de criadouros destinadas à criação de animais silvestres para fins econômicos e industriais.”

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008

89


Ecologia Este artigo é regulamentado pela Portaria Ibama 118 de 1997, que em seu artigo 1º resolve: “Art. 1º - Normalizar o funcionamento de criadouros de animais da fauna silvestre brasileira com fins econômicos e industriais.” Pela legislação atual ainda vigente, a resolução e a lista publicadas pelo IBAMA não serão responsáveis pela liberação do comércio de animais silvestres em nosso país, visto que este já é autorizado desde 1967. A resolução pretende colocar critérios na criação, delimitar e restringir o número de espécies a serem criadas levando à regulamentação. O que ocorre atualmente é que a autorização para criação comercial de animais silvestres fica a critério do analista ambiental que estiver analisando o processo. Por falta de regulamentação, existem hoje criadouros comerciais de onças, macacos, tartarugas, dentre outros e, no futuro serão permitidos apenas criadouros comerciais dos animais constantes na lista, que hoje gira em torno de 50 espécies, em sua maioria aves. Levando em conta constatações científicas hoje já bastante desenvolvidas, a Sociedade Mundial de Bem-Estar Animal - WSPA discorda da criação de animais silvestres em cativeiro para a finalidade de animal de companhia por ser fato que a criação de silvestres em cativeiro fere o princípio das cinco liberdades, reconhecido universalmente como uma forma simples de identificar se um animal está ou não em condições de bemestar. O conceito de bem-estar animal é definido a partir do estado físico e psicológico do animal, assim como pelas condições em que vive. Pode-se afirmar que há bem-estar quando o animal está saudável e livre de qualquer sofrimento causado pela intervenção humana. As cinco liberdades são: livres de fome e da sede; livres de desconforto; livres de lesões e doenças; livres de medo e estresse; e livres para manifestar seu comportamento natural. Fica evidente que nenhuma forma de manutenção de aves em cativeiro atende aos princípios acima, haja visto que sequer permitem o vôo ou outra forma de comportamento que evite a atrofia da musculatura peitoral das aves. Tão pouco é respeitada a manutenção das aves em grupos ou em casais que evite o estresse do cativeiro, uma vez que os criadouros são 90

desenvolvidos em função da reprodução comercial, desconsiderando as condições do bem-estar e das necessidades inerentes aos animais criados. Além disso, a criação de animais silvestres para fins de companhia gera grandes riscos à população humana pela transmissão de zoonoses (aves: psitacose, toxoplasmose, salmonelose, aspergilose, histoplasmose; répteis: salmonelose) e pela introdução de espécimes em biomas cuja ocorrência natural não exista. Tendo em vista a grande dificuldade do IBAMA em fiscalizar todas as pessoas que possuem animais silvestres, sejam eles oriundos de criadouros ou não, também haverá um aumento da pressão sobre os animais traficados, pois o custo de retirada de animais da natureza é zero. Não há médicos veterinários capacitados em atendimento de silvestres em quantidade suficiente para suprir a demanda, até mesmo porque o conhecimento sobre a etologia e a fisiologia desses animais ainda é bastante raso. A população igualmente não está preparada para tratar esses animais, pois o que se constata hoje nas residências são animais obesos ou com deficiências nutricionais, doenças metabólicas, atrofiados, presos em espaços minúsculos e isolados de seus bandos. Muitos são forçados a exibir comportamento antropizado e apresentam comportamentos típicos de animais estressados. Outro fator preocupante é o abandono e a já existente superpopulação de algumas espécies que estão na lista. É sabido que o IBAMA recebe diariamente animais por motivos diversos e não há destinação para todos. Com o estímulo da reprodução em criadouros comerciais, e com a reprodução sem controle desses animais após sua venda, este problema tende a se agravar cada vez mais. Portanto, levando-se em consideração a inadequação das espécies silvestres como animais de companhia conforme todas as justificavas expostas acima, a WSPA recomenda o trabalho junto ao legislativo para modificar a lei nº. 5197/67, assegurando que a criação comercial de animais silvestres tenha fim. Acreditamos que por ser de 1967, esta lei não contempla a atual visão sobre os animais, o meio ambiente e a sustentabilidade. Com a promulgação da nova

Constituição Federal em 1988 e da Lei de Crimes Ambientais em 1998, fica clara a nova preocupação com as espécies, com o bem-estar animal e com o meio ambiente. Neste contexto, os criadouros comerciais comprometem a função ecológica das espécies e submetem os animais a crueldade, o que é claramente vedado: CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988 CAPÍTULO VI DO MEIO AMBIENTE Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. § 1º - Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público: VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.” LEI 9.605/98 CAPÍTULO V DOS CRIMES CONTRA O MEIO AMBIENTE Dos Crimes contra a Fauna: Art. 32. Praticar ato de abuso, maustratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos.” Por fim, a Sociedade Mundial de Proteção Animal - WSPA urge o IBAMA a acatar o princípio da lei maior acima citada em consonância com o avanço das ciências tanto do bem-estar animal quanto da etologia, elevando o Brasil ao patamar das nações mais desenvolvidas do mundo, onde já chegou-se ao consenso de que as diferenças entre animais, seus hábitos, necessidades e comportamento impõem um controle humano sobre que tipos de espécies são compatíveis com o convívio humano, causando à saúde humana, ao meio ambiente e à biodiversidade, os mínimos riscos possíveis e preservando o bem-estar natural dos animais silvestres, respeitado o princípio universal das “5 liberdades”.

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 74, maio/junho, 2008



Clínica Veterinária n. 74