Page 1

Revista de educação continuada do clínico veterinário de pequenos animais

Oncologia

Biópsia líquida e suas aplicações em medicina veterinária – revisão

Medicina veterinária de desastres em Mariana e Brumadinho

Diagnóstico por imagem Diagnóstico ultrassonográfico das afecções articulares em cães – revisão

00 00 11 33 99

9 77 77 21 24 31 73 857741000065

9

Indexada no Web of Science - Zoological Record, no Latindex e no CAB Abstracts


Índice

Conteúdo científico Oncologia

Editora Maria Angela Sanches Fessel cvredacao@editoraguara.com.br CRMV-SP 10.159 - www.crmvsp.gov.br

36

Biópsia líquida e suas aplicações em medicina veterinária – revisão

Publicidade Alexandre Corazza Curti midia@editoraguara.com.br

Liquid biopsy and its applications in veterinary medicine – a review

Editoração eletrônica Editora Guará Ltda.

Biopsia líquida y sus aplicaciones en medicina veterinaria – revisión

Projeto gráfico Natan Inacio Chaves

Diagnóstico por imagem

Gerente administrativo Antonio Roberto Sanches

54

Diagnóstico ultrassonográfico das afecções articulares em cães – revisão

Capa Irish Setter fotografado por reddogs reddogs/shutterstock

Ultrasonography diagnosis of joint diseases in dogs – review Diagnóstico ecográfico de las enfermedades articulares en perros – revisión

Conteúdo editorial

Medicina Veterinária de Desastres

12

Medicina Veterinária do Coletivo

20

Bem-estar animal

30

Ética

74

A medicina veterinária de desastres em Mariana e Brumadinho

Clínica Veterinária é uma re­vis­ta técnico-científica bi­mes­tral, di­rigida aos clínicos vete­ rinários de pe­ que­ nos animais, estudantes e pro­­fes­so­res de medicina veteri­ná­­ria, publicada pela Editora Guará Ltda.

Eu aqui na praça dando milho aos pombos... e sendo multado

As opiniões em artigos assinados não são ne­­ces­sa­ria­men­te com­­­parti­lha­ das pe­los editores.

Todos contra a caça!

Os conteúdos dos anúncios veiculados são de total res­­ponsabilidade dos anunciantes. Não é permitida a reprodu­ção parcial ou to­tal do con­teúdo desta publicação sem a prévia au­to­ri­za­­ção da editora. A responsabilidade de qualquer terapêutica prescrita é de quem a prescreve. A perícia e a experiência profissional de cada um são fatores determinantes para a condução dos possíveis tratamentos para cada caso. Os editores não podem se responsabilizar pelo abuso ou má aplicação do conteúdo da revista Clínica Veterinária. Editora Guará Ltda. Rua Adolf Wüth, 276, Jardim São Vicente, 06713-250, Cotia, SP, Brasil Central de assinaturas: (11) 98250-0016 cvassinaturas@editoraguara.com.br

4

Erros e incidentes na prática veterinária Processo ético profissional

Ensino

80

Gestão

86

Lançamentos

90

O paradoxo da medicina veterinária

Empreender é servir

Vetoquinol lança Marbocyl P, moderno antibiótico para cães e gatos à base de marbofloxacina Projeto “Vem pra sala de aula” compartilha informações reais e material técnico-científico

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Editorial

Galushko Sergey/Shutterstock

e a triste constatação de que após Mariana não houve o esforço nem a mudança de atitude que seriam necessários para evitar a repetição desses eventos, os esforços e as atitudes de desprendimento, dedicação, sensibilidade e humanidade por parte de tantos colegas, do corpo de bombeiros e de todos os voluntários envolvidos nos trabalhos nos relembram o quanto podemos contribuir e o quanto podemos ter esperanças. Que possamos aprender a perdoar e a não carregar mágoas ou raivas geradas por situações assim, mas também que tenhamos uma atuação mais consciente e constante, que permita evitar a repetição desses desastres. Que se expandam e se aprofundem a consciência a respeito da importância do meio ambiente, bem como o respeito para com todos os seres que compartilham nossa jornada pelo Universo nesta nave chamada Terra. Maria Angela Sanches Fessel CRMV-SP 10.159 rdonar/Shutterstock

Jim Parkin Modificado/Shutterstock

bombermoon/Shutterstock

Mais uma vez enfrentamos uma trágica e imensa perda da biodiversidade, decorrente da má gestão dos recursos em nosso país, em especial pela ausência de uma visão empresarial que leve de fato em conta as responsabilidades para com a população humana e animal e para com o meio ambiente. Indivíduos de diferentes espécies sofreram e ainda sofrerão por muito tempo as consequências dos desastres de Mariana e de Brumadinho. As lições aprendidas podem minimizar outros prováveis desastres futuros, porém para evitá-los é necessária uma mudança generalizada de atitudes por parte da população, dos empresários e do poder público. A passividade, a omissão, a permissividade, a aceitação e a falta de punições significativas, bem como a ausência de prevenção em relação a tantas outras barragens, fato claramente evidenciado por essas ocorrências, são, no mínimo, assustadoras e alarmantes. Apresentamos nesta edição, infelizmente, mais uma matéria na qual se faz uma pequena descrição dos incidentes ocorridos em Minas Gerais em janeiro deste ano, das medidas tomadas para minimizar o sofrimento de alguns dos animais resgatados e atendidos na região, e da atuação importantíssima de alguns valorosos profissionais veterinários e especialistas da área, que voluntariamente somaram seus esforços. Se de um lado temos o lamentável saldo das perdas de vidas humanas, animais e ambientais

silentalex88/Shutterstock

Brumadinho

6

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


·


Consultores científicos Adriano B. Carregaro FZEA/USP-Pirassununga Álan Gomes Pöppl FV/UFRGS Alberto Omar Fiordelisi FCV/UBA Alceu Gaspar Raiser DCPA/CCR/UFSM Alejandro Paludi FCV/UBA Alessandra M. Vargas Endocrinovet Alexandre Krause FMV/UFSM Alexandre G. T. Daniel Universidade Metodista Alexandre L. Andrade CMV/Unesp-Aracatuba Alexander W. Biondo UFPR, UI/EUA Aline Machado Zoppa FMU/Cruzeiro do Sul Aline Souza UFF Aloysio M. F. Cerqueira UFF Ana Claudia Balda FMU, Hovet Pompéia Ananda Müller Pereira Universidad Austral de Chile Ana P. F. L. Bracarense DCV/CCA/UEL André Luis Selmi Anhembi/Morumbi e Unifran Angela Bacic de A. e Silva FMU Antonio M. Guimarães DMV/UFLA Aparecido A. Camacho FCAV/Unesp-Jaboticabal A. Nancy B. Mariana FMVZ/USP-São Paulo Aulus C. Carciofi FCAV/Unesp-Jaboticabal Aury Nunes de Moraes UESC Ayne Murata Hayashi FMVZ/USP-São Paulo Beatriz Martiarena FCV/UBA Benedicto W. De Martin FMVZ/USP; IVI Berenice A. Rodrigues MV autônoma Camila I. Vannucchi FMVZ/USP-São Paulo Carla Batista Lorigados FMU Carla Holms Anclivepa-SP

8

Carlos Alexandre Pessoa www.animalexotico.com.br Carlos E. Ambrosio FZEA/USP-Pirassununga Carlos E. S. Goulart EMATER-DF Carlos Roberto Daleck FCAV/Unesp-Jaboticabal Carlos Mucha IVAC-Argentina Cassio R. A. Ferrigno FMVZ/USP-São Paulo Ceres Faraco FACCAT/RS César A. D. Pereira UAM, UNG, UNISA Christina Joselevitch IP/USP-São Paulo Cibele F. Carvalho UNICSUL Clair Motos de Oliveira FMVZ/USP-São Paulo Clarissa Niciporciukas Anclivepa-SP Cleber Oliveira Soares Embrapa Cristina Massoco Salles Gomes C. E. Daisy Pontes Netto FMV/UEL Daniel C. de M. Müller UFSM/URNERGS Daniel G. Ferro Odontovet Daniel Macieira FMV/UFF Denise T. Fantoni FMVZ/USP-São Paulo Dominguita L. Graça FMV/UFSM Edgar L. Sommer Provet Edison L. P. Farias UFPR Eduardo A. Tudury DMV/UFRPE Elba Lemos FioCruz-RJ Eliana R. Matushima FMVZ/USP-São Paulo Elisangela de Freitas FMVZ/Unesp-Botucatu Estela Molina FCV/UBA Fabian Minovich UJAM-Mendoza Fabiano Montiani-Ferreira FMV/UFPR Fabiano Séllos Costa DMV/UFRPE

Fabio Otero Ascol IB/UFF Fabricio Lorenzini FAMi Felipe A. Ruiz Sueiro Vetpet Fernando C. Maiorino Fejal/CESMAC/FCBS Fernando de Biasi DCV/CCA/UEL Fernando Ferreira FMVZ/USP-São Paulo Filipe Dantas-Torres CPAM Flávia R. R. Mazzo Provet Flavia Toledo Univ. Estácio de Sá Flavio Massone FMVZ/Unesp-Botucatu Francisco E. S. Vilardo Criadouro Ilha dos Porcos Francisco J. Teixeira N. FMVZ/Unesp-Botucatu F. Marlon C. Feijo Ufersa Franz Naoki Yoshitoshi Provet Gabriela Pidal FCV/UBA Gabrielle Coelho Freitas UFFS-Realeza Geovanni D. Cassali ICB/UFMG Geraldo M. da Costa DMV/UFLA Gerson Barreto Mourão Esalq/USP Hector Daniel Herrera FCV/UBA Hector Mario Gomez EMV/FERN/UAB Hélio Autran de Moraes Oregon S. U. Hélio Langoni FMVZ/Unesp-Botucatu Heloisa J. M. de Souza FMV/UFRRJ Herbert Lima Corrêa Odontovet Iara Levino dos Santos Koala H. A. e Inst. Dog Bakery Iaskara Saldanha Lab. Badiglian Idael C. A. Santa Rosa UFLA Ismar Moraes FMV/UFF Jairo Barreras FioCruz

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

James N. B. M. Andrade FMV/UTP Jane Megid FMVZ/Unesp-Botucatu Janis R. M. Gonzalez FMV/UEL Jean Carlos R. Silva UFRPE, IBMC-Triade João G. Padilha Filho FCAV/Unesp-Jaboticabal João Luiz H. Faccini UFRRJ João Pedro A. Neto UAM Jonathan Ferreira Odontovet Jorge Guerrero Univ. da Pennsylvania José de Alvarenga FMVZ/USP Jose Fernando Ibañez FALM/UENP José Luiz Laus FCAV/Unesp-Jaboticabal José Ricardo Pachaly Unipar José Roberto Kfoury Jr. FMVZ/USP Juan Carlos Troiano FCV/UBA Juliana Brondani FMVZ/Unesp-Botucatu Juliana Werner Lab. Werner e Werner Julio C. C. Veado FMVZ/UFMG Julio Cesar de Freitas UEL Karin Werther FCAV/Unesp-Jaboticabal Leonardo D. da Costa Lab&Vet Leonardo Pinto Brandão Ceva Saúde Animal Leucio Alves FMV/UFRPE Luciana Torres FMVZ/USP-São Paulo Lucy M. R. de Muniz FMVZ/Unesp-Botucatu Luiz Carlos Vulcano FMVZ/Unesp-Botucatu Luiz Henrique Machado FMVZ/Unesp-Botucatu Marcello Otake Sato FM/UFTO Marcelo Bahia Labruna FMVZ/USP-São Paulo Marcelo de C. Pereira FMVZ/USP-São Paulo


Marcelo Faustino FMVZ/USP-São Paulo Marcelo S. Gomes Zoo SBC,SP Marcia Kahvegian FMVZ/USP-São Paulo Márcia Marques Jericó UAM e Unisa Marcia M. Kogika FMVZ/USP-São Paulo Marcio B. Castro UNB Marcio Brunetto FMVZ/USP-Pirassununga Marcio Dentello Lustoza Biogénesis-Bagó S. Animal Márcio Garcia Ribeiro FMVZ/Unesp-Botucatu Marco Antonio Gioso FMVZ/USP-São Paulo Marconi R. de Farias PUC-PR Maria Cecilia R. Luvizotto CMV/Unesp-Araçatuba M. Cristina F. N. S. Hage FMV/UFV Maria Cristina Nobre FMV/UFF M. de Lourdes E. Faria VCA/Sepah Maria Isabel M. Martins DCV/CCA/UEL M. Jaqueline Mamprim FMVZ/Unesp-Botucatu Maria Lúcia Z. Dagli FMVZ/USP-São Paulo Marion B. de Koivisto CMV/Unesp-Araçatuba Marta Brito FMVZ/USP-São Paulo Mary Marcondes CMV/Unesp-Araçatuba Masao Iwasaki FMVZ/USP-São Paulo Mauro J. Lahm Cardoso Falm/Uenp

Mauro Lantzman Psicologia PUC-SP Michele A. F. A. Venturini Odontovet Michiko Sakate FMVZ/Unesp-Botucatu Miriam Siliane Batista FMV/UEL Moacir S. de Lacerda Uniube Monica Vicky Bahr Arias FMV/UEL Nadia Almosny FMV/UFF Natália C. C. A. Fernandes Instituto Adolfo Lutz Nayro X. Alencar FMV/UFF Nei Moreira CMV/UFPR Nelida Gomez FCV/UBA Nilson R. Benites FMVZ/USP-São Paulo Nobuko Kasai FMVZ/USP-São Paulo Noeme Sousa Rocha FMV/Unesp-Botucatu Norma V. Labarthe FMV/UFFe FioCruz Patricia C. B. B. Braga FMVZ/USP-Leste Patrícia Mendes Pereira DCV/CCA/UEL Paulo Anselmo Zoo de Campinas Paulo César Maiorka FMVZ/USP-São Paulo Paulo Iamaguti FMVZ/Unesp-Botucatu Paulo S. Salzo Unimes, Uniban Paulo Sérgio M. Barros FMVZ/USP-São Paulo

Pedro Germano FSP/USP Pedro Luiz Camargo DCV/CCA/UEL Rafael Almeida Fighera FMV/UFSM Rafael Costa Jorge Hovet Pompéia Regina H. R. Ramadinha FMV/UFRRJ Renata A. Sermarini Esalq/USP Renata Afonso Sobral Onco Cane Veterinária Renata Navarro Cassu Unoeste-Pres. Prudente Renée Laufer Amorim FMVZ/Unesp-Botucatu Ricardo Duarte All Care Vet / FMU Ricardo G. D’O. C. Vilani UFPR Ricardo S. Vasconcellos CAV/Udesc Rita de Cassia Garcia FMV/UFPR Rita de Cassia Meneses IV/UFRRJ Rita Leal Paixão FMV/UFF Robson F. Giglio H. Cães e Gatos; Unicsul Rodrigo Gonzalez FMV/Anhembi-Morumbi Rodrigo Mannarino FMVZ/Unesp-Botucatu Rodrigo Teixeira Zoo de Sorocaba Ronaldo C. da Costa Ohio State University Ronaldo G. Morato CENAP/ICMBio Rosângela de O. Alves EV/UFG

Rute C. A. de Souza UFRPE/UAG Ruthnéa A. L. Muzzi DMV/UFLA Sady Alexis C. Valdes Unipam-Patos de Minas Sheila Canavese Rahal FMVZ/Unesp-Botucatu Silvia E. Crusco UNIP/SP Silvia Neri Godoy ICMBio/Cenap Silvia R. G. Cortopassi FMVZ/USP-São Paulo Silvia R. R. Lucas FMVZ/USP-São Paulo Silvio A. Vascon­cellos FMVZ/USP-São Paulo Silvio Luis P. de Souza FMVZ/USP, UAM Simone Gonçalves Hemovet/Unisa Stelio Pacca L. Luna FMVZ/Unesp-Botucatu Tiago A. de Oliveira UEPB Tilde R. Froes Paiva FMV/UFPR Valéria Ruoppolo I. Fund for Animal Welfare Vamilton Santarém Unoeste Vania M. V. Machado FMVZ/Unesp-Botucatu Victor Castillo FCV/UBA Vitor Marcio Ribeiro PUC-MG Viviani de Marco UNISA e NAYA Wagner S. Ushikoshi UNISA e CREUPI Zalmir S. Cubas Itaipu Binacional

revistaclinicaveterinaria.com.br

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

9


Instruções aos autores

A

Clínica Veterinária publica artigos científicos inéditos, de três tipos: trabalhos de pesquisa, relatos de caso e revisões de literatura. Embora todos tenham sua importância, nos trabalhos de pesquisa, o ineditismo encontra maior campo de expressão, e como ele é um fator decisivo no âmbito científico, estes trabalhos são geralmente mais valorizados. Todos os artigos enviados à redação são primeiro avaliados pela equipe editorial e, após essa avaliação inicial, encaminhados aos consultores científicos. Nessas duas instâncias, decide-se a conveniência ou não da publicação, de forma integral ou parcial, e encaminham-se ao autores sugestões e eventuais correções. Trabalhos de pesquisa são utilizados para apresentar resultados, discussões e conclusões de pesquisadores que exploram fenômenos ainda não completamente conhecidos ou estudados. Nesses trabalhos, o bem-estar animal deve sempre receber atenção especial. Relatos de casos são utilizados para a apresentação de casos de interesse, quer seja pela raridade, evolução inusitada ou técnicas especiais. Devem incluir uma pesquisa bibliográfica profunda sobre o assunto (no mínimo 30 referências) e conter uma discussão detalhada dos achados e conclusões do relato à luz dessa pesquisa. A pesquisa bibliográfica deve apresentar no máximo 15% de seu conteúdo provenientes de livros, e no máximo 20% de artigos com mais de cinco anos de publicação. Revisões são utilizadas para o estudo aprofundado de informações atuais referentes a um determinado assunto, a partir da análise criteriosa dos trabalhos de pesquisadores de todo o meio científico, publicados em periódicos de qualidade reconhecida. As revisões deverão apresentar pesquisa de, no mínimo, 60 referências provadamente consultadas. Uma revisão deve apresentar no máximo 15% de seu conteúdo provenientes de livros, e no máximo 20% de artigos com mais de cinco anos de publicação. Critérios editoriais Enviar por e-mail (cvredacao@editoraguara. com.br) ou pelo site da revista (http:// revistaclinicaveterinaria.com.br/blog/envio-deartigos-cientificos) um arquivo texto (.doc) com o trabalho, acompanhado de imagens digitalizadas em formato .jpg . As imagens digitalizadas devem ter, no mínimo, resolução de 300 dpi na lar­ gura 10

de 9 cm. Se os autores não possuírem imagens digitali­ za­ das, devem encaminhar pelo correio ao nosso departamento de re­ da­ ção cópias das imagens originais (fotos, slides ou ilustrações – acom­pa­nha­das de identificação de propriedade e autor). Devem ser en­viadas também a identificação de todos os autores do trabalho (nome completo por extenso, RG, CPF, endereço residencial com cep, tel­efones e e-mail) e uma foto 3x4 de rosto de cada um dos autores. Além dos nomes completos, devem ser informadas as instituições às quais os autores estejam vinculados, bem como seus tí­ tulos no momento em que o trabalho foi escrito. Os autores devem ser re­lacionados na seguinte ordem: primeiro, o autor principal, seguido do orientador e, por fim, os colaboradores, em sequência decrescente de participação. Sugere-se como máximo seis autores. O primeiro autor deve necessariamente ter diploma de graduação em medicina veterinária. Todos os artigos, independentemente da sua categoria, devem ser redigidos em língua portuguesa e acompanhados de versões em língua inglesa e espanhola de: título, resumo (de 700 a 800 caracteres) e unitermos (3 a 6). Os títulos devem ser claros e grafados em letras minúsculas – somente a primeira letra da primeira palavra deve ser grafada em letra maiúscula. Os resumos devem ressaltar o objetivo, o método, os resultados e as conclusões, de forma concisa, dos pontos relevantes do trabalho apresentado. Os unitermos não devem constar do título. Devem ser dispostos do mais abrangente para o mais específico (eg, “cães, cirurgias, abcessos, próstata). Verificar se os unitermos escolhidos constam dos “Descritores em Ciências de Saúde” da Bireme (http://decs.bvs.br). Revisões de literatura não devem apresentar o subtítulo “Conclusões”. Sugere-se “Considerações finais”. Não há especificação para a quantidade de páginas, dependendo esta do conteúdo explorado. Os assuntos devem ser abordados com objetividade e clareza, visando o público leitor – o clínico veterinário de pequenos animais. Utilizar fonte arial tamanho 12, espaço simples e uma única coluna. As margens superior, inferior e laterais devem apresentar até 3 cm. Não deixar linhas em branco ao longo do texto, entre títulos, após subtítulos e entre as referências. Imagens como fotos, tabelas, gráficos e ilustrações não podem ser cópias da literatura, mesmo que seja indicada a fonte. Devem ser

