Desejo de Estrangeiro

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desejo de estrangeiro Cinthya Marques


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) M357d Marques, Cinthya. Desejo de estrangeiro / Cinthya Marques. - Belém : Raio Verde, 2016. [44] p. : il. Projeto contemplado no Prêmio Experimentação, Pesquisa e Difusão Artística da Fundação Cultural do Pará, em 2016. ISBN 978-85-67711-02-7 1. Marques, Cinthya, 1987- . 2. Fotografia - Brasil. 3. Arte e Fotografia. I. Fundação Cultural do Pará. II. Título. CDD: 770.981


ao desejo de estrangeiro

Assim, em um outro reflexo, eu me sinto uma estrangeira Susan Sontag



















O

dia acordou úmido, um orvalho desponta na claridade do quarto, tudo parece se preencher dentro de um imenso sonho nascendo pelas frestas da janela. Desperto ao caminhar pelas ruas. Tudo me enxerga como se

fosse eu, a beira de outro lugar. Apenas transito e a sombra me segue pelos rastros de luz. Atravesso alamedas, ruelas, esquinas e gentes. Um passo adiante me escapa e perco o rumo. Pareço sitiar um espaço longínquo, o que me é próximo é sempre do outro lado - a mesma margem que contorna as asas dos pássaros e habita entre os ramos das árvores. Esse lugar vem me visitar todo o dia, abre uma fenda entre o desejo e o sonho e sustenta na fronteira do olhar, o estrangeiro existir. Um reflexo pende dos arranha-céus, uma nódoa do tempo se faz na matéria aérea, paira sobre minha cabeça e me retém o corpo inteiro. Vislumbro o que corre entre as quinas e as vidraças das janelas: vultos, vertigens e segredos. Fixa no concreto, oscilo entre rizomas, rotas, flores e destinos; o caminho é turvo, mas a cada passagem encontro um abrigo, a cada olhar, um habitar. Interponho-me entre o impalpável e o mundo. A poesia não pertence a nenhum lugar. Recordo-me de Cecília e de seu cântico: Não tem mais lar o que mora em tudo. Vejo-me novamente estrangeira, uma floresta imersa no centro da pedra.

Mayara La-Rocque



















A

o se referir sobre a série Desejo de Estrangeiro, Cinthya Marques declara que pretende “discutir os processos de criação das poéticas existentes entre o ser estrangeiro e o estar andarilho”. Busca “uma possível estética

da existência”. O termo com o qual finaliza o seu depoimento remete a Michel Foucault que em seu livro História da Sexualidade III – O Cuidado de Si, trabalha justamente com o conceito de estética da existência, o qual acredita estar relacionado com uma espécie de critério de estilo da própria vida, portadora de valores estéticos. É através de técnicas de um cuidado de si que se determina tanto as regras de conduta como um transformar-se. Trata-se de uma luta constante que permite ao indivíduo se posicionar diante da vida. Com a estética da existência, um caminho singular se abre, nele o indivíduo passa por mudanças e a estética e ética se coadunam. Na série Desejo de Estrangeiro, criada por Cinthya Marques, ela percebe não só as suas próprias mudanças, mas as transformações do mundo que lhe cerca. Perpassa pela vida urbana, pelo transitório, pela solidão de si e do outro percebido no exercício de conhecer a si mesma, sem perder de vista o anônimo que se locomove na rua ou se abriga por trás da janela. São privacidades reveladas, veladas pela distância, pelo olhar voyeur não invasor que apenas reescreve a cena e permite a narrativa imaginária que tanto pode existir em quem atua no ambiente, selecionando cenários e personagens, como pode estar presente em quem se depara com a imagem e dela retira as suas próprias histórias. Há um dentro e fora que permanecem em diálogo, frestas de luz, tempos superpostos, velocidades que esmaecem contornos pra dar lugar às paisagens e aos prédios diluídos na velocidade (ou lentidão) da caminhada, do recurso acionado no dispositivo mecânico, digital, do aparelho. Ser estrangeira e ser andarilha é deslocar-se e deter-se no desejo que emerge do tecido dos corpos: humano e urbano.

Marisa Mokarzel


Colaboradoras convidadas: Marisa Mokarzel Curadora. Professora, pesquisadora do curso de Artes Visuais e Tecnologia da Imagem e do mestrado e doutorado em Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da Amazônia - UNAMA. Autora do livro Navegante da luz: Miguel Chikaoka e o navegar de uma de uma produção experimental. Mayara La-Rocque Paraense, escritora e educadora. Produziu o livro de artista Atravessa a tua viagem, colaborou com a revista literária KamikASES, participou da Antologia Literária do III Prêmio PROEX de Literatura da Universidade Federal do Pará e, em 2014, ganhou a 4ª edição do mesmo prêmio, na categoria contos.


Cinthya Marques Nasceu no Amapá e começou a fotografar aos 15 anos. Sua primeira câmera é utilizada até hoje. É artista visual e mestre em artes, educadora e fotógrafa. Tem interesse não somente em fotografar, mas em pensar a fotografia e seus discursos narrativos. Como diários de bordo, sua produção é voltada a buscar uma possível estética da existência. Seus projetos discutem as noções de pertencimento, relacionados ao ser andarilho e estar estrangeiro. Desenvolve pesquisa sobre as relações entre corpo e autorrepresentação, habilitando essa fotografia enquanto exercício de produção ao acaso. Participou do projeto Mulheres Líquidas (2012) realizado na galeria Theodoro Braga; foi convidada a participar da mostra Pequenas cartografias e duas performances (2014) do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia; participou da exposição Sobre Territórios e Escritas Contemporâneas (2014) realizada na galeria Fidanza (MAS-SECULT); artista selecionada para participar do projeto Confluências do SESC (2015) e recentemente participou da exposição Alfabeto de Ficções (2016) do Núcleo de Pesquisa e Documentação da Associação Fotoativa dentro do projeto “A palavra é o Limite”.


Fotografias de Cinthya Marques Edição | Cinthya Marques com colaboração de Camila Fialho e Marisa Mokarzel Textos | Marisa Mokarzel e Mayara La-Rocque Revisão | Camila Fialho e Regina Vitoria Fonseca Projeto Gráfico | Vilson Vicente Ficha catalográfica | Regina Vitoria Fonseca Assessoria de Comunicação | Bianca Levy Editora | Raio Verde Produções Artísticas LTDA Impressão | Gráfica Supercores

Copyrigth ©2016 Cinthya Marques

Agradecimentos Em especial pelas contribuições e auxílios meus sinceros agradecimentos à Alberto Bittar, Andrea Feijó, Bianca Levy, Camila Fialho, Clarice Carvalho, Erinaldo Cirino, Flávia Bassalo, Guy Veloso, Irene Almeida, José Viana, Keyla Sobral, Lana Machado, Lohana Schalken, Marcone Matos, Marisa Morkazel, Michel Pinho, Miguel Chikaoka, Mayara La-Rocque, Orlando Maneschy, Regina Fonseca, Rodrigo José, Ruli Moretti e Vilson Vicente. Esta publicação é dedicada aos meus pais Soliane Marques e Carlos Souza.


Realização: Projeto Selecionado no Prêmio de Experimentação, Pesquisa e Difusão Artística da Fundação Cultural do Estado do Pará - 2016


Esta publicação foi impressa pela gráfica Supercores em papel couchê fosco 150g/m² em dezembro de 2016. Tiragem: 350 unidades.




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