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


utilizadas imagens originais dos próprios autores. Imagens fotográficas devem possuir indicação do fotógrafo e proprietário; e quando cedidas por terceiros, deverão ser obrigatoriamente acompanhadas de autorização para publicação e cessão de direitos para a Editora Guará (fornecida pela Editora Guará). Quadros, tabelas, fotos, desenhos, gráficos deverão ser denominados figuras e numerados por ordem de aparecimento das respectivas chamadas no texto. Imagens de microscopia devem ser sempre acompanhadas de barra de tamanho e nas legendas devem constar as objetivas utilizadas. As legendas devem fazer parte do arquivo de texto e cada imagem deve ser nomeada com o número da respectiva figura. As legendas devem ser autoexplicativas. Não citar comentários que constem das introduções de trabalhos de pesquisa para não incorrer em apuds. Sempre buscar pelas referências originais. O texto do autor original deve ser respeitado, utilizando-se exclusivamente os resultados e, principalmente, as conclusões dos trabalhos. Quando uma informação tiver sido localizada em diversas fontes, deve-se citar apenas o autor mais antigo como referência para essa informação, evitando a desproporção entre o conteúdo e o número de referências por frases. As referências serão indicadas ao longo do texto apenas por números sobrescritos ao texto, que corresponderão à listagem ao final do artigo – autores e datas não devem ser citados no texto. Esses números sobrescritos devem ser dispostos em ordem crescente, seguindo a ordem de aparecimento no texto, e separados apenas por vírgulas (sem espaços). Quando houver mais de dois números em sequência, utilizar apenas hífen (-) entre o primeiro e o último dessa sequência, por exemplo cão 1,6-10,13. A apresentação das referências ao final do artigo deve seguir as normas atuais da ABNT 2002 (NBR 10520). Uti­li­zar o formato v. para volume, n. para número e p. para página. Não utili­zar “et al” – todos os autores devem ser relacionados. Não abreviar títulos de periódicos. Sempre utilizar as edições atuais de livros – edições an­te­riores não devem ser utilizadas. Todos os livros devem apresentar in­for­mações do capítulo consultado, que são: nome dos autores, nome do capítulo e páginas do capítulo. Quando mais de um capítulo for utili­za­do, cada capítulo deverá ser considerado uma

referência específica. Não serão aceitos apuds nem revisões de literatura (Citação direta ou indireta de um autor a cuja obra não se teve acesso direto. É a citação de “segunda mão”. Utiliza-se a expressão apud, que significa “citado por”. Deve ser empregada apenas quando o acesso à obra original for impossível, pois esse tipo de citação compromete a credibilidade do trabalho). Somente autores de trabalhos originais devem ser citados, e nunca de revisões. É preciso ser ético pois os créditos são daqueles que fizeram os trabalhos originais. A exceção será somente para literatura não localizada e obras antigas de difícil acesso, anteriores a 1960. As citações de obras da internet devem seguir o mesmo procedimento das citações em papel, apenas com o acréscimo das seguintes informações: “Disponível em: <http://www. xxxxxxxxxxxxxxx>. Acesso em: dia de mês de ano.” Somente utilizar o local de publicação de periódicos para títulos com incidência em locais distintos, como, por exemplo: Revista de Saúde Pública, São Paulo e Revista de Saúde Pública, Rio de Janeiro. De modo geral, não são aceitas como fontes de referência periódicos ou sites não indexados. Ocasionalmente, o conselho científico editorial poderá solicitar cópias de trabalhos consultados que obrigatoriamente deverão ser enviadas. Será dado um peso específico à avaliação das citações, tanto pelo volume total de autores citados, quanto pela diversidade. A concentração excessiva das citações em apenas um ou poucos autores poderá determinar a rejeição do trabalho. Não utilizar SID, BID e outros. Escrever por extenso “a cada 12 horas”, “a cada 6 horas” etc. Com relação aos princípios éticos da experimentação animal, os autores deverão considerar as normas do SBCAL (Sociedade Brasileira de Ciência de Animais de Laboratório). Informações referentes a produtos utilizados no trabalho devem ser apresentadas em rodapé, com chamada no texto com letra sobrescrita ao princípio ativo ou produto. Nesse subtítulo devem constar o nome comercial, fabricante, cidade e estado. Para produtos importados, informar também o país de origem, o nome do importador/ distribuidor, cidade e estado. Revista Clínica Veterinária / Redação Rua Adolf Würth, 276 CEP 06713-250 Cotia, SP cvredacao@editoraguara.com.br

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

11


Medicina Veterinária de Desastres

A medicina veterinária de desastres em Mariana e Brumadinho

Introdução A medicina veterinária de desastres e catástrofes carrega consigo novos e importantes desafios que exigem um envolvimento multidisciplinar do setor público e privado. Dentre as funções tradicionais de maior destaque, em protocolos consagrados em diferentes países, estão a necessidade de instaurar e manter planos de controle da salubridade alimentar e de prevenção das populações de pragas e vetores. Entretanto, é necessário que os animais das diferentes espécies e classificações sanitárias componentes da comunidade atingida sejam também resgatados, para que se realize a avaliação individual e a triagem, e possam receber tratamento ou eutanásia. Nesse caso, é necessária a implantação de medidas sanitárias e humanitárias relativas à destinação desses animais. Por outro lado, se após a triagem não forem detectados maiores problemas, eles deverão ser alojados temporariamente em estruturas de apoio previamente montadas, que tenham profissionais e condições para garantir o seu bem-estar enquanto estiverem abrigados 1. Segundo dissertação defendida na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa em 2016, os desastres podem acometer vários ecossistemas, provocando distúrbios na fauna e na flora, e atingem populações que, pela própria definição de desastre, não são capazes de responder de forma adequada 1. Quando os desastres acontecem, há mobilização de equipes para procurar restabelecer condições minimamente aceitáveis de sobrevivência. No entanto, os animais não humanos acabam ficando fora desses planos e ações, deixando a cargo das Organizações Não Governamentais (ONGs) e de voluntários o ônus de suprir as lacunas deixadas. Isso ocorre pelo despreparo tanto dos serviços estatais (nos casos de desastres naturais) como das empre12

Vania de Fátima Plaza Nunes

Importância da inclusão de animais nos planos de emergência

Vista aérea de parte da área atingida pelos rejeitos provenientes do rompimento da barragem da Vale no Córrego do Feijão

sas responsáveis (nos casos de desastres que poderiam ter sido evitados). O estudo português ainda revela que o Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil de Lisboa não chegou a incluir os animais de companhia na sua estrutura – o que foi proposto pela dissertação defendida na Universidade de Lisboa. Desastres naturais e não naturais Nos anos 1980, foram elaborados estudos considerando o tipo e a duração dos desastres, o grau de impacto na vida humana, o potencial de ocorrência e a capacidade de controle numa próxima ocorrência. Uma nova classificação tipificou os desastres a partir de: agente causal, duração, extensão, número de vítimas, tempo decorrido até início dos tratamentos primários pelas organizações de resgate, organização dos transportes e da evacuação de feridos, e gravidade das enfermidades. Estas últimas ainda se dividiam em lesões mecânicas, de radiação, choque emocional e outras doenças 1. Os desastres não naturais se dão em consequência do aumento do número de substâncias e materiais perigosos inerentes ao desenvolvimento humano, tendo sido definido o termo

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


“antropogênico” para o fenômeno artificial causado pelo homem – por sua ação ou falta dela, fruto de sua negligência ou erro. A Organização das Nações Unidas (ONU) tipificou em 1997 alguns perigos que poderiam originar desastres tecnológicos, como a liberação de agentes químicos para a atmosfera por fogos e/ou explosões, o derramamento de produtos químicos, marés negras, acidentes aéreos, contaminação de origem militar e liberação de material biológico em atividade industrial, entre outros 2. Experiência de Mariana, MG O desastre de Mariana, MG, aconteceu no dia 5 de novembro de 2015. À época, um grupo de ONGs e voluntários dos direitos dos animais resgatou mais de 300 animais no momento seguinte à tragédia. Muitos desafios foram enfrentados naquele episódio, tanto pelos médicos-veterinários quanto pelos voluntários ligados à proteção e à defesa animal. Esses desafios perduraram tanto no período imediato após o desastre – devido à aglomeração dos animais, ao estresse enfrentado pelo acidente e ao longo período de manutenção em ambiente coletivo – como pela necessidade de se destinarem os animais não reclamados pelos antigos tutores, o que exigia novas medidas, como programas de adoção ou tutelamento monitorado de equídeos, pela empresa responsável pelo desastre da barragem até o final da vida dos animais. Entidades como o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal (FNPDA) se mobilizaram tanto para arrecadar recursos nos instantes iniVania de Fátima Plaza Nunes

Bovinos mortos pelos rejeitos

Esquema que ilustra a sequência de etapas necessárias na elaboração do plano de ação para situações calamitosas sugeridas após o desastre de Mariana, MG. Modificado 4

ciais como para monitorar o Ministério Público no sentido de organizar melhor o atendimento crucial para a saúde dos animais, em curto, médio ou longo prazo. Esse atendimento é fundamental para as famílias atingidas – que muitas vezes dependiam de uma vaca ou algumas galinhas para seu sustento, ou tinham com um animal de estimação um vínculo fundamental num momento de vulnerabilidade e perda de sua relação sociocultural com a área atingida –, além de visar também o restabelecimento da saúde e do bem-estar de cada animal envolvido. Além dos animais domésticos, também os animais silvestres sofreram e morreram em Mariana. Segundo o Ibama, baseado na análise de toda a área atingida pelos rejeitos de minério da barragem, esse impacto pode ter atingido até 400 espécies na bacia do rio Doce, incluindo espécies de plantas, de 64 a 80 espécies de peixes, 28 espécies de anfíbios, 4 espécies de répteis, de 112 a 248 espécies de aves e ainda 35 espécies de mamíferos 3. O texto publicado na edição n° 120 da revista Clínica Veterinária, de janeiro/fevereiro de 2016, conclui que: “A ação que envolve o resgate e o manejo dos animais atingidos pelo desastre em Mariana possui vários pontos positivos e negativos, sendo fundamental que se faça uma reflexão profunda sobre as ações possíveis, as necessárias e o cenário ideal nesse desastre em particular. Dessa forma, em situações futuras, a atuação do

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

13


Medicina Veterinária de Desastres

14

Vania de Fátima Plaza Nunes

Experiência de Brumadinho, MG O rompimento da barragem da Vale no Córrego do Feijão em Brumadinho, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte, MG, ocorreu às 12h28, no dia 25 de janeiro de 2019. Segundo o Departamento de Redução do Risco de Desastres das Nações Unidas 5, previamente à tragédia, o perfil de perigo de Brumadinho incluía os fatores físicos e ambientais de vulnerabilidade, como a ocorrência de inundação, solapamento, deslizamento de terra e incêndio florestal. O plano de redução apresentado pela prefeitura da cidade incluía o treinamento básico de defesa civil aos agentes de saúde, assistentes sociais e voluntários relativo a: noções básicas de como agir em momentos de risco; mapeamento das áreas de risco; formação de um conselho municipal de proteção e defesa civil; implementação do plano municipal de redução de risco; e elaboração de um plano de contingência. Como em Lisboa e em Mariana, os animais ficaram de fora do plano de contingência em Brumadinho, que dependeu de voluntários e organizações de classe (Conselho Regional de Medicina Veterinária) para ajudar nas buscas e no resgate de animais atingidos pelo rompimento da barragem. A rápida e certeira ação de profissionais de medicina veterinária de Minas Gerais que se mobilizaram juntamente com voluntários já participantes de ações no rompimento da Bar-

ragem da Samarco em Mariana e na enchente de 2018 da região do rio Casca foi fundamental para o resgate dos animais diretamente envolvidos nas áreas atingidas e no auxílio àqueles que ficaram para trás na desocupação dos habitantes das áreas atingidas ou sob risco. O CRMV-MG, cuja Comissão de Bem-Estar Animal é coordenada pela dra. Ana Liz Bastos, estabeleceu uma força-tarefa denominada Brigada Animal, que, poucas horas após a ruptura da barragem da Vale em Brumadinho, já estava no local atuando de forma rápida e segura nos resgates – sempre sob a supervisão e autorização da Defesa Civil local e do Corpo de Bombeiros, que coordenou e liderou a ação.

Médica-veterinária Ana Liz Bastos, coordenadora da Brigada Animal e membro da diretoria do CRMV-MG, passando recomendações e dividindo equipes para trabalho de campo Vania de Fátima Plaza Nunes

médico-veterinário e dos voluntários envolvidos no salvamento dos animais poderá se inserir no plano de ação de maneira mais explícita, inclusive nas medidas preventivas, fazendo jus ao conceito de Saúde Única” 4. O rompimento da barragem em Mariana, MG, foi o maior desastre ambiental do Brasil. Apesar de a Samarco (subsidiária da Vale) à época ter assumido a gestão dos serviços e suprimentos necessários à qualidade de vida dos animais impactados pelo acidente da barragem a partir de 10/12/2015, estes não foram incluídos no plano de emergência criado para o caso de novos desastres.

À esquerda, o biólogo Pablo Pezoa, contratado pela mineradora, e o médico-veterinário Eutálio Pimenta, da UFMG, voluntário responsável pela anestesia de grandes animais resgatados nas áreas atingidas. À direita, resgatistas com cão farejador

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


programa de análise de risco, pois, nessas situações, pessoas se comportam de forma inadequada, oferecendo riscos aos voluntários e resgatistas treinados e a outros animais em áreas do entorno. Assim sendo, foi necessário que se adotassem medidas eficientes para garantir resgates seguros. A pesquisa de enfermidades infecciosas de caráter zoonótico, doenças espécie-específicas e controle parasitário, além de um completo exame e assistência Vania de Fátima Plaza Nunes

Em todo o processo de resgate dos animais existiram múltiplos grupos de colaboradores, voluntários e até mesmo organizadores que se somaram, cada um fazendo alguma parte da ação, e nem todos ficaram o tempo todo nem acompanharam todas as etapas, sendo que as últimas foram (e ainda estão sendo) realizadas por equipes locais e de longo termo. Desse modo, optamos por descrever o montante de um desses grupos, sediado na fazenda disponibilizada pela própria Vale.Os resultados da tabela descrevem apenas um período de tempo e espaço dentro deste universo de ações, mais bem coordenadas graças à acumulada (e trágica) experiência de Mariana.” Grandes desafios se apresentaram e requereram medidas complexas para o resgate de animais de grande porte, como bovinos e equinos, e de pequeno porte, como aves, cães e gatos. Foi fundamental estabelecer um eficiente Vania de Fátima Plaza Nunes

Os animais resgatados logo após o desastre foram encaminhados à fazenda destinada à recepção e aos primeiros cuidados. Cães e gatos adultos, idosos e filhotes foram alojados temporariamente em canis móveis após avaliação clínica e prescrição, e mantidos em observação Vania de Fátima Plaza Nunes

Equipe de trabalho voluntário da UFMG na fazenda de acolhimento, liderada pela médica-veterinária Cristina Malmann Vania de Fátima Plaza Nunes

À esquerda, reunião de resgatistas voluntários e de órgãos oficiais na sede de resgate de fauna. À direita, alunas da UFMG supervisionadas discutindo casos e protocolos

Médicos-veterinários Artur Nascimento, Carla Sassi, Sérvio Reis e Vania de Fátima Plaza Nunes, envolvidos nos trabalhos de resgate

Escaneie o QR Code ao lado para conferir todas as fotos desta matéria

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

15


Medicina Veterinária de Desastres Espécie animal

Descrição

Cães

Total de cães assistidos até 25/1/19: 70. Alguns cães foram encaminhados para atendimento: - Clínica Santo Agostinho: 1 em cuidados intensivos e 2 para tratamento; - MedVet: 11 em tratamentos diversos; - Clínica Gutierrez: 11 em tratamentos diversos. Encaminhados para hospedagem: - Pethouse Hotel: 15 cães; em Contagem: 9. Nasceram 9 filhotes no dia 2/2/19. Um óbito em 4/2/19. Total de cães abrigados na fazenda: 10.

Gatos

Adultos: 7; filhotes: 3. 1 gata prenhe e 1 gata que sofreu aborto foram encaminhadas para a MedVet; 1 gato veio a óbito no dia 2/2, e outro dia 5/2; 7 gatos foram encaminhados para lar temporário; 1 gata com suspeita de câncer de mama foi encaminhada para a Clínica Gutierrez para exames.

Pássaros

Canarinhos: 7; trinca-ferros: 5; azulão: 1; tico-tico: 1. 1 filhote não identificado foi a óbito em 5/2/19. Os demais estavam em bom estado de saúde. Total de pássaros assistidos e abrigados na fazenda até 25/1/19: 14.

Répteis

Cágado: 1; serpente: 1. Avaliados em bom estado e encaminhados para soltura.

Mamíferos silvestres Ouriço encaminhado para soltura: 1. Aves domésticas

Patos: 4; galos: 3; galinhas: 10. 1 galo e 1 pato foram encaminhados para o Zoovet e o restante em bom estado de saúde. Total de aves domésticas assistidas até 25/1/19: 17. Total de aves domésticas abrigadas na fazenda: 15.

Equinos

Cavalos/éguas: 15. Um animal com ferida na pata e outro com um problema ocular foram tratados. Nada grave. Total de equinos assistidos até 25/1/19: 15. Total de equinos abrigados na fazenda: 15.

Bovinos

Vacas/bois: 40. Um bezerro desidratado e apático; 1 vaca debilitada melhorou e voltou a alimentar-se; 1 vaca com o membro posterior lesionado foi encaminhada para a UFMG. Total de bovinos assistidos até 25/1/19: 40. Total de bovinos abrigados na fazenda: 39.

Espécies animais resgatadas em Brumadinho após o rompimento da barragem no dia 25/1/2019, segundo o levantamento realizado na fazenda de abrigo no dia 6/2/2019

clínica e nutricional acompanhada de manejo humanitário e etológico, são fatores centrais na condução das ações que deverão ser levadas a efeito no médio e no longo prazo. Considerações finais A iniciativa proposta por médicos-veterinários em Minas Gerais, que conta com o apoio do Ministério Público na área ambiental do estado, tem sido fundamental no resgate e no encaminhamento dos animais afetados. O modelo de ação imediata e emergencial criado pela Brigada Animal deveria ser cada vez mais estruturado e compartilhado nacionalmente com os demais colegas médicos-veterinários e voluntários incorporados nessas iniciativas – para que se possam estabelecer objetivos e diretrizes no sentido definir ações e de angariar os recursos necessários para o treinamento das equipes e o fornecimento de apoio técnico e psicológico correto indispensáveis em situações idênticas ou semelhantes que possam ocorrer no futuro. Referências

1-VIEIRA, J. F. M. Medicina veterinária de desastres e catástrofes: contributo para a extensão do Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil de Lisboa aos animais de companhia. 2016. 91 f. Dissertação (Mestrado

16

em Medicina Veterinária) – Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2016. 2-KREJSA, P. Report on early warning for technological hazards. Geneva: IDNDR Secretariat, 1997. 31 p. Disponível em: <http://www.unisdr.org/2006/ppew/whats-ew/pdf/ report-on-ew-for-technological-hazards.pdf>. Acessado em 7 de fevereiro de 2019. 3-CALIXTO, B. Desastre em Mariana ameaça quase 400 espécies de animais. Revista Época, 2015. Disponível em: <https://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/blog-do -planeta/noticia/2015/12/desastre-em-mariana-ameacaquase-400-especies-de-animais.html>. Acessado em 7 de fevereiro de 2019. 4-BASTOS, A. L. ; SASSI, C. ; SOUSA, M. G. ; BIONDO, A. W. ; BAZZETTO, A. V. P. A tragédia de Mariana, MG, relembra a importância da medicina veterinária de desastres. Clínica Veterinária, ano XXI, v. 120, p. 24-30, 2016. ISSN: 1413-571X. 5-United Nations Office For Disaster Risk Reduction. Local Government Profile: Brumadinho (Minas Gerais) – Brazil. Disponível em: <https://www.unisdr.org/campaign/resilientcities/Home/cityprofile/City%20Profile%20Of%20Brumadinho/?id=4395>. Acessado em 7 de fevereiro de 2019. Vania de Fátima Plaza Nunes MV, CRMV-SP 4.119, Diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal. Coordenadora de Projetos do ITEC. vania.vet@gmail.com

Alexander Welker Biondo

MV, CRMV-PR 6.203, MSc, PhD., prof. Depto. Medicina Veterinária – UFPR abiondo@ufpr.br

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Medicina Veterinária de Desastres Nota de apoio à atuação dos médicos-veterinários em Brumadinho/MG h t t p : / / p o r t a l . c f m v. g o v. b r / n o t i c i a / i n d e x / id/5985/secao/6 O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) informa que os médicos-veterinários da Comissão de Bem-Estar Animal, do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-MG), estão acompanhando os trabalhos de resgate de animais em Brumadinho/MG, em função do rompimento da barragem do Córrego do Feijão. Sob a supervisão de equipe veterinária, na segunda-feira (28/1/19), dois animais (um equino e um bovino), que estavam atolados havia quatro dias em local de difícil acesso, tiveram de ser abatidos por meio de rifle sanitário. Os animais encontravam-se em local sem condições de segurança para serem içados, presos em área que oferecia riscos aos socorristas e sem possibilidade de acesso para intervenção de outra técnica de eutanásia. Com base na Resolução CFMV nº 1.000/2012, a decisão da equipe envolvida foi estritamente técnica, uma vez que os animais já estavam debilitados, desidratados e em sofrimento. De acordo com artigo 3º da Resolução nº 1.000, a eutanásia pode ser indicada quando “o bem-estar do animal estiver comprometido de forma irreversível, sendo um meio de eliminar a dor ou o sofrimento dos animais, os quais não podem ser controlados por meio de analgésicos, de sedativos ou de outros tratamentos”. E a norma ainda deixa claro, em seu artigo 10, que a escolha do método dependerá da espécie animal envolvida, da idade e do estado fisiológico dos animais, bem como dos meios disponíveis para a contenção. Adicionalmente, a Resolução CFMV nº 1.236/2018 (art. 5º, XXIX, parágrafo 1º) não considera maus-tratos “a eutanásia e o abate [...], desde que seguidas as normas e recomendações técnicas vigentes para as referidas práticas”. O CFMV entende que o momento é delicado, requer deliberação profissional complexa, envolve preceitos técnicos e éticos, não sendo uma decisão trivial, mesmo para médicos-veteriná18

rios experientes. No entanto, reconhece e apoia o trabalho que vem sendo feito pela equipe do CRMV-MG, que segue comprometida com os protocolos e práticas de bem-estar animal. Os profissionais envolvidos possuem experiência em ocasiões de desastres ambientais e já atuaram, inclusive, no rompimento das barragens em Mariana e nas inundações do município de Rio Casca. O conselho alerta que os peritos oficiais estão coletando vestígios para apurar as causas do rompimento da barragem, e, por isso, o acesso ao local está restrito às equipes previamente autorizadas. Para não interferir nas investigações, nem prejudicar a produção de provas, as autoridades pedem calma e paciência, pois as equipes de salvamento já estão empenhadas no resgate dos animais da melhor maneira possível e garantindo a segurança de todos. Nota técnica da Comissão Nacional de BemEstar Animal do CFMV Por convicção, inspiração cívica e comprometimento com o bem-estar dos animais envolvidos na catástrofe de Brumadinho (MG), os médicosveterinários brasileiros em atividade no local, voluntários ou não, estão buscando minimizar os danos à saúde física e mental dos animais presentes na área do acidente. Cabe frisar que todo médico-veterinário possui formação técnica para realizar o diagnóstico das condições de saúde dos animais e, em casos extremos, de acordo com as resoluções técnicas do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), proceder ao sacrifício humanitário ou à eutanásia. Ressalta-se que o método de escolha do sacrifício passa também pelas condições em que o animal se encontra. Zonas de guerra, de acidentes de grandes magnitudes ou de catástrofes naturais muitas vezes são áreas cujas variáveis do ambiente não estão sob o controle do médicoveterinário. Assim sendo, e não havendo condições de segurança ou de acesso ao animal para remoção ou contenção química por anestésicos, o sacrifício com o uso de rifle é aceito. Quando corretamente aplicado por profissional

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


apto e habilitado, o projétil produz dano cerebral grave e irreversível, induzindo o animal à imediata inconsciência e insensibilidade, eventos que antecedem e garantem morte rápida e indolor. Por ser uma técnica humanitária e por permitir mitigar de maneira rápida o sofrimento dos animais em zonas de catástrofes, esse método é amplamente difundido e recomendado pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), bem como pelo CFMV. A decisão de sacrificar um animal não é algo fácil para nenhum profissional. Certamente é o momento mais difícil na vida de qualquer médico-veterinário. Possivelmente, os traumas produzidos em circunstâncias de sacrifício em massa e em áreas de catástrofes sejam similares aos traumas de guerra. Sendo assim, neste momento em que centenas de animais precisam de socorro e em que dezenas de veterinários estão assumindo essa responsabilidade, o que se espera da sociedade brasileira é o mais sincero apoio a cada um dos profissionais presentes hoje em Brumadinho (MG). Sistema CFMV/CRMVs se mobilizou para prestar apoio à comunidade de Brumadinho/MG O Sistema Conselhos Federal e Regionais de Medicina Veterinária (CFMV/CRMVs) lamenta o rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, ocorrido em 25/1/2019. O CRMV-MG está mobilizado para prestar apoio com força-tarefa de médicos-veterinários experientes em situações de desastres ambientais. Resgate A área ainda está instável e há risco de rompimento de outra barragem. Por isso, a orientação do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil, para o momento, é que nenhum médico-veterinário ou zootecnista voluntário vá até o local, em virtude da complexidade das operações. O CRMV-MG ressalta que sua equipe de profissionais enviada ao local aguardou a liberação para iniciar os trabalhos de socorro aos animais. Os profissionais estão preparados para aten-

der aos animais atingidos, sobretudo os de grande porte, uma vez que a região possui propriedades que exercem atividade pecuária. O CRMV-MG dispõe de uma equipe de médicos-veterinários experientes em situações de desastre, que atuou, inclusive, no rompimento das barragens em Mariana e nas inundações do município de Rio Casca. O Conselho conta, inclusive, com o apoio da Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais de Minas Gerais (Anclivepa -MG), que esteve reunida com a equipe do CRMV-MG, na manhã de domingo (27), para avaliar ações de complementação ao trabalho desenvolvido pelos profissionais que atuam no desastre de Brumadinho, além de planejar as estratégias para o resgate dos animais atingidos pelo rompimento da barragem. Voluntariado e doações O CRMV-MG agradece a todos os que se solidarizam com a causa animal neste desastre. A mobilização da classe profissional foi tamanha que o CRMV-MG recebeu cerca de mil contatos de médicos-veterinários e zootecnistas de todo o país disponibilizando-se para realizar trabalho voluntário, além de doações de inúmeros insumos veterinários e outros materiais. Para esse primeiro momento, as doações são suficientes e estão temporariamente suspensas. Caso haja necessidade de mais profissionais ou de doações para os trabalhos, o CRMV-MG divulgará por meio de seu portal e de suas redes sociais. CFMV Presidente da Comissão de Medicina Veterinária Legal do CFMV, o médico-veterinário Sérvio Reis, perito criminal oficial, foi convocado pela Polícia Federal para compor a equipe deslocada até Brumadinho em 26/1/19, com o objetivo de promover as perícias e demais diligências necessárias para a apuração do caso. O Sistema CFMV/CRMVs se solidariza com as famílias que sofrem com a perda de amigos e parentes e está à disposição para apoiar os órgãos que trabalham na busca por sobreviventes.

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

19


Medicina Veterinária do Coletivo

Introdução A superpopulação de pombos em áreas urbanas é um exemplo atual da interdependência entre o bem-estar da fauna urbana, a saúde pública e o bem-estar da população humana, além de seus potenciais impactos no ecossistema urbano, particularmente nas grandes cidades brasileiras. A rápida urbanização das cidades, muitas vezes de forma pouco planejada, associada à deficiência de políticas públicas de controle ambiental e da fauna sinantrópica, vem criando desafios na relação do homem com a fauna urbana e o seu meio ambiente antrópico. Os pombos têm sido um dos maiores problemas em áreas de alta concentração populacional, tanto por sua presença física nas praças e parques como pelo incômodo e o risco de doenças e parasitos veiculados por fezes e ninhos. Medidas de controle, manejo, educação e mesmo estratégias mais extremas, como multas, já foram adotadas por vários municípios brasileiros, associadas ou não a ações educativas e de controle populacional. Histórico Existem registros da domesticação de pombos (Columba livia) na Ásia há mais de 5 mil anos, quando tinham a função de levar mensagens escritas e serviam também como alimento. A adaptação à vida nas grandes cidades foi possível devido à disponibilidade de água, alimento, abrigo nas construções urbanas e ausência de predadores. Os pombos-domésticos foram trazidos ao Brasil como aves exóticas pela família real portuguesa no século XVI e se adaptaram rapidamente ao novo ambiente tropical 1,2. Atualmente, a Instrução Normativa n° 141/2006 do Ibama classifica os pombos como fauna si20

Fernando Gonsales

Eu aqui na praça dando milho aos pombos... e sendo multado

A grande oferta de alimento em praças e parques tem proporcionado condições ideais para a reprodução desordenada de pombos em grandes centros urbanos

nantrópica nociva, com controle liberado sem autorização, segundo o Art. 5º, parágrafo 1º, “de roedores sinantrópicos comensais (Rattus rattus, Rattus norvegicus e Mus musculus) e pombos (Columba livia), observada a legislação vigente, especialmente no que se refere a maus-tratos, translocação e utilização de produtos químicos”. No entanto, essas aves também são passíveis de “abrigo legal” pela Lei Federal de Crimes Ambientais n° 9.605/1999. É interessante constatar que, quando comparados com os pombos, os ratos também são considerados fauna sinantrópica urbana, e mesmo assim são sistematicamente mortos em todo o território nacional, geralmente por iscas de envenenamento e por produtos anti-hemorrágicos, que provocam morte dolorosa. Sobre a espécie Embora com expectativa de vida em torno

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


de 10 anos na natureza, os pombos vivem de 4 a 6 anos nas cidades, sendo monogâmicos, com formação de casais por toda a vida, e chegando a ter seis ninhadas por ano com até dois filhotes cada, dependendo da disponibilidade de alimentos. Os ovos eclodem após 17 a 19 dias, e os filhotes chegam à maturidade sexual a partir dos 6 meses de idade. Os pombos têm preferência por abrigos em áreas altas, como prédios, igrejas e telhados, que possibilitam a visualização da região e de potenciais fontes de alimento 3. Os pombos são pouco exigentes em relação à alimentação. Embora na natureza se alimentem de frutos, sementes e grãos, no meio urbano se beneficiam do hábito que algumas pessoas têm de alimentar aves com pão, milho e restos de comida, além de terem acesso ao lixo nas ruas e a cestos descobertos. O crescimento populacional descontrolado de pombos pode causar prejuízos ambientais e à saúde pública. Os excrementos podem contaminar água, alimentos e acumular-se nas ruas, praças e em patrimônios públicos, deteriorando as construções, além de gerar gastos com a limpeza e expor as pessoas que executarão o serviço ao risco de contrair doenças 3-5.

Interesse da saúde pública Os pombos são potenciais fontes de zoonoses importantes para a saúde pública. Dentre as possíveis doenças que podem transmitir estão: criptococose, histoplasmose, clamidiose, salmonelose, dermatites e alergias – além de seus ninhos e penas abrigarem piolhos, ácaros, percevejos e carrapatos 12. A principal fonte de infecção é o acúmulo de fezes secas contaminadas, que por meio

Alexander Welker Biondo

Percepção da população Estudos apontam que a maioria da população é contra a presença de pombos nos centros urbanos e responsabiliza a atitude do próprio ser humano pela superpopulação dessa espécie. No entanto, as pessoas têm um comportamento paradoxal em relação a essas aves. Os pombos por vezes são considerados belos e dóceis, assumindo também um significado cultural ou religioso; muitas vezes são vistos como mensageiros, devido ao seu uso nessa função anteriormente, e também como símbolo do Espírito Santo, como pets e até mesmo como atração turística em parques e praças. Sendo assim, algumas pessoas têm o hábito de alimentar esses animais (Figura 1), seja pela simbologia ou por diversão, principalmente na companhia de crianças; para ou-

tras, esse comportamento implica ter alguma atividade, possivelmente por carência e para alívio da solidão 6-9. Outro estudo demonstrou que, apesar de a população acreditar que os pombos transmitam doenças, em sua maioria, não sabe dizer quais são, ou apresenta informações equivocadas, como a atribuição da disseminação de toxoplasmose aos pombos; outras doenças como raiva, leptospirose e até mesmo aids e câncer também foram mencionadas 10. Um pré-requisito para a prevenção eficaz de enfermidades e o surgimento de políticas públicas é a adequada educação em saúde – talvez o pilar mais importante na solução dessas questões – visando à conscientizar a população a respeito do risco de doenças zoonóticas 11.

Figura 1 – Praça dos Três Poderes, Brasília. Ao fundo, venda informal de milho em grãos para que os turistas possam alimentar os pombos

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

21


de aerossóis podem ser inaladas por pessoas, gerando enfermidades como a criptococose. Embora os casos tenham historicamente acompanhado as ocorrências de imunodeficiência adquirida (aids) e se concentrado nas regiões Sudeste e Nordeste na década passada, estados do Sul, como o Paraná, também registraram casos de mortes por criptococose 13. Para o controle da contaminação ambiental, deve-se proteger o nariz e a boca com máscara ou pano úmido e utilizar luvas ao fazer a limpeza de locais com fezes acumuladas e ninhos. Antes e depois da limpeza, as fezes devem ser umedecidas com solução desinfetante à base de cloro (água sanitária) diluída em partes iguais com água ou solução de amônia quaternária na concentração de 50% 14. A vistoria zoossanitária do local em questão é essencial para o controle populacional efetivo e duradouro dos pombos urbanos. Devemse identificar todas as condições que possam contribuir para a reprodução exagerada no local e em seu entorno, sendo necessário colher informações das populações vizinhas e observar as revoadas, os locais de abrigo e as fontes de alimentação 1.

Alexander Welker Biondo

Medicina Veterinária do Coletivo

Figura 2 – Família alimentando pombos na Plaza de Mayo, em frente à Casa Rosada, Buenos Aires, Argentina

Nos locais onde os pombos são alimentados ocorre também proliferação de roedores e insetos. Além disso, a grande disponibilidade de alimento induz as aves a terem mais ninhadas por ano, causando sua superpopulação (Figura 2). A qualidade e o tempo de vida desses pombos podem diminuir devido à dieta desequilibrada e ao aumento da disputa por alimento, abrigo e poleiros, com maior risco

Medidas adotadas para controle de pombos País Brasil

Cidade

Medidas

Lei/projeto/ano

Multa

Caxias do Sul, RS

Proíbe a alimentação de pombos Lei Municipal n° 7.654/13

São Paulo, SP

Proíbe a alimentação de pombos Lei Municipal n° 16.914 de 2016 R$ 200,00

R$ 233,00 a R$ 466,00

Presidente Prudente, Proíbe a alimentação de pombos Lei Municipal n° 8.578/2014 SP

R$ 418,80

São Lourenço, MG

Proíbe a alimentação de pombos Lei Complementar n° 60/2018

R$ 159,57 a R$ 797,85

Belo Horizonte, MG

Proíbe a alimentação de pombos Projeto de Lei n° 1717/15

R$ 200,00

Proíbe a alimentação de pombos Lei Municipal n° 11.471/2012

R$ 50,00

Portugal Caldas Novas

Londrina, PR

Alimentação proibida; educação; Lei n°1, art. 60 RRSCL limpeza; pombal contraceptivo; captura nos locais mais afetados; falcões para afugentar os pombos; espículas em locais de pouso

€ 135,33

EUA

Chicago

Alimentação proibida

Municipal Code Section 728-710 $ 500,00

China

Singapura

Alimentação proibida

LHWB, 11/11

$ 500,00

Figura 3 – Medidas de controle populacional de pombos adotadas em diferentes países e cidades, com leis e suas respectivas multas 22

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


à população. Em São Paulo, por meio da Lei n° 16.914 de 2016, foi proibida a alimentação de pombos,

Alexander Welker Biondo

de propagação de doenças e de traumatismos causados por pisoteio e disputa por fêmeas, além de esses animais ficarem dependentes dessa fonte de nutrição e não exercerem seu comportamento natural de procura por alimento 12. Legislação Várias cidades em todo o mundo têm legislação específica com aplicação de multas para quem alimenta os pombos (Figura 3), inclusive Istambul (Figura 4) e Londres (Figuras 5 e 6). É importante levar em consideração a legislação vigente no desenvolvimento das atividades de controle. Segundo a Instrução Normativa n° 141/2006, com base nos protocolos definidos pelos ministérios da Saúde, da Agricultura ou do Meio Ambiente, pode-se fazer o manejo populacional da fauna sinantrópica, caracterizada pelos órgãos federais, estaduais ou do meio ambiente como nociva – ou seja, espécie que interage de forma negativa com a população humana, causando-lhe transtornos econômicos, ambientais ou que representem riscos à saúde pública. Ficam facultados aos órgãos de segurança pública – Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Defesa Civil – o manejo e o controle da fauna sinantrópica nociva, sempre que representar risco

Figura 5 – Estação Canning Town do metrô de Londres, com espículas instaladas em pontos de pouso de pombos

Alexander Welker Biondo

Alexander Welker Biondo

Figura 4 – Sistema de ventilação e ar-condicionado com grande quantidade de pombos, metrô de Istambul, Turquia

Figura 6 – Parque de Londres com placas de proibição de alimentação a pombos

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

23


Medicina Veterinária do Coletivo bem como a venda de alimento para esses animais, sob pena de advertência e, posteriormente, multa no valor de R$ 200,00 para a primeira infração. A lei prevê também que os proprietários de imóveis com infestação de pombos devem providenciar rede e outros obstáculos para dificultar o pouso e a nidificação dessas aves. Alguns trabalhos realizados no Brasil apontam que apenas a supressão da fonte de alimentação alternativa tem resultados significativos na diminuição do contingente de aves em um curto espaço de tempo 1. Formas de controle Existe uma variedade de medidas de controle populacional de pombos, porém é importante ressaltar que essas ações não devem visar à eliminação total dessa espécie, mas sim a um equilíbrio entre o ambiente urbano e os animais. Essas medidas podem ser classificadas conforme seu grau de impacto ambiental (Figura 7) 15.

As de baixo impacto são a exclusão mecânica, a inclinação de superfícies que as aves usariam para repouso, o uso de estruturas que impeçam ou desestabilizem o pouso (Figura 6), espantalhos, refletores luminosos, dispositivos sonoros, equipamentos de ultrassom, cercas elétricas, redes de proteção, gel irritante de contato, vedação de espaços e vãos, uso de abrigos controlados, nos quais os ovos são destruídos semanalmente, controle das fontes de alimento, seja por meio de proibição ou educação da população, e destinação adequada de resíduos em geral. As de maior impacto são as armadilhas para captura e o uso de anticoncepcional (químio esterilizante à base de hidrocloro), que podem afetar outras espécies, além do uso de aves de rapina como predadores. Vale ressaltar que nenhuma das medidas citadas é eficiente sem a associação de ações educativas, orientação e esclarecimento da população 1,16. Acredita-se que a captura e a eliminação desses animais não é uma estratégia eficiente

Medidas de controle Alto impacto

Armadilhas para captura e soltura Alimento com anticoncepcional à base de hidrocloro Aves de rapina para afugentar pombos Inclinação da superfície de apoio das aves em 60 graus Uso de estruturas que dificultem ou desestabilizem o pouso e que impeçam de fazer ninhos, como espículas, grades, telas Espantalhos, manequins de predadores como gaviões, corujas Refletores luminosos como espelhos, móbiles de CDs Inclinação da superfície de apoio das aves em 60 graus

Baixo impacto

Uso de estruturas que dificultem ou desestabilizem o pouso e que impeçam de fazer ninhos, como espículas, grades, telas Equipamentos de ultrassom Tiro de ar comprimido Cerca elétrica Gel irritante de contato Vedação de espaços e vãos Destruição de ovos Controle das fontes de alimento: pode ser feito por meio de educação sobre destinação correta de resíduos e conscientização quanto à alimentação em locais públicos, ou por meio de legislação, com multas para o infrator que alimentar os pombos

Figura 7 – Medidas de controle populacional de pombos categorizadas como de alto e baixo impacto ambiental para a fauna 1,14 24

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

25


Medicina Veterinária do Coletivo de controle populacional, pois pode levar ao aumento da população de outras espécies 17. Um estudo realizado em Barcelona comparou os efeitos da diminuição da alimentação com os da captura e do realojamento das aves. Os locais onde as aves foram retiradas e as fontes de alimento mantidas foram repovoados rapidamente com pombos de regiões vizinhas, o que pode ser chamado de efeito rebote. Porém, quando se reduziu a fonte de alimento, a diminuição da população de pombos pôde ser notada a partir de quatro meses, o que demonstra a importância dessa medida 18.

reduzida pela metade a cada semana, durante um mês, e fontes de alimento como lixeiras e restos de comida devem ser extintas 14,18.

Educação Um programa de educação permanente na comunidade local é fundamental para o sucesso da ação. A população deve ser esclarecida sobre os principais aspectos de vida dos pombos urbanos e suas implicações na saúde pública. As campanhas governamentais podem se utilizar das mídias comunicativas, seja por internet, televisão, rádio ou folders informativos, sendo importante também envolver as crianças em idade escolar por meio de campanhas eduControle populacional e bem-estar O bem-estar de animais fora de seu hábitat cativas nas escolas 16. Os vendedores de alimentos para pombos de natural pode ser definido como o menor esforço necessário para se adaptarem, da melhor vida livre, bem como a população, devem ser forma possível, ao ambiente. Além de ser uma orientados a não fornecer alimentos para esse medida ineficiente – uma vez que, se mantida fim. Medidas punitivas como multas também a capacidade de suporte de alimento no am- podem ser utilizadas, por meio da elaboração biente, pombos de outras regiões irão repovo- de leis municipais 1. Também se devem adotar medidas de prear a área –, o extermínio de pombos pode ser malvisto pela população. Dessa forma, a redu- venção, e a questão deve ser discutida pelos ção da alimentação associada à educação da diversos setores de controle social existentes. população seriam as medidas mais eficientes, rápidas e de menor impacto para o bem-estar Considerações finais dessas aves 18,19. Os pombos foram deslocados de seu hábitat Na vida livre, os pombos percorrem gran- de equilíbrio original e se adaptaram com sucesdes distâncias em busca de alimento; já em so à realidade das grandes cidades, resultando locais com grande oferta, observa-se que as numa superpopulação de animais classificados aves apenas aguardam o momento de recebê como sinantrópicos nocivos, responsabilizados -lo. Tornando a população sedentária, aumen- por prejuízos econômicos e riscos para a saúde tando o número de ninhadas e, consequen- pública. temente, a disputa por alimento, poleiros e A abordagem em saúde única demonstra que fêmeas, esse estresse interfere na imunidade esses problemas foram e têm sido causados dos animais, tornando-os predispostos a do- pela ação do próprio ser humano, principalmenenças e a carrear patógenos e diminuindo sua te pelo transporte e abandono desses animais expectativa de vida, além de gerar prejuízos à em quase todos os continentes, associado à cidade e à saúde pública, como mencionado disponibilidade de abrigo e alimento nas grananteriomente 1,18. des cidades. Desse modo, a solução definitiva A redução gradual do alimento teria menor im- passa pela educação e pela mudança de pensapacto no bem-estar dessa população, uma vez mentos e atitudes da população circunvizinha, que esses animais teriam tempo de se adaptar com políticas públicas de fiscalização e ações à nova realidade do ambiente, podendo procu- educativas e punitivas baseadas na legislação rar alimentar-se em outras regiões e diminuindo vigente, associadas a medidas continuadas de o número de ninhadas. A alimentação pode ser manejo populacional. 26

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

27


Medicina Veterinária do Coletivo Referências

01-NUNES, V. F. P. Pombos urbanos: o desafio de controle. Biológico, v. 65, n. 1/2, p. 89-92, 2003. 02-SICK, H. Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. 862 p. ISBN: 85-209-0816-0. 03-SCHULLER, M. Pombos urbanos: um caso de saúde pública. Sociedade Brasileira de Controle de Contaminação, v. 29, p. 32-37, 2005. 04-HAAG-WACKERNAGEL, D. ; MOCH, H. Health hazards posed by feral pigeons. The Journal of Infection, v. 48, n. 4, p. 307-313, 2004. doi: 10.1016/j.jinf.2003.11.001. 05-BENCKE, G. A. Pombos-domésticos: sugestões para o controle em escolas públicas estaduais de Porto Alegre. Porto Alegre: Museu de Ciências Naturais/FZB-RS/CRE/SE, 2007. 22 p. 06-WEBER, J. ; HAAG, D. ; DURRER, H. Interaction between humans and pigeons. Anthrozoõs, v. 7, n. 1, p. 55-59, 1994. doi: 10.2752/089279394787002023. 07-MARTINS, C. M. ; BIONDO, A. W. ; BRAGA, K. F. ; OLIVEIRA, S. T. Percepção de usuários de espaços públicos de Curitiba, Paraná, sobre a presença de pombos (Columba livia). Archives of Veterinary Science, v. 20, n. 4, p. 10-19, 2015. ISSN: 1517784X. 08-RODRIGUES, J. G. ; ESTON, M. R. ; MARCONDES, A. A. ; MENDES, A. F. A percepção dos visitantes do Parque Estadual Alberto Löfgren – São Paulo em relação à presença de pombos domésticos (Columba livia doméstica) como vetores de zoonoses. In: SEMINÁRIO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DO INSTITUTO FLORESTAL, 3., 2009, São Paulo. Anais... São Paulo: Secretaria do Meio Ambiente, 2009. p. 155-160. 09-MANCERA, V. M. M. ; JIMÉNEZ, L. C. V. ; MEDINA, D. A. B. ; SOLER-TOVAR, D. La paloma (Columba livia) em la transmisión de enfermedades de importancia en salud pública. Revista Ciencia Animal, n. 6, p. 177-194, 2013. ISSN: 2011-513X. 10-MIRANDA, C. ; LADENDORFF, N. ; KNÖBL, T. Percepção da população sobre a participação dos pombos (Columba livia domestica) na transmissão de zoonoses. Atas Saúde Ambiental, v. 2, n. 1, p. 23-28, 2014. ISSN: 2357-7614. 11-STULL, J. W. ; PEREGRINE, A. S. ; SARGEANT, J. M. ; WEESE, J. S. Household knowledge, attitudes and practices related to pet contact an associated zoonoses in Ontario, Canada. BMC Public Health, v. 12, n. 1, p. 553, 2012. doi: 10.1186/1471-245812-553. 12-HAAG-WACKERNAGEL, D. Parasites from feral pigeons as a health hazard for humans. Annals of Applied Biology, v. 147, n. 2, p. 203-210, 2005. doi: 10.1111/j.1744-7348.2005.00029.x. 13-CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA VETERINÁRIA PR. Doença do pombo faz vítima fatal em Londrina. Paraná, 2008. Disponível em: 28

<http://www2.crmv-pr.org.br/?p=imprensa/noticia_ detalhes&id=1137>. Acessado em: 16 de janeiro de 2019. 14-CENTRO DE CONTROLE DE ZOONOSES DE SÃO PAULO. Manejo de pombos urbanos. São Paulo. Disponível em: <https://www. prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/ PombosUrbanos_1253821868.pdf>. Acessado em: 16/1/2019. 15-BIONDO, A. W. ; AFONSO, J. A. C. ; MOURA, R. R. ; HOFFMAN, J. L. A cidade sem seus bichos: a biofobia cosmopolita e seu impacto na fauna urbana. Clínica Veterinária, ano XIX, n. 110, p. 34-38, 2014. ISSN: 1413-571X. 16-MORAES, F. C. Educação em saúde: formação de multiplicadores em zoonoses e guarda responsável de animais de estimação. 2013. 56 f. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária) - Curso de Pós-graduação em Medicina Veterinária, Universidade Estadual de São Paulo, Jaboticabal, 2013. 17-SGUARIZI, G. Fauna sinantrópica: convivência e consciência. Revista CFMV-PR, v. 5, n. 23, p. 1415, 2007. 18-SENAR, J. C. ; MONTALVO, T. ; PASCUAL, J. ; PERACHO, V. Reducing the availability of food to control feral pigeons: changes in population size and composition. Pest Management Science, v. 73, n. 2, p. 313-317, 2017. doi: 10.1002/ps.4272. 19-BROOM, D. M. Animal welfare: concepts and measurement. Journal of Animal Science, v. 69, n. 10, p. 4167-4175, 1991. doi: 10.2527/1991.69104167x. Alexander Welker Biondo

MV, CRMV-PR 6.203, MSc, PhD., prof. Depto. Medicina Veterinária – UFPR abiondo@ufpr.br

Bruna Bianchi

MV, CRMV-PR: 15.935, residente UFPR-Curitiba bianchibruna@live.com

Cláudia Staudacher

Bióloga, CCZ/SMS, Prefeitura Municipal de Curitiba cstaudacher@sms.curitiba.pr.gov.br

Vivien Midori Morikawa

MV, CRMV-PR 6.183, MSc, PhD., profa. Depto. Saúde Comunitária – UFPR vmorikawa@smma.curitiba.pr.gov.br

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Confira a linha completa:

Muito sabor com alta tecnologia.

1º alimento do mercado com partículas liofilizadas de frango.

Exclusive

SUPREME TASTE exclusivo sabor extra

Com frango liofilizado

Nutrição de alta performance

SAC: 0800 725 85 75 | www.equilibriototalalimentos.com.br /equilibriototalalimentos

/equilibriosuperpremium

/racaoequilibrio

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

29


Bem-estar animal

Todos contra a caça!

Breve histórico da proteção à fauna nativa A fauna nativa brasileira tem sido protegida legalmente da caça há mais de 50 anos, quando a Lei Federal n° 5.197, de 3 de janeiro de 1967 1, revogou o Decreto-Lei n° 5.894 de 20 de outubro de 1943, o antigo Código de Caça. Em seu Artigo 1º, a Lei n° 5.197/1967 estabeleceu que “os animais de quaisquer espécies, em qualquer fase do seu desenvolvimento e que vivem naturalmente fora do cativeiro, constituindo a fauna silvestre, bem como seus ninhos, abrigos e criadouros naturais, são propriedades do Estado, sendo proibida a sua utilização, perseguição, destruição, caça ou apanha”. Além disso, a Constituição Federal de 5 de outubro de 1988 2 corroborou a lei de proteção contra a caça, determinando em seu Artigo 225 que o Estado deve “VII – proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade”. Finalmente, a Lei Federal n° 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 3, estabeleceu como crime contra a fauna, em seu Artigo 29: “Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida”. Ameaça contra a biodiversidade Mesmo com todo o arcabouço legal de proteção à fauna nativa no Brasil, uma série de tentativas recentes a favor da caça vem ameaçando a biodiversidade brasileira. Em resposta, vários setores da sociedade come30

Fernando Gonsales

A mobilização da sociedade é necessária neste breve alívio à ameaça contra a biodiversidade nativa brasileira

çaram a se mobilizar no início de 2017 para fazer resistência e oposição a esse conjunto de projetos de lei apresentados por vários deputados federais a partir de 2014 e direcionados para a caça de animais silvestres (da fauna nativa brasileira), bem como à sustação das Listas Nacionais de Espécies da Flora e da Fauna Ameaçadas de Extinção. Dois movimentos – Todos Contra a Caça (Figura 1) e Aliança Pró Biodiversidade (Figura 2) – foram formados com essa finalidade, aglutinando técnicos e pesquisadores das ciências naturais (biologia e medicina veterinária, principalmente), associações ambientalistas e de defesa dos animais, artistas e formadores de opinião. O dia 31 de janeiro de 2019 representou um grande alento para esses dois movimentos e uma esperança para minimizar os grandes impactos à nossa fauna e biodiversidade como um todo, caso os projetos acima citados sejam aprovados no Congresso.

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Figura 1 – Site do movimento Todos Contra a Caça, criado para fazer frente aos projetos que colocam em risco a fauna nativa brasileira: https://www.todoscontracaca.com.br/

Arquivamento dos projetos de lei a favor da caça Conforme previsto no Artigo 105 do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, ao final de uma legislatura e início de outra (ciclo de quatro anos de mandato dos deputados), todos os projetos de lei – exceto poucas exceções elencadas no corpo do artigo) são automaticamente arquivados. Entre esses se enquadram os projetos extremamente impactantes para a biodiversidade brasileira, que citamos: 1) Projeto de Lei (PL) nº 6.268/2016 4, de autoria do ex-deputado Valdir Colatto (MDB/ SC), atual chefe do Serviço Florestal Brasileiro (transferido do Ministério do Meio Ambiente para o Ministério da Agricultura), que regulamenta (libera) a caça de animais silvestres no Brasil e autoriza a implantação das fazendas de caça (Art. 15); 2) Projeto de Lei Complementar (PLC) da Câmara nº 436/2014 5, de autoria do deputado Rogério Peninha Mendonça (MDB/SC), que modifica a Lei Complementar n° 140/2011, para incluir a caça de animais silvestres como uma mera decisão administrativa de cada um dos 26 Estados e do Distrito Federal; 3) três Projetos de Decretos Legislativos (PDC) de Sustação de Atos Normativos do Poder Executivo: 1. PDC n° 3/2015 6, do ex-deputado Nilson Leitão (PSDB/MT);

Figura 2 – Endereço da página do Facebook da Aliança Pró Biodiversidade: https://www.facebook. com/aprobiodiversidade/

2. PDC n° 36/2015 7, do deputado Alceu Moreira (MDB/RS); e 3. PDC n° 427/2016 8, do ex-deputado Valdir Colatto (MDB/SC), que revogam as três listas nacionais de espécies da flora e da fauna ameaçadas de extinção, apresentadas em Portarias do Ministério do Meio Ambiente (MMA n° 443 9, n° 444 10 e n° 445 11), em dezembro de 2014. Trâmite atual dos projetos de lei a favor da caça No entanto, isso é apenas uma trégua na luta pela conservação da biodiversidade e contra a regulamentação da caça aos animais silvestres no Brasil. Isso porque o parágrafo único do Artigo n° 105 do Regimento Interno da Câmara dos Deputados 12 determina que “a proposição poderá ser desarquivada mediante requerimento do Autor, ou Autores, dentro dos primeiros cento e oitenta dias da primeira sessão legislativa ordinária da legislatura subsequente, retomando a tramitação desde o estágio em que se encontrava”. Ou seja, devemos monitorar durante seis meses as páginas sociais dos citados deputados autores dos PLs e o site da Câmara, para verificar quais deles terão a coragem de prestar o desserviço à ciência da conservação nacional e solicitar o desarquivamento das propostas. Deve-se notar que há riscos distintos envolvendo o processo de desarquivamento. No

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

31


Bem-estar animal PL n° 6.268/2016, por exemplo, o risco teoricamente seria menor, pois seu autor não foi reeleito para o mandato de 2019-2022. Mas a ele temos apensado o PL n° 7.129/2017, de autoria do deputado Alexandre Leite (DEM/ SP), que foi reeleito. Se o deputado solicitar o desarquivamento de seu PL, pode ser que o PL n° 6.268/2016 também seja desarquivado em conjunto. Os Projetos de Decretos Legislativos (PDC) n° 3/2015 e n° 427/2016 também têm menos riscos, pois seus autores (ex-deputados Nilson Leitão e Valdir Colatto) não foram reeleitos em 2018. Por sua vez, o Projeto de Lei Complementar (PLP) n° 436/2014 deve ter atenção prioritária, pois está tramitando na terceira e última das comissões da Câmara, a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC), e o deputado Alceu Moreira (MDB/RS) – presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que abriga os autodenominados “ruralistas” – deverá dar seu parecer de relator ao PLP em breve, que ficará apto a ser votado pelos deputados da CCJC, caso ele seja desarquivado pelo deputado Rogério Peninha Mendonça. Se aprovado na CCJC, o PLP n° 436/2014 vai para votação em plenário da Câmara – e, caso seja ali aprovado, seguirá para apreciação no Senado. Como alertado, o risco da aprovação desse Projeto de Lei Complementar é enorme. Se hoje a decisão de elaborar e sancionar uma norma legal para autorizar a caça de um animal é de competência única do Poder Executivo federal, com a vigência dessa nova lei, a decisão passa a ser individual e específica, por mero ato administrativo do Poder Executivo de cada estado da Federação e do Distrito Federal. Em recente consulta a assessores da Câmara dos Deputados, houve a confirmação de que somente o autor do Projeto de Lei poderia desarquivá-lo. No entanto, outro parlamentar poderia apresentar a mesma proposta (ou similar) como sua, que seguiria o curso inicial de tramitação por todo o processo legislativo. Além disso, não há prazo para o desarqui32

vamento, que poderia ser feito em qualquer momento, mesmo contrariando o Regimento Interno da Câmara de Deputados. Ademais, o deputado Alceu Moreira pode não continuar como relator da PLP n° 436 na CCJC. Para tanto, teria de se candidatar à nova composição da CCJC e ser o seu presidente (de modo a se indicar como relator), ou entrar em acordo com o novo presidente da comissão. Realmente, o deputado Alexandre Leite poderia reavivar o seu PL apensado e desarquivar o do ex-deputado Valdir Colatto, deixando tudo como antes. A única diferença seria a ausência do ex-deputado nas comissões para defender o seu próprio PL. O que fazer agora? Exposto esse cenário, as duas frentes contra a caça pedem a sua ajuda para que envie um e-mail ou uma mensagem para os telefones e as redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram e os respectivos sites) dos citados deputados acima com a seguinte solicitação: “Senhor deputado federal, na qualidade de eleitor(a) preocupado(a) com a conservação da biodiversidade brasileira e contra a regulamentação da caça no Brasil, solicito que V.Ex.a não desarquive o projeto de lei (citar o respectivo projeto de autoria do deputado em questão), ora arquivado de acordo com o Artigo 105 do Regimento Interno da Câmara. Atenciosamente, (assinar seu nome)”. Endereços dos deputados aos quais enviar a mensagem acima: 1) Deputado Rogério Peninha Mendonça (autor do PLP n° 436/2014) dep.rogeriopeninhamendonca@camara.leg. br Tel.: (61) 3215-5656 Câmara e (48) 3225-6117 Escritório Regional https://www.facebook.com/deputadopeninha Twitter: @deputadopeninha https://www.instagram.com/deputadopeninha/ 2) Deputado Alceu Moreira (relator do PLP n° 436/2014 na CCJC e autor do PDC n° 36/2015)

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


MSD Saúde Animal. Mais que produtos, compromisso. Tecnologia, inovação, capacitação e serviços. Nosso compromisso não é apenas produzir e comercializar produtos para a saúde dos animais, mas também auxiliar o médico veterinário a encontrar soluções para qualquer situação. Porque, afinal, todos trabalhamos para melhorar a vida dos animais.

0800 70 70 512 www.msd-saude-animal.com.br

MSD SAÚDE ANIMAL • INOVAR PARA PROTEGER A orientação do médico veterinário é fundamental para o correto uso dos medicamentos. MSD Saúde Animal é a unidade global de negócios de saúde animal da Merck & Co, Inc.

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

33


Bem-estar animal https://www.facebook.com/depalceumoreira/ Twitter: @depalceumoreira. Tel.: (61) 3215-5238 3) Deputado Alexandre Leite (autor do PDC n° 36/2015, que está apensado ao PL n° 6.268/2016 do ex-deputado Colatto) https://www.facebook.com/AlexandreLeiteSP/ Twitter: @alexandreleite dep.alexandreleite@camara.leg.br Tel.: (61) 3215-3841 Referências

01-Lei n° 5.197, de 3 de janeiro de 1967. Dispõe sobre a proteção à fauna e dá outras providências (http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L5197.htm). 02-Constituição Federal do Brasil, de 5 de outubro de 1988, Artigo 225 (https://www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/con1988_14.12.2017/art_225_. asp). 03-Lei de Crimes Ambientais n° 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 (https://www.jusbrasil.com.br/topicos/11332420/artigo-55-da-lei-n-9605-de-12-de-fevereiro-de-1998). 04-Projeto de Lei (PL) nº 6.268/2016 (https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2113552). 05-Projeto de Lei Complementar (PLC) da Câ-

Alexander Welker Biondo

MV, CRMV-PR 6.203, MSc, PhD., prof. Depto. Medicina Veterinária – UFPR abiondo@ufpr.br

34

mara nº 436/2014 (https://www.camara.leg.br/ proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=808928). 06-Projeto de Decreto Legislativo (PDC) n° 3/2015 (https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=946165). 07-Projeto de Decreto Legislativo (PDC) n° 36/2015 (https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=1212535). 08-Projeto de Decreto Legislativo (PDC) n° 427/2016 (https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2091481). 09-Portaria n° 443 do Ministério do Meio Ambiente, de 17 de dezembro de 2014 (http://cncflora.jbrj.gov.br/ portal/static/pdf/portaria_mma_443_2014.pdf). 10-Portaria n° 444 do Ministério do Meio Ambiente, de 17 de dezembro de 2014 (http://www.icmbio.gov.br/ cepsul/images/stories/legislacao/Portaria/2014/p_ mma_444_2014_lista_esp%C3%A9cies_ame%C3%A7adas_extin%C3%A7%C3%A3o.pdf). 11-Portaria n° 445 do Ministério do Meio Ambiente, de 17 de dezembro de 2014 (http://www.icmbio.gov.br/ cepsul/images/stories/legislacao/Portaria/2014/p_ mma_445_2014_lista_peixes_amea%C3%A7ados_ extin%C3%A7%C3%A3o.pdf). 12-Regimento Interno da Câmara dos Deputados (http://www2.camara.leg.br/legin/fed/rescad/1989/ resolucaodacamaradosdeputados-17-21-setembro-1989-320110-normaatualizada-pl.html). Paulo Pizzi Biólogo, CRBio 08082/07-D, especialista. Mater Natura - Instituto de Estudos Ambientais. Integrante da Aliança PróBiodiversidade – APB. pizzi@maternatura.org.br

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Seu gato também precisa de cuidado contra pulgas e carrapatos. Conheça a solução Frontline ideal de acordo com o estilo de vida do seu pet.

Para pets caseiros. IX

O

Nível de infestação

RIS C O

BA

RIS C O

RIS C O

AL

Para pets ativos. DI

O

Nível de infestação

Para pets aventureiros.

TO

Nível de infestação

AÇÃO IMEDIATA

Saiba mais em: www.frontline.com.br 0800 888 7387 Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

35


Oncologia Biópsia líquida e suas aplicações em medicina veterinária – revisão Liquid biopsy and its applications in veterinary medicine – a review Biopsia líquida y sus aplicaciones en medicina veterinaria – revisión Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, p. 36-52, 2019 Victor Nowosh MV, CRMV-SP 43.592 aluno de doutorado PPEC/FMVZ-USP vnowosh@usp.br

Cristina de O. M. S. Gomes MV, CRMV-SP 8.553 dra., profa. VPT/FMVZ-USP cmassoco@gmail.com

Resumo: A biópsia líquida é uma ferramenta diagnóstica e prognóstica já aplicada em diversos estudos com pacientes oncológicos humanos, apresentando potencial para aplicação em oncologia veterinária. Ela se baseia na detecção de produtos tumorais variados na circulação e apresenta a vantagem de ser realizada a partir de amostra de sangue e de ser pouco invasiva ao paciente, permitindo a análise do tumor em tempo real e complementando as informações da biópsia tecidual. Nesta revisão, são abordados os conceitos gerais de biópsia líquida, suas diferentes metodologias e os diferentes produtos tumorais, incluindo células tumorais circulantes, ácidos nucleicos, englobando o DNA, micro-RNA e RNA mensageiro tumorais e exossomos. São abordadas as utilidades da biópsia líquida como ferramenta prognóstica, diagnóstica, preditiva e de direcionamento de tratamento já aplicadas em estudos de medicina humana, bem como as limitações e desafios à sua implementação em larga escala. A biópsia líquida é uma ferramenta pouco conhecida em medicina veterinária até o momento, com escassos estudos publicados. Unitermos: células tumorais circulantes, DNA tumoral circulante, exossomos tumorais, micro-RNA, produtos tumorais circulantes, RNA mensageiro Abstract: Liquid biopsy is a diagnostic and prognostic tool already reported in several studies with human oncologic patients, and shows potential for application in veterinary oncology. However, liquid biopsy is not a widely known technique in veterinary medicine, and related research is sparse. Liquid biopsy is based on the analysis of blood samples for detection of various tumoral products in circulation. It is a non-invasive technique, and provides results in real time. Information obtained from liquid biopsies can complement the information obtained from the analysis of tissue biopsy. In this review of literature, we present the background principles of liquid biopsy, its methodology, and the tumoral products that can currently be detected with this tool. In addition to circulating tumor cells, liquid biopsies allow detection of nucleic acids, including tumor DNA, micro-RNA, messenger RNA and exosomes. We present the value of liquid biopsy as a diagnostic and prognostic tool, its predictive value in tumor progression and treatment success, and usefulness to assist treatment choice. We discuss its limitations, and the challenges to implement its use in a large scale. Keywords: circulating tumor cells, circulating tumor DNA, tumor exosomes, micro RNA, circulating tumor products, messenger RNA Resumen: La biopsia líquida es una herramienta diagnóstica y pronóstica que ya ha sido aplicada en varios estudios oncológicos humanos, con potenciales aplicaciones en oncología veterinaria. Esta técnica se fundamenta en la detección de varios tipos de productos tumorales circulantes, con la ventaja de que puede ser realizada a partir de una muestra de sangre, además de ser poco invasiva para el paciente, permitiendo el análisis del tumor en tiempo real y que sirve como complemento para las informaciones obtenidas en la biopsia de tejidos convencional. Esta revisión aborda conceptos generales de la biopsia líquida, sus diferentes métodos y los productos que pueden ser detectados, incluyendo células circulantes, ácidos nucleicos (ADN, micro ADN y ARN mensajero tumorales) y exosomas. También se discuten la utilidad de la biopsia líquida como herramienta pronostica, diagnóstica, predictiva y como información para direccionar el tratamiento de acuerdo a la experiencia en estudios de medicina humana, así como también las limitaciones y desafíos de su implementación a gran escala. La biopsia líquida es una herramienta poco conocida en medicina veterinaria, con pocos estudios publicados. Palabras clave: ADN tumoral circulante, ARN mensajero, células tumorales circulantes, exosomas tumorales, micro-ARN, productos tumorales circulantes

36

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Diagnóstico por imagem Diagnóstico ultrassonográfico das afecções articulares em cães – revisão Ultrasonography diagnosis of joint diseases in dogs – review Diagnóstico ecográfico de las enfermedades articulares en perros – revisión Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, p. 54-65, 2019

Luanna F. Fasanelo Gomes MV, CRMV-SP 16.089 aluna de doutorado PCCV/FMVZ-USP profa. adjunta UFMT/Sinop luannaffgomes@gmail.com

Stefano C. Filippo Hagen MV, CRMV-SP 3.345 dr. prof. VCI/FMVZ-USP hagen@usp.br

Resumo: A ultrassonografia não é utilizada com frequência na avaliação musculoesquelética de cães. Em pacientes humanos, o uso dessa modalidade de imagem tem demonstrado sua importância no diagnóstico e na monitoração das afecções musculoesqueléticas durante as últimas três décadas. A ultrassonografia permite identificar as diferentes estruturas anatômicas envolvidas com as articulações e detectar alterações patológicas em tendões, ligamentos, cápsula e cartilagem articular, menisco e superfícies ósseas. A dependência das habilidades do operador e a dificuldade de acesso a determinadas estruturas são as principais limitações dessa modalidade. Porém, sua disponibilidade e seu baixo custo podem torná-la parte importante da avaliação das alterações musculoesqueléticas em cães. Unitermos: ultrassom, musculoesquelético, pequenos animais Abstract: Ultrasonography is not frequently used in the evaluation of the musculoskeletal system of dogs. During the last three decades this imaging technique has been shown to be valuable in the diagnosis and monitoring the musculoskeletal disorders of human patients. Ultrasonography allows recognitions of different anatomical joint structures and enable detection of lesions in tendons, ligaments, joint capsule, cartilage, meniscus and bone surfaces. The diagnostic value of the technique is highly operator-dependent, and can be influenced by the difficult to access to some anatomical structures. In spite of its limitations, the availability and low cost of the ultrasonography can make it an important tool in the assessment of musculoskeletal disorders in dogs. Keywords: ultrasound, musculoskeletal system, small animals Resumen: La ecografía no es una técnica que se use con frecuencia para la evaluación musculoesquelética de los perros. En pacientes humanos, esta modalidad de imagen ha demostrado su importancia en el diagnóstico y monitoreo de las afecciones musculoesqueléticas durante las últimas tres décadas. La ecografía permite identificar las estructuras anatómicas de las articulaciones, detectando alteraciones patológicas en tendones, ligamentos, cápsula y cartílago articular, meniscos y superficies óseas. Las principales limitaciones son su dependencia en cuanto a las habilidades del operador y las dificultades de acceso a determinadas estructuras. No obstante, su disponibilidad y bajo costo pueden hacer que esta técnica pase a formar parte de la evaluación de las alteraciones musculoesqueléticas en perros. Palabras clave: ultrasonido, musculoesquelética, pequeños animales

54

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Revista de educação continuada do clínico veterinário de pequenos animais

Central de assinaturas 11 98250-0016

Assine pela internet revistaclinicaveterinaria.com.br

• Indexada na Web of Science - Zoological Record, no Latindex e no CAB Abstracts • Mais de 400 artigos científicos disponíveis no acervo digital • Versão digital com acesso através de versão para desktop aplicativos para iOs e Android • Biblioteca Veterinária: aplicativo para busca de conteúdo da revista Clínica Veterinária e outras facilidades


Ética

Erros e incidentes na prática veterinária Introdução Erros ocorrem na medicina veterinária, e pouco se fala sobre eles, por receios legais e insegurança. Dessa forma, são subnotificados, incompreendidos e sua gestão é inadequada. É necessário atuar em direção a uma cultura que aceite que se cometem erros, pois errar é humano, e muitos desses deslizes são provocados por condições organizacionais, operacionais e tecnológicas. O desenvolvimento de intervenções para mitigar o erro veterinário e melhorar a segurança do paciente deve basear-se não somente nas causas, mas também na compreensão dos fatores humanos. É necessário realizar um minucioso trabalho para promover atitudes de resolução dos erros no contexto dos estabelecimentos veterinários. Por experiência própria e entrevistando colegas de profissão, independentemente do estágio de vida em que se encontram, percebo que o aprendizado ao longo da carreira é contínuo, com base em estudo, experiência, e em erros cometidos ou que testemunhamos. Atualmente existem no Brasil mais de 300 faculdades de medicina veterinária (cerca de 1/3 das instituições de graduação em medicina veterinária do mundo encontram-se em território brasileiro). Formam-se mais de 5 mil profissionais habilitados por ano. Uma vez graduados, os profissionais fazem residência, adquirindo experiência em instituições de ensino, sob supervisão de profissionais mais experientes, ou iniciam a carreira imediatamente, atendendo em hospitais, clínicas ou consultórios veterinários, por vezes sem supervisão. Aceitar que se cometem erros e que não é possível evitá-los totalmente, possibilita torná-los oportunidades de aprendizado, em vez de destacá-los e estigmatizá-los 1,2. Principalmente para profissionais em início de carreira e particularmente nos anos intensos que se seguem à graduação, quando há muita pressão, essa mudança 66

poderia contribuir para assegurar a saúde mental dos profissionais 3,4. Há muitos anos busco formas de evitar erros. Como responsável técnica em um laboratório de análises clínicas veterinárias, ainda na década de 1980, identifiquei a necessidade de participar de ensaios de proficiência externos para assegurar a qualidade dos serviços prestados. Fomos o primeiro laboratório veterinário a ser habilitado com excelente desempenho, mesmo em comparação com laboratórios renomados atuantes na medicina humana. Posteriormente especializei-me em gestão para segurança de alimentos. Atuei na implementação de programas de segurança de alimentos em serviços de alimentação. Aprendi na prática que hábitos podem ser melhorados, com treinamento e persistência, e que lindos manuais de boas práticas, dentro da gaveta, são inúteis. Ao retomar contato com a área clínica e diagnóstica, após alguns anos afastada, encontrei um ambiente com grandes avanços tecnológicos. Mas chamou minha atenção a busca pela qualidade por medo de perda de clientes ou mesmo de punições, em vez de a qualidade como propósito. Em São Paulo, a grande maioria das denúncias éticas profissionais recebidas em 2012 referiamse ao atendimento de cães e gatos, principalmente devido ao óbito de animais após procedimentos médicos ou cirúrgicos. Outros eventos que levaram a litígios foram falhas em documentos emitidos ou em informações fornecidas. Cerca de 63% das denúncias tratavam de imperícia, imprudência ou negligência, em que os profissionais envolvidos estavam na faixa etária média de 41,5 anos (mínimo 27 anos e máximo 61 anos), isto é, com cerca de 15 anos de exercício profissional. Com base nos dados analisados na época, os erros e deslizes éticos não puderam ser imputados diretamente a falhas no ensino de graduação 5. Aparentemente, a falta de atualização ou de educação

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


continuada e o despreparo profissional, aliado à utilização de técnicas ultrapassadas ou não condizentes com os casos tratados, são considerados origem de negligência e de erros grosseiros 6. Qualidade, erros e segurança de pacientes A qualidade da assistência veterinária inclui, como atributo indispensável, a sua segurança. Esta abrange a preocupação com os diferentes tipos de erros ou falhas, a fim de que o paciente não seja prejudicado pela assistência que visava beneficiá-lo 7,8. A qualidade da assistência veterinária e a segurança de pacientes refletem o cumprimento de requisitos e a forma como são executados os processos, sendo almejadas por gestores, médico-veterinários e usuários dos serviços, mas nem sempre, definidas e mensuradas. Muitas vezes inexiste sincronia entre as necessidades dos envolvidos, e a falha na comunicação pode levar a entendimentos distintos 4. Erros na assistência à saude não são recentes: Hipócrates, o pai da medicina, cunhou no século IV a.C. o postulado Primum non nocere: antes de tudo, não causar dano. Anteriormente, o Código de Hamurábi (sec. XVIII a.C., Mesopotâmia) já estabelecera a responsabilidade jurídica do médico em caso de má atuação – “olho por olho, dente por dente” 9. Surgem, atualmente, novas tecnologias e inovações e essa informação se torna disponível no mercado. Manter-se atualizado exige grande esforço por parte dos profissionais, e limitações financeiras e de acesso a tecnologia por parte dos envolvidos pode influenciar o resultado do serviço prestado. Na medicina veterinária pouco se fala em erros na clínica, na cirurgia e nas atividades relacionadas a diagnósticos. Quando eles ocorrem, dificilmente são documentados, discutidos e muito menos analisados para que a sua causa seja definida 1,10-12. A especialidade Segurança do Paciente passou a ser citada em publicações veterinárias internacionais nesta década, com destaque para trabalhos divulgados na Inglaterra. Trata-se ainda de um conceito emergente, e as causas e os faci-

litadores dos erros ainda não são suficientemente conhecidos 11,13. Apesar dos avanços, até hoje há poucos estudos disponíveis na literatura sobre a prevalência, a natureza e a gravidade dos erros na medicina veterinária. Prevalência e tipos de erros na medicina veterinária O erro na medicina veterinária ainda é visto como uma falta de conhecimento ou de habilidade. O estudo de animais submetidos a necrópsia em São Paulo com histórico e achados necroscópicos compatíveis com erro evidenciou 38% dos óbitos em decorrência de negligência, sendo 69% das falhas relacionadas a erros de diagnóstico 14. Em 2014, Oxtoby considerou na Inglaterra que a segurança de pacientes na medicina veterinária é um “elephant in the room” (literalmente, “um elefante na sala”). Essa metáfora representa um problema ou risco – que obviamente existe e está presente dentro dos estabelecimentos veterinários – a respeito do qual ninguém fala por ser constrangedor 15. Será que essa metáfora caberia no Brasil de contrastes e limitações, com ilhas de excelência com cirurgias de alta complexidade, atendimento em unidades de terapia intensiva e atendimentos especializados? Compilar e interpretar dados da literatura relativos a erros e danos na assistência torna-se difícil sem uma padronização da nomenclatura 16. Para possibilitar as comparações entre os dados obtidos nas diversas fontes disponíveis, e com o intuito de organizar os conceitos e definições relativos à Segurança de Pacientes, a Organização Mundial de Saúde (OMS) 17 elaborou a Classificação Internacional de Segurança de Paciente, definindo o dano não intencional na assistência prestada a pacientes como evento adverso (EA). Este, quando decorrente de erro, é um EA evitável. Incidente é um evento ou circunstância que poderia ter resultado, ou resultou, em um dano desnecessário ao paciente. Nessa nomenclatura, a expressão erro médico não é mais utilizada. Os erros podem ter causas multifatoriais, e outros profissionais podem estar envolvidos neles. A estimativa de prevalência de erros baseada em litígios é mais inferida do que confirmada,

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

67


Ética uma vez que se fundamenta em reividicações de proprietários insatisfeitos com os resultados cirúrgicos ou com erros relacionados à prescrição de medicamentos. Erros diagnósticos ou relativos à anestesia – que podem influenciar o tipo de reivindicação ou reclamação – possivelmente são ocultados dos responsáveis ou tutores 11. Para entender os erros que ocorrem na rotina dos hospitais veterinários no Reino Unido, a atividade de dois estabelecimentos foi acompanhada durante uma semana, com observações de todos os colaboradores, numa abordagem sistêmica 10. Foram registradas as ações e omissões com potencial de gerar eventos adversos aos pacientes, tutores ou responsáveis pelos animais, ou mesmo ao estabelecimento, sendo identificados erros clínicos (medicamentos/doses, preparo cirúrgico, falta de acompanhamento), erros de comunicação (protocolos, procedimentos, ausência ou falha na comunicação face a face) e perda de espécime para análise. Na média, houve um erro a cada 5,5 horas de observação por setor avaliado. A natureza qualitativa do estudo possibilitou a identificação de falhas individuais e falhas sistêmicas latentes, Levantamento

concluindo-se que existem desafios que podem levar a erros no trabalho interprofissional. O aprendizado precisa ser aplicado para melhorar o trabalho em equipe e os procedimentos disciplinares. Dois levantamentos realizados junto ao setor médico-veterinário na Inglaterra sobre eventos que ocorreram durante atendimentos em estabelecimentos médico-veterinários são apresentados na figura 1. No levantamento baseado em ações judiciais e processos éticos da medicina veterinária na Inglaterra (mais voltados à culpabilização e às indenizações que à segurança propriamente dita), evidenciou-se um predomínio de erros relacionados a cirurgias e intervenções clínicas (Figura 2). As reivindicações cirúrgicas mais comuns relacionavam-se a castração de fêmeas, retenção de itens cirúrgicos e hemorragia. Nas reivindicações relacionadas a intervenções clínicas, os erros envolvendo a escolha de fármaco ou dose excessiva eram mais frequentes 11,13. A figura 3 mostra o resumo do resultado de levantamento das causas de incidentes relevantes notificadas ao longo de um período de seis

Incidente

Dados provenientes de ações judiciais e processos éticos envolvendo médicos-veterinários e colaboradores de estabelecimentos veterinários. Modificado 11, 13.

Respostas recebidas após envio de questionário a todos os profissionais um ano após a conclusão do curso (cerca de 25% dos profissionais retornaram o questionário preenchido). Modificado 18.

Prescrição e administração de medicamentos

Medicamento errado; via errada; dose errada; hora errada

Demora em administrar medicação

Cirurgia

Envolvendo qualquer estágio da cirurgia (excluindo anestesia)

Durante cirurgias ou castração

Anestesia

Durante algum estágio da anestesia

Durante algum estágio da anestesia/sedação

Tratamento

Entrega deficiente de assistência à saúde (por enganos, lapsos, falta de habilidade técnica ou desconhecimento)

Terapias incorretas

Diagnóstico

Diagnóstico incorreto

Falta de realização de teste diagnóstico; teste diagnóstico incorreto; interpretação errada de resultados laboratoriais; interpretação incorreta de raios X

Identificação de paciente Paciente recebeu tratamento incorreto porque estava identificado incorretamente

Droga aplicada em animal trocado

Pós-atendimento

Cuidado realizado pelo responsável pelo animal de forma errada – deficiência de comunicação entre responsável e médico-veterinário

Não evidenciado

Equipamento

Dano a paciente por equipamento com defeito ou com design deficiente

Não evidenciado

Outros

Não relatado

Comunicação e erros de documentação ou eutanásia

Figura 1 – Incidentes que colocaram em risco a segurança de pacientes na prática veterinária, segundo levantamentos realizados na Inglaterra 68

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Ética meses num hospital universitário veterinário nos Estados Unidos da América (n  =  95) 19. Evidenciou-se um predomínio de erros de medicação (paciente, medicamento, dose, via ou hora errados), seguidos de falha de comunicação (paciente com identificação errada; confusão relacionada a receitas e fluxos; falha na passagem de informações; omissões (situações relacionadas a avaliação, diagnóstico, interpretação de dados, desvios de normalidade); situações relacionadas à tecnologia de informação (TI) (atrasos na inserção de dados, tratamentos omitidos, situações com registros e protocolos); recursos humanos (insuficiência de colaboradores, impossibilidade de acessar os colaboradores necessários, incidentes relacionados a colaboradores e clínicos em treinamento); iatrogenia (complicação devida a procedimento ou tratamento não medicamentoso); falhas laboratoriais (perda de amostra ou de documentação, troca de amostras por falha de identificação, resultados não reportados, atrasos, exames inadequados); e equipamentos (falta de acesso, equipamento errado, falhas, problemas de suprimento). Os levantamentos representados nas figuras 1, 2 e 3 evidenciam a alta prevalência de incidentes relacionados a medicamentos. Na anestesia, é ponto pacífico que os erros são cometidos especialmente quando o trabalho em equipe envolve processos de decisão complexos e procedimentos altamente tecnológicos 10. Os erros não são notificados por medo da punição, e só são analisados em situações de litígio 12, o que evidencia a ausência de sistemática com fins de aprendizado por meio deles 2.

Figura 2 – Prevalência de erros na medicina veterinária com base em ações judiciais e processos éticos 11,13 70

Eventos adversos evitáveis O crescente acesso à informação sobre incidentes e processos envolvidos, mecanismos de ação e métodos de prevenção e a pressão pública e regulatória têm feito com que muitos eventos com danos deixem de ser vistos como uma intercorrência da assistência para serem classificados como EAs evitáveis, como, por exemplo, alguns tipos de infecção relacionados aos processos de assistência 8. Na saúde humana, avalia-se que pelo menos metade dos incidentes assistenciais com dano (EA) poderiam ter sido ser prevenidos 20,21 (EA evitável) por ações muitas vezes simples, como higienização das mãos ou implementação efetiva de lista de verificação 16. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) mantém um sistema de notificações para avaliar a prevalência dos incidentes em hospitais de todo o país 22. Para fins de conhecimento e como base de comparação com a realidade de estabelecimentos veterinários em nosso país, relaciono alguns eventos notificados no Notivisa (Sistema de Notificações em Vigilância Sanitária): 1) Medicações – A análise dos erros envolvendo medicamentos mostra sua natureza multifatorial, sendo as causas predominantes: falta de conhecimento sobre os medicamentos, falta de informação sobre os pacientes, falhas de comunicação, erros de transcrição, falhas na conferência de doses, problemas relacionados a bombas e outros dispositivos de infusão de medicamentos, monitoramento inadequado de pacientes, problemas no armazenamento e na dispensação, bem como

Figura 3 – Prevalência de incidentes relevantes notificados em hospital veterinário universitário nos EUA num período de 6 meses. Modificado 19

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


erros de preparo e falta de padronização de medicamentos 22. (Obs.: unidades de cuidado intensivo relatam entre 80-745 erros de medicação por mil pacientes/dia 23,24.) 2) Cuidado intensivo – Perda ou obstrução de sondas, flebites, notificações envolvendo cateter venoso e medicamentos, falhas de documentação, falhas na administração de dietas, falhas nas atividades administrativas, extubação acidental, falhas ocorridas em laboratórios clínicos ou de patologia, situações envolvendo cirurgias, exames, queimaduras, broncoaspiração, agressões, transfusões, quimioterapia, hemodiálise ou tromboembolismo pulmonar 22. Erros graves, evitáveis, raros, claramente identificáveis e mensuráveis são denominados eventos críticos inaceitáveis ou never events (eventos que nunca deveriam acontecer em serviços de saúde) 25,26. Na medicina humana, esses eventos incluem lesão por queimadura ou choque elétrico em qualquer momento durante o atendimento, cirurgia em paciente ou em local errado, lesão durante a contenção do paciente ou a sua fuga, alta para acompanhamento por pessoa não autorizada – enfim, situações raras, mas que requerem foco para serem evitadas 22. Os eventos notificados com seres humanos podem potencialmente acontecer também com animais. Contudo, na medicina veterinária não existe regulamentação por parte de órgãos públicos ou entidades de classe em relação às notificações 1,3. Aparentemente, barreiras significativas impedem a implementação de sistemas de notificação de erros no setor, apesar de a necessidade de melhorar o reconhecimento e a notificação de erros para aumentar a segurança de pacientes ser um consenso internacional 1. Na Inglaterra sugeriu-se a implementação de um sistema de notificação voluntário de eventos adversos em pequenos animais, baseado no sistema de notificação em humanos 11, visando: • Avaliar a natureza dos eventos adversos na prática; • Definir os eventos adversos mais frequentes; • Avaliar quais são os eventos adversos que causam mais danos aos pacientes ou reclamações de proprietários;

• Avaliar os fatores contribuintes para definir recomendações. Em evento na Suíça entre médicos-veterinários que atuam com anestesia e analgesia de equinos, foi sugerido um sistema de notificação de “incidentes críticos evitáveis” (incidentes envolvendo prejuízo das funções fisiológicas com potencial de levar à morte ou a dano permanente) 12 relacionados à anestesia: obstrução de vias respiratórias, aspiração durante ou após anestesia, medicação/dose/modo de administração errados, falha no equipamento/monitoramento deficiente, hipercalemia não tratada antes da anestesia, acordar durante ressonância magnética, indisponibilidade de bolsa de sangue quando de sangramento agudo, hipoglicemia em neonatos, recuperação ruim e fratura na fase de recuperação 12. Percepção de risco, comportamentos de risco e incidentes Pesquisa realizada na Inglaterra mostrou que os médicos-veterinários consideram a segurança do paciente uma preocupação exclusivamente deles. Consistentemente, os profissionais eximem de responsabilidade os colaboradores da equipe ou mesmo da organização, assumindo erros e evidenciando, com senso de responsabilidade exacerbado e por vezes deslocado, as dificuldades de reconhecer certas situações organizacionais 11,12. Esse posicionamento demanda dos próprios profissionais condições inatingíveis de vigilância, além de dificultar o fortalecimento de relações de confiança mútua na equipe. O nível de responsabilidade assumido coloca os médicos-veterinários numa situação de significativa pressão sobre si mesmos, por falta de entendimento das próprias limitações e dificuldades de visualizar a implementação de processos e treinamentos efetivos 11. Abaixo cito constatações relativas à medicina humana que poderiam ser aplicadas na medicina veterinária: • Danos severos não fazem parte da experiência diária dos profissionais individualmente. Os erros são percebidos como eventos raros e não usuais. Um fator que contribui para essa percepção é o fato de muitos dos erros cometidos não levarem

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

71


Ética a danos nos pacientes, por serem interceptados a tempo ou mesmo a defesa do paciente prevenir o dano 27. • A procura pela perfeição induz os profissionais a evitarem admitir enganos ou falta de experiência, especialmente quando poucos colegas têm essa atitude 3. • Os profissionais da área da saúde são treinados nos bancos da faculdade a atuar com alto nível de proficiência técnica, ou mesmo de perfeição, e na prática a grande maioria atua com cuidados adequados 28. • O paradoxo é que, embora o padrão da prática (mesmo segundo o código de ética aplicável) seja de cuidados sem erros, os profissionais da saúde reconhecem que eles são inevitáveis, e que a perfeição é inatingível 3,28. Na figura 4 é possível visualizar que as falhas ativas – em que os indivíduos estão diretamente envolvidos em incidentes com o paciente – poderiam ter sido evitadas caso os fatores predisponentes (falhas latentes, condições de trabalho) tivessem sido evitados. Conclui-se que os responsáveis pelas falhas ativas não são os únicos responsáveis pelos danos. Numa cultura de segurança de pacientes, os diferentes setores do estabelecimento precisam estar comprometidos com a segurança deles, viabilizando condições adequadas de trabalho 4,29-31. A figura 4 mostra que os incidentes muitas vezes se iniciam como consequência negativa de decisões da gestão e de processos organizacionais (por exemplo, a contratação de profissionais recém-formados autônomos para plantões sem que haja um treinamento e capacitação interna e/ ou a ausência de processos documentados para consulta), provocando condições de trabalho inseguras (por exemplo, falhas de comunicação

entre os turnos) com falhas ativas (por exemplo, terapia inadequada por programação errada do equipamento de infusão). Falhas ativas (Figura 4) são comportamentos que aumentam os riscos, e tornam o sistema vulnerável. Para evitar que as limitações cognitivas levem a incidentes, é preciso prever barreiras por meio de processos críticos (como, por exemplo, a lista de verificação cirúrgica), de forma que um lapso seja identificado antes de provocar um dano. Aceitar a possibilidade de erro aumenta a adesão a protocolos de segurança em treinamentos. O estudo dos fatores humanos relacionados a erros ou falhas ativas identifica a existência de limitações cognitivas ou psicológicas (por exemplo, a consequência da distração causada por alguma interrupção da atividade é que, no retorno, não se dá seguimento à atividade anterior  11 – tal como prever ligar o oxigênio no início da anestesia e deixar de fazê-lo após uma interrupção) 30. Há também o excesso de confiança na memória de longo e curto prazo – por exemplo, confundir a dose da medicação, ou errar o cálculo da dose da medicação a ser aplicada  11. Outras situações podem estar relacionadas a excesso de confiança em modelos mentais, efeito de viés cognitivo, como a incapacidade de reavaliar casos refratários a tratamentos por novo ângulo, a tendência a identificar casos raros como situações comuns ou mesmo a cometer enganos na hora da tomada de decisão por falta de experiência 11. Fatores individuais como cansaço, doença, efeitos de álcool ou drogas, do estresse ou de estados emocionais como frustração, medo, ansiedade, raiva e depressão prejudicam o desempenho no planejamento de ações, aumentando a ocorrência de falhas ativas, ou podem levar ao cuidado inadequado, por falta de comprometimento ou de responsabilidade 11. As deficiências de habilidade ou de conhecimento técnico levam a um desempenho inadequado na execução de tarefas rotinei29,31 ras ou na avaliação de Figura 4 – Modelo de incidente em organizações. Modificado

72

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


RESULTS IN A BETTER CAT

RESULTS IN A BETTER CAT

Um grande aliado para o tratamento da DRC em gatos.

O Semintra é o primeiro bloqueador do receptor de angiotensina licenciado pelo MAPA* para uso na medicina veterinária e desenvolvido especialmente para gatos.

Licenciado para redução da proteinúria associada à DRC Nova molécula Solução oral e palatável

*MAPA - Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Frasco com 30mL contendo 4mg de Telmisartana por mL.

Consulte o Médico-Veterinário. Mais informações: vide bula.

SAC 0800 888 7378


Ética situações novas 10,11,30. Dentre as causas de falhas sistêmicas, fatores predisponentes – como a falta de liderança (por exemplo, falhar ao assumir o controle de situações ou não definir claramente o papel de cada pessoa na equipe nas unidades 11,30) ou a supervisão insuficiente de médicos-veterinários recém-formados ou contratados e enfermeiros – se destacam como causas de incidentes 3. No nível organizacional, a liderança não pode deixar que suas diversas atividades relativas à gestão financeira ou de pessoal a façam deixar de lado os padrões de segurança, seja por falta de entendimento, pela necessidade de protocolos quanto à falta de habilidade ou de comprometimento para assegurar a implementação desses padrões 10,11,30. As questões relacionadas à cobrança de produtividade, muitas vezes por pressões financeiras, não podem conflitar com a segurança dos pacientes, principalmente nos estabelecimentos que atendem 24 horas para assegurar uma cobertura de pessoal nas folgas, faltas e horários como madrugadas 10,11,30. Considerando que as falhas de comunicação causam incidentes, é preciso assegurar uma comunicação efetiva entre os membros das equipes, entre os colaboradores de diferentes turnos ou equipes ou entre o corpo clínico e os tutores ou responsáveis pelos animais, por meio de protocolos formais e de escuta ativa 10,11,30. Frascos de medicamentos com embalagens, rótulos e ou nomes semelhantes de produtos frequentemente mantidos muito próximos nas prateleiras da farmácia ou em gavetas podem levar a trocas de medicamentos 11. A falta de familiaridade com os sistemas de computação ou a confusão ao acessar/inserir dados nos menus 11,12 e problemas de formato e estrutura de equipamentos, como a mudança da ordem dos botões de acordo com cada fabricante 11,30, também são considerados fatores sistêmicos para a ocorrência de incidentes. Os tutores ou responsáveis pelos animais podem contribuir para que ocorram erros de diagnóstico ou tratamento – por exemplo, ao omitirem informações, não retornarem com resultados de 74

exames complementares ou se recusarem a realizar determinadas intervenções por questões financeiras ou emocionais. Apesar de as situações poderem ser contornadas com habilidade de comunicação, os limites precisam ser respeitados 11. Fatores relacionados aos animais como agressão (exigindo pré-medicação e reforço de doses) ou a habilidade de correr mais rápido que o veterinário ou o cuidador também são considerados fatores predisponentes a incidentes, assim como outros fatores específicos 11. Estratégias de redução de riscos e incidentes Focar na segurança dos pacientes permite em muitas situações prevenir incidentes com danos 10,11. Habilidades não técnicas e fatores sistêmicos, em especial os relacionados à comunicação, ao trabalho em equipe, à liderança, aos protocolos implementados, e aos modelos de produtos e equipamentos podem levar a erros 10,11. Aceitar que os erros acontecem é o caminho para o menor dano e o melhor resultado humanamente possível. É necessário almejar uma cultura de preocupação construtiva cujo foco esteja na gestão de riscos identificados como mais importantes: planejar, levando em conta os danos possíveis e o conhecimento disponível; distinguir normal de anormal, focando em fatores críticos; reconhecer, aceitar e assumir os erros; desculparse por tê-los cometido; aprender com os erros e ensinar os outros a evitá-los 3. A segurança de pacientes não melhora sozinha; é preciso um esforço consciente, sistemático e contínuo para aperfeiçoar os serviços prestados 32. Cientes de que muitos eventos estão relacionados a falhas ativas e falhas de comunicação, pontos críticos precisam ser reconhecidos e trabalhados. Governança clínica e ciclos de auditoria da qualidade do atendimento veterinário oferecido possibilitam o monitoramento da segurança do paciente e contribuem para a melhora contínua da medicina veterinária baseada em evidências 1. Indicadores de resultado (que em geral se referem à ocorrência de complicações ou mesmo de óbitos) como taxas de mortalidade anestésica, infecção cirúrgica, diagnósticos específicos,

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


complicações cirúrgicas ou cicatrização pós-cirúrgica são monitorados 33 em alguns estabelecimentos. Adicionalmente, indicadores de processo (o que é feito em relação ao que deveria ser feito) ou de estrutura (o que se tem em relação ao que se quer) também precisam de monitoração. A notificação interna de eventos adversos representa um esforço para entender, rastrear e prevenir erros 11. Eventos adversos também podem ser detectados por estudo retrospectivo de prontuários, usando estratégias sistemáticas de busca por situações específicas, como valores laboratoriais anormais ou mesmo o uso de medicamentos de alto risco e seus antídotos. As causas dos incidentes precisam ser identificadas para que se aprenda com os erros. Quanto maior o envolvimento de toda a equipe na identificação das causas dos incidentes e na definição de um plano de ação, maior a redução de riscos e a adesão das equipes às práticas de segurança 25. Estudos relacionados com complicações cirúrgicas potencialmente evitáveis – como reoperação não planejada, infecção de sítio cirúrgico, cicatrização deficiente de ferida cirúrgica, complicações neurológicas, gastrintestinais, urogenitais e morte 34 – evidenciaram uma redução em cerca de 50% dos eventos adversos por meio da implementação de intervenções que visavam prevenir os incidentes mais comuns na anestesia (erros de medicação, fechamento de válvula APL e intubação esofágica) 9 ou da implementação de lista de verificação cirúrgica 34. As revisões ou conferências de morbidade e mortalidade podem gerar melhoras mensuráveis na segurança de pacientes. Usá-las com ferramenta educacional e de orientação para melhorar o cuidado dos animais traz bons resultados. Elas são baseadas na análise sistemática de situações específicas, identificando as causas potenciais dos eventos adversos que levaram a danos ou mesmo ao óbito de pacientes, sem expor individualmente profissionais 36. Enfim, o aumento dos riscos na prestação de serviços veterinários de complexidade crescente, bem como a possibilidade de limitações financeiras das partes, são um fato. Casos clínicos e tratamentos cada vez mais complexos aumentam

demandas cognitivas com possibilidade de comprometimento de processos decisórios e incidentes com danos a pacientes 37. A qualidade e a segurança no atendimento aos pacientes podem ser influenciadas por múltiplos parâmetros, entre fatores organizacionais, físicos e recursos humanos. Os parâmetros são mediados por fatores como motivação e comunicação, que afetam a atitude dos colaboradores e seu comportamento, inclusive no trabalho clínico, e podem ter reflexos diretos no resultado do atendimento prestado aos pacientes e na taxa de mortalidade 11. Errar é humano. Logo, não existem sistemas livres de erros 7.

Referências

01-TIVERS, M. Reducing error and improving patient safety. The Veterinary Record, v. 177, n. 17, p. 436-437, 2015. doi: 10.1136/ vr.h5653. 02-LUDDERS, J. W. ; McMILLAN, M. Introduction. Errors in veterinary anesthesia. 1. ed. Iowa: John Wiley & Sons, 2017. p. xiii-xvi. ISBN: 978-1119259718. 03-JOHN, C. C. The art of constructive worrying. Journal of the American Medical Association, v. 319, n. 22, p. 2273-2274, 2018. doi: 10.1001/jama.2018.6670. 04-TRAVASSOS, C. ; CALDAS, B. A qualidade do cuidado e a segurança do paciente: histórico e conceitos. In: ANVISA. Assistência segura: uma reflexão teórica aplicada à prática. Brasília: ANVISA, 2017. p. 19-27. Brasília: ANVISA, 2017. p. 19-27. Disponível em <https://www20.anvisa.gov.br/ segurancadopaciente/index.php/publicacoes/item/caderno-1assistencia-segura-uma-reflexao-teorica-aplicada-a-pratica>. Acesso em 27 de julho de 2018. 05-HAGIWARA, M. Processo ético profissional. Boletim Apamvet, v. 8, n. 2, p. 3, 2017. ISSN: 2179-7110. Disponível em: <http://www.apamvet.com/30-07-2017.pdf>. Acesso em 15 de maio de 2018. 06-BOSCH, R. V. Responsabilidade profissional. In: JERICÓ, M. M. ; ANDRADE NETO, J. P. ; KOGIKA, M. M. Tratado de medicina interna de cães e gatos. 1. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2014. p. 2-24. ISBN: 978-8527726436. 07-BRASIL. ; MINISTÉRIO DA SAÚDE. Qualidade em saúde e segurança do paciente: aspectos fundamentais. In:___. Documento de Referência para o Programa Nacional de Segurança do Paciente. Brasília: Ministério da Saude/ Fundação Oswaldo Cruz/ANVISA, 2014. p. 5-6. ISBN: 978-85334-2130-1. 08-VINCENT, C. ; BURNETT, S. ; CARTHEY, J. Concepts and challenges. In:___. The measurement and monitoring of safety. London: The Health Foundation, 2013. p. 2-6. ISBN: 978-1-906461-44-7. Disponível em: <https://www.health.org.uk/ sites/default/files/TheMeasurementAndMonitoringOfSafety_ fullversion.pdf>. Acesso em 13 de junho de 2018. 09-CHEHUEN NETO, J. A. ; SIRIMARCO, M. T.  ; FIGUEIREDO,N. S. V. ; BARBOSA, T. N. ; SILVEIRA, T. G. Erro médico: a perspectiva de estudantes de medicina e direito . Revista Brasileira de Educação Medica, v. 35, n. 1, p. 5-12, 2011. 10-KINNISON, T. ; GUILE, D. ; MAY, S. A. Errors in veterinary

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

75


Ética practice: preliminary lessons for building better veterinary teams. Veterinary Record, v. 177, n. 19, p. 492, 2015. doi: 10.1136/vr.103327. Disponível em: <https://veterinaryrecord. bmj.com/content/177/19/492>. Acesso em 20 de maio de 2017. 11-OXTOBY, C. Patient safety in veterinary practice. 2017. 352 f. Tese (Doutorado em Desenvolvimento Educacional Veterinário) - Nottingham School of Veterinary Medicine and Science, University of Nottingham, Nottingham, 2017. 12-HARTNACK, S. ; WOLFENSBERGER, R. B. ; DRIESSEN, B.  ; PANG, D. ; WOHLFENDER, F. Critical incidence reporting systems – an option in equine anaesthesia? Results from panel meeting. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, v. 40, n. 6, p. e3-e8, 2013. doi:10.1111/vaa.12065. 13-OXTOBY, C. ; FERGUSSON, E. ; WHITE, K.  ; MOSSOP, L. We need to talk about error: causes and types of error in veterinary practice. Veterinary Record, v. 117, n. 17, p. 438-445, 2015. doi: 10.1136/vr.103331. 14-MARIA, A. C. B. E. ; SALVAGNI, F. S. ; SIQUEIRA, A. ; MESQUITA, L. P. ; MAIORKA, P. C. Erros médicos veterinários: caracterização da casuística e circunstâncias de ocorrência em animais submetidos à necropsia. Revista de Educação Continuada em Medicina Veterinária e Zootecnia do CRMVSP, v. 13, n. 1, p. 64, 2015. ISSN: 2179-6645. 15-OXTOBY, C. Patient safety: the elephant in the room. Journal of Small Animal Practice, v. 55, n. 8, p. 389-390, 2014. doi: 10.1111/jsap.12252. 16-KOHN, L. T. ; CORRIGAN, J. M. ; DONALDSON, M. S. Errors in health care: a leading cause of death and injury. In:___. To err is human: building a safer health system. Washington: National Academies Press, 2000. p. 26-48. ISBN: 0-309-06837-1. 17-ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Anexo Técnico 2 - Glossário de conceitos de segurança do doente. In:___. Estrutura conceitual da classificação internacional de segurança do doente. Lisboa: WHO, 2011. p. 100-138. 18-MELLANBY, R. J. ; HERRTAGE, M. E. Survey of mistakes made by recent veterinary graduates. Veterinary Record, v. 155, n. 24, p. 761-765, 2004. doi: 10.1136/vr.155.24.761. 19-LUDDERS, J. W. ; McMILLAN, M. Reporting and analysing patient safety incidents. In:___. Errors in veterinary anesthesia. 1. ed. Iowa: John Wiley & Sons, 2017. p. 25-44. ISBN: 978-1119259718. 20-CARAYON, P. ; WOOD, K. E. Patient safety: the role of human factors and systems engineering. Studies in Health Technology and Informatics, v. 153, n. 1, p. 23-46, 2010. doi: 10.3233/978-1-60750-533-4-23. 21-GALLOTTI, R. M. D Eventos adversos - o que são? Revista da Associação Médica Brasileira, v. 50, n. 2, p. 114, 2004. doi: 10.1590/S0104-42302004000200008. 22-BRASIL. ; ANVISA. Sistema de Notificações em Vigilância Sanitária (Notivisa). Disponível em: <http://portal.anvisa.gov. br/notivisa>. Acesso em 27 de junho de 2018. 23-GARROUSTE-ORGEAS, M. ; PHILIPPART, F.­ ; BRUEL, C. ; MAX, A. ; LAU, N. ; MISSET, B. Overview of medical errors and adverse events. Annals of Intensive Care, v. 2, n. 1, p. 2-9, 2012. doi: 10.1186/2110-5820-2-2. Disponível em: <https:// www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3310841/>. Acesso em 30 de julho de 2018. 24-MAINZ, J. Defining and classifying clinical indicators for quality improvement. International Journal for Quality in Health Care, v. 15, n. 6, p. 523-530, 2003. doi: 10.1093/intqhc/mzg081. 25-SANTOS, A. C. R. B. ; CARVALHO, A. A. ; SANTANA, H. T. ; SIQUEIRA, H. N. ; MORELO, L. T. Vigilância e monitoramento dos incidentes relacionados à assistencia à saúde. In: BRASIL.­; ANVISA. Gestão de riscos e investigação de eventos adversos relacionados à assistência à saúde. Brasilia: Anvisa, 2017. p. 11-25. 26-NHS IMPROVEMENT. Revised never events policy and

76

framework. 2018. Disponível em: <https://improvement.nhs.uk/ resources/never-events-policy-and-framework/>. Acesso em 23 de julho de 2018. 27-LEAPE, L. L. Error in medicine. Journal of the American Medical Association, v. 272, n. 23, p. 1851-1857, 1994. doi: 10.1001/jama.1994.03520230061039. Disponivel em: <https:// jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/384554>. Acesso em 23 de junho de 2018. 28-CHRISTENSEN, J. F. ; LEVINSON, W. ; DUNN, P. M. The heart of darkness: the impact of perceived mistakes on physicians. Journal of General Internal Medicine, v. 7 n. 4, p. 424431, 1992. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/ pubmed/1506949>. Acesso em 21 de maio de 2018. 29-REASON, J. Understanding adverse events: human factors. Quality in Health Care, v. 4, n. 2, p. 80-89, 1995. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/ PMC1055294/?page=1>. Acesso em 16 de julho de 2018. 30-LUDDERS, J. W. ; McMILLAN, M. Errors: organizations, individuals, and unsafe acts. In:___. Errors in veterinary anesthesia. 1. ed. Iowa: John Wiley & Sons, 2017. p. 7-24. ISBN: 978-1119259718. 31-VINCENT, C. ; TAYLOR-ADAMS, S. ; STANHOPE, N. Framework for analysing risk and safety in clinical medicine. The British Medical Journal, v. 316, n. 7138, p. 1154-1157, 1998. doi: 10.1136/bmj.316.7138.1154. 32-GAMA, Z. A. S. ; HERNANDÉZ, P. J. S. Introdução. In:___. Inspeção de boas práticas de gestão de riscos em serviços de saúde. Natal: SEDIS-UFRN, 2017. p.13. ISBN: 978-8593839-25-2. Disponível em: <https://repositorio.ufrn.br/jspui/ handle/123456789/25138>. Acesso em 1 de junho de 2018. 33-ROSE, N. ; TOEWS, L. ; PANG, D. S. J. A systematic review of clinical audit in companion animal veterinary medicine. BMC Veterinary Research, v. 12, n. 40, p. 1-12, 2016. doi: 10.1186/ s12917-016-0661-40. Disponivel em: <https://www.ncbi.nlm. nih.gov/pmc/articles/PMC4769507/>. Acesso em 13 de maio de 2018. 34-BERGSTRÖM, A. ; DIMOPOULOU, M. ; ELDH, M. Reduction of surgical complications in dogs and cats by the use of a surgical safety checklist. Veterinary Surgery, v. 45, n. 5, p. 571-576, 2016. doi: 10.1111/vsu.12482. 35-HOFMEISTER, E. H. ; QUANDT, J. ; BRAUN, C. ; SHEPARD, M. Development, implementation and impact of simple patient safety interventions in a university teaching hospital. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, v. 41, n. 3, p. 243-248, 2014. doi: 10.1111/vaa.12124. 36-PANG, D. S. J. ; BLASS, F. R ; PANG, J. M. Morbidity and mortality conferences: a mini review and illustrated application in veterinary medicine. Frontiers in Veterinary Science, v. 5, n. 43, p. 1-6, 2018. doi: 10.3389/fvets.2018.00043. Disponível em: <https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/ fvets.2018.00043/full>. Acesso em 27 de maio de 2018. 37-YU, A. ; FLOTT, K. ; CHAINANI, N. ; FONTANA, G.  ; DARZI, A. Patient safety 2030. London: National Institute for Health Research, 2016. 41 p. Disponível em: <https://www. imperial.ac.uk/media/imperial-college/institute-of-globalhealth-innovation/centre-for-health-policy/Patient-Safety-2030Report-VFinal.pdf>. Acesso em 26 de junho de 2018.

Claudia Binder Servaes

MV, CRMV-SC/3781, dra. Animalis - Qualidade e Segurança na Medicina Veterinária animaliscbs@gmail.com

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Consulte sempre um Médico Veterinário.

A tranquilidade na recuperação do paciente com dor inflamatória.

AGENER UNIÃO: A REFERÊNCIA EM LINHA DOR www.agener.com.br - SAC: 0800 701 1799

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

77


Ética

Processo ético profissional Em 2017, ao término da gestão da diretoria presidida pelo MV Mário Pulga, da qual participei como conselheira efetiva, o Relatório de Atividades do período indicava a finalização de 247 processos éticos instaurados no CRMV-SP a partir de 2012. Desses, 198 se referiam a denúncias protocoladas por tutores de animais de companhia, perfazendo cerca de 80% do total dos processos éticos. Nem todas os processos éticos resultaram na apenação dos denunciados. Aliás, mais da metade, cerca de 54% deles, foram arquivados, isto é, as denúncias protocoladas que resultaram nos processos éticos foram consideradas infundadas ou insuficientemente comprovadas, inocentando-se os denunciados. Na gênese da denúncia pode-se perceber em uma parcela considerável dos casos a dificuldade de comunicação do médico-veterinário com os tutores dos animais – isto é, há uma lacuna na formação humanística do profissional veterinário. Excelentes profissionais, tecnicamente capacitados e experts em diferentes áreas de atuação, caem nessas ciladas, o que lhes causa imensos dissabores

pelo tempo em que o processo ético profissional tramita no órgão de classe, com ampla defesa do denunciado, até o seu encerramento. Finalizando, após cerca de meio século dedicado à formação dos profissionais veterinários, mormente para o exercício da clínica de pequenos animais, não perco a mania de aproveitar todas as oportunidades para deixar um recado a todos os médicos-veterinários: dar atestado de saúde ou qualquer outro documento com datas diversas – principalmente posteriores – daquelas em que o animal está sendo avaliado constitui conduta passível de penalidade, conforme consta no Código de Ética do Médico Veterinário. Fujam dessa arapuca! O texto a seguir, publicado em 2017, continua muito atual, então compartilhamos a reflexão com o intuito de auxiliar os colegas.

“Como conselheira do CRMV-SP, tenho tido a oportunidade de me debruçar sobre as denúncias recebidas de proprietários de animais, órgãos públicos, veterinários e outros profissionais em relação à conduta profissional do médico-veterinário no exercício de sua função. A grande maioria das denúncias recebidas se refere ao atendimento de cães e gatos, principalmente diante do óbito dos pacientes. “De um modo geral, o principal motivo que leva o proprietário a apresentar denúncia ao conselho está na perda do animal após procedimentos médicos ou cirúrgicos. Entretanto, existem denúncias de outras fontes, como, por exemplo, o preenchimento de documentos, atestados de saúde e de

vacinação com datas posteriores ao ato, a ausência de documentação pertinente ao atendimento ou a recusa em fornecer laudos, relatórios médicos ou cópias do prontuário, quando solicitados. Nessas condições, não se trata de imperícia ou imprudência, resvalando na omissão ou na negligência na lide profissional nos tempos modernos, em que os pets se tornaram “membros da família” e adquiriram um status jamais imaginado pouco tempo atrás. “Em 2013, movida pelo interesse em esclarecer se as denúncias e os processos éticos instaurados estariam relacionados a alguma falha no ensino de graduação, analisei as denúncias éticas protocoladas no CRMV-SP em 2012. Se a premissa estivesse correta, os

78

Mitika Kuribayashi Hagiwara CRMV/SP 0521 Profa. titular da FMVZ/USP mitika.hagiwara@gmail.com

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


profissionais mais jovens ou recém-formados estariam representados em maior número. Entretanto, não foi o que ocorreu. Analisandose as noventa e cinco denúncias que se tornaram processos éticos, a faixa etária média dos médicos-veterinários envolvidos na denúncia ética era de 41,5 anos, sendo a idade mínima de 27 anos e a máxima de 61 anos. Isso quer dizer, em média, quinze anos de exercício profissional. Nessa altura da vida profissional, os erros ou deslizes praticados não podem mais ser imputados a uma possível falha no ensino de graduação. O que esses números querem dizer? A questão merece uma análise mais profunda do ponto de vista profissional e de relações interhumanas. E não se trata de diferenças na atuação profissional entre o sexo masculino e o sexo feminino. Ambos os sexos estavam representados equitativamente. As instituições de origem compreenderam as públicas e privadas, num total de 33 cursos, dos quais oito eram de outros estados. Cerca de dois terços das denúncias estavam relacionados a imperícia, imprudência ou negligência, a maioria motivada pelo óbito do animal. “Os acidentes em petshops estavam na origem da denúncia em cerca de 10% dos casos. Muitos foram denunciados por serem os responsáveis técnicos do petshop. Essa é uma outra questão que merece análise e reflexão e uma ampla discussão do papel do responsável técnico, principalmente no momento atual, em que a questão da responsabilidade técnica em petshops está em discussão. O proprietário do petshop responde do ponto de vista cível, mas, em se tratando de danos ao animal, o RT responde do ponto de vista ético! E na maioria das vezes, quando o petshop não é do próprio médico-veterinário e quando o contrato do RT prevê apenas poucas horas semanais, o profissional veterinário não se encontra no local, mas poderá ser objeto de denúncia junto ao CRMV-SP. “Permitir o atendimento aos pets por parte de estudantes de graduação ou ser conivente

com o exercício da medicina veterinária por parte de leigos, concordar com a realização de procedimentos cirúrgicos em locais inadequados, receitar medicamentos por telefone, negar atendimento emergencial, admitir o uso de vacinas com prazo de validade ultrapassado, dar atestados de vacina ou de saúde assinados em branco, caluniar ou difamar colegas e apoderar-se do cadastro de outro profissional, entre outros, são ações passíveis de processos éticos e objetos de sanção ética, conforme previsto no Código de Ética do Médico Veterinário. “Muitos desses processos instaurados em 2012 e nos anos subsequentes já foram julgados, com o arquivamento do processo ou a aplicação de penalidades, mas muitos ainda estão em andamento. O próximo passo será rever os acórdãos desses processos para completar a análise iniciada. O objetivo final é alertar os profissionais médicos-veterinários para se esquivarem o máximo possível do doloroso processo ético profissional, conhecendo e respeitando o código de ética profissional.” Editorial do Boletim Apamvet, vol. 8, n. 2, ano 2017.

https://www.apamvet.com/30-07-2017.pdf

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

79


Ensino

O paradoxo da medicina veterinária

A

medicina veterinária é considerada por muitos uma das profissões mais bonitas e interessantes. A sociedade enxerga o médico-veterinário como aquele que cuida da saúde dos animais e zela pelo seu bem-estar. Ocorre que a medicina veterinária é um curso de formação generalista, que estuda várias espécies, mas que, além disso, abrange também as áreas de saúde pública e produção animal. Na minha experiência de quase vinte anos como professor no curso de graduação de medicina veterinária, observei que a maioria dos alunos anseia por cuidar dos animais, tratar deles e salvá-los. Todavia, os currículos das diferentes universidades cedem espaço para disciplinas obrigatórias relacionadas à criação e ao manejo de animais para a produção de alimentos e outros derivados, conforme as diretrizes do MEC. Essa metodologia não raro causa desconforto e, em alguns casos, o abandono do curso. Mas, em geral, os alunos acabam percebendo a falta de lógica com naturalidade, acostumam-se com isso e são tomados pelo sentimento de que “as coisas são assim mesmo”. Claro que minha opinião está longe de ser unânime, mas estou certo de que é compartilhada por muitos colegas. Trata-se de um assunto polêmico, que em geral causa polaridade nas discussões. É, pois, o objetivo deste texto propor a reflexão e o debate a respeito da identidade e vocação do curso de medicina veterinária perante os novos tempos. Porém, para entendermos o cenário atual, é importante fazer uma revisão histórica da origem da profissão e das mudanças socioculturais ocorridas nas últimas décadas. História da veterinária O fenômeno da domesticação foi tão im80

portante quanto o da agricultura para a civilização humana, que se construiu com o uso dos animais domésticos, seja no transporte, na guarda, na alimentação ou no vestuário. E, na maioria das sociedades, os animais sempre foram valorizados pela sua utilidade para o homem. É consenso que a “arte de curar” animais surgiu pela necessidade de tratar os cavalos quando feridos ou mancos – ou seja, quando não conseguiam cumprir sua função como arma de guerra ou meio de transporte. No Brasil, a origem da veterinária não foi diferente e se deu por necessidades humanas. D. Pedro II, motivado por um surto de mormo nos equinos da guarda imperial, criou a veterinária militar, pois a zoonose estava acometendo os soldados. Tanto que o patrono da veterinária militar é um médico sanitarista. Então, em 1910, foi criada em primeiro lugar a Escola de Veterinária do Exército, e depois a Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária, o que evidencia a origem da profissão ligada à agropecuária e à saúde pública, ou seja, em benefício do ser humano. Na Lei Federal nº 5.517 de 1968, que regulamentou a profissão, observa-se a relevância da profissão na saúde pública e na cadeia produtiva de alimentos de origem animal. Nesse contexto, é evidente que a profissão, na sua origem, tratava os animais conforme sua utilidade, como um meio para atingir um fim, que era o bem-estar humano. Um fenômeno amplo, resultado de um processo histórico ligado à crença no antropocentrismo teleológico, ou seja, de que os animais existem para nos servir, e de que o homem é um ser superior e tem o direito de explorar a natureza. Concluise que a medicina veterinária teve sua origem ligada à saúde e ao bem-estar do ser humano,

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


apesar de o imaginário coletivo pensar o profissional somente como médico e defensor dos animais. Diretrizes pedagógicas Diante desse contexto histórico, não é de surpreender que atualmente o MEC e o CFMV orientem as universidades no sentido de oferecerem uma formação generalista, num esforço para que o médico-veterinário exerça uma série de atividades ligadas à produção de alimentos de origem animal e à saúde pública – o que faz com que a função médica seja ensinada na mesma grade curricular com a lógica zootecnista e da saúde pública. Segundo as diretrizes curriculares (Resolução do CNE/CES nº 1 de 18 de fevereiro de 2003 e Lei nº 5.517/68), o perfil do médico-veterinário baseia-se na tríade “veterinário para a saúde”, “veterinário para o alimento” e “veterinário para o planeta” – um perfil inclusive recomendado pela Associação Mundial de Veterinária (WVA). Todavia, o que se percebe é que a maioria dos cursos tem ênfase nas áreas de clínica e cirurgia, além do fato de a maioria dos formandos preferirem essas áreas de atuação, atendendo a uma demanda atual de mercado.

Renato Silvano Pulz

Ciências rurais ou medicina? Assim, consagrou-se na profissão a dicotomia médico x zootecnista, um paradoxo, pois enquanto uma área visa o tratamento do paciente para lhe salvar a vida pelo seu valor como indivíduo, a outra vê os animais como produto e fonte de lucro, sem individualidade, como rebanho, plantel, como um número. Uma se esforça para salvar a vida e diminuir o sofrimento; a outra, para aumentar a produtividade, as taxas de crescimento e ganho de peso, ou seja, para produzir e reproduzir mais. Na lógica zootecnista, a doença significa perda e menor lucro, tanto que o descarte de animais é uma rotina. Já na medicina, a doença representa a dor, o sofrimento e a morte. A produção, quando trata uma doença, tem por objetivo evitar o prejuízo, valorizando o animal apenas pelo seu valor zootécnico. Nesse cená-

rio, o veterinário tem a função de maximizar o desempenho e reduzir os custos na medida do possível. E, em geral, não há nenhum dilema ético nesse comportamento. Inclusive, esse é o objetivo do conhecimento técnico. Na produção de animais, o manejo, a prevenção e o tratamento de doenças visa somente evitar perdas econômicas, enquanto a nutrição e a genética visam aumentar os ganhos no menor tempo possível. Assim, os animais com doenças crônicas ou inférteis, aqueles considerados improdutivos, perdem a utilidade e são descartados. Analgesia e anestesia representam custos, por isso vários procedimentos são realizados somente com contenção física dos animais, como: castração, descornamento, debicagem, caudectomia, marcação a ferro, retirada do globo ocular. É rara, senão ausente, qualquer consideração moral em relação aos animais explorados na criação animal – o que acredito ir de encontro às expectativas da maioria dos ingressantes em nosso curso de medicina veterinária. Vale lembrar o olhar sanitarista da saúde pública em relação aos animais, que não são vistos como indivíduos e cujo tratamento raramente é uma opção a considerar. Em muitos casos, o sacrifício de animais visa evitar prejuízos econômicos ou ser uma solução

O respeito à vida animal pelo seu valor intrínseco e o compromisso de cuidar de sua saúde e bem-estar refletem uma postura ética e uma consideração moral cada vez mais indispensáveis

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

81


Ensino politicamente prática, mesmo quando comprovadamente ineficaz do ponto de vista sanitário. Com esse modelo de currículo, os cursos acabam por dessensibilizar a maioria dos alunos em relação ao sofrimento e ao valor da vida animal. Peter Singer observou que as pessoas que têm empatia pelos animais, quando fazem o curso, acabam por ter a sensibilidade embotada. Recordo-me da minha graduação, em uma aula prática, quando vários alunos choraram ao testemunhar o abate bovino. Esse ensino ambíguo é uma discrepância absurda na definição da identidade profissional 1.

Renato Silvano Pulz

Uma nova medicina veterinária? No século XX, o surgimento de movimentos como o da ética no tratamento dos animais e o crescente debate sobre os seus direitos refletiu as mudanças da sociedade em relação a esse assunto, além de um novo olhar dos ingressantes no curso de medicina veterinária. E esses fenômenos não podem ser subestimados. A inclusão do termo “medicina” e a passagem das ciências agrárias para a área das ciências da saúde foram sinais dessa mudança. Em 1998, a medicina veterinária já havia sido reconhecida pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS) como profissão da área de saúde, indo ao encontro dos conhecimentos da ciên-

A empatia pelos animais e a ênfase em vê-los como indivíduos e evitar seu sofrimento não podem ficar em segundo plano 82

cia do bem-estar animal. Pois desde a década de 1990, os estudos de etologia cognitiva vêm desconstruindo a lógica cartesiana exacerbadamente materialista que nos legou a crença de que os animais eram meros autômatos, que não sentiam dor e não tinham qualquer tipo de sentimento. A declaração de consciência dos animais contida no “Manifesto de Cambridge”, em 2012, reflete o reconhecimento das capacidades mentais dos animais pelas neurociências. Curioso também lembrar a alteração feita no texto do juramento do médico-veterinário, pois quando o fiz, no ano de 1994, havia menção somente ao “bem-estar humano”. O que só foi mudar em 2002, quando o Código de Ética, resolução do CFMV, incluiu a expressão “bem-estar animal”. Outro fenômeno observado nos cursos a partir dos anos 1980 foi o maior ingresso das mulheres, culminando com uma maioria feminina nos dias de hoje, e muitos dos alunos são voltados para as áreas de medicina e cirurgia. Isso contrasta com o passado, quando a presença masculina e rural era maciça – ou seja, o curso está refletindo uma mudança sociocultural. Acredito que tudo isso seja reflexo de uma fase em que o paradigma do animal como “coisa” começou a ser questionado, provocando mudanças de comportamento e de atitudes em relação aos animais. É, pois, um movimento em curso que não pode ser subestimado. Em vez do modelo generalista, os projetos pedagógicos poderiam ser alterados no sentido de fortalecer a lógica da medicina veterinária curativa de forma que o aluno pudesse escolher a área de atuação sem precisar despender tempo, energia e recursos financeiros em áreas nas quais não tenha interesse. Afinal, a maioria dos alunos que ingressa no curso busca isso. Por outro lado, os alunos que têm interesse nas atividades relacionadas à produção animal poderiam fazer um curso que atendesse às suas expectativas – ou, ao menos, essas disciplinas poderiam ser optativas. Os currículos não são dogmas que nunca possam ser alterados. Com certeza o tema é difícil, daí sua natureza paradoxal.

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

83


Ensino

Renato Silvano Pulz

Considerações finais Ao repensar o curso e a missão do veterinário, podemos concluir que a ciência do bem-estar animal já proporcionou grandes avanços, mas ainda se percebe o atraso na discussão sobre o status moral dos animais, apesar de ser uma das preocupações da sociedade neste século. O sofrimento dos animais deixou de ser preocupação de poucos para ser um grande debate das sociedades atuais, e a medicina veterinária não pode ficar presa ao passado. Afinal, no modelo atual, os alunos têm que des-

pender energia e tempo para estudar disciplinas que não despertam seu interesse e muitas vezes lhes provocam dilemas morais e estresse. Certamente, a pecuária ainda é um forte setor do mercado, mas há evidentes sinais de que este protagonismo não será eterno. As crescentes discussões quanto aos impactos sobre o meio ambiente, a relação do consumo de produtos de origem animal com doenças, a consideração moral a respeito dos animais e a consequente mudança nos hábitos alimentares alterarão esse cenário. Ainda chegará o dia em que os animais não serão considerados “coisas” e a medicina veterinária deverá estar adequada a esses novos tempos. Referências sugeridas

01-ROCHA, C. V. Ética e regulamentação profissional do médico veterinário. Clinica Veterinária, ano XIX, n. 111, p. 98-99, 2014. ISSN: 1413-571x. 02-PAIXÃO, R. L. ; MOLENTO, C. F. M. ; PALHA, M. D. As mulheres são mais sensíveis às questões que se relacionam ao bem-estar animal. Revista CFMV, ano XIX, n. 58, p. 14-18, 2013. ISSN: 1517-6959.

É muito importante buscar uma compatibilização entre o bem-estar e as necessidades dos animais e os dos seres humanos, para chegarmos a currículos do ensino de veterinária mais abrangentes e equilibrados.

84

Renato Silvano Pulz

MV, CRMV-RS 5.385, mestre, dr., prof. Curso de Medicina Veterinária – ULBRA-RS. renatopulz@gmail.com

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

85


Gestão

Empreender é servir Competência é o bom domínio das funções profissionais, e exige também uma série de habilidades intelectuais, emocionais e espirituais. E são estas habilidades que darão uma cor própria, um toque pessoal ao desempenho. Existe, porém, um aspecto que é o mais decisivo para que um empreendedor seja eficaz e obtenha sucesso. Trata-se de escolher muito bem, desde o princípio, a direção, o sentido geral da sua iniciativa como empreendedor. A maioria das pessoas trabalha sem uma visão muito clara e consciente dessa direção geral, limitando-se a seguir em frente e cumprir as tarefas, resolver as situações conforme vão aparecendo, e ter como motivação apenas a estreita faixa de interesses pessoais mais imediatos – ganhar dinheiro, prestígio, sobrepor-se aos outros –, enfim, travar a batalha do dia a dia pela subsistência nos moldes convencionais. Outros profissionais, porém, têm a sorte de ousar e de escolher horizontes mais amplos e positivos. É para eles que o sucesso costuma sorrir. Pode parecer paradoxal, mas o instrumento mais eficaz para o sucesso de um empreendedor é adotar como guia a disposição de servir. Este é o grande segredo: SERVIR. Portanto, ter uma compreensão precisa do que significa servir é a grande chave do sucesso. A equação é relativamente simples e óbvia, mas depende de você escolher bem o tipo de energia que alimentará sua iniciativa. Uma energia e uma orientação muito restritas e presas ao ego perdem O foco em servir coloca a sua competência dentro de um horizonte mais de longe para uma energia e amplo, onde suas habilidades intelectuais, emocionais e espirituais podem se expressar de maneira mais plena, levando à prestação de um serviço de mais uma orientação mais fluentes e amplas, com foco constante qualidade e mais satisfação

alefunky/shutterstock

Empreender, em sua acepção mais genérica, é decidir plantar algo com a expectativa de colher os frutos dessa iniciativa. Todo veterinário é um empreendedor, não só aqueles que têm seu próprio negócio, mas também os que trabalham em alguma entidade. Qualquer que seja o contexto, empreender é ter clareza sobre o que você está plantando com sua competência e sobre os frutos que pretende colher. É a competência que sustenta o impulso do empreendedor e o leva a obter os resultados que espera. As competências variam muito; evoluem a partir da experiência e do conhecimento que acumulamos, mas também dependem muito de nosso talento e sabedoria. A iniciativa do empreendedor é sustentada pela sua competência e por suas motivações, aquele conjunto de fatores formado por nossas necessidades, pela disposição de cumprir bem uma função, pela vontade de alcançar metas ou sonhos de vida. São essas motivações que dão impulso ao empreendedor.

86

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Precisamos falar sobre a

Leishmaniose A Leishmaniose é uma doença potencialmente letal e ainda sem cura. É transmitida pelo mosquito-palha infectado para cães e seres humanos.

96% LEISH-TEC®

de proteção individual.

A vacinação é uma importante ferramenta para a prevenção da Leishmaniose nos cães. A vacina LEISH-TEC®, com tecnologia recombinante, é a única aprovada no Brasil para a prevenção da Leishmaniose Visceral Canina e possui uma proteção individual de 96%.

Combine a proteção da vacina LEISH-TEC® com o repelente tópico VECTRA 3D®, no programa de Proteção Contra a Leishmaniose Visceral Canina - Double Defense e proteja seu cão dessa ameaça.

e

cevabrasil

ceva_brasil

cevapetbrasil


ESB professional/shutterstock

Gestão gerando uma força enorme para viver o hoje e cultivar o amanhã. Esta alegria de viver nos leva também a cultivar sentimentos positivos de gratidão, a perceber a importância do sorriso e da gentileza, o valor de saber fazer elogios, aprender a ter humildade e serenidade, saber perdoar e principalmente fazer tudo com AMOR, pois isso nos coloca em sintonia com a grande energia e força do universo – que também foi criado na Um sentimento geral de gratidão pela vida e a valorização do sorriso e da vibração do AMOR. É esta a gentileza no trato com animais e seres humanos nos levam a fazer tudo alquimia simples que transforcom uma sintonia amorosa e propiciam o sucesso. Riqueza de sentimentos ma tudo numa bola de sucespositivos e riqueza material andam juntas sos e resultados positivos. Portanto, se você é empreem servir ao próximo, à sociedade. Em suma, endedor, lembre-se de que muitas das situem vez de “tirar” do outro, vale muito mais a ações complexas que enfrentamos são mais pena concentrar-se em “dar”. Paradoxalmenbem resolvidas não quando aumentamos a te, quando pensamos sempre em servir, isso intensidade do trabalho ou as horas de dedinos traz de volta muito mais coisas do que cação, mas fazendo justamente o oposto: paquando ficamos restritos a procurar a melhor rando um pouco e observando melhor o que maneira de obter algo dos outros. estamos fazendo, reconhecendo quais são os Num contexto mais geral, portanto, o emsentimentos mais presentes em nós e o tipo preendedor pode ser conceituado como o prode energia que prevalece e comanda nossas fissional que utiliza todo o seu talento espeações. A partir disso, podemos encontrar nocial, seu conhecimento e sabedoria, e todas vos caminhos, em vez de insistir cegamente as suas competências e habilidades intelecnos mesmos. tuais, emocionais e espirituais para servir ao Uma boa síntese disso é expressa por uma próximo, à sociedade, com uma energia cafrase muito sábia, um axioma fundamental racterizada pela disposição de proporcionar que diz: “Quem acumula riqueza de sentifelicidade e alegria. mentos positivos sintonizados no amor, receTodas essas características são relevantes be em troca riquezas materiais”. Junto com para o sucesso do empreendimento. As mais essa regra de ouro virão saúde e harmonia primordiais, porém, são cultivar seu talento na vida. Vale a pena refletir sobre isso com especial e buscar a sabedoria em todas as simuito carinho. tuações do dia a dia, pois é isso que ao longo do tempo confere um diferencial, uma marca única a cada empreendedor. E quando isso Celso Morishita Gestor empresarial espiritualista é inserido e praticado no seu empreendimencelsomorishita@yahoo.com to, naturalmente cria um profundo sentimento de satisfação, alegria, realização e felicidade, 88

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


ourofinopet.com

Top Dog Vermífugo com sabor que os cães adoram. Protege o seu cão das principais verminoses e é indicado para o tratamento da Giardíase.


Lançamentos Vetoquinol lança Marbocyl P, moderno antibiótico para cães e gatos à base de marbofloxacina nário (ITU) associadas ou não a prostatite e/ ou epididimite; infecções do trato respiratório. Marbocyl P pode ser administrado em cães e gatos a partir de 2,5 kg, na dose de 2 mg/kg uma única vez ao dia, sendo possível a utilização em tratamentos prolongados. O produto está disponível em três diferentes apresentações: 5 mg, 20 mg e 80 mg, facilitando a prescrição pelo médico-veterinário de acordo com o peso do paciente avaliado.

Vetoquinol

Divulgação

A Vetoquinol, um dos dez maiores laboratórios veterinários do mundo dedicados à saúde animal, amplia no Brasil a sua linha pet com o lançamento do Marbocyl P, antibiótico para cães e gatos indicado no tratamento de um amplo espectro de infecções. Marbocyl P é uma fluoroquinolona de terceira geração, altamente eficaz e palatável, resultado da expertise da Vetoquinol na pesquisa e no desenvolvimento da marbofloxacina. Marbocyl P é indicado no tratamento de: • gatos – infecções cutâneas e subcutâneas (feridas, abscessos e flegmões); infecções do trato respiratório superior; • cães – infecções da pele e dos tecidos moles (pioderma cutânea, impetigo, foliculite, furunculose, celulite); infecções do trato uri-

www.vetoquinol.com.br

Projeto “Vem pra sala de aula” compartilha informações reais e material técnico-científico O centro diagnóstico Raio-x Vet introduziu uma nova ferramenta de ensino na área de diagnóstico por imagens em medicina veterinária. Trata-se do projeto “Vem pra sala de aula”, criado pelo professor Daniel dos Santos Baptista, para compartilhar informações reais e material técnico-científico de casos de rotina. Com auxílio de um aplicativo, criou-se um ambiente de sala de aula virtual (online), para compartilhar informações sobre a realização de exames, interpretação e diagnóstico. São imagens de alta definição, com a história clínica do paciente e vídeo-aula explicativa do caso. O aluno faz a avaliação das imagens, junta as informações com a história clínica e elabora seu diagnóstico. Em seguida, tem acesso a uma vídeo-aula que explica os achados radiográficos do caso e pode consultar informações sugeridas, para um estudo mais aprofundado. Segundo Daniela Amstalden, aluna do curso, “a sala de aula é virtual, mas a sensação é real! 90

Além dos achados radiográficos, há orientação sobre o melhor posicionamento, descrição dos sintomas clínicos e uma bibliografia.... É perfeito para qualquer radiologista!” Uma amostra do material está disponível na sala de aulas “Rotina Raio-x Vet – Degustação”. O conteúdo adicional é pago. Basta enviar e-mail para cursos@raioxvet.com.br informando nome (como consta no cadastro SISCAD.CFMV), número de inscrição no CRMV e o estado de origem. O aplicativo também permite oferecer consultoria a colegas veterinários ou clínicas, hospitais e laboratórios. O Raio-x Vet, centro diagnóstico que oferece serviços de radiologia, ultrassonografia, ecodopplercardiografia, eletrocardiografia, também oferece cursos presenciais.

Raio-x Vet

www.raioxvet.com.br

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


40

O

Centro de Convenções

Ulysses Guimarães 16 a 18 maio de 2019

Sua participação é a nossa pegada!

CONGRESSO ANUAL BRASÍLIA 2019

VISITE NOSSO SITE E MÍDIAS SOCIAIS!

SUSTENTABILIDADE E AÇÃO SOCIAL.

CONHEÇA NOSSOS MASCOTES.

Apresentaremos todas as

sustentabilidade e ação social, pilares do CBA Brasília 2019. Sua participação é a nossa pegada!

Venha conhecer Cliveco e

atrações e novidades para o CBA BRASÍLIA 2019. Esperamos por você! @ANCLIVEPADF

350,00

490,00

280,00

350,00

estudante profissional profissional  estudante associado não associado associado não associado

cbabrasília19.com.br

Aurora. Nossos mascotes oficiais do CBA Brasília 2019.


Livros Anestesiologia veterinária – farmacologia e técnicas

92

Divulgação

Lançada a sétima edição do livro Anestesiologia veterinária – farmacologia e técnicas, editado pelo professor Flavio Massone. A obra foi revisada e atualizada, e detalha diversos perfis farmacológicos e técnicas anestésicas aplicadas nas diferentes espécies animais (de laboratório, domésticas e selvagens). Aborda também os aspectos éticos e morais nos âmbitos do ensino, da pesquisa e da extensão, e apresenta a nômina anestesiológica vigente e a legislação sobre prescrição medicamentosa. Ao final, apêndices e um atlas colorido complementam o conteúdo, auxiliando a prática da anestesia. Escrita com a colaboração de renomados anestesistas e anestesiologistas, a obra destinase a alunos de graduação e pós-gradução e serve de respaldo para acadêmicos, pesquisadores, docentes e profissionais que atuam em clínica, cirurgia, jardins zoológicos e santuários ecológicos.

Editada pela Guanabara Koogan, a obra pode ser adquirida nas versões impressa (https:// www.grupogen.com.br/anestesiologia-veterinaria-farmacologia-e-tecnicas) e digital (https:// www.grupogen.com.br/e-book-anestesiologiaveterinaria-farmacologia-e-tecnicas-textos-e -atlas)

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


CURADORIA:

CONFIRA ALGUMAS PALESTRAS JÁ CONFIRMADAS: 14h40 - Natália Carolina Bastian Avaliação de paciente politraumatizado

27/04 SÁBADO

PATROCÍNIO:

17h - Tamarini Arlas Fisioterapia e reabilitação animal

28/04 DOMINGO

14h40 - Charles Silva de Lima Nefrologia para gatos: considerações clínicas e comportamentais sobre cistites e Síndrome de Pandora 17h - Ceres Nakasu Catfriendly practice: agregando valor ao atendimento de pacientes

29/04 SEGUNDA

14h40 - Silvana Vidor Manejo clínico e cirúrgico do tumor de mama em gatas 15h50 - Felipe Rosa Cunha Malassezia e foliculites bacterianas: o que precisamos saber na prática

SIMPÓSIO GRATUITO *PROGRAMAÇÃO SUJEITA A ALTERAÇÃO *LUGARES LIMITADOS

Maior encontro de negócios pet da região Sul!

FAÇA SEU CREDENCIAMENTO ONLINE:

EVENTO GRATUITO EXCLUSIVO PARA PROFISSIONAIS DO SETOR | PROIBIDA A ENTRADA DE MENORES DE 16 ANOS


Vet agenda Anestesiologia

Cirurgia

9 de fevereiro a 26 de maio

19 de julho

Curso Latino Americano de Ventilação Mecânica https://goo.gl/N4dxo8

Curso Prático Miscelâneas Cirúrgicas https://goo.gl/Q56WDS

18 de maio a 15 de setembro

São Paulo, SP

São Paulo, SP

Campinas, SP

13 e 14 de setembro Curso Tópicos em Cirurgia de Cabeça e Pescoço https://goo.gl/Tz2gx3

Campinas, SP

III Curso de Anestesia Regional Guiada por Ultrassom e Neuroestimulador https://goo.gl/pXG3XC

Dermatologia

Fisioterapia

22 a 24 de março

São Paulo, SP

XIV Curso Intensivo em Fisioterapia Veterinária https://fisiocarepet.com.br/cursos 5 a 7 de julho

São Paulo, SP

XV Curso Intensivo em Fisioterapia Veterinária https://fisiocarepet.com.br/cursos

Gestão

5 a 7 de julho

São Paulo, SP

20 de março

São Paulo, SP

Simpósio de Sepse http://apav.org.br/simposio-de-sepse/

I Curso de Dermatopatologia para Dermatologistas www.spvetschool.com.br

Diagnóstico por Imagem

Animais silvestres

12 a 19 de março

Abril de 2019 a abril de 2021

Goiânia, GO

Campinas, SP

Curso Básico de Ultrassonografia https://goo.gl/2iZTuh

Pós-graduação – Clínica Médica e Cirúrgica de Aves Silvestres e Exóticas. https://goo.gl/SkTMzd

1° Curso de Radiologia e Anatomia Comparada Animais Selvagens https://goo.gl/Z8TcKd

20 de março

Belo Horizonte, MG

Gestão e Planejamento do Mercado Pet – Segunda Turma https://goo.gl/JiUEPf

Oftalmologia

Curso Avançado de Ultrassonografia https://goo.gl/b7JTiS

27 a 30 de março

25 e 30 de março

Congresso Brasileiro de Oftalmologia Veterinária www.congressocbov.com.br

Manaus, AM

Cardiologia

Curso Intensivo de Ultrassonografia Abdominal e Pélvica em Pequenos Animais (Teórico-Prático) https://goo.gl/87GVXq

13 a 15 de setembro

Goiânia, GO

Atualidades na Cardiologia de Animais de Companhia

https://goo.gl/WK11rJ

28 e 29 de março

Porto Alegre, RS

15 março a 7 junho

Simpósio Internacional de Diagnóstico por Imagem http://www.sindiv.com.br/

Curso de Aperfeiçoamento em Clínica Médica de Cães e Gatos https://goo.gl/Pnjakx

22 e 23 de março, 26 e 27 de abril

Clínica

Jaboticabal, SP

Endocrinologia

São Paulo, SP

IV Curso de Endocrinologia Clínica – Endocrinovet endocrinovet.com.br

27 de março e 10 de abril

Jundiaí, SP

Simpósio de Nefrologia amvejur.org.br

13 e 14 de junho

14 e 15 de junho

São Paulo, SP

São Paulo, SP

I Curso de Nutrição Clínica endocrinovet.com.br

Curso Endocrinologia Veterinária – HOVET https://goo.gl/qbYMeP

13 a 15 de setembro

27 e 28 de setembro, 25 e 26 de outubro

I Encontro de Doenças Infecciosas em Pequenos Animais

III Curso de Nutrologia Aplicada às Endocrinopatias – Endrocrinovet endocrinovet.com.br

94

18º Encontro Regional Sudeste e Centro-Oeste de Gestão em Ribeirão Preto https://goo.gl/NPTJ8B

Goiânia, GO

Jaboticabal, SP

https://goo.gl/gp7TdH

São Paulo, SP

18 a 20 de março

18 a 19 de maio

Jaboticabal, SP

19 de março

São Paulo, SP

Brasília, DF

27 e 28 de abril

Goiânia, GO

Curso de Cirurgias de Rotina em Oftalmologia Veterinária http://www.anclivepago.com.br/go/ 19 e 20 de outubro

Ribeirão Preto, SP

5º Curso Básico de Oftalmologia Veterinária http://curso.oftalmovetrp.com. br/5edicao

5 a 7 de abril

Oncologia

Jaboticabal, SP

V Curso e III Simpósio Internacional de Cirurgia Oncológica e Reconstrutiva em Cães e Gatos https://eventos.funep.org.br/Eventos/ Detalhes#/exibir/3319 24 a 29 de setembro

Jaboticabal, SP

3º Curso de Aperfeiçoamento em Cirurgia Oncológica e Reconstrutiva em Cães e Gatos https://eventos.funep.org.br/Eventos/ Detalhes#/exibir/2203

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


C O N F E R Ê N C I A S

V E T E R I N Á R I A S

Você é nosso convidado! De 2 a 4 de abril 2019

Participe das conferências veterinárias da feira SuperPet. São inúmeras temas atuais e super importantes na sua atuação profissional. Utilize o cupom de desconto: VIPCLINICAVETERINARIA e ganhe 10% de desconto, uma cortesia Clínica Veterinária que apoia o evento C O N F E R Ê N C I A

Inf e c tolog ia - Leish man iose - Lep tosp i r o se

C O N F E R Ê N C I A

DERMATO SCIENCE Dermatologia Veterinária

C O N F E R Ê N C I A

VET BUSINESS

Gestão e marketing para Veterinários

C O N F E R Ê N C I A

PATHOLOGY SCIENCE Patologia Veterinária

N.O.R. SCIENCE N eurologia, Ortopedia e R eabilitação C O N F E R Ê N C I A

CAT SCIENCE Medicina Felina

C O N F E R Ê N C I A

ENDOCRINO SCIENCE Endocrinologia Veterinária

C O N F E R Ê N C I A

OZONE SCIENCE Medicina Veterinária Integrativa

C O N F E R Ê N C I A

NEPHRO SCIENCE Nefrologia e Urologia Veterinária

GARANTA SUA VAGA! WWW.FEIRASUPERPET.COM.BR (19) 3231-8236 / 98360-0629 (WhatsApp) contato@feirasuperpet.com.br Local: Expo Dom Pedro - Campinas - SP Organização

Apoio de mídia:


Vet agenda Neurologia

17 de outubro

São Paulo, SP

23 de fevereiro a 21 de julho

Jaboticabal, SP

IV Curso Teórico-Prático de Neurologia e Neurocirurgia de Cães e Gatos https://goo.gl/g8NnEr

Curso Intensivo Prático de Ortopedia Avançado https://goo.gl/nCtCbL

Semanas acadêmicas

13 e 14 de abril

6, 7, 13 a 18 de abril

Curso Internacional de Neurologia Veterinária https://goo.gl/fAuuNz

XXIX SACAVET

Belo Horizonte, MG

São Paulo, SP

https://sacavet.com.br/

8 a 12 de abril Santa Maria, RS XXIII Semana Acadêmica SAMVET UFSM damvetufsm@gmail.com

Medicina veterinária do coletivo

23 e 24 de maio

João Pessoa, PB

Conferência Internacional de Medicina Veterinária do Coletivo 2019 https://goo.gl/GbgnxR

Medicina felina 16 e 17 de março

São Paulo, SP O Paciente Felino

São Paulo, SP

https://goo.gl/GX2eqo

96

21 a 23 de junho

http://fb.com/semev.aracatuba

2 a 4 de outubro

28 a 30 de março

Rio de Janeiro, RJ Vets In Rio http://inrio.vet.br 2 a 4 de abril

Campinas, SP

São Paulo, SP

Animal Health South America – Evento Internacional da Cadeia de Saúde e Nutrição Animal www.animalhealthsa.com 17 de julho

Ribeirão Preto, SP 5º CBPV | XIX ENAPAVE enapave.com.br 19 a 21 de novembro

Rio de Janeiro, RJ Anclivepa Rio Vet

http://riovet.rio.br/

Feira Super Pet http://feirasuperpet.com.br

Agenda internacional

27 a 29 de abril

Novo Hamburgo, RS

FeiPet https://www.feipet.com.br/home/ 15 e 16 de maio

Campinas, SP

XVIII Congresso Colégio Brasileiro de Nutrição Animal - CBNA Pet 2019 http://www.cbna.com.br/site/Eventos/ Ver/XVIII-CONGRESSO-CBNA-PET 16 a 18 de maio

Brasília, DF

Curso intensivo prático de ortopedia – Básico

São Paulo, SP

Cat Congress https://www.treevet.com/curso/103-catcongress-sp-201

Feiras & Congressos

21 a 23 de março

I Congresso Brasileiro de Ortopedia e Traumatologia de Pequenos Animais https://eventos.funep.org.br/Eventos/ Detalhes#/exibir/3289

Araçatuba, SP

https://www.sevet.com.br/

https://goo.gl/xekVzS

Jaboticabal, SP

São Paulo, SP

IV Semana Acadêmica de Medicina Veterinária UNIFIMES

IV Curso de aprimoramento em ortopedia de cães e gatos Módulo 5 (29 e 30 de junho de 2019): Fixadores esqueléticos externos. Módulo 6 (27 e 28 de julho de 2019): Cirurgias do joelho. Módulo 7 (24 e 25 de agosto de 2019): Cirurgias do quadril: Módulo 8 (21 e 22 de setembro de 2019): Cirurgias ortopédicas corretivas e artrodeses. Módulo 9 (19 e 20 de outubro de 2019): Cirurgias do cotovelo e ombro. Módulo 10 (23 e 24 de novembro de 2019): Complicações e enxertia. Módulo 11 (07 e 08 de dezembro de 2019): Reabilitação, dor e anestesia em pacientes ortopédicos. Módulo 12 (18 e 19 de janeiro de 2020): Fraturas e luxações da coluna vertebral.

14 a 16 de junho de 2019

16 a 19 de maio

III Simpósio Sul Brasileiro de Felinos https://goo.gl/cC3wqD

Jaboticabal, SP

II Congresso Internacional de Medicina Veterinária Integrativa https://goo.gl/QhWSq7

Simposio emergências Unip gepaunip@gmail.com

Mineiros, GO

Fevereiro de 2019 a janeiro de 2020

São Paulo, SP

SEVAM Semana Acadêmica Anhembi Morumbi http://www.sevam.com.br/

São Paulo, SP

9 a 10 de novembro

Ortopedia

23 a 25 de maio

14 de maio

12 a 14 de setembro

Balneário Camboriú, SC

Conferência Internacional de Medicina Veterinária do Coletivo 2019 https://goo.gl/GbgnxR

13 a 17 de maio

XXV Semana de Estudos de Medicina Veterinária ­– SEMEV

https://www.facebook.com/ events/801046946923314/

23 e 24 de maio

João Pessoa, PB

40º Congresso Brasileiro da Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais (Anclivepa) http://anclivepadf.com.br

18 de março

Buenos Aires, Argentina

AOVET Curso – Principios en Manejo de Fracturas en Pequeños Animales aovet.org nicolas.quitian@aovet.org

4 a 6 de abril

Vicente López, Argentina Congreso AAAVRA 2019 aaavra.com.ar

7 a 9 de abril

Lima, Peru

Latin American Veterinary Conference – LAVC 2019 http://tlavc-peru.org/index.php

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019

97


Vet agenda 25 al 27 de abril

12 e 13 de maio

17 a 19 de outubro

III Congreso Anual de la Sociedad de Anestesiología Veterinaria de Chile https://goo.gl/VmPBpA

Jornadas Veterinárias de Editorial Intermédica

Veterinary Cancer Society Annual Conference – 2019

La Serena, Chile

Buenos Aires, Argentina

Télefono: 44109750 | 44163503

congresosavech2019@gmail.com

16 a 18 de maio

Acapulco, Guerrero, México

26 e 27 de abril

Zaragoza, Espanha

XXXVII Congreso Nacional de la AMMVEPE

https://goo.gl/xSm37j

16 a 19 de julho

http://ammvepe.mx/congreso.html

XVII Congreso de Especialidades Veterinarias

Toronto, Canadá

28 de abril

WSA Veterinary Association Congress

Tacna, Peru

Diplomado Internacional de Post Grado en Ecografia Veterinaria en animales menores

http://goo.gl/muyX8t

7 a 9 de agosto

informes@escueladeimagenes.edu.pe 9 e 10 de maio

Murcia, Espanha

I Congreso Nacional de la Profesión Veterinaria

http://www.colvet.es/node/5336

98

Houston, Texas, EUA

https://goo.gl/vP5tvS

16 a 19 de outubro Las Vegas, Nevada, EUA 2019 American College of Veterinary Surgeons – Surgery Summit https://goo.gl/CfU8GV

7 a 9 de novembro Sevilla, Espanha Congreso Nacional Avepa – Southern European Veterinary Conference https://goo.gl/oAiw7i

Pereira, Risaralda, Colombia

Congreso Veterinario de Colombia

2020

http://cvdc.com.co/

26 a 29 de março

3 e 4 de outubro

2020 Annual Conference of the Veterinary Cancer Society (VCS) http://vetcancersociety.org vetcancersociety@yahoo.com

Buenos Aires, Argentina

XX Congreso Nacional AVEACA facebook.com/AveacaArg

Tóquio, Japão

Clínica Veterinária, Ano XXIV, n. 139, março/abril, 2019


Profile for Revista Clínica Veterinária

Clinica Veterinária n. 139, mar / abr, 2019  

Oncologia; Diagnóstico por imagem, Brumadinho, Caça, Ética, Paradoxo, Empreendedorismo etc. Estas são algumas das matérias que você confere...

Clinica Veterinária n. 139, mar / abr, 2019  

Oncologia; Diagnóstico por imagem, Brumadinho, Caça, Ética, Paradoxo, Empreendedorismo etc. Estas são algumas das matérias que você confere...